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Depressão e Suicídio

Rute Agulhas
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta de Crianças e
Adolescentes, Terapeuta Familiar
2011 Delegação Sul do INML
Modelo Cognitivo - Comportamental
da Depressão
CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO (DSM-IV)

(1) Humor deprimido a maior parte do dia, quase todos os dias.


(2) Interesse ou prazer marcadamente diminuído em todas ou quase
todas as actividades.
(3) Perda significativa de peso ou diminuição ou aumento do apetite.
(4) Insónia ou hipersónia.
(5) Agitação ou lentificação psicomotora.
(6) Fadiga ou perda de energia.
(7) Sentimentos de desvalia ou de culpa excessiva ou inadequada.
(8) Diminuição da habilidade de pensar ou concentrar-se.
(9) Pensamentos recorrentes de morte.

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Critérios de Diagnóstico nas Crianças
Semelhantes aos dos adultos.

Mais frequentemente – sintomas depressivos (e não o preenchimento


dos critérios da depressão)
(excepto em adolescentes mais velhos)

Agressividade e dificuldades de concentração: sintomas mascarados

Incidência de sintomas depressivos:


2 a 3% na população em geral (crianças/adolescentes)
7 a 27% na população clínica

Mais frequente em adolescentes do que em crianças.

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Sintomas mais frequentes nas crianças:

Sintomas afectivos: humor deprimido ou triste; irritabilidade; disforia, raiva;


sentir-se não amado; sentimento de inutilidade (relação com ideação
suicida/desejo de morrer); ansiedade; anedonia (interesse ou prazer
diminuído nas actividades; apatia e afastamento face aos outros); culpa.

Sintomas cognitivos: dificuldades de concentração (influência no


desempenho escolar); dificuldades na tomada de decisão; auto-imagem
negativa.

Sintomas comportamentais: retraimento social; comportamento agressivo


e disruptivo; agitação psicomotora; lentificação.

Sintomas físicos: perturbações do sono e alimentação; fadiga, dores de


cabeça e de estômago.

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Adolescentes
Sintomas semelhantes.
Maior capacidade de verbalização dos sintomas.
Maior risco de tentativas de suicídio, consumo de substâncias e
abandono escolar.
Co-morbilidade frequente com perturbações de ansiedade.
Conflitos com os pais.

Maior dificuldade em procurar ajuda.


Sintomas que mais interferem no processo terapêutico:

• Isolamento – menor interacção verbal e colaboração

• Desesperança – dificuldades de concentração, não colaboração nos


TPC

• Maior dependência do terapeuta

• Crença de que as coisas não irão melhorar – expectativas negativas

• Espontaneamente, a criança dá pouca informação e responde com


monossílabos – questões abertas pouco eficazes (responde ‘não sei’)

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MODELO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL DA DEPRESSÃO

Terapia cognitiva da depressão (Beck et al, 1976, 1993)


- Intervenção estruturada, mais directiva, com agendas específicas,
limitada no tempo.

Depressão como resultado de um tratamento distorcido e negativo da


realidade e das experiências pessoais, resultando em atribuições
erróneas em termos de fracasso pessoal, perda ou rejeição, com
exagero que qualquer acontecimento que sugira informação negativa
acerca de si mesmo.

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Tríade Cognitiva da Depressão

Tipicamente, o C deprimido tem uma visão negativa de si, do mundo e do futuro.

Vê-se a si próprio como não tendo valor, como sendo inadequado, indesejável e
incapaz, atribuindo as suas experiências negativas a defeitos psicológicos,
morais ou físicos.

Vê o mundo como insustentável, apresentando obstáculos insuperáveis e


resultando continuamente em falha ou perda.

Vê o futuro sem esperança, pois acredita que os esforços que despende serão
sempre insuficientes para modificar o curso da sua vida, percepcionando-a
como um prolongamento indefinido do seu sofrimento e frustração, o que pode
conduzir à ideação e tentativas suicidas.

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Este modelo vê os sinais e sintomas da depressão como consequência
da activação de padrões cognitivos negativistas.

