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Nós, Tranças e o Teorema de Conway

Osmar Tharlles Borges de Oliveira1

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Universidade do Estado do Pará - UEPA Email: tharllesz@yahoo.com.br

Introdução

O objetivo do minicurso é apresentar ao público as incrı́ves e fascinantes Teoria dos Nós e as Tranças Racionais
na perspectiva teórica dos temas. Por ser um assunto pouco discutido em lı́ngua portuguesa as consultas a ele
ficam muito reduzidas àqueles que possuem acesso aos textos originais (na qual a maior parte está em lı́ngua
inglesa), então fez-se necessário a confecção do presente texto afim de amenizar a falta de referência em nossa
lı́gua sobre o assunto. Mesmo existindo textos em português sua quantidade é em escala muito pequena dos
que não estão. Os estudos da Teoria dos Nós e das Tranças Racionais esstão vinculados à Topologia, porém
o seguinte resumo teórico dos temas procura não entrar em detalhes mais sofisticados da topologia, fazendo
uso apenas das ideias topologicas envolvidas e definindo os resultados mais importantes para que o Teorema de
Conway possa ser provado.

Conceitos Fundamentais sobre Nós

É comum ouvirmos as expressões “desata esse nó, por favor!”, “dá um nó nessa corda”, “vou fazer tranças no
cabelo”, etc. no entanto a noção usual que temos sobre nós, laços, tranças entre outros emaranhados de barbante
(ou outro material) difere-se dos estudados na matemática. Essencialmente, um nó matemático é semelhante a
um nó comum, porém não possui pontas soltas (é contı́nuo) e nem “apertos”(sem auto-interseções) (Figura 1).

Figura 1: Nó comum e matemático, respctivamente.

Apesar de ter seu desenvolvimento na matemática pura a Teoria dos Nós possui diversas aplicações em outras
áreas do conhecimento como por exemplo, à Teoria das Cordas (Fı́sica), à compressão da estrutura e proprieda-
des de moléculas como os polı́meros e do comportamento do DNA (Quı́mica e Biologia) entre outras. No entanto
o ponto chave da teoria não é o de conhecer as formas exatas dos nós e sim poder decidir (topologicamente),
dados dois ou mais nós quaisquer, a equivalência entre eles, mais ainda, qual é a classe de equivalência deles.

O desafio de classificar e equivaler os nós tentou e ainda tenta muitos matemáticos no mundo inteiro e os
resultados obtidos até hoje ainda não são completos, porém abrangem uma quantidade significativa de casos.
Um dos matemáticos que se propôs a resolver tais problemas foi John H. Conway que, ao estudar os chamados
Nós Racionais, introduziu o conceito de Tranças Racionais na qual foi concebida quando ele começou a estudar

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certos “trechos”dos nós. Deste trabalho surge um dos teoremas fundamentais em relação às tranças de Conway,
o teorema de equivalência via frações contı́nuas.
Definamos agora o que é um nó e aprensentemos algumas de suas caracterı́sticas (propriedades).

Definição 1 Um nó é um mergulho de uma curva simples, contı́nua e fechada no R3 .

A representação de um nó pode ser tridimensional ou bidimensional. Bidimensionalmente os nós são vistos
como projeções (sombra) do objeto (nó) sob um feixe de luz em uma superfı́cie plana. Na condição de sombra
de um nó uma projeção planar precisa ser mais evidente, assim em cada cruzamento do nó os trechos em que o
cruzamento está por baixo simplesmente são “apagados”para que possamos diferenciá-los (Figura 2).

Figura 2: Nós Tridimensional e Bidimensional (Projeção Planar), respctivamente.

As projeções planares são ditas regulares se cada cruzamento ocorre em um único ponto; para cada cruzamento
concorrem apenas dois segmentos da curva, transversalmente, e o número de cruzamentos é finito.
Como mencionado anteriormente, a teoria não se preocupa com a forma e sim em conseguir achar solução
para a seguinte pergunta: Dados dois (ou mais) nós, eles são ou não equivalentes (estão na mesma classe de
equivalência)?
Para resolver este problema é conveniente então conseguir transformar um nó no outro. Essa tranformação é
uma deformação contı́nua a qual denominamos de isotopia e o espaço onde ela ocorre é chamado de ambiente de
isotopia. Desta maneira, um nó pertence a uma classe de equivalência K se puder ser deformado continuamente
por movimentos, que denominamos de Movimentos de Reidemeister1 (Figura 3), ao nó no qual todos os outros
da classe são equivalentes (este nó é um referencial e dá o nome à classe). Assim

Teorema 1 Dois nós N1 e N2 são equivalentes por isotopia ambiente se, e somente se, a projeção de N1 estiver
relacionada com a projeção de N2 por Movimentos de Reidemeister.

