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Simpósio

6 – Cadeia Produtiva de Organismos Aquáticos

Palestra 3 - Potencial das espécies nativas para a piscicultura do Brasil.

Thiago Ushizima – Aqualine Aquicultura Ltda.

14:30 - 15:30

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POTENCIAL DAS ESPÉCIES NATIVAS PARA A PISCICULTURA NO BRASIL


Thiago Tetsuo Ushizima
Aqualine Aquicultura Ltda.
thiago.ushizima@nutrizon.com.br

Segundo a FAO (2016) que é a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura,
o ano de 2014 foi um marco para a Aquicultura mundial, pois a contribuição do setor de
Aquicultura para fornecimento de pescado para consumo humano ultrapassou pela primeira
vez o pescado fornecido pela captura/pesca.

Gráfico 01. Contribuição relativa de pescado proveniente da Aquicultura e da Pesca para consumo
humano.


Fonte: FAO 2016

Com a produção pesqueira estagnada desde a década de 80, tanto para pesca marinha quanto
a continental e com a crescente demanda mundial por pescado, tem proporcionado à
Aquicultura Mundial crescimento impressionante. De 1995 a 2004 a produção aquícola
cresceu em média 7,2% ao ano e entre os anos de 2005 a 2014 a atividade cresceu 5,8% ao
ano.

A produção mundial de organismos aquáticos em 2014 foi de 101,1 milhões de toneladas


bruto, com valor estimado “farmgate” de US$ 165,8 bilhões. Dos 101,1 milhões de toneladas
produzidas pela Aquicultura, 44% representada por peixes, 26% por plantas aquáticas/algas,
16% por moluscos, 7% por crustáceos e 7% por outros animais aquáticos incluindo anfíbios.

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O crescimento da oferta mundial de pescado para consumo humano ultrapassou o
crescimento populacional nas últimas cinco décadas e aumentou anualmente 3,2% de 1961 a
2013. Resultado é aumento do consumo per capita de pescado que em 1960 era de 9,9
kg/ano, 14,4 kg/ano na década de 90 e 19,7 kg/ano em 2013.

Pescado é uma das fontes mais importantes de proteína animal do mundo. Nutrientes valiosos
como ácidos graxos de cadeia longa (ômega 3), DHA, EPA – importantes para o
desenvolvimento do cérebro e sistema nervoso (fetos e bebês). Fonte de proteína de alta
qualidade e fácil digestão, possui todos aminoácidos essenciais, rico em várias vitaminas (D, A
e B), minerais (cálcio, iodo, zinco, ferro, selênio). Melhora saúde vascular e há evidências
convincentes dos benefícios trazido pelo consumo de pescado para reduzir o risco por doença
coronariana e melhorar o neurodesenvolvimento em bebês e crianças quando a mãe consome
pescado antes e durante a gravidez.

A produção aquícola mundial é liderada pela Ásia há pelo menos 20 anos, representando cerca
de 89% da produção mundial de pescado para consumo humano. África e as Américas
melhoraram suas respectivas participações na produção total mundial, enquanto que Europa e
Oceania tiveram pequena queda. O Brasil é o décimo quarto produtor mundial e o segundo
maior produtor de aquicultura no continente americano após o Chile.

Gráfico 02. Os 15 maiores produtores mundiais de organismos aquáticos e os principais grupos de


espécies no ano de 2014.
PEIXES OUTROS TOTAL PRODUÇÃO
MAIORES PLANTAS
AQUICULTURA AQUICULTURA MOLUSCOS CRUSTÁCEOS ANIMAIS ANIMAIS TOTAL
PRODUTORES AQUÁTICAS
CONTINENTAL MARINHA AQUÁTICOS AQUÁTICOS AQUICULTURA

( Mil toneladas)


Fonte: FAO 2016

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O Brasil é considerado um dos países com maior potencial para aquicultura, devido seu amplo
território (8,5 milhões Km2), 8.500 km de faixa costeira, mais de 5 milhões de hectares de água
represada em reservatórios, principais bacias hidrográficas do mundo (água e patrimônio
genético), grande parte do país sob clima tropical e equatorial, grande produtor de matérias
primas para rações (milho, soja, farinhas animais) e com um mercado interno ávido por
pescado.

