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Intelectuais no contexto político e literário:

o papel do angolano LuandinoVieira*


Angélica Gherardi Sindra **

Resumo
Este trabalho discute os diversos tipos de intelectuais apresentados por
diferentes correntes teóricas, com o objetivo de traçar o percurso do
escritor angolano Luandino Vieira enquanto intelectual no cenário políti-
co e literário de seu país. Nesse sentido, examina posturas de alguns
estudiosos, procurando focalizar os procedimentos de intelectuais en-
volvidos com a descolonização africana e a interferência exercida por
Luandino Vieira no campo político de Angola através de sua produção
literária.

Palavras-chave
Palavras-chave: Intelectual; Luandino Vieira; Descolonização; Produ-
ção literária.

* Este ensaio compõe-se de parte de um capítulo de minha dissertação de mestrado, intitulada


Configurações do intelectual em obras de Luandino Vieira, desenvolvida, sob orientação da
Profª. Drª. Maria Nazareth Soares Fonseca, junto ao Programa de Pós-Graduação em Letras da
PUC Minas.
* Mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela PUC Minas.

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Sabemos que os intelectuais sempre perceberam a si mesmos como ana-


listas dos fenômenos sociais, críticos das estruturas vigentes e agentes trans-
formadores da sociedade da qual fazem parte. Entretanto, para alguns
estudiosos, a figura do intelectual estaria em declínio ou até mesmo em
extinção nos nossos dias.
Beatriz Sarlo (1997, p. 164), por exemplo, salienta que os intelectuais
seriam uma categoria cuja existência é hoje um problema e cuja interferência
não seria mais necessária. Norberto Bobbio (1997, p. 68), por sua vez, diz que
o intelectual utopista, cuja fala se configura como expressão das multidões e
porta-voz dos oprimidos, também teria caído em desprestígio.
Em contraposição, Edward Said (2005, p. 25) ressalta a importância da
atividade intelectual, argumentando que todas as revoluções da história moder-
na foram movidas por intelectuais e que, inversamente, não houve nenhum
grande movimento contra-revolucionário sem que eles estivessem presentes.
Neste trabalho, concordamos com a visão de Said (2005), quando este
ressalta o tradicional caráter agitador e mobilizador do intelectual na sociedade
diante das injustiças cometidas pelo Estado e/ou pelo pensamento ideológico
burguês. Para o autor, o intelectual tem o papel de tentar modificar o pensa-
mento público através da mobilização e conscientização popular, bem como de
colocar corretamente a questão do poder e de investir contra os muros que se
erguem impedindo que o cidadão raciocine criticamente e atue na sociedade.
A partir desta discussão inicial sobre o papel do intelectual, acreditamos
que possam surgir diversos questionamentos e dúvidas em relação à função e à
missão que a ele cabem na sociedade contemporânea. A esse respeito, Augus-
to Santos Silva (2004, p. 46) elucida de maneira bastante clara que o desconfor-
to do intelectual moderno encontra-se em sua dificuldade em: 1) adaptar-se a
campos culturais transformados; 2) acomodar os efeitos da banalização e da
saturação simbólica inerentes às sociedades de comunicação de massa; e 3)
reposicionar-se numa esfera política que já não o reconhece como contrapoder.
Então, se, segundo Silva (2004), a atividade intelectual é hoje alvo de
tantas críticas e perguntas e se diversas correntes teóricas preconizam o fim do
intelectual moderno, qual seria seu espaço de atuação? Será que sua interferên-
cia seria mesmo necessária? Como percebemos, esta é uma ampla discussão,

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Intelectuais no contexto político e literário: o papel do angolano Luandino Vieira

que tem tido lugar de destaque em jornais, canais de televisão e principalmen-


te no meio acadêmico.
Caminhando em direção à proposta de trabalho aqui desenvolvida, gostarí-
amos de problematizar um pouco mais o lugar do intelectual moderno. Se o
termo ou a categoria “intelectual” é extremamente questionável entre nós,
brasileiros, imaginemos como tal situação é concebida e digerida em uma soci-
edade africana, recentemente independente, que tem de lidar com a mais
absoluta carência dos bens elementares à sobrevivência humana. Será que
nesse contexto social, que é de certa maneira apocalíptico, haveria lugar para a
intervenção heróica desse “porta-voz” dos oprimidos?
Quem nos responde à pergunta é Luandino Vieira, renomado escritor
angolano objeto de investigação neste nosso trabalho:

É muito difícil nesta altura dizer qualquer coisa; mas podes afirmar aos amigos
e companheiros que procurarei sempre ser digno da confiança que têm em
mim; que, nas minhas possibilidades e dentro do meu particular campo de
acção – o estético –, tudo farei para que a felicidade, a paz e o progresso sejam
usufruídos por todos. (VIEIRA, 1977, p. 91)

