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a Im prensa U n iversitária A d ven tista

Edição em Português:
Copyright © 2001

Editoração: Renato Stencel


Revisão: Paulo Bork, Fernanda C. Andrade, José C. Ramos, Rubén Aguilar
Programação Visual: Enio Scheffel Jr.
Publicação: Imprensa Universitária Adventista
Impressão: Casa Publicadora Brasileira

Silva, Rodrigo P.
Um Desconhecido Galileu - Uma Abordagem Histórico-Científica da
Vida e Obras de Jesus de Nazaré.
Imprensa Universitária Adventista. Centro Universitário Adventista de
São Paulo - Engenheiro Coelho, SP.
I o Semestre de 2001

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I m p r e n sa U n iv e r s it á r ia A d v e n t ist a
Tel. (XXI9) 3858-9055 / Home Page: www.unasp.br/imprensa
Rodrigo P. Silva

Um Desconhecido
GALILEU
Uma Abordagem Histórico-Científica da
Yida e Obras de Jesus de Nazaré

f
Ia Edição

I m p r e n s a U n i v e r s i t á r i a A d v e n t is t a
Centro Universitário Adventista
Engenheiro Coelho - SP
S u m á r io

a g r a d e c i m e n t o s ...................................................................................................VII
PR E FÁ C IO ...........................................................................................................................IX

1. IN TRO D U ÇÃO .................................................................................................................1


Nossa Proposta de Pesquisa................................................................................................1
O Método.................................................................................................................................3
A Metodologia........................................................................................................................ 3
Limitações da Pesquisa..........................................................................................................5

2. JESUS HISTÓRICO E CRISTO DA F É ...............................................................9


O Iluminismo A lem ão..........................................................................................................9
O Questionamento dos Teólogos Liberais.................................................................. 10
Podemos Conhecer o Jesus Histórico?..........................................................................11
Questões Para Análise e Reflexão.................................................................................. 12
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 13

3. OS CRISTOS DO CR ISTIA N ISM O ......................................................................17


Imagens Populares de Jesus.............................................................................................. 17
Um Cristo Distante e Diluído.................................................................................. 18
Um Cristo Amuleto Que Não Inspira Nenhum Respeito...............................19
Um Cristo Fantasma....................................................................................................20
Questões Para Análise e Reflexão...................................................................................21
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 21

4. PODEMOS CONFIAR NOS EVAN G ELH O S?..............................................23


Conceito Básico de “Evangelho” ....................................................................................23
A Origem e Formação dos Evangelhos........................................................................ 24
Propósito e Característica de Cada Evangelho............................................................ 28
M arcos............................................................................................................................ 28
Mateus..............................................................................................................................29
Lucas................................................................................................................................30
João...................................................................................................................................31
Podemos Confiar no Texto Que Possuímos?.............................................................. 32
Questões Para Análise e Reflexão...................................................................................34
Enciclopédia de Conhecimento Religioso....................................................................34
5. A NARRATIVA EVANGÉLICA: MITO OU H ISTÓRIA R E A L ?.......... 39
Os Evangelhos e a Literatura Rabínica.................................................................. 40
O Midrash: Um Estilo Básico Dentro dos Evangelhos................................... 41
Como Confiar na Historicidade dos Evangelhos...................................................... 44
Questões Para Análise e Reflexão.................................................................................. 46
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 47

6. EXISTIU JESUS DE FATO?..................................................................................... 49


Uma Historiografia de Jesus Cristo................................................................................ 49
Na Literatura Judaica.......................................................................................................... 50
Fontes Não Judaicas...........................................................................................................51
Questões Para Análise e Reflexão.................................................................................. 54
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 55

7. O CONTEXTO HISTÓRICO DAS ORIGENS


DE JESUS DE N A Z A R É .............................................................................................57
Antecedentes Dentro e Fora de Israel...........................................................................57
Contexto Especificamente Limitado ao Território de Israel.................................. 59
O Jugo dos Romanos................................................................................................. 61
Questões Para Análise e Reflexão.................................................................................. 62
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 63

8. O NASCIMENTO DE JE SU S ...................................................................................65
Contexto e Circunstâncias do Nascimento de Jesu s................................................. 66
César Augusto............................................................................................................... 66
O Rei Herodes.............................................................................................................. 67
O Censo de Quirino e o Possível Ano do Nascimento de Cristo..........................69
Os Magos e a Estrela de Belém .......................................................................................73
Tentativa Cronológica do Nascimento Até a Ida e Retorno do E gito................. 75
Após Herodes.......................................................................................................................79
Questões Para Análise e Reflexão.................................................................................. 80
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 80

9. NAZARÉ - A CIDADE ONDE JESU S FOI CRIADO.................................. 85


Aspectos Geográficos e Históricos................................................................................ 85
O Ofício de José.................................................................................................................. 86
A Família de Jesus............................................................................................................... 87
Questões Para Análise e Reflexão.................................................................................. 90
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................... 90
10. A VIDA DIÁRIA NOS TEM POS DE JESUS C R IS T O .............................. 91
Que Língua Falava Jesus?.................................................................................................. 91
As Roupas da É poca..........................................................................................................93
A Alimentação..................................................................................................................... 97
O Estilo das C asas..............................................................................................................99
O Tempo.............................................................................................................................101
Questões Para Análise e Reflexão................................................................................ 105
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................. 106

11. A VIDA ECONÔMICA E SO C IA L ................................................................... 109


Valores Monetários...................................................................................... ....................110
Os Impostos...................................................................................................................... 113
Comércio e Economia.................................................................................................... 113
A Educação.........................................................................................................................115
Questões Para Análise e Reflexão................................................................................117
Enciclopédia de Conhecimento Religioso.................................................................117

12. JESUS E JOÃO BATISTA........................................................................................119


As Origens do Batismo de Jo ã o ................................................................................... 120
O Testemunho de Flávio Josefo............................................................................120
Os Manuscritos do Mar Morto..............................................................................120
Seria João Batista Um Essênio?.............................................................................121
O Batismo no Judaísmo...........................................................................................122
João e Jesus..........................................................................................................................123
Questões Para Análise e Reflexão................................................................................124
Enciclopédia de Conhecimento Religioso.................................................................124

13. CAFARNAUM, A CIDADE ONDE JESUS M O R O U .............................. 127


O “Endereço” do M estre...............................................................................................127
A Sinagoga Onde Jesus Pregou.............................................................................127
A Casa Que o Mestre Freqüentou....................................................................... 128
Outros Fatos Sobre Cafarnaum.............................................................................131
Que Diz a Bíblia?..............................................................................................................132
Enciclopédia de Conhecimento Religioso.................................................................132

14. ANALISANDO DOIS ENSINOS DO GRANDE M E ST R E .................133


Qual o Sentido da Oração..............................................................................................133
O Principal Mandamento da L e i.................................................................................. 134
Questões Para Análise e Reflexão................................................................................136
Enciclopédia de Conhecimento Religioso.................................................................136
15. JESUS VEM A JE R U SA L É M .................................................................... 139
O Templo............................................................................................................................140
Jesus Diante da Porta Dourada..................................................................................... 142
Questões Para Análise e Reflexão................................................................................ 145
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................. 145

16. A MORTE E RESSUREIÇÃO DE JESUS C R IST O .............................147


Quem MatouJesus: Os Judeus ou os Romanos?..................................................... 147
O Processo da Condenação...........................................................................................149
O Açoitamento e Humilhação de Jesus Cristo..........................................................152
A C ru z ................................................................................................................................. 153
A Posição do Crucificado............................................................................................... 154
O Calvário e o Sepultamento de Jesus.........................................................................155
Questões Para Análise e Reflexão................................................................................ 157
Enciclopédia de Conhecimento Religioso................................................................. 157

17. CO N CLU SÃO .............................................................................................. 159

BIBLIO GRAFIA........................................................................................'........161
A g r a d ec im en t o s
autor tem um grande débito de gratidão a várias pessoas que direta ou
O indiretamente participaram na concretização deste projeto de pesquisa.
Vários colegas do Centro Universitário Adventista tiveram a gentileza de ler o manus­
crito, entre os quais, principalmente, os professores José Carlos Ramos e Rubén Aguilar
do Seminário de Teologia que fizeram detida revisão de todo o material.
De maneira muito especial, devo destacar o Dr. Paulo Bork, professor emérito
de arqueologia do Pacific Union College pelo seu carinho em não somente ler o meu
livro, como ainda anotar uma recomendação que encontra-se impressa na contra­
capa do mesmo.
Fora do Brasil, tenho meu débito de gratidão para com os religiosos de Sion e
companheiros do Instituto Katisbonne dejerusalém pelo apoio e hospedagem tanto na
Europa quanto em Israel. Da Universidade Hebraica, trago com saudade a lembrança
amiga do Dr. Yosef Garfinkel que, embora não aceitando o messianismo de Jesus,
abriu as pórtas de várias bibliotecas especializadas onde eu poderia encontrar material
para a presente pesquisa.
Meus alunos nas faculdades de Letras e Tradutor e Intérprete também ajudaram
muito na leitura e revisão gramatical do primeiro texto. Ao Enio, e à Fernanda, alunos
do Centro Universitário, coube a diagramação e a revisão do livro e à Prof.a Rosália, os
desenhos ilustrativos que aparecem no texto. O jornalista Rúben Dargã foi o respon­
sável por algumas fotos e o professor Renato Stencel pelo trabalho editorial que deu
acabamento definitivo à obra. A todos estes, o meu muito obrigado.
Quero agradecer ainda à direção do Centro Universitário Adventista que, através
da Imprensa Universitária, tornou possível a realização deste empreendimento.
Além de todos os suportes “técnicos” houve uma ajuda sem a qual possivelmen­
te esse livro não sairia. Portanto, não posso evitar uma menção honrosa à minha
amada esposa, Lisliê, que com seu carinho e compreensão tem sido um verdadeiro
esteio nestes anos em que estamos casados. Obrigado meu amor!
E, finalmente, o mais importante de todos os agradecimentos: “Graças dou a Ti,
Senhor Jesus, por tudo que tens feito em minha vida”.
ar-nos-ia bem passar diariamente uma hora a refletir
sobre a vida de Jesus. Devemos tomá-la ponto a ponto,
e deixar que a im aginação se apodere de cada cena,
especialmente as finais. A o meditar assim em seu grande
sacrifício por nós, nossa confiança nEle será mais constante,
nosso amor vivificado, e seremos mais profundam ente
imbuídos de Seu espírito. Se quisermos ser salvos afinal,
teremos de aprender aos pés da cruz a lição de arrependimento
e Humilhação.”

Ellen G. White
P r e fá c io

A
o concluir seu evangelho, o apóstolo João escreveu que se todas as coisas
que Jesus fez fossem relatadas uma por uma, “nem no mundo inteiro
caberiam os livros que seriam escritos” (Jo. 21:25). Hipérboles à parte, Jesus Cristo é,
sem dúvida, o nome que gera o maior número de teses e pesquisas em todo o mundo.
Segundo uma listagem do Studiorum Novi Testament Societas, existem mais de 90.000
livros publicados sobre Jesus, fora artigos e pesquisas monográficas não editadas.
Somente nos Estados Unidos, são.cerca de 5.000 teólogos especializados na doutrina
de Cristo, tecnicamente chamada de “cristologia”.
Este livro não pretende ser melhor que os outros, nem tampouco, repetir o que
já está óbvio. Há obras excelentes em inglês e alemão, embora muitas pequem pelo
excessivo racionalismo que tende à redução da fé. Quando escrevi estas páginas, o fiz
na intenção de oferecer aos leitores de língua portuguesa uma fonte a mais de pesqui­
sa sobre Aquele que, sem dúvida, foi o maior homem de todos os tempos. E mais do
que isso, Ele era Deus falando com sotaque de judeu.
É maravilhoso imaginar que na vida e morte de Jesus Cristo encontro a espanto­
sa ação de um Deus Eterno que, para salvar a humanidade, entra na História e suja
seus pés na poeira do nosso planeta!
Os primeiros rascunhos deste material foram preparados enquanto eu ainda
estava em Israel num programa arqueológico da Universidade Hebraica de Jerusalém.
É evidente que boa parte do trabalho consistiu de pesquisas bibliográficas que fiz na
“clausura” de bibliotecas como a da Eco/e Biblique e àoA lbrightlnstitute o f Archeology
em Jerusalém, mas a grande emoção acontecia quando, ao sair desses recintos, eu
tinha obrigatoriamente que caminhar ao lado das muralhas da cidade velha e passar
perto de locais históricos como o Jardim de Gordon (possível Calvário) ou o túmulo
da família de Herodes. Era como se o cenário confirmasse diariamente a realidade das
leituras que eu estava fazendo. Jesus existiu de fato e isso é maravilhoso!
Este manuscrito, portanto, foi para mim um grande fortalecimento de fé e con­
firmação da narrativa evangélica. Porém, foi triste enfrentar, não poucas vezes, as
desconfianças e o ceticismo de teólogos liberais que, embora declarando-se cristãos,
estabelecem uma diferença arbitrária entre o Jesus Histórico e o Cristo da Fé. Pelo
primeiro, entendem um personagem real que existiu no primeiro século de nossa era
e nada mais foi do que um judeu revolucionário cuja vida pouco nos interessa no
terceiro milênio. Já o segundo seria um mito que pega carona na vida do primeiro e se
adapta aos dogmas defendidos pelo cristianismo. Noutras palavras, o Cristo ressurrecto
que curou pessoas e salvou o mundo morrendo na cruz jamais existiu nos moldes que
revela a Palavra Inspirada.
Aqui, procurei reunir fatos e elementos, também mencionados por tais autores,
que longe de negarem a declaração escriturística acentuam ainda mais a certeza da
pregação apostólica. Doutra feita, iluminam também o desconhecido ambiente de
Cristo, que pela distância de dois milênios se torna tremendamente obscuro em mui­
tos de seus aspectos.
Diante do balanço de dois séculos e meio de pesquisa apaixonada sobre os evan­
gelhos e a pessoa histórica de Jesus é possível vislumbrar porque a História da Reden­
ção será tema de estudo que ocupará toda a eternidade. Assim, enquanto Cristo não
volta nas nuvens, cada um vai dando a contribuição que pode a este vasto assunto que
atrai até o interesse dos anjos.
Por fim, é importante dizer algo acerca do título “Um Desconhecido Galileu”.
Chamo a Jesus de “desconhecido” pelas razões óbvias que a história me apresenta.
Em primeiro lugar, descubro que Jesus não fez tanto sucesso quanto eu esperava. Sua
pregação era forte demais para aqueles que o ouviam e, a despeito de seus muitos
milagres, Ele acabou sendo condenado como se fosse um criminoso. Justamente por
não ser rico ou revolucionário, poucos foram os historiadores contemporâneos que
registraram sua existência.
Além disso, percebo que há uma certa distância entre o Cristo da Bíblia e aquele
muitas vezes divulgado em certos segmentos do cristianismo. Alguns O igualam a
Buda, enquanto outros negam que Ele era a encarnação de Deus. No que diz respeito
à Ética, confirmo a certeza de que o Jesus histórico continua batendo de frente com
o comportamento pouco piedoso que a presente sociedade alimenta. Num mundo
que nega valores, ensina a vingança e incentiva o lucro acima de tudo, um Cristo que
prega o amor e motiva a renúncia parece um lunático utópico que jamais conquistará
seguidores.
Apesar dos avanços científicos e do brilho natalino das luzes, para uma grande
parte do mundo pós-moderno, Jesus ainda é um estranho personagem. Portanto, pu­
blico este livro no sincero desejo de conhecer cada vez mais a respeito de Cristo e
divulgar seu amor a todos que estiverem ao meu alcance.

O Autor
UNASP - Engenheiro Coelho, SP
29 de setembro de 2000
CAPÍTU LO 1

t
In t r o d u ç ã o

E
possível conhecer historicamente a Jesus? Para quem está fora do ambien­
te de debates teológicos, esta pergunta pode parecer um tanto inadequada e
incompreensiva. Contudo, ela toca o cerne de um dos mais importantes, senão o
maior desafio para a confissão cristã em nosso tempo. O fundador do cristianismo é
de fato tudo isso que os evangelhos narram sobre sua pessoa? Há algo na história que
prove sua existência, seus milagres, seus discursos?
Como todos sabem, Jesus Cristo, segundo crêem a maioria dos cristãos, foi o único
homem que em sã consciência arvorou ser Deus. Verdade esta que parece ter sobrevivido
oficialmente através dos séculos desde (talvez) o primeiro Concílio em Nicéia (325 A.D.)
até à ruptura do protestantismo e os segmentos evangélicos em geral. Todos os que
discordavam da divindade única de Jesus, não passavam de vozes marginais sem muita
proeminência histórica que ficaram relegados à categoria de hereges e seguidores de seitas.
Porém, os tempos mudaram. A partir do século XVIII, como veremos, novamente
se questionou o posicionamento oficial e mais ou menos uniforme das Igrejas acerca
da pessoa de Cristo. Os critérios, desta vez, eram modernamente mais racionalistas e
baseavam seu questionamento na própria metodologia histórica até então jamais
usada para descobrir algo a respeito da história sagrada de nosso Senhor. Sabia-se,
pelo credo e os evangelhos, que ele veio ao mundo de uma forma sobre-humana,
que pregou o amor e reàlizou milagres; depois foi morto numa cruz e ressuscitou
ao terceiro dia, deixando com os apóstolos a promessa de voltar à Terra. Mas, nas
palavras de Ruben Alves, “alguma coisa ocorreu, o céu, morada de Deus e seus
santos, ficou de repente vazio. Virgens não mais apareceram em grutas. A ciência e
a tecnologia avançaram triunfalmente, construindo um mundo em que Deus não
era necessário.”1 Seria a vida de Cristo um mero mito não diferente de lendas gregas
como a Medusa e o Minotauro?2

Nossa Proposta de Pesquisa


No curso atual do debate, encontramos pelo menos três posturas em relação a
esta problemática. Primeiro, temos aqueles mais fundamentalistas que tentam negar a
seriedade das inquirições racionalistas sob a égide de que estas constituem um desvio
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

da sã doutrina inspirado pelo demônio em pessoa. Num segundo grupo, encontramos


os que pretendem corrigir o chamado “equívoco eclesiástico” cometido pelos cristãos
através dos séculos em não compreenderem a mensagem de Jesus e, por isso mesmo,
defenderem o que ele jamais afirmou. Alguns, como o autor do romance “Operação
Cavalo de Tróia” chegam a propor que este equívoco começou desde cedo com os
próprios apóstolos que deturparam para a posteridade aquilo que Jesus era de fato.
As pessoas deste grupo, geralmente, são adeptos ou simpatizantes da filosofia Nova
Era que propõe todos os fundadores ou líderes religiosos do mundo (Buda, Khrishna,
Maomé, Gandlii e outros) como enviados legítimos do céu para conduzir a humanidade
à perfeição cósmica. Jesus, então, seria mais um desses e aquela idéia de salvador
“único” do mundo inteiro não passaria de má interpretação cristã.
Um terceiro movimento é encontrado entre os teólogos cépticos que negam a
existência histórica de Jesus ou, no mínimo, discordam que possamos saber alguma
coisa a respeito dele. Dizem que os evangelhos não passam de novelas com objetivos
teológicos e chegam até a sugerir coisas estranhas como a frustração de Jesus
(Ele sonhou com o reino perfeito e o que surgiu foi a “desastrosa” Igreja) e seu
equívoco (Ele creu erroneamente que o juízo final daria nos dias de seu ministério).
A proposta deste opúsculo poderá considerar-se um quarto grupo sugestivo.
Ela não pretende ser, de modo algum, inédita em sua reflexão. Seu objetivo é tão somente
coletar de maneira sistemática os resultados obtidos através de pesquisas sérias que
ajudam a confirmar a revelação escriturística, além de lançar luz sobre alguns pontos de
seu ambiente histórico. Afinal, o cristão também é um ser pensante que debate com
questionamentos seriamente existenciais que desafiam sua fé.
Essa proposta partiu de um insight c ú s X.o \ó q c o do teólogo alemão E. Kãsemann3.
Ele notou que enquanto os teólogos liberais da Alemanha partiam de um princípio
reducionista que limitava a pesquisa de Jesus a um critério puramente racional (E. Kant),
Bultmann seguia uma linha Luterana de sola Gratia, onde o conhecimento real de Jesus
deveria ser apenas aquele obtido da fé, sem se preocupar com o que de fato aconteceu
em Israel no I século A.D.. Ora, de um lado tínhamos os liberais promovendo um
historicismo exagerado onde a única forma de se chegar a Jesus era através da pesquisa
histórica (Leben-Jesu-Forscbung). Do outro, aparecia Bultmann propondo um fideísmo
que tomava Jesus de Nazaré um mero fantasma sem corpo, identidade, origem ou
nacionalidade. Um Cristo cósmico que cada um cria e recria ao seu bel-prazer.
A idéia, pois, é unir os dois extremos propondo uma “teologia da vida de Jesus”
(liberais) conjunta a uma “teologia da pregação sobre Jesu s” (Bultm ann).
Um cristianismo (quer geral ou particular) que trabalhe alternadamente com dois Cristos,
um histórico, outro produto da fé, não é um seguimento saudável para ninguém que
seja sincero com suas indagações. •
In t r o d u ç ã o

Se Jesus não for autenticamente aquilo que os evangelhos dizem ou se o que


temos de sua vida não passa de uma estória, então o cristianismo como um todo
deverá ser reduzido a um mero mito, para não dizer uma tremendafarsa. Tudo poderá
e deverá ser questionado e, no dizer do apóstolo São Paulo, nós que cremos nesta
doutrina, seremos “os mais desgraçados de todos os homens” (I Cor. 15:19).

O Método
O método de pesquisa que utilizaremos neste livro será o chamado “método
gramático histórico”. Nele, procura-se desenvolver cientificamente o princípio de sola
scriptura advogado por reformadores como Zwinglio, Calvino e Melancton. Prescreve-
se a Bíblia como legítima Palavra Inspirada por Deus buscando nela a principal chave
hermenêutica para a pesquisa sobre Jesus. Usando, portanto, o texto escriturístico dos
evangelhos como fonte principal, a exegese gramático-histórica recorrerá a diversos
setores científicos que nos ajudam a conhecer melhor o ambiente físico do judeu chamado
Jesus Cristo. Estas ciências auxiliares também ajudam a confirmar a procedência histórica
de boa parte do que é dito nos textos canônicos acerca da vida de Jesus4.

Num esquema gráfico, seria este o modelo proposto:

A Metodologia
Como fontes para uma busca histórica de Jesus, recorreremos aos seguintes grupos
de pesquisa científica, situados, evidentemente, a posteriori em relação às Escrituras:

• A arqueologia. Escavações e descobertas feitas, principalmente, nas


regiões da Judéia, Galiléia e Samaria elucidam em muitos pontos o contexto
sócio-cultural do ministério de Jesus desde seu nascimento até sua crucifixão.
• A papirologia. Ciência irmã da arqueologia que se especializa no estudo
de importantes manuscritos especialmente os encontrados em Qumran e Nag
Hammadi, no Alto Egito. A decifração desses e outros textos será fundamental
U m D e s c o n h e c i d o G al i l e u

para reconstruir a cultura religiosa e confessional que estaria à disposição de Jesus


e seus primeiros discípulos.
• Estudos recentes sobre a literatura rabínica da época. Embora ainda
seja difícil datar qualquer material rabínico antes do século II, podemos com
razoável convicção afirmar que este, no mínimo, refletia a situação religiosa de
Israel nos tempos do Cristo. Ou, no máximo, conserva para nossos dias o supra
sumo da visão judaica que tinham os ouvintes de Jesus e, quiçá, o próprio Mestre
enquanto membro do mesmo contexto.
• Tradição cristã, A luz de muitos materiais advindos da pena dos pais
da Igreja, é que conhecemos importantes fatos não narrados nas páginas da
Bíblia (ex. a crucificação de Pedro, o livramento de João do tacho de azeite fervente
etc.). Também com relação à vida de Jesus, é certo que haverá citações que
poderão ser-nos úteis, principalmente se vierem de uma fonte como Papias ou
Irineu que estiveram muito próximos da tradição apostólica.
• Os evangelhos apócrifos. Pesquisas recentes sobre o Evangelho de
Tomé têm levado os biblistas a se interessarem um pouco mais sobre os quase
ignorados evangelhos apócrifos (textos rejeitados pela Igreja como ilegítimos
ou não-inspirados). Acredita-se que muitos desses tratados, embora não
completamente confiáveis em seu relatório histórico, podem ter se originado
em setores bem isolados da Igreja primitiva e que conservaram em seu seio
alguma tradição antiga pregada por um apóstolo ou testemunha ocular do
ministério do Senhor. Por isso, como veremos, eles podem hipoteticamente
conter elementos de historicidade. O mencionado livramento joanino está
preservado em material apócrifo rejeitado pela Igreja oficial.

Na utilização destas fontes, deveremos seguir os seguintes princípios que


coadunam com a filosofia gramático-histórica de pesquisa das Escrituras.
1) Não podemos separar o Jesus histórico do Cristo da fé. Reduzir Jesus a
um mero dass —“apenas uma certeza de que ele existiu na história”—afirmando
ser impossível traçar um perfil desta historicidade é conclusão apressada que não
considera os sérios avanços das ciências acima anotadas.
2) Jesus era um judeu e é assim que deve ser primeiramente encarado.
Mestre gnóstico, pensador helenista etc., são conjecturas posteriores que ainda
carecem de base bíblica que as valide. Para início de aproximação, o que temos
certo é que nosso Senhor era um legítimo filho de Abraão segundo a carne, que
ia à sinagoga, guardava a Torah e participou do bar-mit-^yah ao atingir 12 anos.
Noutras palavras, no que diz respeito à sua identidade nacional, se Maria e José
morassem no gueto judaico da Alemanha Nazista, seria muito grande a
possibilidade de Jesus morrer em Auschwitz juntamente com outras 20 mil
pessoas que eram executadas diariamente.
In t r o d u ç ã o

3) Deve-se cuidar para não criar uma “jesulogia” por detrás de uma
ortodoxa busca do Cristo histórico. Que o nazareno filho de Maria é nosso
alvo de pesquisa é um fato; porém, não podemos reduzi-lo a isso. Muito mais
do que um homem circundado pelos costumes, gostos e filosofias de seu
tempo, ele era Deus em forma humana. A divindade em pessoa que se auto-
impôs limites para se revelar e salvar o ser humano caído em pecado.
4) Haverá elementos próprios da cultura literária do evangelista que deverão
ser levados em conta. Sua maneira de ler o Antigo Testamento e a aplicação
que faz de seus textos a Jesus de Nazaré pode soar estranha aos ouvidos de um
exegeta moderno. O mesmo pode ser dito com respeito à reconstrução de
algumas modalidades históricas (o sermão na montanha, os quarenta dias no
deserto); estas podem ser peculiaridades hebraicas de narrar a vida do Messias
as quais não têm necessariamente aquela função descritiva a que estamos
acostumados a ler em romances ou biografias modernas. Daí entendemos
porque alguns se chocam tanto com as chamadas “contradições” dos evangelhos.
5) Conquanto não possamos ter certeza quanto às ipssima verba de Jesus
(as palavras exatas que ele usou), há, pelo menos, dados suficientes para que
levantemos com bastante clareza a chamada ipssima vox, ou seja, se aquele
determinado conteúdo foi mesmo dito por Cristo em alguma ocasião de seu
ministério ou se o evangelista (como propõem os liberais) colocou nos lábios do
Nazareno um discurso que na verdade era exclusivamente seu, mas que ele quis
“cristianizar” para ter mais crédito confessional na comunidade à qual se dirigia.

Limitações da Pesquisa
Enfim, é necessário ainda dizer que, enquanto pesquisadores da vida de Cristo,
nossas descobertas conhecerão acentuadas limitações. Há uma brecha de dois mil
anos entre nós e o Jesus histórico que não pode ser cientificamente ignorada. Quanto
a este aspecto, nos virá ao auxílio o elemento da f é disposto em seus dois sentidos:
doutrinário (fides quae) e relacional com Deus (fides quà). Quando houver algum dado
sem confirmação científica ou algum item que nos escape a uma compreensão
detalhada, descansaremos na comunhão com o Pai e esperaremos dele a resposta, seja
numa descoberta porvir ou no futuro em seu reino de amor. Portanto, serão banidas
de nosso trabalho as especulações e questiúnculas infundadas. Também não deverão
ser buscadas novas idéias que contradigam o que a revelação já estabeleceu. Nosso
intento não é localizar um novo Cristo, mas conhecer melhor Aquele que já temos
revelado na exposição escriturística. Isto, contudo, não nos impedirá de apresentar
algumas hipóteses ou conclusões sobre descobertas que ainda são objeto de debate
nas Ciências Bíblicas.
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

Portanto, nossa busca pelo Jesus histórico não tratará de reescrever sua biografia
com detalhes jamais vistos, nem tampouco romantizar especulações acerca de um
possível casamento secreto do mestre ou de um estágio místico feito no Himalaia.
Também não queremos descobrir ensinamentos ocultos do Senhor, mas tão somente:

• Averiguar a confiabilidade histórica dos Evangelhos.


• Conhecer mais o contexto no qual o Mestre viveu.
• Saber cientificamente o que é possível conhecer dos primórdios da Igreja Cristã.
• Confirmar a eficácia do ensino de Cristo (inclusive sua promessa de retorno) a um
mundo secular que perdeu quase todo o contato com estas importantes verdades.5

Por fim, entendemos que uma pesquisa criteriosa sobre o Jesus histórico e os
resultados que dela se obterão serão de grande importância para o cristão que vive
num mundo dividido entre a descrença na Palavra e a crendice em falsos caminhos de
salvação. Para o teólogo, enquanto homem de estudos e de fé, vale a máxima barthiana:
“diga-me como é a tua cristologia e te direi quem és”. 6

Referências:
1. Alves, R., O que é Religião [Col. Primeiros Passos], São Paulo: Ed. Brasiliense, 1981, p. 8
2. Um vivo exemplo deste questionamento moderno pôde ser visto no II encontro do “Jesus Seminar” de
1995, ocorrido no saguão do Flamingo Resort Hotel em Santa Rosa, Califórnia. Ali, teólogos de várias denominações
e universidades americanas chegaram quase unanimemente a um acordo de que quase nada do que o Novo
Testamento nos transmitiu acerca de Jesus é realmente digno de confiança. Veja matéria sobre o encontro por
David van Biena et alli, “The Gospel Trudi?” Time, (April, 8), 1996, pp. 32 —39.
3. As idéias de Käsemann foram publicadas pela primeira vez no “Zeitschrift für Theologie und Kirche”
51 (1954), pp. 125 —153. Originalmente o opúsculo fora uma palestra intitulada “Das Problem des historischen
Jesus” que Käsemann proferiu como conferencista em 1953 dada a ex-alunos da Universidade de Marburgo onde
Bultmann ainda lecionava na cátedra de Novo Testamento. Deste discurso, tive acesso apenas a duas traduções
uma em Inglês outra em espanhol que trazem umas pequenas diferenças não muitos relevantes. Como se tratam
de publicações distintas de artigos selecionados de Käsemann, resolvi citar ambas: Käsemann, E., Essays ou tbe
N ew Testament, Philadelphia: Fortress Press, 1982 (a palestra é reproduzida nas páginas 13 —47) e Ensajos Exegeticos,
Salamanca: Ediciones Sígueme, 1978 (a palestra está nas páginas 159 - 188).
4. Uma boa síntese da perspectiva gramático-histórica para um estudo cientificamente sério das Escrituras
pode ser encontrada em: Hasel, G., A Interpretação Bíblica Hoje, São Paulo: SALT - IAE, s.d., pp. 112 —138. De
forma mais completa temos vários exemplos da aplicação dos princípios desta perspectiva em: Hasel, G.,
Understanding tbe Liring Word o f God, [ Adventist Library of Christian Thought volume 1], California: Pacific Press
Publishing Association, 1980, esp. pp. 42ss. Para uma comparação dos vários métodos veja Veloso, M., “Modern
Scientific-Critical Method —A Testimony” in Adventist Perspectives VI:2, pp. 29 - 35.
5. Segundo o parecer de H. Maier, o que se vê hoje é que “para muitas pessoas, a fé cristã já não constitui
mais um problema existencial. Deus, para muitos, não entra mais em questão. Cada vez mais pessoas se encontram
... num caminho de retorno à mais pura finitude. Dão-se por satisfeitos com o seu meio, com o tangível, o
mensurável, o factível.” [Cf. Meier, H. “Vergegenwärtigung des Glaubens” in Die Zukunft des Glaubens, (Albeitshilfe
65) Bonn o j . , 1989, p. 10. ] Por outro lado, porém, há interessantemente uma busca cada vez maior pelo misticismo
em substituição à tradicional fé cristã. Visões místicas de Cristo lotam as prateleiras das livrarias e se tornam best
sellers em pouco tempo de publicação. Falo brevemente sobre este assunto em determinada parte de minha
In t r o d u ç ã o

dissertação de mestrado, veja: Silva, R. P. “A Cristologia e a Nova Era” in A Cristologia de Santo Irineit a partir da
Adversas Haereses, Belo Horizonte: Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus - Instituto Santo Inácio,
1992, pp- 157 - 159, onde apresento uma certa bibliografia acerca deste tema.
6. Barth, IC, Bosquejo de Dogmática, Buenos Aires/Apartado: co-edição La Aurora e Casa Bautista de
Publicaciones, 1973, p. 103.
CAPÍTU LO 2

t
Je s u s H i s t ó r i c o e C r i s t o d a F é

1 - 0 Iluminismo Alemão

N
o século XVIII, a Alem anha passou por um período de forte
sobrevalorização do racionalismo em detrimento à fé evangélica. Foi o
chamado Iluminismo Alemão (A ufklàrung). Este movimento surgiu devido às
seguintes situações:

a) O próprio espírito crítico-racionalista que dominou a Europa naquele tempo


(ela estava vivendo praticamente sob a influência do ponto mais alto e final da
Idade Moderna que era a Revolução Francesa).
b) O deísmo inglês que contribuiu em muito para o surgimento de conceitos
cépticos como os esboçados por Voltaire e outros pensadores que surgiriam na
Alemanha.1
c) A modificação radical popular do deísmo na França que se tornou quase um
cepticismo.
d) O pietismo alemão que foi um rompimento com o protestantismo germânico
que, entre outras, deu muita ênfase ao sentimentalismo, exagerou em sua
pregação o tom ascético para com o mundo e negligenciou os elementos
intelectuais da religião.2

A pretensão básica dos iluministas alemães era criar uma religião cristã mais
racional e menos sentimentalista. Sentiam-se pressionados a não ceder para o
extremo de um dogmatismo infundado, como julgavam ser as crenças oficiais da
Igreja, nem cair na negação completa de Cristo, como fizeram os pensadores
franceses. Logo, começaram a surgir vários teólogos pretendendo expor teorias
sobre quem haveria de ser Jesus Cristo. Suas novas idéias acerca do fundador do
cristianismo contradiziam totalmente a visão tradicional da Igreja acerca do Filho
de Deus. Eles faziam uma distinção entre o Jesus histórico (historich er Jesus) e o
Cristo da fé (gesch ich tlich er C bristus)3. O primeiro, se existiu, constitui o Jesus
historicamente real, ao passo que o segundo, seria um ser mitológico “inventado”
e “mantido” pela Igreja através dos tempos4.
U m D e s c o n h e c i d o G a lileli

2 —0 Questionamento dos Teólogos Liberais5


1) O primeiro detentor destas novas idéias foi Herman Samuel Reimarus
(1694—1768). Sendo o primeiro a ser mais radicalmente influenciado pelos deístas
ingleses, Reimarus projetou uma enciclopédia de 4.000 páginas na qual pretendia
reconstruir de modo científico a história da religião cristã. Entretanto, foi apenas após
sua morte que algumas partes desse tratado foram publicadas por um certo G. Efraim
Lessing. Num de seus excertos intitulado “Sobre a pretensão de Jesus e seus Discípulos”
(1Yom Zwecke Jesu un seinerjünger), ele afirmou que qualquer investigação crítica sobre
a vida de Jesus Cristo “deve manter a distinção clara entre o que Jesus realmente fez e
ensinou em sua vida e aquilo que foi narrado pelos apóstolos em seus escritos.”6
Assim, Reimarus, entendeu que Jesus foi apenas um judeu zelota que empreendeu
uma revolta contra o império romano e, como outro rebelde qualquer, foi condenado
e morto numa cruz em virtude de seus discursos políticos. Seus discípulos, então, para
não admitir o fracasso do movimento, roubaram seu corpo e inventaram a história da
ressurreição e da redenção universal da humanidade.
2) Embora partindo de pressupostos contrários aos dos racionalistas, Friedrich
Ernst Schleiermacher também apresentou em 1832 uma interpretação desconcertante
acerca de Jesus. Ele via o Mestre nazareno como sendo apenas um mero homem com
consciência de ser divino (algo que todos, em tese, podem efetivamente possuir). Além
disso, Schleiermacher não admitia espaço para a idéia da ressurreição, nem da morte
expiatória do Filho de Deus. Para ele, Jesus só nos vale por modelo, enquanto consciente
da idéia de Deus e do controle dEste sobre Sua vida.7
3) O Jesus ético ou liberal, conforme a crítica e a descrição de Albert Schweizer8,
era um modelo moralizador usado pelos teólogos apenas para “ilustrar” aquele ideal
do que deveríamos ser. Como exemplo desta percepção, temos o trabalho de um
jovem de 27 anos chamado David Friedrich Strauss (1808—1874), segundo o qual, os
milagres de Jesus e outros eventos de Sua vida eram apenas mitos inventados pelos
apóstolos e evangelistas com fins teológicos e não históricos.9 Ele achava, por exemplo,
que o detalhe dos ladrões crucificados com Jesus era apenas um enfeite mitológico
para fazer eco à poesia de Isa. 53:12 “ele foi contado entre os pecadores”.
4) O Jesus mitológico de Rudolf Bultmann (1884—1976) é uma estranha
combinação de dogma teológico com ceticismo histórico. Ele não afirmava
categoricamente como Schweitzer que Jesus era um pregador apocalíptico. Pelo
contrário, ele até acreditava que Jesus foi um homem que viveu e morreu no primeiro
século, mas, que nada podemos saber de sua história real, porque os únicos documentos
que poderiam contá-la (isto é, os evangelhos) não tinham nenhum interesse em fazê-
lo. Sua intenção era teológica e nãó historiográfica.10
Je s u s H i s t ó r i c o e C r i s t o d a F é

3 —Podemos Conhecer o Jesus Histórico?


Há detalhes, de fato, que são difíceis de precisar. Todos sabemos que é impossível
traçar todo o perfil de uma pessoa, por mais que a tenhamos conhecido intimamente.
Saber exatamente tudo o que ela pensou, viveu, sentiu; qual a sua real opinião sobre
os mais diversos assuntos, como ela reagiria se fosse de outro sexo ou nascesse em
determinadas condições são todos elementos mais firmados na conjectura do que
na realidade dos fatos. Mesmo hoje em dia, com todo o recurso de câmeras, fotos,
depoimentos etc., não é raro encontrar um personagem famoso (ainda vivo) que
declare não concordar com a biografia “autorizada” que determinado jornalista
escreveu a seu respeito.
O mesmo se pode dizer com relação às idéias de uma pessoa. E tremendamente
difícil reproduzir na íntegra tudo o que ouvimos em um discurso, todas as idéias que
determinado pensador queria transmitir. Quem vive no mundo acadêmico, vez ou
outra, encontra críticas de autores vivos que se sentiram incompreendidos ao
verem seu pensamento interpretado de forma não muito exata nalguma tese baseada
em seus escritos.
Com Jesus a situação se torna um tanto mais difícil. Primeiro, porque o que
sabemos a seu respeito foi escrito por outros, de modo que não temos nenhum tratado
saído de seu próprio punho. Em segundo lugar, que dos quatro evangelhos, apenas
dois (João e Mateus) podem ser reputados por testemunhas oculares de parte do que
escreviam; os demais reproduziam depoimentos coletados de outras pessoas (Marcos
escreveu, principalmente, com base no depoimento de Pedro e Lucas no de Paulo e
outros documentos). Ninguém tinha na época um gravador ou câmera de vídeo que
pudesse gravar as palavras exatas de Jesus. Além do mais, há incongruências entre
os evangelhos no que diz respeito a detalhes históricos. O sermão do monte, por
exemplo, segundo o parecer de Lucas, aconteceu numa planície e seu conteúdo é
deveras menor que o de Mateus.
Contudo, a despeito dessas dificuldades, devemos de antemão dizer que o que é
essencial p a ra nossa salvação pode ser confirmado e conhecido historicamente. Há
muitos teólogos que ainda se vêem inspirados pela descrença bultimaniana de encontrar
° Jesus histórico. Mas, se cremos que a Bíblia é a verdadeira Palavra de Deus e que
aquilo que suas páginas contêm (especialmente o Novo Testamento) é deveras real,
entao devemos crer que é possível confirmar algo sobre aquela história. Caso contrário,
0 Espírito Santo seria um algoz nos torturando com a ordem de buscar um gato preto
num quarto escuro sem ao menos sabermos se esse gato realmente existe.
A despeito de nossa crença na inspiração autêntica das escrituras, uma busca
pelo Cristo histórico pode resultar num encontro um tanto desastroso para nossas
crenças tradicionais. Por isso devemos estar abertos para possíveis decepções que, na
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

verdade, deveriam abalar apenas nossos preconceitos, mas nunca nossa fé.
E uma decepção semelhante àquela de Neymar de Barros, ao descrever em sua visão
poética que “Deus era negro”.
Aliás, basta uma leitura demorada nos evangelhos (especialmente João) para ver
que Jesus decepcionou muitas pessoas. Não porque ele fosse falso, mas porque não
atendeu às expectativas dos preconceituosos e dos chauvinistas cultivado pelas massas
populares, e hoje não é diferente. F-X Kaufmann esboçou muito bem num esquema a
problemática do que significa ser seguidor do Cristo nesta nossa sociedade pós-moderna:
1 — “É tremendamente difícil tornar-se um cristão nesta cultura”.
2 — “É tremendamente difícil viver e agir como cristão sob as convenções dessa
nossa cultura”.
3 —“Se, pois, alguém tenta efetivamente tornar eficiente sua fidelidade à identidade
cristã, ele mesmo torna complicada sua existência no meio onde vive”.11
Outro problema sério que pode levar muitos a uma decepção com o Jesus histórico
é que a cristandade de um modo geral criou para si várias caricaturas do Jesus nazareno
que pouco ou quase nada têm a ver com o Cristo dos credos, muito menos com
aquele descrito nas Escrituras. Chega-se ao ponto de questionarmos juntamente com
Bruno Forte: “será cristão o Deus dos cristãos”?12
No próximo capítulo analisaremos as implicações dessa última indagação
reflexiva. Veremos tam bém , as várias im agens de Jesus Cristo cultuadas,
principalmente, na cultura brasileira, e por fim, abordaremos uma inquietante
pergunta: “quem é Jesus para mim?”

Questões Para Análise e Reflexão


•B ultm ann e diversos outros eruditos afirm aram que a
ressurreição de Cristo era uma ficção, uma parábola, uma lenda. Leia
I Cor. 15:12-19 e comente estas conclusões teológicas liberais à luz do
pensamento de São Paulo.
•Leia Lucas 1:1-3 e João 21:24 e 25 e responda: pretendiam os
evangelistas narrar um acontecimento histórico ou simplesmente uma
novela com fundo teológico-moral?
Je s u s H i s t ó r i c o e C r i s t o d a F é

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Segundo a bíblia, Jesus fo i plenamente Deus e homem, ao mesmo tempo.
Mas esta verdade tem sido desacreditada p o r muitos religiosos dentro do cristianismo
os quais j á pintaram nos primórdios da igreja as mais diferentes teorias acerca de
Cristo. Eis algumas delas:

• Ebionitas: aiam que Jesus era apenas um homem bom que no batismo recebera
sobre si o espírito do Logos ou do Cristo. Ele era apenas um receptáculo do
espírito divino. Na cru^ este espírito o abandonara e p o r isso ele clamou:
“Deus meu p o r que me abandonaste?”
• Docetas: criam que Jesus Cristo apenas fingiu (aparentou) ser um homem.
Mas na verdade elejamais fo i de carne e osso.
• Marcionitas: criam que havia dois deuses em oposição: um era o Deus do
Antigo Testamento que apesar de não ser mau erajusto e desastrado. Ele criou
o mundo mau, fo i responsávelpelo pecado e tentou remediar a situação dando
ao povo as severas leis judaicas. Mas do céu desceu u?n outro Deus, mais
misericordioso que era Jesus Cristo. Este veio, sobretudo, para salvar os homens
da tirania do Deus anterior.
mNestorianos: criam que Jesus tinha sua mente divididãlm duaspartes, uma
humana, outra divina. Quando uma comandava o coipo, a outraficava silente.
Assim, se Jesus realizava um ftiilagre ou expulsava um demónio, era suaparte
divina que estava em ação. Porém, se estava comendo, dormindo, perdendo a
paciência era aparte humana que estava dominando sua mente.
•Arianos: Cristo fo i apenas uma criatura de Deus. O primeiro na ordem da
mação. Embora exaltado sobre os outros seres, era, ele mesmo inferior ao Todo-
Poderoso não pretendendo nunca ser igualado a este. Os arianos, com esta idéia
negavam a doutrina da trindade e hoje têm seus ensinos representados nopensamento
das Testemunhas de Jeová que defendem esta mesma cristologia.

Referências:
1. O deísmo passou por vários estágios até a negação absoluta das verdades bíblicas. No começo, enquanto
era apenas uma idéia original dos escritos de Herbert Cherbury, ele quase não assusta muito a ortodoxia de um
leitor apressado. O ponto nevrálgico, porém, de seu rompimento com a doutrina cristã original seria sua idéia
básica de que o conhecimento de Deus e suas verdades vem da razão e não da revelação. Sobre este movimento
veja: Latourrete, K. S., Historia de! Cristianismo, Argentina: Casa Baudsta de Publicaciones, 1977, vol. II, pp. 362 -
"369; Idem, A. H istorj o f tbe Expansion o f Christianiiy, New York: Harper and Brothers, 1939, col. III, todo o cap.
XVI; Walker, W., História da Igreja Cristã, Rio de Janeiro: co- edição JUERP/ASTE, 1980, pp. 586 - 593.
Um D e sco n h e cid o G a lile u

2. Sobre o pietism o alemão, Cf.: Heppe, H. L. J., Gescbichte des Pietismus und der Mystik in der Reformierten
Kircbe, Leiden: E. J. Brill, 1978 [reimpressão em fac-símile da edição de 1879], espec. as pp. 30 —48.
3. Tam bém cham ado Cristo querigmádco.
4. A distinção entre o binômio Jesus + bistoricbe e Cbrístns + gescbicbtler; só foi sistematizada, de fato, na
virada do século X IX para o século X X com a obra de M. K ãhler, Der sogenannte bistoricbe Jesus und der gescbicbtlicbe
bib/iscbe Cbrístns., [traduzida para o inglês por Cari E. Braaten e prefaciada por Paul Tilich sob o título: The So-Called
Historical Jesns and the Historic Biblical Cbrist, Filadélfia: Fortress Press, 1964]. Ao apresentarm os, contudo, autores
alemães anteriores a K ãhler como distinguindo o Jesus histórico do Cristo da fé, dizem os que eles o fizeram em
sentido prático. A o teólogo posterior, pertenceu apenas a alcunha para um a tarefa já com um ente feita pelos
escritores ilum inistas sobre Jesus. M esm o assim, a nomenclatura inaugurada por K ãhler só encontrou m aior
divulgação após o trabalho de Bultmann na década de 50. A bibliografia sobre este assunto é bastante vasta, mas
podemos citar algum as excelentes obras a este respeito: Jerem ias, J., Das Problem des bistoriscben Jesus, Stuttgart:
Katholisches Bibehverk, 1969; Borg, M ., Jesus, a New Vison, San Francisco: H arper & Row, 1987, pp. 15 —21;
Anderson, C. C. CriticalQuest o f Jesus, Grand Rapids: Eerdmans, 1969. Em português temos: Meier, J. P. UmJudeu
Marginal, Repensando o Jesus Histórico, [Col. Be Reshit], Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1992, vol. I, pp. 31 - 49, Bailey, D.
M ., Deus estava em Cristo, Rio de Janeiro: co- edição JU E P/A STE , 1990, pp. 37 ss; Terra, J. E. M., Jesus Histórico e
Cristo Onerigmático, São Paulo: Loyola, 1978, pp. 2 9 - 37; Fabris, R., Jesns de Natçaré, História e Interpretação, [Coleção
Jesus e Jesus Cristo, 1], São Paulo: Loyola, 1991, pp. 7—32;
5. N este ponto não analisaremos de form a porm enorizada todos os teólogos liberais que se debateram
com a questão cristológica na m odernidade. Trata-se apenas de uma introdução à problem ática. Por isso há
teólogos outros como Ritschl, K aehler e historiadores como H arnak que ficarão fora de nossa apresentação.
6. Reim arus, H. S., Apologie oderScbut^escbrift J/ir die verniinftigen Verebrer Gottes, [G. Alexander, org.], Frankfurt,
Gotteheld, 1972; I —II, p. 38. Também impresso em inglês em Fragments, [Talbert, C. H, org.], London: Hodder &
Stoughton, 1971, p. 64.
7. Schleierm acher, F., Tbe Christian Faith, [ H. R. M ackintosh e J. S. Stewart, eds.], N ew York: 1963, vol. II,
pp. 34ss; Niebuhr, R, Schleiermacher on Cbrist and Religion, N ew York: Scribner’s, 1964.
8. Schweitzer seria radicalmente contra esta busca por um Jesus histórico. Para ele, o Jesus pregador de
um a elevada atitude m oral jamais existiu. Quem existiu na verdade foi um judeu lunático que pregava o fim do
mundo e que seria futuramente m itologizado (às vezes ele parece propor que mesm o este pregador apocalíptico
poderia não passar de um a lenda). Pregações como o sermão do monte, etc. eram apenas manuais de procedimento
pregados por um “m estre apocalíptico” que julgava estar anunciando o fim do mundo. Schweitzer, A ., Gescbichte
derl^eben Jesu-Forscbnng, Tübingen: M ohr, 1913. H á um a tradução inglesa de W. M ontgom ery sob o título: The Quest
fo r the HistoricalJesus, N ew York: M acmillan Company, 1968, nas ps. 398/9 da edição em Inglês ele diz: “O Jesus de
N azaré que se apresentou em público como M essias, que pregou a ética do reino de D eus, que fundou o reino do
céu na terra e m orreu para conferir um a consagração final à sua obra, jamais existiu. Esta im agem foi traçada pelo
racionalism o, revivificada pelo liberalism o e revestida pela teologia m oderna com roupagens históricas.” O
interessante, porém , é que Schweitzer dizia adm irar esta figura lendária e queria fazer dela seu próprio modelo de
vida. Isso ele dizia, prim eiro por elogiar a firm eza de Jesus em cima do que pregava (ele não desistiu de sua crença
m esm o ao ver que estava para m orrer e seu reino não acontecera). Segundo, porque ele foi coerente com o que
falou não desistindo daquilo m esmo diante do juízo dos romanos e a im inência da crucificação. Seu livro termina
apresentando um a nota de profunda devoção cristã e ele concluiu sua vida como um médico missionário que
deixou grande obra filantrópica na África tropical.
9. Strauss, D. F., DasLeben Jesu. D esta, tive acesso apenas à versão inglesa de G eorge Eliott, Tbe Life o f Jesns
editada em 1972/3 com um a introdução e anotações pela editora Fortress da Filadélfia.
10. Bultmann inaugurou o que se chama formgescbichte, ou a história das formas, que tenta explicar o modo
como os evangelhos foram montados e porque construíram determinadas “histórias” de Jesus. Para ele, a ressurreição
era apenas um a parábola para descrever a fé cristológica que reviveu no coração dos discípulos mesmo em vista da
m orte de seu m estre fundador. Suas principais obras a este respeito são: Die Gescbichte der synoptischen Tradition,
Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1921 e Das Hvangelium desJobanes, (1941). Traduzidas ao inglês pudemos ter
acesso aos seguintes tratados: Primitive Christianity in its Contemporarj Setting, N ew York, M eridian Press, 1956 onde
ele diz na página 200: “a pessoa histórica de Jesus foi radicalm ente transformada em mito já no cristianismo
primitivo”. “N ew Testam ent M ythology” in K erygm a and M ith [H. W Barstsch, ed.] N ew York: H arper and Row,
1961, onde ele declara: “é impossível usar luz elétrica ... e crer ao mesmo tempo num mundo neo testamentário de
espíritos e demônios.” (p. 5). Cf. também: Jesus and Word, New York: Scribner’s, 1934 (esp. p. 8 —13) e o clássico
] e s u s H is t ó r ic o e C r is t o d a F é

Theolog) o f the New Testament, New York: Scribner’s, 1955,2 vols. Um a clássica obra que debate as posições de Bultmann
é o tratado de Barth, K., R/Mf bultmann —ein Versuch ihn verstehen, Zurich: Evangelischer Verlag, 1952.
11. K aufm ann, F-X, “Über die Schwierigkeiten des Christen in der modernen Kultur” in Biotope der Hoffman
Olten: D arm alst Verlag, 1988, pp. 1 1 4 - 1 2 0 .
12. Forte, B ,,A Triniiaiie como História, São Paulo: Ed. Paulinas, 1987, p. 11.
CAPÍTULO 3

t
O s C r ist o s d o C r ist ia n is m o
1 —Imagens Populares de Jesus

Q
uem tem a oportunidade de ensinar nas séries iniciais do Ensino Funda­
mental pode ter muito trabalho e pouco salário, mas, com certeza, se di­
verte um bocado. Via de regra, as crianças aparecem com novos raciocínios, ou idéias
que, verdadeiros ou não, fazem-nos rir e desafiam nossa reflexão. Vejamos duas crô­
nicas infantis que muito têm a ver com o tema deste capítulo.
Uma delas aconteceu numa paróquia da Igreja Católica depois da realização de
uma missa pelo vigário local. Depois que todos já haviam ido embora, o celebrante
entrou na igreja para ver se estava tudo em ordem. Para sua surpresa, estava sentada
sozinha no primeiro banco, uma menina de 9 anos que recentemente havia concluído
seus estudos de catecismo. Com ares de indagação, ela olhava estatelada a uma
enorme imagem de Jesus crucificado que jazia à frente do altar. Percebendo a presença
do sacerdote ela perguntou: “Padre, se Jesus ressuscitou, por que então que ele
continua pregado ali?”
A pergunta pode parecer sem sentido, mas, como concluiu o próprio padre:
“não estaria esta menina mostrando-nos que estamos adorando a um Cristo morto?”
O outro episódio, aconteceu numa escola primária, onde um garotinho ouvia
atentamente a professora explicar as classes de animais e as diferenças entre um réptil,
um anfíbio, um mamífero etc. Quando ela falou dos animais que tomam leite de sua
mãe, ele imediatamente fez a ligação com o que a outra professora ensinara na Igreja
durante o Natal passado e exclamou radiante: “Agora eu entendi, professora; Jesus
Cristo toma leite, logo, ele é um animal mamífero!” Antes que você condene o pobre
garotinho à fogueira da inquisição, julgando que ele disse uma blasfêmia, saiba que sua
declaração encerra uma importante verdade do cristianismo: Jesus foi homem.
Houve uma vez em que o Mestre estava perto da cidade de Cesaréia de Felipe e
resolveu parar para uma oração particular. Os discípulos estavam silentes, em respeito
as preces do Senhor, quando ele simplesmente interrompeu sua meditação com o Pai
e Perguntou-lhes: “Amigos, o que o povo tem dito que eu sou?” Este relato está em
Mat. 16:12-23; Mar. 8:27-33 e Luc. 9:18-22.
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

A pergunta de Jesus é deveras importante para nossa reflexão. Que imagem as


pessoas têm hoje do Cristo? Está ela de acordo com o que as Escrituras ensinam a seu
respeito? E tão eficaz na doutrina quanto na vida prática?
O Cristianismo popular (não aquele acadêmico dos teólogos e especialistas) crê
de forma pelo menos genérica e confessional, que Jesus Cristo é o Filho de Deus, que
morreu na cruz por nossos pecados, ressuscitou no terceiro dia e que voltará para nos
levar ao céu. Independente de sua igreja, você sempre ouviu isto; na escola sabatina,
dominical ou no catecismo de sua paróquia. Contudo, o discurso confessional cede
lugar na vida prática a uma outra noção de Cristo, às vezes até antagônica à crença
oficial do cristianismo.

