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UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE

CENTRO DE ENGENHARIA ELÉTRICA E INFORMÁTICA


DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA ELÉTRICA
GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA ELÉTRICA

Materiais Magnéticos e Circuitos Magnéticos Simples

Equipe:

n Nome Matrı́cula Assinatura

1 Danilo de Sousa Medeiros 20721155


2 Diego Pereira Cavalcanti 21115068
3 Eli Dias Inocêncio 20711203
4 Paulo Mariano Inácio da Silva 20721180
5 Thales Morais Braga Lyra 20721289

Professor:

Dr. Benedito Antonio Luciano

Disciplina:

Conversão Eletromecânica

CAMPINA GRANDE - PB
Março de 2011
Resumo

Neste trabalho iremos abordar os conceitos ligados a Materiais magnéticos e circuitos


magnéticos simples, o entendimento de tais conceitos são de fundamental importância para
entendermos o funcionamento das máquinas elétricas e dos transformadores. Assim como,
várias outras aplicações na engenharia elétrica que utilizam esses materiais.
Inicialmente iremos fazer uma breve revisão das leis fundamentais da eletrotécnica,
utilizando-se das equações de Maxwell para tal análise. Em seguida, adentraremos nos con-
ceitos de materiais magnéticos, partindo dos conceitos de permeabilidade e susceptibilidade
magnética, distinguindo os materias ditos paramagnéticos, diamagnéticos e ferromagnéticos.
Em seguida, tomando por base parâmetros como força coerciva, indução remanente e produto
(BH)max , são apresentados os materias magneticamente duros, mais conhecidos como ı́mãs
permanentes, incluindo os chamados terras-raras.
Destaque especial será dado aos materiais ferromagnéticos devido à importância destes
na eletrotécnica, particularmente no que toca às suas aplicações em núcleos de transforma-
dores e máquinas elétricas.

Palavras chave: Materiais magnéticos, Circuitos magnéticos, Permeabilidade e Susceptibi-


lidade magnética
Lista de Figuras

1.1 Eletromagnetismo a partir das equações de Maxwell, segundo J. P. Assumpção Bastos. 3

1.2 Campo elétrico gerado por uma carga negativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3

1.3 Campo elétrico gerado por uma carga positiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4

1.4 Representação de um fio reto conduzindo uma corrente elétrica I . . . . . . . . . . . . 5

2.1 Domı́nios desalinhados. (b), (c) e (d) domı́nios se alinhando com o campo externo . . 13

2.2 Curva de magnetização de um material magnetico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

2.3 Ciclo de histerese . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

2.4 Material magneticamente duros e moles . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

2.5 Correntes parasitas no núcleo de um material condutor . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

2.6 Circuito magneticamente acoplado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2.7 Gráfico do fluxo em função da corrente (Definição de Co-energia) . . . . . . . . . . . 21

3.1 Circuitos magnéticos. Homogéneo (á esquerda) e Heterogéneo (á direita). . . . . . . . 22

3.2 Distribuição de linhas de indução geradas pela corrente i em um enrolamento com núcleo
de material de alta permeabilidade magnética relativa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

3.3 Transformador como núcleo magnético - canalização de fluxo. . . . . . . . . . . . . . . 24

3.4 Estrutura magnética com entreferro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

3.5 Espraiamento de linhas de fluxo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

3.6 Dimensões usadas para a correção da área. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

3.7 Núcleo com materiais magnéticos de permeabilidades diferentes. . . . . . . . . . . . . . 26

3.8 Circuito magnético equivalente. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

3.9 Circuito elétrico (a). Circuito magnético (b) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

3.10 Circuito magnético série e circuito elétrico associado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

3
4

3.11 Circuito magnético simples, com um entreferro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32


Lista de Tabelas

1.1 Equações de Maxwell. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

2.1 Caracterização dos materiais magnéticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

3.1 Analogia entre circuitos elétricos e magnético . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

3.2 Dados de algumas ligas amorfas comerciais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32


Lista de Unidades

Corrente (I) Ampère (A)


Fluxo mmagnético (Φ) Weber (W b)
Permeabilidade magnética (µ) Henry/metro (H/m)
Frequência (f ) Hertz (Hz) 1Hz = s−1
Frequência angular (ω) Radiano por segundo (rad/s)
Comprimento (l) Metro(m)
~
Intensidade de campo magnético (H) Ampère/metro (A/m)
~
Densidade de fluxo magnético (B) Tesla (T)
~
Campo elétrico (E) Newton/Coulomb (N/C)
Força elétrica (F~ ) Newtons (N)
Carga elétrica (q) Coulomb (C)
~
Densidade de corrente (J) Ampère/metro2 (A/m3 )
Permissividade () Farad/metro (F/m)
~
Densidade de fluxo elétrico (D) Coulomb/metro2 (C/m2 )
Densidade volumetrica de carga (ρ) Coulomb/metro3 (C/m3 )
Condutividade elétrica (σ) Siemens/metro (S/m)
~)
Imantação magnética (M Ampère/metro (A/m)
Sumário

Introdução 1

Objetivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1

1 Leis fundamentais da eletrotécnica. 2

1.1 Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2

1.2 As equações de Maxwell. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2

1.2.1 Grandezas eletromagnéticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2

1.2.2 As equações de Maxwell completas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

1.2.3 As equações de magnetostática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

1.2.4 As equações da magnetodinâmica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10

2 Materiais Magnéticos. 11

2.1 Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

2.2 Classificação dos materiais magnéticos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

2.3 Perdas nos materiais ferromagnéticos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

2.3.1 Perdas Parası́ticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17

2.3.2 Perdas Histeréticas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18

2.3.3 Perdas anômalas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18

2.3.4 Perdas totais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2.4 Energia magnética armazenada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19

2.5 Co-energia magnética . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

3 Circuitos Magnéticos Simples. 22

7
3.1 Introdução. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

3.2 Canalização do fluxo pelos materiais magnéticos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

3.3 Criação de campos magnéticos em entreferros. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24

3.4 Lei dos circuitos magnéticos: Analogia de Hopkinson. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

3.5 Cálculo de circuitos magnéticos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

Considerações Finais 34

Referências Bibliográficas 35
Introdução

A disciplina Conversão Eletromecânica desempenha um papel fundamental na formação do


engenheiro eletricista, tendo em vista que, ao abordar temas centrais como: as leis fundamentais
da eletrotécnica, compreendendo as aplicações da maioria dos conversores eletromagnéticos e eletro-
mecânicos; aplicações de materiais magnéticos na eletroeletrônica; conceitos e aplicações de diferentes
circuitos acoplados magneticamente e teoria básica dos transformadores, dará suporte ao estudo das
máquinas elétricas que veremos mais adiante.

Objetivos

O objetivo principal deste trabalho é fazer um estudo das leis fundamentais da eletrotécnica
apresentadas a partir das equações de Maxwell. Assim como estudar as principais caracteristicas dos
materiais magnéticos, aplicando esses conhecimentos no modelamento de circuitos magnéticos simples.

1
Capı́tulo 1

Leis fundamentais da eletrotécnica.

1.1 Introdução.

Neste capı́tulo, as leis fundamentais da eletrotécnica são apresentadas a partir das equações de
Maxwell, tronco principal do eletromagnetismo contemporâneo.