Sintomas motivacionais (falta de vontade, desejo de fuga e evitamento,


etc) como resultantes do pessimismo e desamparo. Se o C prevê
um resultado negativo, não irá envolver-se com a tarefa.

O C sobre-estima a dificuldade das tarefas – procura ajuda e


segurança nos outros, que considera como mais competentes e
capazes (dependência).

Sintomas físicos (apatia, baixa energia) – resultam da crença de estar


condenado ao fracasso e o sentimento de inutilidade.
Distorções irracionais típicas na depressão:

• Pensamentos absolutistas: tenho, devo, preciso.


‘As pessoas têm que me tratar bem’; ‘As coisas devem acontecer como
eu quero’.

• Catastrofização
‘É horrível errar’.

• Baixa tolerância à frustração: o cliente convence-se que não suporta as


situações que não lhe agradam.
‘Não suporto aquele colega’; ‘Não suporto uma má nota’.

• Avaliação global do próprio e dos outros (rotulagem)


‘Sou uma idiota/uma burra’.

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• Pensamento dicotómico
‘Ou ele gosta de mim ou eu morro’

• Inferências arbitrárias
‘Os meus colegas disseram aquilo porque não gostam de mim’

• Abstracção selectiva

• Sobregeneralização
‘É sempre assim, ninguém quer brincar comigo’

• Exagero e minimização

• Personalização

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Pensamento depressivo

1. Não dimensional e global (‘eu sou medroso)


Vs Multidimensional (‘sou moderadamente medroso, muito generoso e
moderadamente inteligente’)

2. Absolutista e moralista (‘sou um cobarde desprezível’)


Vs Relativista e não arbitrário (‘sou mais medroso do que a maioria das pessoas
que conheço’)

3. Invariante (‘sempre fui e sempre serei um cobarde’)


Vs Variável (‘os meus medos variam em épocas e situações diferentes’)

4. Diagnóstico do carácter (‘tenho um defeito de carácter’)


Vs Disgnóstico comportamental (‘evito muitas situações e tenho muitos medos’)

5. Irreversibilidade (‘sou um fraco e não há nada a fazer’)


Vs Reversibilidade (‘posso aprender formas de enfrentar situações e lutar contra os
meus medos’)

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O sujeito depressivo tende a encarar as suas experiências como
privações ou fracasso totais (não dimensional) e como irreversíveis
(fixas).

Categoriza-se como um perdedor (categórico, arbitrário) e como


condenado (défices irreversíveis de carácter).
Esquema do modelo cognitivo da depressão:

Primeiras experiências

Formação de esquemas disfuncionais

Acontecimento precipitante

Activação dos esquemas

Pensamentos automáticos negativos

Sintomas da depressão (comportamentais,


motivacionais, afectivos, somáticos, cognitivos)
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Situações de maior risco na infância e adolescência

• Perturbações afectivas nos pais (mãe deprimida)


• Baixa auto-estima (associada a pais muito exigente e críticos)
• Sentimentos de culpa
• Perda precoce
• Problemas de comportamento (agressividade)
• Pais agressivos/violentos
• Dinâmica familiar disfuncional
• Exposição prolongada a situações de stress (ex: pobreza, doença
crónica, etc.)

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Entrevistas de avaliação

• Estabelecimento da relação terapêutica


• Avaliação do estado mental
• Presença e severidade da sintomatologia; ideação suicida
• Impacto no funcionamento adaptativo
• Desempenho escolar/profissional, relação com pares, hábitos e rotinas
• Rede de apoio social
• Percepções do sujeito sobre os seus pensamentos, sentimentos,
comportamento e interacção com outros
• Forma como se percepciona a si próprio, ao mundo e ao futuro.
• Auto-estima
• Competências sociais
• Interacções familiares

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PROCESSO DE INTERVENÇÃO

1. Estratégias comportamentais

• Programação de actividades
• Técnicas de mestria e prazer
• Prescrição de tarefas graduadas
• Contrato comportamental
• Modelagem
• Treino de assertividade
• Role-playing/representação de papeis
• Reforço social
2. Educação afectiva

Ajuda a compreender a relação entre pensamentos, emoções e


comportamentos.

