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3 UNIDADE 1 - Introdução
4 UNIDADE 2 - Direitos fundamentais
4 2.1 Os Direitos Fundamentais

4 2.2 Garantias fundamentais dos presos

9 2.3 Princípios aplicáveis

10 2.4 Responsabilidade do Estado em relação aos Detentos

11 2.5 As Consequências Jurídicas pela Afronta ao Princípio da Dignidade do Detento

SUMÁRIO
16 UNIDADE 3 - Deveres dos presidiários
20 UNIDADE 4 - Restrição de direitos
22 UNIDADE 5 - Reabilitação moral
24 UNIDADE 6 - Prestações previdenciárias

27 UNIDADE 7 - Assistência pessoal


29 UNIDADE 8 - Cuidados sanitários

31 UNIDADE 9 - Reintegração / Reinserção / Ressocialização


34 9.1 Trabalho e renda

36 9.2 “Boas práticas”

37 9.3 Ética e moral

39 9.4 Valores e afetividade

41 9.5 Objetivos da ressocialização

44 REFERÊNCIAS
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UNIDADE 1 - Introdução

Grosso modo, os direitos do homem são referências básicas, encontram-se ou-


os direitos naturais, intrínsecos ao ho- tras que foram ora utilizadas, ora somen-
mem e reconhecidos em documentos in- te consultadas, mas que, de todo modo,
ternacionais, já os direitos fundamentais podem servir para sanar lacunas que por
têm a marca da positivação, isto é, é um ventura venham a surgir ao longo dos es-
direito reconhecido pelo sistema. tudos.

Os direitos humanos além de funda-


mentais são inatos, absolutos, inviolá-
veis, intransferíveis, irrenunciáveis e im-
prescritíveis, porque participam de um
contexto histórico, perfeitamente delimi-
tado.

Sobre eles e outros direitos como reabi-


litação moral, prestações previdenciárias,
assistência pessoal, cuidados sanitários,
bem como deveres e restrições de direito
aos presos que trataremos neste módulo.

Reintegração, reinserção e ressocia-


lização utilizando trabalho, renda, ética,
moral, valores, afetividade e boas práti-
cas fecham a unidade.

Ressaltamos em primeiro lugar que em-


bora a escrita acadêmica tenha como pre-
missa ser científica, baseada em normas
e padrões da academia, fugiremos um
pouco às regras para nos aproximarmos
de vocês e para que os temas abordados
cheguem de maneira clara e objetiva, mas
não menos científicos. Em segundo lugar,
deixamos claro que este módulo é uma
compilação das ideias de vários autores,
incluindo aqueles que consideramos clás-
sicos, não se tratando, portanto, de uma
redação original e tendo em vista o cará-
ter didático da obra, não serão expressas
opiniões pessoais.

Ao final do módulo, além da lista de


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UNIDADE 2 - Direitos fundamentais

2.1 Os Direitos Fundamen- prevalecerá a ideia enraizada na mente


dos povos de que eles não fazem jus aos
tais supérfluos.
Um dos mais relevantes direitos do
preso é o da preservação de sua dignida- 2.2 Garantias fundamen-
de, cidadania e civilidade, uma vez que a tais dos presos
prisão cerceia o exercício de muitos dos
poderes da individualidade, em particular Os direitos fundamentais do preso jus-
o da liberdade física. tificam as seguintes considerações:

Com limitações inerentes à sua con- a) Vida – afirmar o direito dos presos
dição penal, outras idealizações do ser à vida, uma garantia óbvia devida a todo
humano permanecem à sua disposição; ser humano, avulta na medida em que ele
muitas dessas garantias serão examina- permanece ameaçado, no comum dos ca-
das em particular nos capítulos seguintes. sos, pelos próprios colegas de infortúnio
Excetuadas aquelas garantias próprias do (a despeito do dever da autoridade de
privado das liberdades físicas, os presidi- zelar pela sua segurança pessoal). Pouco
ários gozam de todas as demais faculda- significando agora o que eles tenham fei-
des humanas. Em seu art. 3º, a LEP diz: “Ao to para serem apenados, melhor dizendo,
condenado e ao internado serão assegu- exatamente por isso. Destacando-o como
rados todos os direitos não atingidos pela um dos principais, Barros (2006) assinala
sentença ou pela lei”. que essa defesa fundamental está inscul-
pida lapidarmente na Carta Magna.
Vimos em outro momento do curso que,
em vez de condenado, o certo é ler “preso” b) Segurança – no seu art. 38, o Código
ou “apenado”. Após consagrar “o respeito Penal diz que “o preso conserva todos os
à integridade física e moral dos condena- direitos não atingidos pela perda de liber-
dos e dos presos provisórios” (art. 40), a dade, impondo-se a todas as autoridades
LEP enuncia 16 “direitos do preso” (LEP, o respeito à sua integridade física e mo-
art. 41, l a XVI). Entre esses benefícios do ral”. Quando a situação requerer, o preso
cidadão não está o de fugir. Aliás, a ten- será beneficiado pelas normas de prote-
tativa e a consumação da evasão, ao con- ção à testemunha.
trário, constituem infrações disciplinares c) Dignidade – o respeito à dignidade
graves. da pessoa humana é uma exigência po-
No entendimento de Martinez (2010), tencializada quando de sua prisão. Daí,
como a sociedade evolui e materialmente todo o tempo, precisamos nos lembrar da
logra alcançar alguns benefícios conquis- teoria jurídica do dano moral.
tados pela tecnologia, amanhã se discu- d) Igualdade – significa pouco o que
tirá quais são os limites dessas intenções aconteceu antes da condenação; todos
dos presidiários. Com certeza, no início
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os presos iguais têm de receber o mes- os brasileiros.


mo tratamento. Brasileiros e estrangei-
i) Sexualidade – a Constituição Fede-
ros usufruem os mesmos direitos. Serem
ral veda a discriminação a qualquer pes-
brancos, mulatos ou negros, nada disso é
soa por conta de sua orientação sexual.
relevante. Evidentemente, essa regra é
Significa que os homossexuais receberão
excepcionada quando houver exigência
visita íntima de parceiro do mesmo sexo
da individualização da pena que o distin-
nas mesmas condições que os heterosse-
ga de outros colegas (LEP, art. 41, XII). A
xuais (MARTINEZ, 2008).
igualdade é uma conquista do ser humano.
As distinções que beneficiam as mulhe- j) Religião – a escolha da religião, sei-
res, os idosos, os doentes e os deficientes ta ou convicção de qualquer ordem, ou
não quebram esse princípio da igualdade, mesmo a adoção de um novo pensamen-
válido para cada um desses segmentos. to filosófico depois de ter sido preso, são
asseguradas dentro da liberdade de ter a
e) Individualidade – a personalidade
crença que deseja. Não é obrigado a par-
do preso há de ser respeitada. Ainda que
ticipar de cultos e optar pelo absenteísmo
use uniforme, ele deve ser identificado
religioso, pois isso faz parte do seu direito.
pelo seu nome (LEP, art. 41, XI). Não pode
ser considerado um número como nas his- k) Mulheres – as mulheres cumprem as
tórias que ridicularizam as pessoas. penas separadas dos homens. Mantê-las
numa cela masculina, ainda que por pouco
f) Segregação – nas mesmas condições
tempo e sob a alegação de não existir es-
da necessidade de proteção, quem tem
paço, delegacia ou presídio adequado, não
sua vida ameaçada ou é jurado de morte
é justificativa, devendo ser severamente
cumprirá a pena em cela ou pavilhão sepa-
responsabilizada a autoridade que adotar
rado, com maior segurança. A autoridade
essa prática.
que não promove essa garantia mínima
comete ilicitude seriíssima e pode ser res- l) Cultura – o acesso à cultura deve ser
ponsabilizada. diversificado, operado mediante estudo,
empréstimo de livros, leitura de jornais e
g) Remoção – sempre que perfeita-
revistas, oitiva de rádio e TV, e também
mente justificada e nos termos da lei
a utilização da internet. Todo presídio é
exigir-se-á a transferência do preso para
obrigado a possuir uma biblioteca, permi-
outro local em que cumprirá a pena, pre-
tindo que o presidiário consulte as obras
ferivelmente no Estado de origem ou nas
ou as leve para a cela (RIEP – Regime In-
proximidades da residência familiar.
terno dos Estabelecimentos Penitenciá-
h) Consciência – o preso tem o poder rios, art. 127).
de pensar e de se manifestar sobre o que
m) Educação – não apenas se profis-
quiser. Escolherá o partido de sua prefe-
sionalizar; o presidiário precisa educar-se
rência, o clube de futebol de sua paixão,
em todos os sentidos dessa pretensão ou
será ateu, gnóstico ou religioso. Enfim,
de melhorar o seu nível de convivência so-
desfruta de toda a liberdade de pensa-
cial.
mento garantida pela Carta Magna para
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n) Ressocialização – sem embargo de Logo, o preso não condenado tem o direi-


ser difícil nos tempos atuais ou ser quase to de votar. Isso já foi regulamentado
impossível em face das desídias peniten- em alguns Estados brasileiros.
ciárias, a ressocialização é um mecanismo
a) Sindicalização – embora trabalhe,
importante para a recuperação do apena-
ainda não se pode pensar em sindicaliza-
do. Ela implica em: 1) opção política, filosó-
ção, mas manterá a filiação ao órgão de
fica ou religiosa; 2) desenvolvimento pro-
classe ao qual pertencia, se o Estatuto So-
fissional; 3) trabalho interno ou externo;
cial não contiver norma impeditiva.
4) aquisição de conhecimento humanís-
tico; 5) compreensão do papel inibidor da b) Filiação – a filiação partidária não é
pena, etc. impossível.

o) Reabilitação – a reabilitação, um Os direitos civis são inúmeros.


processo de recuperação do apenado,
a) Casamento – a LEP permite a ceri-
em relação a uma infração penal deve ser
mônia do casamento civil de presidiários
considerada todo o tempo. Não só no que
entre si ou com pessoas em liberdade.
diz respeito à atitude contrária ao regime
disciplinar, como no que se refere à pró- b) União estável – caso o presidiário
pria punição. mantenha uma união estável (CF, art. 226,
§ 3º), heterossexual ou homossexual, ela
p) Profissionalização – a mais ade-
poderá ser continuada na prisão, inclusive
quada forma de recuperação do indivíduo
com o direito de solicitar à direção do pre-
legado às celas, de ocupá-lo e de reabili-
sídio que declare a ocorrência de visitas
tá-lo socialmente, preparando-o para o
familiares e íntimas para os fins de Direito
reingresso na sociedade, é torná-lo apto
(Ação Civil Pública nº 2000.00.71.09347-
para o exercício de profissão, se ele não
0).
tinha um ofício, e aperfeiçoar a ocupação
que exercia. c) Adoção – tendo em vista as severas
obrigações respeitantes à educação diu-
Os direitos políticos são bastante cer-
turna de menores, os apenados não têm
ceados, limitados a algumas hipóteses.
condição para adotar nem serem adota-
O direito democrático de se candidatar dos (Lei nº 8.069/90).
não é estendido ao presidiário. Como não
d) Reparação – provada a inocência
pode exercer todas as atividades profis-
parcial ou total, o Estado fica à mercê de
sionais ou tomar posse como servidor, é
uma ação reparatória por erro judiciário.
descabido pensar em concurso público,
Enfatizando a liberdade como um bem su-
mas não o será em relação a quem está
premo, Meirelles (2004) ressalta o direito
próximo de cumprir a pena.
do preso ilegalmente de processar o Esta-
Diz o art. 15 da CF/88, que é: “Vedada a do. O preso receberá a indenização de um
cassação de direitos políticos, cuja perda processo iniciado antes da execução da
ou suspensão só se dará nos casos de: (. pena por intermédio dos procuradores.
..) III - condenação criminal transitada em
e) Representação – requerer e repre-
julgado, enquanto durarem seus efeitos”.
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sentar são faculdades plenamente as- correspondência é garantido pelo art.


seguradas. 5º, XII, da CF, disciplinado no art. 3º, c,
da Lei nº 4.958/62 e contemplado no
f) Propriedades – exceto no que
art. 151 do Código Penal. Como mui-
diz respeito ao sequestro do valor
tos autores, Miguel Lucena associa-se
correspondente a eventual reparação
àqueles que entendem que os presos
por crime cometido, o patrimônio do
não têm esse direito porque as car-
condenado permanece íntegro e ao
tas podem se constituir em meios que
seu dispor, administrado conforme as
atentam contra os demais presos e a
circunstâncias de cada caso. Por in-
segurança dos presídios e põem em
termédio de procurador, comprar ou
risco as pessoas. Observadas as regras
vender os seus bens; terá autorização
de segurança do regime prisional, é di-
para exercer qualquer ato civil que
reito do preso comunicar-se e receber
preserve a família e o seu patrimônio
as missivas (RIEP, arts. 124/126).
(RIEP, art. 23, IV).
e) Visitas – são autorizadas visitas
A pena de um detento ou recluso
familiares, inclusive as íntimas (LEP,
aliviar-se-á na medida em que ele pos-
art. 41, X).
sa comunicar-se com o que o rodeia.
Em relação à assistência individual,
a) Mundo exterior – nada impede o
quem está preso carece de atenção de
contato com o mundo fora das grades,
variada ordem. Saber que não foi es-
por meio de mídia, leituras, recepção
quecido pelos familiares, pelos amigos
de correspondência, etc. O uso de ce-
e pelas autoridades é de grande im-
lular tem sido vedado.
portância para resistir ao duro regime
b) Audiências – para se informar, prisional.
tomar conhecimento de fatos, espe-
a) Judiciária – aspecto de suma im-
cialmente no regime disciplinar, re-
portância consiste na assistência judi-
presentar verbalmente, denunciar
ciária, do Estado ou particular. Possuir
alguma irregularidade penitenciária,
livros de Direito, entrevistar-se com
o preso estará a sós com o Diretor do
seu defensor e saber das mudanças da
Presídio (LEP, art. 41, XIII).
legislação é o mínimo desejável.
c) Defensor – o mínimo da assistên-
b) Sanitária – em vários momen-
cia judiciária é permitir periodicamen-
tos a norma jurídica destaca o dever
te uma visita do defensor do preso
do Estado de ministrar cuidados sani-
ou com ele manter correspondência.
tários aos que estão sob sua custódia.
A Lei nº 4.214/63, em seu art. 89, II,
Conforme o art. 23, XIII, do RIEP, é ga-
já assegurava esse potencial e ele foi
rantido: “tratamento médico-hospi-
mantido no Estatuto da Ordem dos
talar e odontológico gratuito, com os
Advogados do Brasil - OAB (LEP, art.
recursos humanos e materiais da pró-
41, IX).
pria unidade ou do Sistema Unificado
d) Correspondência – o sigilo da de Saúde Pública”. Carente de atendi-
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mento médico especializado, o preso do- O presidente do Conselho Nacional de


