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MUNDUS NOVUS:
POR UM NOVO DIREITO AUTORAL *

Joaquim Falcão

1 DOS NAVEGADORES DE ONTEM países líderes da civilização contemporâ-


AOS INTERNAUTAS DE HOJE nea. Mas perdeu muito de sua força. Não
Houve um momento, na década de 60 se impôs ao século XX, como as desco-
do século passado, em que o mundo bertas marítimas se impuseram aos sécu-
acreditou estar entrando em novo perío- los XV e XVI. É, no mínimo, aventura
do de descobertas, de expansão geofísi- adiada. Paradoxalmente, porém, o imen-
ca, aliás, astrofísica. O século XX, tudo so esforço para chegar ao espaço sideral
indicava, seria um novo século XV. A acabou nos levando a outro espaço.
grande aventura civilizatória seria a cor- Tal como os ventos e tempestades
rida espacial, a exploração dos ares, desviaram Cabral do caminho das Índias e
novos mares nunca dantes navegados. As o fizeram chegar ao Brasil, ocorreu agora
naves espaciais seriam as novas carave- imprevisto desvio de rota. Fomos condu-
las. Em vez de Índias e Américas, agora zidos ao ciberespaço em vez do espaço
seria a vez de Lua, Vênus e Marte. Yuri sideral. Um subproduto do projeto espa-
Gagarin e Neil Armstrong, argonautas cial norte-americano – o processamento
ou astronautas, sucederiam Cristóvão de dados computadorizado – resultou
Colombo, Pedro Álvares Cabral, Vasco talvez maior do que o próprio projeto. A
da Gama e Américo Vespúcio. Seriam os partir daí, outra grande aventura civiliza-
navegadores do galáctico mundo novo. tória se impôs: a criação do ciberespaço.
O começo do século XXI não confir- Este, sim, o novo mundo novo.
mou esta crença. A conquista do espaço A cibernética pode não nos ter leva-
permanece como importante projeto de do à Lua, mas com certeza nos levou a
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nós mesmos. Influencia e molda decisi- Reinava grande liberdade. O controle


vamente o século XXI. A caravela não se do acesso e a propriedade das informa-
transmudou em nave espacial, mas em ções eram, sobretudo, de ordem política
computador. Os softwares são as novas – o interesse dos reinos –, ou de ordem
cartas, mapas e roteiros, difusores da tecnológica – a inexistência de meios de
informação, produtores do conhecimen- comunicação apropriados. Hoje, o aces-
to e condutores da navegação. Os heróis so diz mais respeito às regras jurídicas,
não são Gagarin e Armstrong, são Wil- nacionais e internacionais, que podem
liam Gates, Linus Torvalds e Tim Berners estimular ou dificultar a aventura do
Lee.1 Os navegadores de hoje, em vez de conhecimento. Criar e implementar um
astronautas, são internautas. Em vez de processo global de inovação acumulati-
navegar os céus, navega-se a Internet. va é o desafio maior. A intensidade e
É neste contexto comparativo entre rapidez desse processo e seu eventual
duas grandes aventuras da civilização beneficio para o conjunto da humanida-
contemporânea – as descobertas maríti- de dependerão em muito da regulamen-
mas do século XV e a criação do espaço tação jurídica do fluxo de informações.
virtual do século XX – que colocamos A válvula decisiva na regulação do fluxo
uma questão que, embora aparentemen- é o direito autoral. Um direito autoral
te menor, remete-nos a problema deci- de cunho privatista, forjado no século
didamente maior. passado, é condizente com a globaliza-
Tanto ontem como hoje, um livre ção e o desenvolvimento tecnológico de
fluxo de informações é indispensável hoje? Analisar o que se passou no século
para o intenso processo de inovação acu- XV pode ajudar a melhor enfrentar o
mulativa característico desses períodos desafio-mor: o que é e o que deve ser o
de expansão do conhecimento. Essa ino- direito autoral no século XXI?
vação acumulativa é de interesse público
por excelência. Tudo indica que existe
uma correlação entre a produção do 2. DAS CARTAS
conhecimento necessário para as gran- No século XV, o fluxo de informação
des descobertas e um múltiplo e descen- necessário ao viver e sobreviver, à expan-
tralizado acesso a informações, ainda são do próprio conhecimento, viajava de
que rudimentar, como existiu entre Lis- duas maneiras principais. Ou através do
boa, Florença, Gênova, Flandres, Sevilha relato e do contato pessoal, da história
e outras cidades de então. Este fluxo que oral, da narração de enviados e viajantes
ampliou o mundo ontem é, mais do que que, ao voltarem, contavam o que viram e
nunca, fundamental para o mundo de ouviram aos que não tinham ido. Por sua
hoje. Como conciliar hoje esse interesse vez, estes recontavam o que lhes diziam
público com o direito do autor? aos que nada tinham visto e ouvido.
No século XV, inexistia um direito Ou então o conhecimento viajava
formal que regulamentasse tal fluxo. através de mapas, diários, roteiros e
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cartas, de manuscritos artisticamente fortunas dos mercadores, o poder dos


elaborados, feitos à mão, um a um, reis, a coragem dos capitães-mores, a
linha a linha, letra por letra. Iluminuras força dos marinheiros, a juventude dos
a iluminar o conhecimento. Os navega- grumetes, a ciência dos cartógrafos e
dores, ao voltarem de suas viagens astrônomos. Instruíram ferreiros e mar-
marítimas e a partir de observações dia- ceneiros. Aguçaram a concorrência
riamente anotadas, escreviam cartas entre reinos, cidades e navegadores.
como relatórios, prestação de contas a As polêmicas narrações de Marco
seus reis e financiadores. Assim, o mun- Pólo sobre sua viagem à Ásia, por exem-
do se comunicava e caminhava e, ao se plo, descrevendo os palácios de ouro, as
conhecer, expandia-se. ruas de mármore, o inédito e o luxo
Estas cartas, que passavam de corte asiáticos, despertaram o desejo de mui-
em corte, de nobre em nobre, mercador tos em correr riscos, descobrir o novo,
em mercador, não raramente eram novas fontes de riqueza e poder. O
reproduzidas, multiplicadas, sobretudo Infante Dom Enrique e Américo Vespú-
pelos monges. Ao contrário dos livros de cio teriam sido fortemente influencia-
hoje, para os quais uma edição se mede dos por Marco Pólo. Foram documentos
aos milhares de exemplares, a edição de fundacionalmente mobilizadores. Como
uma carta manuscrita se contava nos serão depois as cartas de Colombo e do
dedos. As poucas, pouquíssimas cópias próprio Vespúcio.
iam para as bibliotecas de religiosos, Foi de caráter científico a segunda
ricos e poderosos. Algumas, entretanto, função destas cartas. Funcionaram como
transformavam-se em panfletos de feitos relato de experimentos técnicos. No
romanceados, histórias aventuradas, qua- fundo, cada viagem era também, como
se literatura, tipo cordel, lidas nas feiras diz Antonio Luiz Porto e Albuquerque,
e cantadas nas tabernas (Bueno, 2003, p. uma missão científica, um experimento
10). Assim, o novo chegava também aos controlado de navegação (Albuquerque,
artistas e ao povo. Disseminava-se. 1999, p. 12). O mar era o grande labo-
As informações veiculadas nas cartas ratório. As cartas informavam sobre a
foram fundamentais para o processo das dança dos astros – indispensável para
descobertas. Cumpriram pelo menos que se forjasse a navegação astronômica,
três funções. Primeiro, se constituíram que substituiu a navegação por rumo e
no verdadeiro motor a instigar a aventu- estima e permitiu aos navegadores se
ra do conhecimento, identificada como a afastarem das costas e se jogarem mar
aventura do descobrimento marítimo. adentro. Ensinavam como calcular lati-
Estimularam a ambição, a imaginação e tudes e manipular o astrolábio. Corri-
o desejo. Possibilitaram a substituição giam mapas e cartas náuticas. Olhavam
dos dogmas da Idade Média pela curiosi- as marés. Descreviam a resistência e a
dade do Renascimento. Abriram os fragilidade das caravelas nas tempesta-
cofres. Canalizaram para os mares as des.Verdadeiros relatórios de pesquisa.2
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A produção do conhecimento mudara –, estas cartas as construíam também.