Contrapondo a idéia da morte ou da inutilidade do intelectual, defendida


por várias correntes teóricas, Luandino levanta publicamente questões extrema-
mente embaraçosas, confronta os ditames do Estado e traz à tona problemas
que normalmente “são varridos para debaixo do tapete” pela sociedade. Luan-
dino, assumindo o típico caráter do intelectual moderno, almeja denunciar a
violência das relações humanas (seja ela física, psicológica, política e/ou de
classe) na sociedade angolana. Ele se levanta contra as imposições do Estado e
faz de sua escrita um instrumento de luta política contra o colonialismo portu-
guês que durante séculos oprimiu seu país.
De maneira bem geral, é possível dizer que em toda a sua obra Luandino
Vieira demonstra diferentes formas de engajamento a questões relativas à soci-
edade angolana, seja através da transgressão da linguagem do colonizador, da
denúncia da pobreza e do racismo, ou da clara reivindicação de uma Angola
livre e soberana. Entretanto, só para explicitarmos em nossa discussão algumas
contradições inerentes à função do intelectual, pensamos ser relevante mencio-
nar que, invariavelmente, os intelectuais estão ligados ao poder ideológico e,
dependendo das idéias que defendem, podem ser, como nos diz Bobbio (1997,
p. 116), progressistas ou conservadores, radicais ou reacionários, libertários ou
autoritários, liberais ou socialistas, céticos ou dogmáticos e, ainda, laicos ou
clericais. Evidentemente, não é nosso objetivo aqui operar com categorizações
tão taxativas, mas a pergunta persiste: que tipo de intelectual seria Luandino
Vieira? A fim de conhecer um pouco mais a “faceta intelectual” do escritor,
tentaremos aqui discutir os vários tipos de intelectuais apresentados pelas mais
diversas correntes teóricas que abordam o assunto.

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Antonio Gramsci (1995, p. 7), importante intelectual italiano da década de


30 do século XX, acredita que todos os homens são intelectuais, embora nem
todos desempenhem na sociedade essa função. Ao conceber uma tipologia
dos intelectuais, o teórico optou por subdividi-los em dois tipos: intelectuais
como categoria orgânica de cada grupo social fundamental e intelectuais
como categoria tradicional. Para Gramsci, os orgânicos têm o papel de forne-
cer aos estratos dominantes o componente ideológico, enquanto os tradicio-
nais estariam intimamente ligados à produção material, garantindo a
continuidade e a hierarquia de estamentos como a Igreja, as universidades e
os tribunais. A distância entre estes últimos e o mundo da produção cria neles
a ilusão, que Gramsci chama utópica, de serem autônomos em relação à
máquina econômica vigente. É a fantasia, comum entre acadêmicos, juristas e
burocratas, de se acreditarem independentes em relação ao mesmo sistema
de que estão a serviço.
Operando também com algumas categorizações, Norberto Bobbio (1997),
um dos mais respeitados pensadores políticos contemporâneos, entende que,
numa concepção vasta do termo, poderíamos incluir no grupo artistas, poetas e
romancistas; todavia, para o autor, a função “intelectual” deve estar atrelada à
noção de participação na vida civil e política. Ademais, a tarefa do intelectual
seria a criação e a transmissão de idéias ou conhecimentos politicamente rele-
vantes no contexto político. Bobbio tenta, ainda, classificar os tipos de intelec-
tuais, que, para ele, se dividem em dois grupos: os ideólogos e os expertos (do
inglês, expert; perito, conhecedor). Se os primeiros elaboram os princípios que
justificam as ações, lidando muitas vezes com a utopia, os segundos indicam os
conhecimentos técnicos mais adequados para alcançar um determinado fim. O
autor ressalta que tal classificação deve ser levada muito a sério quando se tem
como objeto a tarefa política do intelectual, apesar de ter a consciência de que
um mesmo intelectual possa ser ora ideólogo, ora experto.
Edward Said (2005, p. 19) inicia o texto de Representações do intelectu al1
intelectual
com uma pergunta que todos nós nos fazemos em relação aos intelectuais: “os
intelectuais formam um grupo de pessoas muito grande ou extremamente pe-
queno e altamente selecionado?”. Tentando responder à pergunta, Said desen-
volve sua argumentação com o objetivo de mostrar que os intelectuais são
criaturas muito raras que defendem a verdade e a justiça como padrões eternos.
Para o autor, o intelectual é um indivíduo dotado de uma vocação para repre-
sentar, corporalizar e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude,
filosofia ou opinião para (ou por) um público. Assim, Said assume seu papel de
intelectual, tendo consciência do que isso significa:

1
A obra é basicamente a transcrição de uma série de documentários exibidos pela rede de
televisão britânica BBC em 1993.

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Gostaria de expor isso em termos pessoais: como intelectual, apresento mi-


nhas preocupações a um público ou auditório, mas o que está em jogo não é
apenas o modo como eu as articulo, mas também o que eu mesmo represento
como alguém que está tentando expressar a causa da liberdade e da justiça.
Falo ou escrevo essas coisas porque, depois de muita reflexão, acredito nelas;
e também quero persuadir outras pessoas a assimilar esse ponto de vista. (SAID,
2005, p. 26)

Como vimos, o que é importante para Said é causar embaraço ao público,


ser incômodo e do contra; é mobilizar a população, tirando-a de suas acomoda-
ções confortáveis, mesmo porque ele acredita nos valores que apregoa e dese-
ja fazer com que outras pessoas também acreditem e mobilizem-se para
transformar situações sociais, econômicas e/ou políticas. Vale ressaltar, ainda,
que o autor não faz grandes distinções em relação aos tipos de intelectuais,
citando apenas os das esferas pública e privada. Entretanto, Said deixa explíci-
to que ambas as figuras se mesclam, podendo um intelectual ser, ao mesmo
tempo, público e privado:

Não existe algo como o intelectual privado, pois, a partir do momento em que
as palavras são escritas e publicadas, ingressamos no mundo público. Tampou-
co existe somente um intelectual público, alguém que atua apenas como uma
figura de proa, porta-voz ou símbolo de uma causa, movimento ou posição. Há
sempre a inflexão pessoal e a sensibilidade pessoal de cada indivíduo, que dão
sentido ao que está sendo dito ou escrito. (SAID, 2005, p. 26)

