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Influências da Revolução Francesa na Bahia

(1789-1799)
Waldisio Almeida de Araujo
Prólogo

Este texto foi concebido como comunicação a ser apresentada no Colloque Étudiant Revolution
Française, ocorrido em Paris no ano de 1990. Por motivos diversos e alheios a nossa vontade,
acabamos por não enviá-lo – ficando ele, desde então, engavetado e somente agora submetido a
publicação.

Buscamos apresentar um formato alternativo à historiografia até então em voga no Estado da


Bahia – ainda dominada pelos paradigmas “acontecimentais” pré-Annalles; por outro lado, nos
nutrimos abundantemente das novas abordagens introduzidas, sobretudo, por Kátia Mattoso,
admirável historiadora que tanto fecundou os áridos campos historiográficos aqui então em voga.

Agradecemos àqueles que tornaram possível, na época, o projeto, pesquisa, elaboração, digitação
e apoio logístico necessários. Agradecimentos especiais ao professor Jorge Nóvoa, do
departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal da Bahia (UFBa), que nos deu todo apoio e incentivo. E a Jacqueline Lima e Waldomiro
Araújo, que garantiram, respectivamente, sustentação técnica e financeira ao trabalho.

Senhor do Bonfim, Bahia, abril de 2016.

Waldísio Almeida de Araújo


waldisius2@gmail.com
www.waldisio.com
Salvador, cidade-porto cosmopolita

Na segunda metade do século XVIII, o império colonial e comercial português ainda


representava um ativo e importante canal de introdução, na Europa, de riquezas oriundas de
diversas partes da África, Ásia e América. Dessa poderosa máquina de drenagem, a cidade-porto
de Salvador constituía uma das peças mais fundamentais, o que se deve, em grande medida, à
sua posição privilegiada em relação ao conjunto do mundo português e em relação ao próprio
coração desse mundo, as terras do Brasil.

Situada na entrada de uma enorme baía, numa situação praticamente eqüidistante dos limites
norte e sul das costas brasileiras, mais próxima da metrópole que a maioria dos portos coloniais e
beneficiada pelo sistema de relevo submarino, correntes marítimas e massas de ar do Atlântico
sul, Salvador era, ao mesmo tempo, um ponto de escala quase obrigatório nas rotas que
interligavam a Europa e o Oriente, um dos principais centros de convergência dos múltiplos
intercâmbios entre a África e a América e, sobretudo, uma cabeça-de-ponte do domínio
português no Brasil.

Fortificações, tropas militares e administradores mantiveram esse ponto estratégico sob controle
do Estado português e, por conseguinte, orientado para os interesses de sua política mercantilista,
cuja lógica consistia, em última análise, na venda lucrativa, nos mercados europeus, dos produtos
vindos das colônias (assegurando, ao menos teoricamente, o acúmulo de metais na
metrópole).Tratava-se, pois, de fazer com que o mundo colonial fornecesse, com o mínimo de
custos possível, seus produtos ao comércio português, numa apropriação de riquezas que
assumiu diversas formas, de acordo com as características próprias de cada uma das zonas que
compunham o império colonial.

Uma dessas formas de apropriação nos parece mais apta a ilustrar tanto o caráter da política
mercantil portuguesa quanto o papel da cidade-porto de Salvador em relação a esta política.
Referimo-nos à apropriação, pelo mercantilismo português, do açúcar produzido na Bahia: o
império lusitano trocava, em África, manufaturas baratas por escravos e estes, na Bahia, pelo
açúcar. Dessa forma, a produção baiana entrava no reino português sem que este visse
diminuídas suas reservas metálicas. Acresce que semelhante política fracassaria se os produtores
baianos pudessem vender livremente o seu açúcar, motivo pelo qual a metrópole destinou o
monopólio da realização da mercadoria aos seus próprios comerciantes, ao tempo em que estes
efetuavam o tráfico de escravos.

