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THOMAS MANN

DA REPÚBILICA ALEMÃ1

Prefácio

As páginas a seguir, escritas em bons dias de verão deste ano de 1922 para o
caderno da Neuen Rundschau dedicado a Gerhart Hauptmann e comunicadas oralmente,
antes de serem impressas, numa noite de outubro na Sala Beethoven em Berlim,
provocaram, quando de sua primeira audição e aparecimento, muito barulho pelas ruas:
menos por seu conteúdo objetivo, que dificilmente poderia desconcertar pela novidade,
que pelo fato de terem sido produzidas justamente por este autor. Eu tinha de me alegrar
por ter a crítica se abstido de revirar-me as entranhas em busca de motivos utilitários
que pudessem ter levado à minha “deserção”, à minha “mudança de opinião”, ao
“rompimento” com meu passado político-espiritual, por ela deixar de me declarar em
alto e bom som manipulado e usado por órgãos oficiais: que se estava diante de uma
mudança de idéias, uma troca de credo de caráter surpreendente, desnorteante e mesmo
frívolo parecia ser a opinião quase generalizada.
Ela se equivoca, esta opinião generalizada – e peço a permissão de pronunciar
aqui mais uma vez a afirmação que não me cansei de repetir em particular. Eu não sei
de nenhuma mudança de idéias. Eu mudei talvez a minha maneira de pensar – não
minhas idéias. Mas pensamentos, ainda que isso soe a sofisma, são sempre meios para
um fim, ferramentas a serviço de uma idéia, e justamente para o artista será mais fácil
saber, como guardião impassível de opiniões, pensar de outra forma, falar de outra
maneira, quando se trata de afirmar uma idéia que permanece em tempos mudados. Eu
já chamei a atenção uma vez para a necessidade de quase se inverter completamente, no
caso do artista, a frase de Goethe, segundo a qual apenas o observador é consciencioso,
não o homem de ação: pois a arte é a esfera do puro espírito e possui para ele a
dignidade da observação, enquanto ele só conhece o pensamento como meio dialético e
tende a exercitá-lo, e à observação, no sentido de uma ação. Se, portanto, nestas páginas
o autor defende em parte outros pensamento que não os do livro do “apolítico”2, o que
há aí é uma contradição apenas entre pensamentos, e não entro o autor e si mesmo. Este
continua a ser o mesmo, uno em seu ser e suas idéias, e de tal forma, que ele pode
responder tanto àqueles que o louvam por sua “mudança” quanto aos que o acusam de
traição à germanidade: este apoio à República continua a linha das Considerações
exatamente e sem quebra até os dias de hoje, e sua convicção é, sem tirar nem pôr,
inegavelmente, a daquele livro: a do humanitarismo alemão. Em prol dele o autor
suportou pacientemente com perfeita paciência ser acusado de ser um reacionário;
também em prol dele aturará que hoje o difamem como jacobino. Sua tomada de
posição oposicionista duas vezes repetida no tempo deveria, porém, ao menos fazer
concluir por uma independência de sua consciência e protegê-lo da acusação de ceder,
por fraqueza de caráter, à influência de seja lá que círculos e companhias forem, ou de
dançar conforme a música.
Eu acreditava poder ajudar um pouco com esta ação, que pôde se tornar ação
justamente por ter sido eu a empreendê-la; acreditava poder dar algo como um exemplo
1
Von deutscher Republik. In: Schriften zur Politik. Frankfurt am Main, 1978.
2
Referência ao livro Considerações de um apolítico, publicado por Thomas Mann em 1918.
2

ao me colocar decisivamente do lado da república, eu, o “cidadão” notório e


matriculado; e foi também esta ilusão que me possibilitou desempenhar por uma vez o
papel de homem de assembléia e defender pessoalmente, diante de um auditório, o que
havia escrito. Que isto foi um erro está claro. Pois desta forma a coisa foi
prematuramente entregue aos cuidados da imprensa, que a tratou à sua maneira, uma
maneira ruim, inexata em alguns casos, montada – sabe Deus, o quanto por inépcia, o
quanto por má fé. Nela foi noticiado que eu teria dito que a república não era o resultado
da ruína, e sim da elevação e da honra, e ponto. O que eu disse é novamente apresentado
aqui. Eu não datei a república a partir de 1918, e sim de 1914: naquele momento, na
hora de se erguer em prontidão para a morte ela se construiu no coração da juventude!
Naquele momento aconteceu algo para a determinação daquilo que eu entendo por
república – e eu, afinal, não dei vivas à República antes de havê-la definido – não como
algo que exista, e sim como algo a ser criado. A tentativa, porém, e ainda que fosse com
meios insuficientes, de colaborar espiritualmente para esta criação necessária e infundir
num infeliz Estado que não possui cidadãos algo como idéia, alma, espírito vital – não
merece, como quer me parecer mesmo depois de cem bordoadas, nenhuma injúria.

Da república alemã

A Gerhart Hauptmann
no seu sexagésimo aniversário

O senhor, Gerhart Hauptmann, permita-me recordá-lo, estava entre os meus


ouvintes, quando, em um dia da Semana Goethe em Frankfurt, foi-me dada a
oportunidade de falar na Universidade sobre confissão e educação, sobre humanidade,
portanto; o senhor estava sentado na primeira fila diante de mim, e tinha atrás de si o
auditório completamente tomado pela juventude acadêmica. Foi belo, e que hoje
novamente o seja. Novamente, graças à minha presunção, eu quero tê-lo diante de mim
como naquela ocasião, prezado senhor, a fim de dirigir-lhe a palavra e saudar seu
aniversário; e quando eu levanto um pouco a cabeça, a juventude alemã deve estar aqui
e aguçar seus ouvidos, pois também a ela, além de sua pessoa, eu quero falar hoje,
também com ela eu tenho de falar, se é aí que está o sentido daquilo que, como reza o
provérbio, se tem de pôr em pratos limpos: sobre o senhor, a quem nós hoje felicitamos,
e sobre outras coisas mais, mas, em tudo e por tudo, novamente sobre coisas
relacionadas à humanidade – coisas, portanto, para as quais a juventude alemã nunca,
jamais pode se mostrar insensível, a não ser que ela já não fosse mais juventude alemã.
No entanto, é bem possível que ela faça muito ruído. Mas não faz mal, eu falarei até o
fim e mobilizarei meu coração e meu espírito a fim de conquistá-la. Pois ela precisa ser
conquistada, isto é certo, e pode ser conquistada, pois não é má, apenas orgulhosa e
obstinada em sua parcela ruidosa.
Para voltar ao começo, não é de estranhar que eu recorde com prazer daquelas
circunstâncias em Frankfurt e as reconstrua em espírito: indubitavelmente, como depois
eu pude constatar (pois o presente sempre recebe nossa ingratidão) ela significou um
ponto alto da minha vida de escritor. Bem à frente, como eu disse, estava o senhor,
Gerhart Hauptmann, e à sua esquerda estava o Pai Ebert3. Diante do rei e do reino,
portanto, como canta Lohengrin, eu revelei meu segredo em confiança – e com “reino”,
claro, eu me refiro ao Pai Ebert, mas com “rei” ao senhor. Pois hoje o senhor é um rei,

3
Friedrich Ebert (1871-1925), primeiro presidente da república de Weimar.
3

quem o negaria? Um verdadeiro rei da nação, sentado diante de mim – o rei da


República. Seria esse um paradoxo? Então eu invocaria Novalis, um monarquista de
uma espécie particular, que disse que em breve todos concordariam com a opinião geral
de que nenhum rei pode existir sem uma república, e nenhuma república sem um rei –
uma afirmação democrática em todo caso, e que exige a complementação de que é
muito mais provável que possa existir uma república sem rei que o contrário (ruído no
fundo), e ninguém deveria se espantar se o senhor, em sua qualidade de rei, for
republicano até a medula – depois de um breve estremecimento de sua posição durante
o processo de transformação, uma vez que o seu reino foi tão extraordinariamente
fortalecido e evidenciado pela nossa republicanização.
Nós vivemos com rapidez, a iluminação sob a qual se encontra um indivíduo
muda num piscar de olhos e, como se costuma dizer, hoje morto pálido e amanhã, até
segunda ordem, novamente vivo e cálido; é divertido, mesmo que de fato não o seja
mais, manter os olhos sobre o caleidoscópio das circunstâncias e valores públicos,
mesmo quando nossos próprios destinos cotidianos estão em jogo. O radicalismo
intelectualista que acompanhou a revolução nas esferas literárias não era simpático à sua
maneira de ser. “O espírito” estava contra o senhor. Isso já passou. As vozes juvenis que
o senhor chamou “anti-espirituais” se calaram, a onda o carrega, as tendências da época,
tanto as sociais quanto as democráticas são favoráveis a sua grandeza. O socialismo
desta época honra em sua pessoa o poeta compassivo dos Tecelões e da Hannele, o
poeta dos pobres; e depois de já se ter dito da democracia tudo o que poderia ser dito,
deve-se constatar que, após a queda da cúpula dinástico-feudal, ela tornou mais visíveis
os cumes espirituais da nação: a reputação imediata do escritor cresce no estado
republicano, sua responsabilidade imediata em igual medida – não importa se ele
pessoalmente considera isso algo desejável ou não.
Mas o senhor venceu, Gerhart Hauptmann, especialmente por causa de seu
germanismo, quer dizer, de sua genuína popularidade – para citar mais uma vez
Novalis, que definiu o ideal da germanidade justamente desta maneira, como “genuína
popularidade” – uma popularidade de um caráter humano no mais alto grau, como não
podemos perder a oportunidade de acrescentar, a fim de evitar noções toscas e
simplórias. Eu me dirijo a você, juventude acadêmica, principalmente quando você já
sentiu várias vezes a necessidade de acompanhar minhas palavras com uma desordem
ruidosa. A última fertilização internacionalista de nossa literatura aconteceu nos anos
oitenta e noventa do século passado, quando Ibsen, Zola e os grandes russos fizeram sua
entrada entre nós; ela coincidiu com a eclosão do Naturalismo, com a renovação da
atmosfera pela Alemanha mais jovem. E qual foi a personalidade de poeta que
ocasionou este movimento artisticamente cosmopolita? Qual vulto duradouro ele deixou
atrás de si? Ora, ele dava forma ao mais alemão dos rostos, ao de Gerhart Hauptmann,
ele levou para o alto este mestre que, graças a uma genuína popularidade alcançou hoje
uma posição principescamente representativa e no qual no país e no exterior se honra o
chefe espiritual do Reich pós-imperial. Vale a pena refletir sobre isso. Vale a pena fazê-
lo também no caso de Stefan George, de cujos inícios os profetas não deveriam expulsar
via estilização nem a Baudelaire nem ao Parnaso francês, mas cuja vida, vulto e
influência são hoje uma questão pura e altamente nacional. Onde quer que a grandeza
governe, o nacional-fisiognômico se impõe infalivelmente, apesar de toda entrega
cosmopolita, e ao menos entre nós alemães parece ser uma lei fundamental que, quem
se perder, se conservará, mas quem pretende se conservar se perderá, quer dizer,
reverterá à barbárie ou a uma trivial insignificância. (desordem generalizada)
Humana, eu afirmo, por sua história literária, é a germanidade poética deste
homem, não tosca e nem simplória. E acrescento: humana, nem nacionalisticamente
4

ingênua nem nacionalisticamente grosseira ou baderneira, e sim liberal no sentido mais