Envolvendo os domı́nios das baixas frequências (frequência industrial), objeto de estudo do


nosso curso já que compreende a maior parte dos dispositivos da eletrônica, como: motores elétricos,
transformadores, disjuntores e relés, e os domı́nios das altas freqüências (ondas eletromagnéticas), as
equações de Maxwell abrangem grandezas eletromagnéticas e leis que são relativas a magnetostática
e magnetodinâmica, fundamentais para compreensão do funcionamento das máquinas elétricas e par-
ticularmente no que diz respeito aos transformadores.

1.2 As equações de Maxwell.

James Clerk Maxwell (1831-1879) foi o primeiro pesquisador e entender verdadeiramente a


natureza fundamental da luz. Ele também fez contribuições importamtes para a termodinâmica, a
óptica, a astronomia e para a fotografia a cores. Albert Einstein descreveu seu trabalho como “a mais
profunda e a mais trutı́fera contribuição que a fı́sica recebeu desde o tempo de Newton”.

Segundo J. P. Assumpção Bastos, em Eletromagnetismo e cálculo de campos, podemos dividir


o eletromagnetismo de acordo com o diagrama de blocos da Figura (1.1), onde cada bloco representa
uma situação particular das equações de Maxwell.

1.2.1 Grandezas eletromagnéticas

As grandezas eletromagnéticas envolvidas nas equações de Maxwell são:

2
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 3

Figura 1.1: Eletromagnetismo a partir das equações de Maxwell, segundo J. P. Assumpção Bastos.

~
a) Campo elétrico E:

Uma carga Q sempre gera um campo elétrico ao seu redor, que é invisı́vel mas existe; ele pode
ser percebido se colocarmos uma outra carga q (denominada carga de prova) nas proximidades desta.
Esta carga de prova q será atraı́da ou repelida, dependendo do seu sinal, e a força elétrica responsável
por isso pode ser calculada usando-se a Lei de Coulomb. Podemos também, calcular o valor do
campo elétrico presente em uma região do espaço; pegando uma carga de prova q de valor conhecido
e coloque-a em uma região do espaço onde exista um campo elétrico. Ela certamente será atraı́da ou
repelida, ou seja, em ambos os casos haverá uma força elétrica F~ que agirá sobre a pequena carga q.
Se soubermos o valor desta força, poderemos calcular o valor do campo elétrico usando a expressão:

~
~ = F.
E (1.1)
q
~ é o campo elétrico, e sua unidade é N/C (Newton por Coulomb) F~ é a força elétrica, em
E
Newtons (N ) que atua sobre a carga de prova q, medida em Coulomb (C).

Devemos saber que cargas negativas geram campos de aproximação, ou seja, o vetor campo
elétrico sempre aponta para a carga geradora. Já as cargas positivas geram campos de afastamento,
ou seja, o vetor campo elétrico aponta para o sentido contrário ao do centro da carga geradora. Tais
idéias são mostradas nas figuras seguintes.

Figura 1.2: Campo elétrico gerado por uma carga negativa


CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 4

Figura 1.3: Campo elétrico gerado por uma carga positiva

A maneira para se calcular a intensidade de um campo elétrico, em um ponto P qualquer, usando


a carga geradora Q, é usando a equação a seguir:

Q
E=K . (1.2)
d2

Aqui K é a constante eletrostática, que vale 8.988×109 N.m2 /C 2 . Q é o valor da carga geradora,
em Coulomb, e d é a distância em metros entre a carga geradora e o ponto onde queremos calcular o
valor do campo elétrico E.

~
b) Campo magnético H

Suponhamos que uma carga, ou um conjunto de cargas possuam uma velocidade de desloca-
~ chamado campo magnético, que será
mento. Neste caso, haverá formação do campo vetorial H,
rotacional em relação ao movimento das cargas. Caso este movimento de cargas ocorra em um fio
condutor, o campo elétrico passa a praticamente não existir, pois os elétrons se deslocam preenchendo
as lacunas vazias na nuvem eletrônica dos átomos e o somatório final das cargas é praticamente nulo.

~ e permeabilidade magnética µ
c) Indução magnética B

~ um vetor, calculemos seu fluxo Φ através de uma superfı́cie S.


Sendo B

Z Z
Φ= ~ S.
Bd ~ (1.3)

A permeabilidade de um meio expressa intrinsecamente a sua capacidade de se mostrar mais ou


menos suscetı́vel à passagem de fluxo magnético. Seria difı́cil introduzir estes conceitos sem utilizar a
relação de passagem:

~ = µ.H.
B ~ (1.4)

Imaginemos dois meios geometricamente idênticos, porem possuindo permeabilidade µ1 e µ2


~ idênticos em
diferentes, sendo µ2 < µ1 . Suponhamos que, por um meio externo, criemos campos H
~ seja constante em toda a seção S. Temos então, em módulo:
ambos o meios, e que H
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 5

B1 = µ1 .H e B2 = µ2 .H (1.5)

Os fluxos Φ1 e Φ2 serão:

Φ1 = B1 .S = µ1 .H.S e Φ2 = B2 .S = µ2 .H.S (1.6)

Obtemos assim:

Φ1 B1 µ1
= = . (1.7)
Φ2 B2 µ2

Assim, quanto maior a permeabilidade do meio, maior a sua indução e maior será o fluxo
~ expressa a capacidade de induzir fluxo em um dado meio. Em
atravessando a seção S. Ou seja, B
geral, uma alta indução está associada a uma alta permeabilidade. Literalmente, se um meio induz
mais fluxo é porque ele o permite mais.

~ e permissividade :
d) Indução elétrica D

~ µ, D
Podemos fazer um paralelismo direto entre os pares de grandezas B, ~ e . Cabe, no entanto,

observar que a variação de , em materiais de uso frequente na eletrotécnica, é muito pequena, ao


contrário da permeabilidade µ. Para materiais dielétricos mais utilizados,  varia no máximo de um
fator 100 ao passo que a variação de µ pode frequentemente atingir fatores de ordem de 104 . É
~ que assume
interessante salientar também que, em geral, em problemas magnéticos é a grandeza B
o papel preponderante nas análises, ao passo que em problemas elétricos o interesse particular é pelo
~
campo elétrico E.

e) Densidade superficial de corrente J~

Imaginemos um fio condutor retilı́neo e de seção S, percorrido de forma uniforme por uma
corrente I, veja Figura (1.4).

Figura 1.4: Representação de um fio reto conduzindo uma corrente elétrica I

A densidade média de corrente atravessando a seção S é dada por:

I
J= (1.8)
S
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 6

Definindo um vetor unitário ~u, perpendicular à seção S, podemos definir um vetor J~ como
possuindo módulo igual a J, de direção e sentido dados por ~u.

J~ = J.~u (1.9)

Assim, o cálculo do fluxo de J através de S fornece I, pois

Z Z
I= ~ S
J.d ~ (1.10)
S
~ é uma parcela elementar de superfı́cie.
onde dS

f ) Densidade volumétrica de carga ρ:

Considere uma carga Q ocupando um volume V . Podemos, então, calcular a densidade vo-
lumétrica média de carga como:

Q
ρ= (1.11)
V

Levando em conta que as cargas podem não estar distribuı́das uniformemente no volume, o
somatório da carga total será dado por:

Z Z Z
Q= ρ.dv (1.12)
V

onde dv é uma quantidade elementar de volume.

g) Condutividade elétrica σ

Ao analisarmos problemas de campos elétricos, dois tipos de meios se apresentam: meios


dielétricos ou isolantes e meios condutores. Os isolantes são caracterizados por sua permissividade
e por sua rigidez dielétrica; enquanto os meios condutores são caracterizados por sua condutividade
elétrica que expressa a capaciade de o meio conduzir mais ou menos corrente elétrica.

