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Loretta

Chase
O ENCANTO DE UM PATIFE

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Serie Canalhas (Scoundrels) 01

Para Esme Brentmor não importa que a vingança não


seja coisa de mulheres. Está determinada a vingar o assassinato de
seu amado pai, um enigmático aristocrata inglês que passou os
últimos anos de sua vida em um exílio auto-imposto. A honra a
obriga a não permitir que nada nem ninguém se interponha em seu
caminho. E isso inclui o bonito desonesto que, desde que apareceu
em sua vida organizada, colocou tudo de pernas para o ar e cujos
encantos não compensam seu caráter preguiçoso e irresponsável.
Tendo perdido toda sua herança nas mesas de jogo, Varian St.
George, Lorde Edenmont, trata de viver o dia a dia graças a seu
engenho e encantadoras maneiras. Sendo um homem cujo lema na
vida é a lei do «mínimo esforço» — preferivelmente sob os suaves
lençóis das camas de mulheres bem dispostas — não quer ver-se
envolvido em uma amalucada busca com uma ruiva de mau gênio
armada até os dentes.
E dessa maneira, obrigados a viajar juntos por terras exóticas,
o peculiar casal descobrirá muito em breve que tocar pode produzir
perigosas faíscas…

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NOTA DA AUTORA

O livro Travels in Northern Greece («Viaje pelo norte da


Grécia»), do coronel William Martin foi publicado em 1835. Este
texto, e Journey through Albania («Périplo pela Albânia »), do John
CAM Hobhouse (publicado em 1817) foram minhas principais fontes
de informação sobre o século XIX na Albânia. Por essa razão,
Ioanina e Preveza, por exemplo, são na novela cidades da Albânia,
embora em nenhum mapa moderno aparecem dentro das fronteiras
desse país.
No tempo em que se desenvolve esta história, não existia o
alfabeto albanês; até muito recentemente, inclusive a fonética
moderna utilizava diferentes maneiras de transliterar esta língua,
dependendo de cada escritor, ou de se se tratava do dialeto do
norte ou do sul. Em consequência, os primeiros escritores que
viajaram a Albania transliteravan o albanês tal e como soava —
algo que não é tarefa fácil para o ouvido inglês — ou, no caso dos
nomes de lugares, tiravam do latim, do grego, ou utilizavam as
versões italianas. Para simplificar as coisas, eu optei — salvo em
uma ou duas exceções — por utilizar o albanês contemporâneo. Por
isso Esme não vive em Durazzo, ou Drus, ou Duratzo, ou
Dyrrachium, mas em Durrës.
Por outra parte, deixei algumas expressões turcas da época,
como «Pelo Alá». Embora se utilizam em estranhas ocasiões na
Albania contemporânea, certamente foram muito comuns durante o
século XIX.
Quero agradecer a meus pais, George e Resha Chekani, por me

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ajudar a esclarecer outros muitos problemas linguísticos, e a
resolver alguns enigmas históricos e políticos; também agradeço a
ajuda de minha irmã, Cynthia Drelinger, a meus tios, Mentor, Steve
e George Kerxhalli; e a minhas primas Skander e Mariana Kerxhalli.
Estas últimas passaram três meses conosco a princípios de 1991,
sendo dos primeiros visitantes albaneses nos Estados Unidos depois
de mais de cinqüenta anos.
Como sempre, estou profundamente em dívida com meu
marido, Walter, por sua crítica construtiva, seus conselhos, sua
sabedoria e seu apoio moral.
É obvio, qualquer atrocidade que possa haver neste texto é —
sem dúvida alguma— somente culpa minha.

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Prólogo

Otranto (Itália), meados de setembro de 1818

Jason Brentmor deixou de lado a nota que sua cunhada


entregou. Passeou os olhos com o olhar perdido pelo azul mar
Adriático, que brilhava sob o sol de início do outono, e depois pelo
terraço de pedra do palácio de seu irmão, até que encontrou com o
olhar azul de Diana. Então sorriu.
— Tranquiliza-me verificar que minha mãe não se abrandou
com a idade — disse ele. — Não desperdiça as palavras, não é
mesmo? Como já sabe durante os últimos vinte e quatro anos não
me olhou com bons olhos. Para ela sou ainda aquele moço
imprudente que desprezou sua herança para viver entre os
bárbaros turcos.
— Ou seja, como o filho pródigo — respondeu Diana divertida.
— Exato. Somente precisaria me jogar de joelhos a seus pés e
pedir perdão para que eu e minha filha mestiça fôssemos aceitos de
novo no seio dos Brentmor. Que demônios você escreveu, querida?
— Só contei que tinha me encontrado com você em Veneza, na
primavera. E também mandei uma cópia de meu novo testamento.
— Diana apontou o delicado jogo de xadrez que estava em cima da
mesa, ao lado da espreguiçadeira. — Esse jogo foi seu em outro
tempo. Agora deveria ser o dote de Esme.
— Esse foi o presente de bodas que fiz para você — disse ele.

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— Teria preferido ter você em minhas bodas — respondeu ela.
— Mas já falamos de todos os nossos arrependimentos em Veneza,
não é assim? E tivemos três gloriosas semanas para compensar por
tudo aquilo.
— OH, Diana, eu gostaria tanto…
Ela afastou o olhar.
— Espero que não comece a ficar muito sensível, Jason. Já
sabe que é algo que não suporto. Nós dois pagamos um preço
muito alto por nossos enganos. Mesmo assim, tivemos Veneza, e
agora você está aqui. O passado não mais existe. E não quero que
nossos filhos tenham que pagar por isso, como se tivessem vivido
em um espantoso melodrama. Sua filha necessita de uma casa e
um marido apropriado, na Inglaterra, que é o lugar ao qual
pertence. Leiloei o jogo de xadrez e sei que vale uma grande
quantidade de dinheiro.
— Ela não necessita…
— É obvio que sim, sobretudo se quiser que tenha um
matrimônio feliz. Com o dote apropriado, e sua mãe introduzindo-a
de novo na sociedade, Esme poderá escolher entre os melhores
solteiros disponíveis. Já completou dezoito anos, Jason. Não pode
ficar na Albânia para acabar encerrada em algum harém turco.
Você mesmo disse isso. Assim volta com ela para casa e faz as
pazes com sua mãe. E não discuta com uma mulher moribunda.
Jason sabia que ela estava morrendo. Tinha começado a
suspeitar no dia que voltavam de Veneza. De outra maneira, não
teria se atrevido a voltar para a Itália tão rápido pela segunda vez.
Entre uma visita e outra, a Diana de dourados cabelos se
converteu em um fantasma de si mesma: suas elegantes mãos

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tinham adquirido uma triste fragilidade, com veias azuladas que
bombeavam sem força o sangue por debaixo de uma pele quase
transparente. Mas mesmo assim estava decidida a demonstrar
firmeza; sempre tinha sido orgulhosa e teimosa.
Ele se afastou do corrimão de pedra e, desviando o olhar de
seu rosto ainda formoso, pegou da mesa a rainha negra do jogo de
xadrez. As diminutas pontas do elaborado vestido renascentista
gravado na figura de xadrez brilharam sob a luz do sol. Embora
imaginasse que aquele jogo de xadrez fosse uma antiguidade de
mais de duzentos anos, estava completo e em perfeito estado.
— Obrigado — disse ele. — Teria que voltar com Esme tão logo
seja possível.
— E isso o que significa?
— Significa que agora mesmo não posso — respondeu ele. —
Mas espero poder fazê-lo logo. — Seus olhos se cruzaram com o
olhar de recriminação dela. — Tenho outras obrigações, querida.
— Mais importantes que as que tem com sua própria família?
Ele voltou a colocar a rainha negra em seu lugar e se
aproximou de Diana colocando amavelmente uma mão sobre seu
ombro. Odiava fazê-la se zangar, mas tampouco era capaz de
mentir.
— Os albaneses cuidaram de mim quando não tinha nada —
disse ele. — Deram-me uma esposa amante com quem tive uma
forte e valente filha. Eles proporcionaram um propósito digno para
minha vida, dando-me a oportunidade de fazer algo bom. E agora
meu país de adoção necessitam de minha ajuda.
— Ah! — disse ela em voz baixa. — Não tinha pensado nisso.
Viveu com eles mais de vinte anos.

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— Se fosse algo sem importância, não duvidaria em partir. Sei
que demorei muito tempo morando lá e que está começando a ser
difícil para Esme, como você diz. Mas nesse momento Albânia está
à beira do caos.
Ela ficou olhando fixamente.
— Sempre houve distúrbios — explicou ele. — Mas ultimamente
as sublevações parecem estar orquestradas. Encontrei um
armazém de armas inglesas roubadas, que entraram por
contrabando no país. Estou seguro de que há alguém realmente
ardiloso por trás de tudo o que está acontecendo e,
desgraçadamente, parece ter uns seguidores igualmente sagazes.
— Uma conspiração, tio Jason?
Jason e Diana se voltaram para a porta, onde estava de pé o
filho de doze anos dela, Percival, com seus olhos verdes brilhando
de emoção. Jason tinha esquecido do moço, que tinha se retirado
discretamente fazia mais de uma hora com a desculpa de provar o
traje albanês que seu tio havia trazido.
— Que bonito e elegante está — disse sua mãe. — E ficou
perfeito.
Era verdade. As estreitas calças com seus característicos
trançados de tecido se ajustavam a seu corpo como feito sob
medida, assim como a negra guerreira curta que vestia Percival por
cima da folgada camisa de algodão.
— Fiz cortarem o traje na medida de Esme. É como ela está
acostumada a vestir-se sempre. Temo que seja um pouco
masculino — disse Jason passando uma mão pelo escuro cabelo
ruivo do moço. — Sabe? Vestido assim passaria por seu irmão
gêmeo. O mesmo cabelo, os mesmos olhos…

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— São seus olhos e seu cabelo — interrompeu Diana.
Percival colocou-se de lado e, com a típica indiferença que os
jovens têm pela vida e os riscos, subiu no muro de pedra do
terraço. Ao longe, o mar acariciava suavemente as rochas íngremes
da costa.
— Só que eu nunca fui tão magro — acrescentou Jason
sorrindo. — Não é tão mau para um moço, mas quase exasperam
em Esme. Porque como é tão pequena e magra, os outros
esquecem que já é uma mulher. E não gosta nada que a tratem
como a uma menina.
— Eu adoraria conhecê-la — disse Percival. — Eu não gosto das
garotas muito femininas. Quase todas são insuportavelmente tolas.
Sabe jogar xadrez?
— Temo que não. Pode ser que eu ensine quando voltarmos à
Inglaterra.
— Então, está pensando em voltar, tio? Alegro-me muito de
ouvi-lo. Isso é o que mais deseja mamãe, já sabe. — Sentado no
muro de pedra, com as pernas penduradas nos lados, Percival
entreabriu os olhos contra o sol e ficou olhando à volta da apenas
visível linha de costa ao outro lado do mar: a costa da Albânia. —
Quando faz bom tempo — começou a dizer— , mamãe e eu saímos
aqui e os saudamos com a mão, e imaginamos que você e Esme
podem nos ver e devolvem a saudação. É obvio que isso não
contamos a ninguém, não é verdade, mamãe? Nem sequer lorde
Edenmont. Ele pensa que saudamos os pescadores.
— Edenmont? — repetiu Jason incrédulo. — Não se refere a
Varian St. George? Diana, que demônios está fazendo aqui esse
tipo?

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— Vive aqui — respondeu ela com um meio sorriso. — De modo
que o conhece.
— Ouvi falar dele em Veneza. Era do círculo de Byron. Partiu da
Inglaterra para escapar de seus credores, para não mencionar sua
afeição aos lençóis das condessas. — Jason se interrompeu
recordando a presença de Percival. Sentou-se em uma
espreguiçadeira e sussurrou com convicção— : Esse homem é um
parasita, um libertino e um folgado. O que quis com «vive aqui»?
— Quero dizer que vive a custa de meu marido.
— Um parasita, o que digo. Seu nome arrasta a pior fama…
— Por isso, obviamente, tem que viver a custa de outros. Eu
penso que lorde Edenmont não é mais que uma hera ornamental,
que vive subindo pelas paredes, de outra maneira, vulgares e
aborrecidos edifícios públicos: ou seja, de Gerald e de outros como
ele. Varian é muito decorativo. Tem essa beleza sombria e
ameaçadora que costuma ser fatal para as sensibilidades
femininas… e para sua sensatez.
Olhou a careta que fez Jason ao ouvir suas palavras e não pôde
evitar que escapasse uma risada.
— Não para a minha, querido. Só o que sinto por ele é pena e,
ocasionalmente, agradecimento. Se lorde Edenmont se rebaixou a
brincar de ser o lacaio de uma mulher adoentada e a babá de seu
precioso filho, essa é a desgraça desse cavalheiro. Percival e eu
estamos encantados com sua presença, não é assim, querido? —
acrescentou ela em um suave tom de voz.
— É um péssimo jogador de xadrez. Embora, por outro lado,
seja bastante inteligente — disse Percival pensativamente. — E
além disso, diverte a mamãe.

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Jason tomou a mão de Diana.
— É assim?
— O mais importante é que é muito amável com o Percival —
sussurrou ela. — Mas meu filho necessita a você, Jason. Gerald o
detesta. Temo que quando eu não esteja…
— Papai está vindo! — gritou Percival. — Sua carruagem acaba
de dobrar a esquina. — O moço saltou do muro. — Vou recebê-la,
posso? — Sem esperar que respondessem, agarrou a mão de seu
tio e a estreitou saudando-o, para logo sair correndo do terraço.
Jason se ajoelhou ante Diana.
— Amo você — disse.
Ela rodeou os ombros com seus débeis braços.
— Agora é melhor que vá — disse ela. — Que seu irmão não
encontre você aqui e estrague nosso dia. Eu também o quero
carinho, e estou muito orgulhosa de você. Mas, por favor, poderia
tentar apressar-se em voltar para a Inglaterra com Esme?
Jason engoliu a saliva e concordou com a cabeça.
— Não se preocupe por mim — disse ela com firmeza. — Pensa
em quão felizes fomos os dois juntos em Veneza. Fez-me realmente
muito feliz.
Ele a abraçou com os olhos empanados por lágrimas. Não pediu
que o perdoasse, porque sabia que já tinha perdoado. E não disse
adeus, porque sabia que ela não suportava as despedidas. Só a
beijou uma vez mais e se foi.

Não querendo preocupar a sua mãe, Percival não havia dito


que se converteu em espião. Nunca em seus doze anos de vida

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tinha encontrado a um homem que pudesse admirar realmente;
não até que conheceu seu tio Jason. Mas o respeito que sentia por
ele como herói de guerra chegou de repente, no momento em que
ouviu seu tio falando de sublevações, contrabando e conspiração.
Com uma vaga noção de que poderia fazer chegar a seu tio
informação secreta de valiosa importância, Percival começou a
farejar por Otranto ou quando o tempo inclemente ou as altas
horas da noite o confinavam dentro de casa, pelo palácio onde
vivia, escutando às escondidas as conversas dos outros e
procurando todo tipo de pistas.
Como a maioria das pessoas que andam procurando
problemas, Percival os encontrou em seguida.
Três noites depois da visita de Jason, o moço estava escondido
no estreito balcão de ferro forjado sob a janela do escritório de seu
pai, bisbilhotando o interior através da abertura entre as cortinas.
Como a janela não estava bem fechada, Percival podia ouvir
perfeitamente a conversa.
O visitante de seu pai bem poderia ser grego, como pretendia,
mas não era um comerciante — e é obvio não tinha vindo para
jogar xadrez com ele, como seu pai tinha feito acreditar a todos. O
que queria o senhor Risto era uma imensa quantidade de rifles
britânicos e pequenas quantidades de outros tipos de armas e
munição. Seu pai havia dito que fazer contrabando desse tipo de
mercadoria era cada dia mais difícil e o senhor Risto tinha
respondido que seu chefe estava perfeitamente a par disso. Logo
esvaziou uma grande bolsa repleta de moedas de ouro sobre a
escrivaninha de seu pai. Sem sequer pestanejar, seu pai rabiscou
algo sobre uma parte de papel e depois de explicar o significado

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daquela mensagem em código, a deu ao senhor Risto. Mas o
senhor Risto negou com a cabeça e disse que não podiam fazer
assim. Parecia que não estava convencido de que seu pai fosse
manter sua parte do trato. Aquilo fez seu pai ficar enfurecido.
O senhor Risto queria que ele desse uma amostra de boa fé, e
nenhuma outra coisa mais que o jogo de xadrez poderia convencê-
lo. Seu pai respondeu que aquele jogo de xadrez tinha pertencido à
família durante várias gerações e que valia várias vezes o preço
daquelas armas. Além disso, estava realmente ofendido por aquela
repentina falta de confiança depois de meses fazendo negócios com
o chefe do senhor Risto, Ismal. A discussão continuou até que, ao
final, o senhor Risto disse que se conformaria com uma das peças
do jogo de xadrez. Quando seu pai pôs objeções, o senhor Risto
começou a colocar de novo as moedas de ouro na bolsa. Muito
irritado, seu pai agarrou a rainha negra a contra gosto,
desparafusou a base da figura, enrolou o pedaço de papel com a
mensagem em código, colocou-o dentro da peça e a deu ao senhor
Risto.
O senhor Risto voltou de repente a comportar-se amavelmente,
deu a mão a seu pai e prometeu que devolveria a peça de xadrez
quando a mercadoria chegasse a Albânia. Logo os dois homens
saíram do escritório.
Armas britânicas. Contrabando. Albânia. É obvio, tudo aquilo
era bastante incrível, dizia Percival a si mesmo enquanto passava o
olhar nublado pelo escritório vazio. Certo que tinha sonhado tudo e
nesse momento estava profundamente adormecido em sua própria
cama.
Percival conseguiu convencer-se de que tudo aquilo não tinha

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sido mais que um sonho até o dia seguinte pela tarde, quando seu
pai e todo o serviço da casa ficaram a procurar por toda parte a
rainha negra que faltava no jogo de xadrez, e que seu pai afirmava
ter desaparecido inexplicavelmente.

Capítulo 1

Otranto (Itália), finais de setembro de 1818

Varian St. George se apoiou no muro do terraço e olhou por


volta do mar. A brisa marinha o acariciava prazerosamente,
movendo apenas os brilhantes cachos negros que caíam sobre sua
fronte. Como um mar inflamado de azul sob o abrasador sol de
outono, o Adriático avançava lentamente para a linha de
escarpados da borda oposta. Em sua imaginação via montanhas de
gelo que o mar se esforçava em engolir em suas profundidades. Por
mais que aquelas chamas azuis arranhassem as montanhas, elas
continuavam ali, imperturbáveis, tão impenetráveis como o Vasto
Império Turco que pareciam defender.
Lorde Byron havia dito que ali podia encontrar a mulher mais
formosa do mundo. Pode ser que assim fosse. Mas parecia um
caminho muito longo, mesmo para ir procurar à própria Afrodite. É
obvio, Varian não precisava ir tão longe em busca de beleza. As
mulheres perseguiam um lorde Edenmont de vinte e oito anos onde
estivesse, e estava seguro de ter no oeste da Europa mulheres
suficientes para satisfazer até ao homem mais voluptuoso.
Aquela noite, por exemplo, tinha uma entrevista com a esposa
de olhos escuros de um banqueiro, e isso era o futuro mais

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longínquo que Varian necessitava ou estava disposto a preocupar-
se. O resultado daquele encontro estava fora de questão. Poderia
fingir que acreditava nos virtuosos protestos que a senhora expôs
durante a primeira hora, ou talvez menos, dependendo de quanto
tempo ele gostasse de interpretar aquela comédia. Mas no final
acabariam fazendo exatamente o que desde o começo os dois
estavam dispostos a fazer.
Entretanto naquele momento os pensamentos de lorde
Edenmont não estavam postos na senhora do banqueiro, mas na
família que o tinha agasalhado e alimentado durante aquele verão.
Uma semana antes tinham espalhado as cinzas de Lady
Brentmor sobre o Adriático. Havia falecido segurando entre as
mãos a mão de seu filho, no mesmo dia que toda a casa se
dedicava a procurar freneticamente uma valiosa peça de xadrez
perdida.
Embora Variem já soubesse que tinha uma enfermidade
incurável, sua morte o havia emocionado e afligido. Apesar de sua
crescente debilidade, aquela mulher nunca pareceu estar doente.
Agora suspeitava que tivesse vivido aqueles poucos meses finais
lançando mão de suas últimas forças só por causa de Percival.
Mesmo assim, não tinha ocultado a verdade de seu filho. De fato
tinha sido o mesmo Percival quem tinha explicado a Varian as
regras do jogo de Lady Brentmor do pouco que conhecia.
— Mamãe diz que não tem medo de morrer — havia dito a
Varian. — Mas o que não pode suportar é que todo mundo esteja
triste e preocupado por ela. E eu acredito que tem razão. Se
estivermos tristes, fazemos que ela fique triste. E para ela é muito
mais saudável estar alegre, não lhe parece? — Olhando Varian com

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uma séria expressão afirmativa, tinha acrescentado: — A princípio
não estava confiando muito em você, mas tem feito rir a mamãe e
você lê com muito mais expressão que papai ou que eu. Se quiser
eu posso ensiná-lo a jogar bem o xadrez.
De modo que, somente porque divertia lady Brentmor e a
distraía de suas dores, Percival estava disposto a aceitá-lo. Para
Varian aquilo pareceu comovedor até o dia que descobriu que o
menino acreditava que ele era um idiota sem remédio. Entretanto,
o moço considerava que seu pai era ainda muito mais idiota, e não
havia dúvida de que não gostava absolutamente, o que, para
Varian era uma amostra do bom gosto e da inteligência superior de
Percival.
Tendo descoberto muito tempo atrás que seu pai o detestava,
Percival havia devolvido o favor despreocupando-se cortesmente de
seu pai. O moço tinha o afeto de sua mãe, o que já era suficiente
para ele. Até aquele momento.
Não que a infeliz situação da família do Percival fosse algo que
preocupasse Varian. Nunca tinha tido carinho por meninos,
especialmente aos adolescentes precoces como Percival. Não
estava disposto a compadecer-se daquele moço. Mas
desgraçadamente Percival lembrava a Varian de seus irmãos
menores. Aquele menino possuía o mesmo dom para meter-se em
problemas que Damon e o mesmo talento para justificar-se de
maneira séria e lógica que Gideon.
Agora e sempre, quando pensava nos irmãos que tinha
abandonado, Varian sentia uma pontada parecida com remorso. E
ultimamente estava começando a sentir o mesmo tipo de pontada
por causa de Percival. Desde a morte de lady Brentmor, sir Gerald

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não deixava de menosprezar e repreender a seu filho de maneira
desumana. Aquele comportamento teria sido já bastante
desagradável em qualquer circunstância. Mas vindo imediatamente
após a perda da adorada mãe era algo desmesuradamente cruel.
Varian tirou o relógio do bolso. Normalmente não teria
levantado da cama antes do meio-dia, mas no dia anterior tinha
afastado Percival do caminho de sir Gerald levando-o para dar uma
volta pelo castelo de Otranto e depois à catedral. Exausto, Varian
tinha ido dormir à uma hora mais cedo que de costume, e como
resultado disso despertou quase ao amanhecer.
Disse a si mesmo que estava bem assim. Encontrou-se com sir
Gerald à hora do café da manhã e anunciou seus planos para partir.
Possivelmente tentaria ir a Nápoles, em primeiro lugar. Não que
tivesse dinheiro suficiente para chegar até lá, mas de qualquer
modo já tinha viajado por meia a Itália sem recursos. Tinha um
velho título, um rosto e um porte de aparência agradável e um
encanto devastador. E tudo isso ele tinha aprendido há muito
tempo; era quase tão útil como o dinheiro no bolso.
Para sorte de Varian St. George, o mundo estava cheio de
arrivistas como sir Gerald, que além do título que seu pai tinha
comprado, não era mais que um comerciante. Como outros tantos
arrivistas, era, é obvio, um esnobe. Jantar de vez em quando com
um ou dois aristocratas dava a ele a ilusão de mover-se entre os
círculos da elite. E nunca era difícil encontrar um aristocrata que
estivesse disposto a consumir uma comida grátis com alguém.
Varian, muito mais interessado que a maioria, estava disposto
a consumir alguns jantares ainda mais. Era até capaz de concordar
converter-se em hóspede da casa. Embora odiasse a comida que

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servia sir Gerald, beber seu vinho, dormir em sua luxuosa
habitação de convidados e ter que permitir que os criados do barão
lhe apresentassem seus respeitos. Mas em troca, Varian consentia
a sir Gerald que deixasse usar seu antigo nome tão frequentemente
como o desejasse.
Era uma pena ter que abandonar um refúgio tão conveniente
antes de ver-se obrigado a isso. Mas de qualquer modo sir Gerald
retornaria logo a Inglaterra. Partir agora não ia fazer com que
melhorasse absolutamente a situação de Varian… E é obvio que ia
piorar bastante a do Percival, maldito seja! O que ia ser daquele
moço, que aparentemente não tinha ali outro amigo além ele,
quando Varian partiu?
Tirando com resolução a grave situação de Percival dos seus
pensamentos, Varian se dirigiu para a sala de jantar.

Durrës, Albânia

Da distância, a casa do Durrës parecia um desvencilhado


montão de pedras amontoadas em um escarpado elevado por cima
do Adriático. Era menor que as anteriores casas de adubo nas quais
tinham vivido. Estava composta somente por duas pequenas salas:
uma para morar e outra para armazenar as provisões. Mas para
Esme Brentmor era uma casa bonita. Durante toda sua vida
ambulante, aquela era a primeira vez que vivia em uma casa bem
em cima do mar.
Possivelmente o Adriático não fosse de um azul tão profundo
como o Jônico, mas tampouco era tão aprazível. No verão, os

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ventos alísios do norte o faziam encrespar-se. Em outono e
inverno, os violentos temporais do sul sopravam com frenesi como
se quisessem arrancar a casa de seus alicerces. Em vão. Apesar de
a pequena estrutura gretada parecer estar a ponto de cair em
pedaços sob a mais suave brisa, era tão sólida como o próprio
escarpado de pedra sobre o qual se assentava, desafiando com
idêntico aprumo tanto os temporais de inverno como as
abrasadoras brisas do verão.
O mar os abastecia de pescado fresco quase todo o ano. A
pouca distância do escarpado, a horta que tinha plantado Esme
florescia sobre uma terra surpreendentemente fértil. Era a primeira
vez que pode cultivar durante mais de uma estação, e o mais
generoso de todos; proporcionava a eles milho, legumes e
verduras. Mesmo as galinhas, na sua maneira particularmente
irritável, pareciam felizes.
Mas Esme, naquele momento não era feliz. Sentou-se com as
pernas cruzadas sobre a dura borda do escarpado, com os olhos
cravados em suas mãos entrelaçadas, enquanto falava com sua
melhor amiga, Donika, que ia partir ao dia seguinte a caminho da
Saranda, para casar-se.
— Nunca mais voltarei a vê-la — disse Esme com tristeza. —
Jason diz que logo teremos que retornar a Inglaterra.
— Mamãe me disse, mas não partirá antes de minhas bodas,
não é? — perguntou Donika com preocupação.
— Temo que sim.
— OH, não! Peça-lhe por favor. Só um mês a mais.
— Já perguntei e não serviu de nada. Fez uma promessa a
minha tia inglesa, que está morrendo.

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Donika suspirou.
— Então não podemos fazer nada. Uma promessa no leito de
morte é sagrada.
— Ah, sim? Pois para ela não há nada sagrado. — Esme lançou
uma pedra à água. — Faz vinte e quatro anos ela rompeu a
promessa de matrimônio que tinha feito a ele. Por quê? Porque
uma vez ele se embebedou e cometeu um engano tolo, como
poderia ter acontecido com qualquer homem jovem. Perdeu uma
parcela de terreno jogando nas cartas, isso é tudo. Mas ela disse
que era um ser débil e baixo, e que não podia casar-se com ele.
— Isso não foi muito amável. Deveria ter perdoado aquele
engano. Eu o teria feito.
— Pois ela não o fez. Mas ele perdoou a ela. Foi visitá-la duas
vezes nesse ano. Disse que aquilo não foi culpa dela, mas que foi
obrigada por seus pais.
— Uma moça deve obedecer a seus pais — disse Donika. —
Não pode escolher um marido por si mesma. Mas mesmo assim
acredito que não deveriam ter quebrado sua promessa de
matrimônio.
— Foi ainda pior que isso — disse Esme zangada. — Após um
ano de ter rompido com meu pai, casou-se com seu irmão. Ela
pertencia a uma família nobre e rica, e já pode imaginar o que isso
tranquilizava a família de Jason. Aceitaram-na rapidamente, mas
meu pai partiu do país para sempre.
— Os ingleses são muito estranhos — disse Donika com
sensatez.
— Não são muito normais — concordou Esme. — Quer que diga
o que escreveu meu avô inglês quando chegaram notícias de meu

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nascimento? São palavras que ainda me queimam o coração. «Não
era suficiente», dizia de mim em sua odiosa carta, «que tivesse
desonrado o nome dos Brentmor com sua imprudente depravação.
Não era suficiente que tivesse perdido as propriedades de seu avô,
para romper o coração a sua mãe. Não era suficiente que saísse
fugindo de seus enganos em lugar de ficar aqui, como um homem,
para assumir as consequências dos mesmos. Não. Tinha que
acrescentar a nossa vergonha a impureza dos bandidos turcos,
casando com uma dessas desprezíveis mulheres bárbaras e
infectando o mundo com outro desses selvagens pagãos.»
Donika ficou olhando horrorizada sem acreditar no que ouvia.
— Em inglês soa ainda pior — confirmou Esme fazendo uma
careta. — E essa é a família para a qual meu pai quer levar-me.
Donika se aproximou dela e colocou um braço tranquilizador
por cima do magro ombro de sua amiga.
— Sei que é muito duro — disse ela, — mas pertence à família
de seu pai. Ao menos até que se case. E pode ser que não demore
muito em fazê-lo. Estou segura de que seu pai buscará um marido
na Inglaterra. Vi a alguns ingleses. São mais altos que os francos, e
alguns até bastante fortes e bonitos.
— OH, sim! E estou segura de que estão morrendo de vontade
de dar boas-vindas a uma pequena e feia bárbara na família.
— Você não é feia. Tem uma cabeleira espessa e formosa,
cheia de fogo — disse Donika afastando umas mechas de ondulado
cabelo vermelho da fronte de Esme. — E tem uns olhos formosos.
Minha mamãe diz o mesmo. Formosos como folhas de carvalho, diz
ela. E também tem uma pele muito suave — acrescentou, roçando
ligeiramente a bochecha de Esme.

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— Não tenho seios — disse Esme com tristeza. — E tenho os
braços e as pernas como palitos.
— Minha mãe diz que não importa que uma moça pareça fraca
desde que seja forte. Também ela era fraca, mas mesmo assim deu
a luz sete meninos sadios.
— Eu não quero dar filhos a um estrangeiro — soltou Esme. —
Não quero ir à cama com um homem que não saiba falar minha
língua, nem criar a um menino que nunca aprenderá a falá-la.
— Na cama não é preciso que fale — lhe disse Donika com uma
risada tola.
Esme lhe dirigiu um olhar de reprovação.
— Não deveria ter contado nunca o que me disse Jason sobre
como se fazem os meninos.
— Me alegro que o faça. Porque agora já não estou assustada.
Não me parece que seja algo tão difícil, embora ao princípio possa
dar um pouco de vergonha.
— Também é bastante doloroso ao princípio, acredito — disse
Esme momentaneamente distraída por aquele interessante tema. —
Mas já me disseram duas vezes e não acredito que possa ser pior
que ter uma bala metida no corpo.
Donika lançou um olhar de admiração.
— Você não tem medo a nada, pequena guerreira. Se pode
enfrentar aos bandidos, não vai ter problemas com nenhum de
seus familiares ingleses. Mas, mesmo assim vou perder você. Se ao
menos seu pai pudesse encontrar um marido aqui — disse Donika
olhando para o mar e suspirando.
— Isso é o mesmo que querer encontrar uma montanha de
diamantes. O fato é que eu pareço muito mais uma garota, e seria

23
melhor soldado que esposa. Um homem deve ser muito velho ou
estar muito desesperado para me querer, quando pode conseguir
uma mulher completa, formosa e dócil pelo mesmo preço.
Donika lançou uma pedra à água.
— Disseram-me que Ismal a quer — disse Donika após um
momento. — Não é velho nem está desesperado, mas sim é jovem
e muito rico.
— E é muçulmano. Preferiria que me metessem em azeite
fervendo antes de acabar em um harém — disse Esme com
firmeza. — Mesmo a Inglaterra, com a família que me odeia, seria
melhor que isso. — ficou pensando um momento e logo
acrescentou: — Não tinha contado isso antes, mas uma vez tive
medo de que isso acontecesse.
Donika se voltou para ela.
— Quando tinha quatorze anos, e tinha ido visitar minha avó no
Girokastro — continuou Esme — Ismal e sua família estavam ali.
Ele começou a me perseguir pelo jardim. Eu pensei que se tratava
de um jogo, mas… — Se interrompeu ruborizada.
— Mas o que?
Embora não tivesse ninguém mais que pudesse ouví-las, Esme
baixou a voz.
— Quando me apanhou, beijou-me… na boca.
— Seriamente?
Esme moveu a cabeça de um lado a outro à maneira que têm
os albaneses de afirmar.
— E o que sentiu? — perguntou-lhe Donika com impaciência. —
É tão bonito como um príncipe. Com um formoso cabelo dourado e
os olhos como pérolas azuis…

24
— Foi algo úmido — interrompeu Esme. — Eu não gostei
absolutamente. Dei-lhe um murro, sequei a boca e saí dali
gritando. — ficou olhando a sua amiga. — E ele ficou ali, deitado no
chão e rindo-se. Acreditei que estava louco, e fiquei aterrorizada
pensando que possivelmente seu avô pensasse fazer uma oferta
por mim, e que teria que me casar com esse menino louco de boca
úmida e acabar vivendo em seu harém… mas não aconteceu nada.
Ou se fez alguma oferta, possivelmente Jason a rechaçou.
Donika se pôs a rir.
— Não posso acreditar nisso. Deu- um murro no primo do Alí
Pachá? Poderiam tê-la executado.
— O que teria feito você? — perguntou Esme.
— Pedir ajuda, é obvio. Mas nunca teria passado pela sua
cabeça pedir ajuda. Você não pode deixar de acreditar ser um
soldado. Não, você acredita que é todo um exército.
Esme dirigiu o olhar para o mar. A partir de agora, cada dia
que passasse a afastaria um pouco mais de tudo aquilo que
conhecia e queria… para sempre.
— Meu pai não é nem um pretendente não desejado nem um
inimigo — disse Esme em voz baixa. — Não posso lutar contra ele.
Quando ao final me confessou que queria voltar para casa, senti-
me tão destroçada que não pude discutir com ele. Tive que contar a
você quão mal estou para poder desafogar, mas não dê
importância. Sei o que é que tenho que fazer. Não pode ir sem
mim, e eu o quero muito para tentar convencê-lo que fique aqui.
Farei por ele tudo o que esteja em minha mão.
— Não acredito que vá passar tão mal — a tranquilizou Donika.
— Ao princípio sentirá falta de seu lar, mas assim que case e tenha

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filhos a seu cuidado saberá que é muito feliz. Pensa como sua vida
ali pode ser rica e cheia de experiência.
Seu olhar passeou por cima do mar enfurecido e Esme somente
viu vazio ao longe. Mas, milagrosamente, sua amiga estava
apaixonada pelo homem que sua família tinha escolhido para seu
marido. Esme decidiu que já era muito sentir pena dela mesma.
Basta de tristeza. Esse era um momento muito feliz para a Donika
e era muito cruel estragá-lo — Assim será — disse Esme
conformada. — E ensinarei a meus filhos albanês em segredo.

Otranto

— Tenho que pedir-lhe um favor, Edenmont — disse sir Gerald


a Varian enquanto ele se servia a segunda taça de café. — Tinha
esperado poder partir muito em breve para a Inglaterra, mas
minhas obrigações não me permitem isso. Quero pedir que leve o
Percival com você a Veneza.
— É obvio que seria uma honra para mim — murmurou Varian
educadamente, — mas…
— Já sei que é muito que peço — interrompeu o barão, — mas
não tenho outra opção. Nesse momento não posso cuidar do moço.
Trata-se de algo difícil e tedioso de explicar, mas basta que lhe diga
que tenho nas mãos uma negociação muito delicada, para dizer de
algum modo, e não posso ter o menino a meu lado, me chateando
todo o tempo.
Varian ficou olhando inexpressivamente sua taça de café.
— Não será por muito tempo. Espero poder aliviá-lo dessa

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carga em um ou dois meses.
Um mês? Ou dois? Pensou Varian colocando outro torrão de
açúcar no café.
— É obvio eu me encarregarei de todos os gastos — disse sir
Gerald.
Logo extraiu do bolso do peitilho de sua camisa um talonário de
banco e o deixou ao lado do pires de Varian.
Varian ficou olhando o talonário tratando de guardar a mesma
compostura que quando ficava olhando uma boa mão de cartas,
com seus olhos cinza tão inescrutáveis como a fumaça.
— Para os pequenos gastos — disse seu anfitrião. — É obvio
que me encarregarei de conseguir as passagens e os alojamentos
adequados, tanto durante a viagem como em Veneza.
— Veneza, nesta época do ano, é uma cidade muito úmida —
disse Varian.
— Bom, não tem por que preocupar-se com nada. Não me
importa o tempo que demore em fazer a viagem, se é que quer
visitar algum outro lugar no caminho, compreende-me? Darei a
vocês um criado para que os acompanhe e também pagarei seus
serviços. Da maneira que você preferir.
As passagens pagas, uma fortuna para pequenos e um criado.
Para um homem com uma libra, três xelins e seis pences no bolso,
aquela oferta era tão irresistível como pretendia sê-lo.
Varian levantou o olhar da taça de café para ver o olhar
impaciente de seu anfitrião.
— Como eu já disse, sir Gerald, será para mim uma honra fazer
esse favor — disse Varian.

27
Tepelena, Albânia

Alí Pachá, o matreiro déspota que governava Albânia, era


velho, gordo e estava doente. Periodicamente tinha arrebatamentos
de loucura. Eles o conduziam a atos de uma selvageria tão sádica
que mesmo os albaneses, acostumados à brutalidade de um mundo
no qual a vida humana era muito barata, achavam digno de
mencionarem.
O fato é que a maioria da população continuava sendo fiel, e
que até sentiam orgulho de seus triunfos, era evidente não só seu
estoicismo, mas também sua aguda perspicácia política. Havia
montões de monstros dispostos a governar às oprimidas massas do
Império turco. É obvio, Alí era o único monstro a quem o sultão não
podia fazer seu escravo. Em consequência, o sultão não podia fazer
dos albaneses seus escravos. Somente respondiam ante o Alí —
quando concediam responder ante alguém — e ele não era um
estrangeiro, mas um albanês, um dos seus. Nem sequer tinha se
preocupado por aprender turco. Para que incomodar-se, quando de
qualquer modo não pensava escutar aos turcos?
Como os albaneses, Jason Brentmor tinha uma ideia clara de
como era o maquiavélico visir. Consciente do valor de Alí, e de seu
poder militar e político, e pesando as vantagens de um homem com
um caráter infestado de defeitos, Jason ainda sentia que Alí Pachá,
o Leão da Ioanina, era muito mais preferível que qualquer das
alternativas disponíveis.
Depois de uma íntima associação que durava já mais de vinte
anos, Jason tinha chegado a conhecer muito bem ao Alí. Mas

28
enquanto abandonava o palácio do visir, Jason desejou que seu
amigo não o conhecesse tão bem assim. É obvio que, como cidadão
britânico — havia dito Alí— , Jason era livre para abandonar Albânia
no momento em que o desejasse, mas…
Bom, o que o longo «mas» do Alí queria dizer era: «Como pode
me abandonar em um momento como esse, depois de tudo o que
eu tenho feito por você?».
— Tem muita razão — disse Jason a seu companheiro Bajo,
enquanto se dirigiam de volta da Tepelena àquela tarde. — E veja
que não sabe nem a metade do que está acontecendo. Se os
rebeldes tiverem êxito, Albânia se afundará no caos e os turcos
poderão entrar facilmente para oprimir a seu povo. Alí duvida de
que os levantamentos levem a alguma parte, mas neste momento
não quer ter mais problemas, porque está tratando com os gregos
para se unam a sua revolução.
— Se os gregos se unem, sob seu comando, seríamos capazes
de derrotar os turcos — disse Bajo. — Mas Alí é velho. Temo que
não fique muito tempo.
— Já viveu sua época. Deveria chegar a cumprir os cem anos.
Bajo ficou olhando surpreso.
— Não falou de suas suspeitas sobre o Ismal?
— Não podia fazê-lo. Alí esteve muito preocupado com seu
grande projeto para dar-se conta de que o que temos entre mãos é
algo mais que uma série de distúrbios isolados. Se se inteirasse de
que estão tramando uma conspiração… e de que seu próprio primo
está por trás…
— Seria um banho de sangue — concluiu sucintamente Bajo.
Seu olhar se adoçou, compassivo. — Ah, Leão Vermelho, tem que

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enfrentar a isso sozinho, se quiser que se solucione tudo sem uma
grande matança!
Jason suspirou.
— Dei-me conta disso faz um quarto de hora. Tive todo o
tempo do mundo para pensar nisso enquanto fazia ver que estava
escutando os extraordinários planos do Alí para desfazer o jogo dos
turcos. — interrompeu-se um momento e olhou a seu redor, mas
não havia ninguém à vista. — Acredito que fiz ver que era possível
que me assassinassem — disse em voz baixa.
Bajo meditou um momento aquelas palavras e logo assentiu
com a cabeça.
— Muito inteligente. Se Ismal quer ter êxito, terá que tirá-lo do
meio. Se acreditar que já está morto, não necessita ser tão
cauteloso. Enquanto isso, poderá ir aonde queira e fazer o que tiver
que fazer sem incômodos espiões e assassinos que o persigam por
toda parte.
— Essa não é a única razão — disse Jason. — Acredito que
Ismal é muito ardiloso para dar ele mesmo a ordem afim de que
me matem, ao menos nessa fase inicial do jogo. Parece-me que
está tratando de me atar às mãos, e a melhor maneira de fazê-lo é
ter a Esme como refém. Esteve insistindo muito nos últimos tempos
no desesperadamente apaixonado que está dela. Parece-me que
está tentando seqüestrá-la e fazer com que pareça um ato de
paixão. Algo que Alí não duvidaria em acreditar; já seqüestrou a
muitas mulheres e moços, certamente porque se apaixona por
ambos os sexos.
— Vejo grandes vantagens em fazer ver que morreu — disse
Bajo. — Então ela já não seria de nenhuma utilidade para o Ismal e

30
a deixaria em paz.
— Mas eu não quero ter que me arriscar sequer a isso. Quero
tirá-la da Albânia — disse Jason com firmeza. — Eu estive
meditando e sei que causará uma grande dor, mas não vejo outra
solução. Esme tem que acreditar que estou morto ou nunca partirá
daqui sem mim. Tem que se assegurar de que acredite e levá-la a
Inglaterra. Dar-te-ei dinheiro e os nomes de algumas pessoas em
Veneza em quem posso confiar para que a conduzam até minha
mãe.
— Por Alá, Leão Vermelho! O que está me pedindo? Quer que
convença a sua filha de que está morto e depois consiga que a
pobre criatura parta daqui em pleno luto? Sua filha é uma mulher
muito teimosa. Como vou conseguir convencê-la para que vá viver
com uns estrangeiros desconhecidos?
— Não tem que dar tempo para que ela pense — respondeu
Jason bruscamente. — E se causar algum problema, golpeia-a na
cabeça e amarre as mãos. É para seu próprio bem. É melhor que
passe umas quantas horas de desconforto e uns quantos dias de
luto antes do que ser raptada ou assassinada. Não me obrigue a
escolher entre ela e Albânia. Amo esse país e arriscaria minha
própria vida por ele… mas amo muito mais a minha filha.
Bajo deu de ombros.
— Bom, depois de tudo você é inglês. — Bajo dirigiu um sorriso
ao Jason. — Farei o que me pede. Ela é uma mulher que vale mais
que dois homens bons. Digo-o frequentemente. E uma vez que
Esme esteja a salvo, longe daqui, voltarei para ajudá-lo. Imagino
que quer que vá agora mesmo, não?
— Não, ainda não. Primeiro é preciso me assassinem. Será

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melhor que o façamos mais ao norte. Tenho que cair no rio e ser
engolido pela corrente nas gargantas profundas. Não queremos que
ninguém se dedique a procurar meu corpo, não é assim?

Capítulo 2

Bari, Itália

— «Quem logo abandonou seus encantos por uma sorte


vulgar» - citou Percival. — O que significa?
Varian se deteve na soleira da porta com a toalha entre as
mãos.
Percival tinha pedido que visitassem aquele dia os postos de
pescado, que se dizia que existiam no porto do Bari desde antes da
época dos romanos. A zona cheirava realmente como se tivesse
existido, e que não a limpavam desde o começo dos tempos. Ali
Varian tinha visto como o moço consumia uma dúzia de ostras e
outra de ouriços do mar, seguidas por meia dúzia de almejas.
Embora Varian não tivesse participado do festim, o fedor do
pescado aderiu também a seu corpo de maneira permanente.
Aquele era o terceiro banho que tomava e por fim parecia ter
desaparecido o aroma.
Acabou de secar o cabelo com a toalha, logo o penteou para
trás e entrou na sala de estar. Farejou o aroma do menino ao
passar ao lado do Percival, mas seu criado o tinha esfregado até na
consciência. Não ficava nenhum indício do fedor a pescado.
Percival voltou a repetir o verso de Childe Harold.
— Imagino que «sorte vulgar» é um eufemismo - disse o

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menino. — Se refere Byron às mulheres de má reputação? Não
ocorre a que outra coisa pode estar se referindo. Mas por que
abandonar a que amava por uma fulana, quando se supõe que já
está farto de fulanas? E por que fala de «sorte» quando se sente
tão infeliz?
— Não estou seguro de que deva explicar. — disse Varian,
enquanto deixava-se cair em uma fofa poltrona ao lado do fogo. —
E não acredito que seu pai aprovasse você lendo os versos de lorde
Byron.
— É obvio que não o aprova — assentiu Percival levantando o
olhar do livro. — Mas papai não está aqui e você sim. E não se
parece absolutamente com ele. De fato, mamãe dizia que é como
Childe Harold, de modo que se poderia concluir que é a pessoa
mais apropriada para me explicar como devia sentir-se ele. Parece
uma espécie de herói mal-humorado. Agora bem, se passar a vida
desfrutando dos prazeres, como pode ser tão infeliz?
— Pode ser que se arrependa de seus pecados.
— Eu acreditava que os homens libertinos somente fazem isso
quando já são velhos decrépitos. A gota, como tenho entendido,
reformou a muitos pecadores.
— Pode ser que Childe Harold tenha dor de dente — disse
Varian recostando-se confortavelmente contra o respaldo de seu
assento.
Sentia-se aliviado ao perceber que Percival havia tornado de
novo a ser ele mesmo. O menino tinha estado estranhamente
tranquilo e se comportou muito bem durante todo o caminho até
Bari, como um fantasma triste que olhava sem entusiasmo do
guichê da carruagem durante horas e fazia tudo o que Varian lhe

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pedia sem protestar. Parecia que os crustáceos tinham revivido o
natural aspecto de Percival. E não parecia que tivessem afetado o
seu estômago. De noite, o menino tinha engolido comida suficiente
para alimentar a um elefante. Onde demônios colocava tanta
comida? Era o menino mais esquálido que Varian jamais tinha visto
fora dos subúrbios onde viviam os pobres.
— Pecou com a senhora Razzoli? — perguntou Percival após um
momento. — Rinaldo dizia que você foi seu cavalheiro servente,
mas isso não é mais que uma expressão idiomática, não é assim?
Quando a visitou em sua casa, estiveram…?
— Conversando — disse Varian. — É uma mulher muito culta. E
me parece algo vulgar fofocar com os criados, Percival.
— Sim, isso também diz minha avó, mas também é muito
interessante. Criados sabem tudo.
— Espero que sua avó se alegre de ter a você e a seu pai de
volta na Inglaterra.
O menino seguiu com amabilidade aquela mudança na
conversa
— Bom, faz tudo o que pode, isso diz ao menos ela, pelo
menos desde que não tem a ninguém mais a seu lado. O tio John, a
quem todos chamavam Jack, era o major. Acredito que morreu
antes que eu nascesse. E o tio J… — Percival duvidou por um
instante, logo fechou o livro e aproximou sua poltrona da de Varian.
Em um tom de voz baixo e confidencial, acrescentou: — Querem
fazer crer que o tio Jason também morreu, mas não é verdade.
— O irmão de sua mãe? — perguntou Varian. Já sabia que o
irmão mais velho de sir Gerald tinha morrido por causa da gripe
anos atrás. Mas não tinha ouvido falar de nenhum outro Brentmor.

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— O irmão mais novo de papai — explicou Percival. — Partiu da
Inglaterra faz muitos anos e eles sempre têm feito ver que tinha
morrido, porque estavam muito zangados com ele. Mas não está
morto. Ainda vive e… é um herói.

— Deve ser um herói muito discreto — disse Varian. — Nunca


tinha ouvido falar dele.
— Ouviu falar do Alí Pachá, o governador da Albânia? —
perguntou Percival golpeando com o dedo a capa de seu livro. —
Por isso estou lendo esse livro. Lorde Byron fala do Alí Pachá e dos
albaneses, e ali está meu tio. Faz muitos anos que vive ali e o
chamam de Leão Vermelho. Puseram-lhe esse apelido por seu valor
e por ser ruivo. Tem a mesma cor de cabelo que eu… e acredito
que isso é algo muito estranho entre os albaneses.
— Perdoa Percival, mas não vejo a relação que há entre esse
poema e um de seus familiares. E nunca ouvi falar de nenhum Leão
Vermelho. Onde leu algo sobre esse tipo?
Percival elevou as sobrancelhas.
— Não acredito ter dito que eu tenha lido algo sobre meu tio.
— Então, como sabe tantas coisas de um familiar ao quem todo
mundo dá por morto? — perguntou Varian dirigindo ao moço um
olhar interrogativo.
Percival se moveu um pouco, como intranquilo, mas após um
momento se inclinou para trás em sua poltrona com expressão
pensativa.
— Pode ser que seja um sonho — sugeriu Varian.
— Não, não é um sonho.
— Então, um conto de fadas.

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— Não. É totalmente certo. — Percival mordeu o lábio. — Posso
demonstrar isso. — Disse — Se é que me desculpa durante um
momento.
Percival saiu correndo da sala, deixando Varian observando
inquieto o fogo. Depois de um momento, o menino retornou
trazendo consigo uma pilha de roupa. Colocou os objetos sobre a
poltrona: umas calças de lã adornados com uns trancados de
tecido, uma guerreira negra com adornos dourados e uma camisa
larga de algodão.
— São um presente de tio Jason — disse Percival. — Assim é
como se vestem os albaneses, ou ao menos alguns deles. Disse-me
que tinha pensado que não ia querer vestir o traje típico escocês
até que fosse velho. Mamãe me disse que não devia mostrar essa
roupa a ninguém, porque papai poderia chegar a descobrir tudo.
Mas você não vai contar nada a papai, não é assim?
— Contar o que? — perguntou Varian, apesar de suspeitar qual
ia ser a resposta.
— Que o tio Jason veio nos visitar.
Percival tomou um diminuto pedaço de fios do bolso da
guerreira e alisou uma ruga que havia na camisa albanesa.
Depois de meia hora Varian já conhecia mais da metade da
história. Jason os tinha visitado duas vezes: uma longa estadia em
Veneza — enquanto sir Gerald estava de viagem procurando uma
vila no sul da Itália — e uma breve visita de poucos dias antes que
lady Brentmor morresse. A partir dos comentários inocentes que
fazia Percival — entre eles, os elogios das intermináveis virtudes de
seu tio — Varian imaginou que Jason Brentmor tinha sido algo mais
que um cunhado para Diana.

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Varian não podia culpá-la por ter sido infiel a um marido como
sir Gerald. Tampouco o surpreendia que seu amante fosse seu
cunhado. Ao contrário, recebeu bem a notícia. Varian já tinha
suspeitado que levava uma vida infeliz, mesmo deixando à parte
sua enfermidade. Sentiu um estranho alívio ao saber que alguém a
tinha feito feliz durante um tempo.
— Bom, estou encantado de que tenha tido a oportunidade de
conhecer seu maravilhoso tio — disse Varian quando o menino
terminou de contar a história. — Entretanto, está tarde e deverá
levantar amanhã cedo se queremos ir visitar a igreja de São
Nicolás.
Varian tinha planejado já sua própria visita para aquela mesma
noite: uma relaxada exploração dos encantos de certa dama de
olhos negros que encontrou no castelo de Bari.
— Mas ainda não contei as coisas terríveis que tenho feito —
disse Percival baixando seus verdes olhos.
— Eu não sou seu padre confessor — respondeu Varian com
um timbre de impaciência na voz. — Enquanto não Enquanto não
tenhas dissecado teus variados espécimes à hora de comer, ou
tenha enchido minha cama de pedras, seus pecados acredito que
são coisa sem importância…
— Dei a ele a rainha negra — disse Percival com voz abafada.
— Por acidente, quero dizer. Mas se papai chegasse a descobrir
seria capaz de me mandar a um colégio interno na Índia. Ameaçou
milhares de vezes de fazê-lo, mas mamãe nunca deixava.
Varian, que tinha se posto de pé, disposto a levar ao Percival à
cama nos braços se fosse necessário, agora voltou a sentar. Depois
de uma busca sem fim, a rainha negra que se supunha ter sido

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roubada, e pela qual sir Gerald tinha estado disposto a oferecer mil
libras de recompensa por sua devolução, aparecia agora. Varian
não podia acreditar no que acabava de ouvir. Ficou olhando Percival
com os olhos entreabertos.
— Você o que?
— Quero dizer que dei ao tio Janson minha pedra…, a de
nervuras verdes e rugosas…
— Não me parece que essa pedra de características tão
especiais venha ao caso — interrompeu Varian.
— Sinto muito, senhor. Tem muita razão. Isso não…, bom, não
vem ao caso nesse momento. O fato é que, estávamos no
escritório. E como tínhamos chegado ali tampouco acredito que seja
pertinente nesse momento, não é? — perguntou Percival olhando
para cima esperançoso.
— Não nesse momento.
— Bem, isso é um alívio, por que…
— Percival.
— Sim, senhor, é verdade. Para contar de maneira mais sucinta
que seja possível: tropecei com o jogo de xadrez e derrubei varias
peças no chão. Em meu estado de agitação, pensei o poderia me
fazer papai se soubesse… — disse Percival afastando rapidamente o
olhar dos olhos de Varian, bom, acredito que coloquei a rainha
negra no lenço de tio Jason, por engano, porque mais tarde me dei
conta de que a pedra de cores estava ainda em meu bolso. Quando
papai nos disse que tinha desaparecido a rainha, dei-me conta do
que tinha acontecido. Mas não podia contar-lhe não é assim?
Se a rainha estava em poder de Jason, queria dizer que estava
agora na Albânia, desgraçadamente longe do alcance de um jovem

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nobre sem um centavo.
— Suponho que não. — Varian voltou a ficar de pé. — Estou
certo que ficou emocionalmente mais tranquilo depois dessa
confissão, Percival, e com mais vontade de descansar.
Percival ficou olhando pensativo.
— A verdade é que, agora que me confessei, sinto-me obrigado
a fazer algo.
— Sim. Volte para cama.
— O que quero dizer é que deveríamos devolver a rainha
negra. Vale dizer que papai está disposto a oferecer mil libras para
recuperá-la e — fez um gesto com a mão para o este — está
justamente nessa direção.
— Nessa direção está o Império turco. Não seja absurdo,
Percival. A não ser que seu tio resolva devolvê-la, essa rainha já
está perdida.
— Só demora um ou dois dias para chegar ali de barco — disse
Percival. — Tio Jason vive na costa. Não será necessário que
entremos no país. Basta que façamos uma simples parada no
porto, como a maioria dos barcos de passagem fazem a cada dia,
vindo de toda parte.
— Nós? — perguntou Varian surpreso. — Se pensa que vou
alugar um barco para que me leve a Albânia em companhia de um
menino de doze anos, o herdeiro único de seu pai…
— Papai pagaria bastante pelo resgate, e sei que nos deu um
montão de dinheiro para os gastos de viagem e que temos um
montão de tempo para viajar.
— Não, Percival. E agora vai para cama.
Percival não foi à cama até várias horas mais tarde e lorde

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Edenmont, que já tinha esquecido à dama de olhos negros, ficou
acordado até o amanhecer observando o cintilação do fogo que
ardia entre as brasas que se foram consumindo.

Olhando infeliz à escuridão, Percival disse a si mesmo que tinha


tido muita sorte que lorde Edenmont não fosse tão perspicaz como
mamãe. Podia ter despertado suas suspeitas ao ver o muito que
tinha comido. Ela sabia que estava acostumado a comer muito
quando estava inquieto.
Aquele dia se fartou porque sabia que tinha que dizer a lorde
Edenmont uma mentira a respeito da rainha negra. Tinha feito. As
armas roubadas estavam a caminho da Albânia e a única pessoa a
quem podia confiar sua informação era a seu tio Jason,
especialmente desde o momento em que seu pai estava envolvido
no assunto. Desgraçadamente, não podia mandar uma carta ao tio
Jason. Ele havia dito que os homens poderosos da Albânia tinham
espiões que interceptavam com regularidade as cartas de outros.
O qual significava que teria que dizer pessoalmente. O que
queria dizer que tinha que enganar a lorde Edenmont. E isso era o
que tinha feito com que Percival se sentisse agora como uma
pessoa malvada.
Não importava que as pessoas dissessem que lorde Edenmont
era uma pessoa matreira — inclusive o tio Jason pensava assim. —
Sua excelência sempre tinha sido amável com sua mãe e tratava o
próprio Percival de maneira agradável. Mas já não voltaria a ser
amável com ele de novo, pensou Percival com arrependimento,
assim que se inteirasse da verdade. Embora isso somente pudesse

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acontecer no caso de que lorde Edenmont mordesse o anzol. E era
possível que não o fizesse.
O negrume da escuridão da noite estava começando a
desaparecer pelo horizonte quando Percival ouviu lorde Edenmont
entrando no quarto de banho que havia ao lado de seu dormitório.
Fechando os olhos, Percival disse a si mesmo que não deveria
lamentar-se por estar tratando de levar adiante suas obrigações,
especialmente quando poderiam salvar assim centenas de vidas.
Além disso, não podia esperar que lorde Edenmont estivesse
sempre a seu lado. Cedo ou tarde chegariam a Veneza e sua
excelência partiria. O tio Jason partiria logo para a Inglaterra com a
prima Esme. Isso seria muito mais duro que despedir-se para
sempre da companhia de lorde Edenmont. Tinham que estar juntos.
Tinham que formar uma família, como queria sua mãe.
Esses pensamentos tranquilizaram a consciência de Percival,
como o fazia a voz de sua mãe toda noite. Logo depois, enquanto o
sol do amanhecer lançava reflexos dourados sobre o Adriático,
adormeceu.

Tepelena, Albânia.

Ismal, o formoso príncipe de cabelos dourados e olhos de


diamante azul, reclinou-se em seu divã e ficou olhando pensativo a
bela e ornamentada peça de xadrez que tinha na mão.
— Jason não vai partir? — perguntou a Risto.
— Alí o convenceu para que fique aqui e o ajude a deter os

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distúrbios.
— Não gosto nada disso. Já conseguiu interceptar uma boa
quantidade de armas. Não podemos permitir que continue
interferindo em nossos planos.
— Quer que o eliminemos, senhor?
— Isso seria politicamente pouco aconselhável. O Leão
Vermelho é uma pessoa muito querida, inclusive por quem apóia
nossos esforços para derrotar ao Alí. Não posso me arriscar que
suspeitem que eu o assassinei. Felizmente, já estava preparado
para esse contratempo. — Ismal sorriu a seu devoto criado e
espião. — Ele fez muito mais do que supunha ao persuadir ao
inglês para que desse esta amostra de «garantia».
Risto inclinou a cabeça.
— Queria trazer o jogo completo. Pensei que poderia ser um
bom complemento a seus tesouros. Além disso, os preços de sir
Gerald são excessivos — acrescentou em tom de desaprovação.
— Quero ter as modernas armas inglesas, e ele é o único
fornecedor em quem confio — respondeu Ismal dando de ombros.
— Mas foi um estúpido ao entregar algo escrito, mesmo em código,
sua letra é muito conhecida.
— Acredita-se que sou um bárbaro estúpido, senhor. Não
confiava que recordaria os detalhes corretamente.
— Isso será muito útil. — Ismal acariciou a cabeça da rainha
negra. — Ficarei com essa mensagem, pode ser que seja de
utilidade. Agora me parece que poderei tirar proveito. — Elevando o
olhar para seu criado, continuou: — Quero enviar uma ordem para
que seqüestre a filha do Leão Vermelho… imediatamente. Jason se
dará conta de que deverá aceitar o preço da noiva por ela, e uma

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vez que a garota esteja em minhas mãos, ele não se atreverá a dar
um passo contra mim.
— Pode ir queixar se ao Alí.
— Não acredito que se atreva a arriscar a vida da garota dessa
maneira. — Ismal deu voltas à peça de xadrez entre as mãos. —
Assegure-se de que isso esteja nas mãos de Esme quando a
seqüestrarem. Se Jason se atrever a opor alguma resistência,
poderia dizer que ela nos traiu, e a peça de xadrez seria a prova
disso. Direi ao Alí que consulte com os britânicos, que não acredito
que tenham dificuldade alguma em descobrir que a peça pertencia
ao irmão do Leão Vermelho. E não haverá nenhuma dúvida de sua
traição quando mostrar esta mensagem escrita por seu irmão. Alí
sabe que o Leão Vermelho viajou para a Itália duas vezes esse ano
para ver sua família. Tanto meu primo como os britânicos chegarão
facilmente à conclusão de que Jason e seu irmão estiveram
roubando armas em proveito próprio. E então ambos os governos
vão sentir-se muito desgostosos.
Seus olhos azuis brilharam enquanto passava para Risto a peça
de xadrez.
— Acredito que agora se dá conta de quão poderosa pode ser
uma rainha… para um jogador que sabe como utilizá-la.
Continuando, Ismal se pôs a rir.

Durrës

Esme despertou no momento em que sentiu uma mão apoiada


em seu ombro e se endireitou na cama de um salto. A habitação

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estava ainda às escuras.
— Papai? — disse dirigindo-se à negra sombra que havia a seu
lado. Mas apesar de ter pronunciado aquele nome, sabia que quem
estava ali não era Jason.
— Sou eu, Bajo — respondeu a figura.
Esme sentiu um calafrio de inquietação.
— Onde está Jason?
Houve uma longa pausa e logo ouviu um suspiro. Muito antes
que Bajo começasse a falar com ela seu coração acelerou.
— Sinto muito, minha menina.
— Onde está ele?
— Ai, pequena! — Bajo apoiou a mão sobre o ombro da garota.
— Tenho que dar más notícias, minha pequena guerreira. Seja
forte, dispararam em Jason.
Não! Não! Gritou o coração de Esme, mas sua língua continuou
em silêncio. Agarrou com as mãos aos lençóis e mordeu os lábios,
negando-se a tornar a gritar e a chorar como se fosse uma débil
mulher.
— Fomos… Caímos em uma emboscada… nos estreitos do rio
Vijose — disse Bajo. — Dispararam nele pelas costas e caiu pelo
escarpado até o rio que flui ao fundo do despenhadeiro. Terá que
agradecer a Deus que fosse assim. Uma morte rápida… e o rio o
engoliu, de modo que os traiçoeiros assassinos não puderam levar
a seu senhor a cabeça em sinal de triunfo.
Jason. Seu forte, valente e amado pai. Tinham disparado nele
pelas costas como se fosse um ladrão vulgar … A fria corrente do
rio tinha arrastado seu corpo, destroçando-o contra as cruéis
rochas… Esme fechou os olhos e apertou os dentes. E ao fazê-lo

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afogou a pena atroz que sentia com a raiva.
— Quem o assassinou? — perguntou ela. — De quem devo me
vingar?
— Não, pequena. A filha do Leão Vermelho não deve derramar
sangue — reprovou ele. — Os assassinos estão mortos. Eu me
encarreguei disso. Mas não temos tempo para continuar falando. O
assassinato do Jason não foi mais que o princípio, e agora você
está em grande perigo. Depressa — segurou-a fazendo-a levantar-
se da cama.
Esme soltou da mão de Bajo e se deu conta de que estava
tremendo. Com esforço ficou de pé. Sempre dormia completamente
vestida, com roupas de homem, e com a pistola ao alcance da mão.
Um dos primos de Bajo ficava sempre fora do quarto, de guarda,
inclusive quando Jason estava em casa, mas não queria que a
encontrassem despreparada se o povo fosse subitamente atacado.
— Ter pressa para que? Aonde vamos?
Bajo segurou seu rosto e a rodeou com as mãos em um gesto
de amparo.
— Ao norte, a Shkodra.
Bajo acendeu uma vela e logo começou a dar voltas pela
habitação, recolhendo os pertences da garota e colocando em uma
bolsa de viagem. Apenas consciente do que estava fazendo, Esme
agarrou o gorro de lã e o pôs, sem deixar de olhar nem um
momento a Bajo.
Enquanto fazia a bagagem, ele começou a falar nervosamente.
— Vínhamos para cá a toda pressa, porque Jason suspeitava
que Ismal estava planejando seqüestrar você. Agora já não há
dúvida disso. É obvio que mentirá… jogando a culpa do assassinato

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aos bandidos. E Alí estará muito destroçado para dar-se conta de
que Ismal, enquanto isso, seqüestrou a outra simples mulher. —
Bajo fez uma pausa. — Por isso devemos partir agora mesmo
daqui. Nem ocorra pensar em vingança. Se não tiver pressa fará
com que recaia sobre você mais vergonha ainda. Não acredito que
tenha vontade de acabar convertida na concubina do homem que
assassinou a seu pai.
— Nós contaremos tudo ao pachá de Shkodra — disse Esme. —
Ele me ajudará. Ismal me deve uma compensação.
— O pachá ajudará a que escape do país — respondeu Bajo. —
Isso é tudo. E isso é o que Jason pretendia que fizesse, e nós
faremos que se cumpra seu desejo.
Seu olhar cruzou com o aterrorizado olhar de Esme e
rapidamente olhou para outro lado.
— Não — disse ela com voz afogada. — Não estará pensando
em me mandar a Inglaterra? Sozinha?
Bajo jogou a bolsa de viagem ao ombro e se aproximou da
porta, onde se deteve.
— Já sei que é duro pequena guerreira, mas não temos outra
escolha. Ou tem coragem de fazê-lo ou será feita concubina de
Ismal… e se for assim, seu pai terá morrido por nada.
Mais tarde, disse-se ela. Mais tarde teria tempo de pensar e
encontraria a maneira de vingar-se.
Sem acrescentar nenhuma palavra mais, Esme recolheu várias
coisas que Bajo tinha esquecido, meteu-as em seu pequeno alforje
de viagem, agarrou seu rifle e saíram da casa.
Em poucos minutos chegavam ao porto de Durrës. Começava a
amanhecer, mas a costa estava ainda coberta por uma névoa tão

46
espessa que os primeiros raios do sol não eram mais que pequenos
brilhos rosados sobre um grosso manto de cor cinza. O barco de
Bajo estava discretamente amarrado a certa distância do
embarcadouro principal. Enquanto se aproximavam da costa, Esme
divisou o perfil de uma embarcação de carenagem longa, um
pélago, como estavam acostumados a chamá-los ali. Entretanto,
aquelas eram embarcações estranhas de se ver nessa época do
ano, já que estavam muito mal equipadas para resistir aos fortes
vendavais do outono.
Após um momento pôde distinguir várias figuras que se
aproximavam envoltas na névoa. Apesar de virem a pé, ela parou e
ficou olhando para Bajo.
— Estrangeiros — sussurrou ele.
Após um momento suas palavras se confirmaram, enquanto o
vento levava até seus ouvidos uma mescla de conversação em
albanês, inglês e italiano.
— Não… zoti… o barco, por favor, eu rogo, senhor… me matará.
Conforme as figuras se aproximavam deles, suas vozes se
faziam cada vez mais claras, e Esme pôde ouvir a voz aguda de um
menino que falava com um acento inglês de classe alta.
— Não se preocupe. Meu tio vive nessa cidade.
— Por favor, jovem amo, espere um momento…
— Vejo ali umas pessoas, vamos perguntar
O casal estava quase a seu lado. Apesar parecerem bastante
inofensivos, Esme deixou cair seu fardo sobre a areia e colocou a
mão no seu rifle. Bajo, com atitude de alerta, ficou a seu lado, com
o rifle também preparado.
— Tom-gat-je-ta — disse o menino.

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Não era mais que um menino, um menino inglês, que falava
com o mesmo acento que seu pai.
— Tungjatjeta — respondeu ela cautelosamente à saudação do
menino.
Animado, o menino se aproximou correndo para eles.
— Vamos — sussurrou Bajo a Esme. — Não temos tempo a
perder.
— É inglês — respondeu ela.
Durante um instante, Esme ficou assombrada pensando se os
sentidos a estariam enganando, pois o moço tinha um aspecto
muito parecido ao dela. Inclusive levava no ombro um pequeno
alforje de viagem. Logo, quando já estava quase do seu lado,
pensou que sem dúvida devia estar sonhando. A débil luz do
amanhecer se refletiu em um arbusto de cabelo da mesma cor de
seu pai. Ela retrocedeu um passo enquanto o menino parou com o
olhar cravado no rifle de Bajo. Seu gordo companheiro o seguia uns
quantos passos atrás.
— Oh, desculpe! Parece que os assustamos — disse o menino.
— Como terá que…? — Logo depois de pigarrear acrescentou: —
Kush-sha-pi… Ah, ah!, Jason? Quero dizer que é meu tio. Meu tio.
Jason. Meu ja-ji. O Leão Vermelho, sabe?
— Shasha? — repetiu Esme surpreendida.
Jason era… o tio daquele moço? Incrédula, aproximou-se mais
do menino e sentiu que todas as suas dúvidas acabavam naquele
momento: tinha o mesmo cabelo que seu pai, os mesmos olhos que
seu pai… e dela, é obvio.
A seu lado Bajo baixou o rifle.
— É como se fosse seu irmão — disse ele.

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O menino ficou olhando a Esme com o mesmo assombro.
— Quem é você? — perguntou ela em inglês.
Ele se deteve seu lado, com o olhar fixo em seu rosto.
— Fala inglês. Pelo amor de Deus, parece… mas o tio Jason
disse que era… uma… ou não o é? — Imediatamente o menino
avermelhou. — Oh, querida, que estupidez de minha parte! Meu
nome é Percival Brentmor, sou o sobrinho do Jason.
— O sobrinho do Jason — repetiu Esme aturdida.
— Sim, como está?
Esme sentiu uma estranha vontade de começar a rir. Ou a
chorar. Não sabia exatamente o que. Ouviu um retumbar ao longe,
muito longe. Ou possivelmente se enjoou. Os ouvidos assobiavam.
— Percival — disse ela com a boca seca. — O sobrinho do
Jason.
— Sim. E você é… Esme, não é assim?
O estrondo se fez mais forte. Bajo tinha dado a volta.
Certamente também ele tinha ouvido.
Esme passou o olhar de Bajo ao menino que acabava de se
apresentar como Percival, o sobrinho do Jason. O menino falava
muito depressa, mas ela quase não o ouvia. Tinha todos os
sentidos fixos no estrondo que pouco a pouco aumentava de
volume. Não era uma tormenta. Eram homens a cavalo.
Bajo levantou de novo o rifle.
— Vá — ordenou ao menino secamente em inglês, ao mesmo
tempo em que o empurrava para trás. — Volta para seu barco…
rápido, menino. Agora!
— Do que se trata? Bandidos?
— Vá! — gritou ela. — Corre, maldito seja!

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Deu-lhe outro forte empurrão. Dessa vez ele captou a
mensagem e se voltou para trás. Seu assustado companheiro já
estava quase no barco. O menino lançou um olhar perplexo a Esme
e logo saiu correndo atrás dele.
O retumbar dos cascos de cavalos se aproximava a toda
velocidade para eles e Bajo estava gritando a ela que se pusesse a
correr. Mas os cavaleiros, que chegavam pelo oeste, dirigiam-se
diretamente para o menino inglês, que ainda estava bastante longe
de seu barco. Se ela e Bajo se pusessem a correr para seu barco,
seu primo podia ser alcançado pelo fogo cruzado.
Apenas tinha pensado quando o retumbar dos cascos se
converteu em um rugido denso que levantava uma negra nuvem de
pó no caminho para a praia. Em meio da densa névoa, o grupo de
cavaleiros não era mais que uma massa formando redemoinhos de
figuras negras. Ignorando os gritos desesperados de Bajo, Esme
elevou o rifle e começou a disparar, fazendo a atenção dos
cavaleiros se dirigir para ela. Uns tiros de resposta começaram a
assobiar ao lado de sua cabeça.
Pôs-se a correr para o refúgio de um bote voltado para baixo
que havia sobre a praia e viu outras figuras que se aproximavam
dela. Os camaradas de Bajo. O som de uma bala roçou sua orelha.
Chegou a seu refúgio, agachou-se atrás do bote e voltou a carregar
seu rifle.

As explosões que se ouviam, tiraram Varian de seu sonho e o


fizeram ficar em pé de repente. Deu uma olhada pela cabine, mas
não viu nem rastro de Percival. Varian jogou a camisa sobre os
ombros, colocou as calças e as botas, lançou mão de suas pistolas

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e saiu correndo pela coberta.
Na praia, entre a espessa névoa, pôde distinguir uma massa de
homens a cavalo, enquanto aumentava um estrondo de disparos e
gritos de guerra. Saltou ao cais e pôs-se a correr para o campo de
batalha.
— Percival — chamou Varian.
Quando passava do cais à areia da praia, ouviu um chiado
agudo e se voltou para ali. Meia dúzia de cavaleiros estavam
perseguindo uma figura magra que corria torpemente por cima da
areia. Durante um instante, um leve raio de luz crepuscular abriu
caminho entre a bruma e iluminou o arbusto de cabelo ruivo do
açoitado.
Com o coração pulsando com tanto estrondo como os cascos
dos cavalos que se aproximavam do menino, Varian apontou a
arma e abriu fogo. Enquanto apontava e disparava a outra pistola,
viu um cavalo caindo sobre a areia feito uma bola. Com dedos
trementes, começou a carregar de novo a primeira arma. Ouviu um
ruído ensurdecedor muito perto dele e logo um estalo. E um
repentino brilho de dor o deixou envolto na escuridão.

Com suavidade, Esme limpava a areia do rosto do homem


inconsciente. Poderia ter sido mais fácil jogar um balde de água na
cabeça, mas possivelmente o teria despertado muito de repente, e
a cacetada que tinham dado certamente já causava suficiente dor
tal como estava.
O barco balançava e a água salpicava do balde que tinha ao
lado, molhando as calças de Esme. Embora, de qualquer modo, já

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estavam molhadas, rasgadas e cheias de areia. Esse era seu único
mal — ao menos, físico. — Alguns dos outros não eram tão
facilmente suportáveis: tinham morrido na luta dois dos primos de
Bajo e vários de seus amigos tinham ficado feridos. Townfolk tinha
se encarregado dos últimos e se ficou no povoado para cuidar
deles.
Ainda não tinham recolhido os cadáveres dos seis intrusos
quando Bajo tinha ordenado embarcar no piélago. Tinha levado o
inglês sobre seus ombros até o barco e, apesar das queixas dela,
deixou-os a salvo a bordo e ordenou ao capitão que fosse para o
sul, para Corfú. Logo Bajo tinha voltado para a praia para preparar
o resgate do menino, o primo de Esme.
Esme olhou para o rosto altivo que descansava entre seus
joelhos. Que demônios teriam conduzido aquele homem até ali,
com um menino indefeso, desarmado e desprotegido?
A verdade era que o rosto daquele inglês tinha algo realmente
diabólico, além de possuir uma fria beleza, pensou ela, observando
os cachos grossos de cabelo negro que caíam sobre a fronte. Seu
atento escrutínio continuou lentamente para as sobrancelhas
negras e muito arqueadas, e para as escuras pestanas; desceu logo
o olhar pelo perfilado nariz e, passando pela boca grossa de lábios
esculturais, chegou até a dura e angulosa mandíbula. Tinha um
rosto arrogante. Petro, o marinheiro que tinha descido à praia com
o menino, havia dito que aquele tipo era um lorde inglês.
Os olhos de Esme posaram sobre uma mão que repousava
sobre o ventre plano do inglês. Dedos longos, com as unhas bem
recortadas e limpas, exceto por uns quantos grãos de areia da praia
de Durrës que tinham ficado presos ali. Nem um calo, uma ferida

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ou um arranhão afetavam a elegante perfeição daquelas mãos.
Olhou suas próprias mãos bronzeadas, duras e fortes, e logo olhou
as grossas calças sujas. Seu ventre se contraiu com excitação.
Assim era como se sentia sempre que se encontrava com os
compatriotas de seu pai: a mesma sensação de não estar no lugar
adequado, a mesma sensação de tensa antecipação de sua
dissimulada apreensão e desprezo. Alguns a olhavam sem vê-la,
como se fosse invisível, e às vezes aquilo era pior ainda que a mais
aberta condescendência. Sabia que todos eles a olhavam como se
somente fosse um pouco melhor que um animal.
Todos os ingleses que tinha conhecido até então não eram mais
que soldados. Mas aquele homem era um lorde. E mesmo
inconsciente como estava parecia olhá-la com desprezo. Seus olhos
— pensou ela enquanto voltava a deter o olhar em seu rosto —
deviam ser frios e duros como uma rocha.
Isso não importava absolutamente, disse a si mesma. A opinião
que pudesse ter dela não tinha nenhuma importância. Tirou o trapo
do balde com um gesto brusco e zangado, colocou na fronte do
inglês… e no momento ficou imóvel. Afastou as mãos de seu rosto,
enquanto ele começava a mover os lábios sem produzir som algum
e, pouco a pouco, seus olhos começavam a abrir-se.
O coração dela acelerou como se fosse uma égua assustada.
Tinha os olhos cinza, mas não frios como a pedra. Cinza fumaça.
Enquanto se fixavam nela com lentidão, a rigidez de suas feições se
abrandou, e apartou o trapo molhado da fronte com mãos
trementes.
Tinha um rosto de anjo sombrio. Durante um vertiginoso
instante, ela pensou que se tratava de Lúcifer em pessoa,

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derrubado por algum iracundo Todo-poderoso.
— Percival — murmurou ele. — Obrigado… — Logo piscou. —
Quem é você?
Sua voz suave e rouca era também como a fumaça, e
enervadora como o ópio. Esme soltou um rápido suspiro e disse a si
mesma que tinha que despertar.
— Meu nome é Zigur — respondeu ela.

Capítulo 3

A semelhança daquele menino com o Percival era


impressionante: os mesmos olhos felinos de viva cor verde, o
mesmo nariz pequeno e reto, e o mesmo queixo enérgico. Até
relatava os eventos do amanhecer com a mesma lógica paciente do
Percival, embora de uma forma muito mais sucinta que ele. Tendo
quase uma total semelhança com Percival, a serenidade fria de
Zigur não fazia nada a não ser divertir, já que o menino não podia
ser mais que um par de anos mais velho que Percival — teria
quinze anos, no máximo. — Mas a cabeça de Varian doía
terrivelmente, tinha os músculos duros e o relato que estava
escutando não tinha nenhum pingo de comicidade.
— Meu pai, Jason, é o tio do menino, Percival — estava
explicando Zigur. — Essa manhã me inteirei que meu pai foi
assassinado e que tinham enviado a vários homens para me
seqüestrar e me entregar aos caprichos de seu senhor. Na confusão
da luta no porto, esses homens levaram por engano o meu primo.
Zigur inclinou lentamente para trás o grosso gorro de lã e

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Varian pôde ver que o cabelo que aparecia debaixo, tal como os
olhos, era idêntico ao de Percival. Então entendeu o que o menino
estava tentando explicar. Por isso tinha ouvido Varian, naquelas
terras estavam acostumados a raptar e violar a meninos de ambos
os sexos. Percival estava em mãos de uns pederastas.
Varian devia ter um aspecto tão doente como realmente se
sentia, pois Zigur acrescentou rapidamente:
— Você não tem com que preocupar-se, efendi. Era eu que
queriam. Com o Jason morto, não tenho mais parentes para vingar
o insulto. Esses vilões são recrutados com a mesma facilidade que
se recolhem calhaus na praia. Mas meu primo é inglês, e Alí Pachá
quer que seu governo o ajude a estender seus domínios. Esses
vilões sabem, como o sabe toda Albânia, que ofender a um inglês é
convidar a que o cruel Alí se vingue de maneira muito desumana.
Assim que os seqüestradores descubram que o menino é inglês, o
deixarão livre em um dos povoados do sul, onde não lhe será difícil
encontrá-lo pelo amigo de meu pai, Bajo.
— Mas esses homens mataram Jason — disse Varian sentando-
se de repente. No momento se arrependeu de ter se movido. Notou
uma explosão na cabeça que parecia partir em dois o crânio. Voltou
a deitar-se. — E também me atacaram. Isso fizeram a dois ingleses
em questão de dias.
O rosto do Zigur se contraiu em uma dura expressão.
— A família de Jason o repudiou faz muitos anos. Aqui se
considera albanês. Naturalmente, esse assassinato provocará um
derramamento de sangue, mas isso não é assunto dele, efendi. E
quanto a você, não teria acontecido nada se estivesse afastado do
caminho desses vilões. Se tivessem pretendido matá-lo, agora sua

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cabeça descansaria sobre a areia de Durrës.
Zigur duvidou por um instante e logo colocou uma pequena
mão fria na fronte de Varian.
— Tem um pouco de febre — disse o menino. — Tente
descansar. Navegamos para Corfú, onde poderá encontrar soldados
britânicos que o escoltem até o palácio de Alí, na Tepelena. E ali
estará a salvo o meu primo Percival, eu prometo. Alí o protegerá
como se fosse um estranho e prezado diamante, e seus amigos
britânicos se assegurarão de que Alí Pachá não peça uma
recompensa muito grande em troca de sua hospitalidade. É um
assunto fácil de solucionar. Queira Deus que todas as coisas sejam
tão simples — murmurou enquanto voltava a segurar de novo o
trapo úmido.
Mais tarde, Varian teria tempo de sentir saudades de sua
própria docilidade. Entretanto, no momento parecia existir certa
esperança em meio daquele pesadelo de medo e dor. Não tinha
nem o valor nem a decisão para fazer com que o barco retornasse.
E mesmo que o fizesse, para que ia servir? Quanto ao que sabia
daquelas terras e suas pessoas, para Varian era como estar na Lua.
Tinha que confiar no jovem bastardo de Jason porque,
simplesmente, lorde Edenmont não tinha nem a menor ideia de que
outra coisa podia fazer.

Esme tinha cheirado a tormenta no ar na última hora da tarde.


Quando se levantou, ao entardecer, viu a confirmação refletida nos
olhos da tripulação. Aquele barco não tinha sido construído para
resistir um tempo tão turbulento. Inteirou-se de que o dinheiro era

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o que tinha convencido ao capitão a aventurar-se naquela viagem
em uma época tão próxima à estação das tormentas. Agora se via
claramente que se arrependia de sua avareza.
— Não podemos continuar — disse o capitão. — Avise ao barão
inglês que teremos que procurar terra para desembarcar.
Esme olhou preocupada para a costa. Não havia ali perto
nenhum porto onde se refugiar, sabia, e o ligeiro barco já estava
sendo sacudido com força pelo vendaval e o fluxo das ondas. Viu
uma luz que cintilava na distância.
— Não acredito que seja boa ideia dizer a ele — respondeu ela.
— Tem a cabeça machucada e não entende o que está
acontecendo. Espera que tenhamos dificuldades?
Aquela última não era uma pergunta.
— Se não tivermos força suficiente para manobrar, teremos
que colocá-lo em um bote — respondeu o capitão com tristeza. —
Oferecerei dois homens competentes para que os levem até a
costa.
Ela ficou meditando. Em um bote pequeno correriam menos
perigo ao atravessar o fluxo das ondas. E se não chegassem a terra
agora, já não poderiam fazê-lo até que tivesse passado a tormenta.
É obvio que Petro não poderia servir de grande ajuda. Já tinha
começado a queixar-se e a rezar fazia várias horas. Gordo, vago e
sujo, era o pior marinheiro com o qual jamais cruzou. Embora fosse
difícil determinar sua origem, era bastante claro que se tratava de
um inepto em pelo menos cinco das sete línguas que dizia poder
falar. Apesar de tudo, com dois robustos marinheiros a seu dispor,
ela mesma poderia se virar para chegar a terra.
— Façamos isso agora — disse ela com calma. — Eu desejo

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menos que você ter um nobre inglês morto nas mãos. O barco
poderá resistir a tormenta. Mas se o lorde continua a bordo muito
mais tempo, não acredito que possa resistir.
Quando alcançaram a margem, o inglês tinha conseguido
sobreviver com muita dificuldade à travessia, passando a maior
parte dela pela borda do barco, vomitando. Mesmo assim, não se
queixou nem uma vez — diferente de Petro, quem acabou
derramando lágrimas suficientes para fazer com que o bote se
afundasse, enquanto rogava ao Alá e ao Jehová e a todos os Santos
por turno, pedindo que tivessem piedade de sua alma. — Sem
preocupar-se com o estado de seus passageiros, os dois
marinheiros italianos não deixavam de remar com força, enquanto
Esme se dedicava a observar a água em busca de possíveis
obstáculos e se assegurava de que os dois marinheiros de água
doce não acabassem caindo ao mar.
Quando por fim chegaram a terra firme, o inglês saltou a terra
enquanto outros ficavam olhando com desespero a desolada
paisagem que os rodeava. A seu redor se estendia um vasto
terreno baldio, sem sinal algum de habitantes humanos. Mas ali
poderiam encontrar algo. Esme sabia. Um refúgio. Poderiam
acampar ali com suficiente comodidade. E ela já tinha dormido
outras vezes ao relento, inclusive sob a chuva. Desgraçadamente,
seu paciente necessitava um teto sobre sua cabeça, se não
quisesse que contraísse um resfriado fatal, e isso era algo que ela
não desejava absolutamente. Aquele inglês tinha causado no
momento suficientes complicações.
— Ajudem o inglês — ordenou aos marinheiros enquanto
agarrava sua arma e jogava o saco de viagem ao ombro. — Você,

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Petro, carrega a sua esteira e mantém a boca fechada. Temos que
ir para o oeste a toda velocidade e não temos tempo para nos
entreter com lamentações.

Quando Varian despertou por fim do que esperava


fervorosamente que não tivesse sido nada mais que um pesadelo, o
sol já tinha saído. Ou ao menos isso pensou ele. Pois pela porta
entreaberta pôde ver uma luz cinzenta em lugar de escuridão.
Continuava chovendo sem descanso, e tinha se formado um
pequeno lago na entrada do refúgio com dois charcos gêmeos sob o
par de fendas que chamavam de janelas.
Fechou duas vezes os olhos, somente para voltar a abri-los
ante a mesma cena surpreendente. As pedras grosseiras das
paredes eram negras e viscosas, e o lençol sobre o qual estava
deitado estava úmido e furado. Doía-lhe a cabeça como se todos os
condenados do Hades estivessem saltando em cima dele, tinha a
boca cheia de areia e sal e seu estômago vazio se retorcia de fome.
— Maldita Seja — grunhiu.
Uma mão pequena e fria tocou sua fronte. Surpreso, voltou-se
para encontrar a seu lado com um par de olhos verdes. Não tinha
se dado conta que Zigur estava sentado a seu lado.
— No momento não tem febre — ela disse. - Isso moço é bom
sinal. Não podemos acender fogo, e tinha medo que se resfriasse,
mas vejo que é mais forte do que tinha imaginado.
— Minha cabeça vai quebrar em mil pedaços — se queixou
Varian. — Joguei pela borda minha última refeição, nesse barco a
ponto de naufragar e já nem lembro quando foi a última vez que
comi algo. Estou molhado, cheio de imundície e…

59
— Nesse caso deve estar contente por não ter também febre e
calafrios. Como eu estou, já que minha bolsa de remédios está
ainda no barco. Os calafrios não são nada com que se preocupar,
cuidando-se bem — tratou de explicar provocando com isso
obviamente a exasperação de Varian. — Mas o que poderíamos
fazer a respeito sem alho e sem ervas medicinais?
Pouco a pouco e sentindo muita dor, Varian se ergueu e se
apoiou nos cotovelos. Viu que a manta de Zigur estava estendida a
seu lado, sobre um retângulo relativamente seco do sujo chão, e se
perguntou com amargura que tipo de insetos teriam estado
passeando por ali durante a noite. Estava seguro de que as roupas
do menino não tinham sido lavadas desde o longínquo dia em que
se encontrou com ele. Varian desejou que Jason tivesse dedicado
um pouco mais de tempo a dar a seu bastardo, lições de boas
maneiras e noções de higiene pessoal.
— Em tal caso estou seguro de que suas pedras mágicas
devem estar já no fundo do mar, até mesmo o barco — disse ele.
— Embora não é que o deseje, é obvio.
— Não. O resto dos marinheiros chegará aqui ao despontar o
dia. Vi o barco flutuando, embora estava bastante maltratado.
Acredito que navega à deriva, porque perdeu o mastro. Petro foi
com os dois marinheiros para recolher do barco tudo o que
necessitamos. Lamento ter que lhe dizer que teremos que ficar aqui
bastante tempo. Suponho que terão que trocar o mastro assim que
o tempo o permita. Isso e outros trabalhos de reparação — disse
fazendo um gesto com as mãos — nesta época do ano, levará
várias semanas antes que o barco possa voltar a navegar de novo.
— Semanas? Quer dizer que ficaremos parados aqui?

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O olhar de desespero para Varian dava a entender o miserável,
imundo e incômodo que lhe parecia aquele chiqueiro. Então viu
duas serpentes que cruzavam pela parede.
O menino se sentou com as pernas cruzadas e com uma
expressão surpreendentemente paciente e explicou:
— Estamos na desembocadura do rio Shkumbi. Toda a região
próxima à costa é de pântanos, embora haja uns quantos povos
muito pobres. Para viajar por terra necessitaríamos cavalos, e o
lugar mais próximo onde poderíamos alugá-los está para o oeste, a
umas vinte milhas inglesas daqui.
— Deve estar brincando. Não há nenhum cavalo em vinte
milhas?
— Não estamos na Inglaterra nem na Itália. Meu país é muito
pobre, e os cavalos são um bem muito valorizado. Que louco se
dedicaria a manter um estábulo em um enorme pântano? Aqui nem
sequer se pode alugar uma mula.
— Não estará dizendo que tenho que ficar nesse chiqueiro
durante várias semanas? — Varian meneou a cabeça horrorizado.
— Isso é impossível. Enviaremos alguém a procura de cavalos ou a
que contrate outro barco.
— Se a sorte sorrisse, conseguiria que cumprissem essa missão
em menos de um mês. — O moço ficou olhando as pequenas mãos
imundas. — Como você deseje, efendi. É você um grande lorde
inglês. Andar deve estar além do que pode permitir-se. Além do
que uma viagem desse tipo poderia destroçar suas formosas botas.
Varian deu uma olhada a suas botas cheias de barro e sal, e
logo voltou a olhar aquele garoto com desconfiança.
— Não parece que goste muito dos lordes ingleses, não é

61
assim?
— Lamento-o muito, Oh grande lorde! Se minhas palavras o
ofenderam — disse Zigur ainda com o olhar cravado. — É culpa de
minha ignorância. Não estou acostumado a estar frequentemente
em companhia de príncipes.
— É um pequeno pilantra impertinente e não é necessário que
esbanje essa falsa humildade comigo. Além desta dor infernal que
tenho na cabeça, meus sentidos funcionam perfeitamente. —
Lutando contra os músculos que pareciam desprender-se dos
flancos da cabeça, Varian se sentou. — Crê que sou tolo completo,
não é verdade? Se tivessem quebrado sua cabeça não se sentiria
nesse momento tão presunçosamente superior.
— Eu acredito que se os turcos me tivessem dado o golpe que
deram a você nesse momento já estaria morto — replicou o moço
com um meio sorriso. — Você tem uma cabeça maravilhosamente
dura, efendi.
Varian tocou com cautela o enorme galo que tinha junto à
têmpora e deu um coice de dor.
— Todos os lordes ingleses são uns cabeças duras, não sabia?
O menino sorriu abertamente fazendo com que a expressão de
seu rosto se transformasse, e Varian se deu conta pela primeira vez
que tinha um rosto bastante distinto do Percival, embora seguisse
parecendo-se com ele em muitos aspectos. A boca era diferente,
mais larga e de lábios mais grossos, e o conjunto de suas feições
era muito mais delicado. Em resumo, esse moço era formoso.
Naquele momento Varian pôde dar-se conta de por que podia atrair
aquele moço qualquer tipo de apetite em um homem, apesar de
que a compreensão fosse puramente intelectual. Por depravado que

62
fosse, lorde Edenmont sempre tinha confinado seus desejos carnais
às mulheres adultas. A ideia de utilizar meninos para o prazer era
algo nauseabundo para ele.
Tratando de apagar da cabeça a imagem de Percival ou
daquele pobre herdeiro do Jason a mercê de algum gordo e
libidinoso sarraceno, Varian voltou a fixar sua atenção no sorriso de
Zigur.
— É verdade que não sou capaz de suportar a enfermidade e a
dor sem me queixar — disse ele. — E também é certo que me
aterroriza a ideia de destroçar minhas queridas botas. Mas
tampouco tenho nenhuma vontade de apodrecer em meio de um
pântano, obrigado. Se ocorrer a você alguma alternativa sensata,
então será melhor que a coloquemos em prática.

