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Histórias de Sucesso
EXPERIÊNCIAS EMPREENDEDORAS
ORGANIZADO POR MARA REGINA VEIT

Histórias
de Sucesso
EXPERIÊNCIAS EMPREENDEDORAS

BELO HORIZONTE - 2003


Copyright © 2003, SEBRAE – Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É permitida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por
qualquer meio, desde que divulgadas as fontes.

Este trabalho é resultado de uma parceria entre o SEBRAE/NA, SEBRAE/MG, SEBRAE/RJ, PUC-Rio, IBMEC-RJ

Coordenação Geral
Mara Regina Veit
Coordenação e Concepção do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso

Supervisão
Cezar Kirszenblatt
Daniela Almeida Teixeira
Renata Barbosa de Araújo

Apoio
Carlos Magno Almeida Santos
Dennis de Castro Barros
Izabela Andrade Lima
Ludmila Pereira de Araújo
Murilo de Aquino Terra
Rosana Carla de Figueiredo
Sandro Servino
Sílvia Penna Chaves Lobato
Túlio César Cruz Portugal

Produção Editorial do Livro


Núcleo de Comunicação do Sebrae/MG

Produção Gráfica do Livro


Perfil Publicidade

Desenvolvimento do Site
Daniela Almeida Teixeira
bhs.com.br

Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas


SEBRAE
Armando Monteiro Neto, Presidente do Conselho Deliberativo Nacional
Silvano Gianni, Diretor-Presidente
Paulo Tarciso Okamotto, Diretor Administrativo-Financeiro
Luiz Carlos Barboza, Diretor Técnico

SEBRAE-MG
Luiz Carlos Dias Oliveira, Presidente do Conselho Deliberativo
Stalin Amorim Duarte, Diretor Superintendente
Luiz Márcio Haddad Pereira Santos, Diretor de Desenvolvimento e Administração
Sebastião Costa da Silva, Diretor de Comercialização e Articulação Regional

SEBRAE-RJ
Paulo Alcântara Gomes, Presidente do Conselho Deliberativo
Paulo Maurício Castelo Branco, Diretor Superintendente
Evandro Peçanha Alves, Diretor Técnico
Celina Vargas do Amaral Peixoto, Diretora Técnica
O projeto
O Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso foi criado para que histórias emocionantes de
empreendedores, que fizeram a diferença em sua comunidade, em suas empresas, em suas
instituições, possam ser conhecidas, disseminadas e potencializadas na construção de novos
horizontes empresariais.

O método
O livro Histórias de Sucesso foi concebido com o intuito de utilizar o método de estudo de
caso para estruturar as experiências do Sebrae, e também contribuir para a gestão do
conhecimento nas organizações, estimulando a produtividade e capacidade de inovação, de
modo a gerar empresas mais inteligentes e competitivas.

A Internet
A concepção do Projeto Estudo de Casos para o Portal Sebrae www.sebrae.com.br pretende
divulgar e ampliar o conhecimento das ações do Sebrae e facilitar para as instituições e
profissionais que atuam na rede de ensino, bem como instrutores, consultores e instituições
parceiras que integram a Rede Sebrae, um conteúdo didaticamente estruturado sobre
pequenas empresas, para ser utilizado nos cursos de graduação, pós-graduação, programas de
treinamento e consultoria realizado com alunos, empreendedores e empresários em todo o
País.

O Site dos Casos de Sucesso do Sebrae, foi concebido tendo como referência os modelos
utilizados por Babson College e Harvard Business School , com o diferencial de apresentar
vídeos, fotografias, artigos de jornal e fórum de discussão aos clientes cadastrados no site,
complementando o conteúdo didático de cada estudo de caso. O site também contempla um
manual de orientação para professores e alunos que indica como utilizar e aplicar um estudo
de caso em sala de aula para fins didáticos, além de possuir o espaço favoritos pessoais onde
os clientes poderão salvar, dentro do site do Sebrae, os casos de sucesso de seu maior
interesse

A Gestão do Conhecimento
A partir das 80 experiências empreendedoras de todo o país, contempladas na primeira etapa
do projeto – 2002/2003, serão inseridos em 2004 outros casos de estudo, estruturados na
mesma metodologia, compondo um significativo banco de dados sobre pequenas empresas.

