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ATMA-DARSHAN—SRI ATMANANDA KRISHNA MENON

1. ADVAITA

I. Jivas, tais quais ondas no oceano, vêm à existência, erguem-se e tombam, lutam
uns contra os outros e morrem.

II. Golpeando a beira-mar, ondas recuam, cansadas e desgastadas, à procura de


repouso e paz. Similarmente, Jivas procuram o Supremo de várias formas.

III. Ondas têm seu nascimento, vida e morte no próprio oceano; Jivas, no Senhor.

IV. Ondas nada são além de água. Assim é o oceano. Da mesma forma, o Jiva e o
Senhor nada são além de Sat, Chit e Ananda.

V. Quando ondas percebem que o mar é sua base comum, toda luta termina.

VI. Muito não é obtido assim. Não é a palavra final. Encontra-se adiante trabalho
para remover o senso de separação.

VII. Quando a água é reconhecida, onda e oceano desaparecem. O que aparecia


como dois é então percebido como um.

VIII. A água pode ser alcançada imediatamente, a partir da onda, ao se seguir o


caminho direto. Caso assumido o caminho pelo oceano, precisa-se de muito mais
tempo.

2. PERGUNTAS A RESPEITO DAS

CAUSAS DO MUNDO – SEM SENTIDO

I. Nenhum questionamento se mantém a respeito do tempo, espaço e causa das


origens deste mundo, pois são estes, eles mesmos, partes deste mundo.

II. A pergunta procura uma explicação do todo em termos de suas partes. Isso
jamais pode ser um questionamento lógico.

III. A pergunta acerca de quem sobrepõe autoria a alguém também não é uma
questão apropriada. O ato em si de sobrepor pressupõe um autor. Por
conseguinte, essa pergunta é também ilógica.

3. MENTE E PURO SATVA

I. Consciência direcionada a objetos é mente. Aquilo que se volta ao Ser é Satva.


II. É da opinião do sábio que a mente é avidya, e puro Satva, vidya. Somente vidya
é meio de liberação.

III. O caminho de avidya leva à servidão. Assim, o aspirante tem que seguir o
caminho de vidya para a liberação.

IV. Para eterna paz, esforço persistente é necessário até a iluminação.

4. DIFERENTES ESTÁGIOS DA ILUMINAÇÃO

I. Aquele cuja mente está fascinada pela beleza de uma imagem, esculpida em um
pedaço de rocha, esquece até mesmo que a rocha é a base da imagem.

II. Quando ele se ergue acima desta fascinação e olha a imagem, ele vê a base;
rocha, que dá suporte à imagem.

III. Quando a rocha aí recebe atenção, ela—a rocha—é vista também na imagem,
e em seguida a imagem é vista como nada além de rocha.

IV. A iluminação da verdade também vem desta maneira. A Consciência torna-se


ofuscada sobretudo pelo fascínio e pelo interesse persistente em objetos
externos.

V. Quando é superado esse interesse e se olha para os objetos, se descobrirá que


eles surgem e permanecem tão somente na Consciência.

VI. Quando a Consciência começa aí a receber a devida atenção, ela torna-se


revelada também nos objetos, e eles mesmos, a seu tempo, ficarão transformados
em Consciência.

VII. É o reconhecimento, de si mesmo e do mundo, como uma só Consciência, o


que se conhece por realização da Verdade.

5. SONO PROFUNDO, NIRVIKALPA SAMADHI

E ESTADO NATURAL

I. É na Consciência que os objetos surgem. Assim, quando eles desaparecem o que


permanece é essa Consciência, e não a inexistência.

II. Se essa verdade aprofunda suas raízes no pensamento, o sono profundo –


abandonando o seu caráter de velar a Realidade – vê-se transformado em
nirvikalpa samadhi.
III. Quando os objetos também passam a ser percebidos como nada além de
Consciência, retorna-se à verdadeira natureza que é imutável e além de todos os
estados, inclusive nirvikalpa samadhi.