No entanto, apesar da simplicidade destes movimentos, outro problema surgia em relação a eles que é o de
como se dão estes movimentos, isto é, em que ordem eles devem ser aplicados? Pra essa pergunta não há
resposta, pois não há regras que definem a ordenação deles. Essa inconsistência, ou melhor, a complexidade de
1O matemático alemão Kurt Reidemeister provou no inı́cio do século XIX, que diferentes deformações de um nó podem ser
obtidas por uma sequência de três movimentos elementares, os Movimentos de Reidemeister.

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Figura 3: Movimentos de Reidemeister

determinação da equivalência pelos movimentos, levou os matemáticos a criarem novos métodos de determinação
da equivalência. Surgia então os invariantes da teoria.

Os invariantes são objetos matemáticos (por isotopia) calculados (nem sempre) sobre as projeções planares
dos nós. Podem ser números, polinômios (por exemplo os Polinômios de Conway e Jones), ou quaisquer
outros objetos matemáticos. Assim, para cada estado da projeção do nó associa-se um invariante que por sua
vez mantém-se constante (não é alterado) durante a isotopia, desta forma olhemos para o inı́cio e o final do
processo; se os invariantes são diferentes nos dois estágios então podemos concluir que os nós são equivalentes;
caso contrário teremos mais um problema para resolver, pois se os invariantes são os mesmos não podemos
concluir que são equivalentes uma vez que, durante o processo, não significa que o invariante em questão não
tenha se “alterado”. A certeza só é válida se tivermos um invariante que denominamos de invariante completo.
Um invariante que considera-se completo é dado por J. Conway, ao associar frações contı́nuas as chamadas
Tranças Racionais.

As Tranças de J. Conway

John H. Cownway ao estudar os nós procurou enxergá-los localmente em trechos isolados e então, a partir desses
“pedaços”de nós, concebeu o conceito das chamadas Tranças que constitui-se de curvas isoladas por uma bola
(circunferência no caso da representação planar e uma esfera na representação tridimensional) nas quais sua
pontas estão todas soltas e fazem parte da fronteira da bola onde estão. No caso especı́fico deste texto, uma
trança é formada por duas curvas nas quais suas quatro pontas estão fixas na fronteira da bola (denotemos por
B 3 ) que as cerca (Figura 4).

Figura 4: Tranças inclusas em B 3 .

1
Definição 2 Uma trança T é dita simples se for da forma [n] ou , ∀ n ∈ Z. As tranças da forma [n]
[n]
1
são chamadas de tranças inteiras horizontais (constituı́da de n torções horizontais) e as da forma são
[n]

3
chamadas de tranças inteiras verticais (constituı́das de n torções verticais). Indicamos as torções no sentido
positivo pelo sinal + (mais) e as torções no sentido negativo por − (menos) (Figura 5).

Figura 5: Representação das tranças.

Se T1 e T2 são tranças inteiras quaisquer, então denominamos às operações de adição + : (T1 , T2 ) → T1 + T2 e
multiplicação ∗ : (T1 , T2 ) → T1 ∗ T2 de soma horizontal e soma vertical, respectivamente (Figura 6). Assim, se
1 1 1
a, b ∈ Z então [a] + [b] ∼ [a + b] e ∗ = .
[a] [b] [a + b]

Figura 6: Somas horizontal e vertical.

As tranças [0] e [∞] são chamadas da tranças elementares. Assim, dizemos que uma trança é racional se for
obtida por um número finito de torções consecutivas das extremidades adjacentes das tranças elementares.
Construindo e definindo desta maneira uma trança racional temos que toda trança inteira é também racional e
1 1
mais, se T é racional então as tranças T + [n], [n] + T, T ∗ e ∗ T também são tranças racionais, ou seja,
[n] [n]
as tranças racionais são obtidas pelas operações + e ∗ entre as tranças inteiras.
No processo de construção de uma trança racional destacam-se as tranças básicas horizontal e vertical. A
horizontal é construı́da da a partir de uma inteira horizontal e em seguida multiplicamos uma vertical abaixo
dela depois somamos à direita uma horizontal e assim sucessivamente um número finito de etapas; a vertical
começa com uma trança inteira vertical, somamos uma trança horizontal à esquerda em seguida multiplicamos
uma vertical abaixo e assim por diante, também um número finito de vezes. A Figura 7 mostra a construção
de uma trança inteira horizontal e uma vertical.

