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PORTUGAL, HOJE

NA PERSPECTIVA DOS INTERESSES DOS TRABALHADORES

Miguel Judas

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Prefácio

O presente trabalho resultou do desenvolvimento de alguns temas (e retirada de


outros, de carácter mais específico) tratados, antes, no âmbito de um exercício de
colaboração do autor no quadro do Fórum “Novas Fronteiras”, organizado pelo Partido
Socialista antes das eleições legislativas de 20 de Fevereiro de 2005.
A sua publicação justifica-se por duas razões:
A primeira, decorre do simples facto de “estar feito”, não parecendo razoável
mantê-lo como um exercício privado depois de ter nascido “público”.
A segunda decorre da sua eventual utilidade para a formulação de uma ideia de
conjunto sobre as razões da crise actual e sobre as possíveis vias da sua superação.
No quadro autobiográfico em que ocorrem nos seres humanos, os
sentimentos permitem, e por vezes garantem, que os acontecimentos
importantes da nossa vida não passem despercebidos. O passado, o
agora e o futuro antecipado tornam-se salientes sob a acção dos
sentimentos e têm, assim, uma maior probabilidade de influenciar o
raciocínio e a tomada das decisões.
Quando os sentimentos se tornam conhecidos para o si do organismo que
os possui, os sentimentos amplificam e melhoram o processo de governar
a vida. A maquinaria por detrás dos sentimentos oferece informações
explícitas e sublinhadas sobre o estado do organismo e permite assim
correcções biológicas mais perfeitas. Os sentimentos colocam um carimbo
nos mapas neurais, um carimbo em que se pode ler: “Preste atenção !”
António Damásio: “Ao Encontro de Espinosa”, pág.204)
Cada grupo social ou político e cada cidadão verá a realidade de acordo com a sua
própria ideologia, interesses e objectivos pessoais e sociais. Assim, não haverá um
único conjunto de causas nem uma única via para a superação da crise actual.
Possivelmente, a melhor via resultará da combinação de elementos e perspectivas
diferenciadas que contenham alguma plataforma comum de coerência. Assim se
realiza a Democracia.
Nesse sentido, o presente trabalho não procura ser uma síntese, um equilíbrio,
uma mediatriz conciliadora ou integradora. Não pretende, tão pouco, apresentar “a
via” que conduzirá Portugal ao sucesso.
Procura-se, pelo contrário, apresentar uma perspectiva pessoal, marcadamente do
ponto de vista dos interesses dos Trabalhadores, socialmente “sectária”, mas que, ao
mesmo tempo, poderá reflectir alguns pontos de vista e servir os interesses de outras
camadas sociais com quem o futuro do país deverá e terá de ser construído.
Os temas são apresentados por tópicos relativamente sintéticos que, em alguns
casos, mereceriam aprofundamento e melhor fundamentação; em outros casos,
mantiveram um certo tom provocatório.
O texto não é literário nem técnico, antes utiliza uma linguagem corrente, mais útil
numa comunicação alargada e de sentido político. Neste plano, poderá revelar-se
como muito “incorrecto”, produzindo interpretações e juízos que, não fosse a
completa independência do autor, suscitariam um coro da “mais viva repulsa” por
algumas corporações de interesses.

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O objectivo, porém, não é de provocar polémica, nem incomodar seja quem for,
atribuir méritos ou condenações. Em última instância, a crise que temos é da nossa
responsabilidade colectiva, cabendo a cada português a sua dose de responsabilidade.
O único objectivo é suscitar a reflexão, se possível íntima e intelectualmente
honesta, e que dessa reflexão possam resultar acções mais eficientes e convergentes
com os Interesses do país.
A ideia-chave que subjaz ao presente trabalho consiste na ultrapassagem dos
modelos organizacionais hierárquicos, característicos de fases muito atrasadas do
desenvolvimento das sociedades humanas modernas e a aproximação aos modelos
em rede, libertadores das energias, capacidades e mentalidades humanas,
libertadoras de forças produtivas.
Esta visão corresponde a levar em frente um processo que foi iniciado pelas
revoluções burguesas que libertaram as sociedades pré-industriais do espartilho
monarquico-feudal do Antigo Regime, tendo, no plano da economia, instituído o
Capitalismo como sistema sócio-económico dominante e, com ele, a liberdade de livre
cooperação e interacção entre as empresas e a instituição do Mercado. Este, no
sentido amplo, constitui a rede que permitiu a aceleração de todo o processo de
desenvolvimento. A instituição da Democracia não foi mais do que o reflexo, no
domínio da direcção política da sociedade, dessa profunda reorganização social.
No entanto, a vitória da rede sobre a hierarquia não é um processo automático
nem linear. Não o é no Mercado, nas relações inter-empresariais, nem na esfera
política, na Democracia. A luta entre o velho e o novo não fica resolvida com a
conquista do poder político pela parte da sociedade mais progressiva. Ela persiste no
tempo, com avanços e recuos, absorvendo as componentes do velho que se mantêm
úteis e fazendo nascer novas particularidades ou características.
Assim, as revoluções burguesas aboliram os mecanismos hierárquicos gerais, ao
nível macro-social, mas não os aboliram ao nível do funcionamento interno das
empresas nem do funcionamento interno da democracia. A organização e o
funcionamento em rede serão, na perspectiva da nova classe dominante, tanto quanto
necessários para a defesa dos seus interesses e não mais do que isso. As novas
estruturas ordenadoras do sistema social velam por que a entropia não aumente ao
ponto de comprometer a eficácia geral e as condições do desenvolvimento futuro.
Daí que as burguesias, implantando embora o funcionamento em rede ao nível do
mercado, das relações inter-empresariais e, parcialmente, ao nível das
superestruturas políticas da democracia representativa, tenham mantido os modelos
rigorosamente hierárquicos e autoritários no interior das empresas e ao nível dos
aparelhos dos Estados.
As condições da disputa mundial entre o capitalismo e o socialismo soviético, na
qual se colocava a sobrevivência de cada um dos sistemas, ambos adoptaram atitudes
de recentralização do poder típicas das situações de crise. Tal facto repercutiu-se na
neutralização das tendências gerais de longo prazo de desenvolvimento de todos os
sistemas em rede.
Nas condições da revolução científica e técnica e da intensificação da concorrência
capitalista à escala mundial, as empresas mais dinâmicas e a funcionar com base no
Conhecimento, foram em busca de factores de aumento da produtividade tanto na
valorização do capital humano como na adopção de modelos internos de organização
e funcionamento em rede e por missão, baseados numa grande autonomia e
interacção entre todos os elementos e unidades de trabalho.
Ao nível empresarial ou de grupos de empresas, surgiram assim diversos modelos
organizacionais, matriciais ou outros, que conjugam as suficientes componentes de
direcção hierárquica (administrativa) com a organização em rede.

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Com a derrocada da URSS e o fim da guerra-fria, a nova economia mundializada


passou a encarar, a uma escala global, os Estados Nacionais do mesmo modo como,
antes, desapreciava os feudos, isto é, como entidades excedentárias ao processo
económico, vivendo à sua custa, alimentando elites parasitárias ou pouco justificadas.
Daí a sua luta radical contra qualquer barreira proteccionista e contra o pagamento de
impostos. Este impulso, fundamentalmente revolucionário, choca-se, porém, com a
necessidade de garantia de um mínimo de estabilidade para os povos, no concreto, os
quais não estão dispostos a pagar, hoje, o elevado preço que pagaram, no passado,
em resultado dos processos de profunda reestruturação social e de rápida e desumana
industrialização e urbanização típicas de todo o século XIX.
À rede mundial da economia mundializada irá corresponder a desestruturação dos
Estados Nacionais hierárquicos e a sua gradual substituição por redes de novas
entidades operacionais: grandes metrópoles, regiões, pequenos municípios
competitivos, etc.
A correspondência política a estes avanços do funcionamento em rede ao nível
económico são a democracia participativa, isenta de qualquer espécie de
discriminação, e a substituição dos modelos centralistas e burocráticos de gestão dos
aparelhos de Estado por modelos descentralizados, participativos e empreendedores.
Uma economia moderna e competitiva só é possível se suportada por um sistema
político aberto, participativo, e por Estados empreendedores.
Este trabalho não inclui, no seu corpo, apreciações à actividade do Governo
actualmente em funções. Não podemos, contudo, deixar de lhe fazer algumas
referências telegráficas:
a) Positivas:
- Procura eliminar privilégios e submeter poderes corporativos;
- Procura defender importantes conquistas sociais consagradas nos modelos de
Estado Social europeus;
- Valoriza a qualificação das pessoas e o conhecimento;
- Teve a coragem de iniciar reformas estruturais racionalizadoras no aparelho
do Estado;
- Acredita profundamente no seu projecto e tem capacidade de decisão.
b) Negativas:
- É centralista;
- É excessivamente impositivo;
- Não suscita a participação e a mobilização social;
- Dá prevalência à Confiança do empresariado relativamente à Confiança dos
trabalhadores;

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0. INTRODUÇÃO
O Mundo encontra-se numa fase de profunda reorganização económica, política,
social e cultural que dá pelo nome de “Globalização”.
Esse processo de globalização teve na sua base, no plano económico e financeiro,
o surgimento, especialmente a partir dos anos 60/70 do século passado, de empresas
multinacionais e da criação de uma rede de praças off-shore e, no plano político, a
derrocada do bloco socialista e da URSS.
No decurso desse processo veio a afirmar-se, por cima e contra as soberanias e as
economias nacionais, um vasto e poderoso sector de economia mundializada, apoiado
nas tecnologias mais avançadas e em imensos recursos financeiros, a qual concebe,
implanta e gere, à escala mundial, processos integrados de produção, transporte,
distribuição, comercialização e consumo de mercadorias.
Tal processo, prosseguido sob a hegemonia científica, tecnológica, económica e
financeira norte-americana, tem a sua correspondência política na hegemonia política
e militar dos EUA e na sua orientação unilateralista.
A principal função da Administração norte-americana consiste exactamente na
criação das Condições Gerais de Operação e desenvolvimento desse novo sector de
economia mundializada, mesmo que, para isso, tenha de entrar em confronto com os
interesses económicos e políticos de outras partes.
Face a essa dinâmica, os restantes agrupamentos económicos, de base nacional ou
regional, de conjuntos de países, procuram ajustar-se de modo a inserir-se no
processo de globalização e a aproveitar as oportunidades por ele abertas.
A rede mundial do capital financeiro drena, através das praças off shore, incluindo
a Suiça e outros paraísos fiscais, os recursos financeiros dos Estados, das economias
nacionais e dos sectores de tecnologia mais atrasada para o sector global da economia
mundializada, onde encontra melhores condições de reprodução.
Quem fica de fora dessa nova economia mundializada, tanto países como
empresas e grupos empresariais, não só não tem acesso aos necessários recursos
financeiros como irá sofrer a intensa concorrência dos produtos e serviços dessa nova
economia.
Os objectivos estratégicos desse sector de economia mundializada são a criação de
um mercado comum mundial, sem quaisquer barreiras, e o correspondente
esvaziamento das atribuições e dos poderes dos Estados Nacionais.
Em consequência da globalização em curso, o mundo e mesmo cada país,
polarizam-se em zonas e sectores económicos prósperos e zonas e sectores
económicos em depressão ou de subsistência. Em termos sociais, esse fenómeno
traduz-se numa crescente polarização entre riqueza e pobreza, tanto entre zonas do
mundo como no interior de cada país.
É neste contexto que se desenrolam, no plano internacional, as contradições entre
os EUA e o Mundo, representado na ONU, entre este e o grupo das potências mais
desenvolvidas, as contradições entre os diversos agrupamentos económicos regionais,
as contradições entre países no seio destes agrupamentos e, finalmente, as
contradições entre classes e grupos sociais dentro do mesmo país.
É ainda neste contexto que se colocam tanto as reservas sociais quanto ao
esvaziamento das competências dos Estados nacionais para novas entidades políticas
supranacionais como, em cada país, as opções governamentais pela defesa das
economias e os sectores produtivos nacionais ou pela liberalização e
internacionalização.

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Portugal foi apanhado pela onda da globalização económica quando mal tinha
iniciado o processo de modernização económica no quadro da sua entrada para a
Comunidade Europeia. Tendo, por incapacidade interna, perdido cerca de 20 anos e
delapidado enormes recursos financeiros que poderiam ter permitido a criação de uma
base económica internacionalmente concorrencial, confronta-se hoje com uma
profunda crise económica e financeira que, a não ser sustida com êxito, poderá
resvalar para uma endémica crise política e, finalmente, de regime.
A actual crise portuguesa não é, contudo, um problema novo, decorrente da nova
situação mundial. Sendo embora agravada por esta, ela não é mais do que a repetição
cíclica de uma História muito antiga que, pela sua “modernidade”, é mais comparável
com a do período final do Séc. XIX.
Constitui, antes, uma manifestação do baixo grau de desenvolvimento das forças
produtivas resultante da dominação histórica de classes e grupos sociais retrógrados,
pré-capitalistas, que têm permanecido agarrados a formas de exploração e a atitudes
económicas características do Antigo Regime monárquico-feudal, nunca se inserindo
verdadeiramente nas dinâmicas das sucessivas revoluções tecnológicas e
organizacionais capitalistas. No plano institucional, esse fenómeno manifesta-se na
tendência dos republicanos da nossa Segunda República, nascidos ou não na ditadura
fascista, conservarem e reproduzirem, ainda hoje, algumas formas e tiques de gerir o
Estado e os assuntos públicos advindas da fase liberal-constitucional da monarquia.
As Revoluções Liberal de 1822 e Republicana de 1910 pouco adiantaram quanto ao
processo de industrialização do país. Assim, Portugal chegou a meados do séc. XX
basicamente com as indústrias lançadas no tempo do Marquês de Pombal, as
infraestruturas ferroviárias construídas no Séc. XIX e algumas industrias
transformadoras de produtos agrícolas continentais ou coloniais.
A ditadura fascista que vigorou de 1926 a 1974 manteve o país fora dos processos
globais de desenvolvimento do capitalismo, favorecendo, especialmente a partir da
década de 1960, uma industrialização baseada num muito reduzido grupo de
monopólios financeiro-industriais e numa intensa repressão laboral. No plano da
agricultura prevaleceram, através dos latifúndios do sul do país e do minifúndio do
norte, as relações pré-capitalistas de produção.
Portugal ficou, por isso, de fora do processo geral de desenvolvimento do
capitalismo, não tendo desenvolvido as relações de Mercado em rede nem relações
laborais modernas.
A Revolução do 25 de Abril de 1974 veio repor as condições gerais de democracia
política e de libertação das relações de mercado para o desenvolvimento do
capitalismo. Contudo, tanto pela estrutura monopolista do poder económico como pela
fragilidade das classes médias burguesas, a Revolução colocou na ordem do dia a
passagem para um modelo de desenvolvimento de orientação socialista, baseado na
nacionalização dos grupos monopolistas financeiro-industriais e dos latifúndios, na
intervenção decisiva dos trabalhadores na gestão empresarial e no papel motor do
Estado no desenvolvimento económico.
Nos dez anos subsequentes, até meados da década de 80, a preocupação central
do poder político democrático consistiu em criar as condições para a emergência de
uma nova classe empresarial privada que relançasse o desenvolvimento económico e
em promover a desestruturação das forças políticas e sociais “colectivistas”,
designadamente da Intersindical Nacional.
O primeiro desses objectivos traduziu-se na entrada de Portugal para a CEE como
uma opção estratégica com vista à consolidação da democracia política, à abertura do
país ao investimento externo para modernizar as estruturas económicas nacionais no
quadro de uma economia de mercado capitalista e à criação de condições legais, de
infraestruturação geral e de apoio directo aos sectores empresariais nacionais.

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O segundo grande objectivo traduziu-se nas tentativas de partir a espinha à


Intersindical e na liquidação das formas de participação dos trabalhadores na gestão
económica, na liquidação da Reforma Agrária com a restituição dos latifúndios aos
antigos proprietários, na reprivatização dos sectores financeiros e o desmantelamento
das indústrias das chamadas cinturas industriais, e no abandono do Alentejo com
vista à rendição dessa importante base social de apoio do PCP. Neste último caso, só
voltaram a olhar para ele muito mais tarde, quando já estava em ruínas.
O segundo objectivo foi, de um modo geral, bem conseguido.
O primeiro, porém, não o foi, de todo. Apesar dos grandes trabalhos públicos de
construção e modernização das infra-estruturas nacionais, dos apoios directos ao
desenvolvimento e modernização empresarial e à qualificação da força de trabalho, o
sector empresarial privado português manteve-se, salvo poucas excepções,
globalmente rústico, tacanho, vivendo de encomendas, de benesses e financiamentos
públicos.
Assim, a economia moderna portuguesa assenta hoje, fundamentalmente, em
alguns poucos grupos empresariais nacionais, num conjunto de empresas multi ou
transnacionais estrangeiras e numa diversidade de empresas nacionais dependentes
das encomendas daquelas.
Apanhado, logo no início da década de 1990, pela onda da globalização económica
e pelo processo de debilitação estrutural do Estado, Portugal não teve tempo nem
soube aproveitar as vantajosas condições para promover, nos últimos vinte anos, a
qualificação dos portugueses e criar uma economia nacional moderna, capaz de
competir no mercado internacional.
A constituição da UE e o seu alargamento aos países de leste vieram reduzir ainda
mais tanto a capacidade de decisão do Governo e do Estado Nacional como a
disponibilidade de recursos financeiros para apoio ao desenvolvimento. A concorrência
internacional aos produtos portugueses irá agudizar-se, assim como a tendência para
a deslocalização de empresas de Portugal para outros países mais competitivos.
A prosseguir a actual crise, poderemos perder o barco de mais esta nova fase do
desenvolvimento do capitalismo à escala mundial, ver a nossa nacionalidade diluída
no oceano sociológico da UE e a população portuguesa fraccionada entre um pequeno
bloco internacional/cosmopolita e uma imensa maioria remetida para actividades
económicas de subsistência.
No plano político, a continuidade da crise reflectir-se-ía no aprofundamento do
processo de degradação das instituições, desde há muito em curso ao nível da
extensão da corrupção, da comunicação dos órgãos políticos (nacionais e locais) e dos
partidos com a população, e da maior degradação e enfraquecimento do aparelho do
Estado, incluindo algumas estruturas da justiça e da segurança.
A continuidade da crise tenderia a provocar uma radicalização à direita e à
esquerda, a agudização das lutas sociais e a recomposição do actual espectro
partidário.
A Segunda República confronta-se hoje com uma profunda crise económica e
financeira que, a não ser sustida com êxito, poderá resvalar para uma crise política e
de regime. Se chegar a entrar no pântano, uma Terceira irá ter de surgir, mesmo que
seja depois de todos sofrermos mais um período de conturbação.
No fundo, o que se propõe é que, quanto antes, tenhamos a coragem colectiva
para, por antecipação, romper com o círculo vicioso em que nos encontramos e
promover a Revolução Necessária, verdadeiramente Republicana, Democrática e de
orientação Socialista, conforme, aliás, a esmagadora maioria do nosso Povo sempre a
imaginou e, apesar das sucessivas alterações, ainda se encontra prefigurada na
Constituição da República.

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As experiências das Revoluções de 1910 e do 25 de Abril constituem referências


importantes, pelas respectivas virtudes e limitações, que nos poderão ajudar a
descobrir o caminho.

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1. ANTECEDENTES E ESTRATÉGIA
Desde há muito que os sucessivos Governos Democráticos de Portugal têm vindo a
implementar políticas que não se têm mostrado decisivas para a superação da crise
actual.
1.1 Antecedentes e Caracterização
No fundamental, a situação caracteriza-se por:
a) Desmanteladas as estruturas do Poder Fascista na sequência do 25 de Abril, o
aparelho do Estado sofreu profundas alterações quantitativas como resultado dos
seguintes principais factores:
- Descolonização (absorção do funcionalismo público oriundo da administração
colonial; redução dos efectivos militares);
- Instituição do Poder Local (dotação dos Municípios com novos serviços e
capacidade técnica e dotação das Freguesias);
- Alargamento das actividades do Estado nos domínios dos sectores sociais e de
apoio ao desenvolvimento (educação, saúde, acção social e habitação, justiça e
estruturas de apoio técnico ao desenvolvimento económico);
- Alargamento da actividade internacional e do consequente aparelho diplomático
(estabelecimento de relações diplomáticas com um grande numero de países e
estruturas de apoio às comunidades emigrantes e de promoção económica
externa; integração na CEE/UE);
b) Entrada para a Comunidade Europeia com vista à definitiva estabilização
democrática e à criação de uma oportunidade para o desenvolvimento num quadro
de “economia de mercado”;
c) Estabelecimento, a meados da década de 80, de mecanismos para a captação dos
Fundos disponibilizados pela UE;
d) “Desestatização” progressiva da economia, abertura e incentivos ao investimento
privado; desmantelamento de alguns sectores económicos considerados
tecnologicamente obsoletos ou não competitivos no quadro da Comunidade;
e) Tomada de consciência sobre a profunda irracionalidade da estrutura e do
funcionamento do aparelho do Estado, sem contudo surgir qualquer ideia ou
medida de fundo para a sua reforma;
f) Surgimento, atrás do dinheiro fácil da UE de uma elite nacional degradada, com
reflexos na atitude global e criativa do sector privado em montar mecanismos de
transferência e apropriação desses fundos com base no alastramento do
favoritismo e da corrupção ao nível do sector público;
g) Cavaco Silva foi derrotado e abandonou o seu próprio partido face à incapacidade
para inflectir as aplicações financeiras para os sectores e projectos que poderiam,
de facto, promover o desenvolvimento estratégico, a modernização e
competitividade da economia;
h) Os Governos que lhe sucederam geriram o país na expectativa que o
desenvolvimento surgisse espontaneamente da dinâmica e iniciativa do sector
privado e de uma hipotética boa conjuntura internacional;
i) Os últimos governos do PSD só tiveram a vantagem de introduzir na sociedade
portuguesa algum dramatismo face à necessidade de contenção das ilusões
facilitistas e quanto à verdadeira situação das finanças públicas. De resto, ainda
ficámos mais desmoralizados e afastados da Europa!
j) O novo Governo do PS, apoiado numa confortável maioria absoluta parlamentar,
criou enormes expectativas. Porém, a Inovação e a luta contra as corporações de

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interesses só são realizáveis com um forte apoio popular que, importa, não seja
esbanjado.
1.2 Objectivos estratégicos
As cinco questões estratégicas que se colocam hoje são:
1. Criação de um quadro de condições internacionais favoráveis para o
desenvolvimento do país, fundadas na paz, na solidariedade e na cooperação
internacionais, no respeito pela diversidade cultural e pelas soluções políticas
democráticas dos povos e num maior controlo democrático do capital financeiro e
das off-shore à escala mundial;
2. Reformar o Estado conferindo-lhe um carácter democrático e económico-
empreendedor, assegurando o equilíbrio financeiro, recriando uma capacidade de
investimento estratégico e promovendo a modernidade funcional e a qualidade de
serviços. Não Menos Estado mas sim Melhor Estado;
3. Promover um desenvolvimento económico e social acelerado e sustentado do país,
superior à média europeia, assegurando a máxima autonomia alimentar e
energética, a coesão social e a valorização do capital humano;
4. Participar na plena instituição da UE assegurando o seu carácter democrático e o
seu papel progressista no desenvolvimento equilibrado da Europa e do mundo;
5. Informar e mobilizar os portugueses para, num ambiente de grande Participação
Social, superarmos das actuais dificuldades e promovermos o desenvolvimento do
país contando, em primeiro lugar, com as próprias forças.
1.3 – Amarga síntese do estado actual dos recursos estratégicos
internos:
a) A Constituição da República
A Constituição da República Portuguesa constitui a Lei Fundamental do país. Não
sendo prosseguida, coloca, imediatamente, no plano das correlações de forças, e
não do Direito, o processo de gestão nacional. As disposições constitucionais passam
a constituir frases vazias, uma mera apelação ou uma justificação.
O respeito ou o cumprimento da Constituição é, hoje, entendido, simplesmente,
como o seu não desrespeito, a sua não violação. Pode-se fazer tudo, desde que não
se pratiquem actos claramente anti-constitucionais. As próprias violações, não
constituem crime, não envolvem penalização, nem sequer sanção política ou moral;
somente se informa o transgressor que deve deixar de violar.
Mais parece que a Constituição integra algumas disposições de programa mínimo
obrigatório e muitas outras facultativas, servindo somente como referências morais
ou utopias.
É esta, de resto, a postura pró-passiva dos Presidentes da República e do
Tribunal Constitucional.
No entanto, todo o discurso da Constituição é pró-activo, designadamente
quando comete obrigações muito específicas ao Estado, tanto nos âmbitos da sua
intervenção como nos objectivos, propósitos e formas de gestão.
Da conferência entre as disposições constitucionais e a realidade actual do país
ressalta, imediatamente, o seu não cumprimento sistemático e extensivo pelo
próprio Estado. Argumentar-se-á, relativamente a algumas das suas obrigações, que
o “Estado é fraco”, que “não tem os recursos suficientes para...”, etc. Com o
processo em curso de pauperização financeira, instrumental e de Autoridade
Democrática do Estado, será de supor que este nunca estará em condições de
cumprir as suas obrigações constitucionais.