Segundo dados da Agrosat - Estatística de Comércio Exterior do Agronegócio Brasileiro, a


importação de pescado no ano de 2016 foi de US$ 1,2 bilhões referente a 355 mil toneladas de
pescado importado, sendo o Chile principal exportador com quase 50% das importações
Brasileiras de pescado. Já a exportação de pescado em 2016 foi de US$ 236 milhões referente
a aproximadamente 40 mil toneladas.

As estatísticas da Aquicultura Brasileira ainda são muito divergentes, mas os últimos dados da
produção Aquícola do ano de 2015 foi da ordem de 483 mil toneladas. Ainda segundo relatório
da FAO 2016, estima crescimento de 104% da Aquicultura e Pesca no Brasil até o ano de 2025.

A diversidade de espécies de peixes no Brasil, tanto de água doce como marinha impressiona.
A ictiofauna compreende 2.300 espécies de peixes de água doce (Check list of the freshwater
Fishes of South and Central America, Reis et al., 2003) e 1.298 espécies marinhas, segundo
Menezes et al.,(2003). Todavia, o conhecimento sobre a diversidade desta ictiofauna é ainda
incompleto, como atestam as dezenas de espécies de peixes descritas anualmente no Brasil,
portanto, se sabe que a riqueza total é muito maior.

Com essa diversidade de espécie de peixes, encontramos espécies com diferentes aptidões,
seja ela para pesca esportiva, para aquariofilia, para engorda/consumo. Muitas espécies
acabam preenchendo requisitos que atendem todas estas aptidões. Algumas das espécies
nativas de água doce reconhecidas para pesca esportiva são o tucunaré, dourado, piraíba,
pintado e cachara, matrinxã, pirarara, entre outras. Para aquariofilia, peixes como acará disco,
acará bandeira, apaiari/oscar, tetra cardinal, arraias, cascudos, etc. Já as principais espécies
nativas que compõem as mais importantes cadeias produtivas da piscicultura no Brasil são o
tambaqui, pintado e pirarucu.

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TAMBAQUI – Colossoma macropomum

Tambaqui é a principal espécie nativa produzida no Brasil, sendo a região norte a maior
produtora. A produção de peixes redondos em 2011 era estimada em 97 mil toneladas e a
produção saltou para 186 mil toneladas em 2014. O estado de Rondônia é o maior produtor de
tambaqui do Brasil com produção em 2005 ao redor de 5.000 toneladas e estimada em 2015
em 65.000 toneladas, certamente um caso de sucesso para piscicultura brasileira.

A espécie possui características muito favoráveis para criação, como alta tolerância a baixos
níveis de oxigênio, hábito alimentar onívoro, habilidade em filtrar alimento natural
(zooplâncton), alta taxa de crescimento e ser extremamente resistente aos manejos. Além
disso, a facilidade para produção dos alevinos (formas jovens) e facilidade de escoamento da
produção, fizeram do tambaqui, a principal espécie da Aquicultura Brasileira.

Foto 01. Exemplar do peixe redondo amazônico, tambaqui.

A maturação sexual das fêmeas de tambaqui ocorre ao redor do 3º ao 4º ano de vida e nos
machos ao redor do 2º ao 3º ano de vida, na região amazônica. A época de reprodução
coincide com a estação das chuvas, geralmente de novembro a março, sendo observada uma
maior concentração de desovas de dezembro a fevereiro.