Falecido em 2003, Said foi o retrato mais fiel do intelectual de seu tempo.
Ele se envolveu em diversas polêmicas, como a manipulação da imprensa
pelas elites, o colonialismo que ainda persiste nos nossos dias e a política
desenvolvida pelos Estados Unidos. Como palestino, defendeu ardentemente a
causa de seu povo, que há anos vem sendo expulso de sua própria terra. É óbvio
que por suas claras tomadas de posição, principalmente por irem contra os
interesses de grandes potências mundiais, Said foi criticado e muito incompreen-
dido, tendo sido acusado de ser um ativista na luta pelos direitos palestinos e,
portanto, desqualificado para qualquer tribuna séria ou respeitável. No nosso
modo de entender, Edward Said é a resposta explícita àqueles que ainda insistem
em apregoar a extinção dos intelectuais nos nossos dias: ele se utilizou de impor-
tantes jornais, como o The New York Times e o Washington Post Post, e inclusive
da rede de televisão britânica BBC, onde proferiu as conhecidas Conferências
Reith (SAID, 2005). Depois de tudo que Said representou como intelectual, seria
realmente possível acreditar que os intelectuais estejam mesmo mortos?
Poderíamos ainda nos referir a vários intelectuais de grande importância
nos nossos dias, dentre os quais mencionamos (ainda que correndo o risco de
deixar grandes nomes para trás): Nelson Mandela, na África do Sul; Kwame
Anthony Appiah, ganês radicado nos Estados Unidos; Homi Bhabha, na Índia e
Grã-Bretanha; Beatriz Sarlo, na Argentina; Stuart Hall, na Inglaterra; e Silviano

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Santiago, aqui no Brasil. Todavia, a fim de chegarmos mais objetivamente no


foco do nosso trabalho, pensamos que seria de grande valia recuar nosso olhar
a dois renomados intelectuais envolvidos com a descolonização africana: Jean-
Paul Sartre e Frantz Fanon.
Em qualquer debate proeminente sobre intelectuais é impossível não fazer
menção ao filósofo francês Jean-Paul Sartre. Defendendo a figura do intelectual
engajado, Sartre é o símbolo do pensador que estaria deixando de existir. Ele é
aquele que não limitou sua ação ao mundo das idéias, dentro dos muros da
universidade; pelo contrário, Sartre mostrou-se presente também nas ruas e
praças, nos jornais e folhetins, sendo ele próprio a personificação do intelectu-
al por ele defendido. No nosso modo de entender, uma das principais virtudes
de Sartre encontra-se no fato de ele ter compreendido sua contradição (ineren-
te a todo intelectual) e assumido suas possibilidades de permanente conflito,
além de ter-se identificado com as massas populares, procurando enxergá-las
através da ótica do oprimido. Como o próprio Sartre mencionou nas famosas
conferências que proferiu no Japão, em 1965, o intelectual é definido justa-
mente por tal contradição, uma vez que

[...] ele se caracteriza por não ter mandato de ninguém e por não ter recebido
seu estatuto de nenhuma autoridade. [...] Ninguém o reivindica, ninguém o
reconhece (nem o Estado, nem a elite-poder, nem os grupos de pressão, nem
os aparelhos das classes exploradas, nem as massas); pode-se ser sensível ao
que ele diz, mas não a sua existência. [...] O intelectual é suprimido pela pró-
pria maneira em que faz uso de seus produtos. (SARTRE, 1994, p. 32-33)

Como se percebe, a consciência da contradição é o que mais nos fascina


em Sartre, isto é, o fato de ele saber que provavelmente como intelectual não
será ouvido e muito menos suas idéias serão colocadas em prática, mas, ao
mesmo tempo, nunca desistir de falar para transformar a opinião pública, na
esperança de que algo possa ser mudado a partir de sua interferência.
Em relação ao seu envolvimento com a descolonização africana, citamos
um importante trecho de seu prefácio ao livro Os condenados da terra
terra, de
Frantz Fanon (1968):

A princípio o europeu reina; já perdeu mas não se dá conta disso; ainda não
sabe que os indígenas são falsos indígenas; atormenta-os, conforme alega, para
destruir ou reprimir o mal que há neles. Ao cabo de três gerações, seus instin-
tos perniciosos não renascerão mais. Que instintos? Os que compelem os es-
cravos a massacrar o senhor? Como não reconhece nisto a própria crueza voltada
contra ele? (SARTRE, 1968, p. 10)

Parece-nos, a partir do excerto acima, que Sartre visa a conscientizar não o


colonizado mas sim, o europeu que promoveu a colonização no continente (no
caso, o africano). Temos a impressão de que ele deseja mostrar o quanto foi
vergonhosa a situação colonial e todos os males que ela trouxe consigo, como,

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por exemplo, o racismo, e o atraso econômico e social dos países que foram
“vítimas” dos europeus, uma vez que estes tinham a única e clara intenção de
explorar as colônias. A esse respeito, o racismo foi uma das armas mais ferozes
utilizadas para manter os “indígenas” no seu estado de passividade. Em “Orfeu
negro”, Sartre usa um tom de acusação (que chega a ser irônico) contra os
europeus:

O que esperáveis que acontecesse, quando tirastes a mordaça que tapava


estas bocas negras? Que vos entoariam louvores? Estas cabeças que vossos pais
haviam dobrado pela força até o chão, pensáveis, quando se reerguessem, que
leríeis a adoração em seus olhos? Ei-los em pé, homens que nos olham e faço
votos para que sintais como eu a comoção de ser visto. Pois o branco desfrutou
durante três mil anos o privilégio de ver sem que o vissem; era puro olhar, a
luz de seus olhos subtraía todas as coisas da sombra natal, a brancura de sua
pele também era um olhar, de luz condensada. (SARTRE, 1963a, p. 89)

Para nós, fica explícita a idéia de que Sartre tem a intenção de demonstrar
o quanto era estúpido o pensamento europeu que desqualificava uma raça em
detrimento de outra. No momento de sua publicação (início da década de
1960), quando vários países africanos começavam a conquistar a independên-
cia, Reflexões sobre o racismo (SARTRE, 1963b) assumia o objetivo de levar à
abolição o racismo entre as diferentes raças, bem como mostrar à sociedade
européia os indivíduos que ela mesma criara e rejeitara.
Evidentemente, é muito difícil mensurar o alcance real das obras de Sartre
e seu impacto nos locais onde foram publicadas; contudo, não podemos deixar
de registrar a importância desse filósofo enquanto intelectual e de tudo o que
representou para toda uma geração. Ademais, a atualidade de seus temas e a
maneira como ele coloca as questões fazem com que sua obra seja, ainda hoje,
de grande relevância.
Frantz Fanon (1925-1961) nasceu na ilha de Martinica, território francês
situado na América Central. Posteriormente, tendo se naturalizado argelino,
engajou-se na luta pela libertação do país, que sofria o jugo colonial francês
desde 1830. Como médico-chefe de uma clínica psiquiátrica, utilizou-se muitas
vezes de sua profissão para observar os efeitos da colonização na mente do
colonizado. Ao contrário de Sartre, Fanon parece-nos querer falar diretamente
ao colonizado, levando-o a tomar consciência do sistema que o coloca na
situação de oprimido.
Em Os condenados da terra (FANON, 1968), defrontamo-nos com um
livro de impacto considerável nos anos 60, que tencionou alimentar os ideais
de transformação e de construção de uma sociedade melhor na Argélia e em
toda a África. Desse modo, a obra foi um dos pontos de referência da luta
anticolonial, sobretudo porque apontava para a descolonização e a inevitabili-
dade da revolução na África, na Ásia e na América Latina. Temos a impressão

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de que Fanon deseja, a todo custo, fazer o colonizado enxergar as cruéis


artimanhas da colonização: sob o pretexto de “arrancá-lo das trevas”, articulam-
se objetivos reais de dominação política e econômica, que visam, essencial-
mente, ao desenvolvimento da metrópole.
Analisa Fanon (1968) que, tomando consciência do sistema que o mantém
indiferente à sua situação, ao colonizado resta apenas a possibilidade da revolta
aberta como forma de restabelecer seus valores tradicionais, que, por causa do
colonialismo, haviam sido privados do sentido de verdade. Dessa forma, a
utilização da violência seria uma das únicas maneiras de afirmar a identidade
nacional, e a repressão, ao contrário do que pretendiam os chefes políticos,
acentuava os processos gradativos de conscientização da nação. A respeito da
relação violência/repressão, diz Fanon (1968, p. 54-55):

Apesar das metamorfoses que o regime colonial lhe impõe nas lutas tribais ou
regionalistas, a violência envereda pelo bom caminho, o colonialismo identifica
seu inimigo, põe um nome em todas as suas desgraças e lança nesta nova via
toda a força exacerbada de seu ódio e de sua cólera.
[...]
As autoridades tomam efetivamente medidas espetaculares, prendem um ou
dois líderes, organizam desfiles militares, manobras, exibições aéreas. As de-
monstrações, os exercícios bélicos, esse cheiro de pólvora que agora impregna
a atmosfera não fazem o povo recuar.
[...]
As repressões, longe de quebrantar o ímpeto, acentuam os progressos da cons-
ciência nacional. Nas colônias, as hecatombes, a partir de certo estádio de
desenvolvimento embrionário da consciência, reforçam essa consciência, por-
que indicam que entre opressores e oprimidos tudo se resolve pela força.

Como bem constatamos nos trechos acima, Fanon (1968) defende a idéia
da violência do colonizado em relação ao colonizador como única maneira de
expressão do povo e de instauração de uma nova ordem estruturada nos valo-
res das comunidades locais. Portando-se como intelectual extremamente enga-
jado em várias causas relacionadas à revolução dos países africanos, Frantz
Fanon, em sua breve existência, foi a manifestação mais fidedigna do intelectu-
al de sua época. A rigor, o autor defende, com bastante entusiasmo, a causa do
colonizado, a necessidade de retomada da cultura nacional e o papel do inte-
lectual colonizado como instrumento de defesa e valorização dessa cultura, tida
como “inferior” e marginalizada. Assim sendo, a reflexão de Fanon é, sem
dúvida, perspicaz: a partir de seu envolvimento com a causa da libertação
argelina, ele consegue esboçar um mapa político de quase todo o continente,
que, na época, ainda estava sob o jugo colonial, e ainda prever qual seria o
futuro das ex-colônias e da Europa, que, por volta dos anos 60, começava seu
declínio econômico.