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Esta situação poderia e deveria ser minorada e evitada se os órgãos que têm por
missão defender e fazer cumprir a Constituição tivessem uma atitude pró-activa
nessa função e os adequados instrumentos de intervenção.
Em primeiro lugar, seria exigível que os programas de Governo e os demais
instrumentos de gestão previsional do Estado fizessem evidência, relativamente a
cada Artigo da Constituição, do seu cumprimento, baseada em adequados estudos e
dados estatísticos.
Este, sim, deveria constituir o primeiro critério de avaliação da acção governativa
e legislativa, o qual constituiria fundamento para o empossamento e a eventual
dissolução de órgãos e para uma sustentada avaliação política pelos cidadãos em
actos eleitorais: a governação por “benchmarks” constitucionais.
Desde há 30 anos que o Estado tem como uma das suas “Tarefas Fundamentais”
(alínea h do Art.º 9º da Constituição) “Promover a igualdade entre homens e
mulheres”. Pelo grau de realização dessa “tarefa fundamental”, que hoje todos
reconhecemos ser irrisório, poderemos inferir o estado de realização de todas as
outras tarefas do Estado. Os episódios de boa vontade mas inconsequentes, que
periodicamente se repetem, normalmente em períodos eleitorais, da
representatividade das mulheres nas estruturas políticas do país, não reflectem uma
actividade sistemática de promoção da referida actividade. A realidade quotidiana da
discriminação das mulheres é, porém, hoje, em muitos aspectos, pior do que já foi
há 30 anos. A “modernidade” daquelas empresas que se recusam a empregar
mulheres - porque podem engravidar, o alastramento do emprego clandestino - sem
contratos nem recibos, e da legislação sobre o aborto são exemplos menores da
insidiosa, permanente e implacável violência que continuam a sofrer em todas as
áreas da vida familiar, económica e social. As mulheres continuam, em geral, a
constituir uma classe de cidadania mitigada situada, mais ou menos, entre os
cidadãos de pleno direito e os emigrantes clandestinos romenos. Este é o estado de
mais de 50% do nosso capital humano.
A Constituição da República contém, em si, todas as condições e indica os
caminhos (designadamente, pelo “aprofundamento da democracia participativa”)
para a Reforma do actual Sistema Político, reconhecidamente deficitário e a entrar
em crise de representatividade, e para as Reformas do Estado e do Sistema
Económico.
Constatar-se-á, mais adiante, que as vias para a superação da actual crise
nacional passam, de facto, pela restituição à Constituição da República o seu papel
fundamental no ordenamento e orientação estratégica do país, pela reposição da
legalidade constitucional.
A crise revela-se ser resultado, também, do elevado grau de incumprimento da
Constituição.
b) O Estado
Tal como na fase final do século XIX, o Estado encontra-se altamente fragilizado,
sem dinheiro, desorganizado e desmotivado, exercendo, essencialmente, a função
de plataforma de distribuição de “fundos externos” e recursos próprios para o
enriquecimento privado (o que até se poderia justificar como método de
“acumulação primitiva” a um sector privado nascente, o que não é o caso de
Portugal).
Grande parte do sector empresarial do Estado foi sendo privatizado ao longo dos
anos não tanto por uma motivação modernizadora mas sim para “libertar” o Estado
dos respectivos proveitos (dividendos e impostos) e como meio de obtenção de
recursos para o seu funcionamento corrente, fazendo lembrar a venda, pelos liberais
novecentistas, dos bens da igreja então nacionalizados. Os restantes bens

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patrimoniais vão sendo vendidos ou comprometidos, tanto mais ao desbarato


quanto maior for a crise financeira e menor a capacidade negocial.
A gestão pública é, essencialmente burocrático-administrativista. Muitos dos
serviços públicos encontram-se em avançado estado de degradação das suas
capacidades técnicas e operativas, mantendo uma existência vegetativa.
Neste quadro, e paralelamente à já referida privatização das empresas públicas,
foram-se desenvolvendo, nos últimos anos, a reboque da justificação ideológica das
virtudes empresariais do sector privado e das suas (não provadas) capacidades de
investimento e de gestão, diversas teses relativas à privatização ou concessão a
privados de numerosos serviços públicos. São teses que muitas vezes correspondem
a um Estado que concebe o serviço público sem ambição, como uma actividade
irremediavelmente ineficiente e que, ao mesmo tempo, satisfaz um sector privado
(normalmente próximo do poder político) o qual, à custa de tarifas mais caras e da
qualidade do serviço aos cidadãos, vai arranjando mais umas linhas de negócios e
de acesso aos Fundos.
As débeis tentativas de reforma já promovidas (criação de Institutos dotados de
autonomia, Regionalização, etc.), ou foram absorvidas pelo Sistema ou,
simplesmente, rejeitadas.
O desprestígio do Estado junto dos Cidadãos e a sua desmotivação interna são
um facto.
A parte do Estado que funciona melhor é a que se destina à reciclagem dos
Fundos Europeus para o sector privado, deixando atrás de si alguma animação
social.
c) Os Partidos Políticos
Os partidos políticos e o sistema político em geral encontram-se afastados dos
cidadãos, pouco prestigiados, agarrados a conceitos envelhecidos, enrolados em
tactismos de circunstância e, por vezes, servindo de plataforma para benefícios e
prestígio pessoal. Há, globalmente, pouco sentido de serviço público.
Tendo-se apoderado, por uma interpretação restritiva do número 2 do Art.º 10º
da Constituição, do monopólio da representação política, os principais partidos
mantiveram, ao longo dos anos, uma grande preocupação comum em controlar o
Estado. Num país em que tudo gira à volta do Estado, mesmo quando, como hoje,
este é fraco, poder-se-á dizer que o controlo do Estado é uma garantia de Poder
real. Pelo contrário, sem esse controlo, o poder torna-se uma ficção.
Com a consolidação democrática, a entrada para a CEE/UE e o início do afluxo de
Fundos, o Estado tornou-se ainda mais importante na estratégia de poder dos
principais partidos. Daí que, praticamente, estes só tenham existência activa nos
períodos eleitorais e enquanto são Governo (nacional ou local). Os principais
partidos transformaram-se, de facto, em partidos de quadros, muitos deles
profissionais da política, com a tendência para o reforço da importância dos
aparelhos e das finanças partidárias.
O função político-pedagógica e de mobilização da população para os objectivos e
tarefas nacionais ficou subalternizada relativamente às questões pessoais e à
política-espectáculo das campanhas eleitorais. Mesmo estas, cada vez mais,
acorrendo a prestações de serviços externas (contratação de consultores de
marketing, afixação de publicidade, etc.). O auto-enclausuramento dos principais
partidos reflecte-se de modo semelhante na Assembleia da República e em todas as
Assembleias do Poder Local. As únicas instituições com vitalidade são as que gerem
recursos e tomam decisões sobre à vida diária dos cidadãos, as que têm funções
executivas.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A ligação dos partidos políticos à população ficou, assim, cada vez mais
mediatizada pelos meios de comunicação social, especialmente a televisão, e pelos
especialistas de marketing. A política foi ficando transformada num produto que, na
altura das eleições, se vende com o propósito essencial da obtenção do voto, não
estabelecendo, em muitos casos, um compromisso de cumprimento das promessas
eleitorais.
Na sequência desse sentimento generalizado, a classe política começou a
reconhecê-lo publicamente, tanto em declarações para o exterior como em debates
internos aos partidos. São bons sinais que carecem de ser prosseguidos com
medidas de efectiva Reforma do Sistema Político que reforcem a representatividade
dos partidos e legitimidade das instituições democráticas, clarifiquem os modelos de
financiamento partidário e confiram ao sistema uma rejuvenescida dimensão de
utilidade pública.
No entanto, muito haverá a fazer, dentro e fora dos partidos, para que se cumpra
o preceito constitucional de “aprofundamento da democracia participativa” e, por
essa via, evitar a crescente redução do nível de literacia política dos cidadãos, não
se sabendo onde poderemos chegar quando desaparecer a geração formada pelo 25
de Abril.
A melhor contribuição dos partidos políticos para a superação da actual crise
nacional não se mede pelos seus patrimónios, recursos financeiros ou capacidade de
marketing, mas, fundamentalmente, pelas suas ideias, propostas e exemplos, em
suma, pela sua capacidade pedagógica e motivadora de vontades e acções.
A crise actual é, mesmo, muito profunda, exigindo um urgente repensar das
práticas e da estrutura do sistema político.
Se a actual crise tender a arrastar-se, não será de excluir uma rearrumação do
espectro partidário tendente a uma maior polarização da política portuguesa.
d) O Regime e o Sistema Político
Se bem que a Constituição da República institua uma democracia participativa,
de facto a democracia portuguesa tem sido essencialmente, e cada vez menos,
representativa.
Da fragilidade dos partidos políticos, decorrente, quer do déficit democrático das
suas vidas internas quer da falta de permeabilidade com as populações, veio a
resultar um extraordinário ressurgimento das chamadas corporações, informais e de
carácter difuso.
Estas, estruturam e representam, informalmente, de modo não oficial, os
diversos grupos sociais e económicos com interesses privados específicos no saque
dos recursos públicos e na defesa intransigente e egoísta dos respectivos interesses.
Estas estruturas informais dotadas de grande e instantânea capacidade de
mobilização, coordenação e influência nos órgãos do poder, no Estado e na
comunicação social, têm muito mais capacidade de modelar a política do país do que
as instituições democráticas ou os partidos políticos. A comprová-lo está a endémica
incapacidade do poder político em promover, na prática, qualquer tipo de reforma de
fundo.
As corporações representam tanto interesses económico-empresariais como
interesses profissionais de profissões liberais e de grupos de trabalhadores de elite,
funcionalmente importantes para a estabilidade do sistema económico ou social e,
por isso, com capacidade reivindicativa.
Quem tem ou pode usar os mecanismos corporativos, participa, de um modo
egoísta, na gestão da sociedade, normalmente com um sentido reaccionário, em
oposição às reformas que poderão por em causa os seus interesses ou, ainda,

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

promovendo “reformas” e truques legislativos do seu exclusivo interesse; quem não


tem ou não pode, fica marginalizado.
Em alguns países, existe a figura dos lobbies, normalmente oficializados e com
objectivos claros, publicitados, constituídos por pessoas que publicamente os
assumem. As corporações em Portugal são muito mais clandestinas e subversivas:
não se lhes conhecem os verdadeiros objectivos, nem os seus elementos activos ou
colaboradores. Cruzam-se, interpenetram-se e partilham, por vezes
simultaneamente, a colaboração das mesmas pessoas, especialmente se tiverem
efectiva capacidade de influência ou decisão. Alguns cargos públicos poderiam
mesmo constituir-se, informalmente, como agências privadas de prestação de
serviços às corporações.
Por vezes, os perdedores em alguma decisão bem tomada, de acordo com os
Interesses Geral e Público, vêm a exigir e a conseguir compensações noutro âmbito
ou oportunidade, normalmente em processos com menor visibilidade pública.
Este fenómeno corporativo pré-capitalista corresponde a um sério entrave ao
desenvolvimento da sociedade portuguesa e a uma profunda perversão do Mercado
e do Regime Político Constitucional, fazendo depender, ainda mais, a direcção da
sociedade, das correlações de forças no terreno. Corresponde, segundo uma
expressão usada pelo herói do filme Platoon, a uma surda guerra civil.
Neste estado de coisas, os Governos, qualquer que seja, ficam reféns dos
interesses corporativos, nunca conseguindo gerar qualquer processo
verdadeiramente nacional e coerente.
A superação da actual situação de crise exige a superação desta profunda
anomalia no Sistema Político.
e) As estruturas representativas de Trabalhadores (Os Movimentos Sindical e das
Comissões de Trabalhadores)
O Movimento Sindical permanece dividido, agarrado aos quistos gerados no
processo político de 1975, sem entender que, desde essa altura, se modificaram
substancialmente as condições de organização e de melhor defesa dos interesses
dos Trabalhadores e do país em geral.
O movimento sindical tradicional do século XX (fordista), que respondeu
adequadamente às condições da economia industrialista, entrou em crise perante as
alterações verificadas na composição das classes trabalhadoras e nas bases
tecnológicas da economia moderna cada vez mais fundada nas tecnologias de
informação e comunicação e nos serviços, operando num ambiente de competição
internacional à escala de todo o globo.
As Comissões de Trabalhadores, instrumentos essenciais para o desenvolvimento
da participação nas empresas e para o lançamento de um processo nacional de
modernização e inovação empresarial, deixaram, praticamente, de existir. Para isto
contribuiu, não só uma grande falta de perspectivas quanto às suas tarefas,
socialmente úteis e necessárias, como a contra-ofensiva contra elas (e os seus
membros) conduzida pelo empresariado, com o apoio do Estado, na década de
1980.
Remetemos para os Art.os 54º, 55º e 56º da Constituição da República para uma
avaliação das potencialidades que as estruturas dos trabalhadores encerram
enquanto recurso mobilizável para, responsavelmente, contribuírem para a
superação da crise nacional actual, no plano da contenção de custos do Estado, do
desenvolvimento, modernização e inovação económica e empresarial e, também, na
qualificação e motivação do capital humano nacional.
f) O Sector Económico Privado:

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A classe empresarial portuguesa é fraca, salvo não muitas excepções, em


dinamismo e prática empresarial, em responsabilidade social e em atitude patriótica,
não se comprometendo globalmente com os destinos do País nem se esforçando
para progredir, sem a muleta e a protecção do Estado, no sentido da
competitividade. Em vez de trabalhar directamente para a comunidade e para o
mercado aberto, sobrevive das encomendas públicas. Não acreditando globalmente
no Mercado, procura, antes, gerir as relações pessoais e institucionais para obter
vantagens à margem do adequado funcionamento daquele. O sector económico
privado português mantém, globalmente, a atitude que sempre o caracterizou,
desde os anos da Regeneração novecentista até ao regime fascista, não possuindo
ainda as características de força motora da inovação, modernização e
competitividade do País.
O sistema económico privado (as empresas) é sistematicamente sangrado de
recursos financeiros para os mealheiros pessoais ou familiares de onde, regra geral,
já não regressa por via do reinvestimento.
Os recursos canalizados para o sector privado da economia ao longo dos últimos
anos poderiam ter gerado um movimento modernizador nas empresas com reflexos
na sua adaptabilidade às novas condições do mercado. Porém, a atitude dos nossos
empresários foi, globalmente, a de aproveitarem a oportunidade para reforçar os
respectivos patrimónios (em activos imóveis ou móveis), de preferência residentes
no estrangeiro, em “off-shore”. O empresariado português ainda não se despiu da
tendência para macaquear a velha aristocracia, preferindo viver de “rendas”, em vez
de assumir a tradição progressista burguesa de arriscar em negócios (produção-
venda-reinvestimento). Daí que as “privatizações” se tenham revestido muito mais
do carácter de operações patrimoniais (activos físicos e posições de mercado, às
vezes para revenda) do que de operações de efectiva modernização empresarial e
de reforço da capacidade tributária.
Os sectores financeiros, tendo abandonado a tradição estado-novense de criar
complexos financeiro-industriais (os velhos monopólios nacionalizados após o 25 de
Abril), adaptou-se às novas condições da economia mundializada e passou a
dedicar-se exclusivamente ao jogo do capital financeiro internacional associado às
off-shore. Assim, este sector deixou assim de constituir um motor do
desenvolvimento empresarial e da modernização económica, transformando-se,
fundamentalmente, num mecanismo de reconcentração dos fundos reciclados e de
drenagem para o exterior dos recursos financeiros do país. A sua “modernidade
internacional” é compensada com benesses fiscais e outras. Alguém, com acesso a
informação privilegiada sobre a actividade do sector financeiro, poderia responder à
pergunta do ex-Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio: “então onde é que
estão os Fundos?” (que, ao longo dos anos vieram da EU).
O parque empresarial encontra-se mal estruturado, prevalecendo as pequenas e
muito pequenas empresas, reproduzindo nos sectores industriais e de serviços, o
minifúndio virado para a economia de subsistência. O sector primário mantém-se,
globalmente, ao nível da simples recolecção (floresta, cortiça,...) e da subsistência,
carecendo de uma profunda reforma capitalista, tanto no Norte como no Sul.
A economia privada continua, no início do Séc. XXI, a padecer, globalmente, dos
mesmos males que no final do Séc. XIX !
g) Conhecimento e Motivação
O Capital-Humano do país é débil, qualitativamente. Não temos asas para voar.
Temos vivido sem Sonho, sem atrevimento e sem Técnica.
Depois de andarmos a fazer empresas-universidades, a trabalhar
fundamentalmente para as estatísticas europeias, precisamos agora de pensar no
assunto muito a sério, profissionalmente, no sentido de ligar o ensino superior e a

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

investigação às necessidades da modernização, a projectos direccionados para a


modernização empresarial, para a criação de novos produtos interna e externamente
necessários e competitivos.
Depois de andarmos em manobras experimentais sucessivas no Básico e
Secundário, haverá que assentar e colocar esses níveis de ensino na direcção que é
precisa: a formação de Cidadãos Responsáveis e de espírito cooperativo (pois só
assim apreenderão as redes) e a formação técnico-profissional orientada para o
Trabalho.
Depois de passarmos por um relacionamento simpático com as Escolas, quase as
deixando em auto-gestão, política e comunitariamente desenquadradas, haverá que
perguntar pelos Resultados Obtidos, ao nível da apreensão da cidadania e da
preparação técnica dos educandos.
O Sistema Educativo encontra-se globalmente laxista, reflectindo tanto as
dificuldades de enquadramento de um sistema tão grande, como alguma
desorientação e o desprestígio das sucessivas direcções políticas.
A debilidade da componente participativa na prática da nossa Democracia
constitui um factor de forte limitação ao desenvolvimento do capital humano do
país.
A Motivação dos cidadãos não é elevada. Nem vai crescer por decreto. Irá
crescer, e muito, se confiar na Liderança, se estabelecer identificações com ela.
Bastará um click para os Cidadãos, trabalhadores, quadros e mesmo muitos
empresários, abraçarem, com generosidade, uma Causa. O click tem de ser
suscitado pelos exemplos da direcção política do País.
h) Capitais de Investimento
Sem mais quintais na Índia, em África ou nas Américas, sem as chamadas
transferências dos negreiros do século XIX ou dos emigrantes do século XX,
dependemos essencialmente dos Fundos Europeus os quais, não tendo sido
eficientemente utilizados enquanto fartos, já se encontram em regressão. Sem a
perspectiva de novos balões de oxigénio, vamos ter de trabalhar, muito e melhor
que os outros, se queremos aproximarmo-nos dos restantes países europeus.
Temos de gerar acumulação, em primeiro lugar no Estado, que não seja à custa
de impostos exagerados, de baixas remunerações ou da qualidade dos serviços
prestados à sociedade.
Temos de gerar acumulação nas empresas, que não seja para criar ou aumentar
fortunas pessoais nem à custa da sobre-exploração dos trabalhadores ou do não
cumprimento das obrigações sociais e fiscais.
Temos de ser capazes de mobilizar capitais próprios dos empresários
portugueses e, ainda mais, capitais estrangeiros, proporcionando confiança e
contratualizando responsavelmente, sem que tenhamos, para isso, de adoptar
posturas terceiro-mundistas.
Temos de saber escolher e realizar os investimentos adequados, capazes de se
reproduzirem, e não investimentos de prestígio ou insuficientemente
fundamentados.
Fundamentalmente, temos que aproveitar os Fundos que nos restam, de modo
exemplar, sem que se perca um tostão.
i) Os Cidadãos e as organizações sociais/comunitárias
Os cidadãos e as suas organizações sociais procuram, hoje, desenrascar-se
dançando conforme a música. Sem uma liderança política estável e reconhecida e
com insuficientes exemplos de cima, de dedicação à causa pública e nacional,

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

entregam, se necessário, os seus próprios valores fundamentais para assegurar a


sobrevivência ou o sucesso circunstancial.
Este estado de coisas tem processos de revelação e raízes profundas, alguns dos
quais, de natureza subjectiva, se encontram brilhantemente descritos no livro de
José Gil “Portugal, Hoje – O Medo de Existir”.
Porém, a razão fundamental para a sua persistência reside na desestruturação,
esvaziamento e aniquilamento graduais dos mecanismos de Participação Social na
gestão dos assuntos públicos. Deixou de haver, efectivamente, espaço público,
reduzindo-se este e os mecanismos existentes a meras formalidades (o
cumprimento mínimo da Constituição), muitas vezes entre pares, em circuito
fechado.
De um modo generalizado, a população entende, hoje, as solicitações de
participação como o pedido de “alguém” (pessoa ou instituição) que, para manter ou
alargar os seus interesses egoístas, precisa desse mecanismo de legitimação. As
pessoas não estarão, naturalmente, dispostas a perder o seu tempo (e o dinheiro
das deslocações, dos telefonemas, dos selos de correio, etc.) a “participar” em
qualquer processo de que, já sabe, irá resultar não a defesa dos seus interesses mas
os interesses privados de quem as convoca. Somos toscos mas não burros; por
alguma razão somos país independente há 900 anos.
Este processo de crescente desconfiança e alheamento dos assuntos públicos e
comunitários, de desestruturação participativa, tenderá no futuro, se as condições
gerais de vida se degradarem além de certo limite, a fazer germinar explosões
anárquicas e contestatárias fora do sistema.
Os portugueses já demonstraram, durante o anterior regime, ter uma grande
capacidade de encaixe e uma enorme crença nos dirigentes políticos. Porém, se a
caldeira não tiver válvulas de segurança, poderá rebentar.
A Constituição, porém, não concebe a Participação como um mecanismo de
“segurança”. Concebe-o como um mecanismo de Desenvolvimento Social,
Económico e Cívico. Neste sentido, os Cidadãos e as Organizações
Sociais/Comunitárias constituem um poderoso e valioso recurso mobilizável para a
superação da crise actual.
j) Gestão do Tempo
O Tempo é um recurso escasso. A nossa aproximação dos países europeus
desenvolvidos passa por uma coisa muito simples: densificar o nosso tempo com
mais realizações que os outros.
A gestão óptima do tempo é vital tanto para a economia como para a
administração dos assuntos públicos e, em geral, para a eficiência social. Não se
pode perder tempo; “tempo é dinheiro” já diziam os nossos avós.
Não tomar decisões oportunas, é perder tempo; Deixar as instituições sem
direcção, é perder tempo; Tomar decisões erradas, não fundamentadas ou
voluntaristas e ter de as corrigir depois, é perder tempo; Executar deficientemente,
é perder tempo; Ter a informação de apoio à decisão desorganizada, é perder
tempo; Andar à procura de informação inexistente é perder tempo; “Guardar” a
informação, é fazer perder tempo; os engarrafamentos de trânsito, são uma enorme
perda de tempo; tratar de qualquer assunto na administração pública é, ainda, uma
perda de tempos; buscar informações necessárias em “sites” de Internet inúteis, é
perda de tempo; “Dialogar”, “negociar”, “explicar” qualquer coisa a quem não quer
dialogar, negociar ou entender, é perder tempo (a gestão da boa-fé); Estar meses
sem Governo ou com Governos “deficientes” é perder muito tempo...
Ganhar tempo é, além do mais, estudar experiências de programas de
desenvolvimento e soluções já implementadas em outros países, pesquisar nas