Tambaqui é um peixe reofílico, migrador em seu ambiente natural para realizar a reprodução.
O processo de reprodução artificial se inicia com a seleção das matrizes em estágio avançado
de reprodução. As fêmeas ficam com abdômen volumoso, macio, e papila genital avermelhada
(figura 02) e os machos liberam sêmem de cor branca após pressão no abdômem ou até
espontaneamente (figura 03). Após seleção, é realizado o processo de indução hormonal.

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Figura 02. Tambaqui fêmea com ventre distendido, barriga abaulada e papila genital intumescida e
vascularizada (Foto: José Augusto Senhorini).

Figura 03. Foto de pacu liberando sêmem durante aplicação de hormônio hipofisário (Foto: José
Augusto Senhorini).

Em geral a indução hormonal do tambaqui à desova é realizada com duas doses de extrato de
hipófise, sendo primeira aplicação com 0,5mg de extrato de hipófise por kg de peso vivo da
fêmea e 5 mg de extrato de hipófise por kg de peso da fêmea. Para os machos geralmente
utilizado dose única no momento da segunda dose da fêmea e dose varia de 1,0 a 3,0 mg de
extrato de hipófise por kg de peso vivo do macho. O intervalo entre as doses é de
normalmente 8 horas.

Após processo de injeção hormonal, inicia-se a contagem de horas graus, que para tambaqui é
de 260 a 290 horas grau (soma da temperatura da água de hora em hora), para iniciar a
desova. Cada grama de ovócito de tambaqui contém entre 1.000 e 1.200 ovócitos. Após

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desova e fecundação, ovos são incubados em incubadoras verticais onde permanecem de 3 a 6
dias antes de seguirem para tanques berçários preparados para produção de alimento vivo.
Alevinos de 3 a 5 cm estarão prontos para serem comercializados em 40 a 60 dias.

A engorda de tambaqui no Brasil é realizada em sua maioria em tanques de terra ou viveiros


escavados, sistema com baixa renovação de água, sistema semi intensivo (sem uso de
aeradores) e produtividade variando de 5.000 a 12.000 kg de tambaqui por hectare de lâmina
de água ou 0,5 a 1,2 kg de biomassa por metro quadrado.

Na maioria das piscicultura que produzem tambaqui, a produção é realizada em 02 fases,


estocando alevinos de 1 a 10 gramas em berçários com densidades aproximada de 10 alevinos
por metro quadrado, permanecendo por 2 a 3 meses onde são transferidos para tanques de
engorda com 100 a 200 gramas.

A engorda, realizada normalmente em viveiros escavados ou barragens, é estocada para que


os peixes alcancem biomassa final ao redor de 5,0 a 12 toneladas por hectare. Peso médio de
abate varia de acordo com o mercado, que na região norte predomina tambaquis acima de 3,0
kg de peso vivo, obtido com ciclo total de produção de 12 a 14 meses. Assim, densidade de
estocagem varia de 1.600 a 4.000 peixes por hectare, dependendo da produtividade e nível
tecnológico de cada fazenda.

Produções em sistemas intensivos de tambaqui são raros e é caracterizado por utilizar sistema
de aeração elétrica, uso de geradores de energia, equipamento para monitoramento da
qualidade da água e água para reposição e troca. A produção alcançada nesse sistema está
entre 20 a 30 toneladas por hectare.

O mercado de Manaus é o principal destino do tambaqui produzido na região norte e estudos


indicam que somente Manaus absorve mais de 50.000 toneladas de tambaqui anualmente.
Com uma população de 2,3 milhões de habitantes, somente o tambaqui contribui para um
consumo de 21,7 kg por habitante por ano.

Um dos gargalos no processamento da espécie é a presença de espinhas intramusculares em


forma de “Y”, que dificultam o consumo desta espécie, principalmente com peixes com porte
inferior a 1,5 kg. Entretanto a retirada das espinhas em “Y” é possível utilizando técnica de
filetagem específica.