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É importante lembrar que Homi Bhabha (1998), em O local da cultura cultura,


retoma o pensamento de Fanon (1968) e alicerça grande parte de suas conside-
rações sobre a idéia de inferiorização do colonizado por parte do colonizador.
Ele concorda com Fanon que “negro” seria uma categoria criada e desenvolvida
pela sociedade européia e que tal classificação produz, na mente do colonizado,
intenso processo de desorientação. Assim, para Bhabha, o mérito de Fanon en-
contra-se no fato de ele avançar a reflexão sobre o senhor e o escravo, salientan-
do, de forma mais profunda, uma análise de seus próprios deslocamentos.
Envolvido também com a descolonização africana, temos Mário Pinto de
Andrade (1928-1990), que nasceu em Angola e posteriormente exerceu ativi-
dades políticas e intelectuais em Portugal e na França. “Homem de cultura”,
como ele próprio se reconhecia, Mário de Andrade sabia de sua responsabilida-
de enquanto intelectual, no sentido de “reabilitar e desenvolver as diversas
culturas negras a fim de favorecer a sua integração no conjunto da cultura
humana” (ANDRADE, 2000, p. 22). Assim como Sartre e Fanon, o pensador
angolano reivindicava a necessidade de valorização da cultura e da raça negra,
visando a uma igualdade de direitos entre africanos e europeus.
Crítico mordaz da colonização lusitana, Mário Pinto de Andrade reprovava
abertamente a política de assimilação cultural praticada pelos portugueses, ba-
seada em critérios de superioridade cultural. Considere-se seu raciocínio sobre
o processo de assimilação:

No caso português, a assimilação é sempre traduzida praticamente por uma


desestruturação dos quadros negro-africanos e a criação de uma elite quantita-
tivamente reduzida. Ela apresenta-se como a receita mágica que conduziria o
indígena das trevas da ignorância até à luz do saber. Uma forma de passagem
do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem hegeliana. (ANDRADE,
2000, p. 24)

A partir do trecho acima, é possível afirmar que Mário Pinto de Andrade


realmente não concordava com a exploração econômica das colônias portugue-
sas, mas o que mais o incomodava era a alienação cultural a que os povos
africanos eram submetidos. Tendo sua cultura, valores e tradições muitas vezes
interpretados equivocadamente e ainda menosprezados pela cultura dominan-
te, de que maneira o colonizado poderia se levantar contra o colonizador que
viera para “libertá-lo das trevas”?
Mário Pinto de Andrade (2000), insistindo em enfatizar a importância do
intelectual no seu papel de compromisso com a consciência nacional, pondera-
va que os intelectuais dos países sob dominação portuguesa tinham de encarar
essa e outras questões com audácia e naturalidade. Uma vez que a grande
maioria da população era analfabeta e/ou incapaz de manifestar-se junto aos ór-
gãos de poder, eram os intelectuais que deveriam representá-la junto a esses
órgãos, além de se esforçar em mobilizar o povo contra as forças que o oprimiam.

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Nesse sentido, é possível perceber que Mário Pinto de Andrade comungava da


mesma opinião de Antonio Gramsci (1995) acerca do papel dos intelectuais
orgânicos: eles deveriam interferir na direção e organização das massas, propor-
cionando a superação dialética do fragmento para uma visão de totalidade. Pen-
sando ainda numa perspectiva bastante gramsciana, o escritor angolano acreditava
que era preciso formar militantes que fossem originários da classe dos explora-
dos e cujos valores ideológicos pudessem prevalecer mesmo após a conquista da
independência. Assim, seriam esses mesmos intelectuais os responsáveis por
levantarem-se aqueles a favor de uma cultura marcadamente africana.
A respeito de seu envolvimento com a descolonização dos países africa-
nos de língua portuguesa, poderíamos dizer que Mário Pinto de Andrade foi um
militante extremamente ativo: diretamente ligado às lutas de libertação nacional
das então colônias, participou de várias ações promovidas pela Casa dos Estu-
dantes do Império (CEI), em Portugal, obtendo forte prestígio no meio estudan-
til e cultural daquele país. Junto com seu irmão Joaquim Pinto de Andrade, com
o angolano Agostinho Neto e com Francisco José Tenreiro, de São Tomé e
Príncipe, criou, em Lisboa, o Centro de Estudos Africanos. Fugindo da ditadura de
Salazar, tornou-se, em Paris, redator da prestigiada revista Présence Africaine e,
Africaine
em 1956, participou ativamente do I Congresso de Escritores e Artistas Negros.
Junto com os angolanos Viriato da Cruz e Lúcio Lara, empenhou-se na criação
do Movimento pela Libertação de Angola (MPLA), de que foi presidente desde
a sua fundação até 1962. Todavia, por questões de divergência com a direção
do movimento e descontente com o rumo dos acontecimentos, renunciou à
liderança do MPLA, preferindo dedicar-se à área de pesquisa e estudos socioló-
gicos, além de exercer uma intensa atividade de publicações. Vale lembrar
que, por causa de seu manifesto descontentamento com o MPLA, Mário de
Andrade teve de se exilar novamente de Angola, passando a colaborar intensa-
mente com a Guiné-Bissau, onde foi nomeado Ministro da Informação e Cultura
(cf. RAMALHO, 2000).
Dessa maneira, por sua intensa atividade política, intelectual e acadêmica,
Mário Pinto de Andrade deve ser considerado o mais importante e exemplar
ensaísta angolano do século XX. Além de artigos e ensaios espalhados em
publicações periódicas, organizou, junto com Francisco José Tenreiro, a famosa
antologia Poesia negra de expressão portuguesa
portuguesa, lançada em Lisboa em 1953;
mais tarde, publicou Antologia temática de poesia africana (1975, 1979), La
poesie africaine d’expression portugaise (1969) e La guerre en Angola
(1971), além de um ensaio biográfico sobre Amílcar Cabral, primeiro presiden-
te da Guiné-Bissau, assassinado em 1973 (cf. COSME, 2000).
As discussões até aqui apresentadas acerca das diversas correntes teóricas
que refletiram sobre a figura do intelectual, além dos evidentes exemplos de
intelectuais envolvidos com a descolonização africana, tiveram por objetivo
apontar um caminho mais claro em direção ao intelectual que é o escritor