Claro que esse esquema, além de muito generalizador, deve ser relacionado ao próprio caráter da
produção baiana: se esta não tivesse sido fundamentalmente escravista, a apropriação de seus
resultados pelo mercantilismo português não teria assumido a forma que verdadeiramente
assumiu, ou seja, de uma troca de açúcar por moeda de carne e osso. Com efeito, a adoção de
uma mão-de-obra livre não tornaria rentável a empresa açucareira, já que esta teria de pagar
salários suficientemente elevados a ponto de convencer os colonos a não irem desbravar as
abundantes terras virgens do interior do Brasil, tirando delas o seu sustento. Por outro lado, as
deficiências demográficas da população escrava (baixa natalidade, alta mortalidade, expectativa
de vida curta) tornavam necessária a importação ininterrupta de negros africanos. Assim, a
produção do açúcar baiano necessitava do trabalho escravo ao tempo em que esse mesmo
escravismo era utilizado, pela política mercantil, para a apropriação da produção baiana.

O destino final do açúcar era o mercado europeu, onde era trocado por moeda metálica
realizando-se, dessa forma, os objetivos da economia portuguesa. Aliás, essa orientação para o
mercado internacional constituía-se na razão de ser da própria produção baiana, levada a cabo
em grandes propriedades agrárias demasiado especializadas em um só gênero exportável, o que
tornava suas atividades bastante vulneráveis às flutuações da economia mundial: dependia-se das
oscilações dos mercados de demanda tanto quanto da situação das outras zonas produtoras, rivais
na oferta. Em suma, dependia-se dos acontecimentos e conjunturas capazes de alterar
profundamente o mundo em redor.

Escravismo, orientação para os mercados europeus e conseqüente dependência frente ao mundo


foram fatores comuns tanto à política mercantil lusitana quanto à produção local baiana. A
diferença residia, entretanto, no fato de esta última ter sido submetida aos interesses econômicos
da primeira mediante mecanismos de apropriação tais como o que acabamos de expor. Ora, esta
apropriação não se dava no vácuo, nem em Portugal, nem nas propriedades rurais, tampouco em
alto-mar, mas em Salvador, lugar para onde eram encaminhados os escravos africanos, a
produção baiana e os navios portugueses. Lugar da apropriação: eis a função da cidade-porto.
Quase nada produzindo, Salvador vivia da interligação entre a produção baiana e o
mercantilismo luso sendo, portanto, sensível, como ambos, ao que ocorria no resto do mundo.
Essa relação com o mundo é justamente o que nos interessa aqui. Tudo o que foi dito até agora,
toda essa generalização abusiva, quase estéril, toda essa carência de matizes — ou melhor, de
história — visa meramente atender a um pressuposto lógico: um mínimo de contato com o
mundo é condição necessária (ainda que não suficiente) para encontrarmos influências da
revolução Francesa na Bahia. Mais ainda: a própria Revolução contribuiu para estreitar ainda
mais esse contato, embora a tendência geral da segunda metade do século XVIII tenha sido a de
manter-se nessa direção.
Impacto econômico da Revolução

Com efeito, a partir de meados do século XVIII a produção agrícola brasileira passou a recuperar
sua posição no conjunto da economia da colônia, ao passo que a produção aurífera perdia cada
vez mais sua primazia. A princípio, os historiadores aferraram-se então à hipótese de que o
declínio das minas seria a causa determinante de um renascimento agrário; atualmente, contudo,
acentua-se a importância de novos desenvolvimentos que teriam atuado no sentido de favorecer
os produtos agrícolas do mundo colonial: o incremento da indústria inglesa, por exemplo, gerou
novas demandas de matérias-primas e novos mercados, sobretudo urbanos; ora, a guerra de
independência dos Estados Unidos causou a eliminação de grande parte dos fornecimentos de
matérias-primas aos ingleses, os quais tiveram que procurá-las alhures; por sua vez, o reino
lusitano, cada vez mais submisso aos interesses da economia britânica e em posição de
neutralidade frente às guerras, passou a dinamizar crescentemente as relações que mantinha com
as diversas partes do seu império colonial.

No que diz respeito à Bahia, esses desenvolvimentos representavam um estímulo à produção do


açúcar, beneficiada ainda pela facilidade com que os engenhos mais antigos podiam ser
retomados. Apesar disso, o volume da produção aumentava de forma relativamente lenta, o que
se explica pelo fato de que grande parte da demanda européia estava sendo suprida pelo
comércio francês, e o açúcar produzido nas colônias francesas das Antilhas se impunha.