radicalmente. O Renascimento não mais Inventavam o que fora apenas descoberto.
procurava a verdade na religiosidade da Davam significados bem estabelecidos aos
Igreja. A Inquisição abusara de todos os significantes ainda muito ignorados.
limites do divino. De uma centralizadora, Como inexistia fotografia ou mesmo
católica e dogmática produção do saber, a pintura (o primeiro quadro sobre as
Europa se abria lenta, mas permanente- Américas – Vista de Itamaracá – só vai ser
mente para uma nova produção empírica pintado por Franz Post em Recife e
laica, descentralizada e acumulativa. O Olinda por volta de l637), as gravuras
conhecimento dependia da observação, e com as primeiras imagens do novo mun-
não mais da fé. Assim, inauguramo-nos a do fundamentaram-se nas descrições
nós mesmos. O livre fluxo das informa- interpretativas dos navegadores em suas
ções contidas nas cartas foi fundamental cartas. Retratavam fenômenos observa-
neste processo de empiricização, descen- dos e imaginados ao mesmo tempo. Sín-
tralização e diversificação do progresso teses de realidade e fantasia. Com as
(Albuquerque, 1999, p. 12 e 30).3 informações das cartas, a Europa cunhou
Ao lado de diários, relatos, mapas e um mundo novo, feito de imaginação e
livros de pilotagem, as cartas forneceram realidade. Muito mais a imaginação da
a matéria-prima empírica que, analisada, barbárie, do que a realidade da diferen-
comparada, estudada e sistematizada, ça. Muito mais o descobridor do que a
fundamentou manuais de navegação. O descoberta. Até hoje.
Regimento do Astrolábio e do Quadran- Quem quer que analise uma gravura
te, o primeiro deles, data de 1509 (Albu- do século XVI mostrando índios, antropo-
querque, 1999, p. 24-26). Circulavam fagia e natureza, não deixará de perceber
nas escolas de navegação em conexão este processo. Sem acesso à imagem real
com a Casa da Índia de Lisboa e a Casa de dos índios, os artistas os imaginavam a
la Contratación de Sevilha, onde Vespú- partir de descrição sempre subjetiva e
cio teria inclusive colaborado (Albuquer- incompleta das cartas. Assim, desenharam
que, 1999, p. 27). Por isto, dizemos que igrejas e palácios tropicais de telhados
foram cartas fundacionais do conheci- íngremes, prontos para receber a neve
mento tecnológico marítimo. Documen- que nunca veio.4 Desenharam índios e
tos do saber de experiência feito, sem os índias de feições, proporções e musculatu-
quais navegadores não existiriam, desco- ras européias. Rituais antropofágicos pra-
bertas não se fariam. ticados por índios europeizados. Produ-
Finalmente, estas cartas tiveram tam- ziu-se um bizarro etnocentrismo gráfico.
bém uma função constitutiva. Fácil perce- Séculos depois, este etnocentrismo vai se
ber.Ao mesmo tempo em que descreviam repetir com sinal invertido nos desfiles de
as descobertas – os novos continentes, os escola de samba do Rio de Janeiro: mesti-
novos povos, a nova fauna e a nova flora, ços vestidos de dourado numa coreografia
as novas maneiras de viver e de conviver de minuetos, tamborins e pandeiros.
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O melhor exemplo desta função final do século XV, quando a aventura