ente contratará facultativo particular de Justiça (CNJ) celebrou um protocolo de in-
sua confiança. tenções que vai possibilitar a concessão
de benefícios da Previdência Social aos
O art. 43 da LEP diz que “é garantida a
detentos e seus familiares.
liberdade de contratar médico de confian-
ça pessoal do internado ou do submetido De variados modos o cumprimento da
a tratamento ambulatorial, por seus fami- pena pode ser afetado, podendo ser dimi-
liares ou dependentes, a fim de orientar e nuída ou aumentada.
acompanhar o tratamento”.
a) Revisão – todo o tempo, respeitadas
c) Social – o Serviço Social lhe é asse- as normas processuais, subsiste o direito
gurado, sendo estendido à sua família, do sentenciado de ter sua pena revista.
que deve ser informada de todos os direi-
b) Perdão – o perdão judicial, o indulto
tos, em especial do auxílio-reclusão previ-
e a anistia são regulados na LEP.
denciário.
c) Regalias – é vedada prática de jo-
Sobre o trabalho do educando, repetin-
gos de azar no estabelecimento penal. O
do o que já foi dito em outros momentos,
presidiário autorizado a jogar na loteria ou
o esforço físico pessoal é muito eficaz na
participar de um concurso assumirá a pro-
recuperação social do apenado.
priedade do prêmio.
a) Trabalho – o labor remunerado in-
d) Regressividade – em cada caso, da
terno ou externo é um direito subjetivo
mesma forma como disciplinada a pro-
do apenado.
gressividade, a lei garante mudanças no
b) Divisão – o estabelecimento penal regime prisional com a regressividade da
é obrigado a dividir proporcionalmente o pena (LEP, art. 112).
tempo dedicado às atividades, aos des-
e) Remição – atendido a LEP com o seu
cansos diurno e noturno e à recreação.
trabalho ou o estudo, o apenado tem a
c) Higiene – todas as disposições com- pena diminuída (art. 126).
patíveis das Normas Regulamentadoras
f) Prescrição – a prescrição põe fim à
do Trabalho - NR (Lei nº 6.514/77) são
punibilidade e liberta alguém preso inde-
invocadas em favor dos presidiários que
vidamente.
trabalhem interna ou externamente.
g) Livramento – segundo o CPP, o li-
Em relação à previdência social, se an-
vramento condicional se dá nas hipóteses
tes da prisão era um segurado, poderá
legais.
contribuir como facultativo e, trabalhan-
do, como contribuinte individual, confor- h) Cela especial – existem casos em
me dita a Instrução Normativa do lNSS nº que se imporá o cumprimento da pena em
20/07. Desejando, o preso celebrará um celas especiais, vedado o uso de solitárias
contrato de seguro privado, inclusive con- ou celas escuras.
tra acidentes do trabalho.
i) Saídas – a legislação regula as dife-
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rentes hipóteses em que são possíveis as aquele que foi penalizado possa tentar
saídas autorizadas. reabilitar-se moralmente perante a socie-
dade.
j) Pecúlio – quem tem renda constitui-
rá um pecúlio. Por fim, sobre as condições carcerá-
rias, é importante saber:
k) Fiança – nas condições previstas na
lei, a pessoa pagará a fiança estabelecida a) Alimentação – no mínimo, os presos
pela autoridade policial e responderá ao farão jus a três refeições diárias (LEP, art.
processo em liberdade. 41, I). Quando elas provierem de tercei-
ros deverão ser previamente examinadas
l) Recursos – todos os remédios jurídi- (RIEP, art. 23, II, a).
cos previstos na CF e no CPP ficam à dis-
posição de quem está com a sua liberdade b) Vestuário – as roupas devem se ade-
restringida. quadas às condições do presídio e à esta-
ção do ano (RIEP, art. 23, II, b).
m) Inocência – ainda que tenha sido
condenado em sentença transitada em c) Repouso – o descanso noturno é as-
julgado, um dos mais relevantes direitos segurado na medida do possível. Quem
do presidiário é o de tentar provar a sua trabalha faz jus a descanso diário.
inocência.
d) Habitabilidade – será ofertada em
n) Sensacionalismo – o Diretor do Pre- condições normais “conforme padrões es-
sídio tomará todas as providências para tabelecidos pela Organização Mundial de
evitar que o presidiário seja objeto de Saúde” (RIEP, art. 23, II, c).
sensacionalismo, especialmente da mídia
e) Recreação – o entretenimento diu-
televisionada. Se não quiser, este último
turno é saudável para o cumprimento da
não é obrigado a dar entrevistas a nin-
pena.
guém.
f) Atividades esportivas – praticar es-
o) Dano moral – provado que o Estado
portes, preferivelmente coletivos, é sem-
é responsável pela diminuição do patri-
pre recomendado.
mônio material ou moral do indivíduo, nas
inúmeras hipóteses em que isso é possí- g) Guarda de bens – a unidade prisio-
vel de acontecer num presídio, impõe-se nal incumbe-se da preservação dos bens
o processo de dano moral (MARTINEZ, do presidiário, liberando-os quando de
2007). sua soltura.

Quanto à soltura e reabilitação, à evi-


dência, no dia seguinte, ao término da
2.3 Princípios aplicáveis
pena, o presidiário deve ser libertado. Não Para os operadores do Direito, os ter-
será preso nem um só dia a mais, respon- mos usados em vários momentos deste
dendo o culpado por sua retenção. curso são conhecidos e corriqueiros, mas
com certeza, para você educador, em se
A norma, impondo condições, regula as
tratando de educação no sistema prisio-
hipóteses, circunstâncias e casos em que
nal, mesmo não sendo de seu domínio,
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eles tem seu lugar, uma vez que os pre- vivência pacífica, ou seja, definir regras de
sos, na maioria das vezes, conhecem seus comportamento e formas de inibição da
direitos e deveres e em muitas situações transgressão que sejam seguidas dentro
conversará com você utilizando-se des- da legalidade.
ses conhecimentos.
Seguir o princípio da dignidade huma-
Em cada ramo do direito encontramos na também é imprescindível, pois mesmo
princípios próprios, mas todos os ramos tendo cometido um delito, o presidiário é
seguem primeiro aos princípios comuns um ser humano. Este é um dos chamados
a todos os ramos que são os princípios princípios estruturantes do Estado Demo-
gerais (CINTRA; GRINOVER; DINAMARCO, crático de Direito.
2006).
Princípio da integridade física, embora
Princípios são normas que fornecem haja disputa de poder e busca por privilé-
coerência e ordem a um conjunto de ele- gios dentro das prisões, que podem levar
mentos sistematizando-o, são funda- a violência entre presos, esta não deve
mentos que servem para regular as rela- prevalecer e o preso tem direito de viver e
ções entre as pessoas. São proposições conviver preservando-se sua integridade
que se colocam na base da Ciência Jurídica corporal e moral.
Processual e auxiliam na compreensão do
O presidiário tem o direito de recorrer
conteúdo e extensão do comando inseri-
da condenação da pena e eventual puni-
do nas normas jurídicas e em caso de la-
ção que sofre por força do regime repres-
cuna da norma, servem como fator de in-
sivo do presídio, respeitando-se o princí-
tegração.
pio da inconformidade jurídica.
A palavra princípio, em sua raiz latina
A preservação da personalidade é ou-
última, significa “aquilo que se toma pri-
tro princípio que deve ser respeitado, por
meiro” (primum capere), designando iní-
exemplo, deve o presidiário ser chamado
cio, começo, ponto de partida. Princípios
pelo nome, de preferência de senhor. Afi-
de uma ciência, segundo Cretella Júnior
nal, como já dito, ele não é um número,
(1989, p. 129), “são as proposições bási-
mas um indivíduo do grupo.
cas, fundamentais e típicas que condicio-
nam todas as estruturas subsequentes”. Outros princípios seriam: individualiza-
Pois bem, em se tratando do regime dos ção da disciplina; tratamento igualitário;
presídios, os princípios que o regem prati- recuperação o apenado e participação do
camente são os mesmos do Direito Penal juízo, ou seja, conhecer as normas, os re-
e Processual Penal, adaptados quando gulamentos penitenciários para compre-
convier. ender sua situação (MARTINEZ, 2010).
Falaremos brevemente sobre eles:
2.4 Responsabilidade do
Princípio da absoluta legalidade – uma
vez que a população carcerária é enorme e
Estado em relação aos De-
subjetivos são os seus desejos e anseios, tentos
é premissa básica para se buscar uma con-
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O preso não tem somente deveres a sua violação gera responsabilidade civil,
cumprir, mas é sujeito de direitos, que de- por atos de seus agentes, seja pela ação
vem ser reconhecidos e amparados pelo ou omissão.
Estado. Quando o sentenciado estiver re-
Se é dever do Estado re(educar), (re)so-
cluso, seja por qualquer motivo, não está
cializar e (re)inserir o condenado (preso)
sem direitos, exceto aqueles limitados em
ao convívio social, evitando que reincida
face da sua condenação (KLOCH; MOTTA,
na criminalidade, então é de sua respon-
2008). Por isso, a sua condição jurídica
sabilidade indenizá-lo quando não efeti-
não é suprimida, mas sim, é igual a das
vou sua obrigação.
pessoas não condenadas.
A partir do momento em que o preso
Quando o apenado estiver sob a cus-
reivindicar indenizações, por ineficiência
tódia do Estado, passa a ser deste a res-
da execução penal, o Poder Público certa-
ponsabilidade de manter a integridade e
mente admitirá que a forma em que está
a dignidade do detido, bem como, salva-
sendo executada a pena, na maioria dos
guardar seus direitos e deveres.
casos, é inoperante, falida, antiética e
O desrespeito à integridade física e onerosa.
psíquica deprecia a personalidade do
Se o Estado enclausura um delinquen-
apenado sem motivo justificável e apli-
te analfabeto por quase dez anos, deveria
ca inconscientemente a pena de tortura,
transformá-la num profissional culto, mas
tornando-se instrumento para solicitar
quando consegue mantê-lo aprisionado,
indenização por danos morais, devidos
apenas o deixa apreender as artimanhas
pelo Estado. Para Carrara (2002, p. 419),
da criminalidade organizada.
“é a tortura a mais bárbara, a mais execrá-
vel e a mais ilógica das sugestões reais”. O
Estado é responsável pela prática da tor-
tura, quando realizada por seus agentes 2.5 As Consequências Jurí-
ou por intermédio de terceiros, quando o
ofendido estiver sob sua custódia.
dicas pela Afronta ao Princí-
A constante insegurança nas celas; o
pio da Dignidade do Deten-
fato de ser atacado por outro detento; as to
lesões; a morte; a perda dos sentidos; são
Segundo estudos de Kloch e Mattos
atos considerados desumanos, não pre-
(2008), o descaso com a tutela do direi-
vistos em nenhuma lei brasileira vigente
to à personalidade do detento, especial-
como forma de castigo. Por isso, é verda-
mente com relação à integridade física e
deiramente uma afronta aos princípios
psicológica, reflete em vários segmentos
fundamentais da dignidade humana, não
sociais, pois são tidos como atos negati-
resguardando os direitos da personalida-
vos no tocante à recuperação e até para
de, positivados na legislação brasileira.
a punição do apenado. As consequências
Manter a integridade física e psíquica geradas pelo desrespeito à dignidade do
do detento é dever indelével do Estado; apenado podem refletir:
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em reincidência, gerando aumento da segregados, seja por valores atribuídos à


criminalidade, como instrumento de repú- moral, estético ou material.
dio ao ato praticado pelo Poder Público;
A afronta ao direito à integridade ex-
em desrespeito ético-legal, perante a pressada na lei em vigor gera uma sensa-
sociedade; ção de vingança, agravada por ser prati-
cada em nome do Estado. Tal fato poderá
em prejuízos financeiros ao Estado,
levar à instigação da exclusão e à brutali-
em face da indenizabilidade dos danos
dade, pois traz consequências sociais im-
causados aos condenados que cumprem
previsíveis.
pena sob cárcere;
O descumprimento das normas que
na instigação social da exclusão e a
guarnecem o Direito à Personalidade,
brutalidade, pois é praticado em nome do
gera condutas atentatórias contra a dig-
Estado;
nidade da pessoa humana, afrontando
em afronta aos direitos do Estado aos princípios gerais do Estado Democrá-
Democrático de Direito; tico de Direito e os alicerces daquilo que
se busca como justo.
como sinônimo de falência do Estado
Disciplinador, gerando uma revolta social Estão resguardados os direitos ineren-
em razão da insegurança pública. tes à personalidade a todos os seres hu-
manos, inclusive aos delinquentes apena-
O condenado que cumpre sua pena sob
dos, pois somente lhes é tolhido o direito
tortura ou qualquer ato que atenta contra
à liberdade.
sua dignidade, não absorverá sua punição
como educativa. Terá sim, enriquecido seu A principal consequência pela afronta
desejo de vingança contra uma sociedade ao princípio da dignidade do detento é a
falsa e sem princípios éticos. Certamen- demonstração real da falência do Estado
te, este sujeito maltratado será mais um Disciplinador, que por si só gera uma re-
reincidente à criminalidade. Os atos prati- volta social e a perda do controle do sis-
cados serão levados a cabo, com a teleolo- tema.
gia de revidar àqueles praticados pelo Po-
As consequências são evidentes, den-
der Público, seja por omissão ou por ação.
tro e fora do Sistema Prisional, como as
Quanto ao desrespeito à integridade rebeliões em massa, as fugas, o aumento
do detento, além de ser ilegal, é abusivo do terror pelos crimes organizados e os
e antiético. A sociedade, em geral, verá ataques às instituições públicas que de-
como um Estado impotente, que tenta in- veriam garantir a segurança.
timidar pela brutalidade e não pela norma
Tanto a doutrina como a jurisprudência
ou pelo exemplo disciplinador.
são pacíficas com relação aos danos cau-
Consequentemente, tais atos resultam sados por atos decorrentes de afrontas
em inúmeros prejuízos ao Estado, inclu- ao princípio da dignidade do detento, seja
sive financeiro, pois tem o dever de inde- praticada pelos agentes penitenciários,
nizar os danos causados aos condenados pelos policiais, por erro judiciário ou até
13

mesmo pelos outros detentos, pois o ape- execução da pena, quando o condenado
nado quando segregado está sob a res- não é liberto, após regular cumprimento
ponsabilidade do Estado. da pena estabelecida na sentença.

