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2º Frequência

1. Julgados de paz

Entre nós, uma das primeiras menções ao Juiz de Paz surgiu no século XVI, reinado de D. Manuel I. Alguns
séculos mais tarde, a única referência que a Constituição de 1933 lhes faz é ao dizer que “são mantidos os juízes
de paz” (art.º 115.º, 3.º, § 2.º) 5 sem que, todavia, os Julgados de Paz apareçam sequer como uma espécie de
tribunal.

Se existiam dúvidas quanto à natureza dos J.P., a revisão constitucional de 1997 veio dissipá-las por completo. O
n.º 2 do artigo 209.º da C.R.P. que até então dispunha “Podem existir Tribunais marítimos e Tribunais arbitrais”, a
partir da revisão constitucional de 1997, e com a aprovação unânime da A.R., passou a dispor “Podem existir
Tribunais marítimos, Tribunais arbitrais e Julgados de Paz”. Ao elencar os J.P. no mesmo patamar que as
restantes categorias de tribunais, não há dúvidas que aquilo que o legislador pretendeu foi qualificar os J.P. de
tribunais.
Tendo posteriormente tal tido primeira consagração na Lei n.º 78/2001, de 13 de Julho, depois com a nova redação
introduzida pela Lei n.º 54/2013, de 31 de Julho, que passaremos a designar por Lei dos Julgados de Paz (LJP).

Na Parte I da Constituição da República Portuguesa de 1976 encontra-se sistematizado não só um conjunto de


princípios gerais, mas também um elenco de direitos, liberdades e garantias. No que tange ao primeiro, importa
realçar que a Lei Constitucional n.º 1/97 aditou ao art.º 20.º três novos números (3, 4 e 5), sendo estes dois
últimos do seguinte teor: “Todos têm direito a que uma causa em que intervenham seja objeto de decisão em
prazo razoável e mediante processo equitativo.” (art.º 20.º n.º 4 da C.R.P.) e “Para defesa dos direitos, liberdades
e garantias pessoais, a lei assegura aos cidadãos procedimentos judiciais caracterizados pela celeridade e
prioridade, de modo a obter tutela efetiva e em tempo útil contra ameaças ou violações desses direitos.” (art.º
20.º n.º 5 da C.R.P.). Ora estes dois números foram aditados pelo mesmo legislador constituinte que
explicitamente consagrou os Julgados de Paz como categoria inequívoca de tribunais (cfr. art.º 209.º, n.º 2 da
C.R.P.). Uma interpretação da mens legislatoris poderia antever a futura criação dos Julgados de Paz no sentido
de ir precisamente de encontro à necessidade de celeridade nas decisões jurisdicionais.

Nesse sentido, os juízes de paz são indubitavelmente magistrados como o são, desde logo, os juízes dos Tribunais
Judiciais, dos Tribunais Administrativos e Fiscais, do Tribunal Constitucional e os Procuradores da República. A Lei
n.º 62/2013, de 26 de Agosto, dita de Organização do Sistema Judiciário, veio explicitamente mencionar, no seu
art.º 151.º, que os Julgados de Paz constituem uma forma alternativa de resolução de litígios. A questão que se
colocou foi de saber se a jurisdição dos Julgados de Paz é obrigatório, ou se caberia às partes decidir se propõem
a ação nestes ou nos Tribunais Judiciais. Ramos Pereira defendeu que os julgados de paz nas matérias estatuídas
no art 9 da LJP, cujo valor não exceda a (sua) alçada é obrigatória a interposição no julgado de paz, sendo que a
parte não tem poder de escolha. Porém, em 24.05.2007, um Acórdão de Uniformização de Jurisprudência do STJ veio
concluir pelo carácter facultativo da competência material dos Julgados de Paz, cabendo ao Autor a disponibilidade de
escolher alternativamente entre os Julgados de Paz e os Tribunais Judiciais.

Serve dizer que os 4 Julgados de Paz criados em 2002 passou-se para os 25 atuais e em 2015 os 9315 processos
distribuídos, dos quais 9167 concluídos, dão conta de uma dimensão que já é assinalável a nível nacional.

