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Geréncia eciteial Monica Vendramin Gallo Foipao ‘Rparecida Mazto (coordenago) ‘Barbara Munerali de Souza, Assisténcia eltria Solange A. de Almeida Francisco Penelope Brito Organizapdo didatica ‘Vera Ver Calabria "Yara Naiman Colaborapao Fabiana Manna da Siva Revist0 Hela de Jesus Gonsaga (geréncla} Katia Seatf Marques (coordenayo} Pesquisa iconogrstics Sie Kigin (superisa0} Caio Maza Programaca visual (miolo) Kraft Design Eclipse de arte Margarete Gores {supervisto) Rosimeire Tada (coordenagao} “Amitonlebicas Magall Prado Faitoracao eletrnica tara Eatora Capas Retina 78 ‘Amiton lhikana (ese do arte) Impressao ¢ acabamento Pedigao (1+ mpressa0) 2011 ISBN 978 85 08 19386 4 (aluno} ISBN 978 85 08 19387 1 (professor) Todos 08 det resewados por ‘Ssiema ve Ensino SER ‘av, Olviane Aves Lina, #200 = 28 andor Froguesia do © - CEP 02908.900, ‘sie Paulo- SP el 08007700028 Fe 090411 3800-1776, Sumario Mem6ria, imaginagao e linguagem 1 Ameméria, 3 Lembranga e identidade do eu, 4 A meméria em nossa sociedade, 4 0 que é a meméria, 5 Meméria e teoria do conhecimento, 5 2 Aimaginagao, 9 A imaginacao na tradigao filoséfica, 10 A fenomenologia e a imaginagéo, 10 Perceber e imaginar, 11 ‘As modalidades ou tipos de imaginagao, 12 3 Alinguagem, 15 Aimportancia da linguagem, 16 A orga da linguagem, 17 A outra dimensao da linguagem, 17 A origem da linguagem, 18 Empiristas e intelectualistas diante da linguagem, 19 MARILENA CHAUI Livro-docente e professora titular de Filosofia da Faculdade do Filosofia, Lotras © Cidncias Humanas (FFLCH) da Universidade de Sao Paulo, Doutora Honoris Causa pela Université Pavis Vill (Franga). Doutora Honoris Causa pela Universidad Nacional de Cérdoba (Argentina). Especialsta em Historia da Flosofia Modema e Filosofia Poltca. Professora do Departamento de Filosolia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciéncias Humanas (FFLCH) da Universidade de Séo Paulo desde 1967. Filosofia ‘A meméria é uma evocagao do passado. Ea capacidade humana de reter e guardar o tempo que se foi, salvando-o da perda total. A Jembranga conserva aquilo que se foi e jamais retornaré. E nossa primeira e mais fundamental experiéncia do tempo. Pintura de Salvador Dali, A persisténcia da meméria, de 1931. No provesso de memorizatao e de composigao de lembrangas, entram componentes objetivos esubjetvos. Memérla, imaginagao ¢ linguagem EE ME Lembranga e identidade do eu Uma das obras mais significativas da literatu- ra universal contemporanea é dedicada 4 memé- ria: Em busca do tempo perdido, do escritor francés Marcel Proust. Para Proust, como para alguns fil6- sofos, a meméria é a garantia de nossa identidade, © modo de poder dizer “eu” reunindo tudo o que fomos e fizemos a tudo 0 que somos ¢ fazemos. Como consciéncia da diferenca temporal - pasado, presente e futuro -, a meméria é uma forma de percepcao interna chamada introspecao, cujo objeto é interior ao sujeito do conhecimento: as coisas passadas lembradas, 0 préprio passado do sujeito ¢ o passado relatado ou registrado por outros em narrativas orais ¢ escritas. Além dessa dimensio pessoal e introspectiva da memiéria, é preciso mencionar sua dimensio coletiva ou social, isto é a meméria objetiva gra vada nos monumentos, documentos ¢ relatos da historia de uma sociedade. IE A memoria em nossa sociedade Em nossa sociedade, a meméria é valorizada ¢ desvalorizada. E valorizada pela multiplicagdo dos meios de registro ¢ gravacdo de fatos e acontecimentos (computadores, filmes, videos, livros) e das ins- tituigdes