constitutiva são as cartas de Américo Ves- humana se refazia, encontrava seu renas-
púcio (ver Vespúcio, 2003). A partir de cimento. Na rica família certa. Não foi
uma de suas cartas, o mundo novo é bati- aluno esforçado. Mas, ensinado por seus
zado e recebe o nome de América. Identi- tios Giorgio Antonio e Guido Antonio,
ficou a nova terra. Ajudou a inventar sabia falar e escrever a língua certa – o
América, até hoje sinônimo de mundo latim, inglês de sua época. Conhecia a
novo. “Viemos ao mundo para dar nome diplomacia, a mercancia, mapas e astros.
às coisas: dessa forma nos tornamos Melhor ainda, teve o protetor certo:
senhores delas ou servos de quem as bati- o florentino Lorenzo de Médici. Não,
zar antes de nós”, diz com razão Lya Luft não foi Lorenzo, o Magnífico, de quem
(2004, ed. 1.862). se dizia ser “tirano muito agradável”
A identidade de um país ou mesmo (Hibbert, 1993, p. 130). O melhor que
de uma pessoa dificilmente se desassocia se poderia ter então. Seu protetor foi
de seu nome, de sua denominação. outro, seu homônimo. Foi seu primo
Quanto mais a de um continente. O fac- mais jovem e talvez até mais rico:
tualmente correto – mas impensável Lorenzo di Pierfrancesco dei Médici.
hoje em dia – seria nos chamarmos Exatamente aquele que encomendara a
Colômbia: Colômbia do Norte, Colôm- Sandro Boticelli duas de suas maiores
bia Central e Colômbia do Sul. Seríamos obras-primas: A primavera e O nascimento
outro. A carta de Vespúcio foi decisiva- da virgem. Imagens até hoje paradigmáti-
mente constituinte. cas da elegância e da sensualidade das
Dificilmente o século XV teria sido mulheres. Aliás, os esvoaçantes cabelos
o século das descobertas sem o livre flu- desta virgem de Boticelli vão reaparecer
xo de informações destas cartas. A carta nos esvoaçantes cabelos das índias nada
de Vespúcio é nosso estudo de caso. Que virgens que ilustram a carta Mundus
direito autoral incidiu sobre as cartas nas Novus, em outro primoroso exemplo de
quais descrevia o Novo Mundo? Acompa- etnocentrismo gráfico.
nhando seu processo de criação e difu- No momento certo, jovem ainda,
são, poderemos extrair algumas idéias Américo Vespúcio foi para Sevilha, como
para a eventual regulamentação jurídica comerciante e banqueiro, representante
do direito autoral e do mundo cibernéti- de Lorenzo. Ali tinha de estar. Na penín-
co de hoje. sula Ibérica se multiplicava o mundo.
Portugal e Espanha colhiam os maiores e
melhores frutos do estratégico Projeto
3. DO ERRO DE ATRIBUIÇÃO DE de Sagres – ou Projeto de Portugal,
AUTORIA como gosta de chamar, e com razão,
Américo Vespúcio nasceu na cidade cer- Luiz Fernando de Souza Pinto.6 Iniciado
ta: Florença, uma das principais cidades- por D. João I e sua mulher, a inglesa Fili-
país da Europa.5 No século certo, no pa de Lancaster, e consolidado por seus
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cinco infantes: D. Pedro, D. Fernando, Armesto, 1992, p. 186). Desta falsa atri-
D. João I, D. Duarte e D. Henrique, este buição de autoria nasceram América e a
projeto está na origem dos caminhos das imortalidade de Américo. O que mais
Índias e do avançar pelo mar oceânico. pode um mortal desejar? Sem este erro,
Fez de Lisboa o Silicon Valley e o Cape morreria errado e usado, incompreendi-
Canaveral de então. do, quase falido, como o próprio Colom-
Nos dias de Vespúcio, na Ibéria, sob bo e dezenas de outros navegadores.
os efeitos do Projeto de Sagres, D. Com recursos de D. Manuel, Fer-
Manuel, o Venturoso, e os reis católicos nando e Isabel, Lorenzo ou de amigos
de Castela e Aragão, Isabel e Fernando – como Gianetto Berardi,Vespúcio cruzou
ela muito mais rainha do que ele rei – o Atlântico três ou quatro vezes.7 Foi a
arriscavam a fortuna e o poder. Arrisca- Venezuela, Salvador, Haiti, Cabo Frio,
ram até mesmo as jóias da coroa. Finan- Cabo Verde, passando pela ilha de Fer-
ciavam descobertas. Competiam. Com- nando de Noronha, que lhe impressio-
pletavam o mundo. Inventavam o futuro. nou pela exuberância das aves e peixes e
Ainda, no momento certo, Vespúcio mar e rochas. Quase paraíso.
trocou de profissão. Em Sevilha encon- Sempre que voltava a Europa, pres-
trara o desafio das descobertas. Não tava contas aos seus patrocinadores.
resistiu. Escolheu uma nova profissão, a Escrevia seus relatórios, memorandos,
profissão certa, de riscos maiores dos e-mails de viagem. O que relatavam estas
que a dos próprios banqueiros. Aliou-se cartas, precioso depositório de informa-
à nova tecnologia que começava a revo- ções a correr o mundo civilizado?
lucionar o mundo: a caravela latina e a Contavam de tudo. Dos céus e dos
navegação astronômica. Foi ser navega- mares. Das tempestades e da bonança.
dor. Hoje os navegadores singram mares Das estrelas que guiavam e das estrelas
virtuais. Ontem, Vespúcio foi singrar que confundiam. Dos ventos a desviar e
mares oceânicos. Navegadores e inter- dos ventos a aproveitar. Das novas ter-
nautas, gêneros da mesma espécie, os ras, dos mares e dos rios. Animais e pei-
aventureiros das inovações tecnológicas. xes nunca vistos.Vespúcio comunicava o
Mas não bastou Américo Vespúcio ter espanto e a admiração. A perda de fôle-
nascido na família certa, na cidade certa, go, diante de tudo, nunca dantes visto.
no século certo, deixar a profissão certa Falava de homens e mulheres, da nova
na hora certa e escolher nova profissão raça, de pele vermelha, carnes duras –
certa. Foi preciso mais para que ele ficas- mulheres de peitos rígidos como não se
se famoso, conhecesse a glória e chegas- imaginaria numa européia, confessa. Das
se aos dias de hoje. Pelo menos um erro terras incertas. Falava dos hábitos, da culi-
lhe foi indispensável: o erro do monge nária, da doçura, da cordialidade, da trai-
Martin Waldeseemuller, concedendo- ção, da bravura. Falava e se espantava com
lhe, e não a Colombo, a autoria do des- a antropofagia dos novos povos. Comiam-
cobrimento da América (Fernández- se uns aos outros, carnes saborosas,
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guardadas penduradas e salgadas com templo, não têm nenhuma lei,


despudor. Alguns destes índios viviam até nem são idólatras. Que mais
150 anos! (Vespúcio, 2003, p. 45.) direi? (Vespúcio, 2003, p. 42.)
Suas cartas de fluxo livre ajudaram a
tecer a rede das comunicações do século A ilha Utopia, que Morus roman-
XVI. Moldavam e influenciavam investi- ceou e a Europa sonhou, era aqui.
mentos, jogos do poder, artes e ciências. Depois de lidas por seus destinatá-
Forjavam a pauta do futuro, a agenda do rios – os patrocinadores –, as cartas
amanhã. Subsidiavam a dúvida renascen- navegavam livremente de mão em mão,
tista na sua batalha contra a fé medieval. de corte em corte, de cidade em cidade
Retiravam da Igreja a tarefa de dizer a anunciando o espanto. Pouco a pouco se
geografia do mundo. Entre seus leitores, multiplicavam, copiadas nos conventos,
além dos financiadores, os pensadores assumiam novos formatos, pequenos,
que fizeram o Renascimento: Erasmo de 11x13, chegavam ao povo nas feiras, nas
Rotterdam, Michel de Montaigne, ladeiras, nas ruelas e nas tabernas.
Michelangelo Buonarroti, Leonardo Da Atribui-se a Vespúcio pelo menos
Vinci, Rabelais, Sandro Botticelli, cinco cartas. Três seriam autênticas. As
Maquiavel e Thomas Morus. Neste, cartas de Sevilha, de Cabo Verde e de
dizem, suas cartas teriam tido tão deci- Lisboa. Duas seriam apócrifas, de auten-
siva influência que serviram de base para ticidade não comprovada: as cartas Mun-
seu maior livro – Utopia – de 1509. É dus Novus e Quatro Navegações. A carta
provável (Bueno, 2003, p. 61).8 de Lisboa servirá de base para a Mundus
O próprio Morus, ao descrever seu Novus. Entendendo sua construção e cir-
personagem principal, Rafael Hitlodeu, culação, seguindo seu rastro e paradei-
explicitamente revela sua fonte: “(...) ro, entendemos o erro de atribuição de
desejoso de conhecer o mundo, [Rafael] autoria e avaliamos suas conseqüências
juntou-se a Américo Vespúcio em três de para os dias de hoje, diante do desafio de
suas quatro viagens, cujo relato hoje se regulamentar o fluxo de informações
lê em quase toda a parte” (2001, p. 18). por meio do direito autoral. O que o
Vejam a semelhança entre os habitantes século das descobertas tem a ensinar aos
descritos por Vespúcio e os da ilha legisladores do século do virtual?
inventada por Morus, que viviam sem
muitas leis e sem advogados.9
4. DA CARTA COMO CULTURA LIVRE
Não têm bens próprios, mas O percurso e mistérios de Mundus Novus
todas as coisas lhes são comuns. são narrados com excelência por Eduar-
Vivem ao mesmo tempo sem lei do Bueno. Carta apócrifa, de autoria
nem comando, e cada um é incerta. Talvez do próprio Américo Ves-
senhor de si mesmo. [...] Além púcio. Ninguém sabe. Tinha a atração da
do mais, não têm nenhum fraude irresistível. Não importa.Veiculou
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informações inéditas retiradas da carta para todos os que ouviram [falar]