Os danos podem ser físicos, psíquicos O art. 37, § 6º, da CF/88, estabelece
ou intelectuais, causados muitas vezes essa responsabilidade, quando expressa
pela falta de ética, por um serviço não que as pessoas jurídicas de Direito Pú-
efetivo, pela brutalidade e descontrole do blico responderão pelos danos que seus
poder disciplinador do Estado-Penal. agentes causarem a terceiros.

O compromisso ético e valorativo é de- Por intermédio de seus agentes, o Es-


finido com propriedade por Zeni (2006, p. tado é responsável quando desencadeia
15), ao ensinar que: um infortúnio por erro, e lança uma pes-
soa e/ou seus familiares em descrédito,
que fere a honra, que transforma e abala
A propósito do direito, considera-se
um convívio social e familiar, que produz
um arsenal de normas jurídicas logica-
traumas e sequelas invariáveis.
mente concatenadas e hierarquizadas,
representando a vontade do contra- Havendo inércia do Estado e se esta
to social, que, por ficção, decorre da for a causa direta do não impedimento do
vontade da maioria, merecendo uma evento, causadora da afronta à integri-
interpretação restritiva diante dos mi- dade física, psíquica e intelectual do se-
tos de certeza e segurança jurídica que gregado, será de sua responsabilidade a
procuram encampar via positivação. reparabilidade do dano causado (KLOCH;
Quando não, captam-se fatos e o tor- MATTOS, 2008).
nam, por si só, direito, sem um compro-
misso ético e valorativo descompro- O fato de o preso ter sido agredido
metido com fins, senão com fórmulas por outro detento não caracteriza ato de
racionais engendradas à padronização terceiro, uma vez que a obrigação do Es-
dos comportamentos sociais. tado decorre do dever de vigilância e de
cuidado em relação a quem está sob sua
custódia. O Estado responde civilmente,
Para Stoco (1997, p. 413), “é o que po-
independentemente da culpa do agente
der-se-ia denominar de ‘erro judiciário’,
público.
que não se confunde com o erro judicial
em processos criminais e previsto no art. O Estado responderá não pelo fato
5º, LXXV, da CF/88, e no art. 630 do Códi- que diretamente gerou o dano, mas sim
go de Processo Penal”. por não ter ele providenciado ações sufi-
cientes para evitar o dano ou mitigar seu
O erro judiciário é aquele advindo de
resultado, quando o fato for notório ou
ato jurisdicional que ocorre por equivo-
perfeitamente previsível.
cada apreciação dos fatos ou do Direito
aplicável, levando o juiz a proferir sen- O Poder Público tem o dever legal de
tença passível de revisão. Enquanto o zelar pela segurança, pela vida e pela
excesso de prisão ocorre no período da integridade física e moral do preso, en-
14

quanto se encontra acautelado ao seu seja restabelecido o status quo ante, ou


poder. O apenado perde tão somente a seja, o modo em que se encontrava an-
liberdade, devendo ser resguardada sua tes, compensando-se economicamente
vida e sua dignidade, bens inerentes ao quem sofreu o dano.
direito da personalidade.
A indenização deve conter o valor que
Os direitos ligados à personalidade são possibilite a reintegração social, dando-
de maneira perpétua e permanente, es- -se ao injustamente condenado, ou que
pecialmente o direito à vida e à integri- sofreu por erro, uma reparação patrimo-
dade. São direitos não patrimoniais e, por nial proporcional à privação de sua liber-
conseguinte, inalienáveis, intransmis- dade e às lesões morais e econômicas
síveis, imprescritíveis e irrenunciáveis. sentidas, atingido em sua honra, reputa-
Nesses termos, todos da sociedade de- ção, liberdade, crédito, estima, dignida-
vem respeito a esses direitos oponíveis. de, enfim os direitos da personalidade.
A sua violação está a exigir uma sanção
A agressão física, psicológica e inte-
e/ou uma indenização pelo dano causado
lectual, praticada por agentes públicos,
ao custodiado.
é ofensa ao direito da personalidade, ou
O dano moral resulta da dor intensa, seja, atinge a honra, a imagem e a digni-
da frustração causada e da humilhação dade do ser humano, portanto deve ser
a que foi submetida a vítima. É certo que indiscutivelmente reparável, quando a
sua fixação deve levar em consideração a prova é concreta e o nexo de causalidade
natureza de real reparação do abatimen- é verificado.
to psicológico causado (KLOCH; MATTOS,
Quando a integridade física de uma
2008).
pessoa for maculada, por ter sido sub-
Em 1988, a Constituição Federal pas- metido à tortura, seja nas delegacias de
sou a admitir com relevância o dano mo- polícia, nas unidades prisionais, pelas
ral, especificamente nos incisos V e X do condições aviltantes da cela em que foi
art. 5º, que relacionou, entre os direitos detido, mesmo que sejam psicológicas,
e garantias fundamentais, consideradas será o poder público responsabilizado.
como cláusulas pétreas (art. 60, § 4º, Em consequência de tais fatos, torna-
CF/88): “o direito de resposta, proporcio- -se depressivo o ato praticado em nome
nal ao agravo, além da indenização por do Estado ou não, devendo arcar com as
dano material, moral ou à imagem”, e de- consequências nos termos do artigo 5º,
clarou serem invioláveis “a intimidade, a incisos XLIX e LXI, da CF/88.
vida privada, a honra e a imagem das pes-
De qualquer sorte, abstraída uma
soas, assegurado o direito à indenização
maior discussão a respeito, o certo é que
pelo dano material ou moral decorrente
a obrigação de indenizar é inescusável,
de sua violação”.
quando o Estado, representado por seus
Constatada a hipótese de deficiência agentes, ofende a integridade física e
do serviço estatal, que tem compromis- emocional de um cidadão que se encon-
so com uma justiça de qualidade, cumpre trava sob sua tutela direta, causando-lhe
15

sequelas psíquicas irreversíveis. Assim, a


Constituição Federal e o Código Civil em
diante da posição firmada pelos Tri-
vigor asseguram a integridade física e
bunais Brasileiros, observamos incon-
moral, reservando o direito à liberdade
gruências quanto ao conteúdo da va-
quando suprimida por sentença conde-
loração dos danos morais. As decisões
natória.
proclamam que nas indenizações dos
A doutrina vem estabelecendo certos danos morais deverá ser observado
parâmetros a serem observados quando o binômio pena-compensação, o que
do arbitramento do valor pelo dano mo- constitui uma situação contraditória
ral. Carlos Alberto Bittar (1993, p.220) em relação ao verdadeiro sentido do
afirma que: processo indenizatório.

A indenização por danos morais Portanto, a condenação sob a ótica da


deve traduzir-se em montante que responsabilidade civil não deve ser confun-
represente advertência ao lesante e dida com o efeito punitivo e repreensivo,
à sociedade de que se não se aceita o pois este pertence à esfera dos danos pe-
comportamento assumido, ou o even- nais. “A indenização dos danos morais, não
to lesivo advindo. Consubstancia-se, possuindo função punitiva, senão essen-
portanto, em importância compatível cialmente indenizatória, deverá proporcio-
com o vulto dos interesses em confli- nar ao lesado uma ideia de restituição ao
to, refletindo-se, de modo expresso, status quo ante [...]”. (REIS, 2003, p. 230).
no patrimônio do lesante, a fim de
Na fixação do quantum indenizatório, há
que sinta, efetivamente, a resposta
de se considerar que o abalo moral diz res-
da ordem jurídica aos efeitos do resul-
peito aos fatos provocados pela inércia ou
tado lesivo produzido. Deve, pois, ser ineficiência do Estado para com o autor. Se
quantia economicamente significati- este, esteve preso ilegalmente, o nexo cau-
va, em razão das potencialidades do sal confirma-se por si só, devendo ser leva-
patrimônio do lesante. dos em consideração o tempo e a forma em
que permaneceu segregado.
É tormentosa a quantificação da repa- Em se tratando de violação aos direitos
ração de dano por erro do Judiciário, em inerentes à dignidade do apenado, as cir-
razão da subjetividade que lhe é caracte- cunstâncias devem ser sopesadas quando
rística, mas é sabido que a ele deve ser a do arbitramento do valor a título indeniza-
responsabilidade de reparar. tório, a evidenciar a manutenção do Estado
Quanto à valoração da indenização por anterior em que se encontrava o lesionado.
dano moral, em decorrência de um dever Cabe ao Estado a responsabilidade de-
violado, seja pela ação ou omissão do Es- corrente da atividade administrativa de
tado, Reis (2003, p. 26) afirma com pro- guarda dos presos, não somente porque a
priedade que lei determina, mas por questão ética e mo-
ral (KLOCH; MOTTA, 2008).
16

UNIDADE 3 - Deveres dos presidiários

As relações das pessoas recolhidas possível, das despesas realizadas com a


à prisão entre elas, com as visitas e em sua manutenção, mediante desconto pro-
face das autoridades penitenciárias, são porcional da remuneração do trabalho;
atípicas. O regime de condutas imposto
IX - higiene pessoal e asseio da cela ou
a quem está apenado, insatisfeito com a
alojamento;
prisão, não vendo a hora de ser livre, im-
põe regras de comportamento cujo lema é X - conservação dos objetos de uso
a disciplina (MARTINEZ, 2010). pessoal.
Os deveres do apenado quando do cum- Parágrafo único. Aplica-se ao preso
primento de sua pena estão inseridos nos provisório, no que couber, o disposto nes-
arts. 38 e 39 da LEP que dizem: te artigo.
Art. 38. Cumpre ao condenado, além Analisando os deveres do apenado a
das obrigações legais inerentes ao seu es- começar pelo comportamento disciplina-
tado, submeter-se às normas de execução do e o fiel cumprimento de sua sentença,
da pena. temos que a disciplina é obrigação do ape-
nado, assim como sua resignação diante
Art. 39. Constituem deveres do conde-
de sua pena, após o seu trânsito em jul-
nado:
gado, assim, a participação do apenado
I - comportamento disciplinado e cum- em rebeliões ou qualquer forma de des-
primento fiel da sentença; respeito às normas do estabelecimento
prisional, o que não quer dizer que o ape-
II - obediência ao servidor e respeito a
nado não possa protestar contra abusos
qualquer pessoa com quem deva relacio-
ou restrições aos seus direitos, mas esses
nar-se;
devem ser feitos pelos meios legais.
III - urbanidade e respeito no trato com
A segunda e terceira obrigações previs-
os demais condenados;
tas pela LEP dizem respeito ao trato com
IV - conduta oposta aos movimentos os servidores e demais apenados, que
individuais ou coletivos de fuga ou de sub- deve pautar-se pelos princípios de respei-
versão à ordem ou à disciplina; to e cordialidade, que deve ser mútua, de-
vendo o servidor por sua vez, também tra-
V - execução do trabalho, das tarefas e
tar o apenado com cordialidade e respeito.
das ordens recebidas;
A quarta obrigação ao apenado tra-
VI - submissão à sanção disciplinar im-
ta do dever de, além de não participar de
posta;
qualquer movimento subversivo ou com o
VII - indenização à vitima ou aos seus intuito de evadir-se do estabelecimento
sucessores; prisional, deve opor-se a estes e inclusive
comunicar à administração e aos servido-
VIII - indenização ao Estado, quando
17

res do estabelecimento prisional sobre preso manter a ordem e a higiene de sua


eventuais tentativas dos outros presos. cela e conservar os seus objetos de uso
pessoal, essa limpeza e ordem de sua cela
Esse tema é bastante controverso, pois
e objetos fica prejudicada diante da su-
dentro do nosso estabelecimento prisio-
perlotação de nossos estabelecimentos
nal é sabido que existe um código de ética
prisionais onde os presos em sua maioria
entre os presos, e dentro deste a punição
são mantidos em ambientes superlotados
para o preso delator é a morte, e assim,
e sem as mínimas condições de humani-
sempre deve ser preservada a fonte das
dade, fica difícil a cobrança dessas obriga-
informações obtidas pela administração
ções (MARTINEZ, 2010).
entre os presos.
Diante dessas obrigações, quando não
A obrigação de cumprir os trabalhos,
observadas as mesmas pelos apenados
tarefas e ordem recebidas deve receber
estes poderão sofrer sanções disciplina-
a ressalva de que as ordens que não pos-
res com o intuito de manter a disciplina do
suam previsão legal ou atentem contra os
estabelecimento prisional, de acordo com
direitos do preso ou qualquer outro direi-
o disposto no art. 44 da LEP. (IANOWICH
to não devem ser cumpridas, bem como as
FILHO, SILVA, PORTO JUNIOR, 2006).
ordens com o intuito de colocar o detento
em situação de risco ou vexatória e humi- O RIEP fixa as garantias dos presidiários
lhante, devendo, nesse caso, comunicar o (art. 23) e também as suas obrigações,
juiz da execução sobre a desobediência e que chama de deveres (art. 27). São enu-
o seu motivo. merativos, específicos e minuciosos.