• Vocabulário emocional
Descrever a emoção e relacionar com pensamentos e
comportamentos; continuum das emoções

• Charadas emocionais
Adivinhar a emoção a partir da expressão não verbal/tom de voz

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Intervenções em grupo:

• Estátuas das emoções


Escultor, estátuas e audiência, que tem de adivinhar a emoções
esculpida. Relacionar com pensamentos e comportamentos.

• Expressão Emocional
Expressar as emoções com a voz (sons, mas não palavras) e os
outros têm de adivinhar; depois, partilhar quando foi a última vez que
se sentiu assim, o que aconteceu, o que fez.

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3. Procedimentos de auto-controle

• Auto-monitorização
• Auto-avaliação
• Auto-reforço (diferentes reforços para diferentes tarefas)

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4. Estratégias cognitivas

• Restruturação cognitiva (identificar, registar e disputar pensamentos


automáticos negativos e distorções cognitivas; identificar e disputar crenças)

• Modelagem cognitiva
• Imagens positivas + relaxamento
• Treino de resolução de problemas
• Treino de auto-instrução
• Treino de competências sociais (treino de assertividade)
Se os sintomas-alvo são...

a) Sintomas afectivos (tristeza, culpa, vergonha, raiva, ansiedade)


• Estratégias de distracção
• Descatastrofizar
• Disputar os must’s
• Treino de auto-controle (ex: crises incontroláveis)
• Estratégias de reatribuição
• Didáctica directa
• Relaxamento
• Substituição de imagens
• Role-playing

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Exemplo de didáctica directa

T: Porque é que você é responsável pelo suicídio da sua filha?

C: Eu devia ter sabido que ela ia matar-se...

T: As pessoas têm estudado o suicídio e ninguém consegue prever


exactamente onde ou quando uma pessoa irá matar-se.

C. Mas eu devia ter sido capaz de saber.

C: Acreditar que você deveria saber o desconhecido contraria as leis da


natureza. Tudo o que sabemos é que a sua filha cometeu um erro ao
decidir suicidar-se e você está também a cometer um erro ao
responsabilizar-se por isso.
b) Sintomas motivacionais (perda de motivação, desejo de evitamento)
• Auto-instrução
• Programação de actividades (maior independência)
• Treino de auto-afirmação

c) Sintomas cognitivos (indecisão, auto-crítica, pensamento dicotómico,


dificuldades de atenção, concentração e memória)
* Progressão de tarefas cognitivas graduais que impliquem
concentração em detalhes pertinentes/focalização
• Paragem de pensamentos intrusivos, refocagem
• Treino de resolução de problemas
• Role-playing/descentração
c) Sintomas comportamentais (passividade, evitamento, inércia, défice de
aptidões sociais)
• Atribuição de tarefas graduadas, potencialmente gratificantes
• Ensaio comportamental
• Treino de auto-afirmação

d) Sintomas fisiológicos (alterações no sono e apetite, distúrbios sexuais)


• Didáctica sobre o funcionamento fisiológico
• Treino de relaxamento (ex: insónias)
• Restabelecer rotinas e horários adequados
Suicídio

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Tentativa de Suicídio
Gesto auto-destructivo não fatal. O indivíduo não consegue concretizar
o objectivo de pôr termo à vida.
(ex: actos de auto-mutilação, auto-envenenamento)

Para-suicídio (termo mais recente)


Actos de auto-destruição que não conduziram à morte ou nos quais não
se encontrava presente a intenção de morrer.
(ex: conduzir sob o efeito do álcool)
Ideação suicida como um continuum...
(intenção absoluta de matar-se ----------------- intenção de continuar a viver)

Desesperança
Forte preditor do suicídio, a par de perturbação afectiva, ideação suicida,
história de tentativas de suicídio, prévia história familiar de tentativas de
suicídio, história de abuso de álcool e drogas.

Influência de variáveis de personalidade – estilo de perfeccionismo.


