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A trajetória do capitalismo histórico e a

vocaçao tricontinental do marxismo

Samir Amin (*)

O comuneiro nº 12, março de 2011

A longa ascensão do capitalismo

A longa história do capitalismo é composta por três distintas fases


sucessivas: (1) Uma longa preparação - a transição do modo
tributário, a forma usual de organização das sociedades pré-
modernas, que durou oito séculos, de 1000 a 1800; (2) Um curto
período de maturação (século XIX), durante o qual o "Ocidente",
afirmou o seu domínio; (3) O longo declínio, causado pelo "Despertar
do Sul" (para usar o título de um livro meu, publicado em 2007), no
qual os povos e seus Estados recuperam a iniciativa na transformação
do mundo - a primeira vaga tendo ocorrido no século XX. Esta luta
contra uma ordem imperialista que é inseparável da expansão global
do capitalismo é o próprio agente potencial no longo caminho de
transição para além do capitalismo, em direção ao socialismo. No
século XXI, há agora o começo de uma segunda vaga de iniciativas
independentes por parte dos povos e Estados do Sul.

As contradições internas que eram características de todas as


sociedades avançadas no mundo pré-moderno - e não apenas
aquelas específicas da Europa "feudal" – são responsáveis pelas
sucessivas ondas de inovação sócio-tecnológica que vieram a
constituir a modernidade capitalista.

A mais antiga onda veio da China, onde as mudanças começaram


pela era de Sung (século XI) e, se desenvolvendo ainda mais nas
épocas de Ming e Qing, deram à China um avanço em termos de
inventividade tecnológica e de produtividade social do trabalho
coletivo, que só viria a ser ultrapassado pela Europa em pleno século
XIX. A onda "chinesa" seria seguida por uma do "Médio Oriente", que
teve lugar no Califado árabo-persa e, em seguida, através das
Cruzadas e suas sequelas, chegou às cidades de Itália.

A última onda diz respeito à longa transição do antigo mundo


tributário para o moderno mundo capitalista. Isso começou de fato na
parte atlântica da Europa, após a conquista/encontro com as
Américas, e durante três séculos (1500-1800) tomou a forma de
mercantilismo. O capitalismo, que gradualmente passou a dominar o
mundo, é o produto desta última onda de inovação sócio-tecnológica.
A forma europeia ("ocidental") de capitalismo histórico, que surgiu na
Europa central e atlântica, em sua descendência nos Estados Unidos
da América e, posteriormente, no Japão, desenvolveu suas próprias
características, nomeadamente um modo de acumulação baseado na
expropriação, em primeiro lugar, dos camponeses e dos povos das
periferias, que foram integrados como dependências em seu sistema
global. Esta forma histórica é, portanto, inseparável da contradição
centros/periferias que ela incessantemente constrói, reproduz e
aprofunda.

O capitalismo histórico tomou sua forma definitiva no final do século


XVIII, com a Revolução Industrial inglesa, que inventou a nova
"fábrica de máquinas" (juntamente com a criação do novo
proletariado industrial) e a Revolução Francesa, que deu origem à
política moderna.

O capitalismo maduro desenvolveu-se durante o curto período que


marcou o apogeu desse sistema, no século XIX. A acumulação de
capital, em seguida, tomou sua forma definitiva e se tornou a lei
básica que rege a sociedade. Desde o início, essa forma de
acumulação foi construtiva (permitiu uma aceleração prodigiosa e
contínua da produtividade do trabalho social). Mas era, ao mesmo
tempo, destrutiva. Marx observou que a acumulação destrói as duas
bases de riqueza: o ser humano (vítima da alienação das
mercadorias) e a natureza.

Em minhas análises do capitalismo histórico, tenho salientado


particularmente uma terceira dimensão da destrutividade da
acumulação: a expropriação material e cultural dos povos dominados
da periferia - que Marx tinha um pouco passado em claro. Isso se
deveu, sem dúvida, a que, no curto período em que Marx estava
produzindo seus trabalhos, a Europa parecia quase exclusivamente
dedicada às exigências da acumulação interna. Marx, assim, relegou
esta desapropriação a uma fase temporária de "acumulação
primitiva" que eu, pelo contrário, tenho descrito como sendo
permanente.

O fato é que, durante o seu curto período de maturidade, o


capitalismo cumpriu inegáveis funções progressivas. Ele criou as
condições que tornaram possível e necessário que seja ultrapassado
pelo socialismo/comunismo, tanto a nível material, como ao nível de
uma nova consciência política e cultural que o acompanha. O
socialismo (e ainda mais o comunismo) não é, como alguns têm
pensado, para ser concebido como um "modo de produção" superior
porque é capaz de acelerar o desenvolvimento das forças de
produção e de associá-lo a uma "justa" distribuição de renda. O
socialismo é outra coisa: uma etapa superior no desenvolvimento da
civilização humana. Não é, portanto, por acaso que o movimento
operário se enraizou na população explorada e se comprometeu na
luta pelo socialismo, tão evidente na Europa do século XIX, expressa
em 1848 em ‘O Manifesto do Partido Comunista’. Também não é por
acaso que este desafio tomou a forma da primeira revolução
socialista da história: a Comuna de Paris em 1871.