humano, moderada pelo seu caráter cultural, sua germanidade, sua elevada genuinidade,
sua popularidade se apresenta à nossa reverência de maneira completa e
incondicionalmente pacífica e digna. Como poderia ele ter deixado de tomar
consciência dela, dolorosa, intimamente, durante as angústias e aflições da guerra? Ele
não fanfarroneava com a filantropia. Ele não se comportou como um literato, não foi
para Zurique para de lá cuspir pacifismo em seu povo e seu país. Com seu coração e sua
boca ele tomou o partido da Alemanha, e tornou a fazê-lo quando chegou o momento de
manifestar condolências a algumas regiões de fronteira do Reich que a duvidosa
sabedoria dos vencedores decretou deverem ser separadas dele – e a multidão
acompanhou o homem digno e paternal da sala para a rua, sem vontade de deixá-lo,
insaciável nas demonstrações de amor. Mas se assim fosse, poderia ele ser considerado
por esse seu povo, em cuja essência profunda vivem grandes tradições culturais, em
estado organicamente inconsciente, porém de modo inegavelmente determinante para
sua consciência – poderia ele, eu repito, ser considerado assim por esse seu povo como
pai e defensor caso sua popularidade fosse de uma espécie nacionalisticamente estreita,
grosseiramente agressiva e desprovida de humanidade? Nunca a popularidade
verdadeira e genuinamente alemã poderá ser assim. Não importa o que a Europa diga:
humanitas como idéia, sentimento e elemento regulador, como a consciência tácita de
que o Estado é tão-somente “uma união especial de uma certa quantidade de indivíduos
no grande Estado que a humanidade em si já constitui” – para novamente citar uma
frase do poeta que, ao que parece, deve ser meu fiador em tudo o que eu tenho a dizer
hoje4 –, nunca abandonou nosso povo, e nenhum outro equilibrou nas profundezas da
consciência e nas alturas do espírito os valores do nacional e do universal com maior
prudência.
Isso se deu da maneira mais brilhante naquela maravilhosa esfera à qual
pertencia Friedrich von Hardenberg, e cujo sentido artístico para o pitoresco-nacional
era tão forte que alcançou uma dimensão humano-abrangente, que nela o nacionalismo
e o universalismo viviam em feliz vizinhança. “Tudo que é nacional – diz Novalis –
tudo que é temporal, local, individual, pode ser universalizado e canonizado e
generalizado. Cristo é um compatriota tão enobrecido”. E ele continua: “Este colorido
individual do universal é seu elemento romântico. Assim, todo deus nacional, e mesmo
o deus pessoal é um universo romantizado. A personalidade é o elemento romântico do
Eu”. – Aqui reina a justiça. Aqui se reconhece que o unversal-canônico não significa
uma racionalização hábil, e sim um “enobrecimento”; ao mesmo tempo, porém, o
individual e o nacional são caracterizados como o elemento romântico de personalidade
do universal e, com isso, como poesia da vida. Qual é o mais elevado? Quem poderá
dizer? Se o “canônico” for a esfera mais elevada e espiritual, então talvez a
personalidade seja a mais íntima, talvez mesmo a mais verdadeira. Ela é ao mesmo
tempo, há séculos, a mais guerreira. Sim, a esfera do sangue é também, de uma maneira
terrível, a esfera sangrenta – isto faz parte, ao que parece, do “colorido”. Guerra é
romantismo. Ninguém nunca negou o elemento poético-místico que lhe é inerente. Seria
obtusidade negar que ela é hoje um romantismo ridiculamente maligno, poesia
asquerosamente desfigurada. E para não permitir que o nacional perca totalmente a
reputação, que ele se torne uma completa maldição, será necessário compreendê-lo não
como o supra-sumo do espírito guerreiro e da pancadaria, antes, em completo acordo
com sua natureza artística e quase exaltada, cada vez mais absolutamente como objeto
de um culto da paz. (Ruído)

4
O poeta é Novalis (pseudônimo de Friedrich von Hardenberg).
5

Estes sons não, juventude5! Eu não sou nenhum pacifista, nem do tipo babão
nem do tipo untuoso. O pacifismo como visão de mundo, como vegetarianismo da alma
e filantropia da felicidade racional-burguesa não é minha causa. Mas também não era a
de Goethe, ou não poderia ser e, no entanto, ele era um homem da paz. Eu não sou
nenhum Goethe; mas um pouco, de algum modo, de longe eu sou, para falar com
Adalbert Stifter, “da sua família”, e também o meu partido é a paz, pois ela é o reino da
cultura, da arte e do pensamento, enquanto na guerra triunfa a rudeza... não apenas ela,
estejam tranqüilos, eu sei, mas sendo o homem o que é, e no estágio atual do mundo,
quase que apenas ela. O mundo, os povos hoje estão velhos e prudentes, a etapa épico-
heróica da vida ficou, para cada um deles, muito para trás, a tentativa de retornar a ela
significa uma feroz rebelião contra a lei do tempo, uma inverdade espiritual, a guerra é
mentira, seus próprios resultados são mentira, ela própria, não importa quanta honra o
indivíduo possa estar disposto a investir nela, está hoje completamente desprovida de
honra, e por isso, para o olho que não engana a si mesmo, ela se apresenta, quase inerte,
como triunfo de todos os elementos nacionais brutais e malignos, arquiinimigos da
cultura e do pensamento, como uma orgia sangrenta de egoísmo, degradação e maldade.
Confessem a si mesmos a verdade, assim é que é. Eu não o digo por maldade
política, não para insultar as lembranças que devem ser sagradas, que devem
permanecer sagradas para aqueles entre vocês que estiveram na guerra, que derramaram
seu sangue e viram correr o sangue dos camaradas. Eu não sou nenhum Tersites da
razão, nenhum malicioso homem de partido que, tomado pela volúpia do poder, se
deleita com o opróbrio, com o desterro espiritual do inimigo cujos ideais foram postos
por terra. Eu sei o que é sangue, o que é a morte, o que é camaradagem. Admitam que
nunca se ouviu de meus lábios um único som daquele miserável sarcasmo entre aspas
contra a “grande era”! Esse sarcasmo não vem de um sentimento ofendido – não havia,
ali onde ele costuma se fazer ouvir, nenhum sentimento a ofender. Mas mesmo o mais
viril entre os espíritos de hoje, aquele cuja poesia é um áspero culto da virilidade e que
ainda ontem nos entoou uma fremente canção de amor pela honra sobre “O regresso dos
mortos”, o hino “aos venerandos, aos heróis” – também ele viu na realidade da guerra
de hoje “apenas muitos ocasos sem dignidade”.

A mão do criador retira-se, raiveja arbitrária


Deformidade de chumbo e lata, hastes e canos.
Ri sua fúria, quando soam falsos discursos heróicos
De ontem, aquele que viu o irmão afundar
Feito lama e torrões, que habitou vergonhosamente
A terra revirada, feito um inseto...
O velho deus das batalhas não existe mais.6

Ele não existe mais. O deus degenerou em uma repulsiva máscara de ídolo e
oferecer-lhe sacrifícios se tornou algo como um quixotismo obscurantista. A decência e
a dignidade humanas ordenam derrubar este rubro rei velhaco do trono do mundo e
declarar a Europa como república – na medida em que a idéia da república esteja ligada
à da cultura nacional da paz.
A república... como soa para vocês a palavra em minha boca? Mal – a julgar por
alguns ruídos que infelizmente sou obrigado a chamar de pateada. E, no entanto, esta
palavra, ao contrário do que ocorre a muitos de vocês, me é familiar e corrente desde a
infância. Minha terra natal era um estado republicano do Reich, como aqueles dos quais
5
Alusão aos primeiros versos do coral da Nona Sinfonia de Beethoven.
6
Setefan George, A guerra (1917).
6

ele hoje se constitui inteiramente. Eu nunca fui, porém, um republicano da cepa de um


Verrina7, nunca fui homem de uma rigidez virtuosa doutrinária, nenhum revolucionário
neste sentido, vocês o sabem. Eu digo com Novalis que “aqueles que em nossos dias
declamam contra os príncipes como tais, e não estabelecem a salvação senão à nova
maneira francesa, e também apenas reconhecem a república sob a forma representativa
e afirmam apodicticamente que só existe república onde há assembléias primárias e
eleitorais, diretórios e conselhos, municipalidades e árvores da liberdade, são filisteus
miseráveis, vazios de espírito e pobres de coração, literalistas que tentam esconder sua
superficialidade e sua nudez interior por trás da bandeira colorida da moda triunfante,
sob a imponente máscara do cosmopolitismo, e que merecem inimigos tanto quanto os
obscurantistas, para que a guerra dos sapos e dos ratos se evidencie completamente”. –
Assim fala um romântico. Pois o nível do romantismo alemão, por mais que certamente
seja outro que não o do iluminismo político, está justamente tão acima de todo
obscurantismo que, uma vez que oposição genuína só é possível num mesmo patamar, a
inimizade do obscurantismo é desde logo sentida como a última vergonha. O
obscurantismo, cujo nome político é reação, é rudeza – rudeza sentimental sempre que,
enganando a si mesmo, tenta esconder sua fisionomia brutal e irracional “sob a
imponente máscara” da afetividade, da fidelidade germânica, por exemplo; e a rudeza
sentimental merece tão pouco o nome nobre e espiritualmente suave de romantismo,
que o romântico mais empedernido pode, em caso de necessidade passageira, se tornar
um iluminista político a fim de ajudar a repelir com toda força pretensões tão
desavergonhadas. Quando o obscurantismo sentimental se organiza em forma de terror e
envergonha o país com atos assassinos asquerosos e insanos, então não se pode negar
por mais tempo a existência de uma tal necessidade, e o silêncio que, como eu posso
perceber, se espalha pela sala depois desta alusão, eu sei, jovens, o quanto eu – que
tenho de temer haver, por necessidade espiritual de liberdade, fornecido armas ao
obscurantismo – o quanto, eu o digo, justamente eu sou culpado por esse silêncio que
agora reina aqui.
Eu o digo francamente: meu propósito é, na medida em que isso é possível,
conquistá-los para a república e para aquilo que chamam democracia e que eu, por
aversão aos ecos de charlatanismo que acompanham esta palavra (uma aversão que
compartilho com vocês), chamo de humanidade – pedir por ela junto a vocês na
presença deste homem e poeta aqui diante de mim, cuja genuína popularidade se baseia
na mais digna união de elementos nacionais e humanitários. Pois eu gostaria que o
semblante alemão, agora dolorosamente desfigurado e deformado, voltasse a se
assemelhar ao dele – a esta face de artista que mostra tantos traços da imagem de
elevada probidade que para nós está ligada ao nome de alemão.
Quão singulares e contrárias às regras da humanidade se apresentam as coisas
hoje em nosso país! “República – escreveu Novalis – é o fluidum deferens da juventude.
Onde há jovens, há república”. E não é verdade que sede de liberdade, amor pela
mudança, generoso ímpeto revolucionário sempre foram uma prerrogativa natural da
juventude, aqui como em toda parte? Não falta de maneira nenhuma aos nossos
estudantes, às nossas ligas estudantis, tradição democrática. Houve tempos em que as
tendências nacionais e as dinástico-monárquicas, longe de coincidir nas idéias, estavam
muito mais em oposição inconciliável umas com as outras, em que patriotismo e
república não apenas não configuravam uma oposição, como pareciam ser uma e a
mesma coisa e em que toda a paixão da nobre juventude estava ao seu lado, ao lado da
causa da pátria e da liberdade. Hoje a juventude, ou ao menos uma parte vital da

7
Líder republicano da peça A conspiração de Fiesco em Gênova, de Friedrich Schiller.
7

juventude, parece conjurada em um eterno ódio à república, sem se lembrar do que já