Ora, contribuindo para a supressão desses dois obstáculos — a concorrência comercial e a


concorrência produtora — a Revolução Francesa veio influir num processo que, embora já
iniciado anteriormente, seria em seguida enormemente ampliado e consolidado. Ao tempo em
que concorreram para a elevação dos preços dos produtos agrícolas, as guerras da Revolução e
do Império reduziram cada vez mais o contato do comércio francês com suas colônias. Enquanto
isso, a produção antilhana, sufocada pelos ataques ingleses, pelas lutas de libertação e pelas
revoltas de escravos, desorganizava-se.

A Revolução ateara fogo aos canaviais antilhanos, livrando a Bahia de seus principais rivais na
produção, que teria uma fase de conjuntura favorável entre 1787 e 1821. Continuando a
apropriar-se desta produção, o comércio português no Atlântico desfrutava de um novo período
de crescimento, com o conseqüente aumento da importância de Salvador que — lugar da
apropriação e ponto estratégico, como vimos — cumpria zelosamente suas funções.

Com efeito, a cidade retomava sua posição de porto mais movimentado do império colonial
português, o que equivale dizer que ampliou, graças à Revolução Francesa, sua relações com o
resto do mundo. Mais ainda que em épocas anteriores, aos navios e frotas portugueses
acrescentaram-se os de outras nações — sobretudo os da Inglaterra, que, aproveitando-se da
conivência portuguesa, utilizaram Salvador como ponto de apoio no comércio com as colônias
espanholas e com o próprio Brasil. Além dos ingleses, ancoravam embarcações espanholas,
norte-americanas, dinamarquesas, genovesas e mesmo francesas; em suma, provenientes de
nações tanto revolucionárias quanto contra-revolucionárias ou neutras.
A nova abertura para o mundo

Os motivos dessas aportagens eram variados — comércio, contrabando, abastecimento, abrigo,


reparos etc. — assim como eram múltiplas as relações entre as tripulações e a população da
cidade. E apesar dos esforços das autoridades portuguesas no sentido de limitar tais relações, elas
contribuíram para fazer de Salvador uma espécie de cosmópolis. A simples presença, no porto,
de embarcações de longo curso revelava a existência de outros mundos — talvez melhores —
para além do horizonte marítimo abarcado pela visão. Mas, e sobretudo, a diversidade de origem
dos navios mostrava o quanto aqueles mundos tinham de heterogêneo e, portanto, de
interessante. Daí a importância que assumiam, aos olhos dos habitantes da cidade, os elementos e
informações relacionados com o resto do mundo, os quais constituíam, por assim dizer, um item
importante no "inventário das diferenças" baiano. Essa valorização do mundo exterior dá-nos a
dimensão do "cosmopolitismo" na Bahia de então: não um cosmopolitismo à inglesa, ou seja, um
estar em todas as partes, mas um cosmopolitismo da receptividade.

Se o contato com o mundo representava uma possível porta de entrada das influências da
Revolução Francesa, a receptividade baiana frente a esse mundo nos indica que a porta
encontrava-se ao menos entreaberta. Vejamos, então, que influências entraram por ela, quem as
introduziu e que obstáculos tentaram barrar-lhes a passagem.

Diferentemente de outros povos (como o holandês, por exemplo), os habitantes de Salvador


encontravam-se excessivamente distantes — e não só geograficamente — do cenário principal da
Revolução. Contudo, isso não os impedia de tomarem conhecimento acerca do que se passava;
pelo contrário, a força da Revolução exigia, por assim dizer, que o mundo fosse todo ouvidos.
No mais, os baianos não estavam acostumados a proclamações de igualdade ou a
guilhotinamentos de reis, de modo que o vir a saber que coisas semelhantes aconteciam em
algum lugar despertava-lhes o interesse e dava-lhes o que pensar.