Capitalismo monopolista: o início do longo declínio


No final do século XIX, o capitalismo entrou em seu longo período de
declínio. Quero dizer com isto que as dimensões destrutivas da
acumulação agora começam a prevalecer, de forma crescente, sobre
a sua dimensão progressiva e construtiva. Esta transformação
qualitativa do capitalismo tomou forma com a criação de novos
monopólios de produção (agora não apenas nas áreas do comércio e
da conquista colonial, como no período mercantilista) no final do
século XIX. Isto foi em resposta à primeira longa crise estrutural do
capitalismo, que começou em 1870, logo após a derrota da Comuna
de Paris. O surgimento do capitalismo monopolista (como foi
notoriamente destacado por Hilferding e Hobson) mostrou que o
capitalismo clássico, da livre concorrência, e na verdade o próprio
capitalismo, em si mesmo, tinha já “tido o seu dia" e estava a tornar-
se "obsoleto". O sino soou para a necessária e possível expropriação
dos expropriadores. Este declínio encontrou sua expressão na
primeira onda de guerras e revoluções que marcaram a história do
século XX. Lênin estava, portanto, certo ao descrever o capitalismo
monopolista como a "fase superior do capitalismo".

Mas, de forma otimista, Lenine pensou que esta primeira crise longa
seria a última, estando a revolução socialista na agenda. A história,
mais tarde, provou que o capitalismo foi capaz de superar essa crise,
ao custo de duas guerras mundiais. Foi mesmo capaz de se adaptar
aos contratempos que lhe foram impostos pelas revoluções russa e
chinesa e pela libertação nacional na Ásia e na África. Todavia, após o
curto período de recuperação do capitalismo monopolista (1945-
1975), seguiu-se uma segunda longa crise estrutural do sistema, a
partir da década de 1970. O capital reagiu a este desafio renovado
por uma transformação qualitativa que tomou a forma do que eu
descrevi como "capitalismo monopolista generalizado".

Uma série de questões importantes surgem a partir desta


interpretação do "longo declínio” do capitalismo, que dizem respeito à
natureza da "revolução" que estava na ordem do dia. Poderia o
"longo declínio" do capitalismo monopolista histórico ser sinônimo de
"longa transição" para o socialismo/comunismo? Em que condições?

De 1500 (início da forma mercantilista, atlântica, da transição ao


capitalismo maduro) para 1900 (o início do desafio à lógica unilateral
de acumulação), os ocidentais (os europeus, depois os norte-
americanos e, mais tarde, os japoneses) mantiveram-se os mestres
do jogo. Eles, sozinhos, deram forma às estruturas do mundo novo
do capitalismo histórico. Os povos e nações da periferia, que haviam
sido conquistados e dominados, resistiram, é claro, tão bem quanto
puderam, mas eles sempre acabaram por ser derrotados e foram
forçados a se adaptar à sua condição subalterna.

A dominação euro-atlântica do mundo foi acompanhada pela sua


explosão demográfica: os europeus, que constituíam 18 por cento da
população do planeta em 1500, representavam 36 por cento em 1900
– aumentados pelos seus descendentes que emigraram para as
Américas e para a Austrália. Sem esta emigração em massa, o
modelo de acumulação do capitalismo histórico, baseado no
desaparecimento acelerado do mundo camponês, teria sido
simplesmente impossível. É por isso que o modelo não pode ser
reproduzido nas periferias do sistema, as quais não têm suas
"Américas" para conquistar. Sendo impossível "alcançar" os da frente,
no presente sistema, os povos das periferias não têm outra
alternativa senão optar por um caminho de desenvolvimento
diferente.

A iniciativa passa aos povos e nações da periferia

Em 1871, a Comuna de Paris que, como mencionado, foi a primeira


revolução socialista, foi também a última a ter lugar num país que
fazia parte do centro capitalista. O século XX inaugurou - com o
"despertar dos povos das periferias" - um novo capítulo na história.
Suas primeiras manifestações foram as revoluções no Irã (1907), no
México (1910-1920), China (1911) e na "semi-periférica" Rússia em
1905. Este despertar dos povos e nações da periferia foi prosseguido
ainda com a Revolução de 1917, o Nahda árabo-muçulmano, a
constituição do movimento Jovens Turcos (1908), a Revolução
Egípcia de 1919 e a formação do Congresso Indiano (1885).

Em reação à primeira longa crise do capitalismo histórico (1875-


1950), os povos da periferia começaram a libertar-se, em torno de
1914-1917, mobilizando-se sob as bandeiras do socialismo (Rússia,
China, Vietnã, Cuba) ou da libertação nacional (Índia, Argélia),
associada a diferentes graus de reformas sociais progressivas. Eles
tomaram o caminho para a industrialização, até então proibida pela
dominação do (velho) imperialismo "clássico", obrigando este último
a "ajustar-se" a esta primeira onda de iniciativas independentes dos
povos, nações e Estados das periferias. De 1917 até o momento em
que o "projeto de Bandung" (1955-1980) perdeu força e o sovietismo
desabou, em 1990, estas foram as iniciativas que dominaram a cena.

Eu não vejo as duas longas crises do capitalismo monopolista


envelhecido em termos de ciclos longos de Kondratieff, mas como
duas fases no declínio do capitalismo histórico globalizado e na
possível transição para o socialismo. Também não vejo o período
1914-1945, exclusivamente como a "guerra de 30 anos" pela
sucessão de "hegemonia britânica". Vejo este período também como
a longa guerra conduzida pelos centros imperialistas contra o
primeiro despertar das periferias (Leste e Sul).

Esta primeira fase do despertar dos povos da periferia desgastou-se


por muitas razões, incluindo as suas próprias limitações e
contradições internas, e o sucesso do imperialismo em encontrar
novas maneiras de dominar o sistema mundial (através do controle
da invenção tecnológica, do acesso aos recursos, do sistema
financeiro globalizado, da comunicação e tecnologia da informação,
das armas de destruição em massa).