Esta obra tem sido construída com participação e dedicação de vários profissionais, técnicos
do Sebrae, consultores e professores da academia de diversas instituições, com o objetivo de
oportunizar aos leitores estudar histórias reais e transferir este conteúdo para a gestão do
conhecimento de seus atuais e futuros empreendimentos.

Mara Regina Veit


Gerente de Atendimento e Tecnologia do Sebrae/MG, Coordenadora do Sebrae da Prioridade
Potencializar e Difundir as Experiências de Sucesso 2002/2003, Concepção do Projeto Desenvolvendo
Estudo de Casos e Organizadora do Livro Histórias de Sucesso – Experiências Empreendedoras.
Pedagoga, Pós-graduada:Treinamento Empresarial/PUCRS, Administração/ UFRGS, MBA/ Marketing-
FGV/Ohio, Mestranda Administração/FUMEC-MG, autora do livro Consultoria Interna - Use a rede de
inteligência que existe em sua empresa. Ed. Casa Qualidade - 1998.
O EMPREENDEDORISMO
LEGAL NO PAÍS DA BUROCRACIA
ALAGOAS

INTRODUÇÃO

N o Brasil, a burocracia e o complexo andamento dos processos


de abertura de empresas levaram muitos empreendedores a desistirem
do sonho de ter o próprio negócio. Traçar planos, elaborar metas, idealizar
produtos, pesquisar mercados, etc., além do cumprimento de etapas
consideradas básicas para um bom planejamento, o empreendedor
p recisava ter um misto de paciência e capital, em virtude da
lentidão no encaminhamento dos processos e dos custos elevados de
operacionalização.
Até o final de 2000, em Alagoas, o ambiente para o surgimento e
a legalização de microempreendimentos e pequenos empreendimentos
não favorecia o empreendedorismo da comunidade. A Junta Comercial
do Estado considerava que os prazos para a abertura de empresas
eram excessivamente longos.
Outros estados como Distrito Federal, Goiás e Paraíba também
esbarravam, como em Alagoas, em prazos extensos e dispendiosos. No
entanto, um movimento de lideranças federais, estaduais e municipais
resolveu criar alternativas para o impasse. Em fevereiro de 2001, os
ó rgãos alagoanos, seguindo a tendência nacional, firmaram uma
parceria para a implantação da Central de Atendimento Empresarial –
chamada de "FÁCIL".
O nome fantasia pretendia fortalecer a nova imagem para o
andamento dos processos, já que em um só lugar reuniam-se todos os
postos de atendimentos envolvidos diretamente no re g i s t ro e
legalização de empresas. Para o contador Lourenço Barros da Silva, a
central representou uma nova realidade:
"Antes do FÁCIL, a gente gastava até noventa dias, agora se tiver tudo
certinho, a coisa é simples, de oito a dez dias está tudo resolvido".
Melissa Rossana de Oliveira Menezes, Analista de Comunicação Sebrae Alagoas, elaborou o
estudo de caso sob a orientação de Daniela Abrantes Ferreira Serpa, baseado no curso
Desenvolvendo Casos de Sucesso, realizado pelo Sebrae, Ibmec-RJ e PUC-RJ.

HISTÓRIAS DE SUCESSO - EXPERIÊNCIAS EMPREENDEDORAS EDIÇÃO 2003


FACHADA DO PRÉDIO “FÁCIL” ANEXO AO SEBRAE ALAGOAS

HISTÓRIAS DE SUCESSO - EXPERIÊNCIAS EMPREENDEDORAS EDIÇÃO 2003

BALCÃO DE ATENDIMENTO AO CLIENTE


O EMPREENDEDORISMO LEGAL NO PAÍS DA BUROCRACIA - AL 3

VIA CRÚCIS BUROCRÁTICA

N o período de 1990 a 1999, foram constituídas 4,9 milhões de


empresas no Brasil, dentre as quais 2,7 milhões foram representados
pelas microempresas. Em 1999, foi registrada a legalização de 475.005
empresas em todo o país, com as microempresas totalizando 267.525,
re p resentando um percentual de 56,32% do total de empre s a s
formalizadas. Na distribuição entre as regiões, o Sudeste se destacou
1

pelo maior número de microempresas constituídas, com um total de


124.147, seguido do Sul, com 55.737; Nordeste, 45.551; Centro-Oeste,
27.366; e Norte, com 14.724.
No segundo semestre de 1999, dados de uma pesquisa realizada
pelo Sebrae Nacional apontaram a falta de padronização na
2