de Lisboa. Esta sim, de autoria certa: o delas; e porque isso excede a
próprio Vespúcio (Bueno, 2003, passim). opinião de nossos antepassados,
Vespúcio escreveu a carta de Lisboa pois a maior parte deles diz que
para seu protetor Lorenzo di Pierfran- além da linha equinocial para o
cesco dei Médici em Florença. Carta meridiano não há continente, mas
fundacional, corrigiu erro decisivo. apenas mar, que chamam de
Interpretou corretamente o que Colom- Atlântico [...].Todavia, essa minha
bo interpretara erroneamente. Colom- última navegação constatou que
bo chegara ao novo continente, mas se essa opinião é falsa e totalmente
acreditava nas Índias. Enganou-se e per- contrária à verdade já que
deu. Vespúcio acreditava ter chegado na encontrei naquelas partes um
quarta parte do mundo. Viu, escreveu e continente habitado por mais
venceu. E isso basta. numerosos povos e animais do que
a nossa Europa, Ásia ou África
[C]omo disse, de Lisboa, de (Vespúcio, 2003, p. 33-34).
onde partimos – que dista 39
graus e meio da linha equinocial Contra fatos não há argumentos.
– navegamos mais 50 graus para Nem mesmo opiniões de antepassados.
além da linha equinocial; os O diário de Colombo era o passado; a
quais, somados, fazem cerca de carta de Vespúcio, o futuro. Mundus
90 graus. Como tal soma atinge Novus informa a vitória, por um, dos
a quarta parte do grande círculo sonhos e cobiça de muitos reinos. Des-
– segundo a verdadeira razão de faz um dogma estruturante da religiosa
medida legada a nós pelos geografia da Idade Média. Confirma
antigos –, é manifesto que uma esperança agora observável.
navegamos a quarta parte do Não foi simples a elaboração e cir-
mundo. [...] E essas coisas sobre culação da carta. Não foi escrita num
cosmografia são suficientes mesmo momento, numa única cidade,
(Vespúcio, 2003, p. 50-51). por um só autor. Foi construída em
vários momentos, em várias cidades,
A Europa ansiava. Esta informação por vários autores. Mudava na medida
decisiva foi retomada, argumentada e em que navegava. Obra aberta, coletiva
enfatizada pela apócrifa Mundus Novus. e acumulativa. Aí seu segredo e suces-
so. Navegou tal qual um software livre.
[...] procuramos e encontramos Vejam só.
[regiões], as quais é licito chamar Ter-se-ia originado de um desconhe-
de Novo Mundo, porque nenhuma cido manuscrito em italiano. O título
delas era conhecida de nossos inicial era: “Máximas saudações de Amé-
maiores; porque é coisa novíssima rico Vespúcio a Lorenzo di Pierfrancesco
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dei Médici”. Convenhamos: assim, era pontiagudos: seios profanos na fachada


difícil, senão impossível, circular pela de seu próprio palácio episcopal!
Europa. Título inodoro, numa língua As edições se multiplicam livre-
restrita. Foi preciso traduzi-la do italia- mente. A informação da descoberta do
no de poucos para o latim de muitos. A quarto continente, o sonho de Sagres,
edição original teria aparecido em Paris desconhece fronteiras. Possui a Euro-
por volta de 1503, já em latim, traduzi- pa. Estima-se ter havido pelo menos
da possivelmente por um tal de Giocon- 41 edições antes de 1506. Traduzida
do (Bueno, 2003, p. 30).10 Ganhou para o alemão, publicou-se em Basel,
maior audiência e circulação. Augsburg, Munique, Leipzig, Nurem-
Foi preciso também novo título. berg e Estrasburgo. Foi um sucesso,
Em Veneza, em 1504, uma nova edição como bem afirma Eduardo Bueno
descarta as burocráticas “Máximas Sau- (2003, p. 29):
dações” e surge: Mundus Novus. Nada
mais adequado. Título sintético, fácil Mundus Novus é um panfleto,
de gravar, atraente, instigante, atem- um cordel. Foi vendido em
poral. Moderno até hoje. Com um praças e feiras. Foi lido por
recall insuperável. Melhor impossível. nobres e plebeus. Tinha a
O mundo novo não era mais exclusivo brevidade de uma novela e a
de Lorenzo. Pertencia a todo e qual- urgência de um anúncio. Era
quer leitor. simultaneamente simples e
As mudanças não pararam por aí. sofisticado. Misturava sangue,
Em 1505, em Augsburg, Johann Fros- selvageria e ciência,
chauer acenderá de vez a curiosidade investigação filosófica e ação
do público leitor. Acrescenta imagem rocambolesca, visões do paraíso
ao texto. A nova edição é ilustrada com e dantescas cenas de
a primeira xilogravura sobre o novo antropofagia. Era ligeiro sem
continente. Nela, os índios têm barba deixar de ser profundo,
de nobre, porte de capitão-mor e nariz analítico sem ser tedioso. Só
de El Greco. As índias são acariciadas podia ser um sucesso.
nos seios mais rígidos do que os de uma
européia. De agora em diante, Mundus O erro de Colombo lhe condenou à
Novus é imagem e texto. Ler e ver. Per- glória amarga. O acerto de Vespúcio lhe
mitia-se ao leitor acreditar no inenarrá- deu todos os tempos futuros. Mundus
vel. Acende a imaginação de todos. Por Novus ajudou a criar o clima propício pró-
exemplo, em Cárceres, na Espanha, no Américo. O golpe final será dado no
ano de 1575, o bispo manda esculpir ao mosteiro de São Deodato do século XVII,
lado da imagem da Ásia – um velho numa pequena cidade da França. Ali o
homem de olhos rasgados – a imagem monge Martin Waldeseemuller, provavel-
da América, uma jovem índia de seios mente sob efeito de outra carta apócrifa
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de Vespúcio, elabora simples raciocínio: identidade do novo já estava definida