pôde existir no passado – pois já uma tal lembrança deveria ter um efeito limitador à
incondicionalidade deste ódio. Vocês responderão: “havia então condições
completamente diferentes; mas nós, jovens, permanecemos fiéis a nós mesmos através
da mudança dos tempos, e nos reconhecemos fraternalmente nos mártires de então, nas
vítimas abnegadas das perseguições dos demagogos. A história não se repete, e nosso
ódio é vida”. Ele provavelmente não o é, eu tenho que replicar, e é uma grande verdade
que, uma vez que a história não se repete, pode ser altamente contrário à vida pensar e
sentir em analogias históricas! Vez por outra me aterrorizam os riscos de se errar
inerentes a um tal jogo! Pois possivelmente se trata de um jogo de crianças copiar hoje
de Tilsit e Jena a restauração militar secreta da Prússia – e se a república tivesse em
nossos dias a verdade e a vida ao lado dela, caso ela, levada pela necessidade, abolisse
as organizações monarquistas secretas de vocês, da mesma maneira que vocês as
tiveram ao seu lado contra os espiões e esbirros da reação?
“O que, afinal, é velho, o que é jovem?” – pergunta Novalis. “Jovem – ele
responde – é onde o futuro governa; velho, onde o passado tem a prevalência”. – Será
que vivemos num mundo às avessas? Hoje a juventude é a ardente partidária do
passado, e todos os seus pensamentos se dirigem à restauração mecânica do que é velho.
Perseguições demagógicas? Sim, provavelmente é o que ocorre com a autodefesa
suficientemente desajeitada de uma novidade que obviamente ainda não pode ser o
verdadeiro e genuíno novo, e sim, provisoriamente, o pré-requisito e o fundamento mais
gerais para ele: pois o que seria demagogia se não o ardil trivial de aproveitar a atual
miséria interior e exterior do país a fim de glorificar o que já está desgastado e
arruinado, sem de resto ter a mínima idéia de um meio e um caminho pelos quais a
pompa de então pudesse ser restaurada, nem de que pretendente indicar para o trono
abandonado em torno do qual nos juntamos para defendê-lo?
É louvável, é um sinal de espírito, combater fatos exteriores enquanto eles não
coincidirem com os interiores e são, portanto, realidade sem ser verdade. Por outro lado
é absurdo, e nada além disso, negar e não querer permitir que se imprimam na realidade
fatos que são para todos interiores, mesmos para os que os negam e se opõem a eles.
Estudantes! Burguesia salpicada nas fileiras da juventude acadêmica! A república, a
democracia, são hoje fatos interiores, elas o são para todos nós, para cada um, e negá-las
significa mentir. Até há pouco reinavam sobre nós poderes consagrados pela história,
providos de uma autoridade provinda do encanto duma reputação herdada tão
avassaladora que era humano defendê-los e deixá-los existir, mesmo quando a sua
degeneração em banal teatralidade há muito já deixava perplexa toda piedade, e esses
poderes eram o Estado, ele estava em suas mãos, ele era a sua causa, que eles
obviamente já não defendiam bem, enquanto nós, dando-lhes as costas, tentávamos
defender o melhor possível a nossa causa, a causa da nação e da cultura. Sim, havia-se
estabelecido uma separação entre a vida do Estado e a vida da Nação, com uma
gravidade e totalidade que jamais poderia ser permitida e necessariamente teria de se
vingar em ambas as partes. Nós nos dedicamos aos esforços do nosso ofício, à arte, ao
pensamento absoluto – não quero afirmar que com paz de espírito, pois nosso
absenteísmo político era de essência fatalista demais para que pudesse ser realmente
chamado de confiança; mas ele ao menos nos dava o semblante de quem sabia estarem
os negócios de Estado nas melhores mãos – enquanto seria necessário nada saber deles
para não saber que eles estavam em mãos das mais duvidosas. Eu repito, era humana a
maneira como tudo se passou. Mas passou. Aqueles poderes não mais existem. O
destino – não queremos gritar em triunfo: “os varreu para longe”, queremos dizê-lo
objetivamente: o destino os removeu, eles não estão mais acima de nós e, depois de tudo
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o que aconteceu, nunca mais estarão e o Estado, queiramos ou não – ficou a nosso
cargo. Ele foi colocado em nossas mãos, nas mãos de cada um, ele se tornou nossa
causa, que temos que defender bem, e exatamente isso é a república – outra coisa ela
não é.
A república é um destino, e justamente um, para o qual amor fati é a única
atitude correta. Esta não é uma palavra demasiado solene neste caso, pois não se trata de
uma ninharia de destino: a assim chamada liberdade não é nenhum divertimento e
nenhum brinquedo, não é isso o que estou afirmando. O seu outro nome é
responsabilidade – e com isso fica claro que ela é muito mais um pesado fardo:
especialmente para o talento espiritual. Temos motivos para duvidar de que todos
aqueles que a reivindicaram ou mesmo clamaram por ela antes que ela se tornasse o
nosso destino a tivessem provado suficientemente, ou de que estavam preparados para
ela: pois este não é certamente o caso em geral, e o que a república e a assim chamada
liberdade trazem consigo em tragédia interior ainda está para se revelar. Um escritor
russo, filho, portanto, de um país em que a república muito tempo antes de todas as
transformações exteriores dominava mais profundamente que em qualquer outra parte,
nos falou recentemente do destino do talento espiritual em sua terra, que seria carregado
de tensões e perigoso de um modo do qual nós no ocidente dificilmente poderíamos
fazer uma idéia. “A necessidade – disse ele – de olhar para a vida cheio de
concentração, e a renúncia a uma criação da vida (ele talvez quisesse dizer: a uma pura
configuração) teve como conseqüência o fato de que há menos ‘literatura’ na literatura
russa do que se dá nas línguas de nossos vizinhos ocidentais... no ocidente existe uma
espécie de cultura literária, um – se é que se pode dizer isso – reino da literatura que se
basta si mesmo... entre nós o escritor não pode se limitar a tarefas formais, estéticas ou
psicológicas. Estas tarefas não lhe comunicam aquela tensão de que ele precisa para a
sua criação. Ele quer chegar mais alto. Ele se esforça para abranger todo o ciclo da vida
e o iluminar à sua maneira. Leão Tolstoi não é apenas artista; ele é também historiador,
publicista, esteta, filósofo; todas essas faces de seu talento são caminhos que nos levam
eternamente até ao templo da verdade e no entanto nunca para dentro dele... nos poetas
russos vive o conhecimento de que literatura não tem de maneira nenhuma de ser o
reflexo da vida – como se costuma dizer – e sim um agir heróico, uma vida santificada,
uma superação de fraquezas humanas, uma renúncia ao convencional e uma luta contra
ele. Sob o peso desta tarefa os fortes se tornam fortes e forjam assim sua consciência e
seu talento; os fracos, porém, desabam. Uma série de importantes escritores russos
desabaram a meio caminho e deram a sua literatura menos do que poderiam ter dado –
oprimidos pelo peso de tarefas colossais que iam além de suas forças...” – Terei eu dado
com estas citações fragmentárias a entender melhor qual destino a República como fato
interior significa para o talento espiritual, e por que eu penso que alguns talentos entre
nós clamaram por ela de maneira verdadeiramente leviana?
No entanto, agora nós a temos. Os “poderes” se foram, o Estado se tornou
assunto de nós todos, nós somos o Estado, e esta situação é odiada nas profundezas da
alma por importantes parcelas da juventude e da burguesia, que nada querem saber dela,
que a negam sempre que possível, especialmente por que ela parece não ter surgido pela
via da vitória, da livre vontade, da elevação nacional, mas pela da derrota e do colapso,
e parece indissoluvelmente ligada à impotência, ao domínio estrangeiro, à vergonha.
“Nós não somos a República” – dizem-me esses patriotas desviados. “A República é
dominação estrangeira – na medida em que (por que não deveríamos também nós citar
Novalis?) a fraqueza não é senão uma força estrangeira crescente, governante,
caracterizadora”. Verdade, verdade. Mas, em primeiro lugar, também é verdade o que
diz o poeta: “um ser humano pode enobrecer tudo, fazer tudo digno de si, apenas por
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desejá-lo” – (isso é muito verdadeiro, muito belo e, além disso, quase uma esperteza,
uma expressão de destreza vital); e, em segundo lugar não é verdade, não é, para repeti-
lo combativamente, de maneira nenhuma verdade que a República como fato interior
(não falo aqui de formulações de direito estatal) seja uma criatura da derrota e da
vergonha. Ela é uma criatura da elevação e da honra. Ela é, jovens, justamente uma
criatura da hora que vocês não negam e não querem ver envilecida com sarcasmo
maligno, da hora de um levante em entusiasmada prontidão para a morte – naquele
momento ela surgiu no peito de vocês. “Pátria sagrada – assim começou Gerhart
Hauptmann um poema naquela hora – como empalideces de uma vez!”. Mas o que na
verdade empalideceu então, o que recuou e visivelmente esfumou-se foram os poderes
que até então tinham sido o Estado, e em vocês ele ressuscitou, a vida dele fundou-se
sobre a sua flamejante comunidade, vocês foram a República e se hoje ela se encontra
presa da vergonha (o que eu não nego), seria covardia abandoná-la à sua própria sorte e,
em vez de pôr a mão na massa, em vez de ajudá-la e torná-la novamente “digna de
vocês” – preparar-lhe rebeldemente as maiores dificuldades que se possam imaginar,
como anciãos que não mais compreendem a vida e conservam uma fidelidade lacrimosa
aos bons velhos tempos! Para perguntar mais uma vez: é razoável e honroso negar
verdades interiores? A República é uma delas mesmo para os seus mais odiosos
oponentes, ela se revela mesmo em raivosas ações que têm por objetivo liqüidá-la, e os
malfadados rapazes que agora mesmo destruíram a cabeça terna e inteligente de seu
mais urbano servidor provavelmente não refletiram em que alvejar ministros é um modo
extraordinariamente republicano de agir8.
Juventude e burguesia, sua resistência à república, à democracia, é medo de
palavras – sim, vocês bufam e se intimidam diante destas palavras como cavalos
inquietos, um nervosismo supersticioso lhes rouba a razão assim que elas são
pronunciadas. Mas são palavras, relatividades, formas definidas pelo tempo,
instrumentos necessários, e acreditar que sejam disparates estranhos ao país não passa
de criancice. A república – como se não fosse mais a Alemanha! A democracia – como
se não pudesse ser uma pátria mais familiar que qualquer império reluzente, ruidoso,
gesticulante. Vocês ouviram recentemente os Mestres cantores? Bem, Nietzsche
afirmou salivando que eles seriam voltados “contra a civilização”, que eles “colocavam
o alemão contra o francês”. Nesse meio tempo, porém, eles são democracia, totalmente,
democráticos no mesmo grau e de maneira tão exemplar quanto o Coriolano de
Shakespeare é aristocrático – eles são, eu o afirmo, democracia alemã e demonstram
com a mais honesta pompa, da maneira mais romanticamente íntima, que esta
combinação de palavras, longe de ser contrária à natureza, ou de revelar a lógica do
ferro lenhoso, é, pelo contrário, construída de maneira tão organicamente correta
quanto, além dela, talvez apenas uma outra: povo alemão.
Tomai confiança – uma confiança geral que para o início só precisa consistir no
abandono do preconceito de que a república alemã seja apenas um espantalho, um
contra-senso, como se ela tivesse de ser aquilo que Novalis definiu como “força
estrangeira, governante, caracterizadora”, a saber, fraqueza. Separação da vida nacional
e política, eu disse anteriormente, é doentia. Mas o que não se pode separar, pode ainda
assim ser diferenciado, e que o nacional continue a ser muito mais poderoso e definidor
da vida do que a letra da lei estatal, que qualquer forma positiva – isto é uma certeza
que deve servir para nos tranqüilizar. ‘República alemã’ – a combinação de palavras é
muito forte no adjetivo, e mesmo que aquele pergaminho de Weimar não seja
completamente o que chamamos de uma constituição ideal e perfeita, quer dizer, uma
8
Referência ao assassinato, por extremistas nacionalistas, do Ministro das Relações Exteriores da
República de Weimar, Walther Rathenau, ocorrido em 24 de junho de 1922.
10

efetiva e total determinação do corpo do estado, da alma do estado, do espírito do estado


– onde uma constituição o teria sido, afinal? Não deveríamos dar tanta importância ao
que está escrito. A verdadeira vida nacional se ergue, sempre e em toda parte, para todos
os lados muito acima disso.
Eu peço mais uma vez: resistam à desorientação! Não no mundo inteiro nenhum
motivo para sentir a república como um assunto de jovens judeus impetuosos. Não a
abandonem a eles! Tirem-lhes, como diz a estimada expressão política, “o vento das
velas” – o vento republicano! É uma expressão de mau-gosto, mas é a fórmula para uma
atitude que, voltada para todos os lados, deve conduzir aos mais belos resultados. Pois
em torno do que se desenrola a luta dos partidos? Ora, em torno do bem do estado. Não
depende de que um partido tenha um bom curso, e sim de que o estado o tenha. E se
cada partido aproveitar de maneira inteligente o vento, com o qual o outro veleja, então
todos velejarão bem, quer dizer, a república velejará bem – o que seria possível de se
alcançar. Por isso é aconselhável que também os “republicanos” cuidassem de tirar o
vento das velas dos “monarquistas”: a saber, dos nacionalistas, e não deixá-los velejar
sozinhos com ele – não deveriam deixar a palavra a eles somente, quando se trata de
honra e vergonha, de amor e também de ira; deveriam retirar-lhes a canção dos lábios,
exatamente como o Pai Ebert fez em seu despacho no dia da constituição, quando tirou
a “Alemanha acima de tudo”9 da boca dos nacionalistas e declarou que ela não seria a
canção deles, que ela seria, no mínimo, igualmente a dele e que de agora em diante ele a
entoaria de peito aberto. É um novo duelo de trovadores este em torno desta canção, e
um excelente duelo! Pois obviamente os nacionalistas também não quererão deixar de
cantá-lo e quando então todos em uníssono cantarem “Alemanha, Alemanha acima de
tudo”, então simplesmente a república toda e o seu bem estar terão suas velas infladas.
Esses homens à frente do estado – seriam eles de outra raça, estrangeiros
inamistosos, com os quais nenhum entendimento a respeito das coisas primeiras e
últimas é possível e que desejam excluir vocês da república? Ah, eles ficariam muito
felizes se vocês viessem em seu auxílio, e são homens alemães, orbitando na esfera de
nossa língua, abrigados, como vocês, em tradições e leis de pensamento alemãs. Alguns
deles eu conheço; o Pai Ebert, por exemplo, é meu conhecido. Um homem
profundamente agradável, modesto, digno, não desprovido de manha, firme de uma
maneira serena e humana. Eu o vi algumas vezes, em seu casaquinho preto, o sortudo
talentoso e improvavelmente astuto, um cidadão entre cidadãos, representar seu alto
cargo em solenidades de um modo amigável e tranqüilo; e como eu também pude
observar uma ou outra vez o grão-senhor antecedente, indubitavelmente um talento
decorativo, na mesma ocupação, eu ganhei a convicção, para a qual eu gostaria de
angariar parceiros, de que a democracia pode ser algo mais alemão que uma ópera de
gala imperial. Crianças, concidadãos, hoje está melhor – com a mão no coração, hoje
para nós está muito melhor, apesar de toda a miséria, de toda a desonra externa, que nos
tempos brilhantes em que aquele talento representava a Alemanha. Era divertido, mas
era um embaraço – nós mordíamos os lábios sorrindo, quando olhávamos para ele, nós
buscávamos o semblante dos outros na Europa, procurávamos ler neles que eles não nos
consideravam responsáveis pela comédia, o que na verdade acontecia; queríamos ter
esperança de que eles diferenciassem entre a Alemanha e a sua representação, o que eles
estavam longe de poder fazer – e nos voltávamos para as coisas da cultura, repassados
de melancolia pela inexorabilidade divina da tradição, do afastamento sem possibilidade
de relação entre a vida política e a nacional. Cultura da unidade! Não nasce para nós