que os preservam (bibliotecas, museus, arquivos). £ também valorizada por algumas cién- cias, como a biologia molecular, que nao fala em. “hereditariedade”, mas em “meméria genética” quando se refere & permanéncia de propriedades, qualidades, tracos e aspectos dos seres vivos que sao transmitidos por eles de geragao em gera¢io. Mas é desvalorizada porque nao é considerada uma capacidade essencial para o conhecimento ¢ porque a publicidade ¢ a propaganda nos fazem preferir 0 “novo”, o “moderno”, a “iltima moda’. A industria e o comércio sé terao lucros se nao con: Servarmos as coisas ¢ quisermos sempre 0 “novo”. ‘A desvalorizagio da meméria também apa- rece na proliferacao de objetos descartaveis, bem como na maneira como a indtistria da construgao civil interfere em cidades inteiras para torné-las “modernas’, destruindo a meméria e a histéria desses locais. Detaihe de antigo casardo da Avenida Paulista, em Sao Paulo, ‘onde estdinstalada a Casa das Rosas, entidade que promove ‘eventos cullurais. Ao fundo pode-se ver a estrutura envidra- ada de um edificio no estilo pés-modemo, que caracteriza alualmente a aven ‘A desvalorizagao da meméria aparece, por fim, no descaso com os idosos, considerados inti- teis em nossa sociedade, ao contrério de outras em que eles sio reconhecidos como portadores do saber da coletividade, respeitados e admirados ‘A moda, geralmente valorizada, pode ser questionada por desvalorizar a meméria, INO DIA SEGUINTE: ESTRO Gen BAKA BOTAS DE CANO Couso ETPNissAAS. CUCTE, STAMPAS XADREZt BEE] Ensino mécio EE O que é a memoria A meméria é a atualizacao ou a presentifica- s40 do pasado. E também registro do presente para que permaneca como lembranga. Alguns estudiosos julgaram que a meméria seria um fato puramente biolégico, isto é, um modo de funcio: namento das células do cérebro que registram gravam percepgies ¢ ideias, gestos e palavras. Para esses estudiosos, a memoria se reduzi- ria, portanto, ao registro cerebral ou a gravagio automitica pelo cérebro de fatos, acontecimentos, coisas, pessoas ¢ relatos. Essa teoria, porém, nao se sustenta. Em primeiro lugar porque, se a meméria fosse mero registro cerebral de fatos e coisas passados, nao se poderia explicar o fendmeno da lembransa, isto é,a selecdo e escolha do que lembramos a par: tir de aspectos afetivos, sentimentais, valorativos (ha lembrancas alegres tristes, hé saudade, ha arrependimento e remorso) Em segundo lugar, também nao se poderia explicar o esquecimento, pois, se tudo esta espon: tanea ¢ automaticamente registrado e gravado em nosso cérebro, nio poderiamos nos esquecer de coisa alguma nem ter dificuldade para lembrar de certas coisas e facilidade para recordar de outras tantas Isso nao significa que nao haja componentes. bioldgicos, fisiolégicos ou cerebrais na meméria, Estudos cientificos mostram as zonas do cérebro responsaveis por essa capacidade, e os estudos bio- quimicos mostram o papel de algumas substancias quimicas nesse processo. O que estamos dizendo é que os aspectos bioldgicos ¢ quimicos da meméria no explicam o fendmeno no seu todo. Podemos dizer, portanto, que, em nosso pro- cesso de memorizacao, entram componentes obje- tivos e subjetivos para formar as lembrangas. Em outras palavras, mesmo que nosso cérebro grave ¢ registre tudo, isso nao é meméria, mas sim o que foi gravado com um sentido ou com um significado para nés. Para suas anotagées: Veja os filmes * O feitigo do tempo, de Harold Ramis, Estados Unidos, 1993, 101 min, Um repérter vai a uma pequena cidade em busca de uma matéria