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A Antropologia Urbana no Brasil

TEORIA E CULTURA
Rogéria Campos de Almeida Dutra*
Nádia Oliveira Vizotto Ribeiro**
Resumo
O artigo pretende analisar o surgimento da Antropologia Urbana como campo de reflexão e investigação
da realidade brasileira a partir do desenvolvimento da Antropologia no Brasil ao longo do último século.
Procura também destacar o contexto de seu surgimento, bem como as particularidades de nossa sociedade
que propiciaram o crescimento deste campo da disciplina antropológica e de seus desdobramentos posteriores.
Palavras-chave: Antropologia Urbana, cidade, Antropologia no Brasil.

Urban Anthropology in Brazil

Abstract
This article aims at analysing the emergence of Urban Anthropology as a field of theoretical thought and
investigation of Brazilian social reality by presenting the historical development of Anthropology in Brazil
through the last century. It also seeks to highlight the social context of its emergence as well as the specific fea-
tures of Brazilian society that favored the fast growth of this area in Anthropology and its later developments.
Key-words: Urban Anthropology, city, Anthropology in Brazil.

Podemos considerar que uma das matrizes interpretativas que se empenhavam


características que marcaram os primeiros em lidar com a questão da diferença e da
estudos antropológicos, ao final do século XIX foi diversidade cultural. Contudo, ao longo do
a grande distância entre pesquisadores e grupos século XX, as perspectivas antropológicas foram
investigados. Neste momento de consolidação se multiplicando tal qual a complexificação das
de seu campo científico, a antropologia nascia relações entre colônia e metrópole, primitivos
como uma ciência que se legitimaria pela e civilizados, que assumiram novos contornos,
especificidade de seu objeto: o estudo de povos a partir de revisões da polaridade estanque
exóticos, de sociedades longínquas, presentes de valores entre tradição e modernidade que
nas colônias europeias. As formas de vida destes a acompanhava. Novas áreas de investigação
grupos tribais, considerados como primitivos, foram abertas, procurando ampliar horizontes
representavam para os europeus a evidência dos metodológicos até então marcados pela distancia
estágios de evolução humana, configurando-se – social, cultural, espacial - entre “antropólogo” e
neste sentido um quadro de dupla distância, a “nativo”.
espacial, por longos percursos para se alcançar Neste processo de alargamento de
o mundo selvagem, e a temporal, na medida em seu campo de investigação e multiplicação de
que o contato com estes povos significava uma objetos de estudo, as populações urbanas passam
viagem ao tempo, ao encontro dos primórdios a ocupar o universo das investigações relativas
da humanidade. Apesar do evolucionismo não à diversidade cultural. A cidade tornou-se o
ter sobrevivido, enquanto matriz interpretativa, lócus das pesquisas antropológicas dedicadas
ao período da I Grande Guerra, a constituição aos grupos urbanos, que concentra e multiplica
do campo da reflexão antropológica continuou toda a complexidade existente nas sociedades
prioritariamente fundamentada na investigação modernas. O conjunto de investigações sobre
destas sociedades tribais, movidas por novas as relações sociais e simbólicas estabelecidas

* Doutora em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ). Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Juiz de Fora (UFJF). E-mail: rcadutra@uol.com.br
** Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais (UFJF). Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade
Federal de Juiz de Fora. E-mail: n.vizotto@gmail.com

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nas sociedades contemporâneas e industriais uma primeira aproximação da reflexão europeia
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ficou conhecido, num primeiro momento em relação ao confronto com a alteridade,