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Intelectuais no contexto político e literário: o papel do angolano Luandino Vieira

Luandino Vieira e o que ele representou (e ainda representa) para a sociedade


angolana em sua luta de libertação pela independência.
Assim como vários escritores de sua época, Luandino Vieira tentou mostrar
em seus textos a complexa realidade em que viviam e ainda vivem os países
africanos (especificamente a nação angolana). Intensamente marcada por con-
secutivas rupturas, a África é o espaço do choque, do embate entre dois mun-
dos completamente distintos. Desvelar o conflito entre europeus e africanos
(ou colonizadores versus colonizados) parece-nos ser um dos principais objeti-
vos de Luandino, e, desse modo, o autor, para quem a Literatura se torna um
importante veículo de comunicação, irá aventurar-se a transportar as tensões
sociais entre os dois povos para o espaço da escrita.
Sob essa perspectiva, poderíamos dizer que, se o próprio “fazer literário”
já é algo deslocado, um “exercício solitário” – como bem nos lembra Maurice
Blanchot (1987, p. 11) – e em constante mutação, o escritor é, evidentemente,
um ser desarticulado em si mesmo: “O escritor nunca sabe que a obra está
realizada. O que ele terminou num livro, recomeçá-lo-á ou destruí-lo-á num
outro” (BLANCHOT, 1987, p. 11). E se, no entanto, esse mesmo escritor assu-
midamente fizer de sua escrita um instrumento de luta política, o seu “fazer
literário” não se tornará ainda mais atravessado por questões sociais, econômi-
cas, raciais e coloniais? Não obstante essas questões, devemos levar em conta
que, como esteve preso durante catorze anos, Luandino Vieira escreveu a
maior parte de seus livros na prisão, afastado do povo. Sua participação na luta
foi feita, então, “fora da luta”, tendo sido sua atuação muito restrita ao espaço
da escrita. Tendo em vista esses pontos cruciais que tornam peculiar a obra do
autor, devemos considerar que sua escrita ocupa um lugar bastante problemáti-
co no contexto da produção literária angolana da época da independência.
De qualquer forma, percebemos que o autor tem o comportamento típico
do intelectual proposto por vários dos teóricos aos quais fizemos referência
anteriormente. Muito provavelmente, Antonio Gramsci, Norberto Bobbio, Edward
Said, Jean-Paul Sartre, Frantz Fanon ou Mário Pinto de Andrade não hesitariam
em afirmar o importante intelectual que foi e é Luandino Vieira. Então, como
escritor e intelectual, ou “escritor-intelectual”, ele se torna duplamente desloca-
do, uma vez que seus textos literários não são “meras estórias”, mas trazem
consigo uma clara intenção de conscientizar a massa popular e o poder sobre o
absurdo da situação colonial.
A esse respeito Edward Said (2004, p. 32) diz que, embora intelectual e
escritor sempre tenham sido vistos como figuras completamente distintas uma
da outra, “[...] durante os últimos anos do século XX, o escritor assumiu cada
vez mais os atributos antagonistas do intelectual, em atividades como falar a
verdade para o poder, testemunhar a perseguição e o sofrimento, fornecer uma
voz dissidente em conflitos com as autoridades”.

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De certo modo, Luandino Vieira conseguiu concatenar em si mesmo ambas


as figuras, já que sua obra, que é obviamente ficcional, estabelece uma ponte
entre o real e o fantasioso. Mesmo atuando no espaço da Literatura, ele não
deixa de mostrar quais são os objetivos concretos do colonialismo. Na verdade,
seus textos são uma afronta à política colonialista portuguesa, pois revelam as
argúcias do raciocínio colonial, bem como a necessidade de valorização de uma
cultura legitimamente angolana.
Partindo então do pressuposto de que Luandino faz da escrita uma arma de
denúncia, concordamos com Edward Said (2004, p. 40) quando este diz que o
papel tanto do escritor quanto do intelectual é desafiar o silêncio imposto e
levantar-se contra os instrumentos de poder, a favor dos interesses coletivos.
Seguindo ainda a linha de pensamento proposta por Said (2004) em seu texto
“O papel público de escritores e intelectuais”, percebemos que há outras ca-
racterísticas do intelectual que se adaptam perfeitamente a Luandino Vieira.
Uma delas, e que muito nos chama a atenção, é o fato de os intelectuais se
preocuparem com as identidades tidas como “marginais”, usualmente lançadas
à margem da sociedade. Diz Said (2004, p. 41-42):

Contra o abuso dos mecanismos de defesa de identidade que se tornaram tão


endêmicos ao pensamento nacionalista desde sua origem na educação até sua
expressão no discurso público, o intelectual oferece um relato imparcial de
como a identidade, a tradição e a nação são coisas construídas, com muita
freqüência, na insidiosa forma de oposições binárias, inevitavelmente expres-
sas como atitudes hostis ao Outro. Certamente não se pode negar que algumas
identidades se encontram de fato ameaçadas de destruição e de ataques, mas
mesmo aí os reais perigos à identidade e autodeterminação são utilizados cini-
camente para justificar a injustificável repressão política.