especial. Ele pretende sair de lé 0 quanto antes, mas inexplicavelmente fica preso no tempo, repetindo sempre os eventos de um mesmo dia. Em algum lugar do passado, de Jeannot Szwat Estados Unidos, 1980, 103 min. 0 jovem teatrélogo Richard Collie recebe, em 1972, na noite de estreia de sua primeira pega de teatro, um antigo relégio de bolso de uma senhora que Ihe suplica que ele volte para ela. Oito anos depois, buscando inspiragao para novos projetos, ‘le decide viajar. Hospeda-se em um hotel cujo salio guarda a foto de uma atriz muito bela, Elise McKenna, Richard descobre que Elise € a mesma mulher que Ihe deu 0 relégio. Comega, entéo, a procura da solugdo de um enigma que o levaré a0 passado, ME Memoria e teoria do conhecimento Do ponto de vista da teoria do conhecimento, a memiéria possui as seguintes fungoes: = retengio de um dado da percepsio, da expe riéncia ou de um conhecimento adquirido; = reconhecimento e produsio do dado percebido, experimentado ou conhecido numa imagem, que, ao ser lembrada, permite estabelecer uma relaggo ou um nexo entre o ja conhecido ¢ novos conhecimentos; = recordagio ou reminiscéncia de alguma coisa como pertencente ao tempo passado e, como tal, diferente ou semelhante a alguma coisa presente; = capacidade para evocar passado a partir do tempo presente ou de lembrar o que jé nao é por meio do que é atualmente Por essas funses, a meméria é considera- da essencial para a elaborasao da experiéncia e do conhecimento cientifico, filoséfico e técnico. Gragas & meméria, somos capazes de lembrar © recordar. As lembrancas podem ser trazidas a0 presente tanto espontaneamente como por um trabalho deliberado de nossa consciéncia. Lembramos espontaneamente quando, por exem- plo, diante de uma situagao presente nos vem & lembranga alguma situagao passada. Recordamos quando fazemos o esforco para lembrar. Meméria, imaginagao ¢ \inguagem Filosofia Assim como hi perturbagdes e problemas per ceptivos (cegueira, surdez, perda de tato), também existem problemas ou perturbagées da meméria, que vio desde a dificuldade momentinea para recordar alguma coisa até a amnésia, perda total ou parcial da meméria, Quando perdemos a capacidade de lembrar palavras ou construir frases, softemos de afasia. Quando perdemos a capacidade de lembrar ¢ realizar gestos e ages, sofremos de apraxia, Essas perturbagdes podem ser causadas por lesdes fisicas ou traumas psicolégicos. ME Album de familia {A fotografia] revoluciona a meméria: mul- tiplica-a e democratiza-a, dé-Ihe uma precisio e uma verdade visuais nunca antes atingidas, per- mitindo, assim, guardar a meméria do tempo ¢ da evolugio cronolégica. Pierre Bourdieu e sua equipe puseram bem em evidéncia o significado do “album de fami- lia’: “A Galeria de Retratos democratizou-se ¢ cada familia tem, na pessoa do seu chefe, 0 seu retratista. Fotografar as suas criangas é fazer-se historiégrafo da sua infincia e preparar-lhes, como um legado, a imagem do que foram [..] album de familia exprime a verdade da recor- dagao social. Nada se parece menos com a busca artistica do tempo perdido que estas apresenta- bes comentadas das fotografias de familia, ri- BEET Encino mecio Seja por lesio fisica, seja por sofrimento psi quico, seja por uma perturbacao momentanea, 0 esquecimento é a perda de nossa relagio com o passado e, portanto, com uma dimensio do tempo com uma dimensao de nossa vida. Na amnésia, perdemos a relagio com o todo de nossa existéncia Na afasia, perdemos a relagao com os outros por meio da comunicacao. Na apraxia, perdemos a rela- 40 com o nosso corpo