como Antropologia Urbana. Um termo advinda da descoberta do Novo Mundo.
que se consolidou como contraponto aos Contudo, é somente após a segunda metade
estudos clássicos no campo antropológico, do século XIX que a reflexão antropológica se
particularmente àqueles moldados pela amadurece como fruto do desenvolvimento das
perspectiva de uma “antropologia realista” ciências humanas.
(MARCUS, 1991), ou seja, que operavam com a Alguns estudiosos brasileiros de formação
perspectiva da existência de sociedades isoladas, diversa, como médicos, juristas, engenheiros e
imaculadas e atemporais. militares, contribuíram para os primeiros passos
O presente artigo tem como objetivo das pesquisas antropológicas no Brasil entre o
analisar o desenvolvimento dos estudos final do século XIX e princípio do século XX.
antropológicos nas cidades no Brasil, Autodidatas em sua maioria – Sílvio Romero,
identificando principalmente o contexto de seu Euclides da Cunha, Roquette Pinto e Nina
surgimento e procurando estabelecer relações Rodrigues -, seus registros a respeito de índios,
entre a expansão deste campo de investigações negros e sertanejos traduziam na maior parte
e as transformações ocorridas na sociedade dos casos uma preocupação com o destino, não
brasileira. somente destas populações, quanto do próprio
país, que deveria se consolidar como nação. Neste
Marcos do desenvolvimento da sentido visualizavam estes grupos no processo
Antropologia no Brasil de formação do “povo brasileiro”, reproduzindo
frequentemente teorias “racialistas” europeias,
Até os anos 30 ainda não havia formação onde a mestiçagem configurava-se como
acadêmica de Antropologia no Brasil, e inclusive empecilho ao nosso desenvolvimento1. Desta
na Europa esta se definia como um ramo novo forma, as interpretações a respeito dos problemas
das ciências. No entanto, podemos destacar os sociais brasileiros fundamentavam-se, de forma
cronistas e viajantes que circulavam pelo Brasil frequente neste período, em teorias deterministas,
colonial e imperial como fontes importantes onde as condições espaciais e climáticas ou
para a reflexão da alteridade neste período. raciais seriam indicadas como responsáveis pela
Suas descrições, apesar de fugir aos padrões situação de pobreza e baixo desenvolvimento e
ensaísticos ou acadêmicos, deixaram registros integração em nossa sociedade.
valiosos de grupos nativos e seus costumes A superação deste olhar para a sociedade
nestas terras, ainda em grande parte, selvagens. brasileira tem como marco significativo a obra
Muitos destes registros, tais como as crônicas de Gilberto Freyre, que a partir do contato
de Hans Staden e Jean de Lery, se configuraram com Franz Boas na Universidade de Columbia,
como fonte de consultas e análises posteriores publica “Casa Grande & Senzala” em 1933. Em
para a compreensão do contexto social e cultural revisão à ideia de um país fadado ao fracasso
da sociedade brasileira que ora se formava. Vale em virtude da miscigenação, Freyre traz como
destacar neste sentido a tese de doutoramento grande contribuição nesta obra a análise
de Florestan Fernandes “A função social da cultural do processo histórico de constituição
guerra na sociedade tupinambá”, que faz uma da sociedade brasileira. Posteriormente publica
análise sistemática da literatura deixada pelos “Sobrados e Mucambos”, em 1936, dentre o
cronistas a respeito da antiga sociedade indígena leque variado de sua produção intelectual, dando
Tupinambá, reconstruindo sua organização continuidade ao propósito de compreensão das
social e o papel da guerra nesta sociedade. A particularidades culturais da sociedade brasileira
narrativa de cunho cosmográfico - nos termos como configuração de um processo histórico.
de Laplantine (2003) - verificada nestes textos, É a partir da década de 30 que se verifica
em que modos de vida das populações nativas as primeiras iniciativas de profissionalização
se inserem no quadro amplo de descrição da dos antropólogos no Brasil, assim como a
geografia, da flora e fauna brasileiras traduzem institucionalização da Antropologia como um

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ramo importante das Ciências Sociais. Em da longa estadia do pesquisador entre os grupos

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1933 é criada na cidade de São Paulo a Escola indígenas vai ocorrer de forma tardia entre os
de Sociologia e Política, com grandes nomes pesquisadores brasileiros, prevalecendo neste
compondo sua grade docente, nos anos iniciais período as expedições que procuravam cobrir
de sua fundação, como Hebert Baldus, Donald grandes extensões, bem como visitas a diferentes
Pierson e Emílio Whillems. No ano seguinte é grupos étnicos.
fundada na USP (Universidade de São Paulo) Os estudos voltados para a população
a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do negra – tendo como representantes deste
Brasil, tendo Roger Bastide e Lévi-Strauss como período, autores como Roger Bastide, Edson
principais professores. Mellati (1983, p. 11) Carneiro, Nunes Pereira, Ruth Landes e Artur
afirma que foi em São Paulo o principal foco Ramos - procuravam estudar os vestígios das
de difusão da Etnologia nesse período, devido culturas africanas que continuavam a sobreviver
ao número de professores e alunos existentes no Brasil, apesar da perda de contato com a
nas instituições de ensino da cidade. Fora da origem e do conflito com as crenças e valores da
Academia também foram criados grupos de classe dominante. Observa-se neste momento
pesquisadores, como por exemplo, a Sociedade que as investigações passam a ter como cenário
de Etnografia e Folclore em 1937 e a Sociedade as cidades brasileiras. Os estudos sobre contatos
Brasileira de Antropologia e Etnologia em 1941. interétnicos, particularmente tratando dos
É também a partir da década de 30 que imigrantes ganham em qualidade, se convertendo
a influência da sociedade norte-americana no em pesquisas de caráter propriamente científico.
Brasil se faz presente em diversos aspectos, Podemos destacar as investigações de Emílio
em virtude da consolidação da hegemonia Whillems sobre os alemães, de Ruth Cardoso
política e econômica desta na América Latina. A sobre os japoneses e Thales de Azevedo e Eunice
Antropologia se vê beneficiada neste momento Durham, sobre italianos, muitos dos quais se
pela vinda de antropólogos norte-americanos propondo a discutir a questão da aculturação
para o país, como Ruth Landes, Charles através dos estudos de comunidade.
Wagley e Donald Pierson. A influência teórica
e metodológica norte-americana vai marcar a “Porém, a partir de 1952, chegam
produção antropológica até meados da década sucessivamente três missões científicas da
de 60. Os estudos de mudança social e cultural Universidade de Tóquio para estudar os
ou aculturação tornam-se a marca desta época: japoneses e seus descendentes no Brasil em
“[...] tiveram por objeto tanto a população negra, colaboração com pesquisadores brasileiros. O
como os grupos indígenas, bem como imigrantes primeiro a chegar, em 1952, foi Seiichi Izumi,
europeus e asiáticos e seus descendentes e ainda que volta outra vez ao Brasil em 1955 à frente
a população de áreas de povoamento antigo de uma equipe; em 1957 chega uma equipe
e economicamente estagnadas” (MELLATI, dirigida por Fumio Tada. Ao mesmo tempo em
1983:13). que esses pesquisadores japoneses atuavam,
No que tange aos estudos de aculturação desenvolviam-se os trabalhos de Hiroshi Saito,
entre índios e brancos, a década de 40 é marcada em colaboração com eles, e, ainda, os de Egon
pelos trabalhos de Charles Wagley, Eduardo Schaden e de Ruth Correia Leite Cardoso.”
Galvão e Egon Schaden. As pesquisas da época (MELLATI, 1983, p. 14-15).
se caracterizavam pela matriz funcionalista e pelo
Os estudos de comunidade ocuparam
interesse em compreender a cultura indígena
papel preponderante na produção científica
como um todo, resultando em monografias
das Ciências Sociais nas décadas de 40 e 50,
sobre totalidades socioculturais, destacando-se
se prolongando até a década de 70 do século
temas como a organização social, a religião e
passado. Podemos destacar como uma das
cosmologia (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1988,
conquistas desse recurso investigativo a inserção
p. 116). Vale destacar, segundo Mellati (1983,
do pesquisador na comunidade investigada, que
p. 16) que apesar desta orientação teórica, o
propiciava uma abordagem ampla e geral do
trabalho de campo extensivo, ou seja, através

