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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO CENTRO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA ARQUITETURA E URBANISMO

BIANCA PINTO LOIOLA

Arquitetura Ecológica:

Estudo Preliminar para Implantação de Ecovila no Maranhão

São Luís

2016

BIANCA PINTO LOIOLA

Arquitetura Ecológica:

Estudo Preliminar para Implantação de Ecovila no Maranhão

Monografia apresentada como exigência para obtenção do grau de Bacharelado em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual do Maranhão.

Orientador: Prof.ª Drª Sanadja de Medeiros Souza

São Luís

2016

Loiola, Bianca Pinto

Arquitetura ecológica: Estudo preliminar para implantação de ecovila no Maranhão / Bianca Pinto LoiolaSão Luís, 2016. 73 f

Monografia (Graduação) Curso de Arquitetura, Universidade Estadual do Maranhão, 2016.

Orientadora: Prof.ª Drª Sanadja de Medeiros Souza

1. Ecovilas. 2. Biocontrução. 3. Habitação. I. Título

CDU: 728.31:502.15(812.1)

BIANCA PINTO LOIOLA

Arquitetura Ecológica:

Estudo Preliminar para Implantação de Ecovila no Maranhão

Aprovado em: 28/07/2016

Profa. Dra. Sanadja de Medeiros Souza

(Orientadora)

Prof. Dr. Hermes Fonseca

(Examinador)

Érika Boucinhas

(Examinador)

AGRADECIMENTO

Poucos sabem que carrego algo de Nossa Senhora onde quer que eu vá, um adesivo no carro, sua imagem no meu quarto e até na pele já penso em homenageá- la. Trazia um santinho de Nossa Senhora Desatadora dos Nós no bolso da jaqueta na primeira vez que viajei para o exterior, indo morar na Espanha. E é em devoção a esta minha mãe que faço o primeiro agradecimento, a ela que me agraciou com a aprovação no vestibular, há quase seis anos atrás e que sem suas graças eu jamais teria concluído este trabalho final. Os próximos merecedores incontestáveis de todo o meu agradecimento são os meus pais, o Sr. Plácido e a Sra. Ana Lucia que já me tinham nos braços quando concluíram seus respectivos TCCs de nota máxima, que lutaram e batalharam todos os dias para que eu e o meu irmão tivéssemos as melhores oportunidades e que trazem em suas histórias de vida exemplos de superação, coragem e valores. Agradeço também a minha avó, Maria de Jesus, parceira de tantas horas e de tantas promessas. Aquela que sempre apoiou todos os meus sonhos por mais loucos que parecessem, a única avó capaz de acompanhar um neto em romaria de seis horas e no final, está mais inteira que ele. Levaria horas mencionando todos os amigos e professores, brasileiros e catalães que me auxiliaram nesta jornada, porém seis anos não podem e nem devem ser resumidos em poucas linhas. Terei a missão de agradecê-los pessoalmente um a um.

Por fim, preciso agradecer a minha “chefa”. Minha prima Kerla com quem, como estagiaria aprendi bem mais do que a faculdade seria capaz de me ensinar. Foram várias as manhãs e as tarde de ajuda nos trabalhos, costuma dizer que ela tem o poder de resolver minha vida em cinco minutos. E estou certa que aprendi também, no dia a dia do escritório a ter a dedicação e a paciência necessária para amar o doce e o amargo da profissão que escolhi seguir para o resto da minha vida.

"Eu sou a minha cidade, e só eu posso mudá-la. Mesmo com o coração sem esperança, mesmo sem saber exatamente como dar o primeiro passo, mesmo achando que um esforço individual não serve para nada, preciso colocar mãos à obra” (Paulo Coelho).

RESUMO

Este trabalho final de graduação, desenvolvido na área de projeto de arquitetura, apresenta o projeto de uma Ecovila no Maranhão, em nível de Estudo Preliminar visando proporcionar, por meio de uma arquitetura ecológica, um modelo para um processo de habitar gestado de modo a respeitar e integrar-se com o meio ambiente e com a comunidade, demonstrando soluções construtivas viáveis e de baixo custo, capazes de promover a preservação da natureza, a aproximação do ambiente construído com a paisagem natural e o bem-estar do cidadão. Os estudos fundamentaram-se em pesquisas, artigos, dissertações e estudos de ecovilas existentes, bem como de tecnologias de construção sustentáveis e ecologias. O desenvolvimento da pesquisa possibilitou a elaboração de uma proposta de implantação de uma Ecovila em solo maranhense.

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Palavras-chave: Arquitetura ecológica, Sustentabilidade, Habitação social, Ecovila.

ABSTRACT

This final work graduation, developed in architecture design area, presents the design of an Ecovillage in Maranhão, the preliminary study level to provide, through an ecological architecture, a model for a process of living gestated in order to comply and integrate with the environment and the community, demonstrating viable constructive solutions and low cost capable of promoting the preservation of nature, the approach of the built environment with the natural landscape and citizen welfare. Studies substantiate in research articles, dissertations and existing ecovillage studies and sustainable building technologies and ecologies. The development of research made possible the development of a deployment proposal for an ecovillage in Maranhão soil.

Keywords: Ecological Architecture, Sustainability, Social Housing, Ecovillage.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Edifício de barro de Weilburg Alemanha

17

Figura 2 - Catedral Vegetal em Bergamo

18

Figura 3 - Estrutura do Escritório Tamedia em Madeira Plantada

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Figura 4 - Classe de Tecnologies de Baix Cost per a la Cooperació (BAM)

20

Figura 5 - Maquete, Planta Baixa e Fachada Principal da Casa Cubierta

31

Figura 6 - Layout Casa Moderna Caipira

33

Figura 7 - Vista Aérea da Auroville

34

Figura 8 - Programa de Necessidades Ecovila

35

Figura 9 - Terreno para Implantação

36

Figura 10 - Zoneamento do Terreno para Implantação de Ecovila

37

Figura 11 - Topografia do Terreno para Implantação de Ecovila

37

Figura 12 - Setorização Ecovila

38

Figura 13 Pisograma S Modelo Max Lider

39

Figura 14 - Programa de Necessidades do Modelo Habitacional

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Figura 15 - Estudo de Ventilação e Insolação

43

Figura 16 - Detalhe da Fundação no Modelo 3D

44

Figura 17 - Montagem das Formas para o Pisé

45

Figura 18 - Dimensões do Tijolo de Solocimento

46

Figura 19 - Muros decorativos

47

Figura 20 - Face Externa da Parede de Garrafas

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Figura 21 - Esquema do Banheiro Seco e do Segregador de Urina

49

Figura 22 - Bambu Trançado

50

Figura 23 - Assentamento das Lajotas

51

Figura 24 - Montagem das Telhas

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Figura 25 - Detalhe do Telhado Verde no Modelo 3D

53

Figura 26 - José Alcino, Criador do Painel Solar de Pet

54

Figura 27 - Mortero de Arcilla, em exposição do BAM

54

Figura 28 - Modelo Habitacional Ecológico 3D

55

Figura 29 - Detalhe 3D do Pátio Interno da Habitação Ecológica

55

Figura 30 - Modelo Habitacional 3D Fachada Sudeste

56

Figura 31 - Modelo Habitacional Vista 3D

56

Figura 32 - Aldeia Ianomâmi

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Figura 33 - Cisterna Veneziana em Corte

60

Figura 34 - Ecoponto São Luís

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

 

12

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

14

2.1

ARQUITETURA ECOLÓGICA

14

2.1.1 ARQUITETURA ECOLÓGICA NO MUNDO

14

2.1.2 TECNOLOGIAS DE BAIXO CUSTO PARA A COOPERAÇÃO

19

2.1.3 ECOVILAS NO BRASIL

 

22

2.1.4 MARANHÃO E

SUSTENTABILIDADE

26

3 METODOLOGIA

29

4 CONCEITO

30

4.1

REFERÊNCIAS PROJETUAIS

 

30

4.1.1 HABITACIONAL

MODELO

30

4.1.2 ECOVILA

 

33

4.2

CONCEPÇÃO DA ECOVILA

 

35

4.2.1 PROGRAMA DE NECESSIDADES

35

4.2.2 TERRENO

 

36

4.3

PROPOSTA ECOVILA (ESTUDO PRELIMINAR)

37

4.3.1 SETORIZAÇÃO

 

37

4.3.2 VIAS E PAVIMENTAÇÃO

 

39

5 EDIFICAÇÕES

 

40

5.1

PROPOSTA MODELO HABITACIONAL

 

40

5.1.1 PROGRAMA DE NECESSIDADES

41

5.1.2 VENTILAÇÃO E INSOLAÇÃO

42

5.1.3 FUNDAÇÃO

 

43

5.1.4 PAREDES

44

5.1.5 BANHEIRO SECO

48

5.1.6 PISOS

49

5.1.7 COBERTURAS

51

5.1.8 REVESTIMENTOS

54

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

70

REFERÊNCIAS

72

12

INTRODUÇÃO

O índice de população vivendo nas cidades em 2010 chegou a impressionante marca de 84% no país, as cidades são as principais responsáveis pelo consumo dos recursos naturais e energéticos, além de contribuírem com mais de ¾ da contaminação global. As cidades em que vivemos apresentam características, como forte impermeabilização do solo, abundância de materiais altamente refletores, absorventes e transmissores de energia além de reduzida cobertura vegetal, geradoras de um grande desequilíbrio ambiental. O excessivo consumo de energia e matéria com correspondente geração de resíduos, poluição atmosférica, hídrica, sonora e visual, afetam e interferem negativamente no ambiente urbano, na qualidade de vida de suas populações e atuam de forma local e regional (HOUGH, 1995). Diante deste contexto, modelos positivos e ecologicamente sustentáveis se tornam uma necessidade latente. As ecovilas clamam pela reconexão, comunidade e natureza, demonstra um exemplo viável de um futuro humano sustentável, através de soluções práticas de um menor impacto ambiental, uma melhor gestão de resíduos e principalmente uma construção com comprometimento ecológico utilizando recursos locais, sejam eles, humanos ou materiais. O Maranhão é o estado mais rural do país (36,9% da população), diversas famílias ainda vivem conectadas à produção da terra, próximas a natureza e com fortes vínculos sociais. Essa população luta diariamente pela sobrevivência em frente ao atual modelo de urbanização crescente. A Global Ecoville Network, desde 1995 busca compartilhar novas ideias, experiências, tecnologias além de práticas educacionais para promover as ecovilas como um novo modelo de cidade orgânica, equilibrada e coerente para o consumo dos recursos naturais do planeta. "O estudo e aplicação do modelo das Ecovilas não é somente para ecologistas. O modelo deve ser apresentado às pessoas de forma sistêmica, numa metodologia não linear, para gerar assim, uma massa crítica e um ponto de transição" (CAPRA, 1996, p.). Visando o conceito exposto, o Estudo Preliminar de uma Ecovila no Maranhão proporciona, por meio de uma arquitetura ecológica, um modelo para um