e com o mundo das coisas, Esquecer € ficar privado de meméria ¢ perder algo. Algumas vezes, porém, essa perda é um bem: esquecer alguma coisa terrivel é ultrapassé-la para poder viver bem novamente. tos de integrasao a que a familia sujeita os seus novos membros. As imagens do passado dis- postas em ordem cronolégica, ‘ordem das esta- oes’ da meméria social, evocam ¢ transmitem a recordacio dos acontecimentos que merecem ser conservados porque o grupo vé um fator de unificagéo nos monumentos da sua unidade presente. £ por isso que nao ha nada que seja mais edificante que um album de familia: todas as aventuras singulares que a recordagao indivi- dual encerra na particularidade de um segredo sio banidas, e 0 passado comum ou, se quiser, 0 menor denominador comum do passado, tem a nitidez quase coquetista de um monumento funeririo frequentado assiduamente.” BOURDIBY, Pere Un art moyen Bs sores usages soci delaphotographie Parr Mint, 1965p. 33-4 Apu 1 GOEE,facques Histrin ememesia Trades Bernardo Lelio el 50d Campinas: Bator da Unica 2003p 80 Fotografia de John Davison Rockefeller, industial norte-americano (1839-1937), fe sua familia. De acordo com o socidlo ‘go francés Pierre Bourdieu, “odlbum de familia exprime a verdad da recorda- (0 social A meméria nao é um simples lembrar ou recordar, mas revela uma das formas fundamen- tais de nossa existéncia, que ¢ a relagao com o tempo, ¢, no tempo, com aquilo que est invisi- vel, ausente e distante, isto é, 0 passado. A memé- tia é 0 que confere sentido ao passado como dife- rente do presente (e faz. ou pode fazer parte dele) ¢ do futuro (mas podendo permitir esperé-lo ¢ compreendé-lo) Veja o filme 1 Os narradores de Javé, de Eliat 2003, 100 min. 0 filme conta a histéria dos moradores de tum povoado, Javé. Ao saberem que o vilarejo sera inundado para a construgao de uma usina hidrelétria, resolvem impedir essa mudanga transformando 0 local em patriménio historico da humanidade, Para isso, passam a escrever a histéria da cidade, agregando & narrativa a meméria dos habitantes ¢ as lendas dos antepassados Caflé, Brasil, ‘oess6o poral SER visa gale de ragens sobre ofollo cajun de tradigies, conecimentos e cultura de um pov Se |___ Saber mais sobre ofolsere& conserar a moma popu. wa sercom br Para suas anotagées: 1 Por que a meméria é uma introspecgo? Porque uma oma de percep intemacujo objet inlerio ao ‘sujeito do pensamento: as coisas passadas, lembradas, 0 préprio passado do suelo © 0 passado relaado ou registado por outos em naratvas ora eeserias, 2 0 que significa dizer que a meméria 6 feita ndo apenas de componentes objetivos, mas também de elementos subjetivos? Signtcaciver que, mesmo que nosso efrebro grave eregisie tudo, a ‘meméra&formada por aquilo que fel gravad com um sentido ou um significado. A imporncia do aoe a coisa para ns; 0 modo como algua cosa os impressionove fou gravada em nds: a ‘eoessdad para nssa vide nrtica ou para o desenvohimenta de nosso conhecimentos:oprazer ou a dor que um fato ou alum colsa produzram em nds, ee 3 Para teoria do conhecimento, quais sdo as prin- cipais fungdes da meméria? Retengio de um dado da percep, ca experiécia ou de um conhecimentaadquiido;econhecmenla e produao do dado percebido, experimentado ou conhecido numa imagem, que, ao ser lembrada, permite estabelecer uma relagdo ou nexo entre 0 ja conheido «novos conheimants:recocaco ou rminiscncla do alguna coisa coma pertncnte 2 tempo pasado, como al, aiterente ou emai a alguna coisa presente; apacicade para voca’ opasato apa do presente ou delembyaro qué ndo€ por meio do que é atualmente, 1a3 Filosofia imaginagao e linguagem Para praticar Para suas anotagées: 1 Leia o texto e depois responda a questéo pro- posta: © Museu de Arte de Sao Paulo (Masp) & um dos quatro no mundo inteiro que possuem a série completa de esculturas de bronze do francés Edgar Degas (1834- -1917), um dos mestres do Impressionismo. Sto 73 ‘PeGas, conjunto que existe também no Museu D’Orsay (Paris), no Metropolitan Museum (Nova York) ¢ na Carlsberg Glyptotek (Copenhague, Dinamarca). Ao contrério deles, no entanto, 0 Masp raramente exibe esses tesouros do seu piiblico. Motive: costumam estar viajando, emprestados por bom dinheiro, para exposi- ¢0es no exterior. Vive rodopiando mundo afora por causa das graves dificuldades financeiras da instituigao. Agora, voltaram para casa. E a exposicéo Degas: O Universo de um Artista, que serd inaugurada neste més ¢ fica em cartaz até agosto, A turné, porém, é por pouco tempo. E bom aproveitar, porque 0 magnifico elenco logo vai bater asas. [MORAES, Angelic de “DegarIn Bravo, So Paul: Abi 2006, Os museus, como 0 Museu de Arte de Sao Paulo, séo meios de preservar 0 acervo dos attistas e a histéria da arte, De que outras maneiras nossa so ciedade valoriza a meméria e a preserva? 2 Explique como nossa sociedade desvaloriza a meméria 3 Narre um fato que o impressionou e analise- forecendo hipéteses sobre 0 porqué de tal lem- branga ser tao forte 1 O advento da informatica e do universo cibernéti- co vem alterando a forma como lidamos com 0 tempo e, por extensao, com a meméria, Expressoes como “memiéria genética” e “memoria digital” hoje fazem parte do dia a dia das pessoas. S4o meios pelos quais a historia humana esta sendo revista ¢ Tepensada e 0 acesso das pessoas a bens culturais. até entao inacessivels vem se tornando mais am- plo, Escolha uma area do conhecimento humano — ciéncia, arte, musica, fotografia, etc. - e faga uma pesquisa sobre como a informatica alterou a forma como as pessoas se relacionam com essa Area. BEE Encino medio Filosofia A imaginacio possui dois sentidos: 0 criador e o reprodutor. No primeiro caso, ela faz aparecer o que nao existia ou mostra ser possivel algo que nao existe. No segundo, ela é incapaz de reproduvir fielmente o existente ou o acontecido. Quando a erianga brinca, sua imaginagdo destaz a percepedo: todos os objetos, as pessoas ‘0s lugares nada tém a ver com seu sentide percebido, mas remetem a outros sentides, eriam sentidosinexistentes ou pesentiticam o ausente Meméria, imaginagdo ¢ linguagem HS A imaginacao na tradigao filosofica A tradigao filoséfica sempre deu prioridade & imaginagio reprodutora, considerada um residuo da percepcio (0 que sobrou do objeto percebido, que permanece retido em nossa consciéncia). A imagem seria um rastro ou um vestigio deixado pela percepgio. Os empiristas falam das imagens como reflexos mentais das percepgbes ou das impressées, cujos tragos foram gravados no cérebro, Desse ponto de vista, a imagem ¢ a lembranca difeririam apenas porque a primeira é atual, enquanto a segunda é passada. A imagem seria, portanto, a reprodugio presente que faco de coisas ou situagSes presentes. Por exemplo, se nesse momento ew fechar os olhos, posso imaginar o computador, a mesa de trabalho, os livros nas estantes, 0 quebra-luz, a porta, a janela. A imagem seria a coisa atual percebida quando ausente. Seria uma percep¢ao enfraquecida, que, associada a outras, formaria as ideias no pensamento. 