Os princípios enformadores dos procedimentos nos Julgados de Paz são os seguintes: proximidade, cooperação,
celeridade, simplicidade, adequação, informalidade e oralidade.
Quanto ao princípio da proximidade decorre desde logo do art.º 2.º, n.º 1 da Lei dos Julgados de Paz
Proximidade no sentido das partes terem de intervir pessoalmente na resolução do litigio, ou seja, as partes tem de
comparecer pessoalmente – art 38º,nº1 LJP. Sendo que a representação por advogado está limitado às situações
previstas no art 38º,nº2 da LJP , ao contrario do que acontece na justiça comum, em que as partes podem se fazer
representar por advogados. O objetivo do juiz de paz é conseguir a proximidade entre as partes. Em principio nos
julgados de paz é o Principio da proximidade, embora existam exceções. Também em principio não é necessário as
partes se acompanharem com advogados. A titulo de curiosidade, em 60% dos processos de julgados de paz há
intervenção de advogados.
Mas existem situações em que é obrigatório em que sejam acompanhados por advogados, por exemplo, se a parte for
analfabeta ou se encontrar numa posição de manifesta inferioridade – art 38º,nº2 LJP.
Sendo o juiz de paz que vai verificar se a parte está numa posição de manifesta inferioridade ou não. Por exemplo: No
caso de um reformado que está a litigar contra o Montepio, o banco possui hordas de advogados.

Quanto ao Principio da cooperação, as partes tem de estar presentem em todas as partes processuais, desde a pré-
mediação – art 50º LJP, mediação, escolha do mediador pelas partes – art 52º LJP e no próprio julgamento – art 57º
LJP. As partes tem de comparecer pessoalmente na audiência de julgamento, se não tiverem rege o art 58º LJP.
Quando o demandado, tendo sido pessoal e regularmente citado, não comparecer, não apresentar contestação
escrita, nem justificar a falta no prazo de três dias, consideram -se confessados os factos articulados pelo autor – art
58º,nº2 LJP

Passando agora para o Principio da simplicidade sobre o mesmo rege o art.º 2.º, n.º 2 da LJP quando se refere a
“absoluta economia processual” e encontra-se espelhado nos seguintes artigos:

o art 43º,nº2 e 3 LJP – O requerimento inicial pode ser feito verbalmente e reduzido a escrito pela secretaria
o A contestação pode ser ditada para a secretária – art 47º,nº1 LJP
o Aqui não à lugar a entrega de duplicados legais, cabendo à secretaria facultar às partes cópias das peças
processuais – art 46º,nº6 LJP
o Constituição facultativa de mandatário – 38º,nº1 LJP, sendo só obrigatório nos casos referidos no art 38º,nº2 LJP

No que diz respeito ao Principio da adequação o mesmo decorre igualmente do art.º 2.º, n.º 2 da LJP. É certo que
este está também previsto no art.º 547.º do Código de Processo Civil.

Quanto ao Principio de informalidade, está igualmente consignado no art.º 2.º, n.º 2 da LJP. Existe diminuição do
leque de prazos e limitam-se as causas de recurso– art 63º LJP. O prazo para contestar é de 10 dias, sem possibilidade
de prorrogação desse prazo. Pode ser procedida oralmente ou por escrito – art 47º LJP

Quanto ao Principio da oralidade, também presente no art.º 2.º, n.º 2 da LJP, espelha-se, desde logo, na apresentação
do requerimento inicial que pode ser feita verbalmente - art.º 43.º, n.º 2 da LJP. Na sessão de pré-mediação é
explicada verbalmente às partes em que consiste a mediação e na hipótese destas nela acordarem é logo marcada
uma sessão. O princípio da oralidade está também presente ao longo de todo o processo de mediação em que são
verificadas questões e se procuram diferentes possibilidades de acordo. Em regra a sentença é proferida oralmente,
no termo da audiência de julgamento - art.º 60.º, n.º 1 da LJP. Só é admissível recurso quando o valor da causa exceda
metade do valor da alçada do tribunal da primeira instância nos termos do art.º 62.º, n.º 1 da LJP.

No que concerne ao Principio da celeridade, sobre o mesmo rege o art.º 2.º, n.º 2 da LJP quando se refere a
“absoluta economia processual”. Ex: Uma parte junta um documento e a outra parte pede um prazo para se
pronunciar acerca daquele documento. O juiz de paz, face à enformação dos julgados de paz pelo principio da
celeridade dá o prazo que entender no âmbito e alcance deste artigo.