Esme ficou ao lado do inglês, às vezes dormindo, durante toda


a noite seguinte, dizendo a si mesma que estava fazendo o que era
correto. Tinha razão a respeito das imperfeições que a tormenta
tinha causado no barco, coisa que Petro e outros confirmaram a sua
volta. Não tinha mais vontade de atrasar-se naquela terra baldia do
inglês. Queria ver seu primo a salvo, e longe da Albânia, o antes
possível, para poder encarregar-se de tomar as rédeas de sua
própria vida. Quanto antes chegassem a Tepelena, antes
aconteceria isso. Nas atuais circunstâncias, a melhor alternativa era
percorrer a pé as quase cem milhas para o sul, isso supunha.
Além disso, se esperavam até poder partir por mar, acabariam
em Corfú, com os ingleses, e ali estaria Bajo para obrigá-la a partir
para a Inglaterra. Tinha estado muito paralisada sob os efeitos da
má notícia para discutir com ele na manhã do dia anterior em

63
Durrës, e nem sequer tinha podido pensar com calma. Mas após,
tinha tido tempo de sobra para expor sua situação.
Esteve pensando em seu pai, que tinha sido assassinado por
sua culpa. Nunca mais poderia voltar a divertir-se ou a rir com ele.
Nunca mais poderia voltar a sentar-se orgulhosa do seu lado,
enquanto ele a apresentava a seus amigos — como sua filha, sua
pequena guerreira. — Nunca mais voltaria a escutar sua voz
amável, sempre amorosa, até quando a repreendia. Seu amado
pai, que não desejava outra coisa mais que retornar com ela para
viver entre sua própria gente, tinha sido assassinado como um
cão… por culpa dela. Com ele, sua vida não seria jamais
inteiramente vazia, sem importar aonde fossem. Sem ele, não tinha
nada, somente a pena… e a ninguém com quem poder compartilhá-
la.
Durante todo aquele longo dia tinha tratado de afastar a
tristeza de sua mente, levantando uma fortaleza ao redor de seu
coração dolorido e fazendo o que tinha que fazer. E durante aquele
dia interminável sua raiva foi crescendo até o ponto de chegar a
pensar que acabaria ficando louca. Não podia fugir a nenhuma
parte com a esperança de que encontraria paz para um coração
que gritava pedindo vingança. Bajo estava equivocado. Ele não
tinha matado os assassinos de seu pai. Ismal ainda estava com
vida. E para a filha do Leão Vermelho só havia um caminho: pagar
sangue com sangue.
Não ia ser difícil. Primeiro se asseguraria de que Percival saísse
a salvo do país, e depois aceitaria o Ismal. Com o Jason morto,
Ismal teria que pagar ao Alí o preço da noiva, e certamente seria
um preço muito alto. Mas ia custar ao Ismal muito mais que jóias e

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moedas, e quando arrebatasse a vida de seu jovem corpo, sua
honra ficaria lavada. Ela também teria que pagar a sua vez por
esse crime, sabia claramente — possivelmente com sua própria
vida ou acabando no leito de um dos atuais favoritos do Alí. — Não
tinha medo. Contanto que pudesse limpar sua alma maltratada por
meio de vingança, poderia suportar qualquer destino que devesse
cumprir.
A seu lado, o inglês se movia inquieto e gemia. Tinha tentado
aliviar sua ferida, e esquentar seus ânimos, pois sabia que os dores
deviam ser terríveis. Também sabia que estava profundamente
preocupado pelo Percival. Mesmo assim, aquele lorde não teria
agora aquele galo em sua dura cabeça, nem razão alguma para
estar preocupado, se tivesse ficado no lugar ao qual pertencia. Por
outro lado — pensou outra vez consigo mesma, — os enganos
daquele inglês tinham conseguido atrasar sua partida para Corfú. A
terrível confusão em que a tinha metido lhe tinha dado também
uma nova oportunidade.
Esme ficou olhando-o por cima do ombro. Não estranhava que
estivesse gemendo. Havia voltado a cabeça para o outro lado e o
lado machucado de sua cabeça estava apoiado na dura superfície
do chão. Ela se levantou e cuidadosamente colocou seu corpo
inconsciente do outro lado. O débil gemido parou. Logo voltou a
deitar de novo dando as costas a ele.
Estava começando a adormecer quando sentiu um foco de calor
em suas costas. Em sonhos, o inglês se deslocou para a manta
dela. Ela estava a ponto de afastar-se quando ele se moveu,
resmungou algo e logo jogou o braço sobre ela.
Esme levou um susto e seu coração começou a pulsar

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amalucado. Com cuidado, segurou o braço e tentou levantá-lo. Mas
era como tentar levantar uma coluna de pedra. Ele estremeceu e se
apertou mais ainda contra ela, rodeando-a com o braço. Um lençol
de calor a envolveu.
Esme não estava acostumada a preocupar-se com o frio,
acostumada como estava a aceitá-lo e ignorá-lo. Mas aquele
homem estava doente e o abrigo era um lugar frio e úmido.
Tratava de esquentar o corpo, isso era tudo. Disse a si mesma que
nenhum mal podia haver nisso e fechou os olhos. Por muito que se
esforçasse, sentia-se miseravelmente só e a pena a enchia de frio
por dentro. Ser abraçada daquela maneira era até reconfortante.
Estava voltando a adormecer quando ele murmurou algo
ininteligível, e sua mão se deslizou para cima de seu peito, por
cima de sua camisa, até cobrir um de seus pequenos seios.
Um medo cego a percorreu. Esme levantou a mão e o golpeou
com força enquanto se liberava de seu abraço.
— Mas o que…?
A mão dele agarrou a seu pulso e imediatamente Esme se
encontrou arremessada de costas, enquanto o inglês se debruçava
sobre ela. Quando tentou revolver-se, ele se colocou
completamente em cima dela, agarrando suas mãos e apertando
contra o chão a ambos os lados de sua cabeça. Em seguida ele
colocou as duas pernas ao redor das pernas dela antes que Esme
pudesse dar uma joelhada entre as pernas.
Por um momento Esme ficou muito estupefata para mover-se.
Nunca em sua vida enfrentou um adversário de movimentos tão
rápidos. Pensava que aquele homem devia estar muito cansado e
débil. Mas era terrivelmente rápido e desconcertantemente eficaz.

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Mesmo assim, começava a ofegar e suas maldições não eram mais
que um grunhido afogado. Aqueles insultos não a incomodavam
absolutamente. Ela sabia amaldiçoar em cinco línguas diferentes. O
que estava incomodando era o peso daquele corpo rígido em cima
do dela e uma desconcertante sensação de impotência. Mas não
por muito tempo, disse a si mesma. Depois de tudo ele estava
ferido e ela não.
— Maldito porco inglês — grunhiu ela golpeando suas pernas
com força.
Com o pé golpeou ao Petro que estava dormindo do outro lado
dela. Ele despertou aterrorizado.
— Socorro! Socorro! — gritou em grego Petro enquanto saía a
toda pressa debaixo das mantas. — Ladrões! Assassinos!
— Calado, idiota! — soltou o inglês. — Acende a lanterna. Não
há nenhum ladrão, maldito seja. É uma garota!

Petro levou uma eternidade para encontrar e acender o abajur


que cheirava a mil demônios. Enquanto isso, Varian tinha liberado a
sua companheira do peso de seu corpo e de seu gorro de lã. Não
que precisasse examiná-la mais de perto. Reconhecia um corpo
feminino assim que topava com ele, e tinha sido totalmente
consciente de que sua mão se curvou sobre um diminuto e muito
firme peito, inconfundivelmente feminino. Estava sonhando que se
encontrava na cama com uma mulher e despertou de repente para
dar-se conta de que, efetivamente, assim era. Uma garota,
corrigiu-se em silêncio, enquanto seus olhos cinza se fixavam na
brilhante cabeleira ruiva. Uma garota que possivelmente tinha

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entrado na puberdade tão somente um dia antes.
Ela estava sentada com as pernas cruzadas, olhando-o
fixamente. Varian sentiu vontade de lhe dar uns açoites. Não
gostava nada que tirassem o sarro dele. E muito menos gostava de
ter escapado da morte por um fio duas vezes em apenas quarenta
e oito horas. Um pouco mais e poderia ter encontrado a faca dela
atravessando suas costelas. Mas por mais furioso que estivesse,
não era completamente insensível. Se aquela garota não era o filho
do Jason, sem dúvida era sua filha. Seu nome era Esme. Um nome
saxão, e não tinha nenhum sentido negar sua assombrosa
aparência com o Percival. O que significava que aquela moça
acabava de perder a seu pai, o que era uma razão mais que
suficiente para estar arisca. Além disso, as liberdades que
inconscientemente ele tomou com seu jovem corpo deviam tê-la
aterrorizado.
— Lamento, fui tão… violento — disse ele com firmeza. — Mas
me pegou de surpresa e pensei que estava sendo atacado.
O verde olhar da garota se transformou em uma expressão de
puro desprezo.
— Atacado? Não eram minhas mãos que rondavam por lugares
onde não tinham que estar.
— Estava adormecido! — respondeu ele como desculpa. —
Como ia, ou seja, onde estavam minhas mãos?
— Tem razão — concordou Petro com entusiasmo. — Como ia
acariciar a alguém que acreditava ser um menino? A meu senhor
não interessam os meninos. E todo mundo sabe…
— Não estava acariciando, maldito seja. Estava dormindo e…
— Pôs as mãos em meu seio! — acusou ela. — Acredita que

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sou uma concubina para não fazer nenhuma objeção? Eu só
tentava me afastar e você atuou como se estivesse tentando
assassiná-lo. E como não era suficiente me submeter de uma
maneira tão vergonhosa, ainda tentou me tirar a roupa.
— Tirei sua faca para que não pudesse me matar e tirei o
chapéu, ou como chamam a essa monstruosidade medieval —
respondeu ele devolvendo o gorro de lã.
— Não importa como o chamamos. Não tinha nenhum direito.
Se meus homens estivessem aqui, o teriam matado por esse
insulto.
Ela colocou o horrível gorro de lã sobre a cabeça e escondeu a
longa cabeleira. Varian percebeu que as mãos dela tremiam.
Parecia que a tinha assustado de verdade. A pobre garota deve ter
imaginado que estava tentando violá-la.
— Peço que me perdoe — disse ele. — Não sou completamente
consciente quando me acordam de repente. Mas não deveria ter me
enganado. Parece-me o mais natural ter pensado, ao descobrir, que
estava sendo objeto de algum engano perigoso. Ladrões,
assassinos… como ia saber?
— Tem razão — acrescentou Petro. — Pensei isso mesmo ao
despertar de repente. Tolo, é muito tolo — repreendeu-a — que
uma moça se faça passar por um menino. E dizer mentiras não é
bom.
— Como pode ser tão estúpido? — exclamou ela. — Há um tipo
que mandou seus rufiões atrás de mim, uma garota ruiva, e que
voltará a mandá-los assim que descubra que meu primo é um
moço. Não é uma tarefa muito difícil. Quantos albaneses ruivos
acredita que há? — perguntou ela. — Eu nunca ouvi falar de

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nenhum, exceto eu mesma.
Ela dirigiu seu olhar acusador para Varian, quem parecia sentir-
se pior por momentos.
— Já sei que não é o melhor disfarce, mas Bajo e eu não
planejávamos nos demorar tanto para que pudessem me buscar
com atenção — continuou explicando ela. — Se os homens que me
perseguiam não tivessem visto meu primo, teriam se posto a
procurar por toda parte e eu teria tido tempo de escapar.
Varian não podia negar que tinha razão. Era culpa dele que a
moça não tivesse conseguido escapar a tempo, e também era sua
culpa que Percival estivesse agora em mãos de uns pervertidos.
— Estou de acordo que sou o responsável por todo esse terrível
problema — disse ele. — E considerando meu comportamento
estúpido, não deveria me surpreender sua decisão de não me
confiar esse segredo.
Aquilo pareceu aplacar um pouco o aborrecimento da garota,
pois sua resposta foi algo menos beligerante.
— Pensei que todos estaríamos a salvo se não soubessem.
Poderiam ter me tratado de maneira especial, ou dito algo
comprometedor por equívoco e… alguém poderia ser informado e
teriam acabado por me descobrir.
Também aquilo tinha sentido. Para o jovem que era, tinha que
reconhecer que tinha uma boa cabeça sobre os ombros. A boca de
Varian relaxou em um amplo sorriso.
— Percival havia dito que seu tio não só era um homem
valente, mas também muito ardiloso — disse ele. — Percebo que
herdou dele essas duas qualidades, assim como sua aparência.
O desafio desapareceu de seus olhos de cor verde intensa e foi

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substituído por uma expressão de causar pena.
— Eu era para o Jason um filho e uma filha. — Sua voz tinha
um timbre tremente. — Ele me ensinou tudo o que sei. Falo
perfeitamente quatro línguas e sei turco suficiente para amaldiçoar.
— Engoliu a saliva. — Sou uma excelente atiradora tanto com rifle
como com faca. Posso defender a mim mesma e também a vocês
dois. Logo verão que não há nenhuma necessidade de que me
tratem com especial deferência só porque sou mulher.
Varian devia ter posto uma expressão um tanto duvidosa — e
como não, enquanto olhava aquela criatura com aspecto de duende
com enormes olhos verdes, porque ela elevou o queixo e endireitou
sua postura.
— Não sou uma mulher débil e assustadiça nem vou fazer um
grande escândalo por um pequeno engano. Esquecerei o insulto
cometido contra minha pessoa e os levarei a Tepelena… se você
puder esquecer minha pequena ofensa por tê-lo enganado.
— Isso é muito… generoso de sua parte — disse Varian, —
mas…
— Não há nada o que temer — interrompeu ela impaciente. —
Sou uma lutadora e tenho cicatrizes que o demonstram. Aqui —
disse ela assinalando um de seus braços. — E aqui — acrescentou
golpeando a coxa. — Mas os homens que dispararam em mim estão
mortos. Minha gente me chama «pequena guerreira». Pode
perguntar a qualquer um na Rogozhina e eles o dirão.
— Atiraram em você? — repetiu Varian com um calafrio
percorrendo sua nuca.
— Oh, sim.
Ela levantou a manga da camisa e mostrou a cicatriz. Seu

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esbelto braço era suave e delicado, muito mais branco que suas
mãos fortes e bronzeadas.
— Não é necessário que me mostre mais — disse ele
rapidamente. — Acredito em você.
Deus, que tipo de porco é capaz de disparar contra um corpo
frágil como este? Perguntou-se ele.
— Ainda lhe dói a cabeça, efendi? — perguntou ela preocupada.
— Você ficou pálido. Talvez devesse voltar a deitar-se.
Enjoado pelo esforço por tentar encontrar algo de sentido
naquela garota, e em tudo o que estava acontecendo, Varian se
deitou de boa vontade. Não era conveniente tratar de raciocinar
com ela agora. Sua mente estava transtornada pela desgraça.
Inclusive sua solicitude se devia só ao medo.
Apesar de tudo, era comovedora a maneira como a garota o
agasalhava, como se pensasse que se tratava de um menino
doente. E também parecia ter decidido que era tão perigoso como
um menino, posto que voltou a deitar-se ao lado dele e ordenou ao
Petro que se colocasse do outro lado, para que seu senhor pudesse
compartilhar o calor de seus corpos.
Ela continuava sendo igualmente solícita na manhã seguinte,
até que, vendo-a recolher as coisas para a viagem, Varian falou
amavelmente que não pensava ir a nenhuma parte.
O rosto dela adquiriu uma expressão pétrea.
— Porque não confia em uma mulher para que os guie?
— Uma jovem — corrigiu ele. — E não é que desconfie de você,
mas…
Ela não esperou para escutar o resto, simplesmente agarrou
suas bolsas e saiu do abrigo. Apesar dos gemidos assustados de

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Petro, Varian esteve tentado de deixá-la partir. A alternativa, sabia,
era ter que atá-la.
O problema residia em que, deixá-la partir só era equivalente a
assassiná-la. E não podia esquecer que ela e seus amigos tinham
salvado sua vida. Assim Varian cerrou os dentes e pôs-se a andar
atrás dela.

Capítulo 4

Provavelmente Alí teria água na boca quando o visse, pensou


Esme quando se aproximavam de Rogozhina dois dias depois.
Apesar de que na corte do visir estavam alguns dos mais formosos
jovens do Império turco, ao lado daquele lorde inglês todos
pareciam gnomos. Alto e muito bonito, movia-se com todo o
arrogante aprumo de um sultão, mesmo enquanto avançavam
pelos enlodados pantanais, com as correntes de água cobrindo até
os joelhos. Sua insolência era uma maneira de ganhar o respeito,
pois em sua esfera se abusava dos dóceis. Além disso, seu aspecto
poderia chegar a fazer que mais de uma cortesã ficasse a chorar.
Sua pele era tão lisa e suave como a de uma concubina
consentida, embora sua beleza fosse puramente masculina, uma
combinação irresistível para muitos homens. — Mas eles podiam
desejar em vão.
Petro havia dito que o lorde inglês era um viciado nas
mulheres. Apesar de saber-se quão licencioso era aquele homem,
as mulheres italianas revoavam a seu redor como as moscas sobre
o esterco. É obvio, como tinha alardeado o fofoqueiro Petro, o lorde
escolhia sozinho às mais formosas e sofisticadas dentre aquelas

73
que se ofereciam de maneira tão desavergonhada.
O marinheiro tinha compartilhado essa informação com ela
enquanto seu senhor dormia. Se Esme pretendia realizar aquela
viajem com eles, deveria ter um olho posto em seu senhor,
advertiu Petro, para que não pretendesse nada com as virtuosas
mulheres albanesas e os colocasse a todos em uma sangrenta
briga.
— É difícil que encontre alguém que o queira no caminho para
Tepelena — tinha respondido Esme. — Não é muito normal
encontrar cortesãs por esta comarca. Assim advirta-o que deverá
esperar. Alí poderá proporcionar todas e quantas queira quando
chegarmos.
— Não, tem que dizer-lhe você, porque não me escuta nunca.
Diz que não pode entender o inglês que falo. Você terá que dizer e
explicar claramente como fez na outra noite. Nunca o tinha visto
tão zangado. Por um momento acreditei que estava disposto a te
pegar. Mas você o repreendia e ele não fazia outra coisa mais que
sorrir e escutar.
Agora o inglês já não ria. Seus olhos cinza estavam fixos no
humilde povo que tinham à frente e os traços de seu rosto ficaram
tensos.
— Rogozhina — disse ela. — Eu havia dito que chegaríamos
aqui antes que caísse a noite.
— Disse-me que era uma cidade importante. Não vejo mais
que seis casas, ou chiqueiros. E é difícil distinguir onde acaba o
musgo e onde começa a pedra das paredes.
— Falei a você que é um importante cruzamento de caminhos
— disse ela. — Aqui se unem dois ramais da antiga via Egnatia

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romana, uma desde a Apolônia e a outra desde Durrës.
— Pois então me parece que os romanos acabaram com o
dinheiro para sua manutenção. Embora César Augusto possuísse os
visionários poderes concedidos pelos deuses dos quais fazia
ornamento, atrever-me-ia a desafiá-lo por definir como duas
grandes estradas, isso que não é mais que um caminho em meio de
muito lodo, no meio de nenhuma parte. Avançamos durante dois
dias pelos pântanos, para chegar a esse grupo de barracos cobertos
de barro que, até onde posso ver, foram abandonadas por seus
habitantes humanos a pelo menos seis séculos.
— Possivelmente esperava uma cidade como Paris, efendi?
— Estava esperando chegar a algum lugar que tivesse algo que
ver, por longínquo que fosse, com a civilização.
Esme experimentou um poderoso desejo de disparar sua bota
para o traseiro dele, mas disse a si mesma que aquele lorde era
como um menino mimado e não podia comportar-se melhor. E
além disso, ao ser tão infantil, era bastante fácil dirigi-lo. Não fosse
assim, teriam tido que ficar encerrados no pequeno refúgio junto à
desembocadura do Shkumbi.
Felizmente, ele precisava dela a seu lado muito mais do que ela
necessitava dele. Na Inglaterra poderia ter sido um lorde poderoso,
mas na Albânia estava tão desamparado como um menino.
Efendi era como ela o chamava, desde o primeiro momento, na
brincadeira. Claro que era um tratamento de respeito, mas para um
professor ou um padre. Poderia chamá-lo «montão de miúdos», por
isso podia entender ou lhe importava entender. Por Alá, esses
lordes ingleses eram ignorantes e provincianos, e pareciam
evidentemente orgulhosos de sê-lo.

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— Não acredito que tenha que te advertir que não deves fazer
esse tipo de comentário entre os aldeãos — disse ela naquele
momento, — já que é um cavalheiro inglês, e Jason sempre dizia
que os verdadeiros cavalheiros são muito educados.
— Eu não sou um cavalheiro. Não sou mais que um pedaço de
barro andante cheio de pulgas.
— Mesmo assim devo advertir para não cortejar as mulheres.
Ele voltou a cabeça lentamente para ela.
— Perdão?
— Parece-me que não é surdo. Disse que não corteje as
mulheres se quiser sair da Rogozhina inteiro. Se cruzarmos com
alguma prostituta aviso você, mas isso é bastante improvável. Na
Albânia há muito mais homens que mulheres, e estas estão
ciosamente protegidas. Por exemplo, um muçulmano deve pagar
mais de mil piastras por uma noiva. Isso é um investimento
importante. Por favor, tenha isso sempre em mente.
Ele deu uma olhada à massa de estruturas habitáveis de
pobres formas sob a chuva cinza, e logo voltou a olhá-la.
— É obvio que o farei. Obrigado pela advertência. Seria
espantoso que enlouquecesse pelas hordas de donzelas que há em
Rogozhina me esperando.
— Não é necessário que seja tão sarcástico — disse ela.
— Eu gostaria de saber quem colocou na sua cabeça que me
dedico a cortejar a todas as mulheres com as quais cruzo — disse
ele.
Nesse momento, Petro se arrastava miseravelmente a muitos
metros atrás deles. Embora fosse possível que não pudesse ouvir o
que diziam, Esme preferiu não revelar quem era seu informante.

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Não queria que aquele senhor soubesse que se dedicou a mexericar
dele com seu criado.
— Tem aspecto de que assim é — disse ela. — E estaria muito
interessada em ver como o faz, deve ser um espetáculo divertido,
mas acredito que poderei esperar até que cheguemos a Tepelena.
— Ver-me?
— Cortejar — esclareceu ela. — É obvio que não sinto nenhuma
curiosidade em ver o resto. Isso é um assunto privado.
— Esme — disse ele, — tem alguma ideia do que está falando?
— Sim. Jason me contou isso, porque não tenho família que me
possa proteger. Pensava que era melhor que entendesse desses
assuntos, posto que, do contrario, alguns homens poderiam utilizar
minha ignorância contra mim.
— Já vejo.
— Está surpreso?
— Não, só… — Fez uma pausa e se voltou completamente para
ela. Ela também se deteve, perguntando-se por que parecia tão
preocupado.
— E o que me diz da família de sua mãe? — perguntou-lhe. —
E sua mãe?
— Morreu quando eu tinha dez anos. Jason e eu passamos uma
época muito difícil, porque sempre o requeriam em alguma parte.
Minha avó vive em Girokastro, mas todo o resto de minha família
morreu.
E agora também Jason, pensou ela sentindo uma pontada de
pena que começava no coração e obstruía a garganta. Voltou a
andar de novo.
— Mas isso aconteceu faz muito tempo — acrescentou ela com

77
firmeza. — Falemos de outra coisa.

Entretanto, não tiveram tempo de mudar o tema que de


maneira tão desconsiderada Varian tinha mencionado. Sua chegada
foi descoberta em seguida, e após um momento toda Rogozhina
tinha saído de suas casas para dar as boas-vindas.
Era um povo muito maior do que Varian tinha imaginado. Em
um momento se viram rodeados por uma multidão de homens
cujas mãos seguravam outra multidão de mulheres e meninos,
falando todos de uma só vez e sem que ele pudesse entender uma
só palavra do que diziam. Nem tampouco Petro, é obvio, que se
queixava de que falavam em um dialeto ininteligível.
A cabeça de Varian doía e começou a notar que apitavam seus
ouvidos. Estava cansado e faminto, e tão sujo que tinha vontade de
sair de sua própria pele. Se Esme não tivesse cuidado da situação,
teria acabado sentando naquele momento no chão para ficar a
chorar.
Tal e como ela tinha previsto, aos aldeãos não chamaram a
atenção o andrajoso moço pelo que pretendia fazer-se passar
Esme, e em seguida a deixaram de lado enquanto formavam um
coro ao redor de Varian. Entretanto, ela se colocou no momento
habilmente a seu lado e conseguiu que prestassem a ela toda a
atenção. Graças a Esme, menos de uma hora depois Varian
colocava seu dolorido corpo em um tanque de madeira cheio de
água fumegante.
Era o tanque da roupa que estava situado na sala central que
unia um grupo de casas de campo. Pertencia à numerosa família de

78
seu anfitrião, Maliq. Na cozinha, que se encontrava na habitação do
lado, podiam ouvir as vozes das mulheres enquanto preparavam
um festim para homenagear a sua excelência. Justo a seu lado, no
pequeno corredor que havia atrás da porta da lavanderia, estava
Petro, obedientemente ocupado em escovar a roupa de seu senhor.
A maior parte do guarda-roupa de Varian tinha ficado no barco.
Nenhum dos membros da tripulação tinha demonstrado estar tão
louco para acompanhá-los, ao preço que fosse, e três pessoas a pé
não podiam carregar muita bagagem. O que significava que Varian
possuía exatamente três mudas de roupa interior, uma jaqueta, um
grosso casaco e dois pares de calças.
Apesar de estar acostumado a trocar de roupa várias vezes ao
dia, Varian tinha pensado que poderia aguentar perfeitamente
durante dois ou três dias até que chegassem a Tepelena. Não é que
não pudesse esperar e assistir às numerosas festas para as quais
costumavam convidá-lo, mas jamais teria sonhado que aquela
viagem incluía toneladas de barro e a suficiente quantidade de
insetos para encher a abadia do Westminster.
Estava ensaboando o pescoço e observando a trágica condição
em que tinha ficado sua cara camisa, quando Esme apareceu pela
porta, parou em seco e logo deu meia volta correndo para sair dali.
As gargalhadas do Petro se ouviram ao longo de todo o
corredor.
— Filho do chacal — gritou ela. — Por que não me avisou para
que não entrasse?
— Mil perdões, minha pequena —respondeu ele com ironia. —
Acreditei que tinha vindo correndo para me esfregar as costas.
— Isso não tem nenhuma graça — gritou ela. — Além disso, é

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um criado muito ineficaz por deixar que alguém interrompa seu
senhor quando está tomando um banho. Não tem respeito por sua
intimidade?
— Respeito? — repetiu Petro. — Por Alá, mas se a metade das
mulheres da Itália viram seu…
— Petro — gritou Varian da banheira.
Petro se apressou a aparecer à porta.
— Sim, senhor?
— Te cale.
— Sim, senhor.
O corredor ficou completamente em silêncio.
Varian acabou em seguida de banhar-se, vestiu o enorme
penhoar que seu anfitrião emprestou e chamou os dois.
Esme entrou no quarto e, sem olhá-lo, recolheu as toalhas que
ele tinha deixado no chão e as colocou no cabide que havia na
banheira. Logo se sentou no chão, em sua típica posição com as
pernas cruzadas, e ficou olhando as mãos.
Petro ficou junto à porta com aspecto servil.
— Tem que pedir desculpas Petro, por suas brincadeiras de
mau gosto — disse Varian. — Inclusive agora, nosso jovem amigo
deve estar vigilante para que não o descubram, e eu não tenho
nenhuma vontade de que nos pilhem graças a ti.
Petro se deixou cair rapidamente de joelhos antes de começar
a dar cabeçadas contra o chão de uma maneira exageradamente
lisonjeadora.
— Milhares, milhares de desculpas, minha pequena! — disse ele
desfazendo-se em adulações. — Que eu seja maldito para sempre,
que me apodreçam os braços e as pernas, e caiam a partes, que

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eu…
— Não seja ridículo — disse ela. — Não vá pensar que nunca
antes tinha visto um homem sem camisa. — Quando Petro ficou de
pé com rapidez e voltou para uma postura mais digna, ela ficou
olhando a Varian e um ligeiro tom rosado tingiu suas bochechas. —
Tudo o que pude ver foram os ombros, e além disso só por um
instante, e…
— E também a banheira é bastante profunda — acrescentou
Varian.
O rubor das bochechas dela ficou mais intenso.
— Assim é. Além disso tinha a cabeça em outra parte, garanto
a você, ou do contrário jamais teria entrado aqui de uma maneira
tão precipitada. Acaso não tinha pedido eu mesma que
preparassem o banho? Mas esqueci, por que…
— Porque vinha a toda pressa para me contar algo, suponho —
disse Varian ficando de cócoras diante dela. — Do que se trata?
Ela lançou um rápido olhar ao corredor, logo se voltou para
Varian e sussurrou:
— Mataram a Esme.
— Perdão?
— Faz dias chegou a notícia do seqüestro a Rogozhina. Por isso
todos saíram para nos receber e por isso todos se preocuparam em
nos deixar cômodos.
— Agora eu entendo — disse Petro. — Fiquei muito surpreso
em ver todas as mulheres saindo à rua para nos receber, até com
os meninos.
— Mas faz dias? — perguntou Varian. — Isso é impossível.
Como…?

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— Na Albânia, as notícias voam pelos ares como os pássaros —
disse ela.
— Sim, senhor — interrompeu Petro antes que ela pudesse
continuar falando. — Gritam de uma montanha até a mais próxima.
Com uns chiados que destroçam os ouvidos. E precisa ver as caras
que põem…
— Isso não me importa. O que dizem de seu… do assassinato
de Esme? — perguntou Varian.
— Bajo deu a notícia, da maneira que contou Petro. Disse que
mataram o Jason e tomaram como refém um jovem lorde inglês —
explicou ela. — Mas também contou que Esme foi assassinada
durante o ataque daqueles rufiões. Não vê quão inteligente foi? A
esta altura essas notícias já teriam chegado para os ouvidos dos
assaltantes que estão me perseguindo, ou seja, a Esme, e…
— E desse modo já não haverá mais tentativas de seqüestro.
— Agora já não temos com que nos preocupar — disse ela em
tom confidencial. — Tudo sairá como disse, inclusive melhor.
Ninguém poderá imaginar que não sou quem pretendo ser, e essa
gente nos ajudará a seguir nosso caminho. Certamente mais ao sul
deve ter muita gente procurando o Percival, ou pode ser que já o
tenham encontrado e agora esteja a salvo. Por outro lado, nesse
momento os rufiões que nos perseguem devem estar assustados
tanto da cólera do Alí como da do senhor que os enviou.

Naquele mesmo momento, a umas trinta milhas ao sul de


Rogozhina, vários rufiões descontentes estavam discutindo com
estridentes sussurros enquanto um moço de doze anos dormia a

82
seu lado. A metade das pessoas opinava que simplesmente
deveriam abandoná-lo ali mesmo, já que os homens de Alí Pachá
deveriam estar atrás de sua pista. A outra metade argumentava
que o menino não representava mais que um desafortunado
engano. Entretanto, se sofresse algum dano, nem sequer Ismal
poderia protegê-los. Por outra parte, o menino não tinha causado
problema algum, exceto cada vez que alguém se aproximava de
sua bolsa de viagem de pele. Apesar de ter demonstrado que
somente continha pedras sem nenhum valor, chegaram à conclusão
de que o moço estava provavelmente desequilibrado pelos recentes
acontecimentos.
— A somente uma milha para o oeste está a casa do padre —
lembrou Mehmet. — Podemos deixar o menino com ele.
— Sim, boa falta nos faz um padre — disse Ymer. — Essa peça
de xadrez que nosso senhor deu a você me parece que está
maldita. Desde que a levamos conosco não tivemos nada mais que
problemas. Quando chegamos a casa, a garota tinha partido.
Quando nos aproximamos da costa, a metade dos habitantes de
Durrës estava esperando com as armas preparadas. Mataram dois
de meus primos e seqüestramos um menino inglês, o filho de um
lorde, por engano. Agora o Leão Vermelho está morto, e também
sua filha, e vão acusar a nós de tudo o que aconteceu. Alí vai nos
torturar até que morramos.
A menção da maldição fez que o grupo ficasse tenso e
incômodo.
— Enterra-a — sugeriu um deles.
— Isso não fará desaparecer seu poder maligno — disse outro.
— Será melhor que a entreguemos ao padre, junto com o menino.

83
— Ismal ficará furioso. Supunha-se que essa peça de xadrez
tinha que voltar para suas mãos.
— Mas em poder da garota, estúpido! A garota está morta e
Ismal não pode esperar de nós que a levemos de volta agora. Alí
vai nos assar em um espeto!
— Será melhor nos escondemos nas montanhas; e que o
façamos agora mesmo se queremos conservar nossas cabeças em
seu lugar.
Enquanto outros seguiam discutindo, Mehmet ficou de pé e se
aproximou do moço adormecido, abriu sua bolsa de couro e colocou
dentro a rainha negra de xadrez, envolta em um trapo, entre as
pedras.
Ao retornar ao lado de seus companheiros, disse-lhes:
— Temos que levar o menino ao padre, porque não nos
pagaram para matar a um menino, a não ser para raptar a uma
garota. Cedo ou tarde alguém levará o menino até Alí para que
cuide dele, ou o entregará aos britânicos em Corfú. Pode ser que os
fatos façam a peça de xadrez retornar às mãos do Ismal. Se não
for assim, é que não era esse seu destino. — deu de ombros. — E
se essa coisa estiver realmente maldita, será melhor que esteja
longe do alcance de suas mãos.

Várias horas mais tarde, Percival estava deitado em uma dura


cama de armar na miserável cabana de um dos padres albaneses.
O fogo meio apagado da chaminé criava estranhas sombras na
escuridão do quarto. Pela janela não se via mais que escuridão,
sem uma só estrela.

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Na cama de armar que estava junto à parede oposta, o padre
roncava profundamente. A série irregular de roncos, bufados e
assobios era sintomática, pensou Percival, da obstrução nasal que o
senhor Fitherspine, seu último tutor, tinha padecido. Aqueles sons
pareciam tão naturais que poderia ter chegado a pensar que os
últimos três dias não tinham sido nada mais que um sonho. Mas
não era assim e tratar de convencer-se do contrário não ia
solucionar nada.
O padre se pôs a chorar ao contar a Percival que seu tio Jason
e sua prima Esme tinham morrido. Percival não acreditou. Tudo
aquilo tinha parecido tão estranho: o padre dando a terrível noticia
em latim, pois não tinham nenhuma outra língua em comum,
enquanto pelas laterais de seu bojudo nariz caíam fios de lágrimas.
Mas Percival tampouco ia ficar a chorar agora. Se fosse vencido
pelas lágrimas, seria vencido em todos os sentidos. Precisava
pensar.
Aproximando a bolsa de pele de viagem, tirou dela o objeto
que não se atreveu mais que a tocar enquanto o padre estava
acordado e o desembrulhou. Ali estava. A rainha negra. Ela era a
prova evidente de que não tinha estado sonhando. Aquele bandido
a tinha metido na bolsa… depois de uma azeda conversação com os
outros, da qual Percival só tinha entendido uma palavra: Ismal.
Estava seguro disso, porque tinha ouvido varia vezes.
Agarrou a rainha negra pela cabeça e desenroscou a base da
figura. E ficou pasmado… porque a parte de papel ainda estava ali.
Tirou-o perplexo e através da leve luz das brasas estudou a
mensagem de seu pai.
Tratava-se de um código ridiculamente simples. Não terei que

85
fazer nada mais para decifrá-lo que usar o alfabeto, substituindo a
Z por A, e assim todas as letras. Então as palavras apareciam em
latim. Sem gramática, mas o suficientemente explícito. O barco era
o Rainha da Meia-noite, que deixaria a carga no Preveza a
princípios de novembro.
Isso era tudo o que Percival pôde compreender. Não chegava a
entender por que seu pai tinha deixado algo que poderia incriminá-
lo por escrito. Ou por que Ismal não tinha destruído a nota, a
menos que não tivesse chegado a recebê-la. Mas, sobretudo,
Percival se perguntava por que demônios aquele bandido tinha
colocado a rainha na mochila de couro.
Era importante sabê-lo. Fosse qual fosse a explicação, tinha
que ser algo feio, porque aqueles tipos eram feios e outro tipo tão
feio quanto eles tinha assassinado o seu tio e a sua prima.
Percival atirou o papel às brasas, mas imediatamente voltou a
tirar dali e apagou as faíscas. Tentou frear com seu aborrecimento
as lágrimas que se amontoavam nos olhos. Seu tio Jason jamais
teria feito algo tão covarde. Tinham-no assassinado enquanto
tentava salvar a Albânia do homem a quem era dirigida aquela
mensagem. Aquela informação poderia ser útil a alguém, e esse
alguém jamais acreditaria em um menino de doze anos sem uma
prova. A missão do Percival era fazer chegar essa nota… e fazer
com que o mundo soubesse que seu pai era um simples
contrabandista, um criminoso — Oh, céus!, e acaso fora o
responsável, até de maneira involuntária, da morte de seu próprio
irmão.
— Oh, mamãe! — sussurrou Percival olhando com tristeza a
rainha negra, — diga o que tenho que fazer.

86
Capítulo 5

Nem Maliq nem seus companheiros suspiraram ou babaram


durante o jantar com o lorde inglês. Certamente eles não eram
dissolutos moradores de uma corte corrupta. Embora fossem
amáveis e hospitaleiros, tinham muito orgulho para dedicar-se a
adulá-lo.
O que não queria dizer que não sentissem curiosidade. Embora
por Rogozhina passassem muitos visitantes com o passar do ano,
um estrangeiro era uma espécie estranha, e o exótico recém-
chegado era, além disso, alto, simpático e atrativo. Seu aspecto,
sua vestimenta e seu comportamento pareciam para eles
completamente fascinantes, embora tivessem a dignidade de não
demonstrá-lo de maneira descarada.
Ao menos não no caso dos homens, corrigiu Esme a si mesma
enquanto o acompanhava ao dormitório e cruzava com duas jovens
roliças e formosas que os observavam do outro lado da porta com a
boca aberta. Quando ele eu a volta para desejar boa noite, elas
riram bobamente enquanto se retiravam. Tolas, pensou Esme
desdenhosamente. Se soubessem o depravado, folgazão e inútil
que é o inglês.
Durante o jantar, Esme se viu obrigada a apresentar de
maneira apropriada seu acompanhante. Quando chegaram ao
povoado, ele tinha um aspecto tão cansado e doente que tiveram
que postergar as formalidades; antes tinham que deixar que o
jovem lorde se recuperasse da viagem. Não se deu conta até a hora

87
do jantar de que jamais tinha sido honrada com uma apresentação
formal. Tinha dormido a seu lado durante três noites, mas nem
sequer sabia seu nome. «O barão inglês», era tudo o que ela tinha
ouvido dizer ao Petro e ao capitão quando falavam dele — como se
seu nome fosse muito sagrado para pronunciá-lo em voz alta.
— Diga a eles seu nome —sussurrou ela enquanto as mulheres
traziam a comida à mesa. — Eu não sei.
Com uma série de sílabas curtas e entrecortadas, ele soltou
uma série de ridículos nomes: Varian Edward Harcourt St. George,
barão Edenmont do condado de Buckingham, Inglaterra. Logo
dedicou a ela o mais desprezível e presunçoso dos sorrisos, como
se a estivesse desafiando a que os recordasse. Embora tivesse
sentido vontade de dar-lhe uma bofetada, Esme voltou-se para
seus anfitriões e ofereceu amavelmente uma tradução do que
significavam seus nomes, ao final da qual puderam ouvir uma série
de risadas jocosas entre a audiência.
— Que demônios disse a eles? — sussurrou ele fazendo
cócegas na orelha.
— St. George é Shenit Giergi, um santo que eles reconhecem
— disse ela. — disse a eles que o barão era algo como um rei e que
condado é um dos pashaliks da Inglaterra.
— E o que tem de tão gracioso nisso?
Ela deu de ombros.
— Pode ser que acharam graça em seu nome de batismo.
Disse-lhes que vinha do latim, Varian — respondeu ela
pronunciando as vocais com acento albanês. — Significa «volúvel».
— Mais tarde vou dar uns açoites — ameaçou ele.
Entretanto, pôs-se a rir e toda a companhia riu com ele, e

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alguém disse que sua risada soava como a música.
Embora ela duvidasse muito de que sua excelência tivesse a
ousadia de açoitá-la, Esme não se sentia entusiasmada por estar a
sós com ele. Empurrou-o dentro do dormitório ficando junto à porta
aberta com a mão no pescoço. Tinha decidido que seu único dever
ali era comprovar que tinha tudo o que necessitava. Logo poderia
se afastar dele durante o resto da noite.
Era um quarto pequeno. Mas apesar disso, e por tratar-se de
uma casa de campo, era bastante luxuoso. Poucas casas tinham
mais de dois quartos. Mas a do Maliq tinha seis, e o que ocupavam
naquele momento certamente estava preparado para acomodar aos
dignitários das autoridades que os visitavam. Em lugar de sofás, as
camas de armar construídas contra o muro para servir de cama, a
pequena sala estava ocupada por um grande catre e uma chaminé.
Não só tinham destinado ao inglês os almofadões mais macios e as
mantas mais grossas, mas também intimidade, uma estranha
comodidade por aqueles lugares.
Ao lado da chaminé tinham colocado dois pequenos cântaros
cheios de água quente, e de uma corrente por cima do fogo
pendurava um caldeirão. Ela tinha lavado antes as mãos e o rosto,
algo que com muita dificuldade teria considerado como suficiente.
Não foi necessário que Petro lhe dissesse quão exigente era seu
senhor com a higiene. Ela tinha nariz e olhos, não era assim? Tinha
visto o limpo que estava sua camisa, e já não recordava quando
era a última vez que a sua tinha reluzido daquela maneira.
Mesmo assim, Esme jamais teria sonhado em impressionar os
estrangeiros. Sabia muito bem o que era ir ao povo do lado, ou ao
rio mais próximo, carregada com baldes de água, para esquentá-los

89
um após o outro. Mas já que se supunha que ela era um moço, o
sobrinho de Petro, nesse momento tinha que deixar que aquele
trabalho as mulheres fizessem, além do que não tinha nenhuma
vontade de ficar com uma carga mais.
— Aqui poderá estar tranquilo e cômodo — disse dando uma
olhada à habitação. Seu olhar se deteve por um momento nas
jarras de água fumegantes e notou o agradável aroma de sabão
que desprendiam as toalhas dobradas. — Já foram todos para
cama. Ninguém virá incomodá-lo até que amanheça, e nesse
momento já estarei aqui para traduzir.
Ele se sentou na borda do catre, pôs uma das musculosas
panturrilhas em cima da outra perna e tirou uma das botas.
— Não acredito que possa voltar já que não vai — disse ele. —
Não quero que fique dormindo com o Petro e com todos esses
homens, e tampouco pode ir dormir com as mulheres.
— Tinha pensado que preferia estar sozinho.
Ela ficou olhando incômoda enquanto ele deixava uma bota no
chão e começava a tirar a outra.
— Prefiro que fique perto de mim — disse ele. — Quando não a
tenho à vista ponho a imaginar todo tipo de desastres. Além disso,
não poderia pregar olho a noite toda nesse estado. Não tem nada
que ver com seu gênero, eu asseguro. Se fosse Percival, sentiria
exatamente o mesmo. Recorda o que passou quando ele decidiu
sair sozinho do barco.
— Não é o mesmo — respondeu ela. — Por uma parte, meu
primo e eu não nos parecemos em nada, exceto exteriormente; por
outra…
— Esme, pode discutir comigo até o dia do Julgamento Final, se

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quiser, mas o que posso assegurar é que não vou dormir
absolutamente esta noite se for.
O que significava que no dia seguinte ia estar muito cansado
para seguir a viagem e a culpada de tudo seria ela. Esme se calou,
aproximou-se do catre, agarrou uma manta e a jogou no chão, ao
lado da chaminé.
— Isso não quer dizer que tenha que dormir no chão — disse
ele levantando do catre. — É obvio que é você que deve dormir na
cama.
— Eu posso dormir perfeitamente no chão, estou acostumada
— disse ela com convicção. — Meus ossos não são tão frágeis como
os seus.
Ele sorriu.
— Pode ser que não, mas os seus não estão tão bem
acolchoados.
— São mais jovens e mais flexíveis — disse ela
desdenhosamente.
— Parece que estou decrépito?
Esme o olhou de cima abaixo com gesto ressentido,
observando seu corpo perfeitamente bem proporcionado.
— Não queria dizer isso. Mas que seja um homem adulto e
forte não quer dizer que tenha mais resistência. Eu posso dormir
perfeitamente no chão, enquanto que você certamente despertaria
a meia noite incômodo e com frio. Aconselho que desfrute de um
leito suave agora que tem a oportunidade.
— Mas eu estou determinado que você o desfrute — disse ele.
— E sou muito teimoso quanto a me comportar como um
cavalheiro. — Seu sorriso se converteu em uma careta zombadora.

91
— Temos que começar a brigar, senhora? trata-se de que vejamos
quem dos dois é mais obstinado?
— Eu não…
O resto da frase foi uma série de palavras entrecortadas
porque Esme se encontrou de repente nos braços dele, que a
depositou sobre o leito. No momento, ela ficou de pé, mas ele pôs
as mãos sobre os ombros. Imediatamente, Esme se separou de seu
corpo corpulento e se deitou para trás na cama, apertando as
coxas.
— Não acredita que poderá me derrotar tão facilmente, efendi
— declarou ela. — Se não me soltar e sair de meu caminho sentirá
o peso de minha bota sobre seu nobre pé.
Aquelas palavras eram muito desafiantes, mas não sortiram
nenhum efeito. Ao cabo de um momento após haver pronunciado,
ela se encontrou aterrissando de costas sobre a cama. E antes que
pudesse ficar de novo de pé, ele a agarrou pelas pernas. Esme se
retorceu em retirada, e enquanto lutava tratando de recuperar o
equilíbrio, ele conseguiu tirar uma das botas e, após um momento,
a outra.
— Agora já pode saltar sobre meus pés, se quiser — disse ele
segurando a sua prisioneira ainda pelos tornozelos, — mas não
deveria destruir minhas queridas meias, pequena gata selvagem.
— Seda — mofou ela dele, desconcertantemente consciente dos
longos dedos que sujeitavam seus tornozelos. — Só a uma
concubina ocorreria usar seda nos pés.
Ele ficou olhando as grossas meias que levava ela nos pés.
— Muito mais agradáveis que a lã furada. Se for boa garota, é
possível que eu mande meias de seda da Itália, para seu enxoval. E

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tem as meias ainda molhadas — acrescentou ele. — Isso não é
nada saudável.
Ela tratou de livrar-se de suas mãos, mas ele tirou as duas
meias de lã com a mesma facilidade com que a tinha despojado das
botas. O coração de Esme começou a pulsar com rapidez. Chegou à
conclusão que devia ter muita experiência despindo às mulheres de
suas roupas. E por que demônios não a soltava de uma vez? Pela
maneira como a olhava, dir-se-ia que nunca antes tinha visto um
pé.
Ela se ruborizou de vergonha. Não é que tivesse os pés muito
sujos, mas a verdade era que tampouco estavam muito limpos.
Nada que ver com a limpeza e o aroma de sabão que desprendia do
cabelo dele. À luz das velas e do fogo da chaminé, seu cabelo negro
reluzia como se fosse azeviche.
— Tem uns pés muito magros — disse ele com um leve tom de
surpresa na voz. — Com uns ossos finos e magros, como os de um
passarinho.
Logo passou um dos dedos por seu tornozelo, e a chama de
calor que provocou essa carícia subiu pelos joelhos dela e a fez
tremer.
Ele levantou a cabeça e quando a olhou foi como se o ar que os
separava começasse a vibrar como as cordas de um bandolim. À
luz ambarina do dormitório seu rosto recém barbeado brilhava
limpo como o mármore branco e gentil, mas seus olhos cinza
pareciam negros abismos com um estranho e absorto olhar. Uma
mecha de cabelo negro caía sobre uma sobrancelha e deu vontade
de afastá-lo do rosto. Aquele desejo a fez sentir-se débil e
melancólica.

93
— Se afaste de mim — disse ela em um tom de voz tão suave
que não pôde reconhecer como dela.
— Oh! — Ele piscou e se desvaneceu a brilhante calidez de seus
olhos. — Eu sinto — se desculpou soltando-a. — Tinha esquecido
que… Bom, é que… tem um pé muito formoso. — Também a voz
dele soou com um timbre estranho.
Pulsava-lhe o coração quase saindo do peito, como se fosse um
inseto golpeando contra uma janela.
— Tenho os pés sujos — disse ela de maneira cortante.
— Me perdoe, por favor. Não pretendia que… Bom, suponho
que ninguém se preocupa muito por você, não é assim? — Ele ficou
de pé. — Se quiser se lavar, posso sair um momento do quarto.
Sem esperar que ela respondesse, ele abandonou o quarto.
Depois de um momento de dúvida, Esme agarrou as jarras de água
quente. Com uma rapidez furiosa as jogou por cima e logo se
esfregou grosseiramente dos pés à cabeça. Não tinha água
suficiente para lavar o cabelo, de modo que o desenredou da
melhor maneira que pôde, com os dedos, e logo o recolheu em um
rabo para mantê-lo afastado do rosto.
Quando ouviu os passos dele que retornava, estava já ficando
de novo a camisa. Agarrou uma manta e se cobriu com ela.
— Ainda não estou vestida — disse Esme em voz baixa.
— Isso é perfeito. O sobrinho de nosso anfitrião, ou seu primo
ou neto ou o que seja, deu uma camisa de dormir limpa para você.
A porta se entreabriu ligeiramente e ele introduziu uma mão
para aproximar aquele objeto.
Completamente ruborizada, Esme a arrancou das mãos e a pôs
com pressa. Chegava muito abaixo dos joelhos.

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— Eu…, agora já estou vestida — disse ela sentindo-se
repentinamente como uma tola.
O que podia importar a ele que ela estivesse limpa ou suja? Ela
não era mais que uma pequena e feia selvagem, seu guia e sua
intérprete, isso era tudo.

Ao outro lado da porta, Varian duvidava. Havia muitos


lugares em todas as partes. Acaso deveria deixar o quarto para ela
sozinha. Ali estava suficientemente longe de outros homens. Estaria
o bastante segura. Mas ele não queria deixá-la sozinha. Ela estava
muito só no mundo… e era tão jovem.
Não deveria divertir-se com ela. Embora fosse muito jovem,
não era uma menina, e é obvio que ele tampouco o era. Ele não era
o irmão mais velho que brincava com ela fazendo palhaçadas. Fazia
muito tempo que Varian St. George tinha deixado atrás a inocência.
De qualquer modo, tinha sido o primeiro a surpreender a si mesmo
ao ver-se ali brincando com seu pé, e a um passo de começar algo
pior. Aquela voz aguda e desconcertada… Certamente ela tinha
visto em seus olhos seu interesse, ou tinha notado.
Não importava, disse a si mesmo. Era impossível que ela
soubesse do que se tratava. Podia fazer ver que não tinha
acontecido nada. De fato, nada tinha acontecido. Tudo tinha
acontecido em sua cabeça, que obviamente se transtornou com o
golpe. Algo nada surpreendente dadas as circunstâncias.
Ele abriu a porta, entrou… e esteve a ponto de cair de costas.
Esme estava de pé, ao lado do fogo, em uma postura rígida e
desafiante e com a cor do rosto muito forte. Se soubesse o que a
luz das chamas revelava através do fino tecido de sua camisa de

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dormir, provavelmente teria ruborizado ainda mais. Mas ele não
ousou dizer-lhe. Isso era o que um cavalheiro tinha que fazer. E
assim fez ele, de momento… Mas, Deus, tinha visto algo mais doce
que aquilo? A ligeira protuberância de seus ternos seios jovens, e
uma suave cintura que rodeava uns magros e esbeltos quadris, e
mais abaixo umas firmes e bem torneados coxas, e…
Em poucas palavras, era uma ninfa que teria chegado a
fascinar à própria Artemisa.
Com atraso, Varian se deu conta de que estava comendo com
os olhos aquele corpo jovem na flor do crescimento. Céus, esperava
que ela não se desse conta disso!
— É tão… magra — disse ele.
— Meu pai dizia que as mulheres de sua família amadureciam
com atraso — disse ela elevando a mandíbula. — Mas logo
crescerei.
Varian pensou que gostaria de estar ali quando isso
acontecesse. E disse em voz alta:
— É obvio. Tem muito tempo pela frente.
Logo se aproximou do catre e recolheu um travesseiro e duas
mantas mais.
— Uma de minhas amigas cresceu duas polegadas entre seu
primeiro e seu segundo filho — disse ela à defensiva.
— Uma de suas amigas? — Ele se voltou para ela apertando
inconscientemente a almofada contra seu ventre. — A que idade se
casam as mulheres na Albânia?
— Doze, treze, quatorze anos — respondeu ela dando de
ombros. — Normalmente buscam um marido ao nascer e se casam
quando estão em idade de ter filhos. Mas Jason não quis fazer isso

96
comigo, porque ele não tem os costumes desse país.
— Pelo amor de Deus, eu diria que não. — Varian colocou o
travesseiro e as mantas em cima da que tinha jogado ela antes no
chão. — Na Inglaterra as moças esperam ter dezoito anos para
entrar na Bolsa de Matrimônios, ao menos entre as classes altas.
Mesmo então, duvido muito que a maioria delas seja o
suficientemente adultas para converter-se em mães.
Ela ficou olhando pensativa.
— Sim. Já imaginava que estavam muito mais protegidas —
disse.
Para alívio dele, ela se moveu de onde estava ao lado da
chaminé e se aproximou do catre, que ao contemplá-la fez ficar
com a boca aberta e franzindo as sobrancelhas.
— Acredito que vais ter frio, eu já estou acostumada — disse
ela sem afastar a vista da cama.
— Minha querida moça, ontem à noite dormi em uma tenda
com goteiras em meio de um tufão.
— Mas tinha um corpo a cada lado que dava calor.
Esse não era o momento de que recordasse aquilo, pensou
Varian. Teria sido realmente acolhedor compartilhar o leito com ela,
mas essa noite não tinham ao Petro de acompanhante, e naquele
instante, como tantas outras vezes, tinha começado a experimentar
inquietantes sentimentos por essa jovem e inocente moça. Imagine
que voltava a ter sonhos tão lascivos, ou possivelmente ainda mais,
como os que tinha estado tendo durante as últimas noites? Então,
ao menos, ela estava bem protegida dentro de sua armadura de
robustas roupas de lã. Agora entre suas depravadas mãos e a
inocente carne fresca dela só havia um tecido tão bom como nada.

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Não, não deveria nem sequer pensar nisso.
— Estarei o suficientemente quente aqui, junto ao fogo — disse
ele. — De verdade, Esme, não necessito de uma cama. Quero que o
considere como se… como se fosse uma compensação, sabe? Pela
maneira tão rude com que a tratei antes — disse ele tentando
improvisar algo. — E… e por ter sido um companheiro de viagem
tão exaustivo, e porque poderia seguir sendo.
Ela virou-se e ficou olhando, com a leve careta de um sorriso
em seu sério semblante.
— De modo que a cama é minha vingança, efendi?
— Exatamente.
Deixando escapar uma pequena risada, ela subiu ao catre e se
acomodou em sua acostumada postura de Buda.
— Em tal caso, vou desfrutar ao máximo. É muito suave —
acrescentou ela.
Varian suspirou enquanto tirava a jaqueta.
— Isso espero.
Logo tirou o lenço do pescoço e o atirou no chão.
— É um pouco descuidado — disse ela. — E ademais vai esfriar
o pescoço.
— Preferiria que me estrangulasse com o lenço? E é o que
pensa ao ficar aí me olhando enquanto me dispo?
— Não tinha me dado conta de que fosse se despir
completamente. Vai ter muito frio — disse ela . — E além disso não
é muito apropriado despir-se sem antes ter apagado as velas.
— E também é bastante difícil encontrar os botões às escuras.
Poderia, simplesmente, colocar a cabeça debaixo da manta? A
menos que, é obvio, prefira admirar minha beleza masculina —

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acrescentou ele de maneira provocadora.
Aquilo não a fez ruborizar-se, como ele esperava. Ela ficou
olhando friamente durante um momento e logo, com a mesma
frieza, meteu-se sob as mantas e lhe deu as costas.
— Petro tinha razão — disse ela com desprezo. — Não tem
nenhum pingo de decência. E, além disso, é vaidoso. Embora não
me surpreenda absolutamente, depois de ter visto como ficam as
mulheres entusiasmadas quando o olham. — Logo bocejou. — De
qualquer modo, se quer passear nu pelo quarto, é seu problema.
Pode ser que a atividade o mantenha aquecido.
— Que quadro tão elegante me pintou — disse ele em tom de
queixa apesar de si mesmo. — O décimo segundo barão do
Edenmont dançando em couros como se fosse um… um…
— Um fauno — acrescentou ela. — Ou um sátiro. Ou talvez
como Eros. Mas não, é muito velho para isso.
— Eros seria perfeito. Ao menos me atribui algum tipo de
qualidade divina…
— Era cego.
Varian se deu por vencido e, rindo de si mesmo, apagou as
velas. Quando chegou à última, a que estava mais perto da cama,
se deteve para olhá-la. Estava deitada de lado, feita um novelo,
acomodada entre as mantas. A luz da vela lançava raios ardentes
sobre seu cabelo. Uma parte dele desejou acariciar aquele cabelo.
Outra parte, de maneira absurda, queria meter-se na cama com
ela. Mas não fez nenhuma das duas coisas.
— Boa noite, senhora — disse ele.
— Neten e olhe, Varian Shenit Giergi — respondeu ela.
Aquelas palavras em albanês chegaram a seus ouvidos como

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uma carícia. Varian duvidou por um momento, e logo voltou-se com
resolução, apagou a vela e se dirigiu a seu solitário colchão no
chão.

Capítulo 6

Embora supondo que Lushnja estava a apenas dez milhas ao


sul, o grupo de Varian não pôde chegar ali antes do por do sol. A
ponte mais próxima sobre o rio Shkumbi estava a várias milhas ao
oeste da Rogozhina. Conseguiram cruzar justo minutos antes que a
ruinosa estrutura se afundasse no rio.
Uma vez tendo deixado para trás o incidente, tiveram que
enfrentar a um vasto território de atalhos intransitáveis. A chuva
tinha alagado os caminhos, de modo que precisaram desviar-se
bastante para o oeste, passando perto das colinas. Pegos nos
limites daquela zona costeira e pantanosa, o pequeno grupo
avançava muito lentamente. Sob o toró, mesmo a cavalo, não
viajavam muito mais rápido do que tinham previsto fazer a pé.
Entretanto, naquele momento, Varian estava consciente do
ambiente natural que os rodeava. Tinha a cabeça voltada para
outros assuntos, como por exemplo, nos homens que formavam
sua escolta. Era impossível imaginar um grupo de acompanhantes
menos tranquilizador que aquele.
Esme havia dito que se tratava de bons lutadores nos quais
podia confiar. Era verdade que tinham um aspecto bastante feroz:
altos e musculosos, com os rostos duros e curtidos rematados por
espessos bigodes sob os capuzes das imundas capas. Sem dúvida,

100
seus gestos secos e o tom baixo de suas conversas estavam
perfeitamente calculados para ganhar confiança de um inglês.
A seu lado, Esme parecia menor e mais vulnerável que nunca,
e terrivelmente necessitada de amparo. O fato de que os outros
não suspeitassem que na realidade fosse uma mulher, não era tão
tranquilizador dado as práticas comuns naquelas terras. Pareceu a
Varian que aqueles tipos se fixavam muito nela. Começou a
suspeitar o que poderia cruzar pela cabeça deles, embora ela não
parecia dar-se conta.
Incomodava a Varian tê-la sempre em mente. Mas tinha que
admitir que era uma moça realmente encantadora. Já tinha se dado
conta disso mesmo antes de ter dado uma olhada a seu corpo de
ninfa. Sua pele bronzeada pelo sol era suave e lisa, seus grossos
lábios ainda mais suaves, tanto que dava desejos de beijá-la. E aí
precisamente residia o problema. Não era mais que uma menina, e
a Varian St. George não atraíam as meninas, e além disso não
devia estar pensando em sua boca ou em nenhuma outra parte de
seu corpo.
Mas não podia deixar de pensar nela. Repassou mentalmente
muitas vezes o momento inquietante em que ela tinha acariciado o
pé e ficou olhando hipnotizado seus inocentes e profundos olhos
verdes, e havia sentido a primeira traiçoeira sacudida de desejo.
Por alarmante que tivesse sido aquilo, Varian assegurava a si
mesmo que era fácil explicar aquela atração que sentia. Fazia
semanas que não tinha uma mulher. Aquilo, unido a penosa viagem
sob um incessante toró por um terreno endiabradamente difícil,
tinha transtornado sua cabeça. Via Esme como se fosse uma
mulher porque assim desejava vê-la, e porque era a única pessoa

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de sexo feminino que havia a seu redor.
De todos os modos, um celibato temporário não ia matá-lo. Era
um cavalheiro e, embora admitisse seu caráter dissoluto, possuía
certamente suficiente honra para manter as mãos quietas.
Desgraçadamente, duvidava de poder dizer o mesmo dos homens
que os escoltavam.
Quando por fim se detiveram para passar a noite, e os
albaneses começaram a preparar o acampamento, Varian ficou ao
lado de Esme.
— Acredito que será melhor para você que continue
compartilhando meu quarto — disse ele.
Ao ver o gesto de rebelião que tomava corpo em seus olhos e a
elevação teimosa de seu queixo, Varian acrescentou:
— Discutir comigo é uma perda de tempo. Já sei que vai dizer
que sou insensato e que estou louco. Mas, sendo assim, não
acredita que vou fazer caso omisso do que me diga?
— Se estiver louco — respondeu ela com uma paciência
exagerada, — como pode saber o que é o melhor?
— Disse que acredito não que saiba — respondeu ele ainda com
mais paciência. — Pode ser que o que penso seja idiota, mas é o
melhor que posso fazer minha querida menina.
Ela ficou pensando naquelas palavras, com uma expressão
meditativa que parecia uma réplica cômica do Percival, quando
ficava observando com intriga um espécime geológico.
— Já vejo — respondeu ela ao cabo de um momento. — É mais
ou menos como ontem à noite. Tem algum tipo de ideia
desenquadrada de que deve cuidar de mim. Está vendo perigos
onde não há, da mesma maneira que não os via em Durrës, onde

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sim havia. Pelo Alá, está realmente confundido. Estou começando a
pensar que sua mãe o deixou cair de cabeça quando foi um bebê.
Varian manteve o olhar com o rosto inexpressivo.
— Tem que ser paciente com as pessoas mentalmente
desequilibradas.
— Ter-me-iam que fazer Santa pela paciência que tenho
contigo —replicou ela. — Não deixou de se queixar ou de ser cínico
desde que começamos a viagem. Como se o fato de que o
desaprove pudesse fazer melhorar o tempo ou que se arrumassem
por arte de mágica os caminhos que ficaram alagados pela água.
Varian se deu conta de que tinha estado todo o tempo de mau
humor. Ao sentir-se aborrecido consigo mesmo, tinha demonstrado
seu desgosto com tudo o que o rodeava.
— Sinto-me terrivelmente fatigado — disse ele. — Vivi sempre
muito protegido e tenho medo de tudo, embora seja um medo
infundado. Viajar por seu país é algo muito duro, e até agora não
tinha passado nem um só dia de penúrias em toda minha vida.
— Vá, e um homem desse tipo acredita que poderá me
proteger. Nunca tinha ouvido algo mais estúpido.
Ela começou a afastar-se de seu lado.
Varian a agarrou suavemente pelo braço e a fez deter-se.
— Estúpido ou não, quero que se mantenha afastada dos
outros — disse ele. — Se a observarem de perto, certamente
descobrirão que não é o que parece ser. Jantaremos juntos em meu
quarto e passará a noite nele. É a única coisa sensata que podemos
fazer.
Ela negou com a cabeça.
— Esme — sussurrou ele com voz rouca, — embora esteja

103
fatigado, ainda sou maior que você e levo muito a sério o que digo.
— Entendo, efendi.
— Mas mesmo assim não está de acordo.
Ela duvidou um momento, logo assentiu com a cabeça e
estalou a língua.
Onde diabos estava o problema? Enquanto ele tentava
demonstrar que falava da maneira mais convincente, deu-se conta
de que ela o olhava com um brilho de diversão nos olhos.
— Posso saber o que é o que parece tão divertido? —
perguntou ele. — Acaso tenho uma mosca no nariz?
Ela assentiu de novo e, embora ele não sentisse nada,
instintivamente soltou seu braço para apalpar o nariz.
— Está a quatro dias em meu país e ainda não se deu conta de
algo muito simples — disse ela: — quando meneamos a cabeça de
um lado a outro, isso significa «sim», e quando a inclinamos isso
significa «não». Não dizia que somos gente atrasada? Pois assim é.
Logo se pôs a rir, claramente divertida por sua inteligente
resposta.
— Vejo que está disposta a fazer de mim o alvo de suas piadas
até que cheguemos a Tepelena — disse ele. — Terei que resignar-
me a fazer o papel do tolo, eu o grande rei inglês do pashalik do
Buckinghamshire. Somente espero que rei seja algum tipo de nobre
e não a palavra albanesa para asno.
Isso também pareceu diverti-la, já que enquanto se afastava
para ir recolher sua bagagem ainda continuou rindo um bom
momento.

Aquele jantar foi o mais agradável que tinham compartilhado

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até o momento. Ainda evidentemente divertida pela conversação
que acabavam de ter, ela não tomou cada uma de suas palavras
como uma ofensa, como estava acostumada a fazer. Aquela noite
jantaram frango, arroz, azeitonas, pão e um queijo fedorento, mas
Varian não se queixou de nada. Sabia que tinha tido um
comportamento bastante desagradável durante o dia e pensou que
era melhor não pôr mais a prova a paciência dela. Poderia ter um
arrebatamento e acabar gritando até fazer se apresentassem ali
seus patrícios.
Felizmente, uns quantos goles daquela espécie de licor de uvas
envenenado, que eles chamavam rakí, fez com que o resto da noite
transcorresse de uma maneira muito mais tranquila.
Aparentemente destilado nos infernos de Hades, era um demoníaco
licor espirituoso, mais potente que qualquer vinho italiano. Os
homens o bebiam com a comida como se fosse água mineral.
Naquele momento, as canções e as risadas que ouvia fora,
advertiram a Varian que já estavam bêbados, e sem dúvida Petro
era o mais bêbado de todos eles. Uma razão mais para manter a
Esme afastada de seus companheiros de viagem, pensou Varian
convencido.
— O que estão cantando? — perguntou ele.
Esme acabava de limpar seu prato de comida. Ficou de pé e
apareceu à entrada do quarto, segurando o toldo com a mão
enquanto olhava fora. A chuva converteu-se em uma suave garoa.
— É o relato de como Alí Pachá conquistou Preveza — disse ela.
— Têm algumas partes um pouco estúpidas, mas em geral é
bastante boa.
As vozes daqueles tenores pareciam o lamento de um canto

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fúnebre. Certamente eram as influências do Oriente, com sua
habitual tendência às escalas menores, pensou ele.
Ela deixou cair o toldo e se dirigiu ao centro do quarto, junto ao
montão de mantas sobre as quais estava recostado Varian.
— Quer que traduza para você? — perguntou- ela enquanto se
deixava cair elegantemente em sua posição de pernas cruzadas
diante dele.
— Não, se for uma façanha de guerra. Sou um homem pacífico.
Um ocioso folgazão, como você dizia.
— Nieri i plogët — disse ela. — Homem ocioso, ossos fracos.
Aos ouvidos dele, o albanês era uma língua rouca e gutural, tão
dura e suficiente como suas mantas. Entretanto, quando ela o
pronunciava em voz baixa, aquelas sílabas duras se faziam
sensuais e intensas. A noite anterior, a acariciante canção de sua
«boa noite» pronunciada em voz baixa quase tinha chegado a
conseguir que se desfizesse.
Aquela lembrança o fez sentir-se de novo intranquilo.
— Ensina-me — disse ele.
Ela elevou as sobrancelhas.
— Trata-se de uma língua muito antiga, sabe? com muitas
inflexões. Como o latim, mas mais difícil de pronunciar. E as
consoantes farão travar sua língua.
— Não me importa — disse ele. Logo se levantou de sua
postura recostada para sentar-se com as pernas cruzadas, como
fazia ela. — Isso me manterá ocupado até que formos dormir. E,
além disso, darei a você uma oportunidade perfeita para que me
ponha em ridículo.
— Poderia morrer de rir, efendi. E então somente ia ficar Petro

106
como intérprete.
— Não, porque também eu estarei morto, ter-me-ei afogado
com minha própria língua.
— Muito bem. Mas tenho que adverti-lo que não vai ser nada
fácil. — Ela se calou um momento, pensativa. — Será melhor que
não comecemos pelas declinações ou vai se pôr a chorar. — A
seguir ergueu uma de suas fortes e magras mãos. — Döre…
emano. Pode ser definido e indefinido. Döre, dourar. Mas suponho
que não notará a diferença.
Ele dirigiu um olhar inexpressivo.
— Não é importante — disse ela pacientemente. — Ninguém
vai esperar que seja um perito. Diga da melhor maneira que possa.
— Dou-la — respondeu ele muito sério.
— Não, não. Não é «l» a não ser «r».
Ela voltou a pronunciar o «r» gutural, dobrando ligeiramente a
língua para demonstrar como fazê-lo.
Varian era perfeitamente capaz de imitar aquele som e sabia
que não podia brincar com ela. Por outra parte, como podia resistir,
quando ela oferecia de uma maneira tão ingênua sua deliciosa
língua para que a examinasse atentamente?
A boca de uma menina, disse uma voz com tom de
recriminação do fundo de sua mente. Mas ele não a escutou.
Varian St. George nunca, durante toda sua vida, tinha ouvido
vozes interiores que o advertissem e estava muito mal preparado
para começar a fazer caso agora. A consciência que pudesse ter era
desesperadamente decrépita. Um simples vislumbre de tentação
bastava para afogá-la.
— Doh-dah — disse ele.

107
Ela ficou olhando com a estóica resignação de um tutor
enfrentado a um menino com deficiências mentais. Ficou a procurar
nomes simples, lançando mão dos objetos que havia pelo quarto,
mas nada parecia ser o bastante simples. Varian escutava e a
olhava com atenção e logo repetia cada palavra.
Decidida a ensinar sua língua para aquele inglês de cabeça
dura, Esme se aproximou dele para se permitir estudar melhor os
movimentos de seus lábios e de sua língua, enquanto formava as
sílabas.
— Köke — disse ela apontando a cabeça. — Estas sílabas soam
quase como o inglês, não parece? — Logo tocou o reto e bem
desenhado nariz com a ponta de um dedo. — Undë.
Sobrancelhas, olhos, bochechas, orelhas, boca — ela foi
recitando cada uma dessas partes do corpo em sua língua, com a
persistente paciência que teria um missionário tentando salvar a
um pecador. — Tão perto dele; tão insinuantemente perto. Ele
tinha vontade de tocá-la, de passar seu dedo pela sedosa e
dourada bochecha dela.
— Gojë — disse apontando o dedo para sua boca. — Venha,
isto não é tão duro.
Não, sua boca era branda, suave e úmida. «Venha», havia dito
ela.
— Kokë, syrtë, undë — disse ele em voz baixa, perfeitamente.
Aproximou-se um pouco mais dela. Desejava aquela boca, e
isso era o único no mundo que queria ou sabia naquele momento.
— Gojë — sussurrou ele.
Seus lábios roçaram os dela, a mais ligeira carícia de um beijo,
mas algo se fez pedacinhos em seu interior, algo como medo, e ele

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se inclinou para trás em seguida, assustado.
Mas não tão assustado como ela. Seus olhos verdes estavam
abertos como pratos e o olhavam estupefata. Logo seu rosto
começou a avermelhar. Elevou a mão e o esbofeteou com tal força
em uma bochecha que os ouvidos de Varian zumbiram e os olhos
ficaram frágeis.
— Isso não foi divertido — disse ela e começou a esfregar os
lábios com força.
Enquanto dava uma massagem com os dedos no rosto, Varian
pensou que nunca antes se encontrou com uma resposta mais
desarmadora, ou apropriada. — Já tinha sido esbofeteado antes,
em estranhas ocasiões, embora nem de longe tão forte. Mas nunca
ninguém limpou um de seus beijos com essa desesperada repulsão.
Entretanto, o que esperava? Como tinha se atrevido a
aproximar sua boca da inocente boca dela? Demônios, e como não
fazê-lo, sendo ela como era e encontrando-a tão… encantadora? E
assim era, assombrosamente encantadora, mesmo estando
zangada, com seu espantoso aspecto de menino e aquele horroroso
gorro de lã.
Entretanto, naquele momento, o problema mais urgente para
Varian era como acalmá-la. Tinha que admitir que tinha
experimentado um momento de loucura transitiva, mas agora já
tinha recuperado de novo o controle sobre si mesmo. Por outra
parte, todos os homens que havia fora estavam bêbados.
— Tampouco ontem pareceu divertido o comportamento do
Petro, mas não provocou uma comoção cerebral — disse Varian
com um azedo tom de voz.
— Ele não me insultou — disse ela com frieza.

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— Asseguro a você, Esme, que não pretendia insultá-la.
— Sei, somente estava brincando. Estava fazendo ver que não
podia pronunciar as palavras…
— E você estava brincando comigo somente um momento
antes — a interrompeu. — Pode ser que queira seguir jogando.
Aquelas palavras a acalmaram um pouco. Era muito curioso e
realmente conveniente quão fácil aceitava ela a vingança como
uma desculpa. Mas Varian teria desejado que ela não ficasse
repisando seu caso com aquela terna expressão no rosto. Queria
apagar aquele beijo, fazer cócegas, ou fazer algo… algo que
ofendesse ainda mais sua dignidade e estava seguro de que o
resultado seria o desaparecimento daquela careta. A verdade é que
parecia que Varian fosse um menino de doze anos. Provavelmente
por causa de uma prematura senilidade, provocada por anos de
vida dissipada e…
— Muito bem — disse ela. — O tratei como se fosse um tolo e
por isso fez o mesmo. Mesmo assim, deveria adverti-lo que
mantenha esse tipo de vinganças nas palavras, efendi. Do
contrário, a caminho de Tepelena vamos acabar em um banho de
sangue. Insultar a outra pessoa é como dar um tiro — explicou ela.
— E isso só se paga com sangue. E pode ser que em algum
momento um de nós se sinta tentado a realizar um disparo fatal.
Que Deus cuidasse daquela moça. Parecia não ver diferença
alguma entre ser beijada e ser esbofeteada. –Ela o chamou de
vaidoso? Em sua companhia não ia ser por muito mais tempo.
— Estou completamente de acordo — disse ele. — Acredito que
errei com o beijo. Por sorte você não demorou em tomar a
revanche, de maneira que não terei que passar o resto da noite

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acordado, me perguntando que maneira horrível foi encontrar para
acabar comigo.
— Não, nem eu terei que passar a noite em claro tramando
maneiras apropriadas de torturá-lo.
Esme se calou e voltou a cabeça para um lado, escutando com
atenção.
Lá fora só se ouvia o suave murmúrio da garoa.
— Outros já foram dormir — disse ela. — Será melhor que
façamos o mesmo.
Enquanto a ajudava a dispor as mantas, Varian se deu conta
sem surpresa de que ela colocava a seu a seu lado, como se nada
tivesse acontecido. Era claro que não assumia que «beijo de
vingança» pudesse significar que sua virtude estava de algum
modo em perigo. Nesse caso, as palavras para tranquilizá-la que
ele tinha pensado dizer teriam causado o efeito contrário, e
necessariamente a teriam alarmado.
Tinha beijado, mas de uma maneira tão breve que mal se podia
chamar a isso um beijo, e é obvio não pretendia aproveitar-se
daquela garota enquanto dormia. De fato, pensava ficar acordado
até que ela dormisse e logo colocaria sua manta a certa distância
para não ter ocasião de voltar a tocá-la inconscientemente em meio
da noite. Demônios, nesse momento não podia permitir-se nenhum
pingo de indecência, pensou ele com tristeza.

Esme despertou quando ainda era de noite e com a quase


desconhecida sensação de um peso sobre seu corpo. Um braço
rodeava sua cintura, e um corpo esbelto pressionava contra suas
costas. Ela estava envolta na manta como se fosse um casulo e

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nenhuma parte do corpo dele tocava sua carne, embora ela
sentisse perfeitamente cada um de seus viris músculos e de seus
tendões como se estivesse nu. As imagens que aquela sensação
produziu fizeram que se ruborizasse e se mexesse incômoda.
Ele resmungava algo junto a sua nuca e seu braço a mantinha
firmemente presa. Então, de repente, moveu-se para o outro lado e
o pesado calor que a envolvia se desvaneceu. Varian se mexeu
entre as mantas.
— Maldita seja — ouviu sua voz em um murmúrio de queixa.
Ela se voltou e viu que ele se sentou.
— Despertei-a — ele disse.
— Estava acordada — disse ela dirigindo-se a seu corpo entre
sombras. — Está a ponto de amanhecer.
— Estive esmagando você durante toda a noite? — disse com
um tom de voz que parecia zangado.
— É muito grande, mas não um elefante. Não me esmagou.
Só me pôs nervosa, acrescentou para si mesma. Ser abraçada
daquela maneira a fazia sentir-se algo mais que incômoda: fazia
que algo em seu interior ficasse a pulsar com força, como um
bando de andorinhas batendo as asas. O mesmo havia sentido
quando os lábios dele tinham roçado os seus. E uma terrível
doçura, que apareceu e desapareceu em um instante, e depois
disso uma rajada de vibrações em seu interior. Não deveria ter
sentido nada, e aquilo era algo que a surpreendia.
— Sinto — disse ele. — Não haverei… não a insultei, verdade?
— Não.
Depois houve uma longa pausa. E logo ele disse em um tom
completamente normal:

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— E posso confiar em que você não me tenha insultado,
verdade, senhorita?
— Não! O que é o que…? — Ela sentiu que ardia seu rosto. —
Oh, é uma brincadeira!
— É uma ideia muito inquietante — murmurou ele. Manteve por
um momento a respiração e depois continuou: — Me refiro a que
faz um momento senti claramente que algo me picava e eu
esperava que tivesse sido você, por que…
— Acaso quer que o pique?
— Porque de outra maneira deve ser algum inseto que me
picou. Há por aqui uma grande quantidade de insetos desse tipo e
só um do seu, e as menores possibilidades parecem ser menos
desencorajadoras, sabe?
— Em tal caso não teria que dormir tão perto, efendi. Suponho
que as pulgas acham você mais apetitoso, e por isso as minhas se
foram para você — acrescentou ela com ar de culpabilidade.
— Não tinha intenção de dormir tão perto. Simplesmente
aconteceu assim. Suponho que devo parecer uma pessoa muito
incômoda.
O ar estava ligeiramente carregado com a fresca promessa da
manhã e o negrume da noite começava a dissipar-se, deixando um
sombrio véu cinza de luz de amanhecer. Ele se sentou no chão com
os joelhos levantados e os braços cruzados por cima. Mesmo entre
as sombras do amanhecer parecia à obra de um escultor, muito
formoso para ser feito de carne e ossos mortais. De fato era um ser
inquietante, pensou ela. E embora tivesse que centrar sua mente
em sua obrigação, em vingar a morte de seu pai, em lugar disso
aquele homem fazia sua mente dirigir-se para ele e se aderir à sua.

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— Sim — disse ela.
— Não vai acreditar, Esme, mas normalmente sou uma
companhia muito agradável. É um de meus poucos talentos. Posso
agradar quase a todo mundo.
Duvidou um momento e logo seguiu falando em um suave tom
de voz.
— Do contrário, certamente a essa altura teria morrido de
fome. Olhe, só tenho meu sobrenome é isso, o nome. Isso e uma
habilidade para agradar é o que me dá de comer, e proporciona
roupa e cavalos.
Ela se voltou para ele olhando-o como se não acreditasse.
— É completamente certo —assegurou ele. — Como minhas
irmãs sem título, as pulgas, eu sou um parasita. Mas um parasita
encantador. Por exemplo, nunca pico.
— Acredito que possa ser amável — disse ela. — Ao menos
com as mulheres, ou do contrário não teria tantas.
— Eu gostaria de saber exatamente o que esteve contando
Petro de mim. Mas asseguro que seja o que seja é um tremendo
exagero…
— Disse-me que foi um viciado nas mulheres, e que todas se
lançavam a seus braços de maneira desavergonhada, e que dessa
forma desfrutou na Itália das mais formosas mulheres. Entendi que
na Itália há muitas mulheres belas — concluiu ela de maneira muito
expressiva.
— Não fui precisamente um monge, mas…
— De qualquer modo, não me surpreende que possa ser
encantador. Só o que me surpreendeu é que fosse pobre.
Esme não tinha vontade de seguir refletindo sobre a

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quantidade de bocas que ele teria beijado, e não de brincadeira,
nem nos voluptuosos corpos que teriam acariciado seus longos e
suaves dedos, e que não teriam voltado atrás sob suas carícias.
— Não tenho nem um centavo — disse ele. — E não estou
exagerando.
— Então já temos uma coisa em comum — disse ela.
— Entretanto, duvido que isso a faça melhorar a opinião que
tem de mim.
— Minha opinião não tem nenhuma importância.
— Se não tivesse, não deveria estar me incomodando agora em
te convencer do bom companheiro que sou realmente. Eu gostaria
que pusesse um pouco de atenção e deixasse de me distrair — se
queixou ele. — Queria explicar uma coisa que aconteceu faz dois
séculos, antes que você desviasse minha promiscuidade.
— Me perdoe efendi.
Segurando as mãos, Esme deu-lhe toda a atenção, e se deu
conta de que era muito difícil não esboçar um sorriso. — Com
aquela expressão séria no semblante e o cabelo negro
despenteado, tinha o aspecto de um colegial carrancudo.
— Estava tentando explicar que não nasci com mau caráter —
disse ele em tom de recriminação. — A culpa é das pulgas e do pó.
E inclusive essas coisas eu posso suportar com bastante estoicismo,
se me assegura que tomarei regularmente banhos quentes e que
poderei trocar de roupa frequentemente. Mas ter que dormir com
as mesmas roupas sujas com as que viajo cada dia, para depois me
levantar e passar outra terrível jornada com as mesmas roupas da
noite, enquanto que os mesmos insetos seguem alimentando-se de
mim e reproduzindo-se na minha costa, bom, isso é o que me faz

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sair do sério.
Ela dirigiu um sorriso, embora estivesse olhando para outro
lado.
— Ah, Varian Shenit Giergi, se disser de si mesmo que não tem
um centavo, não imagino como pode levar esse tipo de vida.
Banhos quentes sempre que gosta, e cada dia roupa limpa. Duvido
que mesmo a mais cordata das concubinas de um homem rico
saiba o que são esses luxos. E se essa é a maneira como está
acostumado a viver, não me admira que esta viagem o faça ficar
nervoso. Tentarei ser mais pormenorizada no futuro.
— Vejo que continua pensando que sou infantil — disse ele. —
Quer que eu explique como é essa vida e deixar que você julgue
mesmo o infantil que parecem essas coisas?
— Como quiser —respondeu ela dando de ombros. — Já é
muito tarde para voltar a dormir e os outros se levantarão em
seguida.
— Em tal caso, me deixe que a entretenha um momento. Deixa
que eu pinte um quadro.
Ele estirou seu esbelto corpo para recostar-se para trás apoiado
nos cotovelos, e fechou os olhos.
Logo começou a falar, com uma voz suave e sonhadora
enquanto descrevia como era um luxuoso quarto, com o chão
coberto de formosos tapetes…, a lenha ardendo na lareira…, uma
enorme banheira de cobre, brilhante e profunda, cheia de água
fumegante. Também havia sabão, com essência de ervas e flores, e
uma donzela que a ajudava a banhar-se. Porque se tratava de
Esme, que relaxava no luxuoso e aromático banho…, logo se
levantava da banheira como uma Afrodite saindo da água…, e era

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envolta em toalhas grossas e suaves. Estava descrevendo o
Paraíso, mas aquilo era mais que uma pintura. Suas palavras e o
sonhador tom das mesmas chegaram a ela até a alma e afizeram
sentir uma pontada de desejo.
Nem sequer se deu conta de que tinha fechado os olhos até
que os suaves e tranquilos sons de suas palavras cessaram de
repente. Abrindo os olhos, Esme sentiu que ele a estava olhando de
uma maneira muito estranha, com uma expressão sem vislumbre
de sorriso. Ela se ruborizou e olhou para outro lado.
— Oh, Deus! — murmurou ele, e logo ficou de pé e saiu a toda
pressa do quarto.

Capítulo 7

Ignorando os homens que meio adormecidos ficaram olhando


atônitos, Varian pôs-se a correr para o rio. No caminho esteve a
ponto de tropeçar com o Petro, que saía detrás de uns arbustos
arrumando rapidamente as calças.
— O que se passa, senhor? — gritou ele a Varian enquanto este
passava a toda pressa a seu lado.
— Nada.
— Mas está zangado, senhor. É pelo garoto? Por Alá! o que tem
feito desta vez esse pequeno diabo? — perguntou Petro pondo-se a
correr a seu lado.
— Não estou zangado — grunhiu Varian. — Vou lavar-me um
pouco e não necessito que me escolte. Vá dedicar-se a seus
assuntos e trate de pôr um pouco de café a ferver, e sendo possível
não aja como se acabasse de sair do esgoto.

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— Lavar-se? — disse Petro com voz alta. — No rio? Vai
congelar você e suas partes íntimas e cairão como se fossem
cassetetes de gelo.
— Vá preparar o café, maldito seja, e me deixe em paz!
Petro deu um suspiro comovedor, logo deu de ombros e voltou
de novo para o acampamento, sem dúvida para informar a seus
companheiros que seu senhor tinha perdido a cabeça.
Isso não estaria muito longe da verdade, pensou Varian. A
verdade era que o senhor já quase não podia reconhecer a si
mesmo. Quando os turcos o tinham golpeado na cabeça
possivelmente tinham aberto alguma oculta porta mental para a
parte mais escura da alma de Varian. Porque somente o mais
corrupto e depravado dos homens pode sentir desejos sexuais por
uma menina.
Prometeu a si mesmo que não a tocaria, e tinha despertado
com seu esbelto corpo esmagado pelo seu, rígido e ardendo de
desejo. Mesmo quando estavam sentados falando tranquilamente,
aquilo não era absolutamente normal. Esteve dando todo o tempo
desculpa a si mesmo: que ela não era realmente uma menina, não
para os costumes de seu país; que era o suficientemente adulta
para ter filhos, quer dizer o suficientemente adulta para deitar-se
com um homem.
Sabia que desejá-la era errado, e que por muitos raciocínios
que fizesse isso não ia mudar. Porém, de uma vez, sua voz suave e
profunda estava demasiado boa, e também o sussurro daquele
corpo magro que se ajustava perfeitamente entre seus braços. E
por isso não deixava de dizer tolices, e de dar mais desculpa, e
odiava a si mesmo porque não podia deixar de fazê-lo.

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Tinha sucumbido a seus encantos como um colegial, refletiu
Varian com decepção, confundido por uma garota que o tinha
deixado sem sentido no momento em que a tinha olhado. E além
disso, tinha atuado como um menino, tratando de ganhar um pouco
de carinho ou de tolerância por sua parte, ou, maldita seja, ao
menos que sentisse pena por ele.
O tiro tinha saído pela culatra, não é verdade? Falar do banho,
de todos aqueles luxos, fazia com que a imagem de sua mente
ardesse: seu esbelto e inocente corpo saindo do banho e deitando-
se em seus braços abertos…, sua pele nua e molhada roçando
seu…, sua suave e provocadora boca oferecendo toda sua
inocência.
Varian soltou um grunhido e se ajoelhou junto à beira do rio.
Fechando os olhos, colocou as mãos nas frias águas da corrente e
ofegou pela impressão. Sem duvida lavou o rosto. Mas não era
suficiente. Necessitava uma penitência para recordá-lo com pavor a
próxima vez que se deixasse arrebatar por sua asquerosa luxúria.
Varian apertou os dentes e começou a tirar a roupa.

