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Dicionário de Conceitos

Digitalização e arranjos:
Ângelo Miguel Abrantes
Angelo.abrantes@mail.telepac.pt

Modo de uso:
Para uma melhor comodidade no uso deste pequeno glossário deverão ser seguidas as
instruções descritas abaixo:

1. – com o documento aberto, em word, pressionar alt+i, seguido da letra “a”, para
entrar na lista de marcadores;
2. uma vez nessa lista, com as setas, procurar o conceito desejado e pressionar “enter”;
3. Uma vez efectuadas as tarefas indicadas em 1 e 2, estará posicionado sobre o termo
desejado, podendo proceder à leitura da sua definição.

PORTO EDITORA
APRESENTAÇÃO
A importância do rigor conceptual na prática filosófica é unanimemente reconhecida, e aceite, entre
todos os docentes de Filosofia. Reforçando esse reconhecimento tácito, o actual Programa de
Filosofia (para o 10.º e 11.º anos) afirma: «A prática filosófica distingue-se, talvez em primeiro
lugar, pela especificidade e radicalidade dos temas/problemas que aborda (...). Mas o trabalho
filosófico distingue-se também pela especificidade da linguagem que utiliza, em particular pela
especificidade dos conceitos que mobiliza. Cunhados e apurados ao longo da história da Filosofia, é
com eles que a Filosofia configura o discurso sobre os temas/problemas abordados, assumindo,
portanto, esses conceitos um carácter heurístico e operatório ou instrumental».

Esta importância reconhecida aos conceitos filosóficos é reforçada uma vez que o Programa
apresenta como um dos «critérios de referência para a avaliação sumativa» o «clarificar o
significado e utilizar de forma adequada os conceitos fundamentais relativos aos temas/problemas
desenvolvidos ao longo de Programa de Filosofia», além da elaboração de textos, que vão desde a
acta à realização de um pequeno trabalho monográfico, e a participação em debates (que
constituem, por sua vez, outras tantas actividades que implicam o domínio dos conceitos
mobilizados pelo tema/problema em questão).

Com este Dicionário pensamos responder a todas essas finalidades do Programa, disponibilizando
uma ferramenta de trabalho, onde alunas e alunos podem ir buscar informação, acessível, mas
rigorosa, sobre os conceitos que o Programa solicita.

Assim, são contemplados todos os conceitos dos quadros de Desenvolvimento do Programa, bem
como outros que foram considerados importantes para o tratamento do ponto IV 3. -
Temas/problemas do mundo contemporâneo e da Unidade Final - Desafios e Horizontes da
Filosofia.

Relativamente a cada conceito é apresentada uma definição do mesmo, bem como, a sua origem
etimológica, nos casos em que se considerou relevante essa indicação. Além destes dois aspectos, e
sempre que o conceito o justificou, foi feita uma pequena reflexão problematizadora, bem como
uma referência à sua evolução, ou ao diferente tratamento dado por alguns autores, ao longo da
história da Filosofia. Além disso, procurou-se estabelecer uma relação entre conceitos por meio de
remissões entre eles, de modo a impedir uma visão fragmentária e, desse modo, ajudar a construir
uma visão integradora desses mesmos conceitos.

Além disso, com este modo de proceder pretendeu-se permitir uma construção pessoal do conceito,
evitando a simples memorização, bem como ilustrar que os conceitos filosóficos são «Cunhados e
apurados ao longo da história da Filosofia».
Dicionário de conceitos - Filosofia 11.º ano

CONCEITOS ESPECÍFICOS
Os termos entre parêntesis remetem para conceitos explicitados anterior e posteriormente;

Argumentação - Argumentar é fornecer argumentos, ou seja, razões a favor ou contra uma determinada tese com a
finalidade de provocar a adesão a essa tese. Assim, a argumentação é um acto de comunicação que visa levar o receptor
(auditórios) a aderir a uma determinada tese que lhe é proposta pelo emissor (orador) por meio do recurso a
representações (argumentos) que visam mostrar a validade ou o fundamento dessa tese. Também se designa argumentação
a cadeia de argumentos apresentados que vai levar à aceitação da tese, por outras palavras, o conjunto das considerações
destinadas a apoiar uma conclusão, ou ainda, o conjunto de proposições que sustentam uma tese.

O objectivo da argumentação é sempre levar o auditório a dar o seu assentimento ou aumentar a intensidade da sua adesão
às teses que lhe são propostas.

A argumentação distingue-se da (demonstração), que procura deduzir, de certas premissas, consequências logicamente
necessárias, verdadeiras, evidentes, sem ter em consideração um possível receptor, sem procurar a adesão. Uma
demonstração formal, ou é correcta ou incorrecta e, se for correcta, impõe-se automaticamente, a sua aceitação impõe-se
por si. Visa a verdade ou a falsidade.

Já Aristóteles (384-322 a. C.) distinguia um pensamento dedutivo a partir de princípios, raciocínio analítico -
demonstração
- de um pensamento encarado como arte de raciocinar, raciocínio dialéctico - raciocínio a partir de «opiniões geralmente
aceites». Assim, a demonstração apoia-se em fundamentos comprovados ou aceites como indiscutíveis e a argumentação
em opiniões acerca das quais se obteve um consenso para servirem de ponto de partida (premissas) da argumentação.
Numa demonstração matemática os axiomas não estão em discussão (ainda que sejam simples hipóteses); discuti-los
obriga a recorrer à argumentação, diz também Aristóteles. A argumentação nunca tem o rigor constrangedor da
demonstração: pode ser mais bem aceite ou menos bem aceite, mais justa ou menos justa, possuir argumentos mais fortes
ou menos fortes; também nunca está completa: uma vez que a conclusão não tem necessidade lógica, está sempre sujeita a
ser refutada, completada, nunca é correcta ou incorrecta, pode é ser mais ou menos eficaz. Além disso, a argumentação
utiliza a língua natural, sem previamente excluir a ambiguidade que lhe é própria, enquanto que a demonstração procura
utilizar símbolos desprovidos o mais possível dessa ambiguidade, até chegar aos símbolos unívocos da (lógica simbólica).
A argumentação exerce-se em domínios onde reina a ambiguidade, a incerteza, o desacordo, a verosimilhança. Por seu
lado, a demonstração exige a evidência racional. A argumentação diz respeito à (retórica), a demonstração à Lógica e à
Matemática.

Auditório - Designa-se auditório o conjunto dos interlocutores de uma determinada forma de comunicação. Trata-se do
conjunto dos sujeitos concretos sobre os quais o (orador) pretende agir, ou que uma (argumentação) pode atingir. O
auditório pode ser constituído apenas por uma pessoa (como no caso em que o indivíduo argumenta consigo próprio na
deliberação) ou por várias. O auditório é sempre uma construção ideal feita pelo orador. O auditório é um conceito
fundamental na argumentação. Com efeito, a argumentação tem como objectivo primeiro levar à adesão à sua tese, que
não é evidente (não se argumenta contra a evidência), não é uma consequência logicamente necessária das premissas, o
que tornaria a sua aceitação obrigatória, sob pena de irracionalidade, mas provoca diferentes graus de adesão. Assim, a
argumentação tem que atender ao receptor concreto da sua mensagem - o auditório. Perelman (1912- ) distingue o
auditório universal, que é idealmente construído a partir das características comuns a todos os seres humanos em virtude
da sua racionalidade, dos auditórios particulares, que são constituídos por um conjunto de indivíduos com características e
interesses específicos e comuns.

O mesmo autor considera que o orador tem de conhecer o ”presumível do auditório” e tomar como ponto de partida da sua
argumentação premissas admitidas pelo auditório a que chama ”objectos de acordo do auditório”. Estes objectos de acordo
tanto podem dizer respeito ao real - factos, verdades e presunções - como ao preferível - valores, hierarquias e lugares do
preferível.

Bem - (adj.) Diz-se de tudo aquilo que é objecto de satisfação em qualquer domínio, isto é, de tudo o que é perfeito no seu
género. Implica o acordo daquilo que algo é com aquilo que devia ser: coincidência do ser com o dever ser. Designa
plenitude, perfeição: é aquilo que está de acordo com o que se espera, que é perfeito, ”acabado”. Neste sentido pressupõe
a definição prévia de uma norma, por isso o conteúdo do conceito varia conforme a norma considerada; de qualquer
modo, está sempre relacionado com as nossas finalidades. É a perfeição do ser, perfeição essa que coincide com o próprio
ser.
(subst.) Em ética, o bem é um conceito normativo; significa tudo aquilo que é julgado conforme ao ideal moral. É um
valor ético, opõe-se ao mal.

Platão (429-347 a. C.) colocou a ideia de Bem, ideia hierarquicamente superior no mundo das Ideias, no topo da dialéctica
ascendente e comparou-a ao Sol. O Bem é, no mundo inteligível, a ideia hierarquicamente superior, é o princípio an-
hipotético do qual tudo se deduz como sua consequência e a partir do qual tudo se explica. De facto, tal como o
prisioneiro libertado da Alegoria da Caverna, depois de ter contemplado o Sol, no termo de uma penosa caminhada
ascendente
desde o interior da caverna escura, onde só via as sombras dos objectos que passavam no exterior, compreende
retrospectivamente tudo o que tinha julgado conhecer (as sombras e os reflexos) como consequências do Sol que tudo
ilumina, também o homem que contemplou o Bem consegue explicar toda a realidade como sua consequência.

Cidadania, Cidadão, Cidade - À letra, cidadania significa aquilo que diz respeito a quem vive na cidade, logo, ao
indivíduo que tem liberdades públicas e que cumpre os deveres sociais, isto é, ao cidadão. Só na condição de se se
submeter a toda a espécie de deveres e obrigações (físicas, jurídicas, sociais) e só nessa condição um indivíduo se pode ser
considerado cidadão. Assim, a cidadania é o resultado de uma integração social.

Cidadão (em latim civis) é, pois, aquele que goza dos direitos e aceita os deveres definidos pela lei, é o membro de uma
comunidade política; define-se simultaneamente pelo livre exercício dos seus direitos civis e políticos, pela sua
participação nas decisões do Estado e pela submissão às decisões e leis em cuja elaboração participou.

