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TSHOKWE

Colóquio em homenagem a
M A R I E - L O U I S E B A S T I N
(Porto, 1999)

@Faculdade do Letras da Universidade do Porto, 2001


AAhTROPOLOGIA DOSTSnOKWE
E POVOS APARENTADOS

Edi*"
Faculdade de Letras da Universidade do Porto

organizagão
Departamento de C~ênciaseTécnicas do Patrimónie
Armando Coelho Ferreira da Silva
C:ento de Estudos Africanos
António Custódio Goncalv~q

Beijamim Enei Pereira


Manuela Palmeirim

Apoio
FundacZo Dr António Cupertino de Mranda

Concepqão Gráfica
SeiSilito- Empresa Gráfica, Lda.1Maia

Tiragem
500 exemplares

O Faculdade de Letras da Unversida.de do Porto, 2003


Nota de Abertura

N o dia 30 de Novembro de 1998, o Departamento de Ciências e Técnicas do Património promoveu uma sessão
comemorativa dos 80 anos da Doutora Marie-Louise Bastin no Círculo Universitário do Porto. Neste encontro, em que
participaram docentes e convidados do departamento e alguns amigos da homenageada, foi inaugurada uma exposição
da bibliografia científica por Marie-Louise com a inestimável colaboração do seu marido Senhor António Enes Ramos. O
Prof Manuel Rodrigues de Areia fez a apresentação desta ilustre investigadora belga que dedicou uma parte da sua vida
ao estudo da arte africana e, particularmente, dos Tshokwe ou Quiocos localizados no nordeste de Angola.
Este foi o primeiro contacto formal estabelecido entre a Faculdade de Letras da Universidade do Porto e a Doutora
Marie-Louise Bastin que, logo percebemos, muito lhe agradou. Mas, em resultado de contactos prévios, já então corria na
Faculdade de Letras a proposta de atribuição do grau de doutora "honoris causa" a Marie-Louise Bastin, subscrita por
diversos professores e datada de 23 de Setembro de 1998, que mereceu aprovação unânime do plenário do Conselho 1

Científico da Faculdade de Letras em 6 de janeiro de 1999 e do Senado da Universidade do Porto em 25 de Fevereiro


de 1999, materializando-se com a realização da cerimónia de imposição das insígnias doutorais, ocorrida em 28 de junho
de 1999 no Salão Nobre da Faculdade de Ciências.
Entendeu a Faculdade de Letras que esta homenagem da Universidade Porto deveria ser enquadrada com outras
actividades que valorizassem o labor científico de Marie-Louise Bastin. Neste sentido, o Departamento de Ciências e
Técnicas do Património e o Centro de Estudos Africanos, então presididos pelos Profs.Armando Coelho Ferreira da Silva
e António Custódio Gonçalves, respectivamente, promoveram a organização da exposição "Escultura Tshokwe",
inaugurada em 8 de Julho de 1999 nas instalações da Fundação Dn António Cupertino de Miranda, que recolheu 54 das
mais significativas peças tshokwe existentes em colecções nacionais. Esta mostra beneficiou da activa e entusiástica
participação de Marie-Louise, também autora do excelente catálogo publicado na ocasião, e do seu dedicado amigo
Benjamim Pereira, cujo saber; competência e eficácia foram imprescindíveis para o êxito desta iniciativa.
U m outro evento de grande importância foi a realização, no dia da cerimónia do doutoramento "honoris causa", do
Colóquio "A Antropologia dosTshokwe e Povos Aparentados" que contou com a presença de Marie-Louise e de outros
especialistas nacionais e estrangeiros. A realização deste encontro não teria sido possível sem a coIaboraç20 da Profa
Manuela Palmeirim, que teve um papel fundamental na sua organização, bem como na preparação das actas que agora se
publicam.
NXo quis o destino que Marie-Louise, falecida em 20 de Março de 2000, pudesse manusear este livro que reúne um
valioso conjunto de textos, sobre temas que lhe eram tão caros, escritos em sua homenagem por alguns dos seus amigos
e admiradores e que resulta de uma iniciativa que muito a comoveu e sensibilizou. Sabemos, contudo, que Marie-Louise,
onde quer que se encontre, ficará mais uma vez feliz por esta publicação que é mais um significativo contributo para o
conhecimento de uma Cultura que ela sabiamente estudou e revelou ao Mundo.

Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 19 de Fevereiro de 2003

O Presidente do Conselho Directivo


Rui Manuel Sobra1 Centeno
Prefácio

O Colóquio "A Antropologia dos Tshokwe e Povos Aparentados", integrado na homenagem prestada à Profa Marie-
Louise Bastin pela Universidade do Porto, reuniu uma equipa de antropólogos e historiadores de excelente qualidade,
com uma importante experiência de trabalho de campo entre osTshokwe.
As comunicações apresentadas e publicadas nestas Actas revelam um exame crítico e minucioso das tradições orais,
dos factores mágico-religiosos, dos complexos rituais simbólicos e ideológicos, dos mitos, histórias ou lendas, que
enformaram as sociedades e culturas dos povos Tshokwe, na encruzilhada de diversos contributos sócio-culturais:
Mbundos, Lundas, Luenas, Luvales e outros que partilhavam laços históricos e sociais e práticas rituais comuns. Estes
trabalhos salientam a importância da contextualização histórica e espacial na análise das observações dos cronistas e
viajantes,transmitidas com distorções etnocêntricas e ideológicas no contexto de uma determinada missão ou expedição,
convocando assim perspectivas de longa duração na interpretação de processos culturais e simbólicos e de estratégias
políticas quanto às formações sociais e à construção de identidades culturais.
Emancipando-se da hegemonia de teorias meramente abstractas e realizando uma síntese eficiente do trabalho
teórico e do trabalho de campo, os autores confirmam a mudança do paradigma do eurocentrismo para paradigmas
dominantes do desenvolvimento cultural endógeno africano, numa ruptura definitiva com a chamada "política do espelho"
associada à imagem de um desenvolvimento cultural de África que contirmasse os pressupostos desenvolvimentistas
europeus.

Em 1885, os Tshokwe conquistaram o "império" Lunda, a nordeste de Angola, florescente do século XV ao século
XIX, constituído por uma rede de sociedades e de organizações políticas culturalmente aparentadas, que se estendiam de
Angola ao Malawi, até aos confins do Zaire e da Zâmbia. Os Tshokwe, povos guerreiros e comerciantes, organizavam-se
segundo um sistema original de tíiulos relativos aos chefes de linhagens, estruturando-se num sistema de parentesco
mítico. As colonizações portuguesa e belga forçaram-nos a emigrar cada vez mais para leste, para a região do Alto Kassai,
fixando alguns grupos em territórios da actual República Democrática do Congo e do Noroeste da Zambia. Outros
grupos expandiram-se, depois, para sul, em Angola, do Cunene ao Cuanhama. Originários de uma civilização de caçadores
das savanas, os Tshokwe impuseram-se na arte da caça e do comércio de mafim. Sendo povos prevalentemente
matrilineares, as representações femininas constituem um facto cultural predominante, sobretudo nas máscaras de
madeira que gozam de uma reputação internacional.
A cultura Tshokwe caracteriza-se por um sistema social relativamente homogéneo, construído através de um
pluralismo diverso e coerente. Foi no âmbito das relações intra-societais Tshokwe e na encruzilhada de relações com
povos aparentados, constituídas através de rivalidades e alianças, de conquistas e submissões, de invenções e apropriações,
formando uma unidade interna e um pluralismo coerente do reino Lunda, que se fundamentou a vitalidade do contexto
artísticoTshokwe. Este foi identificado pelos críticos de arte pelo poder da sua expressividade, elogiado pela subtileza dos
seus arranjos formais, admirado pela sua dignidade austera e pela serenidade das suas figuras escultóricas. Os artistas
Tshokwe foram os mais famosos da região, devido às suas estátuas de chefes e de antepassados deificados, de grande
dimensão, chamadas hamba, que exaltavam a força e a dignidade humana, e pelas estátuas mahamba associadas as
actividades da caça, do amor; da magia e da fertilidade.
A representação mais célebre foi a estatueta de Tshibinda llunga. filho mais novo do grande chefe luba Kalala Ilunga e
herói caçador luba, que teria ensinado aos Lundas a arte da caça e as técnicas de forjar o ferro. Com ele iniciou-se a
dinastia do MwataYamvo, da Lunda.

O Museu do Dundo, em Angola, "um dos grandes museus mundiais de arte e de etnografia africana", como refere
ErnestoVeiga de Oliveira, teve um papel notável na expressão e na divulgação da culturaTshokwe. Não foi uma galeria para
conservar objectos recolhidos, nem tão pouco para arquivar vestigios dissecados, mas um meio para ajudar a compreensão
dos Tshokwe e povos aparentados, pondo em relevo a experiência da diversidade das manifestações culturais. Contribuiu,
assim, para a análise científica da realidade cultural da Museologia, evidenciando, como refere Marcel Mauss. que a cultura
material, como aliás qualquer âmbito da cultura, assume o significado total do grupo social a que pertence.
Em Portugal, realizou-se um trabalho referencial de tratamento e de inventariação das colecções de arte Tshokwe,
nomeadamente no Museu de Etnologia de Lisboa, no Museu de Antropologia de Coimbra e no Instituto de Antropologia
D r Mendes Corrêa no Porto.