No entanto, o capitalismo passou por uma segunda crise que começou em 1970,
exatamente cem anos após a primeira. As reações do capital a essa crise foram as
mesmas que tinha tido com a anterior: a concentração reforçada, que deu origem
ao capitalismo monopolista generalizado, à globalização ("liberal") e à
financeirização. Mas o momento de triunfo - a segunda "belle époque", de 1990 a
2008, repetindo a primeira "belle époque", de 1890 a 1914 - do novo imperialismo
colectivo da tríade (Estados Unidos, Europa e Japão) foi de fato muito breve. Uma
nova época de caos, guerras e revoluções emergiu. Nesta situação, a segunda onda
do despertar das nações da periferia (que já tinha começado), trouxe agora uma
recusa a permitir que o imperialismo colectivo da tríade mantivesse a sua posição
dominante, a não ser através do controle militar do planeta. O establishment de
Washington, dando prioridade a este objectivo estratégico, prova que está
perfeitamente consciente das verdadeiras questões em jogo nas lutas e conflitos
decisivos da nossa época, em oposição à visão ingênua das correntes maioritárias
no "altermundialismo" ocidental

É o capitalismo monopolista generalizada a última fase do


capitalismo?

Lênin descreveu o imperialismo dos monopólios como a "fase superior


do capitalismo". Descrevi o imperialismo como "fase permanente do
capitalismo", no sentido de que o capitalismo globalizado histórico foi
construído, e não cessou nunca de se reproduzir e aprofundar, na
polarização centro/periferia. A primeira onda de constituição de
monopólios, no final do século XIX, envolveu certamente uma
transformação qualitativa na estrutura fundamental do modo de
produção capitalista. Lênin deduziu disto que a revolução socialista
estava na ordem do dia, e Rosa Luxemburgo acreditava que as
alternativas eram então "socialismo ou barbárie." Lênin era
certamente demasiado otimista, tendo subestimado os efeitos
devastadores da renda imperialista - e das transferências a ela
associadas - sobre a revolução, tanto no Oeste (os centros) como no
Leste (as periferias).
A segunda onda de centralização do capital, que teve lugar no último
terço do século XX, constituía uma segunda transformação qualitativa
do sistema, que eu descrevi como de "monopólios generalizados". De
agora em diante, eles não só comandam as alturas da economia
moderna, mas também conseguiram impor o seu controle direto
sobre todo o sistema de produção. As pequenas e médias empresas
(e mesmo as grandes, fora dos monopólios), como os agricultores,
foram literalmente despossuídos, reduzidos ao estatuto de
subempreiteiros, com as suas actividades, a montante e a jusante,
submetidas a um rígido controle por parte dos monopólios.

Nesta fase mais alta da centralização do capital, os seus laços com


um corpo orgânico vivo - a burguesia - foram quebrados. Esta é uma
mudança extremamente importante: a burguesia histórica,
constituída por famílias enraizadas localmente, deu lugar a uma
anônima oligarquia plutocrata, que controla os monopólios, apesar da
dispersão dos títulos do seu capital social. A série de operações
financeiras inventadas nas últimas décadas testemunha esta forma
suprema de alienação: o especulador pode agora vender aquilo de
que não dispõe sequer, de modo que o princípio da propriedade é
reduzido a um estado que é pouco menos que irrisório.

A função de trabalho socialmente produtivo desapareceu. O alto grau


de alienação existente tinha já atribuído uma força produtiva ao
dinheiro ("o dinheiro faz bébés"). Agora, a alienação atingiu novos
cumes: é o tempo ("tempo é dinheiro") que, por sua própria e única
virtude, “produz lucro". A nova classe burguesa que provê às
exigências da reprodução do sistema foi reduzida ao estatuto de
"servos assalariados" (precários, desde logo), mesmo quando são,
como membros dos sectores superiores das classes médias, pessoas
privilegiadas que são muito bem pagos pelo seu "trabalho".
Assim sendo, não deveremos concluir que o capitalismo cumpriu já o
seu tempo? Não há outra resposta possível ao desafio: os monopólios
devem ser nacionalizados. Este é um primeiro passo, inevitável, para
uma possível socialização da sua gestão por parte dos trabalhadores
e dos cidadãos. Apenas isto irá tornar possível a progressão na longa
estrada para o socialismo. Ao mesmo tempo, será a única maneira de
desenvolver uma nova macroeconomia, que restaure um verdadeiro
espaço para as operações das pequenas e médias empresas. Se isso
não for feito, a lógica da dominação pelo capital abstrato pode
produzir apenas o declínio da democracia e da civilização, até um
"apartheid generalizado" a nível mundial.

A vocação tricontinental do marxismo

A minha interpretação do capitalismo histórico enfatiza a polarização


do mundo (o contraste centro/periferia), produzido pela forma
histórica da acumulação de capital. Esta perspectiva questiona as
visões da "revolução socialista" e, mais amplamente, da transição ao
socialismo que os marxismos históricos têm desenvolvido. A
"revolução" - ou a transição – que temos perante nós não é
necessariamente aquela em que essas visões históricas foram
baseadas. Nem são as mesmas as estratégias para a superação do
capitalismo.

Tem que se reconhecer que, o que as mais importante lutas sociais e


políticas do século XX tentaram desafiar, não foi tanto o capitalismo
em si mesmo, como a dimensão imperialista permanente do
capitalismo realmente existente. A questão é, portanto, saber se esta
transferência do centro de gravidade das lutas coloca
necessariamente o capitalismo em questão, pelo menos
potencialmente.