Isso constitui, para nós, a principal influência da Revolução Francesa na Bahia e a razão de ser
de cada uma das partes do presente artigo: ao dinamizar as relações entre a Bahia e o mundo, a
Revolução multiplicava as possibilidades de se vir a saber que determinadas práticas ocorriam e
revelava, assim, a potência dos povos frente à ação bem como a distância entre esta ação e as
características do povo baiano. Antes, porém, de tratarmos dos efeitos, na sociedade de Salvador,
desse vir a saber, veremos que formas ele assumiu.
Formas de difusão dos acontecimentos

A movimentação dos navios não se limitava a um levantar e baixar de âncoras ou a um carregar e


descarregar de mercadorias. Mais que isso, esses navios vinham repletos de homens que traziam,
na boca ou nas mãos, noticias e opiniões acerca do que ia pelo mundo, e que entravam em
contato, direta ou indiretamente. com ouvidos e mãos abertos a essas informações. Revolução e
contra-revolução acompanhavam, assim, os relatos e impressões orais, as cartas, os jornais, os
livros, os documentos legais ou mesmo os panfletos, de acordo com os interesses dos que faziam
chegar essas notícias. Afinal, desde sempre, ao selecionar as informações ou acrescentar-lhes
juízos de valor, os agentes da comunicação acabam por imprimir-lhes sua marca.

Claro que, dentre todos os agentes, os franceses seriam os mais suspeitos tanto para nós quanto
para as autoridades coloniais. Ora, nada nos impede de pensar que participantes de grupos de
divulgação foragidos da época do Terror, espiões e outros tipos semelhantes viessem a dar no
porto de Salvador. No entanto, nos parece que a maior parte das informações vinha nos próprios
navios portugueses: além dos contatos entre as tripulações e a população, deve-se levar em conta
que os administradores, comerciantes, religiosos e militares metropolitanos tinham parentes,
amigos, superiores, subordinados, representantes, sócios e correspondentes na Europa, o que
estabelecia um fluxo de cartas, encomendas, presentes, ordens, recados, propostas etc. — vale
dizer: um fluxo de informações.

As dificuldades não eram desprezíveis. Numa época em que as embarcações levavam cerca de
um mês e meio para atravessar o Atlântico, as notícias tornavam-se velhas antes mesmo de
alcançarem o destinatário. No caso das noticias não escritas. dispunha-se de um mês e meio para
esquecê-las ou para distorcer-lhes o sentido: além disso, a censura e a vigilância de um Estado
nitidamente contra-revolucionário impunha-se tanto na partida da Europa quanto na chegada ao
Brasil.

No entanto, as noticias chegavam e o Estado, por mais poderoso que pudesse ter sido, não
lograria impedi-Ias de entrar, e isso por diversas razões: em primeiro lugar, porque as próprias
funções da cidade-porto e a presença de dominadores portugueses demandavam, por si mesmas,
uma multidão de contatos; também porque não se dispunha de meios materiais suficientes para
uma vigilância impiedosa dos navios, apesar de a situação da cidade, a cavaleiro do porto,
permitir um certo panoptismo; em seguida. porque a frase típica dos funcionários públicos
sempre foi o famoso "apenas cumpro ordens", o que também pode ser traduzido por "faça o que
quiser, desde que eu não perca o meu cargo"; finalmente, porque o discurso contra-
revolucionário era encorajado e, ainda que eivado de distorções, informava.

Em resumo, foi a condição de porto o que possibilitou a entrada de múltiplas formas de se vir a
saber da Revolução — formas que iam dos relatos orais aos livros. Esse vir a saber, despejado no
porto, logo difundia-se pela cidade graças à extensa cadeia de comunicações que a cobria. A
troca de informações era assegurada por uma vida social suficientemente intensa para compensar
a ausência de imprensa e a quase ausência de ensino, embora o caráter essencialmente oral da
comunicação na cidade implicasse em distorções, acréscimos fantasiosos, omissões, associações
dispares de idéias e outros efeitos não menos graves.
A diluição das informações e a repressão