Três desafios importantes atravessaram este Colóquio: o primeiro consistiu na defesa intransigente das políticas contra
as pilhagens do património cultural de África; o segundo sublinhou a emergência de novos valores e análises científicas da
etno-museologia, pelo desenvolvimento de uma política cultural e científica de acções de cooperação entre museus e
coleccionadores particulares; o terceiro apelou para a implementação do estudo e da formação em arte africana em
Portugal.

António Custódio Gonçoives


Luc de Heusch

Pour Marie-Louise Bastin

Cexposition que nous inaugurons aujourd'hui n'existerait pas sans le travail irnrnense acornpli par Marie-Louise Bastin
pour faire connaitre I' un des arts les plus irnpressionnants d'Afrique noire. Un travail de très longue haleine qu'elle poursuit
avec acharnernent et que I'Université de Porto vient couronner en I'élevant à Ia dignité de Docteur Honoris Causa.
Cart tshokwe, c'est beaucoup plus qu'un objet de connaissance pour Marie-Louise Bastin: une passion. Une passion qui
double celle de I'art rnoderne. D e I'art que I'on appelait hier encore moderne, avant que d'incertaine productions
n'apparaissent sur le marché et n'envahissent nornbre de rnusées, cornplices de ses errements iinanciers du goüt, qui
inaugurent une très vague ère post-moderniste.
Cette passion s'est d'abord nourrie de I'enseignernent que jeune étudiante, Marie-Louise Bastin suivit a I'lnstitut
Supérieur des Arts Décoratifs, Ia cèléhre Ecole de Ia Carnbre, fondée à Bruxelles par I'architectevandervelde, qui en tit un
foyer de réflexion sur I'avant-garde. Mais c'est Ia rencontre d'un objet qui décida de Ia vocation de Marie-Louise Bastin. Une
rencontre dans laquelle les surréalistes auraient décelé Ia marque du hasard objectif, c'est-à-dire du destin. Poussée par un
rnystérieux dérnon elle dirige un jour ses pas vers une boutique d'art colonial, un véritable capharnaurn, où elle s'éprend
d'un petit masque songye. Elle I'achète et va le rnontrer à Frans Olbrechts, qui prépare à cette époque son petit ouvrage
sur Ia chronologie des arts plastiques africains. Olbrechts trouve Ia pièce plutôt rnédiocre, mais charge Marie-Louise
d'éxecuter pour lui une série de dessins. En les traçant, Marie-Louise ravie découvre sa voie. Devenu directeur du Musée de
Tervuren en 1947, Olbrechts lui confie Ia responsabilité d'une photothèque qui deviendra l'un des prerniers centres
européens importants de docurnentation sur les arts africains, dont, a l'époque, Ia connaissance était encore ernbryonnaire.
C'est Ia prernière plongée de Marie-Louise dans un continent que les historiens d'art sont très peu nornbreux alors à
exploref: C'était, rappelons-le, il y a cinquante ans.
Elle ira ensuite sur le terrain. En Angola, au rnusée de Dundo. Elle découvre avec érnerveilleillernent les rnultiples
aspects de I'art tshokwe, auquel elle consacrera sa vie. Entourée d'excellents inforrnateurs qu'elle écoute avec attention,
elle réussit ce tour de force d'écrire un sornptueux ouvrage sur I'art décoratif tshokwe (publié en français à Lisbonne en
1961) sans jamais avoir entrepris d'études dans le charnp de I'anthropologie. Elle s'initie à cette discipline, que I'on ne