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seu objeto de pesquisa, tornando esse método Primeira Reunião Brasileira de Antropologia,
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uma referência para as primeiras pesquisas fundou-se o Museu do Índio. Sob a direção
em contextos urbanos. No entanto, apesar de de Darcy Ribeiro, esta instituição organizou o
vários pesquisadores importantes no Brasil “Curso de Aperfeiçoamento em Antropologia
terem se utilizado desse tipo de pesquisa, como Cultural” em 1955. Neste mesmo ano, é criada
Emílio Willems, Oracy Nogueira, Donald a ABA (Associação Brasileira de Antropologia),
Pierson e Antônio Cândido, os estudos de durante a Segunda Reunião Brasileira de
comunidade sofreram grandes críticas por parte Antropologia representando “um esforço de
de pesquisadores, particularmente advindas do colaboração, entre os participantes, para o
campo de reflexão marxista, sob influência de progresso dos estudos antropológicos e para a
Florestan Fernandes, seja pela ausência de reflexão criação de uma consciência profissional entre os
a respeito da inserção destas comunidades em antropologistas brasileiros.” (Anais, 1957 apud
contextos mais amplos, seja pela ausência do CORREA, 1988, p. 6). A criação da ABA tinha
recurso à documentação histórica como fonte de como objetivo propiciar reuniões periódicas
investigação. dedicadas à troca de experiências, informações e
Vale ressaltar a contribuição de Antônio o próprio convívio entre os associados. A cidade
Cândido para a Antropologia no Brasil, com do Rio de Janeiro foi escolhida para sediar a
um dos clássicos representantes dos estudos ABA, e sua primeira diretoria foi composta por
de comunidade, “Os Parceiros do Rio Bonito” residentes desta cidade.
publicado em 1964, onde traz reflexões teóricas A década de 50 continua sendo
importantes sobre o processo de urbanização, marcada pelos assuntos indígenas, tendo agora
estabelecendo parâmetros para a análise da Darcy Ribeiro e Roberto Cardoso de Oliveira
mudança social que ora acometia as pequenas como os principais pesquisadores. Através
comunidades do interior do Brasil. Em suas deles, a Etnologia começa a adquirir novas
próprias palavras: “A situação estudada não é características, como o intensivo trabalho de
de substituição mecânica dos padrões, mas de campo e a participação ativa dos antropólogos
redefinição dos incentivos tradicionais, por como defensores da cultura indígena,
meio de ajustamento dos velhos padrões ao novo transferindo o foco de pesquisa para a questão da
contexto social.” (CÂNDIDO apud PEIRANO, integração destes grupos à sociedade nacional.
1992, p. 34). Dentro de uma perspectiva Pesquisadores da história das Ciências Sociais no
plural, que integra as abordagens sociológica, Brasil (cf. Mellati, 1983, Micelli, 1987 e Peirano,
antropológica e literária, publica “Literatura e 2000) atribuem o período entre os anos 30 e o
Sociedade” em 1965, procurando estabelecer início dos anos 60 como fundamental para a
relações entre contexto sócio-cultural e as formas consolidação da Antropologia. Este período ficou
de arte literária. Na opinião de Mariza Peirano marcado também pela especialização crescente
(1992), fazendo uma antropologia da literatura: em torno dos assuntos indígenas, fazendo da
Etnologia o marco fundamental de pesquisa da
“Antônio Cândido mostra a tensão entre o Antropologia neste período.
universalismo da mente humana e as diferenças A partir dos anos 60, todas essas
culturais. Só assim é possível combater os dois iniciativas institucionais da Antropologia do
extremos, “modalidades da falácia antropocêntrica período anterior amadurecem, traduzindo-se
-, seja por verem no primitivo um bicho quase em grande produção científica, nas mais variadas
de outra espécie, seja por quererem reduzi-lo linhas de pesquisa. A criação das entidades
mecanicamente à nossa imagem, dispensando federais de fomento à pesquisa, Capes e CNPq em
o esforço de penetrar nas suas singularidades.” 1951, assim como a expansão da pós-graduação
(PEIRANO, 1992: 40). 2 favoreceu o crescimento do número de etnólogos
e professores da área. Vale destacar a criação do
Durante os anos 50 a cidade do Rio de Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Janeiro passa a ter um papel preponderante no Social do Museu Nacional em 1968 e de sua
desenvolvimento da Antropologia: sediou a posição de destaque no fomento e difusão da