documentação exigida pelas juntas comerciais como um fator crítico


no processo de registro e legalização de empresas nos 27 estados da
federação (localizados nas capitais). Na ocasião, foram entrevistados
2.000 empresários que abriram suas empresas naquele período, 400
contabilistas e todos os órgãos envolvidos no processo. Outros
agravantes, como o custo dispendioso para o registro, o tempo para a
legalização e a insuficiência de informações, geraram um elevado nível
de insatisfação nos empresários brasileiros.
Em Alagoas, no Nordeste do país, até janeiro de 2001, a
legalização e o registro de empresas representava um entrave ao
surgimento de novos negócios. A complexidade no andamento dos
p rocessos levava os órgãos envolvidos a incorrer em custos de
re p rocessamento, com verificações e análises repetitivas de
documentos, o que acarretava a elevação dos gastos operacionais.
A rotina do futuro empresário compreendia idas e vindas de órgão
em órgão, de secretaria em secretaria, para conseguir regularizar toda
a documentação. Para evitar o desgaste burocrático, os empresários
Coordenação Técnica do Projeto: Carmen Eurídice Calheiros Gomes, Dilma Maria Moura
Alves, Renata Fonseca e Tiago Quintela Melo .

1
Fonte: A Micro e Pequena Empresa no Brasil, site do Sebrae, www.sebrae.com.br, em
microempresa.
2
Fonte: Pesquisa sobre o Processo de Registro e Legalização de Empresa, site do Sebrae,
www.sebrae.com.br, em microempresas – estudos temáticos – dezembro de 2002.

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O EMPREENDEDORISMO LEGAL NO PAÍS DA BUROCRACIA - AL 4

delegavam a formalização da empresa a intermediários ou mesmo a


terceiros. Um gasto desnecessário, sem dúvida, em grande parte dos
casos.
Dados da Junta Comercial do Estado (1999) apontavam que os
prazos médios oscilavam entre 40 dias, para as situações consideradas
como normais, a 80 dias, para aqueles processos com implicações
jurídicas. Entre os problemas levantados por empre e n d e d o re s
entrevistados, o isolamento dos órgãos liderava as reclamações, pois o
nivelamento de informações entre eles era quase inexistente.
No ano de 2000, o Sebrae buscou, em parcerias com as lideranças
e entidades locais, construir uma nova realidade legal para Alagoas. Em
março de 2000, foi encaminhada à Secretaria de Estado de Fazenda
uma minuta de um Projeto de Lei que estabelecia um tratamento
diferenciado às microempresas e às pequenas empresas no que se
referia ao ICMS – este seria o embrião das mudanças que viriam a
acontecer.
Nessa minuta, foram sugeridas a elevação do enquadramento de
microempresa e a criação da figura da empresa de pequeno porte,
além de uma política de estímulo ao emprego, permitindo que as
empresas de pequeno porte pudessem abater mensalmente do ICMS
devido um percentual correspondente ao número de empregados
regularmente registrados. Isso significava que quanto maior o número
de empregados regulares, maiores seriam os descontos no ICMS.
Constava ainda como proposta o desconto no ICMS às empresas que
investissem na qualificação de seus empregados e na modernização
dos processos de qualidade e produtividade.

"Era preciso criar condições para o surgimento e o fortalecimento


das microempresas e pequenas empresas no Estado, visto que os
pequenos negócios representam boa parte da empregabilidade no
Brasil ", afirmou Renata Fonseca, Gerente da Unidade Jurídica e
de Políticas Públicas, do Sebrae Alagoas.

O início de tudo: Desenvolvimento da Central Empresarial


A idéia de criar uma Central de Atendimento Empresarial – FÁCIL
surgiu em virtude da constatação de que o processo de legalização de
empresas no país apresentava-se complexo, lento e oneroso. A

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iniciativa foi incentivada pelo Ministério de Desenvolvimento, Indústria


e Comércio Exterior, por meio do Departamento Nacional de Registro
do Comércio – DNRC, em parceria com o Sebrae nacional, em todos
os estados da federação.
Em fevereiro de 2001, com o terreno arado pela viabilização e
operacionalização de políticas públicas mais justas de incentivos
fiscais, implantou-se uma Central de Atendimento Empresarial – FÁCIL
–, em Maceió, capital alagoana, anexa à sede administrativa do Sebrae.
A Central de Atendimento Empresarial alagoana criou uma rede de
comunicação precisa e segura que conseguiu interligar todos os órgãos
vinculados ao processo de legalização de empresas. Nesse processo de
desburocratização, não existiam sócios majoritários ou minoritários.
Cada órgão e entidade permaneceram com a sua individualidade,
tendo sido respeitadas as normas de operação acordadas.