O pensamento de Marx associa clareza "científica" na análise da


realidade com a ação social e política (a luta de classes no seu mais
amplo sentido), destinada a "mudar o mundo". Confrontar o básico -
ou seja, a descoberta da verdadeira fonte de valor excedente,
produzido pela exploração do trabalho social pelo capital - é
indispensável para esta luta. Se esta contribuição fundamental e
lúcida de Marx for abandonada, o resultado é, inevitavelmente, uma
falha dupla. Um tal abandono da teoria da exploração (lei do valor)
reduz a análise da realidade a apenas aparências, uma forma de
pensar que é limitada por sua abjeta submissão às exigências da
mercantilização, engendrada pelo sistema. Da mesma forma, um tal
abandono da crítica do sistema baseada no valor-trabalho, anula a
eficácia das estratégias e lutas para mudar o mundo, que são, assim,
concebidas no interior deste quadro alienante, cujas proclamações de
"cientificidade" não têm nenhuma base real.

No entanto, não é suficiente agarrarmo-nos apenas às análises


lúcidas formuladas por Marx. Isto não é assim apenas porque a
"realidade", em si própria, é mudança, havendo sempre "novas"
coisas a ter em conta no desenvolvimento da crítica do mundo real
que começou com Marx. Mais importante ainda que isto é o facto de
que, como sabemos, a análise que Marx apresentou em ‘O Capital’ foi
deixada incompleta. No sexto volume planejado para este trabalho
(que nunca foi escrito), Marx propunha-se tratar da globalização do
capitalismo. Isso agora tem de ser feito por outros, sendo por isso
que ousei defender a formulação da "lei do valor globalizado",
restaurando o lugar do desenvolvimento desigual (através da
polarização centro/periferia), que é inseparável da expansão global
do capitalismo histórico. Nesta formulação, "a renda imperialista" é
integrada no processo total de produção e circulação do capital e de
distribuição da mais-valia. Esta renda está na origem do desafio: ela
explica por que as lutas pelo socialismo nos centros imperialistas se
desvaneceram, e destaca as dimensões anti-imperialistas das lutas
nas periferias contra o sistema da globalização
capitalista/imperialista.

Não vou voltar aqui à discussão sobre o que uma exegese dos textos
de Marx sobre esta questão nos pode sugerir. Marx, que é nada
menos que um gigante, com toda a sua capacidade crítica e a incrível
sutileza de seu pensamento, deve ter tido pelo menos uma intuição
de que estava aqui confrontado com uma séria questão. Isto é
sugerido pelas suas observações sobre os efeitos desastrosos do
alinhamento da classe operária inglesa com o chauvinismo associado
à exploração colonial da Irlanda. Marx, portanto, não ficou
surpreendido de que fosse na França - menos desenvolvida do que a
Inglaterra economicamente, mas mais avançada em consciência
política - que ocorreu a primeira revolução socialista. Tal como
Engels, também ele chegou a esperar que o "atraso" da Alemanha lhe
permitiria desenvolver uma forma original de avanço, com uma fusão
entre as revoluções burguesa e socialista.

Lênin foi ainda mais longe. Ele enfatizou a transformação qualitativa


envolvida na passagem para o capitalismo monopolista, e tirou daí as
conclusões necessárias: que o capitalismo tinha deixado de ser uma
necessária etapa progressiva na história e que agora estava
"putrefacto" (termo do próprio Lênin). Em outras palavras, ele havia
se tornado "obsoleto" e "senil" (termos meus), de modo que a
passagem para o socialismo estava na agenda, sendo a um tempo
necessária e possível. Ele concebeu e implementou, neste quadro,
uma revolução que começou na periferia (Rússia, o "elo fraco").
Então, vendo o fracasso de suas esperanças em uma revolução
européia, ele concebeu a transferência da revolução para o Oriente,
onde viu que se tornara possível a fusão dos objectivos da luta anti-
imperialista com os da luta contra o capitalismo.
Mas foi Mao quem rigorosamente formulou a natureza complexa e
contraditória dos objectivos na transição para o socialismo, que
deveriam ser prosseguidos nessas condições. O "Marxismo" (ou, mais
exatamente, os marxismos históricos) foi confrontado por um novo
desafio - um desafio que não existia ainda na mais lúcida consciência
política do século XIX, mas que surgiu por causa da transferência da
iniciativa de transformação do mundo para os povos, nações e
Estados da periferia.

A renda imperialista não beneficiou “apenas” os monopólios no centro


dominante (na forma de super lucros), foi também a base da
reprodução da sua sociedade como um todo, apesar de sua evidente
estruturação em classes e da exploração dos seus trabalhadores. Isto
é aquilo que Perry Anderson analisou de forma tão clara como
"marxismo ocidental", que ele descreveu como "o produto da derrota"
(o abandono da perspectiva socialista) - e que é relevante aqui. Este
marxismo estava portanto condenado, tendo renunciado a "mudar o
mundo" e comprometendo-se apenas com estudos "acadêmicos",
sem impacto político. A deriva liberal da social-democracia - e o seu
alinhamento, tanto com a ideologia de "consenso" dos E.U.A., como
com o atlantismo ao serviço da dominação imperialista do mundo -
foi a conseqüência.