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processo de habitar melhor gestado com o meio ambiente e com a comunidade, demonstrando soluções construtivas viáveis e de baixo custo capazes de promover a preservação da natureza, a aproximação do ambiente construído com a paisagem natural e o bem-estar do cidadão. Trata-se de um projeto visando o cultivo do sentimento de pertencimento da comunidade com sua localidade, e que tem como objetivo geral a produção

arquitetônica, em fase de estudo preliminar, de uma Ecovila. Promovendo a reflexão

e implementação de uma cultura socioambiental, baseada no respeito ao meio

ambiente, na consciência ecológica e na gestão responsável dos recursos do planeta. Tudo isso, representado num modelo arquitetônico mais sustentável para o desenvolvimento de ecovilas para a região do Maranhão, tendo como referenciais práticas ecológicas na esfera urbana, utilizando materiais que contribuam de maneira positiva e com menor impacto ambiental para a composição do projeto, de maneira leve, acessível, levando em consideração também conforto lumínico, acústico e térmico. Já as etapas metodológicas se resumem em três fases: a primeira é a fundamentação teórica, fundamentada na coleta de dados, pesquisando-se artigos, dissertações, projetos de ecovilas existentes e pesquisa de campo realizada através de visitas técnicas ao terreno de implantação e órgãos municipais; a segunda etapa é

a análise dos dados coletados, e os resultados dessas análises, e por último a

proposta projetual, iniciando pelos referenciais projetuais, passando pela concepção

e partido, até chegar à proposta final. O Programa de Desenvolvimento de Comunidades Sustentáveis da Organização das Nações Unidas incorporou a ideia de Ecovilas, o que torna este estudo de implantação um projeto atual e salutar. O mesmo tende a proporcionar desenvolvimento e qualidade de vida para comunidades e aparece como uma solução de gestão para Zonas de Interesse Social tanto no perímetro rural quanto no urbano. Diante desse contexto, da necessidade de uma conscientização ecológica e de práticas de vida mais sustentáveis, é que se insere este projeto.

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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 ARQUITETURA ECOLÓGICA

2.1.1 ARQUITETURA ECOLÓGICA NO MUNDO

Le Corbusier, grande ícone modernista, no livro Urbanisme exprime sua máxima:

Há que construir-se ao ar livre. A geometria transcendente deve reinar ditar todos os traçados e chegar a suas consequências menores e inumeráveis. A cidade atual morre por não ser geométrica. Construir ao ar livre, remodelar o terreno estrambótico insensato, que é o único existente hoje em dia, por um terreno regular. E fora disso não há outro modo de salvação (CORBUSIER, 1925, p.).

O conceito acima reproduz o medo, ou simplesmente a antipatia por linhas curvas que alguns arquitetos e urbanistas ainda hoje possuem ao projetar, a transformação das formas naturais do meio ambiente em linhas retas se configura numa premissa clássica, porém extremamente preocupante do ponto de vista ecológico uma vez que o impacto ambiental e o gasto de recursos para regularizar este terreno “insensato” é extremamente alto. Nos primórdios, a primeira moradia humana foi a caverna, a função era puramente de abrigo. Com o tempo, já sedentário, o homem construiu moradas que atendessem melhor suas necessidades, porém os materiais construtivos continuavam sendo aqueles encontrados na natureza. Os recursos do entorno eram respeitados e aproveitados de maneira integrada, as cheias de um rio eram usadas para inundar áreas de plantio, por exemplo: as folhas das árvores viravam telhados, a madeira era usada na construção das paredes e assim por diante. A arquitetura primitiva tinha como premissa soberana a função.

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Thoreau, já em 1854, ainda descreve a natureza não como um cenário impessoal a emoldurar o homem, mas como alvo de uma experiência pessoal e direta, alicerçada na emoção. O homem não acima da natureza e sim parte constituinte dela. Desta forma em que momento a arquitetura das nossas cidades se afastou tanto dessa constatação? A reprodução dos espaços e o predomínio da forma sobre a função, talvez seja, a melhor resposta. O pontapé inicial possivelmente com a arquitetura clássica que privilegiava o geométrico e os terrenos planos. Espaços muitas das vezes deslocados da escala humana e que abusavam de materiais que viajavam quilômetros até o local onde seriam utilizados, até os tempos atuais. Em arquitetura, se faz comum reproduzir modelos conceituados no mundo em locais que em nada dialogam com o terreno para o qual fora inicialmente projetado. São Luís tem como exemplo claro disso o uso excessivo de vidros em fachadas, ainda se valendo do argumento de uma eficiência energética que só seria alcançada em localidades de clima frio. Essa falta de cuidado ou preocupação com as reais condições climáticas o entorno e o relevo na hora de projetar produziu espaços desconectados da natureza, verdadeiros rasgos na paisagem natural geradores de desequilíbrios. Tem-se cada ano mais enchentes, secas e demais catástrofes justo por travarmos uma briga com as linhas curvas e disformes do meio ambiente ao invés de entender e trabalhar lado a lado com elas. Soa assustador, porém em alguns casos deve-se desligar dos ícones e discordar de Le Corbusier. A atual face das nossas cidades; excessivo consumo de energia, grande geração de resíduos, poluição atmosférica, hídrica, sonora e visual exige uma mudança urgente no processo de habitar. Se faz necessário interferir menos no meio natural, permitir a fluidez da paisagem, integra-se, causar o menor impacto ambiental possível, usufruir dos recursos locais, ser sustentável, energeticamente consciente etc. A arquitetura que carrega todos estes parâmetros e preocupações se define Arquitetura Ecológica. Precisamos distinguir um pouco o conceito de arquitetura ecológica do de arquitetura sustentável, embora ambas sejam muito similares e em alguns casos até sinônimas. A primeira é aquela que tem cuidado especial com a integração do edifício com o meio ambiente, procurando causar o menor impacto possível à natureza. Está associada a técnicas passivas de construção, como iluminação e ventilação natural,

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às estratégias verdes, como os jardins verticais e os telhados verdes, ao aproveitamento da água da chuva, e ao uso de materiais locais e naturais como, por exemplo; a terra, o bambu, tijolos ecológicos, entre outros. Já o termo sustentável, muito mais recente, tem como melhor definição a de Brundland, (1987) da ONU – “desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem a suas necessidades e aspirações. Portanto a arquitetura sustentável busca minimizar os impactos ao meio ambiente, sendo ecologicamente correta, mas também deve promover o desenvolvimento social e cultural, além de ser viável no âmbito econômico. Além de utilizar técnicas passivas de construção, a arquitetura sustentável pode utilizar novas tecnologias que otimizam a edificação, como por exemplo, o uso de painéis solares fotovoltaicos, materiais fabricados em escala industrial e sistemas de automação, entre outros. Por isto ao conceito de arquitetura sustentável se torna, muito melhor aceito e difundido na construção contemporânea, incluindo até mesmo leis para a sua garantia em muitas cidades. A arquitetura ecológica não é novidade, usar recursos locais na construção não é uma pratica recente, os índios já construíam com terra antes de serem colonizados e até mesmo os esquimós utilizam o gelo para fazer os iglus. "Grandes monumentos arquitetônicos, como a grande muralha da China e as pirâmides mexicanas, são de adobe. No Iêmen há prédios de nove andares construídos com adobe. O Taj Mahal é todo de bambu, e está lá há 700 anos" (Peter Van Lengen). Na Alemanha, em Weilburg, está um prédio com seis andares com quase 200 anos, que já resistiu a um incêndio, construído com taipa de pilão (terra crua). A Escola Ecológica, na Indonésia, além de ser feita de bambu ainda ensina técnicas de construção com ele, colheita e jardinagem, além da educação tradicional. O campus conta com tecnologia de ponta, onde agricultores, arquitetos e jardineiros transmitem total estímulo à educação.

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17 Figura 1 - Edifício de barro de Weilburg – Alemanha Fonte: (http://www.ntcbrasil.com.br/). Outro ponto

Figura 1 - Edifício de barro de Weilburg Alemanha Fonte: (http://www.ntcbrasil.com.br/).

Outro ponto interessante nesta arquitetura é o apelo econômico justo por conta da utilização de materiais disponíveis no ambiente e ausência de necessidade de mão de obra altamente qualificada. Um grupo de amigos norte americano dentre eles Brian Liloia construíram com as próprias mãos a COB House, uma casa utilizando um material moldável feito de argila, areia e palha. A construção levou nove meses e custou oito mil reais. Em sua composição, foram utilizados barro, madeira, pedras, areia e fibra. O problema é a maneira tímida com que este conceito é empregado na arquitetura moderna e nas grandes construções, neste quesito países como a Alemanha, a Indonésia, o México e os EUA são os que mais se destacam por terem exemplos de construções modernas que seguem o conceito de construção ecológica. Certamente, o nome mais conhecido quando se discute construções sustentáveis é Johan Van Lengen, autor do livro Manual do Arquiteto Descalço que já teve edições em vários países e se configura leitura obrigatória para o tema. Fundador do Bio-Arquitetura e Tecnologia Intuitiva (1987), denominado Tibá, Johan compartilhou técnicas com terra, bambu, madeira, pedras e demais materiais de baixo custo e fácil disponibilidade provando a viabilidade e as vantagens da arquitetura ecológica. Ainda hoje o Tibá é referência executando grandes projetos em Moçambique, no México, no Brasil etc, melhor gestados com o meio ambiente, geradores de pouquíssimo impacto ambiental e extremamente coerentes com a natureza e a vida moderna. O Tibá influenciou a criação de muitos outros centros de educação e construção

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ecológica no mundo como, o BAM (Bio-arquitetura mediterrânea) e o TETO. Também influenciou muitas universidades, a Politécnica de Cataluña tem como projeto de extensão permanente atividades de cooperação com tecnologias construtivas de baixo custo em assentamentos, zonas de refugiados, quilombos, áreas rurais, dentre outros.

O arquiteto italiano Giuliano Mauri, também usou bem os conceitos de arquitetura ecológica no projeto da Catedral Vegetal, em Bergamo. Uma imensa estrutura com 42 colunas e 5 corredores construídos com 1.800 troncos de abeto, 600 de castanheiro e 6.000m de troncos de aveleira unidos entre si por madeiras flexíveis, estacas, e cordas que foram unidas através de uma antiga arte de entrelaçamento. O resultado é uma arquitetura surpreendente que será influenciada pela natureza, pelo crescimento das espécies e pelas estações do ano.

pelo crescimento das espécies e pelas estações do ano. Figura 2 - Catedral Vegetal em Bergamo

Figura 2 - Catedral Vegetal em Bergamo Fonte: (http://anatomiarquitetonica.blogspot.com.br/).