Luc de Heusch. Universidade Livre de Bruxelas


saurait séparer de I'histoire de I'art des peuples sans écriture, en s'inscrivant à I'Université de Bruxelles en 1962. Elle est
alors âgée de quarante quatre ans. Elle pioche avec obstination son latin quelque peu oublié, car il faut passer par
I'Antiquité et le Moyen-Age pour conquérir le diplôrne de licencié en historie de I'art et archéologie. Elle voyage et
étudie les collections tshokwe de tous les grands rnusées ethnographiques d'Europe. Elle conquiert le diplôrne de
dodeur en philosophie et lettres avec une thèse sur Ia grande statuaire tshokwe. Elle s'inscrit résolument dans ce
courant stirnulant de recherches qu'olbrechts avait inauguré et qui consiste à attribuer à un rnaitre particulier ou à son
atelier une série de chefs d'oeuvre. O n se souviendra que Olbrechts fut le prernier à attribuer au maitre de Buli un
ensernble d'oeuvres rnarquantes dont le style expressioniste est si particulier dans le vaste dornaine luba-hernba. Marie-
Louise définit quant à elle avec une sureté de jugernent exceptionnelle le style des grands ateliers tshokwe portant Ia
marque unique du génie créateur Elle n'a pas peur d'écrire que les plus belies productions atteignent "l'un des sornrnets
de I'art". Mais elle est sensible à Ia dirnension historique et constate que, après Ia grande expansion desTshokwe travers
I'ernpire lunda dans Ia seconde rnoitié au XIXe siècle, I'art hauternent évolué des centres culturels anciens "perdra
progressivernent son arnpleur et son rafinernent" (Bastin, 1982, p. 36). Elle distingue ainsi les styles de I'expansion. Par Ia
suite, elle étudiera encore I'influence de Ia culture tshokwe sur les cultures voisines d'Angola et définira les styles Iwena,
songo, ovirnbundu, ngangela. Elle est devenue ainsi le rneilleur spécialiste des arts d'Angola dans leur ensernble. Elle leur
a consacré un récent ouvrage.
Mais revenons en arrière. Elle devient rnon assistante à Ia Faculté de philosophie et lettres de I'Univenité de Bruxelles
en 1972; elle y sera nornrnée chargé de cours six ans plus tard.
Elle se consacre aux tâches universitaires avec beaucoup de dévouernent et avec une irnrnense affedion pour ses
étudiants, dont elle suit attentivernent les travaux. Mais sa carrière universitaire et les aspects financiers de celle-ci ne I'ont
jamais préoccupée vrairnent. II rn'a toujours sernblé que le petit masque songye sorti d'un bric-a-brac surréaliste a plongé
Marie-Louise Bastin dans une irnrnense rêverie. Cet objet véritablernent magique, I'entraina à un voyage sans fin, hors du
ternps, balisé de rnerveilleux objets. Un voyage hors du ternps acadérnique, un voyage où elle s'est cornplèternent identifiée
au masque jeune fille rnpo. Le masque d'Alice de I'autre côté du rniroir
Mais, de I'autre côté du miroir; qu'y a-t-il? Une fantastique créature surgit du pays des rnorts, le corps tout habillé de
fibres, Ia tête couverte d'une sirnple cagoule. II annonce son arrivée en frappant deux bâtons I'un sur I'autre. II est suivi d'un
cortège de masques irnpressionnants au visage modelé en résine dont I'imrnense coiffure faite d'écorce battue aux formes
très diverses est couverte de rnystérieux signes rouges, noirs ou blancs évoquant le soleil, Ia lune, les étoiles. Le patron de
ces créatures rnasquées d'antilop-cheval, évoque Ia sauterelle, insecte réputé pour sa fertilité. II marche lenternent et fait
entendre un long cri ululé qui fait fuir les fernrnes. li va checher au village les enfants terrorisés que I'on va circoncire et les
conduit dans un carnp en brousse, où ils séjourneront un an ou deux afin que se rompe détinitivement le cordon ornbilical
qui les relient encore socialernent à leur rnère.
Voici Kalelwa dont le nom évoque le nuage, lelwa. II est en rapport avec I'eau céleste puisque sa présence est requise
lorsqu'on confedionne le charme magique destiné a lutter contre les pluies torrentielles. II se déplace en courant et pousse
lui aussi des cris pour chasser les femmes. Mais au terme de Ia longue retraite initiatique, il rarnènera auprès de leur mère
les enfants devenus des hommes. Les mères les ont nourris à distance et des masques de moindre d'importance se sont
chargés d'emporter Ia nourriture qu'ils venaient chercher au village et qu'ils apportaient aux enfants exilés au pays des
esprits incarnés par les masques...
Voici Tshitamba qui porte sur Ia tête un plateau circulaire imitant le séchoir à manioc qui lui donne son norn. II est
chargé, en effet. de ravitailler les enfants au village, de même que Tshitelela, dont Ia grande carcasse en vannerie sert de
garde-manger;
Voici Tshitarnba qui porte une coiffe sphérique évoquant le nid des termites à Ia fecondité incornrnensurable. Une
fécondité dont le rituel de circoncision s'efforce précisérnent de doter le pénis circoncis des novices.
Mais Tshikungu, le plus irnportant, le plus grand de tous les masques, ne fait pas partie du cortège des fantômes qui
apparaissent lors de ces cérérnonies. II sort très rarernent: seulernent lorsqu'une calmité publique doit être conjurée par
un sacrifice solennel aux ancêtres. Seul le chef de terre en personne - ou I'un de ses neveux utérins - peut le porter, car il
représent ses ancêtres. II porte un glaive dans chaque rnain et seuls les chefs ou les grands notables peuvent le voir sans
danget..
Cette fois nous sornrnes en pleine rnythologie. L'architecture cornpliquée du masque, en forme d'ailes, représente Ia
petite cigogne noire kumbi. Des triangles en dents de scie le couvre littéralernent. Ce rnotif est rnystérieusernent appelé
yenge lyo kumbi,"la vipère de Ia cigogne".Yenge désigne plus précisérnent Ia vipère du gabon qui présente sur le dos "une
double frise de triangles ou de losangles juxtaposés" (Bastin, Bastin, 196 1 , p. 125). Vipère (Yoomv), te1 est le titre que
portaient les puissants rnonarques de I'ernpire lunda dont dépendaient jadis plus ou rnoins les chefs tshokwe. Le rnythe
tshokwe raconte que Ia reine Lueji, enceinte des oeuvres du prince chasseurTshibinda-llunga aperçut un jour cet animal et
en fut tellernent effrayée qu'elle fit une chute en courant se réfugier dans sa case et accoucha prérnaturérnent C'est en
souvenir de cet évènernent singulier que le nouveau-né, le futur roi, le fondateur de Ia dynastie, reçut le surnorn de vipère,
sans doute pour souligner son caractère redoutable (idem, p. 124).
Mais pourquoi le rnotif yenge lyo kumbi qui envahit Ia coiffure du grand masque des chefs tshokwe, associe-t-il dans
son norn rnêrne Ia petite cigogne noire (kumbi) à Ia vipère royale (yenge)? Pourquoi cet oiseau est-il representé par les
ailes mêmes qui surrnontent le masque tshikungu? II faut interroger ici un autre rnythe, lunda celui-là (Nous ignorons s'il
en existe une version tshokwe). C'est le rnythe fondateur d'une association qui s'occupe du traiternent du cadavre royal
chez les Lunda (Crine-Mavai; 1963, p. 84). Ce rnythe raconte qu'une petite cigogne noire accornpagnée d'un autre oiseau
non identifié, tarirent jadis du batternent de leurs ailes un étang que les fernrnes ne parvenaient pas à assécher pour
récolter du poisson. A I'occasion de Ia rnort du chef de village, les hornmes s'ornèrent des plurnes de ces deux oiseaux
rnerveilleux et se rnirent à danser en les irnitant. Le rnythe se laisse aisérnent déchiffrei: C'est au rnornent de Ia saison
sèche que se pratique Ia pêche décrite. D u batternent de leurs ailes les deux oiseaux rnettent fin à Ia saison des pluies
qui se prolonge puisque les fernrnes qui s'efforcent en vain d'assécher I'étang, appartiennent à Ia rnoitié de Ia tribu qualifiée
de "vornisseurs de terre hurnide". I'autre rnoitié étant qualifiée de "vornisseurs de terre aride". Les fernrnes auxquelles les
deux oiseaux rnythiques apportent leur aide sont en quelque sorte marquées par Ia saison des pluies à laquelle il
ernporte de rnettre fin pour perrnettre Ia pêche férninine. Le rnythe fait donc de Ia petite cigogne noire Ia rnédiatrice
entre pluie et sécheresse.
Mais cet oiseau est syrnboliquernent surdéterrnine il connote aussi le passage du jour a Ia nuit. En effet, il accornpagne
le solei1 couchant en volant très haut dans le ciel. Son norn en luvale (londokumbi) rnet ce caractère solaire en relief: londo
vient du verbe archaique kulonga (suivre) et likumbi désigne le soleil (Horton, 1953, p. 165). Si le plurnage noir de Ia petite
cigogne évoque Ia nuit, son ventre blanc se trouve toute naturellernent associé au soleil qui disparait à I'horizon. D'un seu1
et mêrne geste cosrnique, Ia petite cigogne kumbi inaugure à Ia fois le nuit et Ia saison sèche. Mais, sur terre, c'est le Roi-
vipère, créature solaire qui est responsable de I'alternance du jour et de Ia nuit cornrne du rythme des saisons (L. de
Heusch, 1972, chap.Q. O n cornprend dès lors que les chefs tsholcwe, qui ont adopté pour leur propre cornpte le rnythe
de fondation de I'empire lunda contant les arnours de Ia reine autochtone Lueji et de Tshibinda Ilunga, le séduisant chasseur
étranger, associent Ia vipère et Ia cigogne sur le grand masque représentant les ancêtres de leurs propres chef8.A vrai dire
celui-ci est le résurné de I'univers, car"sur I'avancée du rnenton deux ronds figurent chacun le soleil" tandis que, au dessus
du front, un tissu rouge en forme de croissant réprésent Ia lune (Bastin, 196 1 , vol. 2, p. 371). Cornrne le roi sacrée lunda
dont i partage le syrnbolisme, le masque tshikungu muni d'un glaive est une créature arnbivalente, inquiétante. C'est Ia part
rnaudite du pouvoir qu'assure le roi-vipère lunda, grand guerriei; c'est son aspect secourable que syrnbolise Ia petite cigogne
noire kumbi.
Je rappelais à I'instant le mythe fondateur de I'ernpire lunda. C'est un inforrnateur de Marie-Louise Bastin qui lui révéla
que les superbes statues tshokwe représentant un chasseur aux puissantes mains, solidement carnpé sur ses grands pieds,
n'est autre que Ia représentation du rnythique héros Tshibinda llunga. Venu du pays luba il épousa Ia reine autochtone Lueji
donnant naissance au prernier roi-vipère, fondateur d'une dynastie conquérante dans I'orbite duque1 IesTshokwe vécurent
apparernent jusqu'au milieu du 19e siècle.
II ne faut pas prendre I'iconographie du chasseur au pied de Ia lettre. II est vrai que IesTshokwe s'adonnaient à Ia chasse
avec passion, mais tout laisse croire que les Tshokwe pratiquaient avec succès I'art cynégétique avant I'arrivée, très
probablement fictive, du héros. En fait, Tshibinda llunga introduit Ia prospérité et les usages de Ia royauté sacrée. II est un
dispensateur de fertilité dans un pays dont Ia reine autochtone est rnenacée de diverses calarnités. Cet état de manque est
symbolisé par les troubles rnenstruels dont souffre Ia reine autochtone Lueji. La chasse est plus précisément une image
rnétaphorique de Ia fécondité dans I'univers lunda.
Marie-Louise Bastin a rnontré Ia parfaite assirnilation par IesTshokwe de cette grande tigure rnythique lunda. En effet,
ce noble étranger ne fait pas partie du panthéon des esprits ancestraux mahamba. Cependant, Ia coiffe qu'il porte dans Ia
statuaire n'est pas celle des Lunda, mais bien celle des chefs tshokwe (Bastin, 1988, pp. 53-54). Marie-Louise s'étonne à ce
propos de constater que Ia cour lunda ne produisit aucune oeuvre d'art (idem, p. 56). Elle note que Ia chaise qu'un oficier
norvégien reçut du roi lunda au début du 20e siècle, et qui est actuellement conservée au Musée d'Oslo, estUuntravail des
Tshokwe", qu'il ait été reçu en tribut, pris comme trophée de guerre ou exécuté pour le souverain par un artiste tshokwe
renornmé (idem, p.56). La réponse à cette énigrne historique est que le grand art n'est pas nécessairernent lié à une forme
quelconque d'État conquérant, bien que nous tenions celle-ci à t o r t cornrne Ia rnanifestation rnêrne de Ia civilisation.
Cernpire de Napoléon a-t-il produit de grandes oeuvres? II en a dérobé quelques unes dans diverses collections
européennes, et, faute de souffle, le style dit ernpire s'inspire notamrnent de I'Egypte ancienne. Et n'est-ce pas en devenant
eux-rnêrnes conquérants, que IesTshokwe perdirent leur génie?
Mais il est vrai que I'art tshokwe s'épanouit dans de puissantes chefferies vénérant un chef sacré, dont Ia statuaire
célèbre Ia présence.Tshibinda Ilunga n'est pas en effet le seu1 prétexte de Ia grande statuaire. La figure du chef Ia domine,
tantôt debout dans une attitude Iégèrement fléchie, les mains posées avec assurance sur le ventre, tantôt assis sur un
siège, battant des rnains, à rnoins qu'il ne surmonte un sceptre orné parfois avec une science exquise de I'arabesque.
Marie-Louise insiste sur le naturalisme caractéristique des oeuvres provenant du pays d'origine (Bastin, 1988, p. 55). Elle
constate aussi que les représentations deTshibinda Ilunga n'obéissent pas un canon unique; tantôt elles portent Ia marque
d'un créateur "apolinien", tantôt elles participent d'un "expressionisrne dyonisiaque" (idem, p. 54). L'on constatera que ces
diverses formules originales s'inscrivent toutes dans Ia grande tradition réaliste des arts de cour d'Afrique centrale.
Nous sornmes toujours de I'autre côté du miroir; dans un univers où masques et statues participent du monde des
esprits. Mais voici que s'avance vers nous un masque en bois dont les traits schérnatiques idéalisent Ia beauté férninine, et
elle seule. C'est Ia célèbre masque rnpo plein de douceur; de réserve et de rafinement. II est porté par un homrne. Comme
les autres masques. C'est Ià, vous ne I'ignorez pas, une constante en Afrique noire. Mais le masque rnpo n'est pas un objet
sacré, contrairernent à ses congénères d'écorce battue et de résine, ces esprits qui enlèvent les enfants à leur rnère pour
les conduire au carnp de circoncision. La tradition rapporte cependant que jadis sur Ia place publique, le danseur effectue
une danse férninine gracieuse, qui est censée dispenser Ia fécondité (Bastin, 1988, p.p. 63-65). En dépit de son asped
ludique, le masque rnpo ne nous mène donc pas tout a fait en dehors de Ia sphère rituelle. A Ia fin de sa carrière théatrale,
à sa "rnort", le masque rnpo était souvent enterré dans un marais avec un bracelet rnétallique "pour éviter que I'esprit ne
vienne hanter un rnernbre de Ia famille de I'ancien danseui', alors que les masques du rituel de circoncision étaient
normalement b d é s à Ia tin des cérérnonies (idem, p. 65).Tout se passe donc comme si rnpo était traité comme un être
hurnain, une femme réelle, résumant toutes les fernmes du monde.
Un masque rnasculin fait en résine ou en bois, est le pendant de mpo. C'est lui aussi un masque de danse dont le
caractère profane est évident. II s'appelle tshihongo. Anciennement porté par un fils de chef, i1 recevait des cadeaux en
échange de ses exhibitions choréographiques qui se répétaient durant plusieurs rnois. C'était à une manière ingénieuse de
prélever un tribut en réjouissant les sujets du chef de terre. Thishongo célèbre en quelque sorte publiquernent I'aspect
profane du pouvoir; alors que ihiskungu, dont vous vous souviendrez qu'il représente les ancêtres du chef en "entourant
d'un grand rnystère, exalte le caractère politico-religieux de ce même pouvoirTout se passe comrne si les deux masques
obéissaient à un dédoublement fondionnal: Jshihongo et Tshikungu révèlent les caractéristiques complémentaires de Ia
chefferie. O n pourrait dire que le prernier danse les deux pieds sur terre, le second un pied ans I'au-delà.
Revenons de ce côté-ci du rniroir; dans le mond totalement profane. Ici aussi I'art s'épanouit. O n est stupéfait de
l'extraordinaire diversité de Ia sensibilité artistique tshokwe. II serait faux de croire qu'il en est ainsi dans toutes les cultures
africaines. Les pipes, mortier à écraser le se1 ou le tabac, tabatières, peignes, épingles à cheveux, chasse-mouches, sanza,
sifflets, les coupes comme le ventre des femmes accueillent figurines ou dessins. Le souci de beauté est partout. Même sur
le sol où les hornmes dessinent du doigt sur le sable les arabesques sona, sont autant d'idéogrammes.
Vous jugerez d'une partie de cette richesse en visitant cette exposition qui est un hommage à Mane-Louise Bastin à
l'occasion de son élévation au titre de dodeur honoris causa de I'Université de Porto, que je félicite de cette heureuse
initiative.
Puisse Marie-Louise danser encore de nombreuses années en compagnie du masque rnpo, en cornpagnie deTonio son
rnari, son photographe de grand talent, son compagnon fidèle, pour que Ia paix et Ia joie règnent enfin sur le monde, pour
que Ia petite cigogne noire au ventre blanc tienne en resped tous les rois-vipères qui n'ont cessé de conduire le monde à
leur guise. Pour que I'Angola, pour que 'Afrique tout entière retrouvent Ia sérénité, Ia douceur du masque mpo...