9
Primeiro verso da primeira estrofe (hoje não mais cantada) do hino alemão.
11

hoje, em toda miséria, a possibilidade da harmonia? República não é um nome para a


felicidade popular da unidade entre estado e cultura?
O que vocês me replicariam agora, eu o sei muito bem. Vocês diriam: “Não, de
maneira alguma! O espírito alemão – o que tem ele a ver com democracia, república,
socialismo, marxismo, afinal? Este materialismo econômico, com sua desprezível
conversa sobre “superestrutura ideológica”, tralha do século XIX, se tornou pouco a
pouco sarcasmo infantil. Azar dele se alcança a realização no momento que se segue à
sua liquidação espiritual! E não se dá o mesmo com as outras maravilhas pelas quais
você estranhamente gostaria de inflamar entusiasticamente a juventude alemã? Você
pode ver as estrelas acima de nós? Conhece e honra nossos deuses? Sabe algo dos
anunciadores do futuro alemão? Goethe e Nietzsche acaso foram liberais? Em sua
graciosa opinião seriam Hölderlin e George enfim espíritos democráticos?”. Não, isso
não. De fato, de fato, neste ponto vocês tem razão. Caros amigos, como estou
embaraçado. Eu não pensei em Goethe e Nietzsche, Hölderlin e George. Ou em silêncio
eu pensei, sim, neles, e me pergunto se é mais absurdo erguer a palavra em favor da
República em nome deles, ou pregar a restauração por causa deles? Sim, eu busco me
ajudar em meu grande embaraço fazendo tais perguntas. Eu quero ir mais longe e
perguntar se nós todos (também eu, também eu!) não teremos subestimado as
resistências que os velhos poderes estatais opuseram à realização da beleza alemã, se a
nova humanidade, cujos profetas aqueles espíritos são e que vocês têm em sua mente
saudosamente orgulhosa quando dão de ombros à democracia, não encontrariam em seu
solo, no solo da república, possibilidades mais felizes de vivificação que sobre o chão
do velho estado...
Agora vocês ficam bravos! Sim, se a presença de pessoas de elevada posição não
limitasse sua vivacidade, vocês me gritariam: “Como? E o seu livro? Suas
considerações anti-políticas, anti-democráticas de 1918? Renegado e adesista! Você,
que bate em sua própria boca, doente de retratação, desça do pódio e não ouse
reivindicar força de convencimento para a palavra do mais sem-caráter dos
autonegadores.
Caros amigos, eu permaneço ainda. Eu tenho ainda algo a comunicar que me
parece bom e importante; e no que se refere à traição e à retratação, pensem nisso, isso
não é exatamente assim. Eu não renego nada. Eu não retiro nada de essencial que tenha
dito. Eu ofereci minha verdade e a ofereço hoje. Eu poderia dizer Et nos mutamur in
illis e alegar que não sou nenhum contemplador de umbigo ou estilista, que não poderia
fixar os olhos a vida inteira em uma única e mesma verdade, pois uma tal hipnose
termina na morte, a digna morte da petrificação histórica, e para mim, em todo caso,
ainda é muito cedo para isso – eu preciso de novas verdades como novos estímulos para
a vida. Mas não é assim que deve ser minha defesa. Eu quero lhes responder, antes, que
sou de fato um conservador, que minha tarefa natural neste mundo, de todo modo, não é
de natureza revolucionária, e sim conservadora – no sentido em que Novalis, em um
aforismo, designa com a mais delicada força. “Por mais que talvez seja necessário –
escreve ele – que em certos períodos tudo seja posto em estado líquido, a fim de dar
origem a novas misturas necessárias e provocar cristalizações novas e mais puras,
também é imprescindível, na mesma medida, suavizar a crise e impedir a total diluição,
a fim de que reste uma cepa, um grão, ao qual a nova massa possa se ligar e se formar
em nova e bela forma em torno dele. O que é sólido, portanto, se concentra cada vez
mais solidamente, para que a matéria calorífica supérflua seja reduzida, e não se poupe
nenhum meio para impedir o amolecimento dos ossos, a decomposição das fibras
típicas”. Pois bem, esse livro foi uma tal concentração do que é sólido, uma tal
prevenção da decomposição das fibras típicas, e dessa forma ele procurou conservar.
12

Ele era conservador – não a serviço do passado e da reação, e sim do futuro; sua
preocupação era com a preservação daquela cepa e daquele grão aos quais o novo se
pudesse ligar e em torno dos quais se pudesse configurar em belas formas. Pois assim
como o estado febril da revolução, necessário à vida como ele sempre é, não pode ser
visto como objetivo de si mesmo e digno de ser eternizado, tampouco semelhante
concepção poderia se justificar com respeito àquela situação de contração
aparentemente inimiga do futuro, e tudo é mobilizado para que no tempo certo ela se
desfaça e o que é sólido celebre a justa paz com o que é móvel em nome da vida, das
novas formas.
Ouçam como Novalis fala primorosamente dos dois poderes vitais que hoje na
Alemanha, e não só aqui, novamente se confrontam inconciliavelmente. “Ambas as
partes – diz ele – têm grandes e necessárias exigências e têm de fazê-las, impulsionadas
pelo espírito do mundo e da humanidade. Ambas são poderes inextirpáveis do peito
humano: aqui a veneração da antigüidade, a afeição à constituição histórica, o amor aos
monumentos dos antepassados e da velha e gloriosa família do estado e a alegria da
obediência; ali o encantador sentimento da liberdade, a espera incondicional de círculos
de ação poderosos, o desejo pelo novo e jovem, o contato sem constrangimento com
todos os compatriotas, o orgulho da validade humana geral, a alegria pelo direito
pessoal e pela propriedade do todo e o forte sentimento de cidadão. Nenhum espera
aniquilar o outro, todas as conquistas aqui significam nada, pois a mais íntima capital
daquele reino não se situa por trás de muros e não se deixa sitiar”. Não é assim? Eu
chamo a atenção para o fato de que nessas sábias palavras reina a justiça na medida em
que as forças sedutoras da revolução são um pouco mais minuciosamente descritas que
as da fidelidade. Mas Novalis não acredita em uma “Unificação do ponto de vista da
consciência comum”. Poderes seculares, pensa o romântico catolicizante, não podem
colocar a si mesmos em equilíbrio; apenas um terceiro elemento, que é secular e supra-
terreno ao mesmo tempo, poderia realizar essa tarefa – o pensamento hierárquico, a
idéia da igreja. Mas, que temos nós com esses sonhos? Não sabemos de um outro
“terceiro” que é igualmente secular e supra-terreno, quer dizer, social e íntimo, humano
e aristocrático, e que entre romantismo e iluminismo, entre mística e razão mantêm uma
bela e digna equidistância – podemos dizer: uma equidistância alemã? E não foi esse
elemento, irado amigos, que eu defendi com aquele livro, em verdadeira angústia
existencial, à direita e à esquerda, sim, sob a mais forte pressão, mais ainda à esquerda
que à direita: o elemento da humanidade?

De algum modo, da maneira mais modesta, eu estou legitimado a manejar esse conceito,
pois a causa foi minha antes do nome, e eu posso dizer que humanidade não é para mim
um pensamento escolhido e meditado, e sim vivido. Isso talvez seja dito com
arrogância, mas também é lícito lembrar que é possível viver grandes coisas em
pequena medida e assim conquistar o que elas tem de essencial. Eu dei a conhecer o
segredo de meu coração, revelei como, de modo imprevisível, a grande e comovente
experiência da educação cresce com a confissão autobiográfica e o auto-retrato, como a
esfera do social é alcançada com a idéia pedagógica e o ser humano tocado pelo social
tem a visão daquilo que é sem dúvida o mais alto grau do humano, a saber, o estado... o
grau sem dúvida mais alto do humano – o estado! Quando era um principiante na vida
eu não teria sonhado que um dia falaria desse modo. Mas quem fala desse modo é
republicano, ainda que também, paralelamente, como Novalis, professe a fé político-
enteísta
Devo relatar como isso se desenvolveu? Chegou o dia (um dia importante para mim,
pessoalmente falando) em que, numa carta aberta sobre Whitman, cuja obra, na nobre
13

tradução de Hans Reisiger, causara uma forte impressão em mim, eu proclamei a


igualdade entre humanidade e democracia; pois me dera conta de que a primeira dessas
palavras era apenas um nome classicista antiquado para a segunda, e não tive pejo de
citar o divino nome de Weimar juntamente com o do trovejador de Manhattan, com o
nome daquele que cantara:

De mim para ti, ó Democracia,


para te servir, ma femme,
Para ti, para ti eu entôo estes cânticos.

O que veio em seguida foi a leitura, cultivada em conexão com o trabalho artístico, e
agora repetida numa nova fase da vida, dos escritos de Friedrich von Hardenberg –
desse pensador voluptuoso e sonhador extremamente intelectualizado, cujos
pensamentos sobre estado e comunidade humana me pareciam revelar tantas relações
notáveis com o americanismo hínico que havia pouco me impressionara a tal ponto que
minha alocução de hoje foi na verdade esboçada como uma palestra sobre esse inusitado
par, sobre Novalis e Whitman, e talvez ainda possa se tornar algo além disso: pois
colocar a democracia, a república em relação com o romantismo alemão – não
significaria também tornar essa relação plausível para meus desconfiados e obstinados
compatriotas?
“Não apenas não basta” – diz Whitman nos Panoramas Democráticos – “que o sangue
novo, a nova construção interna da democracia seja vivificada e mantida unida tão-
somente por meios políticos, por um superficial direito de voto, pela legislação, etc.,
mas me parece perfeitamente claro que suas forças continuarão a ser insuficientes, seu
crescimento duvidoso e sua magia essencial não será desenvolvida se este novo não for
mais fundo, se não deitar raízes de maneira no mínimo tão firme e clara no coração dos
homens, em seus sentimentos e crenças, quanto o feudalismo e a comunidade
eclesiástica em seu tempo e se não abrir suas próprias fontes eternas, que desde sempre
jorraram do centro”. Eu penso que podemos auxiliar o novo a desenvolver sua “magia
essencial” na Alemanha se procurarmos ligá-lo a uma esfera e a uma época cujo nível
espiritual alcançou entre nós o ápice, na qual o nacionalismo e a arte elevada, os
elementos nacionais e universais celebraram uma união maravilhosa e que permanecerá
em certa medida para sempre a pátria de nossos corações – à esfera do romantismo
alemão.
Já foi sugerido que Novalis, não obstante sua exaltação pelo casal real prussiano, foi
fortemente influenciado em seu sentimento político pela Revolução Francesa. “O estado
é muito pouco anunciado entre nós” – exclama ele – “Deverá haver anunciadores do
estado, pregadores de patriotismo. Agora a maioria dos compatriotas tem com ele uma
relação muito ruim, já muito próxima da inimizade”. E ele completa a frase em outra
passagem: “Um grande erro de nossos estados é que se vê muito pouco o estado. Ele
deveria ser visível em toda parte, todo ser humano deveria ser caracterizado como
cidadão. Não seria possível introduzir o uso geral de insígnias e uniformes? Quem
considera isso insignificante desconhece uma propriedade essencial de nossa natureza”.
Tamanho pendor oficial surpreende em um filho do misticismo. A definição do
republicanismo como um militarismo burguês é sugerida por frases como essa, e
poderemos caracterizar o pensamento político de Hardenberg como uma espécie de
jacobinismo romântico. “Apenas quem não vive no estado no sentido em que vivemos
em nossa amada” – diz ele de modo extravagante, e aqui pela primeira vez se faz ouvir
aquele erotismo social que desempenha um papel tão importante no democratismo de
Whitman – “se queixará dos impostos, pois eles são a maior vantagem. Quanto mais
14

