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RESENHA QUE PAIS E ESSE? PENSANDO O BRASIL CONTEMPORANEO’ Maria Licia de Amorim Soares? diretamente com os rumos de nossa reaidade geogréfica, eoondmica, sociale politica, s80 respondidas por especialistas, sob 0 comando do geégrafo gaicho Edu Sivestre de Albuquer- ‘que em “Que Pais 6 Esse?” Carlos Lessa ao fazer o preficio do livo informa que uma colego de ensaios é sempre uma viagem intelectual, eno presente caso com um denominador comum, uma viséo oxigenada da geografa 48 Albuquerque lamenta a longa permanéncia do monopdiio do saber sobre o Brasil pelas demais Ciéncias sociais, inclusive eoonémioas. “Por chegarem primeiro, anogaram-se odireto daexcusividade na interpretago do Brasil (p. 21). Para o organizador, os estudiosos comegam a peroeber que a ‘compreenséo da realidade brasileira no pode ficarrestrta aos aspectos de mercado, mas exige @ colaboragdo de todas asreas do saber, no caso em andiise apart de uma visfogeogrfica ou espacial D: questies, grandes questies para o presente e o futuro do pais, todas tendo a ver (© eixo comum das dez questies & pensar o Brasi a pati de uma leitura de seu teritério, oque ‘em outras palavras significa no 36 refltr sobre o crescimento, a expans&o industrial, ofortalecimento do sistema bancario, a excluséio social, mas pensar como repercutem sobre a face conoreta do pais, Umdostemas da antologia, em artigo assinado por Leila Christina Dias &0 estudo da expanso do sistema bancério no pais, apoiado nos mercados finanositos globais, mas sempre contendo uma + ALBUQUERQUE, Edu Silvestre co (Org.). Que pais 6 esse?: pensando © Brasil contemporiineo. Séo Paul: Globo, 2006, 2 Professra do Programa de Mestrado om Educagio da Universidade de Sorocabe. E-mait: rmaria.soares@uniso.br ‘GUAESTIO“ Revista de Entudos de Eaucayéo,Sorocaba SP, vol 8,m py 14GAG8, malo 40 ‘QUE Pals € ESSE? PENSANDO O BRASIL CONTEMPORANEO cdimensdo teritoral, vista sob o Snguio da construgdo das escalas geogréficas histérica e hierarquica- mente construidas como parte dos cenérios social, econdmico e politico do capitalsmo conternporaneo. E natensao do encontro entre as normas ¢ formas que emanam de uma ord em global e aquelasinternas: ‘a cada Estado-nago que se organizam os sistemas financeios e bancério, dando com um mercado em posigo dominante, seja coma infiagdo, seja com estabilizagdo. No inicio do séoulo XX, integrando cada vez mais pontos do tertério,o sistema banoério atnge camadas mais amplas da populaggo reatualzando formas de controle do fixo de capitals, como iustra 0 exemplo do Banco Postal a utilizagso dos Correios e Telégrafos pelo Bradesco -0 maior banco privado do Pats — que reduz custos ‘operacionais € leva para o sistema financeiro banoério um volume consideravel de recursos que tém origem em pequenos saliios, penstes e aposentadoras recebids pelas populagdes de baixa rend ‘Ao estudara descentralizago do parque industrial braslero, Luiz Lopes Diniz Fiho mostra que la ndo8 sb uma estratégia eoondmica, mas atende a reivindicagées regionais. AsregiGes que dispBem de fatores de produgao mais sofisticados atraem as indstias mais intensivas em capital e tecnologia, ligadas aos produtos de maior valor agregado, enquantoas regides que apresentam flores de produgSo bianalizados recebemas indistiias mais intensivas em mo-de-obra e recursos natura. As do primero tipo esto intrinsecamenteligadas aos espagos de maior utbanizagao e industriaizagSo, nos quais 6 possivel encontrar servigos de apoio & produgdo sofsticados, mao-de-obra qualificada, infa-estutura de pesquisa cientifica e tecnoligica e também maiores oportunidades de encadeamento com clientes « fomecedores. 40s fatores de produgdo menos sofisticados associam-se a reas pouco powwadas, rurais ou localidades urbanas caracterizadas por menor nivel de desenvoWimento econdmico e social, nos quais h4 abundéncia de maode-obra barata e desqualticada, recursos naturais ainda no cexplorados, sem infta-estruturas bésicas como transporte e energia, elounas quais oEstado nao esteja ~aplicando consideréveis volumes de incentvos fais e outra formas desubsidio& produggo. Responder 2 pergunta: “Para onde irdo as indistias? Diz autor, exige, entretanto, uma pesquisa de maior cenvergadura do que a realizada até o presente momento para a fetura do text. ‘Outro tema da antologia, em ensaio de Marcelo Lopes de Souza, & a fobia as grandes cidades, que se tornam cada vez mais desumanas, mais violentas e mais invaridveis. O autor fala de uma fobdpole, ao sublinar um impulsoem busca de paz e tranaiiidade que vaialterando a dinémica urbana brasileira. Em decorréncia do medo, ou por modismo, diz ainda o autor, surgram “Alphaviles” em S80 Paulo, Belo Horizonte, Barra da Tjuca no Rio de Janeiro, S50 José dos Pinhais eLondrina no Parand, Na ambientago posmoderna dos centtos comerciais existentes nas grandes e médias cdades pretende-se controlar ocirna e ailuminagéo, com isso reforgando a propensdo ao consumo, ao mesmo tempo que 0 medo - ingrediente de sucesso na origem dos espagos oom seguranga, aimenta administragées prvadas poderosas. Cindida pela abissaldiferenga de qualidade de vida entre rcos e pobres, a cidade brasilira 6, no entanto, profundamente interdependente: os condominios funcionas, ‘com base nos servigos baratos dos pobres @ a economia da droga, cujo mercado no asfaltosustenta 0 padrdo de ‘concorréncia’ selvagem das organizagdes de varejo (Comando Vermelho, Terceiro Coman- do, Amigos dos Amigos etc), garante fic recutamento de ovens paraa luta armada dessa sangrenta ccompetiggo ou seja de criangas para otéfico. Maria Laura Silvera enfrenta a questo ‘Por que ha tantas desigualiades socials no Brasil?" para respondé-la chamando atengao para 0 fato de que o trabalho considerado modemo muda sua natureza e sua localizagéo, fazendo oom que as feigGes e extensSes da modemidade e da pobreza variem no tempo. Incapazes de acompanhar o passo do proceso de modemizagSo material e organizacional, certas pessoas e regides so excluidas das benesses da modernizagSo, sem todavia deixarem de ser resultado dela. Haveria, assim, regides luminosas e regibes opacas do ponto de vista da produtividade e da competitvidade, Fausto Brito e José Alberto de Carvalho desfazem de maneira impida a mitologia sobre a