No final, a Revolução Francesa acabava por ser diluída na vida de Salvador, ambas formando
não uma mistura, mas uma solução, como o diriam os químicos de hoje. Isso não impediu,
contudo, que os historiadores mais dualistas i julgassem entrever umas gotas de óleo flutuando na
superfície (afinal, a comunicação na cidade não era totalmente oral e a própria oralidade estava
longe de ser deficiente): acentuaram a continuidade entre a Revolução e os elementos conhecidos
como "ilustrados" — aqueles indivíduos ávidos de saber, leitores assíduos das últimas novidades
culturais e políticas e extremamente dados a discursos e saraus; ora, gente semelhante estava
espalhada por todas as partes do mundo, e a pertença a uma tal "república mundial de sábios"
parecia conferir-lhe um singular prestígio, o qual aumentaria à medida em que a Revolução
parecia marchar com eles no sentido da história.

Indivíduos como esses existiam também na Bahia no entanto, eram raros e estavam como que
ocultos pelo próprio nevoeiro de prestigio que ajudaram a formar. Com efeito, a busca de
prestígio era, na Bahia, quase que urna obsessão, e outros indivíduos, principalmente os mais
abastados, não deixariam de querer compartilhar daquela aura que envolvia os ilustrados — O
que bem poderia ter levado à aquisição de livros que nunca viriam a ser lidos ou à recitação de
alguns de seus trechos em saraus pedantes. Ao que parece. a moda da ilustração seduzira as
pessoas importantes da cidade e conduzira a urna grotesca "sociedade de sábios". Chegou-se
mesmo a suspeitar, em Portugal, que essas pessoas estariam infectadas com os "abomináveis
princípios franceses", e recomendava-se que elas fossem severamente vigiadas e reprimidas.

Abstenhamo-nos, porém, de pensar que a moda da ilustração é que deveria ser reprimida: não
devemos confundi-la com os tais "princípios franceses", ainda que ambos pudessem,
eventualmente, caminhar lado a lado. Com efeito, no Rio de Janeiro, em 1794, membros de uma
Sociedade Literária foram denunciados, presos e processados por causa dos "abomináveis
princípios"; não obstante, viriam a ser libertados apesar de se provar que alguns deles
sustentavam “...que o governo das repúblicas deve ser preferido ao das monarquias, que os reis
são uns tiranos opressores dos vassalos, e outras sempre detestáveis e perigosas". Ora, por
sustentar essas mesmas opiniões um homem havia sido, em 1792, enforcado no Rio de Janeiro!
Essa aparente contradição de atitudes explica-se: uma coisa era comunicar-se a alguém uma
preferência pelo regime republicano, cuidando-se apenas de evitar denunciantes mal-
intencionados que poderiam levar a urna prisão injusta; outra coisa, bem diferente, era convidar-
se alguém a trabalhar pela instauração de uma República, prática que, se comprovada, poderia
conduzir à forca. Impunha-se, dessa forma, um limite à moda da ilustração dentro do qual o vir a
saber da Revolução e a comunicação do que se sabia eram tacitamente permitidos, desde que isso
não fosse orientado para fins conspiratórios ou sediciosos; transposto esse limite, entrava-se no
terreno da “francezia”, termo utilizado pelos contemporâneos, que o associavam aos crimes de
lesa-majestade e de lesa-religiãoii.

Ora, os homens mais intelectualizados e abastados de Salvador mantiveram-se mais ou menos


monarquistas, católicos e pouco inclinados a conspirações e sedições, de modo que puderam
prosseguir em suas leituras, conversas, discursos e saraus. Dispondo de tempo e recursos, eles
estavam mais bem informados acerca do que acontecia no mundo do que o restante, laborioso e
iletrado, da população da cidade. Aliás, formavam uma elite quase que inacessível (em termos de
poder, prestigio e riqueza) à massa dos demais homens livres e, a fortiori, dos escravos.