não teria um homem de aplicar fora do estado para conseguir segurança, justiça, boas
estradas etc.? Os impostos podem ser considerados o soldo do estado, quer dizer, de um
homem muito poderoso, muito justo, muito inteligente e muito divertido. A necessidade
do estado é a mais urgente necessidade para o homem, para nos tornarmos seres
humanos e continuarmos a sê-lo precisamos de um estado... Um homem sem estado é
um selvagem. Toda cultura provém das relações com o estado, quanto mais cultivado,
tanto mais será membro de um estado cultivado”. – Um mundo da mais atual esperança
alemã fala através dessas últimas palavras, escritas há cem anos. O homem, cultivado
como membro de um estado cultivado: pois bem, isso é humanidade política. É a
unidade da vida espiritual-nacional e da vida estatal, que por muito tempo não
conhecemos e que tomara voltemos a conhecer. Em uma palavra, é a república – e em
que poderia contradizer essa afirmação o fato de que Novalis se mostra, além disso, um
legitimista místico? O nascimento, explica ele, também é uma escolha; quem o duvida
não poderia “sentir-se vivo em si”. Mas se ele acrescenta que um rei nato é melhor que
um feito, por que o melhor dos homens não poderia suportar uma ascensão dessas sem
se modificar, enquanto aquele que nasceu assim não sentiria vertigens, não seria
excitado por uma tal situação – nós, no entanto, tivemos por décadas diante dos olhos o
contra-exemplo de uma vertigem permanente, de uma sobre-excitação perpétua por
conta de uma tal situação, apesar de se tratar de alguém nascido em tal situação; e
justamente por que a “situação” era entendida com uma vivacidade nervosa da fantasia,
um sentimento poético da proximidade imediata com Deus. Justamente então, quando
não se trata da mais grosseira mediocridade, parece que a forma de existência
monárquica significa em nossa civilização um tensionamento excessivo, impossível, do
humano – com o que ela estaria caracterizada como inumana num sentido individual de
compaixão ainda não suficientemente experimentado.
No que diz respeito a Novalis, ele cuida a todo momento de manter, em vista de sua
idéia de rei, o ponto de vista republicano-democrático, quando, por exemplo, observa
que “por economia” existe apenas um rei. Se não tivéssemos de proceder
economicamente, seríamos “reis todos nós”. Nessa concepção de uma democracia de
reis (e nobres repúblicas frequentemente o foram) se encerra a idéia de uma união entre
liberdade e igualdade, a cujo respeito uma dúvida lógica pouco a pouco se transformou
em mesquinharia e que, apesar de todas as provas de ser ela inconcebível, não vai deixar
de pairar diante dos olhos da humanidade como a mais pura idéia de sociedade. Novalis
a chama de “o mais alto caráter da república ou da genuína harmonia”. É forte – para
um monarquista. Whitman, por sua vez, se expressa da seguinte forma: “A idéia do
completo individualismo é de fato a que, com a maior profundidade, dá caráter e cor à
idéia da comunidade”. (“O colorido individual do universal é seu elemento romântico.”
N.). “Pois nós favorecemos uma forte socialização e uma forte união principalmente, ou
exclusivamente, para fortalecer a independência do indivíduo assim como insistimos na
individualidade da união sob quaisquer condições a fim de assegurar a mais completa
vitalidade e liberdade aos direitos de cada um dos estados, dos quais cada um é tão
importante quanto o direito da nação, da união”. – Isso poderia referir-se à união
alemã... ou da futura união européia. Pois podemos prever que negociações amistosas
como as que há pouco foram mantidas entre a Baviera e o Reich, um dia se darão entre
os estados nacionais e uma autoridade européia. Mas é alemão, ou germânico em geral,
o instinto de um individualismo formador de estados, a idéia de comunidade que
implica o reconhecimento da humanidade em cada um de seus membros individuais, a
idéia de humanidade a que internamente demos o nome de estatal, aristocrática e social
ao mesmo tempo, e que está tão distante do misticismo político do eslavismo quando do
15

radical-individualismo anárquico de um certo ocidente: a união de liberdade e


igualdade, a “harmonia genuína”, em uma palavra: a república.
“Queres ter em ti a lei divina, grande, universal? Então mergulha nela”. É Walt
Whitman quem fala, depois de ter dito: “Para almas que aspiram ao alto, também o lado
estético da coisa, que é importante em qualquer caso, tem importância: de um modo
geral, a ambição de se destacar da massa consiste em conquistar uma posição
privilegiada. O verdadeiro mestre da vida, porém, vê grandeza e prosperidade em ser
apenas uma parte da massa, nada faz tão bem quanto uma terra e um solo comuns”
Muito bem, isso é novamente a unidade da vida estatal com a espiritual, o nacional
como a cultura da paz. Mas a palavra “estético” no início da frase nos chama a atenção
para o fato de que aqui o “senhor” do em alguns pontos fatal Nietzsche está em
discussão, deve ser colocado em questão – daquele Nietzsche sobre o qual Novalis
observa anacronicamente: “O ideal da moralidade não tem rival mais perigoso que o
ideal da força máxima, da vida mais enérgica, a que se chamou também o ideal da
grandeza estética (muito corretamente no fundo, mas muito falsamente pelo
significado). É o máximo do barbarismo e infelizmente, nestes tempos em que a cultura
procura retornar à selvageria, conquistou muitos adeptos, justamente entre os mais
fracos. Através desse ideal o homem se torna um espírito animal, uma mistura cuja
brutal espirituosidade tem uma brutal força de atração justamente para os fracos”. Isso é
decisivo. Mostra, antes de mais nada, que a democracia pode possuir tanto estímulo
psicológico quanto sua espirituosa contraparte; e foi apenas para demonstrá-lo, quase
apenas para provar que a democracia, que a república pode ter um alto nível, o nível
mesmo do romantismo alemão, que eu subi a este pódio.
A lírica do bestialismo louro de Nietzsche está ultrapassada de antemão e liquidada pela
afirmação feita de passagem por um de seus mestres alemães. O mesmo se dá com sua
crítica do cristianismo, ao qual ele, tomado de uma extrema excitação literária, chamou
de mácula imortal da humanidade. Novalis tem uma atitude muito mais positiva diante
desse fenômeno – não por algo como simpatia hierárquica, e sim inequivocamente no
sentido da democracia e de um socialismo maximalista revolucionário. “Abstração
absoluta” – diz ele – “aniquilação do agora, apoteose do futuro, desse mundo
verdadeiramente melhor: esse é o núcleo da história do cristianismo... A religião cristã
também é especialmente notável por apelar de modo tão decidido para a pura boa
vontade do ser humano e para a sua verdadeira natureza sem qualquer educação, e dar
valor a isso. Ela está em oposição à ciência e à arte e ao puro gozo. Ela parte do homem
comum. Ela anima a grande maioria dos limitados da terra. Ela é a luz que começa a
brilhar na escuridão” (Tolstoi!). “Ela é o germe de todo democratismo, o maior fato da
popularidade”.
Conhecimento, ao que parece, não precisa absolutamente significar asco
hamletiano ao conhecido e sua aniquilação no asco do conhecimento, como em
Nietsche; ele pode ser afirmativo. E Novalis está, com tais pensamentos, muito próximo
do americano que disse que no coração da democracia repousa enfim o elemento
religioso e, como cantor e escritor, se mostra apaixonado pela expressão em masse –
igual a Novalis, que faz dela nada mais nada menos que uma fórmula mística. Ele sonha
com a imortalidade humana em masse, o homem elevado, o homem em união, o gênio.
Pluralidade, diz ele é gênio. Toda pessoa que se constitui de pessoas é uma pessoa em
segunda potência ou um gênio; e assim, na verdade, não existiram os gregos, e sim um
gênio grego. Ele faz considerações sobre a vida e o pensamento em masse e chega à
conclusão de que, se é possível uma sinfilosofia, um pensamento comum, então é
possível uma vontade comum, a realização de novas, grandes idéias. “Comunidade,
pluralismo é nossa essência mais íntima e talvez cada ser humano tenha uma parte
16

própria naquilo que eu penso e faço, e eu também nos pensamentos de outros seres
humanos”. “Assim como a filosofia através de sistema e estado intensifica as forças do
indivíduo com as forças da humanidade e do universo, transforma o todo em voz do
indivíduo e o indivíduo em voz do todo – assim a poesia diante da vida. O indivíduo
vive no todo e o todo no indivíduo. Através da poesia surge a mais alta simpatia e
coatividade, a mais íntima comunidade do finito com o infinito”. – Salut au monde!
Vocês sabiam que existe um delírio democrático, uma filosofia do êxtase do
socialismo? Mas o estado como poesia, filosofia e entusiasmo – no fim é mais apto para
a vida que aquele que conhecíamos e que Novalis descreve com as palavras: “Nenhum
estado foi administrado como fábrica tanto quanto a Prússia desde a morte de Frederico
Guilherme I. Por mais que uma tal administração como máquina possa ser necessária
para a saúde física, o fortalecimento e a agilidade do estado, ele, no entanto, se arruína
naquilo que é mais essencial quando é tratado unicamente dessa maneira. O princípio do
velho famoso sistema é ligar cada indivíduo ao estado por meio do interesse pessoal. Os
políticos inteligentes tinham diante de si um ideal de estado em que o interesse do
estado era tão individual quando o dos súditos, mas era ligado ao deles de maneira tão
engenhosa, que ambos se promoviam mutuamente. Muito esforço foi empregado nesta
quadratura do círculo política: mas o puro interesse parece incomensurável, anti-
sistemático. Ele não se deixou limitar de maneira nenhuma, o que, no entanto, a
natureza de toda organização estatal necessariamente exige. Entretanto, essa aceitação
formal do egoísmo comum como princípio causou um enorme dano, e é aqui, e em
nenhum outro lugar que reside o germe da revolução de nossos dias”. – Isso não é
delírio, é a pura e sóbria verdade, para nós familiar até demais. E da mesma forma não é
poesia e misticismo, mas tem o mais sadio, forte e viril sentido, quando Novalis nos
clama: “Isso é certamente melhor em repúblicas, onde o estado é a principal questão de
cada pessoa e cada um sente sua existência e suas necessidades, suas atividades e seu
modo de ver ligados aos de uma sociedade ampla, sua vida vinculada a uma vida
poderosa, e assim exercita e expande sua fantasia e seu entendimento com grandes
objetos e quase que involuntariamente tem de esquecer seu estreito eu pelo todo
enorme”.
Podemos acreditar ouvir a voz de um romântico? Este pluralismo democrático prescinde
de qualquer ardor metafísico, ele é de uma frescura quase americana, de completa
eficácia pedagógica – qualquer garoto direito se sentirá receptivo a ele. Mas o principal
é que persistem, com respeito à essência do romantismo, preconceitos populares e
lunares, que se devem combater sempre que se tiver oportunidade de fazê-lo. Poesia e
arte, por exemplo, pelo menos poesia romântica, arte alemã – não é verdade que elas
são afinal sonhos, singeleza, sentimento, ou melhor, “alma”? Que diabo têm elas a ver
com o “intelecto” que, tanto quanto a república, deve ser antes encarado como um
assunto de jovens judeus impetuosos e, por isso, patrioticamente condenado. E se
tivéssemos de nos convencer de que o romantismo alemão é uma escola artística e
espiritual decididamente intelectualista? “A sede da verdadeira arte” – diz Novalis, e o
que ele diz tem algo a ver com a democracia – “é o entendimento. Este constrói de
acordo com um conceito particular. Ele requer apenas fantasia, espírito e capacidade de
julgamento. Assim é que Wilhelm Meister é totalmente um produto da arte – uma obra
do entendimento”. Professores nacionalistas pensarão duas vezes antes de citar a frase.
Para eles a alma se sobrepõe demais ao entendimento para que se sintam dispostos a
reconhecer que romantismo significa quase que exatamente modernidade. Modernidade
no sentido de Schiller, quando ele classifica a poesia sentimental com moderna em
comparação com a ingênua, ou no sentido de Merechkovski quando ele declara que com
17