Factores de Protecção
(baixo suporte científico/não utilizar para compensar os factores de risco)

• Ausência de doença mental


• Emprego
• Ter crianças em casa
• Sentido de responsabilidade para com a família
• Gravidez
• Fortes crenças religiosas
• Elevada satisfação com a vida
• Teste da realidade intacto
• Capacidades de adaptação e de resolução de problemas
• Suporte social positivo
• Relação terapêutica positiva
Factores de Risco

1. Características sócio-demográficas do doente: idade e género


2. Suicidalidade passada e presente (tentativas actuais e prévias)
3. Diagnóstico psiquiátrico e sintomas psiquiátricos
4. História individual:
* história clínica
* história familiar
* história psicossocial
* neurobiologia
5. Resiliências e vulnerabilidades da personalidade
1. Características sócio-demográficas

A taxa de suicídio aumenta com a idade.


Períodos de aumento do risco: adolescentes/jovens adultos (15-35 anos) e
idosos (> 75 anos).
Maior risco no género masculino.
Nas mulheres: alto risco associado a violência doméstica, depressão pós-
parto, psicose pós-parto, expectativas rígidas em relação ao papel,
desigualdade de sexos institucionalizada.

Portugal: 2008: total de 1038 suicídios (794 homens e 244 mulheres)


As mulheres tentam mais, os homens efectivam mais.
2. Suicidalidade prévia e presente

Até 50% daqueles que morrem por suicídio fizeram, pelo menos, uma tentativa
prévia.
TS são 10 a 20 vezes mais prevalentes do que o suicídio.

Características das TS prévias que aumentam o risco de suicídio no futuro:


• Presença de doença médica prolongada
• Presença de doença psiquiátrica
• Baixos níveis de integração social
• Tentativa grave com consequências adversas
• Elevada intencionalidade
• Utilização de meios extremamente letais
• Medidas tomadas para evitar a descoberta do acto
Alto risco:
Múltiplas tentativas
Planeamento
Baixa probabilidade de salvamento (em TS abortadas)
Comportamentos de auto-agressão de elevada intencionalidade, com uso de
métodos de elevada letalidade, disponibilidade e acesso a meios letais,
consequências médicas graves.
Ideação suicida
Refere-se aos pensamentos, fantasias, ruminações e preocupações acerca da
morte, auto-agressão e morte auto-infligida.
Quanto maior for a magnitude e persistência dos pensamentos suicidas, maior é o
risco de eventual suicídio.

Intencionalidade suicida
Refere-se à expectativa e empenho do doente em morrer através do suicídio. A
magnitude da intencionalidade do doente em morrer pode reflectir-se na crença
subjectiva em relação à letalidade do método escolhido, que pode ser mais
relevante do que a letalidade objectiva desse mesmo método.
Ex: um doente que ingere um medicamento A (que os profissionais de saúde sabem não
causar a morte) e que acredita que a sua ingestão será letal, demonstra uma
intencionalidade elevada, mesmo que seja improvável que este medicamente conduza à
morte.
Quanto maior a intencionalidade de morte, maior o risco de suicídio consumado.
Plano suicida
Quanto mais detalhado e específico for o plano suicida, maior é o nível de risco
de suicídio.
Dar atenção ao método escolhido (grau de letalidade), momento escolhido e o
contexto em que ocorre, a acessibilidade ao método escolhido e as acções do
doente na preparação do acto suicidário.

São indicativos de elevado risco:


Planos premeditados e bem preparados (como escrever uma carta de suicídio,
fazer um testamento, dar objectos pessoais ou propriedades, acções para
assegurar o acesso aos meios ou ao método escolhido);
Envolvimento de um acto de elevada letalidade (armas de fogo ou enforcamento);
Escolha de um espaço/local ou período de tempo que dificultam a descoberta e
salvamento atempado.
Alto risco:
Ideação suicida: frequente, intensa e prolongada
Intencionalidade suicida: elevada
Planos suicidas: premeditação, bem planeado, meios altamente letais,
acesso aos meios
3. Sintomas psiquiátricos e diagnóstico

Maior risco:
• Perturbações do humor
• Perturbações psicóticas
• Perturbações de ansiedade
• Abuso e dependência de substâncias (em particular o álcool)
• Perturbações de personalidade
Sintomas psiquiátricos:

• Humor depressivo
• Ansiedade grave
• Ataques de pânico
• Desesperança
• Alucinações imperativas
• Impulsividade
• Agressividade
• Anedonia grave (falta de prazer ou interesse)
• Disforia
• Vergonha ou humilhação
• Baixa auto-estima
• Violência contra terceiros
• Agitação
• Inquietação
• Raiva
• insónias
Factores que podem aumentar o risco de suicídio em indivíduos com
qualquer doença psiquiátrica:

• Isolamento social
• Perda de estatuto/papel na família
• Perdas interpessoais
• Perda ocupacional
• Perda de capacidades/competências prévias
• Percepção de défices após a recuperação
• Abuso/dependência de substâncias
• Fraca capacidade de resolução de problemas (défices cognitivos)
• Sintomas depressivos
• Desesperança
Perturbações do humor

Risco de morte por suicídio 20 vezes superior.


Depressão major e fases depressivas e mistas da doença bipolar são as mais
frequentes nas mortes por suicídio.
Em doentes jovens é mais provável que o suicídio ocorra no início da doença,
particularmente se os sintomas depressivos forem acompanhados por ataques
de pânico, ansiedade grave, falta de concentração, insónia grave, abuso de
álcool e anedonia.
Em fases mais avançadas da doença, maior risco associado à desesperança,
pessimismo e expectativas negativas em relação ao futuro.

Risco de suicídio acrescido se a depressão ocorre concomitantemente com uma


condição médica crónica (ex. dor ou doença cardíaca) ou problema médico
grave (ex. cancro)
Perturbações psicóticas

A presença de psicose é responsável por mais de 10% dos suicídios e a


esquizofrenia está associada a um risco 10 vezes superior de morte por
suicídio.

Suicídio na esquizofrenia mais comum nos primeiros anos após o início da doença
e maior risco correlacionado com evolução crónica da doença, múltiplos
internamentos, TS prévia.

Doentes com sintomas depressivos intensos, um bom funcionamento pré-mórbido


e que têm consciência crítica das implicações da doença também tem elevado
risco, em especial se estiverem pessimistas em relação aos benefícios do
tratamento.

Sintomas psicóticos negativos (ex: apatia) associados a menor risco de suicídio.


Factores que podem aumentar o risco:

• Percepção dos défices causados pela doença


• Alucinações imperativas auto-agressivas/violentas
• Agitação
• Sintomas depressivos
• Sentimentos de desesperança
• Desemprego
• Alta hospitalar recente
• Isolamento social
• Género masculino
• Idade inferior a 45 anos
Variáveis dos doentes associadas a maior probabilidade de obediência
a alucinações imperativas:

• Doentes que conseguem identificar a voz alucinatória


• Doentes com perturbação psicótica grave
• Doentes que experimentam ordens menos perigosas
• Doentes com alucinações imperativas de início recente
• Doentes com alucinações imperativas fora do ambiente hospitalar
Perturbações de ansiedade
Podem representar entre 15 a 20% dos suicídios e conferem um aumento entre 6
e 10% no risco de suicídio, em particular se associadas a ataques de pânico,
depressão e/ou abuso de álcool.

Abuso e dependência de substâncias


Pode ser co-responsável por 25 a 50% das mortes por suicídio.
O álcool está associado a um aumento de seis vezes na taxa de mortalidade por
suicídio em relação à população geral.

O suicídio entre pessoas dependentes de substâncias ocorre geralmente numa


fase tardia do curso da situação, após os efeitos crónicos terem um impacto
extenso na saúde e no funcionamento em geral.
Episódios depressivos em cerca de ¾ dos alcoólicos que se suicidam.
Abuso de substâncias: factores de risco adicionais para suicídio:
• Perda interpessoal recente ou iminente
• Presença de outras perturbações psiquiátricas
• Quadro depressivo

Abuso de álcool: factores de risco adicionais para suicídio:


• Divulgação de intenção suicida
• Tentativas de suicídio prévias
• Desemprego recente
• Viver sozinho
• Suporte social deficitário
• Problemas legais
• Dificuldades financeiras
• Perturbações psiquiátricas
• Perturbações de personalidade
• Outros abusos de substâncias
Perturbações de Personalidade
Em particular, a perturbação anti-social ou borderline pode ser um factor
determinante em 5% dos casos de suicídio.
As taxas de suicídio nestes tipos de perturbações variam entre os 3 e os 9%.