3 filésofos intelectualistas também considera- ‘vam a imaginacio uma forma enfraquecida da per- cepgao e, por considerarem a percep¢io a principal causa de nossos erros (as ilusdes e deformagGes da realidade), também julgavam a imaginacio fonte de enganos e erros. Tomando-a como meramente reprodutora, diziam, por exemplo, que a imagi- nagio dos artistas nada mais faz do que juntar de maneira nova imagens de coisas percebidas: um cavalo alado é a jungao da imagem de um cavalo percebido com a imagem de asas percebidas; uma sereia, a jungao de uma imagem de mulher per- cebida com a imagem de um peixe percebido; um romance seria a reunigo de imagens de pessoas percebidas que, realmente, nunca estiveram juntas, ¢ de acontecimentos percebidos que nao se deram_ na forma e na sequéncia narradas; ete. A imaginagao seria, pois, diretamente repro- dutora da percepgio, no campo do conhecimento, ¢ indiretamente reprodutora da percep¢io, no campo da fantasia, Por isso, na tradigao filoséfica, costumava-se usar a palavra imaginagéio como sindnimo de percepgdo ou como um aspecto da percepcao. Percebemos imagens das coisas, dizia a tradicao. Havia, no entanto, algumas questées para as quais a tradicio nio tinha explicacio: = 0 fato de nao confundirmos percepgdo com ima- gem. Distinguimos perfeitamente a percepgio Ensino Médio direta de um bombardeio da imagem de uma explosio atémica, por exemplo; = o fato de no confundirmos perceber com imagi- nar, Distinguimos 0 sonho da vigilia; distingui- mos um fato que vemos na rua da cena de um filme, por exemplo; = nossa capacidade de distinguir a nossa percep- gio da imaginacio daquela de outra pessoa. Percebemos o sofrimento psiquico de alguém que est tendo alucinagées, por exemplo, mas nao somos capazes de alucinar com ele. MS A fenomenologia e a imaginagao Distanciando-se da tradicéo, a fenomenologia fala na consciéncia imaginativa como uma forma de consciéncia que parte da diferenca da imagi- nacdo com respeito A percepcao ¢ A meméria. O ato da consciéncia imaginativa é o imaginar, ¢ seu contetido é o imaginado ou o objeto-em-imagem. A imaginagio é a capacidade da consciéncia para fazer surgir os objetos imaginérios ou objetos-em: imagem. Pela imaginacao, relacionamo-nos com o ausente ¢ 0 inexistente, Perceber este livro é rela- cionar-se com sua presenca e existéncia, Imaginar um livro é relacionar-se com a imagem do livro, isto é, com um livro existente, mas ausente (guar- dado numa biblioteca), ou com um livro ausente porque ainda inexistente e ainda nao escrito e que é apenas um-livro-possivel. Gragas imaginasio, abre-se para nds 0 tempo do que ainda nao existe e o campo dos possiveis ou das coisas possiveis, isto é do que poderia ou poderd vir a existir. os sinals de seu filho na relacionamo-nos cam 0 Homem tenta sentir os primi harriga da mae. Pela imaginagac ausente. Qual a diferenga entre perceber ¢ imaginar? Hi pelo menos duas, que so as principais. percepgio observa as coisas, as pessoas, as situa- goes, mas a imaginagio ndo observa. Observar & jamais ter uma coisa, pessoa ou situagao percebi das de uma s6 vez e por inteiro, mas alcangé-las por perfis, perspectivas, faces diferentes que vio sendo articuladas umas as outras. Na imagina- 0, a0 contrério, cada imagem poe o objeto por inteiro, © filésofo francés Jean-Paul Sartre dé um exemplo: quando imagino uma rua ou um edificio, tenho de uma s6 vez a rua-em-imagem ow 0 edificio-em-imagem, cada um deles possui uma tinica face ¢ & ela que existe em imagem, Podemos ter muitas imagens da mesma rua ou do mesmo edificio, mas cada uma delas é uma ima gem distinta das outras. Uma imagem, diz Sartre, Einobservivel Se uma pessoa