1.1 - Um Cristo Distante e Diluído1


Uma das imagens populares de Cristo é, de fato, a imagem de um ser distante,
como o Redentor no Corcovado. Sua pessoa não ocupa tanto o lugar central da
espiritualidade como deveria ocupar. Jesus não é, para muitos, uma figura chegada e
íntima de vida devocional, muito menos o Salvador único do mundo inteiro. Enquanto
este capítulo estava sendo escrito, a T.V noticiou as palavras de certa desempregada que
dizia pedir um serviço para “Nossa Senhora Aparecida” porque Jesus era muito ocupado
para atender pedidos pequenos. Tal declaração revela a beleza de uma simplicidade de
fé, mas ao mesmo tempo o drama de uma ignorância coletiva causada pela nossa própria
falha em não ensinar ao povo o evangelho que convém.
A cultura afro-brasileira (que movimenta o público, principalm ente por
causa de suas músicas) tem divulgado a existência de uma infinidade de orix ás,
que são protetores e interm ediários de uma divindade inacessível chamada
Za?7ibi. Da Bahia para o resto do mundo, cantores de a x é m u sic falam em en­
trevistas sobre O x alá, O x óssi, lem a n já como sendo seus legítim os guias e pro­
tetores. Até artistas já falecidos são lembrados como espíritos de luz que ago­
ra somam forças ao grande exército de protetores celestiais que cuidam dos
que ainda estão na terra.
Também no catolicismo advindo de Lisboa, a grande quantidade de santos
chega quase a fazer com que Jesus desapareça do cenário do céu. Segundo João
dias de Araújo, “quando Jesus é escolhido para ser um santo de devoção, a sua
figura é completamente deturpada: O Senhor Bom Jesus da Lapa, O Senhor do
Bonfim, O Bom jesus de Pirapora, etc. Muitos pensam que Jesus nasceu na Bahia,
porque não sabem onde fica o sertão da Judéia.”2 E evidente que o autor se refere
aqui àquelas camadas mais simples que equiparam o B om jesus de Matozinhos a
Santo Antônio de Roça Grande.
Os C r is to s d o C ristia n ism o

Veja esta peça do cancioneiro popular nordestino, dissertando sobre Padre Cícero:

“Será no Horto encantado,


dia de festa e de luz,
meu padrinho está lá
com seus olhinhos azuis
todo vestido de branco,
fazendo a vez de Jesus”.3

No setor evangélico, Jesus tem virado uma emblema atrás das novas linhas
g o sp elde logomarcas. A semelhança do público jovem secular, adolescentes evangé­
licos já colecionam seus “ídolos” de modo que a figura de Jesus Cristo salvador, se
dilui atrás da música preferida, do conjunto mais badalado. A rede g o sp el tem virado
um sbow de variedades e o nome de Cristo, apenas um estilo como o country e o
sertanejo para as músicas populares.
Por último temos as tendências aquarianas do movimento Nova Era que enxer­
ga Jesus como um grande Mestre enviado por Deus, mas em nada superior ou inferior
a Buda, Maomé e Ghandi.

1.2 - Um Cristo Amuleto Que Não Inspira Nenhum Respeito


Você já notou como a cruz (símbolo máximo da religião cristã) tem se tornado
cada vez mais um mero amuleto de boa sorte? Entre gnomos e cristais energéticos,
você sempre poderá encontrar pelo menos uma dúzia de modelos de cruz, feitos dos
mais diferentes materiais e com as mais diversas funções. Há cruzes para todos os
tipos e gostos. Até mesmo aqueles que não se dizem místicos ou que desprezam a
filiação religiosa, não se envergonharão de ostentar uma cruz comop ierá n g no mami­
lo, ou como brinco numa das orelhas. Grupos de Heavy Metal, por exemplo, têm
cruzes enfeitando a capa de seus cd’s ao lado de demônios e caveiras ensangüentadas.
E o Cristo da cruz? Acaba pegando carona na onda místico-ornamental e se
transforma numa espécie de “comigo ninguém pode” para espantar maus olhados.
Num dos shows da apresentadora Xuxa Meneguel, um padre que tem feito su­
cesso entre os jovens do nordeste compareceu cantando músicas de seu repertório
carismático. No final da apresentação, Xuxa, emocionada, lhe pede que “reze a Jesus”
por sua filha Sacha. O padre diz que o fará, ela dá as costas e em três segundos
(o tempo da TV é preciso) está em cima de um outro tablado onde pessoas são aten­
didas por um vidente astrólogo que as aconselha após consultar as estrelas. De modo
subliminar, o programa ensinava que Jesus, astros, santos, guias, gurus, orixás, etc. se resu­
mem todos em caminhos opcionais e diversos para se ter boa sorte nesta vida. É o
advento do velho adágio: “Todos os caminhos levam a Deus”.
Um D e sc o n h e c id o G a lile u

Aliás, vale aqui uma observação quanto ao uso de crucifixos, retratos do Sa­
grado Coração e estampas com o rosto de Cristo que enfeitam desde as paredes de
hospitais, Igrejas e casas de família, até bordéis, bares, casas de jogos e repartições
públicas. Em alguns lupanares pobres do Nordeste há um crucifixo pendurado na
cabeceira das camas ou nas paredes dos quartos. Noutras palavras, Jesus é um enfei­
te que traz boa sorte.
O sociólogo Gilberto Freire conta que no Brasil mais antigo, era comum vende
rem remédios caseiros para curar doenças contraídas em zonas de prostituição. Havia
elixires para curar desde uma simples herpes ou dermatite até a sífilis e outras doenças
sexuais. O mais interessante, porém, era que nos rótulos das garrafas apareciam figu­
ras como a do menino Jesus segurando um cordeirinho. “Até em estampas devotas,
com imagens do menino Jesus cercado de anjinhos, anunciava-se que o elixir tal cura
sífilis, e que se o próprio Cristo viesse hoje ao mundo, seria ele que ergueria sua
palavra santa para aconselhar o uso do elixir”.4
Tentando atrair os mais jovens, alguns religiosos entendem que devemos levar a
gíria para a linguagem teológica e com ela descrevermos a pessoa de Jesus. Assim,
temos canções, poesias e até sermões inteiros escritos num estilo: “Jesus é um cara
legal”, “Cristo é meu chegado”. E no final das contas, já não há diferença alguma
entre Jesus e o dono do botequim da esquina.
No carnaval, foliões totalmente irreverentes pularam felizes ao som da
música “erguei as mãos e daí glória a Deus”, numa versão carnavalesca feita
pela escola de samba Salgueiro. A imagem desse Cristo popular não constrange
a libertinagem de ninguém.

1.3 - Um Cristo Fantasma


Por último, há o Cristo fantasma. Este retrata uma caracterização de Jesus que se
parece com tudo, menos com um ser humano. Segundo seus seguidores ele não usava
sandálias, não tinha dor de cabeça, nunca sentia medo, nem precisava trocar de roupa, pois
sua veste sagrada ia milagrosamente crescendo em seu corpo sem nunca ficar velha.
Sua angústia final no Getsêmani suplicando ao pai o livramento da cruz, para
estes visionários era apenas um gesto de humildade, pois ele seria imune a estas coisas.
Falar de um Jesus carpinteiro que, como qualquer outro, podia deixar peças caírem no
chão ou martelar por acidente seu polegar direito é blasfêmia das mais doídas aos
ouvidos de um servo do Cristo fantasma.
A grande questão é: Se Jesus viesse hoje, reconhecer-se-ia com as várias imagens
que o povo tem de sua pessoa?
No próximo capítulo avaliaremos a confiabilidade textual e histórica dos evan­
gelhos canônicos dispostos em nossas Bíblias. Afinal, eles relatam uma história ocor­
rida há dois milênios e seus escritores são acusados por críticos que não aceitam a
Os C r is to s d o C ristia n ism o

dos fatos que narram. Há elementos plausíveis que confirmem as narrad­


v e ra c id a d e

a s de Mateus, Marcos, Lucas e João?

Questões Para Análise e Reflexão


“Jesus concordaria com esta equiparação moderna entre sua pessoa e
outros mestres, guias ou gurus da humanidade? João 3:31-36; 4:12-14; 8:58;
14:6; Atos 4:12; Heb. 1:1-8.
“Jesus foi Deus ou homem? Jo. 1:1; 5:19-21; Mat. 1:23; Rom. 8:5;
Tito 2:13; I Tua. 3:16; Jo. 1:14; Mat. 24:30; Fil. 2:5-11; Heb. 2:9.
* Qual é a postura de João quanto àqueles que equiparam Jesus a
um mero ser humano ou que, do outro lado, negam sua humanidade?
Jo. 1:1 -3 e 14; I Jo. 2:22-26; 4:2 e 3.
• Leiajo. 17:3 e comente este verso à luz do conhecimento de Cristo
que a humanidade diz possuir.

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Cristãos e Cristianismo —A palavra “cristão ”, ao que tudo indica, originou-
se como uma espécie de apelido dado em referência aos seguidores de Jesus de Nazaré,
que se di^ia o Messias (ou o Cristo). E difícil di^er se foram os próprios discípulos
que a cunharam, ou se ela surgiu dos meios externos à igreja. Mas, de qualquer
modo, há três referências a este termo nas páginas do Novo Testamento. A primeira
delas encontra-se em A tos 11:26 (as demais estão em A tos 26:28 e I Ped. 4:16).
Tá é-nos declarado que a cidade de Antioquia da Síriafôra o primeiro lugar onde os
discípulos foram finalmente chamados de Cristãos.
Ouer tenha surgido como um debochepopular ou como uma auto-identificação
do grupo, ofato é que a palavra parece ser uma manipulação do latim bárbaro onde
nomesplurais terminados e?n iani eram usadospara identificar os seguidores, escravos
ou soldados de determinado homem. Assim o termo galiani que aparece em Tácido
(Hist. I, 51), indicaria os soldados do general romano Galba. Do mesmo modo, os
termos augustiniani e caesariani significavam respectivamente os escravos ou súditos
de Augusto e Júlio César.
Sendo assim, é bem provável que christian(o)i, quejá envolve unia adaptação
daforma plural grega, indicasse aqueles que pertencessem a Cristo como súditos, servos
ou soldados de sua milíáa.
A palavra cristianismo, p or sua ve% veio à existência no século II A. D.
Sua mais antiga ocorrência está nos escritos de Inácio, quando ele falava sobre o
sistema religioso ao qualpertencia e que era odiado pelo mundo (ad Romanos iii).
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

Também apresenta o termo como designando um siste??ia de f é que, de princípio,


incorpora a verdade e exige do crente um comportamento que corresponda a esta
premissa (ad Magnésios x).

Referências:
1. Os temas do Cristo diluído e do Cristo Amuleto que a seguir analisaremos são adaptados do estudo feito
por J. D. Araújo que aparece no simpósio: Q uem é Jesus Cristo no Brasil\ São Paulo: ASTE, 1974.
2. Araújo, J. D., “Imagens de Jesus Cristo na Cultura do Povo Brasileiro” in Quem éJesus Cristo no Brasil, São
Paulo: ASTE, 1974, p. 47.
3. Pereira, J. A., Juazeiro Está Chamando todos os Romeiros no dia 2 de Novembro [panfleto paroquial], Juazeiro, Ceará.
4. Freire, G., Casa Grande e Senzala, Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio Editora, 1952, p. 134.
CAPÍTU LO 4

t
Po d em o s C o n fia r N o s E va n gelh o s?

ara adentrarmos a busca histórica de Jesus Cristo, bem como os aspectos


P mais relevantes de seu ministério, é preciso primeiramente que avaliemos a
confiabilidade literária da mais autorizada fonte de suas origens, a saber, os quatro
evangelhos. Por este motivo, abrimos espaço neste capítulo, para treatarmos breve­
mente de três questões muito importantes:

1 —0 que é um evangelho?
2 —Como foram produzidos os evangelhos de nossa Bíblia?
3 —Como assegurar-se de que o texto não foi adulterado no decorrer dos anos?

1 - Conceito Básico de “Evangelho”


Comumente, nós usamos a palavra “evangelho” para referirmos às boas novas
da Palavra de Deus —o que não é de modo algum errado, levando-se em conta que o
termo grego euangélion, evidentemente significa “boa notícia”. Esta era uma palavra
comum no passado, mesmo antes de surgir no mundo o movimento cristão. Etienne
Charpentier nos cita, por exemplo, uma inscrição do ano 9 a.C. encontrada na Ásia
Menor e que celebra o nascimento de Augusto como sendo o grande evangelho
(boa notícia) da história do mundo.1
Contudo, queremos considerar aqui outro aspecto desta palavra que, embora
nao negue o anterior, é bem distinto dele. Em termos de ciências bíblicas, evangelho é
um gênero literário, marcado por características e estilos que precisam ser anotados
para a boa compreensão de seu conteúdo.
Numa súmula, estes seriam os traços característicos do gênero bíblico-literário
chamado “evangelho:” 2
1) Os evangelhos são a proclamação de uma boa nova que deve levar o leitor a
utna tomada de posição contra ou a favor da graça oferecida, sem possibilidades de
estar neutro.
2) Os evangelhos narram um fato que se constitui “a plenitude dos tempos”,
a unica história escrita antes de sua ocorrência na Terra.
3) Os evangelhos procedem de uma tradição já formada que lhes antecedeu.
r
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

4) O Antigo Testamento é o pano de fundo da vida de Cristo que se une à


Antiga Aliança como cumprimento de tudo que foi dito (tipo e antítipo).
5) Mateus, Marcos, Lucas e João relêem a história de Israel e também do mundo
futuro à luz da vida e ministério de Jesus Cristo. Nesta seqüência, a cruz, sua ressurreição j
e promessa de retorno marcam a tônica dos séculos até ao fim do mundo.
6) O anúncio da salvação reveste-se de uma estrutura narrativa histórica, que
aconteceu num tempo e lugar precisos com testemunhas humanas que presenciaram
todo o evento.
7) Os evangelhos são ao mesmo tempo narrativa e confissão, pois declaram a
crença doutrinária de que Jesus não foi um mártir chorado pelos seus discípulos.
Ele era o próprio Deus Filho, encarnado na figura humana.
8) Cada evangelho pretende apresentar uma atualização do evento de Cristo, em
especial de sua mensagem, para responder às necessidades específicas da comunidade que
o acolhera. Pela inspiração do Espírito, porém, esta atualização se torna universal e acaba
atendendo às demandas querigmáticas de outros tempos e lugares como o nosso, ;
cronologicamente bem distante dos acontecimentos ali registrados.
9) Os Evangelhos, por sua natureza, demandam e pressupõem uma história real.
O valor assumido de sua mensagem está no fato de que os eventos narrados tiveram
lugar no curso dos acontecimentos humanos. Por isso, insistem tanto na importância
das testemunhas oculares (Luc. 1:2).

2 - A Origem e Formação dos Evangelhos


Segundo as conclusões mais atualizadas sobre a história da produção dos ■
evangelhos, uma grande parte dos estudiosos têm chegado às seguintes ponderações:

1 —Que o evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas vêm de uma mesma tradição,


pelo que são tecnicamente chamados de “sinópticos” (mesma ótica). João, por sua
vez, pertence a uma tradição independente formada na Ásia Menor no fim do
primeiro século.
2 —Cronologicamente, Marcos é o evangelho mais antigo que serviu de fonte
informativa para Mateus e Lucas3 e João foi o último evangelho a ser produzido.4
3 —Há uma boa probabilidade de que existira num tempo remoto anterior aos
evangelhos canônicos um ou mais documentos (agraphà) que continham as chamadas
Logia de Jesus ou sentenças ditas por Cristo. Estes documentos, em especial um livro
que os exegetas dão o nome de Q, serviram de fonte para os sinópticos5.
Talvez você esteja perguntando como foi que se chegou a estas três conclusões
e que livro especial é este chamado Q? Tudo começou com uma importante observação
feita por Karl Lachmann em 1835. Ele percebeu que Mateus e Lucas coincidem na
ordem de seus relatos apenas enquanto seguem o enredo de Marcos. Quando um
P o d e m o s C o n fia r N o s E v a n g elh o s ?

jeles difere, o outro sempre concorda com Marcos. Além disso, as passagens que
apareciam em Mateus e que Marcos não trazia eram, via de regra, frases ditas por
j esus que quase não existem no texto marcaíno.6
Três anos mais tarde Christian Wilke defendeu uma tese de que, pelas coerentes
observações de Lachmann, devemos concluir três coisas: que Marcos precedia Lucas
e Mateus, que Mateus e Lucas utilizaram-se de Marcos na produção de seus evangelhos
e, finalmente, que haveria outro documento anterior a Marcos que possuía uma
coletânea de ditos do Senhor. Este seria posteriormente chamado documento Q que
vem do alemão Quelle e quer dizer fonte.'
As bases históricas para esta idéia estão lançadas nos seguintes pontos:
Já no século II, Papias de Hierápolis (que segundo uma antiga tradição teria sido
o secretário do apóstolo João que escreveu o evangelho sob seu ditado)8 afirma que
Marcos fora um intérprete da pregação de Pedro. Ele não escreveu tudo
cronologicamente organizado, mas procurou expor ao máximo as preleções do apóstolo
relativas aos feitos e ditos do Senhor. Também afirma que Mateus compusera os ditos
de Cristo em língua hebraica, que cada um depois interpretou conforme sua capacidade.
Segundo suas palavras:
‘Marcos tendo se tornado o intérprete de Pedro, escreveu acuradamente tudo o
que ele letíibrava. Contudo, não fo i na ordem exata que Marcos relatou os ditos ou
feitos de Cristo. Pois ele nem ouviu o Senhor nem o acompanhou pessoalmente.
Por outro lado, porém, como eu disse, ele acompanhou Pedro que proveu as instruções
necessárias [para seus destinatários], mas não com a intenção de oferecer uma regular
narrativa dos ditos do Senhor. De qualquer forma, deve ser dito que Marcos não
cometeu erros ao escreveras coisas como ele as lembrava.... com respeito a Mateus, este
ajuntou os oráculos [do Senhor] em língua hebraica, e cada u?n os interpretou o
melhor que pôde. ...h á também utna história de unia mulher que fo i acusada de ■
muitospecados perante o Senhor e que pode ser encontrada no Evangelho segundo os
Hebreus. (Fragmento VI-10)”.
Como se pode ver, o fragmento de Papias, por alguma razão, omite qualquer alusão
ao evangelho de Lucas. Porém, o Cânon Muratori, que segundo alguns também pertence
ao II século, apresenta-o juntamente com Marcos e Mateus.9
Por último, na ordem de composição, temos, finalmente, o evangelho de João
produzido em Efeso, na Ásia, logo após o apóstolo ter sido libertado da ilha de Patmos
onde escreveu o Apocalipse.10 Também não há referência direta a este livro no
fragmento de Papias, a não ser que se queira entender a “história da mulher acusada”
com° sendo uma referência ao controvertido trecho da mulher pecadora em João 8
e o título üvangelho segundo os Hebreus como uma titulação variada para IV Evangelho.
Um D e sc o n h e c id o G a lile u

Voltando a falar de Mateus, os filólogos mais conceituados têm concluído que o


texto mateano conforme o temos em nossa Bíblia, não dispõe características de ser
uma tradução grega de um original hebraico. Logo, não é inverossímil supor que Papias
esteja falando aqui justamente desta coletânea de ditos de Jesus que chamamos fonte
Q " . Mesmo porque o clamor de Cristo “Deus meu, Deus meu, por que me
desamparaste?” é apresentado em Marcos no aramaico, enquanto Mateus o traz em
língua hebraica (compare Mateus 27:46 com Marcos 15:34).12
Assim podem os propor a hipótese de três etapas h istóricas para o
desenvolvimento dos evangelhos no I século da Era Cristã:
Ia. Etapa dos anos 31 —34 A.D. = Atendendo a ordem do Mestre de ensinar
aos homens Suas Palavras (Mat. 28:18 —20 e Luc. 24:44 —49), os discípulos, prepararam
uma coletânea de ditos do Senhor (tecnicamente chamados Logia de Jesus), que serviria
como cartilha missionária para propagarem as coisas que dissera o Messias até que ele
mesmo voltasse para levá-los ao céu. Nesta fase da pregação, eles entenderam que seu
dever seria levar o evangelho aos judeus somente, ótica esta que seria corrigida nos
anos subseqüentes. Esse período pode ter sido um dos primeiros estágios redacionais
do documento Q e de outras L ogia escritas por testemunhas oculares do Senhor, ou
seja, aqueles que viram e ouviram “dieta et factajesu” (o que Jesus fez e disse).13
2a. Etapa de 34 —70 A.D. = Esse período consolida o rompimento definitivo
entre a Igreja e a Sinagoga. Na verdade, essa ruptura inicia-se historicamente com a
perseguição judaica contra a Igreja e a morte de Estevão em 34 AD.14 Mas, demoraram-
se ainda cerca de três décadas até que ela fosse definitivamente assimilada pelos cristãos
primitivos. Muitos na Igreja ainda se sentiam judeus segundo a carne. A prova maior
disto está em que o cristianismo dispunha nesta época de dois fortes partidos: os da
circuncisão representados por Pedro15 (queriam obrigar os cristãos gentios a adotarem
ritos de iniciação judaica) e os liberais representados por Paulo e Tiago Menor16 que
entendiam o cristianismo como uma nova aliança que dispensava o cumprimento de
leis cerimoniais senão para todos, pelo menos para os gentios.17 Somente com a morte
de Tiago Menor e a nova insurreição judaica iniciada em 66 A.D. é que os cristãos
fugiram para Pela, reduzindo a quase zero sua presença em Israel e aumentando
adicionalmente seu distanciamento do judaísmo clássico.18
Neste período, possivelmente, o documento Q pode ter sofrido uma melhoria
redacional, embora isto seja apenas uma hipótese.19 Quanto aos evangelhos, o de
Marcos teria possivelmente sido escrito em 63/64 A.D. quando instaurou-se severa
perseguição de Nero aos Cristãos que moravam em Roma. Pouco tempo depois, entre
66 e 68 A.D., Paulo estava sendo encarcerado.20 Em decorrência disto, Lucas começa
a preparar seu evangelho e o livro de Atos com base, principalmente, no livro
de Q, no evangelho de Marcos e ho ensino de Paulo.
P o d e m o s C o n fia r N o s E va n g elh o s ?

Aqui é interessante observar que o livro de Atos termina abruptamente, quiçá


devido ao martírio do apóstolo que seria um orientador de Lucas na produção dos
dois textos.21 Por esse mesmo tempo, talvez um pouco antes de Lucas, Mateus, que já
sentia a pressão romana contra Jerusalém, também escreve o seu texto evangélico.
Ele toma por base as mesmas fontes Q e marcana, com a atenuante de possivelmente
ter sido ele mesmo, um dos antigos editores das L-ogia de Jesus.22
3a. Etapa de 70 a 100 A.D. = Com a morte de Pedro e Paulo a igreja parece
entrar numa fase de crise missionária e teológica (note que há um silêncio histórico
quanto ao que ocorreu desde este período até 96 A.D., quando João volta à cena
produzindo primeiramente o Apocalipse, na ilha de Patmos, e depois as epístolas e o
quarto evangelho. Após essa etapa, os quatro evangelhos estão editados em sua forma
final e já se encontram reproduzidos em manuscritos que começam a circular na
forma de livro (códex) pelas principais Igrejas Cristãs que os oficializam como
legitimamente canônicos. Uma dessas formas primitivas de circulação dos quatro
evangelhos, cuja tradição e fragmentos chegaram até nós, foi o Diatessaron composto
por Taciano em cerca de 170 A.D.
No D iatessaron os quatro textos apareceram em conjunto, mas também houve
versões que continham apenas um evangelho ao invés de todos.
Num esquema gráfico assim temos as fases de produção dos evangelhos:

João 96-100 A.D.


U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

3 —Propósito e Características de Cada Evangelho


3.1 - Marcos
A pedido de Pedro, Marcos talvez escreve um evangelho especialmente dedicado
ao problema da comunidade cristã de Roma que estava agora sofrendo martírio e :
perseguição pelas atrocidades de Nero. Uma leitura atenta do texto nos mostrará uma
sutil revolta contra a maldade dos romanos. No episódio do endemoniado geraseno,
Marcos23 enfatiza bem uma manada que estava sobre um monte. Mateus já não parece
ligar para este detalhe, mas Marcos e Lucas sim. Por que? Ora, porcos não eram
animais na literatura judaica. Além do mais não pastavam em cima de montes. Quem
ficava em cima das colinas vigiando as cidades eram os soldados romanos que aqui .
emprestam o nome de sua milícia a um bando de demônios que se auto-denominam
“legião” (Marcos5: 1- 14). E digno de nota, também, que em Marcos esta “legião”
suplica a Jesus que não os mande para fora do país, isto é, não os expulse de Israel
(v. 10). Logo, em seguida, sugerem ardilosamente a Cristo que os permita entrar na
manada de porcos e esta se precipita no mar. É claro que no episódio original os maus
espíritos queriam causar um prejuízo que levasse as pessoas da região a descrerem de
Jesus. Mas, na intenção de Marcos, estavam retratadas duas importantes verdades para
os perseguidos cristãos de Roma: a) Jesus Cristo é o soberano Senhor, ele tem poder
de expulsar as legiões para fora do país. Mas, (b) aparentemente não o faz, ele parece
deixar-se levar pelo pedido satânico e os manda para os porcos. Estes, contudo, se
destruirão a si mesmos porque não possuem a sabedoria de Deus. A história romana
cra uma constante luta pela sobrevivência na corte onde os membros da família imperial
viviam matando-se uns aos outros. Nero, que era o ditador da vez, não somente matou
todos os seus aliados (mãe, irmão, general) como provocou terrível revolta no exército
sendo obrigado a suicidar-se em 68 A.D..
O texto também traz indícios fortes de que fora fruto, pelo menos em parte,
de um ditado. Sua linguagem é muito próxima do idioma falado; neste sentido segue- ■
se uma predileção pelos diminutivos, como também pelos latinismos militares,
administrativos e munismáticos que faziam parte do colóquio popular da região
(5:9, 15; 6:27, 37; 12;14; 15:15, 16, 39). Além de emplacar em grego expressões
tipicamente semíticas (8:12), ele também traduz muito o aramaico (5:41; 7:11, 34;
15:34), embora noutras vezes prefira deixá-lo sem traduzir, como é o caso de amén,
rabbi, rabbuni e hosana.
Por fim, Marcos possui uma importante peculiaridade em relação aos demais
sinópticos que foi anotada em 1901 por W. Wrede, é a chamada “teologia do segredo j
messiânico”. 24 Depois de todos os acontecimentos de certa importância no ministério
público do Salvador, ele sempre pedia aos discípulos, aos curados ou à multidão que ]
não espalhassem o que ele dizia e fazia (1:34; 3:12; 5:37, 43; 7:36; 8:26, 30; 9:2, 32 etc).
P o d e m o s C o n fia r N o s E v a n g elh o s ?

Até mesmo no momento da ressurreição ele menciona que as mulheres, depois de


encontrarem o túmulo vazio, não o relataram a ninguém (16:8). O motivo disso, dentro
do contexto que descrevemos, poderia ser o de deixar com os cristãos de Roma uma
nota de bom senso, no sentido que deveriam ter a mesma cautela do Salvador, no
momento de fazer suas declarações.
Pedro e Marcos, juntos, produziram este evangelho possivelmente em Antioquia
e o enviaram a Roma ou talvez já estivessem em Roma no momento da produção,
embora esta última hipótese seja pouco provável.25

3.2 —Mateus
O evangelho de Mateus, poderia ser chamado, entre outros, de “o evangelho da
ruptura”. Dos três sinópticos, ele parece ser o que acentua mais a separação entre a
Igreja e o Judaísmo. Uma interessante nota mateana, nem sempre apontada nas traduções
em português, é que na maioria das ocasiões em que ele se refere à sinagoga ou aos
fariseus o faz dizendo “sinagoga deles”, “fariseus deles” etc. (Mat. 4:23; 7:29; 9:35; 10:17;
12:9; 13:54; 23:34 etc.) 26 Ora, o que seria esse “deles” senão um item claro de separação
dos judeus? Num primeiro momento, Mateus parece querer deixar bem claro a verdade
de que “nós seguidores do Nazareno, não fazemos parte do judaísmo”, e, sentindo bem
de perto a iminente retaliação aos judeus, acrescenta “nem comportamos de modo
subversivo como é comum a este grupo.”
Num aspecto mais prático, pode até ser que um revolucionário se choque com a
descrição mateana de Jesus. Ele escolhe discursos de Cristo onde a tônica maior parece
ser a de um recado dado aos romanos de que os cristãos não eram da mesma linha dos
judeus Zelotas. Não era intenção de Cristo competir com César ou criar um levante
contra o império. Se o soldado romano os obrigasse a andar uma milha, eles andariam
duas, se demandasse tomar-lhes a túnica, estes lhe dariam também a capa (5:39-41).
Dois centuriões e uma pequena guarnição romana reconhecem em Jesus o Messias
(8:5-13; 27:54). Pilatos se omite de considerá-lo culpado e sua mulher tem sonhos
acerca da inocência do condenado nazareno. Ambos tentam, em vão, salvá-lo do ódio
judaico. Na versão de Mateus, é a intolerância inconseqüente dos líderes judeus que
causa a morte de Jesus, pois contra o império, não havia nada de que acusá-lo, muito
menos a seus seguidores. Portanto, é como se o autor dissesse “não nos persiga, nosso
alvo é o reino dos céus, não queremos uma guerra contra seu império, nem participamos
da rebeldia dos judeus.”
Outras notas de ruptura estariam no sermão profético contra Jerusalém (a cidade
^ e rejeitou os enviados), no episódio do sinal de Jonas (cidades pagãs aceitaram o profeta
e Israel rejeitou o Messias) e na comissão evangélica (fazei discípulos de todas as nações).
Com tom de desagravo em face à apostasia judaica, o Jesus de Mateus encontra-se
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

de relações rompidas com o judaísmo institucional aqui representado pelos rabinos,


sacerdotes, o Templo e os diversos partidos. Não há porém, ruptura com o judaísmo
doutrinário religioso. No que diz respeito àTòra, Jesus não veio com intenção de
ab-rogá-la ou destruí-la (Mat. 5:17). Ao contrário disso, aquele que ensinar a
violação da Lei não terá parte no reino messiânico (Mat. 5:19 e 20). Na visão
mateana, Jesus é o novo Moisés, a continuação da antiga aliança. E o Messias para
o qual apontam a lei e os profetas, representados por Elias e Moisés na perícope
gloriosa da transfiguração sobre o monte (Mat. 17:1—8).27

3.3 - Lucas
Conforme o testemunho de Irineu de Lyon: Lucas, o companheiro de Paulo
“redigiu num livro o evangelho anunciado por este.”28 Além desta menção, se lermos
o Cânon Muratoriano do II século podemos extrair as seguintes informações sobre o
terceiro evangelista:
laicas era médico p o r profissão. [Mas] Depois da ascensão de Cristo, Paulo o
tomou consigo porque era um estudante de leis [jurista], loucas escreveu sua narrativa
a paitir de opiniões [pesquisadas] e afirm ou com seu próprio nome. Mesmo setti ter
tido contato com o Senhor pessoalmente, se aplicou [começando] seu relato pelo
nasámento de João Batista.29
Pelo contexto da época, percebe-se que o médico evangelista possui, em seus
objetivos literários, razões muito semelhantes às de Marcos para escrever seu evangelho.
Ele também enfrenta, entre outras oposições, a heresia de grupos partidários dentro
da Igreja e a perseguição romana contra os cristãos de sua comunidade. Além disso, as
igrejas que Lucas dirigia, pareciam ter se envolvido com uma espécie de descrença
quanto à vinda de Jesus, adotando, em contrapartida, posturas gnósticas que negavam
a ressurreição dos mortos e a corporeidade do Cristo ressurrecto.30
Somado a estas circunstâncias adversas, Lucas soubera que o apóstolo Paulo, seu
grande amigo e mestre, estava encarcerado, esperando o julgamento de César. Logo, se
podemos dizer que Lucas, além de médico, era também um jurista estudante de leis, não
é impossível supor que o apóstolo tenha lhe pedido que escrevesse um dossiê (o evangelho
e os Atos) a fim de ser usado por Theófilo em sua defesa pública perante o fórum
romano.31 Se proceder tal hipótese, boa parte da produção literária de Lucas deverá
coincidir com o período dos dois últimos aprisionamentos de Paulo, primeiramente em
reclusão domiciliar (Atos 28:16, 30 e 31) e depois, segundo a tradição, no cárcere de
Mamertina em Roma. Isto seria entre 66 e 68 A.D..
Se analisarmos bem todo o texto de Atos 28:16—29, perceberemos o referido
contexto da produção do Evangelho Lucano. No início do processo jurídico, Paulo
P o d e m o s C o n fia r N o s E va n g elh o s ?

recorre aos judeus para que o ajudassem em seu livramento. Estes, por sua vez, parecem
boa vontade em ajudá-lo, caso averiguassem a veracidade de sua inocência
(vv 21 e 22). Eles marcam um dia para o ouvirem (v. 23), mas não chegam a um
consenso sobre o caso. Por isso recuam em auxiliar o apóstolo que, indignado, cita o
lam ento do profeta Isaías e ratifica que os gentios tomariam o lugar dos judeus por
terem voltado as costas à salvação trazida por Cristo. Interessantemente, também, é
esta a seqüência seguida no evangelho de Lucas e no próprio livro de Atos: os fariseus
que antes se aproximavam de Jesus com o intuito de ajudá-lo e unirem-se a ele, negam-
lhe o reconhecimento messiânico corroborando com seu sacrifício.32
Abandonado pelos judeus e aguardando o julgamento de César, Paulo então
escreve a Timóteo sua segunda epístola, afirmando que Lucas já estava com ele e
pedindo-lhe que venha visitá-lo em companhia de Marcos (II Tim. 4:11).33 Não seria
estranho supor que a presença de Marcos também fosse útil para ajudar a Lucas que,
neste momento, estaria compondo o evangelho. Note que, junto a Marcos, Paulo
solicita a Timóteo que traga os livros e os pergaminhos (v. 13). Entre os livros poderiam
estar a fonte Q e o texto marcaíno que à esta altura já circulava entre as igrejas. Quanto
aos pergaminhos, é provável que se tratassem de folhas em branco que seriam usadas
para escrever e copiar o evangelho Lucano (seria redundante pedir a Timóteo os livros
e os pergam inhos se ambos quisessem significar a mesma coisa).
Alguém, contudo, poderia questionar: Por que Paulo pediria a Lucas para escrever
um evangelho em sua defesa, se Marcos já possuía o seu totalmente pronto? Bem,
primeiramente devemos dizer que não há base para crer que o Evangelho de Lucas
fora escrito apenas para a defesa de Paulo. E até provável que boa parte do texto já
existisse num estágio inicial e que, na emergência dos acontecimentos judiciais, Lucas o
aproveitasse na compilação dos documentos que enviara a Teófilo (é interessante que o
grego de Atos possui indícios de ter sido escrito de forma apressada, o que não se vê no
texto evangélico). Some-se a tudo isso o fato de que Paulo precisaria de um documento
que fosse o mais bem escrito possível pois seria enviado a um magistrado. Havia
necessidade de se usar palavras técnicas, bem apresentadas e o evangelho de Marcos não
condizia com todas estas exigências legais.
Deste modo, a cultura apresentada por Lucas (médico e jurista) explica, entre
outras coisas, o grego acurado que aparece no seu evangelho. Apesar de ser uma
escrita Koiné, o texto é impecável no uso dos modos verbais, em especial do optativo.
Lucas ainda melhora a linguagem marcana reduzindo os semitismos e tornando mais
precisas e elegantes a terminologia e a fraseologia empregadas. Ele realmente parece
estar preparando um livro para ser apresentado ao fórum romano.

3.4 - João
João escreve seu evangelho num tempo e ambiente amplamente diverso dos
slnopticos. Nele, não há tanto o problema de ruptura, uma vez que a separação já
Um D e sco n h e cid o G a lile ü

estava bem mais concretizada e já não havia quase cristãos em Israel. A força da Igreja
estava na Ásia e seu centro administrativo ia aos poucos estabelecendo-se em Roma.
Com a morte de Domiciano, João, que estivera preso na ilha de Patmos, volta a
Efeso, graças a uma anistia dada por Nerva34 e escreve seu evangelho e as epístolas
que levam o seu nome. Segundo o testemunho de Irineu35, o discípulo amado viveu
até o sétimo ano de Trajano, o que fixa sua morte em 104 A.D. Polícrates, bispo de
Efeso em 191 A.D., escrevera uma carta ao Bispo Victor afirmando a existência da
sepultura de João em Efeso, [diz ele]: “João, que havia se reclinado sobre o peito do
Senhor... repousa em Efeso”.
Ao regressar para Efeso, João encontrou uma igreja marcada pela luta contra vá­
rias correntes heréticas que estavam na iminência de criar um cisma no movimento
cristão. Havia vários movimentos, principalmente de origem gnóstica e que questiona­
vam a idéia apostólica acerca de Jesus Cristo como sendo Deus encarnado em prol da
salvação humana. João era o ultimo dos apóstolos que estava vivo e sentia ser seu dever
máximo salvaguardar a fé que ouvira dos lábios do próprio Senhor.36
Dentre os principais movimentos cismáticos que havia em Efeso, estavam o
Cerintismo37 e o Joanismo. Ambos negavam que Jesus fosse Deus e, este último,
acreditava que, em essência, não havia nada no Nazareno que o colocasse acima de
outros grandes Mestres da humanidade. O joanismo, cujo nome representa os segui­
dores do movimento de João Batista, insistia até numa superioridade do batizador em
relação a Jesus. Agora, pois, era dever do discípulo amado mostrar as diferenças entre
ambos e que Cristo era maior que João. Compare as diferenças: “no princípio era o
verbo” —“houve um homem chamado João”; noutras palavras, Jesus encarnou-se
mas existia antes disso. Ele era eterno e não se limitada aos contornos do tempo.
João, porém, era apenas um sujeito preso no diâmetro do tempo. No discurso do
Batista, o autor não poupa referências à superioridade de Jesus Cristo e anuncia que
sua chegada é o fim daquele ministério batismal do deserto conforme entendido
pelo próprio profeta (Jo. 1:15—42; 3:22—30).
Ao chamar Jesus de Logos (verbo) João já demonstra uma forte necessidade de
pregar aos de origem grega que acreditavam sobretudo na doutrina do logos iniciada
por Heráclito de Efeso.

4 —Podemos Confiar no Texto Que Possuímos?


Não é raro que alguém um tanto desinformado coloque em dúvida a confiabilidade
na tradição escriturística que preservou a Bíblia até nossos dias. Denominamos, contudo,
“desinformado” porque é provável que desconheça o acurado e exaustivo trabalho crítico-
textual que é empreendido em torno do Texto Bíblico.38
Ao todo existem cerca de 5.500 manuscritos do Novo Testamento espalhados em
Museus e Bibliotecas do mundo inteiro. Eles podem estar em forma de rolo, códices,
P o d e m o s C o n fia r N o s E v a n g elh o s ?

oU até mesmo em fragmentos de 6 x 8 cm como é o caso do Papiro 52, depositado na


Biblioteca de Rylands, em Manchester. Mesmo que não tenhamos hoje nenhum texto
original saído das mãos do escritor bíblico e que todos os manuscritos contenham
variantes textuais a ponto de não existirem nem mesmo dois manuscritos perfeitamente
iguais, podemos ainda assim, dizer que conseguiu-se reconstituir com precisão cerca de
90% do texto que saiu das mãos do autor. Os 10% restantes constituem elementos não
tão importantes que ainda constituem fonte de discussão entre os especialistas. É o caso
por exemplo do binômio Gadara/Gerasa, ou da terminação do evangelho de Marcos.
As duas edições manuais mais divulgadas atualmente e que contêm excelente
aparato crítico dos textos são os famosos N estlé-slJand e The Greek NeiP Testament ,
ambos conhecidos de qualquer especialista em colação textual, que é aquela
comparação entre manuscritos com o fim de reconstituir qual seria o texto original.
Mas, para não ficar apenas no campo das afirmações sem confirmações, eis alguns
argumentos simples (fora do campo técnico) que confirmam a confiabilidade na
transmissão do texto neotestamentário:

1 —Os escritores do Novo Testamento sabiam que eles e seus colegas estavam
escrevendo um texto sagrado que precisava ser preservado (veja por exemplo:
Rom. 16:26; I Cor. 2:13; I Ped. 1:12; Apoc. 22:18 e 19 etc.).
2 —Os primeiros Pais da Igreja, desde o primeiro e segundo séculos da era cristã,
já sabiam identificar os escritos canônicos dos seculares e assim primavam mais pela
preservação destes documentos sagrados.
3 —Os primeiros cristãos foram alertados quanto à pureza textual da cópia que
recebiam. (II Tess. 2:2 e Apoc. 22:18—19).
4 —Com a destruição de Jerusalém do Ano 70 A.D. e a fuga em massa dos
cristãos para Pela, a Ásia Menor e a Região Egéia eram os territórios onde a Igreja
estava mais bem numericamente representada. E nestes centros que circularam os
autógrafos originais. Centros como o Egito, já são mais duvidosos, porque além
da igreja ser fraca naquela região, havia cerca de 11 grupos heréticos (a maioria
gnósticos) que não eram reconhecidos pela Igreja Cristã Apostólica. As cópias
existentes em Jerusalém, provavelmente foram levadas para Antioquia antes do
sitio romano sobre a cidade.
5 —Antioquia tornou-se uma escola de interpretação literalista (por literalista,
entenda aquele estudioso que se preocupa com a exatidão literária do texto pois sua
interpretação depende dele).
6 —0 clima árido e o desuso são as condições mais favoráveis para que um
manuscrito sobreviva por 1500 anos. Logo, não nos supreendamos se novos textos
forem ainda descobertos em nosso tempo.
Nenhuma obra literária enfrentou maior questionamento crítico-científico do
(í ue o texto da Bíblia Sagrada. Hoje podemos, sem a menor dúvida, dizer que temos
U m D esco n h e cid o G a lile li

em mãos o mesmo conteúdo dos livros canônicos originais, da forma como saíram
das mãos dos apóstolos. Ainda que um texto ou outro sejam temas de disputas
hermelnêuticas, aquilo que era im portante para a salvação dos homens foi
maravilhosamente preservado.
Conforme veremos no próximo capítulo, o mesmo que se diz quanto à integridade
do texto e suas origens pode ser dito com respeito ao seu conteúdo histórico.
A história dos evangelhos não é uma ficção nem mito do folclore popular. No que diz
respeito à veracidade dos fatos narrados, os quatro evangelistas podem ser considerados
historiadores legítimos da vida de Jesus Cristo.

Questões Para Análise e Reflexão


•Provém o texto bíblico de mera intelectualidade humana?
II Ped. 1:20-21.
• Que parte da Bíblia é inspirada por Deus? II Tim 3:16.
• Houve algum escrito apostólico que se perdeu e do qual só temos
o título? Col. 4:16; I Cor. 5:9; II Cor. 7:8.
• Os apóstolos costumavam usar secretários para escrever seus textos
sagrados? Rom. 16:22; I Cor. 1:1; Gál. 6:11; Col. 4:18; II Tess. 1:1.

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


M anusmtos bíblicos: A. descoberta de manuscritos bíblicos muitas ve^es se dá
p o r acaso. Há interessantes histórias a este respeito. O códice Alef, p o r exemplo, é um
dos mais importantes manuscritos bíblicos do mundo que hoje está no Museu britânico
em Londres. Por pouco, porém, fo i ignorado e virou cin%a na lareira de um velho
mosteiro aos p és do Monte Sinai. Lm 1844, o referido localfora visitado p o r um
erudito alemão chamado Constantin Tischendoif quepercebeu à noite que os monges,
para aquecera lareira, usavam manusmtos antigos no lugar da lenha que era rara no
deserto. Verdadeiraspreciosidades sendo lançadas aofogo. Foi uma enorme luta que
durou mais de uma década até que o superior do convento aceitasse “doar” o manuscrito
A lef para o c^ar da R/tssia a troco de 9.000 rublos. O Códice A lef ou Códice
Sinaítico, cotnofoi chamado, p o r pouco nãofoi destruido no monsteiro. Agora, imagine
quantos não foram salvos a tetnpo, se perdendo para sempre!
P o d e m o s C o n fia r N o s E v a n g elh o s ?