— Parece-me que ficou louco — disse Petro enquanto recolhia


as mantas que Esme passava.
Ela tinha enviado o pouco disposto marinheiro para que fosse
em busca de seu senhor, e Petro tinha chegado ao rio a tempo para
ver sua excelência que emergia nu e tiritando da água gelada.
— Esteve se queixando dos insetos e da sujeira — respondeu
ela, sem revelar nenhuma de suas preocupações. — Além disso, é
inglês, e os ingleses têm costumes estranhos.
Não contou a sua excelência o que pensava até que estivessem

119
prontos para porem-se em marcha, e Petro estava muito longe
deles para poder ouvi-la.
— Por que tinha que fazer uma coisa tão estúpida? —
repreendeu-o ela. — Estive cuidando de você para nada? Não é o
suficientemente difícil a viagem para você? O rio já é bastante frio
em pleno verão. Mas agora poderia chegar a parar o sangue nas
veias e fazer que congelassem os membros.
— Pois a verdade é que eu achei a experiência muito…
tonificante — respondeu ele. — E o sangue ainda flui por minhas
veias.
— Está louco. E lembro que, se ficar doente não penso voltar a
me fazer de enfermeira. Sentarei ao lado de seu leito de morte e
rirei.
— Não seja tão negativa, carinho. O sol começou a brilhar hoje
e seu cenho franzido poderia assustá-lo.
Esme mudou de humor em seguida, mas não por medo de que
o sol desaparecesse. Foram aquelas palavras acariciadoras que a
fizeram fechar a boca. Quando ele pronunciava seu nome, aquela
voz sussurrante parecia chegar ao mais profundo de seu ser. E
havia algo pior ainda.
«Carinho.» Tinha-a chamado dessa maneira e tinha feito com
que recordasse o roçar de seus lábios sobre os dela e a quente
pressão do corpo contra o seu. Aquelas lembranças provocavam
um conjunto de inquietantes sensações que a deixavam
desorientada e melancólica, como se estivesse metida em um doce
sonho.
Esme não era uma pessoa propensa ao auto-engano. Supunha
o que era o que a inquietava, e não podia haver nada mais

120
surpreendente. Petro havia dito que seu senhor era muito
mulherengo. E mais, ela mesma duvidava de que qualquer mulher
pudesse passar muito tempo em companhia de uma beleza tão
atrativa sem que isso afetasse, de uma maneira completamente
dissoluta se sua vaidade particular não o evitava.
Desgraçadamente, seu rosto e seu corpo não delatavam nada de
seu débil caráter, como tampouco o fazia o som sussurrante de sua
persuasiva voz. Quando alguém admira um formoso palácio e quer
viver nele, refletiu Esme, nunca para e pensa nos ratos que
certamente rondam pelo porão.
Ela não era uma Santa e, sendo mulher, também tinha certas
suscetibilidades femininas. Isso o entendia. Mas isso não queria
dizer que aprovasse ou desejasse dar rédea solta a sua fragilidade.
Em sua vida não havia lugar para esse tipo de tolices.
Além disso, aquilo era mortificador. Como ele teria rido ao
saber o que sua pequena, fraca e feia intérprete sentia. Se tivesse
sido uma beleza alta e voluptuosa…, mas não o era e jamais
chegaria a sê-lo. Ao menos deveria estar agradecida por isso. Dado
que ele nunca a ia desejar, e desse modo sua virtude nunca seria
posta a prova. Tinha já muitas razões para culpar a si mesma e
para sentir-se aflita. Certamente não precisava jogar mais
vergonha sobre seu dor.
Durante algo mais de uma hora avançaram em silêncio, e Esme
sentiu que ele a observava em várias ocasiões. Mas ela manteve
com resolução seus olhos postos no perigoso caminho que tinha
sob seus pés.
— Está zangada comigo? — perguntou ele ao fim.
— Sim — respondeu ela. — Não deveria estar, porque acredito

121
que não pode evitar ser como é. Mas, de qualquer modo, não
facilita as coisas. Tem o dom de se colocar sempre em problemas.
— Pelo amor de Deus! Ainda está zangada porque fui banhar-
me no rio?
— Não sei o que se pode fazer com você — disse ela. — É como
esses meninos pequenos que parecem estar todo o tempo
inventando novas formas de machucar-se. Como não posso atá-lo
ou colocar uma correia na sua cintura, estou segura de que
quando chegarmos a Tepelena já estará morto, faça o que eu faça
por evitá-lo. Então, Alí me jogará a culpa. Se no dia estiver de bom
humor, tão somente fará que me disparem de um canhão. Se não
for assim, possivelmente me fará assar em um espeto, ou me
arrancará os membros um a um. Escolha o que escolher, estou
segura de que será uma morte muito humilhante. Em suas mãos é
estranho que alguém morra com dignidade.
— Estou vendo. O que a preocupa não é minha sobrevivência,
mas a sua.
— É obvio que me preocupa a sua sobrevivência — respondeu
ela friamente. — Você é um visitante em meu país e eu tenho que
cuidar para que esteja a salvo e cômodo aqui.
— Mas além disso, não importa nem um pouquinho o que me
acontece.
— E do que ia servir, quando você mesmo não se preocupa
com você? Eu não gosto de embarcar em causas perdidas.
A maneira como ele tragou o ar profundamente foi claramente
audível por cima do ruído dos cascos dos cavalos.
— Bom, isso não é muito amável de sua parte — disse ele. —
Mas a verdade quase nunca o é, já sei. Não é que pessoalmente

122
tenha tido muitas relações com a verdade, mas… Maldita seja! se
você apenas me conhecer.
Ela esteve a ponto de sentir pena por ele. Nunca tinha pensado
que algo que dissesse poderia desarmar sua arrogância.
— Isso é bastante certo — disse ela depois de um incômodo
momento de silêncio. — Eu só sei o que vejo. Pode ser que
estejamos envoltos em circunstâncias extenuantes.
Ele ficou pensativo.
— Pode ser que sim. Ou pode ser que não. O que passa é que…
Bom, não importa. «Extenuantes» — continuou dizendo ele em voz
mais baixa. — É admirável o vocabulário inglês que tem.
— Minha língua é muito mais formosa — disse ela, — mas às
vezes a sua oferece uma maior variedade de palavras.
— Terei sempre em mente. Vejo que pode escolher entre uma
grande quantidade de vocábulos para fazer encontrar exatamente
cada matiz do que deseja comunicar.
Ela assentiu e estalou a língua.
— Você não sabe minha língua e por isso não pode entender.
Em albanês terá que comunicar os matizes, como você diz, com o
tom e a expressão da voz. É algo muito mais sutil. Com mais
sentimento.
— Certamente é assim. Embora por desgraça, pareceu-me que
quem fala sua língua é muito pouco sentimental.
Esme sentiu uma desagradável pontada na consciência. Mas a
ignorou. Pareceu-lhe uma idiotice responder aquela indireta, vindo
de um libertino falido e arrogante.
— Isso que diz me parece muito errado. Em Rogozhina, meus
compatriotas o trataram como a um príncipe. Que mais queria?

123
— Seus patrícios foram inesquecivelmente amáveis e
carinhosos — disse ele. — Possivelmente não me expliquei bem.
Referia-me a você.
— Parece que não tenho sentimentos?
Ele se moveu incômodo no selim e soltou uma gargalhada
zombadora.
— Não é exatamente isso o que queria dizer. Cuida de mim de
uma maneira muito amável, sem dúvida, e agradeço isso; a
verdade é que me salvou a vida…
Esme esperou mas sua excelência não disse nada mais para lhe
esclarecer a que se referia.
— Então não entendo do que está se queixando — disse ela
com tom altivo. — Quando o descobrir, fará a honra de
compartilhá-lo comigo?

Chegaram a Lushnja ao meio dia, e ali Varian teve seu primeiro


encontro com a dura realidade de um julgamento tribal na Albânia.
Dias atrás dois homens brigaram e um deles tinha matado ao
outro. O assassino escapou, e os chefes de sua tribo tinham
queimado sua casa e suas terras. Começava outra inimizade de
sangue entre famílias.
Embora Esme se assegurasse de que seus hóspedes não
sofreriam nenhum ataque, Varian se negou a deter-se naquele
povoado. Nem sequer a promessa de um banho quente o
convenceu.
— São bárbaros — disse ele quando passavam junto aos
campos queimados. — Se deve castigar a um homem que

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assassinou, suponho, mas por que castigar também a sua mulher e
seus filhos queimando as propriedades?
— Outros cuidarão de sua família — disse ela com voz
sufocada. — Ao menos não estarão metidos em problemas por
culpa de suas propriedades. Meu pai me disse que na Inglaterra
podem colocar na prisão a um homem e a sua família por não ter
um centavo.
Isso foi muito profundo para Varian, pois o próprio lorde
Edenmont tinha estado na prisão por suas dívidas. E era verdade
que em seu país não se necessitava queimar para destroçar a vida
de alguém.
De qualquer forma, ele preferia estar brigando com ela em vez
de passar as horas envolta em um frio silêncio. Varian não estava
acostumado à frieza, e estava mais desacostumado ainda ao tão
descarado desdém; isso era algo que o zangava muito mais que
qualquer frieza que pudesse ter imaginado.
Mas não sabia como lutar contra ela. Todos as tentativas que
fazia para defender-se soavam como queixa…, e tão somente o
faziam aparecer ainda mais infantil aos olhos dela. Era algo
mortificador pensar que Edenmont, que era capaz de conseguir que
a mais ogra das viúvas o tratasse de maneira cálida, não pudesse
fazer com que aquela moça adolescente o olhasse com um mínimo
de doçura.
Aí se via quão baixo tinha caído: desejando que brigasse, que
se risse dele — era melhor que seu gelado desprezo.
— É verdade — disse ele, — mas nós os ingleses damos muito
valor ao dinheiro. Isso é o que nos distingue de outras nações
menos civilizadas — acrescentou tratando de provocá-la.

125
— Vocês, os ingleses, somente reconhecem uma civilização: a
sua —respondeu ela. — Albânia construiu magníficos templos e
criou grandes obras de arte, enquanto seus antecessores viviam
igual a animais em covas e palhoças. Os romanos instalaram aqui a
seus nobres filhos, na Apolônia, para treiná-los como guerreiros, e
esses homens navegaram através dos mares para conquistar
lugares selvagens, como sua pequena ilha. Ao longo dos tempos
uma nação atrás da outra tentou nos vencer e nos dominar, mas
não puderam ainda nos moldar a seu capricho: nem os gregos,
nem os romanos, nem sequer os turcos. Durante séculos nos
impuseram suas leis, e ainda são os próprios turcos os únicos que
falam turco. Quanto tempo necessitaram os normandos para
converter a seu povo em franceses? Uma semana? — concluiu ela
com desprezo.
— Isso é simplesmente porque nós somos extremamente
hospitaleiros. E absolutamente tão obstinados como vocês. É claro
que sua gente conservou uma única língua porque não são capazes
de aprender outra.
— Como é possível que seja tão ignorante? Eu falo quatro
línguas perfeitamente e até posso me expressar em turco.
— Mas você é meio inglesa.
Ela lançou um olhar homicida.
— Esse é o mal olhado de que falava Petro? — perguntou
Varian. — É bastante impressionante, devo reconhecer. Se eu não
fosse uma pessoa tão profundamente malvada, deveria me calar
durante quatro dias seguidos.
— Esteve me provocando deliberadamente — acusou ela. —
Por quê? Você gosta de ver como me zango?

126
— Sim. Tem umas réplicas maravilhosas. Eu gostaria de ceder
meu posto na Câmara dos Lordes. Estou convencido de que
animaria muito as sessões.
Esme na Inglaterra. Aquela perspectiva o deixou surpreso. O
que poderiam fazer os ingleses com ela, com sua ninfa furiosa? Se
lhe acrescentassem uns quantos anos — Esme aos dezoito, por
exemplo — e a colocasse no Almack's, entre o brilho das
aborrecidas luzes da sociedade, o que aconteceria?
Então Varian teve uma pequena dúvida, pensou que ao menos
uns poucos homens perceptivos poderiam chegar a ver nela o que
ele tinha visto. Embora ela não se parecesse com nada que tivesse
conhecido antes, e virtualmente possuía a maioria das qualidades
que se desaprovam nas mulheres, algum desses homens poderia
dar uma olhada naqueles apaixonados olhos verdes e esquecer por
completo tudo o que até então tinha acreditado sobre as mulheres.
Ela estava olhando para outro lado e em suas bem delineadas
bochechas podia ver-se um ligeiro rubor.
— Já vejo — disse ela. — Está se divertindo comigo.
Seguramente pareço um bom bufão de palácio.
— Os bufões, devo particularizar, eram em geral os únicos
membros da corte que se atreviam a dizer a verdade.
— Claro — replicou ela com voz cansada. — E faziam rir a
todos, assim como eu.

Detiveram-se para preparar o acampamento antes do pôr-do-


sol e, pela primeira vez, sua excelência teve um pouco de utilidade.
Ajudou não só a tirar as ferramentas agrícolas dos cavalos, mas
também a montar as barracas e a recolher lenha para o fogo. Esme

127
pensou que estava tentando ser serviçal, mas a ele não parecia
importar sua incompetência, já que era óbvio que os dois estavam
se divertindo. E ele também parecia divertir-se. Esme ouviu umas
fortes gargalhadas devidas à tradução do Petro, sem dúvida
equivocada.
Ele não tinha permitido a ela aproximar-se dos outros. Sua
alteza real tinha marcado um lugar ao lado dos cavalos onde ela
tinha que estar até que sua barraca estivesse montada, a menos
que quisesse sofrer algum castigo completamente insuportável.
Não era necessária aquela ameaça, pois Esme compreendia
perfeitamente por que tinha que manter-se afastada dos homens.
Se eles descobrissem qual era seu verdadeiro sexo, poderiam falar
demais, mesmo sem propostas e talvez sendo companhias
equivocadas. Uma simples palavra, um pronome feminino no lugar
de um masculino, poderia levantar suspeitas, e não se podia estar
seguro de onde poderiam cruzar-se com os espiões do Ismal.
Mesmo assim, Esme se deu conta de que não podia esperar ali
com calma. Nunca tinha sido boa esperando, e agora se sentia tão
intranquila que tinha vontade de ficar a gritar. A culpa era de sua
excelência. Ele a fazia ficar tensa e zangar-se sem razão e, levada
por seu aborrecimento, encontrava a si mesma atuando
exatamente como a pessoa incivilizada que ele pensava que era.
Quantas vezes o tinha insultado? Pelo menos umas centenas.
Sim, também era culpa dela, por provocá-lo, e por tratá-lo como
um menino indefeso, e estando a ponto de cair do cavalo cada vez
que ela mostrava o menor sinal de inteligência.
«Extenuante.» Nem que fosse a palavra mais escura e
complicada de vinte línguas. E ainda por cima havia dito que o

128
inglês era preciso, quando ele não era capaz de produzir uma
cadeia de palavras precisas naquela maldita língua para explicar-se
bem.
E além disso, havia dito que ela não tinha sentimentos. Ela,
que levava um profundo luto pela morte de seu pai. Ela,
preocupada e certamente muito mais que qualquer outro por seu
jovem primo. Acaso teria que ter passado todo o caminho
choramingando e queixando? Ou possivelmente sua excelência
tivesse preferido ouvi-la relatar com detalhes seu plano de vingar-
se, e o resultado de morte certa que derivaria disso. Ou talvez
tivesse preferido ouvi-la gemer pateticamente porque ficou sozinha
em seu próprio país, e os poucos que ainda se preocupavam com
ela tinham decidido enviá-la a uma terra estrangeira com uma
família que a desprezava.
Sim, tinha montões de sentimentos a mostrar, como sentir-se
bastante indecisa. Deveria contar também que sua presença não
fazia mais que piorar as coisas?
Da clareira do bosque que havia diante chegou a voz rouca de
Varian e as gargalhadas do resto dos homens. Esme deu um chute
numa pedra. Ali estava ele, encantando a todos, como estava
acostumado a fazer sempre. E ali estava ela, distraída em seus
pensamentos, porque o som de sua voz fazia todo seu ser
derrubar-se para ele e não podia ficar ali por muito que o
desejasse.
Lançou outra pedra para os matagais e desejou poder infligir de
algum jeito um dano maior a alguém. Desejava ter o pescoço do
Ismal entre as mãos naquele momento, porque poderia estrangulá-
lo tão facilmente como se fosse um frango. Tudo era culpa dele,

129
tudo o que tinha acontecido, incluindo a presença daquele inglês.
— Está tentando pavimentar o caminho para mim, você
sozinha? Que boa ideia, senhora.
Esme voltou-se rapidamente. Não o tinha ouvido aproximar-se.
— Estava me aborrecendo — disse ela baixando o olhar. — É
melhor chutar pedras que objetivos vivos.
— Tanta vontade tem de me dar uma patada? — perguntou
ele. — O que é o que fiz agora?
— Tem me feito ficar aqui, sozinha, enquanto você se divertia
com os outros. Estive esperando sozinha, ouvindo como ria e a
mim ninguém contou a piada.
— É obvio que não. Não eram adequados para os inocentes
ouvidos de uma jovem dama. Além disso, não teria entendido. —
Fez uma pausa. — Ao menos, espero que não.
Ela levantou a cabeça.
— Eles contam histórias picantes e você não me deixa ouvir?
— Não importa que tipo de histórias contavam. Já sabe por que
tem que se manter afastada desses homens, Esme, de maneira que
não tem por que me olhar de uma maneira tão feroz.
— Podia ter me dado algo para que fazer — se queixou ela. —
Ficar esperando aqui só e sem fazer nada é muito aborrecido.
A leve sombra de um sorriso curvou os lábios dele.
— Me perdoe — ele disse. — Não tinha nem ideia de que tinha
tanta saudade de minha companhia. Que cruel fui privando-a dela.
Para sua consternação, Esme sentiu um calor que tingiu suas
bochechas. Levantou o queixo.
— Assim é, efendi, meu formoso deus. Machucou-me o
coração. Pensei que teria que ir ao rio e me atirar nele.

130
Ela ficou ereta e começou a caminhar passando a seu lado. Ele
esticou um braço e a deteve agarrando sua mão com suavidade.
Esme olhou sua mão grande e forte, e logo o olhou aos olhos e
notou que seu coração acelerava.
— Só estava brincando — disse ele. — Já sei que prefere a
companhia do diabo à minha.
— Acredito que são mais ou menos o mesmo — respondeu ela
com azedume. — Não é necessário que me prenda. Não penso
escapar. Não tenho aonde ir.
— Sinto muito. — passou a mão pouco a pouco pelo braço
deixando ali onde a tocava um formigamento de calor. Ao final a
soltou. — Quer que diga ao Petro que faça companhia a você esta
noite? Não posso deixá-la sozinha.
— Petro — esse velho assustadiço ia ser seu guardião? Como
se atrevia? Mas Esme sabia muito bem. Sua alteza real não queria
estar em sua reles companhia.
— Acredita que eu necessito? — chiou ela. — Será que não está
bem da cabeça? Me diga onde tenho que dormir e me arranjarei
sozinha. Aqui mesmo, se quiser. O que tenho que temer?
Sequestradores… quando resulta que estou morta? Bestas
selvagens? Por aqui não há animais perigosos. E além disso, tenho
meu rifle e minha faca…
— E é uma mulher — interrompeu ele. — Assim não se
empenhe em me convencer do quão é capaz de se defender.
Recorda que eu sou inglês, e vai contra nossos costumes deixar às
mulheres arrumarem-se sozinhas. Já é muito pouco habitual que
viaje comigo sem levar uma acompanhante, mas dificilmente
poderia proporcionar uma quando se supõe que é um menino.

131
Ele suspirou e a seguir começou a caminhar de volta para sua
barraca.
Depois de um momento de dúvida, Esme o seguiu.
— Acredito que faz uma montanha de um grão de areia — disse
ela enquanto o seguia e entrava com ele na habitação. — Se
preocupa por nada. E se essa é a maneira inglesa de agir, devo
dizer que me parece estúpida e tola. Meu pai ensinou a me
defender sozinha e a não andar sempre me protegendo e me
escondendo atrás de outros. Não sou uma menina e me ofende que
me trate como tal.
Ele estava de costas para ela tirando a capa. Colocou-a
esticada no chão e deu a volta para olhá-la.
— Com sua permissão, senhora — disse ele, — como deseja
que a trate?
Todo seu corpo vibrava com aborrecimento. Só um louco se
atreveria a provocá-lo mais ainda. O cérebro de Esme dizia que se
calasse, mas ela não podia lhe fazer caso.
— Como me pareço — soltou ela. — Como um menino.
Inclusive um menino de doze anos, como meu primo, se é que o
considera um homem, não um menino indefeso.
Ele avançou para ela e, de repente, tirou-lhe o gorro e o atirou
em cima da capa. A espessa cabeleira caiu sobre os ombros e ela
se sentiu naquele momento como se a tivesse despido. Deu um
passo para trás, mas ele a segurou pelos ombros. Não com muita
força. Poderia ter soltado facilmente. Mas não desejou fazê-lo e se
odiou a si mesmo por isso.
— Não pode mudar de sexo só por levar um gorro — disse ele.
— Não é um menino, e isso não vai mudar por muito que o deseje.

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É uma condenada mulher briguenta e não deixa de me provocar-
me. Estou tentando me comportar como um cavalheiro… por que
tem que se empenhar em fazer tudo tão difícil? — Suas mãos se
moveram para cima, subiram pelo pescoço dela até rodear o rosto
com elas. — Por que, Esme?
Ela não sabia. Por dentro sentia uma grande inquietação que a
consumia. Sempre tinha sido tão equilibrada, tão por cima da
vaidade… Mas observando aquele belo e dissipado semblante, Esme
desejava desesperadamente ser também formosa, para dessa
forma atrever-se a tocá-lo.
Fechou os olhos. Se não o via, tampouco sofreria.
— Oh, não! — sussurrou ele tão perto dela que seu fôlego lhe
acariciou a pele.
Um rápido calafrio a percorreu de cima abaixo. E quase no
mesmo instante ela sentiu a suave boca dele apoiando-se contra
seus lábios. Uma chuva de centelhas estalou em seu interior, com
um delicioso sentimento de alegria.
Instintivamente, ela o agarrou pelas mangas, para mantê-lo
ali. Milagrosamente, aquilo funcionou. Sentiu um calor que
percorria todo seu corpo e os lábios dele se colaram aos dela, como
o orvalho matinal sobre uma rosa em floração. Durante um longo
momento se sentiu tão formosa como um botão de rosa, com todo
seu ser abrindo-se com prazer tal como uma flor se abre sob o
calor primaveril do amanhecer.
Apenas lhe roçava a face com as mãos que seguravam o rosto.
Esme só sentia uma ligeira pressão enquanto os lábios dele se
moviam docemente por cima dos seus, mas aquilo provocava uma
pulsante onda de doçura, enquanto ele se demorava naquela

133
carícia… como se aquela boca lhe parecesse deliciosa, como se
estivesse desfrutando do que saboreava nela.
Mas isso era impossível. Só o que ele podia sentir era
curiosidade. Embora ela fosse para ele de outra espécie, não
deixava de ser uma mulher, como com tanta convicção ele tinha
recordado fazia um momento. Por ser um viciado nas mulheres, era
natural que se dedicasse a investigar inclusive aquele espécime
penoso. Somente queria brincar com ela e descobrir se era como as
demais mulheres.
Esme afastou a cabeça para trás e abriu os olhos com surpresa,
como saindo de um sonho.
— Já é suficiente —disse com tom cortante.
— Não, não é.
A voz dele era suave e sedosa como o veludo. Suas mãos
revolviam carinhosamente o cabelo dela, e seu olhar, como de
fumaça quente, moveu-se lentamente de sua boca a seus olhos e
de novo a seus lábios.
— É suficiente para satisfazer sua curiosidade — respondeu
Esme com firmeza ficando outra vez rígida.
Deveria ter se soltado por completo dele, pois seu corpo estava
muito perto, e isso fazia com que ela desejasse, por doentio que
fosse, recostar a cabeça sobre seu peito. Mas a tensão que sentia a
fez ser cautelosa. Ela o tinha provocado fazia um momento e ele
parecia ter encontrado uma maneira devastadora de colocá-la em
seu lugar.
— Não se trata absolutamente de curiosidade — disse ele. —
Entendo-a bastante bem, e nunca me pareceu tão trabalhoso
compreender algo. Não quer que me preocupe com você. Não quer

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que a compreenda. Nem sequer quer gostar de mim. E muito
especialmente não quer que eu goste de você como mulher. Bem,
tampouco eu quero me preocupar com você, ou compreendê-la, ou
que eu goste de maneira nenhuma. — Ele voltou a baixar
lentamente as mãos até as apoiar nos ombros dela. — Mas nada
disso saiu como queríamos, não é verdade? Deus, quanto tempo
passou desde a primeira vez que nos vimos? Menos de uma
semana? Ou o tempo passa aqui tão lento, ou acontece algo que
entre nós?
Então Esme já não se afastou dele. Suas palavras não eram
completamente claras, por muito que ele possuísse um imenso
vocabulário em inglês. Entretanto, a intuição de Esme preencheu os
claros. Ela entendia perfeitamente o que ele estava tentando dizer,
apesar de que quase não podia dar crédito ao que ouvia. Ele sentia
o mesmo que ela, ou algo muito parecido. Mas isso não significava
nada, disse a si mesmo. Não era mais que um capricho.
Possivelmente uma necessidade masculina. Nada mais.
Ela se afastou vários passos e jogou os cabelos sobre o rosto.
Sua cabeça se inclinou até quase roçar os pés dele. Desejava que
ele a protegesse. Sentia-se muito exposta. Entretanto, não tinha
vontade de salvar-se disso.
— Você e eu temos muitos problemas na cabeça, efendi. —
Esme começou a falar no tom mais razoável, com os olhos fixos no
chão. — A viagem é lenta e difícil, e esses problemas, assim como
as diferenças que há entre nós, perturbaram-nos. Estando todo o
dia juntos, com nossos problemas e nossas diferenças, não é difícil
que sintamos algum tipo de… irritação. Eu também penso, às
vezes, que vai me deixar louca. Não me surpreende que você possa

135
sentir o mesmo.
— Sim, assim é. — Sua voz era seca, e ela notava a tensão que
ele estava enfrentando. — Suponho que a beijei em um acesso
temporário de loucura.
— Sim — disse ela. — E eu devia me encontrar no mesmo
estado para permitir isso.
— Isso é um alívio. Ao menos não estava agradando. Minha
vaidade está já bastante danificada. Agradeço que tenha me
evitado um a mais.
Sua vaidade? Seus sentimentos? E o que tinha ela? Acaso
pensava que ela era de pedra?
— O que quer que eu diga, efendi? Me diga. Não tenho
experiência alguma na matéria. Deveria dizer que estava ardendo
de desejo?
— Sim, maldita seja! Eu sim o estava.
Ela manteve a respiração e o olhou fixamente.
— Estava — repetiu ele em um tom de voz mais tranquilo. A
seguir agarrou sua capa e voltou-se. — Isso a incomoda? Como se
já não tivesse uma opinião o bastante ruim de mim.
Logo abriu o toldo da barraca e partiu.

Capítulo 8

Depois de enviar Petro à barraca, para que fizesse companhia a


Esme, Varian castigou a si mesmo na fria corrente do rio. Logo,
como uma dose extra de auto-castigo, foi comer com os homens.
Aquilo acabou sendo uma condenação surpreendentemente suave.
Já antes, quando os ajudava a montar o acampamento, tinham

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chegado a estabelecer uma espécie de relação. Não era
completamente impossível comunicar-se com eles. Um dos
homens, o mais jovem, sabia umas quantas palavras de inglês.
Varian já podia entender algumas palavras de albanês e os gestos
também ajudavam. Quando se encontravam muito perdidos,
acabavam desenhando no chão de terra com um pau.
O trabalho de tentar entender e fazer-se entender a ele mesmo
oferecia certa distração de seus problemas. Mas quando acabou o
jantar e os homens ficaram a cantar, Varian se encontrou dirigindo
repetidamente o olhar a sua barraca. Sem dúvida os homens
estavam cantando canções de guerra, mas a música soava como se
fosse um canto fúnebre.
Levantou-se.
— Natën e mirë — disse.
Agimi, que falava um pouco de inglês, passou-lhe a garrafa de
rakí.
— Toma. Bom, esquente-se. Necessita.
Varian sorriu. Eles o tinham estado advertindo de maneira
amável e paciente contra os banhos no rio. Muito frio. Ruim para o
pulmão, insistiam. E além disso, fazia Zigur zangar-se. Agimi tinha
segurado a cabeça e a tinha sacudido de um lado a outro como
querendo dizer que as reprimendas do menino faziam com que
doesse a cabeça.
Varian tomou a garrafa de rakí.
— Obrigado — disse. — Faleminderit.
Agimi deu de ombros.
— S'k gie. De nada. Necessita-o.
Pode ser que tivesse razão. Mas o que mais necessitava,

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pensou, era desculpar-se, e ainda não sabia como podia fazê-lo.

Esme estava jogando com o Petro o vinte e um quando Varian


entrou. Ela nem sequer se incomodou em olhá-lo.
— Ah, senhor, por fim está aqui! — disse Petro deixando as
cartas. — Posso ir agora?
— Parece-me que não gosta muito de seguir jogando — disse
Varian. — Não dá a sensação de que está ganhando.
Petro ficou de pé.
— Com ele não há quem ganhe. Jogou-me um mal olhado e
desapareceu toda minha sorte.
Varian olhou Esme com o cenho franzido. Ela devolveu um
olhar frio.
— Pois então, sai fora e no arbusto busca uma serpente —
disse ela. — E corte sua cabeça com uma faca de prata. Quando a
cabeça secar, guarde-a junto com uma medalha do Shenit Giergi e
a leve a um padre para que a benza.
Petro agarrou uma corda que levava ao redor do pescoço. Dela
pendurava uma estranha pedra.
— Tenho um amuleto contra o diabo — disse Petro. — Uma
parte do céu, de uma estrela cadente. Mas suas bruxarias são
muito fortes para ele.
— Todo mundo sabe que os meteoritos só são bons contra os
disparos, velho supersticioso — disse ela. — Mas garanto que diz
isso porque tem medo de matar uma serpente. — Ela deu de
ombro. — Não é tão perigoso. Amanhã eu conseguirei uma.
— E outra para mim? — perguntou Varian.

138
— Eu não joguei mal olhado em você, efendi — murmurou ela
enquanto recolhia as cartas. — Além isso não existe.
Petro deu um grito afogado.
— Não diga isso. Podem jogar um mal olhado.
— Se acreditasse nessas tolices —respondeu ela zangada, —
deveria ter dito que me jogaram faz uma semana, quando
chegaram ao porto de Durrës com meu primo.
— Que ingrata! Se nós não tivéssemos aparecido, teriam
seqüestrado você e então…
Varian pôs uma mão no ombro do Petro.
— Vá já — ele disse. — E não volte até que o chame.
— Voltar, senhor? Não me deixará de novo a sós com ela? —
Petro juntou as Palmas das mãos como suplicando. — Por favor,
senhor, outra vez não. Apunhalou-me em mil partes com sua
língua.
— Se não a incomodasse não aconteceria isso — disse Varian.
— Vá um momento com os homens, mas não se embebede, ou
açoitarei você com a vara.
O marinheiro partiu, murmurando ressentido algo que parecia
ser turco.
Varian deixou a garrafa de rakí no chão, pensou por um
momento, e a seguir se sentou em frente dela, ao estilo índio,
como fazia Esme. Ironicamente, pensou que suas calças iam ficar
destruídas.
— Vim para me desculpar — disse ele. — Não me comportei
como um cavalheiro.
Esme embaralhou o maço, alinhou as cartas perfeitamente e
logo as deixou no chão diante dela.

139
— É verdade. — colocou as mãos sobre os joelhos. — De
qualquer modo, aceito a desculpa.
— Beija?
Ela elevou a vista com os enormes olhos verdes brilhando com
surpresa.
— Beija — repetiu ele — Quer dizer «trégua», não?
— Sim — disse ela. — Não…, não, eu devo dizer também minha
parte, ou do contrário não se promete de verdade uma trégua. — O
olhar dela posou na manta. — Você disse antes que tenho tornado
impossível para você comportar-se como um cavalheiro.
— Isso foi…
— Não, me deixe acabar. — Ela apertou as mãos que tinha
sobre os joelhos. — Parece tão difícil porque não sou uma dama.
Sei, Jason me disse isso muitas vezes. Nunca poderei ser uma
dama para os princípios de sua gente. Nem sequer o sou entre
minha própria gente. As demais mulheres albanesas não são como
eu. Têm melhores maneiras, muito melhores. Eu nem sempre estou
contente comigo mesma. Às vezes faço e digo coisas das quais
mais tarde me arrependo. Mas parece ser tarde, muito tarde, então
está feito. Embora tenha muita vontade, nem sempre sei refrear
meu temperamento. Quase nunca. Muitas vezes não posso
enfrentar a minha impaciência… e outras a meus sentimentos.
Minha avó dizia que levava um demônio dentro de mim. Eu não
acredito nos demônios, mas é verdade que às vezes me sinto
assim.
Ela apertou um punho e o colocou junto ao peito.
— Aqui. Um demônio feroz. Assim é como sou. E não posso
evitá-lo — concluiu com tristeza enquanto afastava a mão do peito.

140
Aquilo era uma confidência, e confessar não teria sido fácil para
ela. Desde o começo, quando ela se negou a mostrar qualquer
emoção pelo assassinato de seu pai, Varian tinha compreendido
que a filha do Leão Vermelho encerrava seus sentimentos dentro
dela. Agora ela tinha devotado uma pequena desculpa, tinha aberto
um espaço de seu coração. Aquilo fazia seu próprio coração sentir-
se culpado.
Varian tinha vontade de poder proteger aquela moça entre os
braços, enquanto assegurava que não tinha que culpar-se por nada
absolutamente. Deu-se conta de que estava se inclinando para ela.
— Eu sei. — Desdobrou as pernas e se inclinou para trás,
apoiando-se em um cotovelo para pôr mais distancia entre eles. —
Isso explica tudo.
Ela lançou um olhar receoso.
— Acredita nisso?
— Oh, sim! É muito simples. Um tópico, a verdade, embora eu
não goste de admiti-lo. Eu sou um tolo e estúpido inseto revoando
sem rumo fixo. Você é uma pequena que não deixa de arder nem
um momento. O estúpido inseto vê o brilho da formosa chama, e
sem pensar nas consequências, algo que é bastante maior para
saber, lança-se direto para ela. Então queima as asas e, como o
imbecil desajeitado que é, joga a culpa à chama.
Esme se balançou para frente, voltou a pegar o maço de
cartas, embaralhou-as de novo e logo as colocou outra vez no
chão. Observando suas hábeis mãos, Varian recordou como o tinha
agarrado pelas mangas. Não, não deveria pensar nisso, se não
quisesse que a cabeça começasse outra vez a dar voltas em si
mesmo. Queria um pouco de paz, essa trégua que tinha pedido,

141
porque queria ficar a seu lado nessa noite, honestamente.
— Não sou um bom homem — disse ele. — Tenho um caráter
odiosamente fraco. Se houve um equivoco aqui, foi sobretudo o
que eu tenho feito. Sou egoísta e irrefletido. Sempre fui. Do
contrário jamais teria trazido Percival aqui.
— Por que o trouxe, efendi?
Varian ficou olhando as cartas fixamente. Ainda não havia dito.
Tinha evitado habilmente esse tema, não querendo enfrentar os
seus fulminadores enganos. Por uma peça de xadrez. Um
brinquedo? Quase podia ouvir sua réplica, e a risada contida no tom
baixo de sua voz.
— Devemos buscar uma peça de xadrez — disse ele.
Imediatamente notou que acendia seu rosto. Ele, Edenmont,
ruborizou-se. Bom, ele merecia. Quando se obrigou a olhá-la, viu
que seus olhos estavam muito abertos. E logo, por cima de tudo,
brilhou em seu rosto um sorriso.
— Sinto — disse ela. — Sinto muito, Varian Shenit Giergi, que
sua mãe o golpeasse na cabeça tantas vezes.
— Não foi inteiramente ideia minha — tratou de desculpar-se
ele. — Seu primo tem uma grande habilidade em fazer as coisas
mais descabeladas parecerem perfeitamente razoáveis.
— Tem só doze anos — disse ela voltando a embaralhar as
cartas.
— Não, tem a inteligência de um menino de quinze.
Ela colocou o baralho de cartas diante dele.
— Corta.
— Não pretende ler a minha sorte?
— Não, pretendo dar em você uma surra no vinte e um,

142
senhor, enquanto continua contando sobre essa peça de xadrez.

Embora Esme só ganhasse de sua excelência uma vez,


passaram uma noite bastante tranquila, e já era muito tarde
quando decidiram chamar o Petro. Apesar da ameaça de provar a
vara, o homem entrou cambaleando.
Entretanto, seu senhor só dirigiu a ele algumas palavras de
recriminação antes de levantar-se.
— Não é muito melhor que eu tolerando as privações —
murmurou ele. — O licor é a única alegria que pode encontrar no
momento. Por que não ia se embebedar? Oxalá eu pudesse fazer o
mesmo.
Esme se deu conta de que preparava sua cama o mais longe
possível dela ou o que permitia o tamanho da barraca. Era melhor
assim, pensou. Se sua excelência sentia alguma necessidade
masculina, possivelmente desejaria aliviá-la com quem quer que
tivesse à mão, até com ela mesma. Essa era uma das muitas coisas
que diferenciavam os homens das mulheres, havia dito Jason, até
mesmo aqueles que tinham muito bom caráter. Era um demônio
que a maioria dos homens parecia possuir.
Aquele homem tinha comparado a ela com uma formosa chama
e a si mesmo como inseto noturno. Mas Esme pensou que essa era
sua maneira de explicar «Quando a luxúria se apodera de um
homem — tinha advertido Jason, — dirá algo, e fará algo, e alguns
homens podem seduzir inclusive somente com as palavras. Às
vezes a astúcia pode ser tão perigosa como a força. Se estiver bem
preparada e armada, pode ter uma oportunidade de evitar a um
atacante. Mesmo você, por pequena que seja, pode chegar a

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ganhar, se eu ensinar. Mas o que tem que fazer pequena guerreira,
quando um homem suspire por você e diga que está ferindo o
coração?»
Aquilo era muito ridículo e complicado.
«Deveria me por a rir — havia dito ela em confidência.»
«Isso o deixaria furioso.»
«Então tentará me atacar, mas eu estarei preparada.»
Por ingênuo e abominável que fosse, aquele homem a tinha
beijado e ela não tinha levantado nenhuma mão contra ele. Com
sua mente masculina, ele tinha falado de desejo, e no profundo de
seu ventre, um calor feminino tinha começado a pulsar como
resposta.
Era melhor que ele dormisse longe dela.
Além disso, Esme tinha que refletir sobre tudo o que tinha
contado o barão. O assunto da rainha negra a tinha desconcertado.
Se seu primo tinha dado aquela peça ao Jason, por que não havia
dito nada a seu pai? Jason tinha ensinado a Esme a horrível carta
de sua mãe e a amável missiva de sua cunhada. Aquilo não tinha
sentido. Percival tinha que estar equivocado e o lorde inglês tinha
cometido um grave engano de julgamento ao viajar a Albânia em
companhia de um menino.
Mesmo assim, lorde Edenmont tinha um motivo compreensível.
Estava sem um centavo, tinha contado, e na Itália podia viver com
mil libras durante muitos meses.
— E depois? — tinha perguntado ela.
— Oh! Me preocuparei com o «depois» quando ele estiver
convertido em «agora».
Esme olhou em seu futuro e se preocupou com ele naquela

144
hora.

Teriam passado o dia seguinte também tranquilos, se lorde


Edenmont não houvesse tornado a tomar banho no rio pela manhã.
Quando retornou, tinha o cabelo molhado em brilhantes cachos e
Esme ficou tão furiosa que, possivelmente pela primeira vez em sua
vida, ficou sem palavras. Só ficou olhando e em seguida partiu.
Cavalgaram até a Poshnja em um silêncio tenso.
Chegaram ao povoado pouco depois do meio-dia. Planejaram
ficar ali de noite para que sua excelência pudesse tomar um banho
quente, ou ao menos temperado, e para refrescar sua fastidiosa
alma enquanto eles repunham provisões.
Desta vez só uma pequena parte da população lhes deu as
boas-vindas, o que era estranho. Igualmente intrigante era a
agitação que notava Esme entre as pessoas do povo. Ela
desmontou rapidamente do cavalo e agarrou pelo cangote a um
menino que ficou olhando a lorde Edenmont como se ele acabasse
de descer a cavalo da lua.
— O que aconteceu? — perguntou ela. — Onde estão todos os
homens?
O menino conseguiu sair de seu atordoamento o suficiente para
explicar que Poshnja tinha sido assaltada por bandidos. Em pleno
dia, um pouco antes que chegasse o grupo do lorde inglês, um
bando armado tinha chegado ao povoado e tinha roubado boa parte
dos mantimentos e das reservas de grão. Inclusive tinham roubado
várias barras de pão que tinham deixado à intempérie para que se
esfriassem.
Esme soltou o menino e olhou ao seu redor. Agimi e outros

145
homens de sua escolta estavam falando nervosos com um ancião.
Embora sua excelência parecesse não ter se informado de nada.
Estava muito ocupado deslumbrando ao Petro, cujos dotes para a
tradução eram evidentemente falhas. Esme se deu conta de que os
músculos de seu aristocraticamente cinzelado semblante ficavam
tensos e rígidos de irritação no momento em que voltava sua
cabeça, procurando-a com o olhar.
Quando por fim a localizou, ficou olhando durante um longo
momento, logo sorriu e deu de ombros em um gesto de
impotência. Ela quis devolver o sorriso, mas seu orgulho não o
permitia. Esme se aproximou dele com o queixo levantado, para
traduzir o que diziam quem estava dando as boas-vindas e a
amável resposta de lorde Edenmont.
Durante todo esse tempo, seu guarda albanês se dedicou a
seus próprios assuntos. Enquanto Hasan, o ancião do povo,
conduzia a sua excelência para uma casa para oferecer a habitual
boas-vindas, a metade dos homens de lorde Edenmont seguiam
ainda sobre suas montarias.
Bem, tampouco se podia esperar deles que sentassem
tranquilamente para tomar café e fumar seus cachimbos, enquanto
os ladrões se dedicavam a roubar comida a seus patrícios. Assim
explicou Esme quando deu a notícia a lorde Edenmont…, meia hora
mais tarde, uma vez que tinha se assegurado de que seus homens
estavam na pista dos ladrões.
— Enviou-os para perseguir os bandidos e não me disse nada?
— perguntou ele em um sussurro rouco. — Eu sei que não tem
vontade de falar comigo, mas ao menos deveria ter me informado
disso.

146
— Não podia interromper quando Hasan estava no meio do rito
de boas-vindas — respondeu Esme enquanto seu anfitrião
aproximava uma bandeja. — Além disso, não poderia tê-los detido.
— Se estavam fazendo o que acreditavam que era sua
obrigação, não ia pretender detê-los — disse ele. — Só teria
gostado que me informassem, ou que ao menos alguém fizesse ver
que estava me consultando.
— Que sentido comum podem esperar eles de um homem que
se dedica a banhar-se nas águas geladas de um rio, não uma vez
mas duas em seis horas?
— Vi que Petro tirava um piolho da cabeça. O que supõe que eu
devia fazer?
— Eu teria jogado Petro ao rio.
Ele ficou olhando e riu. Quando Hasan a olhou
inquisitivamente, Esme explicou que o lorde inglês ria com alegria
ao ver a seu redor tantos rostos amáveis e tão boa comida.

Os homens voltaram algumas horas mais tarde, enquanto


Varian estava se barbeando, com bendita água quente. Quem deu
a notícia foi Petro, não Esme. Esme ainda não o tinha perdoado
pelo banho gelado daquela manhã. Bom, graças ao céu, ela não o
entendia. Em caso contrário, possivelmente ela mesma o teria
jogado no rio.

Varian se olhava em seu pequeno espelho entortando os olhos


para barbear-se. O que teria dado por um espelho adequado, no
qual pudesse ver algo mais que um par de centímetros de pele de
uma vez. Tratou de recordar se tinha visto algum espelho em

147
alguma das casas que tinha visitado. Pode ser que não fossem
comuns nesses povoados. Perguntou-se se Esme teria visto alguma
vez o semblante em um espelho ou só teria vislumbrado alguns
brumosos reflexos de si mesma em um charco ou em um cubo de
água.
— Capturaram aos ladrões? — perguntou ele.
— Mataram um — respondeu Petro. — Feriram a outros dois,
mas puderam escapar. Trouxeram de volta os animais e o grão.
Mas o pão desapareceu. Além disso, temo que terão de cortar o
braço de Agimi,.
— O que? — Varian se voltou tão depressa que esteve a ponto
de fatiar uma orelha.
— A bala entrou muito profunda e com um ângulo estranho, e
não saiu pelo outro lado.
— Atiraram nele? — Varian jogou sua navalha de barbear. —
Demônios, sabia que algo assim poderia acontecer. Onde está?
Chamaram o médico?
— Que médico? Aqui? — Petro meneou a cabeça. — Há um
velho que sabe dessas coisas. Diz que terá que cortar o braço antes
que o veneno chegue ao coração.
— Por todos os demônios! — Varian ficou a guerreira. Pobre
Agimi. Que idade teria? Não era mais que um moço, talvez dezoito
ou dezenove anos. Mas essas coisas aconteciam. Quantos jovens
tinham perdido algum membro lutando contra as tropas de
Napoleão?. — Espero que ao menos não esteja consciente. Onde o
levaram?
— Está na casa do lado. A pequena bruxa está com ele, pôs-se
a uivar como um gato moribundo e não deixa que ninguém se

148
aproxime.

Esme não estava uivando quando Varian entrou na pequena


casa, embora sua voz cortasse como um látego enquanto advertia
aos homens, que por sua vez gritavam furiosos com ela. Ao final,
ficou de pé desafiante ao lado da cama de armar de Agimi, com
uma faca na mão, e os homens, incrivelmente, recuaram para trás.
Varian abriu caminho entre o grupo. Quando estava junto à
cama de armar, no quarto se fez um pesado silêncio.
Esme ficou olhando com os olhos verdes acesos de ira.
— Que não se aproximem — disse ela. — Não me importa o
que diga. O primeiro que se aproximar eu matarei. E depois irei
matando a todos, um a um.
— Vais matar também, a mim? — perguntou Varian
aproximando-se.
— A você também, se permitir que cometam essa atrocidade.
— Olhou ao Agimi assentindo com a cabeça, ele devolveu o olhar
sem entusiasmo.
— A ferida não é tão séria como parece. Eu sofri duas feridas como
essa. Posso tirar a bala e curar o braço, mas eles não confiam em
mim. Não vão ajudar. Só acreditam nesse velho enganador daí —
disse ela fazendo um gesto com a faca para um velho e enrugado
Matusalém que tremia em um canto murmurando para si mesmo.
Varian se voltou para olhar Agimi e observou o sujo buraco em
seu braço que gotejava sangue ressecado.
— Esse velho pode ser que esteja senil — disse em voz baixa,
— mas a ferida é muito feia. Tive amigos em Waterloo, atendidos
por cirurgiões, e quase sempre fizeram o mesmo. É melhor perder

149
parte de uma extremidade do que a vida.
— Eu estou viva — disse ela batendo com o pé. — Curei a
ferida que tenho no braço, onde atiraram. Crê que menti? Pensa
que são somente fanfarronadas? Duas vezes — disse ela. — O
braço que a bala atravessou agora sustenta a faca. E estou de pé
sobre uma perna onde entrou outra bala. Onde estaria agora, se
tivessem feito a carnificina que estão planejando fazer com ele?
A visão que aquelas palavras conjuraram fez com que uma
arrepiante sensação de náusea o rodeasse e o quarto começou a
dar voltas ao redor dele. Varian deitou lentamente e conseguiu
focar de novo o quarto em que estava.
— De acordo — disse ele. — O que necessita?
Ela relaxou lentamente os ombros, aliviada.
— Necessito um bom fogo, para poder limpar as facas e as
outras ferramentas nas chamas. Necessito rakí para fechar a ferida.
E que alguém vá procurar minha bolsa de viagem. Os instrumentos
que preciso estão nela, assim como os remédios: resina de
pinheiro, casca verde de lenha velha e cera branca de abelhas.
Também necessitarei um pouco de azeite de oliva e trapos limpos
de lã.
— Para uma pomada? — perguntou ele surpreso.
— Sim, uma muito boa. Um velho da Shkodra me ensinou…,
ele tirou a bala do meu braço. A pomada rebate o veneno e ajuda a
sarar a carne. Por isso minhas cicatrizes são tão pequenas.
— Como tenho que dizer a eles para que atendam você?
— Dëgjoni — murmurou ela.
Varian se voltou para o grupo de homens.
— Dëgjoni! — disse-lhes de maneira cortante.

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Esme deu uma olhada aos rostos preocupados que a olhavam,
logo, com voz clara e firme, deu suas ordens em albanês.
Os homens olharam para ela e logo olharam para Varian.
Varian já estava a ponto de assentir com a cabeça quando se
lembrou. Meneou a cabeça ao modo de afirmar dos albaneses ao
tempo que lhes dizia:
— Sim. Po, o que Zigur disse.

O alto inglês ficou ao seu lado enquanto Esme atendia o


paciente. Ela desejou não ter insistido para que lorde Edenmont
ficasse a seu lado enquanto atendia ao Agimi, pois estava claro
que, dos dois, quem mais sofria era sua excelência. Quando ela
introduziu lentamente sua fina faca na ferida aberta, o rosto de
Varian ficou pálido como a neve. Mesmo assim, manteve-se firme
ao lado de Agimi, segurando o ombro do jovem com suas
aristocráticas mãos. Agimi sofria tudo aquilo em silêncio. Tinha
recusado o láudano que oferecia e pediu que dessem rakí em lugar
disso. Ela esperou que o licor o atordoasse o suficiente. Mas não
estava segura. O jovem ficou com o olhar cravado no teto e os
lábios firmemente apertados.
— Maldita seja — murmurou o barão, — eu estou a ponto de
liquidar minhas dívidas e ele não deixou escapar nem um gemido.
— Ele é um Shqiptar — informou Esme em voz baixa. — Um
filho das águias. Forte e valente. — Logo murmurou algo em sua
própria língua enquanto rebuscava na ferida com a ponta da faca, e
a seguir sorriu, ao localizar a bala. — Ah! Era o que eu pensava.
Sairá muito facilmente.
O quarto estava em completo silêncio. Sua excelência tinha

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falado para que os outros saíssem e os deixassem sozinhos. Mati
também tinha ficado com eles, para ajudar a manter Agimi quieto.
Esme empurrou a bala para fora e, continuando, com as
valiosas tenazes que Jason tinha comprado para ela, agarrou-a e a
deixou cair em uma terrina que tinha apoiado no regaço.
Ouviu lorde Edenmont soltar um apagado gemido.
— Faremos um buraco — disse ela ao Agimi. — E poderá
pendurar isso no pescoço e rir dela quando contar sua história aos
outros: quando contar como aqui, na Poshnja, queriam cortar seu
braço só para conseguir tirar essa pequena bala.
Agimi esboçou um leve sorriso.
Ela jogou mais rakí na ferida. Ele apertou a boca, mas não
deixou escapar nenhum som.
— Parece-me que sua ferida já está muito bêbada, Agimi. Será
melhor que trate de dormir.
Ele meneou a cabeça fracamente. Continuando, Esme aplicou a
pomada e cobriu a ferida com o tecido de lã, que atou com força.
— Durma — repetiu ela. — Fecha os olhos e tenha paciência
com seu braço bêbado. Já acabamos — disse logo olhando a lorde
Edenmont.
Seu rosto estava cinza. Tinha um aspecto bastante pior que
Agimi. De modo que ela deu-lhe o rakí.
Ele tomou um gole rápido, e logo ofereceu a garrafa ao Mati.
— Não é preciso que fique — disse ela a sua excelência. — Eu
ficarei para cuidar dele. Tenho que trocar a atadura dentro de
poucas horas.
— Não deveria fazê-lo. Está esgotada. Diga ao Mati ou a um
dos outros para que o façam. Se houver algum problema eles

152
avisarão. Você vem comigo — disse ele com voz rouca.
Ajudou-a a recolher os instrumentos e os remédios, e foi
colocando cuidadosamente em sua bolsa de pele.
— E agora vai tomar um banho quente reparador, e depois vai
comer e beber algo. E depois vai explicar onde demônios aprendeu
a realizar operações cirúrgicas.

Capítulo 9

— Esta não é minha roupa.


Cobrindo o peito com as mantas, Esme franziu o sobrecenho
olhando as roupas novas. Varian as tinha empilhado sobre a cama
de armar de palha tecida na qual ela estava sentada. Naquele
momento, ela só usava uma camisa muito longa. Uma camisa de
Varian. Sua última camisa limpa.
— São uma doação — disse ele. — Calças, camisa e camiseta.
Ah, sim, e um vestido — acrescentou colocando um vestido
comprido de lã vermelha sobre a pilha. — Enquanto gritava com os
homens, eles começaram a imaginar que era uma garota. Isso
explica parcialmente por que eram tão reticentes que operasse ao
Agimi. Quando os fiz sair, tiveram uma longa conversa a respeito
de você. Alguém deu-se conta da cor de seus olhos. Estavam nos
olhando fixamente, recorda. A evidência concludente foi esta —
disse tocando suavemente seu cabelo. — Quando nosso anfitrião
recolheu as taças de café, encontrou um cabelo vermelho na
bandeja.
Ele se sentou no beirada da cama de armar.
— Não tinha percebido que estava mudando o cabelo, Esme.

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— Eu sei que deveria ter raspado — murmurou isso ela. — Mas
não tive tempo.
— Bom, agora já é muito tarde — disse ele rapidamente.
Se Esme decidisse que tinha que barbear a cabeça, certamente
o faria por muito que ele protestasse dando cabeçadas contra uma
parede, porque não ia fazer caso algum dele. E dizia que os
ingleses eram obstinados.
— De qualquer modo, esse descobrimento parece ter atuado a
meu favor — continuou explicando ele. — E quando deduziram que
você era a filha do Leão Vermelho, sentiram-se totalmente
solidários com minha situação. Não é isso o que significa
kokëndezur?
Ela se ruborizou.
— Significa temerário. Ser um exaltado.
— De qualquer modo, pareciam estar muito orgulhosos de ti.
Dizem que não tem medo, que é um leão, como seu pai. E também
dizem que é uma pessoa muito inteligente. — Varian fez uma
pausa. — E dizem que por isso Ismal a quer como esposa.
Ela apertou os lábios.
— Há rumores de que ficou a chorar quando chegou a notícia
de sua morte — continuou Varian. — Não pensava que esse
homem estivesse apaixonado por você.
— Isso é o que dizem?
— Oh, sim! Petro não podia acreditar no que ouvia. Os fez
repetir seus comentários várias vezes, para assegurar-se de que
não os tinha entendido mal. Contou-me que Ismal é muito rico e
poderoso. Um marido muito desejável. Case-se com ele e viverá
rodeada de grandes luxos. — Varian ficou olhando. — Entretanto,

154
parece-me ter entendido que esse Ismal é um pouco velho para
você, não é assim?
— É jovem — disse ela. — Acredito que tem vinte e dois anos.
Um jovem, quase da mesma idade que ela, pensou Varian com
uma pontada de irritação.
— Mas será sem dúvida um feio selvagem — disse ele.
— Considera-se uma pessoa muito interessante. Têm um
formoso cabelo de cor dourada pálido e uns olhos como pérolas
azuis.
De qualquer modo, pensou Varian, aquele tipo tinha que ser
um bruto. Uma criatura grande e pesada, com um pescoço como o
tronco de um carvalho. E com umas mãos enormes e torpes.
Varian se sentia irritado e doente, e muito cansado. Não era
suficiente que ela o tivesse arrastado pela mais vasta terra perdida
da mão de Deus desse lado da Sibéria. Não era suficiente que
tivesse passado todos os dias e a metade das noites tenso com a
preocupação do que podia ter acontecido com Percival e doente de
desejos por aquela mulher. Não era suficiente ela por-se a brigar
com vinte homens, insultando e humilhando a cada um deles,
incluindo a sua própria escolta, e logo deixasse que lorde Edenmont
se encarregasse de fazer as pazes com eles. Ele tinha estado a seu
lado enquanto operava o Agimi, porque ela tinha pedido, e não quis
que pensasse que não tinha confiança em suas habilidades. Tinha
tratado de afastar a vista daquela horrível ferida; entretanto, não
tinha se atrevido a fazê-lo para que ela não pensasse que era uma
pessoa fraca.
Mas nenhum desses purgatórios tinha sido suficientes. Agora
todo o povo sabia quem era ela, e dentro de poucas horas, graças a

155
seus rápidos métodos de comunicação, essa notícia chegaria ao
inimigo. Um inimigo que parecia ser jovem, rico, bonito, poderoso e
surpreendentemente bem amado. Isso não deveria deixá-lo
surpreso. Essa gente desconcertante já tinha admirado antes a um
monstro: Alí Pachá.
A inquieta voz de Esme o tirou de seus pensamentos.
— Estará se perguntando — disse ela — por que um homem
como esse ia se meter em problemas, matando meu pai e tentando
me seqüestrar.
— Estou me perguntando muitas coisas diferentes — disse ele.
— Eu tampouco o entendo. Pode escolher entre centenas de
mulheres de seu harém. Mulheres que foram criadas para levar o
véu. Mulheres formosas cujo sangue não está mesclado. Mesmo
assim, se Ismal imaginasse que podia me conseguir, teria posto
muito mais empenho em meu rapto. Jason não acredita nas dívidas
de sangue e não poderia ter me levado de volta para a Inglaterra
uma vez que eu tivesse perdido a virtude. Aqui, o homem é o
culpado e deve oferecer uma compensação; lá, a desonra é para a
mulher.
E em seu caso poderia ter sido muito pior ainda, pensou
Varian. Mesmo Jason se casando realmente com sua mãe, as leis
inglesas não reconhecem outros ritos matrimoniais além dos da
Igreja anglicana. Tecnicamente, Esme poderia ser considerada uma
filha bastarda, e a sociedade podia usar com entusiasmo desse
tecnicismo. Ilegítima e desonrada, converter-se-ia em uma pária.
— Nisso, por desgraça, tem muita razão — admitiu ele. —
Nessas circunstâncias, Jason seria obrigado a aceitar o matrimônio.
— Como Ismal bem sabe. Educaram-no no estrangeiro. É muito

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consciente de que meu pai não poderia fazer nada contra ele. Não
havia necessidade de que o assassinasse — disse ela de maneira
contundente. — Até mesmo teria me devotado a ele
voluntariamente, ao saber que a vida de meu pai estava em perigo.
Muitas mulheres têm que suportar piores maridos que Ismal, por
razões muito menos importantes. Não teria sido um sacrifício tão
grande para mim.
Para Varian parecia terrível imaginar aquela feroz e jovem ninfa
encerrada em um harém. Mesmo assim, sabia que as mulheres
podem suportar coisas piores, mesmo na Inglaterra. Entre as
classes altas, as famílias formavam alianças por terras, dinheiro e
poder. Os filhos e as filhas não são mais que peões desse jogo.
Mesmo quando escolhem por si mesmos, raramente o amor tem
algo que ver nisso.
Mas Varian estava convencido de que aquela garota teria se
casado até mesmo com Satanás, se fosse necessário, para proteger
seu pai. Que tipo de homem teria sido Jason, para ter tido uma
filha como aquela e ter merecido tanto amor?
— Suponho que poderia ter sofrido coisas piores — disse ele. —
Mas pode estar certa de que Ismal iria sempre atrás de você e ia
estar sempre a sua disposição quando pedisse.
Ela fez uma careta de asco.
— Não necessito de escravos. Só o que faria seria contribuir
com o que fizessem as outras mulheres e me preocuparia pela
felicidade e o bem-estar de meus filhos. E se Deus é generoso,
teria tido muitos.
Varian piscou surpreso.
— Quer ser mãe?

157
— Sim. O que tem de surpreendente nisso?
— O que tem de surpreendente? — repetiu ele. — Demônios,
Esme, toda a sua existência está cheia de uma emoção atrás de
outra. Atiraram em você, tentaram sequestrá-la, os lordes ingleses
caem inconscientes a seus pés. Salva uns estrangeiros de um
naufrágio e logo os conduz, sem ajuda, por entre pântanos da
extensão da Austrália. A apenas algumas horas vi você enfrentar e
desafiar a metade desse povoado para que brigassem com você, e
vi sua faca apontando diretamente a meu coração. De onde
demônios pensa tirar tempo para criar seus filhos? — perguntou
ele. — Que pobre diabo vai ser capaz de ficar a seu lado o tempo
suficiente para fazer um filho?
— Não me referia a esse momento— disse ela com calma.
— Alivia-me muito ouvir isso — disse ele. — Já que sou o único
pobre diabo que há pelos arredores, estava, naturalmente, um
pouco preocupado. Embora, apesar de tudo, me alegro de não
precisar agradá-la, querida, porque temo que hoje me deixou
esgotado.
Ela se ruborizou.
— Não estava me referindo a tê-los com você!
— Oh! — disse Varian olhando para outro lado. — Isso me
deixa muito aliviado. Porque se estivesse se referindo a mim… e
estivesse pensando em agora… Bem, todos sabemos como é
quando coloca algo na cabeça, Esme. Se vinte homens fortes não
foram capazes de fazê-la mudar de opinião hoje, como poderia um
tipo fraco e quase exausto negar algo a você nessa noite?
Ela abriu a boca e no mesmo momento voltou a fechar. O rubor
começou a surgir e sua expressão ficou pensativa.

158
— Agora está me provocando — disse ela. — Por isso está
fazendo brincadeiras indecorosas.
— Isso mesmo.
— Parece-me que causei a você um grande transtorno — disse
ela em tom arrependido. — Agora que sabem que não estou morta,
deve estar preocupado de que Ismal volte a mandar seus homens
outra vez atrás de nós.
— Entre outras preocupações.
— Sinto-o — disse ela. — Mas já está feito, efendi.
— Sei.
— Mas não tem por que se preocupar, Ismal não se atreverá a
nos atacar agora.
— Não, certamente não. Mas não se trata de algo que poderia
esperar razoavelmente. O que me preocupa vem de nenhuma
parte, e me produz um inimaginável horror.
— Se preocupa muito — disse ela. — Estão aparecendo
profundas rugas na testa.
— E está deixando meu cabelo grisalho — disse ele. — Posso
sentir.
— Não, isso não. — Ela se colocou de um lado da cama de
armar para deixar lugar para ele, e logo estapeou com a mão
grossa o travesseiro que havia a seu lado. — Hajde. Vem aqui.
Varian ficou olhando aquela diminuta mão apoiada sobre o
travesseiro.
— Perdão?
— Apoie a cabeça aqui — disse ela. — Isso fará com que
desapareçam as rugas de sua testa, assim como suas
preocupações.

159
Varian sentiu um ligeiro calafrio de ilusão, mas isso foi tudo.
Estava sem dúvida nenhuma esgotado, física e mentalmente. Ela
precisaria ter feito todo o trabalho, mas ser um impotente
espectador teria resultado ainda muito mais difícil. Ela não podia
correr nenhum perigo com ele naquela noite, e sabia.
Varian se deitou e fechou os olhos. Só por um momento, disse
a si mesmo. E em seguida sairia de sua barraca.
— Falarei das montanhas — disse ela em voz baixa. Suas mãos
frias posaram sobre a testa dele. — Formosas montanhas que se
elevam até o céu, onde revoam as águias, nossos pais.
Os dedos dela começaram a massagear a fronte e magras
correntes de prazer começaram a percorrer o corpo de Varian.
— As águas dos rios descem por elas frias e claras, salpicando
as brancas ladeiras das montanhas, e alegres enquanto fluem.
Ele começou a sentir sua mente mais clara e fria, apesar de
que sob a carícia dela notava uma calidez que começava a penetrar
nos músculos duros.
— Tem umas mãos formosas — murmurou ele.
Ele notou uma breve pausa, apenas um batimento do coração,
antes que ela continuasse massageando suavemente e relaxando-
o.
— Correm ao encontro dos bosques que há nas ladeiras —
continuou dizendo ela— onde a brisa sopra entre os abetos,
despertando os cantos dos pássaros.
Sua voz foi se perdendo em imagens longínquas de pinheiros
que murmuravam. Eram suas mãos que criavam aquela suave
música, enquanto Varian deslizava profundamente em uma
escuridão como de veludo, uma escuridão que o envolvia com uma

160
cálida alegria assombrosamente parecida com a paz.

Esme ficou olhando enquanto dormia, seus traços finamente


esculpidos tocados pelas sombras fantasmagóricas que a chama
vacilante de um abajur de azeite provocava. Tinha que apagar a
luz. Tinha que partir, ou ao menos fazer a cama em qualquer outra
parte daquela pequena barraca. Mas não se decidia. Com um ato
de generosidade, ele a tinha feito baixar suas defesas.
Necessitava dele, mas teria cortado o pescoço antes de admiti-
lo, — e ele tinha aparecido. Colocou-se a seu lado, contra meio
povoado, apesar de não dever nada a ela, nem sequer lealdade.
Ficou com ela, ajudando-a enquanto curava aquela horrível
ferida, embora certamente se sentisse doente por causa de sua
natureza sensível, desacostumado à miséria, a violência e a
fealdade. Mas assim tinha sido desde o começo. Isso era tudo o
que ele tinha ensinado.
Não deveria tê-lo feito realizar aquele viagem com ela. Ele não
entendia a sua gente. Para ele, Albânia não era mais que fealdade
e brutalidade, e tinha obrigado a que suportasse tudo isso.
Esme olhou suas mãos, que estavam tremendo. Formosas,
havia dito ele. Mas eram duras e estavam bronzeadas. Boas mãos
para o trabalho, para a briga, mas não formosas. Isso não.
O que pensaria ele se soubesse do porque irem a Tepelena, e
porque o tinha colocado em tantos problemas? O que poderia
pensar se imaginasse que essas mãos que disse serem formosas
logo seriam manchadas com o sangue de um homem?
Meu Deus, não permita que conheça nunca a verdade. Apesar
de tudo, não deixe que esse homem chegue a suspeitar que sua

161
generosidade chegou a ela, ao coração e a envenenou com
vergonhosos desejos.
O abajur de azeite chispava e fumegava, e o ar da habitação
parecia carregado, convertendo-se em uma massa opressiva que
pulsava com o bater de seu coração. Esme desejou partir, muito
longe, onde pudesse respirar de novo tranquilamente, com o
espírito livre de cadeias.
Mas isso era impossível. Mas ao menos podia escapar da
excessiva proximidade de seu esbelto corpo. Somente tinha que se
levantar e cruzar a barraca. Levantou-se para cobri-lo com a
manta.
Ele se moveu e deixou escapar um suspiro. Abriu os olhos, que
eram como escuros atoleiros brilhantes, e sua boca se curvou em
um adormecido sorriso.
— Tem umas mãos formosas —disse ele em voz baixa. Logo
segurou os dedos trêmulos e os aproximou dos lábios.
Roçou-lhe os nódulos com a boca e o pulso dela acelerou em
resposta.
Não. Seus lábios formaram aquela palavra, mas nenhum som
saiu de sua boca.
Não. Outra vez quando ele voltava sua mão, e uma vez mais
não saiu som algum de sua boca. Tinha que falar, ou admitir sua
vergonha, mas já se sentia bastante envergonhada por não poder
pronunciar uma simples palavra.
Os lábios dele pousaram na suave palma de sua mão e Esme
prendeu a respiração enquanto o prazer se apoderava dela,
cortante como uma adaga afiada. Foi só um instante, mas
certamente ele não necessitava nada mais para perceber a

162
clamorosa mensagem de seu coração. Quando por fim sua boca se
separou da palma de Esme, nela ficou um formigamento de
sensação. Pensou que tinha que afastar-se dele, mas seu absorto
olhar prateado a mantinha presa no mesmo lugar.
— Necessito de você — sussurrou ele e no momento se
levantou e a puxou contra seu corpo.
O magro corpo de Esme se acomodou sobre o de Varian sem
lutar, embora tivesse um montão de razões para resistir em
seguida. Conhecia sua força e sua rapidez. E também sabia de que
maneira suas carícias podiam ofuscar sua razão e fazer com que a
fronteira entre o bem e o mal deparecesse.
Se não protestasse ou resistisse, seria arrastada rapidamente
para sua própria desgraça, porque sabia perfeitamente quem era
ele e o que era e o que pretendia. Mas seu coração deu saltos de
alegria quando as mãos de Varian agarraram seu cabelo e
aproximaram seu rosto do dele. Ela sabia que estava perdida, que a
desonra estava começando a rondar. Mas a boca dele estava só a
um suspiro de distância e Esme a desejava com tanta vontade que
estava a ponto de começar a chorar.
Ela fechou os olhos e ele afundou em um longo beijo que fez o
mundo começar a dar voltas enlouquecidas a seu redor. Seus finos
dedos desenharam linhas que formigaram calor por sua cabeça, e
seus pensamentos começaram a pulverizar-se como faíscas de um
fogo que chiava. O corpo rígido dele pressionava contra o dela e os
músculos tensos de Esme começaram a relaxar como metal
fundido. Varian roçou os lábios com a língua e Esme, obediente a
sua amável insinuação, abriu-os para recebê-la.
O frio contato da carne dele dentro dela foi uma comoção, mas

163
só por um instante, antes que um prazer extasiado a embriagasse
por completo. A língua dele empurrava contra a sua e o sabor que
degustava era como um cruel segredo . Ela estava saboreando o
pecado, e esse pecado era deliciosamente embriagador. Era
traiçoeiramente doce, como um insidioso veneno que chegava à
alma. Estava saboreando algo diabólico, a maldade de sua alma.
Mas era tão formoso como a coisa mais divina. Esme sabia que ele
não pretendia levá-la ao Paraíso. E sentiu que rondava um perigo
na escuridão. Mas mesmo assim, parecia ter sentido saudade disso
toda sua vida.
A boca dele se separou dos lábios dela para desenhar um
caminho de fogo que percorreu sua bochecha e parou em sua
orelha, e logo voltou a descer para beijar uma veia que palpitava
em seu pescoço. Esme prendeu a respiração e abriu os olhos de
repente. Mas um emocionante segredo havia se infiltrado sob sua
pele, ali onde a boca de Varian tinha beijado, fazendo com que se
esquecesse de todo o resto. Um prazer lânguido percorreu todo seu
corpo e ela deixou escapar um suspiro. Sim. Assim. Sua boca
sussurrava diabolicamente contra a sua pele… Por um caminho de
suaves beijos, sentindo línguas de fogo pelas costas… E o roçar do
linho quando a camisa que vestia deslizou para baixo, mais abaixo,
até ficar nua… E o frio ar da noite acariciou sua pele exposta. Mas
aquele ar se esquentou no momento com um lânguido perfume,
cheio do aroma masculino dele. Os suaves dedos de Varian
pararam lentamente sobre os nus seios dela e o coração de Esme
ficou a pulsar com mais velocidade: Sim, me toque, me faça ser
formosa.
E ela se sentiu formosa, suave como o veludo, pois um escuro

164
deus tomou e a transformou com suas doces carícias. Ela queria
continuar sendo formosa para sempre, queria mais. Seu corpo se
aproximou do de Varian tratando de fundir-se com ele até serem
um. Queria liquidificar-se entre suas mãos para que ele a pudesse
moldar com a forma de uma deusa.
Ele se afastou, mas Esme ainda podia sentir seu fôlego roçando
sua pele enquanto a olhava.
— É tão formosa — disse ele com voz rouca.
Sim. Ele a tinha feito ser assim. Esme tinha vontade de dizer-
lhe mas não podia. Porque agora já não era a Esme que ele
conhecia. Agora tinha se convertido em um líquido fundido, em
uma corrente quente de ardente prazer que avançava para ele. Os
dedos dela se dobraram por trás de seu pescoço e se introduziram
nos sedosos cachos do cabelo de Varian.
Ele gemeu, atraiu-a de novo para si e colocou um joelho entre
as pernas dela. Suas mãos subiram pelas coxas, e logo se afundou
uma vez mais contra ela, enquanto com a língua riscava uma lenta
e excitante curva ao redor do sensível topo de seus seios. Sua boca
cálida se retirou da tenra carne dela, esvaziando-a, para logo
alagá-la com um êxtase que a fez gemer. Aquela corrente de
prazer desembocou em um mar formoso e selvagem. Ela se
agarrou a ele ainda com mais força, pressionando suas coxas
contra as dele, pedindo mais, impaciente agora por continuar
gozando daquela ternura.
Ele percorreu com as mãos toda a extensão do corpo dela,
enquanto murmurava no ouvido, palavras que ela não podia
entender. Logo a fez deitar-se de costas e procurou sua boca. Uma
e outra vez, sua boca arremeteu e se afundou entre os lábios dela,

165
e ela começou a elevar-se como uma onda enorme, desejosa de
romper na margem. Esticava-se e se arqueava cada vez mais, mas
sem poder encontrar alívio. Esme não desejava que se detivesse,
mas dessa vez acreditava que ia morrer se não o fizesse.
As inquietas mãos de Varian encontraram de novo os seios
dela, sua cintura, e logo deslizaram para baixo, para aquele lugar
íntimo entre suas pernas. Ela entendia que assim tinha que ser.
Tinha que ser dela, e tinha que oferecer a ele todos os seus
segredos, todo o seu ser. Mas quando sentiu a carícia dele na parte
mais íntima de seu corpo, sentiu-se apunhalada pelo medo.
Inclinou-se para trás instintivamente, só um instante e ele se
deteve.
Varian respirava de maneira entrecortada e deixou escapar um
longo suspiro. Separou-se dela, deitou-se de costas deixando-a
tiritando de frio… e sozinha. Então subiu à superfície da consciência
de Esme aquele vergonhoso desejo que tinha estado
minuciosamente submetida enquanto o fazia amor. E ela sentiu que
ardia seu rosto.
Passou um momento.
— Por Deus, Esme — disse ele ao fim com voz rouca. — Não
pensava me deixar continuar, não é assim? Não pensou no que
poderia acontecer se não tivesse ocorrido me deter?
— Não estava pensando. — Sua própria voz soava também
mais grave. Sentia-se como se tivesse enfrentado sozinha a todo
um exército, apesar de que não tinha lutado absolutamente. —
Como quer que uma mulher possa pensar quando está fazendo
essas coisas? Uma vez começado é impossível ser sensata.
Impossível. —

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Ela cravou seu humilhado olhar no teto. — Não podia detê-lo. Não
queria que parasse. Envergonho-me de dizê-lo, mas é a verdade.
Se tivesse desejado me desonrar, não teria podido me defender.
Fez eu me sentir tão estúpida como um cordeiro.
— Não diga isso. — Ele se voltou para ela. — Não pode deixar
tudo em minhas mãos.— Varian a segurou pela nuca para que
voltasse a cabeça para ele. — Não pode.
— E você não me pode deixar isso — disse ela com voz
tremente. — Não quando me olha dessa maneira, quando me toca
dessa maneira. Não sou de pedra, Varian Shenit Giergi, e não sou
uma menina. Nem o que você fazia era um jogo de meninos. É um
jogo de pessoas adultas, e estou segura que um sempre ganha.
Tem que ganha comigo?
Ele colocou as mãos sobre os ombros e logo as baixou
lentamente por seu seio até deter-se na cintura. Ela segurou a
respiração, mas não se moveu. Como podia afastar sua mão
quando a tinha excitado daquela maneira, fazendo-a desejar
desesperadamente que acabasse o que tinha começado?
— Sim — disse ele, — mas não contra seu desejo.
Sua mão se moveu para o ventre dela e se deteve ali. Um calor
percorreu o interior e se afundou para palpitar no lugar íntimo que
ele tinha acariciado fazia um momento.
— Contra meu desejo? — murmurou ela. — Ah, Varian, é um
tolo!
Esme se apoiou contra o ombro dele para estar mais perto,
mas ele pareceu não entender aquele gesto. Com um ofego de
impaciência Esme abraçou-o e pressionou sem vergonha sua boca
contra a de Varian. Ele resistiu um pouco, mas após um momento,

167
deixando escapar um gemido, sucumbiu a seu beijo.
Suas línguas se fundiram e Esme ofereceu seu beijo ainda com
mais avidez que antes. Sabia aonde podia conduzí-la aquilo.
Desejava-o. Desejava que a conduzisse de novo para aquela
vertiginosa escuridão, e logo mais à frente ainda. Muito mais longe.
Agora ela acariciou-o, como ele tinha feito antes. Ele tremia e se
movia intranquilo sob suas carícias, respirando de maneira
entrecortada, sem fôlego. O corpo de Varian respondeu a suas
carícias, como antes tinha respondido o dela. Meio assombrada,
meio sentindo-se triunfante, Esme deixou que suas mãos se
movessem livremente e se sentiu enjoada de poder quando ouviu
que ele começava a gemer.
Então ele se separou dela um pouco.
— Espera.
Oh, não! Agora não! Esme deslizou a mão para baixo, pela
abertura de sua camisa, até chegar à cintura de suas calças.
Agarrou sua mão e a apertou contra o peito. Pulsava-lhe o coração
como se fosse rompante do mar.
— Não — grunhiu ele. — Não sabe o que está fazendo.
— Então, ensina me.
— Não! — Ele se separou bruscamente dela e se ergueu até
ficar sentado. — Não, acredito que já ensinei muito, maldita seja!
— ficou olhando-a fixamente. — Não volte a fazer isto nunca, nunca
mais. Eu não sou sir Galahad, demônios. Estive a ponto de perder a
vida por ser nobre uma vez, mas acredita que resistirei uma
segunda vez, em poucos minutos, e em circunstâncias ainda mais
difíceis?
— Não deveria ter me acariciado de novo — disse ela. — Eu

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disse o que me acontecia.
— Não era necessário que demonstrasse isso! Não percebe o
que está fazendo a mim?
— E você, dá-se conta do que me tem feito?
Ele estremeceu como se ela acabasse de lhe dar uma bofetada.
— Não pretendia… — Varian ficou olhando desolado a seu
redor. — Mas não o fiz, não é assim? Não contra sua vontade,
quero dizer. Isto foi estupidamente cavalheiresco de minha parte.
— Seu olhar cinza, agora mostrando amargura, voltou a posar nela.
— Acredito que será melhor que vá — disse ele.

Capítulo 10

No dia seguinte depois que os bandidos o deixassem com o


padre, chegou outro tipo robusto para juntar-se ao Percival. Seu
nome era Bajo. Conforme havia dito o padre, Bajo era o melhor
amigo de seu tio Jason. Tinha estado seguindo os bandidos,
esperando uma oportunidade para poder libertar o Percival. Na
noite anterior, Bajo tinha ficado de guarda à porta da casa do
padre. Apesar de ser um tipo enorme que falava com grunhidos,
Percival se sentiu completamente a salvo em sua companhia.
Depois de uma longa viagem sob a chuva, chegaram a Berat,
um povoado bastante grande que se estendia das ladeiras até o
topo de uma montanha e ali ficaram na casa de um homem
chamado Mustafá.
Por sorte para o Percival, aquele ancião sabia algo de inglês,
embora com o Percival falasse quase sempre em grego. Enquanto

169
conversavam, a mãe do Mustafá, Eleni, não deixava de oferecer
comida ao Percival. Logo, a anciã e amável senhora, o levou ao
dormitório e o colocou na cama.
Percival dormiu toda a noite, a maior parte do dia seguinte e
boa parte do outro dia. Estava tão terrivelmente cansado que teria
podido dormir toda a semana seguida se no quarto dia que estava
em Berat não tivesse chegado àquela notícia.
Estava terminando o jantar quando aqueles dois homens
entraram em seu dormitório e um sorridente Mustafá anunciou que
sua prima Esme estava viva, e com lorde Edenmont, em um
povoado chamado Poshnja, a umas quarenta milhas ao norte do
Berat.
Quando ainda estava digerindo aquela maravilhosa notícia,
Percival se deu conta de que Bajo não parecia muito contente.
— Bajo me disse que sabia que Esme estava viva — disse
Mustafá depois de uma troca de palavras. — Ele mesmo fez correr
o rumor de sua morte para que não a perseguissem. Lamenta ter
escondido a verdade, mas com tantos espiões por toda parte, não
podia fazer outra coisa. Não obstante, agora que começaram a falar
que ela está viva, em poucas horas terá chegado a notícia a
Tepelena.
Bajo grunhiu umas palavras mais.
— Está zangado com sua prima — disse Mustafá. — Ordenou-
lhe que ficasse no barco. Não só o desobedeceu, mas também foi
muito indiscreta.
Explicou-lhe que tinham ferido um dos homens da escolta de
Esme e que ela tinha montado um novo escândalo. Parecia que
ficariam em Poshnja até que o ferido se recuperasse.

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Não estranhava que Bajo estivesse preocupado. Agora que se
sabia que Esme estava viva e que ainda se encontrava na Albânia,
voltava a estar em perigo.
— Pelo amor do céu! — Percival se levantou na cama de um
salto e agarrou seu alforje. — Será melhor irmos a sua procura
antes que Ismal o faça.
Mustafá fez um gesto com a mão para que ficasse na cama.
— Não se preocupe, Ismal está vigiado de perto em Tepelena,
porque Alí está muito zangado com ele. Agora mesmo Ismal está
muito ocupado tratando de salvar o pescoço de seu próprio primo.
Culpou pelo seqüestro uns exaltados seguidores deles que atuavam
por sua conta. Disseram que os cabeças confessaram sob tortura. É
obvio, que esses homens serem muito ricos e possuírem formosas
mulheres não é mais que uma casualidade. — E logo Mustafá
acrescentou secamente: — E é obvio, agora suas posses estão em
mãos do Alí.
Percival não podia acreditar no que ouvia.
— Ismal está sendo vigiado? Isso quer dizer que é suspeito?
Está esperando que o julguem? Depois de tudo, não se tratava só
do seqüestro. Estou seguro de que as duas coisas estavam
relacionadas. Quero dizer, o assassinato do tio Jason. Não pode ter
sido uma coincidência. Alí não o pode ser enganado. Ninguém pode
acreditar.
— Você não entende esses homens — disse Mustafá em tom
tranquilo. — Ismal é um homem muito persuasivo. Além disso,
assassinar o Jason não combina com sua maneira de atuar. E não
posso acreditar que Ismal atuasse de uma maneira tão pouco
cautelosa. Eu queria bem a seu tio, e meu coração também grita

171
vingança. Mas não vejo nenhuma razão para culpar desse
assassinato o Ismal.
Bajo disse algo que Mustafá respondeu de maneira cortante,
após o que pararam a conversa. Enquanto isso, Percival tratou de
descobrir o que haviam dito.
Evidentemente, ambos acreditavam que Ismal não tinha razão
alguma para assassinar o tio Jason. Certamente também Alí
pensava o mesmo, já que não tinha executado ainda o Ismal. O
que queria dizer que Percival Brentmor podia ser a única pessoa na
Albânia que sabia o que Ismal estava tramando.
Não tinha a menor duvida de que se tratava do mesmo Ismal
cujo nome tinha ouvido em Otranto, e de quem falavam os
bandidos na outra noite. Parecia que aquele era o homem que ia
conseguir derrotar Alí Pachá: influente, matreiro e terrivelmente
inteligente. Terei que advertir ao Alí antes que seja muito tarde e
Albânia se veja metida em uma sangrenta revolução.
Com atraso se deu conta de que Mustafá estava falando com
ele. Gaguejou uma desculpa.
— Bajo tem que partir — repetiu Mustafá. — Pensamos que o
melhor é que fique comigo. Sua prima e o lorde inglês se dirigem a
Tepelena, pensando que poderiam encontrá-lo ali. Mas antes terão
que passar por aqui, pois Berat está em sua rota. Daqui podem
viajar facilmente para o oeste até o Fier, e dali chegar à costa.
Depois poderão tomar outro barco para que os leve a Corfú, que
agora está sob domínio inglês, ou voltar diretamente para a Itália.
Não é necessário que sigam caminho até Tepelena.
Percival tentou apaziguar seu medo.
— Quer dizer que não deveria ir lá, para me encontrar com o

172
Alí Pachá?
Mustafá lançou um olhar a Bajo.
— Acredito que isso não seria muito inteligente. Quanto antes
Esme saia do país, muito melhor.
Bajo já se pôs de pé, evidenciando claramente que desejava
partir.
Percival tratou de pensar com rapidez. Se havia alguém mais
que soubesse algo daquela conspiração que tio Jason estava
tentando descobrir, sem dúvida tinha que ser Bajo. Certamente se
podia confiar nele para dar a informação sobre o Ismal. Mas como
dizer sozinho a ele se não entendia albanês; Mustafá poderia
traduzir, mas possivelmente fosse melhor que não soubesse nada
daquele assunto. Bajo nem sequer havia dito a ele que sua prima
Esme estava viva. Porque havia espiões por toda parte.
Enquanto o robusto albanês dava meia volta para dirigir-se à
porta, Percival voltou a se pôr de pé.
— Por favor, senhor, vai a Tepelena?
— Sim. Tenho que explicar ao visir o que aconteceu.
— Por favor, pode esperar um momento. Oh!, bom, não quero
ser um estorvo, mas tenho que… ah, sim!, Pode me dar um pedaço
de papel e um lápis?
Mustafá ficou olhando surpreso.
Percival se deu conta de que suavam suas mãos. Tratou de não
perder a compostura.
— Com sua permissão, mas é algo muito urgente, e não
acredito que lhe importe, tenho que escrever ao Alí Pachá para
contar… para expressar minha pena por não poder conhecê-lo
pessoalmente.

173
Por sorte, Percival não teve que segurar a respiração durante
muito tempo. A discussão entre os dois homens foi felizmente
breve.
— Bajo está de acordo que é uma ideia excelente — disse
Mustafá. — Alí ficará decepcionado por não poder conhecê-lo, mas
estou certo que o alegrará receber uma nota de seu punho e letra.
Pode ser que isso ajude de algum modo a acalmá-lo, o que faria
um grande favor a Bajo, que assim poderá evitar uma desagradável
fileira de adulações para tratar de apaziguá-lo. — Deu uma
palmada no ombro de Percival. — É um moço muito inteligente e
muito bem educado. Venha, leva-lo-ei a meu escritório. Ali poderá
escrever sua nota com toda tranquilidade. Bajo e eu esperaremos
tomando uma taça de café.
Quase uma hora mais tarde, Percival voltou a reunir-se com os
dois homens. Sem que apenas tremessem suas mãos, entregou a
Bajo duas folhas dobradas.
— Por favor, diga a Bajo que a que leva seu nome é um
presente para ele — disse Percival dirigindo-se ao Mustafá. — É
uma adivinhação que tinha inventado para tio Jason, mas… mas eu
gostaria que Bajo a tivesse. Ao menos como uma forma de dizer
obrigado. Espero que pareça para ele uma adivinhação
interessante. E diga a ele, por favor, que desejo que tenha muito
êxito em… bom, em tudo o que vá fazer.
A tradução daquelas palavras fez aparecer um estranho sorriso
na dura boca de Bajo. Respondeu que Percival era igual a Jason em
muito mais que o aspecto exterior: não só era valente, mas, sim,
também tinha um coração generoso.
Com aquelas palavras, e depois de um quente apertão de

174
mãos, o robusto homem partiu.

Embora Agimi dissesse a todo mundo que estava forte como


dois bois e era completamente capaz de seguir viagem, Esme não
estava de acordo.
De modo que se encarregou da situação, pensou Varian com
resignação. Tinha sido uma pena que aquela mulher não tivesse
estado há alguns anos na Inglaterra, para parar os pés de
Napoleão. Inglaterra e seus aliados teriam evitado um montão de
problemas.
Tinha conseguido claramente desfazer-se de sua excelência,
não era assim? «Não pode deixar a mim. Não quando me olha
dessa maneira ou quando me toca dessa maneira.» Era a tentação
maior que podia enfrentar qualquer homem. Ofereceu a si
mesma…, se é que queria aceitar toda a responsabilidade de ter
arruinado sua vida.
Possivelmente ela não tivesse nem ideia do desesperadamente
que a desejava naquele momento. Mas o que até então havia
sentido Varian não era nada comparado com o que sentiu no
momento em que soube que ela também desejava a ele.
Estava doente por ela.
Queria matá-la.
Queria matar a todo mundo, e especialmente ao Percival,
porque se não tivesse sido por aquele condenado menino, Varian
jamais teria posto os olhos nela.
É obvio que lorde Edenmont não era capaz de matar a
ninguém, e tratou de evitar qualquer troca de palavras azedas,
exceto com o Petro. Durante os quatro dias que permaneceram em

175
Poshnja. Pelo contrário, deu a si mesmo a cada manhã uma boa
lição no rio e tentou exorcizar sua frustração a base de exercício.
Visitou todas as casas do povoado acompanhado de seu anfitrião e
do Petro, e passou horas neles contando anedotas sobre seu país e
sobre seus compatriotas, especialmente lorde Byron, de quem
todos tinham ouvido falar.
Quando se cansava de tanto Byron, lorde Edenmont entrava
no personagem de lorde de um senhorio e se dedicava a dar seus
deploráveis e limitados conselhos sobre defesa, agricultura e
arquitetura. Seu pai tinha inculcado — em ocasiões a golpes, —
algumas noções de agricultura que Varian, quando era interrogado
por seus anfitriões, desempoeirava e tirava de algum escuro canto
de sua mente.
Chegou até a submeter seu atormentado corpo ao trabalho
físico. Para surpresa de todos eles e vergonha de alguns. O barão
inglês ajudou o filho de Hasan a reparar o moinho, que tinha
sofrido sérios danos durante as últimas tormentas. Enquanto
trabalhavam na reparação, outra tormenta sobre eles sem prévio
aviso, e Varian se encharcou antes de poder encontrar um lugar
onde refugiar-se. Na manhã que se preparavam para abandonar
Poshnja, levantou com a garganta ardendo e uma boa dor de
cabeça.
Esme deu uma olhada crítica a seu rosto cinzento e anunciou
que não poderiam partir até que estivesse melhor de saúde.
Varian se separou dela, jogou a bolsa de viagem ao ombro,
agarrou a jaqueta do cabide de um puxão e pôs-se a andar saindo
da casa.
— Não está em condições de caminhar — gritava ela correndo

176
atrás dele. — Está começando a chover de novo e vai pegar um
bom resfriado e…
— Não penso passar nem um minuto mais nesse lugar —
declarou ele.
Sem falar, Esme subiu no cavalo e deixou que Petro
comunicasse ao Hasan o agradecimento e a despedida do barão.
Quando se detiveram para comer ao meio-dia, a garganta de
Varian podia tragar o suficiente para que comer se convertesse em
uma tortura. Entretanto, podia beber rakí, o que destroçou seu
estômago. E quando voltou a subir no seus arreios, estava
tremendo de pés a cabeça.
Berat estava só a cinco milhas dali, cinco elevadas milhas,
costa acima na montanha, sob um aguaceiro. Com uma careta de
dor no rosto, Varian seguiu cavalgando, sentindo a momentos
calafrios e a momentos ardendo de calor.
Aquelas horas pareceram eternas. Quase não pôde ver o
povoado, pois estava coberto por uma névoa espessa. Mas ouvia as
vozes, e ao dar-se conta de que o grupo se deteve, saltou de seu
cavalo. Olhou para o chão e pareceu que a terra se abria sob seus
pés e logo cambaleava traiçoeiramente.
Um terremoto, pensou. É obvio. O que outra coisa podia ser?
Alguém gritou seu nome. Era a voz de Esme. Varian voltou a
cabeça naquela direção e o mundo pareceu mover-se de lado a
lado, logo desapareceu sob seus pés e caiu dos céus.

Varian abriu os olhos em meio de uma espessa névoa. Piscou


sem poder enfocar a visão. Tinha que ser um sonho: uma ladeira
de uma alta montanha, uma correnteza e uns carvalhos. Não. A

177
cinza escuridão eram os olhos dela. Mas não podiam ser tão
escuros, com tanto medo. Ela nunca tinha medo.
— Eu sinto muito — disse ele com um tom de voz que soou
como um grasnido. Tão horrível soava sua voz?
— Ah, agora o sente — disse ela colocando uma mão fria sobre
a fronte. — Só porque está doente e tem febre. Se não estivesse
tão doente daria uma boa surra em você.
Sorriu. Incomodou. Tinha os lábios ressecados.
Sentiu que se afundava de novo. Esme colocou-lhe um braço
nas costas e o levantou, enquanto punha umas almofadas debaixo
de sua cabeça para que se acomodasse. O quarto parecia mover-se
a seu redor, mas logo se deteve e ele pôde enfocar a vista.
Ao cabo de um momento, um aroma mais nauseabundo chegou
ao nariz. Varian olhou para baixo. Uma colher. Grunhiu e voltou a
acomodar a cabeça sobre os travesseiros. Logo fez uma careta de
dor quando uma mão forte agarrou sua cabeça.
— Não é veneno — disse ela. — É um caldo de frango e alho.
Beba isso se não quer que chame o Petro e ao Mati para que o
segurem enquanto o faço engolir isso à força.
— Sim, Esme — disse ele obediente, enquanto se erguia de
novo para aceitar a colher que ela aproximava dos lábios.
Embora odiasse que tivessem que dar-lhe de comer, odiava
mais ainda sentir-se impotente, como um menino. Ela o fazia
sentir-se muito frequentemente como um menino. Exceto quando
ele a tinha entre os braços. Mas nesse momento nem sequer podia
levantá-los.
— Não sou um menino — disse ele.
— Quando eu estou doente, sou como uma menina pequena —

178
disse ela administrando outra colherada. — Zangada e impaciente.
Uma vez atirei na cabeça de meu pai uma tigela de sopa na cabeça,
mas acabei chorando de desgosto enquanto ele ria.
— Não posso imaginar que tenha estado doente alguma vez.
— Foi quando tiveram que tirar a bala da perna. Tive que ficar
de cama durante semanas. Isso faz dois anos.
Varian fechou os olhos por um momento. Aquela noite havia
tocado a cicatriz que tinha na coxa…, quando suas mãos tinham
explorado quase todo o corpo de Esme. Quis beijá-la. Desejou ter
estado ali dois anos antes para cuidar dela. Desejou que tivesse
atirado a tigela na cabeça dele. Mas não podia dizer-lhe. Não sabia
como explicar nem sequer a si mesmo.
— Mas você tem que tentar ser um pouco mais amável —
seguiu dizendo ela, — porque tenho boas notícias. Meu primo
Percival está aqui. Encontra-se bem e está desejando falar com
você. Mais tarde. Disse-lhe que precisa repousar.
— Percival? Aqui?
— Sim. Bajo o encontrou, como já disse que faria, e o trouxe
aqui, a esta mesma casa, onde Mustafá esteve cuidando dele muito
bem. Deve ficar bom logo porque o menino não tem a ninguém
mais que a mim com quem falar, e já está me dando dor de cabeça
de tanto ouvi-lo.
— Sim, tenho que ficar bom depressa para poder dar uns bons
açoites nele — disse Varian.
— Descansa e come. Vou contar uma história.
Ele aceitou uma atrás de outra as colheradas de sopa que Esme
oferecia, enquanto lhe contava coisas de sua vida. Em um tom de
voz baixo e musical começou a falar dos anos que tinha passado no

179
norte, perto da Shkodra. Naquela zona governava outro pachá, e
era um território mais seguro que o do Alí, que naquela época
estava imerso em lutas internas e sanguinárias. Ali, entre as altas
montanhas, disse Esme, ainda funcionava o severo Canon do Lek,
umas leis que vinham passando durante séculos de geração em
geração, e que datavam da época do herói Skanderberg, do século
XV. A fúria das inimizades familiares que funcionava por toda
Albânia era costume saldar-se com vinganças das vítimas.
Entretanto, no norte, as normas eram muito concretas e cumpridas
estritamente ao pé da letra. Era um lugar muito duro para as
mulheres, disse, mas era uma terra formosa.
Tinha vivido na região da Shkodra durante cinco anos, que era
a época mais longa que tinha permanecido seu pai em um mesmo
lugar. Não é que se instalou ali realmente. Deixava-a com uns
amigos quando tinha que viajar pelos longínquos e extensos
territórios do Alí, fazendo tudo o que podia para manter a ordem e
persuadir às ferozes tribos independentes de que se unissem entre
si. Antes da Skhoda, tinha passado dois anos no Berat e seus
arredores. Antes disso, três no Girokastro, onde tinha morrido sua
mãe — embora depois tivesse continuado visitando aquela cidade
frequentemente, pois ali viviam seus avós. — Korce, Tepelena,
Ioanina. Mas dessas cidades — ela disse — não se lembrava muito
bem. Da Ioanina não se lembrava absolutamente, porque tinha
estado ali quando era uma menina. Jason tinha conhecido nessa
cidade a sua mãe, quando ela era uma jovem viúva. Lá tinha dado
Alí para Jason, umas polainas de guerra, em recompensa pelos
serviços prestados. Foi a única mulher que aceitou do Alí. chamava-
se Liri.