4
Figura 7: Tranças básicas.

Teorema 2 Dada uma trança racional T qualquer temos que uma rotação de 180◦ no eixo horizontal ou vertical
é uma isotopia para T . Ou seja, efetuar as rotações (na trança toda) é obter ainda tranças equivalentes.

1
Uma dobra (flype) de uma trança racional T é o movimento que transforma [±1] + T em T + [±1] ou ∗ T em
[±1]
1
T∗ . As dobras são movimentos de 180◦ no entanto eles se dão dentro da trança mantendo-se suas pontas
[±1]
(todas) fixas (Figura 8). Dizemos ainda que uma trança é alternada se seus cruzamentos alternam por cima e
por baixo ao longo de qualquer componente da trança. Desta maneira uma trança T = [[a1 ], [a2 ], . . . , [an ]] é
alternada se todos os a0i s são positivos ou negativos.

Figura 8: Dobras.

2
Conjectuta de Tait 1 Dois nós alternados são isotópicos (equivalentes), se e somente se, as duas projeções
2
correspondentes em S são descritas por um número finito de dobras.

Se T é uma trança racional e n ∈ Z, então


1 1
[n] + T ∼ T + [n] e ∗T ∼T ∗
[n] [n]
2 Esta conjectura foi exposta por P.G. Tait[8] em 1898 e provada por W. Menasco e M. Thistlethwaite[6] em 1993.

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A inversa de uma trança T (ou [n]) é uma trança obtida por uma rotação (horária ou anti-horária) de 90◦
seguida de uma reflexão (gerando uma trança chamada imagem especular), na qual consiste em trocar as
1 1
torções positivas por negativas (ou vice-versa), denotada por (ou ) e definida como sendo inv(T ) = −T r
T [n]
(ou inv([n]) = −[n]r = [−n]r ), onde T r é uma rotação de 90◦ (Figura 9).

1
Figura 9: inv(T ) = −T r = .
T

Uma das grandes ideias de Conway foi a de representar uma trança racional por frações contı́nuas. Esta maneira
de tratar as tranças levou-o ao encontro de uma de suas maiores descobertas que foi perceber que numa isotopia
as frações das tranças podem ser as mesmas, ou seja, essas frações passam a ser um invariante e podem ajudar
na difı́cil decisão que é conseguir provar se as tranças são ou não equivalentes. Vamos então aos resultados
fundamentais para provar a veracidade do Teorema de Conway das tranças racionais.

Lema 1 Quaisquer tranças racionais satisfazem as seguintes equações isotópicas (equivalentes):


1 1
T∗ =
[n] 1
[n] +
T
e
1 1
∗T =
[n] 1
+ [n]
T
Definição 3 Uma fração contı́nua para tranças inteiras é uma descrição algébrica construı́da pelas tranças
inteiras [a1 ], [a2 ], . . . , [an ], com todos os numeradores iguais a 1 e escrita por uma expressão do tipo
1
[[a1 ], [a2 ], . . . , [an ]] := [a1 ] +
1
[a2 ] + · · · +
1
[an−1 ] +
[an ]
para a1 ∈ Z, a2 , . . . , an ∈ Z − {0} e n par ou ı́mpar.

Teorema 3 Toda trança racional pode ser escrita em forma de fração contı́nua.


1 1
Por exemplo, a Figura 10 ilustra as tranças racionais [2] + e [2] + , respectivamente. Perceba
1 1
[−2] + [2] +
  [3] [3]
1 1
que [c] ∗ + [a] possui uma fração contı́nua da forma [a] + = [[a], [b], [c]].
[b] 1
[b] +
[c]

6
1 1
Figura 10: Tranças racionais [2] + e [2] + .
1 1
[−2] + [2] +
[3] [3]

É trabalhado neste texto apenas as frações contı́nuas do tipo


1
[a1 , a2 , . . . , an ] := a1 +
1
a2 + · · · +
1
an−1 +
an
para a1 ∈ Z, a2 , . . . , an ∈ Z − {0} e n par ou ı́mpar.

Definição 4 (Fração das Tranças Racionais) Seja T uma trança racional isotópica a uma forma fra-
cionária contı́nua [[a1 ], [a2 ], . . . , [an ]]. Definimos a fração F (T ) de T como sendo o valor numérico da fração
contı́nua obtida pela substituição por inteiros das tranças inteiras na expressão de T , i.e.,
1
F (T ) := a1 + = [a1 , a2 , . . . , an ]
1
a2 + · · · +
1
an−1 +
an
 
1 1
se T 6= [∞], e F ([∞]) := ∞ = , como uma expressão formal. Em particular, F ([n]) = n e F =
0 [n]
1
F (inv([n])) = .
n

Lema 2 Toda trança racional é isotópica a uma trança racional alternada.