R eferências:
1 Charpentder, E., Pour lire le Nouveau Testament, Paris: Cerf, 1981, p. 18.
2. Adaptado de Latourelle, R., L ’acce's aJésusp a r lesEvangiles, histoire et hermeneutique, Montreal: Ed. Beilarmin,
1977, pp- 95 e 96.
3. É necessário, porém, que se diga que alguns autores como G. Hasel, demonstram-se um tanto cépdcos
anto à prioridade do Evangelho de Marcos. Citando Fitzmeyer, Hasel pareceu dar certo crédito à idéia de que o
obiema sinóptico, isto é, da relação entre os três evangelhos, seja um caso insolúvel. Ele menciona ainda um
crescente número de autores que têm sugerido hoje a prioridade de Mateus. Por outro lado, porém, o número de
eruditos que sustentam a prioridade marcaína também não é pequeno (ver Giuseppe, S., “Relação e Teologia dos
Evangelhos sinópticos” in Problemas e Perspectivas das Ciências Bib/icas, [Fabris, R., ed.] São Paulo: Ed. Loyola 1993;
pp 253 - 255). Ao nosso ver, as argumentações levantadas por Griesbach, (um dos paladinos da “prioridade
mateana” ) não são menos hipotéticas ou especulativas que as demais convencionalmente propostas. Ele colocava
o evangelho de Mateus em primeiro lugar, mas para sustentar sua tese, trocava a ordem entre Lucas e Marcos, sob
o argumento de que este último seria um resumo escrito após a conclusão dos dois primeiros. Mesmo com a
adesão de muitos exegetas, estes argumentos foram postos de lado na década de 1830, quando os estudiosos, em
atividade intensa atacaram o problema sinóptico com determinada renovação. (Veja Mack, B. L., O Evangelho
Perdido- O Livro de O e as origens cristãs-, [Col. Bereshit] Rio de janeiro: Imago, 1994, p. 25). Neste trabalho, seguiremos
aposição das fontes múltimas com prioridade marcaína que para nós parece argumentativamente mais convincente
que as demais. Segundo esta, houve um ou mais documentos antigos contendo ditos de Jesus que hoje se perderam
quase por completo (sobre isto falaremos mais à frente). Estes documentos perdidos mais o evangelho de Marcos
serviram de fonte para a produção dos demais evangelhos. Contudo, é necessário dizer que a reconstrução que
faremos da origem dos evangelhos também deverá ser encarada como mais uma hipótese passiva de futura correção.
Para o posicionamento de Hasel veja, Interpretação Bíblica Hoje, op. cit., p. 24. Confira também Griesbach, J. T., Synopsis
EvangeUornm Matthaei, Marci et Lucae. Textnm Graecum, Halle: Curtis, 1774 —1776. Para uma curta defesa da prioridade
de Marcos veja: Moule, C. D. F., The Birth o f the New Testament, London: Adan & Charles Black, 1966, pp. 252ss.
4. Neste ponto só não concordamos com a datação tardia que muitos autores apresentam para os evangelhos
sinópticos. Eles convencionalmente os datam como posteriores ao ano 70. Ao nosso ver, esta convenção é mais
baseada na conjectura que em confirmações convincentes. Aqui, apresentaremos as datas que, em nossa hipótese
de trabalho, correspondem melhor ao conteúdo e propósito de cada texto. Como não teremos espaço para uma
detalhada articulação a este respeito, mencionamos a seguinte bibliografia que contém parte dos argumentos que
usaríamos para defender nossa posição: Zahn, Th., Das Evangelium des Matthäus, Zurich: Theologischer Verlag
Zurich, 1984, p. 407; Zuntz, G.,’’Wann wurde das Evangelium Marci geschrieben” in Markus-Philologie. Historische,
Uterargeschichtliche undstiliehe Untersuchungen sy/m ^reiten Evangelium [Cancik, h., ed.], Tübingen: Mohr, 1984, pp. 205 —
222; Robinson, J. A. T., Reading the New Testament, Philadelphia: Westminster Press, 1976. Em português temos a
tradução da obra de Matthew D’Ancona e Carsten Peter Thiede, Eyewitness to Jesus, Garden City, New York:
Doubleday, 1995. A edição brasileira traz como título Testemunha Ocular de Jesus, [Col. Bereshit], Rio de janeiro:
Imago, 1996, pp. 27 - 44.
5. Crossan alista 8 textos (alguns deles reminiscentes em forma de fragmentos) que contêm episódios
evangélicos da vida de Jesus e, embora sejam cópias do II século, podem proceder, mui provavelmente, do primeiro
penodo literário do cristianismo que vai desde 30 até 60 AD. Entre eles temos O Evangelho Egerton, o Papiro
Vindobonesis (P 2325) e outros cuja datação, propósito e conteúdo ainda são temas de debate exegético. Cf. Crossan,
J- D., The Historical Jesus, New York: HarperCollins Publishers, 1991, pp. 427ss ejeremias, J., G/i agrapha di Gesn,
Brescia: Paideia, 1976.
6. Lachmann, K., “De Ordine Narrationum in evangeliis synopticis” in Theologisches Studien tut Kritiken 8
(1835): pp. 570 -590.
7. Wilke, C.G., D er UrevangeHsti oder exegetisch kritiche Untersuchung über das Venvandtschaftsverhältniss der drei
ersten Evangelien, Dresden/Leipzig: Fleischer, 1938. De forma mais sistemática, H. J. Holtzmann desenvolveu o
tema no tom mais clássico e esboçando ainda os seguintes argumentos em favor da teoria das duas fontes, isto é,
Q e Mc como provedores de material para Mateus e Lucas: 1. Os evangelistas Mateus e Lucas tendem sempre a
Melhorar ou ampliar a linguagem e os estilos literários em relação a Marcos (Lectio brevior portioi). 2. Quase a
totalidade de Marcos se encontra no conjunto Mateus e Lucas, faltando apenas em torno de 27 versos. Quanto à
CSe existência de um documento Q acrescente-se ainda que: 1. Mateus e Lucas apresentam certo número de
passagens duplicadas (duas vezes em um deles ou duas vezes em ambos). Uma vez elas são paralelas a um texto
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

marcaíno, outra não (pertenceria a Q). Lucas, por exemplo, narra duas vezes a missão dos discípulos em 9:1 (que
tem paralelo com M arcos 10:1 ss) e outra sozinho no cap. 10, onde aparecem os famosos “ditos de Jesu s”.
Holtzmann, H. J., Die synoptiscben Evangelien: Ihr Ursprnng undgescbicbtlicber Cbarakter, Leipzig: W ilhelm Engelmann,
1863. Por questão de honestidade acadêm ica é m ister que se diga que tam bém há conceituados teólogos como J.
P. M eier que não se sentem totalmente convencidos pela hipótese do docum ento Q, embora admitam a seriedade
do projeto. Cf. Meier, J.P., UmJudeu M arginal- Repensando o JesusHistórico [Col. Bereshit], Rio de Janeiro, Ed. Imago,
1996, livro um vol. II, pp. 243 —249.
8. Esta inform ação está no prólogo a João chamado antimaráonita do II século. Irineu (II séc.); Jerônim o (V
séc.), Felipe Sidetes (V Séc.) e outros também confirmam que Papias fora um ouvinte direto de João e contemporâneo
de Policarpo. M as Eusébio, cita alguns fragmentos de Papias, e conclui que ele na verdade fora ouvinte apenas de
Aristion e um outro João denominado “o presbítero” que muitos discutem se seria o m esm o discípulo amado ou
outro personagem com o mesmo nome. D e qualquer modo, a antigüidade do testemunho é elemento distintamente
digno de confiança na história da Igreja Cristã. Infelizm ente de sua obra restam -nos apenas uns poucos fragmentos.
Veja Kõrtner, U. H. J., Papias von Hierapo/is. Ein Beitrag %tr Gescbicbte des Jriihen Cbnstentums, Gõttingen: Vanhoeck
und Ruprecht, 1983 (com a edição dos fragmentos e am pla bibliografia). Os fragmentos de Papias também podem
ser encontrados num a versão inglesa , sem o texto original, em Robertson, A . e Donaldson, J., Ante-Nicene Fathers,
N ew York: Charles Scribner’s Sons, 1913, vol. I., pp. 153 —155.
9. Sobre a datação do Cânon M uratori veja Champlin. R. N. e Bentes, J. M ., Enciclopédia de Bíblia, Teologia
e Filosofia, volum e 4, p. 419.
10. Além dos testemunhos de Papias e do Cânon M uratori, temos os seguintes testemunhos patrísticos
que lançam luz sobre a história da com posição dos evangelhos: Irineu, Adversus Haereses, III, 1 ,1 ; Eusébio de
Cesaréia, História Ecc. III, 3 9 ,1 5 - 16; Jerônim o, Viris I/ustríbus, III, 1 e Clem ente Alexandrino, Stromata IV.
11. Para um a exposição sobre o testemunho de Papias apontando as diversas opiniões concordes e contrárias
à identificação do “M ateus H ebraico” com a fonte Q, veja: M eredith, A., “The Evidence o f Papias for the priority
o f M atthew” {Lecture apresentado na Conferência Evangélica de Am pleforth em 1982 e publicado posteriorm ente
por Tuckett, C. M ., [ed.] Synoptic Studies, Sheffield: JSO T Press, 1984, pp. 187 —196).
12. E necessário, contudo, m encionar que o Códex B (Vaticano) traz uma variante textual e rem ete estas
palavras ao aram aico tal como M arcos. M as não devemos nos deixar levar pelo binômio hebraico/aramaico,
porque a sem elhança entre as duas línguas era tal que não é difícil confundi-las ou citá-las alternadam ente. Cf.
Seventb-Day Adventist Bible Dicitona/y, W ashington D.C.:, Review and H erald, 1976, p. 716.
13. Que ditos de Jesus foram recolhidos pela prim eira geração de discípulos e coletados em form a de
docum ento antes da produção dos evangelhos canônicos é um a teoria adm itida por um grande núm ero de
resp eita d o s e ru d ito s do N ovo T estam en to . V eja p o r ex em p lo : T h e isse n , G ., “W a n d e rra d ik a lism u s:
Literatursoziologische Aspekte der Ü berlieferung von W orten Jesu im Urchristentum ” in Zeitscbriftfür Tbeo/ogie und
kircbe 70 (1973), pp. 245 —271; Boring. M. E., Sayings o f the Risen Jesus: Cbnstian P rof e g in the Synoptic Tradition
[Society for the N ew Testament Sutudies M onograph Series 46], N ew York: Cambridge University Press, 1982.
Em 1988, o Q Seminar da Sociedade Bíblica de Literatura reuniu uma série de conceituados especialistas que
avaliaram os três ou quatro possíveis estágios de form ação do docum ento Q, todos anteriores à produção dos
sinópticos. Entre os eruditos estavam B urton L. M ak e Joh n K loppenborg dois dos mais respeitados especialistas
no assunto. Como, porém , a maioria dos teólogos advogava um a datação tardia para a composição de M ateus e
Lucas (depois de 70 AD ), era esperado que também estabelecessem , para as fontes pré-m ateanas e pré-lucanas,
uma data não anterior ao ano 50 AD. M ais recentem ente, contudo, alguns autores como Casten P. T hiede e John
W enham, por exemplo, têm defendido a forte possibilidade de existir um a coleção das logia de Jesus que fora
produzida entre os anos 30 e 60. Cf. Thiede, C. P., op. cit., p. 222 e W enham, J., Redating Matthew, Mark & Luke,
Illinois: Intervarsity Press, 1992. Thiede faz referência a Crossan como tendo assumido postura ao lado de uma
datação antiga para Q que pudesse chegar até aos anos 30. Infelizmente, porém, ele não dá a fonte de tal informação
(Thiede, C. P.,op. cit., p. 222). Pode ser que Crossan mudou sua opinião anteriormente defendida de que Q fosse
produzido nos anos 50. (The HistoricalJesus op. c it.,, p. 429). Contudo, já mencionamos em nota anterior que Crossan
advoga em seu best Seller que havia possíveis “evangelhos” oriundos de fontes extra-sinópticas que pertenceram ao
primeiro estratum da tradição de Jesus que vai de 30 a 60 AD. Cf.Crossan J. D., op. cit., p.p. 427 —429.
14. Alguns autores sugerem o ano 36 para a morte de Estevão. A data de 34 é assum ida em consonância
com as argumentações apresentadas no Seventb-Day Adventist Bible Commentaiy, Washington D.C.: Review and Herald,
1976, vol. 6, p.p. 207 e 208 [doravante, m encionarem os esta obra apenas pela sigla SDABC].
15. Pedro na verdade era um tanto vacilante quanto a apoiar ou não os da circuncisão. Veja A tos 10:1 —
11:18 eG á l. 2 :1 1 - 1 6 .
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

Wenham, J., Redating Matthew, Mark & Luke, Illinois: Intervarsity Press, 1992.
Whiston, W [tradutor] Josephus —Complete Works, Grand Rapids: Kregel, 1960.
White, E. G., 'Patriarcas e Profetas, Tatuí: casa Publicadora Brasileira, 1997.
__________ . O Desejado de Todas as Nações, Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997.
W ilke, C.G., Der Urevangelisti oder exegetisch kritiche Untersuchung über das
Venvandtschaftsverhältniss der drei ersten "Evangelien, Dresden/Leipzig: Fleischer, 1938.
Wilkinson, J. Jerusalém —Anno Domini, São Paulo: Melhoramentos, 1993.
__________ . “Christian Pilgrims in Jerusalem during the Byzantine Period” in
Palestine Exploration Quarterly 108 (1976), pp. 76 —77.
Wise, M e Eisemann, A Descoberta dosManusaitos do MarMorto, São Paulo: Ediouro, 1994.
__________ . Jesus und die Urchristen. Die Qumran-Rullen entschlüsselt, Gütersloh,
Gutersloher Verlaghaus Gerd Morh, 1992.
Wolfgang, E. P., Sur Le Chemins de Jesus, Tel Aviv: Otpaz Publishing House, 1975.
Wrede, W, Das Messiasgesheimnis in den Evangelium, Göttigern: Vendenhoeck &
Ruprecht, 1969 (4a. edição do original de 1901).
Zahn, Th., DasEvangelium des Matthäus, Zurich: Theologischer Verlag Zurich, 1984.
Zumstein, J., Matthieu, le Théologien, Paris: Du Cerf, 1987.
Zuntz, G.,’’Wann wurde das Evangelium Marci geschrieben” in Markus-Philologie.
Historische, literargeschichtliche und stiliehe Untersuchungen %um fe it e n Evangelium [Cancik,
h., ed.], Tübingen: Mohr, 1984.
1
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

não oferecia condições para um prisioneiro poder escrever uma carta. Ali raramente havia luz, o ambiente era
úmido e Paulo, por certo, só foi para lá quando já estava sentenciado à morte. Até então, ou seja, enquanto
aguardava o julgamento do fórum romano, ele esteve em sua própria casa, como diz Atos 28:30, recebendo a
todos que o procuravam. Por outro lado, porém, a epístola traz alguns indícios de que a execução do apóstolo já
estaria decretada, o que, de certo modo, indica uma situação posterior ao encarceramento domiciliar. Neste caso,
o dossiê poderia ser uma recorrência judicial ou um úldmo apelo que incluiria a boa influência de Teófilo, uma vez
que a primeira sentença já houvera sido dada.
34. Segundo o relato de Eusébio: “Após imperar Domiciano durante 15 anos e sucedendo-lhe Nerva no
governo, o senado Romano votou a anulação das honrarias a Domiciano e [decretou] que os injustamente expulsos
retornassem às suas casas e recuperassem os bens ... por isso foi então que o apóstolo João, ao voltar do exílio na
ilha, foi viver em Efeso, consoante a tradição que nos foi legada pelos nossos antigos.” 35 Eusébio, H/st. Ecc.,
III, 20, 8 - 9; III, 23, e - 2
36. Irineu, Adversus Haereses, III, 3, 4
37. Embora não concordemos com todas as suas hipóteses, permanece como uma das melhores tentativas
de reconstrução do ambiente joaneu em Efeso a obra de Brown, R., The Comnnity o f tbe BelovedDisc/p/e, New York,
Paulist Press, 1979, com tradução ao português pelas Ed. Paulinas.
38. Veja Silva, R. P., A Cristologia de Santo Irinen, op. cif., pp. 38 -42.
39. Sobre este assunto há uma série de bons livros que poderíamos sugerir. Apenas para mencionar dois
deles, temos de Pickering, W. N., Tbeldentity o f tbe N ew T estam nt Text, New York: Thomas Nelson Inc. Publishers,
1977 (este autor já reside no Brasil há muitos anos e promete para breve o lançamento em Português de sua obra)
e Paroschi, W., Crítica Textual do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1993 (uma excelente monografia de
Mestrado, transformada em livro e prefaciada por Russel Shedd, um dos mais respeitados teólogos batistas
trabalhando em solo brasileiro).
CAPÍTU LO 5

t
A N a r r a t iv a E v a n g é l ic a : M ito o u
H ist ó r ia R eal?

I os últimos séculos, muitos estudiosos da nova geração pós iluminista são


L >|convictos em afirmar que os evangelistas não tinham nenhum interesse
em reproduzir uma biografia histórica de Jesus, mas sim narrar uma teologia a seu
respeito.1Estaria isto certo? Em parte. Tudo vai depender de como entendemos este
não comprometimento do evangelista com as normas historiográficas que hoje
conhecemos como essenciais para se reproduzir um acontecimento. A nosso ver, não
era o primordial interesse dos autores escrever os anais da vida de Cristo para deixar à
história um legado de sua existência. Não obstante, é de suma importância acentuarmos
que nem Marcos, nem Lucas, Mateus ou João ficaram à mercê de suas próprias
imaginações e devaneios buscando criar mitologias ou lendas à semelhança
de La Fontaine escrevendo suas fábulas. E preciso entender que “evangelho” é um
gênero bíblico-literário que demanda um texto, uma teologia e uma história real.
E uma narração querigmática de algumas atividades de Jesus escolhidas segundo o
propósito de cada autor (Luc. 1:1-4 e Jo. 21:24 e 25).2
Mateus, por exemplo, acentua muito mais as polêmicas entre Jesus e os fariseus
do que o faz Lucas. Este último chega a sugerir uma amizade entre Jesus e alguns
fariseus no início de seu ministério, algo totalmente inexistente no relato de Mateus.3
João, por sua vez, enfatiza muito mais a superioridade de Jesus em relação ao Batista
do que fazem os demais evangelistas. Isto, como vimos, também tinha um motivo
próprio que justificava esta linguagem. Cada evangelho apresenta pois sua própria
caracterização do Cristo, que não deve de modo algum ser entendida como contradição
histórica. Como exemplificou muito bem o teólogo francês Etienne Charpentier:
Imaginemos dois livros escritos sobre Martinho Lutero por dois autores católicos,
um em 1900 e o outro em 1980. O primeiro, de modo lamentoso, escreverá nestes
termos: ‘Lutero, este monge que abandonou o hábito, que desprezou uma religião,
levou, por seu próprio orgulho a Igreja e a Europa ao fogo e ao sangue ...’ O segundo,
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

por sua vez, já dirá: Lutero teve sua fraqueza como qualquer um de nós; mas, devemos
considerar que aqui estamos diante de um monge tremendamente religioso, apaixonado
por Deus e preocupado com a salvação dos homens; ele percebeu que a Igreja devia se
reformar, voltar-se para as Escrituras, e a Igreja, por sua recusa, o expulsou de seu seio...”.4
Ora, nenhum historiador sensato questionaria a historicidade de Lutero com base
nestes depoimentos diferentes. Nem poderia dizer que, embora diferentes, eles sejam
contraditórios. Ambos fazem uma leitura do mesmo fato: Lutero rompeu com o
catolicismo. Um acentuou a responsabilidade do monge no processo, enquanto o
outro acrescentou a intolerância como também responsável por muito do que
aconteceu. Ocorre porém que houve, entre ambos os autores, o concílio Vaticano II
que tornou os católicos mais otimistas em relação ao protestantismo. Sendo assim,
aquele viveu depois disto esboçou em seu livro as características do ambiente mais
tolerante no qual vivera, enquanto o primeiro apenas ecoou os ares apologéticos de
sua época.
Esta mesma analogia pode ser usada para explicar as peculiaridades de cada
evangelho ao descrever Jesus de Nazaré. Embora fossem igualmente inspirados por
Deus, cada evangelista narrou a vida de Cristo com um colorido próprio de sua perso­
nalidade, ambiente e propósitos. Afinal, o Espírito Santo não fere a individualidade de
nenhum profeta quando o usa para reproduzir Sua Palavra Divina. Como bem acen­
tua Gerald Wheeler, ao inspirar um profeta, “Deus fala com sotaque humano”. 5
Há somente duas diferenças que, a nosso ver, necessitam ser salientadas:
prim eiro que todos os evangelistas am avam a Jesu s, de modo, que suas
diferenças circularão sempre no campo da admiração pelo Mestre. Segundo,
que, conforme cremos, os evangelistas foram inspirados por Deus a escreverem
seus relatos sobre o Senhor.

1.1—Os Evangelhos e a Literatura Rabínica


Quando dizemos que os evangelhos foram relatos reais e fidedignos de fatos
que realmente aconteceram na história, não estamos com isso insinuando um
modelo moderno de historiografia onde os detalhes deverão ser acurados para
que a descrição do evento equivalha a uma tese jurídica ou formal. Num tribunal
de nossos dias, se uma testemunha afirma que viu dois carros parados na cena do
crime, e na verdade havia três, seu relato pode cair em descrédito perante um júri
mais exigente. Portanto, pelos padrões modernos é inadmissível que os evangelhos
(uma vez que se digam históricos) contenham “contradições” como os diferentes
relatos da ressurreição e da cura de um endemoniado gadareno que noutra versão
traz como sendo dois gerasenos.
Talvez por isso mesmo, houve no passado muitas tentativas de produzir o que os
autores chamavam de a H armonia dos Evangelhos. Livros especializados em colocar os
A N a r r a tiv a E v a n g é lica : M ito o u H is tó r ia R e a l?

textos lado a lado e tentar, sem muito ganho, harmonizar suas “incongruências”;
especialmente as de caráter cronológico.6
Hoje, porém, sabe-se que os evangelistas não tinham em mente uma apresentação
cronológica dos fatos relacionados à vida de Cristo. Muito menos do tempo que durou
seu ministério (pelo evangelho de Marcos parece que foi apenas um ano de pregação.
Pelo de João, parece que foram três anos). Somente seu nascimento, morte e ressurreição
têm todos o mesmo lugar de abertura e fechamento de seu ministério terrestre,
encarnado entre os homens aos quais desejava salvar.
A partir da segunda metade dos anos 50, houve no campo das Ciências Bíblicas
um novo modo de investigar o Novo Testamento utilizando como ferramenta os
resultados de pesquisas previamente feitas na literatura rabínica. A lógica do
processo pode ser entendida quase imediatamente: se Jesus e os evangelistas (com
possível exceção a Lucas)7 eram judeus e viveram como tais nos primórdios da
Igreja, por que deveríamos estudá-los à luz do pensamento grego? Acontece,
porém, que até então, o Novo Testamento, talvez por ter sido escrito em grego,
era visto apenas do prisma helenístico como se tratasse da pregação de Sócrates
ou Platão. Se lermos os comentários mais antigos sobre os evangelhos, veremos
uma figura de Jesus que mais parece um filósofo nascido em Atenas que um judeu
nascido em Belém da Judéia.8
A tese dej. W Doeve publicada em 1954, parece ter sido a pioneira neste campo.9
Segundo seu parecer, a forma de raciocínio literário dos escritores rabínicos deveria
ser em grande parte a mesma forma que encontraríamos nos evangelhos. A chave
hermenêutica que desvenda a literatura rabínica seria, pois, a mesma para a compreensão
de importantes detalhes no estudo dos evangelhos.

1 . 2 - 0 Midrash: Um Estilo Básico Dentro dos Evangelhos


Um dos principais elementos reflexivos do judaísmo que mais chama a atenção
na compreensão dos Evangelhos é o chamado Midrash. Mais que um estilo literário
ele é, acima de tudo, o modo básico como os judeus do tempo de Jesus interpretavam
as Escrituras, a saber, o Antigo Testamento.
Mas o que seria um Midrash? Midrash é um tipo de literatura, tradicionalmente
oral ou escrita, que tem uma direta relação com o cânon escriturístico. Considera-o
a autêntica revelação de Deus e procura extrair dele um significado espiritual que esboce
acontecimentos mais recentes. Tal exercício é feito através de uma interpretação exegética
Qiuito comum nos- dias em que o Novo Testamento estava sendo escrito.10
Em termos mais simples, o Midrash é uma visão espiritual da História como
palco das realizações divinas que acontecem em meio aos erros e acertos da vontade
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

própria dada aos homens. Toda a história do mundo seria uma única corrente profética
que se centraliza no Messias e aponta para o reino escatológico de Deus na Terra.
Disto, conclui-se que cada acontecimento se torna símbolo de ocorrências profético-
espirituais. Os atos humanos (bons ou maus) são reflexos de um grande conflito
cósmico envolvendo Deus e o Diabo. Por esta razão é que, pela perspectiva bíblica,
a história é um fato que sempre se atualiza, que repete, na essência, os principais
acontecimentos do mundo relacionados com o Messias e seu reinado. Assim, os escribas
midràsticos estavam sempre recontando a história de Israel numa nova roupagem a
partir de outros acontecimentos.
Tomando os livros da Bíblia conforme eram denominados no ambiente judaico,
percebemos que originalmente era o costume dos religiosos nomear os livros sagrados
a partir das primeiras palavras de seu texto. Assim, o Gênesis se chamaria
“No Princípio”, o Êxodo “Os Nomes” e assim por diante. Agora, comparando esta
tradição ao prólogo dos quatro evangelhos percebemos que todos eles usam em seu
começo a palavra “princípio” (o nome hebreu para o Gênesis). Seria esta uma
designação de que seu propósito era reler as Escrituras a partir da vida do Messias?
Possivelmente. Tanto o é que Marcos, o mais antigo evangelho, traz isso de modo
ainda mais claro ele diz “[Este é] O Princípio (o Gênesis) do Evangelho alusivo a
Jesus Cristo” (Mar. 1:1; Jo. 1:1; Luc. 1:2 e Mat. 1:1).
Vejamos isto na prática, começando, num exemplo, por comparar o Sermão da
Montanha apresentado por Mateus àquele apresentado por Lucas. Notamos que em
Lucas o discurso não poderia ser denominado “da montanha”, mas sim o sermão da
planície, pois foi ali, segundo o autor, que a pregação aconteceu (compare Mat. 5:1
com Luc. 6:17). Mateus apresenta uma lista de bem aventuranças acentuadamente
mais extensa que Lucas. E não se trata de um mero resumo de uma para outra listagem.
O conteúdo é diferente. Para Mateus, felizes são os pobres de espírito, os famintos
de ju stiça , os lam entadores.n Esta lista nos dá uma idéia de luta espiritual, ao passo
que a de Lucas já pretende uma abordagem de problemas sociais enfrentados pelos
sofredores do povo. Em sua versão, felizes são os pobres sociais (em contraste com
os ricos, 6:24), os famintos de pão (em contraste com os fartos, 6:25) e os que
choram por dor física ou emocional (em contraste com os que riem, 6:26).12
Por que estas e outras diferenças entre os textos? Por causa do interesse particular
de cada autor. Como Marcos não menciona este discurso, podemos supor que ambos
os evangelistas o tomaram da fonte Q e o adaptaram de acordo com suas necessidades.
Talvez nas Logia, este sermão nem esteja apresentado na mesma disposição em que
os dois escreveram, ou, quem sabe, fosse uma série de discursos em tempos e locais
diferentes, agora coletados por um editor. E difícil precisar mas, ainda pode ser que
A N a r r a tiv a E v a n g élica : M ito ou H is tó r ia R e a l?

ele tenha ocorrido na casa de Pedro, ou numa sinagoga. Porém, isso não importa nem
para o evangelista, nem para nós. O fato é que Jesus pregou realmente, senão estas
exatas palavras, pelo menos este exato conteúdo que não foi de modo algum adulterado.
Pois bem, seguindo nossa compreensão do texto, percebemos que Lucas
queria apresentar a Cristo como o Senhor da história preocupado com os pobres
e como Juiz do Universo prestes a voltar à Terra. Nosso Salvador era de fato tudo
isso, mas Mateus queria acentuar outra peculiaridade de seu exercício Messiânico,
que de modo algum nega o anterior: Jesus era também o novo Moisés. Por isso ele
selecionou os elementos da vida do Mestre que coincidiam, pelo menos em parte,
com o líder do Êxodo e usou-os como arcabouço ambiental da história que iria contar.
Em síntese: Moisés nasce e é salvo da perseguição de um rei que acaba matando
muitas crianças. Jesus também nasce e é salvo da perseguição de Herodes donde são
mortas muitas crianças (nenhum outro autor menciona isto).L’ Depois, Moisés acaba
indo para o Egito, o mesmo lugar para onde vão Maria e José. De lá, eles voltam para
Nazaré e Jesus, com idade adulta atravessa o Jordão (batismo) e vai para o deserto por
um período de 40 dias. Moisés também atravessa o Mar vermelho e vai para o deserto
com o povo por 40 anos. No deserto, Moisés sobe ao monte Sinai e traz consigo as
tábuas da Lei. O Jesus de Mateus, também sobe num monte (figurativo?) e dá aos
discípulos a Nova Lei14 de seu reino.
E difícil acertar quais elementos são minuciosamente históricos ou constituem
apenas arcabouço literário do evangelista. O que podemos ter certeza é que o episódio
descrito aconteceu realmente, mas, detalhes quanto à localidade, pessoas, número
de dias ou seqüência dos fatos são coisas difíceis de precisar. O relato da ressurreição,
por exemplo, é um desafio para qualquer um que queira harmonizar detalhadamente
os evangelhos nesta questão. Para um evangelista Pedro viu o túmulo vazio e acreditou
prontamente, para o outro, ninguém acreditou no relato das mulheres. Numa versão,
Jesus diz a Maria que mande os discípulos para a Gaüléia, pois ali eles o verão.
Na outra, ele aparece na casa em que estavam dentro da cidade de Jerusalém.
Qual destas expõe exatamente as minúcias do ocorrido? Impossível saber. Mateus
pode ter localizado o encontro com o ressuscitado na Galiléia para enfatizar que
Jerusalém não era mais digna de receber Jesus, pois sua rejeição fora definitiva.
Quem acolheu Jesus foi a Galiléia dos gen tios (Mat. 4:15). De igual modo, o profeta
Oséias, autor da profecia “do Egito chamei meu filho”, não estava se referindo ao
Messias, mas ao chamado do Êxodo seguido da ingratidão de Israel em face à
^bertação provida por Deus. Mateus “adaptou” o texto de modo a torná-lo uma
profecia messiância que se cumpre em Jesus. Mas sua aplicação dificilmente estaria
na mente do profeta ou designava aquilo que ele queria imediatamente dizer.
1
Um D e sco n h e cid o G a l il e u

Contudo, ninguém deve se apressar em considerar isto um engodo por


parte dos evangelistas. Primeiro por uma razão crítico-literária, isto constitui
um Midrash e nenhum Judeu do primeiro século acusaria Mateus ou Lucas de
mentirosos forjadores de fatos. Segundo, por uma razão espiritual: O Espírito
Santo inspirou-os na coleta e apresentação dos acontecimentos sobre a vida de
Cristo. E temos hoje, sem nenhum prejuízo, a preservação daquilo que era
essencial para nosso conhecimento do Salvador.

2 - Como Confiar na Historicidade dos Evangelhos


O tema da historicidade dos evangelhos é um assunto vasto que justificaria to
um livro só a seu respeito.15A este respeito já deixamos exposto anteriormente nosso
entendimento de que os evangelhos, embora não possam ser considerados biografias
de Jesus (no sentido estrito da palavra), são relatos reais de um personagem histórico
que viveu em Israel no primeiro século de nossa era.
N este presente ponto, apresentarem os apenas um argum ento para a
historicidade dos evangelhos que, longe de ser mínimo, é a nosso ver mais do que
suficiente para se defender a integridade dos relatos. Aliás, a tônica do que falare­
mos aqui está muito bem sistematizada na obra de Otto Borchert a quem devemos
a inspiração desta defesa evangélica.16
Tudo se resume numa questão única efactual-. Quais são as características de
uma obra lendária? Ora, levando-se em conta que o modismo intelectual de nossos
dias já não questiona a historicidade de Jesus mas sim se ele fora de fato aquilo
que a Bíblia diz, devemos entender por “lendária” uma referência àquelas biografias
mitológicas que transformam o sujeito de mero mortal a semi-deus com poderes
sobre-humanos. Assim, se pegarmos as mais famosas biografias do passado,
principalmente aquelas “encomendadas”, veremos uma série de elogios sutis lidos
nas entrelinhas de belas descrições em nada modestas acerca de um determinado
“herói”. Veja por exemplo a Vida de Constantino escrita por Eusébio no século
IV ou a Vida de Claúdio escrita por Díon Cássio no século III. São todas
verdadeiros panegíricos de louvor aos feitos do biografado, escondendo ao máximo
seus vexames e suas fraquezas. Estas sim, embora sejam histórias de personagens
reais, devem ser avaliadas com certo ceticismo devido ao seu próprio conteúdo
que nega-lhe uma imparcialidade no relato.
Por fim, resta-nos uma última e crucial pergunta: os evangelhos se encaixam
neste modelo biográfico que acabamos de descrever? A resposta é não\ por um motivo
muito simples: o escândalo constante causado pelo Jesus dos Evangelhos. Desde a
óticà moderna será talvez difícil perceber todos os “atos escandalosos” de Jesus; mas,
numa comparação com o contexto da época, torna-se claro que nenhum biógrafo
com intenções mitologizantes preservaria as ocorrências que os evangelhos narram.
Veja alguns exemplos na página ao lado:
A N a r r a t iv a E v a n g é l ic a : M it o o u H is t ó r ia R e a l ?

"ganindo os padrões da época, o que um O que o Jesus dos Evangelhos fez:


homem deveria fazer (ou evitar) para ser
c o n s id e r a d o o herói de um movimento

Homero dizia que um homem magnânimo Jesus ensinou que quem quisesse ser o
deve ser sempre o primeiro e estar antes primeiro, que se tomasse o último
dos demais.17 (Mat. 9:35)
"Aristóteles disse que um homem de Jesus ensinou que o maior deve ser
mentalidade elevada, não se acanha de aquele que serve aos demais: Luc.
22:27 e Jó. 13: 4ss. Noutra ocasião
receber grandes coisas, principalmente se a
referiu-se a si mesmo como jamais
honra vier de homens de prestígio, pois ele
sabe que é merecedor delas. recebendo a honra que vem dos
homens: Jó 5:41.
Àinda em Aristóteles, neste ponto seguido Jesus várias vezes aceitou homenagens
de uma canção de Horácio, temos a de pessoas simples e de perfil moral
prescrição de que um homem de duvidosa Exemplos: Zaquel, o ladrão;
mentalidade elevada, não se permite Maria, a mulher adúltera em casa de
receber homenagens da população mais Simão; os pobres de Jerusalém, durante
simples, pois isso não é bom para sua sua entrada triunfal na cidade. Veja Lucas
reputação de sábio Já dizia Horácio octi 15: 1 - 3.
pnrfammwdsus et atveo ("odeio a populança
e a conservo longe de mim").

Um filósofo sábio, segundo a cartilha Jesus contava parábolas que o povo


aristolélica, deve falar a verdade com entendia e os mestres religiosos não
clareza para os doutos e com ironia para a Veja: Mat. 9:29; 11:5, 25; Jo7:49.
população inculta.
Teognis, sugere que se um médico Que diríamos do episódio em casa de
recebesse dos deuses o poder de operar Zaqueu, o publicano? O próprio
curas, deveria tirar proveito disso e, para a Mateus também era um cobrador de
preservação de sua imagem, nunca tentar a impostos detestado por todos.
recuperação de um homem imoral ("não se
pode reformar um vilão").

Voltando a outra máxima de Aristóteles, Jesus ensinou os disdpulos e não


este ainda diz que só um homem estúpido revidarem o mal que lhes era feito
aceitaria os insultos e ensinaria seus pelos romanos e, ao ser ele mesmo
disdpulos a fazer o mesmo vítima deste mal, agiu de igual maneira.
Aceitou até mesmo o beijo de Judas
que era o pior insulto que se podia
suportar Jó. !8:1 e 23; Mat. 5:43 - 48.
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

Odisseus dizia dos grandes heróis que, Jesus jamais escondeu o pavor que lhe
ainda que fossem perseguidos pelos deuses, trazia a imagem do futuro calvária E,
não temeriam a nada, nem vacilariam uma vez lá, clamou ao Pai revelando
diante da morte.De igual modo, Sócrates, toda sua angústia e tristeza. Para a
ao enfrentar a morte, teve ainda tempo de época sua morte (principalmente por
fazer um discurso e tomar o veneno sem a ser morte de cruz) foi a mais
menor angústia exposta em suas palavras. escandalosa e humilhante forma de ser
Sófocles dizia que os nobres morrem executado Se Jesus fosse considerado
gloriosamente. um inimigo que conseguiu tirar a
tranquilidade de César, ele seria
decapitado, esfaqueado ou envenenado
(ou ainda, morreria em batalha como
Bar Kochba). A cruz era reservada
para escravos, pobres ou ladrões de
pequena importância. Noutras
palavras, sua morte nem poderia ser
classificada na conta de um mártir
respeitado Mat. 26:37; Luc. 12:50.
Por fim. Aristóteles dizia que o sigilo é Jesus várias vezes pediu sigilo daqueles
conhecido apenas dos medrosos. a quem curou. Por isso Marcos é
considerado o evangelho do Messias
sigilosa Veja ainda Jo. 8:59; 12:36.

Mesmo em face a estes e outros escândalos, os evangelistas não cederam nem à


omissão desses detalhes, nem à distorção de como tudo aconteceu. Algo realmente
estranho para uma obra, caso esta não tivesse uma fidelidade histórica para com aquilo
que estava narrando.
Fora dos evangelhos também há pistas, embora esparsas, que testemunham a
existência histórica de Jesus e alguns fatos relacionados na narrativa evangélica.
A seguir, concentraremos nossa atenção em algumas antigas citações fora da Bíblia
que se remetem à figura histórica de Jesus de Nazaré pregado pelos cristãos.

Questões Para Análise e Reflexão


•Lendo Lucas 1:1-4 e João 21:24 e 25, o que podemos concluir
sobre aintensão original dos escritores sagrados? Eles intentavam escrever
uma história ou uma ficção?
• Leia Mat. 13:52 e tente aplicar esta declaração de Jesus ao método
midrástico de interpretação das Escrituras.
•Em termos doutrinários é certo que a Bíblia jamais falhou.
Mas e quanto a detalhes mínímos como nomes de lugar, data, número de
A N a rra tiv a E v a n g élica : M ito o u H is tó r ia R e a l?

pessoas etc. Será que os autores sagrados jamais falharam? Compare


Hebreus 11:21 e Gênesis 47:31 e responda: enquanto ser humano sujeito a
imperfeições, você acha que o autor bíblico poderia cometer equívocos no
que diz respeito a detalhes não doutrinários como número de pessoas, nomes
de lugares etc.? Se a resposta é sim, então discuta em que isso influencia ou
não a certeza de que a Bíblia é um livro divinamente inspirado.

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Teísmo e deísmo: Embora estas sejam palavras consideradas sinônimasp o r
algumaspessoas, elas definitivamentejamais quereni di^er a mesma coisa. Por ‘teísmo ’
entenda todas as crenças, ainda que apenasfilosóficas, que afirmam a existência de
um Deuspessoal, criador do mundo, solícito para com os seres que Ele mesmo trouxe
à existência. J á o deísmo é uma filosofia nascida no século XVIII e que originou-se
em círculos totalmente contrários à f é cristã. Os adeptos desta linha filosófica não se
di^em 'ateus’porque acreditam na existênáa de um Deus supremo. Contudo, ele
nada tem a ver com o Deus descrito na Revelação cristã. Sua natureza é impossível de
serpreásada e, as desgraças vistas em redor, testemunham que Ele não interfere nos
negócios da humanidade. Como se vê, teísmo e deísmo são duas doutrinas totalmente
contrárias em seu pressuposto principal.

Referências:
1. Temos por exemplo A. Harnack cuja tese doutoral, “Vita Christ scribt nequit” nega a possibilidade de se
reconstruir uma biografia confiável de Jesus a partir dos Evangelhos canônicos. Cf. Harnack, A., Das Wesen des
Christentums, Leipzig: Giesecke & Deviient, 1900, pp. 20 ss.
2. Para uma excelente relação de Teólogos modernos que têm defendido a historicidade dos evangelhos
veja Lambiasi, F., Uautenticità storica dei Vangeli —Studio di criterio/ogia, Bologna: Centro Editoriale Dehoniano, 1976,
pp. 38 —116. Temos ainda encontrado alguns excelentes artigos defendendo a historicidade evangélica. Entre eles
citamos: Latourrele, R., “Autenticité historique des Miracles de Jésus: Essai de critériologie” in Gregoriantim 54
(1973), pp. 225 —262; idem, “Critères d’autenticité historique des Evangiles” in Gregorianum 55 (1974), pp. 609 —
638; Martdni, C. M., “La storicità dei vangeli sinotici” in IIMessaggio delia sabença IV, Torino, 1968, pp. 127 —145;
Calvert, D. G. A., “Na Examination o f the Criteria for distinguishing the authentic Words of Jesus” in New
Testament Studies, 18 (1972), pp. 209 - 218; Rigaux, B., “Uhistoricité de Jésus devant 1’exegese récente” in Revne Bib/iqne
68 (1958), pp. 481 —522. Duas obras sucintas, porém, cientificamente sérias sobre a questão e com tradução para o
português são a de Hasel, G. E, Teologia do Novo Testamento —Ouestões Fundamentais no Debate Atual, Rio de janeiro:
JUERP, 1988, esp. pp. 80 —87 e a de Bruce, E E, Aderece Confiança o Nono Testamento?, São Paulo: Vida Nova, 1990.
3. Compare a pregação agressiva do Batista, segundo Lucas endereçada à multidão que o ouvia e de acordo
com Mateus, voltada especificamente para os fariseus (Mat. 3:5 - 10 e Luc. 3: 7 - 9). Mateus é o único a apresentar
todo um discurso de lamentação dedicado inteiramente aos escribas e fariseus (Mat. 23:13 —36). Enquanto isto,
Lucas, embora também apresente conflitos entre Jesus e o farisaísmo, não se esquiva de apresentar Jesus comendo
em casa de um líder fariseu (11: 37 - 44; 14:lss) e mais, sendo alertado por eles contra o perigo de Herodes como
se quisessem salvar-lhe a vida (13: 31 —33).
U m D e sco n h e cid o G a lile u

4. Charpentier, E., op. cit., p. 14.


5. Adventist Review, 14 de julho de 1983, pp. 3 —5.
6. Um exemplo deste tipo de literatura temos na obra de Gioa, E. Notas e Comentários à Harmonia dos
Evangelhos, Rio de janeiro: JUERP, 1969.
7. Lucas possivelmente em grego, porém, há forte probabilidade de que também possuísse uma cultura
judaica pela forma como se comporta ao escrever seu evangelho. Há quem pense que o evangelista em questão
fosse um judeu prosélito antes de converter-se ao cristianismo.
8. Este assunto eu o discuto com mais detalhes e considerável bibliografia em: A cristologia de Santo Irineii,
op. cit., p. 113ss e A Problemática do shêmeron , op. cit., esp. pp. 38 —44; 174 —176 e 389.
9. Doeve, J. W., Jeivish Hermenentics in the Sjnoptic Gospels and Acts, Assen: 1954.. Desta obra, só tive acesso a
um artigo de M. P. Miller que acaba tornando-se, nalguns pontos, uma resenha da obra que ele considera esquecida
e injustamente não considerada no campo do estudo do Novo testamento a partir da literatura judaica. Cf. Miller,
M. P., “Targum, Midrash and the Use of the Old Testament in the New Testament”, in Journalfor Studj o f Judaism 2
(1971), pp. 29 —82. Um outro importante estudo publicado na mesma época de Doever, foram os ensaios de Renée
Bloch, “Ecriture et Tradition das le Judaísme —Perçu sur l’origine du Midrash” in Cahiers Sionienes 8 (1954), pp. 9 —24 e
“Note méthodologique por 1’étude de la littérature rabinique” in Recherches de Science Religiense 43 (1955), pp. 194 —227.
10. Para uma visão bem mais detalhada do Midrash na Interpretação das Escrituras, veja meu Comentário
gramático Histórico do Apocalipse, Apostila divulgada pelo DASK/IAEC2,1998, pp. 32 —34.
11. 'Lamentadores (em grego penthountes”) significa muito mais que simplesmente os que choram, conforme
traduz a versão Almeida. Seu sentido é uma referência ao lamento profético daqueles que se sentem em luto pelo
fato de Israel estar sob a opressão do inimigo ou pelo fato de o povo haver apostatado do cumprimento da Lei.
12. Note que Lucas usa uma palavra diferente de Mateus, ele escreve klaiontes ao invés de penthontes.
13. Compare o relato de Mateus com o apócrifo da Assunção de M oisés 6,22.
14. Nova não no sentido de anulação da anterior, mas no aspecto de amplitude daquilo que já havia sido escrito.
15. Veja por exemplo a obra já mencionada do Pe. E Lambiasi.
16. O título original da obra de Borchert foi D er Goldgrund des Lebensbildes Jesu. Na verdade ele preparou os
manuscritos deste trabalho em 1901. Mas, o cepticismo causado por obras liberais como A Vida de Jesus de Strauss,
logrou-lhe uma resistência por parte dos editores que rejeitaram o livro umas dez vezes num período de 16 anos
aproximadamente. Até que, finalmente, em 1917, Borchet conseguiu a duras penas uma editora alemã que publicasse
o referido livro. Tão logo saiu do prelo, um novo público pós guerra, já desiludido com a frieza racionalista dos
grandes tratados cristológicos, comprou o livro fazendo a primeira edição esgotar em pouquíssimo tempo. Hoje
a obra encontra-se publicada em holandês, dinamarquês, sueco, espanhol e outras. Para nossa leitura, tivemos
acesso a duas versões uma inglês e outra em português que poderão ser conferidas: Borchet, O., OJesus Histórico,
São Paulo: Vida Nova, 1990 e The OriginalJesus, London: The Lutterworth Press, 1933.
17. Todas as menções dos filósofos e outros escritores nesta tabela serão feitas segundo a citação de Borchert,
contudo, num trabalho anterior para a classe de Filosofia Geral, tomei o devido cuidado de conferir a maioria delas
antes de apresentá-las por escrito. Aqui, por questões de espaço, oferecerei apenas a menção da obra de Borchert.
CAPÍTU LO 6

t
E x i s t i u Je s u s d e F a t o ?
1 —Uma Historiografia de Jesus Cristo

O
estudante que inicia uma investigação histórica histórica sobre a pessoa
de Jesus de Nazaré poderá sentir-se frustrado, a princípio, em vista da
escassez de material extra bíblico que dispomos sobre sua pessoa. Todos nós, de certa
forma, esperávamos que, em vista do movimento universal que surgiu por causa do
nome de Cristo, sua pessoa fosse algo que deixasse marcas indeléveis na história secular.
Afinal, o próprio calendário moderno é demarcado pelo seu nascimento (a.C. e d.C).
Mas as fontes seculares de nossa informação são surpreendentemente limitadas.
Entre os motivos pelos quais Jesus foi pouco ou quase nunca citado nas obras
extra-bíblicas podemos supor os seguintes:

a) O ministério limitado do Nazareno. Até aonde podemos saber, o roteiro de


pregações de Jesus se resume a uma estreita faixa de mais ou menos 200 km de exten­
são, por 70 de largura —um território deveras pequeno que poderíamos cobrir em
poucas horas numa moderada viagem de automóvel.1 E deveras dramático que haja
em nossos dias tantos autores sensacionalistas que tentam fazer dinheiro vendendo
histórias de uma pretensa ida de Jesus à índia antes e depois dos três anos e meio de
ministério. Isso, contudo, é outro assunto que foge à presente discussão.2 Pelo relato
dos evangelhos, fora algumas regiões circunvizinhas como a Síria e Decápolis, o único
país distante de Israel que certamente Jesus visitara foi o Egito, mesmo assim quando
era criança em companhia de seus pais. Portanto, foi apenas a partir das viagens de
Paulo que a propagação do nome de Cristo tornou-se mais difundida.
b) Há muitos documentos antigos que encontram-se perdidos. Uns foram com­
pletamente destruídos como os mais de 700.000 manuscritos da Biblioteca de
Alexandria pelo Califa Omar em 641 AD. Outros encontram-se apenas desaparecidos
esperando algum “golpe de sorte” que nos permita encontrá-los (como os rolos de
Qumran descobertos acidentalmente em 1947). Assim, não é improvável que houves­
se mais coisas escritas sobre a pessoa de Jesus, mas que estão retidas na poeira do
tempo. Aliás, é até possível que algumas anotações documentais do movimento de
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

Cristo também fossem destruídas no incêndio provocado por Nero que arruinou a
cidade de Roma com muitos de seus arquivos em 66 A.D.
c) Jesus não foi oficialmente reconhecido em seu tempo. Aliás, nisto ele nã
é único. Nós, humanos, não temos o costume de valorizar os grandes gênios en­
quanto estão vivos entre nós. Apenas limitamo-nos a apreciar, ou nalguns casos
“idolatrar”, os mitos que se criam sobre sua pessoa depois que vão embora. Hoje,
Einstein é convencionalmente citado como a mais brilhante mente do século XX.
Mas, durante a guerra, foi considerado um lunático por muitos de seus contem­
porâneos. Portanto, podemos encontrar nos comentários atuais muita coisa sobre
César, porque ele era um imperador que deixou monumentos e anais encomenda­
dos de seus grandes feitos. Quase nada, porém, acharemos sobre Sócrates,
Demóstenes e outros gra n d es gên io s que, à semelhança de Jesus, tiveram uma di­
vulgação assombrosamente pequena em comparação ao universalismo que poste­
riormente envolveu o nome de cada um deles.
Vejamos, portanto, a partir da fonte mais antiga, os textos fo r a do Novo
Testamento e da Literatura Cristã primitiva que parecem fazer alguma alusão à pessoa
de Jesus de Nazaré:

2 —Na Literatura Judaica


• Flávio Josefo (37j 8—100 A.D.?)3 — “Por esse tempo, surgiu (ginethai) Jesus, home
sábio (se é que na realidade se pode chamar homem). Pois ele era obrador defeitos extraordinários
e mestre dos homens que aceitam alegremente a verdade [coisas estranhas] (ton hêdonê palethê
dechomenon)4, que arrastou após si muitosjudeus e muitos gregos. Ele era considerado [chamado]
Messias. Embora Pilatos, p o r acusações dos nossos chefes o condenasse à cru% aqueles que o
tinham amado desde o princípio não cessariam [de proclam ar que]5 passando o terceiro dia apa­
receu-lhes novamente vivo; os profetas de Deus tinham respeito dele. Ademais, até o presente, a
estirpe dos cristãos, assim chamada p o r referenda a ele, não cessou de existir. ” (Ant. XVIII, 3, 3).
Falando do golpe de Estado dado pelo Sumo Sacerdote Anã (ou Flananias)
após a morte de Festo (62 AD), Josefo diz que o sacerdote saduceu, “convocou
uma assembléia (‘Senedrim’) de Juizes e colocou diante deles o irmão de Jesus que
é cognominado Messias ( “ton adelfon lesou tou legomenou Cristo”), de nome Tiago,
e alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a lei e os entregou para serem
apedrejados.” {Ant. XX, 9, 1).
A partir do século XVI, muitos autores colocaram em dúvida a autenticidade
desses parágrafos que, se pertencentes à obra, datariam do ano 93/4 AD. Alguns
mais cépticos tentam argumentar que estas partes seriam interpolações feitas poste­
riormente por escribas cristãos que viviam enclausurados em mosteiros produzindo
E x i s t i u Je s u s d e F a t o ?

copias de manuscritos. Contudo, sua conjectura carece de maior comprovação tex­


tual, pois todas as traduções mais antigas e todos os manuscritos gregos de Josefo
(desde os melhores até os menos confiáveis) trazem, com pequenas variações, o
conteúdo deste texto.6
A obra G uerra dos Judeus, esta sim possui um longo trecho, atestado apenas
numa antiga versão eslavônica que definitivamente parece ser uma interpolação tardia
não digna de crédito. Por isso não a mencionaremos em nosso trabalho.
• Talmude babilónico —Há uns poucos trechos talmúdicos que alguns autores
entendem fazer referências distantes à pessoa de Jesus. Citaremos apenas dois deles à
guisa de complementação científica deste estudo. Mas, permanece aqui a advertência
de que são textos seriamente questionáveis e que não gozam de muito respaldo
crítico-textual que possa defender sua autenticidade. Além do que, como poderá
ser visto, não se trata de uma alusão clara à pessoa de Jesus, e ainda que o fosse,
pouco acrescentaria de confirmação ao que diziam os evangelhos. Apenas testificam,
no máximo, a historicidade de sua existência (uma confirmação, aliás, dúbia, pois
são textos tardios, posteriores ao primeiro século).7 O Talmude como tal não registra
nenhum rabino anterior aos anos 50 A.D. que tenha mencionado Jesus pelo nome.8
O primeiro texto em consideração é uma tradição externa suplementar ,
baraíta, inserida no talmude babilónico ao comentar um texto da Mishná alusivo
ao procedimento correto quanto a um condenado ao apedrejamento. Mas ele é
confuso porque fala de apedrejamento e cita como exemplo uma pessoa que foi enforcada
e que, alguns crêem referir-se a Jesus o Cristo. Diz o texto (Sanhédrin 43a):9
"Na véspera do pessab (páscoa), enforcaram Jesbu (há-no^ii). Durante 40 dias um arauto
esteve andando à volta dele. [Mas] ele é conduzido ao apedrejamento p o r ter praticado magia e levado
opovo a cometer idolatria, além de desviar Israel. 'Se alguém conhece alguma coisa em seufavor, que
venha e dê o testemunho'. Mas não se encontrou nenhuma testemunhafavorável a ele e enforcaram-no
na véspera do pessab. ”
Segundo a apologia de Orígenes escrita por volta de 178 A.D. a um judeu chamado
Celso (cuja obra contra o cristianismo se perdeu completamente), havia a acusação
judaica de que Jesus seria um filho bastardo nascido da união adúltera entre Maria e
um legionário romano chamado Panthera (Contra Celsum I, 28 e 68). Como o nome
ben Panthera aparece no Sanhédrin 107b e no b Sota 47a, deduzem que ali também há
unia referência a Jesus.10

3 - Fontes Não Judaicas


Por muito tempo o cristianismo foi visto pelos romanos apenas como mais um
8rupo ou seita pertencente ao judaísmo em geral. As fontes pagãs mais antigas que
encontramos referindo-se a Cristo e os cristãos datam do começo do século II.
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

Neste tempo, como acontecia ao judaísmo, o seguimento cristão era considerado nos
meios romanos como simples superstição.
• Plínio, o Jovem (61-112 A.D.)11: procedente de família abastada e amigo
particular de Trajano, Plínio foi encarregado pessoalmente pelo imperador para
reorganizar a província da Bitínia que se encontrava desordenada. Assim, em 111 -
112 A.D. o jovem “legado romano”(título que recebera do império) encontrou-se
pela primeira vez com os cristãos e, para ter certeza do agrado do imperador quanto a
tudo que fazia, mandou-lhe uma carta solicitando instruções sobre como lidar com
aquela “seita”. Eis o trecho em que menciona o fato:
“Senhor; ê norma para mim submeter a ti todos ospontos sobre os quais tenho
dúvidas; quem melhor do que o senhor poderia orientar-me quando hesito ou instruir-
me quando ignoro ?
Nunca participei de processos contra os cristãos; não sei, p o r isso, a quaisfatos
e em que medida se aplicam ordinariamente a pena ou as execuções. Eu me pergunto,
não sem perplexidade, se há diferenças a serem observadas no que di% respeito à
idade, ou se mesmo o neném está no mesmo nível de um adulto; se se deve perdoar a
quem se arrepende ou se quem é cristão não ganha nada quando se retrata; se é
necessário punir o simples fato de se denominarem cristãos, mesmo que não houver
aimes, ou se devo punir apenas os crimes ligados com o nome.'2
Eis, portanto, a norma que eu mesmo tenho seguido para com aqueles que me
foram denunciados como cristãos: aos que confirmavam, eu pergunto uma segunda e
uma terceira ve% ameaçando-os sej?ipre com o suplício. A.os queperseveram na confissão
eu mando executá-los, mesmo sem saber detalhes sobre o que acreditam, porque só a
sua obstinação e teimosia inflexíveisj á me são motivo de pena capital.
Há alguns outros que, embora dominados pela mesma loucura, eram cidadãos
romanos. Quanto a estes eu apenas anotei a ocorrência e os enviei para Roma.13
Como acontece em casos semelhantes, estendendo-se a acusação no processo do
inquerimento, logo se apresentam diferentes casos.
Foi afixado uma lista anônima, reladonando vários nomes [denunciandopessoas
que seguiam a seita]. A.os que negavam ser cristãos, quer no presente ou no passado,
se invocassem os deuses segundo as palavras que eu ia ditando e se sacrificavam vinho
e incenso (?) diante da tua imagem que eu mandava trazer e, além de tudo isso, se
blasfemavam o nome do Cristo —coisas que, segundo se di% nenhum cristão legítimo
faria —pensei que poderia deixá-los ir. Havia [ainda] outros cujo nome também
estava na denúncia feita pelo delator e que confessaram terem, de fato, sido cristãos,
mas que abandonaram [a seita], uns a três anos, outros a mais tempo, até vinte anos;
todos estes adoraram a tua imagem e as imagens dos deuses e blasfemaram o Cristo.
De resto, disseram-me que toda a falta deles, ou seu erro, limitava-se a um
costume de se reunirem num dia fixo, antes do amanhecer, e então cantarem em seu
E x i s t i u Je s u s d e F a t o ?

meio um hino a Cristo como se estefosse um Deus. Também, de se comprometerem por


juramento a não cometer nenhum crime, nem roubo, nem pilhagem, nem adultério, a
cumprirem com oprometido e a não deixarem de dar um depósito reclamado emjustiça.
Terminados estes ritos, tinham o costume de se separarem e de se reunirem
outra ve^para a sua refeição14, que, a despeito daquilo que muitos di^em, parece ser
simples e inocente; mesmo porque, esta práticafora p o r eles renundada depois de meu
edito —baseado nas tuaspróprias instruções—segundo o qual euproibia as heterias.15
Julguei tanto mais necessário extrair a verdade de duas escravas, que eram
chamadas diaconisas, mesmo submetendo-as ã tortura. Tudo o que encontreifo i uma
superstição insensata e exagerada.
Devido a tudo isso, resolvi interromper o procedimento [contra os cristãos]
e solicitar teu parecer. Julguei que a questão mereceria que eu ouvisse sua orientação,
principalmente, devido ao grande número dos acusados. Há uma multidão depessoas de
todas as idades, de todas as classes e dos dois sexos que estão ou serão postos em perigo.
Não somente nas ddades, mas também nos vilarejos e nos campos espalhou-se o contágio
desta superstição. Contudo, acredito ser possível detê-la e curá-la. ” (Carta X, 96)
A resposta de Trajano a Plínio (que aliás, não deixa de ser ponderada) também
está preservada até nossos dias. Eis seu trecho:
"Meu caro Plínio, tu seguiste a conduta que devias ter seguido no exame das
causas daqueles que haviam sido denunciados como cristãos. Afinal, não é possível
instituir uma regra geral que tenha, digamos, uma prescrição fix a para todos.
Não há motivos para perseguí-los ‘ex-oficcio’. Seforem denunciados e a acusação fo r
provada, que sejam condenados, mas com a seguinte ressalva: que aquele que negar ser
cristão, e der provas disto pelos seus atos, quero di^er, sacrificando aos nossos deuses,
mesmo que ele seja suspeito no que se refere ao passado, obterá o perdão como prêmio
de seu arrependimento.
Quanto às denúncias anônimas, não devem ser levadas em consideração em
nenhum caso; este era o costume de um detestávelprocedimento que não deve mais
ser seguido em nosso tempo. ” (Cartas X, 97).16
• Tácito: descrevendo por volta do ano 115 o incêndio de Roma em 64 A.D.,
este historiador fala da perseguição de Nero aos cristãos e menciona o nome de Cristo
epe, para seu entendimento, não era um título, mas um nome próprio:
"Nenhum esforço humano, nem o p od er do imperador, nem as cerimônias
para aplacar a ira dos deuses Jaziam cessar a opinião infame de que o incêndio [de
Roma] havia sido mandado. Por isso, com vistas a abafar o rumor, Nero apresentou
como culpados e condenou à tortura aquelas pessoas odiadas p or sua própria torpeza,
que a populança chamava de ‘cristãos’. Tal nome vem de Cristo, que no principado de
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

Tibério, o procurador Pôncio Pi/atos entregou ao suplício. Reprimida na ocasião, essa


execrável superstição fe\-se irromper novamente, não só na Jtidéia, berço daquele mal,
mas também em Roma, para onde converge e onde se espalha tudo o que há de horrendo
e vergonhoso no mundo. Começou-se, pois, por perseguir aqueles que confessavam;
depois, por denúncia deles, uma multidão imensa, e eles foram reconhecidos culpados,
menos do crime de incêndio ... A sua execução acrescentaram ^pmbarias, cobrindo-os
com peles de animais para que morressem devido à mordida de cães de caça, ou
pregavam-lhes em cruzes, para que, após o fim do dia, fossem usados como tochas
noturnas e assim consumidos". [Anais, XV, 44).17
• Suetônio (69? —122?), este é outro historiador romano, que também apresenta
por volta de 120 A.D. dois registros históricos, um da vida de Cláudio, o outro da vida
de Nero, nos quais menciona algo que pode ser uma referência a Cristo. No primeiro
texto, ele comenta a expulsão dos judeus de Roma por volta do ano 49 A.D. (Atos
18:2) durante o reinado de Cláudio e ali menciona uma estreita ligação entre os judeus
e um certo “Chrésto” que poderia ser uma grafia errada do nome de Cristo.
“Como osjudeus se sublevavam continuamentepor instigação de Chrésto; [ Cláudio]
os expulsou de Roma” (.A Vida de Cláudio XXV).18
Falando de repressões rigorosas instituídas pelo governo de Nero, ele comenta:
"...foiproibido vender nas tabernas qualquer alimento colido,fora legumes e hortaliças, quando antes eram
servidas nesses lugares comidas de todos os tipos; os cristãos, espéáe degente dada a uma s/perstição nova e
perigosa, foram entregues ao suplício; foram proibidas as perambulações dos condutores de quadrigas'9,
autorizadospor um costume antigo a vagabundearpela cidade, enganando e roubando os cidadãospara se
divertirem;foram proibidos ospantomimos20 e suas atuações. ” (A Vida de Nero, XVI).
A vinda de Jesus ao mundo foi circundada por uma série de detalhes contextuais
que muito nos ajudam a compreender o ambiente no qual ele vivera. No próximo
capítulo, avaliaremos o contexto imediatamente anterior e contemporâneo ao
nascimento de Jesus de Nazaré.