Por fim, recentemente o arquiteto Shigeru Ban foi o vencedor do Prêmio Pritzker (2014) e vem se destacando não só pelo uso de materiais não convencionais (particularmente o papel), mas também por desenvolver projetos de alta qualidade e de baixo custo, para os que mais precisam - refugiados e vítimas de desastres naturais. Para Shigeru Ban, a sustentabilidade é um fator intrínseco à arquitetura. Em suas obras há um esforço para encontrar produtos e sistemas adequados que estão em harmonia com o meio ambiente e que usem materiais renováveis e produzidos localmente, sempre que possível. Seu edifício de escritórios Tamedia recém- inaugurado em Zurique, por exemplo, usa um sistema estrutural de madeira trançada,

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completamente desprovida de peças metálicas nas juntas ou de cola.

desprovida de peças metálicas nas juntas ou de cola. Figura 3 - Estrutura do Escritório Tamedia

Figura 3 - Estrutura do Escritório Tamedia em madeira plantada Fonte: (http://www.designboom.com).

2.1.2 TECNOLOGIAS DE BAIXO CUSTO PARA A COOPERAÇÃO

O caráter econômico da Arquitetura Ecológica se dá principalmente em função de dois elementos: a escolha adequada de materiais e o emprego de mão de obra local. Por utilizarem técnicas simples e de rápido aprendizado, valorizando a arquitetura tradicional, este tipo de construção pode aproveitar o trabalho do próprio morador, familiares, vizinhos e demais voluntários. Cooperação e voluntariado fazem parte importantíssima deste processo, uma vez que gera um forte vínculo morador x comunidade x habitação, além de baratear muito os custos. O canteiro de obras na construção ecológica acaba funcionando como uma escola repartindo técnicas e desenvolvendo estas tecnologias de baixo custo para que as mesmas possam ser cada vez mais adequadas e eficientes nas edificações futuras.

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20 Figura 4 - Classe de Tecnologies de Baix Cost per a la Cooperació (BAM) Fonte:

Figura 4 - Classe de Tecnologies de Baix Cost per a la Cooperació (BAM) Fonte: Autoria própria.

Além do Tibá, do BAM e do TETO, institutos conhecidos por trabalharem com cooperação existem várias cartilhas e livros já lançados que auxiliam neste desenvolvimento construtivo desde a escolha do material mais adequado para edificação, elaboração projetual até a construção em si. Dentre eles destaco o Manual do Arquiteto Descalço, de Johan Lengen, o Caderno de Consumo Sustentável Construções, do Ministério do Meio Ambiente, e a cartilha Curso de Bioconstrução, também produzida pelo Ministério do Meio Ambiente.

A escolha adequada do material ou materiais que serão utilizados em uma

construção ecológica se configura peça fundamental para uma menor geração de resíduos, reduzido impacto ambiental, menor custo, máximo conforto térmico e acústico, maior eficiência energética etc. Para tanto precisamos reconhecer as potencialidades locais (presença de jazidas, argila, areia, bambu ou demais materiais construtivos em abundância no terreno ou próximo dele) e as características básicas

destes materiais na edificação (condições térmicas, flexibilidade, resistência, umidade, durabilidade). Os materiais mais comumente utilizados nas construções ecológicas são:

a. TERRA

A maioria das técnicas construtivas tradicionais utiliza terra por este ser um

material abundantemente encontrado na natureza, diminuindo muitos os custos da edificação. Ela aparece na fabricação de adobes e superadobes, nas paredes de taipa de mão, de pilão, pisé etc. Capaz de controlar a entrada e saída de calor e a umidade,

uma construção com terra crua tem excelente conforto térmico, além de produzir

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baixíssimo impacto ambiental.

b. PEDRA

Muitos solos são ricos em pedras e os diversos tipos permitem uma grande variedade de utilização. Na bioconstrução as pedras podem ser usadas desde a fundação apoiando as paredes de terra sobre elas, até mesmo nas próprias paredes, em muros, pisos, fornos, lagos etc. Maximizando assim a resistência destes elementos.

c. MADEIRA

A madeira é um recurso renovável e abundante se utilizado de maneira consciente, quando ela provém da exploração de matas e florestas a preocupação com a legalidade e com o tamanho do impacto ambiental deve ser redobrada. Mesmo na compra de madeira plantada é necessário saber a origem desta madeira e todos os demais aspectos legais para uma utilização ecológica. Neste contexto o bambu é uma excelente opção de material, pois tem crescimento rápido, não necessita ser reflorestado (se extraído corretamente) apresenta alta flexibilidade, podendo ser utilizado até mesmo em locais onde ocorrem terremotos, resistência e grande leveza. Retentora de CO2, a madeira por ser orgânica necessita tratamento para evitar o apodrecimento, aumentar a durabilidade e diminuir a retração do material, depois que a edificação estiver pronta.

d. PALHA

O clima brasileiro permite o crescimento de diversas espécies de palmeiras, o que gera uma variedade de palhas que podem ser utilizadas em mesclas com terra para o adobe ou a taipa, com argila para o COB etc. Essa mistura garante melhoria de resistência e melhor aglutinação dos componentes. A palha proveniente do resíduo da produção do arroz também pode ser transformada em fardos ou prensada e ser utilizada na construção de paredes evitando a queima desse resíduo.

e. RESÍDUOS COMO RECURSO

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A arquitetura ecológica tem como uma das principais premissas gerar um ciclo fechado, ou seja, levar em conta o tratamento e o aproveitamento de todos os resíduos gerados na construção e também no funcionamento posterior da edificação. Lixo de cozinha, lixo seco (plásticos, papéis, latas), esgoto primário e secundário, restos de construção, águas pluviais etc. Casas antigas podem ter seus materiais construtivos reutilizados em uma nova edificação, no banheiro seco o resíduo passa a ser usado na compostagem, assim como o lixo orgânico, as águas pluviais e provenientes das pias podem ser tratadas e armazenadas, o lixo seco vira paredes, divisórias, moveis brinquedos e até painéis solares.

2.1.3 ECOVILAS NO BRASIL

O conceito de ecovila foi definido em 1995 junto com a criação do Global Ecovillage Network, na Escócia, em um encontro entre membros de comunidades sustentáveis e veio para materializar os ideais da permacultura. Hoje essa definição é aceita internacionalmente pela ONU:

Ecovilas são comunidades rurais ou urbanas de pessoas, que buscam integrar um ambiente social assegurador de um estilo de vida de baixo impacto ecológico. Para atingir este objetivo, as ecovilas integram vários aspectos do projeto ecológico, permacultura, construções de baixo impacto, produção verde, energia alternativa, práticas de fortalecimento de comunidade e muito mais (gen.ecovillage.org).

Essas vilas, também geram atividades internas de lazer para sua comunidade, convívio social, serviços de saúde, educação, trabalhos comunitários, entre outras atividades produzindo uma grande autonomia. São vários os projetos de Ecovilas conhecidos fora do Brasil, podemos destacar o Eco Truly Park, no Peru, a Comunidade Finca Bellavista Treehouse, na Costa Rica, o Tamera Peace Research Village, em Portugal, e o Inanitah, no Nicarágua. E no nosso país? Será que o modelo de ecovilas como comunidade

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habitável possui de fato uma expressão significativa? O próprio Global Ecovillage Network nos responde um pouco essa pergunta com seu banco de dados contendo mais de 30 ecovilas brasileiras registradas (2016), esse número em 2002 era de apenas sete. Por se tratarem em sua grande maioria de comunidades rurais, muitas ecovilas não aparecem nesta listagem, mas igualmente existem e resistem como meio sadio de habitação e arquitetura. Interagindo com grupos internacionais, o Global Ecovillage Network e o World Ecovillage Movement, o Movimento Brasileiro de Ecovilas também aparece como forte expressão nesse cenário, tendo representatividade em fóruns, lideranças locais e encontros mensais, defendendo seus pontos de vista conforme assertiva abaixo:

"Nosso grupo não pretende criar nenhuma ecovila nem liderar nada, mas ajudar, cooperar, trabalhar na interação entre os

grupos, criando atividades integrativas, visando organizar uma linha de ação, traçando estratégias e estabelecendo

democraticamente

(https://mbecovilas.wordpress.com)

uma

agenda"

No Brasil, também se destacam ainda a existência da ENA Brasil, uma rede de conexão e articulação entre ecovilas e iniciativas afins, do IPEMA - Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica, uma organização da Sociedade Civil de Interesse Público para fomentar e difundir a permacultura na criação de assentamentos humanos sustentáveis, e do IPEC - Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado, uma organização que visa estabelecer soluções apropriadas, demonstrando a viabilidade de uma cultura sustentável, oportunizando experiências educativas e disseminando modelos. Devem-se considerar as diferenças entre as ecovilas mais desenvolvidas e as brasileiras. As grandes ecovilas, como por exemplo, Auroville (Tamil Nadu, Índia) e o Movimento Sarvodaya para a Paz (Índia) têm um forte cunho social. A primeira pode ser considerada uma cidade devido a sua dimensão e a segunda é caracterizada por ser a maior rede de ecovilas existente, além da grande capacidade de transformação social de regiões pobres do país onde está inserida, Sri Lanka (Bissolotti, 2004). As Ecovilas aparecem como uma proposta viável para populações brasileiras de baixa renda e não somente na área rural, uma vez que uma comunidade autosustentável se torna capaz de driblar problemas sociais como a fome e a pobreza. No Brasil algumas já desempenham esse papel:

a. VILA CÉU DO MAPIÁ - SANTO DAIME ACRE

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Dentro da Floresta Nacional do Purus e Mapi Inauini, no Acre, se encontra

a Associação dos Moradores do Mapiá. Por ser uma área de preservação ambiental,

a associação é responsável, junto com o IBAMA, da administração da floresta onde

está inserida. Com mais de vinte anos de existência é integrada por vários segmentos sociais, desde profissionais liberais e trabalhadores de centros urbanos até a população tradicional do local que seguem a doutrina espiritual do Santo Daime (SANTO DAIME, 2004). A vila abriga uma escola, posto de saúde, casa de artesanato

e de ofícios femininos, oficina de motores, casa de farinha, cozinha comunitária, cerca

de cem residências e se caracteriza tanto pela sustentabilidade ecológica quanto pelo

grande trabalho social ajudando na capacitação profissional de crianças e jovens. A região sofre com doenças como malária, hepatite, lechimoniose, hanseníase, logo a comunidade da ecovila tem papel importante para impedir o êxodo rural.

b. CLAREANDO - SERRA DA MANTIQUEIRA SÃO PAULO

Trata-se de um condomínio rural com 23 hectares, dois de mata nativa que se encontra em área de proteção ambiental. Cada família integrante ainda se envolve em atividades ligadas à permacultura, apicultura, horticultura, construção com materiais alternativos, entre outras. Esta ecovila promove piqueniques, reflorestamento, tratamento de esgoto e oficinas sobre soluções ecológicas.

c. ECOVILA BAMBU - IVOTI RIO GRANDE DO SUL

Uma escola de autossuficiência, como se denominam, de 9 hectares localizada na serra gaúcha. Fundada por um bioconstrutor e uma terapeuta holística tem como base principal a permacultura. Atuam como um espaço comunitário ensinando inúmeras práticas tradicionais como: agricultura orgânica, bioconstrução, sistemas agroflorestais, permacultura, criação de animais, energia alternativa, artes em geral etc. O mais curioso desta ecovila talvez seja o seu objetivo de existência:

Ser como o bambu.