SEM SÓCIOS, APENAS PARCEIROS

E m uma ação que envolveu parceiros de diversos segmentos de


atuação, o papel do Sebrae foi, sem dúvida, o de articulador. Fernanda
Vilela, Diretora Superintendente à época, reconheceu, a frente do
Sebrae, a importância de desenvolver em parcerias políticas públicas
mais pró-ativas para o Estado.
Pela vasta experiência em políticas públicas, por causa da
formação acadêmica em advocacia e especialização em Direito
Tributário pela PUC São Paulo, Fernanda Vilela sempre esteve à frente
de importantes negociações financeiras, a exemplo das assessorias
jurídicas prestadas ao Copertrading Comércio, Exportação e
Importação S/A e à Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e
Álcool de Alagoas. Ao assumir a Superintendência do Sebrae, em maio
de 1999, iniciou um trabalho em busca de incentivos fiscais que
incentivassem o empreendedorismo em Alagoas, por meio da

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realização de estudos, análises, pesquisas e negociações com o


governo do Estado, mas com foco nas microempresas e pequenas
empresas.
Para Fernanda Vilela, a existência de leis no Estado não implicava
dizer, necessariamente, que elas estavam contribuindo para a formação
de um ambiente favorável ao surgimento e sustentabilidade das
microempresas e pequenas empresas. Era preciso questionar, analisar
e chegar a um consenso – Governo, Entidades Representativas e
Órgãos Municipais – se os benefícios estavam sendo reconhecidos por
todos. Segundo ela,

"Só o fato de termos uma nova legislação que prevê tratamento


fiscal direrenciado às microempresas e às pequenas empresas,
conforme consta na Constituição Federal, é uma conquista
para todas as instituições que estão comprometidas com o
desenvolvimento de Alagoas".

Cientes do papel específico dos órgãos envolvidos no processo de


legalização, Sebrae e Governo Estadual negociaram, de meados de
1999 a final de 2001, o processo de adaptação desses órgãos à
proposta de unificação pretendida pela Central de Atendimento
Empresarial – FÁCIL. Era uma solução encontrada para todos e por
todos, a partir do esforço de cada um em cumprir a sua parte.
A divisão dos trabalhos foi feita entre os parceiros, competindo a
cada órgão o repasse de informação e formalização das ações nas
diversas fases do processo, de acordo com as peculiaridades de cada
um. Além das orientações jurídica e empresarial dadas pelo Sebrae,
foram reunidos no mesmo espaço físico postos de atendimento da
Receita Federal, Junta Comercial, Secretaria de Estado de Fazenda,
Secretarias Municipais de Finanças e de Controle e Convívio Urbano,
Conselho Regional de Contabilidade e Banco do Brasil. Em julho de
2001, o Corpo de Bombeiros e a Vigilância Sanitária Municipal passaram
a integrar a equipe de trabalho.
Ao Sebrae coube informar sobre todas as etapas do processo de
legalização, direcionando os empreendedores informais ao Balcão
Sebrae para uma orientação mercadológica detalhada, além da
orientação para participarem de palestras gerenciais. A Junta Comercial
p e rmaneceu com a orientação quanto à formação do nome
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empresarial, assim como na realização da pesquisa do mesmo;