por todos os séculos.
Atualmente estas partes do Estes são os fatos. Esta é a história.
mundo (Europa, Ásia e África) Daqui em diante, vêm a reflexão e a
têm sido muito exploradas, e proposta. Como regular o direito auto-
uma quarta parte foi descoberta ral no século XXI?
por Americus Vesputius, como
veremos adiante. Uma vez que a
Europa e a Ásia receberam nomes 5. A REGULAMENTAÇÃO JURÍDICA
de mulheres, não vejo razão para DA CULTURA
não chamarmos esta outra parte Quando comparamos a aventura das
de “Amerige”, ou seja, a terra de descobertas marítimas com a da criação
Americus, ou América, depois da do espaço virtual, a analogia se impõe.
descoberta de Americus. Estamos Sozinhos, a caravana latina, o astrolábio,
muito bem-informados a respeito o quadrante ou a balestilha (os hardwa-
da situação e dos costumes dos res) não foram suficientes para conduzir
seus povos graças às quatro os navegadores aos novos continentes.
viagens de Americus (Apud Da mesma forma, computadores e lap-
Fontana, 1994, p. 67). tops sozinhos não nos levam ao novo
mundo virtual. São condições necessá-
Ato contínuo, desenha no mapa o rias, mas não suficientes.
nome América nas desconhecidas terras As cartas, roteiros, diários de bordo
do outro lado do mar oceano, o Atlânti- e mapas são a condição suficiente.
co. Os mapas se multiplicaram. Imorta- Foram as rudimentares matrizes que
lizaram o erro. A Europa acreditou na forjaram e permitiram a navegação das
denominação historicamente equivoca- informações e a produção do conheci-
da da interpretação geograficamente mento. Atuaram como verdadeiros soft-
correta. O erro de atribuição de autoria wares. Estabeleceram redes de comuni-
nos faz nascer americanos. cação e diálogo e debate entre matemá-
A ampla liberdade do fluxo de ticos, astrólogos e cosmógrafos. Cria-
informações permitira o erro decisivo ram comunidades. Estimularam o pro-
e formatara o melhor e maior produto cesso de inovação. Viabilizaram desco-
do século do descobrimento: a Améri- bertas. Conectaram o Velho e Novo
ca. O mercado leitor – financiador, Mundo. Construíram o século.
navegador e científico – comprou avi- Da mesma maneira, hoje. Sem o
damente o erro. Aderiu. Era de uma software não saímos do porto digital, não
plausibilidade irresistível. Era a ambi- adentramos no mar oceânico. Sem ele,
ção satisfeita. Quando Martin se deu inexiste navegação, rede de comunica-
conta e quis voltar atrás, foi impossí- ção, produção e partilha do conheci-
vel. 11 O mercado não permitiu. A mento. Sem o partilhar, o mundo virtual
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não o é. O software nos constitui enquan- Thomas Morus. Inexistiam barreiras


to agentes e usuários. Mais do que des- jurídicas, de direito público ou de
cobridores, nos faz criadores de nós direito privado, de direito nacional ou
mesmos. No século XXI, ao contrário de direito internacional. Foi de fato
do século XV, inovar não é descobrir o livre o uso global.
existente mundo longínquo. É criar o Segundo, a carta não foi um datum,
inexistente mundo. O fluxo das infor- mas um constructum. Em vez de monopó-
mações necessárias para esta criação vai lio autoral, foi – ao contrário – aberta
muito depender de como se regule o obra coletiva. Traduzida livremente por
grau de livre navegação do software de uns, ilustrada livremente por outros,
hoje: o direito autoral e as patentes. intitulada livremente por terceiros, edi-
Até que ponto a função social, o tada livremente por muitos. Passo a
interesse público global no desenvolvi- passo, mão a mão, num período de pelo
mento de um processo de produção menos cinco anos, foi obra de vários:
acumulativa de conhecimento, será ou Américo, Giocondo e Johann Froshauer,
não limitado pelo interesse privado do pelo menos. Reproduzida livremente
proprietário? Como definir a proprie- por vários editores, em várias cidades:
dade do software? Mais ainda, até que Paris, Veneza, Augsburg. A carta não era
ponto um controle legal é tecnologica- objeto de propriedade privada. Foi antes
mente eficaz, nivelem âmbito local e uma não-propriedade. Um commons,
global, capaz de impedir ou dificultar a diria Lawrence Lessig (1999), onde
utilização “ilegal” do software? Diante do todos podiam estar. Foi obra coletiva.
novo mundo virtual, estamos no limiar Imaginemos, porém, que Mundus
de repensar um novo direito de proprie- Novus tivesse sido escrita por Vespúcio
dade, donde um novo direito de autor. hoje. Ao tomarem conhecimento das
O que provavelmente teria aconte- sucessivas alterações, traduções e das
cido com a carta de Vespúcio se, no múltiplas edições não expressamente
século XV, prevalecesse o direito auto- autorizadas, advogados de Vespúcio
ral restritivo e privatista que hoje ainda tentariam proteger os direitos autorais
regulamenta o software? Ou mesmo as de seu cliente. Como?
patentes, como querem alguns? As possibilidades legais abertas aos
Não é difícil constatar duas das advogados seriam basicamente duas.
principais características jurídicas do Denunciar a violação criminosa de
uso desta carta. Primeiro, a ampla, direitos autorais e impedir a divulgação
geral e irrestrita liberdade com que e as edições da carta, ou cobrar pelas
Mundus Novus e suas informações fluí- autorizações que viessem a conceder.
ram livremente por toda a Europa. Nos Mesmo com o risco de diminuir drasti-
reinos e cidades, entre cientistas e camente as edições e a circulação das
artistas, em todas as classes sociais. O informações vitais para o desenvolvi-
relato “está em toda parte”, constatava mento das descobertas.
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240 : MUNDUS NOVUS: POR UM NOVO DIREITO AUTORAL JOAQUIM FALCÃO

