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Parapsicologia – Uma perspectiva crítica *

Mário Simões
Licenciado em Antropologia e Medicina
Psiquiatra – Professor de Psiquiatria da FML

Sumário

O autor define a Parapsicologia como uma disciplina científica e explicita alguns dos
seus fenómenos. Tece reflexões críticas sobre a fenomenologia dita anómala ou "psi" e
conclui pela existência insofismável daquela, continuando por explicar, na sua totalidade,
como se processam e para que servem. Alguns dados sobre estes aspectos são
descritos e discutidos.

LIMMIT – Laboratório Interação Mente-Matéria com Intenção Terapêutica

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*Manuscrito revisto e ampliado da Conferência proferida na Sociedade de Ciências
Médicas de Lisboa, em 23.03.1001, comentada pelos Profs. Doutores Luis Sobrinho e
Alexandre Castro Caldas.

Parapsicologia – Uma perspectiva crítica

Mário Simões
Licenciado em Antropologia e Medicina
Psiquiatra – Professor de Psiquiatria da FML

Introdução

Numa obra recente, editada em Espanha, com vinte e três edições - Guia Prático de
Psicologia (Vigésima terceira edição!) - de Vallejo-Naguera (2000), com milhões de
leitores, escrevia-se, entre outras considerações, que o tema "Parapsicologia" era
polémico e escabroso. Estes dois termos pressupõem, que o tema em análise não é
pacífico e merece uma reflexão crítica.

Para um mínimo de conhecimento de algo deve existir um envolvimento, seja pela sua
prática seja pela dedicação ao seu estudo crítico. Não existindo a profissão de
parapsicólogo, pois são profissionais de outras áreas (físicos, psicólogos, sociólogos,
etc.), que se dedicam ao tema, também não é pela leitura de literatura especializada,
que alguém se transforma num profissional dessa área. Por exemplo, não é lendo um
jornal, que se "fica" jornalista ou por estar na bancada de um campo de futebol, que se
"fica" futebolista. Serve esta introdução para corrigir o que jocosamente alguns designam
por parapsicólogos, parapsiquiatras ou parasociólogos - os profissionais de outras áreas
que se dedicam ao estudo deste tipo de fenómenos.

O tema é polémico porque atrai as atenções de alguns intelectuais, dos media, do


público em geral e presta-se ao charlatanismo. Este último aspecto torna, a priori, o tema
suspeito aos olhos da comunidade científica. As revistas de divulgação de temas
científicos, não revistas de caracter científico, abordam estes três aspectos em
simultâneo (científico, divulgação e charlatanismo), o que faz evocar nos três tipos de
público referidos, opiniões que vão do "sério" (científico) ao "falso" e ainda de interesse
apenas para "idiotas". São estes aspectos simultaneos que podem explicar a
denominação do tema como "escabroso". Segundo Vallejo-Naguera (2000) existe um
psicoboom, com feiras sobre este assunto, onde, realmente, se faz de idiota, se faz
charlatanismo, sendo a parapsicologia tratada a este nível e, por isso, seria escabroso,
de um ponto de vista científico, pegar em temas destes para os levar para os
laboratórios, ou mesmo apenas dedicar tempo ao seu estudo…

Na verdade, este assunto tem sido estudado, desde há muito, de um ponto de vista
científico. Talvez não de início, com uma metodologia científica standardizada tal como
actualmente, mas há mais de cem anos, que a Society of Psychical Research
(www.spr.ac.uk) se dedica ao estudo destes assuntos e, pode dizer-se que, a sua revista
oficial tem um elevado nível científico, com peer review crítico em relação à metodologia.

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Uma outra sociedade mais recente, americana – Society for Scientific Exploration
(www.scientificexploration.org) - tem-se dedicado a publicações nesta área – nos últimos
vinte anos, com um nível altamente elevado e outras publicações e instituições,
respectivamente, começam a aceitar artigos ou a apoiar investigação sobre estes temas.
Alguns livros de texto de Psicologia recomendam sites na net tais como
http://www.ed.ac.uk/~ejua35/parapsy.htm e http://www.psiresearch.org/para1.html para uma
primeira abordagem ao tema (Hayes, 2000). Começa, pois, a ser algo que merece o
interesse da Ciência.

Um exemplo deste interesse é traduzido num outro livro de texto de Psicologia, utilizado
amplamente nos Estados Unidos da América – Hilgard's Introduction to Psychology - de
Atkinson et al (1996), um clássico da psicologia com mais de vinte anos, com várias
edições, que dedica a este assunto, vinte páginas. É um contraste, por exemplo, com os
livros recentes de Psiquiatria, onde, na última edição, nem uma única entrada tem para a
palavra Parapsicologia, enquanto que há vinte anos, lhe era dedicado um capítulo de
cerca de oito páginas. Talvez não signifique desinteresse, mas tão só que o
parapsicológico não seja um assunto paranormal, no sentido de doença. Seria sobretudo
do domínio da psicologia, isto é de sujeitos normais, que têm outro tipo de capacidades e
por isso cabem melhor num livro de Psicologia do que num livro de Psiquiatria. Um livro
de texto, universitário, mais recente, de 2000, “Foundations of Psychology" (Hayes, 2000)
dedica vinte e cinco páginas ao tema, num capítulo intitulado “Consciência e seus
Estados Modificados ou Alterados”; no qual se abordam assuntos como a meditação,
hipnose e os fenómenos Psi.