Questões Para Análise e Reflexão


•Nos primeiros anos de sua existência, teria o cristianismo base
jurídica para existir como religião legal? Atos 18:13
• Que postura tinham os primeiros cristãos em relação ao ímpio
governo dos romanos? Romanos 13:1-7.
• Leia Mat. 5:38-48 e 22:15-22 e responda: Jesus era um líder rebelde
e revolucionário? Seria ele uma espécie de Che Guevara judeu?
E x i s t i u Je s u s de Fato ?

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Superstição Cristã: Este nome (superstitione) foi dado originalmente aos cris­
tãospelos latinos para referir-se ao seu excessivo receio dos deuses. Hoje, porém, a
palavra sofreu semântica e, especialmente na cultura luso brasileira, passou a sig­
nificar aquelas crendicespopulares do tipo: não passar em baixo de escadas, usar
trevo de quatrofolhas etc. 0 mais terrível, porém, é que o marketing, usando opoder
de sua persuasão para obter lucro sobre seusprodutos, tem convencido milhares de
cristãos a comprarem crendices sem nenhum significado. Na época das cruzadas,
os cavaleiros templários trouxeram as mais curiosas “relíquias" da Palestina que
venderam a exorbitantes preços para párocos, reis e pessoas da nobreza. Entre os
mais curiosos “tesouros”trazidos de Israelpara Constantinopla (sópara se dar um
exemplo) figuram-sepêlos da barba de Noé, os chifres atribuídos a Moisés, a pedra
sobre a qualJacó dormiu em Betei, crinas da Besta de Balaão. Do Novo Testamento,
temos a pretensafaca queJesus usou na última ceia (esta está em Tréves); trêspratos
que ele usara para por opão (um está em Gênova e os outros dois em Roma eAries.
Todos arvoram ser o utensílio legítimo), palhas da manjedoura, penas dapomba do
Espírito Santo, gotas do leite de Maria, etc.2' E hoje, seria diferente? Israel recebe em
média de 15 a 20 mil brasileiros todo ano, segundo o Ministério do Turismo em Tel
Aviv. Somente em três meses, a empresa de televendas Homeshopping vendeu no
Brasil 15 mil cruzes da Natividade, um crucifixo com uma minúscula redoma de
vidro que, segundo os vendedores, contêmfragmentos da gruta de Belém do mesmo
lugar onde nasceu Nosso Senhor. 0 mais intrigante é que o comprador recebe um
certificado (verdadeiro?) do Museu de Israel garantindo e autenticando a pedrinha,
É minta crendice, não é mesmo?22

Referências:
1. M urphy-O ’Conor, J., The Holy Land—Na Oxford Archeological Guidefrom Earliest Times to 1700, N ew York:
Oxford U niversity Press, 1998, pp. 475 e 476.
2. Veja, por exemplo, Kersten, H., Jesus Viveu na India, Sào Paulo: Ed. Best Sellers, 1988.
3. Para um a vasta pesquisa sobre Flávio Josefo, incluindo o que há de mais exaustivo no recolhim ento de
lnformações sobre sua vida e obras veja: Feldman, L. H., “ Flavius Josephus Revised: The M an, His W hitings, and
His Significance” in Auftrieg and Niedergang der romischen Welt [Ed. po r W. H aase e H. T em porini], Berlim :
Gruyter, 1984, esp. pp. 822 —835; idem, Josephus and Modern Scholarship 1937 —1980, Berlim, D e Gruyter, 1984,
esP- pp. 679 - 703.
4. A oraçào grega é dúbia. Ela pode supor tanto que alguns receberam a pregação de Jesus com sincera
a^egria, quanto com ingênuo entusiasmo. Mas essa dubiedade é própria do estilo de Josefo que queria agradar a
todos os leitores quer fossem judeus, quer fossem rom anos ou gregos.
5. Este parece ser o entendimento de epansanto, mas há outras possibilidades: “Não cessarem de amá-lo”; “não
E xaram de existir (como movimento)”. Ver Goodwin, W e Gulik, C. Greek Grammar; Boston: Ginn & Co. 1958, p. 333.
6. Até mesmo o historiador Eusébio, no IV século, ao citar esta passagem de Josefo mencionando a Cristo,
^m o n stra que já naquele tempo o texto estava qual o temos em nossos dias (Hist. Ec. II, 23, 22). Alguns autores
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

entendem que a versão mais próxim a do texto original de Josefo foi um a tradução referida por Ápio em sua
História Universal em língua árabe. Esta também não apresenta diferenças substanciais de conteúdo. M enciona
inclusive a ressurreição. W illiam W liiston apresenta um a defesa pré-crítica da autenticidade total dos textos flavianos
m encionados em “The Testim onies o f Josephus C oncerning Jesus Christ, Joh n Baptist, and Jam es the Just
V indicated”, in Josephus —Complete Works, G rand Rapids: K regel, 1960, pp. 639-647. Veja ainda Fabris, R., op. cit., p.
42; Pines, S., An arabic version o f the Testimominm F/avianum and its Implications, Jerusalém : Publications o f the Israel
A cadem y o f Sciences and Humanities, 1971; Dubarle, A. M ., “Le tém oignage de Josèphe sur Jésus d ’après la
tradition indirecte” in Josephus. The Jewisb War, [Ed. de Cornfield], Grand Rapids, Z ondervan, 1982, pp 481-513.
7. D iz o especialista em escritos judaicos Rabi Jacob Z. Lauterbach: “N ão há nenhum a citação preservada
até hoje da literatura talm údico-m idrástica que possa ser considerada autêntica quanto a ter sido escrita no tempo
de Jesus ou, pelo menos, nos prim eiros 50 anos da era cristã.” Cf. Lauterbach, J., “Jesus in the Talm ud” in Rabbinic
Essays, (1951), p. 477.
8. Meier, J. P., op. cit., p. 102. O extrem ado crítico da procedência destes textos como referentes à pessoa
de Jesus é J. M aier em seu livro Jesus von Nazareth in der Talmudiscben Überlieferung, [Coleção Erträge der Forschung
82] D armstadt: W issenschaftliche Buchgesellschaft, 1978; o resumo de seu tratado está nas pp. 263 —275.
9. Traduzido da versão em inglês: The Babjlonian Talmud. Seder Ne^ikin in Four Vblumes.III Sanhédrin, [I
Epstein, ed.] London: Soncino, 1935, pp. 281 —282.
10. Josefo K lausner sugere que o nome Panthera é correlato a Pathernós (virgem) num a tentativa judaica
de corrigir o título de “filho da virgem ” para “filho de panthera (leopardo)”. (Cf. Klausner, Jesus o f Nazareth, His
U fe Times end Teachiug, N ew York, M acm illan Press, 1960, p. 24.)
11. Plínio o jovem era sobrinho e filho adotivo de Plínio o Velho (23 —79) que morreu na erupção do Vesúvio.
12. Entre estes crim es estava a acusação de feitiçaria, subversão e outros como por exemplo o incêndio em
Rom a que Nero disse terem sido os cristãos os responsáveis.
13. O mesmo que aconteceu com o apóstolo Paulo, veja Atos: 25:12.
14. Cf. Atos 2:42.
15. Reuniões mais ou menos secretas ou suspeitas de conspiração.
16. Radice, B., Pliny. Leiters and Pangyiricus [Col. Loeb C lassical Library, 2 vols], Cam bridge/Lonfon,
coedição: Havard University Press, Heinemann, 1969.
17. Lém onon, Jean Pierre, Pilote et le Governement de la Judée. Textes et Monuments, Paris: Gabalda, 1981, p. 173.
18. A inform ação é imprecisa; ele parece referir-se a este Chréstos com o se fosse um agitador presente em
Roma durante os acontecimentos relatados. Assim , alguns descrêem que seja uma referência efetiva a Jesus. Contudo,
levando-se em conta a data em que ele escreve (120AD), não é improvável que tenha os fatos de form a um tanto
distorcida. M eyer e Brown apresentam mais dois argumentos em favor da identificação entre esse Chrestós e Jesus
de N azaré e não com um agitador judeu de origem romana: 1) O bom estilo latino pediria quodam após Chrestós, se
um personagem novo ou até então desconhecido estivesse entrando em cena. E, segundo, que entre várias centenas
de nomes de judeus romanos descobertos em catacumbas judaicas, jamais encontrou-se o nome Chrestós ou um
que lhe soe familiar. Cf. Meier, J. P., op. cit., p. 107 e Brown, R.. e Meier, J. P., Antioch and Rome, N ew York, Paulist
Press, 1983, p. 100. Para o texto veja : Rolfe, J. C., [ed.] Suetonius [Col. Loeb Classical Library] Cam bridge, London:
co-edição: Havard University Press e Heinemann, 1914. O texto em latim traz: ludeos impulsore Chresto assidue
tumultnantis Roma expulit.
19. Conjunto de quatro cavalos que puxam um carro.
20. Pantomimos eram artistas circenses que viviam nas praças à noite alegrando o povo com mímicas,
teatro de sombras e coisas do gênero.
21. Cf. Schaff, D. S .Ourfathers faith and ours, N ew York, G. P. Putmam’s Sons Publishing House, 1964, pp. 401ss.
22. A m t, R., “Procura-se Jesus Cristo”, Super Interessante, A bril, 1996, p. 46.
CAPÍTULO 7

t
O C o n t e x t o H is t ó r ic o das
O r ig e n s de
Je su s d e N a z a r é
1 - Antecedentes Dentro e Fora de Israel1

om sua vitória sobre Antônio em 31 a.C., Otávio Augusto conseguiu pôr


C fim às guerras civis que tinham dilacerado a República romana durante 20
anos. Foi então que começou o período da chamadap a x romana. Todas as terras que
circundavam o mediterrâneo estavam sob o domínio do império que (herdando a
cultura grega) impunha quase uma única cosmovisão em todo o vasto território. Assim,
o cidadão comum pensava que os limites de Roma coincidiam com os limites do
mundo civilizado, de modo que, fora deste, nada mais existiam além de tribos bárbaras
meio homens, meio animais.
Para manter a unidade territorial, o programa administrativo romano supunha
quatro aspectos básicos:

• A lealdade religiosa ao único imperador de todo o território.


0A crença de que o exército legionário chegava aos limites do infinito.
0A permissão para que cada província governasse a si mesma no que diz
respeito às leis de funcionamento interno.
° O respeito aos costumes, línguas antigas e, sobretudo, às práticas religiosas
locais. A única coisa que se pedia era um lugar destacado para o imperador no
panteon de divindades ali adoradas. Como Israel era o único território monoteísta
e que recusava a adoração de imagens, seria de se esperar um estranhamento
entre romanos e judeus ávidos por libertar e reconquistar a terra prometida.

De modo quase geral, os homens criam que a terra era o centro do universo e
acima dela estariam as divindades, ao passo que abaixo, estaria o mundo espiritual
dos mortos ou dos maus. Para a filosofia popular não havia o que hoje d e n o m in a m o s
lei natural, tudo era resultado de uma intervenção supra cósmica de um deus ou de
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

um dos inúmeros espíritos bons e maus que influíam em todas as facetas do gênero
humano (animismo). Esses espíritos podiam ainda apossar-se do homem e controlar
suas ações para fazer o bem ou para executar a maldade.
Enquanto que os pensadores mais requintados descriam do mundo espiritual
e exaltavam a lógica racional grega, a população em geral desfrutava de pouco ou
quase nenhum benefício que viesse daquelas filosofias clássicas de Sócrates, Platão ou
Heráclito. O que predominava assustadoramente eram a superstição (no sentido
moderno da palavra), a magia e os relatos mitológicos. Adivinhos, mágicos, feiticeiros,
astrólogos e encantadores de toda a espécie faziam um próspero comércio entre os
mais ignorantes e, pasmem, o grupo mais representativo destes místicos charlatões
eram judeus, especialmente os propagadores da Cabala.

Poucos eram os que tinham a capacidade de uma leitura fluente e não havia o
que se pode denominar modernamente uma “classe média”. Tendo algumas
variações mais ou menos localizadas, com exceção de mercadores e povos nômades,
a sociedade podia ser dividida em quatro níveis:2
• Governantes = procuradores ou representantes de Roma em todos os ní­
veis, seguidos de líderes políticos, classe sacerdotal, militares.
• Comerciantes, latifundiários, líderes de partidos político-religiosos
(ex. fariseus e saduceus) e funcionários do governo = classe de abastados ou pesso­
as politicamente influentes que gozavam de certos privilégios não dispostos à gran­
de maioria da população. Como exemplo bíblico desses grupos temos Nicodemos,
José de Arimatéia, o jovem rico, Zaqueu e antes do discipulado, Levi Mateus. Ape­
sar da reinante segregação feminina, há indícios de mulheres que faziam parte desta
elevada classe social. A mãe de Timóteo e algumas seguidoras de Jesus, por exem­
plo, pareciam gozar de certo patrimônio financeiro que as permitia ajudar no sus­
tendo do grupo missionário. !
0 Povo em geral, sem luxo, com pouca instrução (incluso escravos).3
• Os rejeitados = leprosos, viúvas sem filhos, aleijados e demais classes de
segregados que viviam de esmolas e não tinham nem habitação nas cidades, nem
meios de trabalhar para obter o sustento. Eram cidadãos marginalizados, não con­
tados entre as camadas da população.

Havia também os chamados pregadores itinerantes, como os filósofos Cínicos


que denunciavam a imoralidade, pregavam efusivamente o fim do mundo e, alguns
casos, intentavam uma sublevação contra Roma. A maioria desses, porém, não logrou
nenhum movimento que se traduza digno de sucesso. Como a religião era uma constante
na vida do povo, as seitas encontraram neste ambiente um excelente terreno para
promover suas idéias. Assim, dentre as religiões que mais faziam adeptos no meio
popular, temos os cultos orientais cç>m ênfase no mistério e no elemento sacramental.
Dentre os quais se destacavam:
O C ontexto H is t ó r ic o D as O r ig e n s D e Je s u s D e N azaré

0 Culto à grande mãe Cibele e Áthis da Ásia menor: adoravam a natureza e promo­
viam práticas libidinosas como ritos religiosos. Chegou em Roma em 264 a.C..
° O Culto à Isis e Serápis do Egito. Criam na regeneração e na vida futura.
Aportaram no Império em 80 a.C..
• O Culto à Mitras, advindo da Pérsia, tornou-se o culto principal dos impera­
dores e da legião romana. Identificando Mitras com o Solis lnvictus , ofereceram ao
imperador o título de sua maior divindade, fazendo dele um deus encarnado.
A despeito disto, porém, o mitraísmo não chegou a tornar-se importante na cidade de
Roma senão depois do ano 100 A.D..
Todas estas religiões tinham em comum a crença num deus-redentor que morria
e ressuscitava a cada estação ou a cada dia e noite e a isto os adeptos aplicavam o ciclo
da vida e da morte. Na refeição sacramental, os participantes supunham morrer e
ressuscitar simbolicamente com a divindade cultuada e, assim, tornavam-se participantes
da natureza divina. O sangue de touro, por exemplo, era usado em quase todas as
reuniões como elemento que ajudava-os a renascer para sempre. Era o chamado
taurobolium. Havia ainda uma promessa de vida futura feliz para os fiéis e o sistema de
irmandade os fazia sentir parte integrante de um grupo, o que lhes dava um agradável
sentimento de aceitação comunitária.

2 - Contexto Especificamente Limitado ao Território de Israel4


Após o cativeiro em Babilônia, que foi o mais terrível desde a opressão do Egito,
Israel ainda permaneceria sob o controle político dos estrangeiros. Apesar de
inicialmente mais brandos que os babilônios, os novos dominadores não deram a
independência ao povo judeu que permaneceu por muitos anos como reino vassalo.
Assim, desde a queda de Babilônia em 536 a.C. até a meados de 129 a.C. o povo judeu
ainda estaria dominado pelo poderio gentílico.
Primeiro vieram os medo-persas comandados por Ciro e Dario. Estes derrotaram
os babilônios e assumiram o território com uma nova dinastia de reis que durou quase
dois séculos no poder. Depois, em 331 a.C., foi a vez dos gregos derrotarem o governo
reinante. Alexandre Magno conquista o trono medo-persa e estabelece em seu lugar o
reino da Macedônia. Em ambas as fases de conquista estrangeira, Israel se viu dominado
por um sistema não judeu de administração do povo.
Uma vez que Alexandre Magno não tinha filhos legítimos, com sua morte
em 323 a.C., o trono da Macedônia ficou sem um monarca. Deste modo, o território
foi dividido entre seus quatro maiores generais, a saber: Cassandro, Lisímaco,
Ptolomeu e Seleuco. Destes dois últimos originaram-se as duas principais dinastias
4ue dominariam por muito tempo o Oriente Próximo: Os Selêucidas, que se
estabeleceram em Antioquia e os l^ágidas (ou Ptolomeus) que ficaram em Alexandria.
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

A região da Judéia, que abrigava Jerusalém, se viu, mais uma vez, disputada por
potências estrangeiras.
Na época da divisão, imediatamente após o falecimento de Alexandre, o território
judeu ficou sob a administração ptolomaica, mas, em 200 a.C., os selêucidas tomaram
Jerusalém. Somente em 129 a.C., graças à revolta dos líderes macabeus, Israel conseguiu
a independência livrando-se dos monarcas selêucidas e inaugurando uma nova dinastia
israelita, a saber, os asmoneus.
Não obstante a sua vitória, o país estava de modo ferrenho dividido pela rivalidade
entre as seitas e partidos judaicos, o que acabou deflagrando uma guerra civil que
durou de 103-67 a.C. Entre esses partidos opositores estavam os contra e os pró-
helenistas.5 Os judeus helenizados não viam as inovações culturais trazidas pelo contato
prolongado com a Grécia como sendo apostasia. Os soberanos de mentalidade helenista
respeitavam as divindades locais e estavam sempre dispostos a rebatizá-las com um
nome mais familiar na própria religião deles. No panteon grego sempre havia espaço
para mais um deus. Porém, os judeus resistentes de Jerusalém viam nisto um atentado
contra a própria essência do judaímo, que seria o monoteísmo confessional. Para eles,
o retorno ao Antigo Testamento, especialmente à Torah, era o caminho mais seguro
de salvação.
Os defensores da tradição tinham, pois, um motivo magno para sua revolta:
qualquer tentativa de mudar a Torah herdada dos antepassados era, acima de tudo,
alterar a marca distintiva do povo judeu (isto contra a opinião dos pró-helenistas).
Assim, entendiam que era em nome do Deus de Israel que promoveriam sua resistência
e, por fim, a própria guerra civil contra o domínio estrangeiro.
Quando inaugurou-se a dinastia dos Asmoneus, os príncipes e sumo sacerdotes
acumulavam dois poderes, o civil e o religioso. Com a influência grega, os governantes
judeus também adotaram uma mentalidade helénica que pressupunha tornar Jerusalém
uma polis com nova constituição e a abolição da antiga Torah. Antes ao lado do povo
na luta pela libertação, os homens que agora estavam à frente da nação não queriam
mais viver sob a tutela das tradições Hassídicas.6 Como contra-ataque, os hassideus
mais conservadores começaram a promover uma separação dos poderes civil e religioso
com domínio do último sobre o primeiro. Por isso, esses políticos foram aos poucos
sendo conhecidos como fariseus , que quer dizer, separados, ou separatistas.
Apoiando os Asmoneus, havia ainda outro partido que se julgava procedente
das famílias sacerdotais descendentes de Sadoque (Ez. 44:15). Eram os saduceus ou
filhos de Sadoque; um estranho partido meio liberal meio conservador. Oponente
natural dos fariseus desde as suas origens, o partido sadoquista não abria mão do
direito de independência religiosa e também não aceitava as inovações doutrinárias
advindas da Grécia. No papel de partido secular, o sadoquism o pregava um
comportamento social estritamente ligado ao que estava escrito na Lei de Moisés.
Deste modo, rejeitavam quase por completo as tradições e minúcias legais impostas
pelos políticos fariseus.
O C o ntexto H is t ó r ic o D as O r ig e n s D e )e s u s D e N azaré

E, por último, temos ainda outra ruptura, que foi a dos judeus essênios. Estes,
possivelmente sob a direção de um sacerdote sadoquita, rejeitavam a dinastia dos
astn o n e u s e fundaram uma comunidade isolada no deserto de Kirbet Qumran,
localizado na região do Mar Morto. Na comunidade, os essênios tinham costumes e
regras próprias que, segundo se cria, os estavam preparando para a vinda do Messias
guerreiro que os libertaria para sempre do jugo e influência estrangeiros. Segundo a
opinião mais geralmente aceita, foram os essênios que preservaram os famosos
manuscritos de Qumran que foram descobertos em 1947.

2.1 —O Jugo dos Romanos


Em 63 a.C. Roma invadiu Israel e dominou Jerusalém que, como já dissemos,
estava beücamente despreparada devido ao sectarismo dentro de seu sistema. Ocupando
o Templo, o General Pompeu decretou ser a região uma propriedade de César e
transformou a Judéia em província Romana. Os asmoneus tentaram inutilmente retomar
o poder, mas, vitoriosos novamente, os romanos nomearam Herodes Antipater e depois
Herodes Antipas, seu filho, como governadores da Judéia.
Assim, desde este tempo até meados do primeiro século, havia um grande
anseio apocalíptico na Judéia. Esperava-se ardentemente a vinda do Messias que,
segundo se cria, seria um poderoso rei guerreiro que levantaria uma revolta e
livraria Judá das mãos dos romanos. Os saduceus, desta vez mais favoráveis à
política reinante, haviam conseguido colocar seus sacerdotes como administradores
do Templo (o que lhes conferia maior poder de ação junto aos dominantes).
Os fariseus, por sua vez, sem muito apoio dos romanos, tornaram -se mais
populistas, propondo um judaísmo orientado pelos rabinos (mestres) do povo.
Os essênios, mais austeros e radicais, preferiram o isolamento do deserto, onde
viviam em comunidade à espera da nova era messiânica.
Não obstante um aparente clim a de paz, os judeus se sublevavam
constantemente contra Roma. Líderes zelotas (Barrabás possivelmente foi um deles)
propunham saques nos armazéns romanos, ou ataques surpresas a legiões acampadas
no deserto. Como represália, os romanos, representados por seu governador vassalo,
não se cansavam de propor execuções. Estima-se que só no ano 6 a.C. ocorreram
cerca de 2.000 crucificações na região da Judéia; o que não intimidava muito as
constantes revoltas sempre inspiradas em pregações escatológicas. Só para se ter
unia idéia, em 64 A.D. os zelotas iniciaram nova rebelião em Jerusalém com o fim
de proclamá-la independente do império romano. O resultado foi que o tumulto
culminou na destruição total da cidade e do Templo pela ação militar de Tito,
0 filho mais velho do imperador Vespasiano.
O arraso completo causado pelos romanos se deu em 28 de agosto de 70
Naquele ano, milhares de judeus haviam sido mortos ou escravizados.
Um D e s c o n h e c id o G a l il e u

Mesmo assim, a agitação político-religiosa não parou. Três anos mais tarde, para não
caírem nas mãos dos romanos, 960 judeus se suicidaram no alto da fortaleza de Massada
na região do Mar Morto. E, finalmente, em 132 AD, com a derradeira revolta liderada
por Bar Kochba, Adriano não somente arrasou 1.000 povoados da região, como ainda
baniu todos os judeus do país. Em seu lugar ele colonizou Israel com estrangeiros e
rebatizou a terra de Palestina (uma provocação à história judaica, visto que em hebraico
o nome pode ser entendido como “Filistina” ou “Terra dos Filisteus”).
Assim, ao tempo de Cristo, eram comuns os constantes levantes e o certeiro
castigo dos opressores romanos. Profetas maltrapilhos andavam pelas praças agitando
0 povo, pregando o fim do mundo e a necessidade de arrependimento. As seitas e
partidos continuavam suas disputas político religiosas e o Templo era o local predileto
de seus confrontos. Os samaritanos eram odiados, mulheres e crianças não considerados
socialmente e o analfabetismo era quase uma regra numa população estimada em
1 milhão de habitantes. Só a Galiléia teria uns 300.000 habitantes e Jerusalém, perto
de 50.000.' Um contexto, portanto, muito complexo e cercado de injustiça social.
Algo, aliás, não muito distante das características sociais pós-modernas.
A vida de Jesus, como se pode ver, não ocorreu num vácuo da história. Houve
todo um contexto circundando a encarnação humana do Filho de Deus. Olhadas em
conjunto, as várias tendências da época chegam a supor que este era o momento certo
para a primeira vinda de Cristo. Quando todos menos esperavam, Deus surpreendeu
a humanidade e visitou o planeta. Alguns, no entanto, não estavam desapercebidos.
Avaliando os ‘sinais dos tempos’ eles sabiam que o Messias um dia viria ao mundo.
Logo, fizeram desta expectativa a esperança máxima de sua existência e por Ele
esperavam todos os dias.
A seguir, trataremos dos principais elementos circunstanciais que marcaram o
nascimento de Jesus Cristo. A visita dos Magos, o censo de Quirino e a fuga para o
Egito serão alguns dos assuntos avaliados de forma histórica e analítica para melhor
compreensão do evento natalício do Filho de Deus.

Questões Para Análise e Reflexão


•Leia Mateus 4:17, 23 e 24; 5:17-20; 6:10; 7:12; 9:27 a 31
e Atos 5:37 e tente comentá-los à luz do contexto histórico apresentado.
• Como você relaciona o discurso escatológico de Mat. 24 com a
efervescência apocalíptica do povo?
•Você acha que personagens como Simeão, Ana, João Batista
ou até mesmo os pais de Jesus estavam livres daquela idéia popular
acerca do Messias guerreiro? Veja: Luc.l:26; 41-45; 2:38; 7:18-23.
O C o ntexto H is t ó r ic o D as O r ig e n s D e Je s u s D e N azaré

E quanto aos discípulos? Atos 1:6. Como auxílio para este estudo, saiba
que a expressão “liberdade para Sião” e “redenção de Israel” eram ditos
comuns de movimentos rebeldes. Moedas cunhadas no período de
67 A.D., trazem o lema “Liberdade para Sião”. Uma de 69 A.D. diz “para
a redenção de Sião” e do tempo de Bar Cochba: ‘Tara a liberdade de Israel”
(132-33 A.D.) e “Ano 1 da redenção de Israel” (133/34 A.D.).

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Judaísmo: este termo, ao que tudo indica, fo i cnado pelos judeus de língua grega
para se definirem emface do helenismo. Ele aparecepela primeira ve%em 2 Macabeus
2:21 escritopor volta de 150 a. C. Nesta época, ser judeu era abraçarafé e os costumes
que caracterizavam os ensinos do Antigo Testamento. Em 4 Macabeus 4:26,
por exemplo, comer carne imunda equivale a abjurar aojudaísmo.
Mas, por que “judaísmo” e não “hebraísmo” (de hebreus) ou 'Israelismo”
(de Israel)? Como sabemos, Judá é apenas uma das do%e tribos. Ocorre, no entanto,
que, com o cativeiro assírio em 722 a.C., marcou-se ofim do reino do Norte, Israel, cuja
capital era Samaria. Isso deixou Judá em evidência, porquanto o reino do sulficara
intacto como nação por mais de cento e cinqüenta anos. Mas então veio o cativeiro
babilónico que pôs fim temporariamente ao reino de Judá. Passados 70 anos, Ciro da
Medo-Pérsia concedeu que um remanescente voltasse ao país e o repovoasse. Desde
então, para todos os efeitos, Judá tornou-se o país de Israel e seus habitantes osjudeus
(uma ve%que as tribos estavam misturadas e sem identificação precisa).
Assim,judeu e israelita tornaram-se designações sinônimas ejudaísmo indicava
tudo o que envolve a terra de Israel, em especial o %elopelas doutrinas e a lei.

Referências:
1. Este tópico foi baseado, principalm ente nas seguintes obras: Walker, W., História da Igreja Cristã, Rio de
Janeiro/São Paulo: co-edição JU E RP/ASTE, 1980; Latourrete, K. S., História del Cristianismo, Buenos Aires, Casa
Bautista de Pubücaciones, 1978; Garcia, E., História da Civilização, São Paulo: Ed. Egéria, 1979; D aniel-Rops, H.,
Le Vie Quotidienne en Palestine an Temps de Jésus Christ, Paris: Librairie Hachette, 1961.
2. Para um a visão mais detalhada da pirâm ide social dentro de Israel no tempo de Cristo veja: V.V. A. A. Ta
Palestine an temps de Jésus, Paris: Du Cerf, 1979, pp. 74 ss; M orin, E., Jesns e as Estruturas de Sen Tempo, São Paulo: Ed.
Paulinas, 1981, pp. 76 - 84; para um a ilustração de incidentes envolvendo Jesus e as estruturas sociais judaicas, veja
pp. 87 —91. Veja tam bém Daniel-Rops, H ., op. cit., pp. 95 —108.
3. O escravo fazia parte da propriedade do seu senhor e, de certo modo, parte da família que o possuía.
Assim, embora não fosse pessoa livre, ele partilhava o mesmo estrato social que seu senhor no sentido que era muito
bem alimentado, vestido e sustentado por aquele a quem servia. Veja Heinemann, J. H., “The Status o f die Labourers
111Jewish Law and Society in die Tannaic Period” in Hebrew Union College Annual 25 (1954), pp. 265ss.
4. Especificam ente sobre o contexto dentro de Israel desde o exílio até Jesus, foram ainda de grande valia
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

as seguintes obras: Tassin, C., Le Judaïsme —de l'exil an temps de Jésus, Paris: Cerf, 1986; Paul, A ., Le Monde des Juifs à
l'heure deJésus; histoirepolitique, Paris: Desclée, 1981 ; Saulnier, C., Histoire d ’Israël; de la conquête d ’Alexandre à la destruction
du Temple, Paris: Cerf, 1985.
5. N ote que muitos destes partidos já existiam desde Antíoco Epifânio em 162 a.C. Seria grande valia a leitura
dos livros apócrifos de I e II Macabeus que se encontram impressos em Bíblias editadas pela Igreja católica.
6. Quando M atadas começou a inssurreição, ao seu lado estava “a assem bléia dos hassideus” (do hebraico
hasidim , “piedosos”). Cf. 1 Mac. 2:42 e 7: 12 —13.
7. Sobre o exagerado núm ero de Josefo (ele fala de3,5 milhões de habitantes na Galiléia) veja :Byatt, A.
“Josephus and Population numbers in First Century Palestine” in Palestine Exploration Quartely, (1973), pp. 33 —51
e W ilkinson, J. Jerusalém —Anno Domini, São Paulo: M elhoram entos, 1993, pp. 26 e 27.
CAPÍTULO 8
t
O N a s c im e n t o de Jesu s
evido ao interesse de cada evangelista, o nascimento de Jesus teve diferentes
D modos de apresentação em cada um dos evangelhos. Marcos chega até a
ignorá-lo, começando seu relato pela pregação do Batista. João se limita a uma
apresentação metafísica do Verbo que se fez carne e habitou entre os homens
(Jo. 1:14). Somente Mateus e Lucas se detém mais em detalhes, talvez tirados de
informações concedidas por Maria, ou parentes próximos de Jesus.
Ambos os relatos do nascimento enfatizam com precisão a escolha do nome
para a criança que deveria se chamar Jesus (Mat. 1:25 e Luc. 1:31). Seu significado:
“O Senhor salva”. Em síntese, trata-se de um nome essencialmente hebreu que
evidencia para nós o resultado de uma longa transformação lingüística na pronúncia
e dicção do idioma hebraico. Josué, o homônimo de Jesus no Antigo Testamento,
é grafado de modo diferente em português, porque assume a forma mais antiga do
nome que seria YeHoShu’a.
A alteração da pronúncia YeHoShu’a para YeShu parece ter começado por uma
contração da palavra comum em quase todos os movimentos semânticos de um idioma.
Assim, em meados do IV século a.C. encontramos no texto aramaico de Esdras a
forma abreviada YeShu’a ( Esd 5:2). De igual modo, a tradução grega da Septuaginta
verteu o nome hebreu de Josué pela grafia Yêsus, que corresponde à mesma transcrição
que encontraremos no NT. Esta nova fórmula talvez se deva à dificuldade de se
pronunciar em grego o “a” final do nome semita, que, neste caso, teria assumido um
acento totalmente estrangeiro.
Bernard-Marie sugere ainda que devido ao marcante sotaque da Galiléia,
percebido de modo claro na fala de Pedro (Mat. 26:73), o nome de Jesus seria
pronunciado pelos apóstolos na forma YeShuSh , ao passo que para os habitantes
da Judéia o nome soaria mais ou menos como YeShu, sem a presença do Sh final
°u do ’a gutural.1 Esta, pelo menos, é a forma assumida por Tatiano, pelo Códex
Sinaítico e pelos textos talmúdicos2. Seja como for, a fórmula mais antiga do
Qonie de Jesus caiu quase que em total desuso a partir do fim do cativeiro
babilónico. Não obstante, jamais perdeu seu significado original que remete
a lembrança de um Deus Salvador.
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

1 —Contexto e Circunstâncias do Nascimento de Jesus


Três nomes se destacam nos relatos do nascimento de Jesus: Herodes, César
Augusto e Quirino. Conforme já mencionamos, a filosofia administrativa dos Romanos
permitia a cada província possuir um rei vassalo ou governante local. Assim, César
Augusto era o Imperador da época do nascimento de Jesus, Herodes e Quirino eram,
respectivamente, reis vassalos de Israel e da Síria. Mas tomemos um espaço para falar
algo acerca de César Augusto e depois de Herodes (Quirino só nos interessa em
termos de datação histórica).

1.1—César Augusto
Começando pelo imperador romano apontado por Lucas (2:1), temos aqui uma
das mais extraordinárias figuras administrativas da história romana. Segundo se crê,
César subiu ao trono em cerca de 63 a.C.. Neste tempo, a região de Israel dominada por
Roma, fazia parte da província da Síria de modo que os judeus também participavam
daquele “direito” de ter seu próprio rei vassalo. Não obstante, era evidente que nenhum
governante local poderia ser maior que o imperador que o indicava. O que não parece
ter causado maiores problemas no reinado de Augusto, pois sua administração fora tão
eficiente que alguns chegam ao ponto de cognominar a famosa “pax romana” como
tornando-se neste período uma verdadeira “pax augusta”, que adviera pelos grandes
benefícios que o imperador fez entre as regiões subjugadas.
Virgílio já havia apontado em um de seus poemas o nascimento de uma criança
que “marcaria o fim da era de ferro e o despertar da era de ouro” e muitos naquele
tempo atribuíram a Augusto o sentido pleno destas palavras. Aliás, ele mesmo expressou
seu desejo de criar uma “era perfeita”, onde todos desfrutariam o gozo todos os dias.
Até aonde vai a pretensão destas palavras é difícil precisar. O fato é que há quem diga
que, em termos administrativos, Augusto tenha atingido o máximo de uma perfeita
administração humana, tornando-se superior até a Júlio César.
Ele retirou muitas cidades do caos e da desordem comum que havia antes de seu
governo. Logrou o respeito até mesmo dos líderes judeus que o admiravam
tremendamente mesmo a despeito de seu nome sugerir (tanto em grego quanto em
latim) algo como “aquele que merece adoração”. Seus tremendos feitos levaram Fílon
de Alexandria, o intelectual judeu-helenista, a chamá-lo de “benfeitor supremo”.
Nisto, sobressai perante os olhos do pesquisador o contraste deste soberano
com o humilde Jesus de Nazaré. E mais ainda, a pronta aceitação de um soberano
romano em face à rejeição coletiva do Messias autenticamente judeu. Por isso o
Senhor declarou certa feita: “as aves do céu (símbolo apocalíptico para as nações
estrangeiras) têm seus ninhos (em Israel) mas o Filho do Homem (isto é, o Messias)
não tem onde reclinar a cabeça.”. '
O N a s c im e n t o D e Je s u s

Com a morte de Augusto em 14 A.D., as coisas se inflamaram no império. Tibério,


seu sucessor no trono, não tivera a mesma destreza política e uma lenta tensão começou
a surgir novamente na relação entre Roma e Israel. Em resultado disso, uma série de
conflitos começaram a surgir até que em 66 A.D. inicia-se um combate de quatro anos
q Ue culminaria na destruição total da cidade e do templo em 70 A.D..

1.2 —0 Rei Herodes


Quando o Novo Testamento se dirige diversas vezes ao nome Herodes não se
deve pensar na referência a uma única pessoa, mas antes na titulação de uma série de reis
que assumiram a seu tempo o trono de Judá por direito legal conferido por Roma.
Todos eles pertenciam sanguineamente à família herodiana, pelo que temos
Herodes, o Grande; Herodes Antipas; etc.. O primeiro Herodes relacionado com a
vida de Jesus, que tentou enganar os magos e ordenou o massacre das crianças belamitas
foi, ao que tudo indica, aquele cognominado “o Grande” que iniciou a dinastia
herodiana em 37 a.C. e morreu em 4 a.C..
Escavações feitas no bairro judeu dentro da cidade velha de Jerusalém têm
demonstrado um interessante contraste entre a era herodiana e outros períodos prévios.
Deixando um pouco de lado os assuntos técnicos relativos à topografia e aos muros
originais da cidade, os arqueólogos procuraram aqui dar mais atenção à condição de
vida dos jerusalemitas durante o governo de Herodes, o Grande.
O modo assombrosamente preservado de muitos alicerces e artefatos do dia a
dia foi um fato significativo, pois de todas as camadas até agora pesquisadas, o estrato
herodiano é o único que possibilita uma reconstrução bem aproximada da vida diária
nos tempos do nascimento e juventude de Jesus.
Jerusalém era uma avançada metrópole sob a administração deste rei. Ali ele
construíra casas de banho, ginásios, teatros, hipódromos e suntuosas mansões para os
rnembros do sinédrio e do sacerdócio. Paredes e enfeites com incentivos gregos davam
ao ambiente urbano todo um clima de luxúria cosmopolita que o assemelhava às
grandes cortes do império. Ainda hoje, as ruínas de um de seus anfiteatros foram
adaptadas, reformadas e recebem artistas do mundo inteiro (inclusive do Brasil) que
ali fazem seus espetáculos para uma média de 5 a 10 mil pessoas.
No intuito de agradar ao imperador, Herodes construiu ainda a bela Cesaréia
Marítima, localizada às margens do Mediterrâneo e em Samaria, e a pequena cidade de
Sebaste” (o nome de Augusto em Grego) com um suntuoso Templo pagão.
Mas, suas edificações, com forte tom político, não lhe lograram a positiva propaganda
9ue esperava obter. A despeito das tentativas herodianas, até meados do segundo
Seculo a região de Israel permanecia um local detestado pelos políticos romanos que
tornavam como castigo uma ordem para morar ali.
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

De todas as suas construções, a que esperava ser o maior dos marcos fôra a
reforma e ampliação do Templo judeu, reedificado por Zorobabel em 515 a.C.. Segundo
Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas IV, 11, 2; o principal motivo de Herodes para
as reformas arquitetônicas do Templo, era a vontade de perpetuar seu nome na história.
Todavia, os judeus temiam que essas reformas uma vez começadas nunca fossem
concluídas por falta de recursos. A fim de ganhar a simpatia do povo e afastar esses
temores, Herodes garantiu que todo o material de construção necessário seria provido de
antemão. E, para impedir a contaminação do lugar sagrado, mandou que treinassem
sacerdotes israelitas como pedreiros e carpinteiros, e assim o trabalho teve início.
Longe, porém, de obter a lealdade de seus súditos, Herodes era uma pessoa
odiada. Seu pior defeito, na visão do povo, estava no fato de ele não ser genuinamente
judeu, o que lhe atraiu constante desconfiança e inimizade por parte do povo em
geral. Sendo filho de um pai idumeu (Antipater), Herodes, o Grande, destronou
Mattathias Antigonus, o último dos asmoneus e assumiu o poder em 37 a.C., graças à
sua exagerada subserviência política em relação aos romanos.
Atemorizado, ele vivia constantemente assediado pelo medo da morte e da
conspiração. Fato que explica seu grande desespero ao ser inesperadamente visitado
por magos orientais que diziam ter vindo para homenagear o novo Rei dos Judeus.
Seu receio foi aumentado diante da possibilidade de ser aquela criança o símbolo
messiânico de uma nova sublevação do povo em favor de um outro rei autenticamente
judeu. Afinal, ainda que o povo não tivesse o poder de entronizar alguém sem a autorização
do império, poderiam criar uma guerra civil que incomodaria o imperador a ponto de
substituir a dinastia herodiana por outra administração apontada por César. E foi isso
que aconteceu mais tarde quando o governo da Judéia foi arbitrariamente entregue a
procuradores enviados de Roma, por causa das constantes sublevações populares.
Só para se ter uma idéia de seu constante pânico, ele construiu palácios de descanso
que eram verdadeiras fortalezas esjrondidas no alto de montanhas que ficavam no
meio do deserto. Ali, no isolamento do lugar ele tinha .toda. a infra-estrutura para d l
descanso real, desde salas de Jhidromassagem até saunas. As duas m a is fantásticas
construções até agora conhecidas são Massada e o Heródium.

Heródimu

M a ssa d a C
O N a s c im e n t o D e )e s u s

Massada era tão fortificada que após a morte de Herodes, o lugar abandonado
serviu para abrigar muito bem uma legião de judeus^ rebeldes que não queriam se
ender ao poder dos romanos. ^Eles viveram anos ali sem que as tropas do império
c0n se g u isse m alcançá-los. Foram ao todo três anos de cerco inútil, tentando a todo
cUsto tomar a fortaleza. Ali havia um sistema de drenagem e armazenamento que
abastecia o topo da montanha com abundância de água mesmo estando sob o forte
3 o r de 50 graus o ano todo. Foi somente em 73/4, que o exército conseguiu atingir
o topo, encontrando mortos os rebeldes que preferiram o suicídio a entregarem-se
nas mãos do inimigo.
O Heródium, por sua vez, fôra construído a partir de um corte feito numa
colina para que nenhum monarca posterior conseguisse edificar um palácio mais
alto do que o seu. Ali foi construído o túmulo real de Herodes (ainda não totalmente
escavado).3

2 —0 Censo de Quirino e o Possível Ano do Nascimento de Cristo


As pistas históricas mais precisas vêm-nos dos evangelho de Lucas. Ele diz
que Jesus nasceu na época concomitante ao censo decretado por César Augusto e
ao governo de Quirino na Síria. Somando-se isto à presença de Herodes mencio­
nada por Mateus, temos algumas pistas históricas que nos ajudam a situar, senão
precisamente, pelo menos de modo aproximado o ano em que nascera Nosso
Senhor Jesus Cristo.
Bem, começando por Herodes, embora a história possa revelar mais de um rei
com esse nome, entendemos que aquele mencionado por Mateus é o mesmo que
governou ajudéia a partir de 37 a.C. Ora, cálculos baseados no testemunho dejosefo
nos indicam que Herodes morreu na primavera ou outono de 4 a.C. 4 Logo, Jesus não
pode ter nascido num ano posterior a este que marca a morte do rei.
Um outro detalhe que precisamos atentar é que há um espaço entre o nasci­
mento de Jesus e o falecimento de Herodes (precedido como sabemos por uma
doença que durou seis meses). Assim, é preciso situá-lo em algum período de um
0u mais anos antes do ano 4 a.C.. Isso dizemos, para que se tenha tempo de ocorre-
rem os acontecimentos descritos em Mateus 2, ou seja, a chegada dos magos e a
m°rte das crianças belamitas.
Quanto ao governador Quirino, mencionado por Lucas, o problema maior é
4ue não dispomos de nenhuma fonte extra-bíblica que o referencie como administra­
dor da Síria antes do desterro de Arquelau (6 A.D.). A referência mais próxima que
apom os é uma discutível citação de Flávio Josefo que aponta um censo efetuado
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

por Cirenius (Quirino?) no ano 6 A.D., quando Jesus já estaria com mais de dez anos.
Isso, evidentemente distancia bastante a morte de Herodes e o início do governo de
Quirino que, segundo a visão lucana, seriam regências contemporâneas.5
Como tentativa de solução para o problema, temos a menção de uma controver­
tida moeda em quejerry Vardaman diz ter encontrado o nome Quirino como procônsul
da Síria e Cicília.6 Essa moeda teria circulado entre 11 a.C. e pouco depois da morte
de Herodes. Haveria, portanto, dois Quririnos, um governando no tempo de Herodes
e outro posterior a Arquelau? Ou podemos dizer que há apenas um e que este gover­
nou por duas vezes a província da Síria? É difícil saber.7
Por outro lado, porém, é certo que os acontecimentos durante o governo de
Augusto foram anotados de modo deficiente, de forma que podemos apontar
duas possibilidades para o a omissão do nome Quirino nos anais administrativos
anteriores a Herodes: primeiro porque talvez ele fôra um co-regente da Síria.
De acordo com o costume da titulação L egatus Caesaris um político poderia ser
agraciado com a co-regência de uma província, de modo que um administrador
cuidava das questões militares e o outro das questões civis e políticas. Mas, para
efeito de documentação, o primeiro nome era o que aparecia como administrador
legal da região. Uma segunda hipótese que poderíamos aventar seria que o gover­
no de Quirino havia sido muito rápido e pelo fato dos anais de Augusto serem
documentos remissivos, sua administração não foi mencionada. A favor desta
última idéia há no museu de Latrão uma inscrição danificada sobre um determi­
nado governador que administrou por duas vezes a província da Síria, mas o seu
nome é omitido do texto.
Há ainda uma última sugestão apresentada por Sebastian Bartina que parte
de um ponto de vista filológico. Levando-se em consideração que o termo grego
p ro tê usado por Lucas pode significar tanto “anterior” quanto “primeiro”, é pos­
sível sugerir a seguinte tradução para Luc. 2:2: “Este censo foi o anterior ao de
Quirino [do ano 6A.D.].”8
Não obstante a limitação que temos quanto aos dados sobre Quirino, pode­
mos tentar algum acerto através de outras vias. Hoje, o museu Britânico possui um
papiro datado por Milligan e Deissmann como pertencente ao ano 104 a.C. que traz
a seguinte ordem:
“Gaius Vibius Maximus, Prefeito do Egito [declara]: E chegado o tempo para que o censo
sejafeito de casa em casa. E necessário compelir a todos que por alguma ra^ão estejam residindofora
de suas provindas a que retornem para seu próprio domicílio de origem, para que possam tanto levaf
a efeito a ordem regular do censo como também atender diligentemente ao cultivo de sua seção.
O N a s c im e n t o D e Je s u s

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ÍVHHtó
T^VcV;
>uyrr;
tV-iT*1
7-h " :

Papiro encontrado no Egito contendo ordem para o censo da população (104 A.D.) - Museu Britânico.

Há ainda o papiro Oxyty/icbt/s 225, que diz:

“Eu, o acima mencionado Thermoutharion, seguido por meu guardião chama­


do Apolônio, juro pelo Imperador Tibério Cláudio César Augusto Germânico que
seguramente o precedente documento faz eco ao verdadeiro retorno de todos os que
vivem comigo, e que não há mais ninguém comigo, nem estrangeiro, nem um cidadão
alexandrino, nem um [homem] livre, nem um cidadão romano, nem um egípcio a
mais daquilo que relatei. Se eu estiver dizendo a verdade, que possas tu ser bondoso
para comigo, mas se for falso, o contrário. No nono ano do Imperador Tibério
Cláudio César Augusto Germânico.”10
Os textos possuem muitos paralelos importantes com o dito lucano. A ordem
para a contagem do povo, o comando para retornarem às suas próprias províncias,
possivelmente acompanhados por toda a família11, são elementos que devem ser ano­
tados. Mas a tônica maior de nosso interesse é que hoje temos conhecimento de que
0s recenseamentos romanos seguiam um padrão que funcionava em ciclos de 14 em
14 anos. A seqüência de todas as contagens desde [90 A.D. até 258 A.D.] está guarda­
da na Biblioteca Britânica de Londres. Sabe-se ainda de outros quatro recenseamentos
feitos em 20, 34,48 e 62 —o que também obedece ao padrão do ciclo de 14 em 14 anos.12
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

Estes ciclos, é importante dizer, são harmônicos com o censo do ano 6 A.D.
mencionado por Josefo. Seria o censo de Lucas, aquele que antecedeu ao do ano
6 A.D.? É possível que sim. Mas para aceitar essa hipótese teremos de retroceder o
nascimento de Jesus para perto do ano 8 a.C. que é a primeira marca quatorze anos
antes de 6 A.D.. De fato, Tertuliano, embasado numa fonte extra-lucana, diz que o
censo do tempo em que nasceu Jesus se deu sob o governo de Saturnino que era o
legado da Síria entre 8 e 6 a.C.13 Ora, admitindo-se a hipótese de Quirino ter sido co-
regente com Saturnino, faz sentido apontar entre 8 e 5 a.C., o recenseamento citado
por Lucas. Lembre-se, porém, que o decreto de Augusto saiu no ano 8 a.C., mas pode
ter demorado de 1 a 3 anos para cobrir todo o Império, incluindo a Judéia.
Portanto, qualquer data, entre 8 e 5 a.C., é, a nosso ver, a que melhor coincide
com os relatos bíblicos posteriores, pois quando Herodes manda matar as crianças
(talvez por volta dos anos 5/4 a.C.) ele ordena que sejam mortos todos os meninos de
dois anos para baixo, porque evidentemente esta poderia ser a idade aproximada do
novo rei judeu por ocasião do massacre. Ademais, levando-se em conta que Lucas
afirma que Jesus tinha “em torno de 30 anos quando começou o seu ministério”, pode­
mos apontar o ano 27 A.D. (ano específico do cumprimento de Daniel 9:24) para o
início dos trabalhos públicos de Jesus quando, então, ele estaria com uma idade entre 32 e
35 anos.14 Com um ministério de três anos e meio, Jesus deve ter sido crucificado com
mais de 35 anos e não apenas 33, conforme o mito popular da famosa “idade de Cristo”.
Não obstante tudo o que foi dito, apontar o nascimento de Jesus em qualquer
período anterior ao ano 4 a.C., significa dizer que Cristo nasceu antes de Cristo (a.C).
A frase pode parecer estranha e deselegante, porém, não há como evitar o trocadilho.
Jesus nasceu em algum ano a.C. Portanto, o famoso jubileu comemorado no ano
2000, como se estivessem festejando o segundo milênio do nascimento do Senhor
não dispõe do menor fundamento histórico. Mas, onde teria surgido o equívoco de
datar o nascimento de Cristo com até oito anos de atraso?
Tudo começou com Dionísio, o Exíguo, monge católico que vivia em Roma por
volta do VI século de nossa era. Foi ele que em 533 A.D. sugeriu datar os aconteci­
mentos do mundo a partir do nascimento de Jesus. Assim, atribuiu o 1° de janeiro do
ano I A.D. ao 46° ano do calendário reformado de Júlio César. Isto equivaleria ao ano
753 AUC,15 ou seja, 753 anos após a fundação de Roma. Ocorre, no entanto, que
Dionísio cometeu um erro de mais de meia década que perpetuou nos calendários
seguintes. Somente no século XVI, Varro, outro monge cronologista, percebeu o des­
lize. Atualmente, estudos cronológicos mais avançados têm demonstrado que a era
Cristã deveria ter realmente começado entre os anos 745 e 749 AUC. Assim, todas as
datas atuais deveriam ser avançadas, no mínimo, em 5 anos, de modo que hoje, no ano
em que este livro é publicado, nós deveríamos estar entre 2005 e 2008 e não em 2001,
conforme convencionalmente se crê. Uma correção deste equívoco, como se pode
ver, exigiria uma série de mudanças que implicaria na alteração de todas as datas histó-
O N a s c im e n t o D e Je s u s

ricas tradicionais do mundo ocidental. O transtorno que isso causaria acabou deixan­
do que ° erro se firmasse ao longo dos anos.16

3 —Os Magos e a Estrela de Belém


Os magos que visitaram Jesus eram homens sábios vindos do oriente (Mat. 2:1),
o que pode ser uma referência à Pérsia, Arábia ou Caldéia. Seu título grego (magoi)
referia-se na antigüidade a eruditos que se distinguiam no campo da matemática,
a stro n o m ia e da religião. Estranhamente, porém, era um título também aplicado
a mestres versados na arte da alquimia e da astrologia (ciências totalmente proscritas
na Torah dos judeus).17
Não podemos afirmar que eram três. Este número; bem como os nomes Belchior,
Gaspar e Baltasar; constituem tradições fantasiosas sem nenhuma base histórica que
as valide. Ademais, os cristãos orientais têm consigo uma tradição que aponta para
doze o número dos sábios, enquanto alguns mosaicos do IV século mostram apenas
dois. Seja como for, o número não é o fator mais importante. O que nos interessa, em
princípio, é investigar como esses homens sabiam da vinda de um Messias Judeu e
qual fôra o sentido daquela estrela vista por eles no céu.
Quanto ao conhecimento sobre a vinda do Messias, devemos lembrar que as
tradições judaicas não ficaram isoladas do restante do mundo. A diáspora já
providenciara um considerável número de sinagogas e Casas de Estudo (BeytMidrash)
em vários países fora dos limites de Israel. Além disso, a versão grega da LXX
possibilitou que eruditos de outras culturas tivessem contato sólido com o livro sagrado
dos judeus. E possível, ainda, que a tradição oral tenha mantido alguns oráculos
(hoje não totalmente conhecidos) que remontam aos mais antigos profetas hebreus e,
até mesmo, a alguns videntes gentios. Balaão, por exemplo, não era judeu e, embora
mágico professo, fazia as vezes de profeta do Senhor (Núm. 22).18
Tendo por base este contexto, podemos descartar a teoria de que a estrela natalina
fosse apenas o cometa Halley que passou pela região em 12 a.C.. Os astrônomos mais
antigos não se preocupavam tanto com passagens de cometa quando o assunto era o
nascimento de reis importantes. Além disso, a data da passagem do Halley não condiz
ern nada com os fatos políticos biblicamente relacionados ao nascimento de Cristo.
Por outro lado, também, o texto evangélico não nos permite supor que se tratava
de uma estrela real. Note que a luminosidade era visivelmente móvel e os conduzia.
Além disto, Herodes e os que com ele estavam no palácio pareciam desconhecer
totalmente a existência de tal “estrela” no céu. Portanto, o que os magos haviam visto
era um “brilho” celestial que chamaram de “estrela” (nome, aliás, dado a toda e qualquer
luminosidade celeste até a um meteoro cadente).19
Uma idéia bem consistente com a narrativa evangélica sugere que a estrela de
Belém seria um brilho sobrenatural produzido por anjos de Deus. Esta interpretação
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

foi sustentada com muita ênfase, no III século, pelo escritor Orígenes na sua apologia
contra Celso. Segundo seu parecer, a multidão de anjos mencionada por Lucas (2:8-20)
somada à gloria da própria divindade foram as responsáveis pelo clarão observado do
oriente (Contra Celso, LX).
Mas há algum registro histórico sobre este brilho, ainda que tenha sido sobrenatural?
Deixou ele algum rastro capitado pelos astrônomos? Alguns estudiosos entendem que
sim, e, para isso, apontam aos registros de um brilho celeste verificado em torno do ano
7 a.C. (uma época provável para o nascimento de Jesus). Segundo o parecer da astronomia,
esta luminosidade mencionada seria, na verdade, uma conjunção de planetas, comum
em determinados ciclos de tempo. Neste caso específico, tratava-se da proximidade de
Júpiter e Saturno através da constelação de Peixes que, segundo a opinião de alguns,
seria a causadora da “estrela” vista pelos magos.20
Contudo, por mais científica que possa parecer esta afirmação, ela não é
inquestionável, nem contraria necessariamente a posição que interpreta a estrela como
sendo o brilho dos anjos. Ainda que se estabeleça uma ligação hipotética entre este
“brilho” e a “estrela de Belém”, continua sendo coerente a interpretação que sugere
um fenômeno sobrenatural e não simplesmente astronômico. Dizemos isto, por uma
razão muito simples: a mencionada confluência planetária só ocorre uma vez por ano
a cada período de 794 anos. Mas um antigo registro babilónico chamado Calendário
E stelar de Sippar, publicado em 1925, menciona três conjunções luminosas de Júpiter
com Saturno em 7 a.C..21Uma ocorrendo em 29 de maio, outra em 1° de outubro e a
última em 5 de dezembro.
E m bora, repetim os, seja sem significado buscar exaustivos cálculos
astronômicos para um brilho sobrenatural, podemos supor que apenas uma dessas
luminosidades seria a conjunção normal dos planetas que, como dissemos, só
ocorre uma vez em cada ciclo. As demais, seriam, na verdade, a glória produzida
pelos anjos de Deus que os astrônomos caldeus interpretaram como conjunções
planetárias; e por isso as registraram em seu calendário estelar.22 Mas isto também
é uma hipótese. O que temos de concreto é que os sábios viram uma luminosidade
anormal e, segundo o parecer de Orígenes, entenderam-na como sendo o cumprimento
de oráculos antigos, entre eles a profecia de Balaão que diz “uma estrela procederá
d ejacó ” (Núm. 24:17).23
Quanto, porém, a detalhes precisos de como os magos chegaram à conclusão
de que aquela luminosidade específica referia-se ao nascimento do rei jildeu , não
temos elementos suficientes para emitir qualquer opinião.24 Mais uma vez, o que
podemos concluir é que os magos viram uma luminosidade no céu (provocada por
anjos de Deus) e a interpretaram-na de dois modos: do ponto de vista astronômico
entenderam, como os demais, que seria uma nova estrela ou uma confluência
O N a s c im e n t o D e Je s u s

Foto de Belém, a cidade onde


nasceu Jesus.

planetária (conforme registrado no Calendário de Sippai). Do ponto de vista


religioso, entenderam que seria o cumprimento de profecias antigas (transmitidas
oralmente e por escrito) acerca de um rei especial que nasceria naquele tempo, na
terra de Israel.
Pode parecer fantasioso, mas os magos não estavam sozinhos nesta sua
interpretação. De algum modo, vários sábios sabiam que um importante rei estava para
chegar por aquele tempo. Isto é o que entendemos de duas importantes declarações
feitas no final do I século e inicio do II pelos historiadores latinos Suetônio e Tácito:
“Muitos [no séc. I] estavam persuadidos de que constava, das antigas escrituras
dos sacerdotes, que, por este tempo, o poder do oriente subiria. E da Judéia viriam os
dominadores do mundo. Esse texto ambíguo anunciava Vespasiano e Tito; mas a
população [judaica], como geralmente acontece com a paixão humana, interpretou
esta grandeza fatal em seu favor.” (Tácito, Histonae, V, 13 = partes entre colchetes
suprimidas do texto original).
“Aumentava em todo o oriente a antiga e constante opinião de que estava escrito
no destino do mundo que da Judéia viriam, naquele tempo, os dominadores do mundo.”
(Suetônio, Vidas, Vespasiano, XXXVIII, 11).