Um "outro mundo" (uma frase muito vaga para indicar um mundo


comprometido com o longo caminho rumo ao socialismo) será
obviamente impossível, a menos que forneça uma solução para os
problemas dos povos da periferia - apenas 80 por cento da população
mundial! "Mudar o mundo" significa, portanto, alterar as condições de
vida desta maioria. O marxismo, que analisa a realidade do mundo a
fim de tornar as forças que atuam para a mudança tão eficazes
quanto possível, adquire necessariamente uma decisiva vocação
tricontinental (África, Ásia, América Latina).
Como está isto relacionado com o terreno de luta com que nos
confrontamos? O que eu proponho, em resposta a esta pergunta, é
uma análise da transformação do capitalismo imperialista
monopolista ("senil") em capitalismo monopolista generalizado (ainda
mais senil, por essa razão). Esta é uma transformação qualitativa, em
resposta à segunda longa crise do do sistema, que começou na
década de 1970 e que ainda não foi resolvida. A partir desta análise,
eu tiro duas conclusões principais: (1) O sistema imperialista é
transformado no imperialismo colectivo da tríade, em reação à
industrialização das periferias, imposta pelas vitórias da primeira
onda de seu "despertar". Isto ocorre juntamente com a
implementação pelo novo imperialismo dos novos meios de controle
do sistema mundial, baseados no controle militar do planeta e seus
recursos, na super-proteção da apropriação exclusiva da tecnologia
pelos oligopólios e no seu controle sobre o sistema financeiro
mundial. A acompanhar isto dá-se uma transformação das estruturas
de classes do capitalismo contemporâneo, com o surgimento de uma
exclusiva oligarquia dominante.

O "marxismo ocidental" tem ignorado a transformação decisiva


representada pela emergência do capitalismo monopolista
generalizado. Os intelectuais da nova esquerda radical ocidental se
recusam a medir os efeitos decisivos da concentração dos oligopólios
que agora dominam o sistema produtivo como um todo, da mesma
forma que dominam toda a vida política, social, cultural e ideológica.
Tendo eliminado o termo "socialismo" (e,a fortiori, o "comunismo")
de sua linguagem, já não prevêm a necessária expropriação dos
expropriadores, mas apenas um impossível "outro capitalismo", com
o que eles chamam de "rosto humano". O desvio dos discursos "post"
(pós-moderno, pós-marxista, etc.) é disso o resultado inevitável. Toni
Negri, por exemplo, não diz uma única palavra sobre esta
transformação decisiva que, para mim, está no centro das questões
do nosso tempo.

A novilíngua (“newspeak”) destes delírios loucos deve ser encarada,


no sentido literal do termo, como um imaginário ilusório afastado de
toda a realidade. Em francês, le peuple (e melhor ainda, les classes
populaires), como em espanhol el pueblo (las clases populares), não
é sinônimo de "todos". Refere-se às classes dominadas, exploradas e,
portanto, também enfatiza a sua diversidade (e a diversidade dos
tipos de relação que mantêm com o capital), o que torna possível a
construção de estratégias eficazes e concretas para torná-las em
ativos agentes de mudança. Isto está em contraste com o
equivalente em inglês: people não tem esse significado, sendo
sinônimo do francês les gens (todos) e do espanhol la gente. A
novilíngua ignora estes conceitos (marcados pelo marxismo e
formulados em francês ou espanhol), substituindo-os por algumas
palavras vagas como a "multidão" de Negri. É um delírio filosófico
atribuir a essa palavra (que não acrescenta nada, mas subtrai muito)
uma assim dito poder analítico, invocando para isso a sua utilização
por Spinoza, que viveu em um tempo e em condições que nada têm a
ver com os nossos.

O pensamento político da moda dos novos esquerdistas radicais


ocidentais também ignora o caráter imperialista da dominação dos
monopólios generalizados, substituindo-o pela expressão vazia de
"Império" (Negri). Este ocidentocentrismo, levada ao extremo, omite
qualquer reflexão sobre a renda imperialista, sem a qual nem os
mecanismos da reprodução social, nem os desafios por eles assim
constituídos, podem ser entendidos.

Em contraste com isto, Mao apresentou uma visão que era, ao


mesmo tempo, profundamente revolucionária e "realista" (científica,
lúcida) sobre os termos em que o desafio deve ser analisado,
tornando possível deduzir estratégias eficazes para sucessivos
avanços no longo caminho da transição para o socialismo. Por esta
razão, ele distingue e liga as três dimensões da realidade: povos,
nações, Estados.

Os povos (classes populares) "querem a revolução". Isto significa que


é possível construir um bloco hegemônico que reúna as diferentes
classes dominadas e exploradas, em oposição àquele que permite a
reprodução do sistema de dominação do capitalismo imperialista, que
é o bloco hegemônico comprador, com o Estado ao seu serviço.

A menção feita às nações se refere ao fato de que a dominação


imperialista nega a dignidade das "nações" (chame-se-lhes o que se
quiser), forjada pela história das sociedades das periferias. Essa
dominação tem sistematicamente destruído tudo o que dá às nações
a sua originalidade - em nome da "ocidentalização" e da proliferação
de lixo barato. A libertação dos povos é, pois, inseparável da das
nações a que eles pertencem. E esta é a razão pela qual o maoísmo
substituíu o curto slogan "Proletários de todos os países, uni-vos!"
por um mais abrangente "Proletários de todos os países, povos
oprimidos, uni-vos!" As nações querem a sua "libertação", vendo-a
como complementar à luta dos povos e não conflitual com ela. A
libertação em questão não é, portanto, a restauração do passado - a
ilusão fomentada por um apego culturalista ao passado - mas a
invenção do futuro. Esta baseia-se na transformação radical do
património histórico do país, ao invés da importação artificial de uma
falsa “modernidade". A cultura que é herdada e submetida ao teste
da transformação é entendida aqui como cultura política - cuidados
sendo tomados para não usar o termo indiferenciado "cultura"
(incluindo a "religiosa" e inúmeras outras formas), que em si mesmo
nada significa, pois que a cultura genuína não é abstrata, nem é uma
invariante histórica.
A referência ao Estado é baseada no necessário reconhecimento da
autonomia relativa do seu poder, nas suas relações com o bloco
hegemônico que é a base de sua legitimidade, mesmo que este seja
popular e nacional. Esta autonomia relativa não pode ser ignorada,
enquanto o Estado existe, isto é, pelo menos, por toda a duração da
transição para o comunismo. É só depois disso que poderemos pensar
em uma "sociedade sem Estado", não antes. Isto não é assim apenas
porque os avanços populares e nacionais devem ser protegidos
contra a permanente agressão do imperialismo, que ainda domina o
mundo, mas também, e talvez acima de tudo, porque "para avançar
na longa transição" é também necessário "desenvolver as forças
produtivas". Em outras palavras, o objetivo é conseguir aquilo que o
imperialismo tem impedido nos países da periferia, obliterando o
legado de polarização no mundo, que é inseparável da expansão
mundial do capitalismo histórico. O programa não é o mesmo que
“alcançar” ("catching up") através da imitação do capitalismo central
- um alcançar que é, aliás, impossível e, acima de tudo, indesejável.
Ele impõe uma concepção diferente de
"modernização/industrialização", baseada na participação real das
classes populares no seu processo de implementação, com benefícios
imediatos para elas em cada nova fase de avanço. Devemos,
portanto, rejeitar o raciocínio dominante, que exige que as pessoas
esperem indefinidamente até que o desenvolvimento das forças
produtivas tenha, finalmente, criado as condições para uma
passagem "necessária" ao socialismo. Estas forças devem ser
desenvolvidas desde o início com a perspectiva de construir o
socialismo. O poder do Estado está, evidentemente, no centro dos
conflitos entre essas exigências contraditórias de "desenvolvimento" e
"socialismo".