Em Portugal, a Fundação Bial, tem sido a única instituição, que tem dado apoio ao
desenvolvimento e investigação nesta área. Trata-se de um apoio substancial, pois
recentemente, num curso sobre Métodos de Investigação e Ciência, na Faculdade de
Medicina de Lisboa, um quadro apresentando o dinheiro que era dado para diferentes
áreas de Investigação, mostrava que a Fundação Bial ultrapassava em subsídios para a
parapsicologia e psicofisiologia qualquer outra área e era com uma certa estranheza, que
o comentador dessa sessão dizia: “Como é possível dar tanto dinheiro para a área da
Parapsicologia?”. Talvez não seja de estranhar se se souber, que a Fundação Sony deu
já muito mais, quatro ou cinco vezes mais para investigação nesta área e que a própria
CIA dispendeu milhões de dólares com o mesmo objectivo. Um estudo recente sobre o
conteúdo de artigos em relação com os temas da parapsicologia, na base de dados de
caracter médico MEDLINE, mostrava como o número de artigos nesta área tinha crescido
significativamente entre 1987 e 1993 (Fassbender, 1993).

Um site da Internet, que se recomenda, para acesso a informação séria sobre a


fenomenologia, sociedades, fundações, homepages ou estudos da área da
parapsicologia é o seguinte: http://users.ox.ac.uk/~shil0124/serious/paranormal.html.

Definições - Parapsicologia e Fenómenos Psi

Que é então a Parapsicologia? Uma definição plausível e em progresso seria: disciplina


científica, que estuda fenómenos da experiência humana e animal (fenómenos PSI,
"anómalos", excepcionais) nos quais parecem existir interacções - processos de troca de

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informação e ou energia cinética, entre aqueles entre si ou com objectos - não
correntemente explicáveis dentro dos paradigmas habituais de tempo, espaço e energias
conhecidas.

Trata-se de uma disciplina científica, mas ainda não de uma ciência, pois, apesar de
utilizar as regras do método científico, ainda não possui um método próprio, que cada
Ciência usa. Naturalmente, possui um objecto próprio. Por outro lado o seu objecto não
se refere apenas a fenómenos de experiência humana denominados fenómenos “psi
anómalos”, mas também animal. A expressão surge entre aspas pois não corresponde à
lógica e paradigmas Kantiano e Newtoniano, colocando-se para além do que é o
princípio da causalidade, da sequência temporal e da contradição e não se inscreve em
paradigmas estrita e fisicamente orientados. São, por isso, duplamente excepcionais, por
um lado, porque só raramente se verificam, por outro porque não têm uma explicação de
acordo com os paradigmas acima referidos. Parece tratar-se de interacções, melhor,
processos de troca de informação ou energia de tipo cinético entre humanos entre si e ou
animais ou com objectos. Dentro do estudo da Parapsicologia cabem, também,
interacções entre seres humanos e objectos, não convenientemente explicadas pelos
paradigmas habituais, que incluem o tempo, espaço e energias conhecidas. Quais são,
então, os fenómenos que a Parapsicologia estuda? Estuda três categorias de fenómenos
- Psi-Gama, Psi-Kappa e Psi-Teta. Entre os Psi-Gama incluem-se os fenómenos de
Telepatia, Clarividência e Précognição; entre os Psi-Kappa os fenómenos de
Telequinésia - Micro e Macro - ex. RSPK (recurrent spontaneous psychokynesis),
"poltergeist" (espírito barulhento), DMILS (distant mental influence in living systems) -
estas siglas, traduzem a denominação anglo-saxónica e respectiva fenomenologia e
serão explicitadas adiante e os Psi-Teta, tais como experiências fora do corpo (OBE - out
of body, em inglês), experiências próximas da morte (NDE - near-death-experience, em
inglês) e, recentemente, fenomenologia ligada à hipótese, melhor, teoria dos
renascimentos sucessivos.

A Telepatia é, de todos, aquele com a maior visibilidade mediática e social e define-se


como a troca de informação não explicável por meios habituais. A Clarividência define-se
como a capacidade de visualizar, à distância, objectos, seres, situações, mapas ou
instalações militares, sem recurso a qualquer meio físico. Este aspecto mereceu o
interesse de agências de espionagem, nomeadamente da CIA e da ex-KGB, tendo
aquelas agências feito experiências interessantes neste campo. A Précognição configura
algo de estranho, pois consiste na capacidade de antecipar o que se passa no futuro,
naturalmente, ainda antes de ter sucedido. Esta situação pode ser exemplificada na
parte final de um artigo publicado no Journal of the Society of Psychical Research
(Schwartz et al, 2001). Trata-se, em resumo, do caso de uma pessoa, que previu que iria
encontrar outra, totalmente desconhecida, numa sessão de investigação e levou um
presente para ela. Aquele presente seria reconhecido pela pessoa, dadas as conotações
afectivas que evocaria, em relação com um parente próximo falecido recentemente.
Compra esse presente ainda antes de saber que iria encontrar essa pessoa e esta, na
realidade, reconhece um significado íntimo e idiosincrático ligado ao objecto. Excluiu-se,
naturalmente, a possibilidade de fraude, que será abordada posteriormente.