Um corte muito apreciado do tambaqui são suas costelas, que apesar do baixo rendimento (20
a 25%) e ser pouco conhecido até no Brasil, ganhou em 2011 na maior feira de pescado do
mundo (European Seafood Show em Bruxelas), o prêmio de melhor produto Food Service com

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a costela de tambaqui marinada sabor barbecue, pré cozida e pronta para consumo (Figura
04).

Figura 04. Costela de tambaqui marinada produzida pela empresa francesa Halieutis.

SURUBIM OU PINTADO – Pseudoplatystoma spp.

O nome surubim é uma denominação genérica e popular que englobam diversas espécies de
bagres brasileiros, mas principalmente as espécies pertencentes ao gênero Pseudoplatystoma,
peixes de água doce, recobertos por pele espessa chamados de “peixes de couro”, hábito
noturno, carnívoro preferencialmente piscívoro, migratórias na época de reprodução com
desovas totais, presença de acúleos ou ferrões nas nadadeiras peitorais e dorsais e presença
de barbilhões.

As espécies pertencentes a este gênero, são encontradas em praticamente todas as bacias


hidrográficas brasileiras e além do nome surubim, ainda podem conhecidas com os nomes de
pintado, cachara, sorubim, surubim pintado, caparari, entre outros.

Até recentemente, 3 espécies de Pseudoplatystoma eram bem conhecidas no Brasil, como o


pintado Pseudoplatystoma corruscans da Bacia do Prata e São Francisco, a cachara
Pseudoplatystoma fasciatum da Bacia do Prata e Bacia Amazônica e o caparari
Pseudoplatystoma tigrinum da Bacia Amazônica. Entretanto, em 2007 Buitrago-Suárez e Burr
propuseram subdivisões em 8 espécies.

O surubim possui grande valor comercial no Brasil, quer seja pela excelente qualidade
organoléptica de sua carne ou como espécies para pesca esportiva. Até meados da década 90,
praticamente todo surubim disponível nos mercados, peixarias e feiras eram provenientes da

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pesca extrativa, pois ainda não se tinha desenvolvida a tecnologia de produção de alevinos em
escala comercial.

Figura 05. Filé de pintado defumado

A pesca extrativa do surubim ocorre tanto na forma artesanal como industrial e as estatísticas
entre os anos de 2007 a 2011, indicam que a produção pesqueira para esta espécie está
estagnada. Pode ser considerada uma espécie com vulnerabilidade de média a alta nos
ecossistemas que se encontra, principalmente pela crescente alteração do seu habitat, tais
como bloqueio do ciclo migratório em função da construção de hidrelétricas, assoreamento e
poluição dos rios, destruição de mananciais e matas ciliares. Além disso, a sobrepesca, o
desrespeito ao período de defeso e a utilização de métodos e aparelhos de pesca
inadequados, impactam negativamente os estoques naturais destas espécies.

Dentre todas as espécies de surubins, o pintado Pseudoplatystoma corruscans é o mais


conhecido, podendo ser encontrado na Bacia do Prata (Rio Paraná, Rio Paraguai e Uruguai) e
bacia do rio São Francisco. Sua principal característica, comparada aos outros surubins, é o
desenho de pintas negras arredondadas por todo o corpo e o tamanho e peso que animais
adultos atingem, com registro superando os 100 kg de peso vivo. Portanto, é muito comum se
encontrar o nome pintado para qualquer peixe ou híbrido pertencente ao gênero
Pseudoplatystoma e até outros bagres que são comercializados com o nome pintado.

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Figura 06. Exemplares de pintado Pseudoplatystoma corruscans e cachara Pseudoplatystoma

reticulatum

O grande gargalo para produção do surubim em escala industrial não estava na reprodução
(respondem com sucesso à indução hormonal para obtenção dos gametas) mas sim ao
processo de treinamento alimentar dos juvenis, para aceitarem rações extrusadas comerciais.
Foi em meados da década de 90 onde empresas conseguiram com êxito o processo de
produção de alevinos em grande escala e foi possível devido ao desenvolvimento de algumas
tecnologias como: cruzamento do pintado Pseudoplatystoma corruscans com a cachara
Pseudoplatystoma reticulatum resultando no híbrido denominado “ponto e vírgula” (Figura
07), produção de alimento vivo em quantidade e qualidade para as larvas, definições de
densidades na larvicultura e alevinagem, transição gradual do alimento vivo para alimento
inerte, transição gradual do alimento inerte para alimento seco, programas de classificações,
utilização de sistemas de alto fluxo de água (raceways), uso de rações micropeletes, terapias
contra enfermidades, galpões com baixa luminosidade, entre outros.