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

bibliotecas, na Internet e através de contactos internacionais tudo o que sirva para


retirar lições e recolher motivos de “inspiração” para o nosso esforço de inovação e
modernização. Não estamos a “descobrir a pólvora” nem teremos de nos sentir
originais em tudo. Aproveitemos, andando depressa, os caminhos que outros, mais
lentamente, já desbravaram com êxito. Sejamos inteligentes a “cabular”.
O nosso desafio é só este: realizar 2, 3 ou 4 vezes mais eventos (decisões,
obras, acções) que, no mesmo tempo, fazem os alemães, os franceses, os suecos e
outros.
Não temos tempo a perder. Estamos “sem margem”. Somos como uma equipa a
perder no prolongamento do jogo.
1.4 Quadro Geral de Referência para o Futuro - Estratégia:
De todos os recursos enunciados aquele que poderá servir de motor, de
locomotiva, é, sem dúvida, neste momento, o Estado, se este se dispuser a cumprir e
fazer cumprir, de modo pró-activo, a Constituição da República. Também porque é
aquele que poderemos transformar directamente, pela nossa capacidade de decisão,
e, através dele, induzir dinâmicas positivas em todos os outros.
Os partidos democráticos deverão, nas suas relações com os cidadãos e com o
Estado, servir de exemplo de uma nova postura política ao serviço dos interesses
Geral e Público, e constituírem-se como impulsionadores da reforma do sistema
político e agentes de esclarecimento e mobilização dos cidadãos e das instituições.
O país precisa de uma esquerda política prestigiada pelo exemplo das atitudes,
pelo valor das suas ideias de modernidade, republicana e ousadamente reformista
capaz de mobilizar todos os sectores sociais e políticos necessários para a
reconstrução democrática e progressiva de Portugal, em primeiro lugar, os
trabalhadores e os quadros técnicos e as suas organizações representativas, bem
como os sectores do empresariado moderno, efectivamente empreendedor e dotado
de ética social.
Importa, fundamentalmente, gerar espaços públicos de exercício da Liberdade e de
Participação, libertar a sociedade das tutelas, controlos e ameaças que persistem em,
colectivamente, nos amordaçar e inibir. Suscitar a irreverência criadora e, tanto
quanto possível, Responsável, abolindo o politicamente correcto, o conveniente, o
eterno equilíbrio do imobilismo. Até a Física nos diz que só provocando o desequilíbrio
conseguimos caminhar...
Da acção conjugada dos dois principais factores, Estado e forças democráticas e
sociais progressistas, dependerá o adequado esclarecimento dos cidadãos e das
instituições quanto aos problemas a enfrentar e a sua mobilização para a sua
superação.
O País precisa que as Empresas e os Trabalhadores estabeleçam uma base de
Confiança para a cooperação entre todos os agentes envolvidos virada para o sucesso
económico e social sustentado num quadro de grande competitividade internacional.
Propomos, por isso, uma política económica centrada num Conceito Moderno de
Empresa como centro de cooperação entre os diversos agentes intervenientes e
necessários: o Capital, o Trabalho, o Conhecimento, a Tecnologia e a Ética.
Este novo conceito de Empresa suscitará, por certo, a apreensão de sectores do
“patronato” e sindicais, que vivem agarrados a velhas concepções corporativas do
tempo da Revolução Industrial. Porém, ela corresponde ao praticado nas empresas de
sucesso nos países mais desenvolvidos, nos dois lados do Atlântico, não constituindo
aí qualquer problema “ideológico”, antes uma necessidade da moderna economia que
estimula e aproveita a participação dos trabalhadores e quadros técnicos na gestão da
produção.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

O País precisa de um Estado Forte, rico, eficiente, modernizador e mobilizador


das vontades e recursos nacionais para a defesa e realização do Interesse Público e
Nacional.
Esta ideia de um Estado Forte e interveniente só poderá ser entendida como
motivo de disputa ideológica a quem, por exemplo, não conheça os esforços do ex-
Vice Presidente dos EUA, Al Gore, e outra literatura americana do início dos passados
anos 90 (“Reinventando o Governo”, etc.) no sentido da reforma estratégica do
Estado norte-americano com vista a assegurar a competitividade do país no séc. XXI.
Nesse quadro, é mesmo sugerido que instituições e empresas públicas,
“eficientizadas”, deveriam competir no mercado com vista à permanente
modernização e competitividade das empresas americanas.
Sem os cidadãos esclarecidos e mobilizados não haverá saída para a crise. Todos
os Governos ficarão vulneráveis se permanecerem tentados a trabalhar para as
ilusões, abandonando o caminho necessário. Sucessivos fracassos poderiam levar os
cidadãos a seguir um “Salvador” com qualquer roupagem.
Num quadro de crise profunda, justifica-se, a par da tomada das necessárias
medidas de carácter económico, jurídico-legal e administrativas, a adopção de um
discurso mobilizador dos sentimentos patrióticos dos portugueses e da sua crença em
si próprios. Este elemento subjectivo, a par da ética e do exemplo, constitui, apesar
das suas eventuais ambiguidades no quadro da estratégia geral de integração
europeia, um factor de reforço da coesão nacional que não deverá ser liminarmente
abandonado.
Depois da grande empresa das “Descobertas” do passado, porque não um fórum
“Portugal Redescoberto” concebido não como um simples momento e lugar de
reflexão e participação social e política mas como um verdadeiro e amplo Projecto
Nacional destinado a ultrapassar de vez o atavismo sebastinianista que nos tem
caracterizado nos últimos séculos !.
Sugere-se, pois, uma Estratégia Nacional apoiada nos seguintes factores:
- Implementação pró-activa da Constituição da República;
- Construção de um Estado Forte Democrático-Empreendedor;
- Economia assente num Novo Conceito de Empresa;
- Plena Integração da União Europeia;
- Ambiente Internacional de Paz, Cooperação e Solidariedade.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

2. AMBIENTE INTERNACIONAL DE PAZ, COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE

A política externa portuguesa deverá prosseguir, nos anos mais próximos, os


seguintes objectivos principais:
a) “Ganhar” tempo, junto dos parceiros europeus, para a nossa recuperação sem que
nos criem situações mais dramáticas que nos “desequilibrem” internamente (Pacto
de Estabilidade e Crescimento); Contratualizar, pelo menos, a continuidade da
disponibilização de “Fundos Estruturais” até 2020 com base em propostas de
financiamento específicas;
b) Pugnar, na arena internacional, com a Europa e dentro da Europa, para a
eliminação, por via pacifica, de situações de tensão internacional, de modo a obviar
os dramas humanos, os danos económicos e as despesas que qualquer guerra
implica.
- Um clima internacional de Paz é essencial para a libertação de recursos da defesa e
segurança para o desenvolvimento. As capacidades de defesa da Europa não
deverão resultar do seu “empenhamento” em novas armas mas sim da sua coesão
social e de uma mais rápida integração dos diversos sistemas de defesa nacionais
numa estrutura cooperativa plurinacional.
- Pugnar por uma mais rápida evolução para a Democracia de países com regimes
de ditadura excluindo, contudo, qualquer forma de intervenção militar; promover
políticas de mais rápido desenvolvimento económico e social no conjunto dos
países islâmicos, designadamente na Arábia Saudita, Paquistão, Egipto, Marrocos e
Argélia, de modo a permitir despoletar as bases do terrorismo com origem em
movimentos fundamentalistas.
- Pugnar pela resolução pacífica e correcta da questão palestiniana de modo a que,
na base de soluções impostas pela actual correlação de forças com Israel, não
venham a surgir, no futuro, mais graves problemas;
- Pugnar por um acesso equilibrado (e democrático) de todos os países ao recurso
“petróleo” e pela utilização extensiva de energias alternativas com vista a diminuir
fortemente o seu consumo.
- Consolidação do sistema das Nações Unidas como palco de regulação democrática
de conflitos e de resolução cooperativa dos problemas globais da Humanidade.
c) Fortalecer os laços com os grupos de países susceptíveis de alargar o actual
mercado da economia portuguesa, em primeiro lugar os países lusófonos.
d) Cooperar mais estreitamente com a Espanha nas questões próprias da Península,
na construção europeia, no desenvolvimento das relações com a América Latina e
o Norte de África e na criação de uma capacidade ibérica em domínios da
economia do futuro (aero-espacial, robótica, nanotecnologias, biologia molecular,
energias alternativas, ciências do mar, telecomunicações, sistemas de informação,
etc.).
e) Captação de investimentos estrangeiros estruturantes para Portugal,
designadamente provindos da Alemanha e dos países nórdicos.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

3. CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO FORTE

3.1 – Anos de “construção” de um Estado Pobre e Fraco, ou a teoria


do “Menos Estado”
A questão da Reforma do Estado anda na ordem do dia desde os tempos de
Cavaco Silva. Após a aprovação do Código do Procedimento Administrativo (CPA) e
das operações (quase só de cosmética ao nível dos “atendimentos”) promovidas pela
chamada “modernização administrativa”, desenvolvidas na base do reconhecendo dos
direitos dos cidadãos “contra” um Estado com cultura totalitária e discricionária, muito
pouco foi feito para alterar radicalmente a situação. Seja por receio do peso das
corporações instaladas, seja mesmo porque não se saberá por que ponta se poderá
começar: é o Estado tipo “bola de bilhar”.
Algumas tentativas de “empresarialização” e de criação de Institutos autónomos,
quer ao nível local quer central, vieram, no fundamental, a ser recuperadas pelo
“sistema”, daí resultando, na maior parte dos casos, novos cargos dirigentes (para
satisfazer as necessidades do “rotativismo” político) e a reprodução do despesismo,
ampliada pela diminuição dos mecanismos de controlo. A “autonomia” é aproveitada,
muitas vezes, para fugir aos procedimentos públicos de adjudicação/contratação e
não para a introdução de novos critérios de gestão, do tipo empresarial. Muitos
responsáveis não entenderam ainda que gerir os dinheiros públicos exige mais rigor e
responsabilidades que a gestão dos recursos próprios. Não foi também ainda
entendido que a “gestão pública”, porque condicionada a necessários mecanismos de
controlo e de tomada de decisão e, ainda, por lidar com acrescidos factores de
incerteza quanto às circunstâncias externas e à avaliação dos cidadãos, exige os mais
elevados níveis de profissionalismo e tecnicidade por parte dos dirigentes públicos.
Na sequência de algumas iniciativas positivas de reorganização regional do Estado
ainda nos anos 80, a primeira tentativa do PS para a institucionalização da
“Regionalização” foi, sem dúvida, apesar de concebida com algumas fragilidades
(essencialmente pelo perigo de canibalização do Estado podendo produzir novas
“Madeiras”), um momento de desestabilização do “sistema” vigente.
A política do “menos Estado” a partir do reconhecimento, fomentado, muitas vezes
“de dentro”, da incapacidade do Estado para gerir as suas actividades levou à
crescente aquisição externa de serviços a entidades privadas, muitas vezes criadas
para cada situação, de mais do que duvidosa idoneidade e competência. A dada altura
chegou mesmo a considerar-se a possibilidade de entregar a “gabinetes” externos as
funções relativas aos licenciamentos públicos. Cresceu o mercado privado de
“consultorias” e “fiscalizações”, alimentando, a troco da qualidade e da
responsabilidade do Estado, uma clientela de quadros técnicos. Os gabinetes estão
apinhados de estudos de diagnóstico e propostas. Certamente que conterão muitas
ideias meritórias. Porém, o mais difícil é passar à prática. Veja-se a Resolução
53/2004 do Governo relativa à reforma da Administração Pública, mais um estudo
generalista/académico a ser implementado por estruturas fracas; uma declaração de
piedosas intenções!
A degradação das funções dirigentes públicas designadamente ao nível da
competência e da assunção de responsabilidades leva ao recurso crescente a estudos
e pareceres externos supostamente competentes e imparciais, tanto para servir de
encobrimento à incompetência técnica e falta de iniciativa como, por vezes, para
justificar o injustificável.
Desde a gestão dos projectos financiados por recursos públicos às prestações de
serviços mais diversas, instalou-se uma vasta teia de “pipelines” de drenagem dos
recursos públicos para o sector privado sem que daí tenha resultado qualquer

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

melhoria da qualidade dos investimentos e dos serviços prestados. A privatização do


sector empresarial público veio a traduzir-se na sonegação ao Estado de vultuosos
recursos de que poderia ser beneficiário, tanto por via dos dividendos como da colecta
de IRC. Em vez de menos despesa obteve-se menos receita. Muitos dos quadros
técnicos, por vezes até então bons funcionários públicos, transformaram-se em
“clientelas flutuantes” a tentar sacar trabalhos ao Estado vestindo a pele que mais
lhes convenha segundo a conjuntura política.
A situação em Portugal, no momento presente, mostra que não foi gerada, nestes
anos de forte aspersão de recursos, uma oferta privada credível para a maioria dos
serviços públicos. As iniciativas verificadas tiveram, essencialmente, o objectivo de
aceder aos fundos comunitários disponíveis sem qualquer preocupação de
continuidade.
A ideia do “menos Estado” que tem sido defendida corresponde, na prática, a um
abrir dos cofres públicos (incluindo os fartos fundos comunitários) a interesses
privados e particulares de conjuntura sem que daí tenha resultado qualquer sistema
“civil” credível para assegurar com êxito os serviços públicos “privatizáveis”. Logo que
deixe de haver acesso aos “Fundos” e desapareça a garantia do lucro fácil, assim de
novo fugirão as empresas privadas correspondentes, criando-se um novo vazio que
será restituído ao Estado para o necessário preenchimento.
3.2 – Para a construção de um Estado Forte
3.2.1. – Domínios de Intervenção
Defendemos, neste âmbito, o conceito geral de que tudo o que puder ser feito pela
sociedade civil (mercado empresarial, comunidades organizadas, etc.) com garantia
de preços/custos e de qualidade, deve ser feito por essa via. No limite, não vemos
nenhum sector, com excepção dos de “soberania”, que não possa estar aberto às
iniciativas “civis”, empresariais e comunitárias, num quadro de defesa dos Interesses
Geral e Público.
O Estado Democrático moderno tem como obrigação ocupar os “espaços vazios” e
intervir activamente em qualquer espaço que se reconheça não estar a corresponder,
pela dinâmica própria da sociedade civil, às necessidades do desenvolvimento
estratégico e sustentável da sociedade. A isto chama-se criar as Condições Gerais da
produção.
Defendemos, pois, que, salvo em sectores e actividades relacionadas com a
soberania e com interesses verdadeiramente estratégicos, sobre os quais deverá
haver “reservas” do Estado, não deverá haver “Tratados de Tordesilhas”, de
demarcação de áreas de actividade pública e privada.
Um Estado, um poder político, que pretenda representar o país no seu todo,
assegurando a Liberdade, as Oportunidades, a Equidade e a Justiça, não poderá
deixar submeter-se a pressões e chantagens sectoriais e corporativas e abdicar, por
qualquer “definição” oportunista dos “fundamentalistas de mercado”, de estar
presente e, se necessário, intervir, como regulador ou actor concorrencial directo, em
qualquer sector da vida nacional, incluindo os “sacrossantos” sectores das actividades
económicas e financeiras e da comunicação social.
Para melhor se compreender a importância estratégica e em que deverá consistir a
“Reforma do Estado”, deixamos algumas observações:
3.2.2. – Natureza e Estrutura do Estado
A primeira observação a fazer refere-se à actual estrutura e modo de gestão do
Estado. Ela corresponde, no fundamental, à herança do regime de Salazar e deriva do
processo histórico em que foi criada. Salazar/Caetano construíram um Estado a partir
do quase zero em termos de finanças, estrutura e capacidades. Tecnicamente, e

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

considerando os objectivos políticos então fixados pelo Poder, foi um feito notável
(mais de 40 anos no poder e a capacidade técnica e financeira para “aguentar” 15
anos de guerras coloniais em várias frentes, mostram grande eficiência na
prossecução dos objectivos). Sem uma forte centralização do Poder e uma grande
disciplina financeira (recorde-se o papel central do sistema das Finanças) não teria
sido possível criar esse Estado. Fizeram-no, porém, fundados em concepções anti-
democráticas.
Assim, o Fascismo construiu um Estado Totalitário, e Administrativo-Policial.
Divorciados da Sociedade e conservando até ao fim a lógica da reprodução do
Poder, inibiram e reprimiram as iniciativas dos cidadãos em geral, apoiando-se num
pequeno número de “fiéis correligionários”. Travaram o normal “desenvolvimento das
forças produtivas”. E caíram !
Apesar da natureza democrática das novas instituições, a estrutura e o
funcionamento do aparelho do Estado herdados pela “2ª República” mantiveram-se,
contudo, globalmente idênticos até ao presente.
Na sequência e com a vivência do processo revolucionário do 25 de Abril veio a
criar-se uma sociedade muito livre e com exigências participativas. A nova
Democracia mostrou-se capaz de resolver adequadamente o conjunto de desafios
imediatos que se impuseram, designadamente quanto às consequências da
descolonização, da abertura do país ao exterior, da instituição e autonomia do Poder
Local, das nacionalizações e da promoção das condições básicas de vida da população,
designadamente nos domínios sociais. Por factores que não importa agora
desenvolver mas que assenta na adopção de uma atitude conservadora dos partidos
com vista à conjuntural luta e utilização do poder e ao acesso aos recursos da Europa,
a Segunda República “esqueceu-se” de reconfigurar o Estado às novas necessidades e
objectivos estratégicos da Sociedade. Assim, o velho Estado adaptou-se à nova e
conjuntural função de plataforma distribuidora dos recursos mantendo, no
fundamental toda a anterior lógica, agora com mecanismos de responsabilização
quase inexistentes por motivo do “rotativismo partidário” a que foi sujeito durante
anos.
“Olhando” para a estrutura do Estado “central” logo que constata a sua
organização exclusivamente sectorial à escala de todo o país. Os serviços
regionalizados de cada Ministério sectorial não têm articulação entre si, mantendo-se
estritamente dependentes do “centro”.
Esta situação corresponde a que, na prática, qualquer coordenação, inter-sectorial
ou territorial só poderá ser realizada com maior probabilidade de êxito pelo Primeiro-
Ministro (antigamente, pelo Presidente do Conselho de Ministros, o qual, como
verdadeiro “chefe”, enviava o Américo Tomás, os Governadores Civis ou os nomeados
Presidentes das Câmaras distribuir, localmente, algumas benesses).
A instituição do Poder Local Democrático constituiu, sem dúvida, ao momento, um
forte avanço no sentido da resolução dos problemas mais imediatos sentidos pelas
populações e da intervenção democrática dos cidadãos.
Porém, o modelo centralista do Poder manteve-se no essencial, não
desempenhando o actual poder local qualquer função estratégica.
Os subsídios “automáticos” ao Poder Local, o acesso a alguns “fundos europeus”
(muitas vezes distribuídos segundo critérios partidários) e pelo rodopio fortemente
entrópico dos trezentos e tal Presidentes das Câmaras junto dos membros do Governo
e organismos da Administração Central mendigando alguma atenção e recursos não
resolveram o essencial do problema. As Presidências Abertas e os Conselhos de
Ministros descentralizados foram iniciativas inconsequentes para assegurar algum
momento e lugar de sincronização territorial.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

O “sistema” chumbou o projecto “revolucionário/constitucional” de Regionalização,


o qual, indicava uma direcção e intenções correctas e urgentes, mas que continha
demasiadas interrogações quanto ao modo de implementação e aos resultados a curto
e médio prazos.
A necessidade de coordenação e integração coerente das unidades
territoriais/comunitárias é tanta que se torna palco das maiores manobras
demagógicas como foi a da “descentralização” de alguns Secretários de Estado pelo
Governo “Santana Lopes”.
Antecipando, diríamos que nada obsta a que, sem alteração da estrutura política
do país, a “Regionalização” possa ser prosseguida imediatamente, de forma gradual,
acautelando os eventuais efeitos perversos (canibalização do Estado e dos “Fundos”,
demagogia regional, etc.) que poderiam surgir a partir de órgãos regionais eleitos no
actual quadro de “cultura de Estado”.
A criação, no quadro do Governo, de alguns Ministérios “Regionalizados”, com
responsabilidades de gestão integrada das actuais estruturas desconcentradas do
Estado em algumas “Regiões” do país, poderia permitir não só ensaiar as
metodologias mais adequadas à global institucionalização democrática das futuras
Regiões como, ainda, iniciar uma Reforma global do Estado de acordo com os
princípios democráticos e económicos sugeridos para a sua gestão.
O desenvolvimento, quanto antes, desse processo de “regionalização” do Governo,
criaria ainda melhores condições para a próxima e necessária reforma do Poder Local
(a desencadear antes das eleições autárquicas de 2009), num quadro mais bem
conhecido das novas competências a cometer-lhe, das condições (institucionais,
técnicas e financeiras) para o seu correcto exercício e dos melhores critérios para
concretização futura da reforma da Divisão Administrativa do País.
O Estado é hoje constituído, funcionalmente, dentro de cada Ministério, por
organismos/entidades com poderes para distribuir recursos (avaliação, financiamento
e gestão de projectos) e organismos vegetativos.
Aos primeiros, normalmente preenchidos por quadros de “confiança”, cabe a
função de gestão política da redistribuição dos fundos comunitários e nacionais
disponíveis para o investimento e a gestão das “parcerias público-privado”.
Aos segundos, para além do prosseguimento (cada vez com mais dificuldade) das
normais, essenciais e “pouco interessantes” funções administrativas e técnicas do
Estado, servem igualmente de palco, pela gestão dos lugares de direcção/chefia, da
formação de clientelas de nível inferior.
Não sendo “interessantes” sob os pontos de vista político e económico, os
organismos “vegetativos” não têm merecido do poder político qualquer atenção real
quanto ao modo de funcionamento, ao desempenho e à própria razão de existirem.
No entanto, cabe-lhes uma fatia muito significativa do Orçamento corrente de
despesas, tornando-os os “culpados” pelo actual déficit.
O denominado “Programa de Reforma da Despesa Pública” de Junho de 2001 é
bem demonstrativo do lamentável nível conceptual a que se chegou na ânsia de
liquidar a parte (hoje vegetativa mas sempre essencial) do Estado.
Não será de admirar, pois, que as infra-estruturas e equipamentos públicos da
responsabilidade do Estado, as estradas, pontes, barragens e linhas de água,
hospitais, escolas, etc., etc. se vão degradando, que os processos de licenciamento e
fiscalização se “arrastem”, que o “tradicional” aparelho do Estado caia na inanição,
desmotivação e degradação sem que, antes, haja sido feito algum esforço sério para o
reformar, reorganizar e reanimar.
O Estado Central funciona de modo semelhante ao que parece verificar-se em
algumas Câmaras Municipais de maior dimensão, onde cada Presidente retira uma
talhada do orçamento e cria a sua equipa pessoal com vista à realização das “obras de