Entretanto, esse abismo sócio-econômico não representava uma barreira intransponível às trocas
de informações; afinal, vivia-se numa sociedade de vizinhança em que era grande a proximidade
física entre elementos de categorias diferentes e onde a comunicação era intensa. Dessa maneira,
as leituras, reuniões e conversas desembocavam numa complexa cadeia de oralidade que, como
vimos, tendia a diluir as formas de se vir a saber da Revolução. E, frente a este saber, a elite e as
massas formavam como que uma mesma substância. embora o saber da elite fosse mais
cristalizado: um cubo de gelo num copo com água, eis tudo.
Diversidade sócio-cultural na cidade-porto

Claro que nesse mundo da oralidade os diversos elementos da sociedade não se comunicavam
com a mesma intensidade. Pelo contrário, uma infinidade de fatores contribuía para fazer com
que alguns desses elementos tivessem uma vida social mais rica em contatos variados. De um
modo geral, podemos dizer que quanto maiores os graus de atividade e de liberdade dos
indivíduos maiores as suas probabilidade de estabelecer contatos, sendo que essa probabilidade
será ainda maior entre aqueles que desfrutarem ao mesmo tempo do máximo de atividade e do
máximo de liberdade. O difícil é sabermos que tipo de gente preenchia tais requisitos...

Uma classificação que dividisse a sociedade colonial em homens livres e escravos seria. para
nós, insuficiente — porquanto os primeiros eram, por definição, mais livres que os últimos, e
estes mais ativos que os primeiros. Ora, uma alternativa seria juntarmos num mesmo grupo os
mais “livres” dentre os escravos e os mais ativos dentre os homens livres. Como, porém, não
dispomos de uma hierarquização satisfatória da escravatura, teremos que contentarmo-nos com
tratar dos mais ativos dos homens livres, os quais estavam situados entre a elite de prestigio,
poder e riqueza e os escravos. Tentemos caracterizá-los melhor.

Dizíamos anteriormente que a cidade era o lugar de apropriação da produção rural pelo
mercantilismo português. Acrescentemos, por um lado, que uma parte das atividades exercidas
pela população era relacionada ao bom desempenho dessa função, sendo que os elementos de
maior prestígio, poder e riqueza em cada uma dessas atividades compunham conjuntamente a
elite. Nesta, podemos incluir os altos funcionários, os militares de altas patentes, os grandes
mercadores do comércio internacional, o alto clero e os grandes proprietários rurais.

Acrescentemos ainda que uma outra parte das atividades da cidade visava satisfazer as
necessidades de consumo da população — o que implica algum comércio, serviços e mesmo
uma pequena produção —, sendo que os elementos de menor prestigio, poder e riqueza nessas
atividades compõem o grupo dos escravos (obviamente, havia também certas “atividades”
marginalizadas, como a “mendicância” e a “vagabundagem”, pouco mencionadas
documentalmente, motivo por que delas não falamos aqui).

Situada abaixo da elite e acima da escravatura, uma camada média em ascensão exercia
atividades ligadas tanto à função da cidade quanto às necessidades de consumo da população:
funcionários médios e subalternos, militares de patentes inferiores e simples soldados, baixo
clero, comerciantes locais (varejistas e ambulantes), médios proprietários, profissionais liberais,
mestres e oficiais artesãos etc. Tratava-se, pois, de gente livre e, ao mesmo tempo, ativa, o que os
colocava numa ótima posição frente à comunicabilidade e, conseqüentemente, com grandes
probabilidades de virem a saber da Revolução Francesaiii.
Os utópicos da revolta

As formas diluídas desse vir a saber foram catalisadas por elementos dessa camada média de
acordo com suas conveniências, ou seja, de acordo com suas insatisfações, esperanças e tensões.
Com efeito, os elementos mencionados enfrentavam sérios obstáculos, principalmente no que diz
respeito à ascensão social. Neste sentido, viam-se comprimidos, abaixo da elite, por limites de
natureza estamentária, extra-econômica, mormente os limites de cor: a maioria deles era
constituída de mestiços e negros que se viam, assim, impedidos de ascenderem e que eram
submetidos a toda espécie de vexações e arbitrariedades (tais como os recrutamentos obrigatórios
etc.).