O cidadão goza de todas as liberdades públicas e é igual perante a lei: é um elemento igual aos outros e não é considerado
na sua particularidade, mas antes numa perspectiva universal.

Só na Grécia clássica se pode falar verdadeiramente de cidadão: no entanto, no século V a. C., eram cidadãos de Atenas,
uma das cidades-estado da Grécia, apenas os homens livres que auferissem um determinado rendimento e tivessem
nascido na cidade, sendo, assim, excluídos da cidadania as mulheres, os escravos e os estrangeiros da cidadania. Nos
Estados-Nação actuais, com uma dimensão e complexidade incomparável às das cidades-estado gregas, o cidadão tende a
desinteressar-se do bem comum, que lhe parece distante e pouco concreto.

Cidade (do latim civitas, isto é, conjunto de cidadãos e território onde os cidadãos vivem) é uma comunidade política
organizada.

O conceito de cidade surge na Grécia antiga, sendo Atenas o exemplo de cidade mais conhecido na tradição do
pensamento político ocidental.

Segundo Aristóteles (384-322 a. C.), a cidade, unidade política autónoma, «é um facto natural», visto que o «homem é um
animal político» (de polis, cidade-estado, na Grécia). O homem só se realiza plenamente na cidade, visto que a natureza
não lhe deu a possibilidade de se bastar a si próprio. É a cidade que permite ao homem não só satisfazer as suas
necessidades de sobrevivência mas, sobretudo, cultivar a virtude, isto é, viver uma vida plenamente humana.

Ciência - Do latim scientia, de sciens, que sabe. Sinónimo de saber. Conhecimento racional. Universal. Costuma opor-se
à opinião^i ou ao conhecimento imediato. Spencer (1820-1903), que consagra a definição de ciência dada por Kant (1724-
1804) - «conjunto de conhecimentos ordenado segundo princípios (doutrina que forma sistema)»
- distingue o conhecimento vulgar, a ciência e a filosofia (conhecimento não unificado, conhecimento parcialmente
unificado, conhecimento totalmente unificado, respectivamente).

Para os gregos a ciência é um saber superior que se opõe à opinião.

Platão (429-347 a. C.) opõe a ciência (episteme) à opinião (doxa). A episteme (conhecimento inteligível), por sua vez
apresenta dois níveis, o nível inferior dos conhecimentos científicos racionais, hipotético-dedutivos, e o nível superior da
contemplação intelectiva.

Aristóteles, por sua vez, define a ciência como o «conhecimento certo e evidente das coisas através da sua causa» e
divide-a em ciências teoréticas (metafísica, física), práticas (ética, economia) e poiéticas (arquitectura). A filosofia
primeira, ou metafísica é a ciência suprema. Já no século XIX, Augusto Comte (1798-1857) considera a ciência como o
conjunto das leis que regulam as relações de um objecto preciso com os outros.

A. Comte defende que o pensamento humano sofreu, ao longo dos tempos, um desenvolvimento e um progresso regidos
por uma lei universal e necessária. A lei dos três estados. Segundo esta, a humanidade passou sucessivamente por três
estados na explicação dos fenómenos: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo (que corresponderiam,
respectivamente, à infância, à juventude e à idade adulta dessa humanidade). No estado teológico, o objecto da
investigação são as causas primeiras e finais, a natureza íntima da realidade; a produção dos fenómenos é explicada por
meio da acção directa e arbitrária de agentes sobrenaturais. No estado metafísico, já não é a acção de agentes
sobrenaturais que provoca os fenómenos, mas estes são o resultado da acção de forças abstractas, abstracções
personificadas, que são inerentes aos seres reais. Finalmente, no estado positivo, o espírito humano já não pretende
conhecer a essência da realidade, uma vez que reconhece a impossibilidade de conhecer o absoluto, mas as leis efectivas
que regem os fenómenos, isto é, relações invariáveis entre eles, descobertas graças à observação positiva. Este é o estado
da ciência positiva.
Comte é também autor de uma classificação das ciências que as ordena de acordo com o grau de complexidade crescente
dos fenómenos que constituem o seu objecto de estudo; são elas a matemática, a astronomia, a física, a química, a biologia
e a sociologia. Estas seis ciências fundamentais hierarquizam-se por ordem inversa à do seu aparecimento histórico (a
ciência principal é última ciência a aparecer). Wilhelm Dilthey (1833-1911) distingue as «ciências da natureza» das
«ciências do espírito» que teriam métodos diferentes correspondentes aos diferentes objectos que estudam. Assim,
enquanto as «ciências da natureza» procurariam explicar os fenómenos através da verificação experimental, as «ciências
do espírito», dada a particularidade do seu objecto - o homem - teriam um procedimento metodológico baseado na
interpretação das intenções humanas e visariam compreender.
Piaget (1896-1980) propõe o conceito de círculo das ciências com o qual, de algum modo é superada essa questão da
dicotomia ciências da natureza/ciências do espírito, na medida em que o objecto só é conhecido através do pensamento do
sujeito, mas o sujeito só se conhece a si mesmo adaptado ao objecto.

De um modo geral pode dizer-se que a ciência tem como objectivo descobrir/construir e enunciar leis que descrevam o
funcionamento da realidade. Assim, a ciência seria o conjunto dos conhecimentos e investigações, com um suficiente grau
de unidade e de generalidade, que resultam de relações objectivas confirmadas por métodos de verificação definidos
(experimentais ou não).

Para alguns pensadores contemporâneos, a ciência é, até, apenas um sistema de notações que permitem classificar e prever
os fenómenos. Trata-se de uma actividade humana de resolução de enigmas, orientada por um modelo explicativo da
realidade e que é produzida numa comunidade científica determinada.

Uma reflexão sobre a ciência levanta algumas questões: Em primeiro lugar, deve falar-se de ’ciência’ ou ’ciências’? Por
outras palavras, há uma unidade ou pluralidade das ciências? A questão tem a ver com o objecto e o método: Existirá
unidade de objecto e unidade de método, como pretende Descartes (1591-1650) com a mathesis universalis? Ou
pluralidade de objectos, mas unidade de método? Outra questão tem a ver com a relação entre a ciência, a sociedade e a
política. Tradicionalmente, sempre se afirmou o carácter desinteressado e rigorosamente objectivo da ciência. Ora, a
ciência tem um agente, o cientista, e é feita num espaço histórico-cultural determinado. A epistemologia contemporânea
vem precisamente chamar a atenção para o facto de o cientista trabalhar numa determinada sociedade num determinado
momento da sua história e, consequentemente, de a ciência não ser indiferente a esse contexto histórico-político-
económico-social-cultural da sua produção. Por um lado, não existe razão imutável; as condições da inteligibilidade
(teorias explicativas, conceitos operatórios, procedimentos metodológicos, tecnologia disponível), variam de uma época
para outra; por outro, a prática científica está sujeita às condições políticas e económicas da sociedade. Outro aspecto a
considerar, e que não deixa de constituir também um problema é que, hoje em dia, mais do que nunca, é impossível
separar a ciência da técnica falando-se, até de tecnociência; assim, as tecnociências criam os seus próprios objectos de
estudo, que não existem previamente na natureza (a inteligência artificial ou os alimentos transgénicos, por exemplo).

Esta indissociabilidade entre a ciência e a técnica vem levantar o problema das consequências da ciência a nível da
natureza e do homem.

Conectiva preposicional - Em Lógica formal, é um elemento de uma frase que junta partes de tal modo que as
propriedades lógicas do todo são uma função definida das propriedades lógicas das partes. É o operador que liga as
variáveis preposicionais (p, q, r,...).

Algumas conectivas são: - (negação: não), V (disjunção: ou), A (conjunção, ou produto: e), -» (implicação: se... então),
<H> (equivalência: se, e só se...).

Conhecimento - A palavra ’conhecimento’ provém do latim cognitio (cum + gnosco), significando ”captação conjunta”.
Genericamente, diz-se da relação intencional do sujeito que conhece (cognoscente) com um objectos conhecido, relação
essa que visa a representação mental de algo. É a actividade por meio da qual o homem, a mente, toma consciência do
mundo, do objecto. Essa dicotomia sujeito/objecto é posta em causa por algumas teorias explicativas do conhecimento.
Conhecer é, assim, tornar presente um objecto (externo ou interno) de modo a discerni-lo ou formar uma representação
dele.

O termo conhecimento designa tanto a actividade do espírito, o acto de conhecer, a actividade cognitiva, como o resultado
dessa actividade, a coisa conhecida. O conhecimento pode ser estudado segundo o modelo cognitivo da consciência ou
modelo cognitivo da linguagem. O modelo cognitivo da consciência assenta na noção de sujeito: há um sujeito que
conhece e esse sujeito cognoscente é o fundamento do conhecimento. O conhecimento pode ser considerado como um
estado ou como um processo, uma construção. Segundo esta última perspectiva, o conhecimento seria uma resposta
adaptativa do sujeito ao mundo: o sujeito, ao agir sobre o mundo, construiria as próprias estruturas cognitivas que lhe
permitem conhecer, adaptar-se ao mundo. Tradicionalmente, consideram-se problemas gnoseológicos, o problema da
natureza - qual a natureza, a realidade daquilo que conhecemos: simples ideias ou a autêntica realidade?, da origem - de
onde provém o conhecimento: dos sentidos ou da razão? e da possibilidade do conhecimento - poderá o sujeito humano
alcançar a essência da realidade? poderá conhecer a verdade absoluta?.

Segundo o modelo cognitivo da linguagem, os problemas, da possibilidade do conhecimento da realidade em si, ou a


origem do conhecimento (razão ou sentidos) não têm sentido. O que interessa é a validação lógica das proposições em que
o conhecimento se diz: a validação do conhecimento desloca-se da relação entre a representação e o objecto para as
proposições que dizem o conhecimento. O critério de validação dos enunciados factuais (os únicos que podem produzir
conhecimento) é a verificabilidade.
Conhecimento científico - Conhecimento racional, objectivo, verdadeiro. Vulgarmente, é oposto ao conhecimento vulgar,
à opinião, à crença.