Psi-Kappa é a capacidade, que humanos e animais possuem de interferir, a um nível


microscópico ou macroscópico, com objectos. O nível do macroscópico é o que tem tido
maior visualização, sobretudo no cinema e TV, através de filmes sobre fenomenologia

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Poltergeist, cuja palavra alemã designa um “espírito ruídoso”, que bate, que dá
pancadas, que é capaz de produzir fenómenos tão estranhos, como parapirogenia –
eclosão espontânea de fogo. Outro tipo, macroscópico, de fenómenos é designado pela
sigla DMILS (Distant Mental Influence on Living Systems) - quer dizer, a possibilidade do
ser humano actuar, à distancia, sobre sistemas vivos, através da mente, sem outros
meios físicos. É a palavra-sigla moderna para utilizar nesse tipo de acção.

A OBE (Out-of-Body-Experience, em inglês) - experiência fora do corpo – e também a


NDE (Near-Death-Experience, em inglês) - ou experiência próxima da morte passaram a
ser objecto da Parapsicologia Científica. Ultimamente, também nesta área da
Tanatologia, começou a haver um interesse na chamada comunicação entre pessoas a
quem faleceram, recentemente, familiares, e mediuns – é a palavra utilizada em língua
inglesa e em português também, embora talvez seja melhor designar por pessoas em
transe mediúnico (em inglês, channeling), pois se trata de um estado de consciência –
em que estes tentavam receber comunicações dos entes falecidos (ADC, After-Death
Communication, em inglês) e que seriam validadas pelas pessoas presentes, a posteriori.
Note-se que as pessoas em estudo apenas se conheceram nesse mesmo dia e
permaneceram em contacto por breves instantes. O nível de acertos oscilou entre os
77% e 83%, enquanto os controlos acertavam uma média de 36% (Schwartz et al, 2001).
Estes autores eliminaram a possibilidade de fraude, erro, coincidência estatística e
consideram hipóteses explicativas, que incluem a telepatia, informação obtida de modo
paranormal e a sobrevida após a morte.

A Telepatia é definida como a capacidade de transmissão ou transferência de informação


sem utilizar meios físicos. A Clarividência consiste em ter acesso a informação, que se
encontra a longa distância. A Psicoquinese consiste em influenciar sitemas físicos ou
orgânicos à distancia, sem utilização de meios físicos da qual seria exemplo, a cura à
distancia. A Clarividência pode ser exemplificada num trabalho de Edwin May (1999),
que fez investigação para a CIA e nesse trabalho mostra como uma pessoa situada
algures enviaria a informação visualizada no lugar para outra, a quilómetros de distancia.
Esta outra deveria desenhar o que "sentia" que lhe era "transmitido", procedendo-se,
posteriormente, à verificação dos resultados, que foram altamente significativos.

A situação de Psicoquinese torna-se, ainda, mais estranha, quando se verifica em relação


a máquinas programadas para serem aleatórias. Parece um paradoxo falar de programas
de aleatorização (alguns preferem falar de pseudoaleatorização), mas existem,
realmente, pequenas máquinas, que têm um gerador de números ao acaso e esses
números geram trajectórias, também ao acaso, num plano, que são registadas
graficamente. Exemplo deste tipo de máquinas é um robot, denominado ticoscópio. Este,
se estiver junto de uma pessoa a dormir, passa a deslocar-se, preferencialmente, de
modo estatisticamente significativo, perto dessa pessoa. Fizeram-se várias experiências
para testar se existe um padrão, o que foi o caso (Peoc'h, 1997). Mais estranho ainda, é,
quando este robot, que circula ao acaso, se coloca junto de pintaínhos, pois estes
"atraem" significativamente o ticoscópio para perto de si (Peoc'h, 1997). É como se
houvesse uma interacção (psicocinética, de outro tipo?) entre esses pintos e esse robot
que se desloca ao acaso.

Os fenómenos DMILS - a influência mental à distancia sobre os sistemas vivos –


começaram a ser estudados pela Parapsicologia, mas também pela Medicina e outras

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Ciências da Saúde. Será possível fazer cura à distância, naturalmente, fazendo apelo à
fé? Há alguma evidência surpreendente recente e publicada em livro (Plante & Sherman,
2001). Mais estranhos são os casos de cura obtidos por curadores no Brasil, sem
assepsia nem anestesia, e analisados em livro pelo professor de antropologia Greenfield
(1999) e que se inscrevem na fenomenologia DMILS.