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pesquisa antropológica neste período. De fato, a influência de David Melbory-Lewis com o Projeto

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capital carioca já havia começado a se destacar Harvard-Brasil Central que estabelecia parceria
como novo centro de atividade etnológica entre a Universidade de Harvard e o PPGAS do
na década de 50 e a criação deste programa Museu Nacional. Os mitos e ritos indígenas se
representou os resultados destes esforços. Em destacam como objeto de estudo, e incitam os
1971 é criado o Programa de Pós-Graduação em pesquisadores a novos recortes investigativos
Antropologia Social da UNICAMP, e em 1972 o sobre as sociedades indígenas no Brasil. A
Programa de Pós-Graduação em Antropologia abordagem estruturalista traz novas inspirações,
Social da UNB. ultrapassando o âmbito das sociedades tribais,
Sobre as orientações teóricas, estas como é o caso de Roberto da Matta que toma
também se modificaram em relação ao período os ritos como uma porta de entrada para o
anterior e passaram a priorizar a perspectiva conhecimento da sociedade brasileira na obra
estruturalista em detrimento do funcionalismo. “Carnavais, malandros e heróis” publicada pela
Além disso, certos temas de pesquisa perderam primeira vez em 1979.
interesse, como os estudos de comunidade, Podemos observar que esta multiplicação
sendo substituídos por pesquisas de caráter mais de temas de investigação, assim como a utilização
regional, dedicados às temáticas envolvendo o de diferentes matrizes teóricas não estão
campesinato, os assalariados rurais, as frentes de desconectadas das transformações da sociedade
expansão e os trabalhadores urbanos (MELLATI, brasileira, cujo processo de industrialização,
1983, p. 22). Os estudos etnológicos assistem integração institucional e urbanização
uma grande renovação teórica neste período. abrem espaço para realidades contraditórias
Conforme já anunciado anteriormente, o foco envolvendo diferentes atores sociais. Neste
das preocupações com o contato entre “índios contexto, particularmente a partir da década de
e brancos” passa a residir menos na questão da 60 temas relacionados à cidade, e à Antropologia
perda de traços originais do que na questão do Urbana começam a ganhar espaço no Brasil, tais
conflito de interesses e valores existentes entre os como as migrações da área rural para a urbana
grupos indígenas e a sociedade nacional, ou seja, e os desdobramentos recorrentes deste processo,
a perspectiva da aculturação cede lugar para a como a marginalidade e a ocupação em favelas.
questão da fricção interétnica. Roberto Cardoso A seguir estaremos apresentando de forma mais
de Oliveira publica em 1960 “O processo de detalhada o processo de consolidação deste
assimilação dos Terena”, em 1964, “O Índio no campo de investigação.
Mundo dos Brancos: a situação dos Tukúna do
Alto Solimões” e ao longo da próxima década Antropologia Urbana
uma série de trabalhos a respeito da situação
dos índios no contexto da sociedade nacional. A modernidade e seus desdobramentos,
Surge então o espaço de discussão sobre o papel tal qual a vivenciamos hoje, está marcada por
do antropólogo na sociedade brasileira, na diversas características importantes como
medida em que esta nova abordagem, sob forte o crescimento de grandes cidades derivado
influência da antropologia francesa marxista, fundamentalmente da Revolução Industrial
inspira nos pesquisadores o sentimento de e do desenvolvimento do capitalismo. As
militância a favor dos índios. Estes pesquisadores transformações sofridas a partir destes eventos
procuraram atender às necessidades indígenas e foram profundas e modificaram a vida social
buscar soluções para seus principais problemas, das cidades e dos indivíduos que a habitam. A
“como demarcação de terras, assistência médica, partir disso, um novo cenário é criado – com
instrução, administração direta pelos índios de sujeitos, identidades e características diferentes
sua produção para mercado e outros.” (MELLATI, - tornando-se um grande desafio teórico para
1983, p. 24). É também neste período que ganha as Ciências Sociais como um todo. Ulf Hannerz
impulso os estudos sobre a estrutura social das (1999) chama a atenção para o fato de que o
sociedades indígenas3, em que os pesquisadores processo de globalização - que apesar de se
buscaram respaldo teórico no estruturalismo sob intensificar nos últimos anos define-se como

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parte intrínseca ao desenvolvimento de uma a “deterioração dos espaços e equipamentos
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sociedade industrial e capitalista - significa não públicos com a consequente privatização