O conhecimento científico é uma construção racional que não resulta apenas de uma simples observação empírica
superficial e a-crítica. Nessa construção racional intervêm, é certo, elementos perceptivos mas enquadrados em esquemas
conceptuais (conceitos e teorias científicos); são esses esquemas conceptuais que permitem a interpretação da experiência
e lhe dão significado, inteligibilidade. Assim, o conhecimento científico, ao limitar a influência do sujeito particular
e concreto, a subjectividade individual, aproxima-se da objectividade, da universalidade. Por outro lado, no conhecimento
científico, o sujeito não espera passivamente pela experiência, ele toma a iniciativa e, de acordo com um plano prévio e
com um métodos, força essa mesma experiência, provoca ele próprio a observação. Daqui resulta que o conhecimento
científico é metódico e sistemático. O uso de uma linguagem unívoca, matemática, nalguns casos, confere-lhe rigor e
precisão. Apesar do rigor e precisão, no entanto, o conhecimento científico não é absoluto nem definitivo, mas sempre
aproximado e revisível, a sua verdade é sempre uma aproximação e nunca a Verdade absoluta. Hoje em dia, apesar de se
lhe reconhecerem os limites e os perigos, é a forma de conhecimento mais valorizada socialmente.

Conhecimento vulgar - Tradicionalmente, o conhecimento vulgar, por oposição ao conhecimento científico, é considerado
subjectivo, não metódico, a-crítico. Com efeito, é um conhecimento espontâneo que se vai formando por acumulação de
experiências/vivências que os indivíduos vão tendo ao longo da vida. Este acumular de experiências pessoais, um pouco
fruto do acaso da vida, traduz-se na sua subjectividade e também lhe confere um carácter disperso, não metódico, não
sistemático. Esse carácter disperso, não sistemático torna-o, por vezes, incoerente, visto que admite contradições. Apesar
disso, é com base neste conhecimento que o ser humano é capaz de realizar muitos dos gestos do seu quotidiano bem
como de se integrar na sociedade onde está inserido. Assim, aquilo que aprendeu no processo de socialização
- um saber fazer, perspectivas sobre o mundo, preconceitos é aceite sem ser posto em causa. O conhecimento vulgar
preocupa-se mais em reconhecer do que em conhecer, isto é, pretende reconhecer a realidade, forçar a realidade a
enquadrar-se no que sabe acerca dela, para nela se integrar e agir sobre ela, mais do que procurar a explicação da mesma,
que poderia pôr em causa a estabilidade social ou a sua integração nessa sociedade.

A sua origem empírica e o seu carácter não metódico e a-crítico tornam-no, porém, incompleto e superficial. Este
conhecimento vulgar, comum, usa a linguagem quotidiana, não rigorosa, ambígua, e traduz-se em provérbios, lendas e
contos populares.

Conteúdo - Em Lógica, conteúdo tanto significa a matéria de um conceito (conjunto dos elementos da compreensão do
conceito ou ’conceitos objectivamente considerados’), como significa a matéria de um juízo ou proposição (conceitos
objectivamente considerados que desempenham a função de Sujeito e Predicado), aquilo que é expresso por meio de uma
frase ou a matéria de um raciocínio (os juízos, independentemente da forma). Opõe-se a Forma.

Convicção a- Crença firme, certa, em algo, que tanto pode ser a verdade de uma tese como a legitimidade/justeza de uma
acção, posição pessoal, ou situação. A convicção exclui a dúvida.

A convicção distingue-se da simples crença ou da opinião, visto que, por um lado, a convicção tem um fundo racional, é
fruto da reflexão e, por outro, implica um juízo firme e um compromisso estável.

Convencer é suscitar a adesão do espírito por meio de argumentos ou provas racionais, por isso costuma distinguir-se
convicção de persuasão, na medida em que esta implica procedimentos não tão exclusivamente racionais: para persuadir
são utilizados motivos de carácter afectivo para levar o auditório a aderir às teses que lhe são propostas.

Dedução - Operação intelectual através da qual concluímos uma afirmação a partir de afirmações anteriores, de acordo
com regras lógicas. Em Lógica, é uma das inferências mediatas; diz-se do raciocínio por meio do qual, de proposições
conhecidas (antecedente) se conclui necessariamente uma proposição desconhecida (consequente), que nelas está
implicada.

Segundo alguns autores, a forma mais acabada, perfeita de dedução, é o silogismo.

Os silogismos podem ser categóricos ou hipotéticos. Os silogismos categóricos podem ser regulares e irregulares e, entre
estes últimos, podem referir-se o entimema, o epiquerema (categóricos irregulares simples) e a sorites (polissilogismo). Os
silogismos hipotéticos podem ser condicionais ou disjuntivos. Entre estes últimos inclui-se o dilema que tem a
particularidade de ser um silogismo sob a forma disjuntiva que, qualquer que seja a alternativa afirmada na premissa
menor a conclusão é sempre a mesma. Assim, de acordo com o chamado dilema de Aristóteles, «Ou a filosofia vale a pena
ou não vale. Se vale, deveis filosofar, se não vale, é necessário prová-lo e tereis de filosofar para isso», qualquer que seja a
alternativa afirmada na premissa menor - vale a pena ou não vale a pena - a conclusão é sempre a mesma: isto é, é preciso
filosofar.

A dedução é um raciocínio que permite concluir com rigor, a conclusão possui necessidade lógica. Assim, de duas
proposições (premissas) verdadeiras conclui-se necessariamente uma terceira (conclusão) verdadeira, desde que tenham
sido respeitadas as regras lógicas. E o tipo de raciocínio usado para provar e demonstrar.

A dedução permite descobrir a verdade mas levanta um problema filosófico: a verdade da conclusão decorre da verdade
das premissas de que é a consequência necessária, mas de que modo é estabelecida a verdade das premissas? Como se
sabe de antemão que todo o homem é mortal, para poder deduzir daí que sendo Sócrates homem, então também é
necessariamente mortal? É uma pressuposição gratuita ou dogmática? É também ela conclusão de outros raciocínios
dedutivos (e nesse caso o problema arrasta-se até ao infinito) ou é um axioma de que se parte sem se questionar a sua
verdade, considerando-o como simples hipótese?. Aceitando esta segunda posição será mais correcto chamar a esta forma
de raciocínio raciocínio hipotético-dedutivo. (Hipótese)
Habitualmente opõe-se a dedução à indução considerando-se que a indução não permite concluir com necessidade lógica,
a conclusão é apenas provável, enquanto a dedução permite concluir com necessidade lógica, a conclusão é certa.

Demonstração - Em sentido vulgar, todo o processo de raciocínio que pretende estabelecer a verdade de uma proposição,
que permite estabelecer uma afirmação, apoiando-se em provas. Mais precisamente, é um processo lógico-discursivo, um
raciocínio, por meio do qual de premissas verdadeiras, e respeitando as regras de pensamento lógico, se infere a verdade
de uma conclusão, isto é, a verdade da conclusão é estabelecida de acordo com razões evidentes, a partir das premissas.

Formalmente, é um argumento dedutivamente válido que parte de premissas verdadeiras que implicam a conclusão. USA-
se no conhecimento científico que é sistemático, explicativo, baseado em razões necessárias na medida em que a
demonstração permite evidenciar ou explicar o nexo causal que liga o desconhecido (consequente, conclusão) ao
conhecido (antecedente, premissas). Aceitando a verdade das premissas e seguindo as regras lógicas, a conclusão tem de
ser aceite como verdadeira, pois ela é a consequência necessária das premissas.

Na demonstração, as premissas têm de ser aceites como verdadeiras, não podem ser discutidas. A conclusão é uma só e só
pode ser verdadeira ou falsa.

Distingue-se de argumentação. A demonstração diz respeito à Lógica e à Matemática, impõe-se sem discussão, visa a
verdade, enquanto a argumentação diz respeito à retóricas, atende ao auditório?!, usa o raciocínio dialéctico e visa
persuadir, levar ao auditório a aderir às teses que lhe são propostas.

Diálogo - Em grego, diálogos, de dia (através de) + logos (palavra). Assim, de acordo com o significado original, diálogo
significa troca de argumentos entre interlocutores com o objectivo de conseguir um acordo. Por conseguinte, o diálogo é
exclusivo do homem e implica que os interlocutores se reconheçam como iguais e em reciprocidade total. Na filosofia
grega, diálogo é o método utilizado por Sócrates (470-399 a, C.) e Platão (429-347 a. C.) na busca da verdade, e que
consiste em perguntas e respostas. Note-se que a quase totalidade da obra platónica é escrita sob a forma de diálogo. O
diálogo supõe um clima de boa vontade e compreensão recíproca; no diálogo socrático/platónico não há vencedores nem
vencidos, todos os interlocutores cooperam na procura da verdade: o próprio Sócrates apela a que lhe coloquem
objecções.

Na filosofia contemporânea, o diálogo, ou intersubjectividade, adquire de novo uma importância fundamental, visto que é
considerado a forma de troca constitutiva das consciências e, consequentemente, de um mundo humano resultante do
entrecruzar das diferenças pessoais.

O diálogo, troca de ideias, através da palavra, por um lado, obriga cada um dos interlocutores a fundamentar os seus
argumentos dando-lhes solidez suficiente para ultrapassarem as possíveis objecções, por outro, alarga os seus horizontes,
apresentando-lhe as perspectivas do outro interlocutor, diferentes da sua, e que ele pode vir a considerar serem preferíveis.
O diálogo leva, assim, ao enriquecimento mútuo como resultado da relação de cada eu com um tu (outro), entendendo-se
este eu e este tu não apenas como a pessoa individual, mas também como um grupo.

Ethos - Significa, em grego, carácter, modo de vida habitual. Em Retóricas, designa o tipo de prova centrado na figura do
oradora. Este deve ter carácter, ser virtuoso e credível para conseguir a confiança do seu auditório?!. Assim, na Retórica
simboliza o orador. O orador persuadirá com tanta mais facilidade o seu auditório, quanto maior for a sua probidade,
isenção, e, portanto, quanto maior for a sua credibilidade aos olhos do auditório. Do ponto de vista do auditório, o que
conta é o carácter do orador; pois é esse carácter que o tornará mais ou menos credível; o auditório precisa de decifrar as
intenções do orador e o seu carácter para saber quais as inferências que deve aceitar e se deve ou não aderir às teses que
ele lhe propõe.