6. A TESTEMUNHA DO JIVA

I. Apenas o que foi percebido anteriormente pode vir à memória. O “Eu”


personificado que percebeu, fez ou desfrutou de algo, também vem, por vezes, à
memória. Disso segue que o “Eu” personificado foi testemunhado por outro
“Princípio Eu” ao tempo dessa percepção, ação ou desfrute.

II. É esse “Eu” testemunhante que é o “Eu” real. Ao se fixar a atenção e se


estabilizar nele, fica-se livre do cativeiro.

7. O “EU” COMO A LUZ DA CONSCIÊNCIA

I. A luz na percepção dos objetos dos sentidos é o imutável Atma, o Único sem um
segundo, o qual segue permeando tudo.

II. Para vê-Lo tal qual É, os objetos devem ser separados Dele ou, mais, usados
para apontá-Lo.

III. O “Eu” deve ser retirado do corpo para o Atma. Liberdade do cativeiro, paz e
felicidade fluirão disso.

8. PURA CONSCIÊNCA

I. O Atma é o imutável, o rasa, no qual pensamentos e sentimentos se mesclam.


Ver isso, entrar nisso e estabilizar-se nisso como o “Eu” remove todas as ilusões e
traz paz duradoura.

9. O SER

I. Não é preciso se dizer, já que disso sabe-se claramente, que o “Eu” não muda.

II. O “Eu” persiste em todos os estados. Lá está quando há pensamento. Lá está


quando não há pensamento.
III. Assim sendo, que outra evidência é necessária para demonstrar que isso não
pode ser o fazedor ou desfrutador, o que implicaria mutabilidade?

IV. No momento em que algo está sendo feito, não há pensamento ou sentimento
de que alguém o está fazendo. Essa é prova adicional de que não se é um fazedor.

V. Clamar a si ter feito algo após sua execução não pode tornar alguém um
fazedor.

VI. A forte impressão de que um alguém não é nem fazedor e nem desfrutador
remove toda servidão e desse modo fica clara a real natureza desse alguém.

10. A FALSA IDENTIFICAÇÃO DO SER E

OS MEIOS DE ULTRAPASSÁ-LA

I. Jiva é uma combinação de corpo e Atma que surge como una. Quando são
separados, Jiva como tal não pode mais subsistir.

II. Não são o corpo, prana, e todas as modificações da mente percepções? A


Consciência, o Ser, é o percebedor delas.

III. Aqueles que, esquecendo-se disto, identificam o Ser com o corpo, mente etc,
vivem em servidão.

IV. Aqueles que, por sábia discriminação, ultrapassam essa identificação errônea,
tornam-se liberados e repousam em paz em sua verdadeira natureza.

V. O pensamento de que se é o corpo, denso ou sutil, é a causa de toda servidão. Se


o pensamento é que se é Consciência, e esse é profundo e forte, ocorre liberação
imediata de toda a servidão.

VI. O vedor como tal não pode jamais ser o visto, e o visto, como tal, não pode
jamais ser o vedor. Se essa verdade se aprofunda no coração, a identificação
errônea com o corpo cessa.

VII. Pode ser verificado, nas atividades cotidianas, que as características de um


são superimpostas ao outro. Precisa-se tomar um cuidado especial para evitar
isso.

VIII. Quando se atribui realidade às coisas do mundo objetivo, lembre-se de que


você é, então, um ser corporificado; em outras palavras, existe aí identificação do
Ser com o corpo.

IX. Sempre tenha em mente que alterações tais como nascimento, crescimento,
decadência e destruição são características da matéria—um objeto da
Consciência.
X. É preciso estar claramente entendido que a Consciência é diferente de seu
objeto e que, ao passo que objetos variam, a Consciência permanece constante.

XI. A Consciência é a luz do Atma, ao passo que os objetos são diretamente


vinculados ao corpo. Quando é cortada a conexão com o corpo, a conexão com
objetos externos é cortada também.

XII. A rigor, não pode haver conexão entre Atma e corpo. Como pode haver
alguma conexão entre coisas completamente diferentes em natureza e
constituição?