O campo elétrico está relacionado com a densidade de corretne J~ pela equação:

J~ = σ.E
~ (1.13)

I
No caso de um condutor retilı́neo, de comprimento l e seção uniforme S, temos que J = S e
V
adiantamos que E = l . Assim, temos:

I V l
=σ ou V = I . (1.14)
S l σS
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 7

1.2.2 As equações de Maxwell completas

As chamadas equações de Maxwell descrevem os fenômenos eletromagnéticos (elétricos e magnéticos).


Para dar uma idéia do alcance dos fenômenos regidos pelas equações de Maxwell basta lembrarmos
que a luz é um fenômeno de origem eletromagnética. Desde quando formuladas, há mais de um século,
estas equações passaram pelos mais severos testes experimentais e sem dúvida constituem-se num dos
pilares da Fı́sica.

Estas equações foram originalmente escritas por Maxwell na forma de oito equações. São estas
as equações:

Tabela 1.1: Equações de Maxwell.


Equações de Maxwell na forma diferencial
∂Bx ∂By
∂x
+ ∂y
+ ∂B
∂z
z
=0
∂Bz
∂y
− ∂B
∂z
y
= − ∂B∂t
x

∂Bx
∂z
− ∂B
∂x
z
= − ∂B∂t
y

∂By
∂x
− ∂B
∂y
x
= − ∂B∂t
z

∂Bx
∂x
+ ∂B
∂y
y
+ ∂B
∂z
z

∂Bz
∂y
− ∂B
∂z
y
= ∂B
∂t
x
+ Jx
∂Bx
∂z
− ∂B
∂x
z
= ∂B
∂t
y
+ Jy
∂By ∂Bx ∂Bz
∂x
− ∂y
= ∂t
+ Jz
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 8

Estas equações podem ser encontradas no livro “A Treatise of Electricity and Magnetism”, que
constitui-se em uma das grandes obras da humanidade - a primeira edição é de 1873. Na verdade
Maxwell utilizou sı́mbolos diferentes, e os usados acima correspondem ao uso moderno. Ao escrever
estas equações, Maxwell sintetizou todo o conhecimento da época acerca dos fenômenos elétricos e
magnéticos na forma de um conjunto de equações relativamente simples. Apenas esse fato já mereceria
destaque, mas o mais importante é que partindo destas equações Maxwell pode ir mais adiante e
antecipar do ponto de vista puramente teórico descobertas experimentais que só viriam anos depois
pelas mãos de Hertz.

Paralelamente (na verdade um pouco antes) ao descobrimento das equações de Maxwell desenvolvia-
se na Matemática uma ferramenta chamada “Cálculo vetorial”. Utilizando os conceitos de cálculo
vetorial, temos;

• As equações de Maxwell para campos variantes no tempo,

~ = − ∂B ~
∇×E ∂t (1.15)

e
~ = J~ + ~
∂D
∇×H ∂t (1.16)

• As equações de Maxwell para campos invariante no tempo,

~ =0
∇×B (1.17)

e
~ =ρ
∇×D (1.18)

As equações são as mesmas, mas escritas numa forma muito mais simples e elegante, quando
comparadas com as originais.

Após o advento do cálculo vetorial, desenvolveu-se um outro tipo de cálculo em Matemática


chamado “cálculo tensorial”.O tensor de permeabilidade apresentado sob a forma kµk é uma matriz
quadrada com a forma seguinte:

 
µ 0 0
 x 
kµk =  0 µy 0
 

 
0 0 µz

~ = kµk × H
A expressão geral B ~ é, matricialmente
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 9

     
Bx µx 0 0 Hx
     
 By  =  0 0  ×  Hy 
     
µy
     
Bz 0 0 µz Hz

Num sistema de coordenadas ortogonais genérico, a matriz pode não ser diagonal, mas ainda
será uma matriz simétrica com autovalores µx , µy e µz .

~ = kµk.H
Observemos que se o material é isotrópico, a equação B ~ assume a forma particular
~ = µ.H.
B ~

Além do conceito de anisotropia, que torna complexo o estudo de materiais magnéticos, temos
outro fenômeno freqüente na maioria dos equipamentos eletromagnéticos, segundo o qual a permea-
~ existente no material magnético em
bilidade µ não é constante, mas depende do próprio valor de H
~ eH
questão. Este fenômeno chama-se saturação e faz com que a relação geral de passagem entre B ~

passa a ser:

~ = kµ(H)k.H
B ~ (1.19)

O conceito de anisiotropia pode ser estendido à permissividade elétrica , por analogia:

~ = kk.E
D ~ (1.20)

onde o fenômeno de saturação é desprezı́vel.

Este mesmo conceito pode ser estendido também à condutividade σ, e a outra relação de pas-
sagem torna-se:

J~ = kσk.E
~ (1.21)

1.2.3 As equações de magnetostática

As equações de Maxwell relativas a magnetostática são as seguintes:

~ = J~ (Lei de Ampère)
rot H (1.22)

~ = 0 (Lei da conservação de fluxo)


div B (1.23)

~
~ = − ∂ E (Lei de Faraday)
rot E (1.24)
∂t
CAPÍTULO 1. Leis Fundamentais da Eletrotécnica. 10

1.2.4 As equações da magnetodinâmica

As equações relativas à magnetodinâmica são as seguintes:

~ = J~
rot H (1.25)

representa à lei de Ampère.

~ =0
div B (1.26)

essa equação encerra os conceitos de continuidade e conservação do fluxo magnético.

~
~ = − ∂E
rot E (1.27)
∂t
traduz à Lei de Faraday, princı́pio da indução magnética, em que se baseia a maioria dos equipamentos
eletromagnéticos.
Capı́tulo 2

Materiais Magnéticos.

2.1 Introdução.

A habilidade de certos materiais - notadamente o ferro, o nı́quel, o cobalto e algumas de suas


ligas e compostos - de adquirir um alto e permanente momento magnético, é de grande importância
para a engenharia elétrica. As aplicações de materiais magnéticos são muitas e fazem uso de quase
todos os aspectos do comportamento magnético.

Existe uma variedade extremamente grande de diferentes tipos de materiais magnéticos e é


importante saber primeiro porque estes e somente estes materiais possuem propriedades magnéticas
e em seguida saber o que leva a comportamento diferentes nestes materiais, por exemplo porque um
material carrega um momento permanente enquanto outros não.

As pesquisas por materiais magnéticos com melhores caracterı́sticas são motivadas pela possibi-
lidade de redução nas dimensões dos equipamentos e diminuição de limitações no desempenho devido
à saturação e perdas.

2.2 Classificação dos materiais magnéticos.

Como já foi visto anteriormente as propriedades magnéticas dos materiais podem ser analisadas
~ = kµk.H.
levando em conta sua permeabilidade magnética, a partir da relação B ~

~ todos os meios apresentam uma indução magnética B,


Na presença de um campo magnético H ~
~ . A magnetização M
e magnetização (imantação magnética) M ~ pode ser definida como o momento

magnético total por unidade de volume, sendo assim, sua unidade é A/m.