4 - Tentativa Cronológica do Nascimento Até a Ida e Retorno do Egito


Este tópico deverá começar com uma pequena problemática que é a aparente
incongruência entre os relatos de Mateus e Lucas quanto ao nascimento de Jesus.
Se nos orientarmos pelo primeiro evangelho, entenderemos que a família de Jesus
morava em Belém. Note que os magos entram “na casa” da família e não no estábulo
°u outro lugar provisório. Somente depois do retorno do Egito é que Maria, José e
seu filho passam a morar em Nazaré (2:23) e isso para que se justificasse a alcunha de
1
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

“nazareno” em relação a Jesus. Neste ínterim, da mudança de Belém para Nazaré, é


que ocorrem o massacre dos bebês e a fuga para o Egito. O menino Jesus, na visão de
Mateus, já teria quase dois anos quando saiu de Belém (2:16) e ficou no Egito por
quase um ano, período em que Herodés haveria de morrer. Do Egito, José pretendia
voltar para sua casa na Judéia, isto é, Belém, e só desistiu da idéia porque temia Arquelau,
o filho de Herodes (2:22). Para o evangelista Mateus, a cidade galiléia de Nazaré torna-
se, por acidente de percurso, o lar de Jesus.
A versão de Lucas já segue outro caminho totalmente diferente. De princípio
percebe-se que Belém, e não Nazaré, é a morada acidental de Jesus. Sua família não
tem casa lá, foram para ali apenas por causa do censo e tiveram de abrigar-se num
estábulo por falta de lugar na hospedaria. Com oito dias, Jesus é circuncidado e com
40 levado ao Templo para uma apresentação litúrgica. Depois disso, eles voltam para a
Galiléia, para a sua cidade de Nazaré (2:39), onde Jesus é finalmente criado como uma
legítima criança nazarena.
E evidente que há detalhes na narrativa bíblica que não pretendem ser a reprodução
exata e fotográfica dos acontecimentos citados. Tratam-se de alusões artísticas feitas
pelo autor como no caso das seis talhas nas bodas de Caná (Jo. 26) ou o travesseiro sobre
o qualjesus dormia durante o vendaval em alto mar (Mar. 4:38). Esses e outros elementos
da mesma natureza são conhecidos como teologúmenos, ou seja, descrições teológicas
do autor para enfatizar o significado metafísico de um dado evento da vida de Cristo.
A despeito, porém, da narrativa bíblica conter teologúmenos que precisem ser
explicados, podemos seguramente sugerir uma tentativa cronológica que harmonize
Mateus e Lucas no que diz respeito à saga do nascimento e fuga de Jesus para o Egito.
De princípio, podemos aceitar a historicidade de Lucas e afirmar que José e Maria
moravam em Nazaré, uma cidadezinha aldeã da Galiléia cujo nome significa
provavelmente “a (cidade) florida”. Lá aconteceu a visita do anjo e dali, partiu Maria
para a região montanhosa de Judá até a casa de sua prima Isabel.
A dita “cidade de Judá” (Luc. 1:39) não tem seu nome registrado no evangelho.
Contudo, uma tradição que remonta ao século VI, identifica-a com ‘Ein Kárim, hoje
praticamente um bairro de Jerusalém, mas que no passado ficava cerca de 7 km ao oeste
da cidade velha. Embora não possamos com toda certeza confirmar esta tradição tardia,
é fato que, sendo Zacarias, o marido de Isabel, sacerdote no Templo, sua residência não
poderia ser muito distante das redondezas da capital judaica.
A distância entre Nazaré e Jerusalém é de cerca de 150 km os quais Maria deve
ter percorrido junto de uma caravana que normalmente fazia os trajetos entre as cidades
distantes.25 Por serem perigosas as estradas da região, dificilmente alguém andava
sozinho por elas. O costume era sempre estar em comboio. Neste percurso, Maria
deve ter gastado de três a quatro dias, no mínimo, para executar todo o trajeto.
O N a s c im e n t o D e Je s u s

Uma vez em casa de Isabel, ela permaneceu ali por três meses, o que dá a entender
que presenciou o nascimento de João Batista (Luc. 1:56).
De volta a Nazaré, Maria é recebida por José que a desposa em sua casa
(Mat. 1:24). Alguns meses depois, sai o decreto de Quirino e eles são obrigados a se
locomover para Belém , mesmo estando M aria grávida de quase 9 meses.
A Bíblia não menciona, mas é provável que toda a família de José, inclusive filhos de
um casamento anterior (sobre isto falaremos mais tarde) tenham descido juntos em
comboio para Belém da Judéia. Este translado talvez tenha ocorrido no inverno quando
os trabalhos agrícolas estavam parados e a população tinha mais facilidade de se
locomover em família. Maria, agora junto de sua família, refaz o caminho até Jerusalém
e dali mais 9 km ao sul até a cidade designada.
Por força das circunstâncias, Jesus nasce num estábulo que podia ser de madeira
nos fundos de uma casa ou numa gruta dentro de uma fazenda (as grutas também
eram usadas para guardar animais de pequeno porte como cabras e aves). Oito dias
depois o menino é circuncidado segundo a tradição do Berith M ilá e recebe o nome
de Jesus. Para isso não seria preciso que José se dirigisse ao Templo, pois o rito da
circuncisão era livremente exercido em casa pelo pai ou na sinagoga por um ministro
chamado m ohel especializado neste ofício.
Neste ínterim, podemos supor que José decidira fixar residência em Belém
(por isso Mateus aponta a cidade como sendo o lar da família de Cristo). Os motivos
para tal são claramente discerníveis: em primeiro lugar, lembramos que o nascimento
virginal de Jesus provavelmente gerou circunstâncias muito difíceis para seus pais.
Os costumes aldeães incitavam desde o desprezo comunitário até o apedrejamento para
mulheres que, como Maria, engravidavam antes da consumação do casamento. Não é
por menos que José resolvera por um momento abandoná-la em segredo e partir para
longe (Mat. 1:19). Junto a isso, temos a informação de que a Judéia estava vivendo um
período de franco crescimènto no setor das mega construções herodianas. Como esta
era uma das áreas abrangidas pela carpintaria da época, não é sem menos que José
decidisse ficar ali em função do bom mercado de trabalho oferecido pela região.
Quando o infante Jesus completou 40 dias de nascimento, a família foi ao Templo
realizar dois rituais litúrgicos, a Tevilah (purificação) e o Pidion haben (o resgate do
Filho, ou consagração do primogênito): o primeiro era em função de Maria que deveria
purificar-se após o parto para poder participar da vida religiosa judaica26 (Lev. 12:2 —4) e
0 segundo em função de Jesus por ser o primogênito do casal (Ex. 13:11—16 e Num.
18:16).27O normal, no caso do Pidion haben era o pagamento de 5 ciclos de prata mais
a oferta de um cordeiro para o sacrifício que geralmente era vendido no próprio Templo.
Os mais pobres, no entanto, (incluam-se aqui os pais de Jesus) ofertavam duas rolinhas
ou duas pombas no lugar do cordeiro.
U m D e sc o n h e c id o G a l ileu

A nova vida em Belém parece ter corrido sem muitos transtornos por, talvez, quase
dois anos, até que surgem os Magos orientais e o enciumado Herodes decreta a morte dos
infantes. Usando, possivelmente o recurso deixado pelos Magos (ou seja, o ouro o incenso
e a mirra) José leva sua família para o Egito e permanece lá, talvez menos de um ano. Neste
tempo, é possível que encontrasse emprego nalguma colônia de judeus como a de
Leontópolis (hoje Tell el Yehudiye) a 32 km ao norte do Cairo.

MT. HERMOM

Tiro '
FENÍCIA • Cesaréia de Filipe
TRACONITES
IT U R É IA

G A L IL E IA
• Ptolem aida
Corazim • i
Cafarnaum • * Betsaida
Maqdala • MAR • Geraesa
Caná • DA
MT CARMELO GALILEIA « ,Hipos
Nazaré • A
MT. TABOR

Cesaréia Marítima Citópolis • DECAPOLIS

V
• Samaria (Sebaste)
MAR MEDITERRÂNEO
S A M A R IA Slcar *

MT. GERIZI

Jope '

Lida •

Em aús • Jeri0,!
♦ Betãnia.
Azòlo * . Jerusalém • QUmran
J U D E IA _ “ ■
• Belém

1 Maquero
• Gaza

Sob Pôncio Püalos


MAR MORTO
ID U M É IA
L
Tetrarquia de Wemdes Anilpas

NABATEIA
Tetrarquia de Filipe
I----1----r—:\
0 10 20 30 Km Limites do reino do Herodes, o Grande

Mapa de Israel no tempo de Cristo.


O N a s c im e n t o D e Je s u s

5 - Após Herodes
Após a partida dos Magos e a conseguinte fuga de José, Herodes morreu em
Jericó e a família de Jesus (incluindo seus irmãos?) voltou para sua pátria, Israel.
Temendo, porém, a crueldade de Arquelau, o novo rei da Judéia, desistiram do novo
endereço em Belém preferindo regressar a Nazaré, onde o Cristo passaria toda a sua
juventude até à fase adulta.
Falando mais especificamente sobre Arquelau, temos informações históricas
de que este não era o sucessor único de seu pai. Com a morte de Herodes,
o Grande, o subjugado reino de Israel fôra imediatamente dividido entre três de
seus filhos que ainda viviam, conforme a prescrição de seu testamento que seria
depois alterado por Augusto.
O título rei, por direito de herança deveria passar para Arquelau, seu filho com
Maltace Samaritana.28 Com ele ficaria ainda o governo da Judéia (incluindo Iduméia)
e Samaria. Arquelau era o mais querido filho de Herodes, porém, enquanto
governante, se revelou o pior desastre administrativo de toda a dinastia herodiana.
Falhando tremendamente em responder aos reclames populares, ele acabou
aumentando o poder dos zelotas que inspiravam no povo a sede de independência
total. Isto acabou incitando a impaciência do imperador que fazia tudo para evitar
rebeliões localizadas. Como primeira advertência, Augusto revogou sua a titulação
real concedendo-lhe somente o título de etnarca (soberano por questões de família).
Mas os tumultos não terminaram e a violência nas ruas de Jerusalém se intensificou
sobejamente. Arquelau foi obrigado a ficar “ilhado” em seu palácio e Roma não teve
outra saída senão retirá-lo do país para não ser linchado pela população.
Em seu lugar, Augusto enviou Sabino que tentou novamente controlar o país.
Invadiu o Templo, queimou armazéns públicos e confiscou os tesouros do Templo.
Suas atitudes, no entanto, só aumentaram ainda mais a fúria popular que ameaçou
invadir o palácio e atear-lhe fogo.
A situação só foi definitivamente controlada quando Varus, então procurador
romano da Síria, ocupou a cidade com um forte exército e matou muitos de seus
habitantes. Como resultado, Roma decidiu tirar da Judéia o direito de possuir um “rei
local”, tornando-a mera província controlada desde então por um procurador romano.
Com esta perda de status, Jerusalém deixa de ser a capital oficial do país e uma permanente
guarnição romana passou a tomar conta da cidade e do Templo com uma fortificada base
localizada na Torre Antônia ao canto norte do Templo judeu.
Assim, até à revolta judaica de 66 A.D., passaram pela Judéia 14 procuradores
romanos, um dos quais seria Pôncio Pilatos (26—36AD) que sentenciou a execução de
Jesus Cristo.29
Quanto aos dois outros filhos, a situação parece ter sido menos trágica. Herodes
Antipas (também filho de Maltace) ficou com o governo da Galiléia e da Peréia e ainda
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

recebeu o título de tetrarca (soberano de uma quarta parte do reino). Felipe, filho de
Herodes com Cleópatra de Jerusalém, também adquiriu a titulação de tetrarca e recebeu
como governo a Batanéia, Gaulanítide e uma parte da Ituréia. Um outro filho também
chamado Felipe (fruto de um romance com Mariamne Alexandrina), não recebeu parte
nenhuma, mas viveu como cidadão privado, protegido pelo império e morador de Roma.
Este último tornara-se o marido legítimo de Herodias que haveria de traí-lo com seu
irmão Herodes Antipas, o assassino de João Batista.

Questões Para Análise e Reflexão


•Lendo Lucas 1:26-38, o que você pensa da visita do anjo e da
atitude de Maria? Apareceu ele em forma celestial ou disfarçado numa
forma humana qualquer? Como Maria reagiu àquela notícia e como você
reagiria se o fato se passasse em sua vida?
•Lucasl:44 diz que João Batista tremeu no ventre de Isabel com a
chegada de Maria. Um feto de seis meses dentro do ventre materno já
tem uma noção de Deus e da espiritualidade?
• Por que Jesus teve de nascer de uma virgem? Comprometeria seu
ministério se Maria já tivesse tido relações sexuais com seu marido?
•Reflita sobre a visita dos magos pagãos à luz de Jo. 10:16 e
Rom. 2:11-16 e responda: Deus revelou a sua verdade a outros povos
que desconheciam a Bíblia?

Enciclopédia de Conhecimento Religioso

No IV século, o papa Dâmaso (ou Damásio) comissionou o teólogo


SãoJerônimo a que fizesse uma no va versão da Bíblia em latim, pois as existentes
na época já estavam por demais superadas. Em função disto, o velho monge
mudou-separa Israelpara estudarmelhor o hebraico. Uma vez lá decidiu morar
em Belém, numa gruta que, segundo ele mesmo acreditou, seria o lugar exato
do nascimento de Cristo. Ali ele preparou a famosa Vulgata Latina que serviu de
basepai'a várias traduções no mundo, inclusive o português. Hoje, sobre a gruta
deJerônimo jaz uma Igreja com partespertencentes ao tempo das cruzadas. Do
lado de fora da mesma, jovens adolescentespodem ser vistos com metralhadoras
num constante ambiente de tensão, visto que a Belém moderna é um território
ocupado onde a maioria dos moradores são árabes ou muçulmanos. A cidade
nataldeJesus não conseguiu cultivar apaz que só o seu mais nobre cidadão seria
capaz de outorgar.
O N a s c im e n t o D e Je s u s

Referências:
1. Bernard-M arie, La Langue deJésus—Faraméen dans le Nouveau Testament, Paris, Pierre Téqui éditeur, 1993, p. 37
2. Q uanto ao Talm ude, Lauterbach supôs outra explicação para a não pronúncia do “a” nos textos
pretensam ente referentes a Jesus. Segundo ele, os rabinos poderiam ter entendido que se m encionassem YeShu(’a)
ao invés de YeSbu estariam desta form a reconhecendo a m essianidade do N azareno. Por isso escolheram uma
form a errada e m enos com um de pronunciar seu nom e. Lauterbach, J. “Jesu s in the talm ud” , in Rabbinic Essajs,
(1951), pp. 482. N ão creio, contudo, que haja m otivo para concordar com esta posição. Primeiro que, com o já
expusemos em capítulo precedente, não é absoluta a certeza de que o Jesu s m encionado no Talm ude seja o
Jesus Cristo fundador do cristianism o; a arm a apologética dos rabinos parece ter sido o silêncio quanto a este
nome. Segundo, porque a retirada do ’a não invalida em nada o significado de “o Senhor Salva” (Cf.Foerster,
TDNT} vol. III, p. 287), de m odo que ficaria sem sentido fazê-lo. E, por último, temos esta m esm a form a
abreviada presente em alguns ossuários encontrados na vizinhança de Jerusalém que datam do segundo Séc.
AD, o que dem onstra que YeSbu, ao invés de YeSbn'a não era um a abreviação tão incom um ou exclusiva para
referir-se a Jesus. Sobre os ossuários Cf. Sukenik, E. L., Jüdische Gräber Jerusalems um Christ Geburt (1931), p. 19 e
A. D eissm ann in Archeologischer Anzeiger, 1931 (Beib/ett %nmJahrbuch des deutschen Arcäologiscben Instituts, 46 [1931],
pp. 316 ss.), citados por Foerster, op. cit., p. 285.
3. D evido a um a inform ação dada por Flávio Josefo, os arqueólogos procuram no heródium o lugar
preciso onde estaria sepultado o corpo do monarca. Foi o Dr. E hud N etzer do Instituto de Arqueologia da
Universidade Hebraica que iniciou o processo de escavação no lugar desde m aio de 1973. M as isso é o que diz
respeito ao sepulcro do próprio rei. Sua família, no entanto, o que inclui parentes chegados fora sepultada nas
proximidades da cidade velha. Hoje este túmulo encontra-se entregue ao lixo e ao abandono numa praça perto do
King David Hotel na m oderna cidade de Jerusalém .
4. Antiguidades X V II, 8, 1.
5. O livro de Atos 5:37 também faz menção a este recenseamento. O texto de Josefo está em Antiquidades XVIII, 1.
6. O problema é que a tal moeda não foi apresentada para análise de outros peritos e o próprio Vardaman
admite ser um a escrita de letras micrográficas e passíveis de outra leitura. Esta moeda, segundo a análise de seu tutor,
estaria em circulação de 11 a.C. até pouco depois da morte de Herodes em 4 a.C.. Mas esta tese, ao que nos consta,
não foi publicada. Dela, há apenas uma menção feita por McRay, J., Archeology and The New Testament, Michigan, Baker
Book House, 1990, p. 154. A monografia não publicada de Vardaman intitula-se The Yearof tbeNativit)1: WasJesus Bom
in 12 B.C.? A New Examination o f Qiiirínus(I^uke 2:2) and relatedprob/ems o f New Testament Chrono/ogy.
7. Alguns estudiosos pensam que Quirino governou por duas vezes a Síria. Outros entendem que havia
dois governadores com o m esm o nome. A idéia de dois Q uirinos foi proposta prim eiramente por Vardam an a
partir de sua tese não publicada. M eier m enciona que há registros da época que apontam para Quirino como
governador da Síria em 6 AD e de um censo realizado por ele em 6/7 somente na Judéia, mas não na Galiléia.
Uma vez que M eier não dá a fonte desta dedução creio que ele se refira aos textos de Josefo e mAntignidadesYNYll,
1,1 e 2 ,1 que m encionam um certo Cirenius como m andado por César para coletar os impostos da Síria e Judeia
(o mesmo que realizou um censo na região) mas para isso é preciso entender Quirino e Cirenius como referência
à mesma pessoa, o que não é absurdo levando-se em conta a pronuncia grega de ambos os nomes latinos. Por
outro lado, há ainda nas Historiae de Tácito a menção de um certo Q uintílio Varo como governador da Síria na
época da m orte de Herodes e que ficou responsável por distribuir o território entre seus filhos. Seria Quintílio, o
mesmo Q uirino? E difícil saber (Tácito, Historiae V, [lemos segundo a tradução de Comby, J. e Lem onon, J.-R,
Roma em Face a Jerusalém —visão de autores gregos e latinos, São Paulo: Ed. Paulinas, 1987,p. 25]). Para a posição de M eier
Cf. Meier, J. P., op. cit., pp. 212 e 213.
8. B artina, S. Enciclopédia de la Biblia, Barcelona, Ed. G arriga, 1963, vol. V I, col. 40.
9. Papiro 904 em posse do M useu Britânico. Veja a facssím ile do docum ento em Mitchell, T. C., The Bible in
lhe British Museum, London: Bridsh M useum Press, 1998, p. 95
10. Grenfell, B. P., et. alli, Oxyrbjncbns Papjri, London: E gypt Exploration Fund, 1898ss, 2. 207.
11. Não faz sentido a problemática levantada por M eier de que M aria não necessitava acompanhar José na
viagem ou que ele mesmo estaria livre de seguir uma vez que sua esposa estivesse grávida (o que atentaria quanto à
historicidade do texto lucano). Mas não é isto que os manuscritos citados nos fazem deduzir. Ao que tudo indica o chefe
da família devia ir ao seu lugar de origem e levar consigo todos os que com ele estavam. Cf. Meier, J. P., op. cit., p. 213.
12. M illigan, G. Greek Papyri, Cambirdge: Cambridge U niversity Press, 1910, pp. 72 e 73 e D eism ann, A.
í-ightfrom the Anciet East, N ew York: G eorge H. Duran, 1927, 270.
Um D e s c o n h e c i d o G a l il e u

13. Aciversns Mareionem, 4, 19.


14. Sobre a questão do “em torno de trinta anos” , veja a posição do SDABC, vol. V, p. 242.
15. AUC era um a antiga sigla usada por autores latinos para datar acontecimentos. Eram as iniciais da frase
adnrbe condita (“a partir da fundação da cidade”), e indicava um a contagem a partir da fundação da cidade de Roma.
16. N ote, contudo, que não há, conform e o mito popular, dois, três ou mesmo quatro anos perdidos na
história. N enhum cálculo profético (como as setenta semanas de D aniel 9) jamais se viu prejudicado por esse erro.
Também é inverossím il afirm ar que os judeus retardaram o calendário em quatro anos por não aceitar Jesus como
o Messias. N enhum a destas afirm ações goza de em basamento histórico.
17. Cham plin, N. R., e Bentes, J. M ., Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, São Paulo: Candeia, 1996, vol.
IV, p. 27; Seventh-DayAdventist Bible Dictiona/y, p. 1178; Diez-Macho, A. e Bartina, S., Encic/opedia de la Bib/ia, Barcelona,
Ed. G arriga, 1978, vol. I, pp. 180 e 181.
18. W hite, E. G., Patriarcas e Profetas, Tatuí: casa Publicadora Brasileira, 1997, p. 467 e idem , O Desejado de
Todas as Nações, Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997, p. 49.
19. Como lem bra o SDABC vol.V, p. 241: “Todas as tentativas que surgem para datar a estrela de Belém
(Mat. 2:2) por cálculos astronôm icos são de pouco valor. Nenhum corpo celeste natural teria podido conduzir os
viajores do oriente ... e estacionado sobre uma sim ples casa. E óbvio que a estrela era m iraculosa ... e não
astronôm ica.”
20. Entre os que defendem esta postura está V. M essori, em seu best seller.: Hipóteses sobre Jesus, São Paulo:
Ed. Paulinas, 1980, p. 127.
21. Devemos levar em conta as diferenças entre o calendário babilónico e o que utilizamos atualmente. Em
primeiro lugar, lembramos que os babilônios utilizavam-se do ano lunar, o que fazia cada ciclo atrasar um período de
dias que eram somados e acrescentados num 13° mês a cada 19 anos a partir de 380 a.C.. Além disso, o mês inicial dos
Babilônios, chamado Nisanu (correspondente ao Nisan dos hebreus) começava entre março e abril e não em janeiro.
22. E interessante notar que Ellen W hite m enciona duas luminosidades detectadas pelos magos. A primeira
seria o fulgor de um a misteriosa luz, na m esm a noite em que a glória de Deus brilhou sobre as campinas de Belém.
Logo a seguir, continua o comentário da autora, esta luz desvaneceu, surgindo em seu lugar um a estrela luminosa
que perm aneceu no céu. Ellen G. W hite, Desejado de Todas as Nações,op. cit., p. 49.
23. Eis um pequeno histórico das pesquisas astronôm ico-teológicas com relação à estrela de Belém e a
confluência de Júpiter e Saturno: Em dezembro de 1603, Kepler, um dos pioneiros da astronomia m oderna, fez
observações na luminosidade causada pela conjunção (isto é, proximidade) de Saturno com Júp iter na constelação
de Peixes. Anotando alguns minuciosos cálculos ele descobriu que este mesmo fenômeno ocorre a cada período
de 794 anos e que ele também deve ter ocorrido entre os anos 7 e 6 a.C. Ele mesmo atribuiu à luminosidade a causa
da estrela de Belém citada no evangelho. Na época, no entanto, ninguém deu qualquer importância a esta efetiva
ligação pois pensavam que Jesus nasceu no ano I. Dois séculos mais tarde J. M iinter da Dinamarca decifrou um
comentário judeu-medieval sobre Daniel e se surpreendeu com uma declaração. O autor, rabi Abarnabel, indica a
conjunção de Júpiter com Saturno na constelação de Peixes, um dos “sinais” da chegada do Messias ao mundo.
Isto nos leva a crer que alguma ligação entre a confluência planetária e a estrela de Belém já era feita na Idade Média.
24. Há autores que insistem em tecer conjecturas acerca deste porm enor da história. W. Keller, por exemplo
diz que para os M agos Peixes era um símbolo do M essias e Cham plin concorda acrescentando que o fato de os
Cristãos primitivos usarem a palavra IChThYS (peixe em grego) como acróstico da confissão cristã e símbolo da
igreja apostólica. M essori já pensa que Saturno seria o planeta protetor de Israel e Peixes a constelação do fim do
mundo. M as, com todo o respeito à erudição dos nomes citados, tudo isso não parece passar de especulações
livrescas. Portanto, perm anecerem os apenas até aonde as pesquisas podem nos levar, lem brando sempre que
também trabalham os com algunas hipóteses que são passíveis de posterior correção. Cf. Cham plin, N. R., e
Bentes, J. M ., op. cit., vol. IV, p. 28; Keller, W , E a Bíblia Tinha Ra%ào, São Paulo: M elhoramentos, 1985.
25. Abel, F-M, Géographie de la Palestine, Paris: Gabalda, 1967, vol. I, p. 123.
26. As parturientes deviam se purificar após terem seus filhos. Se fosse menino, a mulher deveria, segundo a
lei mosaica, ficar impura 7 dias e se fosse menina 14. Depois disto, por um período de mais 33 ou 66 dias (dependendo
do sexo do bebê), ela não podia sair de casa, nem tocar em objetos sagrados —o que incluía o solo do Templo.
Terminado o resguardo, ela peregrinava até Jerusalém (não era necessário que o Marido fosse) e diante da porta de
Nicanor ela entregava a oferta prescrita ao sacerdote de plantão. Depois disto mergulhava-se em um dos tanques
especialmente construídos para este fim e podia voltar às atividades normais da vida diária. Diz o Shulkhan Arukh,
o código que prescreve em resumo o ensino da Torah: “ Ela [a mulher de resguardo] deverá imergir por completo e
de uma só vez o seu corpo, inclusive seus cabelos. Por isso,.ela deve ficar muito atenta durante a imersão para que não
haja nada nela que venha estar separado da água, pois se isto acontecer, a tevilah será inválida.”
O N a s c im e n t o D e Je s u s

27. Ainda hoje este rito é feito em hebraico dentre as famílias mais religiosas de Israel. O pai apresenta o
menino num a bandeja e o sacerdote (Çohen) pergunta-lhe se quer deixar o menino ou se pretende resgatá-lo.
O pai responde sim bolicam ente e o sacerdote então repete três vezes: “Teu filho está resgatado!” Com isso, a
criança passa a ser legidm am ente judia e o atual Estado de Israel propõe-se a resgatá-la em qualquer que seja a
situação. Segundo o costum e do pidiin shevonyim (o resgate dos cativos) recuperar de volta um judeu que está em
cativeiro estrangeiro é dever sagrado para os judeus. Lem bro-m e de quando estava em Israel e o noticiário local
divulgou um acordo entre Israel e a Jordânia para devolver aos palestinos 8 presos jordanianos em troca da
metade do corpo de um jovem soldado israelense que m orrera do outro lado da fronteira, e por isso tinha seu
cadáver retido pelo governo estrangeiro. Explicando-m e esta atitude do governo de Israel um colega de curso me
falou: “um judeu, em qualquer parte do mundo será sempre um judeu, m erece ser resgatado pelo seu país.”
28. Ao que nos consta, Herodes teve, pelo menos, cinco m ulheres e nove filhos, a saber: D órides (mãe de
Antípater), M ariam ne Hasm onéia (mãe de Alexandre, Aristóbulo, Salam psio e Cipros), M ariamne de Alexandria
(mãe de Felipe, o que fora m arido de Herodias mãe de Salom é), M altace Sam aritana (mãe de Arquelau e Herodes
Antipas) e Cleópatra de Jerusalém (mãe de Felipe Tetrarca). Esta lista porém é variável de acordo com os diversos
autores Cf. Galbiati, E. R. e Aletti, A ., Atlas Histórico da Bíblia e do Antigo Oriente, Petrópolis: Vozes, 1996, p. 189.
Diez-Macho, A., e Bartina, S., op. cit.vol. VIII, p. 1195.
29. Wolfgang, E. P., S/irLe Cbemins de Jes/ts, Tel Aviv: Otpaz Publishing House, 1975, p. 78 ss e Stern, E. The
New Encjc/opedia o f ArcheologicalExcavations in the Hol)' I^/ud, Jerusalém: The Israel Exploration Societyu & carta, 1993.
CAPÍTULO 9

t
N a z a r é - A C id a d e O n d e Jesu s
F o i C r ia d o
1 —Aspectos Geográficos e Históricos

egundo os evangelhos, Nazaré fôra o lar de Jesus junto a seus pais desde o
S retorno do Egito até mudar-se para Cafarnaum por volta dos trinta e poucos
anos de idade. Seus pais viveram ali antes de seu nascimento e ele, com certeza, possuía
parentes entre os habitantes do vilarejo.
Nos períodos romano e bizantino (até ao VI século), Nazaré fôra uma
insignificante vila habitada em sua maioria por judeus mais pobres e incultos que
se dedicavam à produção de vinho e óleo. Isto pelo menos é o que nos revelam as
escavações do Dr. Berlamino Bagatti iniciadas em 1955 e que trouxeram à lume
um considerável número de prensas para azeitonas e uvas, além de depósitos de
água, vinho e pão.1
Como se pode notar, o ofício de José não era a especialidade local, de modo que
não é improvável supor que a família de Jesus fosse a única engajada no ramo da
carpintaria construtora. O tamanho ínfimo da cidade nos leva a crer nisto.
Confirmando a insignificância do vilarejo onde viveu Jesus, temos o fato de que
nem o Antigo Testamento, nem Josefo ou sequer o Talmude, mencionam seu nome em
qualquer canto de seus textos. Daí entendermos o comentário de Felipe preservado por
João: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo. 1:46). De fato, a localização de
23 sepulturas ao norte, oeste e sul nos ajudam a decifrar o contorno e o tamanho ínfimo
da vila, pois os cemitérios ficavam fora das cidades. Nazaré, portanto, teria algo em
torno de 700 a 900 metros de extensão com uma população estimada em 500 habitantes.2
Não se tem ainda localizada com precisão a sinagoga de Nazaré mencionada em
Luc. 4:16. Mas há duas possibilidades: de que ela esteja no mesmo local da igreja de
Bagatti (a sinagoga fora transformada em lugar de reuniões cristãs) ou sob o atual cemitério
niuçulmano também chamado “lugar do forte”. As evidências em favor deste último
são que os romanos destruíram as sinagogas judaicas no período de Adriano construindo
fortalezas sobre seus escombros, por isso o nome “lugar do forte”. Mais tarde, vieram
°s muçulmanos com o costume de colocar túmulos sobre todos os locais judaicos
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

Cidade de Naspré

considerados sagrados pois assim pensavam impedir a chegada do Messias que, como
sacerdote, não poderia pisar em cemitérios.

2 —0 Ofício de José
Que Jesus e seu pai trabalhavam no ofício de carpinteiros não constitui novidade
para ninguém. A própria Bíblia revela que esta era sua profissão (Mat. 13:55 e Mar. 6:3).
Mas o termo grego tekton , usado para referir-se à ocupação de Jesus é mais amplo do
que simplesmente indica a tradição de um fazedor de móveis. Aliás isso seria mais o
ofício de um marceneiro e não de um carpinteiro. Tekton indica um trabalhador
mais voltado para a arte da construção, de modo que, Jesus, seu padrasto3
e possivelmente seus irmãos seriam construtores de casas.
Voltando um pouco à já comentada morte de Herodes, o Grande, seu filho
Agripa (que se tornara tetrarca da Galiléia), não era um péssimo administrador como
seu irmão Arquelau em Jerusalém. Herdando do pai a habilidade de construir cidades,
este novo rei resolvera reedificar ao norte da região (a 6 km de Nazaré) a nova
capital da Galiléia que se chamaria Séforis, a atual Moshav Zippori.
A edificação da metrópole consumiu grande mão de obra e levou cerca de
24 anos para ficar pronta. O recrutamento de carpinteiros e artesãos era grande
por volta do ano 4 a.C. e gerara muitos empregos. Isto talvez corroborou para o
retorno de José à vila nazarena, a despeito das humilhações que sua mulher
enfrentaria devido ao misterioso nascimento virginal de Jesus. Os aldeões por
certo descreram de sua história, o que deve ter trazido à juventude de Cristo um
constante clima de suspeita e preconceito.
Foi a falecida arqueóloga Shirle}^ Jacson que sugeriu em 1926 que Jesus
possivelmente estivera entre os trabalhadores braçais que edificaram Séphoris.
N az aré - A C id a d e O n d e Je su s F ô r a C r ia d o

fíabitada predominantemente por judeus, esta grande cidade fôra a residência oficial
de Agripa e a capital da Galiléia, até ser trocada pela Tiberíades dos romanos por
u m a decisão do rei para lisonjear o imperador.
Durante seus áureos tempos, Séforis fôra descrita por Josefo como sendo
“o grande ornamento da Galiléia.” Hoje, quem for àquele lugar poderá ver as
ruínas de um imenso anfiteatro romano cuja data de construção pode pertencer
à prim eira metade do século I. Se assim for, é m agnífico pensar que este
permanente monumento possa ter tido em seu erguimento as sagradas mãos do
carpinteiro Jesus de Nazaré.

3 —A Família de Jesus
Ao que nos consta, pelos registtos bíblicos, o Mestre nunca se casou. Ele veio à Terra
para fins específicos que não prescreviam o casamento. Mas os evangelhos falam-nos de
seus pais e de seus irmãos e irmãs (Marc. 3:32; 6:1-3 ; Mat. 12:46; 13:55-56 etc.). Quem
seriam estes irmãos e irmãs de Jesus? Três hipóteses são comumente levantadas pelos
teólogos a este respeito:

1) Segundo o parecer de São Jerônimo, os irmãos de Jesus seriam na


verdade seus primos, pois a palavra grega adelfos, pode significar um parente
(Gên. 29:12); próximo, (Mat. 5:22-24) um meio irmão (Mar. 6:17-18). Porém,
como bem nos lembra Fitzmeyer, o grego tem outra palavra para primo que é
anépsios , donde a conclusão de Jerônimo perde todo e qualquer sentido
argumentativo.4 Há casos, é verdade, em que a palavra adelfos pode possuir
uma conotação mais ampla do que apenas “irmão sangüíneo”. Paulo, por
exemplo, a usa no sentido de “pessoas da mesma religião” (Rom. 9:3) e em
Mateus ela aparece como sinônimo de “concidadão” ou “paüício” (Mat. 5:22-24).
Nestes casos, o contexto literário deverá ser analisado para se descobrir se o vocábulo
está ou não assumindo um significado mais amplo que o literal. Avaliando, por
exemplo, a peiícope de Mateus 13: 53-58, o leitor percebe que o comentário dos
nazarenos quanto à pessoa de Jesus é muito claro em referir-se a irmãos de sangue
e não amigos ou parentes distantes.
2) Um segundo parecer, mais sustentado por autores protestantes, sugere
que eram irmãos legítimos de Jesus e que Maria tivera outros filhos com José.
Contudo, não há nenhuma evidência, mesmo na tradição mais antiga que valide
esta pressuposição. Note que ao pé da Cruz estava Maria, já idosa, a quem Jesus
deixa aos cuidados de João (Jo. 19:25). Ora, se Maria já tivesse outros filhos não
haveria necessidade de Cristo entregá-la aos cuidados do discípulo amado que
parece tê-la levado para Éfeso e cuidado dela até seu falecimento.
3) Tomando em conta que Jesus era o filho primogênito de Maria e que
era sempre repreendido por seus irmãos, concluímos numa terceira hipótese
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

que: Jesus fora o primeiro filho de Maria, mas seus irmãos eram mais velhos
que ele. Como a poligamia já estava nesta época banida do costume judeu, esta
situação nos leva a crer que José era viúvo quando casou-se com Maria e que
estes irmãos e irmãs de Jesus seriam filhos de um casamento anterior.
O Vrotoevangelium Jacobi escrito no II século preserva uma tradição oral que
confirma o que acabamos de apresentar: José era um homem feito (por isso
com bem mais de 30 anos) e Maria uma jovem de 12 anos.5

Os irmãos de Jesus não o aceitaram, de imediato, como o Messias enviado de


Deus (Jo. 7:5). Pelo contrário, todos os relatos envolvendo encontros do Senhor
com seus familiares aparecem recheados de certa rejeição e incredulidade. Numa
ocasião, seus irmãos chegaram a sugerir-lhe que fosse àjudéia, mesmo cônscios de
que isto poderia significar a sua morte (Jo. 7:1-9). Doutra feita, quiseram prendê-lo,
reputando-o por louco diante da multidão (Mar. 3:21). E, por fim, o Jesus já não se
demonstrava ansioso para vê-los, preferindo antes a companhia dos seus próprios
discípulos (Mat. 12:46-50).
Contudo, algo curioso ocorreu. Segundo alguns indícios que envolvem a Bíblia,
a arqueologia e a tradição cristã posterior, parece que os irmãos e outros parentes de
Jesus, resolveram filiar-se ao seu movimento após a ressurreição. O livro de Atos 1:12-
14 menciona a mãe e os irmãos do Senhor entre os discípulos que ficaram firmes em
Jerusalém aguardando a vinda do Espírito Santo. Tiago, um dos irmãos citado pelo
nome, tornou-se firme colaborador e líder da Igreja que estava em Jerusalém (Gál. 1:19;
2:9 e Atos 12:17).6 Segundo a tradição, foi ele quem presidiu o Grande Concílio de 49
A.D. e ajudou a formular decretos de liberdade promulgados em favor das Igrejas da
Síria, Cicília e Antioquia.7 Além disso, segundo crêem alguns especialistas, foi esse
Tiago quem escreveu a famosa epistola que levou o seu nome. Finalmente,
testemunhando sua fé em Jesus como Messias, Tiago enfrentou, em 61 A.D., o martírio
por apedrejamento que foi conduzido pelo sumo-sacerdote Anano e outros líderes do
sinédrio. Judas, o autor da última epístola Universal, conforme se deduz pelo prólogo de
sua carta, também poderia ser outro irmão do Senhor que se converteu após a ressurreição.
Vários autores têm suposto que, com o passar dos anos e o constante avanço da
pregação apostólica, alguns dos parentes sangüíneos de Jesus pretenderam fazer de
Nazaré o centro administrativo da Igreja Cristã.8 Pistas históricas têm levado a crer
que ao mesmo tempo em que os apóstolos pregavam o evangelho em Jerusalém,
Samaria, Antioquia e Ásia, uma pequena comunidade judeu-cristã, formada sobretudo
por familiares de Cristo, firmou-se em Nazaré sobrevivendo até meados do III século.
Esta comunidade estaria separada administrativamente do grupo dos doze e, em princípio,
até em atrito com eles devido aos problemáticos assuntos da circuncisão e da pregação
aos gentios. Ao que tudo indica, a postura de Tiago apoiando o ministério gentílico não
agradou muito aos demais filhos de José. •
N azaré - A C id a d e O nde Je s u s F ô r a C r ia d o

A favor desta tradição temos dois antigos testemunhos, o primeiro de Julius Afncanus
(160-240 A.D.) que afirmava ser Nazaré o centro da atividade missionária judeu-cristã.9
O segundo vem-nos de um certo Conon, martirizado durante o reinado de Décio que
teria confessado perante a corte romana: “Eu sou de Nazaré [situada] na Galiléia, sou da
família de Cristo ao qual eu ofereço um culto desde a época de meus ancestrais.”10
Um ponto, porém, vulnerável destes testemunhos é o completo silêncio do Livro de
Atos a respeito de um centro missionário com sede em Nazaré. Todavia, também é
digno de nota que o autor canônico não pretendia escrever uma minuciosa história do
cristianismo primitivo. Há outras importantes tradições como a crucifixão de Pedro e a
decapitação de Paulo que também encontram-se totalmente ausentes no texto produzido
por Lucas. Nem por isso, porém, seriam menos dignas de confiabilidade histórica.
Há ainda uma outra evidência, desta vez vinda da arqueologia, que também parece
sustentar a historicidade da organização nazarena. Trata-se das descobertas do Dr. Bagatti,
que escavou abaixo de uma antiga Igreja Bizantina situada na moderna cidade de Nazaré.
Num estrato inferior da escavação, foram descobertos os alicerces de uma outra igreja do
TTTséculo, construída no mesmo formato de uma sinagoga judaica. A presença de símbolos
cristãos, como o peixe, certificaram que se tratava de uma estruturada comunidade cristã
judaica que viveu no local por volta do ano 200.11
Hoje, os restos desta “igreja-sinagoga” e da igreja bizantina posterior podem
ser vistos num sítio que se estende desde fora até dentro da moderna Igreja da
Anunciação. Alguns estudiosos ainda acreditam ser também ali o local da casa
onde morara Maria, mas quanto a isto faltam-nos elementos para uma confirmação
mais acurada.
Mas, como seria o dia-a-dia da época de Jesus? Como seus concidadãos se vestiam?
Sempre imaginamos Jesus pregando, curando, abençoando as multidões, mas, pouco
atentamos para as coisas simples do cotidiano que certamente fizeram parte de sua
vida. No próximo capítulo, tentaremos reproduzir com base em vestígios arqueológicos
e históricos um pouco da vida diária de Cristo.

Restos arqueológicos tradicionalmente


considerados como a antiga casa de José
em Nazçaré.
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

Questões Para Análise e Reflexão


• Como você acha que era o relacionamento entre Jesus e seus
irmãos? Jo. 7: 1-9; Mat. 12:46-50.
•Como Jesus era visto pelos seus conterrâneos de Nazaré?
Mat. 13:53-58; Luc. 4:16-30 e Marc. 6:1-6.

Enciclopédia de Conhecimento Bíblico

Escravos: A escravidão em Israel era um tanto diferente daquelapraticada


no brasil Colônia e Império. Eá havia três tipos de servos ou escravos: Os douloi, que
faliamparte dapropriedade e dafamília (seus donos tinham a obrigação de alimentá-los);
os paideis, que eram subordinados à classe anterior e, finalmente os misthioi,
trabalhadores assalariados e diaristas, não pertenciam à propriedade, chegavam pela
manhã e trabalhavam até ã noite quando recebiam sua féria do dia. Além desses
havia ainda escravos que eram prisioneiros de guerra oupessoas que contraíam altas
dívidas e por isso se tornavam servas das outras, mas o trabalhoforçado em Minas
era peculiaridade dos romanos.

R eferências:
1. Sobre as escavações e conseguintes conclusões desse arqueólogo, veja suas notas em: Bagatti, B.,
The Churchfrom the Circumcision, Jerusalém : Franciscan, 1971.
2. W ilkson, op. cit., p. 20 e M e Ray, op. cit., p. 158.
3. D izem os padrasto pelo fato de que Jesus teve màe hum ana, mas nào teve pai humano.
4. Fitizmeyer, J. A ., Catecismo Cristo/ógico, São Paulo: Ed. Loyola, 1999, p. 42.
5. A idade comum para uma jovem se casar era os doze anos. Para o rapaz, o ideal seria os 18 anos, embora
fosse comum o enlace m atrim onial em qualquer período entre os 16 e 22 anos. N este tempo é preciso que o rapaz
ajunte o necessário para abrigar e sustentar sua mulher, além de conseguir o dote que deveria ser pago ao pai da
pretendida. Cf. V.V.A.A. La Palestine an temps de Je'sus , op. cit., pp. 71 e 72. O texto do evangelho apócrifo de Jacó já
tem tradução ao português, e está em M oraldi, L. Evangelhos Apócrifos, São Paulo: Paulus, 1999, pp. 107 e 108. Cf.
tam bém Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, op. cit., pp. 15 —42.
6. Lem bre-se do testemunho já mencionado de Josefo sobre o M artírio de Tiago, o irm ão de Jesus Cristo.
7. Champin, R. N., op. cit., vol. V I, pp. 540 e 541.
8. Veja por exemplo: M urphy-O ’Connor, J., The Holy Land —Na Oxford Archeological Guidefrom Earliest Times
to 1700, N ew York: Oxford U niversity Press, 1998, p. 374.
9. Cf. Julius Africanus, “The Extant W ritings”in ANF, vol. V I, pp. 125 - 139.
10. Citado por M urphy-O ’Connor, J., op. cit., p. 374.
11. Bagatd, B., op. cit., pp. 12ss.
CAPÍTULO 10

t
A V id a D iá r ia N o s T e m po s D e
Jesu s C r is t o
este capítulo, estudaremos alguns aspectos do dia a dia de um cidadão
N comum dos tempos de Cristo. Sabendo como era o estilo de vida de um
judeu do primeiro século, teremos alguma bagagem para reconstruir mentalmente o próprio
cotidiano de Jesus durante seu ministério na Galiléia e depois Judéia. O que ele comia, que
língua falava, como se vestia são alguns dos elementos que nos interessarão nesta pesquisa.

1 —Que Língua Falava Jesus?


Há pelo menos quatro línguas que disputam o lugar do idioma materno usado por
Jesus no primeiro século. São elas: o grego, o latim, o hebraico e o aramaico. Analisando
por etapas, não há nenhuma evidência, por menor que seja, de que Cristo lia, falava ou,
muito menos, entendia o idioma latino. O fato da arqueologia de Israel ter descoberto
inscrições latinas em placas e monumentos do I século apenas evidencia a presença e
domínio romano na região; nunca um idioma conhecido da maioria. Aliás, é digno de
nota que os romanos não tinham o menor interesse em que os territórios dominados
falassem correntemente o latim. Ao contrário, este parecia ser para os dominadores uma
língua técnica e oficial dos cidadãos romanos —uma espécie de patente elitista. Além
disso, os intelectuais latinos em geral se davam muito bem com o grego e Roma não
parecia se importar com o fato de ser ela a dominadora política do mundo e a Grécia a
dominadora cultural. Prova disso é que os intelectuais gregos de então não se davam ao
trabalho de aprender latim e os romanos eram cordatos em escrever obras em grego
para atender aos reclamas do público de origem ou pensamento helenista.
O grego, por muito tempo foi interpretado por alguns autores como a língua
oficial de Israel, deixando aos idiomas semitas (hebraico e aramaico) um longínquo
segundo lugar.1 Contudo, a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, somada a outros
elementos que a seguir citaremos, faz-nos raciocinar no sentido não de abandono do
grego como língua falada e conhecida por Jesus, mas de idioma secundário do Mestre.
Quanto ao hebraico e o aramaico, a maioria dos autores pensa que este último seria
0 idioma mais utilizado por Cristo ficando o outro em uma esfera bem mais reduzida.2
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

Porém, admitimos que há um respeitável grupo de eruditos que crêem no contrário, ou


seja, que o hebraico era a língua materna de Cristo e o aramaico um idioma secundário.3
A favor da permanência do hebraico como língua falada em Israel no primeiro
século temos os seguintes elementos:

• A grande maioria dos Manuscritos de Qumran era escrita em Hebraico.


•E notório que, a despeito do hebraico ter quase desaparecido como
linguagem falada durante o cativeiro, houve um renascimento deste idioma a
partir de meados do II século a.C.. Com a revolta nacionalista dos macabeus
aconteceu um verdadeiro renascimento da literatura hebraica. Foram, então,
produzidos importantes livros como Tobias, Jubileus, Ben Sirac4 e outros
que testemunham o retorno do idioma pátrio como elemento integrante do
novo cenário judeu.
• Moedas judaicas cunhadas a partir do segundo Templo têm inscrições
hebraicas, o que mostra um reconhecim ento do idiom a por parte da
população em geral.
• Possivelmente os primeiros documentos cristãos (Q ou proto-evangelho
de Mateus) foram produzidos pelos cristãos em língua semita (hebraico ou
aramaico?) para um relativo número de leitores.
•Paulo em seu discurso de defesa, o faz em hebraico e nenhum judeu
presente necessitou de tradutor para entender o que ele dizia (Atos 22: 2).
•Josefo inicia e termina sua obra Antiguidades justificando aos leitores
sua dificuldade com o Grego, o que mostra que esta não era sua língua pátria.

