Você está na página 1de 1

A questão essencial do pensamento político moderno é a seguinte: sem o recurso

a Deus ou ao conceito de “animal político”, como se justifica a existência de um poder


(Imperium) autônomo, criado pela própria sociedade para agir sobre ela?
Maquiavel inaugura a ciência política moderna ao abandonar a busca por um
governante ou regime ideal, questões típicas do pensamento político antigo e medieval.
Nesse sentido, dois elementos primordiais que inscrevem o filósofo florentino na
modernidade:
1) recusa à dimensão metafísica da reflexão política. Com efeito, sua reflexão
volta-se na direção de um realismo que visa a “verdade efetiva das coisas”. Assim,
procede com uma análise científica da história dos regimes políticos (especialmente de
Roma), sem pressupostos teológicos ou metafísicos. Quer dizer, conforme o autor, o
estudo do passado permite compreender os acontecimentos que se produzirão em cada
Estado e utilizar os mesmos remédios ou imaginar novos.
2) Confiança na ação humana na transformação da vida social. Segundo
Maquiavel, é a política, enquanto domínio da liberdade sobre o destino (fortuna), a
esfera privilegiada de ação. Entretanto, a política maquiaveliana separa-se radicalmente
da ética normativa que a acompanhava desde a Antiguidade. Agora, a política é
entendida como exercício do poder, cuja lógica é imanente ela mesma. Na melhor das
hipóteses, a política esposa uma lógica de eficácia, isto é, que visa à conservação do
poder em uma sociedade estruturalmente cindida em paixões antagônicas.
Enfim, Maquiavel propõe uma antropologia pessimista (antecipando Hobbes),
que assinala que os homens costumam agir em nome de seus próprios interesses. Daí a
necessidade de controle e coerção. Ou seja, o poder político tem origem mundana: nasce
da necessidade de enfrentar o conflito decorrente da natureza humana (que, no entanto,
é tendencialmente antissocial). As paixões humanas, por sua vez, jamais podem ser
inteiramente domesticadas. Donde a ideia de que a história é cíclica – momentos de
maior estabilidade e controle político são sucedidos por crises.
Neste quadro assenta-se a célebre metáfora da raposa e do lobo, descrita no
capítulo XVIII de O príncipe. Conforme o realismo maquiaveliano, o agir virtuoso é um
agir como homem e como animal, pois essa mistura perfaz a natureza humana. Ou seja,
o príncipe deve agir como leão, para amedrontar os lobos, e como raposa, para conhecê-
los.