Como ilustração das experiências fora do corpo e das experiências de quase morte refira-
se um quadro de Bosch, do tempo do Renascimento, e que teria sido pintado por ele,
porque ele próprio teria tido uma experiência semelhante ou alguém lha descreveu.
Durante uma anestesia ou em situação de morte clínica, por vezes, a pessoa "sai" fora
do corpo, vendo-se de cima, estendido na cama. Estas situações começaram a ser
relatadas, sobretudo, em jornais de enfermagem ou trabalhos nesta área (Dias, 1995)
mas também de cirurgia. Uma revisão extensa do assunto encontra-se em Simões (1998)
sendo referenciados por este autor, artigos publicados, por exemplo, no British Journal of
Psychiatry, British Journal of Medicine ou Journal of Royal Society of Medicine.

Uma NDE pode descrever-se resumidamente: A pessoa vê o seu corpo de cima; pode
relatar, no final da operação conversas que ouviu; deslocar-se a longa distância "fora do
corpo"; em situação de morte eminente imaginada ou real surgem experiências no limiar
da morte em que apareceriam personagens angelicais ou outras já falecidas, que as
conduziriam para uma luz que se vê ao longe e, após um "julgamento" e "apêlo
emocional" dos familiares, regressariam. Trata-se, naturalmente, de uma descrição muito
sucinta e por isso se remete para Simões (1998), neste livro.

Têm sido objecto de várias publicações, recentemente, casuísticas que referem como
plausível a hipótese de reencarnação ou renascimentos sucessivos, na sequência da
clássica investigação sobre o tema, de Stevenson (1974). Prefere-se, actualmente, a
designação de renascimentos sucessivos, pois se considera, que o novo ser não é uma
"cópia" ou continuação de uma personalidade falecida. Tem individualidade própria,
embora se admita que exista uma expressão parcial da personalidade prévia e é por isso,
que mesmo em culturas onde a crença é comum, que as crianças são tratadas como tal,
embora possam ser "reencarnações" de seres muito evoluídos ou de grande prestígio. A
evidência científica desta hipótese tem sido baseada não só em sinais, marcas ou
defeitos congénitos de nascença, comuns à personalidade falecida (Stevenson, 1997)
mas também de mémórias cognitivas e comportamentais (Pasricha, 2001).

Cientistas e Fenomenologia Psi

Perante a diversidade e fenomenologia qual é a atitude que os cientistas tomam perante


os mesmos? São uma possibilidade ou existem como realidade? Em inquéritos
realizados recentemente (96-99), professores universitários consideram que este tipo de
fenómeno é possível e sentiram mesmo a necessidade de se pronunciar em livro
(Roberts & Groome, 2001), não só sobre a possibilidade de se manifestarem, como
também sobre a sua realidade. De acordo com alguns inquéritos (Wagner e Monet, 1979;
Blackmore, 1997) e em termos de possibilidade de existência dos fenómenos, apurou-se
a seguinte distribuição: Universitários 70%; Ciências Sociais 66%; Ciências Exactas 55%;
Humanidades/ Arte 77%; Psicólogos 34%. São os psicólogos os mais renitentes em
aceitar os fenómenos, eventualmente porque possuem explicações mais psicológicas,

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psicodinâmicas, inclusivamente recorrendo à psicopatologia para os explicar, como
ilusão, alucinação, etc.

De um ponto de vista anedótico, do dia a dia, estes fenómenos, sucedem a todos,


espontaneamente, só que essas situações não chegam para provar o fenómeno. Assim
nasceu a investigação, primeiramente na Universidade de Duke, EUA, em laboratórios
desenvolvidos pelo casal Rhine. Este utilizou, de início, o que chamava “métodos simples
e incontroversos" para estudar este tipo de fenomenologia e desenvolveu estudos com
as famosas cartas Zehner, nome de um dos seus colaboradores. Aquelas, constituídas
por símbolos como estrelas, quadrados, círculos, linhas paralelas, são hoje apenas um
símbolo da Parapsicologia. Na prática já não são usadas, pois são consideradas
bastante limitantes, em termos do que hoje se faz em termos de telepatia e clarividência
a grande distancia, tal como já evocado. O estudo laboratorial evoluiu de tal modo, que
hoje se fazem estudos sofisticados de laboratório, sobretudo os chamados de ganzfeld.

Estudos de Ganzfeld

Ganzfeld significa um campo experimental uno e fechado no seu conjunto, no qual a


pessoa se encontra numa situação de privação sensorial. E, para obter isso, por
exemplo, o sujeito é colocado sentado confortavelmente, com duas meias bolas de ping-
pong sobre os olhos, com uma luz ambiente vermelha, numa câmara insonorizada e
tenta captar imagens "enviadas" por uma pessoa, que as vê numa tela onde, se
projectam imagens sorteadas ao acaso. Nem o "receptor", nem o "emissor" ou mesmo o
investigador conhecem quais as imagens, que irão surgir na tela. O "receptor" descreve
ou desenha o que capta. Após um procedimento estatístico complexo sabe-se a
probabilidade de acertos. Em regra, espera-se uma probabilidade de acerto de 25% (um
acerto em quatro imagens "enviadas"), mas conseguem-se acertos de 38% (Radin,
1997). Segundo este autor a probabilidade de se verificar este nível de acertos é de uma
para um milhão.