Falácia - Chama-se falácia a qualquer erro de raciocínio. Assim, falácia designa qualquer argumentação aparentemente
válida mas que na realidade não o é, pelo que não é concludente.

Tradicionalmente, considerava-se que a falácia se distinguia do sofisma na medida em que este era um raciocínio
incorrecto cujo erro é intencional, visa enganar o interlocutor, enquanto que a falácia é um raciocínio involuntariamente
incorrecto. Ora, a intenção com que o raciocínio é feito não interessa para a Lógica, pelo que essa distinção não aparece
em muitos lógicos actuais. Esta distinção só tem interesse se se pensar que o termo sofisma ter a ver com sofista. Desde
Aristóteles distingue-se entre falácias formais e falácias informais. As falácias formais são raciocínios aparentemente
válidos mas que o não são de facto por violarem uma qualquer regra das inferências. As falácias informais apresentam um
erro qualquer que pode consistir na imprecisão dos termos, amfibolia, na inclusão de irrelevâncias.

Falsificabilidade - Critério proposto por Karl Popper (1902-1994) para distinguir os enunciados científicos dos não
científicos. Uma teoria só é científica se for falsificável, ou refutável, isto é, se implica a negação de pelo menos um
enunciado relativo a uma observação possível. Assim, a falsificabilidade é a propriedade que uma teoria tem de ser
refutada pela experiência. Na perspectiva de Karl Popper, é característica das teorias científicas que, por natureza, são
sempre susceptíveis de serem refutadas, desmentidas pela experimentação, mas que nunca podem ser definitivamente
confirmadas ou corroboradas. Segundo este autor, o carácter distintivo de uma teoria científica não é a sua verificabilidade
mas a sua
falsificabilidade; assim, uma teoria que resistiu vitoriosamente aos controlos que poderiam tê-la refutado é confirmada,
sem que isso signifique que foi verificada. Qualquer explicação irrefutável é não científica e nunca se pode dizer que seja
verdadeira (por exemplo, a psicanálise e o materialismo histórico).

Falso - Em Lógica formal qualifica os enunciados incompatíveis com proposições anteriormente admitidas como
verdadeiras. Na Lógica formal bivalente, é um dos valores de verdade de uma proposição (o outro é o Verdadeiro): uma
proposição só pode ter o valor de verdade verdadeiro ou falso, nunca os dois ao mesmo tempo.

Filósofo - Etimologicamente, o amigo da sabedoria. Segundo a tradição, o termo foi usado pela primeira vez por Pitágoras
(571/70-497/96 a. C.) para qualificar a sua actividade, visto que a sua modéstia o impedia de se denominar sábio, termo
com até então eram designados aqueles que, como ele, se ocupavam com o conhecimento das coisas divinas e humanas e
das causas de tudo.

Filósofo é, assim, originalmente, aquele que procura as causas primeiras das coisas, a verdade do ser, para além das
aparências das coisas mutáveis e da multiplicidade das opiniões. Neste sentido opõe-se ao retórico cuja preocupação é o
triunfo fácil e a qualquer preço sobre o seu interlocutor, mesmo que tenha que se socorrer de estratagemas argumentativos.
Platão (429-347 a. C.), no Górgias, opõe Sócrates, o filósofo, aos sofistas retóricos.

Forma - Em Lógica, estrutura de uma proposição ou raciocínio, independente do seu conteúdo de realidade. A forma
lógica de uma frase é a estrutura partilhada com outras frases, responsável pelo seu papel nas inferências. Opõe-se ao
conteúdo. Tratando-se de realidades físicas, a forma opõe-se à matéria.

Hipótese - Etimologicamente, significa suposição, base, fundamento.

Trata-se de uma proposição que é apresentada como suposição; é aceite como verdadeira, constituindo o ponto de partida
de um raciocínio, sem que a sua verdade, ou falsidade, seja questionada.

Na investigação científica, a formulação de hipóteses é um dos momentos mais decisivos e fecundos: ela é a suposição da
causa provável de um fenómeno, a sua explicação plausível. Uma vez que as causas dos fenómenos não são perceptíveis,
cabe ao investigador ”inventar a hipótese”, isto é, uma explicação racional plausível. Mas, embora a hipótese constitua a
explicação teórica condicional e antecipada dos factos, é sempre necessária a observação dos factos, a verificação
experimental, para poder ser aceite como lei. Trata-se de «ideias preconcebidas» que devem guiar a investigação, mas que
não passam de suposições. A hipótese constitui uma espécie de ”explicação antecipada”, segundo Claude Bernard (1813-
1878), que tem que ser verificada ou infirmada pela experiência.

A importância da hipótese na investigação científica deve-se à dupla função que desempenha. Por um lado, uma função
heurística, de invenção, por outro uma função explicativa, de organização do saber num corpo teórico. Mesmo que a
hipótese não venha a ser corroborada, ela não perde validade (que está dependente da correcção do raciocínio elaborado).
Para conjecturar uma hipótese, o cientista pode usar o raciocínio indutivo (indução), caso em que a hipótese resulta da
generalização feita a partir de casos particulares, ou o raciocínio hipotético-dedutivo (dedução), caso em que o que é
verificado são as consequências deduzidas da hipótese. Nas Matemáticas, é o postulado, dado inicial estabelecido
convencionalmente, a partir do qual se tiram, logicamente, consequências.

Indução - Em Lógica, é uma das inferências mediatas; diz-se do raciocínio que consiste em afirmar de uma classe aquilo
que foi estabelecido para alguns elementos dessa classe. A sua conclusão não é logicamente necessária. Em
Epistemologia, é uma inferência conjecturai, não demonstrativa.

Nas ciências empíricas, permite passar dos factos para as leis e por isso alguns a consideram a alma das ciências
experimentais. É o tipo de raciocínio que permite a formulação de leis.

Segundo Aristóteles, a indução pode ser formal, ou completa (afirma de um conjunto aquilo que se verificou para cada um
dos seus elementos), amplificante (afirma de um conjunto aquilo que verificou apenas em alguns dos seus elementos).

A generalização, que a indução amplificante implica, faz com que as suas conclusões (raciocínio indutivo) não sejam
logicamente necessárias, isto é, mesmo partindo de premissas verdadeiras não se segue necessariamente a conclusão, esta
é sempre meramente provável. Alguns lógicos consideram até que a indução é um raciocínio falacioso visto que viola a
regra geral das inferências que obriga a que nenhum termo tenha maior extensão na conclusão do que tinha nas premissas.
Por esta razão, o seu uso nas ciências experimentais (método indutivo) é contestado: uma vez que a conclusão não é
necessária, não é consequência lógica das premissas, nunca há a garantia de se poder tornar uma lei universal (quantas
constatações empíricas seria necessário fazer para comprovar a sua veracidade?). Karl Popper (1902-1994) critica a
indução porque, para dizer, por exemplo, que todos os cisnes são brancos, a nível de uma lei da natureza, seria preciso ter
observado todos os casos concretos, de ontem, de hoje e garantir que amanhã não apareça um cisne negro. Além disso,
chamou a atenção para o facto de a indução constituir um círculo vicioso: para justificar a indução é preciso invocar um
princípio - a regularidade dos fenómenos naturais; ora esse princípio geral, por sua vez, só pode ter sido estabelecido
indutivamente, isto é generalizando a partir da regularidade constatada em alguns fenómenos naturais. É importante
distinguir a lógica indutiva usada nas ciências experimentais da indução matemática, que pertence à lógica dedutiva.
Assim, no primeiro caso, a exactidão da fórmula
cada vez mais provável quanto maior for o número de verificações feitas; ora, por maior que seja a probabilidade, ela
nunca equivale à certeza. Pelo contrário, quando se trata da indução matemática, ou método de recorrência, trata-se de um
processo dedutivo a partir de axiomas.

Inferência - Em sentido geral é toda a operação mental por meio da qual se estabelece uma proposição (que não se
conhece directamente) por causa da sua ligação com outras proposições conhecidas. Pode aparecer como sinónimo de
raciocínio. Em Lógica, é a operação mental por meio da qual, de uma proposição dada, se conclui outra com o mesmo
valor de verdade.

As inferências podem ser imediatas ou mediatas, e estas, dedutivas (demonstrativas) TI ou indutivas (não demonstrativas).

Nas inferências imediatas, obtém-se directamente uma proposição nova a partir de uma proposição dada, usando apenas
os termos que a constituem; são inferências mediatas a oposição e a conversão.

Nas inferências mediatas exige-se um termo mediador e a conclusão obtém-se a partir de duas ou mais proposições
(premissas); são inferências mediatas o raciocínio dedutivo (dedução?)) e o raciocínio indutivo (indução).

Juízo - Em Lógica, é, segundo Aristóteles (384-322 a. C.), «o acto de pensamento que pode ser dito verdadeiro ou falso».
O juízo é a operação que consiste em estabelecer uma relação entre dois ou mais termos, de acordo com a fórmula S
(sujeito) é (cópula) P (predicado), isto é, afirmar a conveniência ou não conveniência de um predicado em relação a um
sujeito. Acto de afirmar, positiva ou negativamente, uma síntese de dois conceitos. A expressão material do juízo é a
proposição.

Linguagem - Em sentido geral, linguagem é todo o sistema de signos, por isso, tanto pode falar-se de uma linguagem
verbal como de uma linguagem musical, pictórica, corporal. A linguagem foi reconhecida desde sempre como um
intermediário entre o homem e a realidade, tem, entre outras, as funções de designar essa mesma realidade, permitir a
comunicação dos homens entre si, expressar o pensamento e modelar o próprio pensamento. Assim, através da linguagem,
o ser humano designa, nomeia as realidades do mundo e, pelo nome, dá-lhes existência para si, configura o real. Também
é através da linguagem que os seres humanos comunicam entre si, isto é, trocam informações, pensamentos. É que a
linguagem permite também expressão do pensamento, a sua materialização, objectivação. A relação entre a linguagem e o
pensamento, porém, é dupla: se é um facto que o pensamento se expressa através da linguagem, é, também, graças à
linguagem que o pensamento se constitui, a linguagem está na base da formação dos conceitos. Pensamento e linguagem
são interdependentes, não existe um sem o outro.