Gogol se iniciou na literatura russa, depois da criatividade inconsciente de Puchkin,


aquilo que deve chamar de consciência criativa, crítica criativa.
Um outro exemplo para a insustentabilidade de certos preconceitos azul-
celestes! Que atitude toma o romantismo diante do moderno espírito comercial, do
espírito das relações internacionais? Não é com sagacidade, afinal? Não é, afinal como
faz o democrático Whitman, que diz do complicado gênio comercial de nossos dias ser
ele “não o menor dos gênios”?! – Novalis responde: “O espírito comercial é o espírito
do mundo. É o espírito grandioso por excelência. Ele coloca tudo em movimento e
estabelece ligações entre tudo. Ele desperta países e estados, nações e obras de arte. Ele
é o espírito da cultura, do aperfeiçoamento do gênero humano”.
Meus senhores, isso é, inegavelmente, democracia. É até mesmo o progresso –
apesar de todo o ruído que possa acompanhar a palavra para um ouvido alemão-
romântico. Aperfeiçoamento do gênero humano: Novalis pensa essa idéia no sentido
daquele radicalismo cristão, que significa “abstração absoluta, aniquilação do agora,
apoteose do futuro”. Em sentido cristão ele separa Deus e natureza em prol dessa idéia,
se torna dualista a ponto de anunciar que Deus nada tem a ver com a natureza, que Ele é
o objetivo da natureza, aquele com que ela se deverá harmonizar um dia. A natureza
deve se tornar moral. “A natureza não pode ser estaticamente declarada moralidade, mas
apenas continuamente. Um dia não deverá mais existir natureza. Ela pouco a pouco
deve se transportar para um mundo espiritual”. – Que utopismo progressista! Que
ousada oposição àquela doutrina da natureza e da história cheia de falsa
implacabilidade, com a qual uma cabeça poderosa recentemente nos abalou e segundo a
qual “humanidade” se torna novamente uma palavra vazia e uma não-idéia, a história,
porém, não seria senão o transcurso da vida de unidades biológicas a que se dá o nome
de culturas, totalmente pré-determinado à revelia dos homens segundo leis férreas. “Não
seriam ilusão as leis inalteráveis da natureza, algo profundamente anti-natural?” –
pergunta Novalis. “Tudo se passa de acordo com leis, e nada se passa de acordo com
leis. Uma lei é uma relação simples, fácil de ser abrangida com os olhos. Por
comodidade procuramos por leis”. Por comodidade e desamor autoritário-apodictico,
sim! Também talvez, por aquela presunção que, cúpida por traição, toma partido
arrogantemente pela natureza contra o espírito e o homem, proclama-o em nome
daquela pretensiosa implacabilidade e com isso se imagina sólida e distinta. Mas com
isso o problema da distinção, em todo caso restrito à oposição entre natureza e espírito,
não é nem ao menos examinado, quanto mais solucionado, e aquela adesão à natureza
pode significar um esnobismo dos menos distintos. Queremos colocar aqui a nossa
opinião sobre a obra de Spengler; aqui é o lugar apropriado. O seu Decadência do
ocidente é o produto de uma enorme potência e força de vontade, pleno de ciência e de
uma rica visão, um romance intelectual de grande poder de entretenimento e que
lembra, não apenas por sua forma de composição musical O mundo como vontade e
representação de Schopenhauer. Com isso colocamos o livro num lugar bem alto. Ao
mesmo tempo, temos nossa opinião democrática sobre ele, achamos que sua atitude é
falsa, arrogante e “cômoda” até a mais extrema inumanidade. Seria diferente se esta
atitude escondesse ironia, como de início acreditamos; se sua profecia fosse um meio
polêmico de resistência. De fato, pode-se profetizar algo como a “civilização”, segundo
Spengler o estágio final biológico inevitável de toda cultura e agora também da
“ocidental” – profetizar não para que ela venha, e sim para que ela não venha,
preventivamente, portanto, no sentido de conjuração espiritual; e assim, pensava eu,
acontecia aqui. Mas quando tive notícia de que esse homem levava sua profecia de
calcificação muito a sério e positivamente, e com ela queria instruir a juventude, quer
dizer, exortá-la não apenas a não desperdiçar seu coração e sua paixão com as coisas da
18

cultura, da arte, da poesia e da educação, mas também a se ater àquilo que unicamente é
o futuro e que se deve desejar a fim de poder ao menos ainda poder desejar algo, a
saber, ao mecanismo, a técnica, a economia ou em todo caso, ainda a política; quando
eu me dei conta de que ele de fato cerra o frio punho demoníaco das “leis naturais”
contra a vontade e o anelo do homem – então eu dei as costas a tanta hostilidade e tirei
seu livro do alcance de meus olhos, a fim de não ter de admirar o que é pernicioso,
mortal.
A lei! Walt Whitman, verdadeiramente, sabia melhor que aquela poderosa
cabeça que significado tem a lei. “A lei” – diz ele – “que está acima de todas, a lei das
leis é a da sucessão, que diz que, a seu tempo, a lei mais alta aos poucos substitui e
supera a mais baixa”. E ele acrescenta: “Mas o auge e a coroação da democracia é que
apenas ela pode unir todas as nações, todos os seres humanos, mesmo que dos mais
diferentes e distantes países, em uma irmandade, uma família, e sempre aspirará a uni-
los. Ela é o velho e sempre renovado sonho da terra, o sonho de seus povos mais velhos
e mais jovens e de seus mais amados filósofos e poetas...” Velho e sempre novo:
também o morfologista da história sabe e fala deste sonho, mas o faz sem amor e com
falsa implacabilidade. Para seu cientificismo o sonho da humanidade é tão somente algo
que já houve e sempre retorna segundo leis mecânicas e extra-humanas, um fenômeno
espiritual, fatal e banal em sua regularidade, um sonho sobre o qual os povos que o
sonham não se devem iludir, pois todos o sonharam. Mas que dureza banal significa
negar a idéia da humanidade, isso escapa à sua petulância de erudito; e escapa-lhe
completamente o fato de que uma única obra do amor como A canção da terra de
Gustav Mahler, que funde a lírica chinesa antiga com a mais desenvolvida arte musical
do ocidente numa unidade humana orgânica, põe por terra toda a sua teoria da
estranheza radical que reina entre as culturas. Que é então “a humanidade”? É ela a
suma de todos os homens que agora vivem ou de todos aqueles que já viveram e ainda
viverão – sempre e em toda parte difícil de separar do animal? Não, ela é algo de
interior e essencial; ela é, nas palavras de Novalis, “o sentido mais alto do nosso
planeta, a estrela que liga este membro com o mundo superior, o olho que ele ergue para
o céu”. Isso pode ser poesia indigna aos olhos da ciência morfológica; mas não
hesitaremos em nos apossar dele sob o seu olhar de basilisco.
Podemos, assim, delineá-la – a política que está latente na insípida
implacabilidade da doutrina que colocamos em dúvida aqui. Ela não é a do romântico
alemão, cujas idéias também nesse ponto surpreendentemente coincidem antes com as
do amante da humanidade do outro lado do oceano. A guerra – não é que ele a negue
como um pacifista. Mas: “É como se – exclama ele –uma conexão e um contato mais
estreito e multifacetado entre os estados europeus fosse de início o objetivo histórico da
guerra, como se estivesse em jogo uma nova movimentação da Europa até aqui
adormecida, como se a Europa quisesse despertar novamente, como se fosse iminente
um estado dos estados, uma doutrina econômica política!” – O estado dos estados: será
ele entendido como romântico-hierárquico? Mas Novalis esclarece secularmente: “O
direito internacional é o início da legislação universal, do estado universal”. E já então
ele diz o que hoje os pardais cantam dos telhados: “Os estados têm de finalmente se dar
conta de que a consecução de seus objetivos só é possível através de regras gerais”.
Não há o que dizer: tudo isso é iluminismo político, é inequívoca democracia –
na boca de um cavaleiro da flor azul, que além disso era um fidalgo de nascimento do
qual se poderia esperar, em vez dessas modernidades, antes algum senso guerreiro
medieval e um amor da honra em armadura. Mas como ele na verdade fala da cavalaria?
Camaradas! Ele fala sobre ela de modo francamente desdenhoso: “O point d’honeur do
velho espírito cavaleiresco – diz ele – introduziu pela primeira vez aquela ridícula
19

formalidade entre os homens. A etiqueta é a morte de doa humanidade livre, uma


mistura de mesquinharia servil asiática e soberba despótica com humildade cristã.” –
Ele é forte na psicologia: também isso tem algo a ver com a república. Mas tem ainda
mais a ver com ela a expressão da “humanidade livre”, que na verdade é apenas um
outro nome, apolítico, para ela. – e de fato um nome de amor, sim, do enamoramento.
Eu utilizo essa outra palavra, mais breve, mas mais clara, para chegar àquilo que liga
mais profundamente Novalis e Whitman e constitui evidentemente a raiz de sua
humanidade e de seu socialismo. É o amor não em algum significado desbotado,
anêmico, asceticamente piedoso, e sim no sentido do símbolo-raiz obsceno, que
Whitman escolhe como título para aquela série de cânticos pios-selvagens:

Venham, eu quero conduzi-los para debaixo deste


Exterior impassível, eu quero lhes dizer o que vocês devem contar de mim;
Anunciem meu nome e pendurem meu retrato como o do mais terno amante.

E outra vez ele canta:

Há algo na proximidade de homens e mulheres e no olhar deles e em seu toque e em seu


cheiro que dá prazer à alma,
Todas as coisas agradam à alma, mas estas dão prazer à alma

E assim fala Novalis: “Dança, comida, conversa, sentimento em comum e trabalho,


estar juntos, ouvir-se, ver, sentir etc., tudo isso é condição e motivo e mesmo já funções
da ação do homem elevado, em união, do gênio. Amor é, quem nos impele uns para os
outros. Todas as funções acima pensadas têm por base a volúpia. A verdadeira função
voluptuosa (simpatia) é de todas a mais mística, a quase absoluta ou a que impulsiona
para a totalidade (mistura) da união, a química”. – Eu o chamei de pensador voluptuoso
– e aí temos um exemplo de sua maneira, ao mesmo tempo um exemplo do radicalismo
de sua psicologia social. Mas a simpatia, a função químico-mística, da qual ele fala, é a
simpatia com o orgânico, que tornamos a encontrar em Whitman como um
democratismo erótico que tudo abraça; é aquele toque de amor sensitivo, sensualidade
que começa muito cedo, que leva Novalis a notar que contemplar já é um prazer
elástico; a necessidade de um objeto já é resultado de um toque à distância – e que
encontramos a cada passo em Whitman: é, poderíamos dizer, algo semelhante a biologia
como enamoramento, a mania de Novalis de já afirmar e sentir o animal-orgânico onde
ele normalmente ainda não costuma ser descoberto: no ar, cuja combinação de oxigênio
e azoto seria “completamente animal” e não puramente química, e na chama, que seria a
natureza animal, a devoradora ’ e da qual as naturezas inorgânicas, mas
também as plantas, os animais, os homens teriam de ser vistos como excrementos. O
homem: o mais complicado, mais acabado excremento de uma chama suprema e
artificialíssima. E Novalis, esse sonhador de grandes olhos, medita sobre o fenômeno do
desejo sexual, do anseio por contato carnal, do prazer por corpos humanos nus, ao qual
sua delicadeza atribui uma raiz antropofágica. “Seria um apetite camuflado por carne
humana?” – Mas colada a essa frase de misticismo e ceticismo eróticos está uma outra,
na qual a volúpia se eleva a entusiasmo piedoso, a humanidade religiosa: “Há apenas
um templo no mundo, e este é o corpo humano. Nada é mais sagrado que esta elevada
figura. O inclinar-se diante de um ser humano é uma homenagem desta revelação na
carne. Tocamos o céu quando apalpamos um corpo humano”.
“A estranha simpatia que sentimos quando sentimos a carne nua do corpo com a
mão”. Este é um verso do prodigioso poema de Walt Whitman, pleno de sagrada
20

loucura amorosa que traz o título: “Eu canto o corpo elétrico” e cuja nona parte é um
hino anatômico, uma festa piamente orgiástica do corpo humano segundo sua
constituição orgânica à maneira de uma enumeração exaltada e ingênua deste artista
selvagem.
“De uma maneira singular, que ninguém adivinharia – diz o cirurgião Wilhelm
Meister – eu já avançara muito no conhecimento da figura humana, precisamente
durante minha carreira teatral; olhando bem, no teatro o corpo humano desempenha o
papel principal, um belo homem, uma bela mulher!... A situação relaxada em que vive
uma tal sociedade, mais que qualquer outra relação, torna os que fazem parte dela mais
familiarizados com a verdadeira beleza dos membros descobertos; mesmo diferentes
indumentárias levam a pôr em evidência o que tradicionalmente fica encoberto... Dessa
maneira eu estava suficientemente preparado para prestar a devida atenção à exposição
anatômica que ensina a conhecer mais de perto as partes externas; do mesmo modo que
as partes internas também não me eram estranhas, uma vez que um certo pressentimento
delas sempre esteve presente para mim”. Informação inteligente, sincera! O aventureiro
do humano criado por Goethe considera a esfera frouxa-sensual, erótica, do teatro como
feliz estágio preliminar para o estudo daquela disciplina humanística que chamamos de
medicina e que, como todas as disciplinas suas irmãs, é variação e espécie de um
mesmo assunto elevado e altamente interessante, diante do qual nossa atitude jamais
poderá ser suficientemente diversificada e multifacetada, pois se trata do homem. E
como Wilhelm é conduzido para novas aventuras e pesquisas minuciosas, para a
pedagogia, a sociologia, a política: não é, também nelas, a “situação mais relaxada”, que
põe em evidência para ele a beleza do corpo humano, o feliz estágio preliminar? “Oh,
eu digo – exclama Walt Whitman ao final da sua canção de amor anatômica – estas não
são as partes e poemas apenas do corpo, mas da alma, – Oh, agora eu digo que elas são
a alma!” – Issto é a Hélade – renascida do espírito da democracia americana. Goethe
está nela, e o melhor, o futuro, o mais educativo que há em Nietzsche, e a meditação do
templo de Novalis. “Alguém duvida de que o corpo, sem tirar nem pôr, vale tanto
quanto a alma? E se o corpo não for a alma, o que é a alma?” Esse é o terceiro reino da
humanidade religiosa, e Eros o governa – como rei? Não, isso seria Idade Média e
“espírito cavaleiresco”; mas agradaria a Walt Whitman se confiássemos ao jovem deus
a presidência desse novo reino.
Eu quero ousar falar neste contexto, que permanece um contexto político, com
toda a devida cautela e reverência do peculiar território sentimental que se tornou
visível com minhas últimas palavras: eu me refiro àquela zona do erotismo em que a lei
tida como de validade geral da polaridade entre os sexos se mostra abolida, caduca, na
qual vemos o igual com o igual, a virilidade mais madura com a juventude de olhos
voltados para o alto, na qual ela pode endeusar um sonho de si mesma, ou a jovem
virilidade unida em apaixonada comunidade com sua imagem. A sociedade, que por
longo tempo trouxe consigo este ser, sem saber dele, expulsando-o de sua consciência
ou o renegando pudicamente, começa aos poucos a revogar o desterro de infâmia e
calúnia que pairava sobre o fenômeno, a olhá-lo com maior tranqüilidade e a discutir
humanamente sua multissignificação. Ela pode significar nervosismo, degeneração,
doença, e podemos duvidar se nesse caso a disciplina ou indulgência humanitária será a
maneira correta de confrontá-la. Mas é impossível destinar em princípio à esfera da
decadência um complexo sentimental que pode encerrar em si o que há de mais sagrado
e culturalmente fértil. Quem pensa sobre a natureza e suas leis como Novalis, ou seja,
considera que elas são algo a ser superado, sentirá de antemão a acusação de inatural ou
anti-natural como trivialidade; e Goethe, de resto, já rejeitou esse costumeiro argumento
com a observação de que o fenômeno está completamente na natureza e na humanidade
21