"Os Estados querem a independência". Isto deve ser visto como um


duplo objectivo: independência (forma extrema de autonomia) em
relação às classes populares, independência das pressões do sistema
capitalista mundial. A "burguesia" (em termos gerais, a classe
governante, colocada em cargos de direção do Estado, cujas
ambições sempre tendem para uma evolução burguesa) é tanto
nacional como compradora. Se as circunstâncias lhe permitirem
reforçar a sua autonomia em relação ao imperialismo dominante, ela
opta por "defender o interesse nacional". Mas se as circunstâncias
não lho permitirem, ela optará pela submissão "compradora" às
exigências do imperialismo. A "nova classe governante" (ou "grupo
governante") ainda está numa posição ambígua, mesmo quando se
baseia num bloco popular, pelo fato de que é animada por uma
tendência "burguesa", ao menos parcialmente.

A correta articulação da realidade a estes três níveis - povos, nações


e Estados – condiciona o sucesso da progressão no longo caminho da
transição. É uma questão de reforçar a complementaridade dos
avanços do povo, da libertação da nação e das realizações do poder
do Estado. Mas se for permitido o desenvolvimento das contradições
entre o agente popular e o agente do Estado, quaisquer avanços
estarão finalmente condenados.

Haverá um impasse se um destes níveis não estiver preocupado com


a sua articulação com os outros. A noção abstrata de "povo" como
sendo a única entidade que conta, e a tese do "movimento"
abstracto, capaz de transformar o mundo sem se preocupar com a
tomada do poder, são simplesmente ingênuas. A idéia de libertação
nacional "a todo o custo" - vista como independente do conteúdo
social do bloco hegemônico - leva à ilusão cultural do apego
irrecuperável ao passado (o islamismo político, hinduísmo e budismo
são exemplos) sendo, na verdade, impotente. Isso gera uma noção
de poder concebido como sendo capaz de "alcançar conquistas" para
o povo, mas que é, de fato, destinado a ser exercido sem ele.
Conduz, portanto, à deriva para o autoritarismo e à cristalização de
uma nova burguesia. O desvio do sovietismo, que evoluiu de um
"capitalismo sem capitalistas" (capitalismo de Estado) para um
"capitalismo com capitalistas" é o exemplo mais trágico disso mesmo.

Uma vez que os povos, nações e Estados da periferia não aceitam o


sistema imperialista, o "Sul" é a "zona de tempestade", onde ocorrem
levantes e revoltas permanentes. Começando em 1917, a história
tem consistido principalmente nessas revoltas e iniciativas
independentes (no sentido de independentes das tendências que
dominam o sistema capitalista imperialista existente) dos povos,
nações e Estados das periferias. São estas iniciativas, apesar de seus
limites e contradições, que moldaram as transformações mais
decisivas do mundo contemporâneo, muito mais do que os
progressos das forças produtivas e as adaptações sociais
relativamente fáceis que os acompanharam nas áreas centrais do
sistema.

A segunda onda de iniciativas independentes dos países do Sul já


começou. Os países "emergentes" e outros, assim como os seus
povos, estão lutando contra as formas com que o imperialismo
colectivo da tríade tenta perpetuar a sua dominação. As intervenções
militares de Washington e seus aliados subalternos da NATO também
se revelaram um fracasso. O sistema financeiro mundial está
entrando em colapso e, em seu lugar, os sistemas autónomos
regionais estão em processo de constituição. O monopólio tecnológico
dos oligopólios foi frustrado.

Recuperar o controle sobre os recursos naturais está na ordem do


dia. Os países andinos, vítimas do colonialismo interno que sucedeu à
colonização estrangeira, fazem-se sentir no nível político.

As organizações populares e partidos da esquerda radical em luta já


derrotaram alguns programas liberais (na América Latina) ou estão
em vias de fazê-lo. Estas iniciativas, que são, em primeiro lugar,
fundamentalmente anti-imperialistas, são potencialmente capazes de
abrir compromissos no longo caminho para a transição socialista.