“Se curva, mas não quebra ensinando assim a preciosa lição da humildade e da flexibilidade; a fragilidade é apenas aparente e há registros de que suporta até furacões; vive sempre em

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comunidade dando exemplo da importância da família; não se deixa derrotar pelas adversidades e mesmo após um inverno rigoroso retorna rapidamente ao vigor; busca a sabedoria no vazio com seu interior oco, lembrando-nos de estar receptivos ao novo; cresce sempre para o alto visando os céus e o mundo espiritual; vive na simplicidade com poucos ou quase nada de galhos ou adornos sem utilidade” (Ecovila Bambu).

d. ARCA VERDE - SÃO FRANCISCO DE PAULA RIO GRANDE DO SUL

O projeto do instituto iniciou em 2005, contem 13 moradores e 15 sócios usufruindo de 25 hectares. Possuem autonomia de 30% na alimentação e operam com uma moeda social dentro da ecovila (verdinha) contendo até mesmo um Ecobanco na Arca. Grande parte da fonte de renda do instituto vem de cursos, vivencias visitações e venda de produtos artesanais, a parte energética também apresenta boas soluções com a utilização de energia solar, fotovoltaica e um projeto de micro- hidráulica. A infraestrutura da Ecovila Arca Verde segue seu projeto-planejamento permacultural (em construção) que inclui hortas e agrofloresta, alojamento coletivo, cozinha e refeitório comunitários, espaço social e espiritual, ateliês, galpões e oficinas, espaço para as crianças, lotes de uso particular, familiar e coletivo, entre outros.

e. CATUÇABA ECOVILA - SÃO LUÍS DO PARAITINGA SÃO PAULO

Fruto do escritório MK27, de Marcio Kogan, o Catuçaba ecovila tem caráter comercial e é na verdade um conjunto de casas na montanha capazes de produzir a própria energia, tratarem o esgoto que geram e usarem alimentos retirados da própria horta, a serem construídas ao redor da fazenda Catuçaba em São Paulo. A propriedade é de um francês, Emmanuel Rengade, que resolveu investir em um conceito de “luxo artesanal”. Uma vila ecossustentável com uma boa dose de sofisticação. Quem adquire um lote de terra pode construir o projeto de Kogan, que é o único permitido, mas pode ser construído em diferentes escalas e ter seu interior modulado em outras configurações. Os proprietários dos lotes recebem acesso à infraestrutura e aos serviços do hotel-fazenda. A ecovila tornou-se um dos dez projetos escolhidos para testar e aprimorar a versão piloto do Residencial Casa, certificação de sustentabilidade residencial que

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está sendo desenvolvida pelo Green Building Council (GBC). Cada casa tem 100% da madeira certificada FSC, energia elétrica gerada para 100% do consumo por turbina eólica e painéis fotovoltaicos, um sistema de tratamento de esgoto para 100% dos efluentes, possuem 80% dos resíduos desviados de aterro e devido à utilização da ventilação e iluminação natural da paisagem conseguem ter uma redução energética de 35%. Em 2015, o projeto piloto ganhou o selo Platina como Referencial GBC Brasil Casa.

2.1.4 MARANHÃO E SUSTENTABILIDADE

O Maranhão encontra-se em uma zona de transição do clima semiárido para o clima úmido equatorial. Cerca de 64% da área do Estado está situada no Bioma Cerrado, enquanto o Bioma Amazônia ocupa 35% e a Caatinga, 1%. O setor de atividade com maior presença na economia é o setor de serviços (67%), enquanto a agropecuária e a indústria respondem por 17% e 16% do PIB estadual, respectivamente (IBGE, 2010). Estas atividades que são tão importantes economicamente também são as que mais exercem pressão por desmatamento no Estado, até o ano de 2011 este foi de 105,2 mil km², 70% da área de floresta amazônica do Maranhão, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Sustentabilidade se torna um conceito difícil de propagar em um estado cujo capital, São Luís, tem todas as suas praias improprias para o banho (http://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2015/05/, acessado em maio de 2016) e que ainda assim peca em um tratamento de esgoto eficiente. A quantidade de obras embargadas e logo após autorizadas mesmo diante de derrubadas de babaçuais e outros espécimes protegidas por lei, a edificação de grandes empreendimentos imobiliários avançando sobre as dunas ou em áreas de preservação ambiental só exemplificam o quanto o caminho para uma arquitetura consciente, sustentável e ecológica será árduo e parece se tornar cada dia mais distante. Foram vários os conflitos nos últimos anos no Maranhão entre comunidades mais tradicionais / rurais ou assentamentos e grandes empreendimentos, podemos citar o caso do Vinhais Velho com a Via Expressa, a comunidade da Prainha e o

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prolongamento da Avenida Litorânea e mais recentemente, a ampliação do Porto do Itaqui e o impasse com a comunidade do Cajueiro. Famílias que vivem da pesca, da

criação de animais, da agricultura familiar e da extração vegetal passam cada dia mais

a não ter espaço nas cidades frente ao vigente modelo de urbanização e até mesmo

a imaculada linha tênue entre urbano e rural se torna extremamente ameaçada.

O cenário não é muito animador, porém as iniciativas positivas existem apesar

de algumas não conseguirem avançar. Em 2013, o IAB promoveu um concurso para o projeto de uma Ecovila na área da Prainha e apresentou esta solução para o

impasse entre moradores e o poder público. Diante do caráter ecológico, equilibrado ambientalmente, fortalecedor social e de baixo custo e impacto, as ecovilas podem existir em áreas de preservação, em florestas, reservas e a própria existência delas vem a funcionar como melhor instrumento de controle, gestão e proteção das mesmas. Pequenos produtores e posseiros rurais de assentamentos do Estado e do INCRA, de áreas de abrangência dos programas Crédito Fundiário, Cédula da Terra

e Terra Legal e de Comunidades Quilombolas aparecem como beneficiários desde

2013 no projeto Maranhão Sustentável, em parceria com o fundo da Amazônia. Ao todo são 31 municípios assistidos com R$ 20.849.000,00 de verba. O projeto pretende regularizar propriedades, conscientizar a população sobre práticas sustentáveis e investir no combate ao desmatamento. Infelizmente até agora o projeto só cumpriu 29% dos resultados prometidos, o prazo de execução total era de apenas 30 meses (2,5 anos), segundo o apresentado no site do Fundo da Amazônia. Verba como esta poderia ser direcionada a projetos que incentivassem

comunidades maranhenses, a se tornarem ecovilas, incentivando o cultivo e a produção artesanal e inserindo as mesmas nas técnicas de bioconstruçao. Técnicas que muitas das vezes são bem conhecidas porem executadas em caráter rudimentar, como é o caso das casas de taipa no interior do estado.

O Maranhão não possui nenhuma ecovila reconhecida, isto se consideramos a

presença de algumas características como fator primordial para este título. Permacultura, bioconstruçao, reaproveitamento de resíduos e valorização cultural aparecem pontualmente e de maneira tímida em assentamentos e comunidades. O Tibá pontua a Regional Maranhão como uma comunidade ENA (Rede Nacional de Ecovilas) Brasil, entretanto as informações a respeito dela são quase inexistentes e esta não se encontra registrada como ecovila na rede global.

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Em compensação a representatividade maranhense em fóruns, encontros, seminários e reuniões relacionadas à ecohabitação no Brasil e no mundo existe, o que mostra que as ecovilas são um modelo reconhecido para o estado e que falta muito pouco para que diversas comunidades já consolidadas se tornem ecovilas sustentáveis e ecologicamente sadias.

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3 METODOLOGIA

O processo metodológico se iniciou por meio de levantamento bibliográfico em:

livros, cartilhas, artigos científicos e legislações, com o intuito de estudar sobre o conceito de sustentabilidade, tecnologias construtivas de baixo custo e impacto, e arquitetura ecológica referenciando-os no contexto global, maranhense e contemporâneo, a partir destes os referenciais teóricos para a concepção do estudo preliminar da ecovila foram definidos. Após, houve a pesquisa de exemplos de arquitetura ecológica e soluções urbanas sustentáveis como: ecovilas existentes, construções “com terra”, utilização local de potenciais energéticos renováveis, entre outros exemplos. Com o objetivo de conhecer os instrumentos arquitetônicos mais adequados e de menor impacto para as condições de clima, solo e relevo maranhense. Estas referências projetuais ajudaram a desenhar o programa de necessidades do modelo de habitação ecológica apresentado. Foram realizadas algumas visitas à prefeitura de Paço do Lumiar a fim de encontrar um terreno potencial para este tipo de empreendimento junto à secretaria de infraestrutura. A busca pelo terreno de implantação também resultou no estudo de mapeamentos e in loco de áreas em São Luís e em São José de Ribamar. Mais pesquisas sobre comunidades habitacionais, eco-desenvolvimento, sustentabilidade, permacultura e educação cultural foram necessárias para moldar o perfil e o programa de necessidades deste estudo preliminar para a implantação de uma ecovila no Maranhão. Os estudos relacionados à ventilação, implantação dos edifícios no relevo existente, fluxogramas, aproveitamento dos materiais construtivos locais, croquis e esquemas fizeram parte do desenvolvimento deste estudo preliminar. Por fim, para o modelo habitacional além dos já citados foram desenvolvidos estudos volumétricos, plantas e maquetes eletrônicas a fim de eleger materiais e tipologias adequadas até concepção final da proposta.

