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A ORAÇÃO DE CRISTO.

A NOSSA ORAÇÃO
– O Senhor, do Céu, continua a interceder por nós. A sua oração é sempre eficaz.

– Frutos da oração.

– As orações vocais.

I. LÊ-SE NO SANTO EVANGELHO1 que Cristo retirou- se a um monte para


orar e passou toda a noite em oração. No dia seguinte, escolheu os Doze
Apóstolos. É a oração de Cristo pela Igreja nascente.

Em muitas passagens evangélicas, Cristo mostra-se unido ao seu Pai


Celestial numa oração íntima e confiante. Convinha que Jesus, perfeito Deus e
perfeito Homem, também orasse para nos dar exemplo de oração humilde,
confiante, perseverante, já que Ele nos mandou orar sempre, sem desfalecer2,
sem nos deixarmos vencer pelo cansaço, da mesma forma que respiramos
incessantemente.

Jesus dirigiu súplicas ao Pai e a sua oração sempre foi escutada3. Os seus
discípulos conheciam bem este poder da oração do Senhor. Depois da morte
de Lázaro, a sua irmã, Marta, disse a Jesus: Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido; mas eu sei que tudo quanto pedires a Deus, Ele
te concederá4. No momento em que ia ressuscitar Lázaro, Jesus, elevando os
olhos ao céu, disse: Pai, dou- te graças porque me tens escutado. Eu sei que
me escutas sempre5. Pedirá por Pedro antes da Paixão: Simão, Simão, eis que
Satanás vos procurou para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para
que a tua fé não desfaleça, e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos6.
E Pedro converteu-se depois da sua queda. Jesus rogou igualmente ao Pai
pelos Apóstolos: Não peço que os tires do mundo, mas que os preserves do
mal... Santifica- os na verdade...7 Jesus sabe do abatimento em que os seus
discípulos mergulharão poucas horas mais tarde, mas a sua oração os
sustentará; obter-lhes-á forças para serem fiéis até darem a vida por Ele.

Nessa oração sacerdotal da Última Ceia, o Senhor pediu ao Pai por todos os
que haviam de crer n’Ele ao longo dos séculos. Pediu por nós, e a sua graça
não nos falta. “Cristo vivo continua a amar-nos ainda hoje, agora, e
apresenta-nos o seu coração como a fonte da nossa redenção: Semper vivens
ad interpellandum pro nobis – Ele vive sempre para interceder por nós (Heb 7,
25). Esse coração que tanto amou os homens e que é tão pouco correspondido
por eles, envolve-nos a nós e envolve o mundo inteiro a cada momento”8.

Do Céu, Jesus Cristo, “sentado à direita do Pai” 9, intercede por todos os que
somos membros da sua Igreja, e “permanece sempre como nosso advogado e
nosso mediador”10. Santo Ambrósio recorda-nos que Jesus defende sempre a
nossa causa diante do Pai e que a sua oração não pode deixar de ser
atendida11; pede ao Pai que os méritos que adquiriu durante a sua vida terrena
nos sejam aplicados continuamente.

Que alegria dá pensar que Cristo vive sempre para interceder por nós!12, que
podemos unir as nossas orações e o nosso trabalho à sua oração. Por vezes,
faltam à nossa oração a humildade, a confiança, a perseverança que lhe
seriam necessárias; apoiemo-la na oração de Cristo; peçamos-lhe que nos
inspire o modo conveniente de orar, de acordo com as intenções divinas; que
apresente as nossas preces ao seu Pai, para que sejamos um com Ele por
toda a eternidade13. Mais ainda, façamos de toda a nossa vida uma oferenda
intimamente unida à de Jesus, por intermédio de Santa Maria: “Pai Santo! Pelo
Coração Imaculado de Maria, eu Vos ofereço Jesus, vosso Filho muito amado,
e me ofereço a mim mesmo n’Ele, com Ele e por Ele, por todas as suas
intenções e em nome de todas as criaturas”14. Assim, a nossa oração e todos
os nossos actos, intimamente unidos aos de Jesus, adquirem um valor infinito.

II. O MESTRE ENSINOU-NOS com o seu exemplo a entrar por caminhos de


oração. Repetiu-nos muitas vezes que devemos orar e não desfalecer. Quando
nos recolhemos para orar, aproximamo-nos sedentos da fonte de águas
vivas15. Ali encontramos a paz e as forças de que necessitamos para
perseverar com alegria e optimismo no esforço por fazer da nossa vida uma
imitação de Jesus Cristo.

Quanto bem fazemos à Igreja e ao mundo com a nossa oração! Já se disse


que os que fazem verdadeira oração são como “as colunas do mundo”, sem as
quais tudo desabaria. São João da Cruz ensinava com palavras muito bonitas
que “é mais precioso diante de Deus e da alma, e traz mais proveito à Igreja,
um pouquinho desse amor puro, ainda que pareça que não faz nada, do que
todas essas outras obras juntas”16, que pouco ou nada valeriam à margem de
Cristo. E é assim porque a oração nos torna fortes perante as dificuldades, nos
ajuda a santificar o trabalho, a ser exemplares nos nossos afazeres, a tratar
com cordialidade e apreço os que convivem ou trabalham connosco. Na oração
descobrimos a urgência de levar Cristo aos ambientes em que estamos,
urgência tanto mais premente quanto mais longe de Deus se encontram os que
nos rodeiam.