XIII. Atma é a Realidade única. O corpo é bastante irreal. Desse fato também
decorre que não pode mesmo haver nenhuma conexão entre ambos.

XIV. Fica evidente então que a conexão entre eles é apenas fantasia. Ela cai por
terra quando o conhecimento da Verdade ocorre e é mantido vívido.

XV. O desejo de não morrer tem profundas raízes no Atma, que é imortal.

XVI. Se esse desejo torna-se vinculado ao mundo objetivo, trata-se de


superimposição de característica do Atma sobre não-Atma. Como podem objetos
que são, por definição, limitados pelo tempo, serem feitos para transcendê-lo?

XVII. Atma é a Felicidade em si. É por conta disso que, em todos os seres, há o
desejo pela felicidade. Quando se supõe que ela vem dos objetos, ocorre
superimposição dessa característica de um sobre o outro.

XVIII. O desejo pela liberdade também tem sua raiz no Atma, o qual é a única
existência incondicionada.

XIX. Atração, repulsão, medo, pesar, inquietude, senso de dependência,


inveracidade, preguiça, passividade e outros tais provêm da conexão com o corpo.

XX. Estabilidade, amor, felicidade, paz, coragem, senso de liberdade,


confiabilidade, senso de existência, vigilância, conhecimento – esses pertencem
ao reino do Atma.

XXI. Tudo o que enfatiza a personalidade tem que ser entendido como tendo
origem na conexão com o corpo.

XXII. Aquilo que ajuda a expansão além dos limites do corpo tem que ser visto
como emanado do Atma. As características têm que, desse modo, ser
diferenciadas e vistas em seus respectivos domínios.

XXIII. Se isso é feito momento a momento, o caminho para a superimposição das


características de um domínio sobre o outro é barrado.

XXIV. Se toda a possibilidade de superimposição é assim removida, chega-se ao


estado natural, onde realiza-se que todo o mundo objetivo nada mais é que
Consciência.
XXV. Essa verdade última também pode ser alcançada por uma rigorosa análise
do próprio mundo objetivo.

XXVI. Os objetos da Consciência jamais podem ser separados da própria


Consciência. Eles não têm existência independente. Por conseguinte, eles nada
mais são que Consciência.

XXVII. Abordar a verdade dessa forma também removerá a enganosa identidade


da Consciência com o corpo, bem como toda ilusão. Assim se descobrirá a si
próprio estabilizado como Atma, a única e última Realidade.

11. A REALIDADE COMO ELA É

I. Expressões tais como imutável e sem forma não podem, até pelo seu cunho
negativo, mostrar a Realidade como ela é.

II. A declaração de que o homem não é um animal é, sem dúvida, verdadeira. Mas
ela mostra alguma das verdadeiras características do homem?

III. É impossível mostrar a Realidade como ela é. Palavras são, quando muito,
meras indicações.

IV. Caso, desconhecendo-se isso, considera-se literalmente o que é indicado por


palavras, a experiência da Realidade será maculada nessa medida.

V. Está em perfeita ordem se as palavras forem, meramente, tomadas como


auxílio para se erguer acima de todos os pensamentos.

VI. A Realidade é compreendida como além de todos pensamentos, e uma vez


direcionada de modo condizente a contemplação, as palavras podem ajudar a se
chegar a um ponto onde todos os pensamentos cessam e a Realidade é
experienciada.

VII. Podem surgir dúvidas quanto à possibilidade de se contemplar alguma coisa


além de todos os pensamentos. Isso é possível. A dificuldade é apenas aparente.

VIII. É verdade que apenas objetos da percepção podem ser diretamente


contemplados. O “Eu” é sempre o percebedor; jamais um objeto da percepção.

IX. Como não se trata de um objeto da percepção, a contemplação direta do “Eu”


está fora de questão.