Constitui-se ainda em dever do apena- Autoridade Penitenciária – um dos


do a indenização da vítima e de sua famí- polos da relação, a direção do presídio
lia, e ao Estado pelas despesas decorren- exerce certa liderança na condução da
tes de sua manutenção. Esses deveres na disciplina e carece de se impor administra-
grande maioria dos casos não são cumpri- tivamente. Nesse sentido, os deveres dos
dos, uma vez que na nossa realidade car- presos são:
cerária, a grande maioria dos apenados
a) respeitar as autoridades, servidores
não possuía condições de manter o seu
e companheiros presos.
sustento com dignidade fora dos presí-
dios, o que dirá dentro destes, constituin- b) acatar as determinações emanadas
do-se na maioria dos casos esse dever em de qualquer servidor no desempenho de
letra morta diante da impossibilidade de suas funções.
sua execução, o que não quer dizer que
perdeu sua validade, devendo sempre ser c) observar as normas contidas no Re-
aplicada quando o apenado possuir con- gimento Interno, referentes às visitas.
dições financeiras de reparar a vítima ou d) submeter-se às normas disciplinado-
seus familiares como custear as suas des- ras da concessão de saídas externas pre-
pesas. vistas em lei.
E por fim, como já dissemos, deve o e) cumprir à requisição das autoridades
18

judiciais, policiais e administrativas. dependência física ou psíquica.

f) atender à requisição dos profissio- j) não apostar em jogos de azar de qual-


nais de qualquer área técnica para exa- quer natureza.
mes ou entrevistas.
k) zelar pelos bens patrimoniais e mate-
g) dar atendimento às condições das riais que lhe forem destinados, reparando
medidas cautelares. o Estado ou terceiros por danos materiais
que causar, de forma culposa ou dolosa.
Índole Pessoal – alguns dos ônus
próprios dos presidiários são bastante l) informar-se sobre as normas a serem
pessoais: observadas na unidade prisional, respei-
tando-as.
a) zelar pela higiene pessoal e ambien-
tal. m) manter comportamento adequado
em todo o decurso da execução da pena,
b) não fazer de sua cela uma cozinha.
progressiva ou não.
c) aceitar a revista pessoal, de sua cela
n) acatar a sanção disciplinar imposta.
e dos seus pertences.
SEGURANÇA PRÓPRIA E DE TERCEI-
d) submeter-se às normas que discipli-
ROS – diante do tipo de relacionamento
nam áreas de saúde, assistência jurídica,
interno nos presídios, a segurança física é
psicologia, serviço social, diretoria, servi-
muito importante:
ços administrativos em geral, atividades
escolares, desportivas, religiosas, de tra- a) abster-se de fazer ou possuir instru-
balho e de lazer e assistência religiosa. mentos capazes de ofender a integridade
física de terceiros.
e) não utilizar objetos, para fins de de-
coração ou proteção de vigias, portas, ja- b) evitar procedimentos que possam
nelas e paredes, que prejudiquem a vigi- contribuir para ameaçar ou obstruir a se-
lância. gurança das pessoas e da unidade prisio-
nal.
f) devolver ao setor competente os ob-
jetos fornecidos pela unidade e destina- c) adotar quaisquer práticas que pos-
dos ao uso próprio. sam causar transtornos aos demais pre-
sos, bem como prejudicar o controle de
g) não desviar, para uso próprio ou de
segurança e disciplina.
terceiros, materiais dos diversos setores
da unidade prisional. d) não transitar ou permanecer em lo-
cais não autorizados.
h) não negociar objetos de sua proprie-
dade, de terceiros ou do patrimônio do Es- e) não dificultar ou impedir a vigilância.
tado.
f) acatar a ordem de contagem da po-
i) não preparar ou ceder bebida alcoó- pulação carcerária, respondendo ao sinal
lica ou substância que possa provocar re- convencionado para o controle de segu-
ações adversas às normas de conduta ou rança e disciplina.
19

g) não participar de movimento indivi- çado a trabalhar, mas o apenado deve co-
dual ou coletivo de tentativa e consuma- laborar com a política de labor do regime
ção de fuga. prisional, esforçando-se por participar
das atividades laborais internas e exter-
h) não liderar, participar ou favorecer nas.
movimentos de greve e subversão da or-
dem e da disciplina. Cultos Religiosos – não só respeitar
as opções religiosas dos demais detentos
como submeter-se às condições para a
CIRCULAÇÃO E MOVIMENTAÇÃO – a prática religiosa coletiva ou individual.
entrada e a saída do estabelecimento pe-
Participação Geral – alguns aspec-
nal é tema que diz respeito à segurança
tos da convivência pacífica devem ser res-
de todos. Daí:
saltados. Observar as condições para a
a) submeter-se às normas de transfe- posse e uso de aparelho de radiodifusão
rência e remoção de ordem judicial, técni- e aparelho de TV e atender às condições
co-administrativa e às solicitadas. das sessões cinematográficas, teatrais,
artísticas e socioculturais (MARTINEZ,
b) cumprir rigorosamente o horário de 2010).
retorno quando de saídas temporárias.

c) observar a segurança imposta pela


Polícia Militar e outras autoridades incum-
bidas de efetuar a escolta externa.

Desenvolvimento Da Cultura – to-


dos os aspectos que envolvam a cultura
devem ser estimulados, por isso o apena-
do tem de respeitar as regras da bibliote-
ca no que diz respeito ao empréstimo de
livros. Assistir às palestras educativas é
muito importante para o aperfeiçoamen-
to cultural dos presidiários.

Atividades Escolares – submeter-se


ao regular funcionamento das atividades
escolares do estabelecimento prisional
condiz com a intenção de se recuperar, de
aprender e de se profissionalizar.

Práticas Desportivas – podendo, é


relevante para a comunidade dos aprisio-
nados que cumpram as condições para as
práticas desportivas e de lazer.

Empenho Laboral – ninguém é for-


20

UNIDADE 4 - Restrição de direitos

A substituição da pena privativa da Em seu art. 43 o Código Penal fixa


liberdade por outro tipo de sanção jurí- cinco restrições:
dica constitui um avanço em termos de
execução penal. Efetivamente, diante do
a) Valor pecuniário.
elevado número de infrações sociais, com b) Perda de bens e valores.
menor ou maior poder ofensivo, a serem
inibidas, entendeu o legislador de tentar c) Prestação de serviços.
coibir essas condutas antissociais com d) Interdição temporária de direitos.
punições alternativas do regime carcerá-
rio (MARTINEZ, 2010). Neste momento, a e) Limitações no fim de semana.
lei está se referindo a algum tipo de de-
linquente, aquele que justifica um trata- a) Valor Pecuniário – trata-se de um
mento diferenciado. montante em dinheiro (ou outra forma
acordada) a ser entregue à vítima, aos
Somente no sentido lato aqui adota-
seus dependentes ou a alguma entidade
do podemos chamar esses indivíduos de
pública ou privada, não inferior a um sa-
presos. São sentenciados, mas não são
lário mínimo nem superior a 360 salários
recolhidos à prisão, cumprem o seu débito
mínimos (CP, art. 45, § 1º). Em 2010, era de
penal em liberdade e mediante políticas
R$ 510,00 a R$ 183.600,00.
públicas de respeitável interesse para a
comunidade. b) Perda de Bens e Valores – certa
quantia fixada pela autoridade compe-
Somente numa hipótese o autor da ili-
tente a ser entregue ao Fundo Peniten-
citude será preso, na verdade detido, e
ciário Nacional, correspondendo ao “pre-
por curto espaço de tempo (“limitação de
juízo causado ou ao provento obtido pelo
fim de semana”, CP, art. 43, VI).
agente ou por terceiro, em consequência
Considera-se pena restritiva de direi- da prática do crime” (CP, art. 45, § 3º).
tos a decorrente de uma condenação judi-
c) Prestação de Serviços – quando a
cial que obsta o usufruto de algumas das
pena a que foi condenado é superior a seis
garantias elementares de cidadão (que
meses, ele pode cumpri-la na modalidade
ele prefere abster-se em favor de uma pu-
substitutiva de privação de certos direi-
nição mais severa).
tos (LEP, art. 149). O trabalho será gratui-
Uma das exigências para esse relevan- to, com oito horas semanais, preferivel-
te benefício é não ser reincidente (CP, art. mente aos sábados, domingos e feriados.
44, II).
d) Interdição Temporária de Direitos
Quando o apenado não cumpre o que – quase todas as restrições estão envolvi-
lhe fora recomendado, a restrição de di- das com o trabalho e suscitam o princípio
reitos pode ser tornar pena restritiva de constitucional correspondente. O Código
liberdade (CP, art. 44, § 4º). Penal prevê quatro tipos de interdições:
21

i) Proibição do exercício de cargo públi- mente ser condenado também à pena res-
co – o apenado não poderá exercer qual- tritiva de liberdade.
quer cargo público. Pela importância da
restrição, a hipótese reclama justificativa.

ii) Proibição do exercício privado que


dependa de “habilitação especial, de li-
cença ou autorização do poder público”
(CP, art. 47) – eis aqui outra severa restri-
ção, aplicável quando fundadas as razões
para isso.

iii) Suspensão de autorização ou de ha-


bilitação para dirigir veículo – da mesma
forma como a vedação ao exercício de ati-
vidade laboral pode atingir um motorista
profissional.

iv) Proibição de frequentar certos luga-


res – esta é uma pena de grande interesse
social especialmente no que diz respeito
aos crimes cometidos contra as mulheres.

e) Limitações no Fim de Semana – é


uma obrigação de permanecer na Casa do
Albergado ou em outro local indicado pela
autoridade por cinco horas aos sábados e
domingos (LEP, art. 151). As pessoas con-
denadas a comparecem à Casa do Alber-
gado terão de participar de cursos, pales-
tras ou atividades educativas.

f) Modificação da Pena – a qualquer


momento, a autoridade competente po-
derá alterar a pena de prestação de ser-
viços à comunidade ou de limitação de fim
de semana, ajustando-as às condições
pessoais do sentenciado e às caracterís-
ticas do estabelecimento. Um médico po-
derá trabalhar num hospital, um advogado
na assistência jurídica e assim por diante.

g) Independência das Punições – as


penas restritivas de direito são autôno-
mas, ou seja, um réu poderá compativel-
22

UNIDADE 5 - Reabilitação moral

Qualquer que seja ela, atendidas algu- Reabilitação (arts. 93/95), para tratar do
mas condições, quem cumpriu a pena tem tema. No Código de Processo Penal, os
permissão para requerer a reabilitação de arts. 743/750 também dispõem sobre o
sua personalidade, seu nome e sua repu- assunto.
tação.
b) Alcance da Providência – não há
À evidência, não se trata mais de um distinção quanto às punições que possam
preso, mas de alguém que já se desobri- ser objeto da reabilitação (CP, art. 93). Ela
gou perante a sociedade. A hipótese de se estende às penas de restrição de direi-
um apenado, durante o recolhimento à to. Vale também para as ilicitudes comina-
prisão, tentar reabilitar-se em relação a das da Lei das Contravenções Penais.
um crime anterior será rejeitada se ele for
c) Iniciativa Processual – o interes-
novamente condenado.
sado é quem tem a iniciativa de promover
O que fundamenta a reabilitação é o sua reabilitação. Trata-se de uma relação
bom comportamento da pessoa humana intuitu personae, ou seja, em relação à
na vida em sociedade. pessoa, mas que, a rigor, também poderá
ser intentada pelos seus sucessores. So-
O Decreto nº 6.049/07, em seu art. 81,
brevindo os efeitos próprios em relação
trata da reabilitação carcerária, fixando
a um falecido. Da decisão concessória há
prazos para a reabilitação:
recurso de ofício (CPP, art. 746).
a) 3 meses para faltas leves.
d) Reedição da Concessão – exceto na
b) 6 meses para faltas médias. hipótese de o indeferimento ter decorrido
da falta ou insuficiência de documentos,
c) 12 meses para faltas graves. E, negada a reabilitação, um novo pedido
d) 24 meses para faltas graves com vio- somente será instruído após dois anos e
lência (art. 81, I / IV). com a apresentação de novos elementos
convincentes.
a) Idealização Mínima – por intermé-
dio da reabilitação, o indivíduo tentará e) Condições Administrativas – as
apagar de sua vida todos os consectá- exigências materiais e formais para que
rios, desdobramentos e efeitos possíveis tenha o direito à reabilitação são as se-
dos processos anteriores, da prisão e do guintes:
cumprimento da pena. Para o art. 748 do
a) Residência no País há pelo menos
CPP: “A condenação ou condenações an-
dois anos.
teriores não serão mencionadas na folha
de antecedentes do reabilitado, nem em b) Tenha tido efetiva e constantemen-
certidão extraída dos livros do juízo, sal- te um bom comportamento público e pri-
vo quando requisitadas por juiz criminal”. vado.
O Código Penal reserva o Capítulo VII – Da
c) Prove que ressarciu a vítima ou que
23

não tem condições de fazê-lo.

f) DocumentosNecessários – o art. h) Diligências Judiciais – o juiz po-


744 do CPP elenca os documentos exigi- derá determinar a apuração dos atos que
dos: envolvem a concessão da reabilitação
(CPP, art. 745). Tendo em mãos todos os
a) Certidão comprobatória de proces-
elementos processuais necessários, o juiz
sos penais em andamento.
decidirá sobre a concessão ou não da rea-
b) Atestado de autoridades policiais bilitação.
persuasórias de bom comportamento.
i) Revogação da Medida – quando se
c) Atestado de bom comportamento impuser, a revogação será decretada pelo
firmado por pessoas para quem tenha tra- juiz, de ofício ou a requerimento do Minis-
balhado ou servido. tério Público (CPP, art. 750).

d) Quaisquer documentos que demons- j) Consectários Práticos – para algu-


trem a sua regeneração. mas finalidades, é como se a condenação
anterior não tenha existido. Para o art.
e) Prova de haver ressarcido o dano
202 da LEP: “Cumprida ou extinta a pena,
causado pelo crime ou persistir a impossi-
não constarão da folha corrida, atestado
bilidade de fazê-lo.
ou certidões fornecidas por autoridade
g) Prazo para o requerimento – o policial ou por auxiliares da Justiça, qual-
Código Penal fala em dois anos (art. 94), quer notícia ou referência à condenação,
desde que: “I - tenha tido domicílio no País salvo para instruir processo pela prática
no prazo acima referido; II - tenha dado, de nova infração penal ou outros casos
durante esse tempo, demonstração efe- expressos em lei”. Praticamente o mesmo
tiva e constante de bom comportamento se colhe no art. 748 do CPP.
público e privado; III - tenha ressarcido o
dano causado pelo crime ou demonstre a
absoluta impossibilidade de o fazer, até
o dia do pedido, ou exiba documento que
comprove a renúncia da vítima ou nova-
ção da dívida”.