Factores de risco adicionais:


• Desemprego
• Dificuldades financeiras
• Conflitos familiares/interpessoais
• Perdas
• impulsividade
5. História individual

História médica
Maior risco:
• Doença crónica
• Doença neurológica
• Presença de perturbação psiquiátrica/sintomas psiquiátricos
• Dor
• Défices funcionais
• Perda da acuidade visual ou auditiva
• Ficar desfigurado
• Aumento de dependência em relação a terceiros
História familiar
Maior risco:
• Suicídio em familiar de 1.º grau
• Perturbação mental em familiar de 1.º grau

História psicossocial
Maior risco:
• Ausência de suporte social
Avaliação do Risco de Suicídio
Guia de Avaliação do Risco de Suicídio (SRAG)

Roda de pontuação

Risco mais
elevado

Menor risco
Avaliação do risco de suicídio

1.º passo: Avaliação da suicidalidade


2.º passo: Avaliação dos factores de risco do suicídio
3.º passo: Identificação do que se está a passar (Porquê? Porquê agora? O que é
que se passa?)
4.º passo: Identificação dos alvos possíveis de intervenção
1.º passo: avaliação da suicidalidade
Relação terapêutica, empática e sem juízos de valor.

Exemplos:
‘posso avaliar como as coisas têm sido difíceis para si ultimamente…’
‘será que pode partilhar as suas preocupações comigo?’
‘alguma vez pensou em fazer mal a si próprio?’
‘alguma vez tentou fazer algo a si próprio que o poderia ter magoado
seriamente ou mesmo matá-lo?’
‘deseja morrer?’

O que não se deve fazer:


‘não está com ideia de se matar, pois não?’
Minimizar o sofrimento ou a gravidade dos pensamentos ou comportamentos.
Obter informação de fontes colaterais.

Avaliar planos suicidas


‘alguma vez pensou na maneira como poderia pôr termo à sua vida?’
‘estabeleceu uma data, uma hora ou um local para o fazer?’
‘conseguiu ter acesso a… comprimidos, veneno, armas?’
‘já escolheu… um local para saltar, um local para se enforcar?’
Avaliação da suicidalidade ocorrida no passado (tipo, frequência e
letalidade dos comportamentos suicidas prévios).

a) Avaliação do contexto
1. Intoxicação no momento dos acontecimentos
‘Há abuso de álcool ou outra substância associada à tentativa?’

2. Circunstâncias interpessoais
‘O episódio esteve associado a uma discussão?’

3. Eventos que levaram a estes comportamentos


‘Houve algum factor de stress precipitante específico, como a perda de emprego, término de
uma relação, etc.?’

4. Tempo e contexto dos comportamentos prévios


‘O episódio foi planeado, com escolha do local e método?’
5. Impulsividade dos comportamentos prévios
‘O evento foi motivado por um impulso ou por um sentimento de raiva?’

6. Oportunidade de socorro
O C escolheu uma situação onde a probabilidade de descoberta era baixa?

7. Pessoas presentes no momento do comportamento


‘Quem estava presente?’

8. Pessoas a quem a tentativa de suicídio foi comunicada


‘Alguém tinha conhecimento do plano antes da situação acontecer?’

9. Como é que a tentativa foi evitada


Porque é que o C não morreu?

10. Afectos após o evento


O C sentiu-se aliviado ou, pelo contrário, decepcionado por não ter morrido?
b) Método
Letalidade do método
Discernimento sobre o grau de letalidade do método

c) Consequências
1. Gravidade clínica: o episódio resultou em intervenção médica no serviço de
urgência, internamento, cuidados intensivos ou consequências continuadas ao
nível da saúde física?

2. Consequências do tratamento: o episódio resultou em internamento


psiquiátrico, referência para ambulatório de psiquiatria e saúde mental, prescrição
de medicação psiquiátrica?