Ouvrages cités

BASTIN, M-L..
1961.Art décorotif tshokwe, Museu do Dundo (2vol.). Lisbonne.
1988."LesTshokwe du pays d'origine", in Art et rnythologie. Figures tshokwe. Fondation Dappec Paris, pp. 49-68

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HORTON, A. E.,
A Dictionory of Luvaie, Lithogr Rahn B r o t h e ~Ekl
. Monte, Caif
-A
JillDias

Caçadores,Artesãos, Comerciantes, Guerreiros:


Os Cokwe em perspectiva histórica

I. Introdução

Em 19 14, um mapa publicado pelo administrador colonial de Angola, Ferreira Diniz. projectou a primeira imagem sis-
tematizada da distribuiqão territorial das diferentes "tribos" africanas pertencentes a colónia portuguesa de Angola'. Nesse
mapa, as populações Cokwe ocupam uma grande faixa de território do norte e leste de Angola (Fig. I). Porém, o mosaico
de "tribos" ou de "culturas" representadas no mapa não só transmite uma ideia exagerada da separação entre os diferen-
tes grupos em presença como consagra uma falsa imagem fixa e estática desses grupos. Na verdade, até ao século XX, os
Cokwe, em comum com a maioria dos habitantes da savana africana, eram populações abertas e interactivas, cuja compo-
sição e tamanho demogrático alterava ao longo do tempo de acordo com as circunstâncias históricas.Assim, os Cokwe são
próximamente aparentados com grupos vizinhos,tais como os Luvale ou os Lwena com os quais, ainda hoje, compartilham
muitas características culturais. Na viragem do século XIX, a imagem colonial dos Cokwe era predominantemente de uma
população guerreira e esclavagista cujos assaltos e violência tinham provocado a queda do império Ruwund Contudo, essa
imagem esconde uma realidade muito mais complexa, fruto de uma longa história de interacção entre os Cokwe e as
outras sociedades da África Central. O presente texto procura situar os Cokwe nesse contexto histórico mais vasto.
Até 1900, os Cokwe viviam fora do alcance da administração colonial, uma vez que foi só então que a ocupação efec-
tiva portuguesa do território angolano conseguiu expandir para além dos pequenos núcleos costeiros centrados em
Luanda, Benguela e Moçamedes. N o século XIX, a influência dos interesses mercantis europeus na costa atlântica, sentida
através da presença no interior longínquo de comerciantes oriundos da pequena colónia portuguesa de Angola, estimulou

Jill Dias, Faculdade dar Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
' A representação das diferentes popuaqões permaneceu pouco alterada nos mapas "etnicas" produzidas até à década de 970: veja-se, em especial.
Rednha, 1952. Lima, i970
Ou seja"Lunda" na dorumenta@o histórica portuguesa. O Estado ou sistema político Ruwund sob a autor,da.de márima do MantYaav,abranga uma vasta
região a leste dos rios Kwango e Kwanra até aos finais do século XIX: CfPalmeirim, 1994, p. 24. Esta situação histórica deu origem na primera década do
século XX à crias20 do distrito colonial da Lunda do nordeste de Angola: veja-se Santos. 966.

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interacções entre as diferentes sociedades africanas que transformaram social e politicamente, as populações a leste do
Kwanza, incluindo os Cokwe '. Ao longo do século XIX, as sociedades africanas politicamente autónomas que circundavam
esses núcleos não só produziam a maior parte das exportações coloniais, como também controlavam o comércio entre o
interior e a costa.Assim, no curto prazo, a economia mercantil do Atlântico introduziu novas oportunidades económicas e
políticas para essas populações, não obstante a eventual subordinação das suas economias locais aos mercados intemacio-
nais e a marginalização de entrepreneurs africanos a favor de agentes europeus que acompanharam a expansão da admi-
nistração europeia nos princípios do século XX. Porém após o colapso, em 19 13, os preços mundiais da borracha aficana
em consequência da concorrência sud-asiática, os interesses do capital mercantil foram sendo substituídos pelos do capital
industrial, e, a partir da década de 1920, essas populações, em especial os Cokwe se tornaram vítimas da exigência euro-
peia de trabalhadores nos empreendimentos industriais coloniais, e, especial as minas de diamantes.
Se é possível aprofundar a história dos núcleos coloniais através da documentação arquivística de natureza administra-
tiva ou militar; o conhecimento empírico das sociedades africanas mais longínquas, tais como os Cokwe, deriva principal-
mente dos relatos deixados por viajantes e exploradores do século dezanove, e maior parte dos quais eram europeus.
Entre o primeiro conjunto de relatos, baseados em observações feitas nas décadas de 1840 e 1850, são as descrições do
negociante brasileiro, Joaquim Rodrigues da Graça ( 1 854158, 1890), o sertanejo português, Silva Porto (1 942, 1885, 1986),
o missionário escocês, David Livingstone (1 857,1963) e o viajante e sertanejo húngaro, Lazlo Magyar ( 1 859).
Posteriormente, entre as décadas de 1870 e 1880, essas sociedades foram visitadas por exploradores portugueses, nome-
adamente Capelo e Ivens ( 1 88 I), Serpa Pinto (1 88 1) e Henrique de Carvalho (1890, 1894195) e, ainda, por exploradores
alemães e húngaros que penetraram a África Central nesses anos, nomeadamente Anton Lux(1880), Paul Pogge (1 88 I),
Otto Schuti ( 1 88 I), Max Buchner (1 882),Von Mechow ( 1 882) eVon Wissman ( 1 889).
E claro que as interpretações e representações desses autores são profundamente influenciadas pelo seu etnocen-
trismo. A maior parte dos europeus, mesmo os mais viajados ou experimentados no comércio africano, pouco compreen-
deram do sentido das instituições e os valores familiares, políticas e religiosas das sociedades africanas à sua volta. As suas
representações,tantas vezes negativas da vida africana, denunciam os seus próprios preconceitos culturais. Por isso mesmo,
são relativamente fáceis de desmontar4.Filtradas por uma leitura crítica, os relatos europeus se tornam fontes preciosas de
conhecimento histórico das sociedades africanas. No caso específico dos Cokwe, as tradições e informações recolhidas
pelos exploradores portugueses e alemães na região do Kasai no último quartel do século XIX são cruciais sobretudo em
proporcionar uma crónica interna das relações da população Cokwe com os "Lunda do MwontYoav", ou seja os Aruwund

' Para sínteses recentes da história de Angola no século XIX. vejam-se por exemplo, Henriques, 1997: Dias, 1998.
' Sobre isso, vejase, por exemplo, a leitura critica das observações do comerciante brasileiro JoaquimRodrigues de G r a q na década de 8 4 0 feita por Isabel
Castro Henriques, 1997, pp. 442-443
Tratam-se dos povos que formavam o núcleo central e or~ginaldos grupos subordinado à autoridade do Mant Yaav: Palmeirim, 1994, p. 24.
Neste respeito, a obra mais notável é de Henrique de Carvalho, que aprendeu a iíngua Uruwund entre 1884 e 1888, con-
duzindo um trabalho etnogtáfico de grande sensibilidade e rigor, de tal forma que as informações por ele recolhidas cons-
tituem a fonte principal de conhecimento sobre os Cokwe nesse período 6 .
Marie-Louise Bastin, pioneira de estudos etnográficos sobre a cultura material da região da Lunda, foi entre os primei-
ros antropólogos a reconhecer o valor das informações recolhidas pelos exploradores europeus do século XIX para a
reconstrução histórica da população Cokwe(196 1 , 1966, 1994). O seu trabalho foi complementado pelo estudo histórico
pormenorizado de Joseph Miller ( 1 970) e pelas investigações antropológicas de Mesquitela Lima (1 97 I),Alfredo Margarido
(1 972), Rodrigues de Areia (1985) e Manuela Palmeirim (1 994). Mais recentemente ainda, essas fontes foram sujeitas de
novo a uma re-leitura crítica e exaustiva pela historiadora Isabel Castro Henriques (1997), no sentido de conceptualizar e
aprofundar a realidade histórica dos Cokwe. Reconhecendo a importância das reconstruções históricas e ideológicas do
mundo Cokwe apresentadas por esses autores, o presente texto procura sintetizar; de modo sucinto e matizado, algumas
das suas conclusões.