180
Varian engolia distraído o que poderia ter sido um caldeirão
daquele fedorento e odioso caldo enquanto a escutava. Não era só
que o relato afastasse sua mente de seu miserável estado físico e
da garra que parecia esmagar seu crânio. Escutava-a porque era a
vida de Esme. O que tinha feito, o que tinha sido, os lugares que
tinha conhecido. E ele tinha vontade de saber, de conhecê-la
melhor. Queria chegar a conhecer todos os seus segredos.
No final, ela deixou a colher de lado e Varian suspirou com
alívio.
— Lamento que você não goste da sopa — disse ela. — E me
alegro que tenha sido bastante bom para tomá-la de qualquer
modo. Agora seu corpo poderá resistir muito mais à enfermidade,
encher-se-á de forças.
— Meu corpo está agora cheio de alho — queixou-se ele. —
Cheiro a alho.
— Sim, e irá exalando pela pele e o suor levará a enfermidade.
Agora tente dormir.
— Não tenho sono — disse ele.
— Contei a você a longa e aborrecida história de minha vida e
não ficou com sono? — Esme ficou olhando fixamente. — Claro que
tem sono — disse ela. — Não deixa de piscar para manter os olhos
abertos. Fecha-os — acrescentou posando um de seus dedos entre
as sobrancelhas dele.
— Quero vê-la — disse Varian.
— Não é necessário que me olhe. Não penso ir a nenhuma
parte, nem colocá-lo em mais problemas. Não se preocupe.
Mas Varian não podia evitar estar preocupado. Sabia que a dor
de cabeça e a febre tinham ofuscado sua mente, mas tinha medo

181
de fechar os olhos porque poderia ser que quando despertasse ela
tivesse ido.
E então, como poderia voltar a encontrá-la?
Tampouco podia resistir a suave pressão de seu dedo entre as
sobrancelhas, nem às quebras de onda de paz e tranquilidade que
aquela carícia fazia fluir pelos duros músculos de seu rosto. A garra
que apertava seu crânio pareceu afrouxar-se um pouco, e o mundo
começou a converter-se em uma suave e leve corrente de veludo,
fria e escura. Sentiu-se sonolento, mas alguma parte de sua mente,
nadando pelas profundidades daquela corrente, ficou presa no
relato dela. Esteve contando os anos. Cinco passados na Shkodra,
dois em… onde? Em outra parte. Outros lugares. Quantos anos?
Não era capaz de recordar. Notou que obscurecia sua mente e
afundou naquela aveludada corrente de paz.

Após três dias, lorde Edenmont estava bastante recuperado,


mas Esme continuava cuidando-o com diligência. Não era muito
exigente. Tomava seu remédio quase sem queixar-se e comia tudo
o que lhe dava. De qualquer modo, a maior parte do tempo
passava dormindo. Isso deixava a ela tempo para fazer outras
coisas, como ajudar à mãe do Mustafá, quando não estava ocupada
cuidando dele, a remendar roupa, recolher legumes ou pentear a
lã. Esme não tinha vontade de continuar conversando com seu
primo, e essa era a única forma educada que tinha de evitá-lo.
Normalmente Percival fazia companhia a ele, mas enquanto
lorde Edenmont dormia, o menino tinha que ficar calado e em
silêncio. E a verdade é que se comportava surpreendentemente
bem por ser quase um menino. Às vezes tirava de sua bolsa de

182
pele meia dúzia de pedras e se dedicava horas às estudar, tomando
de vez em quando nota no papel que Mustafá lhe tinha dado.
Embora mais frequentemente o menino passasse o tempo sentado
e lendo um dos livros do Mustafá.
Percival tratava de não incomodar ninguém, mas mesmo os
breves intervalos nos quais ficaram a sós, ele tinha contado o
suficiente para que Esme estivesse preocupada.
Estava empenhado em querer levá-la a Inglaterra com ele. Era
dolorosamente claro quanto o desejava, embora afirmasse que isso
era o que tinha pedido sua mãe que fizesse. Quando o menino
falava de sua mãe, Esme sentia que doía seu coração por ele.
Percival falava pouco de seu pai, mas ela não necessitava mais
que ouvir quatro palavras e dar uma olhada aos olhos do menino
para entender que seu pai não era uma pessoa que o amava. Como
ia ser de outra maneira, se tinha deixado seu único filho a cargo de
um libertino irresponsável?
Isso deixava o menino sozinho, com uma velha bruxa por avó
que se negou a escrever uma só palavra amável ao Jason, o filho
que não havia tornado a ver durante mais de vinte anos. O menino
não tinha ninguém.
E estava bastante desesperado por travar contato com Esme,
mas a quem necessitava de verdade era o Jason.
E Jason estava morto.
Olhava o Percival e via o vivo retrato de seu pai. Olhava-o e via
solidão. Quando o menino a olhava, Esme sabia que queria
encontrar nela uma irmã.
Era inteligente, até mesmo divertido e de uma natureza
amável. Ela teria desejado poder ser uma irmã para o menino.

183
Combinavam bem juntos. Havia entre eles um vínculo. Isso era
algo que tinha notado desde os primeiros cinco minutos que tinham
estado juntos em Berat: o parentesco e algo mais, certa afinidade.
Mas o destino tinha previsto que ela ia causar-lhe dor, e não
havia nenhuma maneira de prepará-lo para isso, nenhuma maneira
de dizer amavelmente que não estava disposta a acompanhá-lo a
Inglaterra. Ele teria que seguir seu caminho sozinho, da mesma
maneira que ela tinha que levar sua carga sozinha. E embora
sentisse pena pelo Percival, Esme pensou que essa pena era
saudável. Recordava-lhe o dever que tinha que cumprir.
Durante um tempo, muito tempo, ela tinha deixado que um
vergonhoso deslumbramento a separasse do dever que tinha que
cumprir. Mas agora não. A partir de agora se concentraria só na
maneira de levar a cabo sua vingança. Não seria suficiente matar o
Ismal. Tinha que fazê-lo sofrer horrivelmente, em corpo e alma,
antes de matá-lo. Pagaria com seu sangue pela morte do Jason,
sim, mas antes teria que pagar pelo dano que tinha feito a seu
primo, um menino que necessitava do Jason quase mais que ela
mesma.
Esme não se permitiu pensar em nada mais enquanto os dias
passavam convertendo-se em semanas. Esquivou-se das tentativas
de seu primo de aproximar-se mais dela, e pensou que seria
melhor assim. Viu como lorde Edenmont estava se recuperando,
podia voltar a ouvir em sua voz o timbre irônico de sempre, e seu
coração seguia pulsando por ele, também como antes. Não podia
permitir-se abrigar nenhum sentimento por nenhum dos dois, nem
dar-lhes nada de si mesma. Ela tinha que cumprir seu próprio
destino. Eles partiriam logo. E seria melhor assim.

184
Capítulo 11

Rodeada de montanhas, Ioanina se estendia pela ladeira leste


do monte de São Jorge, de onde tinha uma impressionante vista do
lago Ioanina. Entre o lago e as montanhas se estendia um
promontório que elevava-se como se saísse das águas. Nessa
estreita rocha quadrada estava localizada a vasta fortaleza do
palácio de Alí Pachá e a cidade prisão, os edifícios oficiais, o
cemitério, a mesquita e as miseráveis palhoças da população judia.
Uma ponte conectava a grande porta da cidade com a pequena
esplanada, o lugar onde se levavam a cabo as execuções que dava
ao bazar, ao mercado central.
O bazar de Ioanina representava, tão econômica como
geograficamente o lugar mais baixo da cidade, com suas sinuosas e
mal pavimentadas ruas repletas de lojas. Além das lojas, as ruas
avançavam até a borda do lago, onde viviam os mais pobres.
Também tinha vivido as últimas semanas naquele bairro, no mais
tranquilo anonimato, Jason Brentmor.
Depois de sua suposta morte, disfarçou-se de camelô e se
dirigiu para o sul, aonde o descontentamento da população ia dia a
dia aumentando. Queixas que tinha ouvido durante sua viagem
eram já conhecidas. Um oficial de Alí que tinham roubado, ou
derrubado a pedradas, ou que tinha sido vítima de algum tipo de
insulto, e um grupo de inocentes do lugar que seriam castigados
por isso. Os castigos podiam ir das amáveis reprimendas até a
mutilação e a execução. Quando os aldeãos elevavam sua voz para
denunciar uma injustiça, o oficial, sem dúvida aguilhoado pelas

185
mesmas víboras que tinham causado o problema, estava
acostumado a responder com uma brutalidade maior. Como
resultado, muitas cidades e povos do sul eram um fervedouro de
conflitos.
Durante sua viagem para o sul, Jason tinha estado escutando
as queixa dos aldeãos enquanto os aconselhava que tivessem
paciência. Ao final, tinha enviado um amigo de confiança para que
se apresentasse ante o visir de Tepelena e pedisse ao Alí para que
substituísse seus oficiais e pacificasse desse modo à região. Não
estava muito seguro de que Alí fosse agir seguindo seu conselho. E
embora o fizesse, provavelmente então seria muito tarde.
Uns quantos agitadores e uma partida de armamento podiam
converter um alvoroço em uma franca rebelião, como já tinha
acontecido antes tantas vezes na Albânia. Dado o atual nível de
descontentamento, terei que esperar que logo cheguem as armas.
«Terei que agir depressa. Jason imaginava que poderia ser questão
de semanas. E certamente as armas chegariam a um dos portos do
sul. Mas a qual? »
Esteve fazendo essa mesma pergunta durante as últimas
semanas. Afastando o prato do jantar para um lado, Jason se
aproximou da estreita janela. Fazia cinco dias que chovia sem
cessar. Já era meados de outubro. O tempo passava depressa e
Bajo ainda não tinha chegado.
Por isso sabia, no sul podia estourar uma revolta sangrenta a
qualquer momento… E Esme e Percival se veriam envoltos na
mesma. Jason tinha ouvido falar da chegada do Edenmont com o
menino a Albânia, e do que tinha acontecido depois, mas não podia
fazer nada a respeito. Uma frenética corrida para o norte ia

186
resultar, no melhor dos casos, numa grande perda de tempo. E o
que era pior, poderia pôr em perigo a vida de seus amigos assim
como a dos familiares destes. Jason não tinha nem ideia de quais
medidas Bajo e seus demais camaradas teriam podido tomar a
respeito. Sua interferência, — mesmo se preparado para interferir
sem ser reconhecido — poderia enviar ao traste qualquer plano
que seus amigos tivessem em marcha. Não podia correr esse risco,
embora odiasse ter que ficar ali, esperando e sem poder ajudar de
maneira nenhuma.
Só o que o tranquilizava era saber que Alí não tinha acusado o
Ismal do assassinato do Leão Vermelho nem tinha tomado contra
ele uma vingança sangrenta. Jason tinha contado com a cobiça de
Alí e a inteligência de Ismal para evitar essa catástrofe. Os rumores
que corriam entre os aldeãos confirmaram que tinha julgado o
assunto corretamente.
«Ismal havia dito que poderia ser o trabalho de alguns
seguidores exaltados que teriam atuado por conta própria — como
havia dito um ancião. — Eu não sei quem matou o Leão Vermelho,
mas sei que Alí se conformou culpando às pessoas que tinham
acusado Ismal, sobretudo para poder ficar com suas riquezas e
suas mulheres. Há quem diz que deveria ter executado Ismal,
porque seus seguidores não teriam se atrevido a agir sem sua
permissão. Mas eu sei que Alí não ia matar a galinha dos ovos de
ouro. Ismal sabe que pode fazer o que quiser, porque logo poderá
aplacar a ira do Alí se alimentar sua cobiça.»
Mas durante quanto tempo mais poderia Ismal seguir
aplacando a ira de seu primo? Jason soltou uma maldição. Que
demônios importava isso? Naquele momento tanto Esme quanto

187
Percival estavam em perigo. Estava repreendendo a si mesmo
amargamente por haver ficado em Ioanina sem fazer nada, quando
ouviu que alguém batia na porta e logo uma familiar voz rouca o
chamava por seu nome falso.
Após um momento, o robusto Bajo estava sentado a mesa
baixa, e dando boa conta da parte do pescado e do pão de milho
que Jason não tinha podido comer.
Bajo deu um gole à garrafa de vinho e limpou a boca com a
manga.
— Devia ter feito o que me recomendou e dar um bom murro
na sua filha para levá-la inconsciente ao barco — disse ele. —
Embora temo que não teria servido de nada. Está claro que o
destino está conspirando contra nós, porque eu, que daria a vida
por você, parece que desde que o deixei não tenho feito nada mais
que dar passos em falso.
Apesar do começo de seu discurso, que não pressagiava nada
bom, Jason estava disposto a esperar que seu amigo tivesse
acabado de comer para escutar o resto da história. Mas Bajo
parecia que precisava se desafogar ao menos tanto como precisava
encher a pança. Assim ficou a falar enquanto comia.
Aquela história, que parecia afligir tanto a Bajo, tinha deixado
Jason grandemente mais tranquilo. Certamente Esme já teria
chegado a Berat. Pode ser que ela e Percival estivessem já a
caminho da costa oeste, bem protegidos pelos homens do Maliq ou
inclusive que já tivessem embarcado. Ela estaria viajando com um
primo claramente disposto a sair-se bem, e empenhado em que se
fizesse realidade o último desejo de sua mãe de mandar a garota
para a Inglaterra. De maneira que Jason tratou de tranquilizar

188
também seu amigo.
— Não acredito que tenhamos que nos preocupar com o fato de
que Edenmont possa causar problemas — acrescentou Jason. — É
possível que não o importe absolutamente o que possa acontecer
com Esme, mas se preocupará muito com seus próprios interesses.
Certamente estará ansioso por abandonar o país e terá que levar a
Esme com ele, queira ou não. Tanto Mustafá como Percival se
encarregaram de que assim seja.
— Isso pedi a eles, Leão Vermelho — disse Bajo. — Mas
acredito que cometi um grande engano ao fazê-lo com tanta
pressa.
Tirou da cartucheira um pedaço de papel. Colocando-o sobre a
mesa diante do Jason, explicou-lhe seu último encontro com o
Percival.
— Não tive tempo de dar uma olhada até depois de deixar ao
Alí — explicou Bajo. — Mas depois ouvi muitas coisas, e cada noite
que voltava a olhar a nota aumentava um pouco mais minha
surpresa.
Jason ficou um bom momento olhando o papel. Não era
nenhuma adivinhação. Percival tinha desenhado um barco com um
corvo negro em uma das velas. Por cima havia um pouco mais de
negro e algumas estrelas. No mastro tinha desenhado um rifle. E
tinha escrito em letras gregas o nome de «Preveza». Debaixo tinha
escrito um «um» com um sinal de interrogação, e logo o número
«onze». Na parte inferior da página tinha desenhado um coração
negro e dentro dele a palavra «MALIS».
— Isto é incrível — murmurou Jason.
Mas todos os dados que possuía e tudo o que tinha contado

189
Bajo o obrigavam a acreditar no menino. Seu sobrinho de doze
anos tinha enviado a resposta a sua urgente pergunta. Preveza, um
porto do sul, era o lugar do destino do contrabando de armas. Os
números podiam indicar a princípios de novembro, dentro de umas
duas ou três semanas, como ele tinha suspeitado. O corvo e a noite
sem dúvida significavam o nome do barco. Uma maneira muito
inteligente de contá-lo. As autoridades britânicas poderiam
identificar o barco e detê-lo antes que chegasse ao porto de
Preveza.
Jason ergueu a cabeça.
— Deveria ter imaginado que Percival teria alguma razão muito
urgente para vir a Albânia. Ouviu-me falando com sua mãe dos
problemas que temos aqui, sabe? Só o que me ocorre pensar é que
em algum lugar da Itália pôde ter escutado alguma conversação
suspeita e decidiu vir aqui para me contar. Quando acreditou que
tinha morrido, pensou que seria conveniente passar a informação a
você.
— Só o que tinha me ocorrido era que esse menino tinha visões
— replicou Bajo. — Esse papel nos conta tudo, inclusive o nome do
traidor: Malis, quer dizer Ismal. E tudo feito de uma maneira tão
cautelosa, Leão Vermelho. Não disse nenhuma palavra de tudo isso
diante do Mustafá. Nem um só detalhe na carta que me deu para o
Alí…, quem traduziu isso foi Fejzi, uma pessoa de toda confiança.
— A carta para o Alí não era mais que uma desculpa para poder
escrever uma nota para você antes que partisse. Percival sabia
muito bem que não valia a pena advertir o Alí por carta, porque
Ismal poderia estar presente quando a lesse.
O extraordinário filho de Diana tinha pensado em tudo.

190
— Mesmo assim, seu sobrinho está em poder de uma
informação muito perigosa. Não deveria tê-lo deixado em Berat.
— Se o tivesse levado com você para Tepelena, como no
princípio tinha pensado fazer, Esme teria tido a desculpa perfeita
para ir também com você — assinalou Jason. — E então teríamos
uma boa razão para nos preocupar. Porque nós dois sabemos por
que abandonou o barco com a intenção de dirigir-se a Tepelena.
— Sei, Leão Vermelho — disse Bajo com voz cansada. — A
pequena guerreira quer fazer Ismal pagar com seu sangue.
— Agora já não tem nenhuma desculpa para aproximar-se de
Ismal. Mustafá cuidará para que Edenmont os leve a ela e ao
Percival para o sul, e que abandonem o país o antes possível.
— De qualquer modo, deveria ter ficado em Berat para me
assegurar de que todos fariam como ordenei.
Jason estalou a língua.
— Se tivesse ficado ali, agora eu não teria esta nota em minhas
mãos. Teria passado semanas tentando descobrir essa informação,
e certamente em vão.
Jason amassou a nota e atirou ao fogo. Após alguns segundos
não restava da nota de Percival mais rastro que um monte de
cinzas que subiam empurradas pela fumaça.
Jason deu meia volta e seu olhar cruzou com o preocupado
olhar de Bajo.
— Amanhã sairemos para Corfú — disse Jason com firmeza. —
Temos que notificar o que sabemos às autoridades britânicas,
encontrar o barco e seguir os rastros dos agentes de Ismal. Esme
está protegida por um punhado de homens decididos a tirá-la do
país, homens a quem Ismal não terá vontade de enfrentar. Só quer

191
tê-la em seu poder para poder me controlar, e recorda que supõe
que estou morto. Agora Ismal terá posta toda a sua atenção no sul
da Albânia. E quero que siga mantendo-a ali. Deixemos que veja de
que maneira esse monstro que com tanto trabalho criou é
desmembrado e feito em pedaços ante seus olhos. Agora podemos
conseguir, Bajo. Percival nos deu a chave para fazê-lo. — Jason
sorriu. — E vai se sentir terrivelmente decepcionado se não a
utilizarmos.

Capítulo 12

— Está seguro de que não quer vir? — Perguntou Percival pela


enésima vez. — A prima Esme diz que um passeio faria bem a
você.
Varian estava de pé na soleira da porta de Mustafá, com o
olhar perdido no estreito caminho pelo qual entravam Mustafá, Mati
e Agimi.
A casa de Mustafá estava situada na parte alta do bairro do
Magalen, um povoado localizado na base de uma montanha
rochosa na borda esquerda do rio Osum. Suas casas de pedras se
agrupavam pela colina formando estreitas e sinuosas ruas.
Entretanto, não estava longe de Berat. Na parte alta da
montanha havia uma fortaleza voltada para o precipício. Suas
muralhas albergavam várias Igrejas e o palácio de Ibrahim, o oficial
do pachá em Berat, atualmente encarcerado em uma das prisões
de Alí, em Girokastro, muitas das quais se edificaram com pedras
de muito antigas.
Antigas ou não, Varian não estava disposto a castigar seu

192
recém recuperado corpo com uma longa e quase perpendicular
escalada por aquela montanha.
— O que sua prima quer dizer é que faria bem ver-me cair do
alto de um penhasco até o fundo do rio, onde minha cabeça ficaria
em pedacinhos— disse ele.
— Pelo amor de Deus, estou certo de que a prima Esme não
desejou tal coisa, e mesmo que o fizesse, embora seja uma simples
hipótese, não acredito que o exporia de uma maneira tão
rocambolesca. Não é uma pessoa que diga as coisas com tantas
indiretas. Mas, é obvio que não era isso o que queria dizer. Não me
parece lógico que tenha estado cuidando de você durante duas
semanas para que agora deseje tanto mal. Obviamente…
— Estava tentando me acalmar com uma falsa sensação de
segurança — murmurou Varian.
— O que quer dizer com isso, senhor?
— Nada. — Varian percebeu o olhar intrigado do menino. — Só
estava brincando. Não estou delirando, Percival, eu garanto. Vá
agora, os outros estão esperando. Eu prefiro ficar aqui olhando.
Percival ficou pensando um instante. Logo deu de ombros e
pôs-se a correr. Após um momento, Varian perdeu de vista as
quatro figuras que foram rapidamente engolidas por uma rua entre
as apinhadas casas brancas da ladeira.
Varian pensou que Berat era um lugar formoso, a sua maneira,
com suas casas de pedra que pareciam crescer da rocha cinza da
montanha como se fossem pérolas brancas. Mustafá havia dito que
aquele lugar tinha mais de duzentos anos de existência. Tinha
sobrevivido a centenas de batalhas, conquistas e destruições. Tinha
sido reconstruído e voltado a reconstruir em muitas ocasiões, mas

193
seguia teimosamente obstinado à dura pedra da ladeira. Igual ás
pessoas do lugar, pensou Varian.
No céu podiam ver-se naquele dia alguns claros, embora
enormes massas de nuvens cinzas cruzassem por momentos sobre
sua cabeça, empurradas pelo vento gelado. Não era um céu como
os que se viam na Inglaterra. Aqui o céu sempre parecia estar
muito mais longe e as nuvens eram mais selvagens. Até a enorme
massa de pedra coroada pela antiga fortaleza parecia estar
animada. Percebia-se ali uma presença tumultuada, como se ainda
habitassem nessa paragem os antigos deuses. Mesmo em meio
daquela paisagem tranquila se sentia uma tormenta de emoções
que arrebatava os sentidos.
Era aquele sítio, disse Varian a si mesmo, e algo que se notava
no ar. Tinha a sensação de estar aprisionado por aquilo, como se
estivesse sob os efeitos de algum tipo de droga. Quando partisse
dali, voltaria a sentir-se livre de novo.
Apoiou-se no marco da porta e fechou os olhos. Quando tinha
saído da opressiva névoa da febre e da dor atormentadora sentiu-
se surpreendentemente lúcido e forte. Tinha sorrido e Esme por sua
vez tinha sorrido para ele. Mas o sorriso dela era tão impenetrável
como as inesquecíveis montanhas de Berat. Embora fosse amável e
agradável, e diligente nos cuidados para com ele, parecia esconder-
se atrás de um sorriso e de um olhar de olhos verdes que não
diziam nada.
Ao princípio Varian pensou que aquela mudança poderia ser
causada pela presença de Percival, que estava todo o tempo a seu
lado e não deixava de falar nem um momento. Mas conforme
passavam os dias, cada um mais lentamente que o anterior, Varian

194
acabou percebendo que a causa daquela mudança na atitude de
Esme não era Percival.
Também tinha entendido com uma compreensão que tinha
chegado lentamente, mediante uma série de pequenos e
impactantes momentos que nada do que ele pudesse dizer ou fazer
ia ter algum efeito sobre ela. Sentia-se como se o que ele dizia ou
fazia não fosse mais que um pouco de imaginação dele, enquanto
que para ela ele não fosse mais que um objeto inanimado que teria
que cuidar ou examinar, tal e como Percival estava acostumado a
fazer com suas pedras.
Aquela sensação o fez sentir-se ansioso e zangado ao princípio,
logo se sentiu miserável, e agora, estava simplesmente resignado.
Miseravelmente resignado. Sentia-se tão desesperado como
certamente tinha que estar. Era melhor assim. Que outra coisa
tinha esperado?
Ouviu uns passos e abriu os olhos, mas só se tratava do Petro,
que voltava pelo caminho de pedras do bazar, andando a grandes
pernadas e murmurando algo entre dentes. Umas semanas antes
de sua chegada tinha passado por ali um oficial de Alí, junto com
seu enorme séquito, e tinham levado os melhores cavalos do
povoado. Mustafá tinha ouvido que hoje haviam devolvido por fim
os cavalos, e Petro tinha ido com um dos familiares dele para
assegurar-se de que os animais estariam preparados para sua
viagem para o oeste. O gordo marinheiro, como sempre, tinha
tentado procurar alguma desculpa para evitar aquele trabalho.
— Já os devolveram? — perguntou Varian ao Petro enquanto
ele se aproximava.
— Sim, valha-me Deus! Embora não em tão bom estado como

195
quando nós os trouxemos para esse maldito lugar.
— Esme me disse que devemos mandar ao Maliq. Necessita
deles.
— Sim, claro. E se na metade do caminho para Fier ocorrer a
ela que alguém necessita desses cavalos, vai fazer-nos seguir o
resto da viagem a pé; mas se cair morto de cansaço pelo caminho,
terei que me alegrar e tudo, porque desse modo irão se acabar
todos os meus sofrimentos — disse Petro, e soltando um sonoro
gemido se sentou em um banco de pedra que havia ao lado da
porta.
— Não seja ridículo. Se a duras penas permitiu que seu jovem
primo faça hoje uma dura excursão pela montanha.
Petro ficou olhando com os olhos muito abertos.
— Não tem conhecimento. Essa garota não está bem da
cabeça. O vejo nos olhos. Habita nela um espírito diabólico, e estou
seguro de que sobre ela caiu alguma maldição. Tudo ia bem até
que a encontramos em Durrës. E em um instante, em menos de
cinco minutos, caíram-nos em cima todo tipo de calamidades; e
desde então não deixaram que nos perseguir os problemas. No rio
Shkumbi, na Poshnja, e aqui mesmo, onde esteve gravemente
doente.
Não estava bem da cabeça. Isso era… Não, mas o que fazia
escutando as sandices que dizia aquele gordo e supersticioso
bêbado?
— No momento, eu tenho intenção de fazer o que quero fazer
— falou Varian. — O que me parece que também está de acordo
com seus desejos: que partamos da Albânia o antes possível.
— Mas eu não tenho nenhuma vontade de partir daqui com ela

196
— se queixou o marinheiro. — Deixe que vá por seu caminho e que
leve com ela sua maldição.
— Os homens que resgataram o Percival querem que a
levemos até Corfú. E isso é o mínimo que posso fazer por eles —
respondeu Varian impaciente.
E depois? Percival tinha metido na cabeça levar a Esme a
Inglaterra com ele, o que era ridículo. Não podiam se apresentar
com aquela moça ante sir Gerald. Não valia a pena nem explicar-
lhe disse Varian a si mesmo. Era absurdo. Mustafá havia dito que
Jason tinha amigos em Corfú. Eles cuidariam da garota. Eles se
encarregariam de resolver todo o assunto. Esme não podia ficar na
Albânia, isso era certo. Só o que a esperava ali era violência e se o
amante que a perseguia tiver êxito, degradação e escravidão.
— Mas ela não quer ir — disse Petro. — Ela quer seguir
metendo-se em problemas. Posso sentir. Vejo nos seus olhos. Seu
primo fala, e ela sorri e responde com delicadeza, mas em seus
olhos… — Petro deixou escapar um suspiro teatral.
Discutir com aquele homem era uma perda de tempo, e Varian
não sabia por que estava se incomodando em fazê-lo. Depois de
tudo, ele era o chefe ali.
— Não tem frio? — Perguntou-lhe Varian. — Acredito que um
pouco de exercício faria bem a você. Por que não começa a fazer a
bagagem? Se já temos os cavalos, não há razão para que fiquemos
aqui nem um dia mais.
Varian se cobriu com a capa e, sem fazer caso do fulminante
olhar que lançou-lhe o marinheiro, nem a suas maldições entre
dentes, pôs-se a andar pelo caminho que conduzia ao bazar.

197
Varian não se aventurou nunca antes por nenhum lugar da
Albânia sem um intérprete. Entretanto, não estava de humor para
aguentar as queixa lacrimosas de Petro. Agimi e Mustafá se foram
com o Percival, e Esme estava encerrada em casa. Preparava
algum tipo de beberagem para a Eleni, quem tinha dores nas
articulações. Em qualquer caso, estava bastante claro que a última
coisa que desejava a garota era a companhia de Varian.
No mercado encontrou um dos amigos do Mustafá, Victor, que
em um grego torpe convidou o lorde a tomar uma taça de café com
ele, em um dos locais que havia pelos arredores do bazar. Uns
quantos aldeãos mais se uniram a eles e se estabeleceu uma
amável conversa que reteve a Varian no kafenío mais de uma hora.
Apesar de falar o grego tão mal como Víctor, aquilo era suficiente
para fazer-se entender e passaram um momento muito agradável.
Mas quando já tinha tomado a terceira taça daquela beberagem
turca, Varian começou a ficar zonzo. Depois de despedir-se
amavelmente de seus acompanhantes, decidiu tratar de acalmar os
nervos dando um longo passeio.
Considerando a hora, aquela parte do centro do povoado
estava estranhamente tranquila. Além dele mesmo, só se via pela
rua um dos carros puxados por bois que, naqueles lugares,
utilizavam para transportar madeira e outros itens domésticos, e
que já tinha visto antes pelas ruas de Berat.
Apesar de que o carro avançava a certa distância à frente dele,
aquilo era o mais perto que Varian tinha estado de um desses
animais de carga; e o que via ali adiante não dava absolutamente
confiança: as rodas do carro, insuficientemente presas em seus
eixos se dobravam para fora como se estivessem bêbadas, e foram

198
dando tropeções sobre o caminho, ameaçando ficar atoladas em
algum buraco da rua enlameada. Varian ficou tenso quando o carro
descreveu um giro em um estreitamento do caminho, ali onde ia
dar a um degrau que se abria para um pequeno escarpado sobre a
borda do rio.
Entretanto, as precauções que estava tomando o condutor do
veículo conseguiram que o carro quase chegasse a parar enquanto
fazia a curva. Nesse momento, um magro e esfarrapado guri subiu
escalando do rio e gritou algo ao condutor, que respondeu com um
tom alegre de voz. O menino jogou duas bolsas de couro no carro e
logo saltou ao lado delas sobre o reboque.
Com surpresa, Varian observou que aquele menino fazia uma
toca no feno que transportava a carreta e se escondia dentro.
Soltando um juramento Varian pôs-se a correr para o veículo.
Após um momento estava à altura da carreta. Agarrou-se à
parte traseira da mesma e saltou em cima. Mas, nesse instante, o
carro bateu em um barranco do caminho e Varian perdeu o
equilíbrio e caiu em cima do feno.
Uma cabeça coberta com um gorro de lã apareceu entre o
montão de feno, justo diante dele, e o olhar de Varian viu uns olhos
verdes que o observavam. Ele ficou olhando zangado. Esme atirou
um montão de palha no rosto e a seguir tratou de abaixar-se a toda
pressa pela parte traseira da carreta. Ele esticou uma mão e
conseguiu agarrá-la por uma perna e detê-la. Esme cambaleou.
Tratou de manter o equilíbrio movendo os braços de lado e do
outro, mas acabou caindo para trás e aterrissando em cima dele,
antes que Varian pudesse rolar a um lado para afastar-se dela.
Esme não devia pesar mais de cinqüenta quilos, mas sua

199
cabeça se chocou contra o ombro direito de Varian com uma força
capaz de romper um osso — disso esteve seguro ele ao sentir a dor
que ricocheteou da nuca até o braço. — Embora não tivesse tempo
de reagir, porque ela ficou em seguida a lutar tratando de libertar-
se dele. Varian colocou o braço dolorido por cima, jogou-a para o
outro lado e acabou colocando-se em cima dela. Nesse momento,
Esme ficou quieta.
Variem ficou olhando fixamente. O gorro de lã tinha deslizado
tampando-lhe o rosto. Ela tirou de um tapa e o atirou fora da
carreta.
Fazia um momento que o veículo acabava de deter-se, e o
condutor estava gritando algo. Mas Varian não fez conta.
— Nós vamos descer aqui — disse Varian a ela. — Tenho que
dar um murro ou vem comigo sem opor resistência?
— Não me segure — suspirou ela quase sem fôlego. — Eu
desço.
Varian afastou-se de cima dela, agarrou suas bolsas e as atirou
ao caminho.
Ela se levantou esfregando a cabeça, e com os olhos verdes
abertos como pratos em uma expressão de tristeza enquanto
olhava a seu redor. Varian saltou da carreta e ofereceu uma mão
para que descesse . Esme ficou olhando sua mão um momento,
mas ao final desceu sem apoiar-se nela. Assim que seus pés
tocaram o chão, cambaleou e teve que agarrar-se à carreta para
não perder o equilíbrio.
Varian a tomou nos braços e a levou até uma pedra grande e
branca que havia ao lado do caminho, a uns quantos passos deles.
O condutor disse algo em albanês e logo riu. Esme se

200
ruborizou.
Varian colocou a mão no bolso interior de sua jaqueta e tirou
uma moeda. Sem perder de vista Esme se aproximou do condutor
da carreta.
— Faleminderit — disse ao condutor. — Desculpe pelo
incômodo que causei.
A seguir Varian ofereceu a moeda. O albanês duvidou durante
um instante, mas logo inclinou a cabeça e estalou a língua.
— Oh, sim, por favor! — Insistiu Varian. — Para que tome um
rakí.
O condutor olhou a Varian, logo a Esme, e ao final sorrindo e
dando de ombros tomou a moeda que oferecia o inglês. Depois de
soltar um par de incompreensíveis frases mais, colocou-se em
marcha.
Varian agarrou as bolsas de viagem do caminho e retornou ao
lado de Esme. aproximou-se da pedra e deixou as bolsas a seus
pés.
Doía-lhe todo o corpo de raiva. Sentia uma pressão no peito e
um zumbido nos ouvidos que faziam a tranquila paisagem que os
rodeava parecesse um mar em plena tormenta. Ficou olhando a
Esme em silêncio.
Sob a luz plúmbea da tarde, seu cabelo soltava brilhantes
faíscas acobreadas. Tinha o cabelo completamente emaranhado e
várias mechas frisadas caíam sobre seu rosto como se fossem
enredados brincos. Tornou a pôr suas velhas roupas de homem e
tinha aspecto de mendigo.
Se Varian ficasse uns minutos mais no kafenío, ela teria
conseguido escapar. E talvez devesse ter deixado escapar, por

201
todos os demônios! Se é que era isso o que ela queria. No fim das
contas, ele não era o responsável por aquela garota. E não queria
ser o responsável por ninguém. Tinham pago para que cuidasse do
Percival, mas nem sequer tinha sido capaz de fazê-lo de maneira
adequada. Quem era ele para andar vigiando a ela? O que tinha ele
a ver com ela?
Varian olhou a seu redor, para o rio cujas águas brilhavam sob
a luz do crepúsculo, para o povoado de casas amontoadas que se
apinhavam na outra borda. Para as colinas que encerravam o
pequeno vale. No Berat, mesmo da cidade, não se podia ver nada
do que se estendia além das montanhas.
E Varian não queria ver, nem queria pensar no que se estendia
do outro lado, além deles. Só o que queria era estar longe dali no
dia seguinte mesmo. Mas não podia. Por mais rápido que partisse,
Esme sempre o perseguiria. Deu a volta para enfrentar-se a ela.
— O que é o que acontece? — perguntou-lhe. — Aonde
demônios pensava que ia? Acreditava que fosse chegar muito
longe, uma garota só e sem um centavo? Que fosse escapar tão
longe antes que o que quer ser seu amante a encontre, ou antes,
de que encontre com outros tipos muito menos amáveis que ele?
— Está se metendo em uma boa confusão, Varian Shenit Giergi
— disse ela. — E se forçar-me a seguir com você será pior ainda.
Não posso ir a Corfú. — Esme elevou a cabeça e ficou olhando
fixamente, com seus verdes olhos inflamados de raiva. — Dentre
todos você deveria saber melhor que ninguém. É um homem do
mundo. Conhece o mundo. E me viu. Conhece-me muito bem.
Ele apertou os punhos. Tinha vontade de lhe dar uns açoites.
Fazia só um momento a tinha ameaçado com um murro. Já não

202
recordava quando tinha sido a última vez que havia se sentido tão
furioso. Ou tão desesperadamente furioso. Sabia que aquilo era
uma loucura. Sabia que estava se comportando como um bruto,
mas não podia controlar-se. Embora não deixasse de dizer a si
mesmo que tinha que acalmar-se e pensar. Mas a fúria que sentia
se amontoava na garganta e quase não o deixava respirar.
— Pois vá, maldita seja! — gritou ele. — Vá pro inferno. Deixa
que a raptem ou a assassinem. O que me importa o que
acontecer, pequena lunática? Todas as pessoas que se preocupam
com você, pessoas mais sabias e velhas que você, estão dispostas
a remover o céu e a terra para que vá a Corfú. Mas você crê que
sabe o que é o melhor para você, não é assim? Não se preocupa
em romper o coração do Percival. Não se importa que umas poucas
semanas viajando com você vão ser as únicas alegrias que poderá
recordar durante os próximos dez anos. Não é mais que um menino
de doze anos que não conheceu nada melhor. E outros não são
mais que um punhado de tipos estúpidos, irracionais, insensatos,
cegos, porque só desejamos que esteja a salvo.
— Me escute — disse ela levantando uma mão. — Dê-me a
mão, Varian, sejamos amigos e me escute.
Ele tinha medo de tocá-la. Sua raiva podia desaparecer e tinha
medo de descobrir o que se escondia atrás daquela raiva. Deu a
volta e ficou olhando para a distância, sem ver nada.
— Por favor, Varian, quer me destroçar a vida sem me dar uma
oportunidade para que me explique?
Varian podia suportar seus aborrecimentos e suas
recriminações, assim como o açoite de ira de que ela era capaz.
Mas aquela súplica muito tranquila não podia suportar. A quebra de

203
onda de fúria que sentia começou a decair e Varian amaldiçoou a si
mesmo por isso.
Ela tinha estado cuidando dele, atendendo-o com paciência,
fazendo com que sua viagem fosse o mais cômoda possível. E em
troca, ele tinha tratado de interpor-se em seu caminho. Tinha
sujado sua inocente boca com seus beijos corrompidos e tinha
sujado sua carne inocente com suas mãos imundas. E, entretanto,
continuava desejando-a, agora mais que nunca. Tinha evitado que
escapasse não para proteger a ela, mas sim por sua própria
luxúria. Em sua mente retorcida, acreditava que Esme pertencia a
ele. Ele necessitava dela. E por isso, ela devia ficar a seu lado.
Varian deixou escapar um suspiro de fracasso e voltou-se para
ela. Tomou a pequena mão de Esme entre as suas e ficou de
cócoras aos pés da garota.
— Escuto-a — disse ele.
— Meu pai morreu — disse ela com um tom de voz neutro. —
Isso me deixa sozinha com o pai do Percival e minha avó como
únicos parentes ingleses. E eles não me querem. Poderiam tolerar-
me para fazer um favor ao Jason, mas não vão me querer a seu
lado. Somente aceitariam como filha uma refinada jovem dama,
nem sequer Jason poderia ter me convertido nisso. Pensa que me
equivoco, Varian? — perguntou ela com calma. — Me diga a
verdade.
Varian queria mentir-lhe. Mas não podia. Não enquanto ela o
escrutinava com aqueles verdes olhos de olhar resolvido.
— Não.
— É possível que alguém, até meu jovem primo, pudesse
persuadi-los para que se comportassem bem comigo, por caridade.

204
Mas isso, que já é bastante ruim em qualquer parte, na Inglaterra,
e sendo estrangeira… Bom, não acredito que pudesse suportá-lo.
Possivelmente seja minha culpa, mas sou muito orgulhosa.
— Sim. Orgulhosa.
— Aqui, em meu próprio país, não tenho mais familiares que
minha avó, que vive em Girokastro. Poderia ir viver com ela, mas é
muito anciã, e quando ela morrer ficarei sem casa e sem família.
Converter-me-ei então em propriedade de Alí, e servirei para
satisfazer seus desejos. Assim como vê, minha única esperança é
me converter em esposa.
— Oh, Deus!
Varian sabia o que era e o que viria a seguir. Ele mesmo tinha
estado dando voltas naquele assunto, procurando alguma solução.
E sabia qual era. Sabia que só havia uma resposta. Algo que o
punha doente até machucar seu coração.
— Vou com o Ismal — disse ela.
— Oh, querida! — disse ele com voz tensa, — com o homem
que matou seu pai?
Ela estalou a língua, produzindo o típico som que em albanês
significava de uma vez, com um só gesto, negar algo e lhe tirar
importância.
— Nem sequer Mustafá crê. Estive pensando muito, e cheguei à
conclusão de que tampouco eu posso acreditar. Já disse a você algo
do que tinha pensado em Poshnja. Isso não tem sentido, nem para
mim nem para ninguém. Só quem culpa o Ismal é Bajo, mas estou
segura de que Bajo diria qualquer coisa para me convencer a sair
do país. Não pensa em nada mais que no desejo de meu pai de que
vá a Inglaterra. Nem sequer se dá conta de como muda todo o fato

205
de que Jason tenha morrido. E o mesmo acontece com meu pobre
primo. Quer cumprir o último desejo de sua mãe; um desejo muito
amável, se Jason vivesse, ou se ao menos ela vivesse. Mas os dois
se foram. E com eles se foram seus desejos. São impossíveis.
Varian inclinou a cabeça. Queria discutir, mas só o que podia
lhe oferecer eram doces palavras tranquilizadoras para enterrar a
amarga verdade. Se a levasse com ele para a Inglaterra, a
obrigaria a viver de uma maneira desventurada. Viver no exílio já
é bastante duro mesmo nas melhores circunstâncias. Mas viver no
exílio entre pessoas que a desprezam, ou que não sentem nada
mais que pena, em um mundo ao qual nunca poderá pertencer?
Seu espírito não o suportaria. E Esme era uma pessoa valente. O
perigo físico não lhe dava medo. Mas certamente a vida que a
esperava na Inglaterra acabaria por matá-la, e isso ela sabia.
Varian notou que afastava uma mecha de cabelo se sua testa,
como tinha feito tantas vezes quando estava doente. E Varian
sempre tinha tido vontades de beijar aquela mão em sinal de
gratidão, porque aquela maneira mágica de tocar sua testa
dissipava a dor e os problemas de sua mente. Mas agora fez com
que a pele se queimasse como se tivesse salpicado com um ácido,
e aquele veneno se introduziu nas veias formando um ardente rio
de ciúmes, medo e decepção.
Viu um jovem estrangeiro de cabelo loiro com olhos azuis como
diamantes que a quis tanto para desejar raptá-la…, e a mão dela
afastando uma mecha de seus dourados cabelos…, sua voz, suave e
doce, falando com seu jovem príncipe das montanhas brancas, dos
bosques de abetos e dos rios tumultuosos…, seu corpo entregue,
movendo-se com paixão entre os braços de um jovem homem de

206
sua própria cultura, que murmuraria palavras de amor em sua
mesma língua.
Tinha razão, não? Para Varian aquela visão era repugnante,
mas era a única esperança de felicidade para Esme. Ele a queria.
Necessitava dela. Isso era tudo. Mas não podia oferecer nada mais
que promessas, e essas promessas seriam mentiras, porque
sentisse o que sentisse, sempre seria algo passageiro. Nada dura, e
menos que nada o desejo.
— Vai me ajudar? — perguntou-lhe ela. — Me deixará partir?
— Sim — disse Varian elevando por fim a cabeça. — Não.

Capítulo 13

Ficaram à beira do caminho discutindo durante mais de uma


hora. Sim, Varian poderia ajudá-la. Não, sem dúvida não ia deixar
ir sozinha a Tepelena.
Obrigando-se a não perder a calma, Esme tentou explicar que
era seguro e razoável seu plano; esteve pensando com muito
cuidado durante toda a viagem; sabia o que estava fazendo.
Mas não deu nenhum resultado. Ele não queria escutá-la. Se
ela não queria voltar por sua própria vontade à casa do Mustafá,
disse sua excelência com muita calma, ele a levaria a força nos
braços, mediante ameaça se fosse necessário.
Envolta em um silêncio glacial, Esme retornou com ele para
casa, e logo entrou na casa de seu primo. Encontrou Percival
estudando as pedras que tinha recolhido aquela mesma manhã.
Não querendo arruinar a excitação que sentia o menino ante
seus novos descobrimentos, Esme inspecionou com ele

207
atentamente o montão de pedras.
— Seria melhor que alugássemos um par de mulas — disse ela.
— Não vai poder colocar tudo isto em sua mochila. Com as pedras
que recolheu em Berat poderia construir um castelo.
— São muito pequenas para utilizá-las na construção —
respondeu ele com calma. — Mas penso fazer com elas uma
exposição organizada, com notas explicativas de cada espécime.
Possivelmente na biblioteca de nossa casa de campo. É uma
propriedade que pertencia a meu avô — explicou ele, — ou seja,
que agora é de papai; mas papai odeia aquele lugar, e deixou que
viva ali a avó. Não pode vendê-la, sabe? Porque se trata de uma
propriedade vinculada.
E nesse momento Percival principiou uma dissertação sobre os
direitos de primogenitura. Só depois de muito perseverar Esme
conseguiu reconduzir de novo a conversa para o tema de seu plano
para as pedras.
Quando tivesse partido dali ela pensaria em seu jovem primo.
Naquele momento não tinha vontade de ficar a refletir a respeito de
sua existência solitária. Queria lembrar dele feliz, classificando sua
coleção de pedras e redigindo suas longas notas a respeito. Com o
tempo, o menino se converteria em um homem, e algum dia teria
meninos a seu cargo. E a esses meninos mostraria sua coleção de
pedras da Albânia, e falaria de suas aventuras, e do Leão Vermelho
e da prima que tanto se parecia com ele. Percival não ia esquecê-
la. E quando se convertesse em um homem, certamente já a teria
perdoado por tê-lo abandonado. Não, mais que isso, certamente
teria entendido a razão pela qual o tinha abandonado, e no fundo
de seu coração agradeceria que o tivesse feito.

208
— Não crê que uma biblioteca seria o lugar perfeito para estas
pedras? — estava perguntando ele. — Porque as pedras são como
os livros. Estão aí para nos falar da história. Não, de fato são partes
da história. É obvio que terei que guardá-las em caixas até que
cresça, porque a avó não quer que…
— Chis — disse Esme segurando sua mão, — vem alguém.
— Não ouvi nada.
Ela tinha notado uns minutos antes, embora realmente não
tinha sido consciente disso, porque tinha sentido só uma vaga
sensação, por trás da voz do Percival e de seus próprios e
atormentados pensamentos. Mas agora podia ouvi-lo claramente:
uns passos firmes e o murmúrio de umas vozes.
— Deus bendito! — disse Percival. — Que ouvido tão fino deve
ter para ter percebido. Agora mesmo, igual em Durrës, ouviu esses
homens que se aproximam muito antes que eu.
Nesse momento os olhos do menino se abriram como pratos e
Esme pôde ver um brilho de pânico neles.
Agora podia reconhecer perfeitamente as vozes. Lorde
Edenmont, intranquilo e irritado, embora não pudesse entender o
que estava dizendo. No momento se elevou outra voz por cima do
resto, falando com um tom eloquente.
Percival começou a ficar de pé. Esme o segurou pelo braço e
ele voltou a sentar-se.
— O que está acontecendo? — sussurrou ele. — Acontece algo
ruim, não é assim?
Certamente tinha notado a tensão refletida em seu semblante,
da mesma maneira que Esme tinha notado que havia algum
problema. Não é que necessitasse uma percepção especialmente

209
desenvolvida para isso. A autoridade tinha um som especial, uma
arrogância que podia ouvir-se nos passos de um dos homens que
havia ao outro lado da porta, assim como no tom de sua voz.
Tinha-o notado aproximar-se e tinha podido ouvi-lo claramente no
momento em que tinha entrado na casa. E só havia ali um tipo de
autoridade que se expressasse naqueles termos. E aquela voz não
fez mais que confirmar suas suspeitas e dar um nome: Fejzi, um
dos secretários do Alí.
— Deve ter acontecido algo errado — disse ela, expressando
seus pensamentos em voz alta, e notando que o menino se
aproximava de seu lado, enquanto tratava de distinguir o que
diziam as vozes. — Não havia nenhuma razão para que viessem
aqui, não ao menos com tantos homens. Pelo menos são uma
dúzia… Não, muitos mais, talvez uns vinte. São homens do Alí. —
calou-se um momento enquanto outra das vozes ficava a falar em
um tom obsequioso.
A seu lado, Esme ouviu um estranho som estrangulado. Deu a
volta para seu primo e se deu conta de que ele estava pálido.
— Oh, querida! — Dizia o menino segurando sua mão com
força. — Oh, querida…, Oh, querida!
Ficou olhando com olhos frágeis.
— Oh, querida! É minha culpa. É ele.
— Quem? Risto? — perguntou ela, pois essa era a nova voz que
acabava de ouvir. Um dos homens do Alí, mas também um dos
seguidores do Ismal. — Conhece-o?
A mão que se agarrava à sua ficou fria e começava a suar.
— Ele nunca me viu — respondeu o menino com voz tremente.
— Estou seguro disso. Oh, céus!

210
— Ver você quando? O que aconteceu? Não tem por que temer.
Não vão lhe fazer mal. — Esme soltou a mão e se aproximou dele
para colocar um braço por cima dos ombros. O menino estava
tremendo. — Venha, Percival. Você é um moço valente. Não vai ter
medo de um punhado de estúpidos cortesãos.
— Sim, tenho medo. Acredito que… OH, não! Dá-me muita
vergonha, mas acredito que vou ficar doente.
Após um instante, ela teve que segurá-lo para que não caísse
no chão. Logo o ajudou a avançar para a porta e o fez sair pelo
estreito corredor que dava ao pátio, situado na parte traseira da
moradia. Enquanto baixavam as escadas pôde comprovar que não
tinha soldados rodeando a casa. Fosse qual fosse à razão que os
tinha levado até ali, parecia que não tinham achado necessário que
os soldados os acompanhassem. Aquilo era um pouco mais
tranquilizador.
Mas Percival não parecia estar muito mais tranquilo, mas sim,
estava à beira de um ataque de nervos. Mesmo não se tratando de
um menino histérico. Tinha sofrido um seqüestro e o tinha definido
como uma aventura excitante. Nunca o tinha ouvido gritar em meio
da noite nem despertar por ter terríveis pesadelos. Nunca parecia
estar ansioso, incômodo ou tenso. Esme estava segura de que tinha
o mesmo tipo de caráter estóico que ela. De modo que se agora
estava assustado, certamente teria boas razões para estar.
Mas, Pelo Alá! Nem sequer naquele estado podia esquecer de
suas pedras. Tinha agarrado sua mochila de couro enquanto ela o
arrastava para fora da habitação. Agora apertava a bolsa contra o
peito, enquanto se esmagava contra a parede do pátio e respirava
de maneira entrecortada.

211
— Oh, graças a Deus! — Conseguiu dizer quando seu peito se
acalmou afinal. — Teria sido mortificante perder os estribos diante
de uma garota.
— Percival, a qualquer momento vão mandar nos chamar —
disse ela sem rodeios. — Tem algo que quer me dizer? O que é o
que acontece?
Ele mordeu os lábios e baixou o olhar até seus pés, logo deu
uma olhada às escadas que havia a sua direita e a seguir à porta
abobadada que havia diante deles. Logo ao caminho de pedra que
ficava a sua esquerda e, finalmente, olhou a ela de novo. — Parece
que cometi um terrível engano — disse ele. — Eu… Oh! Não tem
nenhum sentido lamentar agora, não? Sempre o lamento depois,
mas já é muito tarde, não é assim? Oh! Oxalá papai me tivesse
mandado ao internato da Índia! Como ameaçava fazendo. Eu nunca
acreditei que aquilo fosse uma ideia muito sensata, e mamãe dizia
que o clima dali me mataria, mas por uma vez papai teria feito o
correto. Exceto porque acaso a Índia não está o bastante longe, e
me atreveria a dizer que as escolas dali devem ser mais ou menos
como todas as demais. Mas é possível que ali estejam as únicas
escolas que me podem aguentar. Estando tão longe, já vê, não
teria escutado nada. Asseguro que o porco era para um
experimento científico…, e como ia saber que não se deve colocar
uma vela acesa tão perto de…
— Percival, está delirando — cortou Esme de repente. — Cale-
se um momento.
Ele mordeu os lábios e agarrou mais forte a bolsa de couro com
as pedras, aparentemente inconsciente de que seu conteúdo
poderia deixar marcas e arranhões.

212
— Está fazendo mal a si mesmo —advertiu ela. — Deixa essa
maldita bolsa no chão.
Ela esticou a mão para tirar bolsa, mas ele se afastou tão
depressa de seu lado que Esme perdeu o equilíbrio. Tratando de
ajudá-la a não cair Percival tropeçou e acabaram os dois no chão,
feitos um novelo de pernas e braços; a bolsa escorregou das mãos
e o conteúdo se espalhou a seu redor.
Percival ficou imediatamente de joelhos e começou a recolher
suas pedras. Amaldiçoando entre dentes, Esme se sentou no chão
para erguer-se. Gritou e soltou um palavrão quando notou que algo
duro e anguloso cravou no seu traseiro. Virou-se de lado para
agarrar aquele maldito objeto. E quando o teve nas mãos ficou
calada de repente, observando-o perplexa.
Uma fina cabeça coroada sobressaía de um pacote de papel.
Percival deixou escapar um grave e angustiado suspiro, mas ficou
de joelhos onde estava, com seus verdes olhos fixos no objeto meio
envolto que ela sustentava entre as mãos. Esme desembrulhou
rapidamente o resto do objeto.
— É uma pedra realmente estranha — disse ela.
Percival se inclinou para trás e se sentou sobre os calcanhares.
Esme ficou observando com interesse a pequena figura real.
— Tem todo o aspecto de ser uma peça de xadrez.
— Por favor —pediu ele com voz de causar pena. — Por favor,
não o diga a ninguém.
— Enganou a lorde Edenmont — disse. — Contou que tinha
dado a peça ao Jason, mas a tinha roubado você.
— Eu não… O que passou é…
— Sabia que ele necessitava de dinheiro.

213
— Isso sabe todo mundo — respondeu seu primo à defensiva.
— Papai o subornou para que me levasse a Veneza.
— E você o enganou para que, em lugar disso, o trouxesse
para a Albânia. Por quê?
Percival se moveu inquieto, olhando nervoso a seu redor.
— Não posso contar isso. Além disso, sei que nunca me
acreditaria.
— Muito bem — disse Esme ficando de pé. — Então terei que
dar a lorde Edenmont a peça de xadrez que tanto deseja possuir.

A casa estava cheia de homens de Alí. Um deles era Risto,


instrumento do diabólico Ismal. Não era preciso ser um gênio para
dar-se conta de que Ismal tinha algo que ver com a chegada
daqueles homens. Por isso se poderia supor razoavelmente que
Ismal tinha interceptado a mensagem de Bajo, e que agora sabia
que Percival Brentmor tinha tentado traí-lo.
Assim que aquela ideia lhe passou pela cabeça, convencido de
que Risto tinha vindo por ele, Percival começou a sentir um medo
atroz. Só teria necessitado pensar com calma uns minutos para
dar-se conta de seu engano. Ismal era muito esperto e matreiro
para assassinar um menino inglês de doze anos, especialmente
quando havia uma maneira muito mais singela de manter ao
menino sob controle.
A prima Esme. E tudo o que tinha que fazer Ismal era fazer
com que ela fosse a Tepelena. Então Percival não ia se atrever a
pronunciar nenhuma só palavra contra ele. E uma vez que Ismal a
tivesse entre suas mãos, não ia deixá-la escapar. Nunca.
O pior era que a prima ia dar saltos de alegria ante a

214
possibilidade de ir a Tepelena. Percival sabia que ela não queria ir a
Inglaterra. De fato, estava certo, e sabia que tinha tentado
escapar. Da janela a tinha visto retornar a casa com lorde
Edenmont, os dois furiosos e com aspecto de terem caído
violentamente no barro.
Agora se propunha a passar pelos nariz de sua excelência a
rainha negra. E com Risto ali para que visse.
Percival ficou de pé.
— Eu a roubei — mentiu ele. — Não tinha outra opção. O tio
Jason me falou de uma conspiração para derrubar o Alí Pachá. Faz
umas semanas, no castelo do Barí, ouvi uma conversação de Risto
com outro homem, em que ficavam de acordo para enviar um
barco de armas inglesas de contrabando a Albânia, para um
homem chamado Ismal. Enganei a sua excelência para que
viéssemos aqui com a intenção de avisar ao tio Jason.
Sem fazer caso da patente incredulidade que podia ler no rosto
dela, Percival seguiu explicando como ele tinha dado a Bajo a
mensagem secreta e o que acabava de deduzir agora: que Ismal
tinha interceptado aquela mensagem e tinha enviado seus homens
para que levassem a Esme a Tepelena, onde a utilizaria como
refém.
— Espiões. Conspiração. — Esme ficou olhando de maneira
compassiva. — Tem muita imaginação. Ouve uns tipos falando de
rifles e de pistolas, algo que os homens costumam fazer muito
frequentemente, e já crê que descobriu uma grande conspiração.
Não é nada mau ser imaginativo, primo. Pode ser que algum dia
chegue a tornar-se um grande poeta.
— Não é imaginação — protestou Percival. — Eu ouvi. E ouvi a

215
voz de Risto. Reconheceria em qualquer parte. Seu italiano era
terrível, e seu inglês ainda pior.
— Ouviu algo e sua imaginação fértil fez o resto — disse ela. —
Mas isso aconteceu faz muito tempo. E agora não sabe distinguir
entre o que realmente escutou e o que imaginou, e por isso está
assustado. Ismal é muito inteligente e cauteloso para embarcar em
uma rebelião sem possibilidade de êxito. E sabe que Alí é muito
preparado. Durante anos tentaram derrubar o visir. E todos
fracassaram. E sempre pagaram com a vida, junto com todos seus
familiares e amigos.
Ela devolveu a peça de xadrez.
— Não vou dizer a sua excelência o que fez. Não devo a ele
nenhuma lealdade. Além disso, é muito mais divertido ver a
maneira tão inteligente como o enganou. Agora vejo que tola fui
enfrentando a ele honesta e abertamente. Deveria aprender com
você essa lição.
Percival ficou calado durante um momento, como ofendido,
enquanto ela subia as escadas. Então, assim que se deu conta de
por que ela tinha tanta pressa em voltar para a casa, sentiu-se de
novo invadido pelo pânico. Subiu a toda pressa as escadas atrás
dela, pedindo que parasse, mas Esme não fez caso e seguiu
avançando. Logo cruzou o corredor e se dirigiu diretamente à porta
depois da qual a esperava o desastre.
Quando estava a ponto de alcançá-la, Esme já estava abrindo a
porta. Sem deter-se para pensar, Percival se lançou atrás dela… e
deu de encontro com lorde Edenmont.
Enquanto se inclinava para trás resmungando uma desculpa,
Percival viu que sua excelência tinha segurado a Esme pelo braço.

216
O semblante dela mostrava uma expressão especialmente pouco
amável. Mas sua excelência não percebeu: ele mesmo estava
dirigindo ao Percival um olhar muito pouco amistoso.
— Segure a sua prima — disse ao Percival em voz baixa e
definitivamente pouco amistosa — e a coloque em seu quarto,
Percival. Agora mesmo.
— É obvio, senhor. Agora mesmo — disse Percival oferecendo
cortesmente o braço a sua prima. — Prima Esme?
Ela estalou a língua.
O coração de Percival acelerou. A sala tinha ficado em silêncio
e todos os estavam olhando para eles. E todos incluía uma vintena
de homens, alguns deles tão robustos como Bajo.
— Lorde Edenmont, se me permitir. — Um homem baixo e
gordo que levava na cabeça um sujo turbante amarelo se adiantou
dirigindo-se a Varian. — Eu vim aqui pela filha do Leão Vermelho.
Meu senhor quer que faça chegar a ela uma mensagem,
pessoalmente.
Lorde Edenmont murmurou algo entre dentes. De onde estava
Percival não podia entender o que havia dito, mas podia imaginar.
Estava completamente exasperado com Esme, embora agora
começasse a sentir-se assustado.
Soltando o braço de Esme, lorde Edenmont disse:
— A senhorita Brentmor pode ficar. Entretanto, o senhor
Brentmor terá que voltar para seu quarto. Agimi, Mati, vão com ele
e assegurem-se de que fique ali.
Um verdadeiro herói deveria ter ficado no campo de batalha.
Percival queria ser um verdadeiro herói, mas seu estômago não
parecia estar de acordo com ele. Notou que Risto ficava olhando, e

217
uma terrível sensação de debilidade subiu pelo estômago. Percival
cruzou a porta correndo e se encerrou em seu quarto, seguido de
perto por Agimi e por Mati.
Uma vez estando a salvo, deitou-se na cama e tratou de
acalmar-se respirando lenta e pausadamente. Levou um bom
tempo até conseguir ter de novo o estômago em seu lugar. Não
podia deixar de tremer. Tinha cometido um grave engano ao contar
à prima Esme o que sabia. Ela não tinha acreditado. E
possivelmente ia deixar lorde Edenmont tão zangado que no final
acabaria preferindo deixar que aqueles homens a levassem dali.
Para sempre.
Percival ficou olhando com cara feia para o teto. Tudo tinha
sido culpa dele. Não devia ter dado aquela mensagem a Bajo. Teria
que ter pensado antes na segurança de sua prima. Agora já era
muito tarde.
Desceu da cama e ficou de joelhos, fechou os olhos com força e
ficou a rezar com tanta convicção como pôde.
Mas antes já tinha rezado por mamãe, não é verdade? e pelo
tio Jason, e Deus não o tinha escutado. Deus não o tinha escutado
nunca antes, nenhuma só vez. Por que ia começar a fazê-lo agora?
Percival ficou de novo de pé e começou a esmurrar com todas
suas forças a porta do dormitório.

Varian abriu a porta de repente e entrou no dormitório de


Percival. Tinha ouvido os golpes e tinha enviado a um de seus
homens para que acalmasse o menino, mas ele não queria ser
tranquilizado. Percival tinha ameaçado golpear a cabeça contra a
parede se não o deixassem falar com lorde Edenmont.

218
— Aqui estou — disse Varian secamente. — A que demônios
vem esta manha de criança?
— Não pode deixar que a levem, senhor — disse Percival
esfregando os nódulos avermelhados. — Não importa quão zangado
esteja. Não pode deixá-la partir.
— A verdade é que ela diz que devo deixá-la e você me diz que
não. Acaso parece a você que sou Salomão, Percival?
Varian se aproximou da estreita janela, de onde se vislumbrava
uma pequena porção de céu negro por cima dos vermelhos
telhados das casas.
— Sente-se, disse. — Tenho que contar algo. O que quer é
também o que eu mesmo desejo com todas as minhas forças. Mas
na vida há coisas que alguém deve aprender a aceitar, embora não
goste.
— Mas, senhor…
— Sente-se. E me escute.
Variem ficou olhando fixamente. Percival se aproximou
apressadamente do sofá de madeira e se sentou.
Com algumas frases lacônicas, Varian fez um resumo de como
via Esme sua situação e do que ela sentia que tinha que fazer a
respeito.
— Sim, claro, é obvio — disse Percival impaciente. — Tudo isso
é bastante óbvio. Naturalmente, entendo que pense assim. Mas ela
é uma garota.
— E pelo que acredito mais ardilosa que você. O que tem isso a
ver com o que estamos falando?
— Bom, que está equivocada. Não quero dizer que não seja
inteligente. Claro que é. Mas é uma garota, já sabe, e é natural que

219
pense no matrimônio como a única solução. Além disso, é um
delicado membro do sexo frágil…
— Delicado?
Percival ficou olhando a Varian muito sério.
— A constituição feminina é delicada, senhor, e tem que
recordar que muito recentemente sofreu algumas emoções fortes
para sua tenra suscetibilidade.
— Tenra suscetibilidade? Suas pedras têm muita mais
sensibilidade. Não há nela nada de delicadeza…, maldito seja.
Varian se voltou para a janela.
— Eu sei que tem uma aparência forte — disse Percival. — E
sobretudo muito racional. Mas asseguro que não o é. Quando
chegaram esses homens, esteve a ponto de desmaiar, e me vi
obrigado à tira-la do quarto e levá-la ao pátio para que tomasse um
pouco de ar fresco, e para que caminhasse um momento até
relaxar. Então ficou quase histérica…
— Percival.
— De fato, é normal que fique assim, senhor, porque não fazia
mais que falar de maldições e de coisas do mesmo estilo. Diz que é
uma maldição para todo mundo. E que todas as pessoas que ama
acabam sendo assassinadas; e que se ficar a meu lado acabará
acontecendo o mesmo. Segundo ela, o melhor que pode fazer é
casar-se com seu pior inimigo, porque dessa maneira poderá
dominá-lo sem sequer ter que mover um dedo. Logo ficou a rir
como uma possessa e pôs-se a correr para a casa. De maneira que
naturalmente me vi obrigado a correr atrás dela. Tinha medo de
que fizesse mal a si mesma. Era óbvio que não estava em seu
juízo.

220
Não está bem da cabeça, recordou Varian.
Varian deu meia volta com rapidez para enfrentar ao menino,
que aguentou serenamente seu receoso escrutínio.
— Quer que acredite que sua prima é candidata a que a
coloquem em um manicômio?
— Oh, não, senhor! Não queria insinuar que esteja louca. Os
sintomas deveriam ser muito mais óbvios, parece-me. Até você
teria percebido. Só queria dizer que a cadeia de acontecimentos
das últimas semanas foi muito para ela, e que sendo uma fêmea, e,
portanto delicada, não é capaz de pensar logicamente neste
momento.
Varian deu um salto. A verdade era que ele mesmo tinha
contribuído para desequilibrá-la, não é assim? Apesar de parecer
tranquila, mesmo depois de obrigá-la a descer da carreta e a
ameaçá-la a seguir da maneira mais odiosa que se pudesse
imaginar. Ele tinha esperado que ela respondesse com gritos,
insultos e acusações, que tivesse feito pedaços com sua afiada
língua. Mas não o tinha feito. E não tinha atuado de maneira
normal, não é verdade? Isso não era normal em Esme. Muito
tranquila muito fria e calma. Teria decidido por essa atitude porque
tinha causado um abismo de sua própria mente? Por isso tinha
estado tão fria e distante com ele na última e interminável semana?
Ficou olhando Percival de maneira desafiante.
— Sabe uma coisa? — disse Varian, — estou convencido que
você e sua prima irão me deixar sem um pingo de prudência.
Percival inclinou a cabeça.
— Lamento-o terrivelmente, senhor.
— Deixei-me convencer por você para vir a esse país de loucos

221
e me deixei convencer por ela um montão de vezes para atuar
estupidamente contra meu bom senso. Hoje fiz uma promessa que,
com o que acaba de comentar, não vou poder manter. Prometi que
a ajudaria para que ficasse com sua gente. Eu prometi — repetiu
com aborrecimento.
— Sim, mas isso não conta, não é assim? Se ela estava
mentindo, não conta, verdade? Bom, não quero dizer que ela
tivesse a intenção de mentir. É obvio. O certo é que nem sequer
pudesse dar-se conta de que estava mentindo. Quero dizer que
poderia considerá-la como uma amnésica, não é? Por dizê-lo de
algum modo. Quando tiver se recuperado da comoção sofrida,
possivelmente não recordará nada do que aconteceu.
— As coisas não são tão simples, moço — disse Varian
deixando escapar um suspiro. — Na sala do lado há vinte e dois
homens enviados pelo Alí Pachá para escoltá-la até a Tepelena.

Esme deu uma implacável cotovelada no estômago de Petro


para que se afastasse enquanto entrava no dormitório de lorde
Edenmont.
— Você ficou louco? — perguntou-lhe ela. — Não pode levar o
menino a Tepelena.
Sua excelência se deteve no ato de tirar uma das botas.
— Ah! Deveria ter imaginado — disse ele. — Tenho que
agradecer que tenha mantido a boca fechada diante dos outros.
Varian olhou além dela, para a porta aberta depois da qual
Petro estava se queixando, enquanto apertava o estômago com as
mãos.
— Já pode ir, Petro — disse ele, — e agradeça não ter ocorrido

222
a ela apontar para suas partes pudentas.
A porta se fechou de um golpe deixando fora uma rajada de
maldições turcas.
Varian acabou de tirar a outra bota e a colocou ao lado de sua
companheira. Logo ficou observando Esme com atenção, o que fez
com que ela sentisse um incômodo calor no rosto.
— Foi só um detalhe que tenha se trocado para o jantar —
murmurou ele. — Embora me atreveria a assegurar que decidiu que
já os tinha assustado o suficiente com sua primeira aparição em
cena. Vinte e dois homens robustos a ponto de desmaiar ao vê-la
entrar na sala.
Esme estremeceu. Não tinha parado pra pensar no espetáculo
que tinha dado, com o cabelo cheio de palha e sujeira, e sua
esquálida figura perdida dentro das roupas de pastor de cabras que
vestia. Tirou o vestido vermelho que usou em Poshnja e tornou a
pôr suas antigas roupas de homem. Percival não tinha dito nada, de
modo que ela tinha esquecido a desastrosa aparência que tinha, até
que encontrou-se com os homens do Alí e viu suas bocas abertas
pela surpresa.
— Não vim para escutar suas estúpidas piadas — disse ela. —
Vim para ver se tem febre, porque estou segura de que deve estar
delirando para aceitar o convite de Alí. Não pode levar meu primo
para lá.
— Não, querida. É a você que vou levar, como tinha prometido.
Percival não é mais que um acompanhante necessário. Não posso
deixá-lo aqui sozinho.
— Disse que não podia me deixar ir sozinha. Mas não vou
sozinha, terei vinte e dois homens de escolta.

223
— Tinha, agora tem trinta — disse ele. — Os homens do Alí,
Percival, eu mesmo, Agimi, Mati e o resto de nossa escolta. Bom,
isso se decidirem que querem nos acompanhar. Porque deixarei
que eles decidam.
A calma que ele aparentava era desencorajadora. Esme tentou
outro truque.
— Varian, por favor…
— Não trate de me convencer com mimos —interrompeu ele
com aquele mesmo tom de voz exasperadamente calmo. — Já tive
suficiente estilo Brentmor por um dia, obrigado. Agora vá para a
cama. Amanhã nos poremos a caminho muito cedo.
Ela sentiu vontade de golpeá-lo. Desejou bater contra a parede
a sua dura cabeça inglesa. Disse a si mesma que tinha que
tranquilizar-se de algum jeito, mas a raiva e o aborrecimento foi só
o que saiu por sua boca.
— É um louco imprudente! Não pode levar o Percival a
Tepelena!
Ele ergueu uma de suas escuras sobrancelhas apenas um
milímetro, mas seus olhos cinzas seguiram olhando-a tão frios
como uma pedra.
Foi como quando um momento antes ela tinha entrado na sala
cheia de homens. Sentou-se e havia ficado a escutar como Fejzi
transmitia o convite do Alí e as condolências do visir pela perda de
seu pai, e em todo aquele momento a fria expressão de lorde
Edenmont não tinha mudado nem um pouco. Tinha mantido sua
presença de lorde inglês dos pés à cabeça: impassível, indiferente e
com uma máscara de cortesia no rosto. Quando os outros tinham
concluído com suas inacabáveis saudações, não tinha se

224
incomodado em responder a suas adulações, nem em expressar
sua gratidão pela honra que faziam com sua visita. Em lugar disso,
e com aspecto de estar começando a aborrecer-se, tinha informado
que comunicaria a eles sua decisão na hora do jantar.
Como era de esperar, aquela sua insolência tinha feito
aumentar o respeito que sentiam por ele. Tinha atuado como um
sultão que condescende ao aborrecimento de ser incomodado com
petições de favores, e eles tinham tratado a ele como fosse.
Poderia tê-los mandado ao inferno e eles teriam que aceitar. Ele
era um lorde e um cidadão britânico. De qualquer modo, ao final
tinha aceito os desejos do Alí. Esme ainda não entendia como podia
ter sido tão idiota.
Varian não se dignou em responder tampouco agora,
simplesmente continuou olhando-a de maneira altiva. E aquela
forma de olhá-la a fazia sentir-se muito pequena, e muito mais
selvagem. Esme elevou o queixo.
— Não pode levar o Percival a Tepelena — repetiu ela. — Não
vou permitir isso.
— Não seja atrevida, menina. Vá para a cama.
— Não sou uma menina! — gritou ela chutando o chão com o
pé.
— Pois está atuando como se fosse.
Esme cruzou o quarto e se aproximou dele.
— É que tenho que pensar tudo por você? Não sabe aonde vai
se colocar? A corte de Alí é um lugar perigoso. Há intrigas por toda
parte, corrupção e depravação. Quer levar o meu primo a um lugar
como esse?
— Se for um bom lugar para você, não sei por que não ia ser

225
para ele. Depois de tudo, ele é um homem, e não possui essas
delicadas suscetibilidades femininas.
Varian afrouxou o nó do lenço e o tirou com seu típico gesto
descuidado, de lorde, deixando-o cair ao chão.
Automaticamente Esme o recolheu e começou a dobrá-lo com
cuidado enquanto sua mente trabalhava a toda pressa, procurando
as palavras e o tom apropriado para romper aquele muro de
indiferença.
Um juramento a tirou de suas reflexões. Ele se levantou e
tirou-lhe o lenço das mãos.
— Maldita seja, Esme, deixa de fazer isso! Deixa de ir
recolhendo as coisas que eu atiro por aí! Você não é o meu maldito
criado!
Ela ficou olhando surpreendida.
Ele devolveu o olhar, e o ar que havia entre eles vibrou com
tensão, como se estivesse formando uma tormenta nas colinas que
rodeavam o povoado. Embora a tormenta estivesse só dentro dos
olhos dele, cinzas e escuros como um céu plúmbeo.
Com as mãos a segurou pelo cabelo e jogou sua cabeça para
trás, e imediatamente esmagou sua boca contra a dela o
suficientemente forte para que ela cambaleasse.
A apenas um momento ele parecia friamente distante, mas
agora ela entendia que só estava fingindo. Sua boca era quente e
ansiosa, e suas mãos a seguravam com fúria pelo cabelo. Ela sentiu
uma onda de alívio, e a seguir outra de vergonha por isso.
Esme tentou afastá-lo mas sua arremetida tinha sido muito
repentina. Aquele beijo apaixonado era como uma bebida ardente
que a consumia por dentro e deixava sua vontade convertida em

226
cinzas.
Todo o desejo que tinha estado reprimindo durante aquela
semana a assaltou naquele momento, esquentando sua paixão.
Agarrou as lapelas de sua jaqueta e se apertou mais contra ele,
como se tivesse medo de que pudesse escapar dali a qualquer
momento.
Aquele beijo durou só um momento, e quando a boca dele se
separou da de Esme, ela esteve a ponto de gritar decepcionada. Ele
passou as mãos pelos ombros e logo mais abaixo, até segurar suas
mãos, agora com um gesto mais amável. Ela estava desejando que
a arrebatasse e a conquistasse. Queria que ele a levasse além da
consciência e da razão.
— Pequena mentirosa — disse ele. — Me deseja.
Era inútil negá-lo. Esme fechou os olhos com força e
lentamente abaixou a cabeça até que a apoiou no peito dele.
— Deveria pensar melhor — disse ele com uma voz doce. —
Mas não quero que o faça. Não a deixarei.
— Todo mundo o deseja — disse ela tristemente e sem levantar
a cabeça de sua jaqueta. — Não pode evitar. Quando Alí o ver
ficará a choramingar por você, e o mesmo farão a metade de seus
cortesãos e todas as mulheres da corte. Vou ficar doente.
Ele riu, e logo ergueu sua cabeça para olhá-la intensamente
nos olhos. Ela queria olhar para outro lado, mas não podia, e sentiu
que subia um rubor às bochechas.
— Parece-me que está tentando que seja mais doce — disse
ele. — E o faz surpreendentemente bem para ser uma pequena e
obstinada gata selvagem. Em outras circunstâncias, suspeito que
poderia fazer comigo o que quisesse. Mas não nesse momento,

227
Esme. Se quer se entregar a mim esta noite, não direi não. Sou o
bastante canalha para tomar o que me ofereça. Mas isso não muda
nada. Amanhã iremos para o sul, ou podemos ir para o oeste. Mas,
seja onde for, iremos juntos.
Esme se separou dele bruscamente.
— Pelo Alá, é impossível! Acaso pensa que estou tratando de
suborná-lo com meu corpo?
— Acredito que é capaz de fazer algo assim para me dobrar a
seu desejo.
— Eu? Acredito que é precisamente você quem não joga limpo.
Quando não é capaz de discutir comigo de maneira sensata, tenta
me convencer a base de beijos. — Esme o olhou de cima abaixo
com uma expressão de ressentimento. — Sabe como me converter
em uma tola.
Ele sorriu.
— No caso, ao menos estamos em igualdade de condições.
Você me deixa reduzido a um idiota balbuciante. Acaso não tenho
direito de fazer o mesmo que você? É você que joga sujo comigo.
Quer desesperadamente ir a Tepelena para se unir a seu príncipe
dourado. E não aceita que Percival e eu estejamos ali para ser
testemunhas de sua alegria. Por que deseja esconder-se de nós,
Esme? O que é o que não quer que vejamos?
Ela prendeu a respiração. Sabia que ele não era absolutamente
um descerebrado. Entretanto, nunca tinha imaginado que poderia
chegar tão rápido àquela conclusão. Ou será que Percival tinha
contado essa insensata história sobre a conspiração?
Mas Percival não teria se atrevido a contar, Varian jamais teria
se permitido ir a Tepelena com um menino que não fazia mais que

228
falar de conjurações revolucionárias. Possivelmente teria que contar
ela mesma…, mas então, tampouco a deixaria ir.
Estava confusa.
— Não tenho nada que esconder — respondeu ela secamente.
— Somente temo por meu primo. Mas tem razão, já não é um
menino. Não vai morrer de medo por ver um ninho de maldade.
Mas pelo contrário, poderá tomar apontamentos, e quando estiver
novo com sua família, eles terão uma boa razão para culpá-lo de
tê-lo corrompido. Mas o que importa a você? Falo de uma corte de
depravação e isso não faz mais que abrir seu apetite. Imagino que
sua mente deve estar vendo já as imagens do harém. E já sabe que
Alí certamente proporcionará a você algumas mulheres. Deveria tê-
lo entendido antes. Passou muito tempo sem estar com uma
cortesã. Bom, não me importa o que faça. Também eu poderei
encontrar ali meu próprio prazer… com meu príncipe dourado.
Dito isto, Esme deu meia volta e saiu do quarto.

Capítulo 14

Embora ainda caísse uma chuva persistente, o séquito chegou


a Tepelena em quatro dias. Poderiam ter chegado muito antes, mas
Fejzi insistiu em que fizessem numerosas paradas pelo caminho.
Cada dia se detinham muito antes que caísse o sol, para poderem
alojar-se nas casas dos mais ricos da comarca. Não tiveram que
voltar a acampar à intempérie. Nem tiveram que barbear-se com
água fria. Nem comer pão duro.
Cada noite se organizava um banquete, e depois dormiam em
camas bem amaciadas e quartos quentes. Quando Varian se

229
levantava pela manhã, encontrava sua camisa de linho já limpa e
engomada, suas calças e jaqueta escovadas, suas botas
enlameadas e sujas, agora reluzentes, e toalhas novas e água
quente preparadas para que realizasse sua higiene matutina.
Seu menor desejo era satisfeito imediatamente. Tratavam-no
com uma deferência sem limites. Petro, que estava convencido de
que acompanhavam Esme a um destino trágico, permanecia quase
sempre em seu sombrio e servil silêncio.
Até Percival se comportava melhor. Não caiu nenhuma só vez
do cavalo, nem se meteu no rio, nem se atirou por nenhuma
janela. Comportou-se como um modelo de docilidade, e não
mostrava interesse em nada nem em ninguém exceto em sua
prima, a quem se apegou como se fosse uma sanguessuga. E ela se
comportava de uma maneira tão obediente e tranquila que Varian
sentia calafrios.
Durante o dia Esme cavalgava ao lado de Percival, vigiada de
perto pelos soldados. De noite se encerrava com as mulheres
muçulmanas. Por não ser mais que um simples menino, e
aparentemente muito mal nutrido, permitiam a Percival encerrar-se
também com elas, que dessa maneira, podiam cuidá-lo e alimentá-
lo com todo tipo de doces.
Enquanto isso, lorde Edenmont se via obrigado a sentar-se
durante horas com os homens, a queimar o estômago com rakí e a
fumar tabaco aromático até dar voltas em sua cabeça. Os
representantes de Alí o tratavam como se fosse uma visita real, e
logo se deu conta de que a realeza era um trabalho fatigante.
Não podia dormir bem e jogava a culpa na abundante comida,
na bebida e no tabaco. Como dormia mal, levantava-se sempre de

230
péssimo humor. Quando por fim chegaram a Tepelena tinha
vontade de matar a alguém, a qualquer e preferivelmente com suas
próprias mãos. Viu o pequeno e pouco atrativo povoado com
desaprovação, e o recentemente reconstruído palácio do Alí com
ódio.
Embora não tivesse lido o livro dos relatos da viagem que
Hobhouse realizou com o Byron pela Albânia, publicado quase um
ano antes, Varian tinha ouvido aquele relato da boca do próprio
Byron. A visão que agora tinha desse país coincidia na maioria dos
detalhes com o relato do poeta.
O palácio estava fechado por duas de suas alas, e um alto
muro protegia as outras duas — que davam ao pátio ao que
acabam de entrar. — Estava repleto de soldados bem armados e de
cavalos belamente selados. Na esquina mais afastada do palácio
estavam sacrificando e esquartejando animais, o que dava a
entender que se aproximava outro indigesto festim.
O resto do grupo se alojou em outro lugar, enquanto que
Varian, Percival, Esme e Petro foram ficar no mesmo palácio.
Seguiram Fejzi por uma escada de madeira e logo atravessaram
uma longa galeria, para chegar a uma das duas alas do palácio, a
que albergava as habitações dos convidados.
Varian ficou impressionado ao entrar na primeira sala,
considerando o péssimo estado dos aposentos onde se alojou até
esse momento na Albânia. Era uma sala grande, rodeada pelo típico
arranjo de sofás, mas esses estavam cobertos com tecidos de seda.
O chão estava coberto com grossos e luxuosos tapetes, e nas
paredes estavam pendurados suntuosos tecidos estampados.
— Seus aposentos estão acima, milorde —explicou Fejzi

231
indicando uma pequena porta que conduzia a estreitas escadas de
madeira. — Por favor, fique a vontade. Em um momento trarão um
refresco. Enquanto isso, tenho que levar a garota ao harém. Não é
apropriado que…
— A senhorita Brentmor não vai ao harém — disse Varian
friamente.
— É obvio que não — concordou Percival tomando a Esme pela
mão.
Fejzi ficou rígido.
— Lamento, milorde, mas são as normas. Aqui não permitimos
que as mulheres andem desavergonhadamente de um lado para
outro, como os infiéis… — Se calou um momento e em seguida
seguiu falando em tom arrependido. — Peço que me desculpe, Oh
grande senhor! Mas aqui todos devemos nos inclinar ante a lei.
— Uma mulher deve submeter-se às leis de seus familiares
masculinos. E esse familiar está aqui ao seu lado, e diz que ela
deve ficar conosco. Não pretenderá insultar o senhor Brentmor no
momento em que acaba de chegar ao palácio ao qual foi convidado
por Alí?
Com um bom palmo mais de altura que o rechonchudo
secretário de Alí, Varian olhou a seu interlocutor por cima do
ombro, como fazendo ver que estava muitos degraus abaixo dele.
Fejzi ficou completamente desarmado. De fato, parecia que
levou um susto de morte, mas não sabia se era a causa do perigo
que podia supor Varian para sua integridade física ou o próprio Alí.
Ao final, fazendo uma reverência, disse:
— Como você desejar.
E saiu a toda pressa da sala.

232
Quando os passos apressados do secretário já não se ouviam,
Varian se aproximou de Esme, que em todo esse tempo não havia
dito nenhuma palavra.
— Não tem nada que dizer? Não vai nos repreender por ter
insultado o seu compatriota e ter afrontado à dignidade
muçulmana?
Ela se encolheu de ombros.
— Isso não tem nenhuma importância. Muito em breve terei
que entrar de qualquer modo em um harém. Melhor como a esposa
de um príncipe que como uma órfã qualquer.
— Não é necessário que me agradeça — respondeu Varian com
frieza.
Ela lançou um abrasador olhar com seus brilhantes olhos
verdes.
— Perdão, Oh grande luz dos céus! Um milhão de obrigado por
me preservar dos inomináveis perigos do harém: trezentas
mulheres aborrecidas e seus mortíferos companheiros eunucos.
— Trezentas? — Repetiu Percival. — Pelo amor de Deus! —
Logo ficou olhando a Varian e perguntou: — O que é um eunuco?
— É o destino que espera lorde Edenmont — soltou Esme. —
Se é que vai se transformar em costume descumprir as ordens do
Alí.
— Sim, mas o que é…?
— Um homem — disse ela. — Ao que…
— Petro! — gritou Varian apesar de o marinheiro estar de pé
não muito longe deles.
— Sim, senhor?
— Leve o Percival para cima e cuida para que tome um banho e

233
troque de roupa. Está cheio de pulgas.
Antes que Petro pudesse dar um passo Esme passou um braço
pelos ombros de Percival.
— Um homem, mas que não é realmente um homem, por que…
De um salto, Varian se aproximou dela, tampou-lhe a boca com
a mão e a afastou do menino.
— Leve o menino para cima! — repetiu Varian ao Petro.
Percival não esperou que Petro o levasse. Lançou a Varian um
olhar fulminante e pôs-se a andar escada acima, seguido de perto
pelo Petro.
Quando desapareceram da sala, Varian afastou a mão da boca
de Esme, surpreso por não tê-lo mordido.
— Agradeço que se preocupe tanto por educar o menino no que
se refere às selvagens práticas desse país miserável — disse ele.
— É uma prática maometana, e não há nenhuma razão para
que meu primo não possa saber do que se trata. Você decidiu
trazê-lo aqui. Acredita que pode mantê-lo surdo, cego e mudo ante
o que acontece ao seu redor? Agora olhe o que fez. Começou a
uivar como um monstro e assustou o menino. E para quê? Posso
imaginar que agora mesmo Petro estará satisfazendo sua
curiosidade, e com todo tipo de detalhes mordazes. Melhor teria
sido que eu explicasse.
— Para começar, não teria havido necessidade de explicar nada
— resmungou Varian, — se você não tivesse mencionado o
acidentado tema, pequena e sarcástica sabichona. Queria rir de
mim diante de seu primo, não é assim? O que queria era…
E tinha conseguido tirá-lo do sério. Ela não estava
absolutamente de mau humor, só estava aparentando. Por isso não

234
tinha mordido sua mão. Quando se irritava, Esme era incapaz de
pensar, só conseguia agir. E o fazia instintivamente.
— Queria deliberadamente que a mandasse ao harém — disse
ele com uma voz perigosamente tranquila. — Por isso esteve me
tirando do sério propósito.
Ela empalideceu e deu um par de passos para trás.
— O que mais me tira do sério é que sabe exatamente como
fazê-lo — acrescentou ele. — Desde que nossos caminhos se
cruzaram, ninguém tinha me deixado nervoso dessa maneira. Não
há nem um só ser humano na Inglaterra, França ou Itália que me
tenha ouvido levantar a voz. Nunca me enganei mesmo acreditando
que sou um bom homem. Entretanto, sempre acreditei que era
uma pessoa civilizada. Mas, Por Deus! Você é capaz de tirar de mim
o pior. — E elevando a voz acrescentou: — Que demônios é? Acaso
possuiu um diabo?
Ouviu bater na porta insistentemente. Varian cruzou a sala e
foi abrir. A porta bateu contra a parede ao abrir-se e Fejzi deu um
salto.
— Mil perdões, Oh senhor, o mais bravo dos príncipes! — disse
Fejzi tremendo. — Não venho com a intenção de incomodar, mas
não sou mais que o escravo de meu senhor e tenho que cumprir
com minhas obrigações.
Céus, parecia que tinha ido correndo a falar com o Alí e estava
de novo de volta.
— E o que é o que quer seu senhor? — perguntou Varian com
voz tensa.
— Venho para assegurar que a filha do Leão Vermelho não
sofrerá dano algum entre nós. É uma pessoa tão querida para sua

235
alteza como foi o seu próprio pai, porque é do sangue e da carne
do Jason, que era como um irmão para ele. Durante toda a semana
passada, as esposas do visir estiveram tecendo com suas próprias
mãos as novas roupas para a garota. E se não ficar com elas, as
mulheres vão ficar a chorar penosamente. E com elas, também o
farão as demais mulheres do harém. Isso é algo que meu senhor
não pode permitir, porque as lágrimas das mulheres são como
adagas no afetuoso coração de sua alteza. Manda-me que peça que
tenha piedade dessas mulheres, para que possa haver paz no
harém.
Isso, ter piedade das mulheres. Demônios manipuladores.
Mesmo assim, esses eram os costumes do lugar, disse Varian a si
mesmo. E o mais importante de tudo: aquele era o lugar onde
Esme queria ficar.
Varian deixou escapar um suspiro.
— Tenho que reconhecer que o visir é realmente um gênio, se
for capaz de manter a paz entre trezentas mulheres. Eu dificilmente
posso conseguir com uma só. — Lançou a Esme um olhar
fulminante e logo deu de ombros. — Leve-a se for o indicado. Mas
não me jogue a culpa se houver uma revolução no harém.
Fejzi esboçou um débil sorriso.
— Oh! Bom, trata-se da filha do Leão Vermelho. — E logo,
dirigindo-se a Esme, acrescentou: — Vem pequena guerreira. Não
vai fazer guerra no harém, não é verdade?
Ela estalou língua em resposta e se dirigiu para a porta.
— Eu gostaria de vê-la de novo mais tarde — disse Varian
forçando ao Fejzi que o olhasse.
— Farei chegar sua petição a sua alteza.

236
— Não é uma petição.
O sorriso do Fejzi desapareceu de seu semblante.
— Como você desejar, milorde.