Definição 5 Uma trança racional T = [[a1 ], [a2 ], . . . , [an ]] é dita na forma canônica se T é alternada e n é
ı́mpar. A trança da Figura 11 está na forma canônica.

Lema 3 Toda fração contı́nua [a1 , a2 , . . . , an ] pode ser transformada em uma forma canônica única [β1 , β2 , . . . , βm ],
onde todos os βi 0 s são positivos ou negativos e m é ı́mpar.

p 11
Por exemplo, suponha que = seja fração de uma trança T qualquer. Então
q 7
11 4 1 1 1
=1+ =1+ =1+ =1+
7 7 7 3 1
1+ 1+
4 4 4
3

7
Figura 11: Trança racional na forma canônica.

1 1
=1+ = [1, 1, 1, 3] = 1 +
1 1
1+ 1+
1 1
1+ 1+
3 1
2+
1

= [1, 1, 1, 2, 1]

Assim, se T = [[a1 ], [a2 ], . . . , [an ]] e S = [[b1 ], [b2 ], . . . , [bm ]] são tranças racionais na forma canônica com a
mesma fração, então segue do lema anterior que [a1 , a2 , . . . , an ] e [b1 , b2 , . . . , bm ] são formas fracionárias contı́nuas
canônicas para o mesmo número racional, e portanto, são iguais termo a termo. Desta maneira, a unicidade das
formas canônicas das frações contı́nuas implica na unicidade das formas canônicas para as tranças racionais.
23 23
Por exemplo, seja T = [[2], [−3], [5]], então F (T ) = [2, −3, 5] = . Porém = [1, 1, 1, 1, 4], desta forma
14 14
T ∼ [[1], [1], [1], [1], [4]] e esta trança esta na forma canônica de T .[5]

Por fim temos o seguinte teorema:

Teorema 4 (Teorema de Conway, 1970 [2]) Duas tranças racionais T e S são equivalentes se, e somente
se, possuem frações iguais, i.e., F (T ) = F (S).

Demonstração: (⇒) Suponhamos que as tranças racionais T e S sejam isotópicas. Assim, T e S são equi-
valentes as suas formas canônicas T 0 e S 0 por uma seqûencia de flypes. Portanto as tranças alternadas T 0 e
S 0 são isotópicas entre si. Pela Conjectura de Tait, existe uma sequência de dobras T 0 para S 0 , assim, existe
também uma sequência desses movimentos de T para S. Verifica-se então que a fração como foi definida, é um
invariante para as dobras. Portanto T e S possuem a mesma fração.

(⇐) Por outro lado, suponhamos que T e S possuem frações idênticas. Então elas possuem formas canônicas
iguais isotópicas a elas, que por sua vez são isotópicas entre si. E isto completa a demonstração.

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Referências

[1] Adans, C. C. (1994) The Knot Book: An Elementary Introduction to the Mathematical Theory of Knots.
W. H. Freeman and Company, 1–205.

[2] Conway, J. H. (1970) An enumeration of knots and links and some of their algebraic properties Proceedings
of the conference on Computational problems in Abstract Algebra held at Oxford in 1967, Pergamon Press,
329-358

[3] Colli, E. (sem data) Introdução à Teoria dos Nós, (encontrado em


http://matemateca.incubadora.fapesp.br/ portal/textos/matemateca/nos/Nos).

[4] Goldman, J. R, Kauffman, L. H. (1997) Rational Tangles. Advances in Applied Math. 18

[5] Kauffman, L. H., Lambropoulou, S. (2004) On the classification of rational tangles. Advances in Applied
Math.

[6] Menasco, W., Thistlethwaite, M. (1993) The classification of alternating links. Annals of Mathematics
138, 113-171.

[7] Oliveira, O. B. T. de (2010) Nós e Tranças: Uma pequena introdução. Monografia - UFPA

[8] Tait, P. G. (1898) On Knots, I, II, III. Scientific Papers, 1, Cambridge University Press, Cambridge,
273-347.

[9] Trace, B., Ernst, D. W. (1990) A calculus for rational tangles: Applications to DNA recombination. Math.
Proc. Camb. Phil. Soc. 108, 489-515