apaixonada tem diante de si a pin- tura ou a fotografia da pessoa amada, tem a ima- gem dela, Ao olhé-la, nao olha para as manchas coloridas, para os tragos reproduzidos no papel, nao presta atengio no trabalho do pintor nem do fotégrafo, mas torna presente a pessoa amada ausente, O amante de pintura que vai ao museu ver a série de Monet sobre a catedral de Rouen nao otha para manchas ¢ linhas coloridas, mas para a fachada da catedral, para a imagem que presentifi- ‘aa catedral. Com isso podemos apontar a segun da diferenca entre 0 percebido e 0 imaginado: a imagem ¢ diferente do percebido porque ela é um andlogo* do ausente, sua presentificagio. Quando a crianga brinca, sua imaginacio desfaz a percepsao: todos os objetos, as pessoas ¢ 0s lugares nada tém a ver com seu sentido per- cebido, mas remetem a outros sentidos, criam sentidos inexistentes ou presentificam o ausente. Um armirio é um navio-em-imagem, um tapete € 0 mar-em-imagem, uma vassoura é uma espa da-em-imagem, uma folha de jornal é um mapa- -em-imagem, um avental preso as costas é uma capa-em-imagem. A imaginacio ¢, assim, uma capacidade irrealizadora. A forca irrealizadora da imaginagio significa, de certo modo, que ela é capaz de tornar ausente 0 que esta presente (0 armério deixa de estar presen- te), de tornar presente o ausente (0 navio torna-se presente) ¢ criar inteiramente o inexistente (a aventura nos mares) dizer que uma imagem & um andlogo significa que néo ha desproporgao entre ela @ aquilo de que ela é imagem, que ela guarda alguma propor- 40 ou semelhanga com aquilo de que é imagem, que entre ela e aquilo de que é imagem ha algo em comum, apesar da diferenga entre eles. Os atores Jott Daniels & Mia Farrow em cena do filme A rosa purpura do Cairo, de 1985, dirigido por Woody Allon. Qual a Aliterenga ent perceber imaginar? E por isso que a imaginagdo tem também uma forca prospectiva, isto é, consegue inventar o futu- r0, como na cangio de John Lennon, Imagine, ou como na invengo de uma teoria cientifica ou de um objeto técnico. Pelo mesmo motivo, a imaginagao pode criar um mundo irreal, que julgamos melhor do que 0 nosso, a ponto de nos recusarmos a viver neste para “viver” imaginariamente naquele, perdendo todo 0 contato com o real. E 0 que acontece, por exemplo, na loucura, quando passamos defini tivamente para o “outro lado”. Mas é também o que acontece todos os dias, quando sonhamos ou entramos em devancio As modalidades ou tipos de imaginagao Partindo da diferenca entre imaginagao repro- dutora ¢ imaginagao criadora, podemos distinguir varias modalidades ou tipos de imaginagio: imaginagio reprodutora propriamente dita, isto 6,a imaginagdo que toma suas imagens da per cepsao ¢ da meméria; gas brineam em fonte do Sese ltaquera, em Séo Paulo. EEEEETA Ensino medio imaginagao evocadora, que presentifica o ausen te por meio de imagens com forte tonalidade afeti imaginagao inrealizadora, que torna ausente 0 presente e nos faz viver numa outra realidade que é s6 nossa, como no sonho, no devaneio ¢ no brinquedo; imaginacio fabuladora, de carter social ou coletivo, que cria os mitos e as lendas pelos quais uma sociedade, um grupo social ou uma comunidade imaginam sua prépria origem ¢ a origem de todas as coisas, oferecendo uma explicagio para seu presente e, sobretudo, para a morte. Nesse caso, a imaginagio cria imagens simbélicas para o bem e 0 mal, o justo e o injus- to, 0 puro e 0 impuro, o belo eo feio, o mortal e © imortal, o tempo e a natureza pela referéncia as divindades ¢ aos herdis criadores; explica os males desta