Alí se recostou em seu divã e pôs-se a rir com sua robusta


pança movendo-se como um pudim.
— Um rosto e um corpo como o do Apolo e o temperamento do
Zeus. Ouvi-o gritar e me perguntava se acabaria matando a essa
fulana antes que chegasse.
Fejzi sorriu ligeiramente.
— É uma pessoa abominavelmente insolente, alteza.
— Sim, estive observando com meu telescópio enquanto se
aproximavam. Já me dei conta de seu comportamento. E de outras
coisas, claro — acrescentou Alí cravando ao Fejzi no lugar com seu
afiado olhar azul.
— O Leão da Ioanina o vê tudo.
— Quando o vejo com meus próprios olhos. Mas vocês pensam
que só confio nos rumores e nas incompetentes explicações desse
toco cabeça dura do Bajo. Todos vocês acreditam que estou
começando a envelhecer. Só o que ouço nesses últimos dias é quão
formoso é esse lorde inglês. Mais formoso que Byron, isso dizem, e,
além disso, não está aleijado. E quando não falam do lorde, falam
do menino. Há rumores que certamente é filho do Jason, um
menino ruivo com uns olhos profundos e inteligentes. Todas essas
coisas chegam até meus ouvidos, e o que posso fazer eu: fechar os
olhos e enviá-los à costa?
— Não, alteza, isso seria impensável — disse Fejzi com
resignação.

237
Alí se ergueu lentamente até a posição sentada e aproximou os
pés do chão. Colocando as mãos sobre as grossas coxas olhou para
Fijzi com ar de recriminação.
— Hoje vi chegar a Tepelena esse inglês cavalgando para com
toda sua arrogância, e ri com vontade. E faz um momento me
tornei a rir ao ver como estalava de fúria por causa dessa pequena
guerreira. Quando foi a última vez que me viu rir, Fejzi? Durante
quanto tempo meu coração esteve fechado como um ataúde de
pedra, comigo metido dentro? Faz três semanas que desapareceu
meu querido Leão Vermelho, um inglês tão valente como um
shqiptar. E pouco depois do acontecido outro inglês de cabelo
vermelho acaba de chegar, um familiar do Jason. Isso tem que ser
um sinal dos céus.
— Ou de algum outro lugar — murmurou Fejzi.
O expressivo rosto do Alí relaxou esboçando um sorriso.
— Pode ser. Mas não temo os demônios. Passei a vida rodeado
deles… E meu primo é o mais formoso de todos eles, não é assim?
Alí olhou pela janela, para o céu lá fora que estava começando
a escurecer.
— Essa noite vou jogar com dois formosos demônios. Um loiro
e outro moreno. Bom, vamos ver. Pode ser que seja um jogo
interessante.

Capítulo 15

O visir era mais baixo que Fejzi e mais gordo. Possivelmente


em outro tempo tenha sido bonito. Tinha uma compleição
agradável, uma testa larga sobre espessas sobrancelhas e um nariz

238
bem delineado. Com suas longas barbas brancas e seus brilhantes
olhos azuis, qualquer um poderia tomá-lo pelo típico avô jovial.

Alí Pachá tinha demonstrado ser uma pessoa alegre e faladora, e


possuir um surpreendente bom humor. Tinha esse tipo de maneiras
encantadoras que podiam conduzir o mais cauteloso dos homens a
trair a si mesmo. Até Varian esteve a ponto de sucumbir ante seu
carisma. Mas sendo ele mesmo uma pessoa com encanto, era
capaz de reconhecer a alguém de seu mesmo aspecto assim que o
via. Dava-se conta de que, apesar da troca de elaboradas
adulações, estava sendo minuciosamente examinado por Alí… e
avaliado da maneira mais precisa.
Fejzi foi o intérprete durante o jantar. As habilidades
lingüísticas daquele homem eram superiores às do Petro, mas não
eram nem de longe tão boas como as de Esme. Ela tinha um
completo domínio do inglês e o utilizava com muita segurança, e
muito frequentemente com uma desconcertante exatidão.
Entretanto, Fejzi também era capaz de seguir o ritmo dos rápidos
discursos de Alí, e o visir ia impacientando-se cada vez mais ao
longo de sua prolongada refeição.
Ao final, disse que tomariam o café e os doces a sós, e
despediu os cortesãos com um gesto de mão.
Antes de partir também Fejzi, dirigiu-se a Varian em voz baixa.
— Agora vou procurar o menino. Sua alteza não quer que ande
pela corte e possa ser incomodado pelos cortesãos, mas deseja vê-
lo e falar com ele. Em seguida virá também a garota, para ser
intérprete. — Dirigiu a Varian um meio sorriso. — Não é muito
respeitosa, mas é muito habilidosa com os idiomas, embora Ismal…

239
— Parou por um momento e depois olhou ao Alí.
O visir fez outro gesto impaciente com a mão e Fejzi saiu
apressadamente da sala.
— Ismal fala inglês bastante bem, mas frequentemente falha
seu ouvido — disse Alí em grego e muito devagar. — Não quero
que me interprete mal, Fejzi é lento, e quando se assusta, começa
a balbuciar e a gaguejar… é muito incômodo.
— E por que tem que ter medo? — perguntou Varian.
— Você o que acredita? — Alí olhou para a entrada. — E o que
você acredita, pequena guerreira?
A cabeça de Varian se moveu na mesma direção e sentiu como
um soco dado no peito.
Viu umas onduladas mechas de fogo escuro que se moviam ao
redor dos esbeltos ombros de Esme e caíam sobre o corpete de cor
verde turquesa. Seu olhar passeou lentamente pelo vestido de seda
até chegar à estreita cintura e às delicadas curvas das coxas da
moça.
Engolindo um gemido, Varian afastou rapidamente o olhar
daquela visão e esperou que seu semblante não o traísse,
transformando-o no típico velho olhando uma moça com diabólico
interesse. No mesmo momento, além disso, teve que fazer um
esforço para recordar que Alí estava ali. Até quando Varian ficou
olhando com amabilidade para o visir, toda sua concentração
estava fixa em Esme.
Sentiu que se aproximava deles, vislumbrou um brilho de seda
verde enquanto ela se movia a seu lado, com o vestido que usava
murmurando ao contato com seu magro corpo… ali onde sua boca
queria estar nesse momento, e suas mãos. Sentiu um calor na base

240
das costas. Deus, era patético! A garota usava um vestido
comprido que o tinha deixado desfeito.
Quando ela se deteve um momento junto dele, pareceu que o
roçar da seda zumbia em seus ouvidos. Logo se sentou a seu lado,
sobre uma almofada.
Alí disse algo que pareceu incomodá-la, pois Esme respondeu
de forma brusca com uma rápida frase em albanês. Varian ficou
tenso. Aquela pequena selvagem parecia estar querendo que a
matassem. Mas Alí não fez outra coisa que elevar as sobrancelhas
de uma maneira exagerada e tornar a rir.
Varian reuniu a coragem suficiente para olhá-la. Estava
ruborizada e de seus olhos verdes saíam milhares de faíscas.
— Do que se trata? — Perguntou ele com um tom de voz que
soou débil e estranho.
— Nada. Uma piada lasciva, indigna de repetição. — Ouviu
fofocas desagradáveis, isso é tudo.
Varian tinha vontade de insistir naquele tema, mas entrou um
criado carregado com uma pesada bandeja. Após um momento
apareceu Percival, com o rosto pálido como um lençol; embora, por
outra parte, guardava muito bem a compostura, tendo em conta
que acabava de entrar na sala privada de um homem de
reconhecida maldade, um monstro temido até pelo sultão.
O monstro ficou olhando o menino durante um longo e intenso
momento. E a ele encheram os olhos azuis de lágrimas. O visir
esticou uma mão e, depois de um breve momento de dúvida,
Percival a estreitou.
Alí disse algo com voz rota.
Esme estalou a língua.

241
— Não. — Corrigiu de maneira cortante ela. — Não seu filho,
velho de maus pensamentos — murmurou ela em inglês. — Não.
Seu sobrinho. — Lançou a Varian um olhar acusador. — Sabia que
isto podia acontecer.
— Mesmo assim, a semelhança é surpreendente. — Disse uma
voz atrás de Varian. Uma voz suave e musical, que falava em inglês
com apenas um leve acento.
Todos os nervos de Varian ficaram em tensão, como se através
da sedosa voz pudesse ver uma imagem do rosto que ia enfrentar.
Não se dignou voltar a cabeça. Agora percebia por que o fizeram
sentar de costas para a porta. Alí estava colocado em uma posição
em que podia ver cada expressão dos recém chegados. A primeira
reação espontânea. Varian não quis dar de novo essa satisfação. De
modo que esperou até que quem acabava de falar chegasse a sua
altura e, enquanto isso, tratou de manter sua atenção fixa em Alí
até que o outro homem se sentou, com os olhos ao mesmo nível
que os de Varian.
Eram uns olhos profundos, da cor das safiras, ligeiramente
inclinados para cima por cima de suas pronunciadas bochechas.
Uns olhos claros, aparentemente inocentes no rosto de um jovem
cuja finura de cútis teria invejado qualquer dama inglesa. Não
levava turbante e tinha o cabelo longo, da cor do centeio.
Apresentou a si mesmo. Mas não era necessário. Tratava-se do
príncipe dourado: Ismal.
Esme havia dito que tinha vinte e dois anos, mas não
aparentava mais que dezoito, um jovem esbelto com um porte
elegante e orgulhoso, e a graça de um bailarino. Um felino.
Ismal estava vestido ao estilo turco: uma túnica dourada de

242
seda com uma bandagem azul da cor exata de seus olhos, em cima
de umas calças de seda combinando. Não teria que incomodar-se.
Ismal podia vestir um traje miserável, e assim mesmo teria
continuado sendo formoso, culto e nobre até os tutano. Por um
momento fez com que Varian se sentisse como um bronco ou como
um bárbaro camponês. Mas só durante um instante. Depois de
tudo, a humildade não era algo que abundasse entre os St. George.
Varian devolveu ao jovem a amável saudação com uma
insuportável cortesia e um rosto inescrutável, embora por dentro
estivesse ardendo de ódio e raiva por causa de um cego
arrebatamento de ciúmes.
Passou o quarto de hora seguinte tentando manter a
compostura, tratando de pensar de maneira racional, aplacando o
arrebatamento de raiva que o embriagava. Mas não era capaz de
pensar serenamente. Era muito consciente dos dois corpos
ricamente vestidos que o rodeavam: um deles esbelto e
coquetemente feminino; o outro loiro exótico e claramente
masculino. Envolto por aquela profusão de sedas, Varian quase não
podia concentrar-se na conversa.
Ouviu a voz do Alí expondo uma pergunta… A resposta de
Percival, primeiro muito formal, e logo pouco a pouco com uma
crescente segurança até transformar-se em uma amigável
conversa… e entre eles a voz rouca de Esme traduzindo o que se
diziam, fria e serena como um bom jorro de água fria em um dia de
sufocante calor.
Logo falou Ismal e Alí respondeu, e estiveram conversando
durante um bom momento.
Esme tocou o braço de Varian e aquele contato o tirou de

243
repente de seus pensamentos. Voltou-se piscando. Pouco a pouco
pôde enfocar os rostos de seus companheiros. Todos o estavam
olhando.
— Alí deu permissão ao Ismal para que se dirija a você
diretamente. — Disse ela. — Você tem que fazer o papel do pai de
Percival, o cabeça de minha família inglesa, e falar em nosso nome.
Alí diz que meu primo é muito inteligente, mas há certos assuntos
que não podem ser tratados com mulheres e meninos.
Durante um tenso momento, ela aguentou o olhar de Varian e
ele entendeu o que estava tentando lhe dizer: que recordasse a
promessa que tinha feito.
Rapidamente Varian dirigiu sua atenção para Ismal, com uma
expressão solene no semblante.
— Não vou pôr a prova sua paciência com longos rodeios,
milorde. — Disse o príncipe dourado. — Admitirei que foram
seguidores meus aqueles vilãos que perseguiram e trataram de
seqüestrar à filha do Leão Vermelho, então devo assegurar que não
cumpriam minhas ordens. Nunca. Denunciei aos que se
encarregaram daquela maldade, e me sentirei completamente feliz
de assistir à execução desses canalhas assim que os detenha.
Percival fez um estranho som gutural, mas Ismal não pareceu
dar-se conta.
— Também me acusa, e isso é cruel e injusto, de que fui eu
quem ordenou o assassinato do Leão Vermelho. Não é mais que
uma vil calunia que qualquer homem razoável pode reconhecer
como tal. Por que ia querer acabar com a vida do homem cuja filha
pretendo fazer minha esposa? — Seu azul olhar felino se cravou em
Esme e logo voltou a posar em Varian.

244
Varian notou que os dedos se cravavam nas palmas das mãos
e as colocou em cima dos joelhos.
— Essa não é a maneira certa de cortejar a alguém — Disse
ele. — Ao menos não na Inglaterra.
A boca do Ismal se curvou em um gesto divertido.
Provavelmente teria quebrado mais de um milhar de corações com
esse relaxado sorriso felino.
— É você muito gracioso, milorde — Disse o príncipe dourado.
— Inclusive na Albânia é a maneira mais irregular de tentar ganhar
o coração de uma moça.
Maravilhoso. Um tipo inteligente, além de suas outras muitas
qualidades.
— Não teria matado o pai de Esme, muito embora fosse meu
pior inimigo, porque ela o amava, e sei que teria ido atrás do
assassino com intenções vingativas e cheia de ódio.
Quando Esme traduziu estas palavras para Alí, ele fez um
jocoso comentário.
O sorriso de Ismal se alargou.
— Alí particulariza que as esposas vingativas são criaturas
incômodas para se ter perto. Não tem nenhuma dúvida de que a
pequena guerreira me fatiaria o pescoço, se acreditasse que sou o
responsável pela morte de seu pai. Esse estado de ânimo em uma
noiva não é o mais adequado para preparar-se à paixão das
núpcias.
Varian ficou olhando Esme. Estava sentada a seu lado,
tranquila e com as mãos entrelaçadas, com os olhos ligeiramente
baixos enquanto traduzia para Alí, como se estivessem falando de
agricultura em lugar de falar do assassinato de seu pai e de seu

245
próprio futuro.
Ódio vingativo. Fatiar-lhe o pescoço.
Não.
Ela não seria capaz.
Mas mesmo assim, o pelo da nuca de Varian arrepiou-se ao
pensar.
Varian ficou olhando Alí, inconsciente da pergunta que se
estava expondo em silêncio até que ouviu a resposta do visir:
apenas um perceptível movimento de cabeça. De um lado a outro:
«Sim». Seria possível? Teria suspeitado aquele velho do que ele
estava pensando? E o que era ainda pior, conhecia a resposta?
Varian devolveu um sorriso igualmente desarmante ao Ismal.
— Você parece bastante inteligente para não fazer uma loucura
desse tipo. — Disse ele. — E não posso acreditar que um homem
todo-poderoso tenha a necessidade de tomar tais medidas para
conseguir uma mulher.
Ismal aceitou aquela indireta sem alterar-se, olhando com
olhos tão inocentes como os de um menino.
— Embora, para ser franco, não posso entender absolutamente
como você pode ter algum interesse nela. — Acrescentou Varian
em voz baixa. — Não parece que vá ser o primeiro que se deixe
enganar por seu caráter violento.
O vestido de seda verde de Esme se moveu ligeiramente
quando ela endireitou a postura. Disse algo entre dentes, em um
tom de voz muito baixo para que Varian pudesse entender, e a
seguir traduziu ao Alí com voz enérgica o comentário de Varian. O
visir pôs-se a rir.
— Eu não gosto das esposas dóceis — disse Ismal. — A

246
pequena guerreira é feroz e valente, e isso me esquenta o sangue
como não o faz nenhuma outra mulher. É assim desde que éramos
crianças. Ela sabe o quanto chegou a me atormentar.
Ismal dirigiu a Esme um olhar comovedor, mas ela continuou
com a vista posta em suas próprias mãos.
Tão recatadamente feminina. Tão docemente tímida, sob a
apaixonado olhar de seu possível futuro amante… enquanto não
havia nenhuma dúvida de que em sua retorcida mente estava
tramando a maneira mais cruel de assassiná-lo.
— Faz quatro anos — seguiu dizendo Ismal, — quando ela tinha
quatorze, pedi a seu pai a mão de Esme. Disse-me que ela era
ainda muito jovem e que teria que esperar.
Faz quatro anos, quando ela tinha quatorze? Então Varian
compreendeu tudo claramente. Tinha falado a Varian de sua vida,
um ano em Durrës, cinco em Shkodra, dois em Berat, e outros
anos em outros lugares. Sua vida. Os dezoito malditos anos de toda
sua vida. Por que demônios não tinha ocorrido simplesmente
perguntar sua idade? Por que tinha estado se torturando com
aquilo todo o tempo, quando uma simples pergunta poderia tê-lo
aliviado, ou ao menos teria aliviado o sentimento de culpa em
particular?
Mas Varian sabia por que. Tinha medo de averiguar que
poderia ser até mais jovem do que ele imaginava.
— Sim, é compreensível que Jason dissesse isso. — aceitou
Varian tranquilamente. — Sou da opinião de que as mulheres
inglesas amadurecem mais lentamente do que o fazem em outras
partes do mundo. A própria Esme admite ter sido menos precoce
que a maioria.

247
— Já não é muito jovem, milorde. Quis tê-la durante muitos
anos. E agora, considerando que está sozinha, sinto-me também
responsável por ela. Quando meu nobre primo me disse que
vinham a Tepelena, alegrei-me, porque desse modo poderia ter a
oportunidade de compensá-la por todos os insultos que ela e seus
amigos ingleses sofreram naquele maldito dia em Durrës. Quero
tentar, ao menos em parte, limpar minha vergonha e aflição por
tudo o que aconteceu em meu nome.
Ismal expôs o arrependimento como se tratasse de um frio
assunto de negócios. Pagaria duzentas libras inglesas como preço
da noiva a seu tio inglês. Isso era aproximadamente vinte vezes o
preço normal, explicou friamente Esme, posto que geralmente o
preço das mulheres é bastante mais baixo que o dos cavalos.
Também expôs que pagaria multas: quinhentas libras a cada um, a
Varian e ao Percival, pelos insultos a suas pessoas em Durrës, e
outras quinhentas libras ao Alí pelo insulto cometido contra sua
autoridade. Além disso, Ismal daria ao Alí e a Varian um reprodutor
árabe a cada um, e ao Percival um potro da mesma raça.
Finalmente, Ismal tomou uma caixa de prata com jóias
incrustadas que estava ao lado do divã de Alí.
— Essas quinquilharias é um presente para quem pretendo que
seja minha esposa, como símbolo de nosso compromisso.
Passou a caixa a Varian. As «quinquilharias» eram esmeraldas,
safiras, rubis, pérolas e outras pedras preciosas.
Varian deu um olhar superficial ao conteúdo da caixa e o
mesmo fez Ismal.
— É obvio que minha esposa receberá jóias adequadas quando
nos casarmos — disse o príncipe dourado. Em sua voz havia um

248
leve tom de impaciência.
«É obvio.» Jóias adequadas. Oh, claro! Diamantes, sem dúvida,
e milhares desses pendentes de ouro e adornos para o cabelo dos
quais tinha falado Byron. Centenas de vestidos de seda, e
sapatilhas bordadas com ouro e prata. Esme nunca teria que voltar
a mover um dedo durante o resto de sua vida. Suas mãos fortes e
bronzeadas poderiam tornar-se tão suaves e brancas como o resto
de seu corpo. Mimariam-na e cumpririam cada um de seus desejos.
Seria alimentada de deliciosos manjares e seu esbelto corpo
floresceria até converter-se no de uma mulher de exuberante
feminilidade.
Se é que viveria o suficiente.
O que ia ser difícil se tentasse assassinar seu marido. Mas ela
não podia estar planejando isso. Varian tentou convencer a si
mesmo. Certamente suas suspeitas não eram nada mais que uma
fantasia febril produzida pelo delírio do ciúme.
Não está bem da cabeça.
Não está em seu são julgamento.
Se Percival e Petro tinham acertado, a única coisa sensata que
se podia fazer era afastar-se dela, o mais longe que fosse possível,
e o mais rápido que pudesse ser. Percival poderia passar
perfeitamente sem uma prima assassina e lunática. Inglaterra
poderia passar também sem ela como tema de conversa. Era
melhor deixar que Albânia ficasse com ela.
A sala ficou em uma expectativa silenciosa . A expressão do
semblante do Alí era inescrutável. Percival tinha ficado pálido, com
seus olhos verdes abertos de ansiedade. O príncipe dourado olhava
Esme. Varian se perguntou o que estaria vendo nela, mas preferiu

249
não olhá-la.
Fechou a tampa da caixa que continha as jóias.
— Uma reparação muito generosa — disse Varian com calma.
— Será uma honra para eu informar de sua proposição a seu tio.
A expressão inocente de Ismal não variou um ápice. Era bom
nisso, muito bom — pensou Varian, — a não ser que o fazia a sério.
Sua inexorabilidade tirou suas dúvidas. Mas não estava em situação
de considerar as consequências; não essas, não agora.
— Se me desculpa — disse Ismal, — parece-me que falhou
meu inglês, não entendi.
— Será uma honra para eu comunicar sua proposta à cabeça
da família de Esme, na Inglaterra —esclareceu Varian, — quando a
levar até lá.
Silêncio.
Alí ficou olhando Esme, mas ela não traduziu nada.
Perguntou algo ao Ismal, que simulou não ter entendido.
Só restou Varian para traduzir em seu horrível grego escolar e
explicar que ele não tinha direito de dispor do futuro de uma
mulher com quem não estava aparentado. Se fizesse isso sem o
consentimento por escrito de sir Gerald, afirmou Varian, poderia ser
acusado de abuso e tráfico de escravos; duas graves ofensas
segundo a lei inglesa.
— Mas ela não é inglesa — disse Ismal com uma angélica voz
tranquila. — É albanesa, sua alteza.
— É obvio que não! — exclamou Percival.
Todos os olhos se voltaram para ele e avermelhou.
— Rogo que me perdoem. Não pretendia ser descortês, mas a
menos que não o tenha entendido bem, isso é de todo impossível.

250
— Percival, se não se importar…
— Mas, senhor…
— Dëgioni! — ordenou Alí — Dëgioni diali.
— Devemos escutar o que tem a dizer o menino — disse Ismal
sorrindo ligeiramente. — É o desejo de meu real primo.
Alí bateu no ombro do menino.
— Você. Fala.
Percival o olhou nervoso.
— Obrigado, senhor.
Seu olhar assustado dirigiu-se para Ismal, logo para Esme e
por último se deteve em Varian, que dirigiu-lhe uma leve
inclinação de cabeça.
Percival deixou escapar um suspiro tranquilizador.
— A parte da mãe não conta — disse ele. — Mustafá me
explicou isso. É como se sua linha de sangue por parte de mãe não
existisse. Portanto, a prima Esme é britânica, não albanesa. Em
qualquer caso, a esse respeito não pode haver nenhuma dúvida.
Quando o tio Jason se casou, preocupou-se em ir até a Itália para
encontrar um clérigo anglicano para que as bodas fossem
corretamente realizadas. Sei, porque todos os seus papéis privados
estão depositados em casa de seu banqueiro, em Veneza. Fez
cópias para que mamãe as enviasse a Inglaterra, eu as vi: os
certificados de matrimônio, as atas de nascimento de Esme, em
1800, e o testamento do tio Jason. Disse que não queria que Esme
tivesse nenhum problema legal. Disse que…
— Isso é uma tolice! — gritou Esme. — O menino está
inventando tudo. Meus pais se casaram na Ioanina, não na Itália.
— Na Ioanina se casaram em uma cerimônia albanesa — disse

251
Percival, — mas voltaram a casar pelo rito inglês na Itália.
— Não!
Varian ficou olhando.
— De maneira que você sabe algo das leis inglesas, não?
— Sim, e sei que por lei eu sou uma bastarda — disse ela. —
Percival está contando essas mentiras para nos persuadir a todos
de que não o sou. Mas não sou britânica, não sou um súdito de sua
lunática rainha!
— Isso não tem importância, coração — disse Ismal em tom
tranquilizador. — Seu pai foi repudiado por sua família e se
converteu em albanês. Você é albanesa.
Logo Ismal se voltou para Varian, a quem estava começando a
doer a mandíbula de tanto apertá-la para manter a compostura.
— Você sabe que sua família não a quer? — acrescentou Ismal
agora com um tom de recriminação em sua voz sedosa. — Por que
quer levá-la com um tio que não fará outra coisa mais que
desfazer-se dela, igual fez com seu próprio irmão? Por que fazê-la
passar por essa vergonha, quando no final acabarão enviando-a
para mim? Você sabe que assim será, milorde. Toda Albânia sabe.
— Se você sabe — respondeu Varian com frieza, — por que
incomodar-se em pedir minha permissão?
— É um gesto de respeito —respondeu Esme. — Um gesto de
boa educação, que você não pode entender. Não entende a honra
que recebe e de que maneira humilha a si mesmo com isso.
Ofereceu quinhentas libras e um reprodutor pelos problemas que
teve, quando o que a lei decreta é muito menos. E como resposta a
sua oferta, você o insulta. É um bárbaro sem maneiras!
— Não, minha pequena — repreendeu amavelmente Ismal. —

252
Meus sentimentos não têm preço. Não tem por que afligir-se em
meu nome.
Malditos sejam esses dois, pensou Varian. Diria que tinham
toda essa cena ensaiada. É que esperavam que engolisse a farsa
de murmúrios amorosos? Ou o tomavam por bobo? Ou
possivelmente o estavam fazendo em benefício de algum outro?
Varian ficou olhando Percival, que estava a ponto de começar a
chorar. Uns minutos mais ali e o menino ia começar também a falar
em nome de Romeo e Julieta.
Varian ficou de pé.
— Vamos, Percival. Não vejo razão alguma para seguir
assistindo a esta farsa por mais tempo. Acreditei que tinham me
chamado para pedir minha opinião e minha ajuda. Mas vejo que
estava equivocado.
Alí gritou algo ao Ismal, que respondeu a contra gosto.
Varian se dirigiu para a porta.
— Vamos, Percival — ordenou ao menino ainda sem elevar a
voz.
O moço mordeu o lábio, mas se levantou obedientemente e se
aproximou depressa a seu lado.
— Espero que isto não seja um engano — sussurrou.
Varian também esperava o mesmo. Atrás dele, os dois
albaneses ainda continuavam falando. Deixariam-no sair dali? Sabia
que se era assim já não haveria volta atrás. Também sabia que Alí
tomaria medidas, mas que antes as pesaria cuidadosamente. O
visir estava a ponto de completar os oitenta anos. Não teria vivido
tanto se não tivesse sabido reconhecer um canalha assim que visse
pela diante.

253
— Varian Shenit Giergi. — Era a voz do Alí? Lorrrd Ee-dee-
mund.
Varian se deteve, com o semblante convertido em uma
máscara de aborrecimento e o coração pulsando como um tambor
descontrolado.
— Rogo que fique — continuou dizendo em grego sua alteza. —
Os outros podem retornar a seus aposentos. São um pouco
pesarosos esses meninos. — Fez ao Ismal um gesto com a mão. —
Você, vá procurar o meu secretário. Necessito de um intérprete que
esteja em seu juízo perfeito.

Capítulo 16

Um dos guardas que tinha escoltado Esme e o Percival até os


aposentos de Varian ficou ali, ao lado da porta. Esme se sentou no
sofá, olhando seu primo com o cenho franzido. Percival com seu
embornal de pedras junto ao peito ia de um lado a outro do
aposento. Ficaram esperando a volta de lorde Edenmont mais de
duas horas, a maior parte do tempo discutindo para não chegar a
nenhuma parte. Cada um deles tinha demonstrado ser tão
impertinentemente obstinado como o outro. A única satisfação de
Esme foi que o debate sem fim frustrou as intenções do guardião,
que não entendia nenhuma palavra de inglês.
— Eu gostaria que não tivesse zangado lorde Edenmont —
reprovou Percival. — Se zangou o suficiente para deixá-la aqui, não
sei o que vou poder dizer à avó. Seria capaz de falar com o
primeiro-ministro, sei que o faria. Ou inclusive com o próprio
regente, apesar de odiá-lo, e então teríamos uma guerra com a

254
Albânia.
— Isso que diz é uma tolice. Os governos mal admitem a
existência das mulheres. E é obvio que não iam meter-se em uma
guerra por elas.
— A maioria não, é certo. Mas o que me diz da Helena de
Tróia?
— Pelo Alá! Não ia se jogar ao mar por meu rosto bonito nem
por um barco de pesca, assim imagine uma centena de navios de
guerra. Parece-me que tem lido muitos contos. Passa todo o tempo
inventando problemas e catástrofes. Imagina conversas que não
tiveram lugar mais que em sua cabeça. Ouviu falar com meu pai de
um pequeno distúrbio, em um país onde sempre há distúrbios, e já
está imaginando conspirações revolucionárias.
— Isso não é verdade. Aconteceu exatamente como eu contei.
— Você vê meu pretendente com seus próprios olhos, e o ouve
com seus próprios ouvidos. Mas é muito mais mimado e tranquilo
que esse arrogante lorde que trouxe aqui — disse ela com
desprezo. — Ismal esteve a ponto de começar a chorar quando
respondeu a sua proposição com tanta insolência. Você acredita
que essa criatura de coração fraco pode…
— Sepulcro alvejado — disse Percival.
— O que?
— Buscarei a passagem na Bíblia da família quando
retornarmos para casa. Se voltarmos para casa. Oh, como gostaria
que você fosse um menino! — acrescentou ele com aborrecimento.
— É sempre tão pouco razoável… Não sente remorsos de fazer com
que sua excelência perca a paciência. Se não tivesse visto com
meus próprios olhos, não teria acreditado. Sempre é amistoso e

255
extremamente pormenorizado. Nem sequer repreendeu-me por ter
vindo aqui e que tivessem me seqüestrado.
— Mas dará uma boa surra se descobrir como enganou e
mentiu para ele.
Percival parou em seco e ficou olhando com os olhos abertos de
surpresa.
— Não pode dizer nada a ele. Você me prometeu.
Esme se inclinou para trás e cruzou de braços.
— Ismal ofereceu quinhentas libras e um reprodutor, mas não
parece que isso seja suficiente. Pode ser que uma peça de xadrez
que vale mil libras fosse um preço que o convencesse mais.
— Isso…, você não é ninguém para suborná-lo.
— Sim eu sou. Poderia dizer que me Jason me deu e que eu
pedi que a guardasse entre suas pedras. Se você pode contar
mentiras, por que eu não vou poder fazê-lo?
Percival ficou pensativo um momento. Logo seus olhos se
entreabriram até converter-se em duas magras linhas verdes.
— Se atrever-se a dizer a ele algo a respeito — ameaçou ele,
— contarei a lorde Edenmont…
— O que? Que é mentira? E quem ia acreditar?
— Direi que fez essa horrorosa cena essa noite para enciumá-
lo.
Aquela acusação era um repugnante insulto vindo de um
menino, mas mesmo assim Esme notou que ruborizava. Ela tinha
tentado demonstrar algo. Queria mostrar a Varian que outro
homem, tão formoso como ele mesmo, desejava-a. E que esse
outro homem não pensava que ela fosse uma lunática, ou uma
repelente sabichona, ou qualquer dos outros odiosos apelidos com

256
que sua excelência estava acostumado a defini-la.
Ismal a tinha tratado de uma maneira extremamente atenta.
Suas palavras tinham um tom tão devotamente terno que ela
quase tinha chegado a acreditar que a amava. Até que a lembrança
de seu pai tinha aparecido em sua mente: tinham disparado pelas
costas, tinham negado a glória de um funeral de herói e seu corpo
valente tinha sido golpeado contra as cruéis rochas da corrente.
Percival ficou olhando com franca curiosidade.
— Ruborizou— disse ele. — Céus! Era certo? Disso se trata? De
verdade que as garotas são muito estranhas. Não tinha pensado
que…
A porta se abriu de repente e esteve a ponto de golpear o
guardião, que se afastou para o lado de um salto. Assim que entrou
lorde Edenmont o guardião saiu do aposento.
Percival o olhou, logo olhou a Esme e por último bocejou.
— Pelo amor de Deus, que tarde é — disse ele esfregando os
olhos. — Foi uma conversa muito interessante, prima Esme. A
verdade é que o tempo passou voando.
Dito isto, Percival se dirigiu para as escadas que conduziam a
seu dormitório, sem fazer caso do olhar assombrado que lhe dirigia
lorde Edenmont.
— Percival.
— Senhor? — Voltando-se para ele, o menino bocejou de novo.
— Suponho que não tem o menor interesse a respeito do que
estivemos falando Alí e eu?
— Estou seguro de que teve uma conversa muito interessante,
senhor, mas me parece que eu já tive suficientes sobressaltos por
uma noite.

257
Sua excelência se voltou para Esme.
— O que fez a ele? Com que insanos lixos esteve enchendo a
cabeça dele?
Percival parou em seco.
— Ela não esteve enchendo minha cabeça com nada. A verdade
é que dificilmente dou ouvidos as tolices que possam dizer as
garotas.
— Eu digo tolices? — Perguntou Esme ficando de pé de um
salto. — É você que não diz nada mais que insensatezes. Tróias,
sepulcros alvejados…
— O que alvejados? Perguntou Varian.
— Sepulcros —soltou Percival. — Sepulcros alvejados. Mas não
tem nenhum sentido explicar a ela. Não vale a pena contar nada.
Tem tanto sentido comum como… como um pescado.
— Pelo menos eu não me dedico a falar com as pedras —
replicou ela.
— Eu não falo com elas, falo delas!
— Meninos! — repreendeu-os lorde Edenmont, mas eles o
ignoraram.
— Sim que o faz! — Murmura entre dentes, isso também é
falar. Acredita que é muito sensato falar com as pedras?
— Não o faço, antipática, antipática e… tola garota, tola, mais
que tola… Oh! Para que discutir com ela? — Percival meneou a
cabeça. — Por favor, senhor, posso ir para a cama? Parece-me que
tenho uma terrível dor de cabeça.
Lorde Edenmont fez um gesto com a mão para que se
retirasse. Percival pôs-se a andar para a entrada, parou um
momento para mostrar a língua para Esme e a seguir subiu a toda

258
pressa as escadas.
Esme ficou olhando até que desapareceu de vista. Logo ficou
olhando ao teto, enquanto se ouviam seus passos por cima de suas
cabeças e no final se fez o silêncio.
E então ela ouviu uma leve gargalhada a seu lado.
Esme se voltou e ficou olhando a lorde Edenmont. Estava
pálido, mas seus lábios sorriam amplamente.
Esme não queria olhar aquela boca. Não queria olhar nenhuma
parte de seu corpo. Tinha desejado que o destino fosse bom com
ela e tivesse evitado por fim ter que voltar a vê-lo. Mas o destino
não era nada amável com ela, e agora também aquele odioso
menino acreditava que…
— Sepulcros alvejados? — disse ele.
— Vai pro inferno! — Gritou ela. — Oxalá uma manada de
chacais arrancassem suas vísceras enquanto ainda pulsa seu
coração! Oxalá você caísse em um poço de água podre e um
montão de sanguessugas chupassem seu sangue! Tomara que
pegue piolhos nos olhos e no nariz e…!
— Ah, que formosa canção de amor albanesa! E vejo que acaba
de compor especialmente para mim, que criatura tão romântica é.
Muito bem, aplaudo — Disse ele abrindo os braços. — Vem, pode
cobrir meu adorável rosto com seus beijos.
Desgraçadamente, isso era o que Esme estava desejando fazer.
Estava cansada, zangada e assustada. Se tivessem vivido em outro
mundo, teria se refugiado em seus braços. Nesse outro mundo, seu
convite não teria parecido uma brincadeira cruel, e ela teria
deixado que seus ardentes beijos a inflamassem por toda parte. Ela
teria se deixado arrebatar por uma profunda e quente paixão, a

259
mesma que tinha mostrado a ela em Poshnja. Era formoso e forte,
e seu esplêndido corpo teria podido oferecer refúgio e… alívio.
Só por um momento, é verdade, mas ela não teria tido outra
oportunidade. Nem outro homem. Só Ismal, ao qual odiava com
todas suas forças: o homem que queria assassinar, para morrer
logo depois. Que tipo de vingança era aquela? Ele acabaria
aparecendo como um mártir, como a vítima de uma mulher
enlouquecida. Ninguém acreditava que Ismal fosse o culpado da
morte do Jason.
Exceto Percival.
Ele afirmava que Ismal era um traidor e Risto o intermediário
entre ele e quem viajava a Itália para comprar armas para seu
chefe. Em Berat, Percival tinha insistido que reconheceu a voz de
Risto…, o tipo que falava mal italiano e pior inglês. Aquelas
lembranças fizeram a cabeça de Esme dar voltas como uma roda, e
toda sua mente se concentrou na conclusão que podia resultar
disso.
Risto falava italiano. E inglês. Não os falava bem, mas sim o
suficiente para fazer-se entender. Como podia saber disso Percival,
quando em Berat e durante sua viagem até ali, unicamente tinha
falado albanês? Só existia uma maneira de que Percival soubesse:
pela razão que ele mesmo tinha explicado. Que Deus a ajudasse!
Como tinha podido ser tão imperdoavelmente estúpida?
Uma fria sensação de consternação despertou Esme de seu
transe e a fez consciente de que estava observando Varian com o
olhar perdido. Quanto tempo tinha ficado assim, enquanto em sua
cabeça rolava aquele descobrimento?
Ele tinha baixado os braços e a estava olhando, com a cabeça

260
ligeiramente inclinada para um flanco, e seus olhos cinzas abertos
com perplexidade… e tristeza? Não, isso não era tristeza. Ele a
odiava. E tinha conseguido também que seu primo a acabasse
odiando. Os dois tinham estendido as mãos e ela tinha recusado
sua ajuda. E foi abandonada ali para que assassinasse e morresse
por isso, porque ela mesma os tinha forçado a fazer isso, porque
tinha estado tão obcecada com a vingança que não tinha escutado
ninguém.
Esme sentiu que começava a arder sua garganta, e doía o
peito, fazendo com que a respiração se convertesse em um
doloroso e duro ofego. O lábio inferior começou a tremer de
maneira descontrolada. Oh, não! Não podia começar a chorar.
Nunca chorava e teria preferido mil vezes ser devorada viva e
esquartejada por javalis selvagens antes de ficar a soluçar na
frente daquele homem. Arderam seus olhos e Esme os esfregou
com força.
— Não se atreva — disse Varian com firmeza. — Não se atreva
a começar a chorar.
Esme mordeu os lábios.
— Maldita seja. Vai acabar comigo, Esme.
Ele percorreu rapidamente a distância que os separava, tomou-
a entre os braços e pôs sua cabeça suavemente contra seu peito.
— Sinto — ofegou ela apoiada em seu peito.
— Lamenta, céus.
Ele começou a acariciar seu cabelo. De uma maneira não muito
amável, mas em todo caso — pensou Esme aflita, — Varian tinha
muitas razões para desejar esmagar sua cabeça contra a parede.
— Sei — disse ela. — É muito tarde para lamentar. Não tenho

261
medo, só queria… Queria dizer isso a você em voz alta.
Engoliu saliva. Seguia sentindo que a garganta queimava. Mas
não podia deprimir-se agora. Tinha que dominar-se. Então levantou
a cabeça.
As negras pestanas de Varian se fecharam para ocultar a
expressão de seus olhos. Sorria levemente, sem calor.
— E o que é o que tenho que pensar que lamenta? —
perguntou ele com voz suave.
— Tudo. Desde o começo. Lamento as coisas terríveis que
disse. Mas o pior de tudo, as terríveis coisas que tenho feito.
— Ah, bom! Mas não podia evitar, não é verdade? Está louca,
ou é albanesa. Se pensar bem é mais ou menos o mesmo. A
verdade é que não posso entender como pôde viver seu pai vinte
anos aqui e continuar conservando a prudência. Eu perdi toda a
que tinha em menos de vinte dias.
— Sinto. — disse ela. — Tudo foi minha culpa. Estava muito
confusa. Até a um momento… não tinha entendido nada.
Varian deixou escapar um profundo suspiro e baixou as mãos
até apoiá-las nos ombros dela, mantendo a distância de um braço
enquanto estudava seu rosto.
— Esme arrependida. Isso é quase tão desconcertante como
ver Esme vestida com um avental. Uma combinação devastadora.
Pode ser que seja melhor que nos sentemos.
Soltou-a, mas não se sentou, só se inclinou para trás até
apoiar-se na porta. Ainda observava como se a estudasse. Esme se
fez dolorosamente consciente do vestido de seda que vestia, que
antes a tinha feito sentir-se ridícula. Mas agora se sentia muito
feminina, e terrivelmente exposta. Varian a observava como se ela

262
fosse um animal exótico metido em uma jaula. Queria esconder-se.
Mas em lugar disso seus pés a levaram para ele.
— Não! — advertiu ele.
Esme parou em seco e se ruborizou.
— Não vou permitir que utilize suas artimanhas comigo,
senhora. — disse ele. — Alivia sua consciência, se quiser, mas
longe de mim. Igual a Percival, já tive suficientes emoções por
hoje, obrigado.
Ela não o culpou por isso, nem um pouco, apesar de ser
mortificante que ele ordenasse manter-se a distância como se
tivesse uma enfermidade contagiosa. Mas essa não era a
verdadeira razão. Ele estava tentando ser civilizado. Não queria
sentir a tentação de golpeá-la ou de estrangulá-la. Qualquer outro
homem, que fosse irritado como tinha feito com ele, poderia tê-la
recebido a murros no momento em que atravessou a porta, e ela
não poderia culpá-lo por isso. Como tinha podido ser tão bruxa!
Detestável, estúpida, feia, rude e viciosa. Uma besta.
Mas ela não era assim. Ainda ficava certa honra. Devia-lhe uma
desculpa. E a verdade. Não toda, porque não poderia suportá-la
toda. Mas ao menos uma parte.
Ela apertou as mãos e baixou o olhar ao tapete. Ao lado de seu
pé direito viu um magro labirinto colorido de intrincados retângulos,
que se destacava contra o fundo marrom. Fixou-se nele.
— Menti a você. — disse ela. — Em repetidas ocasiões.
Exagerei ao dizer o tempo que faltava para reparar o barco e ao
não contar quão difícil era o caminho até Tepelena. Embora
pudesse vir sozinha se tivesse sido necessário, sabia que viajando
com um inglês teria muito menos dificuldades.

263
— Usou-me? — disse ele.
Ela estremeceu.
— Sim.
— Deveria ter me utilizado de uma maneira mais carinhosa.
Aquela recriminação a fez sentir-se culpada. Os olhos dele se
obscureceram e se cobriram de sombras.
— Não queria chegar a gostar de você. — disse ela retorcendo
as mãos. — Não queria que gostasse de mim. Isso teria tornado
tudo mais difícil para mim… para o que tinha que fazer.
— O que tinha que fazer? — perguntou ele com calma.
Seu olhar sombrio se cravou na dela, e o coração de Esme
começou a pulsar loucamente. Pelo amor de Deus, por que lhe
perguntava isso? Acaso não acreditava que era verdade o que lhe
tinha contado em Berat, que tinha vindo para casar-se com Ismal?
Acaso não tinha fingido o bastante bem fazia apenas umas horas?
— Por… pelo Ismal. — respondeu ela.
— E o que tem ele? O que tem que fazer com ele?
Não importava o muito tranquilo que parecesse. Só havia uma
maneira de responder: com a mentira que tão cuidadosamente
tinha estado urdindo. Aquele homem tinha que abandoná-la ali. Ela
tinha conseguido que qualquer outra coisa fosse impossível para
ele. Não era necessário que contasse toda a verdade, nem que
ficasse olhando sua expressão de repulsão quando soubesse, nem
sua tranquila voz invadida por um tom de recriminação. Mas assim
mesmo tinha que dizer a verdade, tinha que dizer a ele, para
aliviar-se, para que a castigasse. Mas não sabia o que queria;
naquele momento, só o que sabia era que estava doente de
desespero, e que continuar mentindo a mataria.

264
— Tenho que… tenho que… — As palavras não conseguiam sair
de sua boca.
Ela não era uma pessoa covarde, mas naquele momento estava
realmente assustada. Do que? De perdê-lo, quando já o tinha
perdido desde o começo?
— Fale, Esme.
Ela fechou os olhos.
— Tenho que matar o Ismal.
Falou de uma vez, e embora as palavras soassem como um
estranho assobio, não as pronunciou em uma voz tão baixa para
que ele não pudesse ouvir. Soaram muito fortes inclusive a seus
próprios ouvidos. Sentiu-se fria e envergonhada, embora procurar a
vingança não fosse algo vergonhoso. Entretanto, ele não podia
entender. Ele a veria como um monstro frio que perseguia de
maneira desumana um homem a quem todos acreditavam
inocente, um homem que todos acreditavam que estava
apaixonado por ela e queria desesperadamente fazê-la sua esposa.
Oh! Por que tinha pronunciado aquelas horríveis palavras?
— Pequena louca. — disse ele em um tom de voz muito baixo,
mas que de todos os modos a fustigou. — Temerária e apaixonada
louca.
— Varian…
— Hadje. — disse ele.
Ela ficou o olhando fixamente. Ele elevou uma mão e repetiu:
— Hadje.
O coração de Esme parecia estalar se contra as costelas e toda
ela
estremeceu. Mas aquele tom de voz suave que ele falava em sua

265
própria língua a atraía, e fazia seu corpo e sua alma responderem
juntos em um tremor. Lentamente, Esme se aproximou dele e pôs
as mãos sobre seu peito. Os largos dedos dele se fecharam sobre
os seus e a apertou mais contra si. Segurou-lhe a outra mão e
puxou até tê-la bem próxima, sua saia de seda roçando as calças
dele. A respiração dela se converteu em um ofego entrecortado.
— Não pode matá-lo, Esme. — disse ele, — e eu não posso
matar por você.
Pareceu-lhe que o coração se rompia em mil pedaços.
— Oh, Varian! — Ela liberou as mãos e jogou os braços ao
redor do pescoço dele, enterrando de uma vez a cabeça na calidez
de seu peito. — Não me odeie — ela pediu. — Por favor, não me
odeie.
Os fortes braços de Varian a rodearam, esmagando-a contra
seu forte corpo. Durante um longo e doloroso momento, ele
apertou os lábios contra o pescoço dela. Logo a abraçou e a levou
até o sofá, onde a depositou sobre seu regaço.
— Odiar você, sim, claro. — murmurou ele.
E logo sua boca se aproximou até fundir-se com a dela.
Ela tinha esperado que ele respondesse a suas palavras com
ódio e repulsão, mas aquele beijo era quente e suavemente terno.
Deixou-se alagar por aquela doçura e ficou a chorar por aquele
coração que ele acabava de roubar com tanta facilidade. Tinha
estado louca pensando que poderia manter-se afastada dele, como
tinha estado louca em todo o resto.
Quando por fim ele levantou a cabeça, Esme escondeu o rosto
contra seu ombro. Os dedos dele brincaram com seu cabelo e logo
deslizaram para baixo para acariciar o seio, ligeiramente, roçando

266
apenas a magra seda de seu vestido. Mesmo sob a suave carícia,
seu corpo se arqueou em uma resposta emocionada. Estremeceu.
Ele dirigiu a mão para seu quadril e a deixou descansar ali, fazendo
que seu calor lhe percorresse o ventre.
— Ah, Esme! O que vou fazer com você?
Sua voz era tão suave como sua carícia e ela respondeu sem
conter-se, do mesmo modo que o fazia seu corpo.
— Não me deixe.
Suas palavras não foram mais que um ligeiro e apagado
murmúrio contra sua guerreira, mesmo assim perfeitamente
audíveis no profundo silêncio da habitação.
A seguir houve um longo silencio.
— Você está afetada. — disse ele ao fim, — e eu estou me
aproveitando disso. Deus, que ser tão perverso eu sou; e o menino
que está aí acima. — Beijou-lhe a cabeça. — Obrigado por me dizer
a verdade. Eu gostaria de… eu gostaria de ter sido o tipo de homem
a quem pudesse ter dito antes. Teria que ter dito: «Milorde, tenho
que vingar a morte de meu pai. Seria você tão amável em oferecer-
me amparo para a viagem?»
Esme ficou olhando, sem estar muito convencida, sem elevar o
rosto.
— E o que teria respondido você?
Ele sorriu.
— Não teria que ter respondido nada, mas sim teria que me
encarregar dessa missão e me por a caminho para matar o
malvado príncipe. Se fosse esse outro homem. Mas não sou. Sou
Edenmont, um tipo vago, egoísta e totalmente inútil. Não posso
fazer nada mais que tirá-la daqui.

267
Isso era mais do que Esme podia suportar. Ele não só parecia
entendê-la e não querer abandoná-la, mas também culpava a si
mesmo.
— Você não é nada disso, — disse ela e ficou completamente
reta olhando-o com os olhos cheios de admiração e gratidão. —
Tentou fazer o correto, o que todo mundo sabe que é correto,
exceto eu. Nessa noite Ismal ofereceu uma imensa quantidade de
dinheiro para que me abandonasse e você não aceitou.
Ele sacudiu a cabeça, e uma de suas grossas e escuras mechas
de cabelo se moveu roçando uma de suas sobrancelhas.
— Não me faça parecer nobre, Esme. Não sou. Só sou teimoso
e excessivamente egoísta. Pode ser que Percival tivesse ficado
furioso com você agora a pouco, mas está convencido de que
conseguirá que vá com ele. Se não for assim, me atormentará
durante o resto de meus dias. Em qualquer caso, Alí deixou muito
claro sua postura: amanhã partiremos para Corfú, por um caminho
ou por outro. Se eu decido não levá-la comigo, diz que a enviará
para lá com a escolta do exército. Concordei em levá-la comigo,
embora informei que necessitarei de ajuda de um exército para
poder cumprir minha missão. Fez-me saber o muito que a aprecia.
Diz que recorda a sua mãe.
— Alí? — Aquilo parecia incompreensível. — Quer que vá… e
deixou que Ismal…
— Fez a ele aquele emocionado discurso, da mesma maneira
que me deixou fazer o ridículo daquela maneira. Alí Pachá tem um
senso de humor muito particular; e um grande dom para julgar às
pessoas. — Enquanto falava, Varian brincava distraído com o cabelo
dela. — Pela primeira vez pude entender por que seu pai decidiu

268
ficar a seu serviço. O visir está meio louco, e é um tipo sádico em
muitos aspectos, mas tem o dom de Satanás para a manipulação. E
sabe utilizá-lo à perfeição.
Ele ficou em silêncio, enquanto seus longos dedos seguiam
acariciando-a carinhosamente, aliviando a tensão que ela sentia em
sua cabeça, e em todo seu ser.
— Lamento o que aconteceu com seu pai. — disse ele depois
de um momento. — Sei que o queria muitíssimo. Eu gostaria de ter
podido conhecê-lo. Eu gostaria que estivesse ainda aqui, a seu
lado… em lugar de ter que suportar a companhia de um lorde fraco
e patife e de um confuso menino de doze anos.
Esme fez um esforço para que as palavras surgissem através
de sua fechada garganta.
— Você não é um fraco. — disse ela. — E Percival está muito
menos confundido que eu. Os dois foram comigo muito mais
carinhosos do que eu mereço, mas tentarei remediar isso,
prometo. Vou ser tão obediente e boa a caminho de Corfú que não
vai reconhecer-me.
— Pelo céu, vai de um extremo ao outro, não é? — disse ele
sorrindo.
Com um sorriso que era tão doce e cálido como os raios do sol.
Quando a olhava daquela maneira, podia fazer com que um buquê
de flores murchas se convertesse em um radiante ramo de rosas. E
suas carícias podiam fazer o mesmo. Seus atormentados
pensamentos se acalmavam no refúgio de seus braços.
— Quero ir com você — assegurou ela. — Irei aonde você
quiser, Varian. Essa noite acreditei que fosse me abandonar.
Pensava que fosse desaparecer de minha vida; e pior ainda: que

269
íamos nos separar sem ter podido esclarecer minhas mentiras,
meus mal-entendidos e meus aborrecimentos. Entretanto, teve
paciência e me ajudou a aliviar meu coração. E agora meu coração
está cheio de gratidão por você. Embora isso não seja mais que
palavras, eu vou demonstrar. Espera e o verá. — Esme engoliu
saliva. — Não me importa que todas as mulheres estejam
apaixonadas por você.
Varian ficou olhando de uma maneira estranha, com seus
formosos olhos de novo cheios de sombras, como se a fumaça os
cegasse. Logo a ajudou a levantar-se e a colocou de pé no chão,
diante dele.
— Não sou muito bom resistindo as tentações. — disse. — Por
favor, vá para a cama, antes que a pressão da imperecível
amabilidade e nobreza me ponha a prova.
Esme teria preferido ficar ali, em seu regaço. Durante sua
viagem juntos, a tinha beijado e acariciado com paixão. Uma vez
inclusive a teve quase nua entre seus braços e tinha chegado a
acender de desejo. Entretanto, nunca antes a tinha tratado com
aquele carinho, nem tinha falado diretamente ao seu coração.
Nunca antes ela se sentou tão perto dele. E agora queria ficar tão
perto como pudesse.
Mas tinha prometido que seria boa, não é assim? Ele pediu
para que fosse dormir, e isso devia fazer.
— Onde quer que durma?
Ele soltou uma curta gargalhada.
— A questão não é onde quero eu que durma. O melhor será
que compartilhe o quarto com Percival. Petro saiu com seus colegas
para beber até o amanhecer. Possivelmente o encontraremos

270
amanhã atirado no pátio.
Ele deu uma olhada ao sofá e seus lábios se curvaram.
— Eu ficarei dormindo aqui. Parece muito mais cômodo que os
lugares aos quais já me acostumei.
— Trarei umas mantas — disse ela submissa.
— Obrigado, mas não tenho frio. E além do mais, meus
pensamentos me manterão quente, malditos sejam. Boa noite,
pequena guerreira.
Ela deu um beijo na bochecha, mas se apartou rapidamente
para não deixar-se levar pela tentação de desejar mais.
— Natën e mirë, Varian Shenit Giergi — sussurrou ela. Quero-
te, acrescentou seu agradecido coração.

Capítulo 17

Duas horas mais tarde, Esme se movia sigilosamente na


tranquila escuridão do harém.
Quando chegou ao dormitório, Percival já estava dormindo.
Mesmo assim, teve que esperar até que lorde Edenmont. também
dormiu Ficou sentada na parte alta das escadas, escutando até que
o som dos movimentos na sala de baixo cessou, e um suave
ronronar lhe assegurou que Varian tinha sucumbido por fim ao
sono.
Então, saltou pela janela, atravessou a galeria e se dirigiu para
o harém a toda pressa. Os guardas que dormiam na entrada a
tinham deixado entrar sem fazer perguntas. Entretanto, ao chegar
à pequena porta que conduzia para o lugar que queria ir, — o lugar
que Jason havia descrito, — o monte de graxa que guardava a

271
porta se pôs imediatamente firme para impedir sua passagem.
— Alí me manda chamar —sussurrou ela. — Será melhor que
me deixe passar ou nossas duas cabeças acabam sendo oferecidas
a sua alteza em uma bandeja.
Não me deram ordens de deixar passar a ninguém — disse o
eunuco. — Como sei que não veio com a intenção de assassiná-lo?
— Eu, a filha do Leão Vermelho? E se tivesse passado tão
absurda ideia pela minha cabeça, com que arma poderia acabar
com ele? Ou acredita que engoli um sabre e vou vomitá-lo logo,
quando precisar dele? Onde acredita que posso levar armas
escondidas nesse vestido tão vaporoso?
Soltando um exagerado suspiro Esme se ofereceu para despir-
se por completo, se é que não acreditava, mas pediu que a
revistasse depressa, porque Alí não era uma pessoa muito
paciente.
Como tinha esperado, o eunuco declinou daquela honra.
Procurou armas escondidas lhe dando vários tapas pouco
entusiasmadas pelo corpo e, depois disso, deixou-a passar.
Naturalmente, o que podia temer o visir de uma esquálida menina?
Agora tudo o que tinha que esperar Esme é que Alí se
encontrasse em sua câmara privada, para a qual se dirigia nesse
preciso instante, e que ainda não estivesse dormindo. Era um
pouco mais tarde que meia-noite e ele estava acostumado a ficar
acordado até alta madrugada, seja intimidando a exaustos
conselheiros ou divertindo-se com atrativos sujeitos de qualquer
sexo. Se estava ocupado com o segundo, Esme esperava que
aquela noite tivesse escolhido a uma mulher. Não tinha nem ideia
de quais eram os métodos que utilizavam os homens para divertir-

272
se entre eles e não tinha muita vontade de aproveitar aquela
ocasião para inteirar-se. Muitos problemas já tinha para manter sua
mente acordada, sem ter que enfrentar a novas formas de
depravação.
A generosa providência lhe tinha proporcionado um indulto, e
ela fez bom uso dele. Poderia levar a cabo sua vingança, mas dessa
vez de uma maneira que até Jason teria aprovado, para levar a
cabo sua heróica missão. Até Percival se orgulharia dela, e
gratamente aliviado de que seu segredo tivesse funcionado de
maneira adequada. Assim tinha que ser. Sabia o que tinha que
fazer e não tinha medo. Era a filha do Leão Vermelho, e antes de
abandonar para sempre seu amado país, tinha que salvá-lo.
Embora a princípio Alí pudesse não acreditar, era muito
inteligente para fazer ouvidos surdos a suas advertências. Ele
investigaria e logo seus espiões descobririam a verdade. Em muito
pouco tempo, Ismal ia se encontrar nas mãos de hábeis
torturadores. Logo teria uma morte horrível, como merecia, mas
ela não teria que manchar as mãos de sangue. Estaria muito longe,
pode ser que só e em um lugar onde ninguém a quereria, mas com
a alma totalmente limpa. Na Albânia possivelmente a admirariam
como a uma brava heroína, disse Esme a si mesma. Isso a satisfez,
assim como a ideia do Ismal morrendo depois de uma lenta agonia.
Aquelas agradáveis fantasias a levaram para a câmara privada
de Alí. Estava tentando decidir se devia bater na porta ou entrar
sem mais quando ouviu a voz do Ismal, doce e melíflua como
sempre. Com um silencioso juramento, Esme se sentou no chão a
esperar. Esperava que ele não passasse ali toda a noite.
— Deveria ter fechado a boca — estava dizendo Ismal. — E não

273
me arriscar a te desgostar. Mas embora tivesse me matado por
isso, tinha que dizer o que havia em meu coração. Meu amor por
você é muito grande para agir de outra maneira.
Alí riu entre dentes.
— Parece-me que a beleza do lorde inglês o transformou em
ingênuo, primo. A moça tem que partir. Deveria ter partido faz
muito, com seu meio primo. Não é bom momento para desgostar
os ingleses. Já estão bastante irritados com esses malvados
pargiotes que sacrifiquei, e estão a ponto de me causar problemas
também com o assunto dos suliotes. Vou ter muitos problemas
para debilitar suas forças. Quero que nossos visitantes estejam sob
a custódia segura dos ingleses antes de iniciar as negociações.
— Não vão negociar absolutamente nada se antes der a essa
garota a oportunidade para que lhes envenene a mente. Já viu
como insulta o lorde inglês e a sua rainha. Mandá-la ao exílio entre
aqueles aos quais odeia é expô-la a seu desprezo, e você acabará
se convertendo em seu inimigo.
— Sim, isso é algo terrível que poderia acontecer — respondeu
Alí. — Ponho-me a tremer sozinho só de pensar em poder zangá-la.
Mas me pergunto que coisa tão horrível poderia me fazer. Chorar?
Me amaldiçoar? Dar-me um chute no traseiro? Que Alá me proteja!
Seria horrível o que poderia me fazer a fúria dessa pequena moça.
E logo pôs-se a rir a gargalhadas.
Esme franziu o sobrecenho olhando à porta.
— Tentará vingar-se. — Havia na voz do Ismal um tom de
irritação que o traía. — Sabe o muito que deseja ter a seu lado à
artilharia e os conselheiros ingleses. Também é consciente de que
os ingleses mais liberais se esforçam para que seu governo fique

274
contra você. Ela poderia ajudá-los e eles estariam dispostos a
utilizá-la. Não ia ser difícil mascarar a verdade e fazê-lo aparecer
como a maior ameaça contra o mundo civilizado, depois do corso
Bonaparte.
Esme abriu os olhos como pratos. Nunca tinha confiado no
Ismal. Nunca tinha duvidado de que fosse culpado. De todos os
modos, não podia acreditar nas barbaridades que era capaz de
dizer. Tampouco que Alí ficasse quieto enquanto parecia considerar
seriamente as advertências daquela víbora.
Mas não era esse o tipo de ameaças a que estava acostumado
a considerar Alí? Sempre se tinha imaginado que era açoitado. E
sempre tinha na mente a vingança. Nisso era um professor; e um
professor paciente. Nunca esquecia um insulto, embora tivesse que
esperar meio século para fazê-lo pagar. Maldito seja, Ismal sabia
muito bem o que estava fazendo: estava jogando com a debilidade
do visir como se estivesse tocando as cordas de uma harpa.
Uma grande gargalhada do Alí rompeu o silêncio.
Evidentemente não era tão fácil que jogassem com ele. Esme se
tranquilizou.
— Realmente, Ismal, esta noite está mais divertido. — riu o
visir. — Se não soubesse que é abstêmio, acreditaria que está
bêbado. Parece-me que está cego. Pode ser que ela não queira ir-
se. Mas vingar-se? Se esquece do formoso reprodutor inglês. Pensa
que ele não será capaz de tê-la afastada de suas queixas?
— Ela o despreza.
— Certo. Por isso, dentre todos os lugares que poderia ter
escolhido, sentou-se precisamente a seu lado. Muito perto dele.
Esme levou um susto.

275
— E quando perguntei se sua espada inglesa feria lenta e
continuamente ou rápida e com força, ela ficou da cor dos
morangos.
— Qualquer donzela se ruborizaria ante essas palavras. — disse
Ismal.
— Uma «donzela» não deveria ter me entendido ou me teria
acusado de fazer caso de obscenas fofocas.
Esme cobriu o rosto com as mãos. Teria que ter se dado conta
de que Alí tinha boas razões para ter falado daquela maneira.
Deveria ter se dado conta de que sua reação poderia traí-la. Todo
mundo sabia.
— Entendeu-o porquê já saboreou seu impulso, ou deseja fazê-
lo — continuou dizendo Alí. — Seu aborrecimento não é mais que a
chama do amor, como já expliquei a ele. Ela é muito jovem, pobre
garota. E ainda não é capaz de compreender a paixão que sente
por ele. E naturalmente, a pena que sente por seu pai tê-la
confundido. É como uma criatura ferida que fere às cegas a todos
aqueles que tratam de ajudá-la. Mas o lorde inglês poderá curá-la.
Já lhe disse como: com palavras suaves e doces carícias.
Esme fechou os olhos. Palavras suaves. Doces carícias. Não
afeiçoado, a não ser cura. Manipulação.
— Acredita que ele fará caso de seus conselhos? — perguntou
Ismal. — Pensa que esse insolente nobre vai se incomodar em
acalmá-la com suas estratégias amorosas? Para ajudar a você, ou a
ela? Acredito que tem muita confiança em um homem que todo
mundo sabe que é um gigolô.
— Não custa nada ter confiança — respondeu Alí em tom de
confidência. — Paguei muito bem para que se assegure de que ela

276
irá com ele por vontade própria. Além disso, é o que quer o
menino, e esse menino é o verdadeiro problema, como bem
reconhece o ardiloso lorde.
— O menino? Eu não…
Houve uma lenta pausa e logo Alí riu.
— Pelo menos já se deu conta de por que sua generosa
proposição foi rechaçada com tanta frieza. O pobre homem não
tinha outra opção, não com o menino aqui. Pensou no que poderia
acontecer se esse inteligente guri conta a seus maiores que lorde
Ee-dee-mund vendeu a uma sobrinha do lorde a um bárbaro febril?
— Possivelmente o pendurariam — respondeu Ismal
tranquilamente. — De modo que pagou a ele para que faça o que
de toda maneira já ia fazer?
— Oh! Nisso não tinha outra opção. — A voz de Alí soava
arrependida. — Esse homem é abominavelmente matreiro. Disse-
me que não podia vendê-la de maneira nenhuma. Por outra parte,
advertiu-me que não poderia fazer nada se ela decidisse fugir. Diz
que já o tentou antes. De maneira que acreditei que era melhor
assegurar-me de que não ia escapar. Assim que ofereci quinhentas
libras inglesas para que se case com ela. Ao final tive que subir
para mil. Isso fará feliz o menino e ao lorde, que está
desesperadamente necessitado de dinheiro. Acredito que por mil
libras até teria casado com você.
Alí voltou a rir.
Esme mordeu um punho para evitar ficar a gritar. Ismal estava
falando de novo, mas ela não ouvia nada mais que um murmúrio
afogado pela maré de raiva que a dominava.
«Não me faça parecer nobre.»

277
Acaso não tinha sabido desde o começo que o coração de
Varian era negro e egoísta? — Não havia dito ele mesmo — assim
como tinha feito Petro — que tinha vivido durante cinco anos de
seu engenho, de seus encantos e de sua beleza? Tinha chegado até
ali procurando uma peça de xadrez de mil libras. Apesar de não ter
encontrado essa peça, seu engenho, seu encanto e sua beleza
tinham conseguido diretamente mil libras.
E, além disso, tinha conseguido a revanche pelos problemas
que Esme tinha causado. Nunca tinha gostado dela; só tinha estado
jogando com ela. Quando ela se ofereceu, ele a tinha rechaçado; só
queria era atormentá-la, e tinha conseguido até fazendo com que
ela se apaixonasse por ele. Tinha tido nisso um êxito admirável. E
Alí se deu conta imediatamente de quão tola era essa pequena
guerreira.
Varian os tinha utilizado a todos, tinha utilizado a teimosia
dela, assim como a solidão de seu primo. Varian tinha feito com
que a debilidade deles dois funcionasse em seu próprio proveito.
Aquele homem, que ela considerava estúpido e infantil, tinha
tirado de Alí mil libras — o grande avaro do Império turco — e tinha
convertido à filha do Leão Vermelho em uma chorosa descerebrada,
e em uma libertina que rogava que a desonrassem.
Respirando profundamente, Esme se obrigou a ficar em pé e a
retroceder o caminho pelo qual tinha chegado até ali. Era melhor
assim, disse a si mesma, sempre é melhor saber a verdade.
Ninguém a queria. Todos riam dela. Muito bem. Melhor deixá-los
com suas brincadeiras, suas mentiras e suas maquinações. Que
jogassem eles seus jogos de homens. A ela tudo aquilo traia sem
cuidado. Ela era uma mulher. E agora, finalmente, entendia

278
perfeitamente o que significava isso. Jason teria que ter explicado,
muitos anos atrás. Mas isso era muito típico dele. Sempre deixava
para mais tarde o mais importante.

Pouco depois de sair o sol Fejzi chegou para escoltar a Varian


até o visir. Encontrou lorde Edenmont acordado e lavado, embora
ainda sem barbear, e muito suscetível.
O mal sonho de Varian tinha estado particularizado por uma
série de pesadelos, cada um dos quais tinha começado
lascivamente e terminado de uma maneira horripilante. Na última,
Esme nua sustentava em uma mão uma faca banhada em sangue e
na outra uma parte de carne palpitante. «Não tem coração», dizia-
ela sorrindo. «Não tem coração, não tem.» despertou para
encontrar seu próprio coração ainda a salvo, pulsando
desaforadamente no fundo de seu peito. E agora se preparava para
outra manhã agitada ante o inesperado e totalmente pouco
acolhedor convite.
Entretanto, Varian não pôs objeção alguma. A última coisa que
queria naquele momento era enfrentar Alí. Depois da confrontação
da noite anterior, era um milagre que a cabeça de lorde Edenmont
estivesse ainda sobre seus ombros. Tinha rechaçado quinhentas
libras — pela segunda vez — por deixar a Esme ali. Examinaram
com detalhe suas razões. Com tanto detalhe que Varian havia
sentido que o viravam do avesso, e que escrutinavam em seu
interior qualquer possível segredo e o deixavam completamente
vazio.
Sim, ao final tinha ganhado ele; justo quando tinha começado
a suspeitar. Alí tinha tentado quase tudo, e o suborno parecia ser

279
só uma parte de algum arrevesado jogo oriental — ou de algum
tipo de prova. — Naquele momento Varian teria dado uma patada a
si mesmo por ter rechaçado o dinheiro. O que teria chegado a fazer
Alí para que ele aceitasse — O que pensava fazer o velho visir com
a garota que sabia que queria cortar o pescoço de seu primo? Ou
acaso o visir queria ver o Ismal morto?
Não. Varian não podia pretender chegar a entender o labirinto
da mente de Alí Pachá. Aquela maneira enlouquecida de mentir.
O Leão da Ioanina estava de pé quando lorde Edenmont entrou
— um prometedor sinal de condescendência. — Para maior
surpresa de sua excelência, o Leão se equilibrou sobre ele para
abraçá-lo.
Por meio do Fejzi, lorde Edenmont se inteirou de que sua
majestade o apreciava como a um filho, e se as circunstâncias
tivessem sido outras, o visir teria dado a metade de seu reino para
manter esse inteligente e valente lorde a seu lado para sempre.
Mas, por desgraça, não poderia tê-lo a seu lado nem um dia mais.
Alí tampouco poderia acompanhar a sua excelência a Corfú, porque
as obrigações o mantinham ocupado em todas as partes. Parecia
que tinha algumas dificuldades no sul do reino; e seria necessária
uma pequena guerra para manter ali a paz. Mas não havia razão
para que se alarmasse. Lorde Edenmont poderia partir naquela
mesma manhã e chegar a Corfú rapidamente. Ele não queria pôr
em perigo os jovens fazendo-os permanecer ali por mais tempo.
Alí falava de maneira despreocupada, como se mencionasse
assuntos sem importância. Entretanto, ao dar-se conta da maneira
como Fejzi gaguejava enquanto traduzia, Varian sentia um calafrio,
como se um dedo de gelo percorresse sua coluna vertebral.

280
— Disse a sua alteza, ontem a noite, que não tenho nenhuma
intenção de ficar aqui. A que vem agora suas insinuações? —
perguntou ao Fejzi.
— Sua alteza está preocupado porque a filha do Leão Vermelho
poderia seguir causando problemas que atrasem sua partida. Em
outra ocasião a rebeldia pode ser divertida; neste momento pode
ser perigosa. Ismal está profundamente decepcionado. É possível
que seus amigos queiram aproveitar-se das preocupações do visir
causando problemas internos. Ismal pode acabar facilmente em um
calabouço. Por desgraça, seus amigos estão por toda parte. Poderia
demorar meses para capturá-los a todos. Dá-se conta, milorde?
Sua alteza não pode atender adequadamente seu reino até que
vocês não estejam a salvo com os ingleses.
— Pode assegurar a ele que a senhorita Brentmor não causará
problemas de nenhum tipo — disse Varian secamente. — Sei que
parecia estar inquieta quando a viu ontem à noite, mas já
recuperou a calma. Prometeu-me que partirá conosco tranquila, e
estou convencido de que sua palavra é tão firme como a de
qualquer cavalheiro. Que demônios é esse estrondo?
Na habitação do lado se ouviram gritos, chiados, golpes e
pancadas. Logo que tinham saído da boca de Varian aquelas
palavras Percival cruzou a toda pressa a porta, e dois robustos
guardas se precipitaram atrás dele. Um deles tratava de segurar o
menino pelo braço, mas o soltou de repente ante a ordem seca de
Alí.
Percival olhou o guarda com cara feia, arrumou a jaqueta e se
dirigiu correndo para Varian.
— Peço desculpas por incomodá-los — disse com voz

281
entrecortada o menino, — mas não pude evitá-lo. Aconteceu algo
totalmente inesperado.
Tirou uma parte de papel do bolso do peitilho de sua camisa, e
com mão tremendo o deu a Varian.
Varian deu uma olhada rápida à nota, embora não fosse
preciso. A palidez do Percival e a rigidez de sua expressão diziam
tudo o que tinha que saber.
Com o rosto decomposto, Varian se dirigiu ao Fejzi.
— Pode ser amável e expressar a sua majestade minha
admiração por sua perspicácia?
— Não entendo, milorde.
— Parece-me que depois de tudo, haverá um atraso em nossa
partida — disse Varian com um tom de voz mortalmente tranquilo.
— A jovem dama escapou. Por favor, faça chegar a ele minhas
desculpas pelo incômodo, mas devo pedir que me ajude. Vejo-me
na obrigação de encontrá-la e torcer o pescoço dessa menina.

Risto se introduziu sem fazer ruído na luxuosa habitação e


correu para o divã onde Ismal estava deitado.
— A garota fugiu de Tepelena — e disse Risto sem mais
preâmbulos. Com seu chefe, poucas vezes esbanjava as palavras.
Ismal se ergueu lentamente, com os olhos azuis brilhando de
interesse.
— Assim é? Está seguro?
— Sim. Escapou em um arrebatamento de raiva com o lorde
inglês por quem sabe o que. Procuram-na desde a manhã cedo, de
maneira muito discreta. Ninguém diria que aconteceu algo
estranho… só se alguém prestar atenção aos pobres diabos

282
entrando e saindo dos aposentos de Alí. Agora mesmo me
interrogaram. Você foi o seguinte na lista, mas dessa vez teve
sorte. Acabam de encontrar o guarda que ela golpeou ontem.
Estava amordaçado e amarrado com seu próprio cinturão, e enfiado
na arca que a garota subiu para saltar pela janela.
— Rendeu a um dos guardas — A boca do Ismal se curvou em
um sorriso relutante. — Nenhum deles mede menos de um metro
oitenta e todos pesam ao menos o dobro que ela. Mas parece que a
moça tem caráter… e sem dúvida é rápida, muito mais forte do que
parece e também muito esperta.
— Pouco importa como conseguiu. Mas não há dúvida é que se
foi.
— E ninguém sabe por quê?
— Fejzi diz que deixou uma nota ao menino. Dizia que todos os
homens, menos você, tinham-na decepcionado.
O brilho azul dos olhos do Ismal se intensificou.
— Isso é verdade? Então me pergunto por que não me chamou
Alí em seguida para acusar-me de ter ajudado à garota em sua
fuga.
— Não sei. A nota dizia algo mais, mas só o que pôde me dizer
Fejzi é que nela advertia ao menino de que não se deixasse utilizar
por ninguém, como tinham feito com ela. O lorde inglês não deixou
que ninguém mais lesse a nota. Estou seguro de que o resto não
era mais que acusações contra ele. Parecia tão calmo e insolente
como sempre, mas por dentro não estava. Isso se podia notar.
— Sem dúvida estava considerando a possibilidade de que
tivesse sido assassinada. Teria gostado de vê-la contrariá-lo ontem
de noite.

283
— Não sei o que pensa — disse Risto secamente. — Não confio
nele. Não é o que parece.
— Não é nada — disse Ismal voltando o rosto para o fogo. —
Está destinado ao fracasso. Há muitas complicações. Não sei quem
matou Jason nem por que, e não consigo entender o que é que
trouxe aqui o barão, com esse moço, esse em especial. Só o que
sei é que danificaram meus planos. No momento que a peça de
xadrez saiu de minhas mãos, meus maravilhosos planos se
converteram em fios enredados, e um a um vejo que me escapam
das mãos. Agora não faço mais que me perguntar como e quando
aparecerá a rainha negra… para selar meu funesto destino.
— Está sendo muito pessimista. Deixa que sua cabeça volte ao
mais escuro — repreendeu Risto. — Essa peça de xadrez pode estar
no fundo do mar ou do rio, ou em Serbia com esses incompetentes
que não foram capazes de distinguir um menino de uma garota.
Estivemos procurando por toda parte. Mesmo se alguma vez a
tivessem tido em seu poder, a garota ou seus amigos, não teriam
sabido o que fazer com ela.
— Eu penso o mesmo, mas meus instintos dizem outra coisa.
Deveria ter feito caso deles e abandonar Tepelena quando ainda
estava a tempo.
— Já não pode fazê-lo. O seguirão no momento em que saia
desta habitação.
— Mas se ela pôde escapar… e não é mais que uma mulher.
— Mas bem dirá uma endiabrada mulher — replicou Risto
zangado. — Não faz nada mais que causar problemas. Ao menos
agora já não terá que fingir que está morrendo de amor por ela.
Deve ter sido muito humilhante suplicar a essa horrível zorra.

284
— Absolutamente, foi muito divertido. Infelizmente, também
foi muito caro. A função de ontem à noite me custou mil libras.
Com esse dinheiro poderia ter comprado rifles, homens e até a
ajuda do próprio sultão. — Ismal fez uma pausa. — Ou, no mínimo,
poderia ter conseguido à garota.
— Mas você não a quer — foi precipitada resposta de Risto. —
Uma esquálida aborrecida com uma língua viciosa. Eu preferiria me
deitar com uma cobra.
Ismal sorriu levemente, sem deixar de olhar ao fogo.
— Ah, bom! Mas você não tem gosto para as mulheres.
— Tampouco você o tem muito desenvolvido.
— Isso não quer dizer que compartilhe suas inclinações. Se
desejasse a um homem, ficaria com o formoso inglês. É um
espécime muito intrigante, não acha? Com sua cabeleira negra
como o carvão, essa pele tão branca e esses olhos cinzas. Talvez
devesse tê-lo comprado, não acredita? Ao que parece, certamente
o preço não seria muito alto.
O rosto azeitonado de Risto se escureceu.
— Não teria entregado a essa pequena endiabrada… e no final
teria ficado com seu dinheiro.
Ismal deu de ombros.
— Assim que me inteirei de que vinham a Tepelena, sabia que
ia me custar uma fortuna. Inclusive quando lorde Edenmont
rechaçou minha oferta, sabia que acabaria pagando. Como
esperava, Alí se ofereceu generosamente para aliviar meus
problemas de consciência ontem de noite, me aliviando de mil
libras. Disse-me que necessitava para subornar ao inglês. O que
realmente duvido. Eu menti, ele mentiu, e ao final tive que acabar

285
pagando, como sempre me acontece. De qualquer modo, pensava
que, pelo menos, no final ia me deixar a garota.
— Outra vez a garota — disse Risto com impaciência. — Ela se
foi e com bom vento. Por que continua voltando para esse
espantalho ruivo?
— Voltando? — Ismal se voltou para seu criado e arqueou uma
de suas bem desenhadas sobrancelhas. — A que vem tanta
hostilidade, Risto — Parece-me muito estranho em você. Qualquer
um diria que está ciumento.
O medo brilhou por um momento nos olhos negros daquele
servente.
— Está rindo de mim — disse ele. — Sempre o tem feito…,
desde que era um menino.
— Teria preferido que mentisse, como estou acostumado a
fazer com todos os outros? — perguntou-lhe Ismal com voz suave.
— Também tenho que me pôr minha bela máscara para ti?
— Não, não poderia suportá-lo.
— Então deixa de atuar como uma esposa ciumenta. Nunca
antes se comportou assim.
— E você nunca antes tinha atuado de uma maneira tão
estranha. — Risto duvidou por um momento e logo seguiu falando
com um tom de voz amargo. — Ontem à noite a chamou em
sonhos.
Ismal ficou observando tranquilamente a expressão de seu
servente durante um longo e tenso momento.
— Entendo. E nessa manhã ela desapareceu. Espero que você
não a tenha feito desaparecer, Risto.
— Pelo Alá! Teria que ter imaginado. Esteve jogando comigo. —

286
Risto fechou os olhos. — Eu não a assassinei, juro-lhe isso.
— Então, o que fez?
— Sabe tudo —respondeu Risto desconsolado. — Você sempre
sabe tudo.
— Sei que despertei antes que saísse o sol e me dei conta de
que já não estava no quarto. Sei que faz um momento, quando me
trouxe a notícia do desaparecimento de Esme, seus olhos negros
brilhavam com deleite.
Risto estremeceu.
— Seu desaparecimento me põe em perigo, Risto, embora
agrade a você. Isso é algo muito estranho em um servente
devoto… e em um amigo.
Risto se ajoelhou diante do divã.
— Me escute — rogou. — Não vai poder mover um dedo no sul
enquanto eles estejam viajando. Se o tempo voltar a piorar, podem
passar semanas viajando. E você tem que ir a Preveza dentro de
uns dias, mas acho que pensou nisso. Enquanto a garota estava a
seu alcance, tinha sua cabeça nela e nesse imundo inglês. Você
mesmo disse que ontem à noite acabaram pilhados em sua própria
armadilha. Dizia que se tivesse tido uns dias mais, Jason teria
fugido. Agora sua maldita filha desapareceu, e será Alí quem tenha
que se preocupar em encontrá-la. Esta é a oportunidade que
esperava para partir …
— Desapareceu por própria vontade, Risto?
— Que o Todo-poderoso me fulmine agora mesmo se estou
mentindo — disse o servente com lágrimas que caíam pelas
morenas e curtidas bochechas. — Eu não encostei em nenhum fio
do cabelo dela. Eu a vi partir, isso é tudo.

287
— E não disse a ninguém, nem tentou detê-la.
— Segui-a durante um trecho do caminho. Isso é tudo. Mas
não fiz nada mais.
Ismal se inclinou para seu servente, olhando-o fixamente com
seus olhos azuis e inocentes como os de um menino, e o encanto
de um anjo.
— E por onde foi? — sussurrou-lhe ao ouvido.

Capítulo 18

Por uma vez a sorte sorriu a Esme. A pequena aldeia da


Saranda tinha triplicado sua população com motivo do festejo, e ela
se arrumou para chegar no dia antes das bodas de Donika. Tinha
reconhecido Branko, o irmão da Donika, logo ao chegar, mas tinha
esperado que caísse a noite para apresentar-se. A essas horas, a
maioria dos homens já tinham alcançado altos graus de intoxicação
etílica, e as mulheres estavam em pleno frenesi dos preparativos.
Não teriam visto nem a um elefante em correria, muito menos ao
mendigo moço que aparentava ser Esme.
Branko não gostou nem um pouco da história que ela contou.
Apesar disso, e de que dissesse mil vezes que era uma louca e uma
exaltada, não deixou de ajudá-la. Além disso, ele devia. Ela tinha
salvado sua vida dois anos atrás e tinha tirado uma bala de sua
perna.
Só o que queria, disse-lhe Esme, era um barco que pudesse
levá-la ao norte, mais à frente do território de Alí, a Shkodra. Era
onde Alí não tinha nenhum poder, e ela poderia viver a salvo em
casa do velho que anos atrás tinha lhe ensinado como curar as

288
feridas de bala.
— Não quero que diga a ninguém mais que estou aqui — pediu
ela. — Só quero que me encontre um lugar onde me esconder. Não
me moverei daqui até que me prometa isso.
Branko refletiu um momento.
— Não conheço a cidade — ele disse ao final em um tom de
voz suave e pensativo. — O único lugar seguro que me ocorre é
que fique com minha família. — Quando ela começou a queixar-se
de que podia pô-los em perigo, ele a repreendeu: — Já sabe que a
ninguém ocorreria vir buscá-la aqui. E de qualquer modo, ninguém
pensará que veio se esconder tão perto de Corfú. Em qualquer
caso, dentro de pouco darão voz de alarme e os oficiais irão
procurar uma jovenzinha disfarçada de mendigo.
— Com os olhos verdes — recordou ela. — Tenho que me
esconder. Não há forma de dissimular a cor de meus olhos.
— Isso não será necessário se a fazemos passar por
estrangeira. Por cigana, por exemplo. Donika pensará em algo —
disse ele. — Mas antes tenho que levá-la até a casa sem que
ninguém suspeite.
Deteve-se a pensar de novo durante um momento. Também
Esme tentou que lhe ocorresse algo, mas seu cérebro não parecia
querer cooperar. Estava tão cansada como seu corpo.
— Sim, é bastante fácil — disse Branko olhando-a
pensativamente. — No momento, será um menino que chegou de
viagem e com quem acabo de me encontrar. Levarei você nos
ombros até a casa. Só tem que manter os olhos fechados até que
cheguemos ali.
Não podia ter ocorrido um plano mais atrativo. Ela tinha

289
passado três dias sem deixar de tentar raciocinar, planejando cada
um de seus movimentos, enquanto tratava de manter o medo e a
tristeza afastados de seus pensamentos. Tinha vendido o rifle que
tinha roubado do guardião, e com o dinheiro que tinham dado por
ele tinha conseguido um cavalo. A partir desse momento tinha
avançado bastante depressa, pois o tempo era muito bom. De
qualquer modo, Esme estava cansada até a medula dos ossos.
Durante uns poucos minutos, poderia descansar e deixar que
alguém pensasse por ela. As maneiras do Branko podiam ser
lentas, mas não o era sua inteligência. Jason sempre tinha tido o
irmão da Donika em grande estima.
Esme deu a ele as armas e a bolsa de viagem. Branko as
colocou sobre um de seus largos ombros e a Esme sobre o outro.
Imediatamente, o corpo dela desabou com alívio e suas pálpebras
se fecharam com satisfação. O resto foi uma apagada consciência
de movimentos, vozes e ruídos. Quando chegaram a casa, até essa
consciência se desvaneceu. Esme se afundou em um escuro e
ditoso estado de esquecimento.

Do alto da colina rochosa, por cima do frondoso bosque, Varian


viu aproximar-se dois cavaleiros no cruzamento dos caminhos. Não
chegaram a deter-se, mas ambos tomaram o desvio da direita.
— Não posso acreditar disse Varian ao Fejzi, que estava de pé
a seu lado.
— Eu não o entendo — disse o secretário, — mas acredito.
Ismal sabe como fazer isso. É um jovem muito inteligente. E tão
orgulhoso de si mesmo para nos economizar o trabalho de ter que
procurá-la por toda a comarca.

290
Apontou para os homens que esperavam embaixo, que em
seguida pegaram suas armas e as carregaram.
— Esperaremos até que parem Ismal e Risto — disse Fejzi. —
Logo seus homens poderão levar a você e o senhorio Percival ao
povoado. É um lugar pequeno. Não será difícil encontrá-la.
— Se é que está aí.
— Tem que estar aí.
Embora todo mundo acreditasse no mesmo, Varian não estava
tão seguro; mas eles eram a maioria e tinha que considerá-los. O
que Varian acreditava — ou temia — era que… Era melhor não
pensar nisso. Ao menos no momento.
— Não vem conosco? — perguntou Varian.
— Devo escoltar o peralta Ismal até seu primo.
— Tem dois esquadrões para escoltá-lo, e eu necessito de um
intérprete competente — disse Varian com convicção.
— Você não conhece o Ismal. Quarenta homens não são nada
para ele. Após uma hora todos esses bravos guerreiros estariam
começando a chorar; sempre consegue o que quer, tem uma
maneira muito convincente de pedir as coisas. Por sorte eu não sou
um valente guerreiro, mas um grande covarde. Além disso, eu fui
seu tutor durante muitos anos e sou imune as suas artimanhas. O
medo ao Alí me mantém firme.
— Fala desse arrogante inútil como se fosse um bruxo.
— Há quem afirme que sua mãe era descendente de Olímpia, a
mãe do Alexandre Magno. Dizem que era uma feiticeira de cabelo
vermelho como o fogo, a mesma cor de cabelo do Leão Vermelho.
Dizem que foi amante dos deuses e que por isso Ismal é um
homem de tanta beleza. É obvio, qualquer um pode afirmar que

291
pertence aos descendentes de Alexandre. De qualquer modo, eu
sempre acreditei que havia nele algo de desumano.
— Um pouco de insensato, diria eu — acrescentou Varian
voltando o olhar aos dois cavaleiros.
— Possivelmente — disse Fejzi. — Se diz que os desejos
tornam loucos aos homens.
Varian tencionou as mandíbulas.
— Vocês os albaneses são muito românticos. Até Alí parece
estar convencido da desesperada paixão que Ismal sente pela
senhorita Brentmor. Ou ao menos isso pretende nos fazer acreditar.
— Você não acredita lorde Edenmont?
— O que eu acredito parece ser de tão pouca importância que
dá no mesmo o que faça ou diga.
Abaixo, as tropas de Alí começaram a pulverizar-se pelos
caminhos. Conforme foram avançando a mais velocidade, foram se
colocando em formação. Em menos de um minuto, a massa de
homens e animais se converteu em uma longa cunha a galope, que
cavalgava inexoravelmente por volta dos dois cavaleiros solitários.
Fejzi se aproximou de Varian.
— Veja — disse Fejzi, — vão por aonde vão, os homens do Alí
estarão esperando. Não tem escapatória.
— Certamente já sabiam que os perseguiriam. Ismal não é um
estúpido. Apostaria qualquer coisa de que sabe, e só está nos
levando a uma perseguição sem sentido. — A voz de Varian tinha
um tom de raiva contida. — Possivelmente tinham planejado tudo,
os dois. Ela não pôde ter escapado sem sua ajuda.
Fejzi deu de ombros.
— Pode ser que sim; ou pode ser que não. Tudo isto vai além

292
de minha capacidade de compreensão. Parece que Alí está jogando
com seu primo de algum jeito, mas eu não sei do que se trata.
Pode ser que Ismal tenha suspeitado. Ou pode ser também que o
tenham enganado. De qualquer modo, as intrigas de nossa corte
não acredito que sejam de sua incumbência, milorde. Em poucas
palavras, você só tem que encontrar a garota e partir com ela
daqui.
— Eu gostaria de poder fazê-lo. — Varian deu um olhar ao
Percival, que estava a uns metros do secretário, sentado em uma
pedra e com os olhos cravados no caminho. — Oxalá pudesse fazê-
lo.
— Você fará o que seja correto, milorde, disso não tenho a
menor duvida.
— Então você que está louco — murmurou Varian.
Logo deu meia volta e pôs-se a andar pelo estreito caminho.

O dia das bodas da Donika tinha amanhecido ensolarado e


caloroso, e os raios do sol caíam suavemente sobre os recém
casados, produzindo reflexos dourados nas contas de ouro com que
adornava sua negra cabeleira. Agora, apesar de estar começando a
entardecer, ainda brilhava com força o sol, fazendo Esme desejar
que seus cúmplices a tivessem disfarçado com roupas um pouco
mais leves. Levava o rosto cheio de pintura e suava todo seu
corpo, vestida com as múltiplas capas do traje de cigana.
Não tinha nem ideia do que tinha acontecido na noite anterior.
Esme somente sabia que despertou muito antes do amanhecer para
encontrar-se em um quarto ocupado pelas irmãs, as primas, as tias
e a mãe de Donika… e sua própria avó, Qeriba.