Figura 07. Híbrido de pintado com cachara denominado pintachara ou “ponto e vírgula”.

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Piscicultura tinha dado mais um passo importante e alevinos do híbrido “ponto e vírgula”
estavam disponíveis em grande escala, em tamanhos acima de 13 cm, garantindo seu total
treinamento a rações extrusadas comerciais, com preços ao redor de US$ 1,00/unidade.

Com tecnologia desenvolvida para produção do alevino, projetos de engorda se espalham pelo
Brasil, tanto em tanques escavados como em tanques rede. Considerado uma das espécies de
água doce de maior valor comercial e com qualidades organolépticas características como
carne de coloração clara, textura firme, baixo teor de gordura, sabor pouco acentuado e
ausência de espinhas intramusculares, além do marketing já estabelecido, sua produção
aumenta significativamente a cada ano.

No ano de 2000, passa a ser comercializado inteiro fresco nas gôndolas de hipermercados da
cidade de São Paulo, com selo de garantia de origem. Com tamanhos padronizados,
fornecimento e preços constantes, extrema qualidade e frescor, rastreabilidade, produção
com foco em sustentabilidade, os surubins da piscicultura ganham espaço rapidamente,
concorrendo deslealmente com o tradicional surubim de grande porte proveniente da pesca.

Entre os anos de 2000 a 2010, o estado do Mato Grosso do Sul lidera a produção do surubim,
tanto na produção de alevinos como na engorda. Estima-se que nesses 10 anos foram
produzidos acima de 15.000 toneladas somente em Mato Grosso do Sul, destinadas
principalmente ao mercado interno e uma pequena parte à exportação.

Gargalos tecnológicos no sistema de produção como alto custo unitário dos alevinos,
crescimento moderado dos peixes (tanque escavado e tanque rede), conversões alimentares
altas para rações de peixes carnívoros (alto custo), canibalismo acentuado nas fases de recria
(baixa sobrevivência), susceptibilidade às enfermidades parasitárias e bacterianas
(enterobactérias) e consequentemente alto custo de produção, fizeram com que um novo
híbrido, o “Pintado da Amazônia” substituísse totalmente o antigo híbrido “ponto e vírgula”.

Os híbridos denominados “pintado da Amazônia” (Figura 08) são resultantes do cruzamento de


espécies do gênero Pseudoplatystoma (pintado, cachara, híbridos) com espécies do gênero
(Leiarius). No fim da década de 90 já era possível se encontrar esse híbrido em algumas
pisciculturas do estado de Mato Grosso, mas foi a partir de 2010 que o “pintado da Amazônia”
dominou as pisciculturas de Mato Grosso, que se tornou o maior produtor brasileiro desse
novo surubim.

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Figura 08. Híbrido do cruzamento de pintado/cachara com espécies do gênero Leiarius.

O híbrido pintado da Amazônia é um peixe semelhante aos puros pintado Pseudoplatystoma


corruscans e cachara Pseudoplatystoma reticulatum, tanto na marcação e coloração externas
como pelas características organolépticas da carne. Zootecnicamente é um peixe superior,
com custo menor para aquisição dos alevinos (R$ 0,60 a R$ 1,20 a unidade), canibalismo
moderado nas fases iniciais, boa adaptação aos diferentes sistemas produtivos, boa adaptação
as rações com baixo nível de proteína, biomassa por área mais alta e com boa conversão
alimentar, diminuição significativa dos problemas sanitários com enterobactérias e
consequentemente menor custo de produção.