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4 CONCEITO

4.1 REFERENCIAS PROJETUAIS

Ao desenvolver o estudo preliminar para a implantação de ecovila no Maranhão, alguns projetos existentes serviram de referencial. No modelo habitacional as referências foram tipologias avarandadas que pudessem permitir uma melhor circulação dos ventos em função do clima quente que predomina no estado, mas que também utilizassem materiais baratos, facilmente encontrados e técnicas de construções mais rápidas ou já comumente utilizadas na região. Como é o caso da taipa.

Para a proposta da ecovila em si, o principal parâmetro foi internacional. As

ecovilas brasileiras ainda estão caminhando para uma grande expressividade no país

e no mundo, as mais consolidadas estão presentes em regiões cujo solo e clima

divergem muito do encontrado no Maranhão. Portanto partiu-se da escala macro, com

a maior ecovila registrada no planeta até uma ecovila de dimensões mais reduzidas,

em solo sul-americano, e com uma realidade mais próxima do que viria a ser uma ecovila implantada no estado. A intenção das referências projetuais é ajudar na definição de um programa de necessidades tanto para o modelo habitacional quanto para a ecovila que seja harmônico com a arquitetura ecológica local e com a expressão sustentável, cultural e ecológica que as ecovilas desempenham no mundo.

4.1.1 MODELO HABITACIONAL

As casas referência estudadas para a criação de um modelo habitacional ecológico foram várias, algumas de caráter apenas sustentável, seja na utilização de materiais construtivos, seja no reuso da água, outras com uma pegada ecológica muito mais marcante e o aproveitamento máximo dos recursos locais. As habitações que mais influenciaram este projeto foram duas:

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a. CASA CUBIERTA MÉXICO

Arquitetura social levando o nome da associação civil Comunidad Vivex e construída em caráter de cooperação entre a família moradora, colegas e amigos. A execução dos 52 m² levaram quatro anos para serem edificados (2011-2015). O tempo largo se deu em função da disponibilidade que os familiares tinham para se dedicar a construção, geralmente 1 ou 2 dias por semana. Isto também é influenciado pelo fluxo de doações de materiais e recursos recebidos.

pelo fluxo de doações de materiais e recursos recebidos. Figura 5 - Maquete, Planta Baixa e

Figura 5 - Maquete, Planta Baixa e Fachada Principal da Casa Cubierta. Fonte: (http://www.archdaily.com.br/).

Na planta baixa, o pátio interno com pérgola e um piso permeável em pedra

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triturada, à separação nítida em dois blocos, sobre o bloco social se propõe uma coberta que se estende até o bloco intimo gerando uma cobertura que une as duas partes da habitação com a finalidade de melhorar o espaço interior comum proporcionando um isolamento térmico a base de vazios e correntes naturais de ar, gerar a captação da água da chuva para seu reuso. Custo total de R$ 20.000 (90.500 pesos mexicanos).

b. CASA MODERNISTA CAIPIRA BRASIL

Este é o projeto de habitação da Catuçaba Ecovila, em São Paulo. Construída com 197 m² em terreno acidentado sobre pilotis para maior aproveitamento da vista e integração com o ambiente. A estrutura é toda de madeira laminada certificada desenvolvida de maneira modular especialmente para esta construção, além de também possuir dois muros laterais edificados com adobe feito com terra proveniente do terreno. Os caixilhos recebem vidro duplo intercalado com vidro simples para maior conforto térmico e eficiência energética. As paredes dos dormitórios e banheiros são de wood-frame com isolamento termo acústico de lã de garrafa PET. Painéis móveis com toras finas de eucalipto que funcionarão como filtros de luz e calor na fachada de maior insolação. A produção de energia da casa é efetuada através de painéis térmicos e fotovoltaicos na cobertura além de uma pequena turbina eólica O fogão a lenha, clássico caipira, usual para o aquecimento da casa complementa o projeto premiado.

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33 Figura 6 - Layout Casa Moderna Caipira Fonte: (http://www.casasdecatucaba.com.br/). 4.1.2 ECOVILA As principais

Figura 6 - Layout Casa Moderna Caipira Fonte: (http://www.casasdecatucaba.com.br/).

4.1.2 ECOVILA

As principais ecovilas que serviram de referência para a proposta final deste estudo preliminar já foram comentadas no capítulo sobre ecovilas no Brasil, porém algumas internacionais apresentadas abaixo, também foram de suma importância para a definição do programa de necessidades deste projeto.

a. AUROVILLE ÍNDIA

A baía de Bengala, onde se encontra essa ecovila é uma região com escassez de água, clima seco e altos índices de miséria e fome, porem desde 1968 quando foi iniciado o crescimento da pequena comunidade resultou em uma ecocidade com 2.000 pessoas em 90 assentamentos ocupando 3.000 acres. A Auroville já plantou cerca de dois milhões de arvores nativas, é composta por doze fazendas, 24 escolas experimentais e mais de cem negócios na área artesanal

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sendo um instrumento forte no combate aos problemas sociais da região, sendo assim reconhecida pela UNESCO como comunidade internacional. O aspecto religioso e cultural da índia se faz presente nas edificações, na ecovila existe um centro de cura, um programa de artes marciais, um centro de estudos indianos, um centro de idiomas, incluindo o Sânscrito e um laboratório de pesquisas de transformação da consciência (JACKSON & SVENSSON, 2002, p.111).

da consciência (JACKSON & SVENSSON, 2002, p.111). Figura 7 - Vista Aérea da Auroville Fonte:

Figura 7 - Vista Aérea da Auroville Fonte: (www.auroville.org).

b. FUNDAÇÃO FINDHORN ESCÓCIA

Implantada há mais de 30 anos, é pioneira sendo considerada comunidade ecológica modelo pelas Nações Unidas. Com uma população atual de 500 moradores de várias nacionalidades e constante fluxo de visitantes, a ecovila cultiva 60 % de todo o alimento consumido por ela além de produzir 27% de toda a energia elétrica utilizada (FINDHORN, 2002). São 27 edificações ecológicas na comunidade, exemplos no desenvolvimento tecnológico de bioconstruçao com materiais locais como a madeira, o feno, a argila, a lã, entre outros e principalmente na reutilização de materiais construtivos não usuais nas edificações: barris de Whisky, típicos da Escócia.

c. HUEHUECOYOTL MÉXICO

Em menor escala comparada com as outras referências e mais próxima do

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perfil inicial de uma ecovila implantada no Maranhão. Fundada em 1982 por artistas mambembes contém atualmente cerca de 20 moradores, mas o voluntariado, a permacultura e a cooperação agregam dezenas de outros membros a ecovila. A origem no teatro móvel compõe a essência cultural da comunidade que promove cursos de arte e possui membros que ainda viajam em Caravana.

4.2 CONCEPÇÃO DA ECOVILA

4.2.1 PROGRAMA DE NECESSIDADES

As ecovilas apresentadas como referencial projetual possuem determinados serviços e edifícios em comum: um núcleo educacional seja para ser usado em oficinas, práticas religiosas ou para o ensino das técnicas de bioconstrução; um alojamento, para abrigar voluntários e visitantes (este aspecto é de extrema importância para a característica cooperativa das ecovilas); uma área para cultivo em sistema de permacultura; um refeitório comunitário; etc. A partir destes denominadores comuns o quadro abaixo define o programa de necessidades da ecovila deste estudo preliminar:

 

EDIFÍCIO 1

ITEM

AMBIENTE

UNIDADE

ÁREA (M²)

TOTAL

1

QUARTO

3 (12 A 24 CAMAS)

21,30

 

ALOJAMENTO

2

REFEITÓRIO

1

110,70

COMUNITÁRIO

3

COZINHA

1

22,80

COMUNITÁRIA

438,10

4

BANHEIRO

4

5,90 (2)

10,40(2)

5

LAVANDERIA

1

32,85

6

SALAS EDUCACIONAIS

4

20,15 (3)

39,60 (1)

36

7

PÁTIO COBERTO

1

117,80

 
 

EDIFÍCIO 2

9

BANHEIROS

2

10,00

450,80

10

PÁTIO COBERTO

1

440,80

 

COMERCIAL

 

11

LOJA

8

20,60

 

12

ARMAZÉM

1

120,70

2.450,00

13

ÁREA DE CULTIVO

1

2.309,00

 

RESIDENCIAL

 

14

RESIDÊNCIA

17

77,00

2.584,00

15

ESTACIONAMENTO

68 (VAGAS)

18,75

Figura 08 Programa de Necessidades Ecovila Fonte: Autoria própria.

4.2.2 TERRENO

O terreno para esta implantação de uma ecovila no Maranhão, em caráter de estudo preliminar, está localizado no município de São José de Ribamar em uma localidade conhecida como Vila Piçarreira. Possui 42.670 m² e face norte voltada para um corredor primário, a MA-201 (Estrada de Ribamar).

para um corredor primário, a MA-201 (Estrada de Ribamar). Figura 09 - Terreno para Implantação Fonte:

Figura 09 - Terreno para Implantação Fonte: Autoria própria.

Segundo o Plano Diretor Participativo do município, encontra-se na Zona Residencial 8. Esta margeada por uma Zona Industrial de Produção de Alimentos e uma Zona Rural. Nas proximidades há alguns loteamentos residenciais, galpões comerciais, uma igreja e um parque aquático.

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37 Figura 10 – Zoneamento do Terreno para Implantação Fonte: Autoria própria. Quanto à topografia a

Figura 10 Zoneamento do Terreno para Implantação Fonte: Autoria própria.

Quanto à topografia a área tem cinco cotas de níveis variando de 39 m a 43 m com 1m de diferença entre elas. A leste, o terreno tem a maior altitude e vai declinando a oeste.

o terreno tem a maior altitude e vai declinando a oeste. Figura 11 – Topografia do

Figura 11 Topografia do Terreno para Implantação Fonte: Autoria própria.

4.3 PROPOSTA ECOVILA (ESTUDO PRELIMINAR)

4.3.1 SETORIZAÇÃO

A implantação de todos os edifícios, bem como dos demais equipamentos urbanos necessários a esta ecovila baseiam-se na integração com a natureza existente, interferindo o menor possível nas curvas naturais e tomando vantagem da

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iluminação e ventilação natural. Na porção de cota mais baixas ao sudoeste e que receberá o escoamento natural das aguas pluviais foi previsto três cisternas venezianas, e um pequeno lago de captação. Nas cotas mais baixas também estão áreas próprias para cultivo, em caráter de permacultura, assim como um edifício para armazenamento destes alimentos, de maneira a aproveitar o potencial mercado que está margeado por uma Zona Industrial de Produção de Alimentos possa ocasionar. O trecho leste do terreno possui as duas maiores cotas em latitude (42 m, 43 m) e acesso a Estrada de Ribamar, este foi reservado para uma possível ampliação da ecovila e poderá ter áreas destinadas ao poder público para a construção de escolas, hospitais ou até mesmo para a futura edificação destes pelos próprios moradores da ecovila. Para a implantação dos principais edifícios e das residências, a faixa central do terreno foi utilizada mantendo assim um nível um pouco mais elevado destes em relação às áreas de plantio e de reuso das águas.

em relação às áreas de plantio e de reuso das águas. Figura 12 – Setorização Ecovila

Figura 12 Setorização Ecovila Fonte: autoria própria.