Por outro lado verificou-se, que nestas situações de ganzfeld, estes fenómenos, ditos
Psi, se manifestam mais regularmente em estados de relaxação, sono, hipnose e de
deprivação sensorial, isto é, estados onde a consciência fica modificada em relação ao
estado de vigília (Simões, 1997a) e nos quais a "atmosfera motivacional" (Psi-conducive)
contribui para a sua manifestação. Essa atmosfera motivacional consiste num ambiente
agradável (setting), um acolhimento caloroso das pessoas e uma vontade de sucesso na
experiência.

Após algumas experiências que testaram estas varíáveis, chegou-se à conclusão, que
existem certas pessoas (sujeitos e investigadores), que terão sempre um desvio negativo
porque não estão predispostas para aceitar o fenómeno Psi. É como se houvesse uma
influência do sobre o fenómeno a ser observado. Estudos de Harris e Rosenthal (1988) e
de Morris et al (1993) têm demonstrado esse aspecto e têm replicado, que o investigador
é susceptível de influenciar o fenómeno. Algo semelhante ao que se conhece da Física
Quântica, isto é, que o observador interfere com o próprio fenómeno.

Reflexões Críticas

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Algumas reflexões críticas perante o exposto foram já abordadas, em parte, por Simões
(1997a) e são, sobretudo, relacionadas com a replicação e ou com a previsibilidade dos
resultados. Note-se, no entanto, que a previsibilidade, em algumas ciências, é baixa ou
irregular, como por exemplo a meteorologia. Considera-se que ambos os aspectos
referidos fazem parte das condições científicas, pelo menos em termos de “ciências
exactas”. Ora, as pessoas (e fenómenos a elas associados) não conseguem replicar a
cem por cento em laboratório o que tinham feito ou tinham dito antes e também não se
pode prever, com segurança, o que se vai verificar. Trata-se de uma situação semelhante
ao dos estudos com placebo. Prevê-se que o placebo não tenha efeitos secundários e,
na verdade, surgem, por vezes, mais efeitos secundários no placebo, que no produto
activo (Moerman, 1981). Ou ainda, também semelhantes às situações ligadas a reacções
imprevisíveis em situações do dia-a-dia, sendo exemplo disso os programas de TV, do
tipo da "câmara escondida". No fundo, a imprevisibilidade é uma característica do ser
humano "normal", pois se se tratar de um paciente, com uma síndroma caracterizada, as
suas reações tornam-se previsíveis em certos contextos. Ora, se a imprevisibilidade é
uma observação vulgar quotidiana, mais difícil se torna ser previsível numa situação onde
as experiências são ditas duplamente excepcionais - pela sua raridade contextual e pela
produção ligada a pessoas, elas também de "excepção" (Lucadou, 1990). Por outro lado
exige-se duplamente - por um lado que se utilize o método científico das ciências
exactas, por outro que os resultados sejam incontroversos (replicáveis e previsíveis a cem
por cento), o que nem as ciências ditas humanas e sociais exigem, ficando-se por uma
margem de exclusão do acaso para uma probabilidade de erro menor que 0.05 por
cento.

Sabe-se, por outro lado, que as capacidades excepcionais não têm elevado nível de
consistência. É do conhecimento geral que um futebolista, um atleta ou mesmo um
jogador de xadrez excepcionais não podem ter sempre performances excepcionais.
Campeões de xadrez, perdem, às vezes, em campeonatos simultâneos com
principiantes. Portanto, não só estas faculdades já são consideradas excepcionais como
também se encontram associadas a pessoas de excepção - são contextos duplamente
excepcionais. Assim, dado que não apresentam elevado nível de consistência no tempo,
tem de se entrar em linha de conta com a força do efeito a estudar.

Ao estudar-se um efeito mede-se a sua manifestação. Um exemplo clássico, que também


se pode aplicar à parapsicologia é o da “aspirina”, que hoje é considerado um standard
como agente anti-agregante plaquetário. Na realidade, com centenas de pessoas
estudadas o seu efeito não era visível e este só surgiu quando o número de sujeitos
aumentou para vinte mil, chegando-se, então, à conclusão, pela estatística dos grandes
números, que valia a pena prescrever a “aspirina” (SCPHSR, 1988).

Não só os aspectos já apontados reflectem alguma dificuldade no estudo destes


fenómenos como a própria natureza deles dificulta a sua abordagem. São, com certeza,
fenómenos da consciência, que até a própria literatura do dia-a-dia, capa de uma “Time”,
se lhes refere como evanescentes. Então estuda-se algo em laboratório, que até o
comum das pessoas sabe que é evanescente, isto é, está e logo desaparece e, quando
se tenta captá-lo, parece que se afasta mais. Os cientistas lidam com algo difícil, ainda,
de provar insofismavelmente em laboratório.

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Este tipo de dificuldades leva a que autores, como por exemplo James Randi (1986), um
autor dedicado às “artes mágicas” e de palco – muito conhecido na América – escreva
livros, artigos e edite mesmo uma revista - Skeptical Enquirer - em que tenta demonstrar,
com truques práticos, que o fenómeno parapsicológico não existe, e que tudo não
passaria de fraude. Ele chega mesmo a oferecer um milhão de dólares a quem, nas
condições que ele propõe, seja capaz de produzir psicoquinese à frente dele. Pode
argumentar-se, pela contrária, que nas condições propostas pelos investigadores do
fenómeno PSI, quando ele se verifica, também Randi não conseguiria executar a
simulação daqueles, por meio de truques. Algumas condições de reprodutibilidade já
foram tratadas e outras serão analisadas adiante.