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

mandato”, fazendo o mesmo os restantes vereadores de cada Partido, ficando o resto


para a “estrutura”. Esta, entregue a si própria e à rotina, tende, por sua vez, a
reproduzir o “modelo global” aos mais diversos escalões.
No fundo, o que vamos encontrar é um “modo de produção feudal” adaptado à
exploração dos recursos “financeiros”. Dir-se-á, numa perspectiva de gestão político-
eleitoral, que não se vê alternativa que não conduza a uma próxima derrota. Porém, a
manutenção do sistema actual tenderá, a prazo, a arrastar-nos para um processo de
“italianização” da política, incluindo o aumento da frequência de rotação governativa.
3.2.3. – Estado de Direito, Prestígio e Autoridade
O Estado que temos hoje, ainda não é o Estado de Direito necessário. É, sem
dúvida, muito melhor que o Estado discricionário do fascismo, foram eliminados os
mecanismos jurídicos que permitiam a maior discricionaridade (prisões sem culpa
formada, assassinatos, despedimentos e perseguições aos opositores, etc., etc., etc.).
Porém, estamos muito longe do Estado de Direito a que se referia o Presidente
Kennedy quando afirmava, a propósito da resistência racista ao reconhecimento dos
direitos dos negros americanos, que “não somos governados por pessoas mas sim
pelas Leis...” (apesar de ser preferível um governo por Pessoas Legais...).
Reconheçamos que a política e o governo do Estado aos mais diversos níveis e
âmbitos, incluindo o da Justiça, continuam, em Portugal, a ser influenciados pelas
pessoas concretas envolvidas, em detrimento da perspectiva institucional. Não é
indiferente ser-se ou não “do Partido”, “amigo”, da “classe social” conveniente, do que
se “tenha para a troca” no universo das influências, do que, conjunturalmente, der
mais “jeito”, etc.
O efectivo respeito pelos princípios do Estado de Direito Democrático é uma
condição essencial para o prestígio do Estado junto da população. Mas não é
suficiente. O Estado também necessita, para se prestigiar, de estar dotado de
poderosos recursos financeiros, capazes de assegurar o melhor cumprimento das suas
funções específicas, à promoção económica e à promoção social, e não um Estado
mendicante, sujeito a todo o tipo de pressões, exigências e imposições, internas ou
externas; necessita de ter um relacionamento “amigável” com a população e dos
adequados meios de persuasão democrática, se necessário, de legítima coerção, para
fazer cumprir as Leis por todos os cidadãos.
O Estado que hoje temos continua, também, apesar do CPA (Código do
Procedimento Administrativo), a exercer o seu “poder” essencialmente pelos
mecanismos “administrativo-policiescos” e não pelas ferramentas dos instrumentos
morais, económicos, político-pedagógicos e do estímulo. Não somos “burocráticos” por
nascimento mas crescemos e formámo-nos nessa “cultura”. Porém, também não
mudámos porque a manutenção desses instrumentos dá, algumas vezes, algum jeito
para a manutenção do poder e o favorecimento de clientelas. Inibem-se,
frequentemente, as actividades de outros com base na mobilização de exigências
administrativas ou de equipas de fiscalização (ou, modernamente, de auditoria); ao
contrário, favorecem-se as iniciativas convenientes desmobilizando esses
instrumentos; accionam-se investigações e processos judiciais conforme as
conveniências...
Tudo isto conduz à actual fraqueza estrutural do Estado, mesmo quando se
impunha a tomada de medidas “de força”. De certo modo, o poder está “na rua”. Mas
não na rua dos cidadãos; mais ainda na rua dos “gangs”, qualquer que seja a cor do
colarinho. O banditismo organizado já dividiu “territórios e áreas de actuação”. Já
criou “teias” em instituições públicas. As “Covas da Moura”, zonas da costa, “nichos”
no aparelho do Estado (incluindo forças de segurança) e em algumas instituições
financeiras, servem-lhes de “zonas de segurança”/”áreas libertadas”.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Os tristes episódios do sargento da GNR que, há uns anos, assassinou e cortou a


cabeça a um jovem e o do “segurança” da Presidência da República que “ajudava um
amigo” no tráfico de drogas, mostram, por eles próprios, pelas explicações públicas
dadas pelos responsáveis dessas instituições e pela falta de exigência revelada pelas
estruturas do poder, o grau de laxismo em que este se encontra.
Os únicos exemplos “contra a corrente” que conhecemos foram as acções policiais
na Ponte 25 de Abril (Cavaco Silva) e numa manifestação da CAP (Jorge Coelho).
Os episódios mais recentes que têm envolvido quer a PJ quer a Procuradoria da
República mostram ao cidadão comum como os instrumentos de segurança da
República se encontram vulneráveis, permeáveis a qualquer tipo de “infiltração” e
controlo ilegítimo.
Só um Estado e um Poder Político prestigiados, poderão ver concedida, pelos
cidadãos, a Autoridade necessária à boa e democrática execução das políticas
decididas.
A obtenção dessa Autoridade, fundamental a um Estado que se pretenda Forte,
exige uma postura de grande credibilidade pública pelo Governo e pelo “sistema
político” no seu conjunto e um programa de informação e mobilização política e cívica
dos cidadãos, em primeiro lugar dos servidores do Estado.
A Autoridade reconhecida pelos cidadãos constitui o fundamento da firmeza e da
exigência do Poder Democrático.
3.2.4 – O Déficit de Enquadramento Político Democrático
Ao nível do enquadramento político democrático das estruturas do Estado, o déficit
é tremendo.
É impraticável um Ministro da Educação, por exemplo, com dois, três ou quatro
Secretários de Estado gerirem, política e tecnicamente, talvez a maior e mais
importante “empresa” do país, com centenas de milhares de trabalhadores e efeitos
reprodutores estratégicos tão vastos, designadamente enquanto criador de “capital
humano” qualificado.
O mesmo se poderia referir relativamente a outros departamentos
governamentais, da saúde, da segurança pública, da segurança social, da economia,
das finanças, etc.
A experiência de hoje mostra que quando o actual Poder Local entende a sua
função como de verdadeiro Governo Local tornam-se crescentes as tensões com o
poder central quanto ao enquadramento e desempenho dos serviços
“desconcentrados” do Estado, a começar pelos sistemas educativo, da saúde e da
segurança pública.
O distanciamento dos titulares e responsáveis políticos das acima chamadas
“estruturas vegetativas” que não gerem projectos de prestígio irá, no futuro, provocar
cada vez mais demissões no Governo pela ocorrência, tendencialmente crescente, de
“barracas” (nas pontes, nas estradas, nas balizas, nos aquaparques, nas casas pias,
na segurança pública, nos cuidados de saúde, nos fogos e inundações, nas obras mal
feitas, na segurança alimentar,...) sem responsáveis técnicos e administrativos
directos a quem, em consciência, se possam atribuir tais responsabilidades.
Ser membro do Governo, nas condições actuais, é, de facto, uma “profissão” de
risco onde, mesmo a pessoa mais competente, dedicada e com sentido do serviço
público poderá ver cair, inopinadamente, na lama toda a sua credibilidade e prestígio
pessoal e profissional. È o preço político da decomposição e perversão a que se tem
conduzido o aparelho “vegetativo” do Estado.
Daí que se restrinja cada vez mais o campo de recrutamento para o Governo,
preferindo algumas das pessoas mais conscientes e capazes abrigar-se em cargos e
funções mais “técnicas”, seguras e bem pagas.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Tal déficit de enquadramento político democrático terá de ser corrigido tanto pela
“Regionalização” democrática como pela maior participação do actual Poder Local na
gestão dos serviços já hoje “regionalizados”.
3.2.5 – Os Recursos Humanos da Administração Pública
Sob o pretexto de “despolitizar” o aparelho do Estado na sequência do processo
revolucionário de 1975, afastaram-se os quadros democráticos e progressistas que
havia e abriram-se lugares para as pessoas “de confiança”. Não esqueçamos que o
aparelho de Estado herdado pela Democracia era profundamente conservador e de
mentalidade imobilista ao nível dos seus dirigentes, não tendo alterado o seu carácter
pelo arremedo de “saneamento” que se chegou a intentar. Desse novo saneamento “à
esquerda” resultou uma hierarquia globalmente “de direita” que tende a paralisar
quaisquer tentativas de reforma democrática. Quando o PS vai para o Governo, essa
hierarquia tende a disfarçar o seu imobilismo com inconsequentes declarações de
profissionalismo e isenção, tornando-se, pelo contrário, efectivamente colaborante
com os governos de direita (recordemos, pelo menos, pela sua visibilidade pública, as
“cascas de banana” que constituíram alguns episódios da GNR que comprometeram
politicamente os Ministros do PS Fernando Gomes e Alberto Costa). Não é por acaso
que quando o PS vai para o Governo ressurge sempre o alarido dos “boys”, que,
antes, se chamavam “comunistas”... Com a algazarra da direita, que, ao longo dos
séculos, naturalmente, sempre entendeu o Estado como seu, a esquerda tende a ficar
com “complexos”, relativamente à criação de uma hierarquia democrática no aparelho
do Estado.
De facto, o assunto não é de filiação ou simpatia partidária mas sim de se ter ou
não espírito reformador, criatividade organizacional e de gestão, liderança e
mentalidade “económico-empreendedora”, sentido de serviço público, num quadro de
modernidade.
Infelizmente, não possuindo embora o perfil adequado para promover a
modernização do aparelho do Estado, alguns desses dirigentes “conservadores“, mas
sérios, ainda vão desempenhando um papel positivo no sentido de refrear alguns
ímpetos pseudo-modernos tendentes a autênticas práticas de “bagunça” negocista na
administração pública.
A linha de dirigentes e técnicos de “staff” da Administração Pública encontra-se
fortemente debilitada e pervertida. A chamada “confiança partidária” (que, depois dos
altos, invadiu os mais baixos escalões de direcção) e a disponibilidade para, por vezes
de forma mais do que arrevesada, servir de “carneiro no altar de algumas decisões
públicas”, passaram a ser uma espécie de “código deontológico”. De facto, ao nível do
Estado, extinguiu-se a Liberdade de opção política, em nada se distinguindo algumas
práticas actuais dos célebres juramentos e procedimentos do “antigo regime”.
A luta político-partidária pelo Poder o controlo do aparelho tecnico-administrativo e
de gestão Estado transformou-se um facto mais que habitual, consensual, uma
característica da Democracia, ao contrário do que pretendia mostrar um conhecido
programa inglês de televisão. Muitos quadros, aptos e dedicados noutros tempos, com
sentido do serviço público, preferem aguardar hoje, passiva e confortavelmente, em
“prateleiras douradas”, o tempo das suas reformas. Outros, para nossa sorte,
mantêm-se como verdadeiros heróis resistentes, a manter o fundamental do que
ainda funciona na Administração Pública.
A política de quadros da Administração Pública, como resultado do imobilismo
conservador, do “rotativismo político” e das “comissões de serviço”, está
profundamente pervertida.
O Estado é da Nação, devendo obediência e lealdade ao poder político eleito mas
não podendo ser “apropriado privadamente” por qualquer grupo ou partido.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A par da “reciclagem mental” de muitos quadros reaccionários (não no sentido


partidário, porque reaccionários e progressistas há-os em todos os partidos, mas,
mais amplamente, das atitudes pessoais face às necessidades de “mudança”), do
desmantelamento do favoritismo político-partidário na “administração pública” (que,
muitas vezes, serve de justificação e cobertura ao imobilismo), dever-se-ia, também,
extinguir a figura da “comissão de serviço”, criando em seu lugar uma figura de
“contrato por objectivos”, de remuneração flexível, aberto à concorrência externa, por
forma a qualificar o quadro de dirigentes públicos em função das novas exigências.
Nem tudo o que é “funcionário público” é mau, assim como não constitui certificado
de competência o facto de se ter “experiência” anterior “na privada”. A experiência
mostra que subsiste na “Administração Pública” uma reserva de quadros de grande
gabarito profissional e dedicação ao interesse público.
Sem um conceito estrutural, funcional e tecnológico de referência, como reformar
a política de quadros e de recursos humanos da administração pública?
Haverá que reorganizar “Quadros de Pessoal”, “Carreiras”, políticas remuneratórias
e de contratação, começar a reconstruir o corpo de efectivos para o modelo futuro.
Sem “modelo”, sem projecto conhecido e compreendido, todas as medidas que se têm
tomado (e que, globalmente, têm merecido suficiente compreensão, mesmo por parte
dos sindicatos) e que tenham de ser tomadas no futuro poderão ser mal aceites e
gerar maiores conflitos. Aparentemente, todos estão à espera de qualquer coisa que
não seja mais do mesmo, isto é, as soluções do “downgrade” do tipo “Programa de
Reforma da Despesa Pública”.
Prosseguir esse caminho, dos cegos cortes orçamentais, das reformas antecipadas,
das demissões negociadas, sem um novo conceito estrutural, funcional e tecnológico
de referência, só retiraria de uma rubrica do orçamento o que teria de entrar por
outra rubrica. Ficariam mais umas dezenas de milhares de trabalhadores socialmente
marginalizados, aguardando inactivos o final das suas vidas, a viver de “reformas” de
subsistência.
O caminho deverá ser outro, o de reorganizar radicalmente as actividades do
Estado e, eventualmente, criar novas actividades, económica e socialmente úteis e
eficientes, de forma a tirar proveito de todos os actuais trabalhadores. Um esforço de
reconversão e formação terá, necessariamente, de ser previsto em função das novas
funções a desempenhar.
Esta opção corresponderia a alargar os domínios de actividade do Estado,
directamente ou com parcerias comunitárias ou privadas, em áreas deficitárias do
tecido económico e dos serviços comunitários, numa base empresarial, a trabalhar
para e no mercado, permitindo a absorção de muitos dos actuais funcionários públicos
e o suporte, pelo mercado, das respectivas remunerações.
3.2.6 – A Reforma do Poder Local
O âmbito da Reforma do Estado não deverá, porém, ficar-se pela estrutura central.
As Autarquias Locais tendem para um esgotamento do modelo de gestão de
redistribuição social e, mais preocupante, para situações financeiras de grande
debilidade podendo, a 5 ou 10 anos, desencadear-se um processo de inanição
endémica ou falência (esperemos que não se chegue ao ponto de Autarquias Locais se
virem a entregar, quais Egas Moniz de baraço ao pescoço, ao Poder Central para
nomeação de “Comissões Administrativas de Salvação Local”, ou, em alternativa,
privatizarem-se através de contratos de gestão).
Analisando superficialmente os dados consultáveis de execução de alguns dos
Programas de Desenvolvimento Regional financiados pelos fundos europeus e os
projectos municipais neles incluídos, verifica-se que a maior parte das actividades
financiadas correspondem às “normais” funções/obrigações municipais dirigidas para

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

o “cimento” ou o “alcatrão”. Seremos levados a pensar que se falharem os fundos


para financiar as obrigações correntes municipais, a crise endémica destes explodirá.
Se não falharem, faltarão os recursos para o investimento Realmente Estratégico.
De um modo geral, os Municípios só se preocupam com uma actividade económica – o
imobiliário – de onde retiram, pelas mais variadas vias, os seus proveitos próprios. Os
“Gabinetes de Apoio ao Empresário” e outras iniciativas viradas para a promoção
económica são, regra geral, inconsequentes ou simbólicas, tanto por falta de quadros
e de recursos, constituindo, muitas vezes, o equivalente a “Postos de Informação
Turística” ou, noutros casos, como certos “sites” de Internet, uma mera e inútil
declaração de “modernidade”.
O Estado Central não é, porém, isento de responsabilidades na pressão negocista
de alguns Municípios no domínio do Imobiliário: a “insustentável pressão” que exerce
sobre os Municípios para a cedência gratuita (! ?) de terrenos (que a maior parte das
vezes estes não possuem) para a implantação de equipamentos sociais da
responsabilidade central (escolas, centros de saúde, hospitais, tribunais, etc.) ou para
programas centrais de “Realojamento”, arrasta, “justificadamente”, os Municípios para
negócios imobiliários muitas vezes contestados.
Os PDM, que deveriam constituir verdadeiros Planos de Desenvolvimento
Económico e Social dos quais, uma das peças, seria o plano de afectação do recurso
“Território” às actividades humanas, não passam, no fundamental e de facto,
globalmente, de instrumentos de transformação de mais terrenos “rústicos” em
“urbanos”, na expectativa do desenvolvimento do imobiliário. Daí que hoje se diga
que os fogos previstos nos PDM’s dêem para o dobro do população portuguesa. A
irracionalidade que daí resulta quanto ao ordenamento do território e aos custos de
infraestruturação (e sua manutenção futura) por fogo/habitante, constitui, à escala do
País, um factor de retardo e falta de competitividade relativamente a outros países
mais desenvolvidos, bastando ir a Espanha e ver na televisão a “Volta à França” para
o comprovar. A dispersão territorial tem igualmente fortes impactos ao nível da
socialização da população, não tendo a maior parte dos núcleos urbanos a “massa
crítica” para o surgimento de actividades económicas e sociais autónomas e
dinâmicas, com um mercado minimamente suficiente.
Tal como se verifica ao nível central, também ao nível local/municipal subsistem as
estruturas e actividades de “projecto e investimento” (Obras, Urbanismo e Projectos
específicos) e as actividades “vegetativas”. Predominam, globalmente, as concepções
da política “espectáculo” e, crescentemente, o caciquismo. Com a crise financeira e a
falta de dinheiro para “fazer coisas” mantém-se contudo algum interesse pela função
autárquica devido à sua competência para os “licenciamentos”.
Uma característica histórica do poder local foi, desde o longínquo passado, a forte
participação comunitária, “popular”. Depois das experiências “basistas” do 25 de Abril,
os municípios, mesmo de “esquerda”, foram-se transformando gradualmente em
estruturas de mera participação cívica quadrienal, em períodos de campanha eleitoral,
não motivando a estruturação e participação comunitária. Reproduzem, à sua
dimensão e nível, o modelo global do Estado Central.
No entanto, continuam hoje a existir tanto a necessidade como as condições para
uma intensa e eficiente participação social na resolução dos assuntos comunitários,
não só aproveitando e estimulando de modo adequado os mecanismos “tradicionais”
de voluntariado como potenciando as virtualidades das organizações de condomínios
(agora, também, em processo de “privatização!) ou desenvolvendo formas novas,
mais “capitalistas”, de participação directa, como, por exemplo, através de
“sociedades de desenvolvimento local” com amplos domínios de intervenção tanto na
promoção económica local como da gestão (empresarial) de alguns serviços à
comunidade. Imaginemos, para facilidade de compreensão, um paralelismo entre o
binómio Clube-SAD e o Município-S.D. Local.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

O monopólio, pelos partidos, da representação política, o peso dos “aparelhos”


respectivos e o estado de inanição da participação social na vida comunitária tornaram
difícil o surgimento de factores de desestabilização da “ordem estabelecida” (listas de
cidadãos) mesmo quando a lei já o permite.
A tendência é de criação de alianças pessoais, de círculos fechados para a
reprodução do poder, independentemente das cores partidárias. Daí a crescente
estabilidade das equipas governativas e das práticas prosseguidas e, também, a
dificuldade em fazer introduzir “sangue novo” na vida autárquica.
Dados a forma de eleição e os poderes formais dos diversos órgãos autárquicos,
alguns eleitos tendem a tornar-se “autónomos” dos Partidos e a estabelecer as
alianças pessoais que entendam para a conservação futura do poder. Se souberem
fazer as “alianças convenientes”, dentro e fora do seu partido, para assegurar uma
“partilha equilibrada” dos poderes e dos recursos, poderão “declarar a independência”
e a inamovibilidade. Os “problemas” de gestão política actualmente verificados nos
Municípios resultam, essencialmente de dois factores:
- da inabilidade de alguns eleitos para fazerem as “alianças convenientes”, dentro e
fora do seu partido;
- da existência, apesar de tudo, de alguns mecanismos públicos e sociais de
“controlo” que, por vezes se tornam “incontroláveis” e trazem para a praça pública
perversões intransponíveis.
Desde que estejam asseguradas as “alianças convenientes” e controlados os
instrumentos de “controlo público e social, não há nenhum Município que não funcione
“na perfeição”.
Ao nível dos Órgãos Municipais, a reforma de defendemos é no sentido do
substancial deslocamento do centro de gravidade da gestão municipal das Câmaras
para as Assembleias Municipais, e não do reforço das maiorias “homogéneas” ao nível
dos executivos. Em nome da “eficiência”, esta tendência poderá levar, nas condições
actuais, à maior opacidade e irracionalidade estratégica da gestão.
As Assembleias Municipais deveriam ser a verdadeira representação política do
Município e, o seu Presidente, a figura representativa central. Os executivos
camarários (Câmaras/Conselhos de Administração) deveriam ser eleitos pelas
Assembleias, dentro e fora dos seus membros, incluindo dos quadros municipais, pelo
prazo máximo de 2 anos, podendo ser destituídos em qualquer altura em caso de
graves perversões da gestão ou, anualmente, pelo evidente não cumprimento dos
objectivos programáticos e de gestão fixados.
Um conjunto muito amplo de actos do executivo careceriam de aprovação pelas
Mesas ou pelos plenários das Assembleias.
As Assembleias deveriam constituir comissões “especializadas” e,
obrigatoriamente, apoiar-se em “Conselhos Municipais” cobrindo os diversos âmbitos
da actividade municipal e integrando representantes das organizações sociais com
objectos afins, cidadãos de mérito específico socialmente reconhecido e,
eventualmente, serem assessorados por especialistas técnicos contratados.
Naturalmente que novas medidas legislativas deveriam ser adoptadas no sentido
de fortalecer a representatividade dos deputados municipais e de freguesia, na maior
parte dos casos, “arregimentados” para a função pelos aparelhos partidários, sem
qualquer ligação efectiva à vida comunitária, quer antes quer depois das eleições. A
maior parte das reuniões desses órgãos reduzem-se a “missas” formais do tipo “isto é
para votar a favor ou contra?” ou para lamentações sem consequências. A função de
deputado municipal ou de freguesia limita-se a ser, para uns um cargo de prestígio e,
para outros, mais motivados, uma decepção. De vez em quando lá se agitam à volta
de uma questão conjuntural, merecendo de imediato cobertura mediática. Se