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4.3.2 VIAS E PAVIMENTAÇÃO

a. VIAS PRINCIPAIS

O terreno destinado à implantação deste estudo preliminar possui cinco cotas diferentes, a fim de impactar o menos possível o relevo e ainda assim vencer os desníveis de um metro de uma cota à seguinte, as vias principais seguem sempre que possível as curvas de nível dentro do projeto. Três grandes vias de mão dupla (8 metros) cruzam a ecovila. O asfalto, tipo de pavimentação comumente utilizado em grandes vias impermeabiliza o solo, dificultando o escoamento de águas pluviais e exigindo um grande trabalho de drenagem urbana. Características semelhantes também são notadas no uso do concreto em estacionamentos. Uma solução mais ecológica para a pavimentação de vias destinadas ao tráfego de veículos são os blocos de concreto do tipo intertravado, rejuntados com materiais permeáveis, blocos vazados preenchidos com grama, asfalto poroso ou concreto poroso. Estes não retêm calor, as cores claras garantem maior visibilidade noturna (economia de energia na iluminação), não exigem mão de obra especializada para a instalação ou manutenção, permitem a absorção da água das chuvas pelo solo e são extremamente duráveis, por isso, também são mais econômicos.

duráveis, por isso, também são mais econômicos. Figura 13 – Pisograma S Modelo Max Líder Fonte:

Figura 13 Pisograma S Modelo Max Líder Fonte: www.maxlider.com.br.

Possuem grande variedade de cores e formatos, para a pavimentação das vias principais a opção escolhida foi o Pisograma “S”. São necessárias 21 peças por m² e

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o índice de permeabilidade do mesmo é de 80%, para garantir o tráfego de ônibus e

eventuais veículos mais pesados foi especificada uma espessura de 8 cm.

do Lago Azul, um condomínio sustentável em Pium, região metropolitana de Natal tem pavimentado 10 mil m² com igual modelo (o Parque Carlos Botelho em São Paulo apresenta 30 km pavimentados com outro modelo de piso intertravado e é a maior obra brasileira de pavimentação ecológica).

O Veredas

b.

CALÇAMENTO

O piso intertravado permite uma vasta variedade de composições devido aos diferentes formatos e cores. Assim para as calçadas o colorido dos blocos retangulares favorece uma paginação dinâmica além de garantir com tons claros uma boa visibilidade do trajeto durante todo o dia. Por não reterem calor, ajudam no conforto térmico do pedestre além da característica antiaderente, impossibilitando um piso escorregadio mesmo durante chuvas. Devido às cargas serem menores nas calçadas, neste caso a espessura do bloco especificada é de 6 cm.

5 EDIFICAÇÕES

5.1 PROPOSTA MODELO HABITACIONAL

Os lotes para a construção do modelo habitacional ecológico sugerido não aparecem demarcados explicitamente no terreno, nas ecovilas o individualismo dá lugar ao coletivo. Portanto, cercar ou murar estas propriedades é um equívoco que caminha na direção contraria ao que uma ecovila representa. Ainda assim se faz necessário salientar uma área que permita uma possível ampliação das residências mesmo que não claramente delimitada. Para tal um afastamento com 5 m livres de cada fachada foi respeitado. Ao todo a proposta da ecovila abriga 17 residências ecológicas do modelo

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habitacional proposto, cada modelo foi desenvolvido para uma família de quatro pessoas. A acessibilidade do projeto se reafirma pelos acessos rampeados, vencendo o desnível do terreno para o piso da residência acima do baldrame de pedra.

5.1.1 PROGRAMA DE NECESSIDADES

O número de pessoas por família no Maranhão que reside em domicilio particular segundo o senso do BDE em 2013 é de 3,4. Sendo assim uma casa com dois quartos de boas dimensões pode abrigar quatro moradores e atender este perfil. A utilização dos familiares como mão de obra e o baixo custo para construir também facilitam uma possível ampliação em casos de a família aumentar. As áreas sociais precisam ser representativas no projeto, uma vez que este tipo de comunidade nutre forte vínculo social com os vizinhos, até mesmo pela característica cooperativa da construção, áreas de estar e de integração são indispensáveis nesta habitação. A cozinha, a lavanderia e o banheiro são os cômodos que mais geram gastos neste projeto em função das instalações hidro sanitárias, portanto se optou por um layout com apenas um banheiro e próximo às demais áreas molhadas. O programa de necessidades do modelo habitacional proposto se desenhou da seguinte maneira:

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42 Figura 14 - Programa de Necessidades do Modelo Habitacional Fonte: Autoria própria. 5.1.2 VENTILAÇÃO E

Figura 14 - Programa de Necessidades do Modelo Habitacional Fonte: Autoria própria.

5.1.2 VENTILAÇÃO E INSOLAÇÃO

O modelo habitacional foi orientado a nordeste. No Maranhão, ventos a leste e nordeste são predominantes, logo permitir que a ventilação seja cruzada seguindo esta orientação, ajuda a garantir um melhor conforto térmico, uma vez que a zona de transição em que o estado se encontra do clima semiárido para o clima úmido equatorial registra altas temperaturas.

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43 Figura 15 - Estudo de Ventilação e Insolação Fonte: Autoria própria. Quanto à insolação, os

Figura 15 - Estudo de Ventilação e Insolação Fonte: Autoria própria.

Quanto à insolação, os quartos foram voltados para a nascente a fim de evitar o aquecimento das paredes, estas pela própria escolha do material de que são feitas (terra) e pela espessura funcionam como isolante térmico mantendo a casa mais fresca. As fachadas noroeste e sudoeste, com maior insolação, possuem o mínimo de aberturas possível.

5.1.3 FUNDAÇÃO

A boa durabilidade de uma casa construída com terra requer fundações acima do piso, uma vez que a taipa não é muito resistente exposta a água e a umidade, por isto optou-se por construir uma sapata corrida abaixo de toda a extensão das paredes feita de pedras e concreto magro com 40 cm de altura mínimo acima do nível do solo. Abaixo deste nível as alturas serão variáveis em função do relevo.

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44 Figura 16 - Detalhe da Fundação no Modelo 3D Fonte: Autoria própria. 5.1.4 PAREDES diferentes

Figura 16 - Detalhe da Fundação no Modelo 3D Fonte: Autoria própria.

5.1.4 PAREDES

diferentes

construtivas aproveitando assim o máximo das vantagens de cada uma.

As

paredes

do

modelo

foram

concebidas

com

a. TAIPA DE PILÃO/ PISÉ

tecnologias

Técnica construtiva tradicional que consiste na compressão da terra com um pilão ou com os pés, conhecida também como pisé, as paredes principais da residência modelo para a ecovila são em taipa de pilão. O material confere um bom isolamento térmico e um resfriamento natural do ambiente em função da espessura das paredes, neste caso de 40 cm. Essa espessura garante característica estrutural a parede em uma habitação térrea, pode se fazer um reforço com tela de galinheiro dentro das formas se caso a cobertura for muito pesada e apoiada diretamente sobre as paredes. A casa foi toda modulada internamente para o tamanho padrão de comprimento de uma folha de compensado, 2,20 m e a metade dessa dimensão.

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45 Figura 17 - Montagem das Formas para o Pisé Fonte: (EASTON, 1990, p.). Para preencher

Figura 17 - Montagem das Formas para o Pisé Fonte: (EASTON, 1990, p.).

Para preencher a dimensão externa da casa há a necessidade de uma parede de 40x40 cm, essa parede funciona como referência na hora da elevação das paredes, sendo a primeira a ser construída, e a sobra de compensado da sua construção deverá ser usada para produzir os moldes usados na fabricação dos tijolos de adobe. As formas para as paredes utilizam duas placas de compensado de 20 mm, alturas de 1,15 m e 1,60 m. O que confere o pé direito de 2,75 m. Para os fechamentos laterais são usadas duas placas de compensado finas e espaçadores formam a largura de 40 cm necessária para que a casa térrea não precise utilizar armaduras ou pilares adicionais.

b. TIJOLO ECOLÓGICO/ SOLOCIMENTO

Composto com uma mistura de água, solo e um pouco de cimento, a principal vantagem do tijolo de solocimento é a característica modular (dimensão inteira, meia e canto) com vãos internos que permitem a passagem das tubulações elétricas e hidráulicas sem quebras e evitando resíduos na obra. Torna-se ecológico pela redução do consumo de energia na fabricação já que o mesmo não necessita de queima. Ele também não necessita de revestimento, pode ficar aparente além de ser possível apoia-lo diretamente no solo. Se recomenda o mesmo até em baldrames e sapatas corridas. Neste modelo habitacional, foram usados tijolos com as dimensões apresentadas na imagem abaixo, e suas modulações, em todas as paredes que

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necessitam a passagem de instalações hidráulicas além das paredes de apoio do telhado, que estão expostas a umidade e as intempéries.

do telhado, que estão expostas a umidade e as intempéries. Figura 18 - Dimensões do Tijolo

Figura 18 - Dimensões do Tijolo Ecológico Fonte: (http://www.tijolosolocimento.com.br/).

c. TIJOLO DE ADOBE

A taipa de pilão não pode ser facilmente executada em cima dos vãos das janelas e das portas, já que os caixilhos de madeira tendem a não suportar o peso da terra compactada sobre eles. Este limitador fez com que o adobe se apresentasse como material a cumprir essa função, pois além de ser executado na obra usando praticamente a mesma matéria prima das paredes principais é mais leve podendo ser modulado com as mesmas dimensões do tijolo de solocimento fazendo assim uma composição com o mesmo conforme a necessidade. A terra para a fabricação dos adobes deve ser testada, muito negra (gordurosa) ou branca (arenosa) não serve a mesma também não pode ter odor de mofo. Os testes de sedimentação, contração e tira são os mais usuais para saber se a terra é adequada para a fabricação, entretanto o traço 4-8 / 4/ 4 de areia, argila e água, respectivamente, resulta em uma terra apropriada.