somente a interconectividade econômica entre da vida coletiva, segregação, evitação de
as sociedades, mas também a mistura de relações contatos, confinamento em ambientes e redes
sociais de longas distâncias. Estas transformações, sociais restritos, situações de violência, etc.”
contudo, se por um lado compreendem o (MAGNANI, 2002, p. 12).
partilhamento de linguagens planetárias, Nos textos de Park ( [1916] 1979) e Wirth
subentendendo dinâmicas homogenizadoras, ([1938]1979), escritos na primeira metade do
por outro, favorece a multiplicação da século XX essas perspectivas negativas sobre a
diversidade, uma vez que se tornam passíveis de cidade já se apresentavam. Park chega inclusive a
reinterpretações e reelaborações nos diferentes afirmar que o meio urbano intensifica os efeitos
cenários que se interconectam. Neste sentido, a de crises, e por crise ele se refere a distúrbios de
fluidez e a contingência na análise da dinâmica hábitos, ou seja, a ordem moral que repousava
cultural, tornam-se cada vez mais evidentes, sobre os indivíduos dissolve-se gradativamente,
onde as composições identitárias são passíveis e as instituições responsáveis por essa ordem
de revisões constantes, seja através de recortes moral (como a igreja, a escola, a família e
geracionais, profissionais ou mesmo pelo a vizinhança) perdem seu valor, ocorrendo
pertencimento a uma classe social. transformações nas formas de organização da
Se estas transformações advêm do solidariedade social. (PARK, 1973, p. 50). A
desenvolvimento das forças produtivas em característica mais perturbadora deste estilo de
uma sociedade de mercado hegemonicamente vida urbano para estes autores é a preeminência
industrializada, é nas grandes cidades que das relações secundárias em detrimento das
podemos observar seus impactos de forma mais relações primárias, afetando princípios até então
acentuada. A crescente complexificação das reconhecidos como fundamentais para se viver
formas produtivas, de circulação e comunicação em sociedade.
se traduz em formas de concentração do processo A escolha da cidade como objeto de
administrativo, econômico e político nas áreas pesquisa, no caso da Antropologia, foi algo
urbanas. As metrópoles têm se apresentado como relativamente recente. A Antropologia surge em
palco de uma realidade complexa e múltipla seus primórdios como uma ciência que busca
em todos os sentidos, tanto culturais quanto compreender sociedades simples no contexto
sociais, e estão em constante transformação. colonial, grupos indígenas e rurais, minorias
Esta multiplicidade pode se expressar nos traços sociais etc. No entanto, as transformações
pessoais, nas ocupações, na vida cultural e nas históricas e sociais descritas anteriormente
ideias dos habitantes da comunidade urbana, acabam por atingir também essas sociedades,
podendo resultar em segmentações tanto transformando as colônias em estados-nação,
espaciais como simbólicas dos indivíduos. colocando os índios e as populações rurais
Autores clássicos das Ciências Sociais, em contato com o “progresso urbano”, e as
como Durkheim, Tönnies, Simmel e Weber minorias sociais expostas à cultura dominante,
já abordavam a questão da cidade, analisando por exemplo. Esta realidade, então, estimula
as transformações ocorridas na esfera social o campo antropológico a se renovar e a buscar
sob as injunções da Revolução Industrial, novos objetos de pesquisa, as sociedades ditas
procurando compreender os impactos que complexas, visto que elas eram no momento
estas transformações traziam para as formas de foco de transformações importantes e que seria
vida tradicionais. A associação entre a cidade e fundamental compreender essa realidade.
a ruptura ou crise nas relações sociais torna-se Os primeiros estudos no Brasil que
objeto das preocupações destes cientistas sociais, começam a incitar a questão do urbano como
estando presente até os dias de hoje na grande importante objeto de pesquisa se dá na década
mídia. Verifica-se uma visão pessimista, que de 40 e continua na década seguinte, são os
destaca frequentemente a questão da violência, denominados “estudos de comunidade” já
da criminalidade, os problemas urbanos como mencionados anteriormente. Influenciados

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sumariamente pela Escola de Chicago4, estas campo de investigação sistematizado da realidade

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pesquisas, apesar de não focarem especificamente urbana dentro da Antropologia no Brasil vai
nas sociedades urbano-industriais, utilizam ocorrer de forma expressiva na década seguinte.
a cidade como pano de fundo e cenário dos
fenômenos estudados. Através da realização de “Com todos estes aspectos, o interesse nas
pesquisas em pequenas cidades e comunidades Ciências Sociais pelo urbano na década de
espalhadas ao longo do território nacional, 60, na minha opinião, estava-se “gestando
estes estudos se caracterizavam pela abordagem ou fermentando” um campo de estudos
qualitativa, utilizando-se da observação direta, antropológicos das populações urbanas
técnica tradicionalmente utilizada pelos que tomaria corpo na década de 70 e que
antropólogos na investigação de sociedades seria liderada por uma nova geração, [...]”
tribais. Com esses estudos de comunidade, (MENDOZA, 2000, p. 175).