X. Não pode o “Eu” ser contemplado como resíduo, após a remoção de tudo o que
é objetivo do “Eu” aparente?

XI. Esse mesmo pensamento contemplativo chegará, por fim, automaticamente a


um impasse, e nessa quietude se verá, brilhando, a sua (do “Eu”) verdadeira
natureza.
XII. O que está além de todos os pensamentos pode ser indiretamente
contemplado também por outros modos. Eles igualmente conduzirão à
verdadeira natureza de si mesmo.

XIII. Sempre tenha em mente que palavras como Consciência ou Conhecimento,


Ser ou Felicidade apontam todas para o “Eu”.

XIV. Atenha-se a um pensamento para dispensar outros pensamentos. Deixe-o


assim ficar, enquanto ele aponta para o ser.

XV. Pense no ser como aquilo onde todos pensamentos se fundem, assim o
pensamento utilizado abre mão de sua forma e se funde ao Ser.

XVI. Assim como usamos a palavra conhecimento para denotar também a função
de conhecer, usamos da mesma forma a palavra felicidade para denotar a função
de desfrutar.

XVII. É da experiência de todos que o conhecimento e a felicidade surgem apenas


quando suas respectivas funções de conhecer e desfrutar terminam.

XVIII. Assim, Conhecimento e Felicidade são o próprio Ser. Com essa convicção,
se um pensamento é direcionado a qualquer um destes, esse pensamento
também desiste de sua forma e se dissolve.

12. EXPERIÊNCIA

I. Quando se experiencia – estritamente falando – não se apresentam nem


pensamentos nem objetos externos. É o estado no qual, em solitude, se
permanece no Ser.

II. Objetos da percepção são acreditados como sendo a causa da experiência – isso
seduz o ignorante.

III. Se rigorosamente considerado, pode ser visto que não há nada como causa e
efeito. Mesmo que isso seja concedido, o efeito jamais existirá
independentemente da causa. Admite-se, de mãos juntas, que a causa será vista
no efeito.

IV. Mas não surge uma causa assim no experienciar. Segue-se, daí, que a
experiência não tem causa.

V. Se não há causa, porque essa caça a objetos? Tudo que é necessário é apenas a
fusão dos pensamentos.

VI. A contemplação, sempre, da natureza da experiência em si mesma,


ocasionará esta fusão.
VII. O pensamento profundo de que não se é nem o fazedor e nem o desfrutador
também ocasionará o mesmo resultado.

VIII. O melhor modo é se ver que o pensamento como tal é de fato não existente,
ou que ele não é nada além de Consciência.

13. A TESTEMUNHA DOS PENSAMENTOS

I. A análise correta mostrará que a mente, assumindo a forma de um objeto, é


comumente referida como a iluminação do objeto (a percepção ou conhecimento
dele).

II. Atma é a imutável Consciência que, sem esforço ou qualquer mudança em Si


mesma, percebe tais modificações da mente.

III. Um pouco de raciocínio mostrará que este é o princípio significado pela


palavra “Eu”.

IV. Ao se permanecer aí não se vê nada mais; não há corpo, mente, mundo ou


órgãos dos sentidos.

V. Nada veio à existência, nem existe de fato um pensamento de que algo existiu
antes e está a existir agora. A Consciência não fazedora está sempre desfrutando
de Si mesma.

14. O MUNDO E CONSCIÊNCIA

I. A água, pelo seu contato com o tempo e espaço, os quais são inteiramente
distintos e diferentes dela, pode criar uma onda. Não existe a possibilidade de um
mundo ser formado desse jeito.

II. Nada existe independentemente da Consciência. Como então é possível, para


algo diferente e independente, entrar em contato com a Consciência de modo a
formar um mundo?

III. A água, por si mesma, jamais pode formar uma onda. Similarmente, a
Consciência por si mesma jamais pode formar um mundo.

IV. Portanto o mundo não é, nunca foi e jamais virá a ser.

V. O que está a existir é tão somente Consciência. Consciência é Felicidade em si.


O Atma significado pela palavra “Eu” também é Isso.