Em contraste com essa situação, as informações sobre os acontecimentos europeus revelavam-


lhes as atuações dos franceses no sentido de alcançarem um estado de "igualdade, liberdade e
fraternidade". Ora, este contraste pareceu-lhes tão marcado que a Revolução foi sendo cada vez
mais idealizada. Viam-na quase realizada e prestes a redimir todo o universo: assim que os povos
manifestassem seu desejo de liberdade, os franceses acorreriam e ajuda-los-iam a combater a
tirania. Mas, e sobretudo, a Revolução provava-lhes que a conquista da liberdade era possível, já
que os franceses a haviam realizado — desde se entrasse, como eles, no "sacrário da razão"
(como dizia um poema da época).

Porém, essas idealizações deviam-se mais às imperfeições da comunicação que a uma


mentalidade ingênua. Na verdade, conheciam da realidade que viviam o suficiente para não
aventurarem-se em empresas por demais arriscadas; isso não impediu, contudo, que alguns
indivíduos pertencentes à camada viessem a estudar meios de implantar uma república
democrática na Bahia. Iniciavam, assim, o que a historiografia baiana e a brasileira viriam a
chamar de “Revolta dos Alfaiates”.

Inicialmente, agiram cautelosamente e, a exemplo do que acontecia na elite, limitavam-se a


leituras, conversas e reuniões mais ou menos particulares. Com o tempo, porém, foram passando
à conspiração, aos projetos de sedição e ao aliciamento. A fim de lançarem mais maciçamente
seus planos na cadeia de comunicação, chegaram mesmo a afixar, em diversos pontos públicos
da cidade, folhetins nos quais conclamavam a população a, mediante uma revolução, atingir o tal
estado de igualdade, liberdade e fraternidade.

A partir dai, os sediciosos instalavam-se definitivamente no terreno da ''francezia'', onde


passariam a ser assimilados ao terrível crime de lesa-majestade e à irreligiosidade. O fato de isso
levar potencialmente à forca, ao esquartejamento ou à danação eterna justifica, em grande
medida, a quase nula acolhida que tiveram os folhetos sediciosos. Entretanto, podemos
acrescentar três outros motivos para o fato: o caráter restritivo das mensagens, as deficiências da
comunicação e a eficácia da repressão institucional.

Em termos gerais, os folhetos reivindicavam a liberdade frente ao domínio econômico-político


português e a igualdade legal entre os homens brancos e os de cor. Ora, isso constituía-se numa
séria ameaça às bases estamentárias da elite, a qual tanto vivia da transição entre a produção
local e o mercantilismo português quanto protegia suas fileiras mediante barreiras tais como as
da cor. Para os grandes comerciantes, por exemplo, o domínio português representava uma
proteção contra a concorrência comercial estrangeira e, portanto, uma garantia de manutenção da
aquisição barata do açúcar produzido pelos grandes proprietários rurais. Estes últimos, apesar de
assim espoliados, partilhavam do poder, prestígio e riqueza da elite na qual estavam inseridos por
laços diversos, tais como os de parentesco e os originados da mútua convivência na vida urbana.
Estavam, por assim dizer, domesticados e temiam, além do mais, que as revoltas da plebe
viessem a redundar em revoltas de escravos.

Talvez por visarem o apoio ou a mera neutralidade da elite, os folhetos prometiam o progresso da
produção e comércio, asseguravam o respeito às propriedades e silenciavam acerca da situação
dos escravos. Tudo se passava como se a elite e a escravatura fossem tratados apenas na medida
em que pudessem contribuir para a satisfação de interesses externos a elas. Dai concluirmos que
uma da razões possíveis para a pouca acolhida dos folhetins teria sido a sua excessiva aderência
aos interesses e conveniências das camadas médias da populaçãoiv.
A Revolução diluída na comunicação

O fato de os folhetins não terem tido maiores conseqüências mesmo nos seios dessas camadas
médias está relacionado às deficiências da comunicação. Esta, como foi dito, tendia a difundir
rapidamente as informações, mas as distorcia a cada passo, diluindo-as na oralidade. O resultado
disso era um saber "por ouvir dizer", o qual veiculava o vir a saber da Revolução, mas que pouco
serviria a um levante: afinal, somente alguém pouco prudente correria às armas tão logo
soubesse "por ouvir dizer" que se intentava um levante na cidade; e a dissipação de toda a
prudência demandaria um certo tempo — tornado ainda maior pela ausência de uma sólida base
política dos revoltosos, pela falta de imprensa (os folhetos eram manuscritos e em pequeno
número) e pelo analfabetismo da quase totalidade da população. Finalmente, os sediciosos
tinham a Igreja como sua maior rival na cadeia de comunicação, motivo pelo qual os folhetins
estavam eivados de ameaças aos padres refratários.