– e não fora delas, pois ele se manifestou em todas as épocas e entre todos os povos e se
explicou esteticamente pelo fato de que, objetivamente, o masculino é a expressão mais
pura e bela da idéia de homem. Algo muito semelhante disse Schopenhauer... Mas o que
aqui deve ser colocado de passagem a respeito do estranho assunto se volta para o
âmbito político: também este lado não falta a ele. Não se diz que a guerra, com suas
vivências de camaradagem de sangue e morte, a dura e exclusiva masculinidade de sua
forma de vida e atmosfera fortaleceu poderosamente o reino desse erotismo? A
orientação política de seus crentes costuma ser belicosa e nacionalista, e costuma-se
dizer que relações dessa espécie formam a argamassa secreta de associações
monarquistas, sim, que um pathos político-erótico segundo o modelo de certas relações
de amor-amizade da antigüidade estava na base de alguns atos terroristas isolados destes
dias. Bem. Harmodios e Aristogiton eram democratas; e não se pode falar em uma
legalidade mais profunda daquilo que hoje parece regra. O mais poderoso contra-
exemplo moderno é o poeta das Folhas de relva, Walt Whitman, que,

Decidido a não cantar hoje nenhuma canção a não ser a da amizade masculina,
Enviá-la a esta vida corporal,
Criar modelos de amor atlético,

queria, com essas canções, esse amor atlético-corporal, “tornar o continente


inseparável”, criar “países divinamente magnéticos”, “cidades impossíveis de
desmembrar, que enlaçam o pescoço uma da outra – através do amor de camaradas”.
Eros como estadista, até como criador de estados é uma idéia familiar desde a
antigüidade que novamente é propagada espirituosamente em nossos dias; mas querer
fazer da restauração monárquica sua causa e seu objetivo partidário é no fundo um
abuso. Pelo contrário, a república é que é a sua causa, quer dizer – a unidade entre
estado e cultura a que damos esse nome e, embora não seja um pacifista do tipo
degustador de plantas, ele é, no entanto, por natureza um deus da paz, que “quer fundar,
sem edifícios, regras, administradores e sem nenhum argumento a instituição do amor
íntimo entre camaradas” também entre os estados.
Eu não queria deixar de chamar a atenção para isso, e nem de, em minha
tentativa de convencimento, levar em consideração uma esfera do sentimento que, sem
dúvida alguma, abriga ou pode abrigar elementos importantes tanto para o estado
quanto para a cultura. Saúde? Doença? Cuidado com os conceitos! São os mais difíceis
em toda a filosofia e a biologia. A veneração de Whitman por meninos, sobretudo por
configurar apenas uma província do reino universal de seu fervor falicamente sagrado,
falicamente pujante, era certamente mais saudável que o amor do pobre Novalis por
Sophia, que achava sensato amar falecidas a fim de se preparar um leito compartilhado
“para a noite”, e em cujo erotismo eucarístico pulsa estranhamente a excitável
concupiscência do tísico. As folhas de relva e os Hinos à noite: é uma diferença como
entre a vida e a morte ou, se a definição de Goethe para estes conceitos é a correta, a
diferença entre o clássico e o romântico. “Simpatia pela morte”: a fórmula certamente
não abrange toda essência maravilhosamente brilhante do romantismo, mas define o que
ele tem de mais elevado e mais profundo – o jovem Flaubert sabe disso quando invoca o
“profundo amor pelo nada, que os poetas de nosso tempo carregam em seu íntimo”, o
amor pelas “órbitas oculares vazias dos crânios amarelados e as paredes esverdeadas das
sepulturas”; e aquela simpatia pelo orgânico de que falamos se mistura em Novalis com
a outra, aparentemente contrária a ela, de um modo tal que nunca se imaginou uma
ligação mais íntima entre doença, morte e volúpia. A própria vida como doença – o
pensamente não está distante dele, pois ele encontra a marca de toda doença, o instinto
22

de autodestruição, na matéria orgânica; morte e volúpia, porém, são para ele uma
mesma função, a saber, a química, que anseia pela totalidade da união: dessa idéia se
originam suas malignas associações com o leito nupcial.
Que têm a ver com essas extravagâncias a pura, fresca e perfumada saúde do
cantor de Mannhatan? Nada, sem dúvida; e se simpatia com a morte de fato não é todo o
romantismo, mas não é senão romantismo, ela deveria parecer completamente estranha
e repulsiva ao anunciador da democracia atlética e dos estados livres que se abraçam e
se amam mutuamente. – Não é assim. Essa simpatia, ele a conhecia e nutria. Seu amor
pelo mar o traiu, mesmo que ele próprio não se tenha traído com a confissão de que as
ondas do oceano indolente lhe sussurravam: Death, Death – pois o amor pelo mar não é
senão amor pela morte. E é justamente aí, não por acaso aí, que, nas Folhas de relva a
velha fórmula romântica “morte e amor”, essa fórmula mágica imortal, impossível de
ser banalizada, se arvora, sem disfarces, em tema dominante da poesia ditirâmbica
desenfreada de Whitman.

Dá-me, pois, o teu tom, ó morte, para que eu me afine por ele,
dá-me a ti mesma, pois eu vejo que tu me pertences antes de mais nada
e que vós, morte e amor, estais inseparavelmente entrelaçados.

“O que de fato é definitivamente belo, além da morte e do amor?” A frase está


também lá, e ela contém a afirmação que também o amor pela beleza, pela perfeição
não é outra coisa senão o amor pela morte – o que todo esteticismo sabe desde o poema
“Tristão”, de Platen. Saúde? Doença? Se vocês quiserem, toda poesia é doente; pois
todas e cada uma está inseparavelmente, incuravelmente ligada no fundo com as idéias
de amor, de beleza e de morte – mesmo a poesia ostentadora de frescura racial atlética
de Walt Whitman, que por um momento nos permitiu colocar a democracia em relação
com o esteticismo. Mas a poesia não é vida através de si mesma? Quando poetas amam
o mar por amor da morte – não se diz que a vida se originou do mar? E a simpatia com a
morte não é romantismo vicioso apenas quando a morte é contraposta à vida como
poder espiritual independente, em lugar de ser acolhida nela, consagradora e
consagrada? O interesse pela morte e pela doença, pelo patológico, pela decadência é
apenas uma forma de expressão do interesse pela vida, pelo ser humano, como a
faculdade humanística de medicina prova; quem se interessa pelo orgânico, pela vida, se
interessa especialmente pela morte; e poderia ser tema de um romance de formação
mostrar que a vivência da morte é enfim uma vivência da vida, pois conduz ao ser
humano.
Novalis pronunciou uma frase moral-biológica profunda, carregada de
conhecimento do prazer e da moralidade, liberdade e forma. Ela diz: “O impulso de
nossos elementos se volta para a desoxidação. A vida é oxidação compulsória”. Eis aqui
a morte compreendida como fascinação e sedução, como impulso de nossos elementos
para a liberdade, para a ausência de forma, para o caos, a vida, porém, como a suma do
dever. E não foi isto que levou o febril sonhador da eterna noite de núpcias à sua idéia
de estado e bela comunidade humana?
Nenhuma metamorfose do espírito nos é mais familiar que aquela em cujo
princípio está a simpatia pela morte, e em cujo fim a decisão para o serviço da vida. A
história da Décadence européia e do Esteticismo é rica em exemplos dessa ruptura em
direção ao positivo, ao povo, ao estado – especialmente nos países latinos. Vocês
conhecem o Sr. Maurice Barres, o impetuoso amante da Renânia? Ele escreveu um livro
com intitulado, à maneira de Novalis, Do sangue, da volúpia e da morte. Ele escreveu
um outro que tem o título não menos revelador de A morte de Veneza. Ele chegou à
23

política. Ele se tornou deputado, presidente de uma liga patriótica, teórico espirituoso do
nacionalismo, criador do esprit nouveau, se tornou o escritor da guerra. Eu o chamei de
exemplo, mas refleti antes de chamá-lo de modelo. Não, como tal ele não nos serve! Sua
“ruptura” é de uma espécie extremamente francesa – o que está em ordem. Mas de
maneira nenhuma estaria na ordem natural imitá-lo e, se não soasse mais uma vez
nacionalista, nos sentiríamos tentados a dizer que seria necessário ser francês para
acreditar que o nacionalismo é a vida.
Queremos deixar a questão aos franceses. O povo que teve espírito o suficiente
para inventar o nacionalismo, o terá também suficientemente para se haver com sua
invenção. No que nos diz respeito, faremos bem em nos preocuparmos conosco e com o
que é a nossa questão – sim, digamo-lo com despretensiosa alegria – nossa questão
nacional. Eu repito mais uma vez seu nome um pouco antiquado e hoje, no entanto, de
novo atraente em seu fulgor de juventude: humanidade. Entre o isolamento esteticista e
a queda indigna do indivíduo na generalidade, entre misticismo e ética, interioridade e
comunidade no estado; entre a negação presa à morte do ético, burguês, do valor, e um
filistinismo da razão ético-transparente ela é em verdade a equidistancia alemã, o belo-
humano com o qual sonharam os melhores de nós. E nós homenageamos a sua forma
positiva de direito, cujo sentido e fim nós compreendemos como a unidade das vidas
política e nacional, amaciando nossa língua ainda pouco flexível para gritar: “Viva a
república”!

(1922)

THOMAS MANN

IRMÃO HITLER10

Sem os horríveis sacrifícios que incessantemente são feitos à fatal psique desse homem,
sem as enormes devastações morais que se originam dela, seria fácil confessar que
achamos o fenômeno de sua vida fascinante. Não podemos deixar de fazê-lo; ninguém
está dispensado de se ocupar com sua triste figura – isso se deve à natureza
grosseiramente aparatosa e intensificadora (amplificadora) da política, ou seja, do ofício
que ele enfim escolheu – e bem sabemos o quanto isso se deveu à falta de capacidade
para qualquer outro. Tanto pior para nós, tanto mais vergonhoso para a desorientada
Europa de hoje, que ele fascina, na qual ele pode representar o papel de homem do
destino, de dominador universal, e que, graças a um encadeamento de situações
fantasticamente felizes – quer dizer, infelizes –, pois casualmente não corre nenhuma
água que não faça girar seu moinho, é levado de uma vitória sobre o nada, sobre a total
falta de resistência, para outra.
Admitir isso, reconhecer o fato mofino já se aproxima da mortificação moral. É
necessário um autodomínio que além de tudo tem de temer ser imoral, uma vez que faz
diminuir em muito o ódio que é exigido de qualquer um cuja consciência se importe de
algum modo com o destino da civilização. Ódio – eu posso dizer a mim mesmo que este
não me falta. Eu desejo sinceramente a esse evento público um ocaso vergonhoso – um
ocaso para tão breve quanto, por sua comprovada prudência, quase não estamos
autorizados a esperar. Eu sinto, no entanto, que não são meus melhores momentos
aqueles nos quais eu odeio a pobre, embora fatídica, criatura. Quer me parecer que são
10
Bruder Hitler. In: Schriften zur Politik. Frankfurt am Main, 1978.
24

mais felizes, mais adequados, aqueles momentos no quais a necessidade de liberdade,