Conforme “se trate de condenado ou


reincidente, contados do dia em que hou-
ver terminado a execução da pena princi-
pal ou da medida de segurança detenti-
va”, “a reabilitação será requerida ao juiz
da condenação”, após o decurso de quatro
ou oito anos (CPP, art. 743). Se a solicita-
ção for negada ela poderá ser reeditada
a qualquer tempo (CP, art. 94, parágrafo
único).
24
UNIDADE 6- Prestações previdenciárias

Na oportunidade de disciplinar a ocupa- tipo, que seja praticado por companhia se-
ção do presidiário, o art. 39 do Código Pe- guradora. Claro que o segurador levará em
nal diz que “o trabalho do preso será sem- conta as condições atípicas do apenado.
pre remunerado, sendo-lhe garantidos os
Ainda que não trabalhe, o presidiário é
benefícios da Previdência Social”.
mantido pelo Estado e, nessas condições,
Como se vê, esse dispositivo de 1940 raramente reunirá os requisitos da Lei nº
trata apenas dos direitos previdenciários 8.742/93.
do reeducando que trabalha e não ampla-
a) Filiação E Inscrição – a situação do
mente dos direitos previdenciários do pre-
presidiário deve ser considerada em três
so ocioso. Pretensões parcamente discipli-
momentos básicos: i) antes; ii) durante o
nadas na legislação e carentes de doutrina
processo penal; e, iii) depois do recolhi-
especializada (MARTINEZ, 2010).
mento à prisão. Isto é, o que ele perde e o
Embora já em 1960 a Lei Orgânica da que ele adquire após essas datas-bases.
Previdência Social (LOPS) falasse da quali-
Se filiado, regulamentado e inscrito
dade de segurado do preso livre da cadeia,
como segurado obrigatório ou facultati-
o tema só interessou ao legislador jus-
vo, portanto com qualidade de segurado,
previdenciarista com a Lei nº 10.666/03.
avaliar-se-á a manutenção desse status
Entretanto, de longa data, o Ministério da
jurídico após a detenção. Pelo menos na
Previdência Social (MPS) havia se manifes-
condição de facultativo ele pode continuar
tado sobre a filiação e a contribuição.
contribuindo e somando tempo de serviço
No que diz respeito ao recluso, releva para fins de benefícios.
também definir os direitos dos seus depen-
Caso não seja, pode filiar-se como fa-
dentes, enfaticamente no caso de fuga,
cultativo (se não trabalhar no presídio) por
recaptura ou morte. Cuida-se aqui daquele
sua vontade ou obrigatoriamente como
recolhido à prisão, já que em outras situa-
contribuinte individual (se trabalhar den-
ções como do regime semiaberto, da liber-
tro ou fora do presídio).
dade condicional, da prisão domiciliar, etc.,
a pessoa tem mais possibilidade de se or- Normativamente, o correto parece ser
ganizar em matéria de previdência social. o legislador definir um tipo de segurado,
designado como presidiário, como fez com
Aposentado presidiário que esteja cum-
outros protegidos (MARTINEZ, 2010).
prindo pena mantém os direitos antes
assegurados pelo INSS. Os seus depen- b) Qualidade de Segurado – quem foi
dentes, evidentemente, não farão jus ao preso perderá a qualidade de segurado nos
auxílio-reclusão cujo pressuposto é a não termos do art. 15 do Plano de Benefício da
percepção de renda. Previdência Social (PBPS). Mas poderá con-
tribuir como facultativo ou contribuinte in-
Caso queira, o presidiário celebrará um
dividual (se trabalhar). Se já possuía, con-
contrato de seguro de vida ou de outro
forme o inciso IV, manterá essa qualidade
25

“até 12 (doze) meses após o livramento, o de contribuinte individual, a empresa re-


segurado retido ou recluso”. terá 11% da remuneração e a recolherá
ao FPAS, juntamente com a parte patronal
Quer dizer, cumprida a pena mesmo sem
(20%).
apartar contribuições, o ex-apenado fará
jus ao auxílio-doença ou aposentadoria Em raríssimos casos, não fica descarta-
por invalidez durante 12 meses + 45 dias da a possibilidade de ser entendido como
(PBPS, art. 15, § 4º), caso atenda aos de- empregado de uma empresa, se preencher
mais regulamentos da lei. com precisão os requisitos do art. 3º da CLT.

Note-se o desenvolvimento da qualida-


de de segurado: a) podia ser tida antes de
c) BENEFÍCIOS POR INCAPACIDADE – fi-
ser preso; b) ser mantida durante o cum-
cando incapaz para o trabalho penitenciá-
primento da pena; e, c) estendida por 12
rio, o presidiário fará jus ao auxílio-doença
meses + 45 dias. Quem não a tinha não se
ou à aposentadoria por invalidez. A inapti-
beneficia dos 12 meses + 45 dias (caso não
dão para o trabalho poderá sobrevir no am-
tome a iniciativa de contribuir dentro da
biente prisional ou nas empresas (trabalho
prisão).
externo). Ou de trajeto, do estabelecimen-
Não detendo a condição de contribuinte to penal até a empresa.
individual, o detento ou recluso, caso quei-
Caso ele tenha alguns dependentes e
ra, filiar-se-á como segurado facultativo,
eles estejam recebendo o auxílio-reclusão
fazendo jus a todos os benefícios ineren-
terá de optar conforme a Lei nº 10.666/03.
tes a essa condição de ocioso.
No ordenamento brasileiro, é impossí-
A alíquota é de 20% e a base de cálculo é
vel um dependente fazer jus ao benefício
de sua escolha, variando de R$ 678,00 até
outorgado por segurado (como o auxílio-
R$ 4.159,00, em 2013. Sua família pode-
-reclusão) se ele, ao mesmo tempo, estiver
rá preencher o Carnê de Pagamento e ir à
auferindo uma prestação.
rede bancária fazer os recolhimentos men-
sais. Vale relembrar que o presidiário não é Contribuindo (como facultativo), ainda
empregado do Estado, do presídio nem da que não esteja trabalhando, esse segurado
empresa para a qual eventualmente pres- poderá requerer os benefícios se estiver
te algum serviço externo; em raras hipóte- incapaz para um trabalho (que não exerce).
ses, a CLT será invocada em seu favor.
A possibilidade de haver reabilitação
Enquadrado no art. 12, V, h, do PCSS, a profissional depende apenas da vontade
Lei nº 9.876/99 abrigou “a pessoa física do Estado e da organização penitenciária
que exerce, por conta própria, atividade materialmente poder oferecer esses ser-
econômica de natureza urbana, com fins viços pessoais de recuperação da aptidão
lucrativos ou não”. para o trabalho.
Olvidando essa desnecessária “nature- d) Aposentadorias Possíveis – preenchi-
za urbana”, o RPS o tem como contribuin- dos os requisitos legais subsiste o direito à
te individual e igual se colhe na Instrução aposentadoria por tempo de contribuição
Normativa do INSS nº 20/07. Na condição e por idade. Raramente fará jus à aposen-
26

tadoria especial. Esses direitos podem ser o benefício é acumulável com a remunera-
inteiramente realizados no presídio, pelo ção do presidiário e b) não há direito ao au-
menos para quem está condenado a 30 xílio-doença (o legislador esqueceu-se da
anos de prisão. Nenhum desses benefícios aposentadoria por invalidez) ou à aposen-
agora lembrados exige exame médico pe- tadoria combinada com o auxílio-reclusão.
ricial e bastará ao segurado preencher os
i) Previdência Complementar – a Lei Bá-
requisitos legais.
sica da Previdência Complementar - LBPC
e) Salário-Maternidade – mulher sen- (LC nº 109/01) não enfoca assinaladamen-
tenciada cumprindo pena que se filiou à te os presidiários. Entende-se que afas-
previdência social fará jus ao salário-ma- tado temporariamente da empresa pa-
ternidade na condição de contribuinte in- trocinadora em virtude do recolhimento à
dividual ou facultativa. prisão, ele poderá continuar contribuindo
como autopatrocinado com aportes men-
f) Salário-Família – em virtude do re-
sais que serão materialmente operados
cluso não ser empregado é difícil configu-
pelos seus dependentes.
rar o direito ao salário-família. Recebendo
benefício em razão de filhos e de um con- Com a internação no presídio, sobrevin-
trato de trabalho (que foi suspenso ou até do ruptura do vínculo trabalhista, pensar-
extinto), cessará a remuneração laboral e o -se-á no art. 14, l/IV (autopatrocínio, ves-
benefício previdenciário. ting, portabilidade ou resgate). No caso do
assistido, continuará auferindo a comple-
g) Prestações Acidentárias – traba-
mentação antes devida. Estando em risco
lhando, um detento ou recluso pode sofrer
iminente, requererá o benefício a qualquer
quatro tipos de infortúnios: i) acidente tí-
tempo. Nada impede que um presidiário
pico (traumático); ii) doença do trabalho;
filie-se a um plano aberto de previdência
iii) doença profissional; e, iv) acidente de
complementar. Da mesma forma, sacará os
qualquer natureza ou causa.
valores correspondentes como foi conven-
Os três primeiros no exercício de ati- cionado.
vidade profissional; o último, fora dessa
j) Seguro-Desemprego – enquanto es-
atividade (por exemplo, durante o entrete-
tiver recolhido à prisão e na condição de
nimento esportivo). Durante o transporte
presidiário não há direito a essa prestação
de ida da cela para a empresa ou desta de
securitária; o desempregado vive custea-
volta à cela, poderá ser vítima de acidente.
do pelo Estado. Se já auferia o benefício, os
São devidos, portanto, o auxílio-doença e
pagamentos serão suspensos com o reco-
a aposentadoria por invalidez acidentária e
lhimento à prisão, imaginando-se que após
o auxílio-acidente.
o livramento possam ser retomados tais
h) Auxílio-Reclusão – o auxílio-reclusão, desembolsos.
um direito dos dependentes do preso, é
o benefício mais polêmico, principalmen-
te por ocasião da fuga ou da percepção
de remuneração ou benefício. A Lei nº
10.666/03 fornece duas informações: a)
27

UNIDADE 7 - Assistência pessoal

Quem deixa a liberdade física que des- numa alimentação fornecida pelo detentor.
frutava e é recolhido a um estabelecimen- Frequentemente são três refeições: desje-
to penal, onde ficará um longo período, jum, almoço e jantar. Os doentes farão jus
vive com limitações dos seus movimentos à refeição apropriada. Assegura, também,
e em circunstâncias especiais que afetarão “instalações higiênicas” (art. 12).
sua personalidade.
b) Defesa da Moral – a LEP não distin-
Além de ter afetado o seu ser, isolado do guiu a assistência moral, provavelmente
mundo familiar, grupal e social, alguns não pulverizou-a em vários pequenos direitos,
mais terão contato com a evolução da tec- como é o caso da “proteção contra qualquer
nologia e restarão defasados no mercado forma de sensacionalismo” (art. 41, VIII). O
de trabalho. Os que não tinham um ofício direito à personalidade carece ser respei-
desenvolvido poderão aprender alguma tado em toda a sua integridade. A despeito
profissão. do crime que foi cometido, confessado ou
não, e que determinou sua condenação, a
Nessas condições, derivando do afas-
punição prevista na lei é a que consta do
tamento da sociedade, retenção em cela
CP, do CPC e da LEP. Todo o tempo o preso
individual ou coletiva, enfim, do cumpri-
pensa na sua liberdade, usualmente me-
mento da pena, erodindo a dignidade e os
diante a soltura legal. Na verdade, sem-
direitos de cidadão, fica pelo Estado, por
pre ele deve ser preparado para isso, mas
isso, o regime prisional, na medida do pos-
quando esse momento está para chegar é
sível, obriga-se a oferecer-lhe algum con-
mais importante ainda.
forto material e moral compatível com as
circunstâncias. Ou seja, é dever do Estado c) Assistência Social – a assistência
assisti-lo em suas necessidades de pessoa social e familiar é prevista nos arts. 22/23
física que cometeu um crime, uma vez que da LEP, devendo ser desenvolvida na medi-
vive privado da liberdade num ambiente da do possível.
excepcional, com muitas restrições, e mais
d) Acompanhamento Jurídico – o
obrigações do que direitos.
preso tem direito à assistência jurídica,
a) Assistência Material – o preso cum- que é muito importante. Poderá contra-
prirá a pena em celas individuais, coletivas, tar advogados, recebê-los e, se não tiver
colônias agrícolas, albergues ou na própria condições, contará com a assistência ju-
residência. No local em que o sistema pe- diciária estatal, particularmente a previs-
nitenciário estadual permitir. Vestir-se-á ta na Constituição Federal. Cada Estado
com as roupas trazidas pela família e con- da República tem obrigações legais para
forme o caso obrigado à utilização de uni- manter um sistema de atendimento jurídi-
forme prisional. A alimentação será forne- co. O amparo jurídico é relevantíssimo; os
cida pela cozinha do local do cumprimento direitos do preso são complexos, de difícil
da pena. O art. 41 da LEP - “constituem di- realização e, em muitos casos, todo o pro-
reitos do preso” – inicia os 16 itens, falando cesso que se seguiu à condenação pode
28

estar sub judice. A possibilidade de provar


sua inocência, que vigeu enquanto esteve
em liberdade, prossegue com ênfase du-
rante o cumprimento da pena. Existir um
exemplar da Carta Magna, do Código Penal,
do Código de Processo Penal e da Lei da
Execução Penal na biblioteca da prisão em
muito auxiliará a todos.

e) Educação Profissional – a educação


do preso é ampla. Ela significa curso de al-
fabetização, ensinos fundamental e médio;
principalmente cursos de profissionalização.
Habilitar o egresso para o exercício de uma
atividade laboral é um grande passo para
permitir-lhe, se ele quiser, a ressocialização,
isto é, a reinserção no mercado de trabalho
e, por conseguinte, na comunidade.

f) Cultura Humanística – estudo e cul-


tura são importantes para sua remissão.

g) Culto Religioso – observado o prin-


cípio da diversidade confessional e de não
obrigação de participação nas cerimônias, o
presidiário tem direito à assistência religio-
sa. O ideal é que exista um espaço físico para
isso, pelo menos uma capela, onde ocorram
os atos de devoção.

