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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE EDUCAÇÃO / PPGE


Abordagens histórico-sociológicas na educação brasileira

Síntese argumentada: Karl Marx


Steferson Zanoni Roseiro

Não há trabalho; há sobrevida

Na tirinha, a clássica imagem da sociedade que, hoje, consideramos o traço mais marcante
do fordismo: trabalhadores em uma linha de montagem fazendo uma parte tão
“insignificante” do trabalho que sequer se dão conta do que fazem. “Vou me aposentar
amanhã e sabe o que vou fazer? Andar até o fim da linha de montagem e descobrir o que
estou fazendo há 30 anos!”.
Em jogo, obviamente, está a própria produção da vida. Ou, como por vezes parece
se confundir, da sobrevida.
O contexto da tirinha, isto é, o da linha de montagem do trabalhador dos “tempos
modernos”, suscita não apenas a condição precária, a produção da vida que se torna mais
livre quanto mais animalesca for; concomitante a essa produção, os dois trabalhadores
ainda mostram, facilmente, a impossibilidade de vida para além da representada no
trabalho forçado.
No ensaio Trabalho estranhado e propriedade privada, Karl Marx (2008) não
apenas define o conceito de trabalho estranhado como, ao fazê-lo, diz o quanto a relação
com o trabalho diz do modo dos corpos se relacionarem com os outros. Na definição
básica, isto é, no estranhamento que é produzido via separação do trabalho e do produto
de seu trabalho, o trabalho “estranha do homem seu próprio corpo” (p. 85) o que, com
isso, implica em “dizer que um homem está estranhado do outro” (p. 86).
Nesses termos, não apenas o próprio trabalhador desconhece sua produção, como,
ainda, desconhece a si mesmo e ao outro com quem se relaciona. Na tirinha, isso está
escancarado em cada traço: um único quadro, mas, ali, a evidência de que o corpo sequer
conhece os outros trabalhadores com quem deveria se relacionar; ao mesmo tempo, o
corpo não consegue dar conta do que produz e, ao mesmo tempo, não sabe sua
funcionalidade. Produz, e, imediatamente enquanto produz, é separado de si mesmo. E,
não por acaso, mal espera o sinal tocar, tal qual crianças correndo desesperadas no fim da
aula: “tão logo inexista coerção física ou outra qualquer, foge-se do trabalho como uma
peste” (MARX, 2008, p. 83).
A sobrevida – ou precariedade – aqui nada mais é que o corpo confundido com
uma forma de trabalho que lhe engole. A imagem é de uma fábrica, mas, igualmente,
poderia ser de uma escola, de um aluno prestes a sair do ensino médio e se perguntar o
que, afinal, quiseram fazer com ele durante todos aqueles anos de escolarização. Poderia
ser a imagem de um corpo (in)gestor de remédios sem fim, de estéticas sem fim, de
cuidados do corpo infinitos.
De algum modo, priva-se não apenas o “produto” do trabalho manual, mas,
inclusive, o produto do trabalho intelectual e o trabalho sobre si. E, no riso da gargalhada
de Marx, lembramos que o trabalhador “se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza
ele produz” (MARX, 2008, p. 80). E, em tempos de avaliações de larga escala e de um
cuidado sobre corpo doentio, essa afirmação nunca fez tanto sentido: quanto mais
“riqueza” se produz nos padrões das novas economias de vida que vivemos, tão mais
pobres nos tornamos.
No limite da vida, não há muitos segredos: “a produção funciona melhor com a
polícia do que, por exemplo, com a aplicação da lei do mais forte”. Assim preludia Marx
ao término do primeiro capítulo do manuscrito Para uma crítica da economia política. A
concorrência entra por todas as partes para garantir a riqueza e, aos modos da vigilância,
é a função polícia que é criada para garantir a sobrevida e a própria competição.
Não é para menos a fuga desordenada.