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A parede que une a sala e o pátio interno da casa é composta por cobogós que permitem a circulação do ar livremente pelos ambientes, além de propiciar a integração visual dos dois espaços. A opção escolhida foi o mais comum de 35 cm x 35 cm feito em cimento, porém diversos modelos podem ser fabricados na comunidade utilizando formas e a mesma terra usada na fabricação do adobe. Ou então a partir de tijolos cônicos dispostos de diversas maneiras.

a partir de tijolos cônicos dispostos de diversas maneiras. Figura 19 - Muros decorativos Fonte: (LENGEN,

Figura 19 - Muros decorativos Fonte: (LENGEN, 2004, p.).

Outra parede que serve de elemento decorativo no pátio central da casa e melhora a iluminação do banheiro foi feita com garrafas de vidro assentadas no cimento conferindo um visual diferente, quase um vitral a casa, aproveitando um material que iria para o lixo. As garrafas também podem ser colocadas dentro dos adobes no momento de fabricação destes.

que iria para o lixo. As garrafas também podem ser colocadas dentro dos adobes no momento

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Figura 20 - Face Externa da Parede de Garrafas Fonte: (http://planetasustentavel.abril.com.br/).

5.1.5 BANHEIRO SECO

São três as principais vantagens neste tipo de banheiro, por não utilizar água na descarga e sim uma mistura de materiais secos visando a compostagem ou desidratação dos resíduos, ele economiza água, impacta menos o meio ambiente e ainda transforma os dejetos em fertilizante natural. Neste projeto, diferente do que normalmente é feito, o banheiro seco faz parte do layout da casa ao invés de aparecer como um bloco separado no terreno. Algumas problemáticas justificam essa separação do banheiro seco do restante da casa:

possibilidade de mau cheiro, atrativo para insetos e a altura necessária para o armazenamento dos dejetos funcionar. A fim de solucionar estas questões e manter o banheiro seco com um perfil mais integrado a habitação garantindo acessibilidade e conforto o modelo da caixa de armazenamento utilizado será de concreto, pois a vedação neste material é maior do que a obtida com os tijolos de adobe. No próprio vaso há um segregador de urina para homens e mulheres, e as águas são conduzidas para a rega de plantas.

e as águas são conduzidas para a rega de plantas. Figura 21 - Esquema do Banheiro

Figura 21 - Esquema do Banheiro Seco e do Segregador de Urina Fonte: (ABREU et al., 2014, p.).

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O passo a passo do sanitário Bason é descrito no Boletim Técnico n 9 Privada

Seca Composteira do Creative Commons. Essa cartilha foi desenvolvida para o projeto Iguatu que construiu diversos banheiros secos no estado do Paraná. Este modelo, segundo Peter Van Lengen, pode ficar dentro da casa e ter seu deposito colado à fundação. Composto por duas caixas que recebem os dejetos. Há uma inclinação nas

caixas de 30 graus com o chão para facilitar o escorrimento das fezes e do pó de serra para a parte traseira da caixa. Na parte de trás, o piso é plano. A estrutura toda tem 1,40 m de comprimento, 1,20 m de largura e 1,15 m de altura, cada tanque com capacidade para 3 meses de uso em uma família de 5 pessoas, o composto leva 6 meses para poder ser utilizado como adubo, por isso a necessidade de dois tanques. Por último uma chaminé de cano PVC permite que o gás metano possa escapar e que

o gás oxigênio possa entrar nos tanques e ajudar na decomposição dos dejetos.

5.1.6 PISO

São três os tipos de piso especificados neste projeto em conformidade com a atividade desenvolvida em cada cômodo:

a.

BAMBU TRANÇADO

O

bambu é um material flexível, de crescimento rápido e que não precisa ser

reflorestado se extraído da maneira correta. É facilmente encontrado no Maranhão. Para o piso do pátio interno da casa, o bambu trançado confere o visual rustico. Em

um piso tipo esteira, parte-se o tronco de bambu e retiram-se os nós do seu interior. Depois, abrem-se os bambus e deixa-se secar com um peso em cima para que fiquem estirados. Usam-se várias placas inteiras amarradas umas nas outras. Também é possível fazer ripas de 3 cm e trança-las formando distintos desenhos no piso. A madeira em climas quentes é atrativa para cupins, portanto é necessário além de não

a assentar diretamente sobre o solo, o tratamento da mesma com vernizes e demais

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produtos que garantam a durabilidade do material. Existem várias receitas caseiras e ecológicas para este processo.

várias receitas caseiras e ecológicas para este processo. Figura 22 - Bambu Trançado Fonte: (LENGEN, 2004,

Figura 22 - Bambu Trançado Fonte: (LENGEN, 2004, p.).

b. LAJOTAS

Para os pisos dos quartos e da sala de estar integrada a cozinha a escolha foi o uso de lajotas. Este material é mais fresco, não aloja insetos e pode ser limpo com água, pois não estraga em contato com a umidade. Também, pode ser fabricado na obra a partir de formas preenchidas com concreto ou solocimento, ou adquirido de fabricantes locais que ainda o produzem de maneira artesanal até mesmo com argila levada ao forno.

de maneira artesanal até mesmo com argila levada ao forno. Figura 23 - Assentamento das Lajotas

Figura 23 - Assentamento das Lajotas Fonte: (LENGEN, 2004, p.).

c. CACOS DE CERÂMICA

Os banheiros são áreas molhadas e por isto geralmente possuem revestimento

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cerâmico. Nos entulhos gerados em obras, reformas e demolições encontram-se cacos de cerâmica, uma vez que este material costuma quebrar bastante durante o transporte e manuseio. Aproveita-los é transformar resíduo em recurso. Os mosaicos possíveis são os mais variados e coloridos e as propriedades do piso ficam bem similares as dos feitos com a cerâmica inteira. Portanto este foi o piso especificado para o banheiro do modelo ecológico.

5.1.7 COBERTURAS

a. TELHA DE GARRAFA PET

O pátio interno da residência tem um aspecto avarandado, propiciado

principalmente pela transparência das telhas da cobertura que protegem do sol e da chuva deixando a iluminação natural penetrar o ambiente. Esta cobertura apresenta pouca durabilidade, porém seu ínfimo custo, fácil manutenção e construção compensa

a utilização/reposição das telhas quando necessário.

Cada m² utiliza de 14 a 18 garrafas aproximadamente, dependendo da abertura que se dá a cada telha. Para fixar estas nas ripas são usados pregos bem pequenos

e as distancias entre as ripas não deve exceder 2 m. Na extremidade do beiral a

colocação de uma calha de PVC conectada em um tonel ou caixa d’agua permite a captação das aguas pluviais para reuso.

em um tonel ou caixa d’agua permite a captação das aguas pluviais para reuso. Figura 24

Figura 24 - Montagem das Telhas

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Fonte: (www.ecodesenvolvimento.org).

b. TELHADO VERDE

Para proteger a estrutura principal da casa a solução escolhida foi o telhado verde, essa cobertura compõe duas das três aguas totais do telhado. A estrutura escolhida é composta de ripas e caibros em madeira, painéis de OSB (material feito com sobras de madeira e resina) que funcionam como um forro no interior dos cômodos e ao mesmo tempo serve de suporte para o peso da placa vegetada utilizada, uma manta impermeabilizante logo acima do OSB e as placas vegetadas dispostas sobre ela. O tamanho do beiral superior a 90 cm garante a proteção das paredes de taipa do contato direto com a água da chuva. A inclinação do telhado com 30% favorece a drenagem da água pluvial pelas placas. Cada m² de placa (modelo comercial) encharcada por uma hora pesa 70 kg, o OSB com espessura de 11 mm já suporta os mesmos 70 kg. Por margem de segurança o projeto dimensiona placas de 15 mm, o que suporta em torno de uns 85 kg. Alguns sistemas para telhado verde são mais leves e chegam a pesar o mesmo que um telhado cerâmico convencional (50 kg/ m²).

o mesmo que um telhado cerâmico convencional (50 kg/ m²). Figura 25 - Detalhe do Telhado

Figura 25 - Detalhe do Telhado Verde no Modelo 3D Fonte: Autoria própria.

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A parte mais elevada da casa, a torre onde se encontra a caixa d’ agua acima do banheiro, se configura o local ideal para a colocação de painéis solares. O modelo construído com garrafas pet tem como função principal funcionar como aquecedor para o chuveiro e a torneira da cozinha. O projeto da habitação comporta dois painéis com 60 garrafas cada um, em uma inclinação de 18,5 graus (15º de inclinação mais 2,58º de latitude) que faz referência à radiação solar local. Cada m² do sistema tem autonomia para aquecer o equivalente ao consumo de 1 adulto, cada placa deste projeto tem cerca de 2,5 m² e são montadas através de um processo simples. As garrafas são cortadas de forma que se encaixem perfeitamente umas nas outras, em fileiras de seis garrafas. Dentro das mesmas, embalagens de leite longa vida pintadas de preto (para absorver o calor) se localizam logo abaixo do cano de PVC de 1/2″ também pintado de preto, por onde a água circula.

1/2″ também pintado de preto, por onde a água circula. Figura 26 - José Alcino, Criador

Figura 26 - José Alcino, Criador do Painel Solar de Pet. Fonte: (Fonte: http://blogreciclalixo.blogspot.com.br/).

5.1.8 REVESTIMENTOS

Todas as paredes nas suas faces externas, dando para as fachadas, serão revestidas com argamassa de argila, uma mistura de terra, água e argila que pode assumir diferentes tonalidades a partir do solo utilizado na fabricação. As paredes dos quartos também serão coloridas. As construídas com tijolo de solocimento terão o mesmo aparente, sem revestimento. O mesmo vai acontecer com o adobe e a taipa nas faces internas da sala e da cozinha.

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54 Figura 27 - Mortero de Arcilla, em exposição do BAM. Fonte: Autoria própria. Já os

Figura 27 - Mortero de Arcilla, em exposição do BAM. Fonte: Autoria própria.

Já os cobogós de cimento serão pintados usando tinta natural. Para fazer uma lata de 3,6 litros se utiliza 6 kg de terra argilosa, 10 litros de água, 1 kg de cola branca e pigmentos como açafrão ou urucum para obter a cor desejada.

como açafrão ou urucum para obter a cor desejada. Figura 28 – Modelo Habitacional Ecológico 3D

Figura 28 Modelo Habitacional Ecológico 3D Fonte: Autoria própria.

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55 Figura 29 – Detalhe 3D do Pátio Interno da Habitação Ecológica Fonte: Autoria própria. Figura

Figura 29 Detalhe 3D do Pátio Interno da Habitação Ecológica Fonte: Autoria própria.

Interno da Habitação Ecológica Fonte: Autoria própria. Figura 30 – Modelo Habitacional 3D Fachada Sudeste

Figura 30 Modelo Habitacional 3D Fachada Sudeste

Fonte: Autoria própria.