A produção do novo híbrido espalha-se rapidamente pelas pisciculturas brasileiras. Os


principais estados produtores são Mato Grosso, Rondônia e Mato Grosso do Sul com
estimativa de produção em 2015 ao redor de 12.000 ton, 3.000 ton e 2.000 toneladas
respectivamente.

O consumo de surubim no Brasil tem crescido a cada ano e esse crescimento só foi possível
devido a produção pelas pisciculturas. Aumento da disponibilidade de alevinos, diminuição dos
custos de produção e aumento do número de plantas processadoras, fez com que esta espécie
se tornasse cada vez mais popular. O principal produto ainda comercializado é o inteiro fresco,
seguido pelos cortes filés de lombo, filés da barriga e postas.

Desde 2005 empresas brasileiras exportam surubim, sendo possível encontrar filés nas
prateleiras de países da Europa e nos Estados Unidos. Entretanto, não houve crescimento
significativo para este mercado devido ao alto preço para consumidor final, falta de um
diferencial para o produto como acontece com a costelinha de tambaqui ou filé de pirarucu,
por ser um bagre/catfish (imagem peixe popular/barato), entres outros fatores.

No mercado brasileiro e de países Sul-americanos, em especial Argentina, Colômbia, Uruguai,


Paraguai, há uma crescente demanda pelo surubim, principalmente por ser uma espécie
(Pseudoplatystoma spp) reconhecida e presente nas bacias hidrográficas desses países. O

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aumento da produção de surubim no Brasil aliado ao aumento da eficiência na produção,
elaboração de produtos processados, falta de peixes provenientes da pesca (quantidade,
padronização, qualidade, custo, constância no fornecimento), mudança no hábito de consumo
(alimentos saudáveis), entre outros fatores, proporcionará ao surubim manter-se entre as
principais espécies para a piscicultura brasileira.

PIRARUCU – Arapaima gigas

O pirarucu, também conhecido como “gigante da Amazônia” é considerado o maior peixe de


escama de água doce do planeta. Pertencente à família dos Osteoglossídeos, o
pirarucu Arapaima gigas é considerado um peixe primitivo, praticamente um fóssil vivo, que
surgiu durante o Período Jurássico (165 milhões de anos atrás), possivelmente no
supercontinente Pangea. Eles formam o elo entre os peixes ósseos ancestrais e os teleósteos
modernos. Na família Osteoglossidae, ocorrem somente dois gêneros: Osteoglossum (com
duas espécies de aruanã O. bicirrhosum e O. ferreirai) e Arapaima (com uma única espécie, A.
gigas).

É considerada uma das espécies mais promissoras para piscicultura brasileira e possui algumas
características bem peculiares: peixe de escama, hábito alimentar carnívoro, respiração aérea
obrigatória, alcança na natureza entre 2 a 3 metros de comprimento e pode chegar a 200 kg de
peso vivo, maturidade sexual ao redor de 3 a 4 anos com peso de 40 a 60 kg, formam casais,
constroem ninhos, desovas parceladas e há cuidado parental com a prole.

Pirarucu é uma espécie que pertence a CITES (Convention on International Trade in


Endangered Species of Wild Fauna and Flora) que é uma Convenção Internacional das espécies
da fauna e flora selvagens em perigo de extinção. No Brasil, os procedimentos propostos pela
convenção são de responsabilidade do Ibama, que avalia as licenças de importação e
exportação.

Até o ano de 2011, os pirarucus produzidos pelas pisciculturas não podiam ser exportados,
pois não havia regulamentação específica para espécie. Neste ano o Ibama e o extinto MPA
(Ministério da Pesca e Aquicultura) publicaram a IN 001 que regulamenta o Cadastramento do
Plantel de Matrizes de Pirarucu no estado de Rondônia e no ano de 2012 fazendas de
reprodução foram vistoriadas e os plantéis de reprodutores validados (microchips e coleta de

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material genético), viabilizando definitivamente o “passaporte” internacional para os alevinos-
carnes produzidas de matrizes cadastradas.