“Pretendia-se chegar a uma visão geral da A década de 70 foi o momento crucial


sociedade brasileira através da soma de muitos para o desenvolvimento e o reconhecimento da
exemplos distribuídos pelas diversas regiões Antropologia Urbana como uma importante
do Brasil. Além desse objetivo geral, tais linha de pesquisa sobre os grupos urbanos. Em
estudos estavam quase sempre voltados para 1972, Gilberto Velho publica “A Utopia Urbana:
objetivos específicos, como mudança cultural, um estudo de antropologia social” iniciando-se
persistência da vida tradicional, problemas uma longa trajetória acadêmica com investigações
de imigrantes, educação e vários outros.” voltadas para a pesquisa antropológica nas
(MELLATI, 1983, p. 18). cidades. O desenvolvimento da Antropologia
Urbana neste contexto ocorre em virtude de
Estes estudos de comunidade tornaram- uma conjuntura política, social e acadêmica pela
se importantes para dar visibilidade a um qual o Brasil e a Antropologia estavam passando:
contexto e um foco de pesquisa que ainda não uma época marcada por processos conflituosos
era levado em conta pela Antropologia e até como repressão, ditadura militar, crescimento
mesmo pelas Ciências Sociais no Brasil. A eles urbano, pobreza, marginalidade e o chamado
podemos creditar o inicio do interesse, de fato, “milagre econômico”. Todo este contexto aflora
pelos processos econômicos, sociais e culturais nas Ciências Sociais o interesse pela investigação
da urbanização e da industrialização e seus a respeito dos problemas sociais urbanos, tendo
efeitos no contexto da cidade e de seus habitantes em vista o seu entendimento e a necessidade de
no fim dos anos 50 e por toda a década de 60. transformação, sendo a universidade o espaço
A relevância deste tema nesta época ideal para isso. Além disso, esses cientistas
pode ser apreendida pela diversidade de autores passaram a se engajar politicamente, havendo
nas Ciências Sociais que publicam livros e uma grande preocupação em repensar, conhecer
pesquisas sobre o processo de urbanização, e analisar o Brasil, buscando transformá-lo numa
como Otávio Ianni com a obra “Industrialização sociedade melhor.
e Desenvolvimento Social no Brasil” em 1963, O objetivo principal desta geração de
e os textos de Florestan Fernandes sobre a antropólogos emergentes era conhecer o sujeito
cidade de São Paulo que foram publicados no urbano habitante das cidades, mas através de
livro “Mudanças sociais no Brasil: aspectos do uma perspectiva diferente da que comumente se
desenvolvimento da sociedade brasileira” em fazia nas Ciências Sociais, fundamentalmente a
1960, dentre outros. Os principais temas de Sociologia e as Ciências Políticas, que partiam
pesquisa dos anos 60 tratavam, em sua maioria, tradicionalmente da categoria de classe social e
das consequências e problemas nas grandes do entendimento do sujeito urbano como um ator
cidades derivados do processo de urbanização, político. A perspectiva antropológica buscava
como as migraçãoes da área rural para a urbana, perceber este sujeito urbano não somente como
a grande aglomeração de favelas, marginalidade um ator político que defendia uma ideologia,
etc. No entanto, a institucionalização de um mas também um indivíduo que possuía um

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local de moradia, um trabalho, uma cultura e Logo é uma tarefa a ser assumida com todos os
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uma bagagem cultural específica: “tratava-se de riscos e desgaste que envolve (VELHO, 1980,
conhecer como esses grupos urbanos organizam, p. 20).
classificam, representam, atuam e constroem o
seu espaço e modo de vida dentro de um sistema “Este ajuste de foco – graças ao qual não se
urbano.” (MENDOZA, 2000, p. 191). Para necessita ir muito longe para encontrar o
conhecer essa realidade cotidiana dos indivíduos “outro” – terminou revelando uma realidade
era necessário dar voz a esses sujeitos – que na que aparentemente nada fica a dever ao
maior parte das vezes eram caracterizados pela exotismo que tanto espantava os europeus em
opressão e pela invisibilidade - a partir de técnicas contato com os povos “primitivos”: basta uma
de investigação qualitativa como a observação caminhada pelos grandes centros urbanos
participante. e logo entra-se em contato com uma imensa
diversidade de personagens, comportamentos,
“E aí então, as pessoas têm que ir para a
hábitos, crenças, valores.” (MAGNANI, 1996,
periferia e observar como é o modo de vida e
p. 3).
tentar então agora incorporar o olhar do outro
que é a grande contribuição que a Antropologia
Através de recursos como a etnografia
tem frente a outros recortes em Ciências
e a observação participante foi possível a
Sociais, é valorizar o discurso do outro e fazer
investigação dos aspectos cotidianos e micro-
um contraponto entre um discurso daquele
sociais do complexo urbano procurando
que nunca foi ouvido porque parecia que era
enfatizar não somente os próprios atores sociais
lá no fundo escondido, com outros discursos
e suas práticas, como também o contexto de sua
dominantes.” (MAGNANI apud MENDOZA, produção, no caso a paisagem urbana, como parte
2000, p. 194 e 195). constitutiva da vida social destes indivíduos.
Neste sentido os estudos antropológicos “Portanto, aqueles dois planos a que se fez
deste contexto passam a focar e observar os alusão anteriormente – o da cidade em seu
acontecimentos corriqueiros e cotidianos, conjunto e o de cada prática cultural assignada
buscando entender como os indivíduos a este ou àquele grupo de atores em particular
vivenciam e reelaboram esses acontecimentos, – devem ser considerados como dois polos de
contribuindo para outros olhares e interpretações uma relação que circunscrevem, determinam e
a respeito da dinâmica das sociedades complexas possibilitam a dinâmica que se está estudando.”
e urbanizadas. Apesar de se configurar uma (MAGNANI, 2002, p. 20).
situação de proximidade perigosa entre
pesquisador e pesquisados, uma vez que o Desta forma, o olhar para a cidade
pesquisador se coloca em um contexto na qual sob o enfoque macroestrutural, isto é, das
está familiarizado, o próprio contexto plural das instituições e da estrutura, onde os indivíduos
cidades favorecia o exercício da objetividade que a habitam são interpretados como agentes
e do estranhamento. Além disto, este passivos deste cenário, desprovidos de atividades,
empreendimento torna-se oportunidade para a sociabilidades e ações individuais passa a ser
revisão de pressupostos e valores naturalizados, complementado por um novo viés que priorizou
colocando este pesquisador na posição de nativo. dar voz a esses moradores e mostrar uma parte
da cidade aparentemente invisível. Vale destacar,
“A antropologia tem a grande vantagem de ter
contudo, que esta abordagem se afasta de uma
uma saudável tradição de ceticismo e critica
perspectiva essencializadora da cidade, ou seja,
que pode nos ajudar a ver e superar as ideias
evita considerá-la como ambiente determinista
velhas e preconceituosas. Não creio que o
de processos sociais. Neste sentido fala-se de
estudo da própria sociedade seja uma heresia
uma Antropologia na cidade e não da cidade no
dentro da trajetória de reflexão antropológica,
Brasil, ou seja, “[...] pesquisas em pequena escala,
mas significa sem dúvida, uma ampliação e
mostrando em termos gerais a dinâmica da vida
complexificação de nosso campo de estudo.
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urbana e da vida cotidiana” (MENDOZA, 2000, com novos objetos de estudo, passou a oferecer