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

trabalhassem “ a sério” face à envergadura e diversidade dos problemas subsistentes,


não haveria telejornais que chegassem.
O modelo acima sugerido (como outros) poderia resolver mais adequadamente
tanto as actuais insuficiências de capacitação técnico-profissional das direcções
municipais, ao nível dos eleitos dos dirigentes dos serviços como as actuais limitações
de participação democrática das comunidades.
A dependência das boas vontades do Governo e da Administração Central para a
obtenção de alguns recursos ou melhorias nos serviços às populações levam muitos
autarcas a uma atitude de conformismo perante o residual de poder real ainda
existente (alguns cada vez mais magros recursos financeiros, capacidade de
endividamento e licenciamentos municipais), não exercendo quaisquer outras
actividades reformadoras tanto no âmbito da gestão dos serviços como da
participação comunitária, do associativismo intermunicipal ou das relações com as
estruturas centrais do Estado.
O receio de perda de algum grama de poder conduz a uma atitude global de
“tribalismo” autárquico, com reflexos nos baixos índices de cooperação intermunicipal
verificados até hoje. Aliás, em grande número das situações existentes, essa
associação resultou da “imposição” de associação para a gestão conjunta de fundos
comunitários para projectos específicos e não da consciência efectiva das vantagens
da associação para a resolução cooperativa de problemas comuns.
A maior parte dos municípios portugueses não têm “massa crítica” que lhes
permita a resolução autónoma de muitas das suas necessidades, considerando níveis
tecnológicos ou de conhecimento especializados. No entanto, as redes de
comunicações já existentes e as interacções sociais e económicas entre comunidades
de circunscrições próximas já apontariam para a exploração comum das
oportunidades de cooperação em diversos domínios.
A divisão administrativa do País e os critérios de classificação e apetrechamento
institucional dos núcleos urbanos encontram-se fora do tempo e constituem mais uma
peça do desordenamento territorial e institucional existentes.
O actual estado de “tribalização” autárquica e a carência de dimensões mínimas de
muitos Municípios levam a reflectir se o Poder Local, no seu actual formato, ainda
constitui, presentemente, um factor de desenvolvimento do País, ou, pelo contrário,
se transformou num factor de inércia e “bloqueio”, tal como mostram os episódios
relativos ao tratamento de resíduos, de algumas vias de comunicações, de Vouzela,
etc.
A divisão administrativa deveria ter como referência o direito dos cidadãos de
poderem encontrar respostas para os seus problemas e anseios mais imediatos ao
nível dos seus “Governos Locais”, de acordo, aliás com o princípio da subsidiaridade
consignado na Constituição da República. Para que esse direito possa ser respeitado,
os Municípios deverão possuir as massas críticas, sociológica e económica, necessárias
para poderem desempenhar, com o mínimo de capacidade técnica e operativa, um
muito mais vasto conjunto de atribuições e competências do que actualmente lhes
estão cometidas. Intuitivamente, sem suporte científico, poderemos supor que um
efectivo populacional global de 40.000 habitantes com pelo menos 25.000
concentrados em núcleos urbanos seria a condição mínima para a existência de um
Município-Governo Local.
As políticas de atribuição de instalações e subsídios de muitos municípios às mais
diversificadas estruturas locais, desenquadradas de quaisquer preocupações de
eficiência social, não são muito diferentes dos critérios frequentemente seguidos pelas
estruturas centrais do Estado. Muitas vezes visam a simples criação ou fidelização
política de clientelas.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Os modelos de relacionamento entre os poderes Central e Local no âmbito da


gestão “territorial” de certas zonas sensíveis também não é o melhor (demarcação e
gestão da RAN, da REN, gestão de áreas ambientalmente sensíveis ou “especiais” –
parques naturais, orla costeira, zonas ex-portuárias, etc.) daí resultando,
frequentemente, situações em que, parece, estar em disputa não a melhor solução
mas sim quem comanda ou condiciona o “negócio”.
O modelo de gestão necessário para o Poder Local passa pela sua
redemocratização, pelo reforço da sua representatividade comunitária e pela
participação social na gestão das actividades municipais, pelo reforço das suas
receitas próprias que não provenham do imobiliário, por um novo quadro de
competências e responsabilidades, pelo seu interesse efectivo no desenvolvimento das
economias locais e regionais que lhe confiram as características de Governo Local, na
promoção empresarial, pela valorização e rentabilização económica e social dos
activos já existentes, pela associação intermunicipal e a cooperação regional para a
obtenção de “massas críticas” (sociológicas, financeiras, económicas, tecnológicas, de
saber) para a melhoria de serviços e a racionalização de custos.
A degradação, designadamente financeira e institucional e, também, democrática,
do actual Poder Local conduz ao alheamento comunitário e à restrição do campo
qualitativo de recrutamento para a função autárquica, antes vista como um “estágio”
para funções a níveis mais altos do Estado mas hoje, também, considerada uma
“profissão de risco” para aqueles que a encarem como um verdadeiro e qualificado
“serviço público” e não como meio de obtenção rápida de vantagens pessoais.
O modelo de gestão necessário passa ainda pela criação de um novo espaço
público de poder, o “Poder Social Comunitário”, expressão mais directa e fundamental
da Sociedade Civil, não integrado na administração do Estado, para onde transitariam
atribuições e recursos hoje integrados nas estruturas político-administrativas do
actual Poder Local.
Manter a “ordem estabelecida” ao nível local é o mais fácil e apetecível sob o ponto
de vista político imediato. Tentar mudá-la pode ser um “sarilho”. Porém, não vemos
como não “atacar” essa frente num quadro de autêntica Reforma do Estado.
3.2.7 – Por uma nova gestão da “área social”
As chamadas áreas sociais de intervenção e responsabilidade pública poderão ser
encaradas de várias perspectivas diferentes, nem sempre “convergentes”, mas todos
elas centrados no Homem. Referem-se, a título exemplificativo, apenas quatro,
reflectindo intencionalmente conteúdos ideológicos diversos, não abordando muitas
outras possíveis:
1º - O Homem é o centro, a razão de ser de tudo o mais, devendo todos os diversos
domínios de actividade, pública, social e privada (o Estado, a economia, a
administração dos bens, a cultura, etc.) subordinar-se às suas necessidades
concretas, de ordem material ou espiritual: a perspectiva política humanista;
2º - A sociedade actual responde satisfatoriamente às necessidades fundamentais do
Homem. “Só” faltará criar os instrumentos que evitem a “exclusão e a pobreza”; a
perspectiva ético-moral (para alguns, poucos, meramente “estética” – não gostam
de ver pobres ou deficientes …);
3º - A competitividade económica exige uma força de trabalho (homens/proletários)
cada vez mais qualificada e estável (física e psicologicamente), com capacidade de
consumo suficiente para manter o dinamismo do mercado: a perspectiva
económica capitalista.
4º - O bom funcionamento da sociedade resulta, fundamentalmente, do conjunto de
Valores e Normas que, em cada fase do desenvolvimento histórico da sociedade
humana, “ordenam” as relações humanas por forma a assegurar viabilidade,

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

reprodutibilidade e condições de progresso a todo o corpo da sociedade. Essas


referências, formalizadas e transpostas para os diversos domínios da actividade
dos homens, dão origem ao ordenamento jurídico que serve de base ao exercício
da Justiça. É a perspectiva jurídica.
Qualquer uma delas, por si só, não corresponde à visão necessária no tempo
presente.
A primeira, servindo embora de “farol” na construção do nosso futuro colectivo,
poderá entrar em conflito com as possibilidades actuais de desenvolvimento do
sistema económico e das “forças produtivas”;
A segunda, tende a reduzir o sentido da Felicidade Humana à satisfação das
necessidades mais elementares do tipo da velha cantiga “Casa Portuguesa”; serve de
palco para a realização da virtude religiosa da Caridade ou, ainda, para contraposição
a algumas tendências do actual sistema sócio-económico para a “eliminação dos
supérfluos”;
A terceira só considera os “modelos simplificados” do Homem correspondentes ao
homem-proletário e homem-consumidor, a “variáveis matemáticas” dos modelos
macro e micro-económicos.
A quarta é aquela que pode conduzir àquelas situações reducionistas, conhecidas
dos filmes americanos, que levaram a que o “Al Capone” fosse preso não pelo que era
mas por uma falha formal nas suas declarações de impostos; que levou o Presidente
Kennedy a afirmar que “somos governados não por pessoas mas por Leis”; no
extremo, é uma concepção que pode levar alguns a pensar que “se pode cometer todo
o tipo de crimes e tropelias desde que não se seja apanhado”, do mesmo modo, como
em Portugal, quando não se cumpre a Constituição...
A primeira, manifesta-se hoje, fundamentalmente, na luta contra o desemprego,
na promoção do emprego, na promoção da participação e intervenção política,
económica e social dos cidadãos, na luta contra o parasitismo social e na rejeição
política de soluções “bárbaras” ou “tecnocráticas” para os problemas que não
considerem as respectivas dimensões e impactos humanos;
A segunda, manifesta-se nos diversos programas de combate à exclusão e à
pobreza, nas “pensões mínimas” e nos programas de reintegração social;
A terceira, manifesta-se hoje tanto nas tentativas “primárias” de “aumento da
produtividade” à custa das condições de vida e de trabalho dos trabalhadores (da
sobre-exploração), como na moderna concepção de valorização do “Capital Humano”,
tendente a considerar a participação dos trabalhadores na gestão da produção como
um factor de reforço da competitividade.
A quarta manifesta-se hoje, em Portugal, tanto pela “tendência” para a Justiça
“também defender os pobres” ou, na sua versão mitigada, “também perseguir os
ricos”, como pela reafirmação de uma suposta independência e superioridade social e
intocabilidade dos juizes. Não sabemos bem se vamos para o modelo americano
(“império” da Lei temperado por uma grande participação social através dos júris) ou
se permanecemos numa Justiça opaca e burocrática, gerida por “especialistas” de
todo o tipo e administrada por juizes “modernos”, no estilo, na idade e, por vezes, na
maturidade. A Justiça é, hoje, em Portugal, um palco de intensa “luta de classes”,
havendo duas hipóteses mais plausíveis:
- ou ganha a “dinâmica empresarial privada” e vamos ter de pagar a tempo e horas
todas as contas em atraso (senão pode-se ficar sem frigorífico, carro ou casa),
acabam os “tribunais de trabalho” e diminuem os instrumentos de responsabilização
social das empresas e empresários;
- ou ganha a sociedade no seu conjunto, através de uma efectiva democratização e
agilização da Justiça, onde o Povo tenha participação activa, os “pobres” tenham
possibilidades de ganhar uma causa e as empresa possam ver eliminados

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

injustificados entraves legais ou regulamentares à sua actividade socialmente


responsável.
O Estado português dispõe, hoje, de numerosos e dispersos instrumentos de
“gestão social” funcionando, cada um deles, com uma dinâmica própria, em quase
completa descoordenação lógica e, amiúde, com inflexões bruscas de orientação.
Sabe-se que as ciências sociais (já existem imensos “ramos” que, por vezes,
disputam entre si os “espaços”) são uma área muito recente das ciências. Ainda hoje
não se sabe muito bem como funcionam estas coisa da “Sociedade” e do “Homem-
ser, biológico e social” ! Ainda há espaço para as “bruxas”.
Sabe-se, porém, o suficiente, para reformar, tanto o sistema conceptual caótico
que nos tem dirigido, como o conjunto das instituições já existentes actuando na
“área social”, conferindo objectivos claros, coerência e complementaridade aos
diversos programas e acções e eficiência económico-social a todo o Sistema de Gestão
Social.
É hoje consensual que a “gestão social” carece de uma abordagem e uma prática
“integrada”. Há anos que se fala que tudo começa no jardim-escola passando pela
estabilidade familiar, pelo combate aos “negócios desviacionistas” dos jovens, pela
qualidade das escolas e professores/educadores, pela integração profissional, pelo
apoio psicológico e social, etc. Tentativas e “experiências piloto” há quanto baste para
se poder tirar e aplicar algumas conclusões.
Não se irá aqui enunciar o oceano de incongruências que se verificam na direcção
e no funcionamento actual dos sistemas de educação, de saúde, de promoção juvenil,
de “acção” social, de gestão do sistema de regimes de segurança social, das políticas
de habitação, de emprego e formação profissional, de gestão de diferendos laborais e
da Justiça, à luz da necessidade de “integração” (e segregação) de políticas, à luz da
eficiência económica e social dos sistemas, à luz dos Valores geralmente aceites pela
nossa sociedade.
È necessário e urgente, sem qualquer dúvida, um conceito estratégico e uma
direcção estratégica no domínio do Desenvolvimento Social.
A Constituição da República é muito rica em referências e determinações
estratégicas. Porém, o centro de toda a gestão social continua, hoje, a dever
polarizar-se no exercício da Liberdade, no contínuo alargamento dos seus espaços
(sociais, económicos, culturais e políticos) de realização, na contínua luta contra as
suas limitações, tanto as impostas como as resultantes de auto-inibição. É no pleno
exercício da Liberdade que deveremos criar um verdadeiro “espaço público de debate
e de participação”, e procurar as energias criadoras, as principais “mais valias”
capitalizáveis para o esforço de superação da actual crise no domínio do
desenvolvimento Social.
3.2.8 – Modelo “Redistributivo” ou Modelo “Empresarial”
O modelo “redistributivo” do Estado, se fosse considerado na tradicional concepção
social-democrata europeia, de retirar, por via dos impostos, uma fatia de rendimentos
aos “ricos” para a redistribuir pelos “pobres”, atenuando a tendência para a
diferenciação social, eliminando as situações de extrema carência e exclusão e
gerando oportunidades para os membros das classes inferiores, não seria, em si,
negativo. Seria, pelo contrário, muito positivo.
Porém, o actual modelo “redistributivo” de gestão do Estado, central e local, é,
apesar de algumas tentativas correctivas do PS enquanto Governo, globalmente
favorável aos “ricos”. Quer pela política e pela prática tributárias (que, entre outras
distorções, não vai atrás da fuga ao fisco pela inclusão de despesas pessoais nos
custos empresariais e, muito menos, para as off-shore) quer pela sistemática
transferência, em escala significativa, de activos públicos (fundos de investimento,

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

patrimónios e direitos) para as empresas privadas e de riscos e custos privados para o


sector público.
Tal modelo não faz qualquer sentido: não é justo, não cria equidade e não
promove o desenvolvimento. Antes cria “clientelas” e reproduz, globalmente, uma
gestão do tipo feudal/paternalista nada adequada às necessidades do presente e do
futuro de Portugal.
A gestão do Estado no seu conjunto não poderá estar divorciada de uma
perspectiva empresarial. A “única” diferença da chamada gestão empresarial é que,
no caso do Estado, muitos dos serviços não são “vendáveis no mercado”, antes serão
avaliados pelo nível da sua eficiência pública e pelos respectivos custos.
Porém, gestão é gestão, seja “pública”, privada, empresarial, familiar, política,
futebolística ou qualquer outra. Os critérios, métodos e técnicas da gestão,
considerada como uma actividade racional com vista à melhor obtenção dos
objectivos com o mínimo dispêndio de recursos, são absolutamente universais,
devendo ser utilizados em todos os domínios da actividade humana. A escolha desses
critérios, métodos e técnicas é que deverá ser condicionada pelas circunstâncias
específicas da sua aplicação e, fundamentalmente, pelos objectivos fixados.
Os objectivos da tradicional gestão empresarial consistem na remuneração dos
capitais, na conquista de mercados, etc.
Os objectivos da gestão pública consistem, na prestação do máximo e melhores
serviços à comunidade pelos mais baixos custos dentro de critérios que correspondem
aos Valores da Sociedade, a equidade, a liberdade, a participação democrática, a paz,
a igualdade de oportunidades, a justiça e solidariedade, a segurança, o
desenvolvimento social, etc.
Esta perspectiva não é contraditória com uma visão não tecnocrática, virada para
os cidadãos e ao seu serviço, antes lhe poderá conferir eficiência. A melhor decisão
pública poderá ser, em muitos casos, a mais cara mas melhor para os cidadãos. A
melhor decisão pública “não olha a custos” quando estão em causa valores
fundamentais da sociedade.
Assim, de um modo simplificado, poderemos conceber o Estado como uma Grande
Empresa cujos accionistas são os Cidadãos, a Assembleia da Republica constitui a
Assembleia Geral, o Governo como o Conselho de Administração e o Primeiro-Ministro
o seu Presidente.
No nosso actual ordenamento constitucional, o Primeiro-Ministro, nomeado pelo
Presidente da Republica, detém todos os poderes do Governo, funcionado os Ministros
(os restantes membros do C.A.) através de competências delegadas do Primeiro
Ministro.
A partir dos Objectivos estratégicos enunciados em 1.2 (ou outros que se
considerem mais adequados correspondendo ao “o Quê”, haverá que construir,
ponderadas as opções estratégicas (relativas aos “Como”, “Quando” e “com Quem”)
uma autêntica “árvore de objectivos”, sectoriais, territoriais/comunitários e os
correspondentes programas, projectos, actividades e acções (O Programa do
Governo), adequadamente faseados no tempo e articulados entre si.
Para além do “Plano Quadrienal de Actividades”, que, como referido, deverá ser
“desdobrado” até que cada unidade orgânica da Administração Central possua o seu
próprio Plano, Quadrienal e Anual,
Esses Planos de Actividades deverão colocar toda a máquina do Estado sob tensão
operacional (“uma tropa ociosa não dá tiros”), devendo constituir o seu cumprimento
o único critério de avaliação dos serviços e dos quadros.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

O Estado deverá ser “comandado” pelos Objectivos fixados e as respectivas


Actividades e não pelo “Orçamento”. Igualmente, as soluções organizacionais deverão
corresponder aos Objectivos e Actividades a prosseguir e não à “tradição”.
Todos os recursos, financeiros, técnicos, humanos, logísticos e organizacionais
deverão ser afectos às Actividades (ao Plano) e não às “estruturas”. Nesta
perspectiva, o Orçamento deverá perder o seu “lugar central” no processo de gestão
do Estado passando a constituir um mero sub-produto do processo de planeamento,
correspondendo à afectação do recurso “dinheiro” às diversas actividades a
desenvolver.
Não haverá gestão (como processo racional) do Estado sem a edificação de uma
forte capacidade de planeamento e programação sob a direcção e o controlo do
Primeiro-Ministro. A disciplina orçamental (monetária), associada à disciplina
operacional, é uma condição essencial. Por isso, na conjuntura actual, advogamos
uma forte recentralização dos processos de planeamento de actividades e orçamental
por forma a que as estruturas descentralizadas de planeamento e controlo orçamental
passem a depender hierarquicamente da estrutura central e, funcionalmente, dos
correspondentes departamentos. Poderá dizer-se que é um regresso às soluções
“salazarentas”: julgamos, porém, que são “uma solução de gestão”, necessária na
actual conjuntura.
Ainda neste âmbito, deverá perspectivar-se a alteração do formato das contas
públicas da mera contabilidade orçamental para uma contabilidade empresarial,
entrando em linha de conta com os activos e passivos, amortizações, consolidação de
contas, etc.
Do mesmo modo que o planeamento das actividades e a gestão orçamental
deverão ser “recentralizadas”, assim as funções de reorganização e modernização dos
serviços deverão ser enquadradas por uma estrutura central qualificada, bem
articulada com o planeamento e gestão orçamental. Os processos são inseparáveis.
3.2.9 – Modelo Totalitário-Administrativista ou Democrático-
Económico/ /Empreendedor
Um dos aspectos essenciais da Reforma do Estado a empreender terá de ser a da
transformação da cultura totalitária e “administrativista” do Estado para uma cultura
Democrática e Económica/Empreendedora.
Um Estado Democrático é aquele que, na sua actividade, nas suas tomadas de
decisão e actividade, “se funde” com a sociedade, a impulsiona e orienta através do
exemplo moral, da racionalidade e fundamentação científica, da pedagogia política e,
se necessário, pela coerção fundada na legitimidade do Interesse Geral e das opções
estratégicas das grandes maiorias.
Um Estado Económico/Empreendedor é aquele que, em vez das imposições
administrativas e do controlo “policiesco/fiscalizador”, adopta, fundamentalmente, os
mecanismos do estímulo económico/fiscal, positivo ou negativo, para orientar a
actividade da comunidade nas direcções adequadas ao desenvolvimento.
Dada a situação actual, tanto do sistema político como da sociedade, desarmar de
imediato o Estado de todos os instrumentos administrativos e fiscalizadores poderia
corresponder à sua imediata e maior fragilização. Por isso, defendemos um processo
de “desarmamento” gradual, unilateral e sistemático do Estado, estimulando e
acompanhando o “desarmamento” da sociedade civil relativamente à sua actual
tendência para os “esquemas”, “golpes” e “espertezas” de toda a espécie.
O Estado é ainda entendido, pelos poderosos tradicionais, como uma arena de
manipulação e de camuflada/discreta obtenção de benefícios: deverão, pelo claro
repúdio dessas manipulações, começar a entender e a respeitar o Estado como o
Estado de toda a Nação.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Por outro lado, grandes estratos da população ainda entendem o Estado (não sem
alguma razão) como algo exterior, contra eles, que lhes foi imposto, de que se
desconfia à partida e de onde, quando possível, se vai sacar alguma coisita: deverão
ser ganhos, através da informação transparente e da participação, para uma atitude
de confiança e de cooperação, de assunção da sua condição de “co-proprietários”
responsáveis desse Estado, ao mesmo tempo que se fecham as portas aos
comportamentos oportunistas.
Tanto uns como outros não irão mudar de atitude através de piedosos cursos de
“Cidadania” (o que não invalida o mérito destes junto da juventude).
Um Estado Democrático é um Estado que acolhe e suscita a permanente
participação organizada da população na gestão dos seus negócios; é,
tendencialmente, utopicamente, um Estado que se funde e se extingue na auto-
organização social.
O caminho para a sua construção não passa pelo “basismo fala-barato”, quase
sempre ignorante e muitas vezes oportunista, nem, tão-pouco, pela “política-
espectáculo”, quase sempre obscurantista e manipuladora, das campanhas eleitorais
quadrienais.
Essa participação democrática, permanente, racional e responsável, é a grande
Escola de Cidadania, a principal “fábrica” de Capital Humano para o Desenvolvimento.
Decorre do acima exposto, a necessidade de um complexo projecto de
reengenharia social (organizacional, psicológica…) cuja concretização poderá começar
já hoje mas que poderá levar décadas para se notarem diferenças qualitativas no
estado do “objecto”.
A construção do Estado Económico/Empreendedor exigirá, em primeiro lugar, a
própria Reforma interna do Estado para o Modelo Empresarial acima referido. Essa
será a “grande escola” que irá permitir aos dirigentes do Estado e aos seus agentes a
compreensão do funcionamento económico da sociedade e a percepção dos
instrumentos de estímulo económico (inc. fiscal) mais adequados à
“orientação/regulação” da actividade da sociedade para os objectivos estratégicos.
Um Estado Burocrático-Administrativo-Policiesco só pode imaginar/inventar
instrumentos à sua imagem e semelhança; o Estado Burocrático é uma reminescência
do Estado do “Antigo Regime”, aristocrático-feudal. Só um Estado Democrático-
Económico-Empreendedor poderá satisfazer as necessidades da Economia Moderna e
“reinventar” instrumentos democráticos e económicos de regulação da sociedade.
3.2.10 – Novos critérios de gestão e de investimento
Uma gestão pública focada nos Objectivos, nos Cidadãos e nos Resultados,
estrutura-se através de Programas, Projectos e Acções. A cada um desses níveis
operacionais deverá corresponder uma estrutura organizacional a quem competirá a
respectiva Gestão. Esta Gestão compreende o Planeamento e Programação (incluindo
o financeiro-orçamental e do recurso Tempo), a Organização e Coordenação dos
meios de execução, o Controlo e o “Reporting” (“Relatório e Contas”).
Uma “Agência” de Gestão, no caso português tipicamente uma Direcção-Geral, um
Instituto ou uma Empresa Pública, poderá manter a responsabilidade por um ou mais
Programas. No entanto, cada Programa/Projecto deverá ser gerido por uma Unidade
de Gestão própria, um “Conselho de Administração” responsável pela obtenção dos
objectivos específicos de cada Programa/Projecto. Cada Programa ou Projecto, para
além da respectiva Unidade de Gestão deverá ser acompanhado por um órgão
consultivo (Assembleia Geral Consultiva) e por um Gestor de Qualidade/Auditor
Interno, como se de uma “empresa autónoma” se tratasse.
O Relatório “Reinventar a Administração Pública” sobre o estado da Administração
Pública americana e as opções fundamentais para a sua reforma, elaborado sob a