Importa referir que se porventura o demandado estiver presente no Julgado de Paz pode apresentar de imediato a
respetiva contestação - art.º 43.º, n.º 4 da LJP. Também o demandante quando apresenta o requerimento inicial é
logo notificado da data da pré-mediação - art.º 43.º, n.º 7 da LJP. O prazo de contestação é de apenas dez dias,
insuscetível de prorrogação - art.º 47.º, n.ºs 1 e 2 da LJP. As sessões de pré-mediação e mediação podem ser
realizadas de imediato - art.º 49.º, n.º 2 da LJP. Quanto à audiência de julgamento, não é admissível mais do que um
adiamento ainda que haja acordo das partes nesse sentido - art.º 57.º, n.º 2 da LJP. Na hipótese de adiamento da
audiência de julgamento por acordo das partes nunca poderá ser por período superior a dez dias - art.º 57.º, n.º 3 da
LJP.

Quanto à competência em razão do objeto, os Julgados de Paz não têm força executiva, mas podem apenas
conhecer ações declarativas - art.º 6.º, n.º 1 da LJP. Ex: Se eu condenar o reu ao pagamento de uma indemnização é
uma ação declarativa, pois é através desta sentença que o autor vai executar a competência dos JP. Estas podem ser:
de condenação - alíneas a), b), c), d), g), h) e i) do n.º 1 e do n.º 2 do art.º 9.º da LJP, constitutivas - alíneas e) e f)
do n.º 1 do art.º 9.º da LJP e de simples apreciação - alíneas e), f) e h) do n.º 1 do art.º 9.º da LJP, sendo exemplos
desta ações para apreciação de que nada se deve a uma operadora de serviços móveis e para declaração do
direito de propriedade sobre uma coisa.
Quanto à competência em razão do território, vem regulada nos artigos 11.º a 14.º da LJP. A regra geral para as
pessoas singulares é que é competente o Julgado de Paz do domicílio do réu - art.º 13.º, n.º 1 da LJP. A regra geral
para as pessoas coletivas é que a ação deve ser proposta no Julgado de Paz da sede da administração principal ou na
sede da sucursal, agência, filial, delegação ou representação - art.º 14.º da LJP.

Quanto à competência em razão do valor está determinada no art.º 8.º da LJP não podendo as causas exceder €
15.000,00 (quinze mil euros). É preciso ter em conta os critérios de fixação do valor da causa que se encontram
previstos nos artigos 297.º ss do CPC, aplicáveis nos termos do art.º 63.º da LJP (em tudo o que não esteja regulado
pela LJP aplica-se o regime previsto no CPC).

No que respeita à competência em razão da matéria, esta vem regulamentada no art.º 9.º da LJP. O primeiro tipo de
ações passíveis de serem propostas nos Julgados de paz são as destinadas a efetivar o cumprimento de obrigações,
exceto as que tenham por objeto o cumprimento de obrigação pecuniária e digam respeito a um contrato de adesão -
art.º 9.º, n.º 1 al. a) da LJP. Quando o credor é uma pessoa coletiva e um contrato de adesão está na base do seu
crédito pode socorrer-se do regime da injunção (regulado pelo Decreto-Lei 269/98, de 1 de Setembro) não sendo,
deste modo, competentes os Julgados de Paz. Fora estas causas, estes são competentes para apreciar o cumprimento
de obrigações que tenham por fonte: contratos (art.º 405.º do Código Civil), gestão de negócios (art.º 464.º do CC),
enriquecimento sem causa (art.º 473.º do CC), responsabilidade civil (art.º 483.º do CC). Todas estas fontes são
suscetíveis de gerar obrigações, sendo de realçar os contratos nos quais vigora o princípio da autonomia privada.

São também da competência material dos Julgados de Paz, ações que estão referidas nas diversas alíneas do art 9º
,Nº1 LJP. Os Julgados de Paz não têm competência para ações de despejo.

A mais importante esfera da competência dos Julgados de Paz são as ações relativas a responsabilidade civil
contratual e extracontratual - art.º 9.º, n.º 1 al. h) da LJP.

No âmbito dos Julgados de Paz, estes são competentes para apreciar pedidos de indemnização civil quando
estão em causa crimes, quando não tiver sido apresentada queixa-crime ou após desistência desta, precludindo
a possibilidade de instaurar o respetivo procedimento criminal, nos termos do art.º 9.º, n.ºs 2 e 3 da LJP.