~ eH
Como nem sempre os vetores B ~ são paralelos, relacionamos o vetor imantação magnética
~ com o vetor campo magnético H
M ~ afim de caracterizar o material M
~ = χ.H.
~

11
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 12

Onde χ é a susceptibilidade magnética do meio. Podemos ainda relacionar os três vetores


magnéticos pela seguinte expressão:

~ = µ0 (H
B ~ +M
~ ) = µ0 (1 + χ).H.
~ (2.1)

A partir da equação acima, percebemos que µ = µ0 (1 + χ) e também que µr = 1 + χ

Agora podemos fazer a classificação dos matérias magnéticos levando em consideração sua sus-
ceptibilidade e sua permeabilidade magnética.

Podemos classificar os materiais magnéticos em três grupos: Ferromagnéticos, Paramagnéticos


e Diamagnéticos.

• Diamagnéticos

Esses materiais apresentam susceptibilidade magnética negativa e muito baixa (χ < 0) e por
isso se repelem da fonte geradora do campo externo, porem como sua permeabilidade relativa é muito
baixa, próxima a unidade, esse efeito é de difı́cil percepção.

• Paramagnéticos

Esses materiais também apresentam susceptibilidade muito baixa, porem positiva (χ > 0) e
como sua permeabilidade relativa é ligeiramente maior que 1, dizemos que os materiais paramagnéticos
concentram fracamente o campo magnético aplicado.

• Ferromagnéticos

São os materiais mais importantes no estudo dos dispositivos eletromagnéticos, sua susceptibi-
lidade alem de ser extremamente elevada é também variável (χ >> 0) e sua permeabilidade relativa
também é muito elevada, o que faz com que um campo externo aplicado possa aumentar sensivelmente
a densidade de fluxo no interior do material. Exemplos desses materiais são:

- Ferro com 0,2% de impurezas (µr = 6000)

- Aço (µr = 500 a 5000)

- Ferro fundido (µr = 30 a 80)

- Ferro para núcleos de transformadores (µr = 5500)

No entanto um material ferromagnético possui uma temperatura limite, chamada de temperatura


de Curie, em que se um material for aquecido a uma temperatura superior ao seu limite, esse assume
caracterı́sticas de um paramagnético. Isso ocorre porque a agitação térmica excede a energia de troca,
e os domı́nios são destruı́dos.

Existem também as ligas ferromagnéticas, produzidas da junção do ferro com outros materiais,
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 13

que apresentam propriedades especiais:

- Ligas de ferro-niquel (Permalloy, Nicalloy, Supermalloy)

- Ligas de ferro-colbato (Hyperco, Permendor)

- Ligas de ferro-silicio (de grãos orientados e de grãos não orientados)

A adição de silı́cio ao ferro traz inúmeras vantagens, diminui o envelhecimento da liga, a fadiga
magnética do material, aumenta a resistividade e reduz as perdas. Porém em quantidades exageradas
o silı́cio torna o material quebradiço, deixando-o frágil, alem de diminuir a indução de saturação (Bsat ).

Para melhor compreensão do fenômeno da magnetização, precisamos ter conhecimento da teoria


dos domı́nios. Esta diz que um material seria constituı́do por um conjunto de pequenos domı́nios,
estes na presença de um campo magnético externo se alinham paralelamente ao campo aplicado, esse
alinhamento é obtido inicialmente de maneira fácil, mas a medida que o campo magnético vai sendo
aumentado o alinhamento vai ficando mais difı́cil, dando origem a saturação.

Figura 2.1: Domı́nios desalinhados. (b), (c) e (d) domı́nios se alinhando com o campo externo

Figura 2.2: Curva de magnetização de um material magnetico

Porem ao diminuirmos a intensidade do campo aplicado até zero, a sua densidade de fluxo
magnético não se reduz a zero, ainda restará uma densidade de fluxo residual mesmo quando o campo
aplicado for zero, pois alguns dos domı́nios mantém o seu novo domı́nio. Para atingirmos a situação
em que o magnetismo é zero, devemos aplicar um campo reverso sobre o material.

~ de zero até um valor positivo e depois reduzindo a


Variando a intensidade do campo magnético H
zero e levarmos ate um valor negativo e fechando o ciclo atingindo novamente um valor positivo, vamos
obter o ciclo de histerese, que é a curva caracterı́stica dos materiais e nela contém várias informações
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 14

importantes sobre os materiais como:

· Densidade de fluxo residual - é a densidade de fluxo que permanece, mesmo após a retirada
~
de H.

· Força coercitiva Hc - representa a intensidade de campo necessário para eliminar Br .

· Curva de desmagnetização - é o segundo quadrante da curva, importante para o estudo


dos imãs permanentes.

Figura 2.3: Ciclo de histerese

Os materiais ferromagnéticos podem ser: Magneticamente mole, magneticamente duro, e meio


de gravação. Eles são classificados de acordo com o valor de sua força coerciva, aqueles que apresen-
tam força coerciva baixa são chamados de Materiais magneticamente moles, os que apresentam força
coerciva elevada são chamados de matérias magneticamente duros e os intermediários são chamados
de meios de gravação magnéticos, ou seja, quanto mais largo for o ciclo de histerese do material, mais
duro esse será.

Figura 2.4: Material magneticamente duros e moles


CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 15

Os materiais magneticamente moles tem sua principal aplicação no núcleo de transformadores,


os meios de gravação magnética, por serem intermediários, e não precisarem de um campo muito
grande para se magnetizar, e ainda assim esse campo não ser pequeno para se desmagnetizar, são
também de grande aplicação, como nos cartões magnéticos, fitas K7. E temos ainda os materiais
magneticamente duros, ou ı́mãs permanentes,que veremos detalhadamente a seguir.

• Ímãs permanentes

Os ı́mãs permanentes ou materiais magneticamente duros, são de grande importância para


eletro-eletronica, eles formam um dos ramos de estudo mais antigos da ciência, eles são caracterizados
por: Indução remanente Br (T ), Campo coercivo Hc (kA/m), energia volumétrica (B.H)max (kJ/m3 ),
temperatura de Curie Tc (o C) e temperatura máxima de funcionamento no ar (o C).

Os ı́mãs permanentes são de fundamental importância, porque uma vez magnetizado mantém o
seu nı́vel de magnetização. Existem diversos tipos de imãs permanentes.

Alnicos - É uma liga formada a base de alumı́nio, nı́quel, cobalto ou cobre e ferro, os alnicos
são imas metálicos que começaram a ser produzidos em 1931 e dominou o mercado até os anos 50.
Os ı́mãs alnicos tem grande estabilidade térmica, sua faixa de operação varia de -250o C a 550o C. Os
alnicos possuem uma corcitividade máxima de 150kA/m e o seu produto energético máximo (BH)max
varia de 40 a 60kJ/m3 . Suas principais aplicações são: alto falantes, motores elétricos.

Ferrite - Também conhecidos como cerâmicos, os ferrites podem ser isotrópicos, ou anisotrópicos
e são produzidos por processos metalúrgicos do pó, a partir de uma composição de oxido de ferro e
carbonato de bário ou estrôncio, este pó é molhado, compactado e sintetizado para produzir formas
geométricas regulares. Possuem um baixo custo e alta resistividade elétrica, o que reduz as perdas por
histerese e por correntes parasitas. Os ferrites possuem uma força coerciva superior aos alnicos, sendo
da ordem de 160 a 400kA/m, porem seu produto (BH)max é inferior, sendo este de 30kJ/m3 . São
usados em aplicações de massa, que não exigem qualidades excepcionais, como alguns, alto falantes,
brinquedos, porta de geladeira.