2. Os Cokwe n o contexto da África Central

De acordo com as tradições orais da África Central, os Cokwe possuem origens comuns muito antigas com outros
grupos dessa região, entre eles os Aruwund, Mbangala, Masongo, ou Xinje, com os quais são aparentados política e cultu-
ralmente '.
Contudo, não há notícia escrita dos Cokwe até ao último quartel do século XVIII - o que reflecte não a sua eventual
ausência fisica ou linguística, mas a falta de conhecimento geográfico ou etnográfico europeu acerca das regiões a leste dos
rios Kwango e Kwanza.Até aos finais do século XIX, os Portugueses na costa atlântica juntavam todas as populações lon-
gínquas entre os rios Kwanza e Zambeze sob o rótulo pejorativo de "Ganguela"'. N o entanto, nas línguas Luvale, Lwena,
Luchazi, Cokwe e Mbunda, o termo nganguela significa a zona baixa de florestas e savanas arenosas e secas entre o planalto

Ibid., pp. 142-143.Vcja-se, também.Tavares, 1995


' A ausênc~ade fontes escritas contemporâneas para a reconstrução histórica das sociedades das savannas é compensada pela existência de numerosas
tradições orais.Tradições e informações orais sobre os laços históricos dos Cokwe foram registadas por Capelo e Ivens, 188 1.1, pp. 173-174 e Carvalho,
1890, 1898. Porém, o conhecimento detalhado da história das socedades da África Central antes de 8 0 0 é complicado pelas dificuldades em interpretar
essas tradições, as quais. para além do seu conteúdo simbólico contém uma visão telescópica do passado, confundindo acontecimentos históricos mais
recentes com lendas antigas: Para o debate sobre a nterpretaqão da savanna africana ver; por exemplo. Heusch, 1972: Miller 1980, 1988, pp. 26-27: Para
reconstruções da história política mais recuada dos Cokwe. Ruwund e povos vizinhos ver; em especial,Vaniina. 963, 1966: 011-mingham,965; Margarida,
1971: Miller: 976, pp. 1 14150: Lima. 1988; Hoover; 1978a , 1978b Reefe. 198 1 , 1983, pp. 189- 192. Pamerim. 1994. Henriques,1997.
OS ingleses. que se introduziram na mesma região vindo do leste referiam à mesma região e população coma 'Wika': veja-se Gluckman 1954,
pp. 89-92.
do Bié e o rio Zambeze. O u seja, na sua origem, ngonguela é um termo ecológico, cuja transformação em rótulo étnico
durante o penodo colonial implicava a homogenização de uma situação historicamente complexa e bastante diferenciada
em termos das formações sociais e das identidades e tradições culturais desenvolvidas nessa zona9.Hoje em dia, essa zona
inclui povos chamados Luchazi, Mbunda, Cokwe, Lunda, Ndembu, Luvale e Lwena. Mas é impossível determinar o que essas
diferenciações étnicas representam, sem saber a sua evolução histórica. Por sua vez, as fortes semelhanças culturais, políti-
cas e linguísticas entre alguns desses grupos observadas por viajantes, antropólogos e administradores coloniais no século
XX também sublinham a importância de adoptar uma perspectiva mais regional do que"tribaln na abordagem histórica dos
mesmos grupos.
Parece evidente que, no século XIX, esses povos integravam uma multiplicidade de identidades culturais e políticas pro-
duzida historicamente a partir de especializações ecológicas e de contactos milenários entre as populações espalhadas nas
savanas da África Central. Aproveitando-se da facilidade de movimento, quer na savana, quer nas margens da floresta mais
a leste '4essas populações desenvolveram correntes migratórias em resposta às oportunidades fornecidas pelo comércio,
pela protecção política ou pelas alianças matrimoniais. Por um lado, a partilha e o intercâmbio, de ideias e comportamen-
tos resultantes desses movimentos populacionais teriam contribuído para reforçar as semelhanças ligando comunidades
amplamente separadas e dispersas no meio de espaços vazios. Mas, por outro, a interacção histórica entre grupos forte-
mente diferenciados e desiguais em termos dos recursos econórnicos ou das suas estruturas demográficas ou políticas teria
provocado a afirmação de uma multiplicidade de identidades culturais distintas cujo sentido subjectivo de diferença - às
vezes quase imperceptível ao observador estrangeiro - exprimia-se através da sua cultura material, língua, adornos corpo-
rais, ou mitos de fundação. Entre os muitos grupos linguísticas que se formavam através desse longo processo histórico
incluíam-se as populações Cokwe do além Kwango I ' .
As semelhanças geográficas, culturais e políticas da vasta região entre o rio Kwanza e o alto Zambeze no século XVIII
facilitavam o desenvolvimento de redes regionais de comércio cuja antiguidade é confirmada pelos poucos dados arqueo-
lógicos existentes.Tais redes baseavam-se sobretudo nos depósitos de sal e de minérios de ferro e cobre, sendo particu-
larmente desenvolvidas em volta das concentrações destes minerais e também nas zonas ecológicas de transição que favo-
reciam a troca de produtos regionais especializados e complementares; ou seja, entre a floresta e a savana, o litoral e o
interior; entre as matas mais secas e os vales de rios mais húmidos, ou entre zonas agrícolas de pastorícia ". Esses produtos
incluíam, para além dos produtos da floresta, géneros alimentícios, medicinas e os serviços especializados de adivinhos e

Esta realidade histórica é dedurida prncpalmente de registos arqueo1ógicos:Veja-se, por exemplo. Philipson, 974, pp. 1-25; e Derricourt & Papstein. 977.
'O Veja-se, por exemplo,Vansina, 1973-74.
'' De acordo com o explorador alemão, Otto Schuti, que viajou entre as Cokwe em 878. eles se teriam fixados há mais de trezentos anos.
' Veja-se Birmingham, 970. Estes aspectos do comércio africano foram também aprofundados por Miller; 1988: tendo sido revis~tadosmais recentemente
por Henriques, 9 9 5 e 1997.
curandeiros. Os rios tributários, sobretudo nas bacias do Zaire e do Kasai proporcionavam caminhos importantes para o
comércio e para a migração local. Por sua vez, as semelhanças linguísticas verificadas na maior parte dessa região tornaram
relativamente fácil a comunicação entre a maioria dos agrupamentos populacionais que habitavam essas bacias e ainda a
do rio Kasai ' I .
As unidades políticas dessa região também compartilhavam uma tradição histórica comum, com sínibolos e estruturas
políticas semelhantes. Os Cokwe se integravam no sistema de matrilinhagens Mbwela, de grande antiguidade, que atraves-
savam as diferenciações culturais, ou 'tribais" emergentes, facilitando a mobilidade e a migração.Além desses laços históri-
cos e sociais, práticas rituais comuns (mukondo e os cultos de possessão mahombo), também funcionaram para cortar as
diferenciações culturais. A cerimónia mukondo, em especial, constituía uma experiência comum para todos os adultos mas-
culinos, unindo-os e dando-os um estatuto social mutuamente respeitado e reconhecido em toda a região entre os rios
Kwanza e Zambeze 14.
Até aos meados do século XVII, as populações a leste do Kwanza, incluindo os Cokwe, eram pouco afectadas pela pre-
sença portuguesa na costa angolana. N o entanto, a partir dessa data, com a expansão do tráfico transatlântico de escravos
os tentáculos mercantis alcançaram pontos cada vez mais distantes do interior 15. Não é por acaso que os Cokwe emer-
gem pela primeira vez na documentação colonial na última década do século XVIII quando o tráfico transatlântico come-
çava a atingir o seu auge. Integrando uma vasta rede de comércio africano, esse tráfico já abrangia quase todas as socieda-
des da África Central, com excepção dos grupos agro-pastorícios e caçadores-recolectores,semi-nómadas, do extremo sul
de Angola. A expansão do c o m é ~ i oe a violência da guerra redefiniram de maneira mais nítida as relações sociais e políti-
cas entre grupos vizinhos e aparentados - incluindo os povos referidos na documentação histórica europeia como
"Lundas" 16. para além dos Mbangala e os C o k w e , ou entre os povos agricultores das terras altas do planalto central, mais
tarde designados como Ovimbundu.
As terras do Ciboku I,' que nesse período constituíam o espaço central das populações Cokwe, eram estrategicamente
situadas entre duas principais rotas de comércio: uma mais a sul, seguia para os povos Luvale 18, do alto Zambeze, a outra,
mais ao norte, para os Aruwund (ver mapa I). Essas terras, "bastante elevadas" constituindo "...verdadeiro centro hydro-