293
Se não estivesse tão cansada na noite anterior, teria percebido
que Qeriba tinha que estar ali, porque era tanto uma prima do
noivo como amiga da família da noiva. Mas naquele momento ela
não era — isso não tinha que esquecer — Esme, a amiga da
Donika.
Desde o dia em que Esme tinha tido sua primeira menstruação,
Qeriba tinha se empenhado em encontrar-lhe um marido. Por isso,
no momento que Esme acabou de lhe contar sua história, sua avó
tinha começado a repreendê-la, não por ter posto em perigo a vida
de seus amigos, mas sim por ter escapado do matrimônio com um
solteiro perfeitamente desejável.
Esteve repreendendo-a enquanto seus amigos a vestiam de
cigana e também durante o apressado café da manhã. Passou toda
a boda murmurando e ainda seguia grunhindo horas depois,
quando se sentaram com um numeroso grupo de mulheres em um
jardim separado atrás da casa do noivo. Ele estava dentro, com os
homens, escutando as poucas delicadas canções e ainda menos
delicados conselhos que outros homens diziam ao ouvido. Também
as mulheres cantavam, embora com um volume de voz muito mais
baixo e com muita mais sutileza na temática de suas canções. Só
Qeriba se atreveu a dar alguma ocasional e imodesta sugestão, e
unicamente quando por momentos esquecia de arengar a sua
pequena neta.
— Um inglês bem apanhado, de bom berço, e você sai fugindo
dele —estava dizendo sua avó pela enésima vez. — Por que não ia
tomar o dinheiro do Alí? É um tesouro tão grande que acredita que
um homem, mesmo um cristão, ia se casar com você por nada?
— Avó, quantas vezes tenho que dizer isso Não tinha nada que

294
ver com casar-se comigo. Só o que ele queria era…
— Os homens não sabem o que querem. Isso as mulheres
devem ensinar. — Qeriba fez um gesto a seu redor. — Qualquer
destas garotas poderia ter ensinado. Mas você não. Você sabe ler e
escrever. É mais preparada que uma dúzia delas juntas, mas isso
não pode fazer.
— Qualquer delas é uma dúzia de vezes mais bonita que eu,
avó.
— Os homens não sabem o que é formoso e o que não o é.
Faça com que um homem seja feliz a seu lado e quando a olhar
pensará que é Afrodite. Que Deus me dê paciência. Essas são
coisas que você deveria entender melhor que qualquer outra moça.
— Não tenho vontade de entender — sussurrou Esme irritada.
— Não me interessa nada apanhar um homem… se é que pudesse
fazê-lo. Só o que eu quero é que me deixem em paz.
— E morrer virgem — disse Qeriba suspirando. — Não vai
encontrar marido em Shkodra.
— Não quero…
— É um lugar horrível. Ali todos são bárbaros. Jason a deixou
ali muito tempo. E aprendeu a se comportar de uma forma
selvagem.
— Então será melhor que retorne ali. Ao menos é o lugar ao
qual pertenço.
Esme esfregou o rosto. A grossa capa de pintura fazia com que
pinicasse o rosto, e estava suando copiosamente, apesar de
encontrarem-se sentadas à sombra. Não era só o calor nem as seis
capas de roupa que vestia o que estava oprimindo, mas sim o
nervosismo que aumentava nela conforme se aproximava o

295
momento de partir dali.
Branko tinha encontrado um barqueiro que a levaria até
Shkodra quando se fizesse noite, porque não tinha vontade de
partir antes que acabassem os festejos. Esme esperava que ao
menos não bebesse muito. Nunca tinha dirigido um barco sozinha.
— Você pertence à família de seu pai — disse Qeriba. — Esse
era o desejo do Jason. — ficou olhando a Esme com aborrecimento.
— Faz um momento estava vendo que lia a sorte. Quer que eu leia
a sua? Em tudo o que passou, vejo claramente a mão do destino.
Não pode escapar de seu kismet tomando um barco. Mas não tem
nenhum sentido que eu diga isso. Nunca vi uma garota tão
obstinada como você.
— Amán, avó, me conceda uma pausa — pediu Esme. — O que
está feito feito está. Dentro de umas horas eu partirei. Temos que
brigar e nos despedir zangadas? Não posso ter umas poucas horas
de trégua entre aqueles que amo antes de ir?
Qeriba ficou olhando o rosto de sua neta, e seu próprio rosto se
relaxou.
— Sim, claro, dá má sorte partir zangado — disse olhando a
seu redor. — Rir e cantar são coisas boas, mas é duro para os
ouvidos de uma anciã. O sol esquenta muito e não sopra nem um
pingo de vento que alivie o calor. Além disso, estou faminta. Vamos
comer algo e depois acompanharei você até o cais. Faz muitos anos
que não passeio pelas praias de Saranda. Vamos juntas e deixemos
que o mar acalme nossos espíritos, de acordo?

Enquanto seus homens se dispersavam por Saranda,


Varian esperou em uma colina de onde se divisava todo o

296
povoado. Esteve inquieto uma interminável hora, caminhando de
um lado para outro, esperando que Agimi retornasse para informá-
lo.
Informou-lhe que Saranda estava em plena celebração. Um dos
filhos de uma das famílias mais prósperas da cidade acabava de
casar-se e toda a população estava celebrando. As ruas adjacentes
à casa do noivo estavam infestadas de gente. A única maneira de
entrar sem tropeçar com bêbados convidados para as bodas era a
pé. Em poucas palavras, lorde Edenmont não podia esperar que sua
chegada passasse despercebida, e o rumor de sua presença se
estenderia rapidamente entre a multidão.
— Acredito que isso parece um problema para Agimi — disse
Varian ao Petro.
O marinheiro franziu o sobrecenho.
— E que outra coisa esperava? Aonde ela chega há sempre
problemas. Agimi diz que a noiva é uma boa amiga da pequena
zorra. Não vão nos ajudar. Matarão a todos.
— Não seja tolo — disse Percival. — Nas bodas sempre há um
beija geral. Não matariam nem o pior de seus inimigos. Mustafá
diz…
— Não me importa o que diga Mustafá — cortou Varian. —
Todo o povo está bêbado. Uma multidão de bêbados pode fazer o
que passar pela cabeça. Você ficará aqui com o Petro e se
assegurará de que ele se mantenha afastado da garrafa de rakí. Já
temos muitos problemas sem ter que nos preocupar com você.
— Mas, senhor, eu prometo que…
— Ficará aqui, Percival.
— Mas necessitará de Petro para…

297
— Estou seguro de que encontrarei alguém que saiba grego ou
italiano. Pelo menos o padre tem que saber latim. Já reverei isso.
— Não são papistas, senhor, não no sul. Aqui são…
— Maldito seja. Pode manter a boca fechada por uma vez e
fazer o que ordeno? Advirto-o, Percival, se ocorrer-lhe sair desse
lugar, darei em você a surra que faz tempo deveria ter dado.
Percival se deixou cair de novo, zangado, sobre a pedra em que
esteve sentado até esse momento.
— Sim, senhor — respondeu com voz submissa.
Varian deu um olhar de advertência ao Petro e logo montou em
seu cavalo e seguiu Agimi colina abaixo.

Donika apertou a mão de Esme.


— Não, não pode ir tão cedo —disse. — Prometeu que cantaria
para mim, cigana.
Esme olhou a Qeriba.
— Bom, que mal pode haver nisso? — disse a anciã. — Cante
para a noiva e deseje a ela boa sorte. Primeiro são os desejos da
noiva. Depois, os caprichos de uma anciã.
Esme esboçou um sorriso. A abundante comida tinha feito com
que o humor de Qeriba melhorasse radicalmente. Depois de comer
até tinha espalmado a mão em Esme dizendo:
— Por fim refresca um pouco. Aproxima-se um bom vento, não
sente?
Mas Esme não sentia nenhuma brisa. Embora o sol estivesse
começando a ficar pouco a pouco sobre o mar, no jardim ainda
fazia um calor cansativo. Não estava segura da razão pela qual

298
sentia tanto calor se não era por suas muitas capas de roupa. Pode
ser que fosse uma sensação interior. Sentia-se sufocada pela
felicidade que irradiava Donika. Aquilo era egoísta e pouco
generoso, disse Esme a si mesma repreendendo-se.
Devolveu a Donika o aperto de mãos e disse:
— Cantarei minha melhor canção de amor. Um canto um pouco
triste, mas que tem final feliz.
Sentou-se sobre os paralelepípedos aos pés da noiva, arrumou
a elegante saia que caía ao redor e aceitou a çiftelia artesanal que
oferecia outra das garotas antes de começar a cantar.
Realmente era uma melodia triste, que contava a história de
uma camponesa abandonada pelo filho de um homem rico. Na
segunda estrofe, arrancou lágrimas de mais de um par de olhos
femininos. Até os olhos de Donika se umedeceram, embora
seguisse sorrindo e suas lágrimas pareciam radiantes raios de
alegria.
Ao chegar ao terceiro verso, quando a camponesa cortava uma
papoula no lugar onde se encontrou com seu amante pela primeira
vez, Esme notou que acontecia algo a seu redor. A audiência
parecia completamente cativada por sua interpretação; algumas
mulheres se puseram a chorar abertamente. Acontecesse o que
acontecesse, todas pareciam estar muito imersas na triste canção
para dar-se conta.
Esme deu um olhar rápido a Qeriba. O olhar da anciã não
estava posto em sua neta mas na casa, e seus olhos entreabertos
lançavam brilhos.
Então Esme se deu conta do que estava acontecendo. O ruído
dos homens tinha cessado. Não se ouviam gritos, nem cantos

299
escandalosos, só um murmúrio de vozes. Ela estremeceu. Olhou a
suas costas, mas não viu ninguém. Ninguém. Só aquela casa muito
silenciosa.
Em seu interior sentia agora um calafrio, e uma estranha
sensação aninhou em seu ventre. Travou sua língua na estrofe
seguinte da canção, e logo o pânico que se apoderou, a fez perder
por completo a melodia. Levantou-se deixando cair o instrumento,
sem pensar em nada mais que na necessidade de fugir dali. Dava-
se conta de como a olhavam as mulheres que a rodeavam, e das
vozes agudas que consultavam umas a outras com preocupação.
Esme não fez caso de nenhuma delas. Já estava pondo-se a correr
para o caminho, com todos seus sentidos postos na porta que havia
diante dela.

Varian a tinha ouvido cantar. Estava seguro de que a voz


que tinha ouvido era a sua. Saiu correndo para o jardim… e se
encontrou rodeado por um muro de mulheres.
— Onde está? — perguntou em albanês.
Silêncio.
Seu olhar se dirigiu de um lado a outro e se deteve na estreita
porta. Apenas tinha começado a andar pelo caminho que se dirigia
para aquela porta quando o grupo de mulheres ficou em
movimento, bloqueando seu passo. E logo ficaram quietas,
convertidas em um muro de rostos sérios. Agimi tratou de abrir
caminho entre elas, mas dois dos homens o agarraram e o
detiveram. Ninguém ia atrapalhar o lorde inglês, mas tampouco
iam permitir que ninguém o ajudasse.
Amaldiçoando entre dentes, Varian deu as costas às mulheres.

300
Deviam ser umas cinqüenta, e havia mais pululando pelo jardim.
Não iam deixá-lo passar, isso era bastante óbvio. E suas intenções
eram muito claras. As mulheres ficaram quietas, muito juntas, de
maneira que para passar entre elas deveria tocá-las. Mas mesmo
que somente sua jaqueta roçasse a uma delas, os homens se
jogariam em cima todos de uma vez. A maioria deles estava já
completamente bêbados e não iriam ter em conta que era inglês,
um convidado em seu país. Além disso, não tinham sido muito
hospitaleiros quando se apresentou ali. Certamente Esme o tinha
apresentado como um monstro, a encarnação do demônio, sem
dúvida. Não importava. Não pensava dar-se por vencido.
O demônio esboçou o mais encantador de seus sorrisos.
— Quanta beleza reunida — disse com voz suave. — Me
deixaram sem fôlego.
Algumas mulheres mais jovens se moveram incômodas, como
ele tinha esperado. Não era necessário que as mulheres
entendessem seu idioma. Respondiam a seu tom de voz e a sua
maneira de olhar. Acreditassem o que acreditassem dele um
momento antes, agora estavam confusas. A noiva de olhos negros,
que tinha se colocado à frente daquele exército de mulheres,
olhava-o surpreendida e preocupada. A seu lado havia uma anciã
enxuta vestida completamente de negro e que murmurava algo. O
comentário da anciã fez que se ouvissem várias risadas apagadas.
E também umas quantas respostas irritadas.
Varian se dirigiu a ela.
— Você entende inglês? — perguntou-lhe.
A anciã deu de ombros.
— Pak. Um pouco.

301
Graças ao céu.
— Então, por favor, diga-lhe que nunca antes tinha visto uma
noiva tão formosa, como uma rosa florescente em meio de um
ramo de beleza. Os homens não podem mover-se porque se
sentem impotentes ante essa visão. Perguntam-se como me atrevi
a me aproximar tanto dela, porque sem dúvida tanta doçura
acabará com minha vida.
A anciã traduziu seriamente essas palavras àquelas que a
rodeavam. A inquietação que havia entre elas aumentou. Ouviu
várias risadas nervosas.
— Atrevi-me a vir aqui porque perdi meu coração — continuou
explicando Varian com voz mimosa. — Um passarinho o roubou e
se foi com ele. Ouvi-o cantar faz um momento. Ou seria acaso só
um sonho? Se ela estiver por aqui perto, estas doces flores não
deveriam me afastar dela. Não podem ser tão cruéis comigo.
Pelo rosto da noiva começaram a correr lágrimas, mesmo antes
que a anciã tivesse acabado de traduzir suas palavras. A noiva
olhou de maneira inquisitiva ao grupo de mulheres. A mais velha
deu de ombros, e logo fez um gesto de impaciência com a mão. A
noiva se afastou para o lado e as demais a imitaram.
— Vá, Varian Shenit Giergi — disse a anciã.
Varian lhe ofereceu uma reverência.
— Faleminderit — disse. E pensou: Que Deus me ajude. Porque
estava claro que ninguém mais ia poder fazê-lo.
Pôs-se a correr rapidamente para a porta.
Não sabia para onde dirigir-se nem por onde teria partido
Esme. Mas os muros do jardim eram altos e não parecia haver mais
que uma saída que dava à praça.

302
Atrás da porta descobriu uma vasta horta que se elevava para
a colina, e não viu nem uma alma pelos arredores. Olhou
desesperado a direita e esquerda.
— Esme! — gritou.
Só o vento respondeu, mais forte que antes, avançando do
sudeste. Podia verificar na horta ou dirigir-se em direção contrária,
ao oeste, para a baía. Olhou para o sol poente e se dirigiu para a
parte rochosa da colina, que se elevava desde o mar.
Depois de olhar as águas cegado pelo sol durante um
momento, pôde divisar um caminho. À esquerda da horta o
caminho se fazia mais estreito e empedrado, descendo
tortuosamente pela ladeira rochosa da colina. Pareceu-lhe que
tinham passado horas quando se deu conta de que estava
caminhando em círculos sem aproximar-se nem um pouco da baía.
Lembrou-se de que na Albânia os caminhos sempre eram assim:
tortuosos, e que davam voltas sem fim enquanto pareciam não
chegar a nenhuma parte. O que significava que Esme não podia ter
avançado muito mais depressa que ele… se é que tinha tomado
aquele caminho. Tinha que ser assim. Não podia expor-se
alternativa.
Muito mais tarde, quando lhe pareceu que tinha rodeado toda a
montanha, Varian chegou a um terreno de videiras retorcidas. Era
uma zona de vegetação desconhecida, além da qual se abria um
claro de onde se divisava o mar. Abaixo se estendia a baía de Santi
Quaranta: os Quarenta Santos. Desceu correndo a ladeira e,
através de um caminho de terra, chegou até a praia. A sua direita,
havia um cais que se sobressaía do porto introduzindo-se no mar.
Como um enorme braço apoiado no cotovelo, o quebra-mar de

303
pedra abraçava um grupo de pequenas embarcações. Ao oeste,
onde o sol já começava a submergir na água, pôde discernir o
escuro cais da ilha de Corfú, elevando-se no azul de meia-noite do
mar Jônico.
Lançou uma olhada ao seu redor, enquanto se dava conta de
que só restava meia hora, uma hora no máximo para poder
encontrar Esme antes que anoitecesse. Enquanto isso, seus pés o
conduziam para onde descansavam os barcos, enquanto olhava
entre elas em busca de algum sinal de vida.
O pequeno porto com seu estreito embarcadouro parecia
completamente deserto. Só se ouvia o romper das ondas e o
crepitar das madeiras dos cascos. Ele parecia ser a única pessoa
em Saranda que não estava nas bodas. Exceto Esme, estivesse
onde estivesse. Mas não estava ali, pensou ele, enquanto sentia
que o desespero se apoderava de sua mente. Não se via ninguém
por aquela zona.
— Esme! — gritou pondo-se a correr para o quebra-mar. —
Esme!
Os barcos, a maioria deles singelos barcos de pesca, não
devolveram resposta alguma. Estavam ali quietos, em silêncio,
protegidos pelo enorme braço de pedra que os rodeava. Brilhos
avermelhados dançavam entre os mastros e os cascos, a única luz
no meio do crepúsculo de crescentes sombras. Parecia que todos os
barcos estavam vazios, e disse a si mesmo que tinha sido um
grande engano tomar aquele caminho. Mas logo se recordou que
ela era muito miúda e que bem podia ter se escondido debaixo de
uma manta ou inclusive detrás de um montão de cabos e redes. O
sol já estava muito baixo e a maioria dos barcos descansava à

304
sombra do quebra-mar. Até que não verificasse cada rincão de
cada barco, não podia estar seguro de que ela não se escondeu ali.
Desceu até as escorregadias pedras do mole.
— Esme!
Subiu a bordo do barco que estava mais perto, um estilizado
veleiro. Uma rápida inspeção confirmou que ali não havia ninguém.
Dali passou ao seguinte. E ao outro. Ninguém. Nenhum som
humano, exceto sua furiosa respiração e o batimento do coração de
seu desbocado coração.
Ouvia a suas costas o rumor que vinha do povoado, enquanto
os farristas se aproximavam do porto. Não era mais que um rumor
de vozes, particularizadas de vez em quando por um grito, mas
Varian não tinha interesse algum pelo que acontecia no povoado e
apenas olhou.
Seus sentidos estavam alertas tratando de distinguir qualquer
sinal de vida ali, no porto. E em concreto, um: um pequeno ser vivo
que poderia ser ela. Não podia ter se equivocado. Não podia tê-la
perdido, não dessa vez, porque agora seu coração dizia que tinha
que estar por ali perto.
— Esme!
O seguinte barco estava muito longe do cais para saltar nele.
Em lugar disso, subiu à parte alta do quebra-mar para olhar dentro,
mas escorregou e ao cair, soltou uma maldição.
— Esme! — seguiu gritando. — Não me obrigue a continuar
procurando! — Subiu engatinhando pelo quebra-mar. — Não
escapará de mim! Não penso deixá-la partir, pequeno diabo!
A sua direita algo se moveu entre as sombras.
Então a viu, no alto do último dos botes do embarcadouro:

305
uma pequena figura escura que se movia torpemente lutando com
algo.
— Esme!
Pôs-se a correr para ela, escorregando sobre as pedras
molhadas. Ela estava lutando com as velas, enquanto o vento
seguia aumentando. Se conseguisse içar as velas estaria longe da
baía em uns minutos.
— Esme, espera!
Ela se voltou de repente para ele, logo deu de novo a volta e
deixou cair algo.
Varian tropeçou e esteve a ponto de cair à água. Enquanto
voltava a recuperar o equilíbrio, viu que o barco no qual estava ela
tinha soltado as amarras e se balançava, livre de ataduras, para a
estreita entrada do porto que se abria à baía. A brisa ou a corrente
pareciam estar empurrando-a, porque as velas ainda penduravam
inertes de seu mastro. Em um abrir e fechar de olhos se separou
dos outros barcos. Durante um instante cheio de pânico, Varian
ficou quieto, olhando a pequena figura que se debatia tratando de
içar as velas. E então uma rajada de vento as inchou, arrancando
as das mãos. O barco deu um par de vaivens violentos. Ela
tropeçou e se agarrou a uma vela.
Céu santo. Não sabia o que estava fazendo.
— Esme! — gritou ele. — Não!
Mas ela não fez conta. Sabia que não era capaz de dirigir um
barco, mas mesmo assim não podia deixar de tentá-lo. Varian não
parou para pensar em nada. Não tinha tempo; tampouco podia
tentar alcançá-la com algum dos outros barcos e não sabia nada da
arte da navegação. Tirou a jaqueta e as botas, correu a toda pressa

306
pelo cais e mergulhou no mar.
Quando tirou a cabeça da água, ela já tinha cruzado a entrada
do porto, mas navegava agora mais devagar. Seu barco estava
dando voltas, movendo-se desgovernado, com as velas a
momentos inchadas pelo vento e a momentos pendurando flácidas
do mastro. Ele ficou a nadar, forçando seus músculos a que
obedecessem a sua cabeça, além de suas próprias forças ou de sua
habilidade.
Então ouviu um grito apagado, seguido do ruído de algo que
caía ao mar. Ele mesmo deixou escapar um grito em resposta, e
continuou nadando com mais força, apesar de começarem a doer
seus músculos e arder-lhe os pulmões.
Depois de uns minutos que pareceram toda uma vida esteve o
bastante perto dela para ouvi-la debater-se na água. Olhou para a
frente a tempo de vê-la afundar-se. Não deixou de mover-se. Ouviu
a morte que avançava para ela, mais rápido que ele, como um
vento que puxava.
«Deixe-a. Deixe-a para mim. Por favor. Por mais que a
queira.»
— Varian!
Ouviu o asfixiado grito de Esme, muito débil, no meio do
incessante rugido de um mar que tratava de afogar os dois.
— Não. Espera. Já estou chegando. Me espere.
Ao longe, no horizonte, o sol ficou vermelho como uma bola de
fogo. O barco desgovernado avançava suavemente para ele. Perto,
mas ainda fora de seu alcance, Varian pôde ver a cabeça dela, que
se afundava de novo nas famintas ondas azuis do mar. Varian
voltou a gritar seu nome, e logo afundou também na rugente

307
escuridão.

Capítulo 19

Varian estava consciente do ruído antes despertar de todo:


umas vozes de tenor que cantavam e, entre elas, o apagado
lamento de uma flauta.
Abriu os olhos e se encontrou deitado em uma maca ao lado de
uma cama. Umas quantas velas piscavam fracamente na escuridão,
mostrando pela metade a figura que estava estendida sob os
lençóis. Uma massa de cabelo vermelho rodeava seu pálido rosto
imóvel. Esme estremeceu ligeiramente como se tivesse podido
sentir seu olhar, mesmo estando adormecida. Só adormecida, disse
Varian a si mesmo para tranquilizar-se, enquanto acariciava
suavemente seus revoltos cabelos. Não a tinha perdido. Os homens
de Saranda os tinham resgatado.
Varian não tinha facilitado. Tinha lutado como um louco,
mesmo sabendo que ele sozinho não seria capaz de levá-la até a
margem. As roupas pesadas de Esme que a tinham afundado no
mar, faziam com que avançasse muito lentamente. Quando lhe
falhavam as forças, afundava-se com ela de novo na água.
O resto era confuso. Vozes, movimentos. Só o que Varian
recordava era que tinha segurado a garota nos braços e se negou a
permitir que outro a segurasse. Certamente tinha perdido a
consciência pelo caminho. Não recordava ter chegado até aquela
casa, estivesse onde estivesse.
Agora se dava conta de que as vozes que ouvia chegavam de
fora e seus lamentos eram quase como as típicas canções

308
albanesas em clave menor, como a que Esme tinha cantado fazia
um momento.
Ergueu-se na maca com o corpo entorpecido. Seus músculos
esgotados protestaram produzindo ferroadas de dor nos braços e
nas pernas, enquanto tratava de aproximar-se da janela aberta.
Atrás da janela havia um amplo terraço no qual viu um grupo de
homens que estavam cantando. Atrás deles e mais abaixo, podia
ver-se a água da baía que brilhava tranquila à luz da lua, como se
não tivesse tentado fazia umas horas arrebatar a vida de Esme.
Da cama chegou um gemido, logo o som dos lençóis ao deslizar
do leito, e a seguir uma fileira de imprecações em albanês. Varian
correu de novo à cama e tomou a Esme amavelmente entre os
braços.
— Não aconteceu nada — disse. — Está a salvo.
Sentiu que sua esquálida figura estremecia um par de vezes. E
seu peito começou a agitar-se com ligeiros e terríveis soluços que
ela tentava em vão conter. Ao final não pôde mais e pôs-se a
chorar enquanto chamava por seu pai. Varian sentiu que seu
coração se rompia com o dela.
Ele, que tão bem sabia dirigir-se com as palavras, agora não
era capaz de dizer nada que pudesse consolá-la.
— Sinto muito, meu amor.
Fez um esforço para que aquelas poucas sílabas
transpassassem o nó que tinha na garganta, e se deu conta de que
era fútil tratar de acrescentar algo mais. Apertou-a contra ele,
passou-lhe as mãos pelo cabelo e tentou consolá-la desse modo,
mas de novo se deu conta de que não tinha nenhum consolo para
oferecer. Toda sua pena contida saiu fora em dilaceradores

309
lamentos, meio em albanês, meio em inglês. Lágrimas quentes
cobriam pelo rosto enquanto os soluços sacudiam seu pequeno
corpo e ele se sentia impotente para ajudá-la.
As lágrimas das mulheres nunca o tinham impressionado,
como acontecia com tantos outros homens, mas daquela vez era
diferente. Agora quem chorava era a sua forte e valente Esme.
Sentia-se machucada e necessitada, e ele não podia suportá-lo.
Doía-lhe o coração por ela, lamentava sua pena e se desesperava
por sua própria inutilidade naquela situação.
— Sinto muito — disse uma e outra vez. Uma frase banal em
resposta ao seu lamento.
— «Quero o meu pai.»
— «Sinto muito.»
E assim continuaram, repetindo o mesmo uma e outra vez,
embora só durante algum tempo. Apesar do inepto que era Varian
para consolá-la — ou possivelmente por causa disso, — Esme se
recuperou em seguida. E rapidamente se separou dele e começou a
esfregar o nariz com um gesto de raiva.
Varian procurou seu lenço e se deu conta de que não tinha
nenhum. Os homens o tinham despojado de suas roupas molhadas.
Só usava uma túnica. Procurou pelo quarto e encontrou uma
toalha, que ofereceu a ela sem dizer uma palavra. Ela secou o
rosto.
— Nunca choro — disse Esme tremendo ainda. — Eu odeio.
— Sei.
Ela murmurou algo para si mesma e logo disse em voz alta:
— Não teria que ter vindo atrás de mim.
— Não tinha outra opção.

310
Esme lançou um olhar de puro desdém.
Nesse instante, um puro e bendito alívio o fez sentir-se melhor.
Ela estava bem e realmente zangada, de maneira que voltava a ser
de novo a mesma de antes. Sua irracional e temperamental Esme
de sempre.
Ela se sentia mortificada porque se pôs a chorar desconsolada
diante dele. E agora, é obvio, teria que se recompor enfrentando-se
com ele. Era melhor deixar que o fizesse. Varian podia manejar
com sua raiva muito melhor que com sua pena. Suas lágrimas o
deixavam paralisado.
— Esme — começou a dizer ele, — não pensou que ia deixá-la…
— Nem sequer tinha pensado que podia chegar a ser tão
ambicioso. Não podia acreditar em meus próprios olhos quando o vi
lançar-se à água. Podia ter se afogado! Por mil libras! Do que ia
servir o dinheiro estando no fundo do mar?
— Perdoa, do que está falando? — disse-lhe Varian. — Me
parece que não ouvi bem. O que dizer de mil libras?
— Não sabe? Não jogue comigo. Sei que essa é a razão pela
qual veio a me buscar. Você, o folgazão mais ambicioso de três
moderados. Só o dinheiro pode conseguir que se mova.
— De fato, sim que me movo, mas com moderação — replicou
ele. — Tentar nadar no Jônico é bastante moderado. — Lançou-lhe
um olhar interrogativo. — Está me dizendo que leva mil libras com
você? Pensava que o que a fazia se afundar no mar era o pesado
vestido que usava.
— Não se faça de tolo. Sei o que ofereceu Alí e sei que você
chegou a um acordo com ele. Espero que já tenha dado o dinheiro
a você. Porque se não for assim, asseguro que não chegará a vê-lo.

311
Varian esfregou a cabeça.
— Aparentemente, Alí me ofereceu mil libras por fazer algo. Por
favor, me perdoe, mas neste momento devo ter a mente nublada.
Pode ser que tenham me golpeado com um remo. Asseguro, por
minha vida, que não posso recordar a que trato cheguei com ele.
Os enfurecidos olhos verdes de Esme se nublaram com uma
tintura de confusão. Moveu-se intranquila na cama. Era uma cama
grande com um colchão de plumas, decididamente europeu —
«fránquico», que diriam os albaneses. — Todos os países do oeste
eram para eles «francos», pensou Varian como ausente enquanto
esperava que ela seguisse falando. E podia esperar até o dia do
Julgamento Final, se fosse necessário. Parecia que Esme não
escapou de seu lado porque amasse ao Ismal, como tinha dado a
entender na cruel nota que tinha deixado, mas sim por essas mil
libras que aparentemente tinham algo a ver com ele. A ofensa de
Varian, fosse o que fosse, devia ter sido muito grave, se é que ela
decidiu escapar, por uma manha de criança, depois do que tinha
acontecido na noite anterior. Qualquer outra jovem teria
necessitado semanas para recuperar-se disso.
— Ninguém golpeou sua cabeça —soltou ela por fim com voz
humana. — Não tem vergonha. Por isso faz de conta que não se
lembra de nada.
— Não me sinto absolutamente desavergonhado — respondeu
Varian em tom cortante. — Mas se crê que a lembrança de algo vai
me fazer sentir assim, rogo que não me conte. Podemos falar de
qualquer outra coisa.
Uma vez mais ele se sentou na beira da cama. Esme se inclinou
para trás ruborizando-se.

312
— Não! Não se atreva a utilizar suas artimanhas comigo. Não
penso me casar com você. Nunca! Antes me atiraria do alto de uma
montanha.
— Casar comigo? — Agora foi ele quem se inclinou para trás
assustado. — É obvio que não. Quem colocou nessa cabeça
descabelada a ideia?
— Descabelada? — disse ela com voz alta. — Ao Alí não disse
que era descabelada.
— Suponho que não tenho tão pouco tato para dizer isso a um
homem que tem várias centenas de esposas. Poderia ferir sua
sensibilidade.
— Sei, mas a minha não conta, não é? Sabia — se queixou ela.
— Sabia que ainda não pagou. Não teria dito isso se já o tivesse
feito. Não, em tal caso, faria ver que casar comigo é o que mais
deseja no mundo.
— Pelo amor do céu, você acredita que me vendo barato, não é
assim? Isso me dói, Esme, de verdade que me dói. Crê que aceitei
me casar com você por só mil libras? Minha querida menina, não
aceitaria me unir nem mesmo a Afrodite por menos de vinte mil.
Em ouro — disse ele. — E provaria a qualidade de cada uma das
moedas com meus próprios dentes.
— Ouvi o Alí. Escutei como contava ao Ismal.
— Então o ouviu mentir. Pode ser que seja um gigolô, mas ao
menos sou um dos caros, asseguro-lhe isso. — Varian olhou
através da janela e franziu o sobrecenho. — Mil libras. Que ideia.
Nunca em minha vida me insultaram tanto.
Esme não respondeu nada. Obviamente, estava dando voltas
aquele assunto em sua cabeça. Menos mal. Varian tinha seu próprio

313
mistério a resolver, mas esse tinha que ver com o amanhã. E com o
dia seguinte. E com o seguinte. Como sempre fazia, de uma
perspectiva tão sombria, sua mente estava acostumada a ficar
pensando no futuro.
Mas em lugar disso, fixou-se na janela, e nos sons que
chegavam de fora. Um pouco antes tinha ouvido risadas, enquanto
ela o estava repreendendo. Logo as risadas tinham cessado e
haviam tornado a começar os cantos. Agora havia um instrumento
de corda que acompanhava a música da flauta.
Ouviu Esme suspirar.
— O que estão cantando? — perguntou-lhe.
— Nada. Uma canção de amor.
— Entendi hajde — disse ele, — mas nada mais. O que diz o
estribilho? Shpee-mee…
— Shpirti im. Meu espírito. Alma. «Vem, vem…, coração meu».
— Ela sorriu de maneira muito exagerada. — «O homem… ele… Oh!
Ele chama à moça apaixonada.»
— Ah, vá, o amor! Os homens são capazes de dizer qualquer
coisa a respeito, não acredita?
Houve um silêncio tenso.
— Varian.
Ele não se voltou para olhá-la, mas notou que o colchão se
movia enquanto ela se aproximava. Esme se deteve em seco a
meio caminho.
— Varian, jura-me que não pensava casar comigo… por
nenhum preço?
— Não seja tola, um cavalheiro sempre jura por sua honra. E
eu não tenho.

314
— Então, por que arriscou sua vida por mim? Se não tivessem
chegado os homens do povoado, poderíamos ter nos afogado. Por
que o fez?
— Não sei. Não parei para pensar. Suponho que tive um
momento de alienação mental. É algo que parece que me acontece
frequentemente, sobretudo se estiver perto de você.
Ela se aproximou mais a ele. Varian notou que o tocava
suavemente no ombro. Voltou lentamente a cabeça. Esme estava
de joelhos sobre a cama, a seu lado. A saia de sua camisola de
dormir tinha subido por cima dos joelhos. Varian levantou
rapidamente a vista e topou com os verdes olhos dela que o
olhavam absortos.
— Me diga algo, por favor. O que seja. Me minta, se quiser,
mas me responda, por favor.
— Prefiro não fazê-lo — disse ele com voz suave. — Está tão
suscetível neste momento que é capaz de acreditar em qualquer
coisa.
— Sim. Assim é.
— Até seria capaz de acreditar que a quero.
Ela apertou a mão que tinha apoiada sobre o ombro de Varian.
Ele a agarrou para afastá-la tratando de liberar-se das terríveis
palavras que acabava de pronunciar. Tratando de fugir dela, antes
que acabasse destruindo-a. Mas não se moveu e ela não relaxou a
pressão de sua mão.
Os dedos de Esme se enlaçaram lentamente com os dele e o
fez colocar a mão sobre seu joelho nu. De repente pareceu que o
quarto se esquentava terrivelmente, curvando-a.
— Será melhor que me vá — disse ele secamente.

315
O lábio superior dela tremeu.
— Sempre diz o mesmo. Sempre se vai.
— É pro seu bem.
— Não. É porque não me quer — disse ela soltando sua mão. —
Me sinto tão envergonhada…
— Está cansada e nervosa. Sofreu uma experiência terrível.
— Isto é terrível — disse ela com voz baixa e insegura. —
Sempre que vejo a morte diante de mim, a olho sem medo nos
olhos, porque sou uma guerreira. Se me propusesse, poderia matá-
lo. Mas não posso suportar essa contínua resistência. Não posso
fazer que me toque como um homem toca a uma mulher.
— Não seja tão cruelmente absurda — disse ele com voz
cortante. — Toquei-a dessa maneira já muitas vezes.
Muitas vezes…, mas nunca o suficiente.
O olhar de Varian passou dos trementes lábios dela para a
suave e branca pele de seu pescoço, descendo logo pelo decote
até os seios, para deter-se na magra cintura… e logo baixou ainda
mais, até onde estava depositada sua própria mão, ainda sobre o
nu joelho dela, sentindo um formigamento que o incitava a
acariciá-la.
Varian não pôde evitar deixar escapar um dolorido e profundo
suspiro.
— Quero você, necessito de você. Estou doente por você. Oh,
Deus, não me faça caso! Não… não o faça Esme.
A carne que roçava com sua mão era muito suave e firme.
Mesmo enquanto o advertia, seus dedos começaram a se mover
lentamente para a coxa.
Ela aproximou a cabeça da dele. O aroma do mar ainda se

316
desprendia de seu cabelo. Era doce e fresco, como uma pele
sedosa.
— É tão formosa — disse ele em voz baixa. — Não é justo.
Ela murmurou algo entre dentes.
Varian se disse que tinha que partir. Só tinha que levantar-se e
pôr-se a andar. Mas em lugar disso, agarrou-a pela cintura e a
atraiu para si.
Olhou profundamente aqueles olhos de um verde impenetrável
e disse quase sem fôlego:
— Um beijo. Só um.
Os magros braços de Esme rodearam seus ombros.
— Sim. Só um.
Ele só desejava saborear uma vez mais aquela fera e inocente
ninfa. Tinha estado quase a ponto de perdê-la. Tudo o que pedia
era um beijo. Com isso seria suficiente. Tinha que bastar, disse a si
mesmo enquanto seus lábios cobriam suavemente os dela.
Ela apertou seu corpo rapidamente contra ele. Seus tensos
seios ajustados sob a seda de sua túnica. Esme abriu sua boca para
ele, de uma maneira muito cálida, convidando-o a perder-se em
suas profundidades.
Todo o mundo que havia a seu redor se encheu da fragrância
do mar, de um mar doce como o sabor dela. Ela estava viva, e
tinha uma feroz vitalidade como nunca antes tinha tido. Naquele
beijo ele chegou a saborear uma corrente de frescas águas em um
bosque de árvores sempre verdes, e também a turbulência das
montanhas nas quais viviam os deuses. Varian desejava possuir
aquele espírito vibrante e renovar com ele seu próprio espírito…,
mas sabia que isso era um engano. Não poderia ser assim. Se o

317
fizesse, mancharia a ela e debilitaria aquela força que possuía.
Varian se separou de seus lábios, só para dar-se conta de que
era muito fraco para separar-se dela completamente. O irresistível
aroma de Esme o chamava de volta. Deu-lhe uma série de quentes
beijos no pescoço, e sentiu como o corpo dela se oferecia com uma
promessa de delírio. Ouviu o esfregar da musselina que vestia ela
contra a seda de sua túnica, e Varian respondeu à chamada do
corpo de Esme, porque não podia resistir a ela.
Procurou os laços que seguravam sua camisola e os desatou,
para a seguir colocar seus lábios sobre a aromática fragrância de
seus seios. Ela deixou escapar um leve gemido, logo agarrou o
cabelo com os dedos, apertando ainda mais o rosto de Varian
contra seu seio. Ele passeou sua língua úmida pela tensa carne,
dirigindo-se para a dura e tensa ponta de seus seios, e ali a
saboreou uma e outra vez, deixando que o calor que sentia por
dentro o abrasasse — enquanto a abraçava. — A respiração de
Esme começou a ficar mais rápida e irregular.
Ele estava faminto dela, e o insidioso calor que sentia por
dentro urgia que saciasse seu apetite, embora quisesse ficar assim,
ardendo para sempre. Deu-se conta de que deveria deter-se logo,
muito em breve. Mas ainda não. Queria fazer com que aquele breve
momento de ternura durasse para sempre. Queria fazer com que
ela esquecesse sua pena e seu aborrecimento; e durante esse
breve lapso de tempo ele também queria esquecer: o medo e a
vergonha, e a cinza neblina dos dias que ficavam por viver a partir
de manhã.
— Só você — sussurrou ele com a boca apoiada contra a pele
dela. — Só agora.

318
— Sim.
Varian elevou o rosto para olhá-la. Nos olhos dela havia uma
tintura sombria e estavam como perdidos. O cabelo caía em
cascata sobre os ombros, provocando brilhos de bronze sobre o
fundo de pérola pálido de sua pele. A camisola tinha caído abaixo
do seio.
Já a tinha visto assim antes, e a lembrança de seu corpo
voltava de novo para tentá-lo: magra e pálida, e dolorosamente
frágil por fora, mas forte e apaixonada por dentro. Ela era jovem e
selvagem, e estremecedoramente formosa. Como não ia querer tê-
la entre os braços, tão perto, e possuí-la, embora só fosse por um
momento, quando a qualquer instante ela poderia escorrer-se por
entre os dedos? Porque tudo de formoso que havia possuído tinha
sempre escorrido entre os dedos… para ficar jogado e esquecido,
enquanto ele corria em busca do encontro fugaz seguinte. E do
seguinte… e do seguinte… amanhã.
— Não quero machucá-la — sussurrou ele.
— Não o fará. — A boca dela se curvou em um leve sorriso. —
Tenta-o. Veja se pode.
— Não. Tem que me dizer «não».
— Sim.
Esme o beijou na testa e logo na bochecha. Ele voltou o rosto
para apanhar sua boca. Ela o evitou e ele deixou escapar um
gemido quando notou que os quentes lábios dela roçavam sua
nuca. Esme abriu a túnica e com os lábios desenhou um incitante
caminho por seus ombros, e logo mais abaixo. Os dedos dela se
curvaram sobre seu peito, acariciando o lugar debaixo do qual
palpitava alocadamente o coração de Varian; e aquela carícia fez

319
com que um calor afluísse de seus órgãos sexuais. Ele afastou as
mãos do peito e as levou para baixo.
Em um instante a camisa de noite dela caiu ao chão, ao lado da
cama. E rapidamente sua túnica seguiu o mesmo caminho.
Lá fora, a chorosa melodia aumentava de tom convertendo-se
em um grito, matizado por silêncios que precediam a novos gritos.
Dentro, ele estava a ponto de gritar pela mulher que sustentava
entre os braços. A vida era aquela mulher apertada contra ele,
aquele corpo que se oferecia inteiramente ao dele. Ali dentro, o
mundo era quente e embriagador com o aroma que exalava ela. E
ela o chamava com sua voz rouca e entrecortada. Pronunciava seu
nome e todo seu ser respondia, desesperado por perder-se dentro
dela e por ficar ali, a salvo, no lugar ao qual pertencia.
Ele sabia que aquilo não era mais que uma luxuriosa loucura.
Sabia que não pertencia a esse lugar. Que era um intruso, que só
buscava a si mesmo. Ouviu uma fraca e apagada advertência que
chegava do mais profundo de sua consciência.
Necessito dela, respondeu Varian em silencio para aquela voz
interior, enquanto murmurava palavras de amor contra a boca,
contra o pescoço, contra os seios. Respondia-lhe com ofegantes
carícias. Aquelas carícias o envolveram em seguida, e as vozes que
o advertiam acabaram se calando de vez.
Suas mãos ansiosas se colocaram entre os sedosos cachos de
cabelo que protegiam o centro úmido dela, e se afundaram ali.
Esme ficou tensa, estirando os ombros, mas dessa vez ele não se
deteve. Estava além de suas forças. Sua consciência voltou a
cobrá-lo, porque a inocente umidade dela era muito doce.
Carinhosamente, e apesar de seu exultante desejo, ele a acariciou,

320
excitou-a e a avivou, enquanto ela se movia inquieta esfregando-se
contra sua mão. Varian sentiu as palpitações em seu interior, cada
uma mais forte que a anterior, notou como Esme lutava contra
elas… e logo notou o arrebatamento de calor que a envolveu
quando aquelas sacudidas a dominaram por completo.
— Varian! — disse ela em um grito afogado. — Oh, ... Deus!
Esme cravou as mãos nos ombros dele e o atraiu para ela,
procurando sua boca. Varian deu o que ela pedia, enquanto seus
dedos se introduziam ainda mais dentro dela. Ela gemeu e se
separou de um salto de seu frenético beijo, mexendo-se impaciente
em meio da tormenta que embriagava todo seu corpo. Afundou o
rosto no travesseiro e começou a gemer sem poder conter-se,
enquanto todo seu corpo tremia e dava sacudidas golpeando-se
contra ele, procurando desesperadamente o alívio.
O corpo de Varian também vibrava com impaciência,
empurrando-o para o lugar que tinha feito arder de paixão, e para
aquela tormenta de êxtase que estava tentando oferecer a ela…
desinteressadamente… por uma vez em sua vida. Para dar o único
prazer que podia oferecer sem tomar nada em troca. Para oferecer
aquele amor só a ela, sua formosa e selvagem menina. Isso
somente queria, de verdade, desde minutos ou desde anos antes.
Mas se deu conta de que não podia oferecer a satisfação que
pretendia, não como o tentava fazer. A fome feroz que sentia ela
não ia satisfazer-se com as mãos dele.
Ela gritou e amaldiçoou, e logo segurou seu pulso e afastou a
mão dentre suas pernas.
— Hajde! — ordenou-lhe.
Esme percorreu com seus fortes dedos o torso dele, para baixo,

321
inexoravelmente, para o inchaço que se insinuava ali.
— Não! — gemeu ele.
Muito tarde.
Um relâmpago brilhante explodiu nele, fazendo com que a
razão e a vontade se desfizessem em mil pedaços.
Ele a deitou completamente de costas e se introduziu entre
suas pernas. Esme se deitou tremendo debaixo dele, respirando em
ondas entrecortadas e ofegantes. Varian olhou durante um
desesperado instante os profundos olhos verdes dela. Logo colocou
as mãos possessivamente debaixo de seu corpo, passando por seu
terno ventre, e logo abrindo-se passou pela escura umidade dentre
suas pernas.
Colocou-se na entrada, e a seguir empurrou até introduzir-se
nela. Esme se apertou contra ele, completamente úmida. Mas a
inocência de Esme resistia, e Varian a segurou pelos quadris,
enquanto ela se inclinava instintivamente para trás.
Embora todo seu corpo pulsasse pelo desejo de conquistá-la e
possuí-la, Varian tratou de acalmar-se. Mas no momento sentiu que
o caminho já começava a abrir-se para ele. E sentindo que o prazer
dela começava a diminuir, soube que a partir desse momento, para
Esme já não haveria gozo, a não ser dor. Nenhuma de suas
habilidades poderia conseguir que aquele frágil escudo de inocência
se desvanecesse magicamente, sem dor. E algo pior: a corrupção,
a desonra… a destruição dela. Não podia parar agora. Aquilo o
mataria, mas tampouco podia continuar.
Quando Varian se aproximou de sua boca para beijá-la, ela o
agarrou pelos cabelos.
— Desejo você — disse com voz rouca, mas decidida.

322
— Não — sussurrou ele. — Não quero machucá-la mais.
— Quero você — repetiu ela. — Meu corpo não me faz caso.
Faz com que obedeça a você. Faça-me sua, Varian.
Não faça conta. Ela não entende o que está acontecendo. É
muito inocente, disse-se Varian.
Mas seu ser corrupto queria fazer caso do que ela pedia. O
animal que levava dentro, sua natureza mais baixa, estava ansioso
por acabar o que tinha começado. Varian ordenou a si mesmo
afastar-se dela. Mas não pôde. O suor caía a jorros pelas costas.
— Farei mal a você — disse ele em um grunhido, enquanto a
olhava com desesperada fixação aos verdes e tormentosos olhos.
As unhas dela cravaram no couro cabeludo dele.
— Alguém tem que fazê-lo. Você, esta noite, Varian… ou
qualquer outra.
Varian tentou convencer a si mesmo que ela não sabia o que
estava dizendo, embora aquelas palavras o destroçassem,
tentando-o de uma maneira insuportável. Passou-lhe pela cabeça a
lembrança de Ismal.
— Não — grunhiu Varian. — Você é minha, maldita seja.
Ela sacudiu a cabeça afirmativamente.
Ele respondeu àquele gesto com as mãos e a boca, esfregando-
se contra ela ainda com mais fúria que antes. Já não podia ter mais
paciência, nem mais delicadeza, e a rápida e quente resposta que
deu Esme não esperava nada disso. Ela era tão feroz e tão audaz
na paixão como em todo o resto. Selvagem, doce, formosa… e dele.
— Minha — disse ele com um tom de voz selvagem.
Em um instante voltou a introduzir-se nela. Um momento de
triunfo animal…, de posse…, de conquista. Ouviu-a gemer, notou

323
como se esticava todo seu corpo contra a dor. E então os remorsos
o apunhalaram por dentro. Muito tarde.
— Sinto muito — ofegou ele. — Oh, meu amor! Sinto muito. —
O sangue subia a suas têmporas enquanto pulsava em suas veias,
obrigando-o a aliviar-se, mas se obrigou a deter-se. Suas mãos se
moveram suavemente por cima do corpo dolorido e rígido dela. —
Me deixe que faça o amor, carinho. Me perdoe e deixe que a ame.
Necessito de você, Esme.
Ela abriu os olhos com surpresa.
— Há mais? — perguntou ela com voz tremente.
Oh, céus, ela já tinha tido o bastante! Pobrezinha, pensava que
já tinha acabado tudo. Varian passeou suas mãos ansiosas pelos
ternos seios, e sua carne se endureceu de novo, movendo-se
dentro dela. Sim, seu corpo estava pedindo para acabar também,
por brutal que fosse aquilo. Mas ele necessitava mais. Desejava-a
toda inteira, em corpo e alma, só para ele. Era egoísta, sim, mas
assim era ele.
— Mais, sim — disse ele. — Tanto quanto você queira me dar.
E logo começou a mover-se de novo dentro dela, lentamente,
enquanto com as mãos lhe acariciava o ventre.
— Varian — disse ela quase sem fôlego.
Mas agora em sua voz já não se refletia a dor, a não ser outra
coisa. A surpresa, talvez, e depois enquanto seguia se movendo
com cuidado, da boca dela escapou um suave gemido de prazer.
— Sim — sussurrou ele. — Assim é, carinho. É como se o
mundo desaparecesse, não?
Ele sentiu isso mesmo, sentiu que o mundo a abandonava,
assim como fazia com ele. Varian notou como seu prazer

324
aumentava conforme o corpo dela se rendia ao dele, acoplando-se
a seu ritmo. A dor que antes ela sentiu já estava esquecida como
os remorsos dele. Deu-se conta de que agora já não podia sentir
remorso algum, não enquanto começava a voltar para a vida com
ela. Só havia para eles aquele momento, Esme, e o doce e
profundo êxtase que o embriagava enquanto ela se entregava de
novo à tormenta de prazer.
O corpo de Varian começou a palpitar com a vida dela, com
todo seu ser. Acabava de se perder dentro de Esme, navegando
com ela por uma furiosa corrente que os empurrava para a
eternidade. Sentiu-a desfazendo-se ao redor dele e ouviu os gritos
que saíam por sua garganta. Então ele se cravou mais fundo nela,
apertando-a com força entre os braços enquanto cobria sua boca
de doces beijos.

Capítulo 20

Esme soube que ele partiu muito antes de abrir os olhos para a
brilhante luz da manhã. Tinha notado o frio de sua ausência no
meio do sonho. Outros sonhos tinham precedido a esse, mas esses
estavam cheios de calidez e de delírio contente.
Nunca antes tinha sonhado com tanta alegria. Nunca poderia
ter imaginado o que acontece quando um homem une seu corpo ao
corpo de uma mulher. Tinha imaginado que seria agradável.
Semanas antes tinha saboreado esse prazer, em Poshnja, quando
Varian a tinha beijado e acariciado daquela maneira tão íntima. Mas
a noite anterior o prazer tinha sido profundo e muito mais

325
turbulento. Tinha sido como se um poderoso demônio se colocasse
em seu corpo, onde fez um terrível mas maravilhoso destroço,
como uma desmedida tormenta até que ao final tinha conseguido
aliviar-se. E com aquele alívio lhe chegou uma doce paz.
Mas não por muito tempo, descobriu Esme. Tocou o travesseiro
onde tinha estado apoiada a cabeça de Varian e recordou como ele
tinha sorrido docemente, enquanto a sustentava entre os braços
naquele momento de extasiada paz.
De qualquer modo, certamente tinha sorrido a todas as
mulheres com as quais tinha estado da mesma maneira. Ele sabia
como afastar qualquer dúvida ou remorso. Ele sabia como
tranquilizar a uma mulher. Não gostava da desordem. Isso tinha
deixado para depois, quando tivesse tempo de enfrentar ao
desagradável. Certamente tinha decidido que era melhor que cada
um enfrentasse sozinho as suas próprias penas.
A verdade é que era melhor que partisse, pensou Esme.
Esperava que já estivesse a caminho de Corfú. Não sabia sequer
como poderia voltar a olhá-lo no rosto de novo. Ela tinha pedido
que a tomasse, e então… OH! Que desajeitada tinha sido. Seu
corpo adolescente era torpe e inepto. Não estranhava que ele
tivesse tentado deter-se em repetidas ocasiões. Que tarefa tinha
sido para ele ter que aplacar sua luxúria.
Ela se tampou o rosto com as mãos. Comportou-se como uma
cadela no cio. Era repugnante.
— Ah! A manhã seguinte.
Esme afastou as mãos do rosto e ficou olhando com
horrorizada incredulidade para a porta.
Varian estava ali, de pé, com um leve sorriso em sua formosa

326
boca e olhando-a com atenção. Logo entrou fechando a porta tão
lentamente como a tinha aberto, cruzou o quarto e pegou sua
camisola.
— Será melhor que ponha algo em cima — ele disse. — Do
contrário me sentirei tentado a investigar de novo o que há debaixo
dos lençóis, e não queria amassar as calças.
Deixou a camisola sobre a cama.
Ela se ruborizou.
Varian se dirigiu para a janela dando-lhe as costas.
A jaqueta negra que vestia ficava tão bem como se estivesse
esculpida sobre seu corpo, pois marcava seus ombros largos e sua
estreita cintura, e suas calças ressaltavam os músculos de suas
longas pernas. A noite anterior ela se deixou envolver de maneira
desavergonhada por seu suarento corpo nu; essa manhã, parecia-
lhe um estranho. Esme queria desesperadamente sair a toda pressa
por aquela porta, enquanto ele estava de costas, e correr longe,
muito longe dele.
Em lugar disso se ergueu na cama e ficou com mãos torpes a
camisola. Tremiam-lhe os dedos de uma maneira tão exagerada
que teve que fechar os punhos para imobilizá-los.
— Eu… acreditei que você tinha ido — disse ela com voz
afogada.
— Sim? E aonde acreditava que eu tivesse ido? — perguntou
ele sem deixar de olhar pela janela.
— A Corfú.
— Ah, sim! Sem você. — Ele voltou-se. — Seduzida e
abandonada, isso é o que pensava… além de sabe Deus o que
outras coisas. A verdade é que não tenho vontade de saber que

327
mais. Como já dizia antes… a manhã seguinte, Esme. Hoje é
amanhã.
O ameaçador tom da voz dele fez com que um calafrio a
percorresse. Instintivamente, ela cobriu os seios com os lençóis.
— É obvio que é amanhã. Mas não acredito que tenha que fazer
soar como se fosse o Julgamento Final.
— Foi assim que soou? Que interessante. Porque de algum jeito
sim é. Para você.
Varian se apoiou contra o marco da janela e segurou os braços
com as mãos, rodeando o torso. Seu rosto tinha a mesma
expressão que uma pedra e sua voz era fria e distante.
— Levantei-me cedo esta manhã. Entre outras coisas, porque
estava me perguntando onde andaria Percival. Encontrei abaixo,
sentado nas escadas com a Qeriba, e me inteirei de que foi ele
quem nos salvou a vida.
Qeriba. Estava nessa casa. Esme ficou olhando os lençóis com
desespero.
— Seus leais amigos estavam decididos a não permitir eu que
tivesse nenhum tipo de ajuda, nem sequer por parte de minha
própria escolta — seguiu contando Varian. — Parece que estavam
convencidos de que eu era o próprio Belzebu. Por sorte, Percival
desobedeceu minhas ordens e fez todo o possível para tranquilizá-
los. Desgraçadamente, negaram-se a acreditar na pessoa que
traduzia. De modo que seu primo se viu obrigado a explicar nossa
situação na Albânia.
Imaginando o seu pobre primo tratando de explicar-se em uma
língua que desconhecia, enquanto estava rodeado por uma
multidão de estrangeiros hostis, Esme fez uma careta de dor.

328
— É um menino muito valente. Não só nos salvou, mas
também a todos meus amigos. Alí os teria castigado com crueldade
se você tivesse se afogado — admitiu ela.
— Percival não sabia que a palavra «amigo» também pode
significar «marido» - continuou Varian como se ela não houvesse
dito nada. — Até mesmo a palavra «homem» pode querer dizer
«marido». Ele acreditava que estava dizendo que eu era um bom
homem, um amigo, e que você tinha escapado por um simples mal-
entendido. Mas seus amigos entenderam que você tinha escapado
de seu marido. Por isso, depois de resgatá-la, deixaram-nos tempo
para resolver nossas diferenças à maneira, durante séculos
famosos, dos casais casados.
Esme tentou ler a expressão de seu rosto, mas não pôde fazê-
lo. Elevando o queixo lhe disse:
— Não foi nada mais que um mal-entendido. Todos
compreenderão o que passou quando o explicarmos. Além disso,
não é nenhum segredo que compartilhei um quarto com você
muitas vezes. Se fica preocupado que possam culpar o meu primo
por uma coisa assim — continuou Esme com voz fria, — então pode
me deixar aqui. Nunca quis ir a Corfú, como já disse montões de
vezes.
Varian pôs uma expressão mais fria.
— Espero que não seja por isso que me ordenou que arruinasse
sua vida, Esme.
— Eu não te ordenei nada!
Mas sabia que isso era mentira. Ela tinha insistido. Ela tinha
pedido. Sentiu que todo o corpo ardia de vergonha.
— Eu disse não, não é verdade?

329
— Sim, mas…
— Mas você não fez conta. — Ele se aproximou da cama. —
Adverti a você repetidamente. E voltei a pedir isso ontem à noite.
Só tinha que ter respondido que não. Mas não o fez. Já sabe que
tipo de homem eu sou. Uma garota tão preparada como você
deveria saber no momento em que pôs os olhos em cima de mim. É
bastante inteligente, isso é certo, para me manipular de outras
maneiras. E tem a suficiente sensatez para me fazer acreditar que
foi uma menina. Infelizmente, essa foi a única mostra sensata de
auto-proteção que deu.
Ele deixou escapar um profundo suspiro e se sentou na beira
da cama.
Esme sabia perfeitamente que se comportou mal. De qualquer
modo, parecia-lhe que não era muito amável de sua parte
acrescentar aquelas sarcásticas recriminações ao que se converteu
rapidamente na manhã mais humilhante de sua vida. Mas enquanto
ela o observava disfarçadamente, sua consciência lhe deu um
aviso.
Agora que ele estava perto, deu-se conta de que não estava
absolutamente tão tranquilo como aparentava. Tinha sombras
profundas sob os olhos, e sua pele estava estranhamente pálida.
Tinha o aspecto de alguém que não pregou o olho a noite toda.
— Está zangado pelo que aconteceu ontem à noite — disse ela.
Era uma estúpida constatação, mas se deu conta disso quando já
havia dito. — Eu… sinto… Foi… Lamento que seja desagradável para
você pensar nisso.
Varian ficou olhando fixamente com uma expressão ainda
inescrutável.

330
— Desagradável?
Esme olhou para outro lado.
— Não me dava conta… OH! Não acreditei que… Possivelmente
deveria ter me dado conta de que… de que podia ser desagradável
estar com uma garota que não sabe nada disso, como eu. Ainda
não entendo por que não decidiu parar. Não me dava conta de
quão aborrecida podia estar sendo para você. Pior ainda…, depois
de ter cruzado a nado a baía e estar a ponto de afogar também a
você. Mas tudo isso dá no mesmo, não é assim? — acrescentou ela
tristemente. — Tenho feito você ir daqui para lá, pelos pântanos e
as montanhas, e o obriguei a suportar toda a imundície e os insetos
e…
— Esme, encontra-se bem? — perguntou ele com um estranho
tom de voz.
— Estou muito melhor do que mereço — sussurrou ela. — Mas
mereço receber um tiro. Não deveria me permitir viver entre
pessoas civilizadas. Eu pertenço às montanhas, como as bestas
selvagens.
Ele clareou garganta.
— Não disse que tenha chegado o dia de ajustar contas,
carinho. Entretanto, tenho em mente algo um pouco mais drástico.
Ela abriu os olhos como pratos. Não acreditava que ele tivesse
que tomar ao pé da letra.
— Mais… drástico?
— Não estranho que realmente esteja assustada, Esme. E vai
estar mais dentro de um momento. — Tomou a mão que repousava
sobre os lençóis e a apertou com força entre as suas. — Senhorita
Brentmor, queira ou não, vai ter que me dar à honra de converter-

331
se em lady Edenmont.
Ela ficou olhando surpreendida a mão que ele sustentava entre
as suas.
— O que?
— Minha esposa — disse ele. — Matrimônio. Não pode me
seduzir e pretender logo sair impune disso.
Ela tentou soltar-se da mão dele sem consegui-lo.
— Varian, isto não é divertido.
— O toque de defuntos raramente o é.
— Diz tolices — disse ela. — Isso é uma piada sem nenhuma
graça, e o diz por que está zangado comigo. Ou me mentiu a
respeito do Alí. Ou…
Esme se calou uma vez que outra possibilidade, muito mais
inquietante, cruzava-lhe pela cabeça.
— Oh, Varian! Não pode ser que faça isto porque eu era
virgem. Estou segura de que não fui a primeira…
Calou-se de repente ao ver que ele ficava rígido. Uma sombra
cruzou seu rosto.
— Eu ainda não completei os trinta — disse ele. — Ainda não
me dediquei a rondar formosas virgens. Mas não culpo você por ter
pensado o contrário.
— Isso não tem importância — disse ela em seguida. — Não
pode ser tão louco para querer atar-se a uma mulher por essa
causa. Disse-me que não casaria comigo nem por mil libras, e vai
fazê-lo por um pedacinho de carne? Isso não tem sentido. Quantas
moças perdem sua virgindade por acidente? Pode acontecer
montando a cavalo ou de muitas outras maneiras. Não entendo por
que nos fez a natureza com essa coisa, só nos traz problemas.

332
Varian meneou a cabeça.
— Deveria ter sabido. A típica lógica de Esme. Disso se trata.
Não deveria ter abandonado você esta manhã. Não deveria tê-la
deixado nem um instante para que refletisse. Sabia que tinha que
ficar vigiando. Como fazem todos outros…, mas eu não tenho muita
prática em vigiar a ninguém.
— A mim não é preciso…
— Sim, sim é preciso. Venha aqui — disse ele lhe soltando a
mão.
— Aonde?
— Aonde crê? Aonde pede seu amante que venha senão entre
seus braços?
— Você não é meu…
— Sim, sou. Deixa de ser estúpida, Esme. Hajde.
Ele era seu amante ou em todo caso o tinha sido, e ela não
podia resistir seu convite mais do que a noite podia resistir ao
amanhecer. Esme se apoiou docilmente em seu regaço. Os braços
dele a rodearam possessivamente e o coração dela bateu
ligeiramente aliviado. Esme afundou o rosto na jaqueta dele.
— Melhor assim, não acha? — disse ele com voz carinhosa.
— Sim.
— Porque estamos os dois excessivamente envolvidos um pelo
outro, não é assim?
— Sim, ao menos eu estou, Varian — resmungou ela contra a
lã de sua jaqueta.
— Por isso fizemos amor — disse ele. — E não me pareceu
aborrecido. Meu único problema era que me sentia culpado. Tenho
muito carinho por você. Deixa-me louco, mas isso não é mais que

333
uma parte. Eu não queria desonrá-la. É tão forte e valente como
formosa; e boa parte de meus concidadãos cairiam loucamente
apaixonados por você. Se não houvesse tocado em você, poderia
ter casado com algum deles. Já vê que tinha boas intenções.
Desgraçadamente, isso não parecia ser muito forte frente a meus
desejos e meu egoísmo; e quando não me disse não, acabou com
todas as minhas boas intenções. Quero que saiba que não tem por
que culpar-se de nada, Esme. Não sou uma pessoa com muito
honra, mas teria gostado de ouví-la dizer que não…, acredito.
Ela ergueu a cabeça para olhá-lo.
— É obvio que acredito. Por que pensa que não lhe disse isso?
E não me fale de culpabilidades. Estou segura de que teria matado
você se chegasse a me rechaçar.
— Então é possível que entenda por que me obrigaria a matar
você se recusasse se casar comigo.
Esme fechou os olhos. Cada vez que ela tinha tentado fugir
dele, havia se sentido tão mal que tinha desejado morrer. Mas atá-
lo a ela aos olhos de todo o mundo e sob a bênção do próprio
Deus?
Ela era uma rude e intratável moça e ele um lorde inglês… e
um libertino. A natureza dele poderia não suportar as cadeias do
matrimônio. E quando o desejo que sentia por ela desaparecesse
como aconteceria, abandoná-la-ia, sentimentalmente e de fato. Seu
olhar se tornaria frio e distante… Como ela ia poder suportá-lo?
Melhor, muito melhor separar-se dele assim.
— Posso ouvir seus pensamentos — disse ele com uma careta.
— Não faz mais que ver problemas em tudo.
— Varian…

334
— Tenta pensar nisso — disse ele abaixando a cabeça e
aproximando seus lábios a um centímetro dos dela.
Automaticamente Esme jogou os braços ao pescoço para unir
seus lábios com os dele.
— Não — disse ele. — Se não se casar comigo, não voltarei a
beijá-la nunca mais.
O fôlego quente de Varian lhe roçou o rosto, enquanto seu forte
corpo se estremecia. Suas mãos eram tão suaves e lhe agarravam
a mandíbula de uma maneira tão terna que o pulso dela acelerou.
— Isso não é jogar limpo, Varian — disse com voz tremente.
— Eu não estou acostumado a jogar limpo. Sim ou não?
E no final ele ganhou.

Estava condenada, havia dito Varian a si mesmo uma hora


mais tarde, enquanto lhe dava um beijo no pescoço. Tinha estado
condenada no momento em que se conheceram. Não contente
matando a seu pai, o destino tinha enviado Varian St. George para
que destruísse seu futuro.
De qualquer modo, era difícil sentir-se culpado enquanto
sustentava entre os braços aquela formosa e rebelde criatura, que
lhe pedia que fizesse amor. Mas o céu sabia que não era necessário
que o pedisse. Ele tinha desejado fazer amor no momento em que
a tinha visto pela primeira vez. E quando por fim tinha feito, tinha
desejado fazê-lo de novo.
Mas não podia passar toda a vida na cama com ela. Percival e
Qeriba estavam embaixo, esperando para assegurar-se de que
Esme não ia causar mais dificuldades quanto ao matrimônio. O
mais inquietante era pensar em Ismal, que podia estar esperando-

335
os … em qualquer parte.
Esse último temor conduziu Varian da cama até onde estava
sua roupa.
— Direi a sua avó que traga algo para você vestir — disse ele
enquanto se abotoava as calças. — Estava preparando a bagagem.
Esme se meteu sob os lençóis.
— Ah, estará muito contente de ver-me casada! Tudo isto foi
coisa dela, verdade?
— Não, tudo foi coisa minha. — Varian vestiu a camisa. —
Qeriba tão somente colaborou. Embora não tivesse encontrado o
Percival e a Qeriba esta manhã embaixo, o resultado teria sido o
mesmo. Não comece outra vez a imaginar que alguém me obrigou
a me casar contigo ou que estou atuando movido por alguma
absurda ideia de nobreza.
Ele se aproximou de novo da cama e ficou olhando fixamente.
— Não sou nobre. Quis fazê-la minha praticamente desde o
começo. E desde que esqueceu de prevenir-me a respeito, agora
é. É muito simples, Esme. Não torne mais complicado.
Uns olhos verdes o olharam fixamente com ar de recriminação.
— Já vejo o que acontece. Embebedou-me fazendo o amor
para que não possa pensar e tenha que dizer: «Sim, Varian. Não,
Varian. Como você queira, Oh, grande luminária dos céus!».
Ele não pôde evitar sorrir.
— Exatamente.
— Você espera só que esteja mais acostumada a seus truques
— advertiu ela.
— E então será muito tarde, porque já estaremos casados —
disse Varian dando de ombros. E logo, evitando seu olhar,

336
acrescentou: — E até então não vai haver mais tropeços entre nós.
Partimos para Corfú dentro de umas horas. E uma vez ali, terá
alguma acompanhante feminina.
Ela, sobressaltada, saiu de sob os lençóis.
— Acompanhante feminina? Não fala a sério?
— Tem que saber que Percival estava preparando-se para um
duelo esta manhã, para vingar sua honra. Não quererá ferir ainda
mais a sensibilidade do jovem vivendo durante mais tempo em
pecado com seu prometido?
Varian foi para a porta.
— Não estará sozinha, rodeada de estrangeiros. Qeriba aceitou
vir conosco para fazer companhia a você, e dei a entender a ela
que a família de Donika pode nos preparar uma adequada
celebração albanesa, antes que nos casemos pela Igreja anglicana
com um padre inglês. — Dirigiu-lhe um olhar culpado. — Não terá
que preocupar-se por não ter a seus amigos no dia de suas bodas.
Varian não esperava nenhuma resposta, e estava já saindo
pela porta quando Esme pediu que voltasse. Ficou parado na
soleira, esperando o pior de sua possível resposta.
— Obrigado, Varian — disse ela com voz suave.
Ele se relaxou e sorriu.
— S'k gië.

Capítulo 21

Sir Gerald ficou olhando a carta que acabava de receber,


embora lorde Edenmont a tivesse escrito quase quinze dias antes.

337
O atraso foi coisa do Percival, sem dúvida, como tinha sido todo o
resto. As bodas se celebrariam dentro de uns dias. Se os ventos
fossem favoráveis, poderia chegar a Corfú em um dia; mas para
que?
Sir Gerald, franzindo o cenho, tirou o olhar da carta e o dirigiu
para a baía do Otranto. Que diabos estava acontecendo ali?
Jason tinha sido assassinado, graças ao céu, mas o céu parecia
lhe proporcionar outras pequenas surpresas. Aquele louco tinha
deixado para trás a uma filha bastarda, e Edenmont pretendia
agora casar-se com ela.
— Maldito canalha — murmurou sir Gerald. — Possivelmente
pensa que vai poder me tirar dinheiro. Seja! Deixemos que fique
com a bastarda do Jason, e que fique também com esse problema
do qual me encarregou a puta de minha esposa. Dez anos para
conceber um filho — se queixou enquanto começava a andar daqui
para lá pela terraço. Um milagre, isso disse Diana. Como se eu não
soubesse contar.
Fazia contas. Nove meses antes que nascesse Percival, sir
Gerald tinha estado viajando pelo estrangeiro. E nem por um
momento acreditou que Percival tivesse nascido prematuramente.
Não tinha esquecido a velha traição com os anos. A simples
visão do menino era suficiente para voltar a abrir aquela ferida. E
agora havia outro bastardo do Jason com o qual ver-se.
O barão entrou de novo na casa e se dirigiu para seu escritório,
dando voltas na cabeça à mordaz réplica que ia enviar a sua
excelência. Entretanto, quando sir Gerald tomou a pluma, seu olhar
caiu sobre o jogo de xadrez, no qual faltava a rainha. Grunhiu
apertando os dentes.

338
A Rainha da Meia-noite tinha sido detida pelas autoridades
inglesas uns dias antes de chegar a Preveza, conforme tinham
informado. Logo depois, tinham sido interceptados outros dois
barcos, e as notícias tinham viajado muito rápido. Alguns
alfandegários tinham começado a falar e era muito provável que o
resto o fizesse muito em breve. Tinha investido uma grande
quantidade de dinheiro naquilo, e nesse momento, já não esperava
poder obter nenhum benefício.
Teria que pedir dinheiro a sua mãe, o que era uma perspectiva
horrorosa. A velha bruxa certamente quereria examinar suas
contas com atenção. Embora suas notas nos livros de contas
fossem bastante criativas para esconder seu segredo, aquele
processo seria de qualquer modo humilhante. A nobre viúva
encontraria enganos em suas contas, como sempre tinha feito. Era
Jason, o filho pródigo, que ela sempre tinha adorado, embora
mostrasse o contrário. Mesmo agora, se Jason estivesse vivo, a
velha bruxa senil seria capaz de dar ao Jason… tudo o que pedisse.
Como sempre tinha feito, exceto aquela última vez. E agora, ali
estava aquela garota que Edenmont afirmava ser a filha do Jason.
Deixando a um lado a pluma, sir Gerald voltou a segurar a
carta. A garota tinha escrito uma nota, mas não estava ali. O barão
deu uma última olhada ao papel rabiscado com os ilegíveis
garranchos e voltou a examinar o texto do Edenmont.
— «Espero a bênção…» Não, aqui. Sim, está bastante claro
agora. «Levá-la a Inglaterra, se o desejar, e ao Percival também,
se lhe parecer bem.»
Aí estava a chave de tudo. Edenmont pretendia levar a garota a
Inglaterra, para apresentá-la a sua estúpida avó e, de passagem,

339
utilizar ao Percival, se fosse necessário para abrandar o coração e o
cérebro daquela velha bruxa.
— Oh, não, não o conseguirá! — grunhiu sir Gerald. — Não
ficará com minha herança. Nem um centavo, Edenmont. A velha
bruxa pode ser que já esteja envelhecendo, mas eu não.

As semanas anteriores as bodas passaram como um longo


e desconcertante sonho, cheio de caras estranhas e de vozes
desconhecidas com o típico acento entrecortado inglês. Embora no
centro do mesmo, Esme se sentisse olhando tudo de outro mundo,
via si mesma atuando tal e como o sonho requeria dela.
Varian tinha alojado a ela e a Qeriba na casa do pastor
protestante, o senhor Enquith e de sua esposa. As visitas que
faziam Varian e Percival eram tão estranhas que pareciam ser
também eles pessoas alheias. Enquanto iam e vinham por Corfú,
discutindo a respeito das adequadas bodas inglesas que Varian
estava decidido a celebrar, Esme enfrentava a mais desalentadora
tarefa de converter-se em uma apropriada noiva inglesa.
Tinha deixado os remorsos e as preocupações escondidas no
mais profundo de seu coração. O assassinato de seu pai tinha
ficado sem vingança, sua pátria estava a beira do desastre, mas
era muito tarde para que ela pudesse atuar com heroísmo. Seu
prometido era um estrangeiro, um lorde, um sedutor sem um
centavo, mas era muito tarde para que ela pudesse agir com
inteligência. Esme tinha entregue seu coração, até mesmo sua
virtude, e não podia pedir que os devolvesse.
Ela seria sua baronesa, o que significava que ao menos tinha
que aparentar como uma dama. Em consequência, foi nisso que

340
centrou sua mente. Dedicou-se a ler com interesse os livros de
modas que a senhora Enquith emprestava, e ajudava às duas
anciãs a transformar os tecidos em vestidos. As lições de costumes
ingleses tomaram Esme com a mesma concentração. Tinha que
fazer assim, pensou. Não havia outra opção.
Uns dias antes das bodas chegou Donika junto com a maioria
de suas amigas, e Esme iniciou as celebrações pré-nupciais com a
mesma resolução que tinha tido para todo o resto. Tinha medo do
futuro, mas pensou que temer o futuro era bastante
desencorajador. Somente se tratava de infelicidade, a vida da
maioria dos seres humanos era infeliz. Portanto, decidiu encerrar
em seu coração o que sentia e oferecer aos outros só sorrisos e
confiança.
Dessa maneira chegou o estranho sonho até o dia das bodas,
um dia que amanheceu quente e ensolarado.
De pé sob a luz da manhã, Esme recebia os cumprimentos de
seus amigos, que admiravam seu vestido e seu penteado. A última
a aproximar-se foi Donika. Deu um passo atrás e, enquanto
observava com atenção o vestido de cor verde esmeralda, sua testa
enrugada relaxou enquanto esboçava um sorriso.
— O que vai pensar o noivo quando a vir agora? — perguntou
ela. — Antes a chamava passarinho, mas hoje te vai ter que te
chamar princesa.
Esme resistiu a tentação de estirar as dobras da saia, pois já
estavam bastante lisos e, além disso, ela tinha as Palmas das mãos
úmidas.
— P… passarinho?
Donika riu.

341
— Sim… sim. Como gagueja. Chamou-te passarinho aquele dia
em Saranda e disse que tinha voado levando seu coração. Eu pus-
me a chorar ao ver seus olhos e ouvir o tom de causar pena de sua
voz. Ao final ficaram a chorar todas as mulheres, e também mais
tarde, quando souberam que se lançou à água detrás de você. Um
homem tão formoso, tão forte e tão alto, e com tanto amor… Como
poderia recusá-lo?
— Nenhuma mulher pode recusá-lo — disse Esme com voz
tensa e cortante. — Eu nem sequer tentei e agora…
— Agora farão felizes um ao outro.
— Felizes. Que Deus tenha piedade de mim. — Esme apertou o
peito com um punho, como se dessa maneira pudesse deter o
violento batimento de seu coração. — Oh, Donika! Não posso…
Donika a arrastou e a levou até a porta.
— Sim, se arrastas os pés eu tenho que empurrá-la para fora,
vai parecer a perfeita noiva modesta. Esme seja como for tem que
se casar, amiga minha.
Embora Donika a levasse pela mão, o que a conduzia era o
sonho no qual vivia. Sem dar-se conta de como, viu-se de repente
em meio de uma multidão de rostos e entre o murmúrio das
pessoas, de pé, diante do pastor anglicano. E nesse momento a
névoa começou a se dissipar. Olhou a seu lado e viu seu formoso
deus que sorria meigamente. Todo ele parecia brilhar. Seu rosto
reluzia como uma estátua de mármore, e seus olhos refulgiam com
raios dourados. Até parecia que sua voz fosse um resplendor que a
iluminava por dentro, enquanto ele pronunciava as palavras da
cerimônia, e um trêmulo e doce sorriso se desenhava em seus
lábios para ouvir a resposta dela.

342
Logo houve um movimento e o murmúrio da multidão se
aproximou mais a eles. De entre o tumulto, várias vozes
desconhecidas a chamavam «senhora» em inglês. Ela não entendia
nada, e a todos respondia sem vacilar, maquinalmente, com as
corteses frases que lhe tinham ensinado.
Horas mais tarde, o sonho a levou até o porto. Viu o Petro
soluçando enquanto abraçava ao Percival, e depois fazendo
consideráveis dramalhões a Varian quando ele lhe pôs nas mãos
uma bolsa com moedas. E ali estavam também Donika, Qeriba,
seus amigos… e as vozes que se despediam em sua própria língua.
Esme sentiu o braço de Varian lhe rodeando a cintura, ajudando-a
a manter o equilíbrio enquanto viam como o barco zarpava, e ela o
seguia com o olhar, vivendo tudo como algo irreal e
incompreensível.
A bruma não se dissipou por completo até que olhou pela
janela da casa que Varian tinha alugado. Aquela era a surpresa que
ele tinha preparado: uma grande estrutura branca sobre a baía da
Kulura, na costa nordeste de Corfú. Pela janela se via sua pátria. O
sol que começava a por-se produzia reflexos acobreados sobre o
profundo mar verde azulado do Jônico.
Ela já tinha acendido as velas. E tinha tirado o vestido de noiva
para vestir uma camisola de renda que tão amorosamente a
senhora Enquith tinha feito, e também tirou as presilhas do cabelo.
Escovou o cabelo até fazê-lo brilhar com a escova de cabo de prata
do estojo de Percival, que ele havia presenteado. No quarto havia
um grande espelho de parede no qual Esme se olhou com atenção.
Tinha visto ali refletida uma pequena e esquálida moça,
completamente sozinha.

343
Agora, consciente ao fim da dor que sentia, ficou a olhar pela
janela.
Já não podia ver sua pátria no outro lado da estreita faixa de
água. Albânia já não estava ali. Era uma moça sem país, sem
família.
Seu tio não se apresentou às bodas, sem dúvida porque não
tinha nenhuma intenção de reconhecê-la como família, e tampouco
tinha especial interesse em voltar a ver seu próprio filho. Mas
Percival teria que retornar com ele, em algum momento, de algum
jeito, e a Esme acabariam assassinando, como tinham feito com
seu pai.
Ela não era ninguém. Ninguém, só era a esposa de lorde
Edenmont. Nem sequer era uma dama. Tinha aprendido os
rudimentos da vida em sociedade, e umas quantas frases corteses
que recitava igual os meninos recitam o latim no colégio. Também
poderia recitar ao Cícero, ao Catulo e a outros. E isso não ia
convertê-la em romana.
Ouviu um leve som de alguém que batia na porta e se voltou
para ela com o coração pulsando dolorosamente. Logo conseguiu
fazer sair por sua garganta as palavras com as quais ia dizer a seu
marido que podia entrar.
A porta se abriu deixando ver o alto e esplendidamente bem
formado lorde que a tinha feito sua e só sua… e Esme não pôde
evitar começar a chorar.
Imediatamente Varian cruzou o quarto. Sem dizer uma palavra,
tomou-a nos braços e a levou para a cama. Não a deixou sobre o
colchão, mas sim a manteve em seu regaço, enquanto Esme se
abraçava a ele, soluçando desesperadamente.

344
Ele a abraçou, apoiando suavemente o queixo contra sua
cabeça enquanto lhe dava tapinhas nas costas. Pouco a pouco
começou a conseguir que se acalmasse. Quando por fim terminou
aquele horrível soluço, ele tirou seu lenço e o deu a ela, ainda sem
dizer uma palavra.
Sempre tinha odiado ficar a chorar. Até que tinha conhecido a
ele, as lágrimas jamais tinham afluído de seus olhos, como uma
debilidade desdenhável. Horrorizada consigo mesma, esfregou o
rosto com raiva uma vez que pensava que teria que castigar-se
por isso.
— Não é nada — disse a ele olhando uma de suas lapelas. —
Foi uma estupidez. Devo parecer repugnante.
Tratou de levantar-se, mas ele a reteve.
— Não, Esme, isso não é certo, e não quero ficar louco tratando
de averiguar qual é o problema.
Os olhos cinza dele a olhavam com atenção. Aquele olhar a fez
estremecer-se, o que a punha em um estado de ansiedade similar
ao que produzia o pranto.
— Já disse que não é nada — disse ela. — Estou cansada, isso
é tudo. Disfarcei-me para tentar parecer uma dama.
— Não é preciso que tente parecer nada; não por minha causa.
— Certo. Poderia ter feito da minha maneira, e ter parecido
uma louca e uma bárbara aos olhos de seus patrícios, e ter feito
com que sentissem pena de você enquanto riam de mim. Você sabe
tal como eu como esperavam que me equi… que eu envergonhasse
a você e ao meu primo. Por isso ficou afastado de mim até hoje —
acusou ela. — Por um dia, ao menos, poderia acreditado que eu
não ia arruinar sua vida.

345
Varian olhou os punhos fechados dela.
— Sei — disse. — Que criatura tão estúpida é, pode estar
segura disso.
— Estúpida?
Ela cravou as unhas nas mãos e apertou seus dedos, porém
deveria ter lhe colocado umas algemas de ferro pelo que lhe tinha
feito.
— Sabe que sou mais forte que você — disse ele. — E embora
fosse você, não poderia ir muito longe. Seria muito mais prático
que me arrancasse os olhos, não acredita?
Esme sabia ou ao menos a parte mais razoável dela sabia que
ele a estava provocando. Mas não fazia diferença. Sentiu um
arrebatamento de pura raiva que percorria seu corpo.
— Odeio você! — gritou ela. — Poderia arrancar seus olhos,
mas então ficaria cego, além de estúpido e louco, e não tenho a
ninguém mais que a você! — deu-lhe um murro no peito, fazendo
com que ele soltasse um gemido. — Oxalá estivesse morta!
— Não, isso não é verdade. — antes que pudesse bater-lhe de
novo, Varian segurou sua mão e a beijou. — O que quer é que eu
esteja morto. Ou que não tivesse nascido jamais.
Soltando-lhe a mão, levantou-a de seu regaço e a deixou de pé
diante dele.
— Por que não olha ao seu redor? Pode ser que encontre algo
mais duro e contundente para me golpear. — Ele olhou para o
lavabo. — O jarro de louça, por exemplo. Estou seguro de que um
bom golpe com isso me deixaria fora de combate durante várias
horas.
Completamente desconcertada, Esme seguiu seu olhar.

346
— O jarro? — Quando ela se voltou para ele, seus olhos tinham
um estranho brilho. — Com isso romperia seu crânio.
— Oh, duvido-o! Para isso me parece que precisaria de um
machado. Os lordes ingleses, já sabe, têm a cabeça muito dura.
Ela deixou escapar um longo suspiro. Sua raiva se dissipou tão
rápido como tinha surgido e agora já não podia recuperar, por
muito que a necessitasse. O aborrecimento era tão cômodo, tão
familiar… O fazia sentir-se forte. O desespero o fazia sentir-se
débil.
— Oh, Varian! Não poderia fazer isso. Você sabe que não seria
capaz.
— Suponho que não. Sou um espécime bastante penoso, e
além de tudo o que tem agora, infelizmente. Nenhum lugar para
aonde ir, nenhum ao que retornar. Só o estúpido e tolo Varian, que
deixou-a entre estranhos durante quase três semanas. Só por
decência, o que é algo sem sentido para você, porque não é uma
hipócrita, como eu. E está zangada com razão, porque não teve
nada que objetar nem teve outra opção durante essas semanas.
Esme ficou ereta.
O olhar brilhante dele passeou lentamente da cabeça dela até
seus sapatos de seda.
— Agora eu mereço um castigo — acrescentou ele com voz
suave. — Em minha noite de bodas. Primeiro umas lágrimas para
me dar um susto de morte…
— Não assustou-se — disse ela. — Não brinque comigo. E não
me acuse de utilizar débeis truques românticos. Já sei que esses
tipos de coisas jamais poderiam comovê-lo. Quantas mulheres se
puseram a chorar por tua culpa? E me pergunto quantas mais o

347
farão ainda.
— Chorava por minha culpa, carinho?
— Não! — Ela voltou-se para a janela, agora estava já
completamente às escuras lá fora. — Oh! Que sentido tem tudo
isso? Sim, sim! Por você.
Ele a segurou pela cintura e a fez girar para que ficasse de cara
com ele.
— Isso era o que suspeitava. E por isso me assustei. Também é
isso parte de meu castigo. Deus, sabe que não posso suportar vê-la
chorar. Mesmo quando tem cara de estar a ponto de fazê-lo. —
Agarrou-a pelas mãos e carinhosamente a aproximou mais dele. —
Mas você não me odeia, verdade, carinho?
— Sim. Não.
Ele ficou olhando a mão esquerda dela durante um longo
momento, enquanto percorria com o dedo a circunferência do anel
de ouro que levava no anular. Então, levando as irresistíveis mãos
dela aos lábios, beijou a suave carne das palmas. Esme ficou a
tremer, com desejo, com medo. Oferecer seu corpo tinha sido fácil.
Tinha-o feito com muito gosto e voltaria a fazê-lo de novo, se
somente se tratasse disso. Mas dar toda sua vontade, tudo o que
era…
Esme se afastou e se soltou.
Varian ergueu o rosto para olhá-la. Seus olhos ainda brilhavam
daquela maneira estranha, escura agora.
— Quer que eu diga, Esme? — perguntou ele com um tom de
voz muito baixo, excessivamente suave. Logo rodeou sua cintura
com os braços. — Você perdeu muito menos.
— Não me minta.

348
Mas desta vez já não tentou afastar-se dele. Não tinha nenhum
direito de rechaçá-lo. Era sua esposa. E era culpa dela que isso
tivesse acontecido. Mas tampouco podia suportar sentir-se
embriagada e impotente. Estava perdida, e em seus braços,
enlouquecida por sua maneira de fazer o amor, e sabia que nunca
poderia afastar-se dele.
— Sei — disse ele. — Sabia há muito tempo. Ter-me como
amante era uma grande desonra. Mas ter-me por marido… ah,
bom! Isso é muito perigoso.
Ela afogou um soluço. Não parecia justo que ele pudesse ler
seu pensamento tão facilmente, quando para ela ele era o mais
escuro dos mistérios.
— Sei o que sou, Esme — disse ele. — Mas você mesma se
ofereceu para mim, e agora eu necessito de você. Além do que
posso suportar, e além, além da consciência. — As mãos dele
apertaram sua cintura. — E deveria voltar a ganhá-la nessa noite, e
sei que posso fazê-lo. Sem escrúpulos.
Então Esme entendeu o brilho que havia em seus olhos, e viu o
perigo nesse brilho, mas antes que pudesse retirar-se, ele colocou
uma perna entre as dela e a fez perder o equilíbrio. Esme caiu
sobre ele, e ele se inclinou para trás sobre a cama, ficando ambos
deitados um em cima do outro.
Ela tratou de soltar-se com fúria, pensando só que não ia
deixá-lo ganhar, não tão facilmente, não aquela noite. Ela
precisava lutar por alguma parte de si mesma, e que ficasse algo
realmente dele, não queria ser só o que ele tinha feito dela. Não
podia render-se tão rápido.
Mas Varian era tão rápido, tão forte, tão preparado que ao cabo

349
de um instante ela estava já deitada debaixo dele, ofegando e
lutando com desespero, porque o peso dele sobre seu corpo era
quente e também dolorosamente familiar. Até esse momento não
se deu conta da profunda e terrivelmente só que tinha estado.
Odiava a si mesma por aquela solidão, assim como se odiava por
desejar o refúgio que Varian oferecia, embora fosse também uma
prisão.
As mãos dele se fecharam sobre os seios de Esme, e ela sentiu
vontade de chorar.
— Não, Varian — suplicou.
— Sim, Varian — respondeu ele como uma suave ordem.
Logo lhe deu um tenro beijo em uma têmpora e desenhou um
caminho de ofegantes beijos até sua orelha e mais abaixo, até seu
pescoço. Imediatamente se sentiu traída pelos rápidos batimentos
de seu coração. Ele aproximou os lábios do seu pescoço e se
entreteve em beijá-la longamente, enquanto saboreava o triunfo
daquele profundo e saboroso beijo. Ela se sentiu embriagada por
aquela carícia e seu suave peito se esticou, enquanto começava a
invadir um calor que a percorria por dentro e fazia ninho em seu
útero.
— Sim — repetiu ele. — Porque me deseja. Diga-me isso — Ele
percorreu seus seios com as mãos e com a língua e começou a
fazê-la arder lentamente, contra seu desejo, contra todos seus
raciocínios.
Ela mordeu os lábios.
Ele baixou-lhe a camisa de dormir pelos ombros e logo mais
abaixo, deixando a descoberto seus excitados e jovens seios.
— Diga-me.

350
Ele percorreu seus seios com as mãos e com a língua e desejou
fazê-la arder lentamente, contra seu desejo, contra todo raciocínio.
— Não, gemeu ela, sem poder evitar comover-se com suas carícias.
A camisola dela baixou mais, até os quadris. E suas mãos e sua
boca a seguiram, amalucada e deliberadamente.
— Sim.
— Na voz dele havia um tom jocoso, e apesar de que sem dúvida
ela lhe rompia o coração, também tinha vontade de rir. De uma
maneira louca.
— Não — murmurou ela. — Antes preferiria morrer.
— Então sem dúvida morrerá, meu amor… belamente.
Ele se moveu para baixo, e Esme começou a tremer quando ele
abaixou a cabeça. Os sedosos cachos de seu cabelo acariciaram
sua pele, fazendo-a estremecer. Logo seu ventre se esquentou com
os doces beijos dele, e tratou de conter um gemido.
Esme abria e fechava as mãos, mas não servia de nada.
Fechando os olhos, deixou que seus dedos deslizassem pelo cabelo
dele. Desejava esmagá-lo contra ela, mas não devia fazê-lo. Ele
sabia que a estava torturando e deixava claro, mas também sabia
que ela não se daria por vencida tão facilmente.
Esme passou ligeiramente os dedos entre os cabelos dele,
como se não necessitasse mais, como se não tivesse todos os
músculos doloridos pela tensão. Como se não estivesse
desesperada para tê-lo dentro dela.
Então a boca dele se moveu ainda mais abaixo, e uma
convulsão extasiada a fez vibrar, ao tempo que deixava escapar um
grito do mais profundo de seu ser. Naquele momento abrasador,
ela esteve a ponto de deixar-se levar por uma corrente de delírio.

351
— Varian, não…! Ah! Não…
Esme lhe cravou as unhas no couro cabeludo e começou a
amaldiçoar em todos os idiomas que conhecia. Mas não era sua
própria voz que falava, mas a de um demônio, grave e rouca. As
travessuras da língua e a boca dele faziam com que ela sentisse
demônios dançando dentro de seu corpo. E este respondia ao
desejo dele, não ao dela. Ela já não tinha vontade.
— Varian… não… não… Oh, por favor!
Ele levantou a cabeça e pôs-se a rir.
Seus dedos percorreram a parte interior das coxas dela de cima
abaixo, e ela notou que a rígida carne dele pulsava quente contra
sua pele. Esme tinha vontade de gritar.
— Me diga que sim — ordenou ele. — Me Diga.
— Sim, sim. Desejo você.
— Sim — repetiu ele. — desejo você.
E por fim se introduziu nela.

Varian estava vagamente consciente da chuva que tinha começado


a cair horas antes. Tinha ouvido o suave tamborilar na terra do
outro lado da janela, enquanto acariciava a sua esposa provocando-
a de novo. E a tinha feito sua uma e outra vez, porque ela o fazia
zangar-se uma e outra vez. Havia se sentido triste sem ela durante
as longas e infernais semanas anteriores, e logo totalmente
destroçado ao encontrá-la ali chorando. E ao dar-se conta de que
ele era a causa de seu pranto. Ao final, ela havia voltado à razão,
pobrezinha. Muito tarde.