Figura 09. Leitura dos microchips no plantel de matrizes pirarucu durante vistoria realizada pelo Ibama
em 2012 nos Laboratórios de Reprodução do estado de Rondônia.

Um dos grandes gargalos para produção do pirarucu em escala industrial, ainda é o processo
de produção de alevinos. Pirarucus fora da época de reprodução não tem dimorfismo sexual
evidente, dificultando seleção de casais para que iniciem a construção dos ninhos e
reprodução. Sexagem visual ainda apresenta erro significativo e um dos métodos desenvolvido
por uma empresa francesa é a sexagem por análise da vitelogenina, através da coleta de
sangue dos animais e teste positivo para fêmeas que produzem esta proteína.

A reprodução do pirarucu ocorre de maneira semelhante, tanto na natureza quanto nos


tanques de piscicultura, com a corte, construção do ninho, acasalamento e guarda da prole.
Comportamentos indicam que o casal está próximo do acasalamento como: mudança de
coloração dos animais, brigas entre os casais, animais nadam juntos e ficam próximo ao ninho.

Indicativos mais utilizados pelos produtores para saber que houve acasalamento é que um dos
animais ficam muito tempo parado em um local do tanque, macho fica de cor bem escura e é
possível visualizar a desova junto a cabeça do macho, fêmea fica mais agitada como se
estivesse afugentando predadores.

Processo de produção de alevinos ainda é artesanal, coletando-se ninhadas com uso de puçá e
levando-os para estruturas onde é realizado o treinamento alimentar, até atingirem tamanho

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de 15 a 20 centímetros de comprimento e estarem aptos a aceitarem rações extrusadas
comerciais, processo que leva entre 60 a 90 dias.

Estado de Rondônia lidera a engorda de pirarucu em sistema de tanques escavados com


produção ao redor de 1.500 a 2.000 toneladas ano. Sistema mais empregado é a engorda em
duas fases, sendo primeira fase estocando alevinos de 15 a 20 cm em berçários protegidos por
telas anti pássaros (fácil predação por aves) em densidade de 6 a 8 mil peixes por hectare,
onde atingem 800 g a 1.000 g em aproximadamente 70 dias. São transferidos para tanques de
engorda em densidades que variam de 800 a 1.000 peixes por hectare e atingem 10 a 12 kg em
12 meses.

A carne do pirarucu apresenta textura firme, coloração clara levemente rosada, desprovida de
espinhas intramusculares, sabor suave. É um produto versátil na culinária, podendo ser
preparado assado, grelhado, defumado, ceviche, sashimi, etc.

Figura 10. Filés de lombo e filé “mignon” de pirarucu.

Alguns dos caminhos a serem trilhados para expansão da piscicultura de peixes nativos são:

- Aumento da escala de produção para redução de custos e regularizar fornecimento;

- Conhecimento sobre nutrição dos peixes nativos, proporcionando rações mais eficientes e
menor impacto ambiental;

- Melhoramento genético e seleção, visando obter melhores taxas de crescimento, conversão


alimentar, uniformidade, rendimentos;

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- Desenvolvimento e difusão de tecnologias de reprodução e produção de alevinos, visando
aumentar oferta, qualidade e diminuir custos;

- Mecanismos mais eficientes de difusão de tecnologias gerados pela pesquisa;

- Uso de tecnologias de processamento para retirada de espinhas, agregação de valor,


facilidade de preparo e conveniência, curtimento da pele;

- Novas formas de preparo como pratos prontos, sous vide, cook & chill, marinados, embutidos

- Projeto de comunicação/marketing visando criar hábito de consumo para as espécies nativas;

- Apelo às regiões Amazônicas e Pantanal, para criar identidade para nossos produtos;

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