h) Convivência Familiar – a assistência


familiar consiste num conjunto complexo de
ações, como a permissão de visitas, contatos
telefônicos ou pessoais e até mesmo pela in-
ternet.

i) Atividades Esportivas – o estabeleci-


mento penal tem o dever de manter insta-
lações adequadas para a prática de esporte,
pelo menos um campo de futebol, basquete
ou vôlei.

j) Desenvolvimento Artístico – o deten-


to ou recluso não está impedido de aprender,
desenvolver ou aperfeiçoar as suas aptidões
artísticas.
29

UNIDADE 8 - Cuidados sanitários

O atendimento à saúde é um caso par- Essa mesma instituição acompanhará a


ticular da assistência material devida aos saúde do presidiário, fará exames, emitirá
presos, bastante enfatizada quando da laudos e autorizará licença médica em re-
internação de inimputáveis determinada lação ao trabalho. É evidente que cadeias
pelas medidas de segurança. públicas, centros e casas de detenção ou
delegacias de polícia, em virtude de suas
Quando se fala em saúde se quer dizer a
precárias instalações, não têm condições
fisiológica e a psicológica, e também con-
de oferecer o atendimento à saúde.
siderada a laboral, isto é, aquela que pro-
picia a capacidade para o trabalho. Sempre d) Internações Hospitalares – as in-
que possível, com serviços de habilitação e ternações em hospitais são promovidas
reabilitação profissional. Claro, até mesmo nos casos imprescindíveis e com a devida
com cuidados com o meio ambiente, parti- segurança dos internados e demais pesso-
cularmente nas Colônias Agrícolas (MARTI- as à sua volta.
NEZ, 2010).
e) Autorizações para Saída – o art.
a) Direito Constitucional – de forma 14,§ 2º, da LEP disciplina a saída dos presi-
lapidar, objetiva e bombástica, diz o art. diários para tratamento fora do presídio.
196 da Carta Magna que “a saúde é direi-
f) Cuidados Mínimos – o estabeleci-
to de todos e dever do Estado”, garantindo
mento penal observará:
acesso universal igualitário às ações e ser-
viços. Se for para todos, a fortiori também i) Instalações sanitárias condizentes.
para os presidiários.
ii) Campanhas sanitárias.
b) Norma Legal – o art. 14 da LEP diz
iii) Ações de vigilância sanitária e epide-
que o preso tem direito à assistência à saú-
miológica.
de compreendendo o “atendimento médi-
co, farmacêutico e odontológico”. Como se iv) Saneamento básico interno.
verá, inclui também os serviços ambulato-
riais e, conforme a necessidade, as cirur- v) Controle da cozinha, na preparação
gias hospitalares. Quer dizer, em caso de dos alimentos, fiscalizando-os, compreen-
necessidade ele será atendido no próprio dido o controle de seu teor nutricional.
pronto-socorro penitenciário, no serviço g) Inspeção Médica – periodicamente
médico do presídio ou fora dali, nas clíni- devem ser realizadas inspeções médicas
cas, no consultório ou nos hospitais do SUS de todos os apenados, para a verificação
ou particulares. do seu estado de saúde, em particular no
c) Serviço Próprio – tal qual uma em- que diz respeito às doenças infecciosas.
presa, o presídio terá o seu próprio sis- Seria o caso, eventualmente, de pensar em
tema de atendimento médico e excep- exame de inclusão e de exclusão, ou seja,
cionalmente é que o apenado deixará o o apenado ser examinado por ocasião da
estabelecimento penal para ser atendido. prisão e de sua saída. Quando de medidas
30

de segurança, a situação dos internados


reclama uma atenção maior por parte das
autoridades penitenciárias.

h) Campanhas Profiláticas – o presi-


diário deve ser objeto de todas as campa-
nhas compatíveis, especialmente aquelas
que impliquem em vacinações.

i) Atendimento às Mulheres – a inter-


nação de mulheres em penitenciária impõe
um atendimento especializado em relação
às suas necessidades.

j) Inimputáveis e Semi-Imputáveis –
aqueles que tiveram de ser internados em
hospitais psiquiátricos são merecedores de
uma atenção especial do sistema peniten-
ciário. Se não for possível ressocializar, os
demais apenados terão de usufruir de um
cuidado muito maior (MARTINEZ, 2010).
31
UNIDADE 9 - Reintegração / Reinserção /
Ressocialização
Antes de começarmos nossas reflexões de e de abertura da sociedade para o cárcere
sobre os temas acima, vamos tentar defini- e de tornar o cárcere cada vez menos cárce-
-los da forma mais simples e breve possível: re, no qual a sociedade tem um compromis-
so, um papel ativo e fundamental.
Segundo o Ministério da Justiça (DEPEN,
2007), as ações de reintegração social po- Enfim, a Reintegração do preso não será
dem ser definidas como um conjunto de in- uma simples recuperação do mesmo, mas
tervenções técnicas, políticas e gerenciais deverá supor a participação ativa dos mais
levadas a efeito durante e após o cumpri- diversos segmento sociais, visando reinte-
mento de penas ou medidas de segurança, grar o sentenciado no seio da sociedade (SU-
no intuito de criar interfaces de aproximação SEPE, 2010).
entre Estado, Comunidade e as Pessoas Be-
Falconi (1998) distingue os termos ree-
neficiárias, como forma de lhes ampliar a re-
ducação e reinserção social e faz a seguinte
siliência e reduzir a vulnerabilidade frente ao
reflexão:
sistema penal.

Partindo-se desse entendimento, vê-se ‘Reeducar’ pressupõe dar educação


que um bom “tratamento penal” não pode novamente. Ou será que o recluso re-
residir apenas na abstenção da violência fí- cebeu a educação apropriada no tempo
sica ou na garantia de boas condições para preciso?... Qual o conceito de educação
a custódia do indivíduo, em se tratando de para o sistema penitenciário?... estariam,
pena privativa de liberdade: deve, antes dis- ... ‘educados os próprios agentes e fun-
so, consistir em um processo de superação cionários para desempenharem a função
de uma história de conflitos, por meio da pro- que exercem? Pelo que se vê, não. É claro
moção dos seus direitos e da recomposição que a regra guarda certa exceção, mas no
dos seus vínculos com a sociedade, visando caso em debate esta é mínima’ (FALCONI,
criar condições para a sua autodeterminação 1998, p. 114).
responsável.

A Ressocialização, por sua vez, busca de- Para ele, o termo possui caráter de domi-
senvolver relações sociais entre indivíduos nação, de acordo com o que se percebe pelo
que em algum tempo já o tiveram. A retira- tom do relacionamento entre funcionários,
da do homem da sociedade e de seu tempo, gestores e internos das prisões brasileiras.
prendendo-o a um passado denominado de- O sistema é de obediência cega, correspon-
lito, de forma alguma é capaz de restabele- dendo ao estilo militar, no qual o respeito às
cer socialização, partindo-se do pressuposto regras se impõe não pela conscientização,
de que esse cidadão já ter sido considerado mas pela ameaça e, do outro lado, pelo temor
socializado. Não há como conciliar prisão e ou pela “picardia” que o universo do cárcere
ressocialização. lhe transmitiu.
Reintegração social, é assim todo um pro- Para explicar a ressocialização, Falconi
cesso de abertura do cárcere para a socieda-
32

(1998, p. 116) se vale do filósofo Espino- Para ele, a dinâmica do sistema presidial
za e explica a existência de três correntes brasileiro envolve administradores retró-
doutrinárias básicas a serem consideradas. grados na sua prática, que usam experi-
A primeira que entende ser o delinquente ências convenientes sobre as múltiplas
pessoa passível de tratamento psiquiátri- relações interpessoais, a fim de que os
co, de acordo com o disposto nas seguintes reclusos possam vivenciar e conviver com
obras: “Correcionalismo”, “Defesa Social” e a problemas ordinários nas relações huma-
“Pedagogia Criminal”. Outra corrente trata nas, tentando afirmar que se trata de um
a problemática da pena como “medida que processo verdadeiramente difícil, pois ne-
castiga para ressocializar”, essas embasa- cessitará do envolvimento de profissionais
das nas teorias Psicanalítica e na Marxista. e técnicos.
A Psicanalítica afirma ter o Estado o direito
Acredita ainda que as punições carcerá-
de aplicar a pena, tendo se fundamentado
rias não são suficientes para formar nova
nos ensinamentos de Freud, enquanto que
mentalidade no recluso e deixá-lo prepara-
a Marxista teve apoio nas interpretações de
do para se reeducar ou se ressocializar.
Adler. Por último Espinoza trata de teorias
que explicam a necessidade da ressocializa- Tanto a reeducação, a ressocialização,
ção que são: “Ressocialização Legal”, “Teoria quanto a reinserção social do detento
das Expectativas” e “Teoria da Terapia Social deverá passar por reciclagens no quadro
Emancipadora” que segundo essas, “o delito funcional do presídio, devendo haver sin-
não é somente uma responsabilidade do ci- cronização entre o trabalho sociocultural
dadão delinquente, mas também da comuni- agregado aos labores próprios dos progra-
dade em que os fatos se desenrolam”. mas de ressocialização, até que se atinja a
reinserção social – trabalho de equipe.
Falconi é um estudioso da complexa reali-
dade presidial no Brasil, por isso damos ênfa- Em artigo elaborado por Onofre (2009)
se às suas falas. intitulado “Educação Escolar como um dos
pilares para a reinserção social de pessoas
Haverá de surgir o momento em que
jovens e adultas em privação de liberdade”,
o bom-senso prevalecerá, quando se en-
a autora nos lembra que os educadores
tenderá quão profunda é a problemática
preocupados com a inclusão social, mais do
do sistema penitenciário no particular e
que nunca, assumindo a identidade de tra-
presidial no geral e a permanência de so-
balhadores culturais, devem colocar o foco
luções sérias e eficazes. Fatalmente, ha-
de seus estudos num fenômeno particular,
veremos de entender que o tratamento
no qual as ações não podem mais ser adia-
do preso não pode ser tão-só um discur-
das, especificamente no caso brasileiro: a
so lacônico (...) A pena, mantendo como
elaboração e implementação de políticas
mantém, características de punição, não
públicas voltadas para a educação esco-
acrescenta qualquer benefício ao traba-
lar nos espaços de privação de liberdade,
lho da reeducação e da ressocialização,
como garantia de possibilidade de resgate
via crucis por onde, inquestionavelmen-
de vida digna ao cidadão aprisionado, prin-
te, haverá de passar o destinatário da
cipalmente porque é fato a constatação
reinserção social (FALCONI, 1998, p. 116
desta população apresentar característi-
e 117).
33

cas semelhantes as da população brasilei- nismos públicos e estudado por educado-


ra, constituída em sua maior parte de po- res, pois os problemas e dificuldades que
bres e de pessoas pouco escolarizadas. se apresentam têm sua especificidade; no
entanto, em nada diferem dos problemas e
A reinserção de um ex-presidiário no
das dificuldades que o sistema público de
mundo social de que ele se viu excluído,
ensino, em geral, enfrenta no seu dia-a-
às vezes por longos períodos, envolve as-
-dia.
pectos que vão além do treinamento em
atividade que lhe foi oferecido na prisão. A As reflexões anteriormente elaboradas
pesquisa de Brant sobre o trabalho carce- nos indicam a relevância de investimentos
rário revela que a forma de organização do no âmbito do trabalho e da educação esco-
trabalho, embora tenha suas especificida- lar, como possíveis caminhos para a melho-
des, não atende aos interesses dos presos ria da qualidade de vida dos aprisionados e
que têm muito mais em comum com os ci- para efetivamente prepará-los para a rein-
dadãos livres. “Ao examinar a trajetória da- serção social. Isto posto, como sair da cila-
queles que estão presos, sua situação atu- da? Questiona Onofre.
al e expectativas futuras, difícil seria não
Apesar dos dilemas e contradições exis-
sublinhar que eles não são pessoas dife-
tentes no sistema educacional penitenci-
rentes das demais” (BRANT, 1997, p. 151).
ário, do hiato entre o proposto e o vivido
A ideologia da reeducação pelo trabalho pelas instituições responsáveis pela edu-
não tem encontrado suporte de sustenta- cação escolar e o espaço prisional, a esco-
ção, pois os ex-presidiários, quando voltam la tem um papel importante a cumprir na
ao “mundo”, já contam com o obstáculo reinserção social de homens em situação
da rotulação. Como afirma Brant (1997, p. de privação de liberdade.
153), “sua volta à vida normal segue qua-
Embora o sistema penitenciário em mui-
se sempre pelo percurso da reinserção à
tos momentos busque conseguir que a es-
família de origem, na qual será tratado, na
cola seja mais um dos elementos daquilo
melhor das hipóteses, como ‘o filho pródi-
que Foucault (1987) chamou de “técnica
go’, a ser reeducado”.
penitenciária”, ela pode ser um espaço de
Uma escola competente, quer do muni- produção de conhecimento, de estudo, de
cípio, do presídio, do Estado, quer da rede estabelecimento de vínculos, de relações
particular, trabalha no sentido de propor- éticas, de questionamentos, de participa-
cionar formação e informação, juntas. Ela ção.
enfatiza a importância da participação
É impossível separar o processo educa-
do aluno como sujeito e não paciente do
tivo do contexto em que tem lugar. O es-
processo educativo. É importante “ouvir
paço prisional é um marco especialmente
o aluno”, respeitá-lo. Caso realmente se
difícil para os processos educativos, cuja
queiram alunos pensando, falando, sendo
finalidade, entre outras, é permitir que as
compreendidos e compreendendo, a esco-
pessoas tomem suas próprias decisões e,
la tem que ser outra.
em consequência, assumam controle so-
A escolaridade nas prisões é, portanto, bre suas próprias vidas e possam inserir-se
um desafio a ser enfrentado pelos orga- na sociedade, de maneira autossuficiente.
34

Neste sentido, no contexto prisional, e geração de renda.