É o que permitem os dispositivos da reproduzido com violação do direito de


lei de direito autoral e do Código Penal. autor, do direito de artista intérprete ou
Vejam só. executante ou do direito do produtor de
fonograma [...].
LEI 9610/1998
(LEI DE DIREITO AUTORAL): Com base nesses e em outros dispo-
Art. 29. Depende de autorização prévia sitivos, os advogados poderiam, por
e expressa do autor a utilização da obra, exemplo, iniciar um processo cautelar
por quaisquer modalidades, tais como: de busca e apreensão, com pedido de
I – a reprodução parcial ou integral; liminar para retirar de circulação todas
II – a edição; as edições feitas sem a expressa concor-
III – a adaptação, o arranjo musical dância de Vespúcio.12 O número de edi-
e quaisquer outras transformações; ções naquela época era muito limitado;
IV – a tradução para qualquer idioma; se a ação fosse intentada logo no início
VI – a distribuição, quando não intrínseca da produção e divulgação dos manuscri-
ao contrato firmado pelo autor com tos, os oficiais de justiça não teriam
terceiros para uso ou exploração da obra; muita dificuldade em apreender todos
VIII – a utilização, direta ou indireta, ou a maior parte dos exemplares.
da obra literária, artística ou científica, Poderiam também pedir que se
mediante: proibisse judicialmente a transformação
a) representação, recitação ou das cartas em histórias, em cordéis, a
declamação [...]. serem contadas e cantadas pelos trova-
dores nas tabernas e nas ruelas das cida-
CÓDIGO PENAL: des.13 Ciosos da proteção ao direito do
Art. 184. Violar direitos de autor autor das cartas, os juízes talvez conce-
e os que lhe são conexos: dessem uma tal medida e, assim, impe-
Pena – detenção, de 3 (três) meses dissem a disseminação ilegal.
a 1 (um) ano, ou multa. Os advogados poderiam, com base
§ 1.º Se a violação consistir em reprodução na jurisprudência pátria, ingressar em
total ou parcial, com intuito de lucro juízo acusando o autor de Utopia de plá-
direto ou indireto, por qualquer meio gio – comparável ao crime de contrafa-
ou processo, de obra intelectual [...]. ção, segundo algumas decisões judiciais
Pena – reclusão, de 2 (dois) – e pleiteando indenização por danos
a 4 (quatro) anos, e multa. morais e materiais.14 Afinal, é patente
§ 2.º Na mesma pena do § 1.º incorre que muitas das descrições da ilha de Uto-
quem, com o intuito de lucro direto pia foram retiradas das cartas de Vespú-
ou indireto, distribui, vende, expõe à cio sem a devida citação. Se desejasse
venda, aluga, introduz no País, adquire, comercializar de alguma forma as cartas
oculta, tem em depósito, original ou sobre o novo continente,Vespúcio pode-
cópia de obra intelectual ou fonograma ria ainda alegar concorrência desleal da
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parte de Morus, já que suas informações justamente ao seu maior concorrente.


não seriam mais inéditas.15 Paradoxalmente, a proteção de seu
Os advogados poderiam também ter direito autoral não o teria levado a con-
impedido a tradução e a inserção de ilus- quistar o que mais desejara em vida:
trações não autorizadas.16 Talvez Vespú- “alcançar a fama por muito tempo”.
cio considerasse as gravuras inseridas por Teria protegido seus direitos, ganhado
Johann muito diferentes do espírito de dinheiro e perdido a glória.
suas cartas – quem sabe até ofensivas ao As conseqüências para o século das
seu direito moral de autor. Não seria descobertas seriam negativas. O número
difícil conseguir condenar o ilustrador a de leitores teria sido bem mais reduzido.
pagar uma indenização por danos Talvez Montaigne, Boticelli, Da Vinci,
morais, além de impedir a circulação da Erasmo e outros navegadores e potenta-
obra com as figuras. Sem tradução e sem dos não tivessem lido Vespúcio. O livro
ilustração, o público-leitor das cartas Utopia talvez tivesse sido retirado de cir-
diminuiria. Seria impossível ver o sonho. culação. Não chegado até nós.A imagina-
Os advogados provavelmente teriam ção européia teria sido menor. Thomas
sucesso em seus pleitos. Mas qual seria o Morus seria menos. No máximo, um
resultado deste sucesso? Na verdade, plagiador. E, se assim ficasse para a pos-
teríamos dois diferentes resultados: teridade, não teriam ingressado no mun-
resultados em relação aos direitos do do da cultura obras intelectuais tão dis-
autor e resultados referentes ao avanço tintas quanto a Nova Atlântida, de Bacon,
das descobertas marítimas. as Viagens de Gulliver, de Swift – obras
Com relação ao autor, Américo Ves- diretamente inspiradas pelo relato de
púcio provavelmente morreria muito Morus. A própria palavra “utopia”, por
mais rico. Não somente indenizações ele inventada, poderia não existir.
seriam devidas, como contratos de edição Teriam tido acesso legal às cartas
com pagamento de royalties teriam sido apenas seus financiadores: D. Manuel,
firmados. Sem falar que, para sua satisfa- Gianetto, Fernando e Isabel, Lorenzo.
ção, poderiam ter ido para a cadeia o tra- Talvez o rumo das descobertas tivesse
dutor Giocondo, o ilustrador Johann, o sido outro. A mobilização de financiado-
prefaciador Martin e muitos outros, por res, navegadores, marinheiros, grume-
violação criminosa de direito autoral. tes e cientistas teria sido menor. Europa
Américo teria pago mais impostos. ainda por algum tempo teria acreditado
Deixado herança maior. Mas com certe- em Colombo. A geografia ficaria subor-
za teria morrido quase anônimo. As car- dinada por mais tempo aos desejos da
tas teriam tido menos edições. O erro de crença, em vez dos resultados da obser-
atribuição de autoria de Martin prova- vação. Mais Inquisição e menos ciência.
velmente teria sido evitado. Américo não A analogia jurídica fundamental que
teria “descoberto” a América. América se Mundus Novus coloca está clara agora.
chamaria Colômbia, em homenagem Existe uma correlação necessária, nem
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242 : MUNDUS NOVUS: POR UM NOVO DIREITO AUTORAL JOAQUIM FALCÃO

sempre evidente, entre o direito de pro- Torvalds em seu quarto, não. Iniciaram
priedade intelectual, enquanto criação suas aventuras basicamente sem capital.
privada, e o processo de inovação incre- Dependeram do acesso ao conhecimen-
mental do conhecimento, enquanto to, mas não necessariamente do acesso
criação pública. Ambos interdependen- ao capital. Esta a diferença fundamental.
tes e de relação circular. Como então Segundo, a atual legislação tende a
conciliar um direito autoral privatista do exagerar a capitalização do autor, muitas
século passado, que ainda pretende con- vezes em detrimento do interesse públi-
trolar este processo, com a gigantesca co da inovação descentralizada e acumu-
pulverização da inovação que a tecnolo- lativa.Temos visto, por exemplo, o siste-
gia do século XXI possibilita e estimula? mático prolongamento do prazo de anos
Atenção. É engano pensar que esta- a decorrer antes da entrada da obra em
mos diante de uma simplória dicotomia domínio público, muito além de uma
interesse privado do autor versus interes- remuneração razoável.
se público do avanço do conhecimento. Walt Disney pôde se beneficiar em
A defesa do interesse privado se legitima muitas de suas criações do fato de a obra
como um interesse público também. de Hans C. Andersen já estar em domí-
O atual direito autoral foi construí- nio público (cf. Lessig, 1999, passim).
do a partir da premissa de que é do inte- Na época, o prazo legal para saída do
resse público proteger e fortalecer o domínio privado era de 32 anos após a
processo de inovação. Este fortaleci- morte do autor, se os direitos perten-
mento, por sua vez, seria realizado por cessem a pessoa física. Este prazo che-
meio da capitalização do autor. Capitali- gou a 70 anos. Mas a nova legislação
zação fundamentada em duas premissas: americana, ao estender em mais 20 anos
a inovação necessita de mais e mais capi- o domínio privado sobre as obras exis-
tal, e os interesses pessoais do autor tentes17 – o novo prazo é de 90 anos –,
também dependem da capitalização. não permite que outros se beneficiem da
Essas premissas, válidas ontem, são ver- mesma forma das criações de Disney.18
dadeiras ainda hoje? Com a nova legislação, o interesse públi-
Elas enfrentam dois tipos de críticas. co foi adiado em 58 anos!
Primeiro, o que distingue a era virtual A tendência legislativa de prolongar
da era industrial ou da era das descober- o prazo de proteção dos direitos auto-
tas é justamente o fato de que o navega- rais termina por desequilibrar a balança
dor de hoje não depende tanto do capi- em que são sopesados os interesses de
tal financeiro como dependeram ontem capitalização do autor e a demanda de
Colombo, Cabral, Américo e Vasco da toda a coletividade por acesso às obras
Gama. Estes só puderam navegar depois intelectuais – indispensável ao processo
de encontrar o capitalista, seja em D. de inovação.
Manuel, seja em Isabel de Castela. Mas No Brasil, o prazo geral de proteção
Bill Gates em sua garagem ou Linus das obras intelectuais é de 70 anos, a
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contar do falecimento de seu autor.19 informações e o próprio desenvolvi-