vida por faltas origindrias cometidas pelos humanos e promete uma vida futura feliz apés a morte; imaginagio criadora, que inventa ou cria 0 novo ‘nas artes, nas ciéncias, nas técnicas e na filosofia. va; EEE Como é ser um morcego? Atualmente, sabemos que a maior parte dos morcegos (microchiroptera, para ser preci- so) percebe 0 mundo externo primariamente por um sonar, localizado pelo eco, detectando as reflexes de seus préprios gritos rapidos, su- tilmente modulados e de alta frequéncia, nos objetos ao seu alcance. Seus cérebros s4o proje- tados para correlacionar os impulsos enviados com os ecos subsequentes, ¢ as informagies as- sim adquiridas permitem aos morcegos discri- minagdes precisas acerca da distancia, tamanho, forma, movimento e textura, comparaveis as que fazemos pela visio. Mas o sonar dos mor- cegos, embora seja claramente uma forma de percepeao, nio é similar a nenhum sentido que possuimos, quanto a forma das suas operacdes, E nao hé razao para se supor que ele seja, subje- tivamente, parecido com algo que nés possamos experimentar ou imaginar. Isso parece criar di- ficuldade para a nogao de como é ser um mor- cego. Devemos considerar se algum método nos permitiré extrapolar 0 nosso préprio caso A vida interior do morcego e, em caso negativo, se pode haver algum método alternativo para 0 entendimento dessa nosio. ‘A nossa propria experiéncia prové o mate- rial bésico para a nossa imaginacao, cujo alcan- ce é, consequentemente, limitado. Nao ajuda tentar imaginar que alguém tenha membranas sob os bragos que o habilite voar ao entardecer € ao alvorecer pegando insetos com a boca, que tenha a visio muito precaria e perceba o mundo 4 Gomo os empiristas concebem a imaginagao? Como um rellexo mental das percepgdes ou das imoresses,cujos tags foram gravaos no cero. imager sera, portant, a reprodugao presente que fago de coisas ou situagées presentes. uma percepedo enfraquecida, que, associada a outras, formaria as ideias no pensamento. 4 sua volta por um sistema de sinais de som em alta frequéncia refletidos, e que passa o dia pen- durado de cabeca para baixo com os pés no teto de um sétdo, Até onde eu consiga imaginar isso (e nao chego muito longe), isso apenas me diz como seria para mim comportar-me como um morcego se comporta. Mas ndo é essa a ques- téo. Eu quero saber como é, para um morcego, ser morcego. Se eu ainda assim tento imaginar isso, fico restrito aos recursos da minha propria mente, inadequados para a tarefa. Nao consi- go isso nem mesmo imaginando acréscimos & minha experiéncia presente, nem imaginando uma combinagio de acréscimos, subtragies ¢ modificacées. ‘Mesmao que eu pudesse parecer uma vespa ou um morcego, ou comportar-me como eles, sem modificar a minha estrutura fundamental, minhas experiéncias no seriam nada parecidas com as experiéncias de tais animais. Por outro lado, é muito duvidoso que qualquer significa- do possa ser associado A suposi¢ao de que eu poderia possuir constituicao neurofisiolégica interna de um morcego. Mesmo se eu pudesse ser gradualmente transformado em morcego, nada na minha constituigao presente me torna- ria apto a imaginar o que as experiéncias de tal estagio futuro de mim, mesmo assim metamor- foseado, poderiam ser. A melhor evidéncia viria das experiéncias dos morcegos, mas apenas se soubéssemos como elas si0. NAGEL, Thomas, Como éser um moreg? Trad: Paulo Avante ulna Onone Cad. it PL Ch. ‘Série 3,915. Campinas Jan jun 2005p. 245-62 2 Como os intelectualistas concebem a imaginagao? 0 ielectulistas também consideravam a imaginago ume forma