" Sobre este ponto veja-se, Papstein 1978, pp. 268-29 1


" Sobre as rituais mukanda e mahamba vejam-se, entre outros.White. 1953, pp. 4156: Mwondela, 197O;Van Koowijk 1963, pp. 156-I7Z;Turner;1957, Lma.
197 1, Papstein, 1978.
'i Veja-se M~ller;1988
Estes povos incluíam, para além dos"Lunda da MantYaav", ou Aruwund, mais a norte, os Luapula do Karembe. mais a leste, e os Ndembu. mais ao sul.
para além de pequenos grupos periferais. entre eles osYaka, do Kwango: veja-se Palmeirim, 1994, pp. 23-26
' "Quiboro" na documentação portuguesa. Escrito como "Trhibaco" em Bastin, 196 I . Actual regláo de Moxico.
Chamados "Lovai' nas fontes contempoianeas portuguesas
gráphico, d'onde irradiam, por sulcos profundos, águas que pelo Congo-Zaire,
Cuanza e Zambeze passam aos dois grandes oceanos..." ", consistiam de terrenos
arenosos, sujeitos a secas periódicas. Quando as chuvas permitiam, os habktantes
cultivavam uma variedade de colheitas, incluindo mandioca, milho painço, milho,
amendoim, cana-de-acúcar e bananas ".Amandioca, introduzido do Atlântico nos
meados do século XVI e comum em toda a zona entre os rios Kwanza e
Zambeze na segunda metade do século XVIII, deu maior segurança alimentar; eli-
minando os períodos de fome2'.Nas últimas décadas do século XVIII a caça,
sobretudo aos elefantes, era já uma adividade assinalável ". Na ausência de refe-
rências documentais, é razoável supor que, em comum com outras sociedades
africanas da África Central nessa data, a sociedade Cokwe também possuía cate-
gorias de pessoas não-livres, incluindo escravos, que, em princípio teriam entrado
nas operações de permuta conduzidas nas suas terras por traficantes portugue- Mapa I
De: I.C. Miller,"Cokwe
ses. Contudo, as observações dos primeiros viajantes brancos que atravessaram
Trade and Conquerr" ( I 970)
essas terras rumo a Luvale a partir de 1789 à procura de escravos 23 indicam que,
nessa data, o tráfico protagonizado pelos Cokwe era pouco significativo. Esses via-
jantes referem os C o b e como uma população pacífica que não fazia guerra aos
vizinhos. E se os chefes políticos "Quiboque" e "Bunda" acolheram bem os
comerciantes brancos que atravessavam as suas terras, há pouca menção de per-
mutas de escravos ou marfim para as importações europeias. Em contrapartida,
a identificação de uma população Cokwe no Brasil2' revela que os próprios
Cokwe se tornaram vítimas desse tráfico. Se alguns podiam ter sido capturados
em eventuais assaltos esclavagistas por parte dos povos Mbangala ou

' Capello e Ivens. 188 1, p. 202.


" Anónimo."Epanáfora dos dias de viagem que se gastão desde a Libata do Sauva Caberaber denominada Quindombe athé às terras do Loval; rios grandes,
que se passão nomes das terras e souvas dellas". (1789), em Felner.11, 1940. p. 25
>' Não é fácil determinar precisamente a cronologia da difusão de mandioca no interior afrcano. Mandioca entrou em Angola no século W I e estava a ser
plantada entre os povos Lovale nos meados do século XVIII: vejam-se, por exemplo, Redinha, 1968, Roberts, 1976. p. 142;Vansina. 1997
" Anónimo (1789). em Felnec 1940.11. p. 25
" Vejam-se Anónimo (1789) em Felnec 1940, I , pp. 24-25:Teixeira (1794). em Felner. 1940, 1, pp. 236-237:Vasconcelos (1799). em Annaes Marltimos e
Coloniais, Lisboa, 1844, pp. 159-16 1; Baptista, 1843, p. 236.A~observações desses viajantes em relaçáo ao"Quiboco"Mo submitidas a uma crítica exaustiva
em Henriques, 1997. pp. 434-438
'I Nelson, 938. p. 122 Miller; 1970, p. 177, fn.
Ovimbundu 2s, outros eram provavelmente canalizados para o Brasil através das redes tributárias do Estado, ou "império"
Ruwund, principal gestor dos escravos exportados das costas de todo o litoral angolano 26.

3. O "império" Ruwund

Nos finais do século XVIII, o "império" Ruwund constituía uma espécie de federação comercial e tributária, relativa-
mente coerente e estruturada, cuja influência estendia-se sobre uma vasta área entre o rio Kwango e o alto Zambeze. Ela
integrava grande parte das populações aparentadas, embora linguística e culturalmente distintas dessas regiões, incluindo os
Cokwe, através de uma rede de autoridades políticas e militares que se identificavam como "Aruwund", adoptando a orga-
nização e os símbolos políticos da corte dos MwanrYaavi7, cuja capital, ou rnusurnb (Musumba),se situava além do rio Kasai.
Essas autoridades enviaram tributos periódicos - caravanas de escravos e outros produtos locais - ao Mwant Yaav, que os
retribuiu pela distribuição sobretudo de bens europeus importados, obtidos através da venda de escravos". Nessa altura,
é provável que as aldeias do Mwant Yaav e de outros membros da oligarquia central do "império" incorporassem grandes
concentrações de escravos, aumentando assim as concentrações populacionais em volta dos seus centros de poder princi-
pais, ou rnbonza.Tal populaçZo escrava nZo só colonizava e desbravava novos terrenos agrícolas, como reforçava o prestí-
gio político-militar dos seus senhores, para quem constituía um capital humano disponível para pagar tributos internos ou
vender em troca de bens estrangeiros 29.
Até aos meados do século XIX, as relações do Estado Ruwund com a colónia portuguesa eram medidas por uma
íonstelação de outros Estados intermediários do vale do Kwango, nomeadamente,Yaka,Matamba, Holo, Mbondo e Kasanje.
Durante mais de um século, Kasanje, cujo "rei", ou "jaga", intitulado Kinguri, reclamava laços directos de parentesco com a
dinastia Ruwund dos MwantYaav, tinha impedido o livre comércio e trânsito de estrangeiros nas suas terras, exercendo um
monopólio do tráfico do kinguri, conduzindo ao gradual desmoronamento do poder centralizado de Kasanje facilitou as
relações directas do Mwant Yaav com os estabelecimentos portugueses do litoral atlântico. Em 1808, respondendo ao con-

" Hambly 1954, p. I 13


'* Segundo à uma fonte contemporânea,a zona subordinada à influencia Ruwund forneceu um terço dos escravos exportados anualmente de Luanda e de
Benguela antes de 1850 o que , segundo a um cálculo recente teria dado uma média de entre 2,000 a 3,000 pessoas: ver Birmingham, 1970. p. 1 13,
citando Magyar (1859). Um número muito maor de escravos onundos dessa regi20 teria saído, no mesmo pen'odo, porém, de outros pontos da costa
angolana náo controlados pelas autoridades coloniais portuguesas.
" Escr~tocomo"Mwata Yamvo" ou 'Muatiânvua" nas fontes portuguesas
2' Birmingham, 1970. p. 95. Para o debate sobre as origens do império Ruwund, veja-se, ente outras, as fontes referidas na nota 7, mais acima.
'' Ver Brmingham, 1970. p. 96. Uma das fontes portuguesas mais importantes para informações sobre a região abrangida pelo poder Ruwund nas últimas
décadas do séculoXVIII é o relato de Manoel Correia Leitão. publicado em Dias, 938. pp. 3-30. Para a história dessa região nesta época vel; sobretudo,
Velut, 1970, pp. 75-1 35; 1972. pp. 61-1 66.
vite do governo de Luanda, o Mwont Yaov enviou uma caravana até a colónia portuguesa3",quebrando, finalmente, a bar-
reira de quase dois séculos, imposta pelo Kasanje nos contactos directos estabelecidos entre os diferentes grupos de trafi-
cantes portugueses e as populações Shinje, Minungo, Cokwe e outros, subordinados ao Mwont Yoov a leste do Kwango
começavam a minar os laços tributários internos do próprio Estado Ruwund, ameaçando a sua unidade política.