15. NADA ACONTECE


I. Está claro que uma coisa nunca pode se transformar em outra sem a destruição
de sua swarupa.

II. Se a sua swarupa é destruída, pode a coisa permanecer? A não ser que
permaneça, como se pode dizer que ela se transformou em outra, já que sua
identidade está perdida e não há nada para conectá-la com a nova coisa?

III. Assim, uma coisa jamais pode passar por uma mudança. Não há nascimento
nem morte – não são ambos mudanças?

IV. Aquele que, de modo similar, por uma intensa investigação acerca da natureza
das coisas, descobre essa verdade e nela permanece, é a grande alma que
conseguiu seu objetivo, estabelecida na única coisa que há para ser conhecida,
permanecendo sempre contente.

16. JNANI

I. Eu sou a Consciência que permanece após a remoção, de Mim, de tudo o que é


objetivo.

II. Eu não tenho corpo, energia vital (prana, percepções, pensamentos e


sentimentos). Eu estou acima da atração e repulsão, prazer e dor, medo e ilusão.

III. Eu sou pura Consciência. Realizando que todo objeto, onde quer que esteja,
está Me confirmando, Eu desfruto de Mim mesma em todo lugar e em tudo.

17. O “EU” REAL

I. No estado de sono profundo, e sempre que algum desejo é satisfeito, Eu—


somente—brilho como felicidade e paz imperturbável.

II. Logo antes e logo após todo pensamento e sentimento, Eu brilho em minha
própria Glória por Mim mesmo. É em Mim que pensamentos e sentimentos se
erguem e se põem. Eu sou a imutável Testemunha deles.

III. Eu sou a Luz da Consciência em todos os pensamentos e percepções e a Luz do


Amor em todos os sentimentos. Eu não passo por nascimentos e mortes, nem por
mágoas e ilusões. Estou além do cativeiro e da liberação.

IV. O mundo que surge e cresce através de pensamentos é, ele mesmo, um


pensamento. Pensamento não é nada além de Consciência e Consciência é Meu
Ser. Por conseguinte, o mundo inteiro é Consciência, que é Meu Ser. Sou perfeito e
indivisível.
V. Não tenho senso de posse, apego ou egoísmo. Sou eterno, não fazedor, total
pureza, autodependente, e autoluminoso. Sem atributos, imutável e
incondicionado, eu sou a morada do Amor, imaculado, o único sem um outro, e
sempre pacífico.

18. PENSAMENTOS E OBJETOS

I. Conferir realidade às coisas que surgem em pensamentos é a causa de toda a


confusão.

II. A forma pode existir apenas como objeto do ver e jamais independentemente
dele. Esta regra se aplica igualmente a todos os objetos dos sentidos.

III. Objetos não têm, por si mesmos, conexão entre si – essa conexão é sempre,
apenas, com o pensamento.

IV. Um objeto não pode existir, por um momento sequer, a não ser que seja
conhecido pelo pensamento. Quando o pensamento muda, também muda o
objeto.

V. Então eles são inseparáveis e, portanto, um. A verdade é que a coisa Única é
mantida dividida por meras palavras.

VI. Portanto, até mesmo assegurar que uma coisa surge no pensamento é simples
ilusão. Existe apenas pensamento e o conteúdo do pensamento é Consciência.

V. Se essa verdade for sempre mantida vívida, o pensamento logo desaparece e a


Consciência reina. Assim vem a liberação de toda servidão.

19. DOIS ASPECTOS DA CONSCIÊNCIA

I. Samvit (Consciência) possui dois aspectos: condicionado e incondicionado. É


este último que ilumina os objetos da Consciência; é este que é pura Consciência.

II. Objetos dos sentidos, tais como som, toque, odor etc, são apenas formas-
pensamento. Então, falando corretamente, somente pensamentos são os objetos
da Consciência.

III. Aquele que, por análise e discriminação meticulosa, está impossibilitado de


alcançar o aspecto incondicionado, pode muito bem permanecer no
condicionado. Ele alcançará o incondicionado no devido tempo, se não
permanecer satisfeito no condicionado.
IV. Observando-se cuidadosamente, pode-se ver todo o pensamento surgir e
findar na pura Consciência apenas.