Como se relacionam entre si estes dois futuros possíveis? O "outro


mundo" que está sendo construído é sempre ambíguo: ele carrega
em si o pior e o melhor, ambos eles "possíveis" (não há leis na
história, anteriores à própria história, para nos dar uma indicação).
Uma primeira onda de iniciativas por parte dos povos, nações e
Estados da periferia teve lugar no século XX, até 1980. Qualquer
análise de seus componentes não fará sentido, a menos que sejam
consideradas as complementaridades e conflitos sobre a forma como
os três níveis se relacionam entre si. Uma segunda onda de iniciativas
na periferia já começou. Será que vai ser mais eficaz? Poderá ir mais
longe do que a anterior?

Acabar com a crise do capitalismo?

As oligarquias no poder dentro do sistema capitalista contemporâneo


estão tentando restaurar o sistema como ele era antes da crise
financeira de 2008. Para isso, elas precisam convencer as pessoas
através de um "consenso" que não ponha em causa o seu poder
supremo. Para conseguir isso, elas estão dispostas a fazer algumas
concessões retóricas sobre os desafios ecológicos (em particular
sobre a questão do clima), pintando de verde a sua dominação, e até
mesmo insinuando que vão levar a cabo reformas sociais (a guerra
"contra a pobreza") e reformas políticas ("boa governança").

Participar neste jogo de convencer as pessoas da necessidade de


forjar um novo consenso - mesmo definido em termos que serão
claramente melhores - vai acabar em fracasso. Pior ainda, irá
prolongar ilusões fatais. Isso ocorre porque a resposta ao desafio
criado pela crise do sistema global exige primeiro a transformação
das relações de poder em benefício dos trabalhadores, bem como das
relações internacionais em benefício dos povos das periferias. As
Nações Unidas têm organizado uma série de conferências mundiais
que não resultaram em nada - tal como seria de esperar.

A história provou que este é um requisito necessário. A resposta à


primeira crise longa do capitalismo envelhecido ocorreu entre 1914 e
1950, principalmente através dos conflitos que opuseram os povos
das periferias à dominação dos poderes imperiais e, em graus
diversos, através de relações sociais internas que beneficiaram as
classes populares. Desta forma, eles prepararam o caminho para os
três sistemas do período pós-Segunda Guerra Mundial: os socialismos
realmente existentes da época, os regimes nacionais e populares de
Bandung, e os do compromisso social-democrata nos países do Norte,
o qual se tinha tornado especialmente necessário por causa das
iniciativas independentes dos povos das periferias.

Em 2008, a segunda crise longa do capitalismo passou para uma


nova fase. Violentos conflitos internacionais já começaram e são bem
visíveis: irão eles desafiar a dominação dos monopólios
generalizados, com base em posições anti-imperialistas? Como se
relacionam eles com as lutas sociais das vítimas das políticas de
austeridade prosseguidas pelas classes dominantes, em resposta à
crise? Em outras palavras, será que os povos vão empregar uma
estratégia de livrar-se de um capitalismo em crise, em vez da
estratégia para livrar o sistema da sua crise, seguida pelos poderes
constituídos?

Os ideólogos serventuários do poder estão a perder vapor, fazendo comentários


fúteis sobre "o mundo após a crise". A CIA só pode prever a restauração do
sistema, atribuindo uma maior participação dos "mercados emergentes" no
contexto da globalização liberal, isto em detrimento apenas da Europa, não dos
Estados Unidos. É incapaz de reconhecer que esta crise aprofundada não será
"superada", senão através de violentos conflitos internacionais e sociais. Ninguém
sabe o que daí resultará: pode se inclinar para o melhor (o progresso na direção do
socialismo) ou para o pior (o mundo do apartheid
A radicalização política das lutas sociais é a condição para superar a
fragmentação interna e sua estratégia exclusivamente defensiva
("salvaguardar os benefícios sociais"). Somente desta forma é
possível identificar os objetivos necessários para a realização do
longo caminho para o socialismo. Só isso vai permitir aos
"movimentos" tomar uma parcela real de poder.

O fortalecimento dos movimentos exige um conjunto de condições


macro-políticas e macro-econômicas que tornam viáveis os seus
projectos concretos. Como criar estas condições? Aqui chegamos à
questão central do poder do Estado. Um Estado renovado,
verdadeiramente popular e democrático, será capaz de levar a cabo
políticas efetivas nas condições de globalização do mundo
contemporâneo? Uma resposta imediata negativa, da parte da
esquerda, levou a pedidos de iniciativas para alcançar um consenso
mínimo global, como base para a mudança política universal,
contornando o Estado. Essa resposta e seu corolário estão se
mostrando infrutíferos. Não há outra solução a não ser gerar avanços
a nível nacional, talvez reforçados por uma acção adequada a nível
regional. Eles devem ter por objectivo o desmantelamento do sistema
mundial ("dissociação") antes de uma eventual reconstrução, numa
base social diferente, com a perspectiva de ir além do capitalismo. O
princípio é tão válido para os países do Sul - que, aliás, já começaram
a avançar nesse sentido, na Ásia e América Latina - como o é para os
países do Norte, onde, infelizmente, a necessidade de desmantelar as
instituições europeias (e a do euro) não está ainda prevista, nem
mesmo pela esquerda radical.