de observação descompromissada, em uma palavra, de ironia, que desde muito eu
aprendi a considerar como o elemento pátrio de todas as artes espirituais e da
produtividade, leva a melhor sobre o ódio. Amor e ódio são sentimentos intensos; mas
justamente como sentimento é que normalmente se subestima aquela atitude na qual
ambos se combinam da maneira mais singular, a saber, o interesse. Com isso se
subestima também sua moralidade. Ao interesse está ligado um impulso
autodisciplinado, a tendência ascético-humorística ao reconhecimento, à identificação, à
confissão de solidariedade que eu considero moralmente superior ao ódio.
O rapaz é uma catástrofe; isso não é motivo para que não o consideremos
interessante como caráter e destino. Como as circunstâncias propiciam que o
ressentimento abissal, o desejo de vingança profundamente supurado do imprestável,
impossível, dez vezes fracassado, do extremamente preguiçoso perpétuo asilado e artista
de quarteirão rejeitado incapaz de qualquer trabalho, do completamente extraviado, se
una aos (muito menos justificados) sentimentos de inferioridade de um povo derrotado
que não sabe tirar o melhor partido de sua derrota e só pensa na restauração de sua
“honra”; como ele, que nada aprendeu, que por uma vaga e obstinada soberba nunca
quis aprender nada, que também não pode fazer nada de puramente técnico ou físico
que os outros homem podem, cavalgar um cavalo, dirigir um automóvel ou um avião,
nem mesmo gerar um filho, desenvolve aquilo que é necessário para poder realizar
aquela união: uma eloqüência indescritivelmente inferior mas de efeito massivo, esse
instrumento de natureza rasteiramente histérica e comediante com o qual ele revolve a
ferida do povo e o emociona com o anúncio de sua grandeza ultrajada, o anestesia com
promessas e faz dos sofrimentos espirituais da nação o veículo de sua grandeza, de sua
ascensão a alturas fabulosas, ao poder ilimitado, a enormes satisfações ou a satisfações
excessivas – a uma tal glória e a uma santidade tão terrível que todo aquele que um dia
pecou contra o ínfimo, o pouco vistoso, o desconhecido, está destinado à morte, e a uma
morte tanto quanto possível atroz, degradante, está destinado ao inferno... Como ele se
eleva de proporções nacionais a européias, como aprende a exercer num âmbito mais
vasto as mesmas ficções, mentiras histéricas e manipulações paralisantes dos espíritos
que o levaram à grandeza no plano interno; como se revela um mestre em explorar as
debilidades e os temores críticos do continente, em chantagear seu medo de uma guerra,
como sabe excitar os povos e conquistar grandes parcelas deles, atraindo-as para si pelas
costas dos governos; como a sorte o favorece, muros desabam silenciosamente diante
dele e o infeliz mandrião de antes, por ter – segundo pensa, por amor à pátria –
aprendido a política, agora parece pretender submeter a si a Europa, sabe Deus, talvez o
mundo: tudo isso é completamente inédito, novo e impressionante pelos nossos padrões;
é impossível para nós não manifestar uma certa admiração cheia de repugnância pelo
fenômeno.
Podemos reconhecer nele traços de um conto de fadas, ainda que desfigurados (o
motivo da desfiguração e da ruína tem um grande papel na vida européia de hoje): o
tema do joão-ninguém sonhador que conquista a princesa e todo o reino, do “patinho
feio” que se revela um cisne, da Bela Adormecida, em torno da qual a fogueira de
Brünnhild se transformou em cerca de roseiras e que sorri com o beijo despertador do
herói Siegfried. “Desperta, Alemanha!” É repulsivo, mas exato. Junte-se a isso o “Judeu
no Espinheiro”11 – e sabe-se lá o que mais da alma do povo, misturado com uma
vergonhosa patologia. Wagneriano em grau de desfiguração é isso tudo, já se notou há
muito tempo, e também se conhece a admiração justificada, se bem que um tanto ilícita

11
Conto dos Irmãos Grimm.
25

que o prodígio político dedica ao encantador artístico da Europa a quem Gottfried


Keller ainda chamava de “cabeleireiro e charlatão”.
Arte... Eu falei em mortificação moral, mas não devemos, queiramos ou não,
reconhecer no fenômeno uma forma de manifestação da arte? Está tudo lá, de uma certa
forma vergonhosa: a “dificuldade”, a preguiça e a lamentável indefinição da juventude,
a impossibilidade de adaptação, o “que queres, afinal?”, o vegetar meio idiota na mais
profunda boêmia social e espiritual, a recusa no fundo arrogante de quem se acha bom
demais para qualquer atividade razoável e honrosa – com base em que? Com base em
uma surda intuição de estar reservado para algo inteiramente indefinível, cuja
nomeação, caso fosse possível nomeá-lo, faria os homens caírem na gargalhada. Junte-
se a isso a má-consciência, o sentimento de culpa, a ira contra o mundo, o instinto
revolucionário, a reunião subconsciente de desejos de compensação explosivos, a
obstinada necessidade de se justificar, de se provar, o ímpeto de dominação,
avassalamento, o sonho de ver um mundo consumido de medo, amor, admiração e
vergonha aos pés do desprezado de ontem... É desaconselhável deduzir da veemência da
realização a medida, a profundidade da dignidade latente e secreta que padecia sob a
desonra do estado de crisálida, a extraordinária violência da tensão de um subconsciente
que produz “criaturas” de um estilo tão proeminente e importuno. O al fresco, o grande
estilo histórico não é, afinal, uma questão de pessoa, e sim do meio e do espaço de
atuação: a política ou demagogia que de um modo ruidoso e rico em vítimas tem a ver
com povos e destinos de massa muito abrangentes e cuja grandiosidade exterior nada
prova a respeito da excepcionalidade do caso psíquico, para o formato próprio deste
histérico muito efetivo. – Mas também a insaciabilidade do instinto de compensação e
de autoglorificação está aí, a inquietude, o nunca se dar por satisfeito, o esquecimento
dos sucessos, o rápido desgaste deles para a autoconsciência, o vazio e o tédio, o
sentimento de nulidade assim que não haja nada a fazer e o mundo não possa ser
mantido em suspenso, a compulsão insone para o sempre ter de se provar novamente...
Um irmão... Um irmão um tanto desagradável e vergonhoso; ele dá nos nervos
da gente, é um parentesco muito constrangedor. Apesar disso eu não quero fechar os
olhos diante deste fato, pois mais uma vez: melhor, mais honesto, alegre e produtivo
que o ódio é o reconhecer-se, a disposição para a autounião com o que é digno de ódio,
ainda que traga consigo o perigo moral de se desaprender a dizer não. Eu não tenho
medo disso – e de resto a moral, na medida em que ela prejudica a espontaneidade e a
inocência da vida, não é necessariamente um problema do artista. Não é exclusivamente
irritante, é também uma experiência tranqüilizadora o fato de que, apesar de todo
conhecimento, esclarecimento, análise, de todo o progresso do saber a respeito do ser
humano – no que diz respeito a ação, acontecimento, à mais impressionante projeção do
inconsciente na realidade, tudo permanece possível a qualquer momento sobre a terra –
especialmente no processo de primitivização ao qual a Europa de hoje se entrega
conscientemente, voluntariamente – com o que, porém, o saber e o querer, a afronta
dolosa contra o espírito e o nível que ele de fato alcançara constituem uma séria objeção
contra a primitividade. Indiscutivelmente, o primitivismo em sua insolente
autoglorificação contra a época e seu grau de civilização, a primitividade como “visão
de mundo” – e por mais que essa visão de mundo seja tida por correção e contrapeso de
um seco “intelectualismo” – é uma impudência, ela é exatamente o que o Antigo
Testamento chama de “abominação” e “estultícia”, e também o artista como
correligionário irônico da vida só pode dar as costas cheio de repugnância a um
retrocesso tão ousado e mentiroso. Recentemente eu vi num filme uma dança sagrada de
ilhéus de Bali que terminava em um completo transe e em pavorosas convulsões dos
jovens esgotados. Onde está a diferença entre estes usos e os acontecimentos em uma
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reunião política das massas da Europa? Não há nenhuma – ou melhor, há uma, sim: a
diferença entre exotismo e repulsividade.
Eu era muito jovem quando, na peça Fiorenza, fiz com que o domínio da beleza
e da cultura fosse aniquilado pelo fanatismo social-religioso do monge que anunciava “o
milagre da ingenuidade renascida”. A morte em Veneza sabe algo da recusa do
psicologismo da época, de uma nova determinação e simplificação da alma, que eu, no
entanto, conduzi a um final trágico. Eu não deixei de ter contato com as tendências e
ambições da época, com aquilo que desejava vir e tinha de vir, com aspirações que vinte
anos depois se tornariam em clamor das ruas. Quem se admira de que eu não mais
quisesse saber delas depois que chegaram ao fundo do poço político e vociferavam em
um nível diante do qual apenas professores enamorados da primitividade e lacaios da
hostilidade ao espírito não fugiam apavorados? Trata-se de um modo de agir que
poderia destruir o respeito que nutrimos pelas fontes da vida. É preciso odiá-lo. Mas o
que é este ódio em comparação com aquele que o excedente do inconsciente vota ao
espírito e ao conhecimento? Como um homem deste tipo deve detestar a análise! Eu
tenho a secreta suspeita de que a ira com a qual ele realizou a marcha sobre uma certa
capital tinha por alvo no fundo o velho analista que lá residia, seu verdadeiro e
particular inimigo – o filósofo e desmascarador da neurose, o grande desilusionista, o
próprio conhecedor e revelador do gênio.
Eu me pergunto se as representações supersticiosas que um dia envolveram o
conceito de “gênio” ainda são suficientemente fortes a ponto de nos impedirem de
chamar ao nosso amigo de gênio. Por que não, afinal, se é para ele uma alegria? O
homem de espírito tem quase tanto desejo de verdades que o fazem sofrer quanto o
burro anseia por verdades que o lisonjeiam. Se o gênio é a demência junto com a
sensatez (e isto é uma definição!), então o homem é um gênio: e nos permitimos
reconhecê-lo tão mais francamente por que o gênio é uma categoria, mas não designa
uma classe, uma posição, por que ele se manifesta nas mais variadas classes espirituais e
humanas, mas mesmo nas mais baixas mostra características e produz efeitos que
justificam a denominação geral. Eu quero deixar de lado a questão de saber se a história
da humanidade já viu um caso semelhante de baixeza moral e espiritual combinado ao
magnetismo a que se chama de “gênio” igual a esse do qual nós somos as testemunhas
perplexas. Em todo caso eu sou contrário a que por causa de um tal evento nós nos
deixemos tomar de repulsa pelo gênio em si, pelo fenômeno do grande homem, que de
fato sempre foi predominantemente um fenômeno estético, e apenas raramente também
moral, mas que, ao parecer ultrapassar as fronteiras da humanidade, ensinava à
humanidade um temor que, apesar de tudo o que ela devia suportar da parte dele, era um
temor de felicidade. É preciso preservar as diferenças – elas são incomensuráveis. Eu
acho irritante ouvir gritar hoje: “Nós sabemos agora que Napoleão também era apenas
um cafre! Isso significa, verdadeiramente, jogar a criança fora junto com a água do
banho. Deve-se recusar como absurdo que se os nomeiem de um só fôlego: o grande
guerreiro junto com o grande covarde e pacifista da extorsão, cujo papel estaria
esgotado no primeiro dia de uma guerra verdadeira; a criatura que Hegel chamou de
“espírito do mundo a cavalo”, o cérebro gigantesco que a tudo dominava, a mais
extraordinária capacidade de trabalho, a encarnação da revolução, o portador tirânico da
liberdade cuja imagem está para sempre impressa na memória da humanidade como
imagem em bronze do classicismo mediterrâneo – juntamente com o triste gazeteiro,
verdadeiro incompetente e “sonhador” de quinta categoria, o idiota cheio de ódio pela
revolução social, o sádico hipócrita e o infame vingativo com “alma”... Eu falei em
deformação européia: e de fato, nossa época foi capaz de deformar tanta coisa: o
nacional, o socialismo – o mito, a filosofia da vida, o irracional, a fé, a juventude e a
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revolução e sabe-se lá o que mais. Pois bem, ela nos trouxe também a deformação do
grande homem. Nós temos de nos haver com a sorte de vivenciar o gênio neste nível de
sua possibilidade de revelação.
Mas a solidariedade, o reconhecimento, são expressão de um autodesprezo da
arte, que no fim das contas não quer ser compreendida tão literalmente. Eu me
comprazo em acreditar, eu estou mesmo certo de que se aproxima um futuro que
desprezará a arte livre de controle espiritual, a arte como magia negra e parto instintivo
irresponsável desprovido de cérebro, na mesma medida em que épocas humanamente
débeis como a nossa perecem de admiração diante dela. De fato, a arte não é apenas luz
e espírito, mas ela também não é apenas uma beberagem duvidosa e um aborto cego do
submundo telúrico, não apenas “vida”. Com maior clareza e felicidade que até agora a
arte se reconhecerá e se manifestará como magia clara: como uma mediação alada-
hermética-lunar entre espírito e vida. Mas a própria mediação é espírito.

(1939)

(Tradução do Prof. Mário Luiz Frungillo, para uso exclusivo em sala de aula).