V. O que não é Consciência é tudo forma-pensamento. A pura Consciência jamais


pode se admitir como a testemunha disso (bear witness to it).

VI. Não é argumento válido dizer que a memória – ela mesma uma forma –
pensamento – permanece imutável olhando todos os pensamentos em sucessão.

VII. É da experiência ordinária que, ao não existirem outros pensamentos, a


memória não esteja lá com eles. Como poderia então a memória convocar
pensamentos pretéritos?

20. O VEDOR E O VISTO

I. Ao se olhar através do denso órgão do olho, somente formas dessas aparecem. A


mesma relação existe entre outros órgãos densos e seus objetos.

II. Deixando os órgãos físicos, caso se olhe através do órgão sutil chamado mente,
aparecem formas sutis.

III. Olhando por meio da Consciência pura e sem atributos, se vê apenas


Consciência e nada mais.

IV. Essa experiência prova que o mundo objetivo sempre surgirá em perfeita
sintonia com a posição assumida pelo sujeito.

V. Por conseguinte, não é o mundo objetivo que apresenta obstáculos ao


progresso espiritual, mas sim o falso posicionamento que foi assumido.

VI. Caso se abra mão disso, a iluminação espiritual se segue. Para se abrir mão
desse posicionamento, coragem, atenção focada e devoção de coração são
absolutamente necessários.

VII. Um exame agudo do mundo objetivo também trará o mesmo resultado.

VIII. Chegar à conclusão de que este mundo aparentemente sólido é um mero


pensamento não soluciona todo o problema. Daí não pode advir total satisfação,
pois o mundo-pensamento continua.

IX. A investigação não satisfez pois foi conduzida a partir do nível de buddhi, o
qual foi deixado sem explicação.

X. Buddhi também é algo percebido. Não é o Si mesmo (Consciência) o verdadeiro


Percebedor? Examinar pensamentos é assumir o posicionamento na Consciência
percebedora.

XI. Quando é visto que o conteúdo do pensamento é Consciência, o pensamento


desaparece e a Consciência permanece.
XII. A Consciência, quando enganosamente se supõe estar condicionada pelo
tempo, aparece como pensamento. Na verdade, ela não é condicionada assim.

XIII. Não é o tempo, ele mesmo, um pensamento? Como pode então o surgimento
de um pensamento ser atribuído ao condicionamento da Consciência ao tempo?

XIV. Por conseguinte, estritamente falando, não há pensamento. Existe apenas


Consciência. A ideia de tempo é mera superimposição por engano.

XV. Só aquele que, firmemente, mantém a posição de uma testemunha


desinteressada e examina calmamente as coisas com um olhar crítico e sem
hesitações, pode realizar esta verdade absoluta.

XVI. No estado de vigília, fica-se ciente de que os objetos dos sonhos eram irreais.

XVII. Se um homem visto no sonho era irreal, sua mente tem que ser, igualmente,
irreal.

XVIII. Seus pensamentos, o ver, o ouvir etc serão, da mesma forma, irreais.

XIX. Da mesma forma, o sujeito no estado de sonho, ele também um produto do


sonho, só pode ser irreal.

XX. O corpo do estado de sonho é diferente do corpo do estado de vigília. Quando


o primeiro está em atividade, o último encontra-se deitado num estado passivo.

XXI. Os pensamentos e percepções do sujeito no sonho não podem, igualmente,


ser os pensamentos e percepções do sujeito no estado de vigília.

XXII. Os pensamentos e percepções do primeiro são irreais, sendo produtos do


sonho.

XXIII. A questão surge então: quem teve o sonho? Para isso, a resposta correta é
que ninguém o teve, e que nunca houve um estado de sonho.

XXIV. O mundo do estado de vigília, se for examinado de forma similar, também


será visto como não existente. Então se recupera a verdadeira natureza e se torna
estabilizado como pura Consciência.