Uma vez que a linguagem permite dizer o nosso pensamento sobre o ser desde cedo se levantou a questão de saber como é
essa relação. Platão (429-347 a. C.), no Crátilo, interroga-se: sobre a relação entre a linguagem e o ser, a verdade: Será a
linguagem convencional, como pretendem os sofistas, ou diz o ser? Se a linguagem diz o ser, como poder dizer o falso?

Depois de Saussure (1857-1913), a linguagem distingue-se da língua, que é o sistema linguístico fixado numa determinada
sociedade e da fala, que é o exercício pessoal da língua.

Lógica - «Esta ciência das leis necessárias do entendimento e da razão em geral, o que é a mesma coisa, do pensamento
em geral, é aquilo a que nós chamamos Lógica.» (Kant,
1724-1804, Lógica) A Lógica é, assim, a ciência que estuda as leis do pensamento, o acordo do pensamento consigo
mesmo. Pode definir-se como a ciência das inferências?) válidas. O seu objectivo é tornar explícitas as regras através das
quais as inferências podem realizar-se. Mas, o próprio Kant antes de apresentar a definição acima transcrita, afirma «O
exercício das nossas faculdades também se realiza segundo leis às quais nós inicialmente nos submetemos sem ter
consciência delas (...).». Isto é, pode considerar-se que existe uma lógica natural a que obedecemos inconscientemente e
uma ciência da Lógica. Assim, a lógica natural, que corresponderia à aptidão natural e inata dos seres racionais para
discorrer e raciocinar e que lhe é necessária para a sobrevivência diária, é empírico-prática. Essa aptidão é comum a todos
os elementos de uma mesma cultura e existe desde que existe a espécie humana. É espontânea, intuitiva e não rigorosa,
satisfaz-se com conclusões aparentemente evidentes; também não conhece as leis a que obedece. Pelo contrário, a Lógica
considerada como uma ciência surge historicamente num momento preciso da história da Grécia clássica, com Aristóteles
(384-322 a. C.) e só é acessível a alguns seres humanos. Ela corresponde a um esforço de sistematização das leis do
pensamento, às quais inicialmente nos submetemos sem consciência, como diz Kant, considerando-as abstractamente.
Neste sentido, pode dizer-se que é uma sistematização da lógica natural. Enquanto a lógica natural é necessária para a vida
quotidiana, a lógica como ciência é necessária no domínio das ciências. Ela implica a descoberta e o conhecimento das
leis do pensamento, exige rigor e formalismo. Pode dizer-se que é construída, formal, critica, reflecte sobre ela própria.
Distingue-se da Psicologia, que também estuda o pensamento, visto que esta estuda como é que os homens raciocinam de
facto, enquanto que a Lógica apenas estuda o raciocínio e a forma como os seres humanos devem raciocinar
correctamente, isto é estuda as leis do raciocínio correcto, das inferências válidas, como foi dito. E costume, também,
distinguir a Lógica formal da lógica informal.

Aristóteles foi, como se disse, o fundador da Lógica como ciência, embora o termo lógica tenha sido introduzido pelos
estóicos na medida em que, apesar de haver tentativas anteriores de encontrar leis universais de raciocínio, ele foi o
primeiro pensador a estudar e a codificar as formas correctas do raciocínio.

Assim, desde Aristóteles, a lógica formal clássica, ou tradicional, determina quais as operações do espírito que são válidas
atendendo apenas à sua forma TI, independentemente do seu conteúdo TI, isto é, estuda as condições formais do
pensamento válido. Considera-a a ciência do pensamento com vista à investigação da verdade. A lógica matemática,
formal, moderna, simbólica ou logística, é um desenvolvimento, uma extensão da lógica formal clássica, aristotélica,
porque a formaliza e generaliza. Foi criada pelos matemáticos que aplicaram, por analogia, o método matemático à sua
problemática. A lógica matemática engloba a lógica formal clássica como um caso particular. A lógica matemática
construiu sistemas hipotético-dedutivos com regras que regem a utilização de símbolos abstractos. A Lógica é concebida
como um cálculo formal e formalizado que permite manipular os símbolos de forma a chegar por meio de procedimentos
mecanizados a um resultado indiscutível.

Logos - (Termo grego) Significa simultaneamente discurso, palavra, argumento, razão, asserção, princípio, lei. Desde o
começo da filosofia grega, o logos designa não só palavra e discurso, mas também ideia, conceito, opondo-se à opinião e
ao mito. Assim, o logos é, desde o início expressão inteligível da realidade, apreensão intelectual do ser. Na Retórica,
logos é o tipo de prova centrado na tese (estilo, figuras, estrutura racional, argumentos usados).

Manipulação - De um modo geral, designa a acção por meio da qual se controla ou influencia ilegitimamente qualquer
processo. Assim, fala-se da manipulação genética como a acção que consiste em fornecer uma ”informação” errada ao
código genético para que o processo de transmissão seja alterado.

Em filosofia, usa-se o termo manipulação para designar a deturpação da informação que se dá a alguém no sentido de a
levar a pensar aquilo que se pretende que ela pense. Por meio dessa alteração, as crenças e o comportamento de um
auditório, da opinião publicai, sofrem uma modificação, são diferentes do que seriam se a informação dada tivesse sido
outra. Ora, é certo que a manipulação da informação não é de hoje: em todas as guerras, por mais rudimentar que fosse o
meio de comunicação entre os postos avançados de um exército, o exército inimigo tentou interceptar essas mensagens e
manipulá-las para induzir em erro o seu destinatário e, assim, o poder controlar/vencer.

Mas, nos nossos dias, o desenvolvimento dos meios de comunicação veio substituir o saber fechado do universo
tradicional por uma cultura alargada. Muito mais pessoas são informadas simultaneamente e em simultâneo com a
ocorrência do acontecimento. Mas, a imagem mostrada, o testemunho transmitido do local do acontecimento, não
garantem a certeza da informação: as imagens podem ser escolhidas, os depoimentos truncados e, consequentemente a
opinião pública ser manipulada, levada a ver/pensar aquilo

que alguém quer que ela veja/pense. Hoje não se pode falar de falta de informação, bem pelo contrário, mas esse, por
vezes, excesso de informação leva ao aumento da deturpação da informação e da ignorância. Agora, como outrora, as
consciências são manipuladas por falta de conhecimento verdadeiro: outrora porque a informação não chegava a todos,
agora porque o excesso da informação se transforma em desinformação.

A questão da manipulação e a sua ligação aos meios de comunicação de massa tornou-se um dos temas da reflexão
filosófica dos últimos anos.

Método - Na sua origem, a palavra método designa demanda, caminho, direcção para um fim ou objectivo; método é
assim um caminhar por meio do qual se visa obter um certo resultado.

Com o desenvolvimento científico, método passou a ser um ”caminhar” orientado por normas rigorosas que conduz a um
resultado válido.

Segundo Descartes, é um conjunto de procedimentos e de regras utilizado para chegar ao objectivo desejado. De um modo
geral, é o conjunto de procedimentos visando obter um dado objectivo; conjunto de meios, determinados e precisos, que
são fixados pelo espírito no sentido de obter a verdade (programa com regras preestabelecidas). Nenhum saber científico
ou filosófico dispensa o método, que é não só um caminho, mas pode abrir outros caminhos para alcançar o objectivo
proposto ou outros.

Método da ciência - Conjunto de procedimentos e construções teóricas (conceitos, modelos) próprios da ciência. Qualquer
ciência no seu esforço de compreensão racional da realidade, que se pretende rigorosa, universal, válida, tem de encontrar
caminhos, regras que uniformizem todos os procedimentos de todos os cientistas e facilitem chegar ao conhecimento do
objecto particular dessa ciência. Porém, tal como não se pode falar da ciência no singular, também não se pode do método
no singular. Assim, há vários métodos científicos:
O método dedutivo, que no fundo é sempre hipotético-dedutivo (ver dedução), é preferentemente usado nas ciências
lógico-matemáticas; o método indutivo (ver indução), é usado nas ciências factuais, tal como o método hipotético-
dedutivo.

O empirismo lógico defendido pelo Círculo de Viena (nome de um grupo de filósofos fundado por Schlick em 1924, que
se reunia em Viena para tratar questões epistemológicas) defende que o método das ciências empíricas é o indutivo (ver
Indução). É graças a este método que o espírito humano organiza as informações que recolhe da observação. É a
acumulação indefinida de observações e experimentações que permite verificar progressivamente a justeza ou a falsidade
das primeiras hipóteses.

Karl Popper (1902-1994), que se opõe decididamente ao indutivismo, defende que não existe um método para descobrir
uma teoria científica, nem um método de verificação.

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O único método da ciência que admite é a crítica, considerando que as teorias científicas se distinguem dos mitos
precisamente porque são criticáveis.

Objectividade - Característica daquilo que é objectivo, isto é, de tudo quanto se apresenta como termo real, objecto,
independente e autónomo em relação ao sujeito cognoscente. Característica daquilo que existe independentemente do
espírito humano e que, por isso, é objectivo, isto é, válido para todos os sujeitos racionais. A objectividade liga-se, assim,
à universalidade e à necessidade. Requer a imparcialidade, não interferência do sujeito cognoscente.

A objectividade do conhecimento científico constitui um problema para a filosofia moderna e contemporânea: Será a
inteligência humana capaz de apreender o objecto como ele é? Para a ciência antiga, a objectividade científica
correspondia à realidade, à verdade, pois a ciência, ao definir uma coisa, estava a dizer o que uma coisa é, logo a dizer a
sua essência. Na ciência moderna, assiste-se à distinção entre as qualidades subjectivas, apreensíveis pelos sentidos e as
qualidades objectivas, quantificáveis, as únicas que interessam à ciência. Assim, a objectividade identifica-se com aquilo
que não difere de sujeito para sujeito, nem se altera com o passar do tempo mas, pelo contrário, é válido para todos e
identifica-se com um conhecimento de tipo matemático verificado pelos factos.

Assim, para os positivistas, a objectividade é alcançada por meio da utilização da matemática e pela verificação
experimental.