Na prática, esse dispositivo cria um pra- mento tecnológico são retardados.
zo de proteção que, na maior parte das Assim, o mundo hoje se pergunta: o
vezes, supera o período de um século. É atual direito autoral, de forte conotação
isso mesmo. Se levarmos em conta que, privatista, deve ou não se flexibilizar
de acordo com o último censo realizado diante do interesse público por um ace-
pelo IBGE, a expectativa de vida do bra- lerado desenvolvimento do novo mun-
sileiro é de 68 anos, basta que o autor do virtual?
nacional crie a sua obra aos 38 anos de De resto, a capitalização não é
vida para que, caso o mesmo venha a necessariamente a única maneira de esti-
falecer aos 68 anos, o prazo de proteção mular, mobilizar e satisfazer o criador.
de um século se concretize. Ou seja, de São múltiplos os motivos pelos quais um
meia geração para geração e meia. navegador participa de uma aventura.
É evidente que 100 anos de prote- Nem Colombo nem Américo foram ser
ção é tempo demais para que a obra navegadores apenas para enriquecer. É
intelectual fique sujeita à exploração bem verdade que precisaram de financia-
exclusiva do autor e, depois de seu fale- dores – esses, sim, participantes da aven-
cimento, de seus herdeiros. A capitaliza- tura com vistas a aumentar sua riqueza.
ção que a lei visa a garantir para o autor É verdade também que Colombo pre-
pela criação – com o conseqüente estí- tendeu conseguir para si 10% de todas as
mulo para continuar a criar – ultrapassa riquezas encontradas nas novas Índias.
em muitos anos o que uma remuneração Mas foi também o desejo do poder polí-
“justa” pela criação ou os recursos tico que o fez exigir o título de governa-
necessários para a próxima criação. Há dor. Foi sobretudo o desafio do conheci-
que se ter um limite razoável. mento que o fez lutar contra o obscuran-
Essa situação se revela ainda mais tismo da Inquisição. A mesma multiplici-
inadequada quando observamos que o dade de fatores influenciou Vespúcio,
prazo de proteção do software é de “cin- cuja grande pretensão era “a fama por
qüenta anos, contados a partir de 1.º de largo tempo”. A religiosidade do Orien-
janeiro do ano subseqüente ao da sua te está aí para mostrar que o interesse
publicação ou, na ausência desta, da sua financeiro não é o único fator que move
criação”. Quando este prazo expirar, já montanhas e singra os mares. Reduzir a
não haverá qualquer interesse tecnológi- remuneração do autor unicamente à sua
co ou científico na utilização do software satisfação financeira é reduzir a própria
em questão. Tudo estará ultrapassado natureza humana. É reificar monetaria-
pela rapidez da invenção tecnológica. mente o sonho. Nem todos concordam.
Como conseqüência do exagerado prazo Começamos esta reflexão com o
de proteção, associado à posição majori- navegador Américo Vespúcio, terminare-
tária no mercado de softwares “fechados” mos com outro navegador (ou o aeronau-
(sem acesso ao código-fonte), o fluxo de ta, como gostava de se chamar): Santos
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244 : MUNDUS NOVUS: POR UM NOVO DIREITO AUTORAL JOAQUIM FALCÃO

Dumont. O verdadeiro inventor do Mundus Novus será tanto maior, mais


avião se recusou a patentear o Demoisel- rápida e mais globalmente democráti-
le – primeiro avião oferecido ao públi- ca, quanto maior e mais livre for o pri-
co de todo o mundo. Considerava-o um vilégio de cada um fazer experimentos
presente para a humanidade. Como para todos a partir dos inventos de
várias vezes afirmou, preferiria termi- todos. O novo Mundus Novus está a exi-
nar seus dias na pobreza a negar aos gir um novo direito autoral, capaz de
outros o privilégio de fazer experimen- avançar a aventura civilizatória. Capaz
tos aéreos a partir de seu invento de proteger e flexibilizar a iniciativa
(Hoffman, 2004, p. 250).20 individual ao mesmo tempo em que
Os irmãos Wright se escondiam do estimula um processo de inovação plu-
público para patentearem seus inventos. ral, descentralizado e livre que a tecno-
Dumont, não. Entendeu os inventores logia hoje permite, estimula, mobiliza e
como aqueles “que quase se esqueciam faz inevitável.
da vida, por muito se lembrarem de seu Concluindo, o século XXI depen-
sonho” (Santos-Dumont, 2000, p. 15). de, como dependeu o século XV, de um
Um dos sonhos era vir a saber, no futu- intenso processo de inovação acumula-
ro, que “um aeroplano partido do Novo tiva. Este processo, que se constitui no
Mundo foi ter ao Velho [Mundo] em tal- interesse público por excelência,
vez um dia” – o mesmo trecho que depende, por sua vez, de um cada vez
Colombo levara 70 dias para percorrer mais livre e descentralizado fluxo de
(Santos-Dumont, 2000, p. 120). Como informações. Este fluxo de informações
inventor do aeroplano, Dumont preten- varia de acordo com o direito que regu-
deu ser apenas “um colaborador na feli- la sua propriedade e acesso.
cidade dos homens” (Santos-Dumont, A ausência de uma estrita e formal
2000, p. 15). regulamentação jurídica – sobretudo
Eis aí o maior desafio em jogo nes- privatista – foi fator decisivo para que o
ta nova aventura da humanidade: a século XV se transformasse no século
construção do Mundus Novus virtual. das descobertas. A trajetória da Carta
Como romper com a ambição monopo- Mundus Novus de Vespúcio ilustra essa
lista de um direito do autor em que só tese e, ao mesmo tempo, ajuda a expli-
a capitalização do autor por meio do citar algumas das questões fundamen-
mercado assegura a continuidade da tais do século XXI, o século da navega-
criação e de inovação? Como não estig- ção na Internet: o público e descentra-
matizar como ilegais as formas alterna- lizado processo de inovação acumulati-
tivas de direito autoral que surgem na va do conhecimento, que o desenvolvi-
prática? Como não extingui-las antes mento tecnológico já viabiliza, versus o
mesmo que possam ser? estímulo à inovação centralizada e indi-
A construção do conhecimento vidualizada do ainda prevalecente do
indispensável à construção do novo direito autoral.
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2 V. 1 N. 2 | P. 229 - 246 | JUN-DEZ 2005 : 245

NOTAS

* Agradeço a Diego Werneck, Carlos Affonso, 1947 e maio de 1498, Vespúcio andava na Andaluzia, no
Horácio Falcão, Ronaldo Lemos e Antonio Sáenz de sul da Espanha. (...) Restam três navegações – estas são
Miera pela leitura prévia e sugestões. reais” (Bueno, 2003, p. 60).