Ao nosso ver, contudo, estes argumentos só justificam imaginar que o hebraico


:ra língua falada no tempo de Jesus, mas não que fosse a língua mais utilizada no dia
i dia. Note que em todos os exemplos exceto um, o hebraico aparece como discurso
Dolítico ou, na maioria das vezes, religioso. Isto nos faz pensar que o hebraico fora
;ustentado no tempo de Cristo como uma língua formal usada em liturgias ou
leclarações solenes (como o latim no catolicismo anterior ao Concílio Vaticano II).
Contra a idéia de um hebraico fluentemente falado todos os dias, temos a alusão
lo trabalho dos Massoretas que tiveram de pontoar a língua, pois do contrário esta
>erderia a sua pronúncia na memória do povo. No caso mencionado de Paulo em
Vtos, seria redundante a declaração do autor de que ele se dirigira aos judeus em
íebraico caso este fosse o seu idioma normal. Recentes pesquisas mostram que na
egião da Galiléia (onde Jesus passou a maior parte de sua vida) o idioma mais comum
:ra o aramaico, sobrepondo-se até ao grego.5
Uma outra forma de se resolver o enigma do idioma falado por Jesus vem-nos
ia tese de F. Merx sobre o evangelho de Lúcas.6 Discorrendo sobre o possível estilo
r A V id a D iá r ia N o s T em pos d e Je su s C r is t o

rabínico de Jesus, ele observava que no Talmude palestinense, são encontradas algumas
vezes uma forma de linguagem que ele chama de Mischsprache , ou seja, frases escritas
com uma metade em hebriaco e a outra em aramaico. Segundo as conclusões do
autor, essa língua artificial' comum ao leitor do Talmude, poderia muito bem estar em
circulação durante a primeira metade do século I. Logo, Jesus pode tê-la utilizado. Mesmo M.
Black, o grande defensor do aramaico como a língua falada por Jesus, deixa espaço
para a possibilidade de que Jesus usasse no dia-a-dia uma espécie de dialeto galileu-
aramaico, deixando para os discursos públicos o uso completo do aramaico clássico.
Dentre as várias sugestões anotadas, pelo que vemos nos evangelhos, é nosso
entendimento que, nas suas conversas diárias, Jesus utilizava-se, na maior parte do
tempo, da língua aramaica como se pode ver em Marc. 5:14, 34, 41; 7:34; 15:34 etc.
Quando intentava um discurso de caráter mais teológico ou mesmo uma denúncia da
apostasia dos fariseus, ele se posicionava em hebraico, indicando que o que deveria
dizer era uma solene verdade pois , para isto, apelara para o idioma sagrado. No caso
da sinagoga, o costume era ler a Torah em hebraico e depois fazer uma paráfrase
(Targuni) em aramaico, talvez porque não era pequeno o número daqueles destituídos
de familiaridade com o idioma hebreu. Noutras vezes, porém, como em João 12:20-
36, ele utilizou-se do grego para atender alguns judeus helenistas (ou prosélicos) que
vinham a Jerusalém por ocasião da Páscoa.

2-As Roupas da Época

Tanto a arqueologia quanto algumas citações das Escrituras nos oferecem algumas
boas pistas sobre como eram as vestimentas comumente usadas pelo povo de Israel
nos tempos do Novo Testamento.
Em Mateus 5:40, há uma referência às duas principais peças de um típico vestuário
masculino. As túnicas (C halouk ou K etoneth) eram, em modelo, um tanto
semelhantes às togas de juizes e formandos universitários (evidentemente sem aquele
aparato de babados e outros detalhes). A maioria era de mangas compridas chegando
até aos pulsos. Iam dos ombros até cerca de um palmo abaixo do joelho e não mais do
que isso. Somente rabinos, sacerdotes ou anciãos de certo respeito tinham vestes
talares cobrindo os pés. No apocalipse, esse detalhe das vestes de Cristo glorificado é
apontado por João para mostrar a posição respeitosa que o Mestre agora ocupa como
sacerdote no santuário celestial (Apoc. 1:13).
A maioria das vestimentas era cortada e costurada grosseiramente com agulhas
do tamanho daquelas de crochê. Os pontos, portanto, ficavam como aqueles que
geralmente vemos em sacos de linhagem costurados à mão. Mas também havia túnicas
mais caras feitas de modo inteiriço em teares a partir de lã ou de linho fino. Foi uma
túnica desta que Jesus usava por ocasião de sua m orte e que os soldados
disputaram num jogo a fim de que não fosse rasgada. Talvez se tratasse de um presente
Um D e sco n h e cid o G a lile ii

ofertado por algum dos pouquíssimos admiradores quejesus tinha entre os mais abastados
(poderia ser Lázaro, Nicodemos ou José de Arimatéia, o doador do presente).
Havia, nalguns casos, um outro m odelo de túnica ( m eii) sobreposta
externamente àquela anterior e que funcionava como um sobretudo ou paletó
Poderia ser aberta na frente (imitando um casaco moderno) ou inteiriça, mas com
mangas e cumprimento um tanto mais curtos que a túnica de baixo. Era usada mais
na época do frio ou, como as vestes talares, por anciãos, sacerdotes e rabinos do
povo.
Junto da túnica, levava-se ainda a capa (simlah ou talitlj) que era um forro parecido
com um cobertor pequeno que as pessoas usavam nas costas em substituição aos
turbantes que eram mais usados pela classe dos ricos. Alguns autores pensam que se
tratava de uma peça indispensável para se aproximar do Templo ou entrar numa
sinagoga. Outros, no entanto, afirmam que este costume litúrgico de cobrir a cabeça
em sinal de reverência fora praticado apenas a partir do IV século d.C..9 Seja como
for, a capa era uma peça tão importante que podia ser usada como sinal de penhora no
pedido de algum empréstimo (Luc. 6:29).
Quando era esta a situação, a lei exigia que um credor que tivesse por garantia
de débito a capa de um devedor, deveria entregar-lhe esta antes do escurecer
(Ex. 22:26 e Deut. 24:12) pois, em muitos casos, ela poderia servir de cobertor,
colchão (se a pessoa dormisse ao relento), capuz10 e até como tapete para dar as
boas vindas a um soberano muito importante. Isso nos lembra a atitude dos
jerusalemitas na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém cinco dias antes de ser
crucificado (Mat. 21:11).
A cor das túnicas era geralmente branca. Só os casacos que ficavam por cima
costumavam ter cores variadas (às vezes listradas), principalmente se fossem usadas
para algum rito cerimonial. Como cinto, geralmente havia um outro tecido enrolado
em volta da cintura firmando a roupa por sobre o corpo. Havia vários tipos que iam
desde o couro e a corda até ao metal e o ouro. O tipo de cinto usado eram um
indicativo da posição social do indivíduo.
Profetas itinerantes e eremitas, nalguns casos, para proclamar a apostasia do
povo ou anunciar quem eles eram, costumavam usar uma peça única geralmente sem
capa ao estilo das que usou João Batista. Eram feitas de pelo de camelo tecido e na
cintura traziam uma tira de couro. Para os demais que não se enquadravam na descrição
de peregrinos era comum usarem capas e tornozeleiras de couro durante uma longa
viagem principalmente para terras mais frias que Israel.
Quanto às peças íntimas, ao que tudo indica, somente os sacerdotes usavam algo
que possa ser análogo às atuais cuecas masculinas. Tratava-se de um pequeno short,
mais parecido a uma fralda, e que usavam por debaixo da estola. Os cidadãos leigos
não costumavam usar este tipo de acessório.
A V id a D iá r ia N o s T em p os d e Je su s C r is t o

Quanto às mulheres é difícil dar uma definição exata uma vez que as mesmas
palavras capa, túnica, cinto, são indistintamente usadas para referir-se às vestes
masculinas e femininas (veja Deut. 22:4). A diferença parece em princípio limitar-
se à coloração (que nas roupas femininas era mais variada e notória com cores
fortes e extravagantes), ao comprimento (ia comumente até os pés) e aos adornos
externos que os hom ens geralm ente não usavam . O uso abundante de
maquilagem, por exemplo, era um desses adornos. Havia desde o batom até o
esmalte e lápis para os olhos.
Segundo o tratado judaico do Shabbath, as mulheres possuíam fitas de lã e seda
nos cabelos, além de arcos, presilhas e pentes feitos de marfim, madeira, casco de
tartaruga e couro enfeitado de pedras preciosas. Os cabelos eram a parte mais sensual
para a mulher da época, de modo que era costume daquelas mais influenciadas pela
moda grega tingir os cabelos ou uma mexa deles, às vezes de preto, ou mais
freqüentemente de ruivo e loiro (principalmente as que já tinham algum tom grisalho).
Algumas jovens mandavam encaracolar a cabeleira aplicando grande quantidade de
óleo e perfume. Xales eram comumente amarrados nos ombros e havia abundância
de anéis, braceletes, argolas presas no nariz e brincos, embora pareça-nos que as igrejas
cristãs em seus primórdios baniu este costume entre as mulheres que se convertiam
ao cristianismo (veja I Tim. 2:9 e 10 e I Ped. 3:3 e 4).
Justamente pela sensualidade mencionada logo acima, as mulheres judias mais
piedosas costumavam cobrir os cabelos (mas não o rosto) com um véu ou uma manta.
As prostitutas, por sua vez, quando punidas tinham seu cabelo tosquiado nalgumas
regiões, enquanto noutras mais liberais como Cesaréia Marítima, mantinham-nos soltos
numa quase infinita variedade de penteados (às vezes até usando mexas falsas ou
perucas) ostentando tão somente na testa, uma tiara grafada com seu nome no
prostíbulo (Apoc. 17:5).
Uma última palavra sobre vestuário vem do solene costume de se ter vestes
próprias para ocasiões especiais. Jesus certa vez contou de um homem colocado
para fora de um casamento porque não estava vestido com as roupas normais
para uma festa de núpcias (Luc. 22:11-13). Jesus, é claro, também tinha vestes
especiais que usava para ir a um casamento (como o de Caná) ou a um almoço em
casa de algum fariseu. Mas o guarda-roupa não deveria ser extenso. A necessidade
se limitava a uma ou duas roupas para o dia a dia, uma para festas civis e mais
outra para festas religiosas. Além disso, havia o ambiente do luto e da lamentação
—ocasiões que também exigiam uma vestimenta adequada geralmente feita de
pelos de cabra. O nome desse tecido grosseiro era “pano de saco” ou “cilício”,
devido ao fato de ser usado para fazer sacas (Gên. 42:25; Lev. 11:32; Isa. 50:3 e
Apoc. 6:12). Nalgumas raras ocasiões de exagerado frio, usava-se o pano de saco
no lugar da túnica externa.
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

Desenho de vários modelos de roupa usados nos dias de Cristo.


A V id a D iá r ia N o s T em pos d e Je su s C r is t o

3 —A Alimentação
O primeiro detalhe que nos chama a atenção no cardápio judeu do I século era
a forte idéia contra o desperdício. Por outro lado, porém, eles também se irritavam
contra a aparência de restrição ou as pessoas que demonstravam atitude sovina . Entre
os semitas, a fama de bons hospedeiros era tremendamente divulgada e eles pareciam
ter orgulho desse reconhecimento. O servo de Abraão que nunca tinha visto Rebeca
anteriormente reconheceu na sua hospitalidade que ela seria parenta de seu senhor
(Gên. 24:15-51). Um pouco antes disso Abraão e Ló foram abençoados por anjos
devido à sua hospitalidade para com os desconhecidos “forasteiros”(Gên. 19:1).
No Novo Testamento, Jesus pede (ou ordena?) com assustadora naturalidade
que o desconhecido Zaqueu desça, porque ele haveria de comer em sua casa naquele
dia (Luc. 19:1-10). Doutra feita, irritou-se com Simão porque este não demonstrou-
lhe todas as gentilezas que deveria ter para com um visitante. Dentro desse mesmo
tema, o Mestre conta ainda uma história que, injustamente, foi intitulada “a parábola
do amigo importuno” (Luc. 11:5-8) —um nome deveras impróprio para a cultura da
época. O tom semítico da alegoria era a retórica irônica (qual dentre vós), ou seja,
é óbvio que ninguém do auditório teria coragem de negar pão a um vizinho que está
com falta em sua casa para atender a um forasteiro que chegou muito tarde. Em suma,
a idéia semita está exposta por Pedro nas palavras: “sede, mutuamente, hospitaleiros,
sem murmuração.”(I Pe. 4:9)
Não obstante o dever religioso de ser bom para com os forasteiros, como já
dissemos, nenhum hebreu apreciava o desperdício de comida. Entendiam o alimento
como uma dádiva do céu (idéia originada com a história do Maná no deserto) e por isso
mesmo ele era sagrado não podendo ser lançado fora. Havia, portanto, uma regra ainda
conservada em algumas regiões do oriente médio: o hospedeiro providenciava a carne e
o pão dependendo do número de visitas que haveria de receber (esse número se obtinha
pelo convite prévio). Em caso de visitas inesperadas havia sempre azeite e farinha em
botijas para uma situação de emergência.11 Então o anfitrião manda preparar o cardápio
mais ou menos nesta proporção: uma galinha ou duas para 2-4 hóspedes, um pato12
para 5 ou 8 pessoas, um cabrito para 10-15, uma ovelha para 15-35 ou ainda um bezerro
para 25 a 75 convidados e assim sucessivamente.
As refeições judaicas em geral eram feitas ao ar livre, no terraço das casas.
A não ser, é claro, que fosse inverno, quando a família era quase confinada à casa.
Enquanto os romanos costumavam ter quatro refeições ao dia, os judeus restringiam-
se a duas ceias, uma preferencialmente bem cedo ou perto do meio dia e outra à noite.
Não havia um horário rígido. Como diz o tratado do Berakotb. “você deve comer
quando tiver fome e beber quando tiver sede”. Porém, os poucos que comiam ao meio
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

dia recebiam as críticas dos rabinos que diziam “comer meio dia é lançar uma
pedra dentro de um frasco de vinho” e “se você comeu bem pela manhã, sessenta
bons corredores não serão capazes de alcança-lo”. Uma exceção, todavia, se fazia
durante o sábado quando, pela interrupção do trabalho, permitia-se à família comer
junta ao meio dia, quando haviam voltado da sinagoga ou do Templo.
Ninguém comia em pé. “Comer ou beber em pé transtorna todo o corpo do
homem” —dizia outra provérbio rabínico. Por isso a expressão bíblica “assentaram-
se pois e comeram juntos” Jz 19:5. Nem os mais conservadores judeus se sentiam
chocados, neste ponto, de copiar o costume grego de comer estendido sobre
pequenos divãs ou tablados quase rentes ao chão tendo ao centro a refeição
comunitária. Um costume, por exemplo, que nos esclarece dois aspectos da última
ceia de Cristo é o fato de os convivas usarem pedaços de pão como talheres que
eram embebidos numa mesma tigela cheia de vinho. O recipiente único ficava
posto ao centro do tablado ou tapete usado para este fim e todos, à media que iam
comendo, cortavam com a mão um pedaço de pão, embebiam-no no vinho e
depois levavam-no até à boca. Por isso Jesus anunciou que o traidor seria o que
punha consigo a mão no prato. Outro detalhe explicado por este contexto é o fato
de João ser descrito como aquele que reclinava-se sobre o peito de Jesus - o que
ficaria sem sentido se eles estivessem todos assentados como figuram nas pinturas
clássicas da última ceia.

Uma típica refeição, rios dias de Jesus.


A V ida D iá r ia N o s T em pos d e Je su s C r is t o

Como regras de etiqueta, o Eclesiástico de Ben Sirach (31:12) nos dá alguns


indícios sobre o que seria ou não educado fazer quando estivesse diante de uma refeição.
Se alguém fosse convidado a comer não deveria demonstrar nenhum grau de ansiedade
ao se colocar a comida à sua frente. Comentários do tipo “o cheiro está muito bom”
ou “o alimento parece apetitoso” ofendiam ao anfitrião. Se por um constrangimento
a pessoa fosse forçada a comer mais do que aguentava, não havia problema em
sair e provocar o vômito da comida ingerida. Nunca a pessoa deveria pedir nada,
deveria esperar ser servido. E, por último, e talvez mais chocante à nossa cultura,
o arroto após um almoço era sinal de uma boa apreciação, agradável aos ouvidos
do anfitrião e da cozinheira.
Por fim, temos o cardápio judaico constituído principalmente de frutas e legumes.
A carne assada ou cozida era reservada para os dias de festas. Uma exceção, contudo,
se dava com o peixe e a galinha que por serem fartos na região eram baratos e podiam
suprir a mesa mais vezes durante a semana. Como não conheciam o açúcar da cana,
uvas passas, tâmaras, figo e mel faziam as vezes de adoçantes para o tempero de pães
e bolos, ou, ainda, para servir de acompanhantes de um ensopado de peixe ou lentilhas.

4 - 0 Estilo das Casas


Um estudo sobre a arquitetura de qualquer época ou local deve sempre levar em
conta a distinção de pelo menos três tipos de construção: prédios públicos
(o que inclui o palácio real), mansões (ricos) e casebres (pobres). Jesus, é evidente,
estaria neste último setor, mas vamos tentar descrever ambas as classes rica e pobre
para ter uma comparação por contraste entre o estilo de vida de uns e de outros.
As habitações mais simples quase não aparecem nos achados arqueológicos,
porque, uma vez que eram feitas com material mais vulnerável que as mansões
abastadas, se deterioraram com facilidade. Mas, pela reconstrução artística de alguns
achados, podemos traçar alguma descrição comparativa entre casas ricas e pobres no
Oriente do I século:

•Material: a maioria das habitações era de tijolos feitos de uma mistura


de barro e palha e postos para secar ao sol. Mas, nalgumas comarcas também
se construía com pedras, dependendo da abundância no lugar. O cimento era
feito a partir do pó de pedra ou de barro a fim de colar um bloco no outro
perfazendo uma parede externa.
•Telhado: Em sua maioria eram planos, mas há constatações de alguns
telhados em vértice. Alguns mais sofisticados eram cobertos com telha,
mas a maioria pobre só podia fazer telhados de palha ou folhas de palmeira
entrelaçadas.
Um D e s c o n h e c id o G a l i l e u

"Móveis: Somente os ricos dispunham de uma cama armada ou feita de


pedra. Os de baixa renda dormiam sobre o chão que era forrado com peles de
animais ou com sua própria capa que era usada para este fim. Era comum as
pessoas dormirem com a mesma roupa que usaram durante o dia. Outros
utensílios geralmente postos no chão ou pendurados no teto eram panelas,
baús e instrumentos de trabalho.
"Banheiro: As casas pobres não dispunham de toalete interno.
Para suas necessidades fisiológicas usavam vasos de barro destinados a este fim
ou algum lugar discreto nos fundos do quintal. As fezes eram enterradas em
um local próprio a fim de não contaminar o terreno do plantio ou alguma fonte
de água que estivesse próxima. Os banhos eram tomados em lagos, rios ou
fontes d’água. Os ricos, no entanto, tinham a comodidade de possuir amplos
banheiros dentro de sua própria casa. Além disso, cidades maiores como Séforis,
Jerusalém ou Efeso, dispunham de banheiros públicos onde as pessoas,
além de usarem as latrinas, podiam ainda tomar o seu banho geralmente semanal.
•Janelas: como os setores mais pobres da cidade dispunham de pouca ou
nenhuma vigilância militar, era freqüente o número de invasões e roubos
a domicílio. Isto fazia com que muitas casas tivessem pouquíssimas janelas e,
geralmente, nunca voltadas para a rua.
0 Cômodos: As casas eram geralmente baixas, contando normalmente com
um piso. Mas não era incomum encontrar residências de dois andares, separados
um do outro por uma plataforma de galhos cruzados sobre vigas, esboçados
com barro e apoiados por um madeirame fino. Nestes casos o andar superior
era dedicado aos dormitórios às vezes separados por cortinas ou pelo quarto
de hóspedes (cômodo indispensável numa residência semita). Se se tratasse de
um único piso, este possuía geralmente três ambientes: um alpendre (que podia
ser interno ou externo), uma sala central e os dormitórios. A comida, como já
mencionamos, era geralmente feita e degustada fora de casa ou numa varanda
em cima do telhado. Porém, em dias de frio ou chuva a sala central poderia
servir de copa e cozinha, onde se preparava e se consumia o alimento.
•Apartamentos: nalgumas cidades maiores foram encontradas casas
comuns contendo até 26 blocos de apartamentos. O que nos leva a pensar que
já existia na época o pleno funcionamento de um sistema de locação habitacional.
Famílias que migravam para grandes centros e não tinham casas ali, alugavam
um cômodo desses prédios geralmente distribuídos em dois pisos; o de cima
para residências e o debaixo para lojas, tabernas e estábulos. Talvez quando foi
morar em Cafarnaum, Jesus alugou um desses cômodos para sua habitação na
cidade (depois, ao que tudo indica-ficou morando em casa de Simão Pedro).
A V id a D iá r ia N o s T em pos d e Je su s C r is t o

“Chão: o piso geralmente consistia de terra batida. Nas casas mais


suntuosas havia um assoalho de madeira ou de pedra finamente acabado.

Uma casa típica dos dias de Cristo.

5 —0 Tempo
Nos dias de Jesus, estava em voga a contagem do ano lunar de 354 dias e não o
ano solar de 365 dias que convencionalmente usamos em nosso tempo. Esta é uma
das diferenças que obrigam os livros de história e cronologia apresentarem datas
aproximadas como por exemplo 6/7 A.D., ou 30/31 A.D.
Para os judeus, o ano lunar cumpria uma exigência cerimonial importante.
Segundo o midrash do U vro dos Jubileus, Deus ordenou aos homens após o dilúvio
que “observassem um ano de 354 dias” e continuou dizendo o infortúnio que sobre
eles viria por terem se esquecido desta prática. Mas isso era um apelativo do autor
apócrifo para fazer frente ao ano solar Egípcio que era tido em homenagem ao
Deus Ra.13
Tendo a lua como referencial imediato, os judeus chamaram os meses de rodeshim, que
literalmente significa “lunações”. Por também serem períodos lunares, os meses possuíam 29
dias. A diferença final era suprida pelo periódico mês extra de Bheadar ou Segundo síd a r
que existia em função do acúmulo de dias que causava um atraso do ano lunar em
relação ao ano solar. Este período extraordinário ocorria cerca de sete vezes a cada 19
anos. De forma fixa, portanto, havia apenas 12 meses envolvendo dois anos concorrentes:
0 ano religioso que começava na primavera e o ano civil que começava no outono.
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

De modo geral, cada mês recebia um nome oriundo de uma divindade cananéia.
Por isso os judeus foram durante muito tempo reticentes em dar nomes aos meses
pelo que encontramos comumente referências numerais aos meses do ano
(Ex. Crônicas e Ezequiel). No entanto, o receio foi perdido com o tempo e eles usavam
a denominação corrente sem se preocupar com o significado envolvido. Como nós
hoje, que chamamos o terceiro mês de “março” sem nos importarmos que ele indique
o nome do deus da Guerra. De modo, pois, sucessivo, temos:

Nome do Mês14 Correspondente Estação/Tempo Agricultura


Abib ou M san - março - abril Primavera Colheita da
marcam o início do (equinócio) - cevada e
calendário religioso tempo ventilado, crescimento do
e começa com o queda das últimas trigo.
surgimento da lua chuvas, a neve
nova. dos montes
derrete, o Jordão
transborda.
Zife ou Iyyar abril - maio Verão - começo O trigo
da estação seca, amadurece e
com céu sem começa o plantio
nuvens e dos primeiros
raríssimas figos.
pancadas de
chuva.
Temperatura
elevadíssima.
Sivan maio - junho Verão - aumento Começa a
da temperatura e colheita do trigo,
início do pen­ amêndoas e as
tecostes (dia 6). uvas e azeitonas
começam
amadurecer:
Tammuz junho - julho O Verão atinge Início da colheita
seu calor máximo de várias frutas e
grãos nas
montanhas.
Ab julho - agosto Ainda verão - Colheita de
ventos quentes. castanhas,
azeitonas e
vindima.
A V id a D iá r ia N o s T em p os d e Je su s C r is t o

Elul agosto - setembro O verão continua Colheita do milho,


quente. algodão, as romãs
amadurecem e
acontecem as
últimas vindimas.
Ethanim ou Tisri - setembro - outubro Fim do verão e Terminam as
marcam o início do início do outono - colheitas.
ano civil. começam as
primeiras chuvas.
No dia 10 realiza-se
o Yom Kipput
Bul ou Marheshvan outubro - novembro Os agricultores
Outono - tempo
ou ainda Heshvan começam a arar a
ventilado em várias
direções grande
terra e semear
assim que iniciam
volume de chuva.
as chuvas - só o
algodão é colhido
neste tempo
Quisleu ou Quislev. novembro - dezembro Começa o invemo- Árvores ficam
acumula-se neve sem folhas, o
nos montes. deserto muda sua
paisagem
Tebeth dezembro - janeiro Meio inverno - é o Os rebanhos
período mais fido descem das
Ocasionalmente montanhas para
chega a nevar em os vales. As
Jerusalém. laranjas começam
a amadurecer Os
vales se tomam
mais verdejantes.
Shebat janeiro - fevereiro Fim do invemo - Amêndoas e
começa a tendência pêssegos
para o calor começam a surgir
em regiões mais
quentes.
Adar março - abril Primavera com Nos vales o
resíduos de invemo cultivo chega ao
fim, amadurece a
cevada e alguns
rebanhos já
começam a voltar
para as
montanhas.
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

A semana era fixa de sete dias como a nossa e somente o sábado possuía um nome
próprio, os demais dias eram denominados de modo ordinal: primeiro dia da semana,
segundo dia da semana, etc. E quanto às horas? Bem, estas eram relativamente novas em
Israel. Somente nos dias de Cristo os judeus começaram a considerar a divisão do dia
em doze horas.'3 Mas, ainda assim, estas não equivaliam à nossa hora de 60 minutos.
Oriundas do mesmo sistema implantado por Roma em toda as regiões do império, elas
eram marcadas com a ajuda da lua, dos fenômenos naturais e (no caso dos judeus) das
observâncias religiosas.
Segundo este sistema horário, o período claro do dia era dividido em 24 partes iguais
e cada uma das 12 horas equivalia a 1/24 do período diurno(11:9). Mas, supondo que no
solstício de inverno fosse menor a duração da presença do sol na abóbada celeste, a hora
diurna equivalia a menos de 45 minutos da nossa contagem de tempo.
A hora noturna já era mais fixa e durava em média 1 hora e 45 minutos do nosso
relógio moderno (Mt.26:40). Mas, as mais consideradas eram as “vigílias da noite”, cada
uma das quais possuía em média três ou quatro horas fixas. Quanto à subdivisão em
minutos e segundos, embora matemáticos caldeus e egípcios já as conhecessem desde os
dias de Abraão, o povo simples não parecia dar-lhes crédito. Isto acarretava uma falta de
precisão àquela rotina se comparada à nossa estrutura de vida. Não havia algo como uma
mania britânica pela pontualidade. Muito menos tempo marcado para partida ou chegada
de navios. Caravanas saíam de viagem preferencialmente pela manhãzinha, mas sem nenhum
compromisso de horários fixos. Só o dia era marcado nos negócios, não a hora.
Contrariamente ao nosso século, as pessoas não se desesperavam na escravidão da
pressa. Tudo era bem mais vagaroso que em nosso tempo e as pessoas comuns se limitavam
a trabalhar artesanalmente num só ofício, comer, dormir, praticar a religião e, em raros
casos, estudar na escola rabínica. Não havia o acúmulo de afazeres que dispomos hoje e as
grandes metrópoles não superavam a metade de muitas de nossas cidades interioranas.
Vejamos, por fim, um esquema aproximado das horas do dia (lembrando que o
período diurno variava de acordo com a duração da noite em relação à manhã e tarde):16

Hora moderna aproximada: Hora em Israel no I Séc. Elemento natural ou


religiosa
18:00 Primeira vigília. Pôr-do-sol - o início do
novo dia, comumente
recebido com orações e a
repetição do Shemá Israel.
22:00 Segunda vigília. Segundo o Talmude é o
tempo em que os cães
latem e os lobos uivam
Ninguém, a não ser vigas,
deveria estar fora de seu
leito de sona
A V id a D iá r ia N o s T em pos d e Je su s C r is t o

24:00 A chamada meia-noite. Idem.

2:00 Terceira vigflia. Segundo o Talmude é o


tempo em que galo canta a
primeira e a segunda vez.
6:00 Primeira hora. Alvorecer: Três toques de
trombeta e realização do
primeiro sacrifício
matinal.17
9:00 Terceira hora. ?

12:00 Sexta hora. Primeira nznqa. (oração)

13:00 Sétima hora. Segunda rnnqa. (oração)

15:00 Nona hora. Sacrifício da tarde no altar


noroeste. Nove toques de
trombeta.
18:00 Pôr-do-Sol. Entrada do novo dia. Na
véspera do Sábado havia
seis toques de trombeta,
hoje uma cirene no muro
das lamentações realiza
este serviço.

Além dos aspectos comuns do cotidiano, o judeu do primeiro século convivia


com elementos de ordem civil, social e religiosa que também merecem ser descritos.
Por isso, deteremo-nos, a seguir; nalguns importantes itens sociais da época de Cristo,
a saber: o casamento, a economia, os impostos etc.

Questões Para Análise e Reflexão


°A que horas aproximadamente Jesus morreu segundo a nossa
contagem? Mat. 27:45.
0 Que ligação você encontra entre a morte deJesus e o serviço normalmente
feito naquela mesma hora no Templo de Jerusalém? Mat 27:51.
“Jesus tinha uma veste cara que foi disputada pelos soldados.
Na sua opinião, o mestre andava bem vestido? Seria vaidade querer possuir
uma roupa de marca?
U m D e sc o n h e c id o G a l il e u

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Lutero estava tão convencido da superioridade da Bíblia em relação ao Alcorão
dos muçulmanos que em 1541 concordou com uma tradução latina do referido livro e
ainda escreveu em seuprefácio: “Esta tradução servirápara aglória de Deus, para o bem
dos cristãos, prejuízo dos turcos e irritação do demônio”.

Referências:
1. Veja por exemplo: Taylor, R. O. P., “D id Jesus Speak A ram aic?” in Expository Tim s 56 (1944-1945),
pp. 95-97. Aqui o autor defende que o grego era a língua mais falada pelos judeus do I século. Se Jesus falasse
aramaico era apenas em situações mais íntimas, como os descendentes de japoneses que trabalham no bairro da
Liberdade em Sào Paulo.
2. O grande clássico defensor do aramaico como língua mais usada por Cristo é a obra de Black, M.,
An Aramaic Approach to the Gospe/s, Oxford: Clarendon Press, 1946, 1946. Em seguida temos uma antologia de
textos defendendo o mesmo ponto, coletada por Ftzmeyer, J. A., A Wandering Aramean. Collected Aramaic Essays,
M issoula: Scholars, 1979. Em forma de um manual mais popular temos a obra de Bernard-M arie, La Langne de
Jésns—Faraméen dans le Nouveau Testament, Paris, Pierre Téqui éditeur, 1993.
3. Em bora não argumente muito a este respeito, Golb sustenta esta idéia a partir do ponto de que a maioria
dos manuscritos do m ar m orto é escrita em hebraico, de modo que se torna estranho imaginá-lo como algo
menos que um idiom a principal da população. Golb, ,N., Qtiem Escreveu os manuscritos do Mar Morto? [Col. Bereshit]
Rio de Janeiro: Im ago, 1996, p. 450. Veja também: Rabinowitz, I., ilEphatha (Mark. VII. 34): Certainly Hebrew, not
Aram aic”in Journal o f Semitic Studies 16 (1971), pp. 151-156.
4. Até ao século XIX havia quase um consenso de que estes três livros tivessem sido originalmente escritos
em grego. Porém, achados arqueológicos do século X X têm dem onstrado o contrário. Fragmentos aramaicos e
hebraicos destas três obras têm sido encontrados tanto em Qumran quanto em recamaras de antigas sinagogas
situadas no Egito.
5. Barrera, J. T., A Bíblia Judaica e a Bíblia Crista, Petrópolis, Vozes, 1996, p. 87.
6. M erx, F., Die vier kanoniscben Evangelien, Lukas, p. 418. D esta tese só tive acesso a uma fotocópia parcial
que havia nos arquivos do Instituto Ratisbbonne em Paris.
7. Black, M ., op. cit., p. 14.
8. Cf. Daniel-Rops, op. cit., pp. 140-141; Cham plin, N. R., op. cit.,vo. V I, pp. 755-757; Grundry, R. H., op.
cit., p. 29; Bouquet, A. C., Everyday Life in New Testament Times, N ew York, Scribner’s, 1953, pp. 160ss.
9. Todos conhecem o costume judaico de cobrir a cabeça em sinal de respeito à presença de Deus. Devemos,
contudo, adm itir que o conselho paulino de I Cor. 11:4 vai numa direção contrária a esta prática. Ali, o apóstolo
diz que o hom em nào deve cobrir a cabeça durante o culto ou oração pública pois isso lhe seria vergonhoso. Por
isso, é difícil saber se os judeus já empregavam naquele tempo o atual costume de usar chapéu (kippai) em reverência
ao im pronunciável nom e de Deus. De fato, o respeitadíssimo comentário de Strack e Billerbeck, afirm a que esta é
uma tradição posterior ao IV século de nossa era. Strack e Billerbeck BILLERBECK , P e Strack, H. L., Kommentar
%nmNT ans Talmud nnd Midrascb —Das Evangelium nacb Markns, Lukas nndJohannes nndi die Apostelgescbicbte erlautert aus
TalmudnndMidrascb, M ünchen, C.H. Becksche Verlagsbuchhandlund O skcar Beck, 1924, vol. I ll, pp. 423-426. Por
outro lado, porém , há exegetas, que questionam a autoria paulina da perícope de I Coríntios 11:2-16 argum entando
que ela possui indícios de ser uma interpolação posterior que nada tem a ver com o costume judeu do primeiro
século. E o caso dos trabalhos críticos de L. Cope, G. W. Trom pf e W O. W alker Jr. que foram posteriormente
questionados sistem aticam ente por J. M urphy-O ’Connor. Cf. Walker Jr., W O., “I Corinthians 11:2-16 and Paul’s
views regarding women” in Journal o f BiblicalLiterature 94 (1975) pp. 94 -100; Cope, L., “I Cor 11:2-6 one step further” in
Journal o f Biblical Literature 97 (1978), pp. 435-436; Trompf, G. W , “On attitudes toward women in Paul and Paulinist
literature” in Catholic biblical Onarter/)', 42 (1980), pp. 196-215 e Murphy-O’Connor, J., “The non-Pauline character o f
1 Cortinthians, 11, 2-16” in Journal o f Biblical Literature 95 (1976), pp. 615-621. No I séc. a. C., Virgílio narra a
A V id a D iá r ia N os Tem po s de Je s u s C r ist o

fundação de Roma e parece m encionar um costume romano de cobrir a cabeça durante as orações aos deuses, ele
diz: “N ossas cabeças estão sempre cobertas por um manto quando estamos diante do altar de oferendas aos
deuses” (Eneida III, 545).
10. Por isso talvez os discípulos a caminho de Emaús não reconheceram a Cristo. A s pessoas usavam
capuz nas estradas por causa da poeira e, no período noturno, por causa do frio do deserto.
11. Outra forma de atender ao visitante dando-lhe pão era retirando alguns da fornada da semana, pois não
era costume do camponês do oriente médio fazer pão todos os dias (devido à carência de madeira para o forno). Eles
assavam (às vezes num forno comunitário) pão e bolo para a semana toda e então os guardavam em cestas especiais
que os mantinham frescos por até sete dias. Bishop. E. E E , Jesus o f Palestine, London: Lutterworth, 1955, p. 176.
12. Segundo o rabino Jacob B. Glenn, o pato era com ida kosber perm itida ao cardápio judeu. Cf. Glenn,
“The Bible and M odern M edicine” in The Jewisb Foni/u 43 (setembro, 1960), pp. 152 e 153. Veja também: Seventb-
day Adventists' Sonrce Book, p. 599.
13. O ano lunar, é claro, provocava um atraso acumulativo de 11 dias em relação ao ano solar, o que dava
muita confusão. Assim, César, percebendo que o ano legal estava atrasado 67 dias, decretou em 46 a.C. que aquele
ano teria 445 dias e os seguintes 365. Os judeus também acrescentavam periodicam ente um mês extra ao seu
calendário (o mês de Bheadar, entre Adar e Nisan) para equilibrar as duas contagens e regularizar as festas da
colheita. Cf., Senbadnn 1,2.
14. Adaptado com m odificações de Serentb-daj Adventist Bib/e Dictionary, p. 1196.
15. N o AT encontram os duas vezes a palavra Shaah, hora, no livro de D aniel 3:6 e 5:5. M as ali o sentido
parece mais amplo indicando literalm ente “um olhar sobre”.
16. Adaptado com alterações de Champlin. N. R., op. citt., vol. V I, p. 452.
17. Andreasen, M. L., O Ritna! do Santuário, Santo André: Casa Publicadora Brasileira, 1986, p. 134.
CAPÍTULO 11

t
A V id a E c o n ô m i c a e S o c ia l
evando-se em conta que aproximadamente dois milênios nos separam dos

L tempos de Jesus, é coerente afirmar que parte do cenário reconstruído


m entalm ente será hipotética em alguns de seus detalhes. Contudo, sérias
pesquisas e achados arqueológicos jazem por detrás de muitas suposições que
não são, deste modo, baseadas em mera especulação. A dificuldade maior está
em que muitos dos documentos que lançariam luz sobre questões controversas
en contram -se perdidos ou em estado m uito fragm entário. O papiro e,
posteriormente, o pergaminho não eram folhas de papel tão comuns como a
celulose de nossos dias. Não obstante, importantes detalhes contextuais têm
sido trazidos à lume nos últimos tempos.

1 —Valores Monetários
As moedas dos dias de Jesus eram geralmente cunhadas em ouro, prata e cobre
(ou bronze). De valor menor, havia ainda alguns tipos de “centavos” feitos de cobre
que serviam para trocos ou compras de pouca importância. Assim, em Mateus 10:9,
Jesus alerta aos discípulos a não se proverem de nenhum tipo de dinheiro, nem mesmo
o ínfimo cobre que seria um cprrespondente ao antigo “tostão” brasileiro, ou seja,
uma moeda de valor insignificante.
Do dinheiro mais valioso, havia um contingente muito grande de moedas
(principalmente cunhadas em prata) que podiam ser classificadas em três grupos:

a) Moedas Romanas, cunhadas na capital do império.


b) Moedas Gregas, cunhadas em Antioquia e em Tiro (funcionavam como
moeda internacional negociada livremente em Israel e na Ásia Menor. Seu papel
corresponderia aproximadamente àquele desempenhado pelo dólar junto ao
mercado internacional de nossos dias).
c) Moedas locais. Alguns países subjugados por Roma recebiam do
imperador a licença para cunhar moedas próprias.
Um D e s c o n h e c id o G a lile u

Moerias do tempo de Cristo

Israel também recebeu, na época dos Herodes, o direito de cunhar moedas locais.
Dntudo, uma exigência legal de Roma obrigava ao país que fabricava moedas, estampar
ima das faces o rosto do imperador ou um símbolo qualquer que lembrasse o poderio
mano. Deste modo, “o simples fato de um judeu ter que usar tipos pagãos se quisesse
ilizar moedas de ouro e prata, atuava como lembrete de sua sujeição aos pagãos.”1
Devido à situação, não é de se estranhar que só encontremos, no periodo coberto pelos
angelhos, moedas judaicas cunhadas em bronze. Moedas em prata só foram feitas pelos
leus durante o tempo da primeira revolta contra os romanos (66-70 A.D.).
O leptón é a única moeda judaica mencionada no Novo Testamento (Mar. 12:42;
ic. 12:59.; 21:2). Seu peso comercial, pelo que tudo indica, era quase irrisório, valendo
8 vezes menos que um denário usado para pagar a féria de um trabalhador braçal,
guns dizem que seria a oferta da viúva pobre, mas é difícil precisar. De qualquer
Ddo, através da arqueologia, temos conhecimento de outras moedas judaicas produzidas
I século, é o caso daquelas cunhadas pela dinastia herodiana.
As moedas judaicas mais antigas evitavam a efígie de reis ou qualquer outro
:mento que pudesse configurar uma desobediência ao segundo mandamento,
mtudo, ao tempo de Cristo, Herodes e seus descendentes parecem ter minimizado
sreocupação com a idolatria, retratando imperadores como Tibério e templos
gãos como o de Augusto. Antes disto, a preferência era por gravuras de objetos
mimados e plantas. Agora, no entanto, um desejo de agradar os romanos fê-los
nper com este costume.
A V id a E c o n ô m ic a e S o c ia l

Vejamos um quadro das principais moedas citadas nos quatro evangelhos e o


poder de compra de cada uma delas. As quatto primeiras constituem moedas romanas,
enquanto as demais são moedas gregas de livre circulação entre os países:

M oeda Referências Valor Poder de Compra


Bíblicas
Qtachzmde Marc. 12:42. Era a menor Um trabalhador do
moeda romana. campo recebia 64
Cunhada em quadrantes por dia.
bronze, Dez quadrantes era
correspondia a % o preço cobrado
do valor da para a utilização de
moeda seguinte. um banheiro
público.
A e Mat. 10:29; Luc.l2:6. Feito de cobre, Segundo os textos
valia quatro bíblicos, com este
quadrantes. valor compravam-
se dois pardais.

O snário Mat. 20:1 - 16. Era a moeda de Era o salário diário


prata que servia de um trabalhador
de medida básica do campa Um
para a cotação incenso de
dos preços em primeira qualidade
unidade romana. custava 6 denários
No tempo de a libra de 327 g.
Cristo, valia 64
quadrantes e 16
asses. Mas este
câmbio flutuava
de acordo com o
mercado.
Originalmente
um denário
correspondia a
10 asses e no
tempo de Nero
chegou a valer
menos que isso.
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

Possivelmente Era o denário de ouro Com um aureus


referido em que valia 25 denános dava para pagar
Mat. 10:9. de prata. Na época de 30 dias de
Júlio César, seu peso trabalho de um
havia sido fixado em soldado romano.
125,3 gramas.
Contudo, ao tempo de
Nero, ela sofreu uma
depreciação passando
a pesar apena 115
gramas.
M na Luc. 19:11 -27. Uma moeda grega de Uma mina
prata que pesava cerca comprava
de 0,6 quilos. aproximadamente
100 ovelhas.
JD racmi Mat. 17:24. Era a base do sistema A venda de um
de valorização boi em bom
comercial grega. Feita estado de criação
de prata, pesava 3,6 custava ao
gramas. comprador o
equivalente a 5
dracmas.
E státer Mat. 17:27 e 26:15. Era uma moeda de Com 1 estáter
prata cujo preço fora conseguia-se, em
fixado por Pompeu tempos de maior
em quatro dracmas. oferta, comprar
Alguns autores um cavalo ou o
supõem que o estáter filhote de um
foi a moeda recebida camelo.
por Judas para
entregar Jesus à morte.

O talento mencionado em Mateus 18:24 não constituía um tipo de moeda, ma


antes um valor monetário que poderia variar indicando, basicamente, uma grande
quantidade de dinheiro.
Com tamanha variedade de moedas e procedências monetárias, é mais que
compreensível a necessidade do ofício de cambista. Por isso, havia no Templo pessoas
que ganhavam a vida trocando dinheiro. Principalmente porque, neste recinto religioso,
era considerado blasfêmia o uso de moedas com características idólatras. Assim, esses
U m D e s c o n h e c i d o G a lileli

Possivelmente Em o denário de ouro Com um aureus


referido em que valia 25 denários dava para pagar
Mat. 10:9. de prata. Na época de 30 dias de
Júlio César, seu peso trabalho de um
havia sido fixado em soldado romano.
125,3 gramas.
Contudo, ao tempo de
Nerq, ela sofreu uma
depreciação passando
a pesar apena 115
gramas.
ItTa Luc. 19:11 - 27. Uma moeda grega de Uma mina
prata que pesava cerca comprava
de 0,6 quilos. aproximadamente
100 ovelhas.
~acma Mat. 17:24. Era a base do sistema A venda de um
de valorização boi em bom
comercial grega. Feita estado de criação
de prata, pesava 3,6 custava ao
gramas. comprador o
equivalente a 5
dracmas.
táíer Mat. 17:27 e 26:15. Era uma moeda de Com 1 estáter
prata cujo preço fora conseguia-se, em
fixado por Pompeu tempos de maior
em quatro dracmas. oferta, comprar
Alguns autores um cavalo ou o
supõem que o estáter filhote de um
foi a moeda recebida camelo.
por Judas para
------- ----------------------
entregsir Jesus à morte.

O talento mencionado em Mateus 18:24 não constituía um tipo de moeda, mas


3 um valor monetário que poderia variar indicando, basicamente, uma grande
itidade de dinheiro.
Com tamanha variedade de moedas e procedências monetárias, é mais que
preensivel a necessidade do ofício de cambista. Por isso, havia no Templo pessoas
ranhavam a vida trocando dinheiro. Principalmente porque, neste recinto religioso,
onsiderado blasfêmia o uso de moedas com características idólatras. Assim, esses
A V ida E co n ô m ica e S o c ia l

cambistas do templo trocavam o dinheiro comum vindo de Roma ou de Antioquia


por uma moeda própria para ser usada no lugar sagrado. Apenas esta moeda
(já especulada na mão do cambista) poderia ser usada na compra de animais para
o sacrifício pessoal.

2 - Os Impostos
Havia vários tipos de fiscos sobre os judeus durante o domínio romano. Impostos
que eram cobrados indiretamente no preço de mercadorias, nas cartas de libertação de
um escravo ou nas aduaneiras existentes entre uma e outra região dominada.
Como impostos diretos têm-se conhecimento histórico dos seguintes tributos:

° Tributum soli —imposto sobre a propriedade.


0 Tributum Capitis = cobrado sobre todas as rendas imobiliárias,
principalmente ao se tratar de uma fazenda produtora de algum bem.
0 Tributum Tersonalis —cobrado individualmente, inclusive sobre
viajantes que estejam passando por alguma província dominada pelo
império romano.
0 0 V igésimo sobre a H erança — 20% de imposto cobrado
anualmente sobre famílias que possuíam cidadãos romanos em seu rol
de parentes.

Havia ainda um último e surpreendente imposto que, embora também fosse


oficializado por Roma, não era cobrado pelos fiscais do imperador, nem iam para os
cofres do império. Tratava-se da didracma, um imposto cobrado pelo Sumo Sacerdote a
todos os judeus, quer morassem dentro ou fora de Israel. Para isso, usavam uma moeda
maior de prata que equivalia a duas dracmas áticas ou meio siclo dos judeus (Exo. 30:13).
Daí o apelido didracma referente tanto ao imposto quanto ao nome da moeda.
Sob os auspícios de Roma, o sumo sacerdote tinha todo o direito de cobrar o
mencionado valor de todas as comunidades judaicas espalhadas pelo império e remetê-
las a Jerusalém, para a munutenção dos serviços no Templo.

3 —Comércio e Economia
O comércio legal tinha no Templo o centro de suas atividades. Afinal, os
serviços sacerdotais incluíam muitas atividades interdependentes que faziam o
vínculo empregatício de muitas pessoas. Do Templo dependiam muitos criadores
de animais (que vendiam suas criações para o sacrifício diário) e muitos cambistas
que, como dissemos acima, trabalhavam na troca de dinheiro pagão por dinheiro
judeu usado em serviços litúrgicos.
Um D e s c o n h e c id o G a l i l e u

As festas religiosas oficiais eram responsáveis por um grande aumento das


atividades comerciais que envolviam desde artesãos até proprietários de camelos que
obtinham sustento organizando caravanas para a capital. Neste caso, todos os lucros
excedentes iam, evidentemente, para as cidades locais. Jerusalém, contudo, ainda era a
maior beneficiada comercialmente por possuir o Templo dentro de seus limites.
Sua população que, como já mencionamos, era de 50.000 habitantes em tempos normais,
subia para o montante de 180.000 durante as festividades sagradas do judaísmo - um
aumento considerável de mais de 200%.
Para o transporte de mercadorias pelo país, havia quase que unicamente a opção
do animal de carga. As estradas romanas não ofereciam conforto suficiente para o uso
de carroças ou veículos parecidos. Assim, mulas e camelos eram usados para este
empenho, o que tornava o processo de transporte bem lento e demorado.
Os perigos da estrada eram, desde aquela época, uma ameaça constante. Havia
bandidos do deserto que eram especialistas em roubo de cargas e animais que eram
traficados especialmente para o Egito e a Síria. Para enfrentar o problema, as empresas
de transporte organizavam saídas em caravanas e ofereciam elementos de segurança
para aqueles que recorressem aos seus serviços. Plínio, o Velho, historiador romano
do I século assim descreve os custos de uma viagem desde a capital romana até às
margens do Mar Mediterrâneo:
"Ao longo da listrada inteira, os transportadores de incenso não cessam de pagar,
ora pela água, ora pela forragem ou ainda pela estadia durante as diversas paradas, fora
as taxas habituais. É p or isso que as taxas se elevam a 688 denários p or camelo, até que
se atinja a costa mediterrânea.” (História Natural XII, 32, 6).
De acordo com Christiane Saulnier,3 um incenso de primeira qualidade valia, na
ocasião, 18 denários o quilo. Ora, um camelo transportava em média 300 quilos de
incenso; logo, os 688 denários finais mencionados por Plínio querem dizer que 13%
de despesas comerciais eram gastas com o transporte da carga.
Além das atividades legais, havia um comércio negro que sobrevivia à margem
das grandes cidades. Era um escambo simples que usava a troca de bens no interior
das aldeias e evitava dinheiro e deslocamentos para, assim, fugir das taxas indiretas,
bem como dos cobradores de impostos.
O sistem a de im portações também era avançado. Babilônia ainda era
conhecida como grande provedora de especiarias, de modo que, dela vinham a
pimenta, a hortelã e algumas essências básicas para a produção de perfume.
A Arábia e o Líbano também constavam na lista de fornecedores de produtos de
luxo como pedras preciosas, ferro e cobre. Desde os tempos de Salomão, o famoso
cedro do Líbano era o principal tipo de madeira usado na construção de palácios
públicos. Junto dele, os sacerdotes importavam a figueira, o pinheiro e a nogueira
para usarem de combustível no altar dó Santuário.
A V id a E c o n ô m ic a e S o c ia l

A Agricultura e a Indústria representavam outra considerável fatia do comércio


de Israel. A Pecuária, contudo, não representava um setor bem desenvolvido.
A estepe do país não produzia abundante pastagem e os criados de rebanhos
interessavam-se basicamente pela criação de ovelhas e cordeiros necessários,
principalmente, para os ofícios no Templo. Os carneiros eram, na sua maior parte,
importados de Moab e utilizados para o abate. O mesmo se dava com os rebanhos
bovinos que vinham da Transjordânia. E interessante observar que bois vindos da
Galiléia nunca eram utilizados no Templo ou mesmo bem recebidos em Jerusalém,
porque tinham que necessariamente atravessar a região dos samaritanos, sendo, por
isso, considerados imundos para um ofício litúrgico.

4 - A Educação
A família e a religião sempre exerceram o papel principal da educação dentro de
Israel. Embora não pudesse oficialmente ler nem tocar na Torah, a mulher era a
responsável por transmitir aos filhos os primeiros passos da religião judaica.4
Por isso, até aos quatro anos a criança ficava sob os cuidados pedagógicos da própria
mãe. Após esta idade, o ensino das meninas passava a ser o ofício doméstico, enquanto
os meninos passavam para os cuidados do pai onde aprenderiam uma profissão.
Nalguns casos, porém, os garotos poderiam ser enviados à casa de parentes para
aprenderem um ofício diferente daquele desempenhado pelo pai e as filhas, em caso
de crise financeira, poderiam ser vendidas como escravas ou futuras esposas para
algum homem mais abastado.5
Assim, os seis anos de idade marcavam o limite obrigatório de sustento dos
filhos. Após este período, os pais não dispunham de nenhuma obrigação civil que os
determinasse prover recursos para a criação dos filhos que, desde então, também
deviam participar do sustendo da casa.
Os filhos de família mais abastada, ou aqueles que demonstravam grande prodígio
intelectual, eram geralmente enviados para escolas mais ou menos oficializadas que
eram dirigidos pelos Mestres e Escribas do povo. Embora não pertencessem à classe
sacerdotal, estes professores estavam socialmente bem distinguidos do povo devido à
sua erudição e cultura.
As sinagogas (Bejt há Knesset) e algumas dependências do Templo eram utilizadas
como local para as escolas oficiais. Jerusalém devia possuir muitas sinagogas, embora
seja difícil precisar um número certo.7 Uma delas, porém, foi recentemente escavada
no monte Ophel, oferencendo considerável luz sobre o processo pedagógico que ali
se desenvolvia. Segundo as mais antigas tradições judaicas, os níveis do ensino em
Israel poderiam ser assim divididos:

I —Escola Primária (Beyt Sefei): nelas aprendia-se a ler fluentemente o hebraico


das Escrituras e a reconhecer as versões aramaicas mais simples do texto sagrado.
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

II —Escola Secundária (Beyt Hammidrasíi): aqui, a repetição e memorização


eram os principais métodos iniciais, usados com o fim de levar o aluno a conhecer de
cór o texto sagrado. Usava-se também a escrita como exercício de fixação e recursos
minemotécnicos como o paralelismo, a antítese e a assonância que também encontram-
se presentes no texto produzido pelos quatro evangelistas. Depois de algum tempo,
lançava-se mão da tradição oral e dos comentários midrásticos a fim de treinar os alunos
na interpretação escriturística. Dentro da leitura escriturística criavam-se pontes para
assuntos essencialmente não teológicos como matemática, astronomia, agricultura etc.
III —Ensino Superior (continuação do BeytHammidrash) —Nesta fase, os alunos
assumiam uma linha de pensamento mais voltada para o ensino de determinado Mestre.
As vezes eles próprios tornavam-se mestres fundadores de linhas próprias de
interpretação de determinadas passagens escriturísticas. Eram, em suma, as escolas de
interpretação rabínica das quais sobressaem aquelas fundadas respectivamente por
Shammai e Hillel. Era nesta fase que o aluno recebia o título de Mestre (Rabi) ou
doutor da Lei. Os fariseus e os membros do sinédrio, geralmente, eram pessoas que já
haviam concluído o Ensino Superior e que mantinham sua erudição através do ensino
a outros alunos e das discussões acerca da letra da Lei.
Embora ganhasse admiração no episódio com os doutores do Templo
(Luc. 2:41-52), Jesus, certamente não estudou nas escolas rabínicas de sua época.
Sua classe econômica, e conseguinte residência na menosprezada Nazaré, eram
elementos sociais que, excluíam-no do rol de possíveis alunos. Além do mais, a referência
evangélica à sua profissão (carpinteiro) supõe que ele optou por seguir o ofício de
José, ao invés de ingressar nos círculos acadêmicos.
Não obstante, alguns ensinos de Cristo refletem de vez em quando conceitos
rabínicos, o que nos faz supor algum tipo de aprendizado auto-didático daquilo que
diziam os mestres de seu tempo. Sua pregação evocava tanto princípios defendidos
por escolas conservadoras, quanto princípios defendidos por escolas liberais.8Assim,
Jesus parecia seguir uma escola própria, não necessariamente espelhada em nenhuma
das anteriormente existentes.
Contrário ao costume dos doutores de seu tempo, o Senhor não citava mestres
conceituados para embasar seu pensamento. Apenas as Escrituras eram a fonte
autoritativa de suas palavras.
No próximo capítulo, deteremos nossa atenção naquele que é considerado o ato
inaugural do ministério público de Jesus, a saber seu batismo. Não há, porém, como
tratar deste assunto, sem acentuar a marcante figura do Batista como profeta e anunciador
da vinda do Messias. Em sua missão como “voz que clama no deserto,” João preparou
o caminho para a atuação messiânica de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
A V i d a E c o n ô m ic a e S o c i a l

Questões Para Análise e Reflexão


• Como você entende a definição de Cristo acerca das Escrituras?
(Mat. 13:51-52)
• Analise a crítica que Jesus faz aos escribas e fariseus e tente entendê-
la dentro do contexto da época. (Marl2:38-40; Mat. 23:13-36).
•Como você aplicaria para nossos dias o episódio da oferta da
viúva pobre? (Marc. 12:41-44 e Luc. 21:1-4).