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

direcção do Vice-Presidente dos EUA, Al Gore, contém elementos suficientes


inspiradores da metodologia e do sentido do processo de Reforma a empreender na
Administração Pública portuguesa. Note-se, no entanto, que antes da reforma
actualmente em curso, já a administração americana havia passado por processos de
reforma que não nos tocaram minimamente: Descentralização Democrática (logo com
a Revolução e a Independência), Perspectiva Empresarial, Sistema de Planeamento,
Programação e Orçamentação (SPPO), “Orçamentos de Base Zero” (OBZ), etc. Agora,
em Portugal, deveremos realizar, de uma só vez, todo o processo de reforma do
Estado para, com quase quinze anos de atraso, atingirmos a meta definida por Bill
Clinton em Março de 1993:
“ A nossa meta é tornar a administração pública menos dispendiosa e mais
eficiente, e alterar a cultura da burocracia do nosso país, libertando-a da apatia e
da redução da tradicional fonte de subsídios, rumo à iniciativa e à devolução do
poder.”
Registam-se algumas das opções tomadas no quadro desse processo:
a) o recurso aos funcionários da Administração Pública, em vez do recurso a
consultores externos;
b) a criação de equipas de “reinvenção” em todos os departamentos governamentais;
c) a valorização do papel dos gestores e dos funcionários dos serviços de primeira
linha e a forte redução de pessoal das asfixiantes estruturas de controlo central
(supervisores, especialistas, analistas, contabilistas e auditores);
d) a descentralização do poder de decisão para os gestores e funcionários e a
responsabilização pelos resultados;
e) o enfoque nos resultados (nas “operações” para atingir os objectivos) e não no
controlo dos procedimentos administrativos;
f) a concertação entre trabalhadores e gestores:
“Só podemos transformar a Administração pública se alterarmos o relacionamento
conflitual que domina o relacionamento entre sindicatos e gestores, fazendo-o
evoluir para uma associação empenhada na reinvenção e na mudança.
(Relatório “Reinventar a Administração Pública”, pág. 210)
“Queremos ser parceiros a tempo inteiro. Queremos trabalhar. Queremos que a
Administração pública funcione melhor.
Queremos estar lá num pacto de colaboração para ajudar a identificar os
problemas... para esboçar as soluções... para ajudar na aplicação conjunta da
solução de que a Administração necessita. E estamos preparados para trabalhar
em colaboração para dar alguns saltos corajosos que transformem a Administração
e a ponham a funcionar da forma como deve funcionar” (Jonh Sturdivant,
Presidente da Federação Americana dos Funcionários da Administração Pública)
Ora aqui está um bom exemplo daquilo que, simultaneamente com a defesa dos
seus direitos legítimos, os trabalhadores e os sindicatos portugueses da
administração pública deveriam defender e exigir: a Participação. E se esta não lhes
fosse reconhecida, impô-la através de um processo autónomo, revolucionário, de
organizarem, em um ou dois anos, um “Congresso para a Reforma Progressista da
Administração e a Defesa dos Legítimos Direitos dos Trabalhadores”, pondo a nu
todas as distorções éticas e funcionais da Administração, apresentando alternativas
e suscitando o apoio generalizado da população.
3.2.10.1 – Gestão Democrática e Participação Social
Um dos aspectos fulcrais da Reforma necessária consiste em proporcionar as
melhores condições para a “fusão” do Estado com a Sociedade, valorizando as

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

políticas, as decisões e a execução das acções do Estado e, reciprocamente,


promovendo a Cidadania Permanente e a mobilização da Sociedade para a ocupação
de novos e crescentes espaços de intervenção hoje preenchidos pelo Estado.
A Constituição da República é farta de disposições determinando o carácter
democrático e participativo da gestão pública portuguesa. Não vamos aqui reproduzi-
las para não ficarmos “chocados” com o grau de afastamento entre a realidade actual
e o exigido pela Constituição. E não se pense que é a Constituição que está “errada” !
Em todos os níveis da administração e do sector empresarial públicos deverão ser
instituídas as convenientes estruturas de participação democrática, tanto dos
trabalhadores como dos utentes e das comunidades (Comissões, Conselhos,
Sociedades de Desenvolvimento, mecanismos de parceria, etc.). É quase inesgotável
o campo e os domínios em que estruturas participativas e de parceria deverão ser
constituídas e fomentadas.
Essas estruturas participativas e de parceria deverão ser instituídas, em primeiro
lugar, no sentido de eliminar a actual dicotomia entre os próprios organismos do
Estado (Central, “Regional” e Local), estabelecendo e desenvolvendo relações
institucionalizadas de cooperação estreita e permanente, no respeito pelas respectivas
autonomias políticas e administrativas.
Em segundo lugar e paralelamente, dever-se-ia procurar trazer, organizadamente,
de forma estruturada e sistemática, à participação e parceria todas as organizações
da sociedade, económico-empresariais, associações para fins específicos e de
voluntariado, organizações profissionais, etc. O actual “Conselho de Concertação
Social” não esgota as formas de participação necessárias, antes poderá tender a
justificar a sua restrição.
Porém, tal processo exigirá uma alteração profunda da maneira de fazer política a
que estamos, hoje, habituados: os políticos fechados em gabinetes e afundados em
processos administrativos, criando ou defendendo-se de toda a gama de “esquemas”
ou em debate político “em circuito fechado”. Ao contrário, a nova política deverá
valorizar especialmente a função pedagógica que só o contacto directo e o debate
aberto com a sociedade podem realizar.
Também irá exigir uma profunda alteração no espírito de “quinta” subsistente em
muitos organismos, impedindo a comunicação, a concertação e a complementaridade,
mesmo quando actuam nos mesmos domínios mas em níveis da administração ou em
departamentos diferenciados. A tendência para a integração vertical dos vários
departamentos operando num determinado domínio não poderá ser dificultada por
uma mentalidade “feudal” de gestão pública. A participação e a cooperação deverão
substituir o isolacionismo e a “competição” irracional.
Por outro lado, se as estruturas participativas dos trabalhadores e da sociedade se
revelarem inúteis no sentimento dos seus elementos integrantes, tanto porque não
disponham de instrumentos para concretizar decisões/orientações seja porque, na
prática, as suas opiniões, sugestões ou propostas não são minimamente acolhidas,
terão tendência para a desmobilização ou para se transformarem em “pólos de
contestação”. Seria uma das formas de as “matar”, como, aliás, já aconteceu em
situações anteriores.
O desenvolvimento do País exige a mobilização de recursos, de conhecimentos e
de motivações que só um processo amplamente participativo poderá libertar.
3.2.10.2 – “Modernização” Tecnológica: O perigo do “carro à frente
dos bois”.
O processo de Reforma do Estado deverá se acompanhado por um processo de
Modernização Tecnológica, designadamente no âmbito dos Sistemas de Informação.
Porém, as duas categorias não se equivalem:

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A Reforma do Estado tem a ver, essencialmente, com o asseguramento do seu


carácter democrático e económico-empreendedor, com a
representatividade/legitimidade dos seus órgãos, com o reassumir das suas funções e
responsabilidades constitucionais, com a participação social, com a macro-estrutura
dos seus serviços e actividades dentro do princípio da subsidiaridade, com a
integração/coerência horizontal e vertical das políticas e sistemas operativos, como
sentido de racionalidade económica e social, etc.
A “Modernização”, se bem que possa desenrolar-se paralelamente em alguns
domínios relativamente estabilizados, tendo em vista a obtenção de eficiências
imediatas, deverá subordinar-se às opções estratégicas, estruturais e funcionais.
Sob o ponto de vista meramente técnico, deveremos chamar a atenção para não
andarmos a informatizar a “asneira”, os velhos métodos de trabalho, os circuitos de
processos, os procedimentos que, à nova luz estratégica, se tornarão obsoletos. A
informática é muito boa quando realmente se sabe o que se quer. Investir em novas
tecnologias sem as referências estratégicas relativamente consolidadas pode ser uma
“festa” para as empresas consultoras e de programação e um desastre para a
administração. Pode, até, ser um bom pretexto para, posteriormente, se reagir às
mudanças.
Sob o ponto de vista político, pomos as maiores reservas à “desmaterialização” das
relações pessoais e institucionais dentro do sistema político e entre este e a
sociedade. As relações e a participação “em rede” pressupõem, para além do
“simples” problema da aquisição e instalação de “hardware” (rede de
telecomunicações, computadores, etc.) e do respectivo conhecimento de operação,
uma Cultura política e níveis de Informação muito além da actual literacia política
portuguesa. Essa tendência, defendida por uma minoria tecnocrática, será,
certamente, bem aceite por aqueles que beneficiam da opacidade do sistema político.
Portugal está longe de se tornar um “robot”.
Defendemos, isso sim, como ferramentas de produtividade, após as necessárias
definições estratégicas, a mais ampla utilização das tecnologias de informação para
“desmaterializar” tudo o que seja susceptível de “algoritmizar” com estabilidade e sem
perda dos contributos qualitativos que uma intervenção humana avisada poderá
acrescentar.
Não resistimos a dar um bom exemplo de má modernização:
O “Projecto” consiste na criação de uma “Região Digital” abrangendo 5 Municípios
com 100.000 habitantes dos quais 23% são analfabetos, 35% têm a 4ª classe, 11% o
1ºCiclo do EB e 11% o 2º Ciclo; dos restantes, 14% têm o Secundário e 6% formação
superior.
Tecnicamente, o Projecto consiste, no essencial, em criar uma “rede informática”
ligando os cinco municípios, e criar umas quantas ligações públicas à Internet para
aceder a um conjunto muito variado de informações (do tipo supermercado, muitas já
existentes em “sites” específicos) e alguns serviços básicos, na perspectiva da
interacção virtual entre as populações e os Municípios.
Segundo a memória descritiva do projecto, não estão incluídos os serviços de
carregamento de dados e a respectiva manutenção. Também não se incluem os
serviços de “modernização administrativa” relativos aos “procedimentos”, à
organização interna dos Municípios envolvidos, que bem precisados estarão.
O orçamento previsto é de 10 milhões de euros, 2 milhões de contos, supondo-se
que tudo o que fica de fora para a sua operacionalização útil envolverá financiamentos
complementares.
O mais curioso é a forma como o projecto aparece: uma entidade consultora “sem
fins lucrativos” apresenta a ideia, faz a memória descritiva e elabora a candidatura a

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

financiamento obtendo para o efeito a concordância (possivelmente entusiástica) dos


Municípios abrangidos.
Esse projecto fez-nos lembrar o que se passa em África com alguma “industria da
cooperação/apoio ao desenvolvimento”: Num PALOP, há uns anos, de um projecto de
alguns milhões de dólares, ficou, no final do projecto, um galo de raça ! Em outros
casos, quando os cooperantes dos “diagnósticos” aparecem a “vender” ideias “da
NASA”, os “beneficiários” locais até acham muito bem pois, sabendo à partida que “o
produto” não vai servir para nada, enquanto durar o projecto vai haver alguns
empregos, algum dinheiro a girar que, por pouco que seja, irá “dinamizar” algumas
pessoas. Assim, os financiamentos “circulam” por África e regressam de volta, quase
inteiros, aos países de origem por via das empresas ou instituições de consultoria e
assistência técnica.
No caso em apreciação, as entidades consultoras irão, certamente, esforçar-se, na
dimensão dos chorudos proveitos que irão obter. Não se criando uma capacidade
residente e competente de gestão e manutenção do “sistema”, resultará do projecto
um “casamento para a vida”... até haver fundos para pagar...
Gastar 2 milhões de contos num projecto com a configuração e nas condições
sociais e organizacionais acima referidos, mais do que um típico projecto “africano” é
um “Luxo Asiático”, sendo desadequado, injustificado, desproporcionado (e a
educação?...) e, no que respeita às relações democráticas, pernicioso. Pretender criar
uma relação virtual entre eleitos/serviços e uma população de “vizinhos”, quando até
seria desejável que, pelo menos, uma simples relação directa e participativa existisse,
não é, francamente, razoável.
Estes projectos, assim concebidos, serão óptimos para grandes cidades, onde a
desconjugação de horários entre serviços e utentes, a cultura informática e académica
da população, a dinâmica quantitativa das interacções administrativas e dos contactos
institucionais são de outra dimensão; onde nem um estádio de futebol seria suficiente
em espaço para realizar discussões públicas com interesse participativo.
Poderemos estar, pois, perante mais um exemplo do “industrialismo” da
assistência técnica e da cooperação “tipo África” que em nada irá dar sustentabilidade
ao desenvolvimento da “Região” em causa. Mais um exemplo do modelo
“redistributivo” do Estado, mesmo quando os verdadeiros beneficiados se vestem com
o estatuto enganador de entidade (universitária) “sem fins lucrativos”. Por vezes, este
estatuto facilita a formalização de “parcerias” que permitem o acesso aos “fundos”, os
quais poderão, depois, ser canalizados, por sub-contratação, para entidades privadas
com fins lucrativos. Poderemos estar perante o conhecido mecanismo do “pipeline”
entre o cesto dos ovos (os Fundos) e o prato do almoço. Lições:
1º - Um projecto desta natureza e envergadura nunca deveria ser aprovado com a
simples aquiescência dos Municípios (que nem sentem a necessidade de organizar
os próprios serviços e a quem nada custa dar o seu acordo) mas sim depois de
avaliados por uma entidade efectiva e estrategicamente competente;
2º - Do projecto deveria resultar uma capacidade regional de gestão, exploração e
manutenção do “sistema” a implantar;
3º - A execução do projecto deveria ser antecedida de adequado um concurso público
aberto ao mercado.
Finalmente, neste particular, importa salientar a necessidade do estabelecimento
de uma metodologia adequada e de critérios de referência para a selecção dos
projectos a financiar pelos fundos estruturais, criando uma “nova ordem” que nos
encaminhe efectivamente para a via do Desenvolvimento.
3.2.10.3 – Formas de Gestão das actividades do Estado, Interesse
Público, Interesse Geral e Mercado

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Um outro assunto que, muitas vezes, é apresentado no âmbito das medidas de


“modernização” é o que respeita às formas de gestão dos serviços públicos, as quais
são e podem ser as mais variadas.
Ora este assunto nada tem a ver com “modernização”.
Ele respeita unicamente ao âmbito da eficácia e da eficiência no quadro da melhor
prossecução do Interesse Público.
As formas de gestão dos assuntos públicos podem ser muito variadas, desde a
administração directa, “serviços com autonomia administrativa e financeira”,
Institutos Públicos, Empresas públicas, de capitais públicos, de capital
maioritariamente público, concessão a entidades do mais variado tipo (desde
empresas privadas a organizações comunitárias) ou, ainda, através de empresas
privadas.
Porém, o carácter da actividade é, sempre, público, correspondente a uma
atribuição do Estado ou que o Estado entende, por sua iniciativa, prosseguir com vista
ao cumprimento dos seus deveres constitucionais.
Considerar “modernidade” o Estado desobrigar-se de responsabilidades
constitucionais e deixar essas funções ao sabor da livre iniciativa privada pondo, com
isso, em causa o objectivo constitucional, corresponde a “outra coisa” que não
“modernização do Estado”.
No entanto, o Interesse Público poderá ser mais bem defendido se o Estado se
“desobrigar” da execução de algumas actividades porque as iniciativas sociais/
/comunitárias ou privadas são capazes de, por si próprias, assegurarem o objectivo
constitucional com vantagens económicas e de qualidade para os cidadãos. Neste
caso, a “desobrigação” não existe. O que existe é uma alternativa melhor para a
prossecução daquele Interesse Público específico.
Portanto, a “retirada” do Estado de uma dada actividade inserida no âmbito das
suas obrigações constitucionais só será admissível se a alternativa social/comunitária
ou privada for vantajosa para os Cidadãos.
O Estado, por outro lado, poderá e deverá intervir nas actividades normalmente
prosseguidas pelos sectores social/comunitário ou privado quando, manifestamente,
estes não são capazes ou simplesmente não querem prosseguir o Interesse Geral (da
Sociedade no seu conjunto). Isto é, se as iniciativas sociais/comunitárias e privadas
não satisfizerem as necessidades correntes e de desenvolvimento da Sociedade, o
Estado deverá intervir e assegurar as condições para essa satisfação.
A regra deve ser esta: Em nome do Interesse Geral, o Estado deverá intervir; em
nome do Interesse Público, os outros podem intervir.
O Mercado constitui um importantíssimo instrumento de validação das soluções de
gestão. Só que, contrariamente ao que muitos pensam, o Mercado não pertence à
economia privada. Pertence a todos, é lá que todos, Estado, Organizações Sociais e
Privados se devem encontram a validar as suas respectivas soluções para a melhor
defesa e prossecução dos Interesses Público e Geral.
Quando alguns falam em “economia de mercado”, pretendem fazer crer que isso
corresponde a “economia privada”. Este é o sofisma dos que (por dentro ou por fora)
querem desmantelar o Estado. Não é, porém, verdade, na “economia de mercado”
competem as actividades privadas, as sociais/comunitárias e o Estado Empreendedor.
Num dos limites, a iniciativa privada poderia “ganhar tudo”; no outro extremo,
poderia ser o Estado Empreendedor, em nome dos Interesses Público e Geral, a
“ganhar tudo”.
Não deverá haver qualquer tipo de monopólio, nem do Estado, nem Social nem
Privado, salvo em questões de soberania, segurança e representação, reservadas ao

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Estado. Mas o Interesse Público e o Interesse Geral, delimitados pelas disposições


constitucionais, têm de encontrar a melhor prossecução.
Mas também poderá haver Parcerias entre o Estado, o Social/Comunitário e o
Privado. Parcerias sérias, repartindo correctamente os riscos e os benefícios entre as
partes, e não colocando os riscos/prejuízos do lado do Estado e os benefícios do lado
Privado, como é muito frequente entre nós.
O Estado poderá entender acelerar a concretização de certos objectivos
constitucionais e solicitar para o efeito a colaboração dos sectores sociais e privado. A
“Empresa Pública das Descobertas”, glória de Portugal dos Séc.s XV e XVI, contou
com essas parcerias, retribuindo o esforço privado (financeiro, de conhecimento,
logístico, de defesa, etc.) através de concessões de exploração de determinados
negócios. A História de civilizações de há 3 ou 4 mil anos mostra que esses
mecanismos já existiam. Não são propriamente “modernos”!
Do mesmo modo, uma iniciativa privada com demonstrável Interesse Geral e
envolvendo determinado nível de riscos (designadamente técnicos, comerciais) poderá
e deverá contar com o suporte e apoio do Estado.
O que está em causa não são as formas mais variadas pelas quais se prosseguem
os Interesses Público e Geral. O que está em causa com a “conversa” da
“modernização” das formas de gestão pública é o abandono das obrigações
constitucionais do Estado, por um lado, e, por outro, o saque dos recursos e direitos
públicos por privados e a concessão a estes de actividades públicas, com
desvantagens económicas e de qualidade para os Cidadãos, contra os Interesses
Público e Geral.
O recente caso da venda de medicamentos em outros estabelecimentos que não as
Farmácias mostra que o Estado deveria abrir e gerir directamente um vasta rede de
Farmácias Públicas em concorrência, no Mercado, com as privadas. Possivelmente o
mesmo com os Laboratórios de Análises Clínicas, os serviços clínicos do SNS em
concorrência com as clínicas e consultórios privados, etc., recolocando o verdadeiro
Mercado a trabalhar. Talvez assim baixassem significativamente as despesas com o
Sistema Nacional de Saúde.
Portugal e o Estado português carecem de uma reflexão aprofundada sobre estes
temas à luz da Constituição da República.
Nas condições actuais de fragilidade e pauperização financeira do Estado, pode
parecer mais fácil “privatizar”. Ora o Estado só deverá privatizar depois de confirmado
que estas soluções prosseguem melhor o Interesse Público e depois de esgotados os
seus recursos para maximizar a eficiência das suas actividades. Só assim saberemos o
que o Mercado tem para oferecer de melhor.
Se abordarmos a questão do Sistema de Regimes da Segurança Social, a “Grande
Companhia de Seguros dos Portugueses”, funcionando de maneira tão pouco
profissional, tão “administrativo-burocrática” e sujeita a uma ampla gama de
“esquemas”, e procedermos à sua comparação com os sistemas privados de seguros
de “saúde e reforma” (hoje em promoção/competição com vista à “privatização”
daquela), poderíamos concluir que, com uma gestão efectivamente moderna e
transparente, “empreendedora”, não só se revelaria melhor para os Interesses Geral e
Público como, ainda, poderia ganhar, no Mercado, ao sector privado dos seguros. Só
com ambição e não com “rendição” poderemos aferir a melhor solução.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados sobre “soluções de privatização” que,
na prática, só servem para a drenagem, injustificada, dos recursos públicos e das
populações para o sector privado.
3.2.10.4 – Sugestões para o Reequilibro Geral das Contas do Estado

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A) Obtenção da EU de um período adicional de 4 a 6 anos para o reequilibro das


Contas do Estado.
B) Aumento das Receitas
a) Introdução de medidas drásticas de controlo e tributação de todas as
actividades imobiliárias;
b) Obtenção de lucros e bons níveis de rentabilidade na economia pública,
proporcionando a adequada remuneração dos capitais investidos e o pagamento
de IRC. Reponderação global dos critérios sociais de fixação dos preços.
Exigências acrescidas na avaliação dos investimentos e do recurso ao crédito;
c) Controlo e integração no sistema fiscal da economia informal;
d) Controlo das off-shore, regulamentação das suas actividades comerciais e de
investimento no país e adequada tributação (início do processo de integração
desta “anomalia” na economia legal e ética).
e) Clara demarcação entre os proveitos resultantes da remuneração dos capitais e
do trabalho dos titulares nas empresas e a economia da empresa (separação do
que é pessoal e da empresa).
f) Fixação de IRC em função do volume de negócios e não dos “resultados”.
g) Interdependência entre as receitas geradas pelos departamentos públicos e os
correspondentes orçamentos de “despesa”.
h) Valorização e rentabilização de activos públicos (antes de qualquer alienação de
“emergência”
i) Combate tenaz e consequente à fuga e fraude fiscais.
j) Actualização de taxas e tarifas e introdução de novas em serviços não
abrangidos, em função das implicações sociais e económicas;
k) Responsabilização dos dirigentes públicos pelas receitas cobradas em função
dos serviços prestados.
C) Redução dos Custos/Despesas
a) Drástica diminuição da gestão por subsídios (incluindo as transferências para as
Autarquias e as Regiões Autónomas) e reforço da gestão por projectos;
b) Realização de investimentos públicos após garantia da sua sustentabilidade
técnica, económica e de gestão a longo prazo e, sempre que possível,
reprodutivos;
c) Obtenção de sinergias internas quanto ao melhor aproveitamento dos recursos
em função das actividades a desenvolver (integração de unidades orgânicas,
gestão de instalações e equipamentos, serviços comuns, etc.);
d) Criação de empresas públicas de prestação de “serviços partilhados” ao Estado
e outras entidades e, ainda, de empresas auto-sustentáveis de serviços à
comunidade a partir de funcionários “alugados” pelo Estado (os custos das
respectivas remunerações seriam compensados pela receita do “aluguer”).
e) Reponderação geral das prestações de serviços de entidades privadas ao
Estado, avenças, consultorias, etc.)
f) Diminuição das despesas com a Defesa
g) Interdependência entre os orçamentos de despesas de cada estrutura e a
obtenção dos respectivos objectivos quanto à receita;
h) Flexibilização e qualificação do exercício de cargos dirigentes mediante
contratos de gestão em função dos objectivos e recursos. Extinção das
“comissões de serviço” e adopção do regime de remunerações consoante os
resultados.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

i) Adopção progressiva de formas de remuneração flexíveis, em função da


quantidade e qualidade do trabalho e não pelas tradicionais “subidas de
categoria”.
j) O Estado deixar de se assumir como vazadouro de custos e distribuidor de
benesses/vantagens a sectores privados da economia;
k) Combate tenaz e exemplar à corrupção no sector público
l) Adequado e atempado planeamento de actividades por forma a evitar
“urgências” e a perversão dos melhores procedimentos de contratação de obras
ou serviços;
m) Fixação, pelo Estado, de preços máximos aceitáveis de prestação de serviços
ou realização de obras públicas.
3.2.10.5 - ... o papel dos Ministérios “económicos” na luta contra o
déficit
O problema das receitas do Estado não é um problema da responsabilidade
operacional exclusiva do Ministro das Finanças e do seu velho aparelho fiscal.
Todos os departamentos centrais do Estado deverão ficar comprometidos pelos
respectivos objectivos de receita. Um Ministro da Economia, como o da Agricultura e
todos os outros que têm poderes de regulação das mais variadas actividades
económicas não poderão mais sentir o seu ministério como de apoio e cobertura às
actividades económicas e aos negócios, como distribuidores de subsídios, de
“incentivos” e benesses públicas aos respectivos sectores contra os interesses de
equilíbrio financeiro do Estado.
Esses Ministros, de facto, são os que deveriam responder pelos déficits
contributivos dos respectivos sectores de actividade. È a eles que deveria competir
“tapar os buracos” da fuga ao fisco, o enquadramento da economia informal e ilegal, o
controlo e limitação das operações em “off-shore”, a clara demarcação entre custos
“empresariais” e “pessoais”, o efectivo controlo das “despesas confidenciais”, a
tributação de activos não directamente afectos e necessários à actividade económica
desenvolvida, a tributação em função do volume de negócios. Os únicos “estímulos”
que deveriam existir, na fase actual, deveriam ser a “previsibilidade e celeridade” da
Administração Pública, um adequado e competitivo ordenamento do território, a boa
conservação das infra-estruturas económicas gerais da responsabilidade do Estado e,
eventualmente, um verdadeiro estímulo à recuperação para o investimento
económico, em Portugal, das disponibilidades (fortunas) pessoais e certos fundos,
hoje devidamente “resguardadas de riscos” ou aplicadas no estrangeiro (a questão,
cada dia mais actual, da mobilidade internacional dos capitais financeiros).
Os modernos sistemas de informação já permitem, com alguma facilidade,
identificar os contributos fiscais de cada sector económico. A cada Ministério
“económico” deveriam, portanto, ser cometidos objectivos tanto de satisfação social
como de contribuição fiscal, dependendo o respectivo orçamento de despesas e de
investimento dos respectivos resultados. Esta “gestão por objectivos” (do Estado)
deveria ser incrementada em todos os escalões da Administração Pública, incluindo ao
nível das Autarquias Locais, fazendo depender as contribuições Centrais para o Poder
Local também desse desempenho.
Se assim não se fizer, continuaremos a ter o Ministro das Finanças a fazer de “pião
das nicas”, com todos os seus pares, os deputados, os autarcas, os agentes
económicos e a população em geral a dar-lhe “porrada”.
A “máquina” da cobrança deverá permanecer rigorosamente centralizada mas a
responsabilidade de conduzir todo o “rebanho ao sacrifício fiscal”, promovendo as
actividades e a equidade e combatendo o parasitismo económico e social, deverá ser