informações quanto às peculiaridades do tipo empresarial pretendido;
análise prévia dos atos constitutivos a serem levados a registro e os
valores das taxas a serem recolhidas.
O Conselho Regional de Contabilidade era responsável pelas
i n f o rmações sobre a atuação dos contabilistas e as obrigações
e m p resariais em geral, em especial as tributárias. A Prefeitura
Municipal de Maceió, por meio da Secretaria Municipal de Controle
Urbano, analisava as atividades a serem desenvolvidas pelo
empresário, posicionando-se quanto ao endereço da empresa – de
acordo com zoneamento da cidade – além de orientar sobre as
exigências estruturais necessárias. A Secretaria Municipal de Finanças
cumpria o papel de informar às prestadoras de serviços sobre as
alíquotas aplicáveis ao caso, bem como sobre o regime de escrituração
pertinente e a aprovação da liberação do alvará de funcionamento.
O governo do Estado foi representado pela Secretaria de Estado
de Fazenda, responsável pelas pesquisas fiscal e cadastral dos sócios
ou titular e pelas informações sobre a possibilidade de ser
microempresa ou empresa de pequeno porte para o Estado de
Alagoas, posicionando-se, ainda, quanto ao local de funcionamento da
empresa. Entre os serviços oferecidos, podiam-se encontrar o registro
e o cadastro para a liberação da inscrição estadual.
Na Secretaria da Receita da Federal, podiam, também, ser
realizadas as pesquisas fiscal e cadastral dos sócios ou titular. No
entanto, o balcão de atendimento disponibilizava apenas as
informações sobre as possibilidades de opção pelo SIMPLES. Entre os
serviços oferecidos, encontravam-se o cadastro, o registro e a
expedição do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ. Ao Banco
do Brasil coube a efetuação do pagamento, por parte dos clientes, de
todas as taxas pertinentes ao processo.
O Corpo de Bombeiros contribuiu com o repasse aos clientes das
determinações previstas na legislação de prevenção contra incêndio,
verificando o preenchimento dos formulários necessários. Os
empresários recebiam orientações quanto ao requerimento de
segurança e consultorias na elaboração de projetos de segurança.
A Vigilância Sanitária era responsável por todas as determinações
sanitárias pertinentes à atividade mercantil a ser desenvolvida, por
meio da verificação do preenchimento do termo de responsabilidade
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sanitária. Em até 30 dias, após a constituição da empresa, a Vigilância


Sanitária deveria ser requisitada pelo empresário para a fiscalização do
estabelecimento. Cumprida esta etapa, o empresário recebia do órgão
a declaração de isento ou alvará sanitário, a depender da atividade
desenvolvida.
Pesquisas realizadas pela Secretaria Municipal de Finanças
apontaram que, no período antecedente à implantação do FÁCIL –
f e v e re i ro de 2000 a janeiro de 2001 –, foram registradas 1.491
empresas. Antes de completar um ano de funcionamento, a Central
Empresarial de Atendimento superava essa marca, chegando a 1.500
processos legalizados. Desse total, com relação aos segmentos de
atuação, 957 empresas representavam o setor do comércio, 518
serviços e 25 indústrias.
Segundo Maria Teodomira de Gusmão, experiente técnica de
contabilidade de um escritório da região, a Central re p re s e n t o u
facilidade e economia de tempo para quem precisava abrir uma
empresa.
"A acomodação e a organização dos órgãos é um fator positivo
para o trabalho dos contadores", afirmou Teodomira.
Contudo, outros contadores e contabilistas não encararam o
advento do FÁCIL de forma tão positiva. Entre as críticas recebidas
pelo Balcão de Atendimento, alguns alegaram que o FÁCIL prejudicava
os técnicos e os graduados da contabilidade, pois os empresários
estavam deixando de recorrer aos seus serviços. Quando abordados
sobre os seus posicionamentos em entrevista, não autorizaram o
registro de seus depoimentos.
Ainda assim, o FÁCIL conseguiu disseminar seus serviços por toda
a capital alagoana. Abriram-se novas firmas, em bairros diversos, desde
as áreas mais nobres e urbanizadas, como Ponta Verde e Jatiúca, até os
locais mais periféricos, como o Jacintinho. As novas empresas do
mercado seguiram a tendência tradicional de comércio, apostando em
mercadinhos, padarias, farmácias e açougues (Fonte: Pesquisa de
Caracterização das Micro e Pequenas Empresas do Estado de Alagoas,
Sebrae 2000).
A implantação da central re p resentou um marco para o processo de
tributos e desburocratização idealizado pelo Sebrae daquele Estado.

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UM PASSO ALÉM: ISENÇÃO DO ICMS