Se tomarmos o excerto acima como parâmetro de definição do intelectual,


ficará ainda mais explícita a idéia do grande “escritor-intelectual” que é Luandi-
no Vieira. Demonstrando uma preocupação toda especial com as identidades
nacionais angolanas que estavam sendo massacradas pelos processos de assi-
milação,2 ele empreendeu várias atividades de valorização da cultura angolana,
que tem na oralidade um de seus principais pilares. A partir dessas proposi-
ções, que concernem à sobreposição de uma identidade considerada “superior”
a outra considerada “inferior” pelo sistema colonial, julgamos que talvez fosse
necessário meditarmos um pouco mais sobre essa questão.
Seguindo esse ponto de vista, Alfredo Bosi (2005) lembra-nos que o colo-
nizador, a fim de conseguir manter seu domínio, garantindo lucros no presente
e no futuro, buscava minar todos os focos de possíveis conflitos, entre os quais se

2
Processos que visavam a fazer com que os nativos pudessem ser considerados portugueses
“legítimos”, incluindo desde a fluência no idioma do colonizador até aspectos relacionados a
vestuário, comportamento etc.

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incluíam as culturas, os cultos religiosos e as línguas locais. Bosi (2005, p. 20),


citando Karl Marx3 (s/d.), ressalta:

Onde predomina, o capital comercial implanta por toda parte um sistema de


saque, e seu desenvolvimento, que é o mesmo nos povos comerciais da Anti-
guidade e nos tempos modernos, se acha diretamente relacionado com os
despojos pela violência, com a pirataria marítima, o roubo de escravos e a
submissão; assim sucedeu em Cartago e em Roma, e mais tarde entre os vene-
zianos, os portugueses, os holandeses etc.

Continuando o pensamento de Marx, vemos que os colonizadores, para


conseguir impor-se na terra que pretendiam dominar, faziam uso de todos os
artifícios possíveis que garantissem a sobreposição de valores e culturas portu-
guesas e, obviamente, colaborassem com uma contínua exploração das rique-
zas locais que promoveriam o progresso e o enriquecimento da metrópole.
Dessa maneira, para impor-se em Angola e em vários países africanos que
foram suas colônias até a década de 70 e para não perder aquela excelente
fonte lucrativa, Portugal utilizou-se de armas muito violentas. Dentre elas, é
relevante citar a repressão política, o processo de assimilação e a censura.
Embora fossem artifícios muitíssimo cruéis, os portugueses não fizeram nada
diferente daquilo que fizeram os ingleses na África do Sul e na Nigéria ou os
franceses no Senegal e na Argélia, já que os processos “civilizatórios” costumam
ser semelhantes em quase todos os tipos de colonização, como ressalta Bosi
(2005, p. 21): “Contraditória e necessariamente, a expansão moderna do capital
comercial, assanhada com a oportunidade de ganhar novos espaços, brutaliza e
faz retroceder a formas cruentas o cotidiano vivido pelos dominados”.
Foi então contra esse embrutecimento, contra o uso da repressão política e
do massacre das identidades angolanas que Luandino Vieira se levantou. Sua
obra é o retrato fiel da oposição de sua própria força (ainda que restrita ao
espaço estético da literatura) a uma força que é exterior ao sujeito. Assim, a
transgressão da linguagem canônica a partir da desarticulação proposital do
sistema léxico e sintático português, mesclada com a inserção de vocábulos de
línguas étnicas, é uma das características que nele mais se acentuaram a partir
da publicação de Luuanda
Luuanda, em 1963. Ademais, a valorização do passado e das
tradições, a evocação da infância e das memórias ancestrais, o sentimento de
enraizamento e a valorização da solidariedade denotam o apreço do autor pelas
referências que vinham sendo destruídas.
Conforme argumentamos há pouco, nota-se que Luandino Vieira manifes-
tava grande inquietação em relação às identidades angolanas que vinham sendo
esmagadas pelo domínio colonial. Contudo, a questão da identidade se torna
algo extremamente problemático quando pensamos em um autor como ele:

3
MARX, Karl. El capital
capital. México, Fondo de Cultura Econômica, vol. III, s/d, p. 320.

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branco, nascido em Portugal, que foi para Luanda ainda criança. Sendo filho de
colonos brancos e pobres, viveu a maior parte de sua infância nos musseques,4 o
que fez com que retratasse em suas obras a realidade social da periferia da cidade.
Se considerarmos que a sociedade angolana às vésperas da independência
era pluriétnica e dividida em classes de brancos privilegiados, de colonos
brancos pobres, de mestiços, de negros assimilados e de – a maioria – negros
não assimilados, logo perceberemos que Luandino se encontrava num lugar
bastante problemático. Cidadãos de segunda classe como ele foram discrimina-
dos por grupos nacionalistas negros que, a partir da década de 50, propunham
a expulsão de brancos e mestiços do país. Até mesmo a União das Populações
de Angola (UPA) acusava o Movimento pela Libertação de Angola (MPLA) de
ser representante dos interesses portugueses no país. De certa maneira, esse
enrijecimento da discriminação explica o surgimento, na segunda metade da
década de 1950, de grupos nacionalistas negros propondo a expulsão dos
brancos e de seus filhos, os mestiços.
Pensemos, então, como era ambíguo e duvidoso o espaço ocupado por
Luandino Vieira. Apesar de ser cidadão angolano e ter participado de forma
efetiva do governo no período pós-independência, muitas vezes não teve sua
atuação reconhecida. Carvalho Filho (2005), em seu texto As relações étnicas
em Angola
Angola: as minorias branca e mestiça (1961-1992), preconiza que, com o
surgimento de grupos nacionalistas negros na segunda metade da década de
50, houve grande endurecimento das relações raciais. Dessa maneira, para os
nativos angolanos, os brancos eram símbolo do poder colonial; o governo, por
sua vez, caracterizava os brancos nascidos ou naturalizados angolanos como
“brancos de segunda”, mais ligados à África do que à Europa. Seria possível,
então, que alguma esfera da sociedade pudesse reconhecer Luandino como
contrapoder? Como ser intelectual nesse contexto extremamente problemático?
Apesar de todos esses impedimentos, vemos em seus textos, especial-
mente nos contos que compõem Luuanda (VIEIRA, 1982), que Luandino não
desistiu de provar que é um angolano como qualquer outro, defendendo a idéia
de uma nação multirracial democrática e solidária. Carvalho Filho (2005) relata
que o escritor, junto com António Cardoso e António Jacinto, ousava inclusive
freqüentar clubes de futebol de negros e mulatos. Além disso, a condenação ao
racismo e às suas sutilezas, assim como à prática política de grande parte dos
nacionalistas, permanece como uma constante em suas obras literárias.
Conforme constatamos, Luandino Vieira foi um intelectual completamente
engajado politicamente. Assim como Sartre ou Fanon, ele não limitou suas
atitudes ao mundo das idéias nem permitiu que seus textos ficassem restritos ao
espaço ficcional, antes transformando-os na expressão viva da literatura como

4
Nome que designa os bairros pobres da periferia de Luanda.

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Intelectuais no contexto político e literário: o papel do angolano Luandino Vieira

arma política. Ainda que correndo o risco de algumas abstrações, julgamos que
não seria precipitado afirmar que ele é, talvez, o escritor angolano que mais
tenha usado a literatura como instrumento de luta política. Seus textos incomo-
davam de tal maneira a ditadura salazarista, que ele foi preso em 1961 por
atividades anticoloniais, tendo sido libertado somente em 1972.
Nesse sentido, apesar de todas as suas fragmentações e deslocamentos e
de todo o tempo em que cumpriu pena no Campo de Concentração do Tarrafal,
em Cabo Verde, “por suas atividades anticolonialistas”, Luandino Vieira não
deixou de denunciar e criticar a política colonialista e também não abriu mão
de valorizar o que é tipicamente angolano. Assim, ele atribui grande mérito à
cultura local, sendo ela mesma o mote que orienta toda a sua produção literária.
A exemplo disso, uma característica que se destaca bastante em sua obra é o
uso que ele faz da linguagem, a partir da inserção, no português, da língua
quimbundo, sendo impossível achar que tal opção não faz parte de uma esco-
lha política e ideológica.
Essa valorização da oralidade imprime-se na transgressão do idioma do
colonizador, na sua amalgamação com as línguas locais. Mas, se a idéia era dar
valor às línguas locais, por que, então, não defender a adoção de uma língua
nacional legitimamente angolana? Essa parece-nos ser uma questão que, apesar
de problemática, se figura bastante óbvia: dada a existência de cerca de 70
línguas do grupo bantu em todo o território angolano, seria impraticável eleger
uma única língua oficial. Ademais, após quase cinco séculos de colonização, o
português havia se cristalizado como o idioma dos documentos oficiais e das
situações mais formais de comunicação, estando já introjetado na própria iden-
tidade angolana, que era, por si só, completamente misturada.
Sob essas condições, o que se apresentou como uma aparente contradição
das literaturas africanas contemporâneas após a independência, isto é, a manu-
tenção das línguas coloniais, já era parte constitutiva de várias esferas sociais
do cotidiano de muitos cidadãos angolanos; ao escritor não restava portanto
outra alternativa a não ser escrever na língua oficial portuguesa. Todavia, es-
crever em português não significava aceitar passivamente suas normas gramati-
cais, sua sintaxe, ou demonstrar respeito por esse idioma; pelo contrário, Luandino
Vieira tentou a todo custo alterá-lo, “africanizá-lo”, “sujá-lo”, o que fez com que
o poder português encarasse tal transgressão como uma “atividade subversiva”.
Independentemente de violar ou não uma norma canônica, o que Luandi-
no buscou foi valorizar as formações discursivas de uma outra realidade, a das
gentes dos musseques, que fizeram parte de sua infância. De todo modo, o que
é importante sublinhar no que se refere à obra do autor é o seu trabalho com a
linguagem e a construção de um discurso mais autenticamente angolano. Para
ele, o ato de escrever é uma pesquisa constante de redescoberta da palavra, um
exercício inventivo de recriação da oralidade. O intercâmbio escrita/oralidade

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torna-se, assim, ponto de partida para pensarmos os mais diversos processos


interculturais que perpassam a sociedade angolana e que fomentam as obras de
Luandino Vieira.

Abstract

This article discusses several types of intellectuals presented by various


theoretical chains, in order to describe the course of Angolan writer
Luandino Vieira as an intellectual within the political and literary scope
of his country. Thus, it examines some scholars’ postures, trying to fo-
cus on the procedures of intellectuals involved in the African decoloni-
zation and Luandino Vieira’s interference in the political field of Angola
through his literary production.

Key words
words: Intellectuals; Luandino Vieira; Decolonization; Literary pro-
duction.

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