TEORIA E CULTURA
p.222). Nas palavras de Eunice Durham (1986:19 novas perguntas e questões a um campo
apud MENDOZA, 2000, p. 189), intelectual maior, não só o antropológico. Este
reconhecimento alcançado a partir da década
“E, desde o começo, trata-se menos de de 70 contribuiu de forma intensiva para o
uma antropologia da cidade do que uma alargamento do campo teórico da Antropologia,
antropologia na cidade. Isto é, não se Podemos verificar esse desenvolvimento
desenvolveu no Brasil uma Antropologia na passagem das décadas de 70 e 80 através do
Urbana propriamente, nos moldes em que foi número de pesquisas na área da Antropologia
iniciada pela Escola de Chicago, uma tentativa Urbana, quando se multiplicam as dissertações
de compreender o fenômeno urbano em si e teses relacionadas à temática urbana, assim
mesmo. Ao contrário, trata-se de pesquisas como as publicações. É nesta época também
que operam com temas, conceitos e métodos que novos Programas de Pós-Graduação são
da antropologia. A cidade é portanto, antes o criados, em universidades de diferentes regiões
lugar da investigação do que seu objeto [...]”. do Brasil, contribuindo para a difusão desta
linha investigativa. Observa-se também que a
Além do contexto histórico, outro
multiplicação de estudos na área de Antropologia
fator contribuiu para a construção do campo
Urbana na década de 80 é verificada como
antropológico urbano no Brasil na década
tendência mundial. Sanjek (1990) aponta
de 70: a expansão do ensino universitário e
que apesar desta área de investigação ter se
da pós-graduação, promovidos pelo próprio
desenvolvido nos Estados Unidos na década de
regime militar. Os principais Programas de Pós-
60, é na década de 80 que seu escopo aumenta
Graduação em Antropologia na época eram o
drasticamente.
do Museu Nacional, da USP e da UNICAMP.
A partir de então, os objetos de estudo da
Cada um desses programas se especializou em
Antropologia Urbana tornaram-se heterogêneos
determinados temas de pesquisa, mas todos,
a ponto de se dificultar a sua identificação sob
de alguma forma, desenvolviam temas de
este rótulo somente, dada a multiplicidade de
investigação relacionados ao contexto urbano
recortes possíveis, além do recurso a diferentes
e à cidade. No Museu Nacional podemos
correntes de pensamento. Este cenário já havia
destacar como temas frequentes de investigação
sido apontado por autores que se dedicaram
as camadas médias, escolas de samba, religião,
ao tema (DURHAM, 1986; HANNERZ, 1999;
movimentos sociais, futebol, produção cultural,
VELHO, 2003) destacando a necessidade de
desvio e comportamento, moradia em favelas,
ampliação de matrizes teóricas para dar conta da
parentesco, redes sociais e carnaval. Na USP
diversidade de objetos que se apresentam neste
verifica-se a investigação de temas como família
campo de investigação. Assim, a consolidação
de operários, associações de bairros, bairros
deste campo de pesquisa, ao estimular o
populares, educação, habitações na periferia,
debate sobre a necessidade de se romper
lazer, movimentos sociais, migrações para a
com marcadores tradicionais de atuação da
cidade, participação popular e política, religião.
investigação antropológica, alargou os horizontes
Já na UNICAMP os objetos de pesquisa mais
e perspectivas da Antropologia. Este processo
frequentes eram papéis sociais, prostituição,
revela uma mudança de paradigma na medida
antropologia da mulher, saúde, migrações,
em que a disciplina descola sua legitimidade
culturas populares, organização social de bairros,
pela constituição de um objeto específico,
trabalhadores rurais, papéis sociais e identidade
previamente definido, para constituir-se pela
(MENDOZA, 2000, p. 196).
abordagem/ perspectiva que produz ao analisar
Esta escolha de foco de questões diversas
a realidade social, o que se torna mais produtivo
envolvendo o contexto urbano fez com que a
se considerarmos o contexto da sociedade
Antropologia começasse a ganhar prestígio frente
brasileira.
às outras disciplinas. De disciplina marginal, por
tratar de temas pouco políticos, a Antropologia,