Santa Teresa faz-se eco das palavras de um “grande letrado”, para quem
“as almas que não têm oração são como um corpo paralítico ou tolhido, que,
embora tenha pés e mãos, não os pode mexer”17. A oração é necessária para
amarmos mais e mais o Senhor, para nunca nos separarmos d’Ele; sem ela, a
alma cai na tibieza, perde a alegria e as energias necessárias para fazer o
bem.

O diálogo íntimo de Jesus com Deus Pai foi contínuo: para pedir, para
louvar, para agradecer; em todas as circunstâncias, Jesus dirige-se ao Pai. Nós
devemos aspirar ao mesmo: a procurar sempre o colóquio com Deus,
especialmente nos momentos que dedicamos exclusivamente a falar com Ele,
como na Missa e agora, nestes minutos de oração. Mas devemos procurá-lo
também ao longo do dia, nas situações que entretecem o nosso dia: ao
começarmos e terminarmos o nosso trabalho ou estudo, enquanto esperamos
o elevador, ao encontrarmos na rua uma pessoa conhecida. Aquela invocação
cheia de ternura do Senhor – Abba, Pai! – estava constantemente nos seus
lábios, com ela começava muitas vezes as suas acções de graças, os seus
pedidos ou o seu louvor. Quanto bem fará à nossa alma chamar Deus
assim: Pai!, com ternura e confiança, com amor!

Todos os momentos solenes da vida do Senhor foram precedidos pela


oração. “O Evangelista sublinha que foi precisamente durante a oração de
Jesus que se manifestou o mistério do amor do Pai e se revelou a comunhão
das Três Pessoas Divinas. É na oração que aprendemos o mistério de Cristo e
a sabedoria da Cruz. É na oração que nos apercebemos, em todas as suas
dimensões, das necessidades reais dos nossos irmãos e das nossas irmãs de
todo o mundo [...]; é na oração que ganhamos forças para a missão que Cristo
compartilha connosco”18.

O Santo Cura d’Ars costumava dizer que todos os males que muitas vezes
nos preocupam na terra vêm precisamente de não orarmos ou de o fazermos
mal19. Formulemos o propósito de dirigir-nos com amor e confiança a Deus
através da oração mental, das orações vocais e dessas breves fórmulas que
são as jaculatórias, e teremos a alegria de viver junto do nosso Pai-Deus, que é
o único lugar onde vale a pena viver.

III. O ESPÍRITO SANTO ensina-nos a procurar o trato íntimo com Jesus não
só na oração mental como também na oração vocal, e até por meio dessas
orações que aprendemos, quando pequenos, das nossas mães. Mesmo sendo
omnisciente enquanto Deus, Jesus, enquanto homem, deve ter aprendido dos
lábios de sua Mãe a fórmula de muitas orações transmitidas de geração em
geração no seio do povo hebreu, e deu-nos exemplo de apreço pela oração
vocal. Na sua última oração ao Pai, utilizou as palavras de um Salmo. E
ensinou-nos a oração por excelência, o Pai- Nosso, em que se contém tudo o
que devemos pedir.

A oração vocal é uma manifestação da piedade do coração e ajuda-nos a


manter viva a presença de Deus durante o dia, e mesmo nesses momentos da
oração mental em que estamos secos e não conseguimos pensar em nada:
“[...] Quando não souberes ir mais longe, quando sentires que te apagas, se
não puderes lançar ao fogo troncos olorosos, lança os ramos e a folhagem de
pequenas orações vocais, de jaculatórias, que continuem alimentando a
fogueira. – E terás aproveitado o tempo”20.

O texto das orações vocais – muitas de origem bíblica, outras litúrgicas ou


compostas pelos santos – tem servido a inúmeros cristãos para louvar, para
agradecer, para pedir ajuda e desagravar o Senhor. Quando recorremos a elas,
vivemos de modo íntimo a Comunhão dos Santos e apoiamos a nossa fé na fé
da Igreja21.

Para as rezarmos melhor e evitarmos a rotina, pode ajudar-nos este


conselho: “Procura recitá-las com o mesmo amor com que o apaixonado fala
pela primeira vez..., e como se fosse a última ocasião em que pudesses
dirigir-te ao Senhor”22.

(1) Lc 6, 12-19; (2) cfr. Lc 16, 1; (3) cfr. São Tomás, Suma Teológica, III, q. 21, a. 4; (4) Jo 11,
21; (5) Jo 11, 42; (6) Lc 22, 32; (7) cfr. Jo 17, 15 e segs.; (8) João Paulo II, Homilia na Basílica
do Sagrado Coração de Montmartre, Paris, 1-VI-1980; (9) Missal Romano, Símbolo
niceno- constantinopolitano; (10) São Gregório Magno, Comentário ao Salmo 5; (11) cfr. Santo
Ambrósio, Comentário à Epístola aos Romanos, 8, 34; (12) Hebr 7, 25; (13) cfr. R.
Garrigou-Lagrange, O Salvador, pág. 351; (14) P. M. Sulamitis, Oferenda ao Amor
misericordioso; (15) cfr. Sl 41, 2; (16) São João da Cruz, Cântico espiritual, Canção 29, 2 b;
(17) Santa Teresa de Jesus, Castelo interior, Morada primeira, I, 6; (18) João Paulo II, Homilia,
13-I-1981; (19) São João Maria Vianney, Cura d’Ars, Sermão sobre a oração; (20) São
Josemaría Escrivá, Caminho, n. 92; (21) cfr. G. Chevrot, En lo secreto, Rialp, Madrid, 1960,
págs. 100-101; (22) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 432.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)