A pesar do ambiente favorável criado para a legalização de


empresas, era preciso mais. Um esforço conjunto entre os parceiros
institucionais do Estado buscou incentivos para a legalização de
empreendimentos voltados para o artesanato e a cultura popular. Em
novembro de 2001, os artesãos alagoanos foram beneficiados com a
publicação do Decreto-Lei n.º 38.639, alterando o regimento do ICMS,
que garantiu a isenção de 17% do valor das mercadorias para as
comercializações aos grandes lojistas.
De acordo com a legislação estadual, os artesãos tinham direito à
isenção do imposto apenas nas vendas diretas ao consumidor final.
Isso tornava o produto alagoano pouco competitivo no mercado
nacional, pois, em outros estados da federação, a isenção do ICMS
compreendia as demais negociações.
O impacto na arrecadação estadual sobre o artesanato era
insignificante comparado ao benefício social gerado pela isenção total
do ICMS. Em Alagoas, grande parte dos artesãos pertencia às
comunidades carentes, em que o artesanato representava a principal
fonte de renda familiar. Motivados pelo incentivo fiscal almejado, os
artesãos puderam se beneficiar dos lucros gerados pelas negociações
diretas com empresários de outras localidades do país.
A Diretora Superintendente do Sebrae na época, Fernanda Vilela,
reforçou a importância das parcerias:

"A ação junto com o Governo do Estado, através da Secretaria


Estadual da Fazenda, foi uma demonstração do esforço conjunto
entre lideranças e entidades representativas do Estado para gerar
ocupação e renda, assim como o fortalecimento dos pequenos
negócios".

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QUEDA NA COMPLEXIDADE, AUMENTO DA PRÁTICA

De março de 2001 a setembro de 2002, o FÁCIL realizou 4.828


atendimentos empresariais . Isso significou que esses empreendedores
3

tiveram acesso direto às principais orientações e informações sobre o


processo de legalização de uma empresa, bem como receberam
noções de mercado e foram direcionados para uma capacitação
gerencial oferecida pelo Sebrae.
A meta da Central, alcançada pelo apoio mútuo entre os parceiros
institucionais, buscou a qualidade da informação no atendimento,
assim como a elevação do nível de satisfação dos empresários e a
rapidez na obtenção do registro formal. De fevereiro de 2001 a
novembro de 2002, dos 2.983 processos que deram entrada na Central,
2.825 foram deferidos, ou seja, conseguiram a legalização do processo
entre o intervalo mínimo de dois dias e o máximo de cinco dias. Os
demais, por questões de ajustamentos no protocolo, permaneceram
em processo de tramitação até a liberação de todos os documentos . 4

(Fonte: Balcão de Atendimento da Junta Comercial – novembro de


2002).
De acordo com a Gerente da Unidade Jurídica e de Políticas
Públicas do Sebrae, Renata Fonseca, a legalização de empreendimentos
alavancou oportunidades de desenvolvimento para o Estado – não
apenas por meio das contribuições fiscais e tributárias – mas,
sobretudo, por meio dos empregos diretos e indiretos gerados pelas
novas empresas.

3
Fonte: Sistema Integrado de Atendimento ao Cliente – SIAC, Sebrae/AL – novembro 2002.
4
Fonte: Balcão de Atendimento da Junta Comercial – novembro 2002.

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MODELO DE EXPORTAÇÃO

Apesar de não ser inédita, a iniciativa foi considerada inovadora,


pois os prazos para a liberação dos processos caíram de 40 para 2 dias,
no intervalo mínimo; e de 80 para 10 dias, para os intervalos máximos.
A implantação do FÁCIL em Alagoas conseguiu inverter um quadro
que até então era desfavorável para os empreendedores que
pretendiam legalizar o próprio negócio. Pela comunicação precisa e
segura entre os órgãos integrantes, foi possível executar, de forma
rápida e precisa, a tramitação dos processos, contribuindo assim para
a diminuição de prazos e custos de operacionalização. Todas as
informações pertinentes ao processo de registro comercial, industrial e
de serviços para micro e m p reendimentos e pequenos empreendimentos
foram concentradas no FÁCIL.
A iniciativa tem despertado o interesse de outras nações, como
em Moçambique, na África. Em novembro de 2002, uma missão
empresarial do governo de Moçambique e os representantes do IFC –
Braço de Investimentos do Banco Mundial e da GTZ (ONG alemã)
visitaram a capital alagoana, Maceió, para receber capacitação sobre o
funcionamento da Central de Atendimento Empresarial e de como
poderiam ser adaptadas as informações adquiridas no Estado à
realidade africana.
A Gerente da Unidade de Políticas Públicas do Sebrae, Renata
Fonseca, que visitou Moçambique no início de 2002, identificou que, no
Balcão Unido e na Loja de Negócios de Moçambique, foram realizadas
ações semelhantes ao sistema FÁCIL, mas com menos tecnologia.

"Nosso Estado está sendo usado como referência internacional,


escolhido através da iniciativa de representantes do Banco
Mundial, que estiveram em Maceió conhecendo nossas
instalações", esclareceu.