Terras-raras - Samário-cobalto (SmCo5 ) - surgiu em 1970 possui um produto energético 4 vezes


maior do que os ferrites. Apesar de suas excelentes qualidades magnéticas e resistência a temperatura,
suas aplicações são limitadas devido o seu preço elevado. Podem ser aplicados em micro-motores,
sensores automobilı́sticos.

Terras-raras - Neodı́mio-ferro-boro (NeFeB) - surgiu em 1983, seu produto energético chega a ser
7 vezes maior do que os ı́mãs ferrites. São os imãs mais poderosos, porem são susceptı́veis a corrosão
e quase sempre são revestidos por zinco, nı́quel, ou resina. São utilizados em discos rı́gidos, geradores
eólicos, equipamentos eletrônicos. Os seu elevados valores de produto energéticos por unidade de
volume fizeram com que os imas terras-raras, fossem imediatamente utilizados em aplicações militares
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 16

e espaciais.

O estudo dos ı́mãs permanentes é feito no segundo quadrante da curva de histerese, pois estamos
interessados em saber seu conhecimento na sua curva de desmagnetização. Para obtermos o valor de µ
DB
do ı́mã, utilizamos a curva de desmagnetização e calculamos a inclinação da reta laço menor: µ = DH .

O ponto K da curva de desmagnetização é aquele em que encontramos o valor de BHmax , a reta


de carga começa na origem e passa pelo ponto K.

Segue na tabela abaixo alguns valores caracterı́sticos dos imas estudados:

Tabela 2.1: Caracterização dos materiais magnéticos


Material Br Hc BHmax Tmax Tcurie
NdFeB 12,800 12,300 40 150 310
SmCo 10,500 9,200 26 300 750
Alnico 12,500 640 5,5 540 860
Ceramica ou Ferrite 3,900 3,200 3,5 300 460

Br é a medida da densidade magnética resı́dual do fluxo em Gauss, que é o fluxo máximo que
o ı́mã pode produzir. (Gauss)

Hc é a medida da força coerciva do campo magnético em Oersted, ou o ponto em que o ı́mã se


desmagnetiza por um campo externo. (Oersted) 1 Oersted =79,6 A/m

BHmax é um termo da densidade total da energia. Quanto mais elevado o número, mais poderoso
o ı́mã.

Tmax é a temperatura máxima o ı́mã deve funcionar. Se a temperatura exceder este valor, o
imã perde as caracterı́sticas magnéticas que recupera após a temperatura estar dentro dos nı́veis de
funcionamento. (recuperável)(graus centı́grados)

Tcurie é a temperatura em que o ı́mã ficará desmagnetizado. Se a temperatura exceder este


valor, o imã perde as caracterı́sticas que não recupera após a temperatura estar dentro dos nı́veis de
funcionamento. (não é recuperável) (graus centı́grados)

2.3 Perdas nos materiais ferromagnéticos.

Teoricamente, as perdas, traduzidas em forma de calor, são atribuı́das aos fenômenos da histe-
rese e das correntes parasitas. As perdas totais seriam então o resultado do somatório dessas duas
componentes. Esta formulação consta da norma brasileira NBR 5161 (ABNT), na qual é apresentada
a metodologia na determinação das perdas totais, utilizando um quadro de Epstein, e sua separação
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 17

em duas parcelas. Entretanto, essa descrição fenomenológica é criticável quando se examina a questão
do ponto de vista da fı́sica do ferromagnetismo, que considera a magnetização como sendo originada
pela movimentação das paredes dos domı́nios magnéticos.

Na prática, porém, o que se consegue medir são as perdas totais; as quais, para efeito de análise,
podem ser divididas em três componentes:

WT = Wh + We + Wa

onde Wt , Wh , We e Wa são, respectivamente, as perdas totais, as perdas por histerese, as perdas


por correntes parasitas e as perdas anômalas, todas expressas em W/kg.

Apresentaremos. a seguir, o que significam estes fenômenos com relação às perdas no materiais-
ferromagnéticos.

2.3.1 Perdas Parası́ticas

Faraday percebeu que quando um fluxo atravessa uma área de uma superfı́cie condutora uma
f.e.m e uma corrente podem ser induzidas. Segundo a lei de Lenz qualquer corrente induzida tem um
sentido tal que o campo gerado por ela se opõe a variação de campo magnético que a produziu.

Assim quando variamos o fluxo sobre uma placa condutora uma corrente é induzida, a estas
chamamos de correntes parasitas ou correntes de Foucault.

A estas correntes podemos associar perdas por efeito Joule, que em alguns casos podem ser dese-
jados, como no caso de haver a necessidade de aquecer um núcleo, mas para o uso dos transformadores
em que desejamos transferir potência de um circuito primário para um secundário este efeito diminui
seu rendimento, logo torna-se indesejável.

Figura 2.5: Correntes parasitas no núcleo de um material condutor

• Soluções Para Diminuir as Perdas por Foucault

1. Aumentar a resistência elétrica:

a) aumentando a resistividade (ρ);

b) utilizando laminação no núcleo para diminuir a área de secção transversal;


CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 18

2. Acrescentar um elemento isolante ao ferro para aumentar a resistência.

As perdas por correntes de Foucault são dadas pela seguinte expressão:

(πBmax f e)2
Pf = W/m3 (2.2)

2.3.2 Perdas Histeréticas

Como explicado anteriormente, quando um material ferromagnético é submetido a um campo


magnético até sua saturação e depois conforme esse campo diminui, a densidade de fluxo B não
diminui na mesma proporção, assim quando H = 0 há a presença de uma densidade de fluxo residual
BR . Para que o valor de B chegue a zero, é necessário a aplicação de um campo negativo de modo a
zerar o fluxo magnético, chamado de força coersiva. Se H continuar aumentando no sentido negativo,
esse material será magnetizado com polaridade oposta, a redução do campo novamente a zero deixa
uma densidade de fluxo remanescente, −BR , para zerar B deve-se aplicar novamente uma força
coersiva, este processo se repete, fazendo um ciclo denominado ciclo histerético.

Durante um ciclo de magnetização, uma quantidade de energia, proporcional a área do ciclo


histerético, não é devolvida, sendo gasta no trabalho de orientação dos domı́nios magnéticos, para
superar o atrito e a inércia. Esta energia é dissipada sob a forma de calor, constituindo as chamadas
perdas por histerese.

A área interna do ciclo de histerese representa a energia dissipada, e é dada por:

Pn = A.V.f (2.3)

onde:

A é a área interna do ciclo do material

V é o volume

f é a frequência

2.3.3 Perdas anômalas

São decorrentes das forças de atrito internas durante a movimentação das paredes dos domı́nios
magnéticos durante a magnetização, sob a condição de que todas as paredes sejam móveis e que seu
número seja constante durante o processo dinâmico de magnetização.

A velocidade com que ocorre esta movimentação é proporcional à freqüência (f ) do sinal aplicado,
indução magnética aplicada (B) e largura do domı́nio no estado desmagnetizado (d), sob a condição
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 19

de que todas as paredes sejam móveis e que seu número seja constante durante o processo dinâmico
de magnetização, assim temos,

Wa αf B 2 d (2.4)

As perdas anômalas não são mensuráveis fisicamente, sendo que para obtê-las, subtraı́mos das
perdas totais as perdas por histerese e por correntes parasitas.