3. Consequências psicossociais: O episódio resultou em perda de emprego,


término da relação, problemas legais, outros resultados negativos?
d) Intencionalidade
Avaliar a determinação do C em morrer.
• Expectativa de letalidade do método escolhido
• Ambivalência em relação à vida (queria mesmo morrer?)
• Sentimentos acerca do comportamento suicidário prévio (acerca da
descoberta e acerca da sobrevivência)
2.º passo: avaliação de factores de risco de suicídio

Avaliação da desesperança

Alguma vez se sente desesperado?


Sente que as coisas não irão ou não poderão nunca mais melhorar para si?
Existem momentos em que não consegue ver mais nada senão o seu
sofrimento?
Existem momentos em que não consegue ver qualquer futuro para si?

NÃO SIM
O que sente em relação ao futuro? Quando se sente desta forma,
alguma vez deseja que a sua vida
Onde espera estar dentro de 1 terminasse?
mês?
Alguma vez pensou em matar-se?
Se pudesse, o que mudaria na sua
vida que o ajudaria a sentir-se
melhor? Resposta negativa ou
ambivalente
Agregar a informação disponível: instrumento para avaliação do
risco de suicídio (TASR)

A presença de um plano de suicídio ou intenção elevada de suicídio coloca o C


num nível elevado de risco, seja qual for a presença ou ausência de
quaisquer um dos outros factores de risco.

As  relacionam-se com o peso da secção em que se avalia o risco de


suicídio.
Quanto maior for o n.º de , maior é o peso geral da secção.
Avaliação do risco nos adolescentes

Reconhecer os Identificar o jovem


sinais de alerta em risco

Avaliação do risco de
suicídio

Risco Risco Risco


baixo moderado elevado

Garantir a segurança
Neste momento não é
necessária intervenção
para suicidalidade, Avaliação, triagem e
fazer seguimento encaminhamento
Avaliação clínica da depressão em adolescentes
CAAD – avaliação de sintomas

Escala Kutcher da depressão em adolescentes (KADS)


KADS-11 (11 ítens)
KADS-6 (escala abreviada de 6 ítens)
Intervenção no suicídio
Princípios básicos

Segurança e protecção
Eventual internamento (compulsivo).

Suporte
Articulação com familiares ou outros significativos.
A segurança do doente pode sobrepor-se ao dever de confidencialidade.
Retirar os potenciais riscos do ambiente do C.

Intervenções específicas
Perturbações mentais
Factores psicossociais de tensão crónicos e/ou agudos
Modelos persistentes e inadequados de pensamentos, emoções e
comportamentos
Processo de Intervenção

1. Definir limites de confidencialidade

2. Obter um contrato de não suicídio


Ganhar tempo - incentivar o cliente a adiar o suicídio até ver quais os resultados
da terapia.

3. Decidir sobre a hipótese de hospitalização ou ambulatório; medicação


Risco de vida, suporte social.

4. Estabelecer uma relação de confiança e suporte


Honestidade, respeito.

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5. Inclinar a balança contra o suicídio
• Manter uma continuidade entre sessões
• Identificar razões para viver/razões para morrer (vantagens e
desvantagens de cada alternativa; tentar recordar as razões que tinha
anteriormente)

6. Lidar com a desesperança


• Transmitir que (a) existem interpretações alternativas para a sua
situação de vida e do seu futuro e (b) que dispõe de outras opções.
• Envolvimento de membros da família
• Induzir a dissonância cognitiva
• Treino de resolução de problemas
• Ensaio cognitivo (ver-se na situação a encontrar outras alternativas)
• Descatastrofizar

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7. Aprender a lidar com ideação suicida na terapia
Ideação suicida com flutuações ao longo do processo terapêutico,
mesmo que este progrida. Importa estar alerta para esta ideação,
experimentá-la na sessão e identificar estratégias para lidar com ela.

8. Intervenção para perturbação depressiva.


Uma variável importante na explicação das diferenças entre um
indivíduo com ideação suicida, uma tentativa de suicídio ou múltiplas
tentativas de suicídio é o período de tempo em que a patologia
permaneceu sem tratamento.

Um indivíduo com uma tentativa de suicídio prévia e com dificuldades


na resolução de problemas e défice nos mecanismos de coping
pode, sem intervenção adequada, tornar-se um sujeito com múltiplas
tentativas de suicídio.

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