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

o mais amplamente descentralizado por todos os departamentos da administração


pública, central, regional e local.
Neste particular, haveria que retirar certas competências de decisão e fiscalização
sobre a tributação das empresas às Repartições de Finanças fazendo intervir nesses
processos os poderes locais e regionais.
Aliás, consideramos mesmo urgente uma reforma radical e conjugada no âmbito
das Repartições de Finanças e das Conservatórias dos Registos Prediais fundindo
numa mesma base de dados, de gestão Regional, municipal ou inter-municipal, a
informação relativa, em primeiro lugar, aos imóveis, agilizando todos os processos
administrativos a eles associados e possibilitando aos municípios a aplicação da
“ferramenta fiscal” da “contribuição autárquica” como instrumento “económico” de
ordenamento do território e dos núcleos urbanos.
De igual modo se deveria caminhar para um sistema de gestão e controlo fiscal
das sociedades comerciais com participação (em alguns casos) ou sob a
responsabilidade total (para a pequenas empresas) dos poderes regionais e locais.
3.2.10.6 – “Não há almoços grátis” ou Quem está a pagar para
Quem
Os actuais sistemas de informação permitem ao Estado conhecer com detalhe a
origem sectorial e territorial das receitas públicas assim como os destinos sectoriais e
territoriais das respectivas “despesas”. Assim como será possível avaliar os
destinatários e beneficiários dos investimentos públicos.
Imagine-se cada Concelho (cada território e comunidade sociológica e económica)
como uma empresa de base do grande “grupo empresarial” chamado Estado: pode
saber-se a totalidade da receita pública que gera (central, autárquica, comunitárias e
outras), assim como toda a despesa pública de que beneficiou. Se juntarmos os
“imobilizados” e as dívidas, já daria para ensaiar um “balanço” tipo empresarial
consolidado e começar a perceber melhor Quem está a pagar e a financiar Quem.
Faça-se o mesmo para as “Regiões-Plano”. Algumas “Madeiras” iriam ser reveladas
assim como o contrário. Sem estes desagregados, sem esta visão quantificada
possível de obter, de malha mais estreita, a gestão pública e as políticas
governamentais assenta somente em “sensibilidades”, discricionariedades e
opacidades.
A avaliação política e as responsabilidades (positivas ou negativas) seriam mais
fáceis de imputar aos diversos responsáveis, as populações conheceriam e
entenderiam melhor os factos e as opções e as propostas de acção futura seriam
melhor fundamentadas. Do mesmo modo, seriam conhecidos os deficits, locais e
sectoriais, em que actividades “se ganhava ou perdia dinheiro”, possibilitando
contratualizar objectivos de gestão.
De acordo com os critérios políticos, sociais e económicos considerados mais
adequados, haverá que promover a correcção das distorções que eventualmente se
verifiquem nesse âmbito.
O conhecimento dessa estrutura de “receitas e de despesas” tornará a gestão
pública mais transparente e possibilitará uma maior equidade social e espírito de
solidariedade em toda a população. Além disso, possibilitará uma mais adequada
fixação dos objectivos financeiros, económicos e sociais do Estado aos diversos níveis.
Algumas das questões que careceriam de melhor clarificação seriam, por exemplo,
o do financiamento, directo e indirecto da economia privada pelos recursos públicos, o
financiamento das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, e as
comparticipações particulares e empresariais e dos diversos estratos da população
para o financiamento do Estado.
3.2.10.7 – Investimentos - Hardware versus Software-Brainware
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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Genericamente, gasta-se demasiado em “cimento” em Portugal. Vejam-se os


fogos devolutos e as instalações sociais sub-ocupadas e sub-utilizadas.
À falta de “imaginação” para trabalhar em “brainware”, em informação sobre o
mercado e tecnológica, para montar e explorar negócios viáveis, cooperação,
coordenação, em formação/saber fazer e gestão racional de recursos, todos
imobilizamos as nossas poupanças em “moradias”, em obras de construção de
equipamentos e infraestruturas cujos modelos de gestão, custos de amortização e
manutenção e proveitos sociais ou económicos não pensamos com anterioridade. Isto
acontece ao nível particular e, também, no Estado: a única “obra feita” que se
considera, dentro do nosso provincianismo industrialista, é o grande “palácio”, chame-
se ele auto-estrada ou outra coisa qualquer!
Quando se compara a política de financiamento do PNUD em países africanos,
onde se exige, para o financiamento do equipamento de um sapateiro, um estudo
consistente de mercado e de viabilidade do negócio, com a ligeireza com que muitas
entidades públicas portuguesas decidem investimentos, sentimos imediatamente os
vícios da “fartura de dinheiro”.
É verdade que ainda nos falta muito investimento físico, em vias de
comunicação(ões), em equipamentos sociais, designadamente de saúde, educação e
cultura, na reabilitação urbana, etc., em suma, em cimento e alcatrão. É indiscutível
que o desenvolvimento (económico e social) assim o exige.
A crítica necessária reporta-se à oportunidade e reprodutibilidade de alguns
investimentos, por vezes ligados a “necessidades” conjunturais de prestígio político
associado a eventos dirigidos ao “ego” nacional ou à criação de infraestuturas básicas
expectantes, de efeitos pouco previsíveis ou quantificáveis sobre a economia.
Depois do grande desígnio do ex-Gabinete da Área de Sines (afinal ainda hoje dos
poucos “produtos” vendáveis no processo de “globalização” mas, de facto, entregue a
poderes de conjuntura), lembramo-nos, para além dos investimentos no domínio do
Ambiente (sistemas de abastecimento de água, de saneamento básico e resíduos,
ainda em curso) e das auto-estradas (os caminhos de ferro do séc. XX-XXI
português), do Centro Cultural de Belém, da Expo-98, do Alqueva, e dos Estádios de
Futebol.
Reanimada conjunturalmente a economia do sector da construção e apagadas as
“luzes da festa” ficámos, estruturalmente, mais competitivos? A economia portuguesa
sairá da crise pela exportação de bons jogadores de futebol? O empreendimento do
Alqueva quando é que começa a ter efeitos (quantificáveis) na economia do País de
modo a poder estimar o seu prazo de “retorno”?; ou vai ficar para “quando”, “para” e
“se” os proprietários dos terrenos beneficiados entenderem ?
Ao mesmo tempo, o Alentejo “morre de sede”, muitos cidadãos e zonas de
interesse económico do interior andam “pelos caminhos das mulas”, regiões do país
desertificam-se de pessoas, há escolas onde se tirita de frio, o sistema de saúde
sobrevive com “misericórdias”, a agricultura e a pesca definham-se, os complexos
ciência-produção de que se fala há muitos anos não dão acordo de si...
É tudo uma questão de prioridades e coerência racional a pedir um plano, um
programa faseado, um equilíbrio, um projecto nacional, uma antevisão do que
queremos ser daqui a 20 anos e do que nos faz falta para o conseguirmos, uma
estratégia nacional, que se mantenha, que sobreviva a conjunturas políticas. Não
temos margem para decisões baseadas na “sensibilidade”, em argumentos de que “de
qualquer modo seria preciso”. A intuição constitui um poderoso factor de tomada de
decisões porque, por vezes, faz confluir num mesmo instante integrador, as
conclusões dos estudos científicos (que não captam toda a realidade dinâmica) e os
factores de decisão que só uma sólida Cultura liberta. Porém, quando a margem é

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

estreita, talvez convenha reduzir os riscos e ser um pouco mais conservador,


científico, programado, mais “engenheiro”, menos “arquitecto”.
Espargiram-se, nos últimos 20 anos, enormes recursos financeiros sobre o País.
Resultou daí uma nova economia, uma nova atitude empresarial, algum efeito de
longo prazo sobre a nossa competitividade? É visível que não. Foi dinheiro
desperdiçado, perdido? Talvez que, a prazo, venhamos a beneficiar com os efeitos do
método “aspersivo”. Hoje, todavia, precisamos de acções específicas, dirigidas a alvos
estrategicamente seleccionados com efeitos reprodutivos “quantificáveis” em cada um
dos tempos.
A realização de maior impacto positivo foi, sem dúvida, a Ford-Volkswagem em
Palmela, de investimento externo directo. Infelizmente, só surge um de vez em
quando. Não depende, essencialmente, de nós próprios.
Os bons investimentos não terão de ser, necessariamente, “grandes”. Se tivermos
muitos, “pequenos” e bons, baseados em “brainware” de qualidade, competitivos
internacionalmente, modernos e com capacidade de adaptação às conjunturas
mundiais, será óptimo.
Quando nos perguntamos que papel poderemos desempenhar no sistema de
divisão internacional do trabalho (conceito velho e desactualizado no âmbito da
produção industrial) as respostas são difíceis de encontrar. Imediatamente, talvez
aquilo que não se possa fazer na China ou na Coreia, o nosso sol, o nosso mar, a
nossa paisagem. Porém, sendo muito mais bem dotados em “hardware natural” que a
Costa do Sol espanhola, não conseguimos ter “brainware” para criar, como os
vizinhos, um produto turístico internacionalmente competitivo. A “Costa do Estoril” e
“Sintra” continuam de costas voltadas; “Lisboa” é sua concorrente; a “Costa Azul”
existe? Cada Região de Turismo (e são muitas) cria a sua própria “marca”.
Manifestamente, temos de ter uma estratégia nacional de “marketing”.
O Plano Tecnológico recentemente proposto pelo PS é uma direcção que deveria
suscitar, à partida, o melhor empenhamento de todos os portugueses. É uma direcção
correcta carecendo de uma melhor discriminação e detalhe e, eventualmente, algum
debate alargado, quanto aos objectivos específicos, à programação e à infra-estrutura
organizacional de apoio/execução. A Inovação é, por natureza, essencialmente,
“Mudança baseada em Criatividade”, um processo “de massas”, que envolve a
participação organizada, democrática e sistemática dos colectivos de trabalhadores,
dos quadros técnicos e de especialistas na identificação das oportunidades de
mercado, na gestão da produção e nas técnicas do comercialização. Se os
empresários e gestores tiverem medo dessa participação democrática, a “inovação”
poderá vir a reduzir-se à criação de novos mecanismos para aceder a fundos de
financiamento baratos ou gratuitos.
Para além de poder englobar um conjunto de programas virados para a libertação
imediata de reservas de competitividade contidas nos activos físicos e humanos
actualmente existentes, não poderá esquecer o lançamento de programas virados
para as tecnologias da economia do futuro: a cibernética, o aero-espacial, as novas
energias, os sistemas de informação e comunicação, as ciências do ambiente e da
Terra, a biologia, etc. Se não investirmos e não cooperarmos nessas áreas,
poderemos não ter lugar na “arca de Noé” do desenvolvimento moderno.
Não é, pois, essencialmente, um problema de hardware. O que nos tem faltado é o
brainware de saber juntar as vontades, os conhecimentos e alguns recursos para
conceber e promover bons e sustentáveis projectos de investimento.
Cavaco Silva montou, nos primeiros anos dos “Fundos Comunitários” a máquina
para os ir buscar. Desistiu, a nosso ver, quando essa “máquina” já não lhe permitiu
direccioná-los para bons e sustentáveis projectos.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Os apoios e incentivos ao sector privado da economia são poderão mais ser criados
e aplicados de modo indiscriminado ou a favor de lobbies mais activos. Esse processo,
que o Estado deverá manter como linha estratégica com vista à competitividade do
país, tem de ser altamente selectivo, nos agentes e nos projectos.
Os anos que se vão seguir serão cruciais para a definição do papel que Portugal
poderá desempenhar na Europa e na Península Ibérica. A reforma do “Sistema
Nacional de Eleição e Gestão dos Projectos de Investimento” será fundamental para
esse efeito.
Dada a actual fraca capacidade de investimento público e debilidade do sector
privado nacional, o próximo Governo não poderá deixar de atribuir a maior
importância à captação do investimento estrangeiro estruturante. Isto implica uma
profunda reforma orgânica e cultural em todo o nosso sistema de relações exteriores,
direccionando-o e tornado-o apto para a identificação, selecção e captação dos
recursos externos necessários atrair para o desenvolvimento da nossa economia e
para a colocação dos produtos nacionais nos mercados externos. A maior parte das
tradicionais embaixadas, especialmente na Europa e em muitos outros países,
deveriam ser transformadas em verdadeiras agências comerciais e económicas e em
“consulados” activos de apoio aos portugueses no estrangeiro, concentrando a
actividade diplomática “política” só nos locais essenciais. Longe está o tempo das
embaixadas de representação/prestígio; hoje, cada “serviço” tem de justificar a sua
existência por aquilo que produz de útil.
3.2.10.8 – Planeamento Público
O planeamento consiste numa das funções essenciais a qualquer processo racional
de gestão. Sem planeamento os objectivos e os recursos dispersam-se, perdem-se,
no seio de inúmeras circunstâncias conjunturais. Um Estado sem planeamento limita-
se a ser um conglomerado de factos em direcção a coisa nenhuma.
A ausência de processo de planeamento conduz, inexoravelmente, à fragilidade
financeira e institucional do Estado e à desorientação dos seus sistemas operativos e
funcionários. Instala-se o estado de espírito do “... estamos p’ráqui ...”
A Constituição da República exige que o Estado tenha um sistema de planeamento
(Art.º 80º); mais, que esse planeamento seja democrático, que inclua a participação
das organizações representativas dos trabalhadores e das organizações
representativas das actividades económicas.
Define, no seu Art.º 90º, os objectivos dos planos de desenvolvimento económico
e social (promover o crescimento económico, o desenvolvimento harmonioso e
integrado de sectores e regiões, a justa repartição individual e regional do produto
nacional, a coordenação da política económica com as políticas social, educativa e
cultural, a defesa do mundo rural, a preservação do equilíbrio ecológico, a defesa do
ambiente e a qualidade de vida do povo português.)
Determina, no seu Art.º 91º, que sejam fundamentados e executados de forma
descentralizada, regional e sectorialmente.
Considera tão essencial o planeamento que, no Art.º 288º, estabelece “a existência
de planos económicos no âmbito de uma economia mista” como um dos limites
materiais das revisões constitucionais.
A perda gradual de importância institucional e, mesmo, o seu desaparecimento
mostram como a influência ideológica neo-liberal de apossou do Estado português.
Quando se fala em Planeamento logo esse facto suscita uma perplexidade do tipo:
“isso não é um tique bolchevista?”. Em nossa opinião, seria uma boa pergunta a
colocar ao Bill Gates numa das suas próximas viagens a Portugal, “se a Microsoft não
leva o Planeamento muito a sério”.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Os instrumentos hoje existentes resumem-se, basicamente, ao PIDDAC e aos


Programas do QCA emoldurados por uma vasta panóplia de estudos e propostas
estratégicas.
Passando “uma vista de olhos” pelos documentos de base justificativos dos
diversos programas, sectoriais e regionais, fica-se com uma ideia tanto do
pensamento oficial sobre os respectivos assuntos e, também, das metodologias de
planeamento utilizadas. Assim, os elementos quantitativos e quantificáveis são
demasiado escassos, abundando as considerações de “sensibilidade” ou puramente
subjectivas. As análises SWOT, muito usadas há mais de trinta anos nos estudos de
estado-maior militares para as análises estratégicas, parecem ser a grande “novidade
tecnológica”, mesmo quando, nos diversos termos da equação, se confundem factos
com desejos.
Em alguns casos, as conclusões mais parecem ser o “resultado cientifico” do que
se gostaria que fosse. Tal como muitos estudos de viabilidade económica e financeira.
Quanto ao processo participativo, haverá que verificar se não se resume,
essencialmente à recolha dos “discos pedidos” e à verificação final se foram ou não
atendidos. Criam-se, depois, uns “sacos azuis” para as contingências, isto é, o que
não se pensou antes, para a gestão das conjunturas.
Aprovados os documentos e os financiamentos, montada a máquina, é a corrida
aos cestos do dinheiro, valendo para isso, fundamentalmente, a “agilidade” de cada
interessado.
Navegamos, assim, “à vista”, como se usa dizer nos meios náuticos, em direcção a
coisa nenhuma.
Passados uns anos, podemos perguntar-nos, como o fez o anterior Presidente da
República: “... afinal para onde é que foram os Fundos ? ...”
Vale a pena “perder tempo” no planeamento. Vale a pena fazer dele um exercício
Democrático para assumir Compromissos e atingir Objectivos.
Vale a pena o esforço de quantificação relativamente às diversas situações e
realidades presentes e de quantificação dos objectivos. Para isto não chegam as
análises SWOT. Os americanos dispõem, desde há muito, de literatura e de técnicas
visando a “optimização das decisões públicas”. Algumas delas são conhecidas e
directamente acessíveis para serem usadas desde já. Outras, devemos estudá-las e
usá-las.
Cada cidadão português (e, certamente, também o autor) é, “por natureza”, um
estratega, no futebol, na política, no mercado, etc. Só não o consegue ser, muitas
vezes, naquilo onde mais deveria.
A actividade de planeamento exige escolhas políticas claras e democraticamente
fortes, mas também exige técnicas e procedimentos adequados.
No planeamento nacional as técnicas e métodos não poderão nunca sobrepor-se às
opções políticas, fazer estas ir a reboque. A direcção é da política.
Por outro lado, a política não deve ignorar os fundamentos técnicos e
metodológicos, as ferramentas que poderão evidenciar as consequências sociais e
económicas de cada opção.
Aos políticos incumbe, essencialmente, a identificação democrática dos problemas,
a definição democrática dos Objectivos e das prioridades e a escolha Responsável dos
caminhos mais adequados para a concretização de cada objectivo.
Aos técnicos incumbe a utilização de toda a panóplia de técnicas e metodologias de
planeamento disponíveis (e adequadas a cada caso, desde as análises SWOT ao
“velho” PERT e à teoria dos jogos) para a optimização das decisões e dos projectos
públicos.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A proximidade do processo de preparação do IV QCA é uma oportunidade para


melhorarmos muito numa matéria (o planeamento público) essencial para a
racionalidade das nossas opções e decisões de futuro.
Como ideia de modelo desejável, sugerimos, para além de uma metodologia
efectivamente democrática e responsável e de critérios quantificados de referência
para a selecção dos projectos a financiar, que os recursos do IV QCA sejam geridos
como “Fundos de Financiamento” de projectos (efectivamente justificados quanto ao
contributo estratégico e sustentabilidade económico-financeira a longo prazo),
reduzindo drasticamente a componente de “Fundo Perdido” em favor de uma forte
componente de empréstimos/garantias/suporte de juros bancários. Deste modo,
assegurar-se-ia melhor a coerência dos projectos com os Objectivos e permitia-se a
reprodução parcial dos recursos financeiros.
3.2.11 – Reforma do Estado: Questão política Essencial
O problema da reforma (democrática e moderna) do Estado é, em primeiro
lugar, uma questão política: ou se quer ou não se quer; ou se considera prioritária
ou não.
Está visto que essa Reforma não poderá ser prosseguida “à espadeirada”. Convém
que seja o máximo possível consensual; mas sem ilusões de que, apesar de não
sendo dirigida contra alguém, não irá contar com a oposição (tecnicamente)
“sensata”, (entorpecedoramente) “dialogante”, (politicamente) “cautelosa” e
(ideologicamente) “moderada” dos que beneficiam da situação actual.
A Reforma do Estado deverá constituir um Projecto Nacional (não só político mas
também Técnico-organizacional) com gestão política e técnica centralizada, da
responsabilidade directa do próprio Primeiro-Ministro. Constituindo embora,
essencialmente, um projecto de “brainware” organizacional, deveria eventualmente
ser apoiado, nas componentes de “hardware” (algumas instalações e, principalmente,
sistemas de informação e telecomunicações) por Fundos Comunitários específicos.
Deveria ser muito mais relevante que a “Expo”, a “Ponte Vasco da Gama” ou o “Euro”
e, principalmente, entroncar-se coerentemente com o da chamada “Sociedade da
Informação”.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

4. Uma nova Economia com um novo Conceito de Empresa


4.1 –A ideia do “Socialismo” não tem futuro ?
O “Capitalismo” é, no essencial, um sistema sócio-económico segundo o qual as
unidades económicas, as Empresas, são exclusivamente tituladas pelos
representantes do Capital. A “força de trabalho”, a “mão de obra”, seja ela pouco ou
muito qualificada, não passa de um “input”, um “consumível”, no processo produtivo.
Não nos interessa aqui dissertar sobre o processo histórico, sobre as diversas fases
ou facetas que o “Capitalismo” nos tem apresentado (desde o “selvagem” ao
“popular”) nem o processo da sua evolução em função das novas forças produtivas
que se vão desenvolvendo e da sua interacção com as forças pró-socialistas,
socializantes ou de “sociedade aberta” do tipo defendido pelo conhecido “financeiro”
George Soros.
Tão pouco será interessante discutir os diversos “modelos” ou conceitos de
socialismo já experimentados.
O Séc. XX já foi chamado como o século dos Povos, tais foram a profundidade e a
extensão das conquistas libertadoras de quase todos os povos do Mundo.
Como resultado dessas conquistas, o actual processo de “globalização” capitalista
mundial apresenta traços e tendências contraditórias.
De um lado, como extremo, a tentativa da actual direcção dos EUA de se tornarem
na potência hegemónica mundial em todo o terceiro milénio, impondo a sua “pax
americana”, imperialista e predadora, à escala de todo o planeta. A possibilidade de a
regulação de interesses divergentes entre os grandes agrupamentos económicos e
comerciais (EUA, UE, Rússia, China, etc.) poder resvalar para conflitos que se
traduzam em limitações ao exercício da Democracia ou em acções bélicas mais ou
menos limitadas, seria uma possibilidade, no quadro desse cenário.
Por outro lado, o peso crescente das opiniões públicas mundiais no sentido da
criação de um novo Sistema Mundial (político, económico, cultural), uma Sociedade
Humana Global, assente na Liberdade, na Solidariedade, na Paz, na Participação
Democrática, no Respeito pelas diferenças histórico-culturais entre as diversas
comunidades humanas, no Equilíbrio Ecológico e Ambiental, numa Nova Economia
Humana, feita pelo Homem e para o Homem, enfim nos valores da “Utopia” (que
inclui a da Revolução Americana).
A par da continuação da luta pela Liberdade, a Democracia e da Paz, a construção
de uma Nova Economia Humana constitui um imperativo para a viabilização deste
último conceito de Globalização.
Essa Nova Economia Humana deverá ser “inventada” tanto sobre as conquistas
universais do Capitalismo, a saber, o Mercado Livre e Competitivo, promotor da
Inovação Permanente, da Qualidade, do Acesso das grandes massas aos melhores
bens e serviços, e da grande Flexibilidade face às sempre novas necessidades das
Comunidades, como sobre os valores fundamentais da ideia Socialista, de
Racionalidade, de Equidade, de Solidariedade e de Realização Pessoal e Humana
através da prática do Trabalho Socialmente Útil.
O Conceito Moderno de Empresa que mais acima referimos, como centro de
cooperação entre os diversos agentes intervenientes e necessários: o Capital, o
Trabalho, o Conhecimento, a Tecnologia e a Ética, inscreve-se não só como uma
necessidade estratégica face à construção da Nova Economia Humana mas,
principalmente, como um instrumento vital para a superação das actuais dificuldades
do País.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