2.3.4 Perdas totais

As perdas em um material a cada ciclo, são dadas por:

WT x (πeBm )2 f Wa
= kh Bm + + (2.5)
f 6ρ f

A partir da análise da equação acima, as perdas anômalas são o que resta após serem subtraı́dos
das perdas totais as perdas histeréticas e por correntes de Foucault.

2.4 Energia magnética armazenada

Suponha dois circuitos acoplados magneticamente com indutância mútua M e indutâncias L1 e


L2, mostrados abaixo,

Figura 2.6: Circuito magneticamente acoplado

Considere que o primeiro circuito é conectado a uma fonte de força eletromotriz, enquanto o
segundo é um circuito aberto. A energia armazenada no primeiro circuito é dada por:

i1
L1 i21
Z
i1 d(L1 i1 ) = (2.6)
0 2
CAPÍTULO 2. Materiais Magnéticos. 20

Agora considere o caso em que o segundo circuito é conectado a fonte de força eletromotriz,
enquanto o segundo é mantido constante.

i2 i2
L2 i22
Z Z
i2 dϕ2 = L2 i2 di2 = (2.7)
0 0 2

A energia resultante do acoplamento magnético, é:

Z i2
i1 M21 di2 = M21 i1 i2 . (2.8)
0

Assim, a energia magnética armazenada total no circuito será

L1 i21 L2 i22
Wm = + ± M12 i1 i2 . (2.9)
2 2

Quando os circuitos são conectados na mesma direção M12 i1 i2 será positivo, quando os circuitos
estão em oposição M12 i1 i2 será negativo.

Considerando o caso em o circuitos são conectados na mesma direção, calculamos a derivada da


expressão (2.9) temos:

dWm = L1 i1 di1 + L2 i2 di2 + M i1 di2 + M i2 di1 + i1 i2 dM (2.10)

Assumindo que o sistema é conservativo, temos:

dWsaı́da mecânica = dWentrada elétrica − dWenergia magnética armazenada (2.11)

dWmecânica = i1 i2 dM (2.12)

2.5 Co-energia magnética

Para determinar a energia magnética armazenada, é necessário saber a caracterı́stica da corrente


em função do fluxo λ, entretanto algumas vezes é necessário a inversão de i = i(λ), o que muitas
vezes não é possı́vel. Quando a variável independente é i ao invés de λ, é preferı́vel obter-se a energia
armazenada através de uma outra função de estado, denominada co-energia magnética, esta pode ser
obtida da seguinte forma:

d(iλ) = idλ + λdi (2.13)


CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 21

e
dWm = idλ = d(iλ) − λdi. (2.14)

A co-energia é dada por:

0
Wm = iλ − Wm , (2.15)

onde
0
dWm = λdi. (2.16)

0
Nota-se que Wm é uma função de estado e é dado em função de i:

Z Z i
0 0
dWm = λ(i)di = Wm (i), (2.17)
0

desta forma,houve uma mudança de variável, a co-energia é calculada em função da corrente i.

Uma vez calculada a co-energia a energia magnética pode facilmente ser obtida, através da
seguinte equação

0
Wm = iλ(i) − Wm (i) (2.18)

Figura 2.7: Gráfico do fluxo em função da corrente (Definição de Co-energia)


Capı́tulo 3

Circuitos Magnéticos Simples.

3.1 Introdução.

Esse capı́tulo abordará os circuitos magnéticos simples. Onde o termo circuito magnético simples
é aplicado a uma trajetória fechada do fluxo magnético e a direção da indução magnética coincide
com a direção desta trajetória em qualquer ponto de qualquer meio por onde se propaga o campo
magnético. Nas máquinas elétricas, os condutores são percorridos por correntes que interagem com os
campos magnéticos, resultando na conversão eletromecânica de energia.

Existe, como veremos mais adiante, uma grande semelhança entre a análise dos circuitos elétricos
e magnético, conhecida como analogia de Hopkinson. No entanto, não podemos levar essa analogia
muito adiante pois, o circuitos elétricos pode estar fechado ou aberto, não circulando corrente neste
último caso. Em contrapartida, um circuito magnético está sempre fechado, pois as linhas de força
nunca podem ser suprimidas, pois não existem substâncias isoladoras no magnetismo.

Os circuitos magnéticos podem ser homogéneos, quando são constituı́dos de um só material e
a secção é constante ao longo de todo o circuito, e heterogéneos, quando a situação anterior não se
verifica, veja a Figura (3.1).

Figura 3.1: Circuitos magnéticos. Homogéneo (á esquerda) e Heterogéneo (á direita).

22
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 23

3.2 Canalização do fluxo pelos materiais magnéticos.

Uma caracterı́stica intrı́nseca aos materiais é a chamada permeabilidade magnética, a qual é


representada pela letra grega µ.Tal grandeza pode ser entendida como a capacidade do material de
“permitir”a passagem de linhas de indução magnética por seu interior. Pode-se entender então que
quanto maior a permeabilidade de um material, maior será o número de linhas de fluxo que passará
por ele.

Analisando de uma forma mais detalhada, a permeabilidade magnética pode ser entendida como
o grau de magnetização de um material em resposta a um campo magnético, ou seja, é o grau de
alinhamento dos seus domı́nios magnéticos quando submetidos a um campo magnético.

Levando em consideração um material magnético, com permeabilidade alta, imerso no ar e


submetido a um campo magnético, é fácil perceber que haverá um número de linhas de fluxo muito
maior no material do que no ar circundante, pois a linhas “preferem”o meio com maior permeabilidade.
Dessa forma, pode-se afirmar que houve uma canalização do fluxo pelo material magnético. A Figura
(3.2) abaixo ilustra tal idéia:

Figura 3.2: Distribuição de linhas de indução geradas pela corrente i em um enrolamento com núcleo
de material de alta permeabilidade magnética relativa.

Pode-se perceber, pela Figura (3.2), que as linhas de fluxo produzidas pela bobina se concen-
traram ao longo do núcleo magnético formando um caminho fechado. As poucas linhas que passam
pelo espaço em torno do núcleo compõem o chamado fluxo de dispersão. O conceito de canalização
abordado é importante para a compreensão dos circuitos magnéticos, os quais serão abordados a
seguir.

Como exemplo de aplicação prática se pode citar a canalização do fluxo em transformadores, o


que possibilita um acréscimo considerável de eficiência do aparelho, já que um número muito maior
de linhas passará pela bobina secundária. A Figura (3.3) a seguir mostra tal artifı́cio:
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 24

Figura 3.3: Transformador como núcleo magnético - canalização de fluxo.

3.3 Criação de campos magnéticos em entreferros.

Em muitos dispositivos eletromagnéticos, a exemplo de motores, relés e instrumentos de medição,


existe um espaço livre na sua estrutura magnética. Tais espaços são conhecidos como entreferros.

Figura 3.4: Estrutura magnética com entreferro.