Enciclopédia de conhecimento Religioso


Sete tipos defariseus: Segundo o ta/mude Babilónico havia sete tipos defariseus:
Os "de costa larga" —escreviam suas boas ações nas costas para serem
vistos pelos demais.
Os "vagarosos” que deixavam de lado todos os compromissos sociais (inclusive
o pagamento de empregados) só para cumprirem umaformalidade da religião.
Os "calculadores’’ que contabilizavam as boas obras até atingirem
uma espécie de superávit espiritual que lhes permitia certo grau de pecado
sem o risco de caírem em descrédito religioso.
Os “ecônomos” que buscavam pequenas atitudes que pudessem aumentar
seu mérito perante Deus.
Os "escrupulosos” que se poliàavam constantemente acerca de pequenos
pecados ocultos que deveriam ser sanados com alguma obra de caridade bem realizada.
Os "temerosos” que evitavam pecados mínimos para não sofrerem a
desventura de Jó.
Os “atiláveis” que agiam como Abraão e, por isso, eram os verdadeiros
filhos de Deus.9

Referências:
1. W ilkinson, J., op. cit., p. 50.
2. Inform ações e equivalências coletadas deH ead, B.V., Historia Nummonim: A manual o f Greek Numismatica,
Oxford: Oxford University Press, 1911; Hill, G. F., Coins o f Pa/estine, Londres: Worth Press, 1914; Diez-M acho,
A. op. cit., vol. V, pp. 296 —298.M eshorer, Y., Jewish Coins o f the Second Temple Period, Televiv: 1967 e Champlim,
R. N., op. cit., vol. II, pp. 161 e 162.
3. Christianne Saulnier é um a das autoras de La Palestine an temps de Jésns, op. cit., p. 27.
4. H avia entre os rabinos um a divergência a respeito das relações que seriam apropriadas entre uma mulher
e a Torah. Certo Rabino escreveu no Sotah 9 que “seria melhor ver a Torah queimada do que vê-la pronunciada por
lábios de mulher... ensinar a Torah para um a m enina é colocá-la no caminho da devassidão moral.” Contudo,
o mesm o tratado talmúdico que proíbe a entrada de meninas na sala de aula tam bém prescreve: “...contudo, todo
hom em deve ensinar a Torah para sua filha” .
U m D e s c o n h e c i d o G a l il e u

5. C.f. VV. A.V., Palestine an Temps de Jésns, op. cit., p. 67.


6. Idem.
7. O Talmude no tratado MegiUah 3,1, 73d, m enciona 480 sinagogas em Jerusalém por ocasião do cerco de
Vespasiano (70AD). W ilkinson, contudo, considera isso um exagero e sugere num artigo científico que o o número
deveria ficar em torno de 365 sinagogas (W ilkinson, ]., “Christian Pilgrim s in Jerusalem during the Byzantine
Period” in Palestine Exploration Quarterly 108 [1976], pp. 76 - 77.)
8. Num episodio, Jesus num movimento essencialmente rigorista, amplia os mandamentos da lei considerando o
insulto como uma quebra do sexto mandamento e a impureza como quebra do sétimo (Mat. 5:21 - 32) Noutra ocasião
porém, despreza o costume fariseu de lavar as mãos antes de tocar no alimento e colhe espigas no sábado, contrariando à
opinião mais conservadora que considerava pecado até mesmo o banho tomado no dia sagrado (M at 12:1 - 8).
9. Citado com adaptações de A ron, R., Les années obscures de Jésns, Paris: G rasset, 1960, p. 151.
CA PÍTU LO 12

+
Je s u s e Jo ã o B a t is t a

enhum pesonagem se destaca mais na primeira parte dos evangelhos que a


N figura do primo de Jesus, João, o Batista.1 Solitário pregador, vivendo mais
em lugares desertos, João acreditava ser ele mesmo aquele apontado por Isaías como
o “preparador dos caminhos do Senhor” —uma referência análoga aos arautos dos
reis que nas viagens iam à frente da carruagem real retirando do caminho toda
pedra mal colocada ou entulho que pudessem tornar a viagem demasiadamente
desagradável (lembre-se, as estradas eram calçadas com pedras e as carruagens não
tinham amortecedores como os carros modernos).
É com o seu ministério que surge na narrativa do Novo Testamento o que
poderíam os cham ar de o em brião ju d a ico do batism o cristão. Seu ritual de
mergulhar as pessoas na água marcaria profundamente a forma de iniciação adotada
posteriormente pela Igreja de Cristo.
Jesus mesmo não batizava (Jo. 4:2), contudo, parece-nos que como conseqüência
da entrada de muitos seguidores de João para o movimento do Nazareno, o próprio
Senhor resolvera adotar este gesto simbólico como rito de iniciação, embora
continuasse a deixar com seus discípulos a tarefa de exercê-lo.
Haverá, contudo, entre o batismo de João e o batismo exercido por Jesus alguma
similaridade seguida de descontinuidade simbólica. Em termos litúrgicos ambos
parecem firmar-se no mesmo exercício: o mergulho por inteiro numa água corrente
ou tanque preparado para este fim.2 Porém, o significado de ambos foi se distanciando
com o tempo e o conseguinte amadurecimento do movimento cristão. João ficara
mais preso a uma norma judaica, ao passo que os cristãos praticamente inauguraram
um novo sentido para o rito que é morrer e ressuscitar com Cristo.
Mas, voltando ao ministério do Batista, é preciso saber algo sobre o rito judaico da
imersão em água para compreendermos de onde João tirou esta prática e em que aspectos
a diferenciou do costume precedente. Neste ponto, é digno de nota que em momento
algum os fariseus e demais interlocutores do profeta mostraram-se surpresos com aquele
ato de mergulhar as pessoas, nem mesmo perguntaram o que aquilo significava.
Seu silêncio a este respeito dá a entender que conheciam bem aquele ritual. Somente não
entendiam, como João, que não era oficialmente autorizado para isto, ministrava aquele
rito (Jo. 1:25). De onde, pois, surgiu a idéia de batizarem-se conversos?
U m D e sc o n h e c id o G a lil e u

1 - As Origens do Batismo de João


1.1—0 Testemunho de Flávio Josefo
Flávio Josefo testemunha a existência histórica de João Batista e sua pregação
nas seguintes palavras:
"Conforme a interpretação de algunsjudeus a destruição do exército de Herodes [o Tetrarta]
veio como desígnio de Deus efo i muito apropriada como resultado do que ele haviafeito com João,
apelidado de Batista. Pois Herodes o decapitou, mesmo sendo ele um bom homem que ensinava aos
judeus o exercício da virtude, bem como os atos de justiça em relação uns aos outros, e ainda a
piedade em relação a Deus. Então ordenava-lhes o batismo, pelo que a lavagem [na água] só seria
aceitávelpara ele, se eles [os bati^andos]fizessem bom uso daquilo e não o exercessem apenas por
formalidade exterior, ou para a remissão de alguns pecados, mas antes para a purificação do cotpo
inteiro, supondo que a alma j á estivesse de antemão purificada p o r completo pela justiça.”
(Antigüidades, XVIII, 5, 2).
É um tanto obscuro o sentido de “justiça” neste texto de Josefo, porém, com
relação ao restante, parece-nos que João entendia a alma como estando previamente
pura por uma certa “justiça”, mas que o corpo necessita de constante purificação.
O perdão só teria valor se o pecador se lavasse nas águas e o rito batismal também só
seria eficaz se o indivíduo que pecou demonstrasse após o batismo que estava
arrependido e que lutava para fazer boas coisas. Isto está em harmonia com o que
Lucas diz ter sido a pregação do Batista no deserto (Luc. 3: 10-14).

1.2 - Os Manuscritos do Mar Morto


O esclarecedor texto de Josefo nos remete ainda a uma forte aproximação entre
João Batista e a liturgia batismal revelada nos manuscritos do Mar Morto descobertos
em Kirbet Qumran no ano de 1947. Embora haja muitas questões em aberto sobre
quem escreveu e/ou guardou esses textos nas grutas do Mar Morto, uma grande parte
dos autores liga a comunidade que viveu ali à seita dos essênios.3 Por este grupo
entenda-se um bom número de judeus separatistas que viviam isolados das cidades
por considerarem-nas profanas e por aguardarem, para seus dias, a vinda do reino
messiânico. Para estes ascetas, o Messias seria um poderoso guerreiro ao qual, na
época de sua chegada, todos os justos deveriam se unir para então batalharem contra
os chamados filhos das trevas. Enfim, uma batalha escatológica entre as forças do
bem e do mal que exigia o batismo do povo como preparação para o grandioso dia da
ira. Tal atitude mostra, em síntese, uma pregação do fim muito próxima àquela felta
por João Batista (Luc. 3:1—14).
Je s u s e )o ã o B a t is t a

Esta é uma das gm tas de Qumram


ondeforam encontrados importante
manuscritos bíblicos.

1.3 —Seria João Batista um Essênio?


Esta é uma pergunta muito difícil de ser respondida. De fato, há algumas
similaridades entre o estilo de João e aquele praticado por Qumran no deserto da
Judéia. Lucas comenta seu crescimento e juventude acrescido das palavras:
“Ele habitava nos desertos, até o dia em que se manifestou a Israel” (Luc.l :80). Mateus
também sublinha o seu ascetismo e os três sinópticos mostram sua pregação como
baseada em Isa. 40:3, o mesmo motivo que justificava à seita a sua habitação nos
desertos: preparar os caminhos do Senhor.4 Ademais, os qumranitas falavam
obscuramente de dois Messias (ou um Messias e um Mestre de Justiça). Segundo se
crê, um seria o precursor do outro e anunciaria a preparação para a sua chegada, o que
parece enquadrar-se no papel que João exercia, principalmente por ser descendente
de Levi - o que habilitava-o à função de sacerdote (Qumran falava muito do pregador
na qualidade de um sumo-sacerdote aceitável).5

Bj/ínas da comunidade
de Qumram.
Um D e s c o n h e c id o G a l i l e u

Contudo, não nos apressemos em dizer que descobriu-se a identidade qumranita


de João. Há sérias descontinuidades entre seu ministério e o adotado pela seita. Vejamos:
•João não aconselhou aos seus ouvintes a que se retirassem das cidades, nem
que vivessem em comunidade fechada (um ponto inegociável para os essênios).
•João era um pregador público que dirigiu sua mensagem para as multidões.
Sua clausura nos desertos durou até o dia em que deveria se manifestar a Israel
(Luc. 1:80). Depois disso, ele se tornou uma espécie de pregador itinerante
dividindo suas palestras entre a paisagem cáustica do deserto e a ribeira do rio
Jordão (note que não podia ser um lugar longe da cidade, senão ele não
conseguiria atrair tantas pessoas).
• Parte de sua pregação deve ter sido dentro de Jerusalém, pois Herodes
certamente não iria ao deserto para ouvir suas mensagens e num determinado
momento ele viu Jesus passando, o que indicava uma via pública ou um lugar
de transeuntes próximo a uma grande cidade.
• Seu batismo era oferecido a todos os pecadores arrependidos, ao passo que
as abluções da comunidade essênica eram ritos reservados aos próprios membros.
• Soldados e Publicanos não eram de modo algum aceitos entre os essênios,
contudo, na pregação de João Batista eles não precisavam desligar-se de seus
empregos; bastava que em seu ofício fossem honestos e piedosos no trato com
outros seres humanos (Luc. 3:10-14).
Isto posto, devemos supor que, se é verdade que João teve algum contato com
os essênios e recebeu deles alguma influência, ele com certeza já se havia desligado da
seita por ocasião de seu testemunho no deserto. Fora isso, os dados que temos ainda
são pequenos para emitir opiniões conclusivas sobre a questão.

1.4 —0 Batismo no Judaísmo


Ligar João aos essênios principalm ente por causa dos batismos deles,
é desconhecer o largo contexto judaico de prática batismal tão em voga nos tempos
do primeiro século. Era o chamado Tevilah (que já comentamos ao falar de Maria)
realizado geralmente num M ikveh (piscina especial de água corrente) que ficava à
entrada do pátio do Templo onde as pessoas se mergulhavam antes de entrar no
lugar sagrado. Aliás, os próprios discípulos de João chamavam seu batismo de
purificação (Jo. 3:25).
Segundo se cria, o corpo era co n tin u am en te co n tam in ad o , não
necessariamente por pecados cometidos, pois para estes havia o sacrifício que
expiava a culpa, mas, acima de tudo, por coisas normais do dia a dia —o contato
com um cadáver, por exemplo. Uma vez maculado o corpo, bastava a água para
torná-lo apto ao exercício religioso, não n ecessitando, por isso, de um
arrependimento prévio, mas somente da'“lavagem” da impureza. No dia seguinte,
Je s u s e Jo ã o B a t is t a

porém, o corpo estaria novamente impuro pela convivência diária com coisas da
terra e outra purificação se fazia necessária.
Não havia limites para o número de abluções. O devoto podia mergulhar-se quantas
vezes quisesse e quantos dias fosse preciso. Um complexo como de Bethesda,
possivelmente seria um Mikveh público também disponível para este rimai e pessoas
mais abastadas que não queriam misturar-se com o povo mais simples possuíam banheiras
particulares em casa onde realizavam suas imersões diárias.

2 -Jo ã o eJesus
João e Jesus eram primos legítimos que ficaram em sua juventude separados um
do outro. Ao que nos parece, os pais do Batista eram muito idosos, pelo que não é
difícil imaginá-lo órfao ainda na meninice. Por alguma razão que desconhecemos, ele
optou em viver no deserto a morar com seus parentes em Nazaré.6 Seja como for, no
IV evangelho é registrado seu testemunho de que ele mesmo não conhecia Jesus
(Jo. 1:33). Foi preciso uma intervenção direta de Deus (o Espírito em forma de pomba)
para que o Batista reconhecesse nele aquele que haveria de vir (Mat. 3:11-17).
A partir disso, se não travaram uma íntima amizade, pelo menos se admiraram
em mútuo respeito. João chega a mandar que seus discípulos seguissem a Jesus ao
invés dele mesmo (Jo. 1:35—41). Numa determinada ocasião, referiu-se àquele que
haveria de vir como alguém de quem ele não seria digno nem do trabalho de
desatar as sandálias —um exagero de submissão, levando-se em conta sua idéia
acerca do Messias e a cultura judaica que não permitia nem ao pior dos escravos
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

(se este fosse judeu) a humilhação de desamarrar as sandálias de seu amo.7


E, para terminar, censurou indiretamente seus discípulos que nutriam ciúmes do
movimento de Jesus Cristo (Jo. 3:25-30).
Mas a recíproca de Jesus foi à altura. Devolvendo ao primo a hipérbole de um
elogio, o Mestre chegou a pronunciar certa vez que dos nascidos de mulher
(o que quase o incluía) ninguém era maior que João Batista (Luc. 7: 24-35). Deixando
nossa imaginação avançar um pouco na conjectura, podemos até supor que Jesus
inspirava em João algumas das marcantes frases que a seguir utilizaria para expor a
vinda do Reino (Mateus 3:2 com 4:17 e Luc. 3:10 e 11 com Mat. 5:39-42). Um dos
métodos essênios, geralmente seguidos por pregadores itinerantes como o Batista, era
o de não carregarem nunca provisões de qualquer espécie pois além de atrasarem sua
viagem, poderiam ser providas assim que chegassem a uma próxima aldeia. Jesus vai
na mesma linha, solicitando aos discípulos que ao partirem de cidade em cidade nada
levem consigo a não ser a fé e sua mensagem.

Questões Para Análise e Reflexão


• Como você interpreta e julga o comportamento incrédulo de João
Batista relatado em Lucas 7:18-23 e Mateus 11:2-6?
• Teria o rito do batismo algum sentido especial para os cristãos de
nosso tempo? Mar. 16:16
• Se Jesus era o Messias que não tinha pecado, por que então buscou
o Batismo de João? Mat. 3:14
• Faça uma pesquisa e tente descobrir o que seria o “gafanhoto”
que João comia. Eis algumas sugestões bibliográficas: Livro Judaico
do Sbabat 90 b; Epharim, Jesu s Judeu Praticante, São Paulo: Paulinas,
1998, p. 76 e Ellen White, M aranata — O Senhor Vem (Meditações
Matinais de 1977), p. 20.
•Você acha que João tinha plena consciência do que estava
dizendo quando exclamou de Jesus “eis o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo”?

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Batismo: Aprática de batizar pessoas em águas é um ofício visto em todo o
mundo, nas mais diversas culturas do planeta. Há algumas, no entanto, que ganham
popularidade devido ao seu proceder absurdo. Uma destas, testemunhada por São
Crisóstomo, era praticada por uma seita oriunda do cristianismo e seguidora do ramo
Je s u s e )o ã o B a t is t a

mardonita. Segundo ele, era costumes destes religiosos batizar defuntos. 0 rito acontecia
assim: um catecúmeno (alguém que estava evangelizado mas ainda não batizado)
morria antes que tivesse tido tempo de “lavar" seus pecados. Então, com o corpo
aindafresco sobre o leito de morte, um diácono deitava-se debaixo da cama, enquanto
um ministro perguntava ao ouvido do morto: "queres ser batizado?" Não dando ele
resposta alguma, o diácono respondia de debaixo da cama um sonoro “siiiimmm".
Então o ministro batizava o falecido prosélito.

Referências:
1. Para algum a bibliografia sobre João Batista consulte as seguintes obras: Robinson, J. A. T., “John the
Baptist” in The Interpreteis Dictionaty o f Bible, Nashivüle: Abingdom Press, 1962, vol. II, p. pp. 955 —962; Jerem ias,
J., Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Ed. paulinas, 1980, pp. 72 —82; Ladd, G. E., Teologia do Novo Testamento, Rio
de Janeiro: JUERP, 1986, pp. 33 - 42; Steinm ann, J., Saint John the Baptist and the Desert Tradition, N ew York:
Doubleday, 1978 e Brown, R. The Birtb o f Messiab, N ew York, Doubleday, 1977, pp. 282 —285.
2. Todos os gram áticos gregos são cientes que o primeiro e único significado bíblico ou grego-clássico da
palavra baptismos seria mergulho ou imersão. A aspersão só estava prescrita em casos excepcionais como doença
terminal ou contagiosa. Assim , segundo prescrito na Didacbé ou , o Ensino dos Doze Apóstolos, produzido no
II Séc., a preferência seria batizar o indivíduo em água correte (lit. “água viva”) e fria para sim bolizar a lavagem dos
pecados. M as, se não fosse circunstancialm ente possível fazê-lo, poderia-se optar por outros meios, inclusive a
aspersão. Em todos eles, era costum e de algum as igrejas mais antigas repetir o rito três vezes para sim bolizar a
Trindade. Com o tempo, a m aioria das Igrejas cristãs foi optando pelo tanque batism al instalado nas primeiras
Igrejas construídas pelos cristãos. Cf. Latourelle, K. S., op. cit., vol. I., p. 246 e Nisto Cremos, p. 254.
3. Um dos mais fortes questionadores desta posição é Golb, conform e pode ser visto em sua obra já citada
neste estudo: Quem Escreve// os manuscritos do Mar Morto? [Col. Bereshit] Rio de Janeiro: Imago, 1996. Um a outra
suposição (esta ao meu ver totalmente descartável) é a de Robert Eisemann que faz um verdadeiro malabarismo para
ligar Qumran ao primitivo movimento cristão supondo até mesmo que Paulo fosse um espião ou agente duplo
atuando dentro da igreja (algo deveras mais parecido com um romance policial que com uma investigação científica
de crédito). Mas Eisemann teve sua contribuição no processo ao publicar juntamente com Michael W ise 50 documentos
inéditos encontrados na caverna 4. Cf. W ise, M , e Eisemann, A Descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, São Paulo:
Ediouro, 1994; idem, Jesus nnd die Urchristen. Die Oumran-RoUen entscbliisseit, Gütersloh, Gutersloher Verlaghaus Gerd
Morh, 1992. Para uma resposta às posições de Eisemann e W ise veja Berger, K., Qumran und Jesus - Wahbeit unter
Verscbluss? Stuttgart: Quell Verlag, 1993. ,Como introdução ao assunto temos: Oberg, R. E., A Nossa Bíblia e os
Manuscritos do Mar Morto, Santo André, Casa Publicadora Brasileira, 1984; Delcor, M. e Martinez, E G., Introdución a la
Literatura Esenia de Qumran, Madrid, Ediciones Cristianidad, 1982, Vanderkam, J. C., Os manuscritos do Mar Morto Hoje,
Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1995; Fitzmyer,J., 101 perguntas sobre os Manuscritos do Mar Morto, São Paulo: Ed. Loyola,
1998. E, finalmente, para os textos de Qumran em português, veja Martinez, F. G., Textos de Onmran, Petrópolis:
Vozes, 1995.
4. Cf. Fitsmyer, J. F., op. cit., p. 81.
5. Os textos de Q um ran são fragm entados e, m uitos ainda disputam a interpretação. Por questões
metolodógicas nos lim itarem os a m encioná-los sem citar o seu conteúdo: 1QS 9 ,1 1 ; lQ sa 2 ,12,14, 20; 4QPBless
3; 4Q flor 1 —2 i 11; 4Q pIsaa 8 —10,17; 1QM 11, 7; CD 2 ,1 2 ; 1QS 8 ,1 5 etc. O significado das abreviaturas pode
ser encontrado em Fitzmeyer, op. cit., pp. 15 —17.
6. Lem bram os que, a partir dos 7 anos os pais não tinham obrigações de sustento para com o filho,
de modo que , desta idade em diante, é norm al que João saia do convívio de seus genitores.
7. D iz o Ketonvotb 96a: “Rabi Yehoshua ben Levi declarou: ‘Todos os serviços que um servo tem de prestar
ao seu senhor, o discípulo tam bém tem de prestar ao seu mestre. M enos o de tirar-lhe as sandálias.” Também
segundo o M elkhilta Ex. 21, 2: “Os sábios proclamaram: ‘um escravo que for hebreu não deve lavar os pés de seu
senhor nem calçar-lhe as sandálias, tampouco deve carregar suas coisas quando ele for ao banho.”
CAPÍTULO 13

t
C afarn aum , a C id a d e O nde
Je s u s M orou

1 - 0 “Endereço” do Mestre

início do ministério público de Jesus parece marcado pela sua mudança de


O residência. Diz Mateus: “... e [Jesus] deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum”
(Mat. 4:13). A nova cidade chega a identificar-se tanto com o Mestre que Mateus e Marcos
chegam a referir-se a ela como sendo “sua própria cidade”(Mat. 9:1 e Mc. 2:1).
Os motivos que o fizeram sair de Nazaré não nos foram revelados. Contudo,
a possível morte de seu pai e o conseguinte preconceito de seus irmãos seriam bons
motivos para isso. De qualquer modo, o fato é que Jesus escolhera Cafarnaum como
seu centro referencial. Aquela cidade é referida como sendo o lugar de onde ele sempre
partia em suas viagens evangelísticas e para onde ele sempre voltava. É provável que
a amizade traçada com Pedro, o pescador e sua família, contribuíram para que Jesus se
sentisse em casa naquele lugarejo.
Embora o Antigo Testamento não faça menção alguma a esta cidade, temos uma
ttadição judaica que a identifica, talvez por causa de seu nome, como a vila onde morou
o profeta Nahum. Daí o nome hebraico Kefar (ou Kaper) + Nahum —vila de Nahum.
O sítio arqueológico de Cafarnaum, (hoje conhecida como Talhum pelos árabes)
está situado perto das cidades de Tabgha (3km) e Tiberíades (16 km). A apenas 5 km
dali podemos alcançar o curso do rio Jordão.
Dos edifícios ali escavados, chamam-nos a atenção os restos de uma sinagoga e
os alicerces de uma casa com forte probabilidade de ter sido a residência do apóstolo
Pedro mencionada nos sinópticos como sendo o lugar onde Jesus tomava suas refeições
e algumas vezes dormia. Também foi ali que o Mestre curou a sogra do apóstolo,
episódio referido em Mat. 8:14-15.

1.1 —A Sinagoga Onde Jesus Pregou


A sinagoga foi a primeira das ruínas ali reconhecidas pelo relato do explorador
americano E. Robinson em 1838. Estudos mais recentes revelaram ser aquela uma
construção do III ou IV séculos AD.. No local, foram encontradas cerca de 30.000
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

noedas do período romano tardio, além de várias cerâmicas e pedaços de uma


irquitetura bizantina —elementos que confirmam uma datação tardia para o edifício.
Contudo, sob as ruínas desta sinagoga, mais especificamente sob a nave central,
iá um pavimento de pedras de basalto diferente do encontrado noutras áreas do
ocal; junto dele há cerâmicas, certamente pertencentes a um período bem anterior ao
)izantino. Segundo a opinião de alguns sérios estudiosos este pavimento seria do
século e pode muito bem pertencer à mesma sinagoga dos dias de Jesus referida em
Aat. 8:5-13 e Luc. 7:1-10.1
O costume oriental de construir novos edifícios de culto sempre sobre os
scombros de um outro edifício de culto nos explica o porquê de termos as duas
inagogas a mais antiga e a tardia edificadas no mesmo local. Naquele lugar,
lortanto, nosso Mestre esteve em vários sábados, leu a Torah e pregou a salvação
o povo cafarnaunita.
Conforme as informações dadas pelo evangelista Lucas, a sinagoga freqüentada
or Jesus em Cafarnaum havia sido edificada por um centurião romano de quem Jesus
urara um fiel empregado (Luc. 7: 1-10). Sobre isso temos um escrito do século XII,
nde um certo diácono por nome Pedro, baseado no Intinerarium de Egéria do
Vséculo, afirma que a sinagoga mencionada no Novo Testamento estava no mesmo
igar onde agora estaria a monumental sinagoga bizantina.

1.2 —A Casa que o Mestre Freqüentou


Também em basalto, a 30 metros da sinagoga, estão os restos daquela que seria a casa
: Pedro. Ali Jesus passara muitas horas comendo, conversando, distraindo-se. Hoje, quem
sita o local, vê, elevada por sobre as ruínas, uma igreja moderna inaugurada em
P90. Mas o que nos interessa está embaixo. Logo na superfície, antes de chegar aos
icerces da residência do apóstolo, estão os restos de uma igreja do V século chamada
;reja Octogonal, devido ao formato de sua construção. Abaixo desta estariam os
icerces da casa de Pedro.
Mas como se chegou a esta conclusão? Bem, para responder a esta pergunta,
recisamos retomar um pouco a história das escavações no local. Quase um século e
eio após a publicação das notas de Robinson, os Drs. G. Orfali e A. Gassi
:senterraram os alicerces da Igreja octogonal descobrindo um mosaico que eles
entificaram como um tanque batismal do V século.
Contudo, foi somente a partir de 1968, com o reinicio das escavações, que
nergiu perante os arqueólogos a história daquela construção. Na verdade,
iaixo da igreja octogonal havia ainda dois estratos mais antigos que não tinham
Io devidamente identificados. Um era o alicerce de outra igreja cem anos mais
lha que a octogonal e o outro, abaixo deste, era a base de uma casa particular
: meados do I século.
C a f a r n a u m , a C id a d e O n d e ]e s u s M o r o u

Objetos encontrados na casa de Pedro.

No solo mais profundo (pertencente à casa particular) foram encontrados dois


anzóis de pesca enterrados junto a potes domésticos e lâmpadas de óleo que ajudaram
na datação do estrato e na identificação com a propriedade de um pescador simples da
Galiléia. Mas até aí, o que se podia afirmar com base na evidência arqueológica era que
ali estavam os restos de uma casa particular do I século que pertencera a um certo
pescador. Quanto à tarefa de identificá-la com a casa de Pedro, isto já seria outro desafio.
A peça chave para completar este quebra cabeça veio de uma menção de Egéria
que assim escreveu em 380 A.D.: “A casa do príncipe dos apóstolos foi transformada
numa Igreja; contudo as paredes [da casa] ainda estão de pé como eram originalmente.”
Ora, esta era a chamada domus ecclesia (igreja do lar) muito comum entre os cristãos dos
primeiros séculos que se reuniam em casas particulares com o fim de celebrar a ceia do
Senhor e Santificar o dia de Sábado, ao invés de irem para a sinagoga dos judeus.
Eles temiam edificar igrejas e serem confundidos com uma seita judaica; além disso, em
algumas partes do império o cristianismo era ilegal, pelo que os membros eram obrigados
e se reunir em lugares menos alarmantes.
Às vezes acontecia de um dos membros possuir uma casa maior, com melhor
localização ou que fosse menos suspeita aos romanos e judeus. Quando isso ocorria,
eles separavam aquele lugar como centro fixo de reuniões e davam-lhe o nome de
minim que no latim bárbaro parecia significar “diminuta”, ou “pequenina”.
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

’oto aerea de Cafarnaum. Em destaque nas setas a Sinagogi e a Igreja Octogonal costruída sobre a casa de Pedi:
C a f a r n a u m , a C id a d e O n d e )e s u s M o r o u

Com a conversão de Constantino e conseguinte peregrinação de Helena pelas


[ terras bíblicas, muitas destas igrejas domésticas foram transformadas em capelas menores
ou Basílicas suntuosas dependendo do maior ou menor domínio romano sobre a região.
Deste modo, preservou-se de certa forma, sob o piso de algumas igrejas latinas senão
a forma, pelo menos o local de importantes acontecimentos antigos.2 E evidente, também,
que sucessivas guerras em toda a região da Cisjordânia fizeram com que o piso original
se escondesse sob monturos e mais monturos de construções recentes que devem ser
retirados para encontrar o estrato mais antigo e original.
Resumindo, pois, a casa de Pedro fora usada como local de reuniões ciistãs a partir
de algum tempo dentro ainda do I século. Por iniciativa de cristãos não judeus amparados
pela proteção de Helena, a mãe do imperador, construiu-se uma igreja por cima da residência.
Um século depois, no entanto, ela foi derrubada e deu lugar a outra Igreja bizantina que
pôde ser identificada a partir da última parte da década de 60.

1.3 —Outros Fatos Sobre Cafarnaum


Há outros traços descobertos que revelam em Cafarnaum uma efetiva
ocupação já por volta de dois séculos antes de Cristo. Quando o reino de Herodes
fora finalmente dividido após sua morte em 4 a.C., a cidade de Cafarnaum passou
a pertencer ao domínio de Antipas.
Como a vila era trajeto obrigatório de muitos viajantes que saíam do norte em
direção ao sul, o novo rei resolvera estabelecer no local uma espécie de aduaneira para
cobrar impostos e uma guarnição para controlar eventuais insurreições. De fato,
o evangelho relata que um dos discípulos de Jesus chamado Levi ben Alfeu (Mateus)
trabalhava nesta coletoria quando deixou tudo para seguir o Mestre. Doutra feita,
também menciona um centurião, construtor da sinagoga local, que era homem justo
e solicitou a Cristo que curasse seu empregado.
Some-se a estes itens o considerável número de edifícios em estilo greco-romano,
cujas partes estão sendo desenterradas pelos franciscanos que cuidam dali, mais uma
sofisticada casa de banhos encontrada no local e teremos excelentes subsídios para
confirmar uma efetiva presença romana na localidade.
A despeito, porém, destes aspectos, não se pode dizer que Cafarnaum fosse uma
cidade rica. Pelo contrário, o próprio fato de um gentio ter construído sinagoga local
(Luc. 7:5) implica numa acentuada pobreza da população local. Talvez o lago da Galiléia,
que devido à pequena depressão da época jazia a apenas 300 metros dali, fosse a
principal fonte de subsistência dos camponeses locais.
Porém, a cidade, mesmo sendo pobre, ainda parecia orgulhosa, motivo pelo qual
Jesus lançou-lhe a lamentação descrita em Luc. 10:15. Não obstante, pelo menos num
Um D e sco n h e cid o G a lile u

primeiro momento eles foram mais receptivos à presença e mensagens de Jesus que
os cidadãos de Nazaré onde ele fora criado.
No próximo capítulo, analisaremos dois ensinamentos do Mestre. Neles, poderá ser
visto a atualidade magnífica daquilo que falouJesus e como eram práticas as suas orientações.

Que Diz a Bíblia?


• Os cidadãos de Cafarnaum pareceram no início estar receptivos ao
Cristo (Mar. 1:21 e 22). Agora, porém, num terrível lamento sobre a cidade,
Jesus os chama de impenitentes (Luc. 10:15 e 16). Chega ao ponto de
colocá-la como pior que Sodoma (Mat. 11:23 e 24). Em sua opinião, por
que será que ocorreu esta mudança?
• Como você acha que foi o companherismo de Jesus com Pedro?
O apóstolo entendera, desde o princípio, qual era a missão de Jesus? Será
que eles brigavam ou discordavam entre si como dois bons amigos às
vezes fazem? Mat. 16:15-20; Jo. 13:6-9; 36-38; 21:15-23.
• Você às vezes se sente como Pedro?

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


A subsistência dognpo: com as constantes viagens missionáriasparafora de Cafarnaum,
os apóstolos tiveram de parar com seu oficio e Jesus também deixou de trabalhar como
catpinteiro construtor. Seu sustento e o dasfamílias queficavam em Cafarnaum,fo i provido
pelas ofertas de algumas mulheres (,viúvas?) cujos maridos tinham deixado algumaprovisão
ou herança, que poderia ser a indústria da pesca ou alguma pensão imperial, como
por exemplo, no caso de Joana, a mulher do procurador de Herodes (Luc. 8: 1-3 e
Mar. 15:40 e 41). Entre estas mulheres estava Sahmé, a Mãe deJoão, que, segundo uma
tradição baseada em Jo. 19:25 eMarc. 15:40, seiia irmã de Maria e tia deJesus.

Referências:
1. Veja Shanks, H. e Strange, J. F., “Synagogue W here Jesus Preached Found at Capernaum ”in Biblical
Archeology Review 9:6 (Nov./dez. 1983), pp. 24 — 32; Tzaferis, V., “N ew A rcheological E vidence on Ancient
Carpenaum ”in BiblicalArcbeologist46 (dez. 1983), p. 201; Loffreda, S., “Ceramica ellenistdco-romana nel sottosuolo
dells sinagoga di C arfanao” in Stadia Hierosolytnitana 3 (1982), pp. 313 —357.
2. Faz-se necessário uma ressalva para dizer que nem todas as Igrejas latinas erguidas por Helena são
testemunhos seguros de locais históricos relativos ao Cristo. M uitas delas foram fruto de especulação e excesso de
pietismo religioso.
CAPÍTULO 14

t
A n a l is a n d o D o is E n s in o s D o
G rande M estre

1 - Qual o Sentido da Oração?

chamada oração do Senhor, ou oração do Pai Nosso, está registrada em


A dois dos quatro evangelhos. Lucas se limita a dar um resumo da oração,
dizendo apenas que os discípulos pediram a Cristo que os ensinasse a orar assim
como João fizera com seus seguidores. Mateus apresenta, além do modelo oferecido,
uma série de pequenas regras práticas que deveriam ser seguidas quando estivéssemos
conversando com Deus. Uma efetiva comparação destas regras com os costumes
litúrgicos da época poderá nos oferecer interessantes conclusões.
Os ensinos de Jesus, registrados em Mat. 6:5-8, podem ser assim sumarizados:1

Os religiosos: Como costumavam orar: Como deveríamos orar:

Judeus da época.2 Com ostentação e exagera De modo íntimo e


discreta
Gentios da época. Com vãs repetições. Com serem confiança.

Na prática é que se vê a coerência do que foi dito por Jesus. No caso do


exibicionismo religioso dos fariseus, havia dois problemas básicos: primeiro a exaltação
própria e, segundo, o êxtase descontrolado que se assemelha em resultados ao problema
do comportamento dos gentios que logo mais analisaremos.
Ele primeiro diz que os exibicionistas gostam de ser “vistos pelos homens”.
Literalmente temos a palavra grega theathénai que deu origem ao vocábulo português
“teatralismo”. Noutras palavras, os que se exibem em orações públicas estão apenas
“interpretando o papel de piedosos sem que o sejam de fato”. Até hoje, é notório
como alguns judeus ortodoxos, a despeito da reclamação contra as fotos, parecem
“gostar” de serem admirados por turistas que ficam filmando e fotografando suas
demoradas rezas junto ao muro das Lamentações em Jerusalém.
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

O outro problema da extravagância, é que esta pode levar a uma histeria coletiva
se praticada em excesso por mais de um indivíduo. No oriente antigo e moderno
é comum as entonações religiosas de lamentação elevadas a Deus. Este lamentar é
um antigo verbo grego (koptó') que significa “cortar”, ou “cortar-se a si mesmo”,
se estiver na voz média. Trata-se de um tipo fanático de emocionalismo que leva
as pessoas a retalharem seu próprio corpo a fim de expressar uma profunda angústia
ou um descontrolado êxtase religioso. Um exemplo típico disto pode ser visto no
episódio entre Elias e os profetas de Baal no monte Carmelo quando estes, em
extrema aflição pelo silêncio do seu deus, começaram a cortar o próprio corpo
com facas e lanças (I Reis 18:28).
Depois do sentimentalismo excessivo, Jesus critica a repetição desnecessária de
preces decoradas sem nenhum sentido efetivo. A expressão grega (battologein) traz
uma forma verbal de difícil significação etimológica. Robertson3 a explica como sendo
mera onomatopéia (blá-blá-blá), já Albright4 e Johnson3 a entenderam respectivamente
como “gaguejar” e “tagarelar” e Adam Clark6, na mais interessante explicação do
termo, cita uma informação atribuída a Seudas, onde o termo original seria battos,
uma palavra mormente traduzida por “gago” e “tagarela”, mas que nos seus primórdios
significaria o nome de um homem compositor de hinos muito prolixos com
desnecessária repetição de idéias.
Nesta mesma linha, há um testemunho de Heródoto (4,155) sobre um rei Cirene
chamado Battus que era terrivelmente gago. Estes pareceres não precisam se excluir
mutuamente. Antes, em sua variedade, podem ajudar-nos a compreender melhor o
significado do dito de Jesus. A palavra polulogia (excesso de palavras), que está logo
abaixo na mesma unidade literária de Mateus, também nos ajuda a entender as
“vãs repetições” como abrangendo tanto as recitações declamativas sem sentido quanto
o excesso de formalidade na prece elevada a Deus. Há quem diga que Battologéu
significa o falar do papagaio!

2 - 0 Principal Mandamento da Lei


Certa vez Jesus foi abordado por um doutor da lei que lhe perguntou qual era o
principal de todos os mandamentos. Em síntese, Jesus combinou Deut. 6:4 com
Lev. 19:18 e lhe respondeu que era amar a Deus e ao seu próximo. Este episódio está
relatado em Marcos 12:28-34 e Mat. 22:34-40.
Pela tradição rabínica mais antiga, a maior de todas as questões, a qual somente
os grandes mestres do judaísmo poderiam responder, tinha a ver com a essência da
Lei. Qual o melhor dos mandamentos que abarcaria a todos e lhes seria superior?
O tratado mishnaítico do Virkei A bhot (a ética dos Pais) está cheio de aforismos
e tentativas de resumo da lei no menor corpo possível de princípios éticos.
r A n a l is a n d o D o is E n s in o s D o G r a n d e M e s t r e

Uma tarefa, deveras, difícil, senão impossível, de ser cumprida. Se juntássemos todos
os mandamentos, normas e preceitos dados na lei mosaica teríamos um total de 613
regras consideradas irredutíveis e calculadas por Maimônides (1180) em 365 proibições
e 248 ordens positivas (.Sefer há-Mit^yot)
Contudo, houve interessantes tentativas. Um rabino, certa vez, comentou numa
preleção a sabedoria dos homens do passado. Moisés dera ao povo 613 mandamentos,
mas o rei Davi reduzira-os a onze (Sal. 15:2-5), Isaías a seis (Isa. 33:15), Miquéias
a três (Miq. 6:8), Amós a dois (Amós 5:4) e Habacuque a um (Hab. 2:4).
O rabi Hillel (20 a.C.) deu um parecer muito próximo do que haveria Jesus de
responder no futuro. Inquirido por um gentio acerca de qual a quintessência das leis
judaicas ele respondeu: “O que você não faria a si mesmo, não faça ao seu vizinho.
A Torah se resume a isto; o resto é comentário.” (B. Shabbath 31a). Também o Rabi
Akiba (martirizado em 135 A.D.) disse que Lev. 19:18 é o grande mandamento da lei.
Tentativas à parte, o fato é que rabinos mais tardios entenderam ser impossível
resumir a lei. Diziam eles em consenso que “não há mandamentos que sejam maiores
nem mandamentos que sejam menores”.7
Jesus, porém conseguiu este feito. E, num aspecto, superior a todos que tentaram
fazê-lo antes e depois dele mesmo. Só por ter conseguido sintetizar a lei, Jesus já poderia
ser considerado um grande rabi. Contudo, a grande diferença entre o seu “resumo” da
lei e aqueles tentados por outros é que Jesus deu a chave distintiva do verdadeiro servo
do reino celeste. Ele cumpre a lei por amor. Ele ama a Deus e ama o seu irmão.
Nas demais sínteses, foram ditas coisas sábias e justas. Porém, o máximo que
elas conseguem na prática é classificar os homens como competentes e incompetentes,
mas nunca como verdadeiros ou falsos servos de Deus. Um legalista, bem treinado
em ambiente militar e acostumado à rigidez das regras, pode muito bem guardar os
mandamentos à risca. Mas somente um verdadeiro converso, descendente pela fé de
Abraão, pode fazer isto por amor.8
E interessante que a idéia de amor em hebraico (Ahabh) é muito mais do que
mero sentimentalismo. E uma decisão da alma, uma tomada de atitude, enfim, uma
escolha. O amor a Deus e ao próximo, na Bíblia, é a adesão consciente a uma pessoa
que escolhemos amar. Esta escolha, motivará todo o resto.9
Na versão de Lucas, é um intérprete da lei quem faz este resumo e não Jesus
(Luc. 10:25—28). Mas isto não indica uma contradição entre os sinópticos.
O resumo de Jesus foi um silenciador de vozes lançado sobre um grupo (fariseus ou
escribas?) que queria colocá-lo à prova. Passado algum tempo um doutor da lei, que
mui provavelmente vira a discussão anterior de Jesus com aqueles homens, tentou,
como eles “testar” Jesus. E perguntou-lhe, “que farei para herdar a vida eterna?”.
Quando o Mestre devolveu a inquirição (o que diz a lei?), o jovem repetiu as mesmas
palavras de Jesus, pensando que com isso desarmaria o raciocício do Nazareno ou,
no mínimo, ganharia seu louvor (algo muito prestigiado por rabinos novos).
Por isso vêmo-lo em Lucas como autor do dito resumo.
U m D e s c o n h e c id o G a l i l e u

Foram ensinos como estes que provocaram, de certo modo, a ira de um grupo
não convertido. Com o passar do tempo, o ciúme dos líderes judaicos estava tão forte
que Jerusalém tornara-se um lugar perigoso e evitado por Jesus. Porém, ao final de
seu ministério Ele sente que deveria ir para lá, oferecer à cidade seu último apelo de
conversão. A seguir, estudaremos sua chegada à cidade querida e os eventos que
marcaram sua entrada triunfal como Rei dos judeus.

Questões Para Análise e Reflexão


•Sob que condições Deus atente a uma oração? Tiago 1:6-7; 4:3;
Sal. 66:18; Mat. 11:24; Isa. 59:1.
• Quais são os dois elementos básicos no conteúdo de uma oração
sincera? Fil. 4:6
• Como será a oração meditativa de alguém em paz com Deus? SaL 104:34
• Qual é a natureza da lei de Deus? Rom. 7:14
•Por que Cristo reprovou o legalismo dos fariseus? Mat. 15:3-9.

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Uma clara diferenciação entre as repetições judaicas na hora da prece e a
oração ensinada pelo Senhorpode ser vista neste quadro comparativo:

Oração litú rg ica do Ico m K ip p u r que o Prece singela ensinada jx > rJesus e conheàda
Th/m ude apresenta como ensinada p e lo com) a oração do P a i JSbssa
R a b i ^Akdba. E a oração do ^ h rin u
M zlkenu.

P a i nosso e nosso Rei, pecarm s contra ti. P a i nosso que estás no céu,
P a i nosso e nosso Rei, tu és nosso único rei. Santificado seja o teu nome,
P a i nosso e nosso Rei, fic a ao nosso lado Venha o teu reino,
p o r causa do teu nome. Seja feita a tua vontade assim na terra como
P a i nosso e nosso Rei, m iovapara nós um no céu
ano Ixm Of>ão nosso de cada d ia nos dá hoje,
P a i nosso e nosso Rei, cancelapara nós todo JEf/erdoa as twssas dívidas assim como nós
m al decretada jDerdoamos aos nossos devedores,
P a i nosso e nosso Rei, apagp. os desígios de E n ã o nos deixe ca ir em tentação,
nossos ininiops. JS/hs livra-nos do mal.
P a i nosso e nosso Rei, destroça o conselho
de nossos inim igos.
A n a l is a n d o D o is E n s in o s D o G r a n d e M e s t r e

P a i nosso e nosso Bei, afasta de nós a angustia


e a optvssãa
P a i nosso e nosso Bei, afasia d osjilh os da tua
aliança a peste, a espada, o m d, a for/%, o
caávám, o despm^f), a destnéção a derrota.
P a i nosso e nosso B ei, envia a atra totalpara
os doentes do tm pom
P a i nosso e nosso Bei, que a tua herança não
sepetra.
P a i nosso e nosso Bei, lerrbre-te de que so/m spó.
P a i nosso e nosso Bei, p>erdoa todas as nossas
trangressões.
P a i nosso e nosso B ei...

São seis pedidos no Pai nosso contra mais de 18 na oração do Talmude.

Referências:
1. Baseio este estudo em m inha m onografia não publicada “U m a Análise Exegética de M ateus 6:5 —8” ,
arquivada no Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, Belo Horizonte, 1996.
2. No texto cognom inados “hipócritas”, um a referência especial de M ateus para referir-se aos sacerdotes,
fariseus e dem ais representantes do povo.
3. Robertson, A. T., op. cit., vol. I, p. 64.
4. Albright, W. F., The GospelAccording Matthew [The Anchor Bible], N ew York: Doubleday, 1982, vol. 26, p. 75.
5. Johnson, S. E., “The Gospel A ccording M atthew”, in The Interpreter's Bib/e, vol. II, p. 307.
6. Clark, A., The New Testament o f onr Lord and SaviorJesus Christ, N ew York: Abingdon Press, s.d., vol. I, p. 84.
7. Citado no Interpreter's Bible, vol. 7, p. 846.
8. Leia o poem a “D eus precisa de G ente-Gente” de Rosana Pulga in No men Deserto uma Torça, São Paulo:
Paulinas, s.d., p. 13.
9. M iquéias é o que chegou m ais perto. Porém em seu texto o objeto do am or é a m isericórdia e não as
pessoas, ainda dispõe o princípio acim a do indivíduo.
CAPÍTU LO 15

t
Je s u s V e m a Je r u s a l é m

proximando-se do final de seu ministério, Jesus resolve subir a Jerusalém


A vindo de Jericó onde estivera desde sua última descida da Galiléia para o
sul. Antes, porém de entrar na cidade, ele decide parar e descansar na casa de seu
velho amigo Lázaro que ficava em Betânia (atual el-Azariye). O vilarejo distava apenas
3 quilômetros das muralhas da cidade, na vertente leste do monte das oliveiras.
De lá, Jesus seguiu com os discípulos (não somente os doze, mas um grupo
maior) até Betfagé (Casa dos Figos).1Sem entrar no vilarejo, mandou que dois de seus
seguidores tomassem com um colaborador do grupo um jumentinho emprestado
para que o Mestre pudesse, assim, entrar em Jerusalém.
João nos diz que os discípulos a princípio não entenderam a atitude de Jesus
(Jo. 12:16). Até ali ele evitara a todo custo ser proclamado rei. Preferira a discrição e
afirmou reiteradas vezes que seu reino não era deste mundo. Por que agora tomava
aquela atitude? E evidente que o Senhor conhecia as conseqüências de tal proclamação
pública. Contudo, percebendo que seu ministério estaria chegando ao fim (e de qualquer
forma encararia a cruz), resolveu fazer uma derradeira e mais ampla proclamação de
seu messianismo. Com este fim, convocou seus seguidores e colaboradores, talvez
umas cento e poucas pessoas (Atos 1:15), que voluntariamente o seguiram a pé até o
local onde ele montou o jumento.
Foi a partir daí, entre a subida e depois descida do monte das oliveiras que a
comitiva começou a aclamar Jesus como rei dos judeus (Luc. 19:37). A sua frente,
outra multidão de pessoas curadas ou simpatizantes do Nazareno, permanecia à espera
de Cristo evidenciando que a entrada triunfal foi algo previamente planejado, senão
em detalhes, pelo menos em parte (Mat. 11:9). Que a multidão aclamava-o como rei,
torna-se óbvio pelos gestos de reverência muito parecidos com os recebidos por Jeú
quando este foi proclamado rei de Israel (II Reis 9:13).
Ao contrário da tradição católica relativa ao Domingo de Ramos, estes galhos
não eram usados para acenar como faziam com os hilab na festa dos tabernáculos,2
mas para forrar o chão à medida que Jesus ia passando. Era talvez uma forma dos
mais pobres, que não tinham a capa de cima, usarem as folhas como substitutas das
vestes que eram lançadas para que o rei passasse por cima delas (Mar. 11:8).
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

Era precisamente um domingo, seis dias antes da festa da páscoa que inundaria
Jerusalém de peregrinos judeus vindos de todas as partes para as festividades religiosas.
Do alto do Olival, Jesus pára por um instante com sua comitiva e contempla o cenário
da cidade com tremendo destaque para o seu Templo. Sua visão não poderia ser mais
contraditória, um misto de beleza e temeridade, religião e apostasia. Assim era o Israel
contemplado por nosso Senhor.