Esperar que o desenvolvimento económico do país poderá ser gerado unicamente


pela dinâmica própria do ainda “rústico” sector privado português, ou dos fluxos e
refluxos do investimento estrangeiro, poderá corresponder a mais uma oportunidade
frustrada e ao agudizar de tensões sociais a curto prazo eventualmente atenuadas à
custa de mais injecções financeiras da UE e da nossa ainda maior perda de capacidade
de negociação.
Uma das questões centrais que importará ainda considerar respeita aos
instrumentos de estimulo positivo a conceder, de modo contratualizado e
responsabilizador, às empresas e aos capitais privados que queiram dar contributos
importantes para o êxito da estratégia nacional de desenvolvimento sustentado, bem
como aos instrumentos de estímulo negativo susceptíveis de accionamento,
designadamente através de agravamentos fiscais ou da venda forçada ou
expropriação em casos de fraude, dolosa negligência ou manifesta incapacidade para
assegurar a rentabilidade mínima dos “imobilizados” empresariais, com reflexos no
domínio da responsabilidade pessoal dos titulares do capital e dos gestores. As
reformas a introduzir nos processos administrativos e judiciais para agilizar a
dinâmica e o funcionamento empresariais deverão ter, como contrapartida, a
introdução legal de mecanismos jurídicos de responsabilização social das empresas e
seus responsáveis.
Repare-se no que a Constituição da República determina no âmbito da Organização
Económica, em perfeita consonância com as necessidades de uma economia
moderna:
- Art.º 80º - (Princípios Fundamentais):
d) Propriedade pública dos recursos naturais e de meios de produção, de acordo
com o interesse colectivo;
- Artigo 81.º (Incumbências prioritárias do Estado):
c) Assegurar a plena utilização das forças produtivas, designadamente zelando
pela eficiência do sector público;
h) Eliminar os latifúndios e reordenar o minifúndio;
- Artigo 83.º - (Requisitos de apropriação pública):
A lei determina os meios e as formas de intervenção e de apropriação pública
dos meios de produção, bem como os critérios de fixação da correspondente
indemnização.
- Artigo 88.º - (Meios de produção em abandono):
1. Os meios de produção em abandono podem ser expropriados em condições a
fixar pela lei, que terá em devida conta a situação específica da propriedade dos
trabalhadores emigrantes.
2. Os meios de produção em abandono injustificado podem ainda ser objecto de
arrendamento ou de concessão de exploração compulsivos, em condições a fixar
por lei.
O processo de mudança para a introdução prática desse Conceito Moderno de
Empresa não terá de ser “revolucionário” e desestabilizador, mas sim Reformista,
utilizando os mecanismos de estímulo positivo ou negativo, já existentes no
“mercado”, fazendo avançar o processo de desenvolvimento económico e não
fazendo-o estagnar ou retroceder. Esta será a grande habilidade do “artista”, só
possível com base numa grande mobilização de vontades políticas e sociais e na
correcta apreciação, a cada momento, da correlação de forças.
Na prática e em termos mais imediatos, haverá que:
Impedir os comportamentos especulativos e os factores de descrença moral e
social dos trabalhadores e da comunidade face às empresas, designadamente:

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

- os eventos terceiro-mundistas de empresários desprovidos de ética como a


descapitalização e o fecho inopinado de empresas sem o adequado cumprimento dos
deveres contratuais para com os respectivos trabalhadores e fornecedores;
- a imputação de “custos pessoais” às empresas por parte de titulares do seu capital e
responsáveis de gestão;
- a má utilização ou desvio de fundos de financiamento;
- as concessões de “estímulos e facilidades” sem que as empresas cumpram as
condições da sua concessão;
- a valorização especulativa de patrimónios imobiliários em resultado de investimentos
públicos de infraestruturação e fomento (designadamente no âmbito de “solos
urbanizáveis”, das obras hidráulicas de fomento agrícola, de vias de comunicação,
etc.)
- os malabarismos contabilísticos para a fuga ao fisco.
Favorecer a estabilidade, flexibilidade estratégica e desenvolvimento das empresas
no mercado mediante:
- o reconhecimento dos colectivos de trabalhadores como “Capital Humano” das
empresas, com representatividade própria;
- a instituição de mecanismos de informação/participação dos colectivos de
trabalhadores em certas decisões empresariais;
- a instituição de Pactos Sociais de Empresa;
- a maior flexibilização dos contratos de trabalho, permitindo uma maior
adaptabilidade das empresas às condições do mercado acompanhada de medidas de
antecipação das eventuais reestruturações, deslocalizações e encerramento de
empresas;
- a reentrada no circuito económico dos recursos pessoais dos titulares do capital;
- o reconhecimento meritório, designadamente no âmbito da política fiscal, dos custos
em Formação e I&D e de processos efectivos de inovação para elevação da
competitividade;
- o reconhecimento dos apoios públicos ao investimento como “activos sociais”.
- a instituição de instrumentos públicos “profissionais” de apoio ao desenvolvimento
empresarial e de controlo dos contratos de financiamento ou de “concessão de
estímulos”.
- a promoção de processos de “emparcelamento” empresarial, com vista à obtenção
de “massas críticas” mínimas à sobrevivência e competitividade;
- o apoio eficiente e selectivo aos processos de internacionalização considerada na
perspectiva da exportação de produções nacionais e do investimento directo
estrangeiro em Portugal (e não do investimento português no estrangeiro);
- a utilização de instrumentos fiscais fortemente penalizadores de comportamentos
especulativos e anti-económicos.
A introdução prática do Conceito Moderno de Empresa deverá ser antecedida de
uma ampla discussão publica e ser iniciada no âmbito da gestão do sector público
empresarial e administrativo, o qual deverá constituir-se como uma “escola de
disciplina, trabalho eficiente e boa gestão” e não como uma “escola de desadaptação
ao mundo do mercado competitivo”.
4.2 – Uma estrutura empresarial de “subsistência”
No plano do desenvolvimento económico, o Estado, principalmente nas suas
componentes locais e “regionais”, deverá promover o “emparcelamento” empresarial
e, ele próprio, lançar iniciativas de interesse económico que obriguem a diversificar e

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

promover qualitativamente a oferta empresarial de serviços às populações e para o


mercado.
A solução futura dos problemas estruturais do país não passa pelo conceito das
micro-empresas ou das empresas individuais/familiares. É bonito nos filmes,
especialmente quando em épocas de reorganização empresarial como a que se viveu
na década de 80 em que era necessário desmontar as “grandes empresas” herdadas
do passado, criar as condições mínimas para os trabalhadores dispensados se
“desenrascarem” autonomamente. O “apoio” local às micro-empresas mesmo que à
custa de activos públicos, poderia, nesse contexto, fazer algum sentido. As
necessidades do futuro passam, pelo contrário, por empresas flexíveis mas com
“massa crítica”, financeira, de cooperação de conhecimentos, com capacidade para
gastar recursos em informação de mercado e estabelecer parcerias de
comercialização, em inovação permanente, em publicidade, etc.
Nada mais errado, na fase actual do desenvolvimento económico de Portugal, do
que imaginar que o idílico modelo de “cada cidadão um empresário” conduzirá a
algum lado. Apesar de a fuga ao fisco por esse tipo de micro-empresas poder ser
inferior à das “grandes”, não deixa de ser significativa constituindo ainda um factor de
identificação ideológica com a direita, com reflexos nos resultados eleitorais. Para
além de ser uma “massa” mobilizável pelos grandes transgressores em momentos de
“aperto fiscal”.
4.3 – Sector Imobiliário – A força gravitacional do “buraco negro”
Basta comparar os preços praticados em Espanha e em Portugal no sector
imobiliário para constatar que algo de muito grave e de consequências negativas
muito profundas, tanto na economia como na vida dos cidadãos, está a acontecer em
Portugal.
Os actuais custos e formas de obtenção de habitação constituem um forte entrave
à flexibilidade laboral, à “mobilidade” territorial da força de trabalho. Muitos
portugueses estão remetidos à condição de “servos”, não “da gleba” mas “das
prestações da casa”. Já fizemos referência ao especial zelo com que o sector
imobiliário é tratado ao nível autárquico e de alguns departamentos centrais e, ainda,
aos custos globais de infra-estruturação do País resultantes de PDM’s e planos de
urbanização elaborados “por medida”.
Não referimos antes nem vamos aprofundar agora o caos do desordenamento
territorial das actividades, os custos globais, económicos, humanos e ambientais, dos
problemas de transportes nas cidades, da falta de espaços verdes, etc. etc. Já, em
diversas ocasiões, sugerimos a realização de uma reunião dos Presidentes das
Câmaras da AML no miradouro do “Cristo Rei” como medida de sensibilização para o
problema de termos uma das melhores paisagens urbanas e naturais do mundo tão
repleta de disfuncionalidades, perversões, “stress” humano e custos económicos.
A organização e funcionamento deste sector em Portugal, para além de constituir
um forte factor de não competitividade, constitui ainda um factor fortemente
constrangedor de uma sã vida democrática.
Desde as políticas de solos, aos instrumentos e práticas de ordenamento e
planeamento urbano, à deficiente qualidade geral dos projectos, às tecnologias
construtivas, à estrutura e dimensionamento das empresas/agentes, à fuga
generalizada e descarada aos impostos, às malas com dinheiro, está quase tudo mal
neste sector. É um grande “esquema” nacional no qual os principais responsáveis não
são os “grandes tubarões” da construção. Estes fazem o que as “regras subsistentes
no mercado” lhes permitem, como diz de si próprio o já citado George Soros,
competindo à política condicionar essas regras.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

A título de exemplo, poderemos referir uma das medidas que poderia ser
implementada: a expropriação sistemática dos terrenos urbanos e a sua gestão futura
por “direito de superfície”. Outra, seria a obrigatoriedade das empresas imobiliárias
procederem à gestão por projectos e a fixação de margens máximas de
comercialização sobre os custos directos para cada projecto, bonificadas em função
dos méritos arquitectónico/paisagísticos, construtivos, energéticos, funcionais e
outros, das construções.
É vital que a política deixe de depender do “imobiliário” para passar a encará-lo
como um sector económico da maior importância para a competitividade económica
do País e a Liberdade dos cidadãos. É necessário que os lucros exorbitantes gerados
pelo sector e arrebanhados por proprietários iniciais de terrenos, construtores e
urbanizadores, bancos, e muitos outros que não o fisco, sejam “devolvidos” aos
compradores/utilizadores finais por forma a poderem ser reinvestidos por estes na
economia ou na valorização do “capital humano” pessoal e familiar.
Para além da “terrível” operação de Reorganizar o Estado será este, talvez, o
maior desafio dos futuros Governos.
4.4 - Reconquistar o mercado nacional
No território de Portugal vivem cerca de 10 milhões de pessoas com as mais
diversas necessidades de bens e serviços.
Não vemos razão por que as empresas portuguesas não aproveitem
adequadamente a “vantagem competitiva” da sua proximidade (geográfica e cultural)
ao mercado nacional para o reconquistar.
Encontrando-se Portugal, e bem, num espaço de economia aberta, todos os
mercados se encontram em disputa. É, porém, confrangedor verificar os portugueses
a comprar laranjas da África do Sul, pêras de França, etc. O mesmo se diria para
alguns produtos do sector industrial... Quanto aos “serviços” que, em geral, não
podem ser realizados “à distância” nem necessitam de grandes investimentos em
capital físico, haverá ainda melhores condições para que as empresas portuguesas
alcançarem sucesso no mercado doméstico.
O actual estado das coisas não derivou do “destino”. Ele decorreu como
consequência das nossas tradicionais incapacidades ao nível do “brainware”, do baixo
nível de formação dos recursos humanos, do deficiente aproveitamento dos Fundos
que nos foram disponibilizados pela UE durante cerca de 20 anos, e das políticas de
favorecimento frequentemente seguidas pelo poder político relativamente a clientelas
(empresas e quadros) incapazes ou parasitárias.
O tecido empresarial português tem a responsabilidade de, em alguns sectores,
produzir e comercializar produções em vantagem competitiva com os produtos
estrangeiros.
Sem dúvida que deveremos estar orientados para a exportação, para a criação de
produtos e “marcas” vendáveis no mercado internacional. Porém, isso só é possível,
de modo significativo, com base em muito conhecimento cientifico e tecnológico, em
grande capacidade de gestão, em firmes e evoluídas práticas de comercialização. Isto
é, com rápido desenvolvimento do nosso sector educativo o qual hoje vive sem
ambição, parecendo que se contenta em manter um nível mínimo de literacia e formar
pessoas para “caixas de supermercado” ou “empregados hoteleiros”. A má qualidade
e degradação do nosso ensino público “de massas” não é compensada pela existência
de algumas escolas e universidades de qualidade (as realmente reconhecidas no
mercado), com acesso restrito aos filhos das novas elites.
O modo de funcionamento do nosso Estado e da nossa Economia, virados em
grande parte para a montagem de “esquemas”, assim como uma falta de cultura
social de algumas elites políticas, conservadoramente fechadas sobre si próprias, leva

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

ao afastamento, para o estrangeiro ou para a “reserva”, de inúmeros quadros


nacionais capazes mas “independentes”.
Ainda haverá tempo e energias para dar algum sentido estrutural à economia
nacional?
4.5 A Gestão do Sistema Investigação-Inovação (SI2)
O Sistema referido em epígrafe poderá também chamar-se Sistema Ciência-
Tecnologia-Produção-Gestão, já que abarca todo o processo desde a Investigação
Científica aos dispositivos tecnológicos (infraestruturas, equipamentos, sistemas), à
reinvenção de produtos e processos produtivos, à montagem de sistemas logísticos de
distribuição e comercialização e à gestão empresarial ou institucional. (Não se sabe se
estas novas designações acrescentarão algo ao que, antes, já se designava por I&D).
Verifica-se actualmente uma grande dispersão de direcções, de objectivos, de
instrumentos e de recursos no domínio da investigação/inovação.
A base institucional do sistema assenta nos Institutos Públicos de Investigação, as
Universidades (públicas e privadas), as empresas de consultoria (de gestão, de
engenharia de sistemas e de processos), os programas e projectos específicos de
cooperação internacional, os gabinetes de estudos e projectos de algumas empresas e
instituições, apoiados em laboratórios, bibliotecas, centros de documentação e “bases
de dados” de todo o tipo.
As orientações e objectivos (de aplicação) do sistema existente são os mais
díspares, não obedecendo a qualquer critério conhecido de prioridades e
necessidades, antes parecendo que, globalmente, incidem sobre os gostos ou
apetências pessoais de quem pode propor ou decidir ou sobre as oportunidades de
acesso a fundos de financiamento.
O impacto daí resultante na economia ou na eficiência das instituições é, por isso,
reduzido ou de efeitos perecíveis.
A primeira e central questão que se deverá colocar hoje é se do investimento e
esforço nacional com vista ao desenvolvimento do SI2 irá resultar um “Sistema
Democrático de Acesso ao Conhecimento e a Soluções Técnicas”, um “Sistema de
Participação para a Inovação Permanente”, ou, pelo contrário, irá resultar a
apropriação privada do Conhecimento e, nessa base, a criação de um novo ramo
económico, uma “Industria Privada de Gestão e Comercialização do Conhecimento”.
A segunda questão é saber se o processo de desenvolvimento do SI2 irá
proporcionar uma maior participação dos trabalhadores e quadros técnicos nos
processos de Inovação empresarial ou, pelo contrário, este irá permanecer um
processo fechado, circunscrito às relações formais empresas- SI2, prescindindo ou
impedindo o contributo dos trabalhadores e quadros para a Inovação.
Nem o Estado nem a economia portuguesa ganharão muito se, no futuro, tiverem
de aceder aos resultados das “investigações e inovações” geradas no SI2 através de
dispendiosos contratos comerciais.
Constituindo o Desenvolvimento Tecnológico e a Inovação prioridades nacionais
consensuais, será necessário reorganizar todo o actual Sistema no sentido de lhe
conferir uma Direcção e uma Gestão eficiente e coerente com as efectivas
necessidades e prioridades do país e da competitividade da economia nacional.
Essa reorganização deverá começar, em primeiro lugar, pelas instituições e
actividades de investigação e desenvolvimento do próprio Estado, hoje dispersas por
uma multidão de serviços centrais dos diversos Ministérios, Institutos autónomos,
Universidades Públicas, etc.
4.6 – Factores Gerais para a Competitividade Nacional
Consideramos os seguintes Factores para a Competitividade Nacional:

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

a) Construção de um Estado Forte, Eficiente, virado para a satisfação social dos


cidadãos e das comunidades e para a promoção do desenvolvimento económico;
b) Ordenamento do Território e Promoção Ambiental, com vista a reduzir os custos
gerais de infra-estruturação do País, a ordenar espacialmente, de modo racional,
as diversas actividades e comunidades humanas, promover o adequado
aproveitamento dos Recursos Naturais, reduzir os custos energéticos do País os
tempos de transporte e de coordenação de acções e assegurar o máximo conforto
e segurança na vida diária dos cidadãos.
c) Educação e Formação Permanentes, com vista a assegurar às novas gerações
condições de competitividade e sucesso num futuro muito concorrencial e à
adaptação das gerações já incorporadas profissionalmente às novas necessidades
do mercado e da vida moderna;
d) Criação de uma rede nacional de comunicação de dados e promoção acelerada dos
processos de informatização, automação e telegestão (acabando, nomeadamente,
com a desordem “tribal” de cada entidade gestora de infra-estruturas querer
montar “a sua rede privada” de comunicações por “fibra óptica”).
e) Criação de uma Rede Nacional de Informação Pública, Empresarial, Cientifica e
Tecnológica, com o mais amplo acesso e, se possível, de utilização gratuita, com
vista à optimização das decisões públicas e empresariais e à divulgação
generalizada de conhecimentos científicos e técnicos;
f) Permitir a flexibilização do mercado de trabalho e a efectiva mobilidade dos
trabalhadores através da transformação da “Habitação” num produto barato de
utilização flexível, com a vantagem adicional de libertar os cidadãos,
designadamente os mais jovens, da “bola de escravos” que têm de arrastar
durante quase toda a vida com a compra de habitações.
g) Promover a reorganização e modernização do tecido empresarial dotando-o de
dimensões e aptidões concorrenciais;
h) Reconhecimento do Trabalho, do Conhecimento e da Ética enquanto factores
económicos fundamentais;
j) Assegurar a coerência global e “integridade” do Sistema Nacional de Investigação-
Inovação;
k) Assegurar a coerência global e “integridade” das políticas de Desenvolvimento
Social;
l) Criação de um ambiente de Mobilização Moral e Cívica dos Cidadãos e das
Instituições para a prossecução dos Objectivos Nacionais, com especial incidência
no combate à corrupção, pela Equidade, a Justiça, o reconhecimento do Mérito, a
Solidariedade social e a Segurança.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

5. Tentativa de Síntese
a) A Constituição da República contém todas as referências necessárias para o
Desenvolvimento Sustentado de Portugal e para a avaliação das políticas. Não é
preciso mudar nada; só cumprir o prescrito;
b) É necessário repor o Regime e o Sistema políticos a funcionar sem perversões;
c) O Estado continua a desempenhar um papel imprescindível para a superação da
crise actual e como “motor” do desenvolvimento futuro;
d) O Estado tem de ser Forte, “Rico” e Empreendedor. A sua reforma nesse sentido é
uma prioridade capital;
e) O Desenvolvimento não provirá, essencialmente, da “economia mundial” mas sim
do reforço da economia nacional num quadro alargado, ibérico e europeu;
f) A modernização e a competitividade da economia portuguesa não podem prescindir
da superação das perversões terceiro-mundistas de uma burguesia ainda “rústica”
nem da participação empenhada dos trabalhadores;
g) O aprofundamento da Democracia Participativa, a Educação e Formação e as
políticas sociais são condições essenciais para o desenvolvimento qualitativo do
Capital Humano nacional e uma modernização tecnológica acelerada.
h) A construção europeia e um ambiente internacional de Paz e Cooperação são
essenciais para o desenvolvimento de Portugal.

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Portugal, Hoje – Na Perspectiva dos Interesses dos Trabalhadores

ÍNDICE

Prefácio
0. INTRODUÇÃO
1. ANTECEDENTES E ESTRATÉGIA
1.1 - Antecedentes e Caracterização
1.2 - Objectivos estratégicos
1.3 - Estado actual dos recursos estratégicos internos:
1.4 Quadro Geral de Referência para o Futuro - Estratégia:
2. AMBIENTE INTERNACIONAL DE PAZ, COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE
3. CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO FORTE
3.1 - Anos de “construção” de um Estado Pobre e Fraco, ou a teoria do “Menos
Estado”
3.2 - Para a construção de um Estado Forte
3.2.1 - Domínios de Intervenção
3.2.2 - Natureza e Estrutura do Estado
3.2.3 - Estado de Direito, Prestígio e Autoridade
3.2.4 - O défice de enquadramento político democrático
3.2.5 - Os Recursos Humanos da Administração Pública
3.2.6 - A Reforma do Poder Local
3.2.7 - Por uma nova gestão da “área social”
3.2.8 - Modelo “Redistributivo” ou Modelo “Empresarial”
3.2.9 - Modelo Totalitário-Administrativista ou Democrático-Económico/Empreen-
dedor
3.2.10 - Novos critérios de gestão e de investimento
3.2.10.1 - Gestão Democrática e Participação Social
3.2.10.2 - “Modernização” Tecnológica: O perigo do “carro à frente dos bois”.
3.2.10.3 - Formas de Gestão das actividades do Estado, Interesse Público,
Interesse Geral e Mercado
3.2.10.4 - Orientações para o Reequilibro Geral das Contas do Estado
3.2.10.5 - ... o papel dos Ministérios “económicos” na luta contra o défice
3.2.10.6 - “Não há almoços grátis” ou Quem está a pagar para Quem
3.2.10.7 - Investimentos - Hardware versus Software-Brainware
3.2.10.8 - Planeamento Público
3.2.11 - Reforma do Estado: Questão política Essencial
4. UMA NOVA ECONOMIA E UM NOVO CONCEITO DE EMPRESA
4.1 - A ideia do “Socialismo” não tem futuro?
4.2 - Uma estrutura empresarial de “subsistência” ...
4.3 - Sector Imobiliário – A força gravitacional do “buraco negro”
4.4 - Reconquistar o mercado nacional
4.5 - A Gestão do Sistema Investigação-Inovação (SI2)
4.6 - Factores Gerais para a Competitividade Nacional
5. TENTATIVA DE SÍNTESE

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