— Não posso estar perdido — havia dito Varian a ela. Mas só

352
depois de ter feito amor de maneira delirante, quando tinha dado e
tomado prazer, como tem que ser entre os dois. — Não a deixarei
partir. Não deixarei que escape de mim. Já sabe, eu sempre ganho,
Esme. Acredite-me, vendeu a alma ao diabo, se quiser ver assim,
porque nisso posso ser muito diabólico.
— Você espera — tinha repreendido ela, teimosa como sempre.
— Só espera que me tenha acostumado.
Ele tinha rido.
— Posso assegurar que não chegará nunca a acostumar-se,
milady.
E logo a tinha tomado outra vez, alegremente. Ele tinha se
sentido picaramente alegre no momento em que o pastor os tinha
unido. Enquanto Varian a desejasse, Esme estaria ali, seria dela,
como era o correto e o adequado, esse era o solene trato selado
ante Deus, com o acompanhamento de duas testemunhas mortais.
Agora, Varian olhou para a janela, pela qual começava a entrar
a tênue luz da manhã. Suas mãos passearam pela suave pele dos
ombros dela e logo ao longo de seus braços, parando um momento
para lhe acariciar com ternura a ferida de bala. Ela estava
descansando, adormecida e confiante em seus braços.
— Pelo amor de Deus, quanto a amo — murmurou ele. — E
maldito seja se souber o que tenho que fazer.
Só restavam dez libras em sua conta, não tinha onde conseguir
mais dinheiro naquela ilha perdida em meio de nenhuma parte, e
naquela casa só poderiam ficar durante uma semana. Não tinha
recebido notícias de sir Gerald, apesar de ter mandado uma carta a
mais de quinze dias. Tinha que levar o Percival de volta para seu
pai. Mas aonde? Para Otranto? Para Veneza? Onde estava seu

353
maldito pai?
E Esme, aonde tinha que levá-la? Possivelmente pudessem
viver na Itália. Ao menos durante um tempo. Nesse país poderiam
manter-se com muito pouco, e Varian tinha maneiras de conseguir
dinheiro ali. Mas não, não como antes; nunca mais, não estando
casado. Não estava disposto a arrastá-la a uma sórdida existência.
Entretanto, tinham que ir a alguma parte. Não podia mantê-la
naquela maldita rocha para sempre, nem sequer uma semana
mais, não estando Ismal tão perigosamente perto. O governador de
Corfú não se sentia tranquilo com respeito à Albânia. Tinha
começado a armar à população. Tinham detido vários barcos com
armas, mas quem sabia quantos outros teriam chegado a seu
destino? Esme tinha que partir dali, muito logo. Disso não havia
nenhuma dúvida.
E só tinha uma semana para preparar sua partida. Varian tinha
ouvido que já tinham reparado o Pélago e agora viajava a caminho
de Corfú. Se as informações que tinha eram confiáveis, poderia
chegar qualquer dia a partir desse. Tinha deixado ao capitão
dinheiro mais que suficiente para os reparos e tinha pagado um
preço muito alto quando o contratou. Além disso, a maior parte de
seus pertences e de Percival estavam ainda a bordo. Por outra
parte, tinha contratado aquele barco só por quinze dias, não por
dois meses, e seu proprietário poderia ter decidido que o contrato
se cumpriu e retornar a Itália.
Então, que fazer?
Esme se esticou e murmurou algo, como se pudesse sentir a
agitação dele. Varian lhe deu um beijo na orelha.
— Dorme, meu amor — lhe sussurrou. — Dorme.

354
Ele se aconchegou a seu lado, apertando a cálida costa dela
contra seu corpo. Ficou olhando um momento e logo olhou para a
janela.
Ia ser o tipo de amanhã úmida e cinza em que melhor seria
ficar dormindo. A garota que estava deixando-o louco durante os
dois últimos meses agora estava deitada a seu lado, a salvo entre
seus braços, tão doce e apaixonada a amante que qualquer
homem podia desejar. Não era o momento de preocupar-se com o
futuro, pensou Varian. Era momento de saborear o presente, de
deitar-se mais uma vez em paz e desfrutar daquela estranha
alegria. Beijou-a nos ombros e logo fechou os olhos.
A sorte permitiu-lhe dormitar durante uma hora em quase
absoluta tranquilidade. Logo ouviu o som de passos que corriam e
uns golpes fortes na porta.
— Por todos os diabos, Percival, não pode um homem…

— Oh! Por favor, senhor, sinto muito. — A voz do menino tinha


um estranho tom agudo.
— O vai lamentar realmente quando…
— Por favor, senhor, vem. Papai está aqui!

Capítulo 22

Quinze frenéticos minutos mais tarde, lavado, cuidadosamente


barbeado e vestido, Varian acompanhava a sua esposa ao salão e
ali a apresentava a seu tio. Varian se deu conta de que Esme

355
estava muito tensa, embora um olho inexperiente não teria notado
nela mais que uma aristocrática reserva. As três semanas passadas
em companhia da senhora Enquith tinham dado uma pátina de
brilho naquela jovem mulher, que tinha o orgulho natural de uma
imperatriz.
Enquanto aceitava as lacônicas e rigidamente educadas
felicitações, Varian pensou que os negócios podiam andar como a
seda, talvez assim Esme não perdesse os nervos. Embora isso não
fosse fácil. Não podia sentir-se contente pelas frias olhadas que lhe
dirigia seu tio, antes de desprezá-la completamente dirigindo sua
atenção só a Varian.
Mas Esme conteve sua indignação, como continha sua língua, e
Varian se inclinou silenciosamente pensando em beijá-la, da cabeça
até a ponta dos pés, no momento em que tivesse passado aquele
maldito evento. Seu futuro dependia daquela entrevista. A sir
Gerald teria que dirigi-lo com delicadeza, e isso ia requerer toda a
presença de ânimo de Varian.
Desgraçadamente, sir Gerald não tinha ideia do que era a
delicadeza. Quando acabou com seus cumprimentos de praxe, foi
direto ao ponto:
— Não posso ficar muito. Esperam-me os negócios. Você o
entende, Edenmont, estou seguro. Só vim para buscar o moço. —
Lançou um olhar sombrio a seu filho. — Já pode ir fazendo a
bagagem, Percival… e depressa.
— A… agora, papai?
— É obvio que não agora mesmo. — Esme colocou uma mão
sobre os magros ombros de seu primo. — Acaba você de chegar e…
— Percival, faz sua bagagem!

356
— Sim… sim, papai.
Percival saiu correndo para seu dormitório.
O rosto de Varian expressava uma indiferença cortês.
— Não queria afastá-lo de seus negócios claro está — começou
a dizer com voz tranquila, — mas…
— Não pode me reter aqui — disse sir Gerald com uma voz
igualmente tranquila. — Nem tampouco o menino. Não pretendo
perde-lo de vista até que cheguemos a Inglaterra. E uma vez ali o
deixarei a salvo na escola, onde começará a aprender quais são
suas obrigações, ajudado pela ponta de uma vara de abedul.
— Quanto a suas obrigações…
— Sabia que sua obrigação era ir com você a Veneza, senhor.
— Como expliquei em minha carta, o que aconteceu foi
inteiramente culpa minha.
Sir Gerald sorriu friamente.
— Não vou dizer que você é um mentiroso, milorde. Viu-se
obrigado a me chamar, e eu não sou tão ingênuo para me bater em
um duelo pela falta de sensatez do menino…, embora acredite
nesse costume medieval, eu não acredito. Entretanto, sei
perfeitamente que não foi um italiano que embarcou nesse cruzeiro
pelo Adriático. Foi esse maldito menino, que tem a mente cheia das
tolices sentimentais que lhe inculcou sua mãe.
Varian viu um brilho nos olhos de Esme, mas ela viu o olhar de
advertência que lhe dirigia ele, e não disse nada.
— De qualquer modo, ao fim e ao cabo a aventura teve um
final bastante feliz — disse Varian com uma voz bastante fria e
calma. — A aventura me fez conhecer minha esposa…, sua
sobrinha. Acredito que é uma boa ocasião para celebrar e perdoar.

357
Sir Gerald meneou a cabeça.
— Pode celebrar você o que queira, Edenmont, mas não está
em minhas mãos oferecer o perdão que deseja. Parece-me que
farão falta ao menos mil libras de perdão se é que espera apaziguar
os seus credores.
Varian ficou rígido.
O baronet continuou com voz enérgica:
— Espero que ela tenha contribuído ao menos com essa
quantidade de dinheiro, milorde, porque não vejo ninguém mais no
mundo que o possa proporcionar.
A raiva que aquelas palavras provocaram foi tão grande e
inesperada que Varian não pôde dominar sua língua. Enquanto
lutava por controlar-se, seu visitante se voltou para Esme.
— Não é minha intenção ofendê-la, senhora, mas deve saber
como estão os assuntos familiares, mesmo que seu lorde não
queira reconhecê-lo.
— Sei perfeitamente — disse Esme em tom glacial. — E ele
também sabe. Já disse a ele que preferiria morrer antes que
solicitar sua caridade.
Os olhos de sir Gerald brilharam divertidos, mas respondeu
com falsa amabilidade.
— Muito próprio e sensato o que disse. Porque não há caridade
a solicitar, não lhe parece? Nem no caso de minha mãe.
Seu olhar deslizou até Varian.
— Não se comoverá, eu asseguro, nem um pouco. Não é
necessário mencioná-lo. Eu tentei em incontáveis ocasiões.
Especialmente desde que nasceu Percival. Pensava que um neto a
abrandaria. Mas me respondeu que bem poderia não ver o menino

358
nunca mais sem nenhum remorso se voltasse a falar de meu
irmão. — Meneou a cabeça com tristeza. — Eu tenho as mãos
atadas.
E sem dúvida também as tinha atadas a Varian.
— Já vejo — disse Varian. — Estou seguro de que nada seria
mais ilusório que ver a família reconciliar-se. Entretanto, pelo bem
de seu filho, não se atreve a tentar. É obvio que não havia sequer
sonhado em pedir a você um favor como esse. Esme e eu temos
muito carinho por Percival, e não desejamos causar problemas de
nenhum tipo. Parece-me entender que não tem mais opção que
levá-lo para casa você mesmo. Compreendo que se o
acompanhássemos minha esposa e eu, sua avó poderia não gostar.
— Exatamente, milorde — corroborou sir Gerald esfregando-as
mãos. — É uma penosa situação, sei. Um assunto muito
desagradável, como diz. E me alegro que você entenda.
— Entendo-o — disse Varian, — perfeitamente.

Alí ficou olhando ao imundo mendigo que estava de pé diante


dele.
— Miserável desgraçado — lhe disse. — Pelo prejuízo que me
causou deveria deixar que o servisse de comida aos leões. Mas
meu coração é muito mole. E me diz que não tem a culpa de que
Alá desse a você o cérebro de um burro. — Olhou para Fejzi. —
Mas esse iludido companheiro pensa que o esperto é ele e Alá o
burro. Porque sou velho e estou doente, acredita que também
estou cego e sou tolo. Você o que opina, Fejzi? O que deveríamos
fazer com este cão infiel?
— Não acredito que eu possa aconselhar a sua alteza. —

359
respondeu Fejzi. — Mas acredito que deveríamos fazer com que o
tipo se banhasse e comesse algo para que os leões pudessem
aproximar seus focinhos.
— Então vá prepará-lo — disse Alí. — E me deixe que fale um
momento com esta suja criatura em privado.
Fejzi saiu da sala em silêncio.
Quando já não se ouviam os passos de Fejzi, Alí se dirigiu ao
mendigo com um olhar de recriminação.
— Não penso em abraçá-lo, Leão Vermelho, estou
profundamente ofendido.
— Suponho que é pelo fedor — disse Jason. Sentou-se no
tapete, com as pernas cruzadas, junto à mesa baixa. — Não se
pode evitar. Quando se vai à caça de ratos, terá que infiltrar-se
entre eles. — Com calma serviu ao visir uma taça de café e logo
serviu outra para ele mesmo.
— Teria que ter me deixado ir a caça contigo — se queixou Alí.
— Mas não. Quantos anos faz que nos conhecemos? Acaso não
podia confiar em mim?
— Era um assunto muito pessoal. Tinha investido muito em seu
primo. Tinha grandes planos para ele.
Alí deu de ombros.
— Ismal é um ingrato. E a educação européia que recebeu é
um completo desperdício. Ainda segue pensando como um bárbaro.
E é uma pena, com sua inteligência e seu engenho. Poderia ter sido
um grande diplomata. Poderia ter feito que todos os soberanos da
Europa se sentissem condoídos de nossa grave situação e nos
ajudassem contra os turcos. Poderia ter feito tantas coisas por sua
gente… Poderia ter sido um herói maior que Skanderbeg. É muito

360
decepcionante. Onde vou encontrar outro como ele?
— Sua alteza já superou muitas decepções.
— E assim farei dessa vez, e além disso, também me vingarei
— disse Alí antes de sorver seu café sorridente. — E esta vingança
em particular vai ser muito divertida.
Jason deixou de um lado sua taça de café, sem chegar a prová-
la.
— Não vou perguntar. Fiz tudo o que pude para evitar um
derramamento de sangue. Se estiver disposto a semear o país de
cadáveres, eu não posso detê-lo.
— Sim, por que não crava sua adaga no meu coração agora
que está a tempo? Mais de vinte anos… E essa é a ideia que tem de
minha inteligência? — Alí estalou a língua em um gesto de
reprovação. — Meu primo está confinado nas melhores habitações
do palácio da Ioanina. Está gravemente doente. Os médicos estão
muito aflitos porque dizem que morre de amor pela filha do Leão
Vermelho, e não há cura para isso. Um dos médicos tem tão pouco
espírito que me parece que morrerá logo depois que o faça meu
primo.
— Esse ao que pagou para que o envenene, não é assim? —
perguntou Jason com uma voz que era apenas um sussurro.
O silêncio do Alí era suficiente resposta.
— É uma pena — disse Jason após um momento. — Um triste
desperdício. Se as coisas tivessem sido de outra maneira, eu teria
gostado de… — Se calou enrugando o sobrecenho.
— Sei o que gostaria, o mesmo desejei eu em outro tempo.
Mas vi com meus próprios olhos, Leão Vermelho. Sua filha deu o
coração a outro.

361
— Fejzi contou-me que faz uma semana que se casou com esse
canalha. — Jason franziu ainda mais o sobrecenho. — Não sabia
nada. Estava navegando…
— Isso não tem importância — disse Alí rapidamente. — Tem
que pôr sua inteligência em seus assuntos. E não podia ter
interferido sem pôr em perigo sua própria vida e a de muitos
outros.
— Alguém deveria ter interferido. Esse tipo é um…
— Um gigolô. Sim, isso dizem. Mas tem muito bom aspecto e é
forte. Dará a sua filha uma descendência sã e forte. Pode ser que
agora mesmo já leve em seu ventre um neto.
— Deus bendito, espero que não!
— Um neto, Jason, que algum dia será um lorde inglês.
— E bom proveito que vai ter ele… ou minha filha. Que
demônios vai fazer Edenmont com outra boca para alimentar?
Aonde vai levá-la? Como vai mantê-la?
Alí deu de ombros.
— Eu ofereci dinheiro para que a deixasse aqui. Mas recusou.
Partiu com ela. Foi procurá-la mesmo arriscando sua vida. Disse-
lhe isso. Mas encontrará a maneira de mantê-la, meu amigo. Não
se preocupe por isso. Quando se encontrar com ele, verá que tenho
razão.
— Quando o encontrar — grunhiu Jason. — Lhe darei uma
surra que recordará por toda a sua vida. Tenho mais de uma dívida
a pagar com esse pedaço de aristocrata depravado.
— Então pensa persegui-lo. Vai me abandonar, Leão Vermelho.
— Tenho a intenção de partir quando tiver acabado todo esse
assunto.

362
— Ainda não acabou. Não me disse quem proporcionava os
barcos com armas.
— Não sei quem era o fornecedor — disse Jason olhando ao
visir nos olhos. — Mas se soubesse, não poderia…
— Sua alteza, mil perdões. — Fejzi entrou a toda pressa na
habitação com o rosto pálido e se inclinou aos pés do Alí. — Chegou
uma mensagem urgente da Ioanina.
Jason soltou uma maldição em inglês e se levantou de um
salto.
Fejzi deu um coice.
— Ismal…
— Sim, sim — interrompeu Alí. — Escapou. Obviamente. Que
outra mensagem de Ioanina poderia ter feito com que viesse me
interromper com tanta pressa? — Alí também ficou de pé, mas
lenta e dolorosamente. — Só corre para as más notícias. Quando
aconteceu? E que direção tomou meu maldito primo?

Ismal afastou com o dorso da mão a terrina de papa fazendo


com que o conteúdo salpicasse no lençol já molhado.
— Essa merda de barco não deixa de mover-se — murmurou
ele. — Que sentido tem comer algo se não posso manter no
estômago? A não ser que pretenda que morra afogado, maldito
filho da puta.
Risto recolheu a terrina.
— O veneno de Alí o deixou fraco — disse. — Deveria tratar de
comer algo, se não morrerá antes que cheguemos a Veneza.
— Não penso morrer — respondeu Ismal zangado. — Não até
que tenha ajustado as contas com esse porco inglês.

363
— Não sabe se foi ele — disse Risto. Agarrou um trapo e
começou a limpar o lençol. — Não tem provas de que foi ele quem
o traiu. E mesmo se o fez, seria muito mais inteligente que o
deixasse partir.
— E me esconder em Constantinopla por sabe Deus quanto
tempo, sem dinheiro e com só dois criados canalhas para que
cuidem de mim? O sultão ia rir em minha cara… e o mais seguro é
que o faria enquanto visse minha cabeça repousando em uma
bandeja de prata.
— Tem bastante dinheiro — disse Risto. — Mais do que eu verei
em três vistas.
— Sir Gerald Brentmor me roubou mil libras… extorquiu-me de
má fé. Quem mais conhecia o paradeiro de cada um dos barcos, e
sabia cada uma das rotas e os portos de chegada? Se tivéssemos
perdido um ou dois barcos, teria acreditado que era um acidente do
destino, mas todos?
Risto atirou o trapo ao chão.
— Barcos! Armas! Para que? Para governar um desgraçado
pedaço de terra, nada mais que rochas e pântanos? Para esbanjar
sua juventude e sua beleza brigando contra qualquer intruso que
queira essas mesmas rochas e esses pântanos asquerosos? Para
passar a vida beijando o gordo traseiro dos estrangeiros, para
conseguir mais arma com as quais defender seu precioso pashalik?
Deus deu-lhe beleza e inteligência. Seu primo o mandou com os
francos para que aprendesse suas maneiras e pudesse se impor a
eles, e ganhar em honra e respeito. Sim, e fazer com que
obedecessem a seus desejos. Mas você preferiu sujar suas brancas
mãos com o sangue de selvagens ignorantes.

364
— Minha gente necessita alguém que os tire de sua selvageria.
— Não é seu kismet — insistiu Risto teimosamente. — O Todo-
poderoso o advertiu disso, muitas vezes, mas você não fez conta.
Como um moço febril lanço-se à caça dessa puta ruiva… e esteve a
ponto de morrer por isso.
— Paguei por ela — grunhiu Ismal. — Era minha por direito.
— Nunca foi sua, e só o que queria era mantê-la afastada do
lorde inglês. Alí esteve jogando com você de gato e rato, mas sabe
uma coisa? No final o gato sempre acaba matando o rato. E assim é
como Alí esteve a ponto de matá-lo. Você conhece seus jogos
melhor que ninguém, e mesmo assim caiu em sua armadilha. Se
não tivesse encontrado o Mehmet, já estaria morto. Sem sua ajuda
nunca teria podido salvá-lo. Para que? Para que arrisque outra vez
o pescoço para se vingar de um contrabandista inglês? Que
maldição caiu sobre mim para que queira tanto a um homem tão
louco?
— Eu não quero seu amor. — Os olhos do Ismal tinham cor de
raiva azul escuro. — Nunca o quis. Seu amor é vil, desleal. Está
contente de que tenha falhado. Quer que eu perca tudo para que
assim tenha que precisar de você. Não preciso! Vá correndo para
Constantinopla. Ou para o inferno, se quiser. Busca algum fraco
garoto a quem mimar. Eu não sou seu menino. Nunca o fui e nunca
o serei.
Risto desencapou sua adaga.
— Sim, faça-o! — desafiou-o Ismal. — Me mate, meu querido
Risto. Morrerei com a imagem de Esme em meu coração e seu
nome nos lábios. Morrerei sorrindo, pensando em seus firmes seios
pálidos e nos vermelhos cachos de seu…

365
A porta da cabine se abriu de repente, e a figura grande e feia
de Mehmet encheu o marco.
— Acalme-se, por favor, senhor, toda a tripulação está
ouvindo. — Entrou na cabine e tranquilamente tirou a adaga da
mão trêmula de Risto. — Embora sejam gregos, garanto que
podem entender uma ou duas palavras de nossa língua. Além
disso, discutir a gritos os põe nervosos. Vamos, Risto. — Pôs-lhe
um braço sobre os ombros e o conduziu para a porta. — Por que
incomodas o senhor?
— Mantém-no afastado de mim — disse Ismal enquanto se
voltava a deitar no estreito beliche. — Fica todo o dia em cima
como se fosse uma avó resmungona.
Mehmet fez uma careta por cima do ombro.
— Sim, amo, e você prefere uma jovem e formosa enfermeira.
Em Veneza encontraremos três: uma morena, uma loira e uma
ruiva, não é? Durma agora e sonhe com elas.
Enquanto conduzia Risto para a cobertura, Mehmet disse-lhe
que respirasse profundamente a brisa marinha para que acalmasse
seu espírito irado.
— Seu problema é que não entende a natureza humana —
disse ao desgraçado criado.
— Ele não é humano — se queixou Risto. — O demônio lhe deu
essa língua que tem para que me fustigue com ela… enquanto a
todos os outros oferece um mel doce.
— Porque não confia em ninguém mais. Isso é uma triste carga
para você, meu amigo. Por tudo isso, deveria ter piedade dele. É
duro acreditar-se meio divino e meio humano… e, afinal, é mais um
menino que um homem. Que bom humor pode esperar dele quando

366
tudo o que pretende dá errado?
— Sai-se mal porque sempre faz as coisas que não deve.
— Satanás trabalha com as duas mãos. O amo Ismal tem uma
mente muito ativa e um espírito com a vontade de conquistar o
mundo inteiro. Mas não é esse tipo de conquistador. Eu o vi, assim
como você. — Mehmet ficou olhando ao mar. — É uma pena que
não tenha conseguido à garota.
— Essa puta arpía…
— Não pode mantê-lo afastado das mulheres.
— Acredita que não me dei conta disso faz muitos anos? Não
são as mulheres, é ela —espetou Risto. — Uma assassina que atua
como um homem; até sabe ler e escrever. É teimosa e tem muito
mau caráter. E, além disso, é uma puta estrangeira.
— Teme que esse prodígio de mulher possa escravizá-lo, não é
assim? — riu-se Mehmet. — Seria melhor para você que o fizesse.
Tem um coração valente como o de um guerreiro, mas também é
justa e generosa. Se ela fosse sua esposa e você a tratasse com
amabilidade, ela faria com que, em troca, ele o tratasse também
amavelmente. Tem bastante cérebro, também, para entender
exatamente o que deseja dele. Se conseguir fazê-la sua amiga, ela
o ajudará.
— Não quero a ajuda de nenhuma mulher.
— O que importa a quem ele obedeça, se o resultado é
conseguir o que quer? É uma pessoa bastante inteligente, Risto.
Certamente, mais preparado que eu. Mas até o ignorante Mehmet
pode dar-se conta do valor de uma esposa que o amo adorasse.
Risto ficou olhando fixamente o seu acompanhante.
— Por que me conta tudo isso?

367
Mehmet dirigiu a vista ao mar.
— Terá que pensar em algo. Os britânicos encontraram todos
os barcos e confiscaram suas cargas. O amo joga a culpa disso no
contrabandista inglês. E por isso estamos viajando a Veneza. Se
não chegarmos a tempo a Veneza, pergunto-me, aonde teremos
que ir depois?
— Não a Inglaterra — sussurrou Risto com um suspiro. — É
impossível que vá tão longe para vingar-se.
— Poderia fazê-lo, especialmente se souber que a garota
também foi para lá…
— Então teremos que fazer todo o possível para que não saiba.
— Conhece-o desde que era um menino. Quando teve êxito
ocultando algo?
— Nunca — respondeu Risto com pessimismo. — Parece que
conhece os segredos que tenho encerrados no coração… e se ri
deles.
— Por isso sabe que o seguirá aonde quer que vá. — Mehmet
deu de ombros. — Por minha parte, não teria nenhum problema em
ir lá. Não me importaria viajar o mais longe possível do Alí e de
seus espiões, quase diria que é o melhor. Vá aonde vá, e faça o que
fizer para vingar-se, por dinheiro ou por uma mulher, eu não me
negarei a ir com ele. — Voltou o rosto para Risto, que o olhava com
expressão de ansiedade. — Se tiver êxito, nós prosperaremos com
ele. E se perder… bom, o que importa onde morra?

Capítulo 23

A casa era enorme, como uma grande fortaleza de pedra,

368
exceto porque nenhuma pessoa sensata teria construído uma
fortaleza com janelas tão grandes, ou com tantas. Fileira atrás de
fileira de retângulos cinza se expunham glacialmente a um dia sem
sol de janeiro. A neve que caía sem cessar tinha branqueado a
plana franja de terra que rodeava a casa e tinha vestido as escuras
árvores sem folhas com um traje de bolas brancas.
Esme tinha visto neve antes, mas nunca tanto como na
Inglaterra durante esse último dia de viagem até a casa de sua
avó. De qualquer modo, era preferível a neve que o frio intenso que
a tinha precedido. O campo, com suas montanhas altas e rochosas
já não pareciam tão sombrios e aborrecidos sob o manto branco da
neve.
Ali não havia montanhas, só granjas separadas umas das
outras por pedaços de bosque aqui e lá, e milhas de muros de
pedra, retorcendo-se entre os caminhos que se entrecruzavam nas
colinas. Varian havia dito que no norte havia formosas e altas
montanhas, que rodeavam formosos lagos de águas cristalinas.
Esme teria gostado de ir ali. Ou a qualquer outra parte em lugar de
encontrar-se onde estava.
Enquanto subia os degraus da entrada ao lado de Varian, deu
uma olhada por cima do ombro a velha e descuidada carruagem
que os tinha levado até ali. Em uns minutos teriam que pedir que
os levasse de novo de volta. Para ela isso seria perfeito, se não
fosse porque não restava nada de dinheiro. Tinham investido suas
últimas economias para chegar até ali.
Esme deu um pulo quando Varian bateu na porta pela segunda
vez. Entretanto, dessa vez um homem muito baixo e magro, e com
um nariz aquilino e muito fino, abriu-a. Olhou com cara

369
inexpressiva, primeiro a Varian e logo a Esme. E então seus olhos
redondos piscaram rapidamente.
— A neta de lady Brentmor deve visitar a sua avó — disse
Varian bruscamente.
O homem que estava na porta emitiu um som totalmente
incompreensível, e os deixou entrar até o vestíbulo.
— Irei ver se a senhora está em casa — sussurrou ele.
Imediatamente, deu-lhes as costas e partiu, com seus sapatos
reluzentes repicando sobre o chão de mármore.
— Onde poderia estar uma anciã em um dia como esse senão
em sua casa? — balbuciou Esme. — Que mal educado é por deixar
os convidados na porta. Nem sequer nos saudou, ou nos deu as
boas-vindas, nem nos perguntou como estamos.
— Normalmente não se anima aos criados a que façam
perguntas de uma índole tão pessoal, carinho. Especialmente
quando não estão seguros se o visitante será bem recebido. Pelo
menos não nos deixou diretamente na rua. Isso já é algo. — Varian
lhe roçou um braço com a mão. — Espero que não sinta muito frio.
De qualquer modo, também imagino que a temperatura vai
começar a subir muito em breve.
Dez minutos mais tarde retornou o criado, ajudou-os a tirar os
casacos e os conduziu por um labirinto de corredores até umas
imensas portas duplas de madeira finamente esculpida e pintadas
de amarelo. Abriu-as muito devagar e fez um gesto com a cabeça a
Esme e a Varian para que entrassem. Sem saber se o correto era
que dissesse obrigado, Esme lhe dirigiu um ligeiro sorriso. Para sua
surpresa, o criado respondeu com outro sorriso, mas tão fugaz que
quase chegou a perguntar-se se teria imaginado.

370
Após um instante, estavam na guarida do leão. Da leoa;
melhor dizendo, e aquilo não era exatamente uma guarida.
A sala, em conjunto com a parte exterior da casa, era imensa.
Todo o mobiliário de uma dúzia de pessoas da Albânia teria cabido
ali perfeitamente, e teria ficado lugar para alojar ao menos a
cinqüenta pessoas. Assim mesmo, alguém realmente decidido tinha
conseguido encher ao máximo a sala de móveis. As cortinas, os
tapetes e a maior parte do mobiliário eram de tons verdes e
dourados. Tudo estava belamente lavrado, e cada parte de tecido
finamente bordada ou estampada em ouro; aquela sala enorme e
sólida parecia que ia cair em cima de Esme até esmagá-la.
Enquanto a grande massa de coisas começava a dissolver-se
até converter-se em objetos individuais, Esme descobriu que havia
ali algo vivo.
Uma anciã que estava de pé, rígida como um pau, ao lado de
uma das janelas, observando ali aos visitantes por cima do ombro,
apesar de não ser muito mais alta que Esme. Tinha uma cabeleira
quase totalmente cinza, com umas quantas mechas de cor
castanha, e o levava elegantemente penteado. Ia suntuosamente
vestida com um traje de veludo verde escuro com pontilhas
douradas no pescoço e os punhos.
— Bom, o que faz aí me olhando boquiaberta? — chiou fazendo
Esme sobressaltar-se. — Aproxime-se mais para que possa vê-la.
Aqui está escuro como no Hades, e esses estúpidos folgazões não
acenderam ainda as velas. Vem aqui, órfã.
— Milady — disse Varian. — Lady Edenmont, minha esposa.
— Perguntei algo, galo de briga? — chiou a anciã. — Já sei
quem é. Deixe-me que veja a menina que diz ser minha neta.

371
Esme se soltou da mão de Varian e pôs-se a andar para as
janelas, deixou escapar uma maldição entre dentes e logo olhou
fixamente à mãe de seu pai, que por sua vez sustentou o olhar.
— Aqui estou — soltou Esme. — Já me vê. Pode me chamar
como quiser. Não me importa absolutamente. Você não tinha
vontade de me conhecer e eu não tinha vontade de vir aqui. Mas
meu marido disse que era minha obrigação. E assim está feito.
Adeus.
— Não lhe dei ainda permissão para partir, senhorita
onipotente e presunçosa. Assim mantenha a boca fechada e
demonstra um pouco mais de respeito pelos mais velhos. Maldito
seja, Edenmont, não é mais que uma menina! — disse a insofrível
anciã sem deixar de olhar a Esme com o cenho franzido. — Em que
demônios estava pensando?
— Não sou uma menina! Cumprirei dezenove em…
— E fria e lamuriante e parece muito mal alimentada — seguiu
dizendo sua avó sem fazer caso da interrupção. — Vi espécimes
mais prometedores em um asilo de pobres.
Logo se afastou para trás uns passos e, com os olhos ainda
cravados em Esme, puxou violentamente do cordão da campainha.
— Tenho que reconhecer que não entendo o que têm os
homens na cabeça, embora duvide que possam ter algo nela. E
você menos que ninguém, Edenmont. Embora já vejo que
demonstra o descaramento suficiente para aparentar ter certa
inteligência. Drays! Maldito seja esse preguiçoso vagabundo, por
que demora tanto?
As portas se abriram uma vez mais e o homenzinho de nariz
afiado entrou na sala.

372
— Milady?
— Leve a órfã até a senhora Munden e lhe diga que prepare um
banho e logo…
— Levar? — repetiu Esme com incredulidade. — Banho? Eu
não sou…
— E diga ao Cook que lhe prepare uma boa comida quente e
uma taça de chá forte com muito açúcar, e um montão de bolachas
e uma terrina de…
— Não estou disposta a…
— Ninguém perguntou. Vá com o Drays, agora mesmo, e tire
esses farrapos. Não sei do que outra forma poderia chamá-los.
Esme lançou um olhar desafiante a sua obviamente senil avó e
outra a seu marido. Varian lhe sorriu, muito ligeiramente, mas ela
não entendeu o que significava aquela careta.
— Varian?
— Sua avó está sendo muito amável — disse ele.
— Está me dizendo que faça o que me pede? — perguntou-lhe
Esme perplexa.
— Acredito que seria o melhor. Parece-me que quer falar
comigo em particular.
— Naturalmente — disse a anciã em um tom de voz
ameaçador.
Para Esme sempre era difícil interpretar as expressões de
Varian. Colocava uma máscara no rosto com muita facilidade, e
todas as suas máscaras pareciam realmente autênticas. Assim
pensando, enquanto avançava com pesar para a porta, a Esme
pareceu ver um pouco de semelhança com um gesto tranquilizador,
não em seus frios olhos cinza, porém em sua postura. Roçou-lhe

373
ligeiramente a mão ao passar, e ele a agarrou e a apertou durante
um segundo.
— Tudo vai bem, querida — murmurou ele.
Embora parecesse que tudo ia mal, Esme lhe dirigiu um débil
sorriso, e a sua avó uma cortês reverencia. Continuando, elevando
o queixo, abandonou a sala seguida pelo Drays.

— A órfã do Jason — disse lady Brentmor quando Esme já


estava longe para poder ouví-la. — Se estivesse cega e surda,
poderia negá-lo, mas não o estou, de modo que não posso fazê-lo.
Já me chegaram notícias de todo esse assunto, por meu
incompetente filho e esse lunático menino que tenho por neto.
Assinalou com a mão uma mesa de mármore com os cantos
dourados.
— Há uma garrafa de brandy nesse sei lá o que. Importar-lhe-
ia de me servir uma boa taça? Sim, e pode servir-se de outra para
você se quiser. Suponho que não será você metodista, não?
Quando Varian se aproximou da mesa para cumprir suas
ordens, ela se deixou cair em uma cadeira.
— Que o demônio tenha piedade dessa garota. Dentre todos os
imbecis e inúteis canalhas que Deus criou, teve que atar-se com
você. Não parece ter mais cabeça que seu pai. Ao final conseguiu
que o matassem, não é assim? E por um punhado de pagãos, isso é
tudo. Quando penso no que poderia ter chegado a fazer se tivesse
ficado onde devia. Mas não. Era um insensato. Os homens são
todos uns atalhos de loucos. Maldito seja até o último deles.
Varian aproximou a taça de brandy sem dizer uma palavra. Sua
tia avó Sophy tinha sido uma mulher parecida: uma dama do

374
século passado, com uma vida dura e um falar direto sempre. A tia
Sophy era capaz de beber mais que todos os homens juntos
reunidos à mesa, e seus juramentos podiam conseguir tirar as
cores até a um marinheiro.
— Sente-se, sente-se. — Lady Brentmor fez um gesto
impaciente apontando uma poltrona que havia adiante. — Vai dar
torcicolo se tiver que olhar para cima o seu antipático rosto de
mentiroso.
— Asseguro-lhe, milady, que não vim até aqui para enganá-la.
— Varian se sentou e no momento suspeitou que sua anfitriã
tivesse feito tapizar a poltrona com macadán e depois a tinha
mandado pintar em cima. — Ouvi dizer que deu permissão a seu
filho Jason para que contasse com sua ajuda. Devo entender que
essa permissão inclui também a sua descendência.
— Não digamos tolices, por favor — disse ela em tom cortante.
— E embora queira me enganar, não poderá. Não sou uma jovem e
tola que se deixa enrolar facilmente por um rosto bonito e umas
quantas frases rebuscadas. A beleza é fazer coisas belas, estou
acostumada a dizer; e o que você tem feito até agora não é
precisamente algo que valha a pena levar em conta. — Seus
velados olhos de harpia se cravaram nele. — Você, e Davies, e
Byron e o resto. Pássaros de muita pluma, e você o de pluma mais
negra de todos eles.
— Viver a vida, senhora. As loucuras da juventude.
— Não faz nem seis meses que você pôs os chifres em dois
condes italianos, um banqueiro e um pateleiro. Um pateleiro! —
repetiu ela. — Mas você não é capaz de discriminar absolutamente?
— Uma juventude esbanjada, como já disse. Mas agora sou um

375
homem casado, milady, e sabedor de minhas responsabilidades.
Ela se inclinou para ele.
— É também sabedor de que se encontra navegando pelo rio
das dívidas, e que não tem entre as mãos nem um remo para sair
daí? Porque eu não penso me molhar por você, milorde. E se crê o
contrário, será melhor que o pense de novo, se é que tem cérebro
para fazê-lo.
— Asseguro-lhe que não tenho nenhuma intenção a respeito. —
Varian meneou o brandy na taça que segurava entre as mãos.
Aquilo não ia ser fácil. E conforme passasse o tempo ia ser ainda
pior. — Tive uma boa ideia, que você não poderia suspeitar. De fato
ninguém que conheça minha reputação suspeitaria. Só o que posso
assegurar é que não trouxe Esme aqui com a intenção de conseguir
um dote para ela. Não me casei com ela porque tenha uma avó
rica.
— Mas sabia que tem, não é assim?
— Esme nunca reclamou sua herança. Muito ao contrário. Além
disso, nada do que sei de sua família podia me levar a pensar o
contrário. Apostei suficientes vezes para reconhecer uma aposta
com chance de perder.
— Mas se casou com ela.
— Sim.
— Sem pensar em seus interesses? Não acredito.
— Casei-me com ela por que… — Varian ficou olhando a taça,
como se nela pudesse encontrar as palavras que tinha que
pronunciar assim que limpasse a garganta. — Porque tenho por ela
muito apreço — disse ao fim simplesmente.
A nobre viúva soltou uma sonora gargalhada.

376
— A ideia que tenho de apreço, senhor, não é muito melhor da
que tenho do sentido prático. Casou-se com ela, apesar de saber
que não poderá alimentá-la nem vesti-la nem lhe oferecer um lar.
Não é mais que uma menina, e lhe pôs um anel no dedo para
conduzí-la diretamente à casa da caridade?
— Não me diz nada pelo que não tenha me reprovado por
milhares de vezes. Mas o mal já está feito, e você não o pode
desfazer.
— Não há muitas uniões que não possam desfazer-se — disse
ela com brutalidade. — Se estiver disposto a pagar. Você não me
importa um pouquinho, mas uma anulação deste abominável
matrimônio seria um investimento muito inteligente.
Os dedos dele se fecharam ao redor da borda da taça.
— Isso não está em discussão.
— Por quê? Não me diga que a pobre moça já está grávida?
— Pelo bom Deus, não! — A taça tremeu entre suas mãos
derramando brandy sobre o tapete. Só umas gotas. Umas quantas
gotas diminutas, isso foi tudo. Varian respirou profundamente para
acalmar-se e dizer que não é essa a razão. Queria dizer que nunca
consentiria tal coisa.
Ela ficou olhando com uns olhos duros e desumanos. Não é que
ele tivesse esperado ou desejado conseguir sua compaixão. Nada
do que ela reprovava era realmente injusto. Tinha chamado a Esme
«pobre menina», e isso era o importante. Como a comida e o
banho, aquilo significava que havia esperanças. Uma oportunidade.
— O que você quer de mim? — perguntou ela. — Me diga
claramente. Não gosto que me dourem a pílula nesse momento.
Nunca gostei das indiretas, e já sou muito velha para começar a

377
aprender a apreciar.
Ele ficou olhando fixamente aos olhos.
— Quero que cuide dela durante um tempo. Quero que esteja a
salvo e cômoda. Não posso me arriscar a levá-la comigo a Londres.
Meu título pode me proteger até certo ponto, ao menos para que os
credores não me enviem ao cárcere. Mas não quero expor a Esme à
perseguição. Por isso a trouxe aqui.
— Advirto que não penso manter um pícaro folgazão.
— Só a Esme e unicamente por um tempo — disse ele. — Eu
devo ir a Londres, apesar dos oficiais. Não tenho outra maneira de
solucionar meus assuntos.
— E como pensa enfrentar-se com eles?
— Não sei.
A anciã se inclinou para trás na cadeira e soltou um suspiro.
— Assim são os homens, não é? Os homens alguma vezes
sabem, mas sempre «devem», não é assim? Nunca sabem nada,
nenhuma maldita coisa. Não tem nem ideia de como fazer as coisas
melhor, assim se desfaz da pobre garota, verdade?
— Não.
— Quer que esteja a salvo no campo com sua avó, não é
assim? Durante quanto tempo? Semanas, meses, anos? Durante o
resto de sua vida? Sem relações sociais, sem pretendentes, sem
possibilidade de encontrar um casamento apropriado. Maldito seja,
Edenmont, se queria deitar com ela, por que não pensou em tudo
nisso? Eu teria encontrado um casamento. Não é todo mundo que
tem que ter uma noiva que seja virgem, digam o que digam. E
embora se dediquem a comentá-lo todo o tempo, malditos
hipócritas.

378
Varian se levantou.
— Não é necessário que me diga isso — disse ele friamente. —
Ela não se casará com ninguém enquanto eu viver. Se sua condição
for que se dissolva o matrimônio, então diga e eu e minha esposa
partiremos daqui por onde viemos.
— É você um ser vil e egoísta — disse ela ficando também em
pé. — Mas não quero que a órfã do Jason tenha que ver-se
obrigada a dormir e a viver nos becos. Ela pode ficar. E você,
milorde, pode ir para o inferno.

O banho era tal e como o havia descrito Varian aquela


manhã, vários meses antes: a enorme banheira de cobre
fumegante, o aroma do sabão, as suaves toalhas. Inclusive as
criadas.
Em resposta à chamada do Drays, a senhora Munden tinha
chegado voando pelo corredor como um rebocador, foi diretamente
para Esme e a levou com ela, ao tempo que dava ordens a um
grupo de criados subalternos que tinham saído correndo em todas
as direções. Os corredores tinham começado a encher-se em
seguida como o rio Tamises, com seu montão de barcos indo e
vindo, transportando suas diversas cargas: baldes de carvão para o
fogo, baldes de água fervendo para a banheira, malas, toalhas e
Deus sabe quantas outras coisas.
Toda aquela agitação fazia com que Esme se sentisse enjoada,
cansada e inquieta. Tudo o que acontecia ao seu redor se fazia por
e para ela, e nada estava fora de controle. Do momento em que
tinha entrado naquela casa, viu-se apanhada por seu poder. Pelo
poder de sua avó.

379
E aquela sensação não desapareceu na hora do jantar, embora
Varian estivesse ali, entretendo à anciã viúva com histórias de
Corfú, Malte, Gibraltar e Cádiz; todos os lugares onde tinham feito
uma rápida escala em sua errática viagem até a Inglaterra. Tinham
demorado quase dois meses para chegar. E isso considerando que
o veleiro em que viajavam estava fazendo uma carreira com outro
barco idêntico.
Os donos dos dois barcos eram ricos; ricos e ociosos antigos
companheiros de escola de Varian. Tinham estado navegando pelas
ilhas gregas quando chegou o rumor das bodas de lorde Edenmont.
Alguém acreditou e o outro não. O resultado foi uma aposta, e uma
amalucada carreira até Corfú para ver quem ganhava. Foi assim
que Varian e Esme obtiveram uma passagem grátis para a
Inglaterra.
Como agora estava comentando Varian a lady Brentmor, sua
má reputação o tinha salvado. Se tivesse tido uma vida respeitável,
possivelmente agora Esme e ele ainda estariam em Corfú. A anciã
parecia divertir-se. Ria sonoramente, como se ela mesma tivesse
tido algo a ver com os rumores que acabavam de contar, a meio
caminho entre repreender Varian por sua falta de recursos e a
maneira atordoada de encontrar uma esposa.
Depois do jantar, voltaram para o salão verde e dourado.
Chamavam-no a sala de estar. Ali Varian fez um relato
pormenorizado de suas aventuras pela Albânia. Então, lady
Brentmor não riu tanto, nem tampouco franziu o sobrecenho, tão
somente ficou olhando fixamente ao fogo, e de vez em quando
sacudia a cabeça. Ao final, pediu que lhe trouxessem um porto e
despediu bruscamente a Esme e a Varian.

380
Embora a anciã viúva tivesse deixado muito claro que
desaprovava a Varian, e que via aquele matrimônio como uma
tremenda catástrofe, tinha atribuído ao casal duas habitações
contíguas.
Molly, a donzela, acabava de sair do dormitório quando entrou
Varian pela porta que conectava ambas as habitações. Tomou a
escova que fazia uns minutos tinha deixado Molly sobre a
penteadeira e ficou olhando um longo momento, para logo deixá-la
de novo onde estava. Pôs as mãos sobre os ombros de Esme e
ficou olhando sua imagem refletida no espelho. Então, com umas
quantas frases curtas, contou-lhe o trato que tinha feito com sua
avó.
Quando acabou de falar, Esme se afastou bruscamente dele e
se aproximou da janela.
— Não temos alternativa, carinho — disse ele. — Se a
tivéssemos, juro que…
— Não é preciso que jure — disse ela tratando de que não lhe
tremesse a voz. — Eu entendo. E acredito em você.
— Entretanto, também está angustiada.
— Só por um momento. Não é muito agradável. Minha avó é
uma mulher incômoda, velha e irritante, mas conheci piores, e ela
ainda não me conhece. Na Albânia, a esposa vai viver na casa da
família do marido. Por ser a recém chegada na família, é a que
ocupa o lugar mais baixo. Todas as mulheres, mães, irmãs, avós e
tias, podem lhe dar ordens. Se quiserem ser desagradáveis com
ela, podem lhe fazer a vida impossível, e ela deve suportar tudo
porque está em minoria. Aqui só há uma mulher para me dar
desgostos; e a donzela me disse que meu primo está para chegar.

381
Enquanto falava tinha se arrumado para recuperar a
compostura. Então deu a volta, para enfrentar o olhar preocupado
de Varian com um sorriso tranquilizador.
— Ao Percival o tornaram a expulsar do colégio, outra vez, e
meu tio pretende deixá-lo aos cuidados da anciã, porque não quer
seguir aguentando o seu problemático filho.
— Esme, não é isso o que eu pretendo fazer. Disso pode estar
segura.
— Sei. Não estava comparando você com meu ignorante tio.
Somente digo que me alegro de que sir Gerald seja assim, porque
Percival estará logo aqui e poderei ter um aliado. Pode ir e resolver
seus assuntos com o coração tranquilo. Aqui, ele e eu, seremos
maioria.
Então Varian se aproximou dela, rodeou-a com os braços e a
apertou contra seu peito.
— Sinto muito, querida. Não imagina quanto o sinto. Mas
estarei de volta em seguida. No máximo em umas semanas. Não
mais.
Umas quantas semanas em Londres, rodeado de seus velhos
amigos, como aqueles ociosos que os trouxeram para a Inglaterra.
Todo o dia bebendo, rindo, apostando, vendo putas.
Esme fechou os olhos.
— Não será mais que uma curta separação — disse ele.
Ela acreditava que ele dizia de verdade, ao menos naquele
momento, e o presente era o único que importava a ele. Então,
essa noite; isso era só o que ela tinha. Logo ele partiria e tudo
poderia mudar. Ela não tinha vontade de queixar-se ou de brigar,
não nessa última noite, a última em que podia ser certamente dela.

382
Porque ela estava segura, nesse momento, inclinou-se para
trás em seus braços e elevou as mãos para tomar entre elas seu
formoso rosto.
— Me faça amor — disse ela. — Me faça isso para que encha o
vazio dessas poucas semanas… até que volte… e me faça o amor de
novo.

Ainda era noite quando Varian abandonou o dormitório. Esme


estava dormindo, com um sono profundo e tranquilo, sabia. Tinha
compartilhado sua cama em muitas ocasiões até agora, e tinha
despertado antes que ela várias vezes — olhando-a, escutando-a,
pensando. Ia partir enquanto ela dormia porque não poderia
suportar uma despedida. Haviam se dito adeus sem palavras na
noite anterior, durante aquelas emocionadas horas fazendo amor.
Então, ele se tinha embriagado com seu aroma e com seus suaves
gritos de paixão, e a tinha amado. Com paixão. Com emoção.
Desesperadamente. Queria recordá-la. Queria fazê-la arder dentro
de seu coração, não porque acreditasse que podia esquecê-la, mas
para poder levá-la consigo de alguma forma.
Desde a primeira noite que a havia tocado, não tinha sido
capaz de separar-se dela. Agora tinha que ir-se. E esse «ter»
significava que não se atrevia a despertá-la, nem tampouco se
atrevia a lhe dizer adeus. Se o fizesse, sua resolução iria embora…
e acabaria falhando com ela.
Na noite anterior ele tinha deixado tudo preparado em seu
dormitório, enquanto a donzela ajudava a Esme a arrumar-se para
meter-se na cama. Até escreveu-lhe uma nota.
Varian só tinha que vestir-se, pegar sua bolsa de viagem e

383
partir. E o fez sem olhar para trás.
Impaciente por livrar-se dele, lady Brentmor tinha avisado no
estábulo de que tivessem tudo preparado. Embora o sol logo
começasse a despontar, Varian se encontrou no estábulo com um
dos moços, já completamente acordado e preparado para acomodar
a sua excelência.
Menos de meia hora depois de ter abandonado o calor da cama
de sua esposa, Varian estava a caminho de Londres.

Capítulo 24

Varian tomou um atalho, rodeando Eden Green, para evitar


deliberadamente passar por seus luxuosos bares. Não tinha
vontade de ouvir fofocas locais, especialmente quando elas
certamente se refeririam a ele. A tarde começava a obscurecer-se
sob grossas nuvens cinza, e seu cavalo estava cansado. Os
estábulos do Mount Eden se achavam a quase duas milhas dali, e a
fazenda deserta lhe ofereceria toda a intimidade que necessitava.
Desgraçadamente, isso seria tudo.
Dirigiu-se ao descuidado atalho que rodeava o povoado e
acabava no caminho principal, a uma distância segura dos
subúrbios. Ao tomar uma curva, viu fumaça elevando-se das
chaminés da estalagem Black Bramble e suspirou com um gesto de
alívio. Ao contrário do Jolly Bear do Eden Green, o Bramble só
acostumava alojar aos viajantes. Naquele dia frio de inverno, a
milha que o separava dali estava vazia de carruagens, como tinha
esperado. Pouca gente viajaria em um dia como aquele, se pudesse
evitar.

384
Entretanto, quando deu seus arreios ao encarregado da
estrebaria, Varian pôde ver que o estábulo não estava
completamente vazio. Havia dois pangarés de olhar triste
mastigando desconsoladamente o feno de seus cochos.
Um pouco mais tarde, encontrou-se com os cavaleiros
proprietários daqueles cavalos na sala de jantar da estalagem.
Também estavam comendo, mas com grande entusiasmo.
Um deles era magro, de cabelo castanho, e falava excitado
entre bocado e bocado de bolo de carne. O outro falava menos, só
assentia com a cabeça de vez em quando e logo voltava a
concentrar-se em seu prato com grande dedicação. Era um tipo
corpulento, e seu cabelo castanho claro não estava tão bem talhado
como o de seu companheiro. Embora ambos estivessem de costas,
Varian os reconheceu em seguida.
No momento em que eles o ouviram entrar e olharam para
trás, Varian já se recuperava da surpresa.
Dois pares de olhos, um marrom e outro azul escuro se
arregalaram ao vê-lo. Varian cruzou a sala com calma e se
aproximou deles.
— Se for ficar com a boca aberta — disse ele, — ao menos
poderia engolir primeiro a comida. Como ficou tão mal educado?
O mais jovem dos dois, a quem Varian se dirigiu, levantou-se
de repente.
— É você, caramba! Pelos céus, vejo-o, eu disse a você Gideon,
não é verdade? Não estava dizendo que ao final o encontraríamos?
O tipo fez gesto de aproximar-se de Varian. Mas parou um
instante e ficou quieto, inseguro, olhando-o fixamente.
Gideon também se levantou, mas com mais dignidade,

385
deixando primeiro os talheres tranquilamente ao lado do prato.
— Senhor, me alegro de vê-lo —disse esticando uma mão. —
Bem-vindo a casa, milorde.
Por um instante uma névoa obscureceu os olhos de Varian,
mas piscou para afastá-la e no momento estreitou a mão de seu
irmão.
— Que sorte encontrá-lo, Gilly. — deu a volta e ofereceu a mão
ao Damon. — E também a você, Dervish.
Damon fez uma careta.
— Já vi que segue sendo o mesmo, verdade? — perguntou ele
ao Gideon. — Chega aqui caminhando tranquilamente e me recorda
que cuide de minhas maneiras, como se não nos tivéssemos visto a
quatro horas, em lugar de em quatro anos. Mas é verdade, não
tenho maneiras. Sente-se. Parece faminto. Não, aqui, ao lado do
fogo. Nós levamos horas nos esquentando. Tinha tudo preparado
para acender a chaminé no Mount Eden, mas Gideon ainda tem o
horário do campo e precisava jantar já, e como não estávamos
seguros de poder encontrar algo ali para comer, nem tínhamos
notícias suas… Embora agora me alegro de que seja como um
relógio, porque do contrário não o teríamos encontrado… —
Guardou silêncio. — Mas veio sozinho, onde está ela?
Enquanto Damon falava, Varian tinha tirado o casaco e se pôs
em guarda. Estava preparado para aquela pergunta antes que
Damon a nomeasse por «ela». Nesse momento a garçonete saiu
correndo, ofegante e amaldiçoando entre dentes. Enquanto voltava
a tomar fôlego, Varian lhe pediu o jantar. Quando ela saiu da sala
de jantar de novo, Varian voltou a dirigir-se ao Damon.
— Onde está quem?

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— Oh! Não tire o sarro, Varian. Sabemos que…
— Damon se refere a lady Edenmont — interrompeu Gideon,
lançando um olhar de advertência a seu irmão menor. — Ao menos
nos disseram que existia alguém chamado assim.
— Já vi — disse Varian. — Lackliffe e Sellowby chegaram
diretamente a Londres, acertei?
— Disseram-me que nem sequer tiveram tempo de trocar de
roupa, e que foram correndo ao clube Brook. Ao cabo de duas
horas, a notícia já tinha chegado de um extremo ao outro da
cidade. Naquela mesma noite foi o tema de conversação do
Almack's, e no dia seguinte chamaram o Carlton House para
satisfazer a curiosidade de sua alteza.
— Perdoa, Gilly. Tenho a mente posta em outras coisas, pensei
que já tinha avisado você. Lamento colocá-lo em uma situação tão
incômoda.
— Oh! Gideon não foi o único surpreso — disse Damon. — Ele
deu uma de suas explicações, e ao final, a sua majestade já não
importou saber nem em que dia estava. Chamou a seu médico e
pediu que lhe fizesse uma sangria. Mas voltou, Varian, de maneira
que uma parte desse conto parece ser certa. Não é que duvidasse
deles, o que acontece é que o resto do que nos explicaram era
bastante difícil de engolir. Mas nos vai contar tudo, não é assim?
Temos ao menos uma cunhada? E tem realmente o cabelo
vermelho? E são seus olhos tão verdes como os descrevia Lackliffe?
— Seus olhos — disse Varian — são bastante… verdes.
— Já vejo — disse Gideon.
Com muita delicadeza alinhou as mangas de seu abrigo, e logo
se entreteve um bom momento em dobrar o guardanapo.

387
Damon voltou a sentar-se em sua cadeira, com seu profundo
olhar de olhos azuis cravado no rosto de seu irmão mais velho.
— De maneira que suas atividades estão agora fora de
Londres, foi o que ouvi — disse Varian quando o silêncio já
começava a fazer-se insuportável. — Não pensarão que deveria ter
trazido lady Edenmont às ancestrais… ruínas.
— Não é o que estava pensando — respondeu Gideon. —
Somente expressava em voz alta a preocupação que Damon teve
durante todo esse tempo, percorrendo todo o reino em busca de
seu irmão, como se fosse o Santo Graal.
Damon se ruborizou.
— Encontramo-lo, não é assim? Caramba, Varian, não queria
ser indiscreto, mas onde demônios está ela?
— Com sua avó. — Varian sentiu uma pressão no peito seguida
por uma aguda pontada de dor. Fixou-se em uma mancha de
molho que havia no lado do prato de Damon. — Não deixem que
esfrie o jantar por mim, cavalheiros. Contarei tudo assim que
retorne a garçonete com o vinho.

Os dois acompanharam a Varian ao Mount Eden na manhã


seguinte, apesar de suas sérias objeções. Acreditou que lhes tinha
explicado bem seu relato, com o tom adequado de fria e
desapegada diversão. Mas ao final de sua história, ambos ficaram
olhando muito sérios, e pôde vislumbrar nos olhos do Damon algo
que se parecia horrivelmente à compaixão.
De qualquer modo, Damon era jovem e excessivamente
romântico, e toda a vida tinha idealizado o seu irmão mais velho;
só o céu podia saber por que. Os sentimentos do Gideon não eram

388
tão descarados. Sempre tinha sido o mais moderado. Tranquilo, às
vezes dissimulado, mas sempre pensativo, discreto… e calmo.
Entretanto, seus sentimentos eram bastante diáfanos para
Varian. Ambos pensavam que não seria capaz de voltar para o
Mount Eden sem o apoio moral deles dois, e aquilo era
insuportável: encontrar a seus irmãos tão decididos a lhe dar apóio
no que acreditavam que era para ele um momento de
necessidade… quando ele nunca tinha dedicado a suas
necessidades, ou a seus problemas, nenhuma só vez, mais de um
minuto para pensar neles.
Nesse momento se encontravam no que em outro tempo tinha
sido uma suntuosa biblioteca.
Não havia nem um livro, nem sequer um jornal. As paredes
estavam totalmente nuas e o chão tinha uma boa capa de pó,
escombros e excrementos de ratos.
Era uma casa velha que necessitava constantes reparos. O pai
de Varian tinha sido consciencioso em seu cuidado como em todo o
resto, até que Varian tinha começado a meter-se em problemas. E
esses problemas se converteram muito em breve em centenas de
milhares em dívidas. Embora a família tivesse muitos recursos,
estes não eram ilimitados. Para resgatar o seu herdeiro, o anterior
lorde Edenmont teve que deixar que a casa se convertesse em uma
ruína. Depois de sua morte, Varian tinha abandonado a fazenda por
completo.
O que agora tinha ante os olhos era o resultado dos últimos
dez anos de descuido, tudo por culpa dele.
— Há algo pelo que agradecer — disse Varian enquanto olhava
para cima. — Ao menos poderei pôr um teto sobre a cabeça de

389
minha esposa.
— Os mordomos são um bando de egoístas — disse Gideon. —
Estou seguro de que insistirão no salário. E não parece certo, tendo
em conta que ninguém cuidou do lugar durante os últimos dez
anos. A verdade é que está realmente sujo, e terá que voltar a
pintar as paredes. Entretanto não acredito que a casa esteja em tão
mal estado como parece com uma simples vista.
— Certamente, não. Só o que faz falta é dinheiro, e o pessoal
necessário, e muito mais dinheiro — disse Varian aproximando-se
da chaminé. Dentro havia partes de argamassa. — Me parece que
esta chaminé está a ponto de cair.
— Terá que ter em conta as leis da gravidade.
— Melhor seria que falássemos com os arrendatários — disse
Varian olhando ainda os fragmentos da chaminé. — Para seu bem,
não os visitei ainda. Se me apedrejassem até a morte, vocês
herdariam, pobres amigos, e sei que não estariam muito longe de
que acabassem empenhando.
— Oh! Gideon tinha medo de que o tivessem matado. —
Damon estava de pé junto às portas da terraço, e sua voz
ressonava nas habitações vazias. — Está tão contente de que por
fim tenha assentado a cabeça que apostaria que é capaz de
reconstruir toda a fazenda para você, sem ajuda de ninguém…,
começando pelo quarto dos meninos.
Varian sentiu de novo aquela cruel opressão no peito e uma
pontada de dor.
— Me perdoe — disse.
Ficaram olhando enquanto saía, mas não disseram nada nem
trataram de detê-lo. Varian não ouviu mais ruído senão de suas

390
próprias pegadas enquanto saía da biblioteca e subia pelas escadas.
Não pôde ver nem os degraus nem os corrimões, de tão cobertos
que estavam de pó e teia de aranhas. Não ouviu nada mais que o
som de pequenas criaturas selvagens que fugiam apavoradas ao
som de passos humanos. Varian não sabia nada do que lhe rondava
pela cabeça, até que abriu a porta que andava procurando e ouviu
como chiava lastimosamente. Então ficou de pé na soleira, olhando
para o quarto dos meninos.
E naquele momento ele viu tudo claro. Apoiou-se contra o
batente da porta.
«Não me diga que a pobre garota já está grávida.»
— Que Deus me perdoe — suspirou ele. — Oh, Esme, o que fiz
a você?
«… meninos. Se Deus for generoso…»
Fechou os olhos ante a dor que o embargava. Não fazia nem
três dias que se afastou dela e já se sentia perdido, doente de
solidão, mas isso não era tudo. Não podia culpar a ninguém por
isso. Durante os últimos dez anos tinha estado semeando e
preparando esses três dias. Agora, ao menos, quando tinha
aprendido a amar, quando queria cuidar e amar a uma valente e
formosa moça, e lhe dar os filhos que amariam e que cuidariam
juntos… agora, o diabo ria dele e exigia que pagasse sua dívida.
Agora lorde Edenmont entendia que o fogo e o enxofre não eram o
pior, nem sequer a morte. O inferno era o arrependimento.
E isso chegaria amanhã.
Varian ocultou o rosto entre as mãos e ficou a chorar.

A habitação a que lady Brentmor chamava «a casa de

391
contas» tinha sido, originalmente, o escritório do dono da casa.
Entretanto, todo mundo sabia que seu defunto marido nunca tinha
sido dono de nada. Sua esposa era quem administrava a fortuna
dos Brentmor. Foi ela que apoiou a seu marido, e que o converteu
de um homem de negócios medíocre em um homem de negócios
com título.
Imediatamente depois de sua morte, qualquer sinal de seu
marido desapareceu da casa. A viúva guardou no sótão todos seus
cacarecos masculinos, pintou as paredes do escritório de uma cor
marrom sinistro e logo as cobriu com cortinas grosas até os
batentes das janelas. O mobiliário que tinha nesse momento
compreendia umas quantas cadeiras que sobraram e uma ampla e
maciça escrivaninha, depois da qual se sentava ela, intimidando a
banqueiros, investidores e advogados de todo tipo, enquanto sem
ajuda de ninguém dirigia seu formidável império financeiro.
A essa habitação se levou a seus netos quatro dias depois de
que se partiu lorde Edenmont, e apenas dez minutos depois da
chegada do Percival.
Percival e Esme estavam sentados em duas cadeiras que
pareciam de pedra, de duras que eram, esperando que lady
Brentmor acabasse de dar uma olhada à carta que o tutor do
Percival tinha enviado junto com o moço.
— Uma explosão. — Ela olhou por cima das folhas da carta. —
Quem pensa que é… o conspirador Guy Fawkes?
— Não, avó — respondeu Percival docilmente.
— Diz que explodiu o galinheiro. Suponho que é muito desejar
que as galinhas não estivessem dentro.
— Temo que sim estavam no galinheiro.

392
— Isso vai me custar muito, moço. Sempre me custa dinheiro.
— Estavam doentes, avó. — Os olhos verdes de Percival
brilharam com indignação. — Um dos meninos me disse que por
isso nos davam sempre sopa de frango. Não punham ovos,
garanto-lhe. Em todas as semanas que estive ali nunca vi nem um
ovo. Mas sim uma boa quantidade de sopa, com um aroma do mais
desagradável.
— Maldito seja, ainda por cima tenho que pagar essas galinhas
doentes. — Dirigiu ao Percival um olhar fulminante. — Está seguro
de que estavam doentes?
— Oh, sim avó! — disse Percival com o rosto iluminado. —
Dessequei uma e trouxe o intestino em um pote. Eu posso trazer-
lhe se quer examiná-lo você mesma.
— Não, obrigada. — Olhou-o pensativamente. — Eu gostaria de
saber o que vou fazer com você. Seu pai me disse que pensava
mandá-lo para um internato na Índia no instante em que voltasse a
se colocar em uma de suas confusões.
Esme segurou a seu primo pela mão e ficou olhando a sua
avó.
— Não deveria fazer uma coisa assim — disse ela. — Se as
galinhas estavam doentes, então o que deveriam mandar a
Bombay é o diretor da escola. Envenenar a uns meninos com
animais doentes… Por Alah! Teriam que ter envenenado eles
mesmos.
— Acredito que não te perguntei nada, verdade? — disse lady
Brentmor. — E procura cuidar de sua linguagem, por favor.
— Por Alah só significa «meu Deus», avó — comentou Percival.
— Então, por que não diz o que significa?

393
— Eu disse bastante claro — falou Esme enfrentando o olhar
de sua avó com ferocidade. — Não deveria mandá-lo para longe.
Deus sabe que uma ameaça desse tipo é uma monstruosidade
injusta, inclusive embora não o faça. Mas parece que você quer
assustar ainda mais ao menino, como se não tivesse sofrido já
bastante.
— Sei perfeitamente o que sofreu e o que tem feito. E vou
deixar claro agora mesmo que não quero mais problemas aqui. Não
quero meninos colocando os narizes nos assuntos dos mais velhos.
Sobre a mesa, a sua direita, havia uma pequena caixa. Ela o
abriu, agarrou um objeto que havia dentro e o colocou sobre a
escrivaninha. Era uma peça de xadrez. Uma rainha, para ser exato.
— Oh, céus! — exclamou Percival.
— Suponho que sabe o que é isso — disse a anciã a Esme.
— Tinha visto peças de xadrez antes. Não é um jogo
desconhecido em meu país — disse Esme enquanto lançava um
olhar ao Percival.
— Não trate de protegê-lo. Não preciso de um adivinho para
descobrir o que aconteceu aqui. — Lady Brentmor lançou a seu
neto um olhar ameaçador. — O dia que veio com seu pai, escondeu
sua mochila de pedras em seu dormitório, o que foi uma tolice. É
que não sabe que sempre revistamos todas as suas coisas? Sempre
vai deixando cadáveres em seu caminho. A última vez foi um réptil.
Na anterior, um roedor. Já faz tempo que lhe dissemos que não
pusesse suas criaturas nessa casa, mas nunca faz caso de nada.
— Sim, avó, lamento-o terrivelmente.
— Não me importa que o lamente. Já sei o que tem feito.
Roubou essa peça de xadrez. Pensava que seu pai ofereceria uma

394
recompensa, não é assim? E a utilizou para empurrar lorde
Edenmont a Albânia. Muito inteligente, Percival. Agora sua prima se
casou com esse canalha, e tudo por sua culpa.
— Varian não é um canalha! — gritou-lhe Esme. — E meu
primo não tem culpa de nada. Ele me trouxe para Varian e eu
agradeço, e agradecerei o resto de minha vida.
— Você ainda não viveu nem um quarto de sua vida, menina.
Apostaria que chegará um dia, não muito longínquo, em que tenha
que engolir essas palavras. E não será fácil fazê-lo. Deixou-a com
pouco mais que um «fique bem», não é assim?
— Deixou-me uma nota. Uma nota muito amável. Você não
entende absolutamente.
— Sei reconhecer um mau negócio assim que o vejo, e sei mais
coisas dele do que queria saber. — Seus olhos se entreabriram até
converter-se em duas frestas e a anciã se inclinou para frente. —
Tem dívidas desde os dezoito anos, e seu pai se viu obrigado a tirá-
lo sempre de apuros com sua fortuna. Mas quando Edenmont
herdou o título, já tinha dilapidado a metade da fortuna familiar.
Em menos de cinco anos conseguiu acabar com o resto.
— Já sei que Varian é extravagante — disse Esme, que já não
queria ouvir nada mais.
— Deixou que sua fazenda caísse em pedaços — seguiu
dizendo lady Brentmor. — Converteu em indigentes os seus dois
irmãos. Em poucos anos destruiu o que havia levado várias
gerações para construir. Graças a um pai de coração mole, nunca
teve que enfrentar às consequências de suas más ações, e por isso
jamais aprendeu a pensar nelas. Nunca se preocupou com ninguém
mais que com si mesmo. De modo que pode ir para o inferno. E me

395
parece que isso seria bastante justo; bastaria que não arrastasse
consigo os seus familiares.
Esme se inclinou para trás como se sua avó acabasse de dar
uma bofetada. Estava pensando em Varian como um amante
prazenteiro e sem um centavo. Fracassado. Terrivelmente
fracassado. Amava-o, mas não estava cega. Entretanto, nunca lhe
tinha ocorrido pensar no dano que ele tinha feito a outras pessoas.
Sem intenção de fazê-lo, de acordo, mas isso só demonstrava quão
irrefletido era. Nos olhos de sua avó podia ver a acusação: Varian
não era só um libertino e um esbanjador, mas também um homem
destrutivo. Por isso tinha deixado a Esme ali: para protegê-la a dele
mesmo.
A anciã a estava olhando fixamente. Esme se endireitou em sua
cadeira, mas não disse nada. Não sabia o que podia dizer.
— Suponho que crê que fui muito dura com ele, da mesma
forma que pensa que fui muito dura com seu pai. Também Percival
o pensa, não é assim, professor Ignoramus?
— Bom…, sim… Mas bem… assim é.
— Porque não sabem de nada. Porque não são mais que dois
meninos ignorantes. — ficou olhando a Esme com o cenho franzido.
— O caminho que tomou Edenmont é o mesmo que vi tomar a seu
pai. Muitos homens vão por esse caminho, e arrastam com eles a
suas famílias. Eu poderia ter solucionado as confusões de seu pai
facilmente, e até poderia agora tirar o Edenmont de seus
problemas, embora eles sejam bastante mais complicados. Mas não
penso fazer por ele o que não fiz nem por meu próprio filho. Não
penso mover um dedo, porque isso só o ajudaria a que acabasse
deixando a todos na miséria.

396
— Mas avó… — começou a dizer Percival.
— Ele sozinho se meteu nesses problemas, que saia sozinho
deles — disse lady Brentmor com amargura. — Se lhe importa
Esme tanto como diz, e se é que fica algo de respeito por si
mesmo, ao menos ele tentará. — Quando se voltou para Esme, seu
semblante sério se relaxou um pouco. — Mas devo dizer sincera e
claramente uma coisa: eu não acredito que vá consegui-lo. De
modo que me parece que é melhor que vá se acostumando com
isso.
— Quer dizer que não vai retornar — disse Esme, e logo
apertou as mãos. — Não sentiria saudades. Aqui não é bem-vindo e
não pode me levar com ele. Não sou mais que um estorvo. Não
posso fazer nada por ele.
Ela ficou olhando fixamente a sua avó e continuou falando:
— Entendo suas razões, avó. Mas de qualquer maneira, ele me
salvou a vida, mais de uma vez. Não é uma pessoa malvada.
Comigo tentou ser amável, a sua maneira. Muitas vezes me
advertiu contra ele. Não vou tentar fazê-la mudar de opinião, mas
sim lhe pediria que refletisse sobre essas coisas. Já que não posso
fazer outra coisa, ao menos rezarei por ele.
Percival, que não tinha deixado de mover-se em sua cadeira
enquanto as duas mulheres falavam, lançou a sua avó um olhar
inquieto.
— Mas avó, tem que lhe dar o dote.
— Não me diga o que é que tenho que fazer. Não recebo
ordens de meninos ignorantes.
Esme suspirou.
— Oh, primo! Não aborreça à avó. Parece-me que ela fará o

397
que acredita que é o melhor. Não haverá nada para Varian.
Esme ficou de pé.
— Mas sim que há. Mamãe deixou-lhe o jogo de xadrez como
dote. E é um objeto muito valioso. Pelo menos vale cinco mil libras.
Ou pode ser o dobro, se encontrar o comprador adequado.
— Cinco mil libras? — repetiu Esme. — Meu dote?
Sua avó ficou rígida.
— Quer dizer que não sabia?
— Sinto muito — disse Percival a Esme, — mas tinha medo de
lhe dizer isso se por acaso papai…
A anciã lançou uma maldição que chegou até o fundo da sala e
logo se recostou com cansaço em sua cadeira.
— Que o demônio me leve por ser tão tola. Fala-me com essa
voz tão séria, e não tinha nem ideia de nada. E agora estamos
metidos nesta confusão, e tudo é por minha culpa.

— Doze mil libras — repetiu Varian.


Tinha estado estudando o documento que seu advogado lhe
tinha dado. Embora de fato sua excelência não fosse capaz de ver
nada mais nele que manchas de tinta.
— Mas suponho que você conhecia o testamento de sua tia
avó, milorde. Mandei-lhe uma carta enquanto estava na Espanha.
— O senhor Willoughby tomou outra folha de papel. — Aqui tenho
sua resposta. Em que me indicava…
— Recordo-o. Mas havia uma data limite, não é assim? Doze
mil libras, se me casasse antes de… quanto era? Três anos? Estou
seguro de que já passou o prazo.
— Três anos a partir da data de sua morte. Ela nos deixou em

398
dezembro de 1815. E você se casou em novembro passado,
conforme vejo nesses documentos que, tudo o que está escrito está
perfeitamente em ordem. — O senhor Willoughby esboçou um
ligeiro sorriso. — Quer dizer, que agora mesmo você possui doze
mil libras.
— Isso depende de como se olhe — disse Varian deixando na
mesa a cópia do testamento. — A quanto chagam minhas dívidas?
— Não poderia lhe dar uma cifra exata nesse momento. Além
disso, com os interesses, e depois da quebra do banco Portier e
outros custos variáveis pelo estilo…
— Poderia me dar uma cifra aproximada — insistiu Varian com
o coração saindo do peito.
— Ao redor das doze mil libras, milorde.
Varian sentiu parar por um segundo os batimentos do coração,
como se lhe acabasse de cair em cima um enorme peso, e ao
momento começou a pulsar de novo, lentamente como um repique
de sinos em um funeral.
— Que curiosa coincidência — murmurou Varian.
— Lamento-o, senhor. De toda formas, poderia ter sido pior.
Como já expliquei, a fazenda não está em perigo.
— Estive visitando recentemente as… ruínas. Suponho que a
razão pela qual não está em perigo é que nenhum credor estaria
tão louco para querer essa fazenda.
— Pode ser que não. Mesmo assim, estou orgulhoso de ter
posto os obstáculos suficientes para desanimar até aos mais
arriscados especuladores.
— Eu agradeço, senhor Willoughby. — Varian olhou pela
imunda janela. — Suponho que acredita que deveria utilizar esses

399
ganhos para pagar minhas dívidas.
— Sim, isso eu recomendaria.
O senhor Willoughby alinhou cuidadosamente uma pilha de
documentos e os moveu um pouco para sua esquerda.
— Isso me deixaria sem nada.
O advogado limpou a garganta.
— Podemos conseguir preservar uma pequena soma. Como já
lhe disse, necessito um pouco de tempo, umas semanas, para
determinar a soma exata. Entretanto, se você deve doze mil libras,
posso conseguir que sua dívida fique satisfeita com onze mil, ou
inclusive com dez. Geralmente, os credores não estão acostumados
a gostar desse tipo de acordos, já que assim se impede qualquer
ação para recuperar o resto da dívida. Mas, por outra parte, as
ações legais são muito custosas e, quando se exercem contra
membros da nobreza, frequentemente costumam ser
excessivamente longas.
— Os credores descontentes também podem fazer sua vida
excessivamente desagradável — disse Varian. — Não desejaria que
incomodassem a minha esposa.
— É obvio que não, milorde. Entendo-o perfeitamente. Por isso
aconselho que desembarace o horizonte, para dizê-lo de algum
modo. E eu posso tentar que conserve uma pequena soma. Com
isso, e com o dote de sua senhora esposa…
— Minha esposa não tem dote.
O senhor Willoughby piscou.
— Não tem? Isso é muito estranho. Eu tinha entendido que…
— Nada — lhe repetiu Varian com firmeza. — Nem um centavo.
— Se você diz, milorde. Mesmo assim, se não for

400
inconveniente, eu gostaria de pôr em marcha certas investigações.
— Não aprovaria que o fizesse, especialmente se estas incluem
que se interrogue a sua família. Não gostam absolutamente.
Mesmo se seu pai tivesse podido deixar algo a ela, o que é muito
improvável, eles teriam se assegurado de que não possa chegar
nem a vê-lo. — Varian deu de ombros. — Em qualquer caso, não
pode culpá-los por isso.
— Mas se houver algo que lhe pertença…
— Algo que pudesse me pertencer possivelmente não poderia
consegui-la. Pretende que eu gaste o pouco que fica nos tribunais?
Preferiria investi-lo nas mesas de jogo; ao menos ali tem uma
possibilidade de dobrar os lucros. Ou de triplicar. — Varian franziu o
sobrecenho.
O senhor Willoughby reprimiu um leve suspiro e não disse
nada.
— Não poderei restaurar Mount Eden se pagar os meus
credores — disse Varian friamente. — Tenho que ficar com algo,
senhor Willoughby.
— Entendo-o, milorde. De qualquer modo, acredito que posso
preservar até mil libras.
— Eu posso converter doze mil em vinte e quatro mil esta
mesma noite.
Willoughby não disse nada. Seu rosto tinha perdido a cor nos
últimos minutos, e a expressão de seus olhos se escureceu. Parecia
uma década mais velho que o quarentão que tinha saudado Varian
só um momento antes.
Varian ficou de pé.
— Se não ter nada mais que me dizer, será melhor que eu me

401
vá.
— Sim, milorde. Suponho que quererá um adiantamento do
dinheiro, considerando que a papelada levará um pouco de tempo.
Serão suficientes umas cem libras, no momento?

Capítulo 25

Depois de abandonar o escritório de seu advogado, Varian se


dirigiu sem pressa para Oxford Street. A essa hora da manhã não
se arriscava muito a cruzar-se com algum de seus conhecidos.
Olhando os punhos puídos de sua camisa, pensou que, de qualquer
modo, seria difícil que seus amigos o reconhecessem.
Entretanto, seu aspecto poderia melhorar rapidamente, agora
que tinha umas quantas libras no bolso. Um de seus alfaiates
favoritos certamente teria à mão algo que lhe oferecer. Com uns
quantos acertos, lorde Edenmont podia estar apresentável para a
noite. Levaria o jantar a seus irmãos, e logo possivelmente
poderiam dar uma volta pelo clube Brook. Depois jogaria uma ou
duas mãos de cartas, só para assegurar-se de que não tinha
perdido suas boas habilidades.
Com a mente posta em seus planos para transformar aquele
dinheiro caído do céu em uma fortuna, Varian dobrou uma esquina
e se deteve em seco.
Uma elegante janela de arco dava sobre a calçada. Atrás dela
havia uma série de deliciosos manequins vestidos à última moda. O
manequim de uma dama miúda, com um traje de passeio, chamou
sua atenção. Suas anáguas brancas de musselina se sobressaíam
quatro voltas por debaixo do vestido. Por cima vestia um traje

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longo finamente bordado. Um ajustado colete de cor verde rodeava
a parte superior do busto. Um chapéu verde combinando e um
chapéu de plumas completavam o conjunto. Aquele verde era
muito parecido com a cor dos olhos de Esme.
Enquanto observava os demais manequins, Varian pôde
imaginar facilmente a Esme vestida com um suntuoso traje de
baile, e girando aos compassos de uma valsa. Também imaginou
uma elegante carruagem com assentos forrados de veludo verde, e
a sua esposa sentada em seu interior, sorrindo enquanto
avançavam pelos Campos Elíseos. Paris. Poderiam partir para longe
e viver como reis com sua herança. Talvez por uns cinco anos.
Logo que tinha fechado os olhos para desfrutar daquela visão
maravilhosa, quando ela se converteu em números: doze mil libras
por ano, mil ao mês. Podia gastar isso mesmo em uns minutos
jogando no vermelho e no negro. Mas não, duplicaria os lucros,
triplicaria. Não obstante, sua mente só oferecia a visão de um
pequeno montão de moedas e várias notas promissórias
amontoadas sobre uma mesa verde de jogos. Enquanto isso, sua
cabeça não deixava de imaginar a típica cena da sorte nas cartas…
— Tenho que ter algo — murmurou enquanto abria de novo os
olhos.
«… meninos. Se Deus for generoso…»
Hoje doze mil libras. Mas e amanhã?
Enquanto voltava a olhar de novo o manequim com o traje
verde, a expressão do rosto de Varian se tranquilizou.
Entrou na loja e pediu à costureira uma parte de papel e um
lápis. Seu semblante indolentemente sensual fez o resto.
Varian só precisava sorrir o que fez, com bastante

403
acanhamento para que a proprietária queimasse a loja se ele
pedisse. Sem dizer uma palavra ela trouxe as roupas que ele
queria. Depois ficou ali de pé, com as mãos cobrindo
inconscientemente o pulso acelerado de seu pescoço, e ficou
olhando o rosto em uma espécie de delírio, enquanto ele escrevia.
Não demorou mais de um minuto. Varian dobrou a nota e
deixou uma moeda no mostrador, ao lado do lápis.
— Eu agradeço muito — disse ele. — É que não podia esperar,
você sabe?
— Não, claro, milorde, é obvio — disse ela quase sem fôlego. —
A costureira já estava disposta a levar em pessoa a mensagem —
até a China se fosse necessário, — quando reuniu um pouco de
dignidade e enviou em seu lugar a uma de suas ajudantes.
A nota estava em mãos do senhor Willoughby ao cabo de
quinze minutos.
«pague-lhe», dizia a nota seca. E debaixo tinha assinado com
um enorme e apressado «E».

Lady Brentmor voltou a abrir o exemplar do Ackermann's


Repository que Esme acabava de fechar de repente.
— Se não quer escolher você os trajes, escolherei por você —
disse a anciã.
— Não quero vestidos — balbuciou Esme. — Quero meu dote.
— Por Deus, é tão obstinada como seu pai, e tem a metade de
seu cérebro. Como no nome de todo o mais divino pôde criar a tal
cabeça dura?
Lady Brentmor se levantou do sofá e ficou a caminhar furiosa
pela sala. Logo se aproximou de novo a sua neta.

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— Pela enésima vez, não vai receber nenhuma dote. Não, ao
menos até que eu o diga.
— Então, mandarei uma carta ao Times — disse Esme. —
Contarei ao mundo o que tem feito.
— Ao Times? Ao Times? — chiou a anciã.
— Sim, e também a outros periódicos. E além disso, levantarei
no domingo na igreja e contarei a todo mundo que meu marido
teve que partir porque minha família não quer cumprir o contrato
de matrimônio.
Lady Brentmor abriu a boca, mas em seguida voltou a fechar.
Sentou-se de novo e ficou olhando a sua neta.
Esme estava sentada, muito rígida, com as mãos entrelaçadas
e os lábios formando uma teimosa linha reta.
Houve um longo silencio.
Então a anciã pôs-se a rir a gargalhadas.
— É a peste! Levantar-se em meio da congregação da igreja,
seria capaz? Uma carta ao Times? Por minha honra que esta sim
que é boa. Percival não terá ajudado a pensar nessas coisas?
— Ele me sugeriu o periódico, mas anunciá-lo na igreja foi
coisa minha — admitiu ela friamente.
— Pareceu-me ontem que tinha recebido tudo com muita
calma. Maldita seja! É realmente teimosa. Disse-lhe que não
poderia tirar nada de você. Edenmont não vai vir correndo para
buscá-la. Não pode comprar sua companhia, menina. Gastará tudo
o que consiga em jogos, licores e fulanas.
Aquelas palavras calaram fundo, mas Esme respondeu
secamente:
— Como gastá-lo é decisão de Varian. Se não quiser vir me

405
buscar, eu não posso obrigá-lo. Não lhe pedi que ficasse comigo e
não vou fazê-lo. Eu não contribuí em nada com meu matrimônio.
Ao menos agora tenho um dote e posso manter a cabeça bem alta.
Minha honra exige que o pague.
— Por todos os demônios! Fala igual a um homem! — Lady
Brentmor voltou a saltar de seu assento. — Muito bem, minha
honorável senhora, se pretende dirigir a todo mundo e acredita que
sabe mais que os mais velhos. — A seguir se aproximou da porta
da livraria. — Vêem comigo à casa de contas, e mostrarei a caixa
de Pandora que pretende abrir.
Perplexa, mas ainda firme em sua decisão, Esme saiu atrás de
sua avó em direção ao sombrio escritório.
Uma vez ali, a anciã abriu uma gaveta da escrivaninha, tirou
dela um punhado de cartas e as pôs nas mãos de Esme. Logo se
sentou e esperou em silêncio, mas com o dedo indicador golpeando
com impaciência sobre a superfície da mesa.
Após uns minutos, Esme levantou a vista da inacabável lista de
contas e notas explicativas.
— Contratou um homem para que espiasse o meu tio?
— Contratei para que investigasse as contas de Gerald. Mas
teria gostado de ter um espião de verdade para saber o que fazia
Gerald com seus ganhos. — A anciã fez um gesto apontando as
cartas. — Me disse que tinha sofrido vários «reveses». Mas o que
demonstram essas contas é que está quase arruinado. Como,
pergunto, imagina que pôde acabar na bancarrota com esse tipo de
investimentos? Eu gostaria de sabê-lo. Essa é a razão pela qual
levo três anos investindo todos meus recursos.
— Eu não entendo dessas coisas — disse Esme. — Mas ouvi

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falar de especulações nas quais as pessoas perdem fortunas.
— Deve estar metido em algo pior que isso, ou teria admitido
que estava virtualmente na ruína.
Esme devolveu as cartas.
— Seu dinheiro é problema dele. Não vejo o que isso tem que
ver com meu dote.
— Oh! Não o vê? — A anciã voltou a guardar as cartas sob
chave. — Então, pensa menina.
Depois de ter dado a Esme exatamente três segundos para que
o fizesse, a anciã seguiu falando.
— Gerald necessita dinheiro desesperadamente. Mesmo sem
saber quão má é sua situação, eu não teria dado nada. Não até que
estivesse segura de que seus problemas financeiros não eram
causados pela sua própria estupidez. Eu não gosto de dar dinheiro
para causas perdidas, como parece que já começa a entender.
— Sim, avó, mas…
— O jogo de xadrez — disse lady Brentmor impaciente. — Um
montão de dinheiro. Se estiver completo. Por isso Percival tirou a
dama de seu pai. Afinal, o menino tem bastante senso comum.
Sabe que não se pode confiar no Gerald.
Isso não era difícil para Esme acreditar, no mínimo. Em Corfú,
seu tio não tinha sido só frio e insultante, mas tinha mentido a
respeito da avó. Toda aquela historia de tentar abrandá-la a
respeito do Jason e sobre a possibilidade de que deserdasse o
Percival… não era mais que um montão de mentiras.
— Gerald certamente conhece o legado de Diana, mas não
mencionou nada disso — continuou a anciã, — embora o jogo de
xadrez tenha muito menos valor com uma peça desaparecida. Isso

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me diz que não terá retrocedido em seu empenho de encontrar a
rainha que falta, e não vai deixar correr facilmente. Assim que
descobrir que nós a temos, começarão os problemas. Para
começar, estou segura de que tentará revogar o testamento de
Diana nos tribunais.
Esme franziu o sobrecenho.
— Ouvi que esses processos judiciais são muito caros. Também
Percival me disse algo de que no tribunal civil alguns processos
duram gerações. Como poderia meu tio…?
— Quando está quase sem dinheiro? Não é necessário que
chegue realmente aos tribunais. Basta que ameace fazê-lo. Ou que
gaste um pouco de dinheiro para iniciar os processos. E então, o
que é que vai fazer Edenmont, quando tem ainda menos dinheiro
que ele? Eu lhe direi. Chegar a um acordo com ele fora dos
tribunais por uma pequena soma. Ou se for o suficientemente
preparado para descobrir o farol do Gerald… — Lady Brentmor
sacudiu a cabeça.
— Não — disse Esme com firmeza. — Não me fale com
indiretas nem com inclinações de cabeça. A mim diga claramente o
que suspeita.
— Não viu muitas coisas entre os selvagens para imaginá-lo
por ti mesma? — Sua avó fez um gesto para os livros de contas que
havia na estante junto à mesa. — Segundo minha experiência,
qualquer negócio que não fique registrado por escrito num acordo
as claras é um negócio sujo. O que significa que nós estamos vendo
isso com gente suja. Se Gerald estiver metido nisso, e está
desesperado, pode descer ainda mais baixo.
Não era necessário muita imaginação para entender a indireta.

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Esme sentiu um calafrio.
— Está você falando de violência. Como contratar essa gente
suja para pôr Varian fora de… fora de circulação. Crê realmente que
meu tio seria capaz de fazer algo assim?
— Quando cheira mal, normalmente acabo encontrando algo
podre no fundo. Gerald cheira mal desde que retornou. Pior que o
normal. Agora já sabe tanto quanto eu. Pode pensar a respeito,
como estive fazendo desde o dia em que encontrei essa maldita
peça de xadrez.
Esme não precisava pensar muito. Tinha visto homens
malvados fazendo coisas piores, por luxúria, por avareza, até pelas
razões mais piedosas ou sem razão aparente. Tinham matado o seu
pai por sua culpa. Não podia permitir que outro vilão atentasse
contra ela ou contra seu marido.
Olhou a sua avó.
— Pode me dizer uma coisa?
— Depende do que seja.
— Acredita que o jogo de xadrez é meu com todo direito, por
ser meu dote, e que deveria entregar a meu marido?
— Que garota! — A anciã a olhou zangada e com o cenho
franzido. — Acredita que não tenho consciência absolutamente? É
obvio que é seu, ou desse canalha de cara bonita, se o preferir. Só
o que pretendo é que não tenha ilusões com ele. Eu gostaria que
fosse sensata, que me escutasse e me dissesse: «Sim, avó, o que
você crê que é melhor».
— Realmente sinto muito, avó.
O sobrecenho franzido da anciã se enrugou ainda mais.
— Não há razão para que uma jovenzinha se veja envolta

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nesses assuntos imundos. Não há razão para que saiba nada
dessas coisas. Você já tem suficientes problemas, com esse
depravado sem um centavo, farreando pelas esquinas de Londres.
Maldito seja esse filho que tive! Se não tivesse partido para fazer
com que o matassem nada disso teria acontecido. Se não estivesse
morto, eu mesma lhe retorceria o pescoço.
Esme se levantou e se dirigiu ao outro lado do escritório.
Agachou-se e deu um beijo na bochecha de sua avó.
Lady Brentmor abriu os olhos arregalando-os, e quando Esme
voltou a endireitar-se, pôde distinguir certo brilho neles. Lágrimas?
Mas sua avó soltou um bufado indignado e o brilho
desapareceu.
— Estou perdoada, entendo — disse ela.
— Sou eu quem tem que pedir perdão — disse Esme. — Para
dizer-lhe francamente, não queria dar a Varian um dinheiro que
poderia estar tentado a gastar com mulheres. Sou muito ciumenta,
e as mulheres podem me tirar do sério muito mais que a bebida ou
o jogo. Entretanto, sigo acreditando que era minha obrigação.
— Certo — concordou a contra gosto a anciã.
— Mas também devo ter um pouco de confiança nele. Ontem
lhe disse quão bom tinha sido comigo. E valente. Pode ser que você
também ache, embora não lhe preocupe o que pudesse fazer meu
tio. Mas já vejo que também lhe preocupa os problemas que possa
ter meu marido, e por isso queria me manter afastada disso. Não
estou convencida de que tenha razão em tudo, mas também devo
confiar em você.
Dito isto, Esme ficou olhando.
— Quer dizer que manterá a boca fechada a respeito de seu

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maldito dote? E que deixará de me aporrinhar?
— De momento sim, porque acredita que é possível que meu
tio faça mal a Varian. De qualquer modo, e embora você seja muito
inteligente, eu não sou uma descerebrada. Já pensaremos em algo.
— Sim, pensaremos — disse a anciã soltando outro bufado.
— Sim. As duas. Enquanto isso, deixarei de aborrecer e
escolherei os vestidos, se isso for deixá-la contente. Também eu
gostaria de ter aulas de dança, e algo que acredite possa ser de
ajuda para fazer de mim uma dama.
Esme ficou direita e se afastou do escritório.
— Se Variam… Quando ele retornar, não quero que tenha
motivo algum para sentir-se envergonhado de mim. E se… Quando
tiver solucionado seus problemas, poderá ter uma verdadeira
baronesa a seu lado.

Lorde Edenmont entrou na desvencilhada cabana e olhou com


receio a seu redor. Tinha saído de Londres no dia seguinte ao envio
da breve nota ao senhor Willoughby. Tinha estado cinco dias em
Mount Eden, e essa era a primeira casa de camponeses em que se
atreveu a entrar.
Estava arrumada, embora fosse bastante pobre, e nela havia
seis meninos que tinham dos dois aos treze anos de idade. Os
pequenos estavam de pé, ao lado da evidentemente grávida mãe, e
o olhavam com uma expressão de assombro.
— Outra vez grávida, Annie — disse Gideon ao retornar de
inspecionar a chaminé. — A chaminé e o telhado estão vindo
abaixo.
A mulher se ruborizou.