4.A expansão de comércio "legítimo"

Esse enfraquecimento dos laços tributários internos e da autoridade política centralizada do Mant Yoov acelerou-se a
partir da década de 1820, no contexto da intensiticação do tráfico transatlântico de escravos e da exportação para a
Europa de produtos tropicais, especialmente a cera de abelha3'.a goma copal, o marfim e, mais tarde, a borracha3'. A
subida dos preços internacionais desses produtos a partir dos finais do século XVIII ofereceu novas oportunidades a todas
as sociedades africanas autónomas, do vasto hinterlond florestal e silvestre dos planakos além dos rios Zaire, Kwango,
Kwanza e Kubango, incluindo os Cokwe. A prontidão de resposta africana as exigências do novo comércio de exportaçZo
colonial foi facilitada sobretudo peb adaptação das técnicas de subsistência existentes - em especial de caça e de recolec-
ção - ao aproveitamento do rnarfim, da cera de abelha, da goma copal ou da borracha. A região entre o Kwanza e
Zambeze foi muito rica nesses géneros, a maior parte dos quais podiam ser recolhidos e preparados para venda por qual-
quer pessoa e cuja exportação não foi a custa do consumo local. As terras dos Cokwe eram abundantes em elefantes e
enxames de abelhas, e ao alcance fácil do entreposto português do Bié. Nas décadas de 1840 e 1850, foram os Cokwe,
juntamente com grupos vizinhos, tais como os Luchazi, Lwena e Luvale, que produziram a maior parte da cera e do mar-
fim que afluia a Luanda e a Benguela3'.
Por sua vez, o aproveitamento africano da subida dos preços de marfim na costa teria sido facilitado pelo grande pres-
tígio e importxncia simbólica e religiosa atribuída à actividade de caça, em especial a caça aos elefantes.Técnicas usadas
pelos Cokwe na década de 1840 continuaram a incluir os arcos e as flechas e as azagaias envenenadas, para além de bura-
cos escavados na terra como armadilhas3'.Ao mesmo tempo, os novos lucros provenientes sobretudo da venda de cera,
teriam proporcionado aos caçadores Cokwe, o poder de compra das armas de fogo "lazarinas", há muito importadas em

" AHU, Angola, cx.58. carta do governador Saldanha Gama, 18 de Janeiro de 1808;Torres. 1825, pp. 300-30 I ;Vellut, 1972, pp. I 10- I 15
' Em 1844, o valor das exportações coloniais de cera rondavam os 32.000800,ocupando o terceiro lugar no comércio euterno angolano: ver Lima, 1846, p.
76. As exportações de cera a partir de Luanda aumentaram de 52,690 libras em 1844 para 1,698,348 libras em 857: ver Miller. 1970, p. 178
" Sobre as tendênc~aseconómicas nternacionais relativds à África no século XIX, vel; por exemplo, Hopkins, 1973: Munm, 976:Audin. 1987.
" Na sua viagem através de "Quiboca". em 1846. Joaquim Rodrigues Gra~aobservou que "mensos carregamentos" de cera partiram anualmente desse
districto para Cassange e Bié: Graça, 890. p. 415. Considerava-se a cera de "Quiboco" a da melhor qualidade em toda a África austral:
veja-se Miller. 970. p. 178
'+ Veja-se Gr-, 1890, p. 427
Angola, mas, ao que parece, só então utilizadas por esses caçadores africanos 15. Nesses anos, o sertanejo Lazlo Magyar
observou pequenos grupos de caçadores Cokwe espalhados nas florestas a leste e ao norte de Musumba 16, onde eram
obrigados a pagar às autoridades políticas das terras onde caçavam um dente de marfim em cada elefante morto ". O pró-
prio Mant Yaav decretou o pagamento de tributo em mariim, em vez de escravos ", consolidando, assim, o novo padr2o de
comércio externo e reforçando a importância desses caçadores no seu território. Em 1850. o valor do marfim exportado
do estado Ruwund excedeu aquele de escravos J9. Porém, a crescente disponibilidade das armas de fogo que permitiu aos
Cokwe e às populaç6es vizinhas responder à procura externa do mariim através da caça mais eficaz dos elefantes, acabou
de determinar a fuga e exterminação destes nas terras do Ciboku na década de 185040.Semelhante destino tiveram os
elefantes, outrora abundantes, em todas as regiões atingidas pela nova procura do marfim, tais como Songo, Bié, a regiáo
de Ngangea, Lunda e até Luvale, mais a leste, onde o sertanejo português Silva Porto afirma já, em 1850, que não havia
marfim suticiente para satisfazer o comércio europeu 'I.
Foram os contactos directos estabelecidos com o Mont Yaav e outros régulos além Kwango na década de 1840,
durante as viagens exploratórias realizadas a partir do Bié e Mbaka, por sertanejos como António Ferreira da Silva Porto ",
Joaquim Rodrigues da Graça", ou Lazlo Magyar; que contribuíram para estimular a maior produção e comercialização afri-
cana da cera e sobretudo do marfim '4, artigo de grande valor simbólico no quadro do poder politico africano, cuja extrac-
ção tinha sido, no passado, rigorosamente controlada pelos chefes políticos das terras onde se encontravam os elefantes. A
partir dos anos de 1850, o marfim passou a ser comerciado, cada vez mais, por autoridades políticas menores e até pelos
milhares de caçadores individuais que guardavam os dentes para vender às caravanas organizadas por esses outros serta-
nejos brancos e negros estabelecidos em Bié ou em Mbaka, agentes de firmas portuguesas estabelecidas na costa atlântica.
Alguns produtores africanos, nomeadamente os C o h e , também organizaram caravanas pequenas, carregando cera de
- .~
" Ibid. Baseando-se nas obsen~açõesde viajantes brancos, nomeadamente Graça( 8 9 0 ) pp 4 13 e 426, Gamitto, 1854, p. 237, e Capella e Ivens, 188 I pp. 16 1 -
- 170, Isabel Caem Henriques. 1989, 1997, p. 6 18, distingue entre as espingardas'raiúnas mais pesadas, associadas às r~tuase cerimonias palkicas e religiosas
quiocas. e as"Izar~nas''.procuradas pelos caçadores quiocas, que os africaniraram, sacralizando-as com decorações s m b ó l i r ~Henriques.
: 1989, 1997, p. 6 18.
'' Miller. 1970, p. 179, citando Petermann, 1860, v01 VI. p. 228.
" Magyar. 1859, p. 9 (Agradece-se a Lotte Pfluger e a Mar~ada Conceçáo Neto a cedência de uma cópia da tradução portuguesa da obra de Magyar; em
publicação a sair em Luanda): Carvalho, 1890, p. 699. Graça, 1854155; Henriques, 9 8 9 . p. 4 16
Miller. 1970, pp. 7 9 - 8 0 , citando Bastin, 1966, p. 2 5 .
Miller. 1970, p. 7 9
'O Livingitane, 1963. p. 106; Miller; 1970, p. 179.
'' Santoi, 1986, p. 83
" Ibid..'7ntmduçãa" passim.
" Graça, 1890, pp. 373-488; 854-58.
" Assim. por exemplo. segundo Joaqum Rodrigues da Graça, foi ele próprio quem convenceu o Mwant Yaav, Nawej I , a vender a sua grande reserva de
mariim: veja-se Graça, 1854158, pp. 44 1.445.463.466
abelha até Bié ". N o entanto, até aos finais da década de 1860, fora do escoamento clandestino de géneros coloniais que
se dirigia para as feitorias estrangeiras na costa de Ambriz, grande parte do mariim, da cera e de goma copal de produção
africana desceu a Luanda, Benguela ou Moçamedes através das caravanas oriundas dos núcleos coloniais portugueses. A
partir da década de 1840, elas percorriam distâncias cada vez maiores e mais diversas. Não só foram mais ao sul, passando
pelo Humbe até às margens do Kubango e do Lago Ngami, mas penetraram também mais ao norte, estabelecendo liga-
ções regulares com países tão longínquos como Katanga. Nos meados do século, as autoridades portuguesas também ini-
ciaram uma vaga de acções militares, visando não só a ocupação mais efediva do interior e dos entrepostos europeus
avançados do hinterland, entre eles a feira de Kasanje, de forma a proteger os investimentos sobretudo da praça de Luanda,
como. também, a integração progressiva da população africana autónoma na rede fiscal e administrativa colonial.
Por sua vez, a comercialização africana do mariim e da cera produzida para o mercado colonial inseriu-se numa teia com-
plexa de trocas internas as quais faziam a ponte de ariiculação entre o comércio de iniciativa europeia e o sistema de comér-
cio africano autónomo praticado entre as sociedades do interior.A farinha de mandioca, tabaco, panos (ntangas) de algodão,
enxadas ou gado de produção e criação africanas entravam como moeda de troca, juntamente com as importações euro-
peias, nos circuitos mais a leste. D o ponto de vista de muitos africanos do interior de Angola, as mercadorias,sobretudo estran-
geiras, trazidas pelo comerciante "branco" eram não só altamente desejadas como sinais exteriores de riqueza, como muitas
vezes vistas ainda como obra sobrenatural, possuindo por isso propriedades mágicas 46. Mas nem sempre os tecidos e outros
artigos de fabrico estrangeiro eram os bens mais procurados. Na década de 1870, por exemplo, alguns Cokwe trocavam a
cera de abelha directamente por tabaco, de cultura e preparação africanas, em preferência às importações europeias4'. Se é
cedo que a procura externa, por parte da sociedade colonial, estimulou a maior produção e comércio de marfim e outros
produtos entre as sociedades africanas, as preferências específicas e diferenciadas destas sociedades eram também cruciais.