Outra crítica que se coloca em relação à Parapsicologia é a ausência de controlos, isto é,


um design de investigação com grupos de controlo, ou, mais desejável, com estudos de
caracter "duplamente cego" (em que até o próprio investigador desconhece o correlato
com o fenómeno a observar). Acontece, que num estudo recente de Sheldrake (1998)
sobre publicações científicas e a existência deste tipo de exigência, este chega à
conclusão, que apenas cerca de 5% das publicações das ciências exactas o fazem e,
inesperadamente, é a psicologia, medicina e especialmente a parapsicologia, que
chegam a apresentar cerca de 87% dos experimentos com caracter duplamente cego.
Ora, sabe-se hoje, que em certo tipo de fenómenos, sobretudo da magnitude da física
quântica e até das ciências sociais, que o próprio observador influencia os resultados.
Seria interessante proceder a uma experiência, tal como propõe Sheldrake (1998), que
diferentes investigadores no mesmo laboratório, na mesma experiência, anotassem os
resultados e os comparassem.

Também deve ser tida em conta a possibilidade de fraude e, portanto, que qualquer
equipe que faça investigação nesta área deva possuir na sua constituição um “mágico de
palco”. Estes têm contribuído para a clarificação nesta área, excluindo, naturalmente a
fraude ou simulação (Randi, 1986; Wiseman, 2001). Deve excluir-se, ainda, a
possibilidade de explicação pelo acaso ou pelo cálculo de probabilidades, isto é, que não
se trate de uma coincidência. Esta deve distinguir-se da sincronicidade, conceito
cunhado por Jung (1952) e, no contexto deste artigo, definida como uma coincidência de
estados de consciência entre um emissor e receptor ou entre o estado de consciência
daquele e a matéria (Moisset, 1993), caso, p.ex., da psicoquinese. Neste sentido poderá
dizer-se que a palavra sincronicidade traduz uma coincidência de algo acausal entre si,
mas que no entanto apresenta um sentido ou intenção comum, que une os aspectos em
presença. Restam, por fim, explicações mais psicológicas para os fenómenos anómalos
tais como ilusão, imaginação e alucinação ou, ainda, que o facto de se ter acesso a uma
determinada informação não passará de uma criptomnésia - memória antiga real,
escondida, profundamente na mente e que num momento especial se evoca. Uma
hipótese que deve ser mencionada - super-psi - supõe uma habilidade extraordinária da
parte de certos sujeitos para obter informação de qualquer modo e em qualquer
circunstância, remetendo o fenómeno para uma explicação hipoteticamente naturalista,
mas nada acrescentando sobre a sua natureza.

Devido a todas estas críticas os cientistas interessados no paranormal levaram os


fenómenos "anómalos" para o laboratório a fim de controlarem todas as variáveis
evocadas. Este cuidado não elimina os aspectos sociais, nomeadamente, a dita visão
social da realidade, altamente influenciada pelo consenso e importância social. Surgem

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perguntas, neste contexto, que remetem mesmo para aspectos da sociologia religiosa,
interrogando-se se este tipo de manifestações tem algo de divino. Diga-se, desde já, que
esta fenomenologia, embora descrita em personagens de cariz religioso ou espiritual,
nada tem de divino e muito menos serve para atestar do desenvolvimento espiritual de
alguém. Refere-se, frequentemente, que Einstein teria dito, que "Deus não joga aos
dados", para, com isso, significar ou evocar a suspeita, que este tipo de fenómenos terá
leis, ainda, desconhecidas pela ciência. Cientistas da física quântica tentam,
teoricamente, descortinar uma racionalidade no paranormal, considerando que este não é
excluído da Física (Shoup, 2002). Falta, talvez, ainda, descobri-la, conhecê-la sob a
forma de leis naturais, ainda desconhecidas. Retomando e reformulando Einstein poder-
se-ia dizer, que Deus joga aos dados mas influencia-os num determinado sentido. A
epistemologia da Ciência não passa apenas pelas ideias ou mudança de paradigmas
mas também pela falta de instrumentação necessária para detectar e medir os
fenómenos ou para detectar um outro tipo de “organização” ou fisiologia mais subtil do
nosso corpo. Sirva de exemplo Pasteur, a este propósito, quando descreveu micróbios só
visíveis ao microscópio e foi ridicularizado, na altura, por aqueles que ainda não tinham
acesso aquele objecto de observação, dizendo, em tom jocoso, tergiversando o Corão,
que “O micróbio é pequeno e Pasteur o seu profeta”.