O desenvolvimento da Física Quântica, na época contemporânea, veio mostrar que não existe um mundo real separado do
sujeito epistémico, como era pressuposto pelas concepções anteriores. A radical separação entre o sujeito que conhece e o
objecto que é conhecido, o mundo real, é insustentável: o objecto é uma construção feita pelo sujeito epistémico com os
conceitos, leis, teorias, métodos e técnicas de investigação.

Com efeito, a objectividade científica obtém-se mediante procedimentos de observação e experimentação rigorosos de
modo a constituir um objecto de pensamento que obtenha a concordância de todos os sujeitos. Assim, o objecto em si
nunca pode ser apreendido pelo sujeito mas a sua apreensão é sempre função de uma aparelhagem conceptual e técnica.
Consciente de que é impossível eliminar completamente o sujeito, de que a objectividade absoluta é impossível, pois não
existe uma realidade independente do nosso sistema interpretativo, a ciência contemporânea defende uma ”objectividade
fraca”. Neste sentido, falar de objectividade é, agora, falar de intersubjectividade: acordo entre todos os especialistas. Na
época contemporânea os neopositivistas defendem a objectividade científica com base no critério da verificabilidade,
enquanto Karl Popper (1902-1994) considera que as teorias científicas são sempre apenas conjecturas e que o critério da
cientificidade é a falsificabilidade.

Objecto - Etimologicamente, objecto é aquilo que está frente a, perante nós. Objecto é tudo aquilo que se opõe ao sujeito
como algo que é susceptível de experiência. É aquilo que é conhecido (objecto conhecido), pensado, enquanto se distingue
do acto de conhecer ou de pensar. Na relação do conhecimento tem como correlato o sujeitos cognoscente (que conhece).

Opinião pública - Opinião pública é o juízo colectivo de uma determinada sociedade acerca de algo, isto é, é o conjunto
de tomadas de posição comummente adoptadas pelos membros dessa sociedade sobre questões de interesse comum (do
domínio político, económico, moral). Pode ser vista como o pensar comum da sociedade civil e expressa a sua vontade.
Trata-se de juízos sem fundamento rigoroso, mas com aparência de um saber, partilhados por um determinado grupo
social sobre aquelas questões que mais directamente o afectam enquanto grupo, sem que isso implique que todos os
elementos do grupo tenham consciência do grau de incerteza e da possibilidade de erro dessa opinião. A opinião pública é
formada pelo diálogo entre os cidadãos, pela divulgação de opiniões e, hoje em dia, é sobretudo formada pelos meios de
comunicação de massas (imprensa escrita, Televisão, etc.), razão pela qual o controlo desses meios é tão disputado pelas
forças políticas e ideológicas.

Orador - É aquele que elabora a argumentação ~n; corresponde ao emissor do processo comunicativo mas o seu objectivo
é agir sobre o receptor (auditório), a quem a sua mensagem se dirige, no sentido de o levar a aderir à tese que lhe propõe
(quer se trate da sua própria tese ou da refutação da tese de outrem).

Pathos - Significa, em grego, sofrimento, emoção, mas também algo que acontece. Na Retórica, é o tipo de prova
centrado, no auditório que tem de ser emocionalmente impressionado pelo orador. Assim, na Retórica, simboliza o
auditório. Designa aquilo que existe de irracional, de paixão, na adesão. A paixão é um estado que leva a razão a fazer
opções que parecem irracionais. Segundo Aristóteles (384-322 a. C.), «o termo paixões designa tudo aquilo que sendo
seguido de dor e de prazer suscita uma tal mudança no espírito que nesse estado ele nota uma notável diferença nos juízos
que faz».

Do ponto de vista do orador, o mais importante é levar o auditório a aderir às teses que lhe apresenta, persuadindo-o, ou
convencendo-o. Ora, para ser persuadido, o auditório precisa de ser impressionado, seduzido, por isso o orador não pode
menosprezar o pathos do auditório se quer levá-lo à aceitação das teses que propõe ao seu assentimento, por mais
racionais que sejam os argumentos que apresenta.

Privado/Público - Privado é aquilo que não é acessível a qualquer pessoa, aquilo que é reservado a certas pessoas. Em
teoria moral e política, a conduta privada é aquela que não diz respeito ao público e, em particular à instituição

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pública legal. A informação privada sobre uma pessoa seria aquela a que não pode haver direito de acesso público. O
direito à privacidade está intimamente relacionado com o direito ao respeito próprio; as invasões da privacidade estão
relacionadas com a vergonha e a indignidade. O privado é a esfera da família, da casa, do gosto pessoal, do afecto, da
intimidade, por oposição ao público que, neste sentido, significa aquilo que se realiza diante de um grande número de
pessoas ou que pode vir a ser conhecido de todos. Privado é também aquilo que não é do Estado ou que não diz respeito
ao Estado, opondo-se, neste sentido a público, como domínio das relações institucionais e contratuais que são
reconhecidas no direito.

Essa distinção entre privado e público é criticada por algumas feministas que consideram que o apelo ao privado serve
para encobrir a dominação masculina sobre as crianças e as mulheres, dominação essa que se exerce precisamente no
domínio privado da intimidade do lar, longe dos olhares da comunidade. Pelo contrário, a completa eliminação da
distinção está muito ligada à ideologia fascista, e totalitária em geral, que tende a fazer desaparecer a esfera do privado.
Nos nossos dias, a relação entre o público e o privado levanta algumas questões. O direito à preservação do domínio da
intimidade privada entra em conflito com a necessidade de preservar a paz civil e perseguir acções criminosas, por parte
dos poderes públicos. Além disso, o privado, a intimidade, tornou-se público e é exibido em público, como privado. O
desenvolvimento tecnológico da sociedade da informação vem dar uma amplidão até agora desconhecida a estes conflitos.
O controlo sobre o indivíduo em áreas que até agora se pensavam ser do domínio do privado é tecnologicamente possível;
em que condições, e até que ponto, é tolerável?

Proposição - Segundo Aristóteles, é o enunciado verbal susceptível de ser dito verdadeiro ou falso, distinguindo, assim, a
proposição, como frase declarativa, das outras expressões verbais: vocativa, imperativa, interrogativa, etc. Formalmente é
constituída pela atribuição de um predicado a um sujeito. Na Lógica clássica, é a expressão linguística do juízo, é o
enunciado de um JUÍZOTI.

Raciocínio - Representa um modo mediato, ou indirecto, de conhecer: o raciocínio implica um discurso, isto é, uma
sucessão de momentos em que entre o antecedente (as premissas) e o consequente (a conclusão) existe um nexo lógico tal
que a conclusão deriva necessariamente das premissas. Encadeamento de dois ou mais juízos que conduz a uma
conclusão. Processo de tirar uma conclusão de um conjunto de premissas. Operação do espírito por meio da qual, de
conhecimentos dados, se conclui um conhecimento novo sem recurso à experiência. S. Tomás de Aquino definiu o
raciocínio como a passagem do conhecido para o conhecimento do desconhecido. Assim, o raciocínio é um instrumento
de descoberta e demonstração da verdade. A sua expressão material é o argumento.

Racionalidade - Carácter daquilo que é racional. É a diferença específica que distingue a espécie humana do género
próximo (animal): o homem é um animal racional; assim, racionalidade é a propriedade constitutiva do ser humano.
Racionalidade confunde-se com o exercício da razão. A racionalidade esteve durante muito tempo reduzida ao uso da
razão teórica. Ora, a razão humana não se esgota no domínio do raciocínio formal e actua em domínios que nada têm a ver
com a matemática. A razão também intervém em assuntos onde reina a opinião e a verosimilhança. Assim, hoje em dia,
tendo o conceito de razão sido alargado (razão teórica e razão prática), aceita-se que a razão não se reduz ao domínio
lógico-matemático, pelo que se admite também, por exemplo, uma racionalidade argumentativa: o Direito, a Filosofia, a
Ética, por exemplo, não dependem de uma demonstração lógico-matemática, mas não deixam por isso de serem
afirmações da racionalidade.

Racionalidade científica - As ciências procedem a uma organização do mundo através da razão, partindo do pressuposto
que o real é inteligível, racionalmente descritível. Tradicionalmente consideraram-se características da racionalidade
científica a objectividade/verdade, o desinteresse/não comprometimento, a neutralidade.

As condições necessárias e suficientes para alcançar a verdade são simultaneamente o acordo do pensamento consigo
mesmo e o acordo do pensamento com a realidade. Actualmente, não pode defender-se nas ciências uma racionalidade
absoluta (não basta a razão para conhecer o mundo, existem outros factores que intervêm no processo, como a experiência
e a técnica), daí não se falar de uma racionalidade científica, mas de racionalidades próprias das várias ciências. Assim, a
objectividade?) absoluta já não caracteriza a racionalidade científica, mas uma intersubjectividade, um acordo de todos os
sujeitos epistémicos. Por outro lado, o aspecto desinteressado e neutro da ciência é hoje posto em causa, uma vez que a
ciência é uma actividade feita por seres humanos concretos num contexto histórico determinado.
Radicalizando a critica da racionalidade científica, Feyerabend (1924-1994) vai ao ponto de rejeitar as bases em que
assentam os critérios de racionalidade científica tradicionalmente propostos (legitimidade de estabelecer regras
metodológicas, a distinção entre a linguagem teórica e a linguagem observacional, a distinção entre o contexto da
descoberta e o contexto da justificação, a defesa da existência de um progresso cumulativo da ciência que admite a
possibilidade de comparar o antes e o depois dos processos revolucionários no âmbito de uma disciplina) defendendo que
não existe uma racionalidade tipicamente científica, mas uma indistinção igualitarista.

Realidade - É a característica de tudo o que é real. (subst.) Designa aquilo que é real, quer consideremos o real em relação
a um dos seus elementos (uma realidade) quer em relação ao seu conjunto (o real). A realidade é, assim,

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tudo aquilo que existe efectivamente; distingue-se de aparência, projecto, desejo, utopia e identifica-se com o existente.
Neste sentido equivale a ser. Mais precisamente, é tudo aquilo que existe independentemente da consciência que pensa ou
conhece.

Retórica - O conceito vem do grego rhetor que significa orador.

De um modo geral, é a arte de utilizar a linguagem com o objectivo de influenciar os outros, persuadindo-os ou
convencendo-os.