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— John não teve tempo de arrumar o telhado, milorde. Tem
que trabalhar lá onde pode, e este mês esteve em Aylesbury.
Varian conteve um suspiro. John Gillis era um dos muitos que
se viram obrigados a abandonar a terra que seus pais tinham
trabalhado durante gerações.
Enquanto Varian pensou como responder, viu que Annie dava
uma cotovelada no seu filho mais velho; um menino desengonçado
e com o cabelo esticado. Como o menino não reagia, sussurrou
algo. O menino saiu correndo da habitação.
— Enfim… — Varian olhou incômodo a seu irmão. — Bom,
Annie, aqui não há muito mais que fazer que os trabalhos da
granja. Eu não posso… — Se calou quando o menino desengonçado
voltou a entrar trazendo uma jarra de barro.
Quando o moço a deu a sua mãe, deu de ombros, mas se virou
para trás e voltou para a posição em que estava antes, sem dizer
uma palavra.
Annie esvaziou o conteúdo da jarra em suas mãos.
— Aqui está tudo — disse ela. — Cada um dos pagamentos dos
últimos cinco anos de aluguel. Ninguém nunca veio cobrá-lo, e não
havia ninguém na casa grande para dar. De maneira que fomos
guardando.
— O aluguel? — repetiu Varian paralisado. — Cinco anos?
— Sim.
Ela aproximou o dinheiro, um pesado montão de moedas.
Entretanto, a julgar pela tristeza do rosto do maior de seus filhos,
certamente o que estava oferecendo era uma fortuna para eles.
Assim era, pensou Varian. Para eles. Tomá-lo seria uma
infâmia, mas rechaçá-lo seria um insulto, era uma mulher

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orgulhosa. Ela e John não teriam economizando aquele dinheiro se
não fossem. Varian pensou depressa.
Aceitou as moedas e agradeceu.
— É obvio, este dinheiro será adequadamente investido na
fazenda.
— Sim, milorde.
— O que neste momento significa que terá que investir em
pessoal. A terra de lavoura está sem trabalhar. Se os homens
tiverem que sair fora para procurar trabalho, não podem cultivar.
Temos que convencê-los para que retornem, e devemos fazer com
que as terras rendam para que fiquem. Acredito que a maneira
mais inteligente de investir meus lucros é essa. Não está de acordo,
Gideon?
— Muito inteligente — foi a impassível resposta de seu irmão.
— Então, está arrumado.
Varian contou as moedas com cuidado e as deu todas, exceto
um xelim, outra vez à perplexa senhora Gillis.
— Isto é um adiantamento do salário do John — disse ele. —
Para que comece de novo a trabalhar em minhas terras. Quando
retornar poderá ficar em contato com o Gideon, quem cuidará dos
detalhes práticos e preparará os contratos por escrito.
Gideon assentiu com a cabeça, serenamente, como se ele
estivesse preparado, em todo momento, para oferecer qualquer
tipo de informação de quanto existe sob o sol.
Annie ficou olhando as moedas que tinha na mão.
Varian dirigiu sua atenção ao menino desengonçado.
— Parece-me que você é bastante maior e forte para trabalhar.
Annie afastou a vista do dinheiro.

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— Oh, sim, milorde! — disse ela com ilusão. — É o homem da
casa quando John esta fora. Faz o que ordenar o amo, Bertie…
Albert. Faça-o e rápido, venha. E também sabe ler e escrever —
acrescentou a mãe com orgulho. — Eu ensino, ensinei-lhe.
Varian recordou que sua mãe tinha investido uma boa
quantidade de tempo para que as pessoas da localidade tivesse
estudos. Insistia em que se devia educar os dois sexos, apesar da
forte oposição à educação das mulheres, não só entre os lordes,
mas também entre os camponeses. Mas as pessoas gostavam dela
por isso, e também de seu pai, embora por outras razões. Aquele
punhado de moedas era a prova do afeto e a lealdade que lhes
professava aquela gente. E a verdade era que Varian nunca ganhou
aquele afeto.
Em voz alta, disse:
— Se não necessitar do Albert, seria bem-vinda sua ajuda na
casa. Mount Eden tem que estar apresentável para quando chegar
à senhora da casa, e está toda desarrumada. — Varian sustentou a
moeda entre os dedos. — Eu gostaria de contratá-lo para que nos
ajude a começar, Albert.
— É obvio que sim — respondeu Annie em nome do mudo
menino. — Este tempo frio atrasará a plantação, e John pode se
arrumar perfeitamente sem o menino de qualquer modo… — Ela
duvidou um momento. — Será bom ter de novo à família conosco,
milorde.
Depois de dizer ao Albert a que horas tinha que se apresentar
no dia seguinte para o trabalho, Varian se despediu dos Gillis e saiu
com o Gideon. Tinha começado a nevar.
Fizeram o caminho em silêncio, cada um dos irmãos refletindo

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a sua maneira sobre a cena que acabavam de presenciar.
— Isso foi bom — disse Gideon ao final. — À saída do sol,
encontrar-nos-emos com uma fila de arrendatários na porta,
dispostos a fazer entendimentos conosco.
— Deixarei que você se encarregue dos entendimentos, se não
se importar. Eu não tenho cabeça para essas coisas.
— Fez tudo bastante bem hoje, apesar da precipitação do
momento. Deveria seguir suas diretrizes. Quem é tão honesto como
John Gillis e sua esposa pode ser que venha com seus aluguéis e
espere que lhes ofereça o mesmo trato. Aos outros convencerei
para que trabalhem por uma percentagem do produto ou algum
outro trato comercial. Ou pode ser que por uma redução do
aluguel. Não teremos muitos benefícios ao final do ano, mas ao
menos a terra estará por fim trabalhada e, como você disse, não é
bom que não se cultive.
— Pelo céu! Seriamente fui tão sensato? Será melhor que me
deite assim que chegue em casa. Ou pensando bem, melhor não.
Deus, ao menos poderíamos ter conservado algumas camas. —
Varian riu apesar de si mesmo. — Sabe quantas vezes sonhei estar
em casa, deitado sobre um leito macio? Dormi sobre a terra, e na
umidade, e em chão de madeira. Como vai rir Esme quando eu
contar…
Seu bom humor desapareceu naquele instante.
— Não, não posso dizer-lhe verdade? — ficou em silêncio. — Eu
disse que voltaria em umas quantas semanas, Gideon.
— Disse que é uma pessoa sensata. Entenderá.
— Entenderá quando eu disser que terá que esperar meses…,
pode ser que anos? Maldito seja. — Varian olhou com desalento ao

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seu redor. — A casa desses camponeses que visitamos era
provavelmente a melhor de todas. Tenho que fazer algo pelos Gillis,
e pelos outros. Não podem viver nesses chiqueiros. Mas como
demônios vou reparar as casas dos arrendatários quando meu
próprio teto está a ponto de cair sobre minha cabeça?
— O telhado do Mount Eden resistirá bastante ainda — disse
Gideon. — E também podem esperar os outros reparos essenciais,
incluindo as casas; o custo dos materiais é insignificante. O que
precisamos são operários especializados.
— Não temos dinheiro para contratar a ninguém. — Varian
seguiu caminhando. — De qualquer modo, eu ajudei a reparar um
moinho na Albânia e não perdi a vida. — Deu um olhar de receio
ao Gideon. — Suponho que você não terá ideia de como arrumar
um telhado ou uma chaminé?
— Tenho certas ideias básicas.
— Pode ficar o tempo suficiente para me dizer como fazê-lo… e
fiscalizar os primeiros trabalhos para se assegurar de que o faço
bem?
Gideon soltou um suspiro.
— Apostaria algo a que jamais ouviu nenhuma palavra do que
Damon e eu lhe dissemos sobre esse tema. Não vamos retornar a
Londres. Só tem que nos dizer o que temos que fazer e o
faremos…, sempre e quando for algo sensato. E se pensarmos que
não o é, diremos a você. E o que agora propõe me parece o único
sensato na presente circunstância.
— Maldito seja, Gilly, disse…
— É que não o entende? — O rosto rígido do Gideon se relaxou
em uma careta. — Não o fazemos por você, milorde, mas sim pela

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formidável criatura que esperamos conhecer. Quanto antes
reparemos essa ancestral ruína, antes poderemos dar uma olhada
na jovem dama com quem está tão desesperado por nos
impressionar.
Varian sentiu que se ruborizava.
— Demônios! Edenmont ruborizado. Lorde Alvanley daria vinte
e cinco libras por vê-lo.
— Que o demônio te leve, Gideon!
Gideon riu.
— Você disse que nos deve muito, não é assim? Nós podemos
cobrar isso nos ocupando de sua esposa. Por seu próprio bem, é
obvio. Isso a manterá com a mente ocupada e assim não ficará
melancólica. — Gideon lhe deu uma amistosa palmada no ombro.
— Pelo seu próprio bem, meu nobre irmão. Não podemos deixar
que perca a cabeça. Pelo menos não até que tenha ao menos um
herdeiro.

Capítulo 26

Abril chegou com uma garoa que caiu sobre o percurso anual
da Temporada de Londres. Mas sir Gerald Brentmor não tinha
nenhum interesse nas atividades sociais não lucrativas. A meia-
noite, enquanto a alta sociedade dançava e fofocava, ele estava já
metido em sua cama, sonhando com rendas vitalícias,
percentagens e notas promissórias.
Apesar de ter ouvido um ruído em sonhos, ergueu-se do
travesseiro no momento em que a cera quente se derramava por
sua fronte. Não teve tempo de gritar, senão apenas para abrir a

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boca antes de sentir o frio fio de uma adaga apoiado em seu
pescoço.
— Se gritar o mandarei direto ao inferno — advertiu uma voz
profunda.
Aquela voz lhe soava desagradavelmente familiar. A pesar do
medo que sentiu no cérebro e no coração, sir Gerald teve a
suficiente lucidez para reconhecer o dono daquela voz: era Risto.
O candelabro que gotejava se moveu a um lado e foi colocado
de novo sobre a prateleira, ao lado da cama. Por outra pessoa. Bom
Deus, havia ali dois homens!
O acompanhante de Risto, envolto em uma capa com capuz,
aproximou uma cadeira ao lado da cama, sentou-se nela e jogou o
capuz para trás. As velas deixaram ver o rosto de um homem
jovem.
— Vejo que lembra de Risto — lhe disse o estrangeiro. — Eu
sou seu senhor.
Sua voz era amável e tinha um doce sorriso de jovem inocente.
Mas essas qualidades não tranquilizaram absolutamente a sir
Gerald.
— Is… Ismal — ofegou ele.
O jovem inclinou levemente a cabeça de maneira afirmativa.
— Perdoe nossa forma pouco cerimoniosa de nos apresentar.
Pensei que era melhor que não me vissem os criados. Eles gostam
de fofocar, e nem você nem eu desejamos que nossa chegada seja
conhecida por certos indivíduos. Vim pessoalmente para solucionar
um pequeno problema de negócios. Depois, partirei, eu prometo.
Ismal tirou com calma a capa e se recostou na cadeira,
extremamente a vontade. Vestia-se com roupas inglesas,

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completando seu traje com um lenço que tinha atado ao pescoço.
Exceto por um leve acento estrangeiro, poderia se passar
perfeitamente por um cavalheiro inglês.
— Antes que esquente a cabeça pensando em alguma maneira
de escapar de mim, queria explicar qual é sua situação. — Colocou
elegantemente um dos braços sobre o respaldo da cadeira. — Em
Veneza me encontrei com um homem chamado Bridgeburton.
Sir Gerald notou que o sangue lhe subia ao rosto.
— Esse homem foi seu sócio nos negócios durante muitos anos,
da noite, faz uns vinte e tantos anos, em que o ajudou a enganar o
seu irmão para que perdesse uma valiosa propriedade.
Ismal tirou uma delgada carta do bolso interior de sua jaqueta.
— Foi persuadido para que escrevesse uma confissão de todos
os seus mútuos crimes. — Deixou cair a carta no regaço de sir
Gerald — Isto sir Gerald é uma cópia. O original será entregue a
um membro de seu governo, no caso de que soframos algum
percalço. Se estiver pensando em me enganar de algum jeito, só
conseguirá trair a si mesmo.
A adaga se separou de seu pescoço o suficiente para que sir
Gerald pudesse recolher a carta. Não necessitou mais que dar uma
olhada para dar-se conta de que estava realmente em grave
perigo. Ninguém mais que Bridgeburton conhecia detalhe de todas
as suas atividades criminais.
— Suponho que está morto — disse apertando as mandíbulas.
— Temo que seu sócio foi tão incauto que caiu no canal. —
Ismal ficou olhando suas polidas unhas. — Concorda que Risto
afaste a adaga agora? Se lhe cansa a mão poderia ter um acidente.
— Já sabe que não vou dar a voz de alarme — disse sir Gerald

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enquanto lhe devolvia a carta. — Não tenho mais inclinação pelas
forcas que pela afiada adaga de seu criado.
Quando a adaga se afastou de seu pescoço, tocou o gogó com
cautela. Estava úmido. Pode ser que fosse o suor, ou sangue.
Apenas lhe importava. De fato, compreendeu que já estava morto.
O que importava era aquele jovem sentado ao lado de sua
cama. Ismal tinha tirado uma confissão ao impassível Bridgeburton,
logo o tinha matado e tinha viajado até a Inglaterra. Isso era algo
mais que persistência. Loucura, acaso?
— O que quer de mim? — perguntou sir Gerald com um tom de
voz mais tranquilo do que realmente estava. — Meus
entendimentos com você foram justos. Não foi minha culpa…
— Admito que não me traiu deliberadamente — reconheceu
amigavelmente Ismal, — embora ao princípio o pensei. Mas logo
me inteirei que não só vieram abaixo meus sonhos, mas também
seus negócios. Não posso imaginar que se destruiu
deliberadamente a si mesmo. Entretanto, você foi muito
descuidado, sir Gerald, até o ponto de que alguém averiguou qual
era cada um dos barcos e qual era cada um de seus destinos.
— Poderia ter sido traído por um de seus homens.
— Só Risto conhecia toda essa informação, ou quase toda, e
não poderia estar agora comigo se me tivesse traído. É obvio que a
culpa não foi dele.
— Prometo-lhe que…
— De algum jeito foi você um incauto, e esse engano esteve a
ponto de me custar a vida. — Inclinando a cabeça, Ismal perguntou
em voz baixa: — foi você envenenado alguma vez, sir Gerald? Meu
primo Alí prefere os venenos lentos. Nem sequer pude notar o

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sabor do veneno. Mas desde que me recuperei em um imundo
barco de pesca, comecei a apreciar o encanto desse método. Eu
gostaria muito de ver o homem que me deixou morrendo… muito
lentamente… em meio de uma grande agonia.
Definitivamente estava louco, decidiu sir Gerald fazendo uma
careta. Mas uma vez passada a primeira impressão, suas forças e
seu instinto de autopreservação retornaram.
— Suponho que não tem nenhum sentido que trate de
convencê-lo de que não sou seu inimigo, ou de que nunca disse
uma palavra de nada a ninguém, nem falei onde alguém pudesse
me escutar às escondidas. Já não importa o que aconteceu. Você
sabe que eu gostaria de ter em meu poder o original da carta do
Bridgeburton. Qual é o preço?
— A soma que paguei pelas armas que nunca cheguei a
receber, mais mil libras como reparação pelo dinheiro que me
extorquiu meu primo… por culpa de sua sobrinha e desse porco que
tem por amante. — Na melíflua voz do Ismal havia um timbre de
amargura. O outro notou, porque sorriu mais docemente. — E
outras mil libras pelos gastos dessa viagem — continuou dizendo
em um tom de voz tranquila. — Tudo a pagar em um prazo de dois
dias.
Completamente perturbado. Embora isso, por lamentável que
fosse, não tornava aquele homem menos perigoso. Apesar de que
sir Gerald não gostasse absolutamente que o chantageassem,
apreciou o bom olho das injustas demandas do Ismal. Além disso, o
baronet ainda não se encontrou com o homem que poderia lhe tirar
de tudo aquilo. De modo que tratou de pensar com rapidez.
— Não posso reunir uma soma tão grande de dinheiro em só

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dois dias — disse ele. — Se souber tanto sobre mim, deverá estar à
corrente de que acabo de vender boa parte dos investimentos que
ficam, por não mencionar a metade de minhas posses.
— Então pode me pagar com o jogo de xadrez.
Sir Gerald ficou olhando fixamente.
Ismal esboçou um sorriso de recriminação.
— Ou também já vendeu … o dote de sua sobrinha?
Imediatamente a indignação deixou a sir Gerald em um estado
de alarme.
— Vendê-lo? — repetiu. — E conseguir sozinho uma parte do
que vale? Seu valor depende de que esteja completo, com cada
uma de suas peças intactas, e que cada uma das gemas seja a
original. Os colecionadores podem ser excêntricos, alguns deles ao
menos, e muitos passariam por cima o fato de que falte uma peça
qualquer, mas uma rainha?
O braço do Ismal se separou do respaldo da cadeira. Seu falso
sorriso se alargou e um brilho cruzou seus olhos.
Estava se divertindo? Perguntou-se sir Gerald. Que demônio
lhe parecia tão gracioso?
Ismal se inclinou para ele.
— Sir Gerald — lhe disse, — está você metido em um problema
mais grave do que lhe parece. Eu não sou o único que conhece
seus sujos segredos.
— De que demônios está falando?
— Rainha negra.
— O que me disse esse criado é que a entregaria a você.
— E muito pouco depois a entregaram a seu filho. Com uma
mensagem.

422
Esme torceu os lábios enquanto lhe devolvia a carta a sua avó.
— Não vejo a graça — resmungou a velha dama.
— Não só é divertido, mas também imaginativo — disse Esme.
— Dizem que tenho as mãos tatuadas, que levo um aro no nariz, e
que com esse traje, e sem vestir nada mais, danço de maneira
lasciva em seu jardim de rosas à luz da lua cheia. A senhora
Stockwell-Hume não menciona que também adulo à lua, mas pode
ser que seus amigos londrinos não tivessem pensado nisso ainda.
— Não me importa que tudo isto seja ridículo. A maioria das
fofocas de Londres o são. Mas isso não os faz menos daninhos. O
que crê que vai dizer Edenmont, ou melhor, o que vai sentir,
quando essas fofocas chegarem a seus ouvidos?
Esme ficou rapidamente séria. Os rumores que tinha contado a
amiga de lady Brentmor eram ridículos, um flagrante exemplo do
provincianismo e a ignorância da sociedade inglesa. De qualquer
modo, que a esposa de um lorde seja objeto das brincadeiras, e
que a gente mesmo o seja da compaixão…
— Vá! — disse a anciã, — Temos que ir a Londres. Amanhã.
— Londres? Amanhã?
— Não é o eco, assim não preciso que repita tudo o que digo.
Partiria agora mesmo, se pudesse, mas necessitamos um dia
inteiro para fazer a bagagem. E o jovem bruto virá também
conosco, porque não quero voltar e saber que pegou fogo à casa.
— Mas, avó, não estou preparada. Você mesma disse que
minhas maneiras…
— São bastante melhores do que esperam esses tolos. Além
disso, não vamos ficar ali toda a temporada. Somente uma ou duas

423
semanas. O tempo suficiente para pô-los firmes. Maldito atalho de
bobos.
Londres. Amanhã. Esme tratou de reprimir um
estremecimento. Todas essas mulheres… As mulheres que ele tinha
conhecido. Iam fazê-la em pedaços e ela não saberia como
defender-se. E quando visse suas rivais certamente tampouco teria
a coragem para fazê-lo. Seriam mais formosas do que ela
imaginava, mais elegantes, e ela se sentia feia e totalmente
desprezível. Duas semanas sem Varian já lhe tinha feito perder
bastante confiança em si mesma. Necessitava tempo para reunir
valor e forças, se quisesse tomar uma decisão adequada sobre o
futuro… com ele.
— Não — disse ela. — Essas fofocas não são nada mais que
uma brincadeira. Mas se for lá, se darão conta de que realmente
não estão tão equivocados, e isso será muito pior.
— Vai ser muito pior se a ele ocorrer começar a aceitar desafios
de duelo. Um homem está obrigado a defender o bom nome de sua
esposa… embora a deteste. Deus, os homens são tão burros — se
queixou a anciã. — Nós passamos a metade da vida tentando
salvar esses malditos idiotas de si mesmos.
— Não esperará que acredite…
— Se não quer ir — seguiu dizendo sua avó sem lhe fazer caso,
— esperemos que saiba manejar melhor com uma pistola que com
os negócios.
— Deus tenha piedade de mim! — disse Esme meneando a
cabeça. — E os ingleses dizem que Albânia é um lugar perigoso.
Varian pôde estar ali a salvo, mas aqui, meu tio poderia matá-lo
por uma peça de xadrez, seus amigos o matariam por uma fofoca…

424
Pelo Alá! Nem sequer Alí Pachá poderia sobreviver entre essa
gente. Estão loucos, todos eles.
A anciã não a estava escutando. Seu olhar abstraído dava
voltas ao redor da sala de estar.
— É obvio, há uma parte boa. Se ficasse viúva, deveria
encontrar algo que se parecesse com um marido adequado. — Seu
olhar se fixou em uma pequena aquarela que estava pendurada ao
lado da chaminé. — Dunham é viúvo, e já tem um herdeiro. A
mulher do Saxonby está muito doente, mas entre ele e o título há
ainda dois irmãos. Herriot…? Ou acaso é o outro? Maldito seja, teria
que encontrar ao Debrett… Não, posso perguntar a lady Seales. Ela
com certeza sabe como está o mercado.
Esme ficou olhando perplexa a sua avó.
— Que mercado? Do que estamos falando?
— O mercado de maridos. De seu próximo marido. Não pensará
chorar a morte desse imbecil toda a vida, não?
— Que o céu me dê paciência! — chiou Esme. — Ainda não
morreu e já está procurando o próximo marido? Você é pior que
Qeriba. Pelo menos ela não desejava nenhum mal. Mas, pelo resto,
é igual a ela. «Faz isto. Faz aquilo. » Como se eu não tivesse
opinião nem nada o que dizer.
— Então, por que não trata de dizer algo inteligente?
— Por que não me deixa um momento para pensar? Você é a
única diz que Varian deveria bater-se em duelo por mim. Por que
teria que acreditar que vai jogar o pescoço por uma causa tão
pouco importante? O mais seguro é que ria dessas fofocas.
— Já lhe disse como são os homens.
— Sim. E também me disse que muitos homens deixam a suas

425
mulheres no campo enquanto eles vão se divertir na cidade. Se ele
queria retornar a Londres sozinho, e se me encontra ali…
— Sim, isso será um grande inconveniente para ele, estou
segura.
— E, além disso — seguiu dizendo Esme teimosa, — não
pensou no que dirão as pessoas se eu for a Londres com minha avó
enquanto ele se aloja em outra parte.
— Isso será coisa delas. Eu não os separei quando estavam
aqui, e não penso fazê-lo ali. Mas já vejo que só o que faz é
procurar desculpas. A razão pela qual não quer ir a Londres é
bastante simples: é uma covarde.
Nesse caso em concreto, aquelas palavras chegaram muito
perto do alvo. Esme o teria admitido sem muitos problemas no
momento em que pensou naquelas mulheres. De uma vez, sentiu-
se furiosa por aquele insulto.
— É você completamente impossível! — gritou ela. — Faria o
que fosse e diria o que fosse para sair-se com a sua. Mas não se
equivoque comigo. Queira ou não, seu sangue corre por minhas
veias, e conseguirei me sair com a minha. Sim, avó, podemos nos
preparar para viajar amanhã, se assim o desejar. Não, avó, não
iremos a Londres até que saiba qual é a opinião de meu marido. E
então poderei julgar o assunto com mais sensatez.
Lady Brentmor a olhou franzindo o sobrecenho com ferocidade.
Mas Esme não se amedrontou absolutamente e lhe devolveu um
olhar igual de fera.
— Quer ir ao Mount Eden? — perguntou-lhe a anciã. — E
conseguir antes a permissão desse bobo?
— Não penso ir correndo a Londres para resgatá-lo de um

426
duelo, só para me inteirar de que esteve tirando o sarro. Já ouvi
sua opinião do que temos que fazer. Agora quero ouvir a dele.
Logo, eu decidirei. Por mim mesma.
— Muito bem — disse sua avó. — Como você queira, milady.
— E sem truques — advertiu Esme. — Percival me ensinou o
mapa. Se a carruagem for a qualquer outro sítio que não seja
Mount Eden, saltarei dele em marcha.
— Não me ocorreria nem sonhar em enganar — foi a irônica
resposta. — Não sabe quão contente estou pensando em ir visitar
sua excelência sem avisar. Com o tempo você mesma o verá.
Deixemos que apresente você a seus amigos de bebida e ópio, e a
suas fulanas. Nada gostarei mais que vê-la entre eles. — Lady
Brentmor se dirigiu para a porta. — Não perderia isso por nada do
mundo.

Percival escapuliu do vestíbulo pelas escadas de trás quando


sua avó saiu da sala de estar com Esme. Sabia que não deveria ter
estado escutando atrás da porta. Uma vez tinha espiado o seu pai
daquela maneira, e sabia o que lhe tinha levado aquilo. Já não se
atrevia a voltar a pensar no xadrez, porque isso o fazia lembrar-se
da rainha negra, o que o tinha conduzido ao vergonhoso segredo de
seu pai, e pensar em tudo aquilo punha doente ao Percival. E agora
se sentia quase igual de doente, como tinha se sentido no
momento em que tinha visto a carta sobre a mesa do café da
manhã.
Depois de abri-la, o rosto da avó ficou rígido e de cor púrpura.
E tinha toda a razão do mundo para reagir assim, como tinha
descoberto Percival. Mas aquilo não tinha nada que ver com seu

427
pai, pensou Percival. Não se tratava mais que de um montão de
horríveis e ignorantes fofocas.
Franzindo o sobrecenho, Percival se sentou no degrau mais
alto. A parte em que se falava do aro no nariz, por exemplo. A
maioria das pessoas sabia que era um costume em algumas
culturas exóticas, como em outras culturas era normal andar nus.
Mas aqueles fofoqueiros não tinham nem ideia do que eram os
costumes da Albânia, e também erravam nos demais costumes que
diziam da prima Esme.
Exceto no das tatuagens. Em algumas tribos da Albânia, as
mulheres tinham tatuagens nas mãos. Era muito estranho que um
grupo de fofoqueiros ingleses tivesse acertado em uma prática
bastante pouco comum e em todo o resto estivessem tão
absurdamente equivocados. As pessoas não podiam deixar de
perguntar-se como qualquer que não fosse albanês podia imaginar
a uma mulher que levasse tatuagens. Nas mãos.
Mas não era de todo o impossível, disse a si mesmo. Poderia
ter sido uma coincidência.
Até mesmo o tipo de papel e tinta utilizados. Sem dúvida, seu
pai não era o único que tinha aquele tipo de material de escritório
em particular. Embora a senhora Stockwell-Hume não parecesse a
classe de mulher que o utilizaria, a menos que tivesse feito servir o
material de seu marido. Mas ele tinha morrido fazia vários anos.
Percival fechou os olhos. Não podia tratar-se do papel e da
tinta de seu pai. Estava claro que a letra não era a de seu pai, nem
a de nenhuma outra pessoa conhecida, tinha que ser a da senhora
Stockwell-Hume, pois do contrário sua avó teria percebido.
Tampouco podia tratar-se de uma falsificação. Se seu pai soubesse

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como dissimular sua letra já o teria feito no caso da nota que havia
dentro da rainha negra.
Mas acaso havia alguma outra pessoa que sabia como falsificar
uma carta, começou a remoer essa ideia preocupado. Alguém
muito preparado. Algum albanês.
— Não — sussurrou Percival. — Não pode ser, por favor,
mamãe. È só minha imaginação, não é verdade?

Capítulo 27

Damon estava no telhado do Mount Eden, reparando a


chaminé, e Gideon se encontrava abaixo, na cozinha, tentando
preparar a comida. Varian tinha acabado aquela mesma manhã de
limpar os dormitórios, sobre tudo de excrementos de ratos. Embora
o gato tivesse feito tudo o que podia, estava sozinho contra uma
legião, e sua descendência era muito jovem para que pudesse ser
de muita ajuda. A julgar pela quantidade de excrementos, alguns
daqueles ratos podiam ter um tamanho duas vezes maior que os
gatinhos.
Varian soltou uma grosseria ao ouvir que batiam na porta.
Com a vassoura na mão, correu escada abaixo e esteve a ponto de
esmagar um dos gatinhos listrados, que estava no final das escadas
disposto a saltar sobre ele.
— Maldito seja, só tem sete vidas — disse Varian olhando para
gato. — Não as esbanje todas em uma semana.
O gato saltou para suas mãos e começou a subir pela camisa.
Varian estava tentando desfazer-se dele quando chegou à porta.
Mas o gato lhe cravava as unhas com força enquanto miava.

429
Varian deixou de brigar com ele, pôs a vassoura detrás da
porta e abriu.
Piscou uma vez e de repente todo o mundo se desvaneceu ao
seu redor. O que estava vendo era a Esme, que por sua vez o
olhava com a boca aberta.
— Esme — disse assim que pôde recuperar o fôlego, para logo
avançar na soleira e estreitá-la entre os braços. — Querida… eh,
eu…!
Ele tratou de soltar da camisa aquele gato homicida, mas ela
afastou a mão.
— Você vai fazer-lhe mal — disse Esme com voz séria. — Está
muito assustado e por isso não quer soltar-se.
Murmurando algo em albanês, ela começou a acariciar o
escorregadio animal. Em seguida sucumbiu a seus encantos e se
deixou segurar por ela.
Nesse momento, a realidade voltou a rodear Varian. Olhando
atrás de sua esposa, pela porta aberta, Varian viu uma carruagem
e à anciã dama que descia dela, e logo ao Percival saltando pela
outra porta.
Varian passou os dedos pelo cabelo. Sentiu a sujeira que
levava em seus cabelos. Quando afastou a mão, esta estava negra.
Também se deu conta de que tinha manchado o elegante casaco de
Esme com pó e fuligem.
Sentiu um calor que subia pelo pescoço até avermelhar seu
rosto. Olhou para Esme, logo mais à frente, para a anciã que se
dirigia com passo firme para eles. Era evidente que Percival tinha
descoberto ao Damon trepado no telhado, porque nesse momento
pôs-se a correr para o outro lado da casa para poder vê-lo melhor.

430
Embora percebesse que se ruborizou intensamente, Varian se
ergueu. Quando a anciã chegou à escada de entrada, fez-lhe uma
reverência.
— Milady, que gratíssima surpresa...
— Não me fale — soltou ela, passando a seu lado. — Não foi
minha ideia, mas sim dela. — Olhou para trás em direção a Esme e
elevou o nariz. — Diga a meus criados que tragam as cestas de
comida. Estou segura de que não estava preparado para receber
visitas e eu estou sedenta.
A seguir entrou no vestíbulo murmurando entre dentes.

Pouco depois, depois de ter se lavado de maneira precipitada,


Damon e Gideon se dirigiam cautelosamente para o corredor
principal. Já tinham dado uma olhada pelos cômodos. Na sala de
jantar viram uma pequena e temível anciã de arranca-rabo com
uma mala e gritando ordens a uma pequena legião de curvados
serventes.
Na sala de estar, um adolescente ruivo estava virado de barriga
para baixo junto a uma guarida de ratos, falando pacientemente de
um cassino clandestino esmagado contra seu nariz.
Embora intrigantes entre si mesmos, nenhuma daquelas visões
mereceu mais que uma rápida olhada. Damon e Gideon tinham em
mente uma presa em concreto e, resistindo àquelas tentações
menores, continuaram sua busca.
Passaram por diante das portas parcialmente abertas da
biblioteca e olharam dentro. Então Damon cravou os olhos em seu
irmão.
— Não pode ser esta menina — ele sussurrou.

431
— Sem dúvida não é a senhora madura que estava na sala.
— Mas esta não é mais que uma menina. Varian possivelmente
não poderia… Se calou quando ouviram umas vozes. Com cautela,
Damon abriu a porta um pouco mais. Nesse momento, a moça
atirou a bolsa a seu irmão. Varian se afastou e a bolsa aterrissou ao
lado da chaminé, no chão. A garota começou a andar furiosa de um
lado a outro, com um redemoinho de saia verde a seu redor,
enquanto sua voz bramava a todo volume.
— Nunca o perdoarei! — gritou-lhe com fúria. — É impossível.
Sua estupidez está além de toda compreensão. E, além disso, é um
mentiroso de muito cuidado.
— Esme, eu não…
— Mentiu-me! Já disse. Quer defender sua honra? Muito bem,
vá por suas pistolas. Eu irei procurar a minha e dispararei nesse
negro coração que tem. E com mais razão. É a mim a quem estão
desonrando. E você vai me desonrar mais ainda. Todo mundo rirá
de mim… mais forte ainda do que riem agora.
Soltou algo em uma língua estrangeira e Varian tentou
aproximar-se dela. A jovem ergueu uma mão indicando que não o
fizesse.
— Não se aproxime — advertiu. — Não me tente. Estrangularei
você.
Varian se deteve e se apoiou no suporte da chaminé de novo.
Ficou olhando, enquanto ela seguia andando de um lado a outro,
com os saltos produzindo um contínuo tamborilar no chão nu.
Ela voltou a carga com uma fileira de palavras que só podiam
ser insultos, e logo falou outra vez em inglês.
— Mandou-me três cartas cada semana, e não me disse a

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verdade em nenhuma delas. Só historias e brincadeiras, como se
eu fosse uma menina a que terá que entreter. Já pagou suas
dívidas. Já não existia o perigo de que estava falando, como se me
preocupasse o perigo! Mas não me contou nada. Deixou-me com
minha avó, o que em meu país é uma grande distancia, mas eu
suportei porque estamos na Inglaterra e todos os ingleses estão
loucos.
— Querida, não tenho meios para mantê-la.
— Não necessito que me mantenham! Não sou uma ovelha
nem uma vaca. Como acredita que vivia na Albânia sem dinheiro?
Dormi em covas e entre os arbustos. Sei o que é isso. — deteve-se
um momento. — Não sou uma menina, nem uma débil mulher.
Deveria ter dito a verdade, que não queria que estivesse com você.
Mas sua vaidade é ainda maior que sua estupidez. Pensava acaso
que eu ia morrer de pena? — aproximou-se dele e apoiou as mãos
nos quadris. — Já!
Embora agora estivesse de costas, Damon não tinha dúvidas de
qual seria a expressão de seu rosto. Sua pequena e rígida figura
vibrava desafiante.
— Não deveríamos estar aqui bisbilhotando — murmurou
Gideon.
— Sim, é vulgar, mas é tão interessante…
Dirigindo um olhar de recriminação a seu irmão, Gideon clareou
a garganta pigarreando ruidosamente.
A moça estava de novo arremetendo contra Varian em sua
própria língua e evidentemente não ouviu aquele som gutural. Mas
Varian sim. E então os viu depois das portas entre abertas.
Gideon as abriu de todo.

433
— Ah, aqui estão! — disse Varian com voz crispada.
A garota deu meia volta. Um ligeiro tom rosado manchou suas
bonitas bochechas e seus olhos se abriram de par em par.
— Bastante verdes — disse Damon entre dentes.
Varian se aproximou dela para tomar a mão.
— Posso apresentar você a meus irmãos, querida? Este tipo
robusto é Gideon.
Gideon fez uma cortês reverencia.
— E esse outro que ficou com a boca aberta é Damon.
A reverência do Damon foi algo menos elegante, devido a um
momentâneo desajuste de sua inteligência. Agora que a via de
perto, estava claro que de nenhuma das maneiras era uma menina,
a não ser uma moça. Uma moça e assombrosamente atrativa. E
nesse momento, também muito zangada, o que não fazia mais que
torná-la ainda mais atrativa. Nunca antes tinha visto um pouco
parecido o verde aceso da cor de seus olhos. Evidentemente,
tampouco o tinha visto antes Varian. Isso explicava tudo.
— Estavam ansiosos por te conhecer — disse Varian.
Esme ficou olhando os dois irmãos com patente desconfiança.
— Então os teria que ter trazido para que me conhecessem —
disse ela bruscamente. — Pelo menos minha avó os teria
alimentado.
— Espero que não tenhamos tão mau aspecto para isso, não?
— protestou Damon com um tímido sorriso.
Ela estalou a língua.
— É uma pena, mas se vê às claras que não dorme nem come
adequadamente. — aproximou-se um pouco mais de Damon
fazendo com que o coração dele ficasse a pulsar de uma maneira

434
estranha. — Está muito magro — disse ela. — Quem cozinha?
— Delegaram-me ao posto de cozinheiro, milady — disse
Gideon.
— Sim, e tem uma boa mão com os ovos cozidos — assegurou
Damon. — Embora eu tema que não seja bastante bom para ter
jeito de…
— Deveria ter vergonha — disse a Varian. — É um idiota
integral.
— Oh! Mas esse não é o encargo de Varian…
Lançou ao Damon um olhar fulminante e ele se calou de
repente. Estava claro que não ia atrever-se a terminar aquela frase.
— Ele é o cabeça da família — disse ela muito séria. — É sua
responsabilidade. Infelizmente não tem um pingo de sensatez. Mas
agora já chegou a senhora. E eu prepararei uma comida decente.
Varian começou a dizer algo, mas recebeu um olhar mortífero
dos olhos verdes dela e decidiu manter a boca fechada.
— Vá tomar um banho — disse ela. — Está lastimável.
Logo saiu passando ao lado dos dois irmãos, com suas botas
altas sapateando uma retreta de mau agouro, e saiu pela porta.
Damon ficou olhando a seu irmão mais velho.
— Digo eu, Varian, que não iria pegá-lo de verdade, não é
assim?
— Acredito que será melhor que vá tomar um banho — disse
Varian abandonando a sala.

Depois de uma comida surpreendentemente agradável, a anciã


viúva dedicou várias horas a examinar minuciosamente a casa.
Gideon a acompanhou, anotando obedientemente todos os seus

435
comentários em uma caderneta. Damon, para grande
aborrecimento de Varian, seguia a Esme a todas as partes como se
fosse um cachorrinho de madame. Entretanto, sua excelência sabia
que era melhor não ir com eles enquanto visitavam a casa. Esme
necessitava de tempo para acalmar-se. Enquanto isso, ele podia
ocupar-se de fazer algo para arrumar a desordem do dormitório
principal.
Havia pensado que preferia morrer antes que deixá-la ver
aquela fazenda, no desastroso estado em que se encontrava e que
proclamava em voz alta todas as suas vilanias. E por isso morria de
vergonha e culpabilidade. Entretanto, tendo suportado o pior, era
consciente de que também poderia suportar ser rechaçado em seus
avanços amorosos.
Sabia que não tinha direito algum a pretendê-lo, e ficava louco
só de pensar, deixando à parte a esperança. Mas não podia evitá-
lo. Do primeiro abraço, tão torpe como breve, ele não havia
tornado a ter ocasião de tocá-la. Rodeado todo o tempo de criados
desconhecidos e de seus irmãos, e com o Percival e lady Brentmor
aparecendo nos momentos mais importunos, tinha-lhe sido
impossível. Além disso, Esme teria estado todo o tempo de um
humor terrível.
Que Deus tivesse piedade dele, até tinha sentido falta de seus
ataques de raiva!
Varian sorriu ligeiramente enquanto esticava os suaves lençóis
de linho. Hoje aquela visão trazia para a mente outros desejos. Não
que aquela cena que tinham tido não fosse algo de esperar, depois
de que Esme tivesse passado dois meses sob a tutela de sua avó.
Mas nesse momento, seus dois irmãos estariam pensando que sua

436
mulher o dominava. Embora isso fosse porque eles não entendiam
nada. Nem Varian tinha intenção alguma de explicar.
Sabia que Esme se sentia muito magoada e que ele era quem a
tinha ferido.
Não sabia como consertar aquilo. Ela tinha mostrado a carta da
senhora Stockwell-Hume, a razão daquela inesperada visita e sua
resposta tinha parecido totalmente insatisfatória. Varian tinha
pensado que não era necessário explicar nada até que seus amigos
a vissem por eles mesmos, e que não importava se criassem suas
próprias fantasias sobre o mistério de lady Edenmont.
Sabia que aquilo tinha sido culpa dela: sua escandalosa
reputação, uma esposa procedente de um país pequeno e
desconhecido… O resultado era que corressem absurdas histórias
de boca em boca. E como agora não tinha os meios para
apresentá-la de maneira apropriada, isso queria dizer que no
momento a nobre viúva teria que encarregar-se de fazê-lo. E nesse
instante Esme tinha explodido.
Varian entendia que ela acreditava que a miserável posição
dele respingava nela como se fosse uma esposa pouco apropriada.
Isso era apenas uma diferença cultural. O que preocupava Varian
era que parecia estar convencida de que ele a considerava
inapropriada. Pensava que se envergonhava dela, ou que estava
cansado dela.
O que não era absolutamente razoável. Desgraçadamente, as
pessoas com ideias amalucadas são por definição dificilmente
razoáveis. Ela não estava disposta a acreditar em nem uma palavra
do que lhe dizia.
Varian guardou sua roupa suja em um armário e deu uma

437
olhada ao seu redor. Os móveis pertenciam aos restos de uma casa
que se queimou parcialmente em Aylesbury. Somente tinham
podido aproveitar os móveis do dormitório. Ou ao menos isso
tinham acreditado seus irmãos e ele mesmo.
Agora se dava conta de que os móveis desprendiam certo
aroma de queimado, apesar das horas que tinha passado lixando-
os e aplicando azeites com ervas. Também a roupa de cama era de
segunda mão ou o mais seguro terceira ou quarta, cinza e gasta,
apesar de que Annie Gillis a tinha lavado e alvejado. Pior ainda
eram as cortinas. Velhas e remendadas, e, além disso, estavam
todas rasgadas graças aos cuidados que lhes tinham proporcionado
os gatos.
Varian soltou um grunhido e se sentou na cama. Em que
demônios tinha estado pensando, para imaginar sequer que ia
seduzir a sua baronesa naquela cela sórdida?
— Varian?
Era a voz de Esme chamando do outro lado da porta.
Varian sentiu uma covarde urgência de meter-se debaixo da
cama. Em lugar disso, apertou as mãos na borda do colchão e
rogou para que ela estivesse olhando para outro lado, de modo que
fosse possível sair dali antes que Esme pudesse dar uma olhada
naquele quarto horrível.
A porta se abriu de repente com um rangido de protesto.
Fechou os olhos.
— Pensei que estava se escondendo de mim — disse ela. — Faz
bem em se esconder. Mas prometi a seus irmãos que não vou
matá-lo. Disseram que não podem permitir os gastos do funeral.
Abriu os olhos, e a viu de pé na soleira da porta, com os braços

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cruzados sob o peito.
— Além disso — acrescentou Esme, — Gideon não tem vontade
de ser barão. Diz que antes prefere que o pendurem.
Depois de olhá-lo durante um momento, abandonou sua
postura desafiante, entrou no quarto e olhou a seu redor.
— É um quarto muito grande. Toda minha casa de Durrës
caberia dentro. Mas é igual ao de minha avó, de maneira que já
não me surpreende.
Varian se levantou.
— É um quarto horrível, embora em outro tempo estivesse
elegante, com um estilo antigo. Eu gostaria que tivesse visto
então… assim como toda a casa.
Ela deu de ombros.
— Não está tão mal. Com algumas mulheres que ajudem,
posso deixar completamente limpo em uma semana, ou talvez um
pouco mais. Diz minha avó que deveria encontrar outro caçador de
ratos, e eu estou de acordo com ela. Embora não possa entender é
o que encontram para comer estes pobres roedores. — Dirigiu-lhe
um olhar acusador. — Damon me disse que está trabalhando
muito duro. Deve acreditar que estou cega.
— Durante dez anos não trabalhei absolutamente. Sempre
encontrava alguém que o fizesse.
— Disse-me que faz tudo isso por mim. Também deve pensar
que sou estúpida.
— É uma estúpida se não acreditar no que ele disse. Que outra
razão poderia ter para fazer isso, Esme?
Ela respondeu dando de novo de ombros.
— Minha avó quer passar a noite na estalagem.

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— No Black Bramble.
— Sim. Não havia trazido suficiente comida para o jantar. Vim
para convidá-lo. Ela vai convidar também a seus irmãos.
Varian engoliu seu orgulho com amargura.
— Ali é onde pensa passar a noite?
Houve um longo silencio. Ele esperou.
Não houve resposta. Ao final, ela se dirigiu para a porta.
— Senti falta de você, carinho.
Ela se voltou de novo para ele, com olhos receosos.
— Eu… Teria gostado que você tivesse ficado.
O olhar dela posou sobre a cama e depois de novo nele.
— Disse-me que deveria ir a Londres.
— Isso não significa que não a queira! Maldita seja, Esme…! —
Varian se levantou de repente. — Eu sinto muito, tinha prometido a
mim mesmo…, mas não serve de nada, nunca serve. Por que o põe
tudo tão difícil, querida? Sei que quer me ajudar, mas… se minha
gente se inteirar de que minha mulher está trabalhando para mim,
nunca poderia olhá-los de novo no rosto. Nem poderia viver comigo
mesmo.
Ela não disse nada, só ficou olhando.
Varian olhou desconsoladamente a seu redor, enquanto sua
mente trabalhava a toda pressa para encontrar as palavras
adequadas.
— Seria uma desonra para mim — disse ele ao fim. — Maior
que a que já padeço agora. Muito maior. Sei que parece uma
tolice, mas assim é como funciona meu mundo. Pergunte a
qualquer um.
Esme ficou pensando durante um pesado e longo momento.

440
— Pergunta a qualquer um — repetiu Varian, — quando chegar
a Londres. Se um só dos membros da alta sociedade disser o
contrário, pode dizer a sua avó que a envie diretamente de volta
para cá.
Ela apertou as mãos com força sobre o regaço.
— Promete-me isso?
— Sim, prometo-lhe isso.
Ela ficou olhando um momento o imundo chão.
— Eu não gosto desse país — disse ela. — As pessoas não tem
senso comum.
— Isso é o que parece.
Ela franziu o cenho.
— Tenho um professor de dança, sabe? E uma donzela pessoal.
Pensa que não sei me vestir sozinha, de maneira que tenho que
fazer ver que assim é para não ferir seus sentimentos. Às vezes ser
uma dama é muito exaustivo, e me incomoda. Pedi desculpas a
seus irmãos por minha rudeza. Disse-lhes que tenho muito mau
caráter e que às vezes não posso me conter. — ruborizou-se e o
coração de Varian deu um desesperado tombo em resposta.
— Eu gosto de seu caráter — disse ele. — Eles também
gostam. Foi o mais excitante que aconteceu a todos nós em muitas
semanas.
— Não quero ser excitante. Não é próprio de uma dama.
— Eu a quero tal e como é.
— Cala.
— É verdade — disse ele com firmeza. — Eu a quero muito. E
pedi muito a você. Não posso ser feliz sem você, Esme.
— Eu… me alegro — disse ela. — Tem razões para ser infeliz.

441
Varian passou a seu lado e fechou a porta.
— Estão nos esperando, Varian — disse ela em voz baixa e
tremente.
— Nunca janto antes da oito.
Os olhos dele posaram sobre a andrajosa colcha. Isso era um
engano, disse a si mesmo, e ele era um egoísta e um vil. Mas
também estava desesperado.
Agarrou a Esme pela cintura, deixou-a sobre a cama e logo se
ajoelhou diante dela.
— De qualquer modo, tenho que pôr ao dia dois meses de
deveres conjugais.
Os formosos olhos de Esme se encheram de dúvidas… e
também de paixão.
Varian baixou o olhar. Podia fazê-lo melhor, disse a si mesmo.
Sabia como. Era a única coisa que sabia fazer bem.
Tirou-lhe uma delicada e elegante bota de meio cano e lhe
acariciou o pé.
— Seda — disse ele com voz suave. — Só uma concubina
poderia vestir seda nos pés. — Ficou olhando. — Já desejava você
então.
— Porque é um pícaro.
— Sim.
Varian tirou a outra bota. Logo, muito lentamente, subiu com
as mãos por sua perna e soltou a cinta-liga de renda. De novo
lentamente, baixou uma das meias. Ela dobrou os pés.
Continuando, ele soltou a outra cinta-liga e baixou a outra meia
com a mesma deliberação. Ela estremeceu.
Varian lhe acariciou as pernas nuas, subindo o vestido de

442
musselina até os joelhos. Beijou-lhe os joelhos. Varian se
embriagou de seu aroma. Seus dedos apertaram as coxas dela.
Olhou-a fixamente naqueles olhos verdes como a selva mais
profunda. Atentos. Espectadores.
Varian sentiu um calafrio. Suas mãos trementes se moveram
rapidamente até os colchetes de suas costas. E logo usou de novo
seu tempo para que seus dedos desfrutassem da pele cremosa
dela, enquanto soltava o vestido e o baixava até a cintura, para
que logo passando mais abaixo dos quadris acabasse caindo ao
chão.
Levava uma blusa de gaze, bordada com umas faixas de renda
que formavam uma tira de dobra rosa. As rosadas pontas de seus
seios estavam já duras, tremendo contra o fino tecido da blusa. Ele
começou a respirar com dificuldade.
Com os dedos rígidos, pelo esforço que fazia para não
apressar-se, Varian tirou lentamente as presilhas do cabelo.
Escorregando por seus dedos, as tranças caíram sobre os ombros.
— Granadas e pérolas — murmurou ele, com uma voz que
parecia chegar da névoa. — Quanta falta senti de vê-la. E acariciá-
la.
— Eu não senti muita falta — disse ela secamente. — Estive
muito ocupada.
Varian se deu conta de como seus seios subiam e baixavam
rapidamente.
— Mentirosa.
Ela estalou a língua. Mas seus olhos diziam muito mais que a
sua acelerada respiração. Em sua verde profundidade se podia ler o
desejo, um desejo que fazia com que lhe doesse o coração.

443
Varian tinha vontade de tombá-la na cama e possuí-la ali
mesmo, naquele momento, e deixar que a angústia que sentia se
queimasse na selvagem fúria da paixão.
Mas em lugar disso, ficou de pé, com os olhos fixos nos dela, e
tirou a roupa. O sombrio olhar de Esme percorreu toda a longitude
de seu torso, detendo-se por um momento ali onde seu desejo era
tão descaradamente evidente.
— Como pode observar — disse ele com voz rouca, — seu
marido está preparado para cumprir seus deveres.
Da garganta dela saiu um som afogado.
Varian o silenciou com um beijo rápido e apaixonado. Logo
levantou a blusa por cima da cabeça e a tirou jogando-a de lado.
— Impaciente por cumprir seus deveres — se corrigiu ele.
Ele deu uma suave cotovelada e Esme se inclinou para trás
sobre a cama. Ajoelhando-se entre as pernas dela, deitou-se em
cima, e tomou a boca em um beijo feroz e profundo que fez Esme
esmagar-se no colchão. Logo se afastou para dirigir-se a seus
seios. Ouviu como ela segurava a respiração, mas não teve pressa
em tocá-lo. Começou a acariciá-la com as mãos e logo com a
língua. Esme simplesmente aceitava suas carícias respondendo a
elas com um ligeiro ofego.
Varian ergueu a cabeça e ficou olhando. Tinha os olhos
desfocados e sonolentos, mas neles se podia distinguir um brilho.
— Esme.
— Me diga.
— Desejo você.
— Sim. Me deseje.
Fechando os olhos, ela deixou escapar um gemido gutural.

444
As mãos de Varian se fecharam sobre seus seios. Ela se moveu
sinuosamente e o mais leve dos sorrisos curvou seus lábios.
— Desejo você agora — disse ele com voz rouca.
Lentamente, ele deslizou suas mãos sobre o esbelto corpo dela
até as deixar repousar na parte baixa do ventre de Esme.
— Não. Agora não.
Ele engoliu um grunhido.
— Não, antes quer me deixar louco.
— Sim.
— Em vingança.
— Não. Sim.
— Muito bem, senhora — resmungou ele.
Voltando tomar a boca dela com beijos apaixonados, começou
a tocá-la e a acariciá-la, fazendo-a arder com sua fogosidade. Ela
deixava escapar suaves gemidos e ofegos, e se retorcia sob suas
carícias sem pressa. Mas ele sentia prazer vibrando com ela,
sentindo como aumentava a urgência dela, enquanto beijava cada
centímetro de sua pele sedosa.
Todas as habilidades que tinha chegado a aprender se
converteram em uma atormentada busca, para conseguir que Esme
se deixasse levar de uma maneira totalmente selvagem, como só
ela podia fazer, e tal e como ele desejava tê-la. Então, mesmo
quando Esme se preparou para acariciá-lo, com suas fortes mãos
apertando-o contra ela, Varian ainda queria mais. Mesmo quando
ela estava completamente enlouquecida, gemendo e rendida de
uma vez, ele seguia querendo mais. Então, quando ela apertou seu
quente e desejoso corpo contra o de Varian, suas palavras se
transbordaram: não às singelas palavras carinhosas de um amante

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experiente, a não ser duras verdades. De remorso, pena e solidão…
e algo mais. Essas últimas palavras foram as mais dolorosas de
pronunciar para ele, as palavras que lhe queimavam a garganta.
— Quero você, Esme.
Ela colocou sua boca sobre a dele, como se quisesse tragar
aquelas palavras.
— Quero você — repetiu ele.
O som daquela frase retumbou no quarto às escuras. E o disse
uma e outra vez, e aquelas palavras ficaram penduradas no ar
enquanto ele se introduzia nela…, e a levava até o êxtase…, e logo
derramava seu amor sobre os esfarrapados lençóis.

Capítulo 28

Esme estava entre os braços de seu marido, escutando sua


respiração que pouco a pouco se relaxava. Sentiu a tensão que
crescia entre eles no momento em que seus corpos começaram a
tranquilizar-se.
As palavras que ele havia dito a tinham feito sentir-se
embriagada de felicidade. Agora se dava conta de que o que tinha
ouvido não tinha sido outra coisa que a loucura da paixão. Tentava
persuadir a si mesma de que a paixão era suficiente; era um
milagre que ele ainda a desejasse, aquele homem para quem o
desejo não era mais que um capricho passageiro.
Embora ela não fosse um capricho, para ele tinha que
representar uma aberração. Não era formosa nem elegante nem
tinha nenhuma habilidade como amante. Vindo de uma etnia que
ele considerava de selvagens, ela tinha introduzido na vida de

446
Varian o que ele menos queria e mais desejava evitar: miséria,
confrontação, violência.
Tinha dado uns tropeções ao casar-se com ela sozinho porque
a luxúria o tinha feito perder a razão. Naqueles dois meses que
tinham estado separados, certamente tinha tido ocasião de pensar
melhor. Embora ela fosse sua esposa, quisesse ou não, não tinha
por que ser a mãe de seus filhos. Ele não ia sujar o nobre sangue
dos St. George com o daquela bárbara de mau caráter.
Quando lhe acariciou um ombro, ela ficou tensa.
Varian ergueu a cabeça e ficou olhando. Ela fixou o olhar no
teto.
— Esme.
— Dorme — disse ela. — Deve estar esgotado.
— Está zangada. — Suspirou. — Pensei que não perceberia.
Mas foi uma idiotice de minha parte, não foi?
— Não sei do que está falando. Durma, Varian.
— Não. Temos que discuti-lo. É algo que teríamos que ter feito
muito antes, se eu tivesse tido um mínimo de previsão. Mas não
tive.
Rodeando-a com os braços, voltou seu rosto para que o
olhasse.
— Tenho dois irmãos menores na linha de herança do título —
disse ele. — Eu sempre os considerei assim, por óbvias razões.
Você não está obrigada a me dar um herdeiro, Esme.
— Entendo. Não quer ter filhos.
— Não se trata disso. Nossa situação já é bastante difícil, quase
impossível, de fato. — Sua voz estava tensa de amargura. — Nos
contos de fadas, o príncipe e a princesa se casam e vivem felizes,

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depois de tudo. Mas eu não sou um desses príncipes de coração
puro. Tomei sua inocência sabendo que não era certo. E logo me
casei contigo, o que foi ainda mais abominável. E agora nós dois
estamos pagando por isso. Não queria que também tivesse que
pagar um menino inocente.
Ele a tinha abraçado com força, e em sua voz podia denotar a
dor tão grande que sentia. Aquelas palavras que para ele
pretendiam ser calmantes, não fizeram mais que confirmar os
temores dela. Amaldiçoou-se a si mesmo, e amaldiçoou seu desejo.
Mas aí estava ela, seu objeto de desejo, que tinha abandonado
tudo por ele, e tinha feito que sua vida fosse desagradável e
anódina. Conforme passassem os dias, sua infelicidade destruiria o
desejo que sentia por ela… e ela não teria nenhum filho. Não ficaria
nem a lembrança de sua paixão nem um menino concebido no
amor, a quem ela pudesse querer quando o pai se afastasse dela.
— Sinto muito — disse ela. — Só passamos uma noite juntos e
já causei angústia a você.
— É minha culpa. — Aproximou uma mão dela aos seus lábios.
Sua boca cálida se posou suavemente sobre os dedos de Esme. —
Não queria que visse esta desmoronada ruína em que vivo. Não
queria fazer o amor nessa habitação desmantelada.
— Não me importa onde façamos o amor, Varian. Não me
importa onde estejamos, enquanto esteja contigo. Embora seja por
pouco tempo — acrescentou ela precipitadamente.
— Mas sim lhe importam os filhos, e muito.
Sim, ela sentiu vontade de gritar; seus filhos.
— Ainda não tenho nem dezenove anos — se obrigou a
responder, em troca. — Há tempo. Muitos anos. Não me parece que

448
minha única oportunidade seja agora. — Seu coração começou a
pulsar rapidamente com ansiedade.
Ele sorriu.
— É obvio que não. É obvio que não tenho a intenção de seguir
repetindo essa experiência de contenção que me rompe os nervos
durante o resto de minha vida. Tem um grande talento para
converter as boas intenções em nada. Agir de maneira responsável
esteve a ponto de me matar.
— Não foi… a maneira mais agradável de… acabar — disse ela
sentindo que lhe ardia o rosto.
Tocou-lhe o rosto ruborizado.
— Existem outros métodos, mas são igualmente desagradáveis,
eu temo. É preciso que incomode a minha delicada flor com os
espantosos detalhes?
Ela já se sentia profundamente abalada, porque os métodos
contraceptivos pareciam um ato muito pouco natural. De qualquer
modo, era consciente de que ele estava tratando de distraí-la, de
ser amável.
— Como de espantosos? — perguntou.
Ele riu entre dentes, e quando começou a descrever os
preservativos feitos de intestino de ovelha ou de pele de pescado,
Esme riu bobamente, apesar dele.
— E prende isso com uma corda? — perguntou incrédula. —
Como? Onde?
— Não seja tola. Onde imagina?
— Não parece que seja muito cômodo. Não deveria fazê-lo,
Varian. Se prender a corda muito forte…
A gargalhada que ele soltou fez o compungido coração de Esme

449
aliviar-se. Ele foi feito para rir, para divertir e para divertir-se.
Porque aquilo o divertia, Esme o animou para que lhe contasse
tudo o que sabia a respeito: as esponjas que alguns reformadores
tinham ensinado a que utilizassem as mulheres, e as diferentes
beberagens de ervas que alguns empregavam. Também tomavam
os homens, alguns com água mel, suco ou arruda, outros com
azeite de castor. Existia um sem-fim de beberagens para tomar ou
beberagens que se aplicavam no corpo.
— Também há algumas pessoas ignorantes que pensam que
fazer o amor de maneira violenta previne a gravidez — disse ele
rindo.
— Não são muito lógicos — disse ela. — Quantos meninos
nasceram por causa de uma violação? Como podem acreditar os
civilizados ingleses nesse tipo de tolices?
— Possivelmente são ideias ilusórias. E falando disso… — A
mão dele deslizou pelas costas dela até lhe segurar o traseiro.
— Oh, Varian, não é necessário que faça ilusões!
— Mas não é o que você quer, carinho?
Suas mãos se moviam de uma maneira muito terna. Mas até a
suavidade daquela carícia era mágica, fazendo com que ela
desejasse mais, desejasse tudo.
— É a ti a quem desejo — disse ela.
Necessitava dele. Mas sabia que havia algo mais que o desejo
de seus corpos. Ela queria tudo o que ele significava: seu
depravado encanto, sua desalinhada elegância, sua risada fácil…,
seus pecados e as sombras que obscureciam sua alma. E também
seu dom diabólico, que era uma armadilha, na certa, para uma
mulher. Embora ela estivesse contente de estar preso nessa

450
armadilha. Tinha-lhe ensinado o que era o prazer, e sua elegância
havia tocado sua endurecida alma de guerreira, e a tinha feito
arder com sonhos e delícias.
Ela queria tudo o que ele significava e queria ser sua por
inteiro. Quando ele estava dentro dela, durante aqueles longos
momentos de união, Esme podia chegar a acreditar que assim era,
eternamente assim. Mas sabia que não tinha direito a desejá-lo
para sempre. Mas pelo menos tinha esses momentos.
— Me faça o amor, Varian — sussurrou ela. — Me faça o amor
dessa formosa maneira que você sabe.

Ninguém os incomodou. Outros, ao que parecia, cansaram-


se de esperar e tinham ido sozinhos ao Black Bramble. A casa
estava em silêncio e a noite já tinha caído. Na escuridão, Varian fez
o amor com sua esposa uma vez mais. Depois, não querendo
desperdiçar dormindo as preciosas horas que estariam juntos,
ficaram a conversar.
Esme falou de seu professor de dança, de seu cabeleireiro e de
sua costureira, e do Percival, que sempre estava necessitado de
alguém que o apoiasse. Embora as histórias que contava o faziam
rir, também doíam por dentro. Deveria ter sido seu marido, não seu
primo pequeno, quem praticasse com Esme os passos de dança.
Teria que ter sido com Varian que se queixasse das presilhas do
cabelo e dos espartilhos, e Varian tinha que ter sido quem lhe
explicasse a complexidade da etiqueta na Inglaterra.
Ao menos, consolou a si mesmo enquanto se deitava a seu
lado, ela estava ali para lhe contar aquelas coisas. Ao menos, ele
podia desfrutar na escuridão de sua voz de ligeiro acento

451
estrangeiro. Tinha sentido falta daquela voz, como tinha sentido
falta da tumultuosa intensidade de sua presença. Deveria estar
contente de poder passar a noite com ela, mas em algum momento
para a meia-noite se deu conta de que tinha deixado a Esme sem
jantar.
Deu-lhe sua camisa para que vestisse, colocou as calças e
pegou um abajur de azeite, pois naquele momento as velas eram
um luxo. À luz amarela e fumegante do abajur a acompanhou até a
cozinha. Ali deram boa conta dos restos da comida que a nobre
viúva havia trazido para a viagem. Prepararam um jantar
improvisado e se sentaram no chão diante da chaminé. Enquanto
comiam, Varian começou a contar o que estava fazendo naqueles
dias. Embora os detalhes dos acertos da desmantelada fazenda
eram aborrecidos, se não mortificantes, deu-se conta de que se
sentia muito melhor depois de contar-lhe. Tratando de proteger a
Esme da verdade, durante aqueles últimos meses, só o que tinha
conseguido era que ela se sentisse rechaçada.
Olhando o rosto dela enquanto falavam, Varian se deu conta de
como ia desaparecendo sua infelicidade, e ele mesmo começou a se
sentir melhor. Mais tarde, quando subiam juntos as escadas para o
quarto, agradeceu com sua maneira tão pessoal.
— Agradeço que me tenha contado todas essas coisas — disse
enquanto entravam no quarto. — Eu gosto de suas cartas com suas
histórias divertidas e seus inteligentes disparates, mas também
quero saber quais são seus problemas. — Olhou-o aos olhos. —
Nunca antes tinha tido uma esposa e por isso está confundido, mas
eu vou explicar isso. Uma esposa não é uma concubina, só para
divertir e para o prazer. Com uma esposa pode discutir e queixar-

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se, e aliviar seu coração assim como seu corpo.
Ele fechou a porta.
— Muito bem. Qualquer outra carta que eu envie a partir de
agora não vai conter nada mais que minhas queixas. Mas você tem
que fazer o mesmo. Porque não conta nada em suas cartas, sabe?
— repreendeu-a ele.
— Porque não há quem possa decifrar minha letra. Jason dizia
que ele podia escrever com os pés com melhor letra que eu.
— Não tenho problemas para decifrá-la. E se quer saber minha
feia verdade você tem que fazer o mesmo. Espero que me envie
longas e detalhadas cartas de Londres. Assim terá que afastar-se
de quem paquere você, ao menos o tempo necessário para poder
alardear deles.
Franzindo o sobrecenho, ela se virou sobre a cama.
— Não sei se poderia paquerar absolutamente. Ninguém disse-
me como fazê-lo. Ensinaram-me a dançar e a comer com vinte
colheres diferentes, e o que dizer isso ou aquilo. Mas ninguém me
ensinou a paquerar.
— Nem sequer o sabichão do Percival? — virou-se a seu lado
na cama e arrumou os travesseiros para que Esme pudesse
recostar-se comodamente. — Então foi uma boa ideia que viesse
primeiro a Mount Eden, querida. Essa noite aprenderá de um
professor.

No dia seguinte, à hora que a carruagem de lady Brentmor


abandonava Mount Eden, sir Gerald Brentmor andava um lado para
outro em seu escritório, doente de ansiedade.
Assim que compreendeu que a rainha negra estava em casa de

453
sua mãe, ofereceu-se para ir recuperá-la. E também se ofereceu
para levar com ele o desconfiado Ismal.
— Espero que não pense que pode me tirar o sarro — tinha
respondido Ismal amigavelmente. — Há quase três dias de viagem
de Londres até a casa de sua mãe. Poderia escapar de mim pelo
caminho, recolher a rainha negra e partir para o estrangeiro. Isso
suporia um risco estúpido e desnecessário. Não, sir Gerald, você
ficará comigo em Londres e faremos com que a rainha negra venha
até nós.
Depois de uma conversa decepcionante, sir Gerald foi obrigado
a lhe mostrar um convite da senhora Stockwell-Hume, a amiga
mais íntima de sua mãe. Ismal tinha imitado sua pulcra e bela
caligrafia, mas o conteúdo da carta que enviou à avó não podia ter
sido melhor calculado, pois sua intenção era que a nobre viúva
fosse para Londres imediatamente.
Não houve maneira de convencer ao Ismal de que não tinham
a segurança de que a rainha negra viajasse com eles a Londres,
porque pelo que eles sabiam, Percival ou Esme, qualquer dos dois
que a tivesse em seu poder poderiam tê-la enterrado em Corfú ou
no jardim da casa da avó.
— Na noite que chegarem disporemos de várias horas para
memorizar a casa — replicou Ismal, — porque verá como os
serviçais ficarão adormecidos em seguida por causa de um
narcótico. Se não encontrarmos a rainha, asseguro-lhe que terá
que nos compensar de alguma outra maneira. Existem várias
alternativas, sir Gerald. E todas, lamento ter que dizê-lo, serão
muito mais perigosas para você que esse singelo assunto de
encontrar a rainha negra.

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O barão se deteve em meio da sala e ficou olhando
desesperado o jogo de xadrez. O resto parecia estar assegurado.
Tinha extorquido suficientes homens e mulheres para saber que a
chantagem não terminava nunca. Mas mesmo assim, estava seguro
de que inclusive uma cópia da carta do Bridgeburton poderia
destruí-lo. Somente aquelas palavras já diziam o bastante para pôr
em marcha uma investigação… ao final da qual haveria uma corda
ao redor de seu pescoço.
Tirou seu relógio de bolso. Era uma em ponto. Sua mãe lhe
tinha escrito que chegaria antes do anoitecer. O tempo corria
depressa, e ainda não tinha lhe ocorrido a maneira de escapar das
intrincadas redes de Ismal. Nem sequer podia sair de sua casa.
Cada vez que tinha tentado, um robusto guardião se havia
interposto em seu caminho. Não tinha sentido tratar de explicar
que tinha entrevistas de negócios que atender. Aquele bruto não
falava inglês e só sabia cinco palavras que, evidentemente, tinha
aprendido de cor:
— Volte para casa, por favor.
Aquele homem estava sempre de guarda, fosse na primeira
hora da manhã como durante a noite. Sir Gerald ao final se deu por
vencido.
Deixando escapar um lastimável suspiro, sentou-se à mesa,
junto ao jogo de xadrez. Ismal se tinha introduzido em sua casa
quando todo o serviço estava dormindo. Havia dito que tinha vindo
para conversar. E para jogar xadrez. Tinham jogado uma partida
cada noite, e cada noite Ismal tinha ganhado. Era muito bom
jogador. Quase se podia imaginar que era capaz de ler a mente de
seu oponente.

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Jason tinha uma maneira de jogar muito parecida, lembrou-se
sir Gerald. Aterradoramente perspicaz; exceto, é obvio, em uma
ocasião, quase um quarto de século antes.
Mas se seu fantasma estava por ali, deveria estar agora ao
redor dele. Aquilo devia parecer uma perfeita vingança: sir Gerald
tinha suportado já seis dias de purgatório e ainda ficava por
suportar o inferno.
Agarrando a humilde substituta da rainha negra, amaldiçoou a
si mesmo no momento de pânico no qual tinha decidido dar o
original ao Risto. Se não tivesse sido por isso, agora mesmo
poderia ter vendido aquele jogo de xadrez, e ao menos teria podido
dispor de cinco mil libras para começar uma nova vida no
estrangeiro.
Se sobrevivesse naquela noite, teria que partir da Inglaterra
com apenas nada. Seus patrícios em seguida o teriam por um
assassino e um traidor. Aquilo possivelmente acabaria com a vida
de sua mãe. Isso seria de muito pouco consolo, já que não ia poder
colocar as mãos em seu dinheiro. A família ficaria desonrada, até
mesmo Edenmont, já que tinha se casado com um membro da
família. Sir Gerald meneou a cabeça. Esse era outro pobre consolo.
Edenmont tinha estado fazendo um bom papel de santarrão,
obviamente para ganhar o favor da nobre viúva. Depois de negar
um pequeno crédito a seu próprio filho, a anciã tinha começado a
dilapidar a fortuna na pequena puta bárbara e sem educação que
tinha por neta. Oh, sim! Jason estaria se divertindo muito em sua
tumba. Todos os esforços que tinha feito Gerald para separar da
família à ovelha negra não tinham servido para nada. Os
descendentes de Jason: Percival e aquela pequena vagabunda,

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junto com o dissoluto barão ficariam com todo o dinheiro da nobre
viúva.
— Ria quanto quiser, sujo bastardo — grunhiu sir Gerald. —
Sempre teve tudo: boa presença, inteligência, encanto. E todas as
mulheres, todas. Tinha montões de mulheres a seus pés, mas
também queria ter a ela. Mesmo quando já era minha, teve-a e ela
deu a luz a seu filho bastardo.
Por mais baixo que tivesse falado, aquelas palavras pareceram
ressonar como um eco pela habitação em silêncio. Estava falando
sozinho. Pior ainda, estava falando com um morto.
Com mãos trêmulas, sir Gerald deixou a rainha em seu lugar.
Mas ainda não estava acabado, disse a si mesmo. Tinha sido um
bom competidor de seu irmão quando ele tinha a idade do Ismal. E
agora Jason estava ardendo no inferno, onde só o diabo ri.
Tinha que acalmar-se e concentrar-se nas prioridades. E a
maior nesse momento era sair daquela derrota com vida.
Sentou-se olhando o jogo de xadrez, com a cabeça trabalhando
a toda velocidade, até as quatro em ponto, hora em que o
mordomo anunciou que a carruagem de lady Brentmor acabava de
chegar.
Às cinco em ponto, o baronet se encerrou com sua mãe em seu
escritório.

— Alguém poderia nos ver — objetou Percival.


Esme olhou ao redor no pequeno jardim que cercava a casa de
sir Gerald.
— Não daqui de fora, a menos que possam ver através das
paredes. E todos os criados que estão dentro, estão muito

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ocupados — disse ela tirando os sapatos.
— Não poderá ficar de pé no batente. Eu já o tentei antes. Não
conseguirá manter o equilíbrio. É muito estreito.
— Conseguirei se subir em seus ombros.
— Não poderá ouvir muito mais do que ouviríamos de dentro,
estão com as janelas fechadas.
— Não totalmente.
Dando uns passos para trás, Percival olhou para cima. Apesar
das cortinas estavam fechadas, a janela estava ligeiramente
entreaberta. Fazendo uma careta, voltou de novo ao lado de Esme,
entrelaçou as mãos e se inclinou a seu lado para ajudá-la a subir.
— Não vai nos descobrir — prometeu ela enquanto apoiava um
pé nas mãos de seu primo. — Tem que confiar em mim.

Ismal não precisava ver através das paredes. Somente tinha


que olhar através de uma pequena fresta da porta do pátio.
Sorrindo, voltou-se para Risto.
— Está espiando o seu tio com a ajuda de seu primo. Esta
garota é muito divertida.
Risto franziu o cenho.
— Não vai ser nada divertido se chamar a atenção através da
janela. E se guardou em uma caixa de segurança a peça de xadrez?
— Então sir Gerald poderá ver isso quando todos estiverem
dormindo — foi a resposta de seu amo.
— Não gosto nada disso. A velha trouxe muitos criados com
ela.
— E todos vão comer e beber assim como seus amos. Os mais
gulosos ficarão adormecidos em seguida. E outros terão a cabeça

458
muito embotada para pensar. Enquanto isso, atuaremos nós, tão
silencioso e rapidamente como a morte.

— Tinha que ter pensado melhor antes — disse a anciã com


frieza. — Teve montões de ocasiões para ser amável com a garota.
Mas a deixou abandonada em uma ilha perdida e veio para casa
com a intenção de envenenar minha mente contra ela. Não é que
isso me surpreenda. Sempre sentiu ressentimentos por tudo o que
tinha a ver com o Jason. Sempre teve ciúmes dele.
Ela tinha sentado na poltrona grande que havia atrás da
escrivaninha. Sir Gerald estava de pé, ao lado da mesa de xadrez.
Acabava de erguer a taça de vinho para levar à boca. E nesse
momento se deteve.
— Sim, ciumento. Mas eu não fui o único que convenceu o
papai de que tinha que deserdá-lo. Nem fui o único que convenceu
a Diana para que rompesse seu compromisso com ele.
— Eu o fiz pelo bem dela, e o resto foi pelo bem da família.
Teria nos levado a ruína.
— Fez para castigá-lo, porque seu precioso menino não queria
fazer o que tinha planejado para ele. Havia me dito que voltou
arrastando-se até você, pedindo perdão, prometendo que ia ser um
bom menino. Mas não o fez e agora está morto. E você não
aprendeu nada.
— Aprendi que voltar ao passado não conduz a nada. —
Olhando-o com desagrado, tomou um gole de vinho. — E isso não
vai fazê-lo ganhar meu favor, Gerald.
Ele deixou lentamente sua taça sobre a mesa.
— Nunca ganhei nem um só favor seu em toda minha vida,

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apesar de que sempre fiz o que você queria. Me dedicar aos
negócios enquanto você preparava uma carreira parlamentar para
o Jason e buscava por esposa à filha de um conde, e ficar com ela
quando ele partiu. Ficar com Diana e ter que me casar com ela ao
final, porque não se preocupou por me buscar algo melhor. E
sempre mantive a boca fechada a respeito de suas infidelidades,
até da mais intolerável de todas.
— Ela nunca foi infiel — falou a anciã. — Você a fez
desgraçada, mas ela aguentava tudo, apesar de dizer-lhe que não
era necessário que o fizesse.
— Sim que o aguentava, sim, mamãe. E me fez manter o filho
bastardo de meu irmão…
— Nunca acreditei nisso. — Lady Brentmor meneou a cabeça.
— Faz muito tempo que aprendi a não acreditar em nada do que
me conte. Sempre está acusando a outros de seus problemas.
Agora joga a culpa de tudo em algo que aconteceu faz vinte e cinco
anos?
Seu filho se aproximou e se inclinou sobre a escrivaninha.
— É você que está removendo o passado. Empenhada em
manter a filha de Jason com você quando seu lugar é estar ao lado
de seu marido.
— Ele não pode mantê-la. Está quase totalmente arruinado.
— E você se encarregará de que continue estando, não é
verdade? Não quero nem saber como vai conseguir. Não me diga
que Percival não disse nada a eles da peça de xadrez. Ele sabia do
testamento de Diana antes que eu me inteirasse, não me cabe
nenhuma dúvida. Havia poucos segredos que não contasse ao
menino. Pode ser que só um — acrescentou ele com amargura.

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— Edenmont não sabe nada do jogo de xadrez, e isso vai
seguir sendo assim. — Nos olhos dela brilhou uma advertência. —
Não tem sentido lhe contar nada, já que isso não ia fazer nenhum
bem a ele.
— É obvio que não — replicou sir Gerald. — Não mas bem do
que me faz, com uma peça perdida.
Ele se deixou cair em uma cadeira ao lado da mesa de xadrez.
— Também poderia deixar que ele a tivesse. Ao menos desse
modo eu não seria responsável pela maldita peça.
— Você não vai fazer nada a respeito. Esse assunto eu o
dirigirei da minha maneira.
Ele olhou para outro lado, para que ela não pudesse ver o
triunfo em seu rosto. Já tinha dito tudo o que ele queria saber.
Estava tão decidida que a filha de Jason ficasse com ela que não
entregaria a Esme o dote que Edenmont necessitava tão
desesperadamente. Mas por que ia se preocupar com isso a velha
bruxa, quando o jogo tinha muito menos valor com uma peça
faltando? Preocupava-lhe, respondeu-se ele, porque ela sabia que a
rainha negra não tinha desaparecido. Tinha-a ela, ou ao menos
sabia onde estava. E essa era a razão pela qual ainda não tinha
pedido o jogo de xadrez. E essa era a única razão pela qual não ia
deixar que ela o desse agora a Esme. Egoísta e desumana velha
bruxa.
— Sei quais são suas intenções — disse ele. — Manter-nos a
todos bem amarrados, como se fôssemos bonecos, nas correias de
sua bolsa. Mas não a mim, já não, querida mamãe. Estou
arruinado, já não tenho nada que perder.
Ela entreabriu os olhos.

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— Espero que não esteja me ameaçando.
Sir Gerald agarrou a rainha negra substituta.
— Acredito que minha sobrinha deveria saber a verdade.
— Quer dizer sua retorcida versão da mesma. Não acreditará
em você.
— Pode ser que não — disse ele sorrindo à peça de xadrez. —
Mas isso não importa absolutamente. Como já disse, não tenho
nada a perder.
Lady Brentmor deixou sua taça na escrivaninha e entrelaçou as
mãos apoiando-as sobre ela.
— Já supunha que estava tramando algo. Quanto quer?

Embora tivesse estado falando em voz baixa, Esme tinha


ouvido tudo o que precisava saber: quem não queria dar seu dote
era sua avó, e todas aquelas advertências a respeito de sir Gerald
não eram nada mais que mentiras. A razão era óbvia. Esme se
casou com um homem que não contava com a aprovação de lady
Brentmor. Dado que a obstinada anciã não podia dissolver o
matrimônio, estava tentando uma segunda opção. Pensava que
possivelmente Edenmont poderia conduzir-se a uma morte
prematura ou chegar a um dos inesperados finais dos quais
estavam acostumados a se orgulhar os homens que viviam ao
limite. A nobre viúva se divertiu vendo os esforços que estava
fazendo Varian para reconstruir os restos de sua herança.
Por sorte, Percival não tinha ouvido nada. E pareceu dar-se por
satisfeito com o breve resumo que Esme lhe fez, de uma vez que
aparentava estar zangada.
— Ele só quer dinheiro — disse ela. — E ao final a avó esteve

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de acordo em lhe dar um pouco.
— Como deveria ter feito desde o começo.
Esfregando as costas, Percival caminhou cambaleante para o
estreito terraço que dava ao salão da casa e se desabou sobre um
banco.
Esme se sentou ao seu lado e começou a lhe dar uma
massagem nos ombros doloridos.
— Pergunto-me por que não tentou suborná-lo. Havia me dito
que estava desesperado por conseguir dinheiro. Mas imagino que o
suborno vai contra seus princípios.
Percival franziu o sobrecenho.
— Eu não estaria tão seguro…, nunca se pode estar seguro do
que pensa a avó… ou papai. — Seu olhar preocupado se cruzou
com o de Esme. — Nenhum dos dois falou do jogo de xadrez?
Estava aí, bem diante de seus narizes. Vi-o quando o criado entrou
com o vinho.
— Pode ser que tivessem falado disso antes que eu aparecesse
à janela — respondeu Esme com calma.
Esme tinha vontade de partir dali para pensar. Por outra parte,
supunha que Percival sabia mais dos segredos dos mais velhos do
que deixava ver. Desde que tinham chegado a Londres o via muito
inquieto.
— Não tem importância — disse ele. — A avó não devolverá
nunca a rainha negra. Se o tivesse feito, papai já teria vendido o
jogo de xadrez.
— E o que seja legalmente meu não o deteria.
— Não, quando significa tanto dinheiro. Levaria o dinheiro e
diria que o tinham roubado ou algo pelo estilo e… — Ruborizado,

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Percival acrescentou com pressa: — Mas ele não tem a rainha, de
modo que o jogo está completamente a salvo, e espero que a avó
não diga que a tem até que não esteja segura de que ele não pode
se apoderar do jogo.
As mãos de Esme se detiveram.
— Sim, suponho que a terá escondido em um lugar muito
seguro. Em algum lugar na casa de campo.
— Oh, sim, sim, é obvio! Está a muitas milhas daqui. Bem a
salvo das mãos de papai — foi a precipitada resposta dele.
Muito precipitada. O pobre menino sabia que não estava a
milhas dali. E agora também ela sabia. Esme ficou de pé com uma
expressão no rosto que não revelava nada mais que afeto por seu
primo.
— Então não temos que nos preocupar com nada — disse ela.
Percival ficou olhando seus sapatos.
— É obvio que não. Não temos que nos preocupar com nada
absolutamente.

Capítulo 29

— O cozinheiro vai ficar triste —disse sir Gerald a sua sobrinha.


— Não comeu mais que uma colherada de seu famoso doce de
leite. Ou acaso parecia ter muito licor? Também me parecia isso,
mas eu nunca fui muito guloso.
No instante em que Esme tinha entrado em sua casa de
Londres, sir Gerald tinha estado asquerosamente amável, e muito
mais depois de ter se reunido com sua mãe. Certamente lhe pagou
generosamente, pensou Esme.

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A jovem esboçou um sorriso de desculpa.
— Eu gosto muito de doce de leite, tio, e espero que diga a seu
cozinheiro que é o melhor que já provei. Todos os pratos foram
deliciosos. Mas tenho uma dor de cabeça que me tirou o apetite.
Amanhã estarei bem e poderei contentar ao cozinheiro.
Percival olhou ofegante a sobremesa dela.
— Não fique olhando como um cachorrinho faminto — disse sua
avó. — Pode comer também sua sobremesa. Já acabou com cada
um de seus pratos.
Certamente, Percival tinha comido tanto como se fossem
enforcar-lo na manhã seguinte. Pelo menos tinha devorado duas
enormes porções de cada prato, e ainda deu conta de tudo o que
Esme deixou. Ela sentia que seu apetite aumentava na proporção
de sua ansiedade. Sua consciência estava lhe causando problemas.
Como tinha que ser.
Sir Gerald dirigiu um paternal olhar de aprovação a seu filho.
— Depois de tudo, o menino está em idade de crescer.
O menino em idade de crescer piscou ao ver a afetação
paternal e no momento se apoderou da sobremesa de Esme e um
segundo depois deu boa conta dele.
O olhar amável de sir Gerald voltou a posar-se em Esme.
— Lamento que não esteja bem. As dores de cabeça podem ser
terríveis. Eu também as padeço às vezes. Quer que eu dê um
pouco de láudano?
Esme aceitou sua oferta e após um momento se desculpou e
se levantou da mesa.
Enquanto os outros se reuniam no salão para tomar o chá, ela
subiu e fez uma rápida inspeção no dormitório de sua avó. Tendo

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refletido já a respeito da situação, não perdeu muito tempo. Ou a
peça de xadrez estava em cima guardada pela anciã, ou estaria
escondida onde nem sequer os criados pudessem topar-se com ela,
mesmo querer. O que significava que devia tê-la escondido em um
lugar que não fosse limpo diariamente. E tampouco estaria em um
lugar com fechadura, como uma gaveta ou um joalheiro, porque
alguém poderia roubar a chave. E não havia lugar mais óbvio que
debaixo da cama.
Esme só levou uns minutos para encontrar a pequena caixa
escondida em um canto debaixo do colchão. Assegurou-se de que a
peça estivesse realmente ali dentro antes de deixar a caixa em seu
lugar. Não se atreveu a roubá-la nesse momento. Certamente a
anciã comprovaria se estava ali antes de ir para a cama. Para Esme
bastava no momento saber onde estava a peça.
Saiu rapidamente do quarto, e chegou a seu dormitório antes
que se apresentasse Molly trazendo uma pequena jarra de
limonada e a garrafa de láudano.
A donzela parecia tão lenta e atordoada que Esme se
perguntou se teria estado bebendo. Não que isso importasse para
Esme. Ficou muito contente de ver que sua sonolenta donzela
desaparecia logo que preparou a cama de sua senhora.
Quando Molly se foi, Esme esvaziou toda a jarra de limonada e
uma pequena porção de láudano no urinol. Se alguém olhasse ali,
pareceria que tomou o remédio como uma boa menina. Abriu a
porta um pouco, meteu-se na cama e se dispôs a esperar.
Depois do que lhe pareceu muitas horas, ouviu o Percival
resmungando algo ao criado que o acompanhava. Mais tarde,
resmungava lady Brentmor passando diante de sua porta. Um

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pouco depois, ouviu a voz de seu tio. Certamente tinha se detido só
para dar a boa noite a sua mãe, porque no momento ouviu seus
passos leves enquanto se aproximava de seu próprio quarto, a
qual, graças a Deus, estava na outra ala do edifício.
Esme seguiu esperando, apesar de que a casa ficar no silêncio.
Pareceu-lhe que tinha esperado várias horas mais, mas quando
soou o relógio da sala a surpreendeu contar só dez badaladas.
Era estranho que todos estivessem deitados já há uma hora tão
cedo. No campo, sua anciã avó poucas vezes se retirava antes da
meia-noite, e os criados sempre ficavam acordados ainda um pouco
mais.
Então Esme se lembrou de que o criado que tinha servido a
comida parecia tão sonolento como Molly. Sir Gerald tinha dado um
festim para jantar, para celebrar a chegada de sua sobrinha, havia
dito. Evidentemente, os criados também tinham decidido celebrá-
lo. Não é que tivessem que beber muito, se é que tinham comido
bastante doce de leite. Tinha muito mais licor que qualquer doce de
leite que tivesse provado antes. Possivelmente até Percival estaria
bêbado depois das três porções que tinha devorado, mais o copo de
vinho que seu pai lhe tinha permitido tomar naquela noite.
Muito melhor, pensou Esme, enquanto se levantava da cama e
colocava de novo o vestido. A família dormiria profundamente por
seu abuso de comida. Isso não só tornaria mais fácil sua tarefa,
mas até ajudaria a começar antes.
Esme abriu a porta completamente e ficou escutando. A casa
estava totalmente em silêncio.
Saiu para o corredor com passo cauteloso e abriu primeiro a
porta do dormitório de Percival. Não ouviu ranger a cama, só o som

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de uma respiração monótona. À luz da lua, viu suas calças e sua
camisa cuidadosamente dobradas sobre uma cadeira. Depois de
refletir um momento, entrou no quarto, pegou a roupa de seu
primo e voltou a sair depressa, fechando a porta atrás dela sem
fazer ruído.
O quarto de sua avó estava tão em silêncio como a de Percival.
Da cama chegou o monótono som de seus roncos. Esme ficou de
cócoras, aproximou-se da cama, tirou a caixa com a rainha negra,
extraiu a peça de xadrez e voltou a deixar a caixa em seu
esconderijo.
Em menos de um minuto, já estava de volta a seu quarto.
Depois de tampar a greta debaixo da porta com um travesseiro,
acendeu uma vela. Embora tivesse poucas coisas para empacotar,
não queria ter que fazê-lo às escuras.
Com mãos firmes, prendeu o cabelo com umas agulhas e o
penteou em forma de coque ao redor da cabeça. Logo vestiu as
calças e a camisa de Percival, desejando ter trazido as suas. Aquela
roupa ficava bastante pequena, e muito mais ajustada do que teria
desejado. De qualquer modo, era preferível a usar um vestido. Na
Inglaterra, as mulheres só eram objeto de todo tipo de incômodo.
Em pouco tempo já tinha a bagagem feita. O pequeno pacote
de roupa cabia perfeitamente em um xale. Enrolou a rainha e
várias agulhas de cabelo em um lenço e o guardou no cinto das
calças. Depois de colocar os travesseiros debaixo dos lençóis de
maneira que parecesse um corpo dormindo, apagou a vela. Após
um momento, já estava descendo pelas escadas, com as botas em
uma mão e o pacote de roupa na outra.
Apesar da escuridão e de estar em uma casa desconhecida,

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não ia ser difícil encontrar a porta do escritório. Era a única que
Esme esperava achar fechada com chave. Percival tinha contado
que o escritório dos Brentmor tinha sido construído como uma
câmara blindada, com paredes e portas de dupla grossura. Quando
ela e Percival haviam tentando escutar de dentro da casa através
da porta, não tinham sido capazes de distinguir nada mais que um
murmúrio, mesmo com as orelhas coladas à porta ou à parede da
sala contígua. Se a janela do escritório estivesse perfeitamente
fechada, Esme jamais teria descoberto a malvada e egoísta que era
sua avó.
Esme se ajoelhou frente a porta do escritório e não sentiu
nenhum pingo de escrúpulos ou dor na consciência. O jogo de
xadrez era seu com todo direito. Logo poderia pôr nas mãos de
Varian. Então averiguaria por fim se o que o separava dela era
somente sua pobreza. Se a verdade resultava ser mais dolorosa,
suportaria. Sempre era melhor saber a verdade.
Finalmente a fechadura cedeu. Esme abriu a porta e… ficou
paralisada, com os dedos ainda segurando a maçaneta. Havia luz
na sala.
Mas uma rápida olhada lhe assegurou de que não havia
ninguém dentro. Deixaram as velas acesas, isso era tudo.
Perguntou-se se isso seria só esquecimento dos bêbados criados.
Esme ficou olhando a porta durante um momento, logo a
fechou de novo. Sim, era igual à da casa de campo: a parte baixa
da porta encaixava perfeitamente contra o chão. Não era estranho
que não tivesse visto a luz. Mas que pouco cuidadoso tinha sido seu
tio ao deixar as velas acesas em uma sala fechada. A casa podia ter
ardido até os alicerces… a menos que tivesse previsto retornar ali

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em seguida.
Pensou que, se fosse isso, o ouviria chegar. Tratava-se de um
homem grande com uma pegada firme. Deixando a porta
entreaberta, aproximou-se do jogo de xadrez.
Abriu o xale e começou a meter nele as peças, escondendo-as
entre os diversos objetos de roupa. Não queria que uma só delas
pudesse danificar-se. Estava a ponto de voltar a amarrar o xale
quando se lembrou da rainha negra, que tinha guardado em um
lenço no cinto das calças junto com as agulhas de cabelo.
Quando estava desembrulhando a peça, uma das pedras da
base se enganchou no tecido do lenço. Soltou-a com muito cuidado.
Mas De qualquer modo parecia que tinha se quebrado, pois a base
se afrouxou.
Engolindo uma maldição, aproximou a rainha à luz da vela.
Ficou ali um momento, observando-a com o cenho franzido,
enquanto via algo que pareciam ser fios entre o metal. Fez girar a
base e esta se desenrolou suavemente.
Muito inteligente, pensou. Nunca teria imaginado que a rainha
estava construída em duas peças. Perguntando-se para que a
teriam feito assim, deu uma volta. Estava oca. Ou estaria, se não
contivesse um pedaço de papel enrolado naquela cavidade.
Mesmo dizendo a si mesma que não tinha tempo a perder
bisbilhotando, acabou tirando o papel e desenrolando-o. Logo ficou
olhando as quatro linhas com perplexidade.
Não era possível, disse a si mesma. Mas mesmo sendo
possível, aquilo não tinha nenhum sentido.
Levantou o olhar do papel e ficou escutando um momento. A
casa estava tão silenciosa como uma cripta, e ela só precisou de

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um ou dois minutos para descobrir se era certo o que estava
começando a suspeitar.
Aproximando-se da escrivaninha, encontrou um lápis e um
papel, e em seguida começou a substituir as letras por suas
equivalentes, como Jason lhe tinha ensinado a fazer anos atrás.
Aquele código tinha sido um dos jogos que tinha ensinado seu pai
para que suas aulas de latim fossem mais agradáveis. Jason tinha
aprendido aquele jogo de seu tutor, quando era um moço.
Esme se deu conta de que se tratava do mesmo jogo, pois as
letras acabaram formando umas poucas palavras de um latim sem
gramática:

Navis oneraria
Regina media nox
Novus November Preveza
Teli incendere M