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David Foster Wallace (EUA, 1962 – 2008)

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido
contrário. Ele os cumprimenta e diz:
- Bom dia, meninos. Como está a água?
Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:
- Água? Que diabo é isso?
Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que
explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da
história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser
reconhecida. Enunciada dessa forma, a frase soa como uma platitude - mas é fato que, nas
trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma
importância de vida ou morte.
Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e
ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta
respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa
mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural
e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte
de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.
Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto
central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante
de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os
pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados,
enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me
preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras "virtudes". Essa
não é uma questão de virtude - trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão
original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo
e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.
Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a
nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco
maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a
intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de
simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.
Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de
hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da
minha formatura vim a entender que o surrado clichê de "ensinar os alunos como pensar" é, na
verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. "Aprender a pensar"
significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter
plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não
conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.
Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos
clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível
verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o
façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito
antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas,
eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte
ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar
morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente,
completamente, imperialmente sós.
Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato
cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga ideia do significado real do que seja
viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em
discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.
Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi
para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está
cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida,
talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de
novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras
naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o
trânsito está uma lástima.
Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com
lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do
mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer
todos aqueles corredores super iluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu
carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e
apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que
não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o
corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem
passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas
suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode
descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.
De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o
cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre"
numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc.
e tal.
É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da
escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão
tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei
irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar
que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar
logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são
elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser
as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.
Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas
vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus
imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos
patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos
pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto
fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter
sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível
do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e
repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.
Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos
assim - só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma
opção. Ela deriva da minha configuração padrão.
Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de
que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no
cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou
dolorosas do que eu.
Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns
dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se
estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher
gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez
ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro,
segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal
remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de
bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de
documentação.
Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês
queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a
realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e
irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao
alcance de vocês vivenciarem uma situação "inferno do consumidor" não apenas como
significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.
Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês
precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.
Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar".
Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para
escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová,
ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te
engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca
achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy,
sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um
milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.
No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e
parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais
poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente,
acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.
O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem
inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que
por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que
valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.
O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos
homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela
veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de
modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos
senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos
sozinhos.
Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade
mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo.
A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de
efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e
certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter
tido e perdido alguma coisa infinita.
Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio
de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre
a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz
respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz
respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade
ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."
É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

Este texto foi tirado de seu discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, em 2005.