1 —0 Templo
De cima do monte, era clara a visão do pátio do Templo repleto de pessoas em
suas mais diversas atividades. Em termos de edificação, esta deve ter sido uma suntuosa
paisagem vista por Jesus. O mesmo, contudo, não se pode dizer da ação do povo.
O Templo, outrora destruído pelos Babilônios e danificado por Antíoco, estava
agora entre as maiores construções empreendidas por Herodes, o Grande. Embora
boa parte do edifício já houvesse sido reerguida desde os tempos de Esdras e Neemias,
foi este rei quem deu definida suntuosidade ao edifício sagrado aumentanto, inclusive,
sua área e tamanho. O projeto de reforma e amplicação herodiano foi uma grande
obra iniciada entre 20 e 18 a.C., que levou mais de 50 anos para ser concluída
(Jo. 2:20) e empregou cerca de 18 mil pedreiros. Como seu acabamento só se deu em
68AD,é obvio que Herodes não vislumbrou totalmente o fruto de sua engenharia.3
Hoje, o conhecimento que temos do Templo, se deve praticamente às descrições
de Josefo, da Mishná (tratado M idclotiíf e às explorações arqueológicas da região.
Das escavações ali empreendidas, a de C. Warren entre 1867 e 1869 foi a pioneira e
talvez uma das mais significativas. Suas descobertas iluminaram significativamente as
pesquisas e levantamentos feitos por C. Wilson em 1964 numa das mais valiosas
descrições imaginárias do segundo Templo.
Mais recentemente, entre 1968 e 1978, novas escavações foram feitas de modo
extensivo ao longo dos lados sul e sudeste. À frente do trabalho estava o Dr. B. Mazar
da Universidade Hebraica de Jerusalém que muito contribuiu para uma mais atualizada
reconstrução artística de como seria o Templo visto por Jesus.
Pelos resultados deste montante de pesquisas e escavações, concluiu-se que Herodes
expandiu a área do Templo para além da dimensão natural do monte Moriá sobre o qual
ele fora edificado. Este mesmo monte, segundo a tradição bíblica, teria sido o local
onde, outrora, Abraão quase levara a efeito o ato de sacrificar seu filho a Deus.
O chamado Templo Monte (ou H ar ha Bejth, porque a área era de fato uma
montanha) possuía originalmente um recinto fechado de formato retangular com os
lados possuindo um cumprimento irregular. O maior era o lado oriental com a extensão
de sua muralha atingindo perto de 485 metros. Os muros norte e ocidental mediam
Je s u s V e m A Je r u s a l é m

respectivamente 315 e 485 metros de comprimento. E o muro do sul, o menor de


todos media 280 metros de extensão. Estas são medidas, evidentemente, aproximadas
e os comprimentos podem variar de acordo com diferentes pesquisadores.
Os muros em si não eram Jisos como hoje se vê, mas eram cunhados com frisos
típicos que contornavam o bloco como uma borda em baixo relevo (característica
precisa do período herodiano). Cada pedra usada na construção das muralhas do
Templo media de 1 a 2 metros de altura, com comprimento horizontal de até
23 metros. Mas a largura parece ser uniforme (algo em torno de 3,5 metros). O peso
médio de cada pedra variava em torno de 50 toneladas ou mais. Só no canto sudoeste
foi encontrada uma pedra de esquina cujo peso é estimado em 100 toneladas. Estas
medidas e estes pesos nos ajudam a entender melhor a admiração dos discípulos ao
mostrarem para Jesus a suntuosidade das pedras e da construção do Templo.
Qual não deve ter sido sua supresa ao Jesus profetizar-lhes que ali não ficaria pedra
sobre pedra que não fosse derrubada! (Mar. 13:1)
As técnicas usadas na construção ainda não são totalmente claras. As pedras
presumivelmente foram carregadas do norte de Jerusalém até ao monte Moriá,
o que, de qualquer forma, exigiu dos operários grande força e desembaraçada habilidade
braçal, devido ao exagerado peso de cada bloco maciço.
A área interna do Templo media 144.000 m. - o que, deveras, não o deixa em
nenhuma desvantagem, se comparado a outros famosos santuários do mundo clássico.3
E evidente, também, que a área interna era desenhada de modo a ser uma simetria
complexa, incorporando restos do antigo Templo ao leste, sobre a base de um gigantesco
pátio com o novo Templo no centro. Esquizofrenias reais à parte, Herodes fora de fato
um gênio das construções. O erguimento de tal complexo sobre uma colina, onde as
condições de edificação eram totalmente desfavoráveis, é algo realmente impressionante.
Neste imenso pátio, havia átrios separados para classe de pessoas. Os mais
“consagrados” na visão religiosa da época tinham acesso mais franco ao lugar
Santíssimo, no fundo do Templo, enquanto que os outros, variando a “casta” ficavam
em áreas mais afastadas. Assim temos em ordem de prioridade sacramental: o átrio
dos sacerdotes, depois dos homens (ou israelitas), das mulheres e finalmente dos
gentios. Neste último e mais afastado pátio havia ainda câmaras especiais para os
leprosos e os que faziam voto de nazireato.
Sobre o Templo propriamente dito, isto é, seu edifício, as pedras que compunham
sua parede eram diferentes daquelas usadas para edificar os muros. Eram calcárias
brancas cortadas com precisão e polidas. A estrutura anterior fora desnuda até aos
fundamentos e foram feitos novos alicerces. Segundo o desenho de uma moeda de
Bar Kochba, a lembrança que tinham do Templo 65 anos depois de sua destruição
U m D e s c o n h e c id o G a l i l e u

apresentava quatro colunas na faixada (oito ou doze no total) que talvez sustentassem
um telhado plano. Acima do telhado parecia haver uma estrela (embora isto possa ser
apenas um enfeite da moeda).
Quanto às dimensões aproximadas, o lugar santo deveria ter em torno de
20 metros de comprimento por dez de largura e trinta de altura. No seu interior
haveria um candeeiro de ouro, a mesa com os pães da proposição e o altar de incenso.
No fundo havia um véu ou dois6 para separá-lo do lugar santíssimo que possuía
dimensões menores em torno de 10 metros quadrados por 30 metros de altura.
Ali não havia mobília, mas apenas uma pedra que, desde Zorobabel, ficava ao centro
do cômodo em substituição simbólica à arca da aliança desaparecida desde os tempos
de Jeremias.7Com efeito, aquele era considerado um lugar inviolável.

Maquete do Templo como seria nos tempos de Jestis.

2 - Jesus Diante da Porta Dourada


A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém foi um dos pontos mais altos de seu
ministério. Vindo desde o vilarejo de Betânia, o Mestre escolhera a estrada mais direta
que passava pelo dorso do monte das Oliveiras, indo em direção à porta oriental que
dava acesso à entrada oeste do Templo. Pelo relato de Marcos (11:11), já era tarde
quando a comitiva que acompanhava o Senhor chegou às muralhas da cidade.
Jesus V em A Je r u s a l é m

Por este detalhe da narrativa, podemos, com muita probabilidade, supor que tal
acontecimento se dera por volta das 15 horas, ou seja, no momento em que era realizado
o sacrifício da tarde e o pátio do Templo se encontrava repleto de adoradores.
Montado sobre o jumentinho, Jesus caminhou em direção à porta se Shaar Ha
Rakmim ou porta da misericórdia que hoje é conhecida como porta dourada. Esta era,
sem dúvida, a mais óbvia passagem para quem estivesse vindo do alto do monte Olival.
Ao atravessar as imensas colunas em direção ao pórtico9 real do lado sul, Jesus
começou a sentir ainda mais o peso da realeza que o povo impunha sobre seus ombros.
A própria exclamação popular, que é a citação do Salmo 118: 26, sugeria um acréscimo
apelativamente político ao conteúdo da passagem. Enquanto o salmo apenas diz “bendito
o que vem em nome do Senhor”, eles acrescentavam o clamor “hosana” que é a versão
hebraica do “salve” latino (ave) oferecido aos imperadores romanos (“ave Cesar”).
Em seguida, evocando talvez num lema preparado para a ocasião, eles prosseguiam
dizendo: “bendito o Reino que vem do nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos
céus” (Marcos 11:9-10).
Uma vez dentro das dependências sagradas, Jesus andava vagaroso por entre as
majestosas paredes que, de acordo comjosefo, dispunham de 162 colunas monolíticas.
Ali fúncionavam várias salas chamadas hanuyyoth , que serviam de escritórios para os
cambistas e lojas para os comerciantes que Jesus haveria de expulsar na manhã do dia
seguinte (Marc. 11:11—15).
Mas, voltando um pouco o transcurso dos acontecimentos, imaginemos Jesus
momentos antes de entrar pela porta dourada. Segundo os evangelistas, os Fariseus,
Escribas e outros representantes do povo, temendo que o Mestre Galileu fosse aclamado
rei, insistiram com ele para que mandasse seus discípulos se calarem. A isto Jesus
respondeu que, ainda que eles se calassem, as próprias pedras clamariam (Luc. 19:40).
Por esta declaração podemos pressupor duas explicações: uma metafórica onde
as pedras representariam os gentios que estavam no local e que presenciavam
o acontecimento. Tanto o é que Lucas dará redobrada ênfase à inegociável atitude de
Pilatos de dizer que Jesus era rei (23:38) e testemunha a afirmação do soldado romano
de que ele era justo (23:47).
Por outro lado, também, podemos entender nestas pedras uma alusão literal não
excludente, mas companheira da anterior. Observando os enormes blocos a que já
fizemos referência, Jesus profetiza que estes haveriam de testemunhar sua entrada
triunfal na cidade. Neste sentido, suas palavras parecem ser um midrash do oráculo de
Ezequiel 44:1 e 2. Lá, o profeta é ordenado voltar-se para a porta oriental da cidade
(precisamente a mesma porta dourada por onde entrou Jesus). No entanto, para surpresa
sua, eis que a porta jazia fechada. O motivo disto? O Senhor Deus de Israel entrou
por ela, por isso haveria de permanecer fechada.
Depois da morte de Jesus, a porta dourada permaneceu ainda por algum tempo
sem nenhuma novidade que lhe dissesse respeito. Do ano 70 em diante, por diversas
Um D e s c o n h e c id o G a l i l e u

vezes as muralhas foram quase totalmente destruídas. A porta dourada, no entanto,


teve uma boa parte de seu alicerce preservado. E a cada nova edificação, o plano
geográfico daquela entrada era mantido exatamente como era nos tempos de Jesus.
Apenas com uma diferença: seu acesso era mantido sob bloqueio.10 Mas por quê?
De um modo incrivelmente histórico, após a entrada triunfal de Jesus, a porta da
misericórdia ou porta dourada foi motivo de muitos seleumas político-religiosos dentro
de Israel. Durante muito tempo, propagou-se entre os judeus e os palestinos que habitaram
a região depois de Adriano, que, no fim dos tempos, o Messias israelita entraria por aquela
porta e tomaria a cidade para seus compatriotas hebreus. Isto posto, havia um certo temor
da parte dos ocupantes gentios de que Jerusalém voltasse para as mãos dos judeus.
No período da ocupação dos mamelucos (1250-1517), a porta, que estava sendo
restaurada para servir de principal entrada à Mesquita de Omar (disposta no local
desde 691), foi misteriosamente interditada. Em 1517, noutra guerra pela ocupação
do local, os otomanos conquistaram o domínio da cidade. Depois disto, em 1542, o sultão
Suleimã, o magnífico, resolveu reconstruir os muros da cidade. Como a porta dourada já
tinha parte de sua estrutura edificada desde, talvez, antes do I século da Era Cristã, ele resolveu
apenas restaurá-la.11
Porém, sem nenhum motivo aparente, mandou que os pedreiros a fechassem
com uma parede de blocos logo após concluída. Segundo a opinião de muitos, ele
temia o cumprimento do oráculo messiânico ou desafiou a tradição impondo um
muro na passagem. Além disso, sabedor de que o Messias jamais pisaria num
cemitério, porque era um sacerdote judeu, ele pôs à entrada da porta várias
sepulturas que existem até nossos dias.

Gonden Gate:
A porta Dourada.
Je s u s V e m A Je r u s a l é m

Quase dois mil anos já se passaram desde as palavras emitidas por Cristo junto à
porta oriental do Templo. O fato, tremendamente interessante, é que ela permanece fechada
e muda. Porém, no seu silêncio, esta porta testemunha que a profecia é precisa, pois o
Messias Divino passou através dela. A cada dia, portanto, as pedras clamam novamente!
A despeito de toda a sua importância histórica e profética, a entrada triunfal e o
solene oráculo da porta fechada constituem apenas parte de um drama ainda maior.
Jesus sabia muito bem o que o aguardava quando chegasse em Jerusalém. A ira de
seus inimigos certamente aumentaria após aquela aclamação popular e a trama para
matá-lo seria planejada em caráter de urgência. No prosseguimento de nossa
apresentação, veremos os motivos políticos e pessoais que motivaram aos líderes judeus
agirem como agiram para garantir a condenação e morte do Filho de Deus.

Questões Para Análise e Reflexão


•C om pare os detalhes da entrada triunfal (Mat. 21:1-17;
Luc. 19:28-40; Jo. 12:19; Mar. 11:1-11) com o desânimo dos discípulos
após a morte de Jesus (Luc. 24:13-38). Como você avalia a decepção do
grupo? Se estivesse entre eles, continuaria crendo em Jesus ou consideraria
a cruz como certeza de que ele não passava de mais um lunático aliciador?
Estaríamos nós preparados para possíveis decepções?
• Tudo parecia indicar que Jesus seria ungido rei de Israel. No momento
decisivo, porém, ele é crucificado e morre sem assumir o trono de Davi. Isto
com certeza foi um desapontamento para os discípulos. Tente, agora, encontrar
na história do cristianismo outros momentos de desapontamento que sejam
análogos à provação enfrentada pelos primeiros seguidores de Jesus.

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


Nas casas defamíliasjudaicas mais religiosas, podemos encontrar no umbral
das portas um sinal chamado Mesytqab. Trata-se de uma pequena peça
de metal, madeira ou pedra. Dentro dela há um pequenino rolo contendo
os textos de Deut. 6:4-9 e 11:13-21. Além disso há grafada
a penúltima letra do alfabeto hebraico que é a letra Shin. Seu significado
é especial na cultura hebraica porque ela inicia a mais importante citação
que é o Shemá Israel. Por outro lado, também, é a abreviatura da
palavra Shadai (poderoso) da qual fatiem o seguinte acróstico:
Shomer - vigia
Da/ot - portas
Israel - Israel.
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

Referências:
1. A tual El Tut?
2. A Festa dos Tabernáculos acontecia em outubro, a entrada triunfal foi na páscoa que ocorre em abril.
3. C onform e anota A ndreasen: “Os trabalhos de construção com eçaram por volta do ano 20 A.C.
O templo (sie) propriam ente dito foi term inado em ano e meio, m as foram necessários mais oito anos para
term inar o pádo e os aposentos para os sacerdotes. S. João 2:20 nos conta que ao tempo de Cristo o templo estava
em construção havia já quarenta e seis anos; com efeito, somente por volta do ano 66 da nossa era, pouco antes da
destruição de Jerusalém pelos romanos, é que o templo foi com pletamente acabado.” Andreasen, M. L., O Ritual
do Santuário, Santo André: Casa Publicadora Brasileira, 1984, p. 32.
4. Para as descrições de Josefo veja: Guerras dos Judeus, V, lOOss; Antiguidades Judaicas XV, ll s s ; XV, 415 ss;
XX, 220 ss. Além de Josefo, há outros detalhes apresentados na e Misbiná Middot, 1 e 2.
5. Para um a descrição de outros templos (embora comparados apenas ao templo de Salom ão), veja Geraty.
L. T., “The Jerusalem Temple o f the H ebrew Bible in its A ncient N ear Eastern Context” in The Sanctnaiy abd the
Atonement [Ed. por Arbnold Wallenkampf] , W ashington DC.: Review and Herald, 1981, pp. 37 —66.
6. Segundo um a nota da misbiná Yoma V, 1, havia dois véus entre o santo e o santíssimo, separados um do
outro por cerca de m eio metro.
7. Andreasen, M. L., op. cit., p. 32.
8. Feller, M ., Jerusalém, a Cidade do Grande Rei, Recife: Editado pelo Autor, 1989, p. 222.
9. Os pórdeos eram grandes átrios possivelm ente cobertos por um a estrutura sustentada por várias colunas
monolíticas.
10. Há várias evidências arqueológicas que nos ajudam a supor que a Porta de ouro que hoje vemos
fechada no muro era a mesma entrada por onde passou Jesus no I Século. No seu canto sudoeste há um amplo
capitel (algumas fotos podem ser vistas em W illdnson, op. cit., p. 85) que assem elha-se bastante ao estilo herodiano.
Além disso, pedras herodianas perm anecem ao longo da base do muro aos lados norte e sul da porta (veja McRay,
op. cit., p. 111). O centro, infelizm ente, não pôde ser escavado devido à presença de um cemitério árabe construído
no local. Contudo, pesquisas realizadas por Jam es Flam ing desde 1969 têm levado alguns estudiosos a acreditar
que, à base da Porta D ourada, estejam os alicerces exatos de outro antigo portal pertencente primeiro século ou
até m esm o aos tempos de Salomão. Cf. Fleming, J., “The Undiscovered G ate Beneath Jerusalem ’s Golden G ate”
in Biblical Archeological Review, 9 (jan./fev. 1983), pp. 24 —37 e Laperrousaz, E. M ., “K ing Solomon’s Wall Still
Supports the Tem ple M ount” in Biblical Archeology Review 13 (May-June 1987) pp. 36 e 36.
11. McRay, J. op. cit., P. I l l
CAPÍTU LO 16

t
A M orte e R e s s u r r e iç ã o

de Je s u s C r is t o

m dos mais belos hinos escritos por Fanny Crosby expressa o grande desejo
U da autora (e, espera-se, de todo cristão) de estar “bem perto da Cruz”, a
rude cruz do Calvário. Naquele momento de sacrifício, céu e terra se uniram e o plano
da redenção foi finalmente executado. Com sua morte, diz o mais antigo credo, Jesus
desceu à mansão dos mortos. Noutras palavras, ele foi aos nossos infernos mais
existenciais e nos deu a esperança de vida eterna junto de seu Pai.
Hoje, por informações históricas e arqueológicas, podemos arriscar uma pálida
descrição do sofrimento físico de Jesus desde a traição no horto, até sua morte na
sexta feira. E evidente que a reconstituição dos fatos se limitará a elementos históricos
que nunca poderão abarcar na totalidade a angústia pela qual passou o Mestre.
Lembremos, ele morreu por nossos pecados.

1 - Quem Matou Jesus: Os Judeus ou os Romanos?


Durante muitos séculos, o povo judeu sofreu a marca indelével de “assassinos
de Cristo” ou “culpados de deicídio”. Isso pesou tanto em fomentar o anti-semitismo
no mundo que até Hitler, úsou este jargão em sua campanha para expulsá-los da
Alemanha. “Tais homens, dizia ele, mataram o Salvador da humanidade.”
A segregação dos judeus continua ativa hoje, só que de modo menos assumido.
As anedotas contadas sempre falam dos judeus como sovinas, trapaceiros e gente de
pouca confiança. Até nossa língua portuguesa permitiu em seu vocabulário as horríveis
palavras “judiar”, “judiaria” e “judiação” que literalmente significam “maltratar alguém,
como é típico do povo judeu” - uma referência óbvia ao que fizeram com Jesus.
Este preconceito vem desde os primeiros séculos da era cristã. Munidos de
boa fé, os cristãos primitivos queriam a todo custo mostrar para Roma que não
eram uma seita judaica com ares de subversão como era típico daqueles mencionados.
Por isso firmaram mais taxativamente a culpabilidade judaica em detrimento
à responsabilidade romana. Orígenes chegou a dizer que o sangue de Jesus caiu não
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

só sobre os judeus daquela época mas sobre todos os seus descendentes até o fim
do mundo (Com entário sobre M ateus, 124).
Contudo, o acento exagerado nesta distinção fez com que a Igreja se afastasse
sobremaneira do judaísmo e se aproximasse, para sua desgraça, da cultura e
subserviência romana. Mesmo antes da pseudo-conversão do Imperador Constantino,
igrejas inteiras pararam de se reunir publicamente no sábado e adotaram a prática de
comer as carnes proibidas de Levítico 11. Tudo isso fizeram, só para serem totalmente
distinguidos do judaísmo. O resultado?! A igreja se apostatou trocando Cristo, que era
judeu, pelo Imperador que era latino.
Hoje, alguns biblistas estão tentando corrigir este erro e preconceito,
redescobrindo o perfil judaico de Jesus e os evangelhos, o que é muito bom.1
Há tempos, a exegese precisava deste retorno às origens judaicas. Não obstante, pelo
que percebemos, o pêndulo exegético de alguns autores está pendendo para outro
extremo igualmente perigoso. O anti-semitismo antes verificado em muitos comentários
está cedendo lugar a um exacerbado cuidado em não ofender jamais o orgulho da
herança judaica. Isso por um lado é bom, mas o preço que os promotores do diálogo
inter-religioso têm pago é um tanto alto para a manutenção do querigma cristão.
Alguns evitam chamar a Jesus de Messias ou Cristo. Outros reduzem a inspiração
do Novo Testamento, igualando Paulo a Hillel. E, por fim, há aqueles que eximem
totalmente o povo judeu de qualquer responsabilidade pela morte de Jesus. Em seu
lugar, culpam os romanos que, para sua própria infelicidade, não deixaram descendentes
“ofendidos” que exigiriam uma mudança do discurso.
Ao nosso ver, o erro está em condenar os judeus de hoje pelo que fizeram seus
ancestrais há quase dois mil anos. Seria como sentenciar à morte um jovem pacato e
honesto, só porque se descobriu que ele era descendente de um criminoso. Noutras
palavras, uma total demonstração de injustiça! Por outro lado, porém, os evangelhos
são claros sobre os judeus do primeiro século: eles pediram a morte de Jesus!
É evidente, contudo, que nem todos os judeus da época se envolveram no
processo condenatório de Cristo. Muitos descendentes de Abrãao estavam espalhados
pela diáspora e nem tomaram conta das coisas que se passavam em Jerusalém.
Mas, no que diz respeito aos líderes da época (e o povo se espelhava nestes líderes)
a rejeição a Jesus fora tal que os evangelistas interpretaram-na como um desprezo
nacional de Israel ao seu legítimo Messias.
Uma multidão que talvez representasse uma considerável parte (senão a maioria)
dos presentes em Jerusalém pediram a Pilatos que crucificasse a Jesus (Luc. 22:2,52, 54;
23:1, 4,13, 35, 51; Jo. 12:42 e 43). Esta atitude, por certo, fora motivada pelos líderes
religiosos que eram os principais interessados na morte do pregador galileu. O que
teria, no entanto, levado as pessoas a apoiarem a decisão do sinédrio em pedir pena de
morte para o Filho de Deus? Esta é uma antiga problemática do mundo acadêmico.
Na teologia medieval, ela era chamada de contradictio in adjecto, ou seja, por que estranha
A M o rte E R e s s u r e iç ã o D e Jesus C r is t o

razão, o povo que antes queria aclamar Jesus como rei, na sexta-feira seguinte, resolve
condená-lo à cruz? Em princípio, três elementos parecem ter motivado esta reação popular:

° Decepção com as palavras pregadas por Jesus —seu sermão não


era politicamente correto, no sentido de omitir verdades para agradar a
maioria. Ademais, Ele Se dizia Deus, o que era uma blasfêmia diante dos
mais conservadores judeus (Jo. 6:41-71; 7:1).
° Jesus não aceitou ser o tipo de Messias que a maioria esperava.
Ele não pregou a revolução contra os romanos, nem incitou os zelotas
à guerra.
• Devido à crescente incredulidade, Jesus diminuíra a manifestação
de milagres e curas na Galiléia. Deste modo, é bem provável que muitos
interessados somente nestes aspectos, perdessem a motivação para segui-
Lo e; estando eles em Jerusalém para celebrar a páscoa, uniram-se aos
inimigos de Cristo com o fim de destruí-lo, pedindo sua morte
(Mat. 13:58; Jo. 6:25-27). Os sinópticos apresentam, por exemplo, o
sinédrio subornando testemunhas vindas de todas as regiões do país,
para apresentarem perjúrios contra Jesus quando estivessem diante de
Pilatos (Mat. 26:57-68; Mar. 14:53-65 e Luc. 22: 66-71).

2 - 0 Processo da Condenação
Na Capítulo anterior vimos que a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a
expulsão dos vendilhões na manhã seguinte foram adotadas pelo povo numa
compreensão altamente política. Como Jesus houvera rompido qualquer possibilidade
oficial de uma aliança com os líderes judeus, estes viram nele uma crescente ameaça
à sua posição e privilégios públicos (Jo. 11:48).
Segundo o relato de João, seis meses antes na Festa dos Tabernáculos, já haviam
intentado prender a Jesus e não lograram fazê-lo (Jo. 7:25-36; 45-52). Na Festa da
D edicação do Templo (nov./dez.)2, incitaram a Jesus para que anunciasse
publicamente ser o Messias Divino, pois assim provocariam, senão o aprisionamento,
pelo menos a agitação popular em querer apedrejá-lo por blasfêmia. Novamente se
viram frustrados (Jo 10:22-42).
Como a ressurreição de Lázaro repercutira uma boa fama a favor de Jesus, desde
então, os líderes judaicos entenderam que só a prisão seria pouco para desmotivá-lo
ou impedir sua fama. Ele precisava ser morto! Talvez, planejaram em princípio um
assassinato, de modo que Jesus evitava estar publicamente entre os judeus (Mat. 26:3-5;
Mar. 14:1 e 2 ejo. 11. 53 e 54). Contudo, percebendo que isso faria dejesus um mártir,
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

como ocorreu com João Batista, julgaram que seria melhor que ele morresse condenado
pela lei (Jo. 11:47-57 e Luc. 22:1-2).
Mas, que crime usariam contra Jesus? A efervescência dos seus seguidores,
mediante sua chegada ao Templo, só confirmava o prestígio cada vez maior que o
Nazareno tinha entre os setores mais pobres da população, ou seja, aqueles mais fáceis
de se envolver numa rebelião contra o sistema (veja Jo. 11:48). Sendo assim, os
sacerdotes e demais membros do Sinédrio temiam que se Jesus intentasse tomar o
poder, ainda que não lograsse êxito contra Roma, conseguiria pelo menos fazer
consideráveis estragos à sua cômoda situação perante o império.
E preciso entender que, ainda que passassem por nacionalistas, os sacerdotes
e alguns dirigentes judeus não desejavam nenhuma mudança na política administrativa
de Roma. O motivo era muito simples: para manter o país subjugado em ordem
e garantir a fama da p a x romana , os latinos ofereciam poder a alguns dentre os
dominados, desde que jurassem combater toda e qualquer forma de rebelião contra o
império. Assim, enquanto reinasse a calmaria, eles seriam amparados pelo imperador
que lhes oferecia prestígio, dinheiro e poder dentro do seu próprio país.
O problema maior era que os judeus radicais como os zelotas (que defendiam
a inssurreição armada contra os opressores) sabiam do jogo duplo feito pelos sacerdotes
e não gostavam disto. Daí o impasse mencionado: caso houvesse uma rebelião, os
romanos poderiam destruir a todos não poupando nem o sacerdócio vassalo. Doutro
lado, também, se os rebeldes vencessem a luta armada e expulsassem os estrangeiros,
matariam os sacerdotes tão logo assumissem o poder, condenando-os por sua covardia
e cumplicidade junto ao poder inimigo.
Para complicar a situação, a entrada triunfal de Jesus se dera exatamente a
poucos dias da festa da páscoa cujo tema, a libertação de Israel, era mais do que
propício a um levante popular. E mais, por alguma razão litúrgica, Jerusalém estaria
cheia de peregrinos no sábado seguinte Qo. 19:31).3Logo, Jesus tinha que morrer
antes disso, senão, nada o impediria de levantar uma revolução a fim de tomar o
poder —assim pensavam os inimigos do Senhor.
Dois obstáculos, contudo, se apresentavam à frente de seus planos: primeiramente,
havia a limitação imposta pelos romanos em seu tempo. Desde o afastamento de
Arquelau eles não eram mais administrados por um rei judeu, mas por um procurador
romanó e somente este poderia sancionar penas de morte; o sinédrio não tinha este
direito (Jo. 18:31).4Em segundo lugar, eles tinham que aproveitar-se de um momento
propício, em que Jesus estivesse solitário, pois seria difícil prendê-lo em meio à multidão
que constantemente o cercava (Luc.22:2).
A oportunidade de traição oferecida por Judas foi a chave mestra de sua estratégia.
Que razões específicas levaram o apóstolo a trair seu Senhor, não o sabemos.
A M o r t e E R e s s u r e iç ã o D e Je s u s C r is t o

O Evangelho se limita a dizer que Satanás instigou-o a fazer isto (Luc. 22:3). Mas, de
qualquer modo, um dentre os doze seria um elemento eficaz para prenderem Jesus.
Afinal, desde a Festa da dedicação, o Mestre Galileu só andava rodeado por seguidores
e simpatizantes, de modo que seria difícil apanhá-lo sozinho (Jo. 11:54).
Saindo nervoso da última ceia, Judas informou os líderes quejesus, dali há poucas
horas, estaria com os discípulos orando no Monte das Oliveiras. Entretanto, era noite e
possivelmete as pessoas estivessem com o rosto parcialmente coberto por causa da
friagem da madrugada.3 Num grupo de mais de dez pessoas seria difícil saber quem era
o Mestre e tudo tinha de ser feito o mais discreto possível. Este problema Judas resolveu
sugerindo uma senha que identificasse qual deles era líder. Um beijo e a saudação “salve
Rabi” indicariam aos soldados qual dos doze era Jesus de Nazaré (Mat. 26:49).
E assim aconteceu. Jesus foi preso e levado até às autoridades judaicas que o
aguardavam na casa de Caifás.6Só o fato de estarem reunidos noite adentro já indica a
tremenda ilegalidade do processo. Primeiro porque os romanos não autorizavam
reuniões judaicas em período noturno devido ao seu tom subversivo. Segundo, porque
o próprio tratado mishinaítico do Sanhedrin 4,1, prescrevia que “em casos de crimes
sujeitos à pena de morte, o julgamento deverá sempre ser feito durante o dia”.
Além disso, a mesma passagem prescreve que nenhum julgamento poderia ser feito
na véspera de um sábado ou de uma festa religiosa.
O fato de haver criados acordados e uma fogueira acesa no pátio da casa leva-
nos à suposição de que todos os arranjos foram feitos para reunir o conselho
e trabalharem em todo o tempo noturno até conseguirem elementos para uma acusação
formal contra Jesus. Falsas testemunhas foram convocadas, mas seu depoimento era
contraditório. Então resolveram acusar Jesus de blasfêmia (Mat. 26:57-68).
Pela referência dada em Luc. 22:60, o julgamento ilegal deve ter terminado por volta
das 2:00 ou 3:00 horas da manhã quando o galo, então, cantava.
Quando raiou a manhã de sexta feira, os líderes judeus mal haviam pregado os
olhos para um breve cochilo. Mesmo assim, novamente reuniram o sinédrio bem
cedo para formalizar a sentença dada durante a madrugada (lembremos, eles tinham
pressa e o interrogatório da noite não possuía valor jurídico). Como Pilatos pouco
ligava para questões religiosas dos judeus, a acusação de blasfêmia de nada adiantaria
para o procurador autorizar a execução (Jo. 18:28-32). Talvez, por isso, ao se aproximarem
do procurador logo de manhã, os sacerdotes mudaram levemente o teor da acusação
dizendo quejesus negava o tributo e pretendia ser Rei no lugar de César - de fato, um
terrível crime contra o império (Luc. 23:1 e 2; Mar. 15:1 e 2).
Contudo, eram tão absurdas as colocações dos líderes em contraste ao silêncio
de Jesus que Pilatos achou impróprio condená-lo à morte. Sabedor de quejesus era da
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

Galiléia e que Herodes estava ali para participar da festa pascal, resolveu enviar-lhe o
caso para, quiçá, livrar-se daquele julgamento (Luc. 23:5-12). Herodes, porém,
ridicularizando a situação vestiu Jesus com um manto aparatoso e devolveu-o a Pilatos.
O procurador romano acuado pela pressão dos judeus, resolve agir com outra
estratégia, propondo a escolha entre Jesus e Barrabás. Novamente se frustra, pois o
povo escolhe o salteador. Então ele, numa derradeira tentativa, ordena aos soldados
que açoitassem o prisioneiro, pensando que assim conseguiria acalmar os ânimos do
povo. Até que, finalmente, com medo da pressão política que isto podia causar,
autorizou os judeus a crucificarem-no.

3 —0 Açoitamento e Humilhação de Jesus Cristo


A condenação final de Jesus aconteceu no pretório, ou seja, a residência oficial
de Pilatos em Jerusalém. Em 1856, o padre Alphonse Ratisbonne, co-fundador da
ordem dos Padres de Sion, comprou um sobrado perto do arco chamado Ecce Homo
onde, desde a Idade Média, se cria ser o local onde Pilatos pronunciou as palavras:
“Eis aqui o vosso rei”.
Investigações posteriores demonstraram que este arco era parte de um arco tríplice
construído por Adriano em 135 A.D. Contudo, no trabalho de remoção de entulho
com o fim de ampliar o convento para as religiosas de Sion que ficaram responsáveis
pelo lugar, descobriu-se uma plataforma muito antiga por baixo dos arcos de Adriano.
Escavações feitas pelo Dr. Hugues Vincent em 1930, revelaram ser aquele lugar
o palácio de Antônio datado dos tempos do Novo Testamento. Entre as ruínas foram

Antiga plataforma
(Lit/josto/os) sob o Ecce
Hommo. A s marcas no
piso revelamjogos e
passatempos usados pelos
soldados romanos durante
os momentos defolga ou
troca de guarda.
A M o r t e E R e s s u r e iç ã o D e Je s u s C r is t o

encontradas plataformas maciças que formavam parte do antigo pátio. Sobre estas
lajes estavam gravados alguns jogos que os soldados romanos usavam para passar o
tempo. Ali também achavam-se ossos usados como dados.
Uma destas plataformas pode ter sido usada para a humilhação de Jesus, quando
os soldados lhe bateram e lhe chamaram rei, pois as descrições deste pavimento
(Lithóstotos) é tremendamente harmônica com o que nos diz João 19:13.

4 - A Cruz
No tempo dos romanos a morte por cruz era algo tão horrendo que nos meios
latinos a palavra cruno passou a designar todos tipo de sofrimento em geral. Segundo
dados históricos, havia quatro tipos de cruzes: a comissa (em forma de T), a decussata
(em forma de X), a grega (em forma de + ) e a timissa (em forma de f ). Como se
pode ver, a última delas se refere àquela cruz que conhecemos tradicionalmente nos
diversos quadros e pinturas da cristandade. Sua escolha se deu primeiramente devido
a vários detalhes apresentados nos evangelhos canônicos. Primeiramente vemos que
somente ela e a cruz grega permitiam a colocação de qualquer placa acima da cabeça
do condenado, como a Bíblia diz que ocorreu com Jesus (Mat. 27:37).
Dentre estas duas, porém, somente a timissa (também chamada latina), por ser
exageradamente mais alta, condiz com as demais características esboçadas nos
Evangelhos. Segundo o que lemos em S. João 19:29 e 34, a cruz de Cristo não podia
ser baixa, caso contrário, os soldados não precisariam de um caniço para alcançar sua
boca nem de uma lança para perfurar-lhe a costela (uma espada seria mais adequada).
A outra cruz grega nunca ultrapassava a altura de dois metros, para facilitar o ataque de
lobos e hienas que dilaceravam a carne dos condenados nesta forma de martírio (damnati
ad bestias). Por isso, ela não deve ter sido o instrumento usado para matar Jesus.7
As cruzes romanas geralmente possuíam duas partes. No caso específico da
timissa , havia o stipes, oú sejam a parte vertical que geralmente ficava no lugar do
suplício e o patibulum que era o travessão carregado pelo condenado até ao local da
execução. A primeira peça media 4,80 metros e pesava 70 kg . A segunda media de
2,30 —2,60 metros com peso de cerca de 30 kg.8A cruz completa, pois, pesava em
torno de 100 kg, o que torna difícil acreditar que Jesus e depois Simão Cirineu
carregaram-na completamente montada. E bem provável que quando os evangelhos
mencionam o transporte da cruz sobre os ombros do Mestre, referem-se apenas ao
patibulum e não às duas peças.9
No local da crucificação, é provável que o stipes permanecesse deitado no chão
à espera da parte que lhe completava. Sobre ele, então, fixavam o patibulum e, em
seguida, pregavam a vítima. Depois soerguiam a peça inteira até que caísse com violência
num buraco previamente preparado para este fim.
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

4.1—APosição do Crucificado
Em junho de 1968, um ano após a guerra dos seis dias, as tropas israelenses
ocuparam Jerusalém e dali comandavam as novas construções. Há cerca de 2 km da
cidade velha havia um lugar chamado Givat há M ivtar (Colina da Fronteira) que o
governo mandara aplainar com o fim de construírem um conjunto de prédios
residenciais. Acidentalmente os tratores encontraram quinze túmulos de pedra
que continham esqueletos de 25 pessoas.
O Dr. Vasilius Tzaferis, diretor do departamento de Antiguidades e Museus
do Estado de Israel, foi ao local e constatou, depois de muitas pesquisas, que
estes eram túmulos que podiam ser datados desde 70 a.C. até 70 d.C.. Sua atenção
voltou-se mais especialmente para uma caixa que continha a ossada de uma
criança e um jovem adulto. Fora estava o nome aramaico Yehohanan que muito
provavelmente se refira ao mais velho dos esqueletos. O mais interessante, porém,
é que a ossada do adulto possuía um cravo atravessando os calcanhares.
O Dr. Niqu Haas, um romeno que na época era D iretor da Seção de
Anatomia na Faculdade de M edicina da Universidade Hebraica, pediu para
examinar o esqueleto e não somente confirmou a morte por crucificação, mas
concluiu ainda que se tratava de um jovem de 20 a 30 anos, com 1,65 de altura,
que usava barba e jamais realizara qualquer trabalho árduo (o que indica pertencer
a uma classe abastada). Sua única deformidade física era o palato meio torto e
uma saliência no crânio devido, talvez, a problemas de parto.
Esta é a primeira e única ossada inteira que temos de um homem que morreu
crucificado (há outras, mas com ossos muito fragm entados). Através dela,
reconstituiu-se provavelmente a forma como Jesus deveria ter morrido.
O condenado ficava nu e assentado com uma das nádegas apoiada sobre
um banquinho {sedicula). Os cravos eram geralmente pregados no antebraço
entre o rádio e o cúbito. A Bíblia, no entanto, diz que os de Jesus foram afixados
através das mãos. Com os braços suspendidos em forma de V, a vítim a tinha de
erguer-se sobre as pernas para poder respirar melhor. Isso provocava um
sofrimento terrível, mas não necessariamente mortal. O crucificado poderia ficar
dias agonizando sobre o madeiro. Por isso Pilatos admirou-se de que Jesus já
houvesse morrido (Mar. 15:44).
Quando, por alguma razão queriam apressar a morte do indivíduo, davam-
lhe um golpe de misericórdia chamado crurifragium . Era uma pancada certeira
nas pernas que quebravam a tíb ia e m atavam o condenado por asfixia.
Foi exatamente isso que os soldados fizeram com os ladrões. Como Jesus já
estava morto, não foi necessário quebrar-lhe as pernas (Jo. 19: 32 e 33).
A M o rte E R e s s u r e iç ã o De Jesus C r i s t o

4.2 —0 Calvário e o Sepultamento de Jesus


Dois lugares hoje disputam a identificação com o terreno onde Jesus teria sido
crucificado. Um seria A Igreja do Santo sepulcro dentro da cidade velha e o outro o
Jardim de Gordon no lado de fora da cidade e próximo à porta de Damasco. A discussão
sobre qual deles seria o lugar exato é longa e, por questão de espaço, não nos compete
avaliá-la aqui. A única coisa que podemos dizer é que o Calvário não era um monte
como convencionalmente se crê. Esta crença que tornava o lugar da excecução de
Jesus uma montanha semelhante ao Sinai ou o Horebe foi apenas uma tradição tardia,
propagada a partir do século IV por um certo Cirilo de Jerusalém que escreveu uma
homilia chamando o local de M onte Calvário.
U m D e s c o n h e c id o G a l il e u

Se for correta a identificação do jardim de Gordon como o local do sacrifício de


Jesus, o máximo que teremos é uma elevação de 5 m de altura marcada por uma rocha
em forma de caveira (daí, segundo a crença, o nome “local da caveira”).10 Note que os
evangelistas jamais chamaram o terreno de “monte” como o faziam ao designar o
Jardim das Oliveiras. Sua referência limita-se à expressão “chegando ao local chamado
caveira, o crucificaram.”
Um detalhe apresentado por Mateus e Marcos nos leva a crer que se tratava de
um campo à beira da estrada, pois ambos mencionam a presença de transeuntes que
escarneciam de Cristo (Mt. 27:39, Mar. 15:29). Semelhante a esta idéia há um curioso
texto de Jeremias, que alguns autores interpretam como sendo uma profecia
messiânica. Ele diz: “Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho ?
Considerai e vede se há dor igual a minha, que veio sobre mim, com que o Senhor
me afligiu no dia da sua ira” (Lam. 1:12). De acordo com uma tradição anotada
desde o século XVI em Beth hat Sel^ileh, uma gruta situada nas cercanias de
Jerusalém seria o lugar onde o profeta escrevera este oráculo, afirmando o que seria
visto, no futuro, por aqueles que passassem naquele local. Seiscentos anos depois de
Jeremias, os romanos constroem diversas vias públicas e, ao lado de uma delas, o
Filho de Deus é sacrificado por amor à humanidade.

Na foto sobreposta está a Igreja do Santo Sepulcro, loca!


apontado desde Constantino como sendo o calvário onde
morreu Jesus. Abaixo, a rocha que, segundo Gordon,
teria aforma de uma caveira e seria, portanto, o legítimo
lugar da morte de Cristo.
A M o rte E R e s s u r e iç ã o D e Jesus C r i s t o

Quando Jesus morreu, Seus discípulos pediram a Pilatos que lhes entregasse o
corpo do Mestre. Uma vez concedido, retiraram-No da cruz e O levaram a um túmulo
perto do local da execução. Se tivessem bastante tempo, todo o ritual judaico de
sepultamento levaria em torno de 5 a 6 horas de duração. Primeiro eles lavariam o
cadáver, perfumando-o com aromas frescos para, depois, embalsamarem o corpo e
envolvê-lo em faixas prontas para este fim. Mas, o declínio do sol e o começo do
Shabbath fizeram com que os discípulos interrompessem o processo de mumificação
deixando para continuá-lo após o término do dia de sábado. Portanto, eles depositam o
corpo no túmulo e vão para casa descansar segundo o mandamento (Luc. 23:56 e Exo. 20:8-
11). Não é difícil imaginar quão amargas teriam sido aquelas horas para os seguidores de
Cristo. Sem dúvida, foi o sábado mais doloroso de suas vidas.
Ao raiar do primeiro dia, as mulheres voltaram ao túmulo e, para sua surpresa,
encontraram-no vazio. Jesus havia ressuscitado. Alguns intelectuais modernos podem
duvidar deste magnífico milagre, mas ele ocorreu. Mais de uma centena de pessoas
testemunharam o evento e nenhuma delas entregaria sua vida por causa de uma farsa.
Cristo vive e voltará outra vez. Disto podemos ter certeza!

Questões Para Análise e Reflexão


• Qual a diferença entre a morte de Jesus e a morte de um mártir?
Jo. 3:16.
• Como você explica a declaração do Apocalipse de que Cristo é o
“cordeiro morto desde a fundação do mundo”?

Enciclopédia de Conhecimento Religioso


A historicidade de Pilatos: Além dopalácio em Jerusalém, Pilatospossuía
outra residência oficial localizada em Cesaréia Marítima. Era uma espécie de
Palácio de Verão onde o procurador se refaria nalguns prolongados descansos.
Em 1961, arqueólogos italianos que escavavam o teatro romano da cidade
localizaram uma placa de pedra que contém claramente o nome de Pilatos numa
inscrição latina que re%a: “Pôncio Pilatos, Prefeito da Judéia”. Mais uma
confirmação extra-bíblica do relato evangélico.
Um D e s c o n h e c id o G a l i l e u

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Rio de Janeiro: Imago, 1993.
2. Esta festa foi instituída por Judas M acabeu para celebrar a purificação do Templo e a restauração de seus
serviços litúrgicos, interrom pidos pelos ataques de Antíoco Epifânio.
3. M esm o antes da páscoa era grande o número de judeus que subiam a Jerusalém com o fim de purificar-
se, mas no sábado o número seria ainda m aior (Jo. 11:55). Sobre a extensa discussão quanto ao dia preciso da ceia
pascal (se na quinta feira à noite ou no início do sábado) somado à inclusão ou não do sábado nas festividades
religiosas daquele ano, veja SDABC, vol. V, p. 532 —537).
4. Hoje vezes, é verdade, que um a turba enfurecida de judeus julga-se no direito de m atar alguém por
apedrejamento (como no caso de M aria) ou por precipitação morro abaixo (como os nazarenos intentaram fazer
com Jesus). Estes atos, contudo, representavam atitudes ilegais perante o império. No caso da execução de Estevão
(Atos 7:57-60), assim diz o SDABC vol. V I, p. 206: “O apedrejamento era, sob a lei de M oisés, o castigo pela
blasfêm ia (Lev. 24:14-16, veja ainda Jo. 8:7). Contudo, ainda que o Sanhedrin possa ter seguido de perto esta lei,
eles não tinham, sob os romanos, o direito de tirar a vida ... mas os oficiais romanos podem ter feito um silêncio
conveniente ... Pilatos, que ainda era o procurador ... poderia estar fora da cidade naquele m om ento, em bora seja
provável que ele não quisesse interferir neste ataque contra Estevão depois que sofrera um a humilhante experiência
por ocasião do julgam ento de Jesus.”
5. Que era um a época de frio noturno pode ser visto pelo texto de Jo. 18:18.
6. Segundo João, Anás, o sogro de Caiphás, foi o prim eiro a interrogar Jesus. Pedro e João conseguiram
acom panhar o processo do pátio, porque a criada da casa, que era conhecida de João, perm itiu-lhes entrar sob a
alegação de se juntarem a outros em torno da fogueira externa (Jo. 18:15- 24). O local mais indicado para ser o
antigo endereço da casa de Caifás é a atual Igreja do Galicantu, em Jerusalém . Intensas escavações estão sendo
feitas na área com o fim de se descobrir algum a evidência mais sólida que confirm a a tradição. Mas, pelo menos
com relação à certeza histórica da existência de Caiphás, temos um a evidência graças à descoberta acidental de
doze ossuários de pedra ao sul da M esquita de Omar. Tudo aconteceu em novembro de 1990, quando trabalhadores
empenhados na construção de um parque aquático, desenterraram um a laje antiga que partida revelou os caixões
de pedra. Um deles era bem decorado com rosas e ornam entos em estilo grego. N esta caixa achava-se escrito duas
vezes em aramaico^rf/fre Yosef barOayafa. D entro do esquife seis esqueletos em perfeito estado foram encontrados
e, segundo os legistas, um deles pertencia a um homem de aproximadamente 60 anos. Seria o corpo do Sumo
Sacerdote que prendeu Jesus? Cf. Greenhut, Z., “Caiphas’ final resting place” in IsraelHilton Magazine (Spring 1993),
p. 16 —18; idem, “Burial Cave of the Caiphas Family” in BiblicalArcbeology Review 18:5 (set./out., 1992), pp. 28 —44.
7. Plínio, o Velho parece referir-se a este tipo de cruz quando diz que “o rei encontrou um remédio novo
que ninguém tinha im aginado antes dele: mandou pregar em cruzes os corpos de todos aqueles que se tinham
matado, dando com isso um espetáculo aos cidadãos e um a presa a ser dilacerada pelos animais selvagens e as aves
de rapina.” (História Natural'XXVl, 107).
8. Para os dados e descrições das cruzes rom anas cf. M ommsey, T., Rbmiscbes Strafrecbt (facssímile) Leipzig,
D ieterich’sche Verlagsbuchhandlung, 1899 esp. pp. 30 —42 e Fleury, R., Mêmoirie sur les Instruments de la Passion,
Paris: G abalda, 1902, pp. 23ss.
9. Que carregar apenas o patibulum era o costume norm al das execuções romanas pode ser visto em dois
trechos de um a com édia latina escrita por Plauto dois séculos antes de Cristo. Em ambos, ele m enciona que o
condenado carregava o patibulum pela cidade e depois era am arrado à estaca vertical perfazendo a form a de cruz
(crux). ( Mostellaria 1,56 ss).
10. Caveira, Calvário e Gólgota representam o mesmo nom e escrito respectivamente em português, latim
e Hebraico. Segundo outras opiniões o lugar chamava-se caveira devido às constantes execuções qué se faziam ali.
CAPÍTULO 17
t
C o n clu são
todos os dias, os noticiários chegam em nossa casa repletos de histórias
A dramáticas vindas de várias partes do globo. Algitmas falam de assassinato,
roubo e conflitos por interesses políticos. Outras de teor mais digerível apresentam boas
expectativas como a cura para determinada doença ou até mesmo um singelo gesto de
caridade que comove o mundo inteiro. Quem não se emocionou, por exemplo, com a notícia
sobre a morte de Madre Teresa de Calcutá? Quem não comentou com os amigos a queda de
um avião comercial perto do aeroporto internacional de Congonhas? De fato, estas são
notícias que mexem com nosso sentimento, quer no lado do medo, quer no lado da emoção.
Nenhum espectador, porém, chegaria ao extremo de perder a fome ou faltar em
seu serviço apenas porque ouviu uma notícia dramática em seu telejornal. A menos,
é claro, que ele tenha um conhecido envolvido. E não basta que seja um conhecido
qualquer; tem de ser alguém muito chegado, um parente, talvez. Alguém, enfim, que
ele muito aprecie e queira bem.
Se for este o caso, se houver um ente querido viajando no avião cuja queda
acabara de ser noticiada ou se alguém que amamos vive na região onde estourou um
recente conflito, então nossa reação passará a ser outra. Não nos limitaremos a comentar
sobre o assunto como sendo apenas mais um incidente ocorrendo ao redor do mundo.
Alguém que amamos está envolvido e isto muda completamente o sentido da notícia!
Toda esta analogia, serve de comparação final àquilo que apresentamos sobre a
vida, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Se nosso coração não for despertado
pelo amor divino, é bem provável que as informações aqui fornecidas não passem de
dados científicos para alimentar uma mente pensante. Noutras palavras, não farão
nenhum efeito transformador em nossa existência.
Portanto, precisamos conhecer pessoalmente o personagem central de todo este
drama. Precisamos sentir a presença de Cristo em nossa vida. Somente assim, sua
história terá sentido apesar de estar dois mil anos distante de nós. Precisamos fazer de
Cristo um ser tão real que as pessoas sintam como se pudessem tocá-Lo. Somente
assim, terá sentido uma busca histórica do Cristo escriturístico. Somente assim
poderemos olhar para o céu na esperança de que, em breve, O desconhecido galileu
voltará nas nuvens com poder e grande glória. Ele reunirá Seus queridos filhos e,
finalmente, os levará para o reino de Seu Pai.
Que assim seja, amém!
t
B ib l io g r a f ia

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P o d e m o s C o n f ia r N o s E v a n g e l h o s ?

16. H á pelo menos quatro pessoas identificadas pelo nome de Tiago no N.T. A qui, trata-se de um dos
primeiros líderes de Jerusalém que, segundo alguns, fora também o autor da epístola que leva o seu nome.
Veja Seventh-Day Adventist Bible Dictionary, p. 548.
17. Que os cristãos judeus, num primeiro momento, deveriam cumprir as leis cerimoniais parece ter sido um
consenso do grupo durante algum tempo no início até que Paulo rompera com este discurso apresentando as leis
cerimoniais judaicas como extintas tanto para cristãos judeus quanto para cristãos gentios. Cf. Walker, W , op. cit, p. 42.
18. Em 62 AD, um grupo de Judeus executa ilegalm ente um chefe da comunidade Cristã que era Tiago.
O fato de estarem sob as ordens do Sum o Sacerdote Am ã, torna ainda mais tensa a situação entre a Igreja e a
Sinagoga. Em 66 AD os cristãos iniciam sua fuga para Pela.
19. Como já foi dito, autores com o Burton L. M ack e John K loppenborg defendem um aperfeiçoamento
editorial de pelo menos três ou quatro estágios para a redação do documento Q. Suas etapas editoriais levariam,
desde a prim eira versão até à últim a, um período de pelo m enos três décadas para assum irem a forma final que
hoje encontra-se perdida. Em bora não seja im provável que isto tenha acontecido, devemos entender que se trata
de um a hipótese passiva de questionam ento. O que não concordamos, conform e se vê neste trabalho, é com
aquela datação tardia para o docum ento Q que eles arbitrariam ente dem arcam para depois do ano 50. Cf. M ack, B.
L., op. cit., p. 249 e K loppenborg, J., The formation o f O: Trajectories in Ancient Winsdom Collection, Philadelphia:
Westminster Press, 1987.
20. Houve, possivelmente, pelo menos duas prisões para Paulo. Para um comentário a este respeito e
conseguinte justificativa das datas de 66 e 68 AD veja Seventh-day Adventist Bible Dictionary\op. cit., p.p. 856 e 857.
21. Sobre esta hipótese, veja Sevetb-day Adventist Bible Dicitonary, op.cit.., p. 684. Há uma boa probabilidade
de que Theófilo fosse um advogado de defesa encarregado do processo de Paulo junto ao fórum romano e os
docum entos de Lucas e Atos seriam dossiês de apologia do conteúdo básico do cristianismo a que Paulo defendia.
Mas há outras hipóteses, veja: Silva, R. P., A Problemática do sbêmeron, op. cit., pp.76 —79. Lucas começou a acompanhar
Paulo a partir de sua segunda viagem missionária, pelo que não podemos ter o seu evangelho como anterior ao ano 46.
22. Se proceder o testemunho anotado de Papias, é provável que Mateus, sendo um dos doze, também
tivesse grande participação editorial na escrita das Logia, mesmo porque, entre a morte de Judas e a conversão de
Paulo, ele seria o mais culto dentre os 12 apóstolos. Cf. M oule, C. D. E, “St. M atthew’s Gospel: Som e Neglected
Features” in Essays in New Testament Interpretation, Cambridge: Cambridge University Press, 1982, pp. 67 —74. Moule
não acredita que Mateus tenha escrito todo o evangelho que leva o seu nome. Contudo, argumenta a possibilidade de
sua ativa participação na produção e coleta de materiais primevos que entrariam nas Logia de Jesus.
23. Nisto, ele será seguido por Lucas que também escreve quase sob as mesmas circunstâncias de opressão
rom ana (Lucas 8:26 —34).
24. W rede, W., Das Messiasgesbeimnis in den Evangelium, Göttigern: Vandenhoeck & Ruprecht, 1969 (4a.
edição do original de 1901).
25. Sobre a possível estada de Pedro em Roma uma ou m ais vezes veja Culmann, O., Petrus—Jünger—Apostel
—Märtyrer, Stuttgart: Zwingli Verlag Zürich, 1960, pp. 77 —145.
26. M arcos e Lucas às vezes tam bém se referem à sinagoga deles, isto é, dos judeus, porém, M ateus é o que
parece fazer isto com mais veemência.
27. Zumstein, J., Mattbien, le Tbéologien, Paris: D u Cerf, 1987, pp. 28 e 29.
28. Adversus Haereses, III, 1 ,1 .
29. Partes entre colchetes não fazem parte do texto original adotado. A tradução acim a segue a única cópia
encontrada do Cânon Muratoriano, cujo m anuscrito pertence ao VIII século. Trata-se de um exem plar de escrita
vazada em latim bárbaro, que apresenta muitos defeitos. Por isso, alguns têm sugerido que onde se lê “era um
estudante de leis” {iuris stndiosnm) deveria ser lido “estudante bem letrado” (litteiis stndiosnm). Contudo, a idéia de
que Lucas tam bém entendia de leis justifica em parte o possível caráter jurídico que a obra teria no processo de
julgam ento do apóstolo Paulo, cujos detalhes abordaremos a seguir. Cf. De Journel, M. J., R., Encbiridion Pat/isticnm,
Barcelona: Editorial Herder, 1946, p. 105 e Lietzmann, H e Aland, K ., Synopsis Ouattuor Evangeliornm, Stuttgart:
W ürttem bergische Bibelanstalt, 1965, pp. 531 ss.
30. Cf. Silva, R. P., A Problemática do sbêmeron,op. cit., pp. 76 ss.
31. Para um estudo sobre as origens e propósitos de Lucas, seguido de ampla bibliografia, veja novamente
m inha tese doutoral, Silva, R. P., A problemática do sbêmeron, op. cit., pp. 66 —125.
32. Cf. especialm ente o contexto da parábola das Bodas em Lucas 14:1 —24.
33. Alguns entendem que Paulo estava Preso em M arm etina por ocasião da produção de II Timoteo.
Em bora isto seja um consenso assumido por muitos autores, a idéia tem seus pontos vulneráveis. A pnsao romana