Outro tipo de crítica refere que apenas os resultados positivos são publicados, sendo
conhecida por file-drawer (ficheiros, de resultados negativos, na gaveta), isto é, só se
publicariam os bons resultados enquanto os outros ficariam na gaveta. Na realidade
passa-se o contrário pois são os próprios jornais de parapsicologia que pedem relatos de
estudos com resultados negativos. Também a comunidade científica de parapsicologia
promove uma p esquisa ativa para verificar a não replicação e tenta saber de resultados
negativos em congressos. Ainda, neste caso, a meta-análise estatística permite calcular o
número de estudos não publicados, que anulariam o significado estatístico obtido pelos
estudos positivos. Para os 28 estudos de ganzfeld positivos teriam de existir 400 estudos
na gaveta, o que corresponderia a 12 000 sessões para invalidar o valor estatístico
daqueles, não podendo ser explicado o sucesso pelo file-drawer (Honorton, 1985),
havendo, neste aspeto, acordo entre autores oponentes (Hyman e Honorton, 1986).
Relatos pessoais de autores prestigiados têm demonstrado o contrário, isto é, resultados
positivos não são publicados com receio do ridículo na comunidade científica. Remetem-
se para o silêncio ou para uma explicação pelo acaso, que será outro nome para se
referir ao desconhecimento de "leis", que regem aqueles fenómenos. Uma outra
formulação poderia remeter para a verificação que o fenómeno Psi depende de outras
variáveis, físicas ou não (p.ex. as já mencionadas "psi-conducive"), que confluem, naquele
momento excepcional, para a sua manifestação.

Algumas destas críticas já tiveram as suas respostas, no entanto, as mais consistentes


em termos de demonstração do fenómeno psi e da sua reprodutibilidade, não explicada
em termos de acaso, vem da técnica estatística designada por meta-análise e pelos
estudos de ganzfeld. A meta-análise consiste em juntar vários estudos com pequena
casuística e proceder a um tratamento estatístico, depois, com grandes números.
Quando aplicada ao problema dos "ficheiros na gaveta" conclui-se que teria de haver
54.000 estudos para os 832 analisados e positivos, para invalidar o valor estatístico
(Nelson & Radin, 1987).

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A principal crítica científica ao fenómeno psi, admitida a sua possibilidade, é a sua fraca
reprodutibilidade em condições de controlo laboratorial (Schweizer, 1990) e já
parcialmente discutida. O fenómeno psi, p. ex. a telepatia ou a précognição, não pode
ser dependente nem do observador, nem da pessoa que o produz, seja porque ambos
acreditem (sheeps, na literatura anglo-saxónica) ou sejam descrentes (goats). O
fenómeno (o objecto da ciência) tem de existir por si e ser reproduzido nas condições,
que outros observadores descreveram. Entre as variáveis não físicas capazes de
influenciar a reprodutibilidade dos resultados, foram já detectadas algumas,
nomeadamente relacionadas com o sujeito e ou o experimentador. Existem correlatos
entre resultados e variáveis do sujeito e ou experimentador (sheep e goat) e ainda com o
setting. Citando vários autores, Hayes (2000) refere-se a variáveis susceptíveis de
aumentar a reprodutibilidade: 1. Atmosfera acolhedora do setting 2. Expectativa ou
motivação positiva do experimentador 3. Sujeitos que crêm no fenómeno (sheeps),
creativos ou praticantes de disciplinas espirituais. Perante estes dados verifica-se que
algumas pessoas (sujeitos e cientistas) são mais psi-conducive.

Em resumo, pode dizer-se que os resultados positivos não se devem ao acaso e fraude,
pois são desmentidos pelo cálculo estatístico e pela verificação de condições
experimentais em laboratório. No entanto o ceticismo continua, pois tem havido fraudes,
algumas não voluntárias, e que seria melhor designar por erros metodológicos e que têm
vindo a ser corrigidos. Por outro lado o ceticismo encontra-se ligado a um paradigma,
que considera estes fenómenos como "não podendo ocorrer" ou, na sua melhor
designação, como anómalos. Teria, pois, de haver uma mudança do paradigma da
realidade ou a admissão, que a lógica Kanteana (princípio da causalidade, sequência
temporal e contradição) e a física de Newton não se aplica a este tipo de fenómenos.

De um ponto de vista social o que se considera extraordinário e excecional depende da


familiaridade do fenómeno e, em consequência, o "paranormal", eventualmente, tenderá
a deixar de o ser.

Continua-se perante um enigma sobre o acontecer e qual o sentido dos fenómenos Psi
apesar da consistência dos muitos resultados observados. Cada vez mais se interpretam
no contexto dos diferentes estados de consciência (Simões, 1997a) e devem ser
entendidos, também, como possíveis portas abertas para a consciência (Caldas, 2000) e
para um modelo integrativo dos fenómenos conscientes, inconscientes, de placebo e Psi
(Simões, 1996).