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Considerações finais envolvidas na convivência com diferentes
TEORIA E CULTURA

matizes de alteridades, e uma preocupação com


De acordo com Peirano (2000, p. os problemas práticos pelos quais essas nações
222) para se analisar o desenvolvimento de vinham passando.
uma disciplina torna-se imprescindível a No Brasil, o desenvolvimento de uma
consideração de seu contexto de produção. O Antropologia Urbana, na década de 70, reflete
contexto das décadas de 60 e 70 foi propício ao o envolvimento da academia com as alteridades
desenvolvimento da Antropologia Urbana, pois múltiplas que compunham nossa sociedade
conjugou uma época política em que havia uma em processo acelerado de urbanização,
necessidade de compreensão e transformação onde os antropólogos atenuaram a noção
da sociedade brasileira, juntamente com a de exótico, fundamentado na ideia de uma
expansão dos programas de pós-graduação em “diferença distante” e priorizaram os contextos
Antropologia por todo o Brasil. Desta forma, de “diferença próxima”, por perceberem que
esta “nova” antropologia pôde contribuir para o contexto urbano também seria importante
esse ideário nacional, ajudando-a a se firmar para a análise antropológica (PEIRANO, 2000).
como um ramo importante de análise dentro das Vale ressaltar que essa passagem para a “nova”
Ciências Sociais. antropologia não resultou em ruptura com a
Compreender o desenvolvimento do tradição antropológica em se estudar sociedades
campo de investigação que ficou conhecido, de tribais, mas sim em um englobamento das duas
forma abrangente, como Antropologia Urbana, vertentes.
em nossa sociedade requer atenção à diferença Contudo, Stocking não deixa de citar
dos contextos de desenvolvimento da própria o fato de que a antropologia central – Grã
Antropologia, como destaca Stocking (1982), ao Bretanha, França, Alemanha, Estados Unidos e
diferenciar o desenvolvimento da antropologia União Soviética - continuou a ser uma influência
nos países centrais, caracterizado pela reflexão para os pesquisadores desses países periféricos
em suas colônias e a antropologia de países – Suécia, Polônia, Canadá, Quebec, Brasil,
periféricos, voltada para a reflexão da própria Índia e Sudão -, principalmente a antropologia
sociedade. A antropologia dos países centrais, americana, reproduzindo as abordagens teóricas
que Stocking denomina como antropologia de e metodológicas da metrópole. Cabe a estes
“construção de império” se caracterizava por pesquisadores a criatividade de novas chaves
um fascínio em relação ao “outro” encontrado interpretativas, assim como constitui-se o
durante a expansão europeia que, devido ao desafio da antropologia “fora do centro”, ou seja,
seu contraste acentuado com o europeu, levou constituída nos países periféricos, a conquista de
a crenças em relação à sua inferioridade física apoio social e governamental para se legitimar
e cultural. Presos a esse objeto de pesquisa, não somente no quadro das ciências sociais
essa antropologia entra em crise quando os como também no cenário internacional.
países coloniais começam a conquistar sua
independência.
A antropologia de países periféricos, Referências Bibliográficas
no entanto, viu nessa passagem de colônias
para países independentes a oportunidade CORRÊA, M. Traficantes do excêntrico: os
de construir novos objetos de estudo para a antropólogos no Brasil dos anos 30 aos anos 60.
Antropologia, que estariam voltados para os seus Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo,
próprios grupos internos, com o objetivo de se vol. 3, n. 6, p. 79-98, 1988.
problematizar a constituição de uma identidade
cultural nacional, ou seja, ser antropólogo em DURHAM, E. A pesquisa antropológica com
um país tradicionalmente identificado como o populações urbanas: problemas e perspectivas. In:
objeto da antropologia. Essa antropologia traz CARDOSO, R. (org.) A aventura antropológica:
teoria e pesquisa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
como peculiaridade se dedicar à investigação
1986.
de sociedades em processo de construção,

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Doutorado. Universidade Estadual de Campinas.
Campinas, 2000. Notas
1 Neste debate, vale ressaltar a exceção de Roquette
MICELI, S. Condicionantes do Desenvolvimento Pinto, que não via a miscigenação como uma ameaça,
das Ciências Sociais no Brasil (1930-1964). pois as razões pelo “atraso” da população brasileira
deveria ser sanada através da educação.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, 2 Este pluralismo, contudo, rendeu-lhe muitas
v. 2, n. 5, p. 5-26, 1987. críticas. Roger Bastide, por exemplo, recusou lhe
conferir nota máxima em sua tese de dissertação – que
OLIVEIRA, R. C. de. Sobre o pensamento foi publicado com o nome de “Os Parceiros do Rio
antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, Bonito” – por considerá-lo um trabalho claramente
antropológico. Tais resistências dificultaram a
1988. trajetória deste autor dentro das Ciências Sociais
da Universidade de São Paulo, vindo a se dedicar
PARK, R. [1916] “A cidade: sugestões para a aos estudos literários. Vale destacar que na história
investigação do comportamento humano no da Antropologia no Brasil outras vozes se fizeram
meio urbano” in VELHO, Otávio (org.). O dissidentes, com dificuldades de encontrar espaço
institucional, como é o caso dos estudos de folclore
fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Zahar Editores,
(cf. Vilhena, 1997).
1979.p.26-67 3 Nestes estudos “há um esforço no sentido de
captar os modelos nativos, a fim de também submetê-
PEIRANO, M. G. S. A Antropologia como los à interpretação geral do pesquisador” (MELLATI,
Ciência Social no Brasil. Etnográfica, vol. 4, n.2, 1983, p. 26), envolvendo pesquisadores como Roque
Laraia, Júlio Cesar Mellati e Roberto DaMatta.
2000. p. 219-232.
4 A Escola de Chicago representa um grupo
de pesquisadores e professores do Departamento
_________________. O pluralismo de de Sociologia e Antropologia da Universidade de

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Chicago entre o final do século XIX e princípio do
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século XX, e se constitui como a principal influência


para os posteriores estudos na área da Antropologia
Urbana.

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