Na Retórica estão reunidos um orador (com intenção de persuadir/convencer), um auditório e uma mensagem: o orador é
simbolizado pelo ethos, o auditório pelo pathos e a mensagem constitui o logos, aquilo que se debate - teses, factos, etc.
Aristóteles (384-322 a. C.) chama ethos à dimensão do orador, ao tipo de provas baseadas no orador, uma vez que o seu
carácter e as virtudes que demonstra o tornam aos olhos do auditório mais digno de crédito e, portanto, mais persuasivo;
pathos, à dimensão do auditório, ao tipo de provas baseadas no auditório, porque ao ouvir passivamente o discurso do
orador este é percorrido por paixões desencadeadas pelos enunciados proferidos (daí o conceito de emoção). Finalmente,
chamou logos à dimensão abarcada pela linguagem, ao tipo de provas baseadas na linguagem; o logos é definido
simultaneamente pelo estilo e pela razão, pelas figuras e pelos argumentos com que a tese é apresentada. Segundo o
mesmo autor, o ideal seria que o ethos, o pathos e o logos fossem usados equilibradamente. Retórica é, porém, um termo
ambíguo que tanto pode significar arte da eloquência, técnica da manipulação do auditório, como técnica do discurso
dirigido a um receptor no sentido de o levar à adesão de uma tese. Como arte de persuadir, esteve ligada ao aparecimento
da democracia, na época clássica, e ao desenvolvimento do Direito. O cidadão ateniense usa a Retórica para persuadir os
seus concidadãos a elegerem-no para cargos políticos e usa a retórica, nos tribunais, para fazer valer a lei. Aristóteles
considera-a como a técnica de argumentação do verosímil, legítima para os debates no espaço público da cidade. Mas ela
também serviu a demagogia e manipulou.

Essa ambiguidade do conceito resulta, pois, da sua história. De qualquer modo, a Retórica, que surgiu na Grécia antiga por
volta do séc. V a. C., esteve desde sempre ligada à filosofia.

Em Platão (429-347 a. C.), é considerada o oposto da filosofia, na medida em que apenas se preocupa com o verosímil e a
adulação do auditório, enquanto que a filosofia é busca da verdade e não o desejo de sucesso a todo o custo. A Retórica, ao
visar apenas a capacidade de persuadir, afirma-se como um não saber, revelando-se, portanto, uma ciência inútil e até
perigosa, visto que poderá ser usada para fins injustos. Enquanto para Platão a retórica se opõe ao ideal filosófico da busca
da verdade, na época romana, com Cícero (106-43 a. C.) filosofia e retórica conciliam-se. Na Idade Média faz parte do
currículo das Universidades europeias (juntamente com a gramática e a dialéctica, constituía o trivium).

Descartes (1596-1650) rejeita-a, opondo ao seu carácter verosímil a evidência intelectual.

No século XX, a Retórica é reabilitada; Perelman advoga um alargamento da racionalidade que, além de lógico-
matemática, deve ser também argumentativa revalorizando, assim, a retórica e dando origem àquilo que se designa por
Nova Retórica. Se não se considerar a filosofia como a elaboração de uma doutrina mas como argumentação, a oposição
entre filosofia e retórica desaparece e a retórica relaciona-se com o bom uso da argumentação.

Nos finais do século XX, foi-se generalizando a convicção que todos os discursos, mesmo o científico, têm uma dimensão
argumentativa, persuasiva e não são apenas demonstrativos, perspectiva que levou à revalorização da Retórica.

Retórico - Aquele que cultiva a Retórica. Conforme a concepção de Retórica, assim varia a conotação do termo retórico.
Para Platão (429-347 a. C.), o retórico opõe-se ao filósofo na medida em que procura apenas vencer a lide retórica e
vencer a todo o custo, enquanto este último busca a verdade e considera que numa lide dialéctica não há vencedor nem
vencido, ambos os interlocutores contribuem para a descoberta da verdade. Ver orador.

Ser - Qualquer definição de ser é circular, pois não se pode definir ”ser” sem empregar esse termo. Ser é aquilo que é
realmente. Tudo aquilo que é real pertence ao domínio do ser.

Ser é o conceito que tem a extensão máxima - tudo o que existe é, engloba, portanto, todos os existentes - e a compreensão
mínima - a única coisa que se pode dizer do ser é que o ser é.

O estudo do ser ocupa um lugar central na história da filosofia. A questão: por que existe algo e não o nada? inaugura,
segundo Heidegger, o pensamento filosófico. A disciplina filosófica que estuda o ser é a ontologia.

Sociedade da informação - Sociedade da informação é a expressão utilizada para designar a sociedade dos nossos dias,
resultado da revolução no modelo da comunicação e assente na informação. A revolução a que se assiste actualmente, no
domínio da informação, é comparada por alguns autores à revolução introduzida pela invenção da imprensa por
Guttemberg, no século XV Telefone, cinema, televisão, vídeo, computador, Internet são realidades desta sociedade da
informação e a sua articulação dá origem a uma nova máquina de comunicar em que a informação tende a circular sem
fronteiras espaciais e quase em tempo real, o que levou à criação do conceito de ’aldeia global’, para designar o nosso
mundo.

As vantagens que esta revolução apresenta a nível social são inegáveis; alguns pensadores assumem uma posição, a que
Manuel Maria Carrilho chama «jubilatória», na medida em que aderem entusiasticamente, e acriticamente, às novidades
no sector da informação/comunicação. Outros limitam-se a

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registar os benefícios resultantes da rápida circulação de informação que permite conhecer em pouco tempo, e sem sair de
casa, diversas culturas, acontecimentos à escala mundial, pedidos de ajuda, etc., sem esquecer o que ela tem de
empobrecedor, porque uniformizante, e fomentador de passividade e atitude acrítica (o zapping, por exemplo, permite ter
uma ideia rápida do que se passa em vários canais de televisão, mas pode servir para evitar seguir até ao fim um debate
mais exigente ou um filme que obriga a pensar). Além disso, a própria informação pode tornar-se uma mercadoria e levar
à desinformação.

Sofista - Originalmente, o termo grego sofista designa homem hábil ou sábio em qualquer assunto. É aquele cuja profissão
é ensinar a sabedoria. É a designação dada aos professores que, na Grécia no século V, iam de cidade em cidade ensinar,
mediante retribuição, a arte de argumentar racionalmente tanto nos assuntos privados como nos públicos aos jovens que
ambicionavam desempenhar um papel nas assembleias políticas ou nos tribunais.

Numa Atenas em que o saber falar (o saber persuadir, a oratória e a retórica) era condição indispensável para triunfar (quer
politicamente quer nos tribunais) os sofistas desempenham um papel fundamental.

A partir de Platão (429-347 a. C.) e Aristóteles (384-322 a. C.), sofista passa a designar aquele que usa argumentos
aparentemente válidos para enganar os outros - sofismas - e, consequentemente, passa a ter uma conotação pejorativa.
Platão, com efeito, opõe-se-lhes violentamente pelo facto de defenderem o convencionalismo e até o cepticismo
(gnosiológico ou ético), acusa-os de usarem argumentos enganadores, adularem a opinião e estarem mais preocupados
com a vitória nas lides retóricas do que com a verdade, além de ganharem dinheiro com o ensino das técnicas oratórias
necessárias para alcançar a vitória.

Apesar de não terem uma filosofia comum, existe uma atitude intelectual comum aos principais sofistas gregos. Separam
o domínio da lei do da natureza, considerando aquela meramente convencional; defendem formas mais ou menos
extremas de relativismo (quer gnosiológico quer ético), chegando alguns a sustentarem o cepticismo. São especialistas na
arte de argumentar, bem como na arte da oratória. Têm alguns conhecimentos de psicologia, necessários para o
conhecimento do auditório.

Entre os sofistas destacam-se, entre outros, Górgias, Hípias, Protágoras.

Sujeito - Etimologicamente, sujeito significa subjacente, que serve de base a.... Na Metafísica tradicional, designa o ser a
que referimos as mudanças e os acidentes; neste sentido é sinónimo de substância. É o ser real por oposição ao objecto;
substância unificadora de todas as nossas representações, é o suporte relativamente permanente (substância) das
qualidades, da mudança.

Em Lógica, opõe-se a predicado, ou atributo; é, numa proposição, o suporte de atribuição do predicado, é aquilo de que se
afirmam ou negam os atributos (predicado).

Em Gnosiologia, o sujeito é aquele que conhece (cognoscente) o objecto (conhecido).

A partir do séc. XVII, passa a designar também o eu pensante organizador da acção e da actividade cognitiva.

Tabela de verdade (ou Tábua de verdade) - A função de verdade de proposições, ou frase, é uma função que produz um
valor de verdade dessas proposições, ou frases. As tabelas de verdade ilustram o modo como o valor do todo é
determinado pelas combinações de valores das partes constituintes. São quadros de valores lógicos que se usam no cálculo
preposicional para verificar se as fórmulas de operações lógicas sobre variáveis preposicionais são verdadeiras ou falsas.
Permitem decidir, mecanicamente, se uma determinada fórmula é uma tautologia ou não, isto é, se admite o valor de
verdade falso.

Alguns lógicos constróem uma tabela de verdade para cada operação, outros, apenas uma tabela geral que contém todas as
outras como casos particulares.

Técnica, Tecnologia - De technê, que em grego significa habilidade, arte, a técnica é «o conjunto dos meios postos em
acção pelo homem com vista à obtenção dos seus fins» (Logos, 5), é o conhecimento/habilidade de/para produzir coisas
sensorialmente perceptíveis, com uma determinada finalidade - satisfação de uma necessidade, expressão de uma ideia
(tirar água de um poço ou compor uma música em defesa da liberdade).

A partir desta acepção, técnica passou a designar as regras comunicáveis da referida realização. Assim, fala-se da técnica
de construção das pirâmides ou da técnica de tocar piano. Primitivamente a técnica consistiu no uso de instrumentos e
ferramentas movidas à mão que permitiam operar melhor sobre a natureza (roldana, cunha, etc.) Na época moderna
passaram a ser usadas ferramentas já não movidas pela força muscular do homem mas pela acção de forças naturais, como
o vapor, na máquina a vapor, por exemplo.