O objetivo da inserção desse espaço livre é a criação de campos magnéticos concentrados em


uma pequena região. Como demonstração, procedemos da seguinte forma:

Usando a Lei de Ampère:

I I I
~ ~l =
H.d ~ f .d~l +
H ~ ~l = n.i
H.d (3.1)
l lf le

~ no núcleo ferromagnético e le é o
Onde: lf é o caminho fechado coincidindo com o campo H
~ no entreferro.
caminho fechado coincidindo com o campo H

Considerando-se que os campos sejam constantes nas regiões respectivas, tem-se:

Hf .lf + He .le = n.i (3.2)

Pela lei da conservação de fluxo:

Φf = Φe ou Bf = Be (3.3)
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 25

µ0 .µr .Hf = µ0 .He (3.4)

Por essa equação pode-se perceber que a densidade de fluxo magnética em toda a região do
núcleo ferromagnético é igual a da região do entreferro, o que é um resultado interessantı́ssimo, pois
nos mostra uma concentração de energia no espaço livre.

Partindo das relações (3.2) e (3.3), os campos Hf e He podem ser calculados, mediante as
expressões (3.5) e (3.6):

n.i
hf = (3.5)
lf + µr le

n.i
he = µr (3.6)
lf + µr le

Esse resultado mostra que o campo magnético no entreferro é µr vezes maior que o campo no
núcleo, ou seja, quanto maior a permissividade do núcleo, maior será a concentração de energia no
entreferro. É importante ressaltar que esse resultado não é válido se o circuito magnético estiver
saturado.

Nas situações reais, ao cruzar a região livre, as linhas de indução se deformam, criando o chamado
efeito de espraiamento. Isso faz com que a área efetiva por onde passa o fluxo seja maior que a área
geométrica do entreferro. A Figura (3.5) a seguir ilustra esse efeito:

Figura 3.5: Espraiamento de linhas de fluxo.

Na maioria das situações esse efeito pode ser desconsiderado, mas se for necessário um cálculo
mais preciso, a área efetiva pode ser aproximada da seguinte forma:

A = (a + g).(b + g) , onde as dimensões são mostradas na figura a seguir:


CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 26

Figura 3.6: Dimensões usadas para a correção da área.

3.4 Lei dos circuitos magnéticos: Analogia de Hopkinson.

Quando um circuito magnético comporta várias malhas, várias excitações e, eventualmente, ma-
teriais de permeabilidade ou seções diferentes, existem relações entre os fluxos que circulam em seus
diferentes trechos e as f.m.m (forças magnetomotriz) que lhes são aplicadas.

Para facilitar a determinação das equações do circuito, pode-se utilizar uma analogia, conhecida
como analogia de hopkinson, muito prática porque ela torna os cálculos de um circuito magnético
análogo ao de um circuito elétrico, considerando,para isso, quantidades equivalentes. Bastando, neste
caso, aplicar as leis de Kirchoff (Leis das malhas e lei dos nós).

Introduzindo esta analogia, vamos considerar um circuito simples, constituı́do de uma malha
formada por três materiais de permeabilidades µ1 , µ2 e µ3 , cf. a Figura (3.7)

Figura 3.7: Núcleo com materiais magnéticos de permeabilidades diferentes.

H1 .l1 + H2 .l2 + H3 .l3 = n.i (3.7)

Considerando que a seção magnética seja a mesma para todo o núcleo e que todo o fluxo também
o seja, teremos:
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 27

Φ
B= = µ1 .H1 = µ2 .H2 = µ3 .H3 (3.8)
S
e a relação (3.7), poderá ser escrita como:

l1 l2 l3
( + + ).Φ = n.i (3.9)
µ1 S µ2 S µ3 S
l1 l2 l3
onde as grandezas µ1 S , µ2 S e µ3 S são as relutâncias das diferentes partes:

(R1 + R2 + R3 ).Φ = n.i (3.10)

Observando a equação (3.10) percebe-se uma analogia com um circuito elétrico de uma malha,
veja a Figura (3.8), onde a f.e.m.(força eletromotriz) seria igual à f.m.m.(força magnetomotriz) n.i,
as três relutâncias seriam representadas por três resistências R1 , R2 e R3 , que seriam percorridas por
uma corrente elétrica I igual ao fluxo Φ.

Figura 3.8: Circuito magnético equivalente.

De uma maneira geral, a analogia de Hopkinson consiste em substituir o circuito magnético, por
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 28

seu análogo elétrico. É bom notar que esta analogia é apenas um guia e não a expressão do fenômeno
fı́sico tendo um significado real: ela é sobretudo útil quando é possı́vel considerar a permeabilidade µ
constante, ou seja, quando a relutância também o é, e não varia em função do fluxo.

Figura 3.9: Circuito elétrico (a). Circuito magnético (b)

Tabela 3.1: Analogia entre circuitos elétricos e magnético


Circuito magnético Circuito elétrico
F V
Fluxo (Φ = R
) Corrente (I = R
)
Força magnetomotriz (F) Força eletromotriz (V)
Relutância (R) Resistência (R)
1 1
Permeância (P = R
) Condutância (G = R
)
Lei de Hopkison (F = R.Φ) Lei de Ohm (V = R.I)
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 29

Além do mais, essa analogia do circuito magnético com o circuito elétrico leva a muitas outras
observações. Para cobrir o assunto, esses detalhes estão apresentados a seguir para o caso de um anel
de cobre toroidal e um anel de ferro toroidal, com o mesmo raio médio r e a mesma área de seção
transversal A.

• Impedância

Impedância é um nome genérico usado para indicar resistência a uma força de excitação em
gerar uma resposta:

Resistência = R = ρ Al

l
Relutância = R = µA

onde l = 2πr, é o comprimento médio do toroide e A é a área da seção transversal do mesmo.

• Intensidade de campo elétrico

Com a aplicação da tensão V ao toroide de cobre homogêneo, é produzido dentro do material


em gradiente de potencial elétrico dado por

V V
E∼
= = (V /m) (3.11)
l 2πr

Esse campo elétrico deve ocorrer num percurso fechado, se o mesmo for mantido. Segue-se,
então, que a integral curvilı́nea fechada do E é igual à tensão da fonte. Desta forma,

I
E.dl = V (3.12)

• Intensidade de campo magnético:

Quando uma força magnetomotriz é aplicada ao toroide de ferro homogêneo, é produzido dentro
do material um gradiente de potencial magnético dado por

F F
H∼
= = (A − esp/m) (3.13)
l 2πr

Como já apresentado com a lei circuital de Ampère, a integral curvilı́nea fechada de H é igual à
f.m.m envolvida. Desta forma,

I
H.dl = F (3.14)

• Diferença de potencial elétrico:


CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 30

Se se deseja calcular a queda de tensão que ocorre entre dois pontos a e b do toroide de cobre,
podemos escrever

Z b Z b
V IR I l lab
Vab = E.dl = dl = lab = ρ lab = Iρ = IRab (3.15)
a l a l l A A
isto é

Vab = IRab (3.16)

onde Rab é a resistência do toroide de cobre, entre os pontos a e b.

• Diferença de potencial magnético:

Essa é a queda de f.m.m que aparece entre dois pontos, quando o fluxo circula. Desta forma, a
parte da f.m.m total aplicada que aparece entre os pontos a e b é encontada

b
F
Z
ΦR Φ l lab
Uab = H.dl = lab = lab = lab = Φ = ΦRab (3.17)
a l l l µA µA

Uab = ΦRab (3.18)

onde Rab é a relutância do toróide de ferro entre os pontos a e b.