a educação é uma ferramenta adequada
Destacam-se ainda, de acordo com os
para o processo formativo, no sentido de
princípios constitucionais vigentes, aque-
produzir mudanças de atitudes e contribuir
les previstos na Constituição Federal de
para a integração social. Cabe ao educador,
1988:
papel relevante nesta tarefa, pois enfren-
tar os problemas quando em liberdade, sig- “Art. 6º - São direitos sociais a educação,
nifica administrar conflitos, analisar con- a saúde, a alimentação, o trabalho, a mo-
tradições, conduzir tensões e dilemas da radia, o lazer, a segurança, a previdência
vida diária (ONOFRE, 2009). social, a proteção à maternidade e à infân-
cia, a assistência aos desamparados, na
O encarceramento, ainda que conside-
forma desta Constituição”; e,
rado um castigo justificado, não pode levar
consigo a privação dos direitos humanos, Art. 203. A assistência social será pres-
entre os quais se configura o direito à edu- tada a quem dela necessitar, independen-
cação. As minorias mais desfavorecidas temente de contribuição à seguridade so-
são as pessoas não alfabetizadas, e em um cial, e tem por objetivos: (...)
mundo dominado por mensagens escritas,
III - a promoção da integração ao merca-
o não saber ler e escrever é considerado
do de trabalho;”
conhecimento básico de todos e ferramen-
ta essencial para o progresso educacional. Importante ressaltar que a Lei Comple-
A alfabetização é, portanto, um dos meios mentar nº 79, de 07 de janeiro de 1994 (Lei
para combater a exclusão de participação de Criação do Fundo Penitenciário Nacio-
na sociedade. No entanto, o que se propõe nal – FUNPEN) destaca a importância das
não é uma educação escolar baseada em ações de trabalho e reinserção social do
muitos dados, mas uma educação que per- preso, internado e egresso, elencando-as
mita a quem a recebe significar, elaborar, entre as atividades que podem ser finan-
modificar e construir seu próprio caminho ciadas com recursos do FUNPEN:
(ONOFRE, 2009 p. 9).
Art. 3º Os recursos do FUNPEN serão
9.1 Trabalho e renda aplicados em:

A Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984 V - implantação de medidas pedagógi-


(Lei de Execução Penal - LEP) dispõe, em cas relacionadas ao trabalho profissionali-
seu artigo 1º, que o objetivo fundamental zante do preso e do internado; (...)
da execução penal é “proporcionar condi-
VII - elaboração e execução de projetos
ções para a harmônica integração social do
voltados à reinserção social de presos, in-
condenado e internado”.
ternados e egressos;
A prestação desse dever estatal, no âm-
Neste sentido, o Departamento Peni-
bito da reintegração social, traduz-se em
tenciário Nacional (DEPEN) mantém em
ações que promovam a elevação de escola-
sua estrutura a Coordenação-Geral de
ridade, a assistência aos apenados, egres-
Reintegração Social e Ensino, cuja finali-
sos e internados, bem como a profissiona-
dade é garantir à população carcerária os
lização, integração ao mercado de trabalho
35

direitos acima mencionados, com o objeti- 2) Apoio à qualificação profissional


vo de proporcionar a harmônica integração
Programas, projetos e ações de apoio
social dos presos, internado e egresso do
à qualificação profissional dizem respeito
sistema penitenciário, incluindo-os em po-
aos processos pelos quais se procura pre-
líticas públicas federais, estaduais e mu-
parar uma pessoa por intermédio de uma
nicipais voltadas à integração ao mercado
formação profissional para que ela seja ca-
de trabalho e profissionalização, voltados,
paz de executar atividades ou funções de-
principalmente para o desenvolvimento
mandadas pelo mercado de trabalho.
social e humano.
Incluem-se nesse campo todas as ativi-
1) As ações de apoio ao trabalho e ren-
dades que tenham como foco a melhoria
da, enquanto políticas públicas, podem ser
da experiência profissional e a obtenção de
consideradas parte de uma política de tra-
um emprego. Uma devida qualificação pro-
balho, pois afetam diretamente o mercado
fissional, somada às habilidades humanas
de trabalho, elevando o nível de ocupação
e conceituais, aumenta significativamente
e permitindo que os trabalhadores desen-
a oportunidade de inserção no mercado do
volvam suas capacidades laborais durante
trabalho.
a participação em um empreendimento.
No sistema penitenciário, o caminho
Atividades de geração de trabalho e ren-
mais utilizado para a qualificação profissio-
da abarcam a criação de novos empreendi-
nal de presos, internados e egressos tem
mentos ou a expansão de empreendimen-
sido o oferecimento de cursos de capaci-
tos existentes, gerando, assim, atividade
tação aliados à implementação de oficinas
econômica.
permanentes, na perspectiva da absorção
Quanto à natureza de tais atividades, é de linhas de produção de empresas.
necessário destacar que programas, pro-
Muito se discute, nos dias atuais, sobre
jetos ou ações de geração de trabalho e
a devida inserção social de egressos do
renda possuem como principal objetivo
sistema penitenciário no mercado de tra-
resolver um problema ou, mais especifica-
balho, esquecendo-se, no entanto, que a
mente, uma carência social. Por este moti-
inserção de egressos tem sua base cons-
vo, estas iniciativas devem ser considera-
truída enquanto o indivíduo se encontra
das de natureza social.
em privação de liberdade. Durante o cum-
A implementação de tais atividades no primento de penas privativas de liberdade,
sistema penitenciário tem como foco a dis- o estado tem a possibilidade de orientar,
seminação da cultura do cooperativismo, o capacitar e fomentar a cultura da qualifica-
caminho do autoemprego e possíveis incu- ção profissional de maneira mais próxima,
badores de empreendimentos de econo- fazendo com que, ao sair, o preso ou inter-
mia solidária, mostrando que a geração de nado se torne um egresso consciente de
trabalho e renda para pessoas em situação seus direitos e capacidades e tenha possi-
de vulnerabilidade social, como as privadas bilidades reais de uma harmônica integra-
de liberdade, pode ser vista como uma das ção social.
alternativas necessárias.
Ao longo dos últimos anos, a qualifica-
36

ção profissional tem sido a principal ferra- necessidades das comunidades locais. São
menta utilizada no âmbito da reintegração formas locais de governo e podem ter im-
social para a inclusão no mercado de traba- pacto na mudança do quadro da gestão das
lho e geração de renda para presos, inter- coisas públicas desde que sejam estimula-
nados e egressos (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, das, estudadas e disseminadas. Em outros
2013). termos, boas práticas são instrumentos
para:
9.2 “Boas práticas” incentivar políticas públicas, com base
As boas práticas são, segundo a ONU e em experiência que realmente funcionam;
a comunidade internacional de direitos hu-
manos, iniciativas bem sucedidas que: conscientizar os tomadores de deci-
são, os gestores e a população em geral
a) Apresentam impacto tangível na me- quanto à formulação de políticas públicas
lhoria da qualidade de vida. e à busca por soluções para os problemas;
b) São resultado de parceria efetiva en- compartilhar e transferir tecnologia,
tre setor público, privado e as organizações expertise e experiência através de redes
da sociedade civil. de intercâmbio, aprendizado, informação e
c) Têm sustentabilidade social, cultural, formação.
econômica e ambiental. As boas práticas em segurança pú-
As boas práticas assim pretendem mu- blica podem ser caracterizadas da se-
dar o quadro burocrático/profissional atra- guinte forma:
vés do qual as relações entre Estado e so- 1) Respeito aos Direitos Humanos.
ciedade civil se constituíram ao logo dos
anos e fizeram com que um e outro se dis- 2) Respeito aos princípios e garantias
tanciassem, com prejuízo evidente da qua- constitucionais.
lidade dos serviços prestados pelo Estado 3) Profissionalização, responsabilização
e da ausência de participação qualificada e transparência.
da população nas administração das coisas
públicas. 4) Políticas locais de prevenção.
O modelo burocrático ainda permitiu 5) Participação popular e demandas so-
que o poder público fosse capturado por ciais por segurança.
interesses econômicos e que voltasse par- 6) Práticas de educação e de cidadania.
te importante de seus esforços para aten-
der demandas de clientes poderosos, au- 7) Parcerias entre público e privado.
mentando a destinação de recursos para 8) Policiamento comunitário.
projetos sem sustentabilidade e sem im-
pacto social significativo. As boas práticas 9) Justiça em tempo real e penas alter-
procuram caminhar no sentido diferente. nativas à prisão.
Pretendem ser estratégias de governança
10) Política específica para grupos vul-
mais artesanais, mais responsáveis am-
neráveis, sobretudo, jovens.
bientalmente, mais responsáveis com as
37

11) Segurança e qualidade de vida. para o exercício da liberdade, da solidarie-


dade, da justiça, do respeito.
12) Política de combate ao crime organi-
zado e ao crime econômico. A tentativa de instauração da ação éti-
ca do sujeito no mundo contemporâneo
13) Política sobre uso da força em ações baseia-se em alguns princípios colocados
policiais (DEPEN, 2009).
como referência para que ele possa pautar
suas ações e, consequentemente, tomar
9.3 Ética e moral decisões. Há quatro princípios na ação éti-
Ética, moral, valores, afetividades são ca do sujeito contemporâneo: o da justiça,
temas que não podemos nos furtar a dis- o da não violência, o da solidariedade e o da
cutir, principalmente devido a situação de responsabilidade.
risco e isolamento em que vivem os sujei-
tos enquanto na prisão, portanto, vamos a No princípio da justiça, o ideal inspira-se
um pouco de filosofia prática para a vida. no respeito ao outro, que se iguala enquan-
to espécie, mas se diferencia enquanto sin-
Estar na prisão é uma situação transitó- gularidade. É através do senso de justiça,
ria. Ser jovem e migrante é também uma existente entre os homens, que a lei moral
condição precária numa perspectiva de e a ética se objetivam. O sujeito exerce sua
educação vitalícia (particularmente para autonomia, tendo a liberdade como pos-
os jovens). A situação transitória de um sibilidade de escolha, ao tomar decisões.
condenado deve sempre ser levada em O princípio da justiça pode se aliar ao da
consideração. A educação na prisão deve igualdade de condições de sobrevivência.
permanecer em processo contínuo e não Isto implica a exigência permanente de di-
apenas focalizar a condição temporária de reitos e oportunidades sociais.
encarceramento.
O princípio da não violência coloca a
Sendo assim, a relação do sujeito com o possibilidade de se respeitarem e preser-
outro convoca-nos à reflexão ética. O “ou- varem as diferenças. Gera uma atitude de
tro” se torna a referência para a ação, pois reconhecimento do outro como um ser que
demanda uma relação de cuidado. pertence à espécie humana. Por não ser
A violência é o reflexo do que se vive permitido violar sua integridade física e
cotidianamente. Ao pensar nas condições psíquica, é preciso aprender a não tomar o
históricas nas quais o ser humano se or- outro como objeto, uma coisa e a não usar a
ganizou biológica e socialmente, pode- força como mecanismo de coerção. A ética
mos vê-los como um ser de violência, ou abre campo aos sujeitos para a construção
um “homo violens”: qualquer instante, por e o exercício da solidariedade ao próximo.
seus impulsos cegos e passionais viola o O princípio da solidariedade funda-se em
território do outro. Assim, para que o está- um dever, mas não designa. O gesto de ser
gio de barbárie não prevaleça, instituições solidário liga-se ao respeito à diferença,
de formação como a família, a religião, e a em que o ser humano aprende a perceber
escola, dentre outras, preparam formas de que o outro também pertence ao mundo.
canalização e controle dos impulsos, pre- A ação solidária liga-se à construção do su-
parando os seres para viverem no mundo jeito face aos ideais democráticos e à cida-
38

dania. O princípio da solidariedade consiste Mas qual o significado para ética e


em expressar responsabilidade para com o moral?
outro, sem esperar reciprocidade.
A Moral é uma palavra que vem da língua
O princípio da responsabilidade faz com latina: mos-mores, significando costumes
que percebemos no outro a condição hu- ou regras que determinam a vida. Dize-
mana, como também abre uma possibilida- mos, então, que é o conjunto de regras de
de de se respeitarem as coisas que estão conduta assumidas pelos indivíduos de um
no mundo, pois essas se relacionam com o grupo social com a finalidade de organizar
próximo. A responsabilidade pela nature- as relações interpessoais, isto é, normas
za está em conceber no mundo um outro e valores que orientam a vida do homem
que difere do eu e necessita aprender que, dentro da sociedade. A intenção da moral é
além da convivência, é preciso preservar o definir o certo e o errado, o justo e o injus-
que é de todos. Por isso, é preciso cultivar o to, o permitido do proibido, o bem do mal.
respeito pelo outro em sua singularidade,
para que se concretizem os ideais de so-
Quais ações e atitudes se devem
brevivência dos seres e a possibilidade de
adotar diante de situações que nos
vivermos bem.
confrontam, afetam-nos diariamen-
te?
Diante dessas perspectivas, a educa-
A Ética vem da língua grega ethos, sig-
ção, através de práticas docentes em que
nificando modo de ser, a forma usada pela
as ações se processam mediadas por meios
pessoa para organizar sua vida em socieda-
e fins éticos e com o objetivo de formar o
de. Assim, para que haja uma conduta ética
caráter de seus alunos, convida a constru-
é preciso que exista o agente consciente,
ção de um mundo capaz de atender aos
isto é, aquele que conhece a diferença en-
princípios da ética, a prática da liberdade e
tre o bem e o mal. A ética se preocupa com
do diálogo.
a reflexão sobre as noções e princípios que
A educação apresenta-se importante, fundamentam a vida moral. É o processo
quando é entendida como educação inte- feito pela pessoa de transformar em nor-
gral, quando pretende dar orientação e um mas/regras práticas os valores surgidos no
sentido ao ser humano como um todo, pois grupo e na cultura em que vive.
ela perpassa transversalmente todas as
A exigência ética só pode ser pensada a
dimensões da formação humana.
partir da vida concreta de uma coletividade
Sendo assim, educar é formar um ser ca- instituída: derivado de ethos, que significa
paz de lidar com o meio e com outros seres costume, uso, o termo ethike designa o ca-
humanos, pois a afetividade acompanha o ráter, a maneira habitual de um indivíduo
ser humano desde a sua vida intrauterina, se comportar. Em uma palavra, a ética se
até a sua morte, manifestando-se como refere à conformação, ou não, dos hábitos
uma fonte geradora de potência e energia, e comportamentos individuais aos usos e
ela seria o alicerce sobre o qual se constrói costumes que cada sociedade institui para
o conhecimento racional (LABANCA; SOU- si. E, de fato, cada sociedade se cria, crian-
ZA; PORTO JUNIOR, 2006). do os valores, as normas, os costumes, as
práticas e os ideais que a regem. Esses va-
39