O Banco Mundial é a maior fonte de assistência para o


desenvolvimento, proporcionando cerca de US$ 30 bilhões anuais em
empréstimos para seus países clientes. Seu objetivo também é ajudar
5
Fonte: Balcão de Atendimento Sebrae, FÁCIL – novembro 2002.

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os países a atrair e reter investimentos privados. Além de financiar


projetos, ainda oferece sua experiência internacional em diversas áreas
de desenvolvimento, assessorando o mutuário em todas as fases do
projeto.
Brad Roberts, coordenador do Departamento das Pequenas e
Médias Empresas do Banco Mundial em Moçambique, identificou, no
FÁCIL de Alagoas, uma possibilidade de mudar a situação econômica
vivida pelos empreendedores moçambicanos.

"O Banco Mundial está atuando para tentar desenvolver formas e


alternativas que facilitem o surgimento de iniciativas empresariais,
no entanto, isso não é fácil. A burocracia estatal, barreiras
tributárias, dificuldade para a legalização de empresas e o difícil
acesso a financiamentos são os principais empecilhos que os
empreendedores enfrentam", declarou o coordenador.

Para Sérgio Monteiro, Diretor do Balcão Unido, da província de


Quelimane, as experiências adquiridas em Alagoas deverão contribuir
para o desenvolvimento das empresas africanas.

"A realidade empresarial nos países africanos é muito difícil.


Enquanto levamos nove meses para legalizar uma empresa, com custo
de US$ 200.00, em Alagoas são gastos apenas quatro dias", afirmou.

Na oportunidade da visita técnica do grupo africano, o


governador do Estado à época, Ronaldo Lessa, lançou uma proposta
de intercâmbio cultural entre Alagoas e as províncias de Moçambique,
uma vez que existem muitas características em comum.

"Se depender do Governo de Alagoas, trocaremos experiências que


podem servir de exemplo tanto para os estados brasileiros como
para os africanos", declarou o governador.
6

6
Fonte: Balcão de Atendimento Sebrae, FÁCIL – novembro 2002.

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CONCLUSÃO

T alvez o reconhecimento por parte de instituições internacionais


como o Banco Mundial tenha comprovado que o empreendedorismo,
em diferentes instâncias, encontrou soluções efetivas para os entraves
políticos, econômicos e sociais do país. O FÁCIL evidenciou a eficácia
dessa iniciativa pela padronização dos processos e o cumprimento das
atividades pertinentes a cada órgão envolvido.
Assim, espera-se que o FÁCIL possa – e deva ser – re p roduzido em
todo o mundo, principalmente em lugares onde o empreendedorismo
e a aplicação de políticas públicas ainda não fortalecem o surgimento e
a sustentabilidade de novos empreendimentos.

PONTOS PARA DISCUSSÃO

• Como se articulariam os acordos de cooperação técnica com as


instituições e os órgãos internacionais para a implantação de
Centrais de Atendimento nos demais estados da federação?
• De que forma os ruídos entre contadores/contabilistas e o FÁCIL
poderiam ser dirimidos?
• Como se antecipariam as principais dúvidas e complicações jurídicas
dos futuros empreendedores para que o prazo mínimo pudesse cair
para 24 horas, e o máximo 5 dias?
• Como se disseminaria e potencializaria a importância de uma
atuação conjunta para a construção e a sanção de novas políticas
públicas para o país, de forma que se pudessem incluir os poderes
legislativo e executivo como agentes do processo?

Diretoria Executiva do Sebrae Alagoas (2002): Alejandro Luiz Pereira da Silva, Nilton
Moreira Rodrigues e Osvaldo Viégas.

Agradecimentos:
Banco do Brasil; Conselho Regional de Contabilidade; Corpo de Bombeiros; Danielle Tenório -
colaboradores do Sebrae/AL; Fernanda Vilela - Presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae/AL;
Isabel Vasconcelos - Junta Comercial de Alagoas; Marcos Alencar - Gerente da Unidade de
Marketing e Comunicação; Receita Federal; Renata Fonseca -Secretaria da Fazenda de Alagoas,
S e c retarias de Finanças e de Controle e Convívio Urbano de Maceió e Vigilância Sanitária.

HISTÓRIAS DE SUCESSO - EXPERIÊNCIAS EMPREENDEDORAS EDIÇÃO 2003