• Densidade de corrente:

Por definição, densidade de corrente é o número de ampères por unidade de área. Desta forma,

I V El E
J∼
= = = l
= (3.19)
A AR Aρ A ρ
ou na forma como é expressa frequentemente, a chamada lei de Ohm, sob a forma microscópica:

E = ρJ (3.20)

• Densidade de fluxo:

A densidade de fluxo magnético é expressa por unidade de área. Desta forma,

Φ F l
B= = =H l (3.21)
A AR A µA

B
H= (3.22)
µ
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 31

3.5 Cálculo de circuitos magnéticos.

O cálculo de um circuito magnético significa a determinação da f.m.m. necessária para produzir


um fluxo dado em uma parte da carcaça, ou ainda, a determinação do fluxo que é produzido por uma
f.m.m. dada (problema inverso).

Em geral, são dadas as dimensões geométricas do material e dados sobre a natureza do mesmo,
através da sua curva de magnetização B(H), µr (B) ou ainda Φ(n.i).

Primeira categoria de cálculo: conhecendo Φ, calcular n.i

Para calcular a f.m.m., a partir dos fluxos, o princı́pio de cálculo é deduzir sucessivamente:

1. as induções nas diversas partes do circuito, dependendo das seções e dos fluxos que as
atravessam;

2. os campos, a partir das induções, seja pela relação B(H) conhecida (no material), seja
B
através de H = µ0 (no ar);

3. os ampères-espiras parciais: H1 l1 , H2 l2 , H3 l3 , ... necessários para magnetizar as dife-


rentes partes.

Exemplo 1: Seja um nucleo de ferro com µr = 2000 e com a = 1 cm, b = 8 cm, c = 2 cm,
d = 6 cm, N = 1000 espiras conforme esquema. Qual o circuito eletrico associado? Qual a corrente
requerida para estabelecer o fluxo de 0,2 mWb no nucleo de Fe?

Figura 3.10: Circuito magnético série e circuito elétrico associado

Soluçao:

lm = 2.(b − a) + 2.(d − a)

lm 2.(b+d−2a) 24×10−2
R= µ.S = µ0 .µr .a.c = 4π×10−7 .2000.2×10−4

R = 4.77 × 105 Ae/Wb

4,77×105 .0,2×10−3
F = N.I = R.Φ ⇒ I = 103
CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 32

I = 95, 4 mA (3.23)

Segunda categoria de cálculo: conhecendo n.i, calcular Φ

Esta segunda categoria de cálculo é mais delicada. De fato, parece impossı́vel determinar um
fluxo a partir de uma relação do tipo: n.i = (R1 +R2 +R3 +...)., posto que as relutâncias R1 , R2 , R3 ...,
dependem da permeabilidade, logo das induções e, consequentemente, do fluxo, que é uma incógnita.

Percebe-se, a partir do exposto, que a solução analı́tica seria difı́cil, tornando-se necessário o
emprego de métodos numéricos. Um deles, pode ser o de aproximações sucessivas (ou de iterações),
supondo conhecido, a priori, um valor de fluxo qualquer. Calcula-se então a f.m.m. correspondente
ao valor inicial escolhido para o fluxo, e compara-se com o valor da f.m.m. dada. Deduz-se, então, um
segundo valor de fluxo, mais provável, e recalcula-se a f.m.m., sucessivamente, até que a diferença entre
a f.m.m. calculada e a f.m.m. dada seja inferior a 5% ou qualquer outra precisão fixada previamente.

Se o circuito possui apenas uma malha, pode-se determinar, simultaneamente, o conjunto de


valores n.i e Φ que satisfaçam a lei do circuito. Segue-se um exemplo ilustrativo de um indutor com
entreferro:

Exemplo 2: Seja um circuito magnético constituı́do de ferro fundido com um entreferro de 1


mm, excitado por uma corrente de 1,3 A que circula através de uma bobina de 1000 espiras. Deseja-se
calcular a indução B no entreferro, sabendo-se que a permeabilidade relativa ao ferro fundido varia,
em função de B, de acordo com a Tabela 3.3 (ver Figura 3.11):

Figura 3.11: Circuito magnético simples, com um entreferro.

Tabela 3.2: Dados de algumas ligas amorfas comerciais.


B(T) 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0
µr 480 350 300 250 200 150 120 110 90 50

Introduzindo as relutâncias, escreve-se a lei do circuito:


CAPÍTULO 3. Circuitos Magnéticos Simples. 33

lf le
n.i = ( + ).Φ (3.24)
µ0 µr S µ0 S

Substituindo os valores numérico dados e considerando µ0 = 4π.107 H/m, temos

200
1, 63 = ( + 1).B (3.25)
µr

Pode-se observar que B e r , relacionados por µr (B), segundo a Tabela (3.2), devem satisfazer
também esta equação. Procede-se então o primeiro passo iterativo:

Para B = 0, 6T , temos: 0, 6( 200


150 + 1) = 1, 4

Verifica-se que este valor é baixo, inferior a 1,63. Tenta-se então o segundo passo:
200
Para B = 0, 7T , temos: 0, 7( 120 + 1) = 1, 87 Verifica-se que este valor é grande, superior a 1,63.
Obtém-se então interpolando os dois valores de B:

B = 0, 65T
Considerações Finais

A proposta deste trabalho foi de apresentar fundamentos de circuitos magnéticos, para isso apre-
sentamos uma breve revisão das leis da eletrotécnica, a partir das equações de Maxwell destacando-se
principalmente o seu significado fı́sico para o melhor entendimento de vários conceitos como as perdas
em materiais magnéticos, sejam eles por histerese, por correntes de Foucault ou anômalas.

Foram apresentados a classificação dos materiais magnéticos: Diamagnéticos, paramagnéticos e


ferromagnéticos, materiais magneticamente moles, magneticamente duros e meios de gravação magnética,
a canalização do fluxo pelos materiais magnéticos e a concentração da força magnetomotriz no entre-
ferro de um ı́mã.

Discutiu-se também a teoria dos circuitos acoplados magneticamente, importante base teórica
para o entendimento do funcionamento e modelamento das máquinas e dispositivos eletromagnéticos.
Apresentamos duas funções de estado, a energia magnética armazenada e a co-energia magnética,
sendo assim apresentados técnicas e modelos matemáticos, que conduziram a circuitos equivalentes ao
dispositivo em análise.

Por fim, consideramos que este trabalho foi de grande valia para o desenvolvimento do conheci-
mento do grupo.

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Referências Bibliográficas

[1] LUCIANO., Benedito Antonio. Fundamentos de Circuitos Magnéticos e Transformado-


res. Dezembro, 2010.

[2] Sereas e Zemansky fı́sica III: Eletromagnetismo/ Hugh D. Young, Roger A. Freedman. - São
Paulo: Pearson Addison Wesley, 2004. 355p

[3] Hayt Jr., William H. Eletromagnetismo. - Rio da Janeiro: LTC, 2003. 196p

[4] http://www.estv.ipv.pt/PaginasPessoais/eduardop/MqE/transformadores.pdf

[5] http://www.labspot.ufsc.br/∼jackie/cap2− new.pdf

[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Perda− an%C3% B4mala

[7] http://www.ufsm.br/desp/geomar/maquinas/UnidadeI.pdf

[8] http://www.electronica-pt.com/index.php/content/view/140/37/

[9] http://minerva.ufpel.edu.br/∼egcneves/disciplinas/mte/caderno− mte/circ− magn.pdf

[10] http://adjutojunior.com.br/maquinas− eletricas/cap− ii− circuitos− magneticos.pdf

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