O indispensável internacionalismo dos trabalhadores e dos


povos

Os limites dos avanços feitos pelo despertar do Sul no século XX, e a


exacerbação das contradições que daí resultaram foram as causas da
primeira onda de libertação ter perdido o seu ímpeto. Isso foi
grandemente reforçado pela hostilidade permanente dos Estados do
centro imperialista, que chegaram ao ponto de travar uma guerra
aberta que - isto tem de ser dito - foi apoiada, ou pelo menos aceite,
pelos povos do Norte. Os benefícios da renda imperialista foram
certamente um factor importante para esta rejeição do
internacionalismo palas forças populares do Norte. As minorias
comunistas, que adotaram outra atitude, por vezes com grande
convicção, não conseguiram, no entanto, construir blocos alternativos
eficazes em torno de si. E a passagem dos partidos socialistas, em
massa, para o campo "anticomunista", contribuiu largamente para o
sucesso das potências capitalistas no campo imperialista. Estes
partidos não foram, no entanto, "premiados", pois que logo no dia
seguinte ao colapso da primeira onda de lutas do século XX, o
capitalismo monopolista sacudiu a aliança que mantinha com eles.
Eles não aprenderam a lição da derrota, radicalizando-se. Pelo
contrário, escolheram antes capitular, resvalando para as posições
"social-liberais" com as quais estamos agora familiarizados. Esta é a
prova, se tal fosse necessário, do papel determinante da renda
imperialista na reprodução das sociedades do Norte. Assim, esta
segunda capitulação não foi tanto uma tragédia como uma farsa.

A derrota do internacionalismo partilha parte da responsabilidade


pelas derivas autoritárias para autocracia nas experiências socialistas
do século passado. A explosão de expressões inventivas de
democracia, durante o curso das revoluções russa e chinesa,
desmente o lugar-comum de que estes países não estavam
"maduros" para a democracia. A hostilidade dos países imperialistas,
facilitada pelo apoio dos seus povos, contribuiu largamente para
tornar ainda mais difícil a busca por um socialismo democrático, em
condições que já eram de si difíceis, como conseqüência da herança
do capitalismo periférico.
A segunda onda do despertar dos povos, nações e Estados das
periferias, no século XXI, começa em condições que dificilmente
serão melhores. Na verdade, são ainda mais difíceis. A característica
ideologia do "consenso" dos E.U.A. (que significa submissão às
exigências do poder do capitalismo monopolista generalizado); a
adoção de regimes políticos "presidenciais" que destroem a eficácia
do potencial contestatário da democracia; o elogio indiscriminado de
um individualismo falso, manipulado, juntamente com a desigualdade
(vista como uma virtude); a mobilização dos países subalternos da
NATO para as estratégias implementadas peloestablishment de
Washington - todas estas tendências estão a fazer progressos rápidos
na União Europeia, que não pode ser, nessas condições, nada mais
do que aquilo que é: um bloco constitutivo da globalização
imperialista.

Nesta situação, o colapso deste projeto militar se torna a primeira


prioridade e condição preliminar para o sucesso da segunda onda de
libertação a ser realizada através das lutas dos povos, nações e
Estados dos três continentes. Até que isso aconteça, seus avanços
presentes e futuros permanecerão vulneráveis. Um
possívelremake do século XX não deve, portanto, ser excluído,
mesmo que, obviamente, as condições de nossa época sejam
bastante diferentes daquelas do século passado.

Esse cenário trágico não é, contudo, o único possível. A ofensiva do


capital contra os trabalhadores já está em curso no próprio coração
do sistema. Esta é a prova, caso fosse necessária, de que o capital,
quando é reforçado por suas vitórias contra os povos da periferia, é
então capaz de atacar frontalmente as posições das classes
trabalhadoras nos centros do sistema. Nesta situação, já não é
impossível visualizar uma radicalização das lutas. A herança de
culturas políticas europeias ainda não está perdida, devendo facilitar
o renascimento de uma consciência internacional que responda aos
requisitos da sua globalização. Uma evolução nesse sentido, no
entanto, esbarra no obstáculo constituído pela renda imperialista.

Esta não é apenas uma enorme fonte de lucros extraordinários para


os monopólios; ela também condiciona a reprodução da sociedade
como um todo. E, com o apoio indireto desses elementos populares
que procuram preservar a todo o custo o actual modelo eleitoral de
"democracia" (por mais antidemocrático que ele seja na realidade), o
peso das classes médias, com toda a probabilidade, pode destruir a
força potencial decorrente da radicalização das classes populares.
Devido a isto, é provável que o progresso no Sul tricontinental
continue a estar na vanguarda da cena, como no século passado. No
entanto, logo que os primeiros avanços aí tenham tido os seus
efeitos, restringido seriamente a extensão da renda imperialista, os
povos do Norte deverão estar em melhor posição para compreender o
fracasso das estratégias que se submetem às exigências dos
monopólios imperialistas generalizados. As forças políticas e
ideológicas da esquerda radical deverão então tomar o seu lugar
neste grande movimento de libertação, construído sobre a
solidariedade entre povos e trabalhadores.

A batalha ideológica e cultural é determinante para esse renascimento - que eu


tenho resumido como o objetivo estratégico de construção de uma Quinta
Internacional dos trabalhadores e dos povos.

(*) Samir Amin (n. 1931) é um economista de nacionalidade egípcia e um ensaísta marxista mundialmente

reconhecido, atualmente residente em Dakar (Senegal). Estudou em Paris de 1947 a 1957, onde participou na formação

intelectual da geração que dirigiu a luta anticolonial do pós-guerra, aderindo depois ao maoismo. Foi professor

universitário e desempenhou também funções de pesquisa e planeamento económico no Egipto, em diversos países

africanos e no Institut Africain de Développement Économique et de Planification (IDEP). Actualmente é director do


Third World Forum (Dakar) e co-director (com François Houtart) do Forum Mundial das Alternativas

(http://www.forumdesalternatives.org). Escreveu mais de trinta livros, dos quais podemos aqui

destacar L’accumulation à l’échelle mondiale (1970), Le développement


inégal (1973), Classe et nation dans l’histoire et la crise

contemporaine (1979), La déconnexion (1985), L’eurocentrisme (1988), Les

défis de la mondialisation (1996), Sur la crise: Sortir de la crise du capitalisme ou sortir du

capitalisme en crise (2009), La loi de la valeur mondialisée (2011).

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