lores, normas, costumes, práticas e ideais inferir então que, a não-indiferença é uma
constituem-se, como já se disse tantas ve- das principais características do valor. Po-
zes, no verdadeiro cimento das sociedades. rém não se deve esquecer que pelo fato dos
valores não serem coisas, mas resultam das
Porém, o crescimento da violência urba-
relações estabelecidas na sociedade, dize-
na e a crise dos sistemas penitenciário, ju-
mos que os valores são em parte herdados
diciário e policial são temas que ocupam um
da cultura onde estamos inseridos.
grande espaço no noticiário, no caso bra-
sileiro, nos últimos anos. A crescente cri- Aranha e Martins (2000, p. 273) afirmam
minalidade e a impunidade têm como uma que:
das consequências mais visíveis a sensação
de insegurança e medo da população que, O mundo da cultura é um sistema de
cada vez mais, busca mecanismos próprios significados já estabelecidos por ou-
de proteção: grades nas janelas, portas tros, de tal modo que aprendemos des-
trancadas, carros blindados, armas de fogo de cedo como nos comportar à mesa, na
e sistemas de segurança privada fazem rua, diante de estranhos, como, quando
parte do cotidiano de uma parcela da popu- e quanto falar em determinadas circuns-
lação que busca se proteger a todo custo. tâncias (...) como cobrir o corpo e quan-
do desnudá-lo, qual o padrão de beleza,
9.4 Valores e afetividade que direitos e deveres temos.
Os valores não são coisas, mas resultam
das relações que os seres humanos estabe- Assim, a partir da valoração, as pessoas
lecem entre si e com o mundo em que vive- nos recriminam, nos elogiam, nos admoes-
mos. Por esta razão que, diante de pessoas tam por termos faltado com a verdade, sen-
e coisas, estamos constantemente fazendo timos remorso dependendo da ação que
o que chamamos de juízos de valor. Quando praticamos, estamos sujeitos ao elogio ou
afirmamos, por exemplo, que uma moça a reprimenda, à recompensa ou à punição.
não tem atrativos, é feia na nossa concep- Chauí (2001) discute essa ideia ao dizer que
ção, ou o oposto quando dizemos que ela a cultura nasce da maneira como os seres
é muito bonita, quando descrevemos uma humanos interpretam a si mesmos e as suas
borracha ou uma caneta como muito ruins, relações com a natureza. Nossa percepção
quando colocamos que João agiu com des- sobre a origem cultural dos valores, sejam
prezo pelo fato de não ajudar naquela cam- éticos, do senso moral ou da consciência é
panha da solidariedade do bairro, estamos relativa porque somos criados, educados
fazendo juízos da realidade, porque dize- para eles e neles como se fossem naturais,
mos que as coisas e as pessoas existem, existentes em si e por si mesmos.
mas também estamos fazendo juízos de
valor porque as coisas e as pessoas podem Por fim, a afetividade! Normalmente,
provocar atração ou repulsa, avaliação es- quando pensamos no que caracteriza a na-
tética, utilidade ou não, etc. tureza humana, a resposta mais comum é a
racionalidade. É verdadeira a resposta, mas
Na medida em que atribuímos um valor a incompleta! Somos seres de desejos, afe-
alguma coisa ou pessoa, significa dizer que tos, emoções, que também retratam a nos-
não estamos indiferentes a ela. Podemos sa humanidade.
40

Aranha e Martins (2001) afirmam que a e o social. A afetividade que inicialmente é


razão é importante por fornecer os meios determinada basicamente pelo fator orgâ-
para compreender a realidade, solucionar nico passa a ser fortemente influenciada
problemas, projetar a ação e reavaliar o que pela ação do meio social.
foi feito. As atitudes ligadas ao impulso, a
Para Ballone (2003), a afetividade com-
energia, a vibração vem do desejo. É este
preende o estado de ânimo ou humor, os
que põe o mundo humano em movimento.
sentimentos, as emoções e as paixões e
O desejo surge à medida que os seres reflete sempre a capacidade de experi-
humanos estabelecem relações entre si. mentar sentimentos e emoções.
Os sentimentos e emoções nos afetam in-
Assim, podemos afirmar que a afeti-
dependentemente de nosso consentimen-
vidade é quem determina a atitude geral
to. Wallon (1968) defende que, no decorrer
da pessoa diante de qualquer experiência
de todo o desenvolvimento do indivíduo,
vivencial, promove os impulsos motivado-
a afetividade tem um papel fundamental.
res e inibidores, percebe os fatos de ma-
Tem a função de comunicação nos primei-
neira agradável ou sofrível, confere uma
ros meses de vida, manifestando-se, basi-
disposição indiferente ou entusiasmada e
camente, através de impulsos emocionais,
determina sentimentos que oscilam entre
estabelecendo os primeiros contatos da
dois polos, a depressão e a euforia. Des-
criança com o mundo. Através desta inte-
sa forma, a afetividade é quem confere o
ração com o meio humano, a criança pas-
modo de relação do indivíduo à vida e será
sa de um estado de total sincretismo para
através da tonalidade de ânimo que a pes-
um progressivo processo de diferenciação,
soa perceberá o mundo e a realidade. Dire-
onde a afetividade está presente, perme-
ta ou indiretamente, a afetividade exerce
ando a relação entre a criança e o outro,
profunda influência sobre o pensamento e
constituindo elemento essencial na cons-
sobre toda a conduta do indivíduo.
trução da identidade.
A afetividade valoriza tudo em nossa
Da mesma forma, é ainda através da
vida, tudo aquilo que está fora de nós, como
afetividade que o indivíduo acessa o mun-
os fatos e acontecimentos, bem como
do simbólico, originando a atividade cogni-
aquilo que está dentro de nós (causas sub-
tiva e possibilitando o seu avanço. São os
jetivas), como nossos medos, nossos con-
desejos, as intenções e os motivos que,
flitos, nossos anseios, etc. A afetividade
em um primeiro momento, vão mobilizar a
valoriza também os fatos e acontecimen-
criança na seleção de atividades e objetos.
tos de nosso passado e nossas perspecti-
Para este autor, o conhecimento do mundo
vas futuras.
objetivo é feito de modo sensível e reflexi-
vo, envolvendo o sentir, o pensar, o sonhar Labanca, Souza e Porto Junior (2006)
e o imaginar. nos levam a entender que estas influências
são perceptíveis nas possíveis mudanças
Almeida (2005), referindo-se a Wallon,
na relação de afetividade das pessoas no
coloca que a afetividade é um domínio
cotidiano. Os afetos expansivos são con-
funcional, cujo desenvolvimento é depen-
siderados por alguns autores como afetos
dente da ação de dois fatores: o orgânico
agradáveis. Isso, em contraposição aos
41

afetos depressivos, considerados como ética, os valores, a afetividade, a moral são


desagradáveis. A tonalidade afetiva dos relevantes, passam pela consciência de
estados expansivos é de prazer, confiança que o ser humano é sempre um valor em
e felicidade, daí a denominação de afetos si e por si, como também, segundo Heer-
agradáveis. O estado expansivo do humor dt (2000), é preciso ter consciência do real
pode aparecer como reação emocional a para poder superá-lo e construir parâme-
alguma vivência muito agradável, uma es- tros de eticidade em nossa sociedade tão
pécie de reação vivencial eufórica a uma desumana e excludente (LABANCA; SOU-
experiência da realidade. Ao contrário, os ZA; PORTO JUNIOR, 2006).
afetos depressivos se revelam por um sen-
timento de mal-estar, de abatimento, de 9.5 Objetivos da ressocia-
tristeza, de inutilidade e de incapacidade
para realizar qualquer atividade.
lização
O Estado quando condena um indivíduo
Ballone (2003) descreve ainda que, os que cometeu um crime contra a socieda-
afetos depressivos, da mesma forma que de e, por consequência, aplica a este uma
os afetos expansivos, podem aparecer pena restritiva da liberdade, teoricamen-
como uma resposta a situações reais, atra- te, acredita que após o cumprimento da
vés de uma reação vivencial depressiva, sentença expedida esse indivíduo estará
quando diante de fatos desagradáveis, pronto para voltar, em harmonia, ao con-
aborrecedores, de frustrações e perdas. vívio social. O que então se costuma cha-
Diante do que foi exposto, evidencia-se mar de reeducação social, uma espécie de
a presença contínua da afetividade nas preparação temporária pela qual precisa
interações sociais, além da sua influência passar todo criminoso condenado pela
também contínua nos processos de desen- justiça.
volvimento cognitivo. No entanto, sejamos sinceros e realis-
Nesse sentido, pode-se pressupor que tas: essa “reeducação” que objetiva o Es-
as interações ocorrem no contexto escolar, tado na prática está longe de ser atingida.
na vivência prisional e em outras áreas das Primeiro porque o que tem sido a princi-
relações sociais, e que também são mar- pal preocupação do sistema penitenciário
cadas pela afetividade em todos os seus ao receber um indivíduo condenado não é
aspectos. Pode-se supor, também, que a sua reeducação, mas sim a privação de sua
afetividade se constitui como um fator de liberdade. Isso é fácil de ser constatado na
grande importância na determinação da medida em que analisamos as estruturas
natureza das relações que se estabelecem da maioria das penitenciárias brasileiras,
entre os sujeitos e os diversos objetos de formadas por excesso de grades, muros
conhecimento, bem como na disposição enormes e um forte efetivo policial, tudo
das pessoas diante de atividades propos- isso com um único objetivo, evitar a fuga.
tas e que devem ser desenvolvidas com o
objetivo de mudanças, transformação da Enquanto isso, a reincidência criminal
sociedade. cresce a cada dia, e na maioria das vezes
constata-se que o indivíduo que deixa o
A construção da uma sociedade onde a cárcere após o cumprimento de sua pena,
42

volta a cometer crimes piores do que an- sam ser desenvolvidos dentro das prisões
terior, como se a prisão o tivesse tornado projetos educacionais que trabalhe para
ainda mais nocivo ao convívio social. a conscientização dos educandos, fazen-
do-os perceberem a realidade e, conse-
Partindo dessas considerações, é pos-
quentemente, seu lugar na história, pois
sível constatar que a privação da liberda-
um indivíduo que nasceu na miséria e por
de única e exclusivamente não favorece
consequência não teve acesso a uma edu-
a ressocialização. Dessa forma, é preciso
cação satisfatória ou a de nenhum tipo,
que seja feito algo no sentido, senão, de
não pode agir com discernimento em seus
resolver, ao menos, de minimizar ao máxi-
atos.
mo esse equívoco. Para isso se faz neces-
sário o desenvolvimento de programas Uma educação dentro do sistema pe-
educacionais dentro do sistema peniten- nitenciário deve trabalhar com conceitos
ciário voltados para Educação básica de fundamentais, como família, amor, digni-
Jovens e Adultos que visem alfabetizar e, dade, liberdade, vida, morte, cidadania,
sobretudo, trabalhar para a construção governo, eleição, miséria, comunidade,
da cidadania do apenado. Conforme Salla dentre outros. Existe uma necessidade
(1999, p. 67), urgente e crescente de trabalhar no re-
educando os valores acima, o ato antis-
[...] por mais que a prisão seja incapaz social e as consequências desse ato, os
de ressocializar, um grande número de transtornos legais, as perdas pessoais e o
detentos deixa o sistema penitenciário estigma social.
e abandona a marginalidade porque
Em outras palavras, desenvolver nos
teve a oportunidade de estudar.
educandos a capacidade de reflexão, fa-
zendo-os compreender a realidade para
Dessa forma um outro aspecto rele-
que de posse dessa compreensão possam
vante a ser aqui considerado é o perfil
então desejar sua transformação.
da população penitenciária no Brasil, que
segundo os dados fornecidos pelo Depar- O sistema penitenciário necessita de
tamento Penitenciário Nacional do Minis- uma educação que se preocupe priorita-
tério da Justiça, a maior parte da massa riamente em desenvolver a capacidade
carcerária deste país é composta por jo- crítica e criadora do educando, capaz de
vens com menos de trinta anos e de bai- alertá-lo para as possibilidades de esco-
xa escolaridade (97% são analfabetos ou lhas e a importância dessas escolhas para
semianalfabetos). O restante, quase que a sua vida e, consequentemente, a do seu
na totalidade, são pessoas que não tive- grupo social. Isso só é possível através de
ram condições de concluir os estudos por uma ação conscientizadora capaz de ins-
razões variadas inclusive por terem sido trumentalizar o educando para que ele
iniciadas no crime ainda cedo. firme um compromisso de mudança com
sua história no mundo.
Diante desse quadro, podemos afirmar
que a criminalidade está intimamente liga- Em sua análise, Paulo Freire (1980, p.
da à baixa escolaridade e ambas à questão 26) afirma que:
econômica e social. De modo que preci-
43

A conscientização é [...] um teste de


realidade. Quanto mais conscientiza-
ção, mais ‘desvela’ a realidade, mais se
penetra na essência fenomênica do ob-
jeto, frente ao qual nos encontramos
para analisá-lo. Por esta mesma razão,
a conscientização não consiste em ‘es-
tar frente à realidade’ assumindo uma
posição falsamente intelectual. A cons-
cientização não pode existir fora da
‘práxis’, ou melhor, sem o ato ação-re-
flexão. Esta unidade dialética constitui,
de maneira permanente, o modo de ser
ou de transformar o mundo que carac-
teriza os homens.

A conscientização trabalha a favor da


desmistificação de uma realidade e é a
partir dela que uma educação dentro do
sistema penitenciário vai dar o passo mais
importante para uma verdadeira ressocia-
lização de seus educandos, na medida em
que conseguir superar a falsa premissa de
que, “uma vez bandido, sempre bandido”
(SANTOS, 2009).

Esperamos que atentem para as refle-


xões e os caminhos propostos e sejam feli-
zes em sua missão de lidar com a educação
no sistema prisional, pois poderão em mui-
to contribuir para termos uma sociedade
composta de sujeitos mais conscientes e
justos.
44
REFERÊNCIAS

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