E a Igreja vinha sempre acompanhada de perto pelo Estado, cuja ação, ao levar a prudência das
camadas médias quase à inatividade, veio a constituir-se na causa mais eficaz para o fracasso dos
folhetos. Com efeito, assim que as autoridades souberam de sua existência iniciaram as
investigações de autoria. Alguns ainda tentaram reagir v, mas já as medidas legais estavam sendo
tomadas para reprimir qualquer ameaça à ordem pública. Enquanto isso, a repressão contra-
revolucionária cumpria seu papel na cadeia da comunicação, papel que os sediciosos tentaram,
mas em vão, desempenhar.

Dona das instituições, ela causava um efeito muito mais convincente que um simples "saber por
ouvir dizer": apinhada em praça pública, a multidão viu com seus próprios olhos e ouviu com
seus próprios ouvidos, no dia 8 de novembro de 1799, o resultado a que podia chegar a
"francezia"; nesse dia, foram enforcados os soldados Luiz Gonzaga, Lucas Dantas e Manuel
Faustino e o alfaiate João de Deus.

Horas mais tarde, num outro mundo, um outro calendário marcava 18 de Brumário do ano VIIIvi.
Conclusão

Como vimos, as influências da Revolução Francesa foram, para a Bahia, avassaladoras e


diversificadas, ainda que nem sempre notadas. Elas se distribuíram entre os campos econômico,
político, social ou ideológico, embora tais campos não aparecessem assim diferenciados para
nossas fontes documentais. Porém, mesmo quando de forma difusa, esporádica e inobservada,
essas influências permaneceram decerto como pano de fundo para os acontecimentos que
culminariam, pouco mais tarde e de forma mais amadurecida, nas lutas pela Independência na
Bahia.
Notas
i O mais importante desses historiadores é Luis Henrique Dias Tavares, que vê dois momentos na chamada “Revolta dos
Alfaiates”: no primeiro, membros da elite promovem reuniões onde se discutem as idéias da Ilustração; no segundo,
posterior a esse, um grupo, independentemente do primeiro e recrutado entre as camadas mais baixas da população assume
a marcha dos acontecimentos. Ora, essa tese parece minimizar por demais os mecanismos da cadeia de comunicação na
Bahia de finais do século XVIII. Ao invés de dois momentos de uma única revolta, o que vemos são dois fenômenos
totalmente diferentes, ainda que, ao menos em parte, contemporâneos e estreitamente inter-relacionados: uma moda da
Ilustração e uma tentativa de sedição.
ii Acreditamos poder somar a esses elementos (ao menos em tese) uma parcela de escravos que, seja por concessões
diversas, seja pela natureza de seus afazeres, dispunham de relativa liberdade.
iii Escrevemos ''revolta'' por nos parecer o termo mais apropriado à natureza do acontecimento, ainda que preferíssemos
chamar-lhe "sedição intentada", constante no título do livro História da Sedição Intentada na Bahia em 1798, de Luís
Henrique Dias Tavares — autor que, no entanto, utiliza o termo na capa e o ignora no corpo do texto.
iv Motivo pelo qual discordamos da tese constante na obra A Primeira Revolução Social do Brasil, de Afonso Ruy, segundo
a qual a sedição seria um movimento revolucionário geral e mesmo "comunista". Na verdade, os interesses particularistas
dos alfaiates são a tônica dos folhetos.
v Tal reação constitui o famoso episódio do Campo do Dique, uma tentativa tardia. e frustrada de preparar-se contra a
repressão iminente mediante a recuperação da iniciativa.
vi Data do calendário revolucionário francês. Marca o fim da Revolução Francesa (no sentido estrito do termo) e o início do
período napoleônico.