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56 Figura 31 – Modelo Habitacional Vista 3D Fonte: Autoria própria. 5.2 OUTRAS EDIFICAÇÕES a. EDIFÍCIO

Figura 31 Modelo Habitacional Vista 3D Fonte: Autoria própria.

5.2 OUTRAS EDIFICAÇÕES

a. EDIFÍCIO 1

O caráter cooperativo das ecovilas constitui-se uma das premissas fundamentais para seu funcionamento harmonioso com o meio ambiente e com os vizinhos estabelecendo o sentimento de pertencimento da comunidade com o local onde reside e muitas das vezes até inibindo problemas sociais como falta de segurança e violência, uma vez que uma comunidade de conhecidos está mais atenta a comportamentos suspeitos. Construído todo no térreo, usando a mesma modulação do modelo habitacional: paredes em taipa de pilão com 40 cm de espessura elevadas também 40 cm do solo acima de um baldrame feito em pedra, modulares de 2,20 m /1,10 m/ 0.40 m. Para os banheiros e demais áreas necessitadas de instalação hidráulica,foi utilizado o tijolo de solo-cimento (0,25 m X 0,12 m) e no preenchimento dos vãos de portas e janelas, o adobe com as mesmas dimensões do tijolo. A planta baixa do edifício 1 comporta três quartos destinados a alojar visitantes

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e/ou voluntários da ecovila, cada quarto com capacidade para quatro camas ou quatro beliches, podendo juntos abrigar até 24 pessoas. Um refeitório, uma cozinha comunitária e uma lavanderia foram concebidos para atender estas pessoas e as demais que utilizarem uma das três salas destinadas às oficinas ou a sala de uso misto. Por fim, quatro banheiros secos com sanitário Bason atendem o edifício, dois destes com ducha para banheiro voltado para as saídas dos quartos.

b. EDIFÍCIO 2

A referência brasileira mais forte em matéria de arquitetura ecológica é indígena. Em um estado tão rural como o Maranhão ignorar esta referência seria um erro, a população indígena soma 12.238 habitantes distribuídos em 1.908.89 hectares, 86% desta área já demarcada pela Fundação Nacional do Índio (http://www.portalamazonia.com.br/secao/amazoniadeaz, acessado em junho de

2016).

O edifício 2 desta proposta é uma grande área social, que pode ser usada para

eventos, reuniões, oficinas etc. O conceito é de um grande pátio que simula um tipo de oca usualmente construída em aldeias Ianomâmi.

A estrutura é circular com dois tipos de pilares, o de maior altura feito com tijolo

ecológico e preenchido no seu interior com concreto armado, e o de menor altura construído com toras de madeira. Para a cobertura, a palha de carnaúba (palmeira típica maranhense) entrelaçada com franjas que funcionam como beiral garante a

proteção da chuva.

A oca Ianomâmi possui um terreiro central usualmente utilizado para danças e

rituais, essa característica se mantém neste projeto, a planta baixa contém ainda dois banheiros secos construídos em tijolo ecológico contendo o sanitário Bason.

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58 Figura 32 – Aldeia Ianomâmi Fonte: (http://pt.slideshare.net/liladonato/sistemas-construtivos-

Figura 32 Aldeia Ianomâmi Fonte: (http://pt.slideshare.net/liladonato/sistemas-construtivos- tradicionais-no-brasil-arquitetura-indigena).

b. LOJAS

Quatro blocos contendo duas lojas dotadas de um banheiro seco cada uma pretendem fomentar a atividade econômica dentro da ecovila. O objetivo é que estas sejam usadas para a venda de produtos confeccionados localmente. A tecnologia construtiva utilizada mantém o padrão modular da taipa de pilão utilizado nos demais edifícios e o uso do tijolo ecológico nas paredes das áreas molhadas.

c. ÁREA DE ESTACIONAMENTO

Geralmente as ecovilas não são pensadas para veículos pessoais, o ideal é que as distâncias sejam reduzidas permitindo que os trajetos possam ser feitos a pé ou em veículos não motorizados favorecendo assim a mobilidade, a acessibilidade e a permeabilidade viária. Em conformidade com esse princípio, esta proposta apresenta dois grandes estacionamentos para automóveis de passeio, ônibus de caravanas, trailers e demais

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veículos motorizados que comportam vagas para todas as residências (1 carro por família), para as lojas, mais a capacidade máxima do alojamento (24 pessoas). Essa solução reduz a circulação de veículos dentro da ecovila sem ignorar ou excluir a existência dos mesmos.

e. ÁREA DE CULTIVO PERMACULTURA.

As ecovilas surgiram como um meio de habitar que pudesse por em pratica um estilo de vida compatível com os ideais da permacultura. Logo, não se pode conceber uma ecovila sem uma área de manejo e cultivo. Justo esta característica é uma das principais responsáveis pelo caráter sustentável da vila, uma agricultura sadia, livre de agrotóxicos, comunitária e respeitadora da capacidade de produção do solo. Para o armazenamento dos alimentos produzidos nesta área de cultivo foi construído um armazém adjunto e um banheiro seco.

f. CAPTAÇÃO DAS ÁGUAS PLUVIAIS

As edificações propostas para esta ecovila possuem em sua maioria como cobertura o telhado verde composto por placa vegetada, esta já capta grande parte das aguas pluviais para o crescimento das espécies vegetais cultivadas nela. Porém devidos às dimensões da ecovila faz-se necessário uma captação maior a fim de obter um melhor reuso deste recurso natural. O modelo de tanque para a captação utilizado nesta proposta denomina-se cisterna veneziana. Este, não precisa ser conectado as calhas dos telhados e pode ser instalado em pátios, gramados e similares. Trata-se de uma cisterna construída abaixo do solo com paredes inclinadas que permitam o escoamento das aguas que passam entre paralelepípedos dispostos de maneira espaçada sobre este mesmo solo.

Desta maneira, mantendo duas cisternas na parte do terreno com o nível mais baixo, há garantia de escoamento e armazenagem das aguas pluviais. O conjunto da cisterna conta também com uma bomba manual.

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60 Figura 33 – Cisterna Veneziana em Corte Fonte: (LENGEN, 2004, p.). g. RECICLAGEM DO LIXO

Figura 33 Cisterna Veneziana em Corte Fonte: (LENGEN, 2004, p.).

g. RECICLAGEM DO LIXO

Na planta baixa deste estudo preliminar para a implantação de uma ecovila no Maranhão foi destinada uma área para a reciclagem do lixo. Não se trata de um edifício com serviços específicos, porém de um espaço em que o mesmo possa ser selecionado e manejado até mesmo nos próprios tanques usuais de coleta de lixo. Posteriormente conforme a ampliação da ecovila e das formas de reciclagem adotadas por ela (móveis, acessórios ou materiais de construção) esse espaço poderá abrigar de fato uma edificação ou funcionar como um dos ecopontos que a prefeitura de São Luís vem implantando na cidade.

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61 h. ÁREA DE AMPLIAÇÃO Figura 34 – Ecoponto São Luís Fonte: (www.oimparcial.com.br) As ecovilas não

h. ÁREA DE AMPLIAÇÃO

Figura 34 Ecoponto São Luís Fonte: (www.oimparcial.com.br)

As ecovilas não seguem um loteamento padrão, logo alguns ônus urbanísticos comuns a este em uma zona residencial não se tornam obrigatórios: destinação de áreas ao poder público, porcentagem mínima de vias e de áreas verdes etc. Legalmente, as ecovilas se assemelham com um condomínio residencial, porém com a vantagem da permeabilidade total da malha viária e do tecido urbano, devido à ausência de muros e a forte troca social. Em uma vila ecológica encontra-se uma vasta cobertura vegetal e alguns serviços geralmente fornecidos pelo poder público como, escolas e ambulatórios são construídos e gestados pela própria comunidade. Conforme o crescimento da ecovila e a necessidade destes serviços estes edifícios serão construídos, da mesma maneira que novas famílias necessitarão construir suas residências. Pensando nesta real possibilidade foi reservada uma área para futura ampliação dentro do terreno.

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(1˚ PRANCHA)

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(2˚ PRANCHA)

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(3˚ PRANCHA)

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(4˚ PRANCHA)

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(5˚ PRANCHA)

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(6˚ PRANCHA)

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(7˚ PRANCHA)

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CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Este trabalho final de graduação, foi desenvolvido na área de projeto de arquitetura, quando foi almejado apresentar uma proposta de uma vila ecológica ambientada no Maranhão, visando à implementação de um modelo habitacional ecologicamente sadio e sustentável diante da carência destes no estado.

Compreender a dinâmica funcional da ecovilas e tecnologias bio-construtivas adequadas para cada elemento projetual, bem como identificar parâmetros de acessibilidade, constituem etapas fundamentais para este estudo preliminar. Por meio desse levantamento de dados e análise dos mesmos, e baseando-se nos princípios da permacultura; posse da terra e governo comunitário, saúde e bem- estar (físico e espiritual), educação e cultura, ética e princípios de design, ferramentas e tecnologias, manejo da terra e da natureza, economias e finanças, foi elaborada a proposta final.

Proposta esta que utiliza quase que em sua totalidade técnicas construtivas tradicionais (taipa de pilão, madeira trançada, adobe, cobertura em palha) em uma clara referência a tribos indígenas, comunidades quilombolas e rurais, populações que mesmo atualmente ainda constroem e vivem de maneira consciente e integrada a natureza, tendo suas delimitações ameaçadas diariamente pelo modelo desequilibrado ecologicamente de urbanização atual.

Atualizar estas técnicas tão antigas e moderniza-las em uma arquitetura contemporânea, porém com forte pegada ecológica transformando-as em tecnologias bio-construtivas, configura o maior desafio cumprido neste trabalho. Durante os anos de faculdade sempre me inquietou a impermeabilidade do tecido urbano, a arquitetura de escalas deslocadas da realidade humana, os espaços áridos de concreto que em nada favorecem a troca social, a forma sem função.

Voltar às origens construtivas e redescobrir a partir de tal uma arquitetura feita para as pessoas, acessível, sustentável, ecológica e funcional motivou a presente proposta de uma ecovila implantada no Maranhão para o trabalho de conclusão de curso.

Tenho com este trabalho, um desejo interno de ser a cidade. Responsável direta pela mudança nos caminhos que esta urbanização tem tomado dentro do

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estado, me tornando uma profissional compromissada com o meio ambiente, a qualidade de vida das pessoas, o coletivo, a acessibilidade, valorizando a cultura e os recursos locais e defendendo a implantação e a criação de ecovilas como modelo habitacional viável tanto na esfera rural ,quanto na urbana. Por fim, nutro a vontade que a proposta final apresentada aqui possa ser referência para implantações reais e que ela própria possa ser edificada no futuro.

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