A técnica é, pois, o aproveitamento sistemático e planeado de recursos e forças naturais, que se baseia no conhecimento da
natureza (simples conhecimento empírico, nos primórdios da humanidade, ou ciência) e que é posto ao serviço da
satisfação das necessidades (naturais ou culturais) do ser humano. No entanto, a técnica que é, assim, resultado da ciência
é, por sua vez, factor de desenvolvimento desta a ponto de, nos nossos dias, técnica e ciência serem inseparáveis, falando-
se de tecnociência.

Em resumo, por meio da técnica, o homem põe a natureza ao seu serviço, a técnica visa a utilidade e a eficácia.
Essencialmente partir do século XIX, a técnica tem vindo a ser sujeita a várias críticas.

O pensamento que se inspira em Marx (1818-1883), embora reconheça à técnica consequências benéficas para a
humanidade - desenvolvimento económico, diminuição do esforço do operário, diminuição da mortalidade, aumento da
esperança de vida, conforto, comunicação, etc. - assinala-lhe

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também consequências nefastas - desliga o operário do meio familiar, leva à acumulação do capital, aumenta as
”necessidades”, subordina a si toda a vida social, levando à tecnocracia - atribuição aos técnicos de um poder por vezes
superior ao da classe política.

Heidegger (1889-1976), vai mais longe e considera que ela possui um «carácter imperioso e conquistador»; a técnica, cuja
essência se opõe frontalmente ao ideal grego do conhecimento especulativo seria, no seu entender, perigosa pois visa
obrigar, forçar, a natureza a produzir levando-a à destruição. O resultado seria, além da destruição do ambiente natural, o
desprezo pelas questões do sentido da vida, a violência gratuita.

Esta visão pessimista da técnica, leva alguns autores contemporâneos a afirmarem que a humanidade só sobreviverá se se
impuser uma política de responsabilização da técnica. Paralelamente, algumas vozes se levantam considerando a técnica
como o instrumento por excelência do domínio do homem sobre a natureza.

O problema que se levanta, hoje, é, pois, saber se as consequências nefastas serão uma fatalidade, se serão evitáveis ou,
pelo menos, se serão compensáveis com medidas adequadas? Tecnologia, do grego tedmologia, significa tratado que
apresenta as regras de uma arte. Tecnologia tanto designa o conjunto dos métodos, conhecimentos, utensílios, próprios de
uma área particular do conhecimento, ou de uma arte, como o trabalho de reflexão sobre a técnica.

Tolerância - Em latim, tolerância, de tolerem que significa sofrer, suportar pacientemente, mas também sustentar,
aguentar.

O conceito de tolerância desenvolve-se na Europa do século XVII/XVIII, sobretudo com Bayle (1647-1706), Locke
(1632-1704) e Voltaire (1694-1778). Segundo Voltaire, a tolerância «é o apanágio da humanidade», pois, uma vez que é
próprio da nossa natureza errar, «a primeira lei da natureza é perdoarmo-nos reciprocamente as nossas fraquezas». A
tolerância consiste, então, em abstermo-nos de agir contra aquilo que reprovamos ou que é diferente de nós. O estado
democrático moderno reclama-se da tolerância especialmente da tolerância religiosa. A Carta sobre a Tolerância (1689) é
considerado o texto fundador, embora o seu autor, John Locke, não seja o primeiro pensador a debruçar-se sobre essa
problemática. Segundo Locke, o Estado cristão deve ser tolerante para com os grupos religiosos mas não com os
indivíduos ateus que são excluídos da tolerância tal como os católicos, papistas, que se submetem a Roma e, por esse
motivo podem constituir uma ameaça à segurança do Estado. Assim, a tolerância começou por ser a procura de uma
regulamentação da coexistência de comunidades, religiosas no interior de um mesmo Estado, que não é laico, antes se
encontra vinculado a uma confissão religiosa; a tolerância é, assim, um problema político. Por outras palavras, o Estado
pretensamente detentor da verdade em matéria religiosa e do poder para a impor ”tolera” no seu seio outras confissões
religiosas, embora admita que elas estão no erro.

No entanto, se os homens são igualmente livres, e a sua razão é igualmente limitada em matéria de conhecimento da
verdade absoluta, não tem sentido falar de tolerância como uma espécie de favor que aquele que está convencido que
possui a verdade, e detém o poder para a impor, faria aos outros que ele supõe estarem no erro, movido pela caridade ou
pela razão. Seguindo a linha de pensamento kantiano, a impossibilidade de a razão conhecer o supra-sensível, faz com que
a diversidade das subjectividades - doutrinárias, étnicas, culturais - não seja contraditória com a existência de um sentido
comum, isto é, com uma comunicabilidade universal do sentimento, O sentido comum surge, assim, como a condição de
possibilidade da existência de consensos com base na subjectividade de juízos não determinantes. A tolerância aparece,
assim, como uma espécie de disponibilidade para partilhar aquilo que se considera justo e não o bem. Nos nossos dias, a
tolerância levanta ainda alguns problemas. Existem, ou não, limites à tolerância? Locke excluía da tolerância os ateus e os
papistas, porque eram, a seu ver, e por razões distintas, intoleráveis. Deve-se tolerar a intolerância? Existirão realidades
intoleráveis nos nossos dias? Em nome de quê as podemos identificar? A tolerância deve ser encarada como
reconhecimento de igual dignidade a todos os indivíduos ou como reconhecimento de igual direito a todas as comunidades
(modelo multiculturalista)?

No fundo, não deverá substituir-se o conceito de ’tolerância’, que remete para o de condescendência, pelo de ’direito à
diferença’?

Validade - Em Lógica, designa a coerência formal de um raciocínio sem referência à verdade ou falsidade das premissas
ou da conclusão; acordo do espírito com as regras do pensamento. Validade qualifica os argumentos cuja conclusão se
segue das premissas. Premissas e conclusão (que são proposições) não são elas próprias válidas ou inválidas, mas sim
verdadeiras ou falsas. A Lógica formal apenas se interessa pela validade dos raciocínios.

Validade das hipóteses - A hipótese, por si só, é uma simples conjectura que, para ser cientificamente válida, tem de ser
confirmada.
Tradicionalmente, considera-se que a confrontação objectiva com os factos é o critério de validade das hipóteses. Assim, a
validade das hipóteses estará solidamente estabelecida quando a experimentação verifica todas as consequências teóricas
da teoria aplicadas a problemas particulares. Karl Popper (1902-1994) considera que não existe um método para averiguar
a verdade científica, isto é, não há um método de verificação.

Valor de verdade - Propriedade que uma variável preposicional tem de ser verdadeira ou falsa. Na Lógica clássica,
bivalente, uma proposição pode ser verdadeira - assume o valor de verdade Verdadeiros (1) - ou falsa - assume o valor de
verdade Falso (0). Nas lógicas polivalentes, admitem-se outros valores de verdade como, por exemplo, o possível.

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Verdade - Carácter daquilo que é verdadeiro. O sentido clássico do conceito de verdade é o de verdade como o acordo do
pensamento com a realidade conhecida. A verdade será a correspondência ou adequação do pensamento ao ser. Esta
conformidade só se dá no juízo, por isso, formalmente, verdade é atributo de um juízo. Segundo a teoria da verdade como
correspondência, (Aristóteles, 384-322 a. C.) a verdade consiste na correspondência do pensamento e do discurso com os
objectos e os factos a que aqueles se referem: «uma afirmação é verdadeira se diz do que é, que é, e do que não é, que não
é». Pelo contrário, a teoria pragmática da verdade (William James, 1842-1910) defende que a verdade de uma afirmação é
definida em termos de utilidade da sua aceitação. Assim, uma teoria verdadeira é uma teoria que produz consequências
satisfatórias, isto é, são os resultados que determinam aquilo que é verdade.

Para o positivismo lógico, a verdade é sinónimo de verificabilidade: uma proposição é verdadeira quando diz o que
ocorreu (Ayer, 1910-1989).

Peirce (1839-1914), no ensaio «How £o Make our Ideas Clean sugere aquilo a que se pode chamar a teoria da verdade
como limite ideal. Esta teoria consiste em considerar a verdade como aquilo com que se concordaria no limite ideal da
investigação. A verdade seria, assim, o objectivo da investigação. A aceitação desta teoria levanta o problema de não
apresentar a determinação empírica que nos permita saber quando é que o limite é alcançado.

Verdadeiro - Característica da proposição a que é legítimo dar total assentimento. Em Lógica?! bivalente, é um dos
valores de verdade de uma proposição (o outro é o Falso?)): uma proposição só pode ter o valor de verdade verdadeiro ou
falso, nunca os dois ao mesmo tempo. Em Metafísica, verdadeiro confunde-se com real.

Verificação - Acto de verificar, isto é, de controlar a verdades de uma proposição. Designa também o resultado do acto de
verificação. Esse controlo pode ser feito através do confronto com os factos ou da análise formal. Nas ciências formais, a
verificação pertence à ordem do cálculo. Nas ciências empíricas, é discutível falar de verificação. Segundo Karl Popper
(1902-1994), pode-se estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, mas não é possível estabelecer a sua
verdade. É preferível falar de confirmação ou corroboração (sempre ”até prova em contrário” e nunca definitivas).

Verificabilidade (ou princípio da verificação) - É o princípio central do neopositivismo ou positivismo lógico segundo o
qual uma proposição só tem sentido se for empiricamente verificável: só a observação empírica pode determinar se uma
proposição é verdadeira, falsa ou provável; o significado de uma afirmação é o seu método de verificação. Assim, as
frases que não admitem qualquer verificação (da metafísica ou da ética, por exemplo) não são verdadeiras nem falsas, são
destituídas de significado. As proposições da Matemática e da Lógica são tautologias; só as proposições das ciências
experimentais fornecem um conhecimento digno de confiança.

Ayer (1910-1989) distingue entre o sentido forte e o sentido fraco de Verificabilidade: uma proposição diz-se verificável,
no sentido forte do termo, se, e apenas se, a sua verdade puder ser estabelecida definitivamente pela experiência; é
verificável no sentido fraco se for possível torná-la provável pela experiência.

BIBLIOGRAFIA

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Blackburn, S., Dicionário de Filosofia, Gradiva, Lisboa, 1977

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Logos - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Editorial Verbo, Lisboa/São Paulo, l,


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