Algumas reflexões como questões

Dada a natureza dos fenómenos Psi parece não existir uma localização da mente/ Self/
consciência, isto é, a sua manifestação não depende do cérebro ou de outra parte do
corpo (Radin, 1999). Seria, pois, de entender a informação recebida ou transmitida como
imersa num Universo, que se assemelharia a uma grande "sopa cósmica". Qualquer
ação num dos seus constituintes afetaria o todo e, embora em graus diferentes, a parte
conteria o todo da informação a veicular. Aquela "sopa" seria o suporte de um tipo de
comunicação/ informação diferente da captada pelos sentidos. Seria como se a
informação, por vezes com carga cinética, tivesse propriedades de uma "quinta essência"
- um plasma (quarto estado da matéria, simultaneamente com propriedades dos gases e

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líquidos) especial, também com algumas características, embora em quantidade ínfima,
do estado sólido. Seja permitida uma expressão lúdica, para melhor explicitar a natureza
dessa informação - tratar-se-ia de um "ar líquido, que momentâneamente, em certas
condições, solidificaria"…

Os fenómenos Psi surgem, preferencialmente, quando o contexto da sua manifestação é


o que se pode denominar de imersão em campos propiciatórios - setting (local físico e
atmosfera motivacional) e outras variáveis físicas (telúricas) ou não (dependentes do
sujeito e ou experimentador e até da sincronicidade) - confluentes para a sua
manifestação. Os relatos espontâneos e por vezes anedóticos destes fenómenos, no dia-
a-dia, podem fazer pensar numa certa facilidade da sua reprodutibilidade. No entanto,
esta, apenas se consegue em laboratório, em percentagem superior à explicada pelo
acaso, quando se têm em conta os tais "campos propiciatórios".

Perante o que se sabe, será de admitir, que os fenómenos "anómalos" testemunham leis
naturais, eventualmente universais, harmoniosas, ainda desconhecidas, pela inexistência
ou de um paradigma científico compreensivo e integrativo desta ordem de fenómenos ou
pela inexistência de instrumentação adequada para a sua explicação.

A Parapsicologia científica – a de laboratório – é uma disciplina científica, pois tem um


objecto próprio, utiliza metodologia científica, embora ainda não método próprio que lhe
permita uma reprodutibilidade análoga à das ciências exactas. Encontra-se,
naturalmente, em posição semelhante à das outras ciências humanas, que estudam a
natureza psico-emocional humana, psicologia inclusive (Bauer, 1992). Tem havido
aproximações teóricas da Parapsicologia ao estatuto das ciências exactas, sobretudo na
formulação de Tart (1975), que propõe uma ciência específica de estado de consciência.
Assim, a realidade que se vê, sente, palpa seria dependente do estado de consciência e,
de igual modo, por exemplo, o que seria considerado um sonho, em estado de vigília,
passaria a ser real quando imerso no sonho. Portanto, a realidade existente seria
dependente do estado de consciência. Este estado de consciência susceptível de
aumentar ou reproduzir essa "realidade" tem vindo a ser conseguido com recurso aos
estudos de ganzfeld.

Conclusões

Perante o acervo de informação disponível pode concluir-se, sucintamente, que existem


dados que apoiam a existência de fenómenos Psi e, atualmente teoriza-se sobre o modo
como surgem e qual o seu sentido no mundo atual, para a humanidade.

No entanto, o "cientificamente correto", segundo Hayes (2000) seria exprimir um juízo


reservado, cuidadoso e algum ceticismo, admitindo, no entanto que a Parapsicologia
merece, atualmente, no mínimo, o estatuto de disciplina científica. De um ponto de vista
prático e é também a posição dos psicólogos, a aceitação ou rejeição é um assunto
individual e muitos, cientistas inclusive, privadamente, dirão que Psi não é uma
impossibilidade, mas mantêm relutância de o dizer em público. Socialmente existe uma
predisposição para explicações "mágicas" o que irá facilitar a difusão e estudos destes
temas em instituições, sem receio do ridículo (Hayes, 2000).

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Posição crítica individual

A minha posição individual reflecte uma das conclusões do I Simpósio da Fundação Bial
(Simões,1997b) - o futuro do conhecimento humano encontra-se na sabedoria da
incerteza - quer dizer que, se se fica satisfeito com as explicações actuais do acontecer
na realidade, não se farão novas descobertas. Sirva de exemplo o que há cerca de vinte
anos se aprendia sobre o tratamento da úlcera péptica, baseado em anti-ácidos e dietas
e o conhecimento actual sobre a inibição da bomba de protões e seus tratamentos
correlatos, bem como o papel da antibioterapia na erradicação do Helicobacter Pylori. Até
mesmo com as explicações actuais, o cientista não se deve dar por satisfeito e deve
tentar descobrir mais. É isto que quer dizer na sabedoria da incerteza.

Os fenómenos "anómalos" podem e devem ser submetidos ao método científico e não


remetidos para o obscurantismo "científico". Alguns cientistas, perante a anomalia em
relação ao paradigma vigente adotam uma atitude de rejeição ao seu estudo. Não fazer
destes fenómenos um objeto de estudo é contribuir para um obscurantismo científico e
também permitir o charlatanismo. Investir neles, querer conhecê-los é a possibilidade de
ampliar os conhecimentos da realidade e do funcionamento da mente.

A finalizar, é importante dizê-lo, os conhecimentos obtidos pela Parapsicologia Científica


não rejeitam o Paradigma atual da Realidade mas expandem-no. Não se trata, pois de
uma dicotomia sobre a aceitação ou rejeição de um paradigma - não seria uma questão
de to be or not to be, mas de to be and not to be.

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