1 Criador da Web. 8 Referindo-se à carta Quatro Navegações, que


incorpora a Mundus Novus.
2 Neste ponto, vale registrar a interessante a com-
paração feita por Gerd Bornheim entre a figura do naveg- 9 Referindo-se à carta Mundus Novus, Darcy
ador moderno e a dos antigos peregrinos: “O peregrino Ribeiro observa: “Sua descrição dos povos indígenas, seus
perseguia aquilo que ele já sabia, a confirmação absolutória modos, sua sexualidade, seus costumes, é a primeira boa
de um Absoluto desde sempre creditado, ele nunca se etnografia com que contamos. Tendo conhecido muitos
desprendia das fronteiras de uma verdade que se exauria em índios pôde avaliar suas diferenças de línguas e seus difer-
exigir a sua própria confirmação, ainda que, e mesmo prin- entes costumes. Guardou e perpetuou de todos uma
cipalmente, através de milagrosas penas sequiosas de imagem tão viva de gente bela e solidária, que foi o prin-
redenção. (...) Já o nosso sagaz navegador moderno cultiva cipal inspirador das utopias que se escreveriam a seguir”
a astúcia da descoberta do outro. Ao cabo de cada viagem, (Ribeiro, 1992, p. 120). Em outra passagem, comenta o
qual a paisagem, qual o novo paraíso, que tipo estranho de autor (1992, p. 103): “O texto de Vespúcio ajudou a
homem outro, e mesmo, e muito, que nova riqueza, que mudar a visão do globo terrestre e provocou uma enorme
novas promessas de riqueza?” (Bornheim, 1998, p. 32). produção complementar, não só de cosmógrafos e cartó-
grafos, mas, também, de filósofos, teólogos e intelectuais
3 Em que se lê: “Ainda assim, não se pode deixar do Renascimento, entre os quais se poderia, provavel-
de reconhecer que mais uma vez deixava-se de lado o mente, citar Thomas Morus”.
antigo argumento da autoridade para buscar-se, pela
observação, um conhecimento próprio, construído mais 10 Segundo Riccardo Fontana, o opúsculo Mundus
solidamente, porque feito de dentro para fora, pelo con- Novus é atribuído a um tal “Jocundus Interpres” (“alegre
vencimento que a realidade aparente pode dar a cada um tradutor e fantasioso falsário”), possivelmente o vero-
que a vê e estuda”. nense Giuliano di Bartolomeo di Giocondo (Fontana,
1994, p. 124).
4 Pode-se mencionar como exemplo o quadro
Morte do Padre Filipe Bourel, de autoria desconhecida 11 Quem narra o episódio é Felipe Fernández-
(“Escola Portuguesa” – Acervo do MNBA), que, pintado Armesto (1991, p. 186-187) em sua biografia de
por volta de 1700, ainda ilustra índios com porte Cristóvão Colombo: “Only a year after Columbus’s
europeu e, ao fundo, retrata com detalhes dois ver- death, Martin Waldeseemüller proposed that the new
dadeiros castelos medievais sediados no litoral do continent be named in honour of Amerigo Vecuppi whom
Nordeste brasileiro. he proclaimed a geographer equal to Ptolomy; six years
later, he retracted the sugestion and restored Columbus
5 Como disse João Moreira Salles (2003), “Flo- to the honour of the Discovery. In the meantime, howev-
rença inventou a Renascença, a Renascença inventou o er, the new name had begun to stick. It is pointless to call
mundo moderno”. it a misnomer, but it is important to realize that it has to
be justified, if at all, by Vespucci’s effectiveness as a pub-
6 “Portugal, com seu Projeto de Sagres, mudou o licist, not a discoverer”.
destino do homem ocidental e do mundo. Uma
extraordinária construção estratégica, operacional, técni- 12 A atual Lei de Direitos Autorais assim determi-
ca e econômica. Quantos países tiveram esse privilégio? na em seu art. 103: “Quem editar obra literária, artística
Não muitos, com certeza. Essa foi a sua saga” (Pinto, ou científica, sem autorização do titular, perderá para
2000, p. 319). este os exemplares que se apreenderem e pagar-lhe a o
preço dos que tiver vendido”.
7 Segundo Eduardo Bueno, “[E]stá provado que
Vespúcio só participou de três expedições ao Novo Mun- 13 Conforme o já citado art. 29, VIII, a, da Lei de
do. Sua ‘primeira navegação’, supostamente realizada em Direitos Autorais.
18 de maio de 1497, a outubro de 1498 (que, se tivesse
ocorrido, o transformaria no descobridor do novo conti- 14 Nesse sentido, cf. o acórdão do STF no RE-
nente, já que então Colombo visitara apenas as ilhas do 94201, Rel. Min. Aldir Passarinho, e o acórdão do Tri-
Caribe), não aconteceu. Documentos encontrados bunal de Justiça do Rio de Janeiro na Apelação Cível
pelo barão Humboldt comprovam que, entre abril de 2000.001.18234.
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246 : MUNDUS NOVUS: POR UM NOVO DIREITO AUTORAL JOAQUIM FALCÃO

15 Conforme entendimento do Tribunal de Justiça de 75 para 95 anos.


do Rio de Janeiro no julgamento das Apelações Cíveis
1991.001.00612 e 1993.001.00092. 19 Conforme o art. 41 da Lei 9.610/1998.

16 Nos termos dos incisos III e IV art. 29 da Lei de 20 Uma opção que aparentemente une os dois
Direitos Autorais. navegantes ao longo dos séculos, já que, “apesar das
posições políticas e das restrições culturais de Portugal da
17 Por intermédio do Sonny Bono Copyright Term época (impostas pela política do segredo), ele [Vespúcio]
Extension Act (USA 1998). sentia necessidade e prazer de descobrir, compreender,
interpretar e divulgar os frutos das próprias intuições
18 No caso de direitos que pertençam a pessoa como elevado exemplo da projeção universal do renasci-
jurídica, o prazo da legislação americana foi ampliado mento italiano” (Fontana, 1994, p. 71).

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Joaquim Falcão
D IRETOR DA FGV - D IREITO R IO