5. O carácter da sociedade e política Cokwe nos meados d o século XIX

Os relatos dos sertanejos e outros viajantes europeus entre as décadas de 1840 e 1870 fornecem a primeira série
de imagens vivas das populações africanas a leste do Kwanza. Para alguns desses observadores, os habitantes de Ciboku
se destacaram a primeira vista pelo seu aspecto físico, sendo "...altos, esveltos, de força e agilidade extraordinária...". Mas

Henr~ques,1997, p. 61 2, citando Silva Porto,"Viagens e Apontamentos de um Portuense em África", manuscrito da Biblioteca Pública Muncipa do Porta
(BPMP),Vol.2" (de I de Mato de I854 a 3 I de Dezembro de 1862), cap.VI. p. 162.
'* Henriques, 1997, p. 430
" Soremekun, 1977. p. 84
foi o seu penteado "...invariavelmente constituído por longas tranças, e uma
longa pera de igual maneira..." que os distinguia "desde logo" dos outros povos
vizinhos Distinguiam-se também não só pela sua coragem e estima pela caça
de elefantes e outros animais, mas também pela beleza da sua cultura material.
Em especial, os Cokwe eram muito conotados como artesãos. Silva Porto conta,
por exemplo, que os carregadores africanos pertencentes às caravanas comer-
ciais oriundas do Bié não resistiram à tentação de comprar artigos fabricados e
postos a venda nas aldeias cokwe, em especial tecidos de algodão '*. Sobretudo,
os Cokwe gozavam de grande prestigio pela sua habilidade como escultores de
' madeira e nas artes do ferreiro 50 Para além de implementos utilitários ou deco-
' " ,2-
9ULSSANJ.L
rativos, como enxadas ou machados, os ferreiros Cokwe fabricavam facas e aza-
gaias, pulseiras e manilhas de cobre e outros objectos de significado simbólico e
Fig. 2
ritual. Essas técnicas de ferreiro foram transferidas também para a reparação e
reciclagem das espingardas "lazarinas" importadas 'I. Por sua vez, artistas Cokwe
esculpiam máscaras, cadeiras e estátuas, que se encontraram entre as mercado-
rias oferecidas ao próprio comércio europeu ", e que eram também muito pro-
curadas para fins politicos e religiosos por grupos africanos vizinhos, em especial
os povos abrangidos pelo Estado RuwundS3. A o mesmo tempo, eram bons
oleiros, trabalhando "..,a terra com perfeição. tirando todo o partido de uma
argilla negra, que o paiz produz, para o fabrico de cachimbos de primorosa
execução ..."54. A semelhança de outros povos vizinhos, a prática de música,
através de tocar a quissanja, marimbas, tambores e outros instrumentos, junta-

" Capello e lvens, 188 1.1. p. 203


'' Porto, 942. pp. 136-137: Henriques, 1997, p. 447
Henriques, 1997, citando Silva Porto,'Viagens e Apontamentos de um Portuense em África", vol.2" (de I de Maio de 1854 a 3 1 de Dezembro de 1862),
BPMF p. 162: Porto. 1942. p. 136: Magyal: 1859. p. 9: Capello e Ivens. 188 1, 1, p. 204.Vejam-se também Redinha. 1953; Martins, 1966: Lima, 977. pp. 345-35 1 .
" Henriques, 1997, p. 6 I8
" Ibid.. pp. 621-622, citando as observa~õesde Silva Porto.
" BKtin, 1961
Capello e Ivens, 188 1, 1, p. 203
Fig. 3 "...Trajavam os músicos um pouco á maneira
de mu-quiche, com pennas e saias: e, tangendo ar ins-
trumentos, fariam ao mesmo tempo tolirs ambati-
cor. punham as mãos no chàa e os pés para o ar,
acabando por meneios e esgarer, gritos e saltos..."
Cape110 e lveos, 1881, i, c. 204

mente com a dança, também oesempenhou um papel importante, não só religioso e político, como Iúdico, entre os
Cokwe (Figs.2 e 3)
Quanto à organização social e política dos Cokwe, as informações são escassas. Rodrigues Graça, que. em 1846, per-
correu as terras de Ciboku rumo a Musumba, transmite uma imagem muito negativa dos seus habitantes, referindo-os
como populações dispersas e "errantes", sem habitat fixo ou permanente, em contraste com outros povos africanos vizi-
nhos. Os Cokwe que ele conheceu viviam na floresta em pequenos cercados de palha, muito rudimentares, no meio das
suas culturas alimentares5! LLázlo Magyar; tal como David Livingstone, que atravessou as margens desse território pouco
depois, confirma a imagem dos Cokwe como uma população bastante numerosa, organizada em pequenos agrupamentos
ou aldeias, muito disseminados e dispersos, quase invisíveis no meio do capim, e que não ultrapassavam um milhar de pes-
soas. Nas visitas desses viajantes nunca faltaram alimentos, quer para a subsistência, quer para o comércio
Tanto Silva Porto como Magyar salientam a importância social e simbólica da circuncisão entre os Cokwe, sem a qual
um homem não podia casar ou praticar poligamiaS8.Ainiciação dos jovens durante as cerimónias de circuncisão visava pre-
pará-los para enfrentar,com êxito, os enormes perigos provenientes da caça de animais grandes, em especial os búfalos e os
elefantes. Pelo mesmo motivo, as armas de fogo utilizadas pelos caçadores Cokwe levaram decorações simbólicas untadas
com misturas de substâncias naturais, incluindo elementos dos animais mortos, que as sacralizaram, assegurando o apoio e
a protecção dos espíritos 59, enquanto nos seus acampamentos eram exibidos os chifres e crâneos de búfalos e antflopes uti-

li Porto, 1942, p. 136. Henriques, 1997, p. 445. Capello e Ivens, 188 i , 1, pp. 159. 204. Segundo esies exploradores, os Cokwe passaram horas "sem fim"
"agarradas i qwssanja": lbid, p. 172
i' Graça. 1899, pp. 414-41 6. Henriques. 1997.

I' Livingstone, 8 5 7

' Porto: 1942. p. 136; Henriquer, 1998. p. 446


IP Redinha, 1950, p. 82: Henriques. 1998, p. 6 18.

29
h h\aii<ii,ic.ii i , , TSHOKWE I i.tii,i. ni~:,-,~,..
lizados para o fabrico de feitiços (Fig. 4). E possível que, na sociedade Cokwe, nos
meados do século XIX, o sacrifício humano ainda desempenhasse um papel
importante nos ritos religiosos ligados, sobretudo, a guerra: Segundo Silva Porto,
os Cokwe eram "extremamente sanguinários,fazendo frequentes sacriKcios huma-
nos para satisfazerem os precetos das suas crenças supersticiosas"
Magyar, que fornece as informações políticas mais detalhadas, acrescenta
ainda que, nessa data, os habitantes das aldeias Cokwe "...obedecem ao governo
popular assegurado por um certo número de chefes autónomos, chamados
Muanangana. Os mais poderosos são: Kanyka, na região noroeste da província:
Dumba, a norte; Pehu, no centro da província; Dina-Kala, junto da confluência do
Fig. 4 " N o alto das choças divrsavam~sechifres de rio Lume com o Lunge-bungo. Os principais lugares da província (...) são aqueles
bufalo oryx, e outros antilopes, uns ainda I~gadosaos
onde moram os chefes aos quais acabamos de fazer alusão, de que eles recebem
craneos. outros já desundos, cujo bm primcpal é a
confecçáo de feitiços ... Duas dúz~asde homens de O nome..." 6 1 .
aspecto feroz, enlameados c m manchas de sangue, Entre as décadas de I840 e 1880, os novos padrões de comércio externo
envoltos em pelles, eram os habitantes 8este recinto,
caçadores de prafisrZo. .." reforçaram, temporariamente, essas autoridades políticas regionais, contribuindo
Copello e Ivew. 188 1. 1, pp. 197-98 também para a emergência de novas gerações de líderes políticos e senhores da
guerra, a partir dos anos 1860, com a migração Cokwe para fora dos seus terri-
tórios ancestrais. Nesse período, as autoridades políticas Cokwe, em comum com
outras autoridades africanas, exigiam pagamentos aos transeuntes que atravessa-
ram os territórios sob a sua jurisdição, procurando controlar e conduzir todas as
transacções do comércio externo de cera, mariim e outros artigos com os líde-
res das caravanas portuguesas e africanas que penetraram nas suas terras.
Simultaneamente, empregavam todos os estratagemas ao seu alcance para reter
a presença das caravanas próximo das suas aldeias, atrasando os negócios
enquanto se aproveitavam das numerosas oportunidades lucrativas para impor
impostos e milonga (multas) sob o pretexto de violações de costumes locais e
códigos religiosos 6'.

Henriques. 9 9 8 . p. 446
Magyar, 1859, pp. 7-8. Henriques, 1997. p. 442
" Sobre as eitratagemas empregadas pelas autoridades politicas quiocas nas décadas de 1840 e 1850 velam-se, por exemplo, Porto 1885. pp. 166- 170,573;
Livingstone, 1963. pp. 92-93, I 16-1 17
Na década de 1840, muitas autoridades Cokwe continuavam submitidas à autoridade política do Mwont Yoov. Quase
todos os chefes da terra Cokwe contactados, nesse período, pelo sertanejo Rodrigues Graça se queixavam dos tributos
exigidos pelo Mwont Yoov, cuja autoridade ainda era tão absoluta que não se consideraram senhores "dos seus bens, dos
seus lares, da sua famflia, parentes e amigos" "'. Porém, esta situação estava prestes a mudar: N a segunda metade do século
as hierarquias de poder político africanas a leste do Kwanza sofreram mutações profundas devido ao aproveitamento novas
oportunidades comerciais proporcionadas pela economia co1onial.A maior parte dos recursos económicos e das fontes de
riqueza, incluindo escravos ou martim, não era mais monopólio das autoridades políticas ou dos mais ve1hos.A cera, o mar-
fim, a borracha, e outros produtos de exportação colonial podiam ser procurados e explorados por qualquer indivíduo livre
e hábil. Na sequência disto, verificou-se a crescente emergência de novas forças sociais e políticas apoiadas em iniciativas
individuais,e sobretudo, na aquisição de escravos ".

6.A expansão do tráfico de escravos interno, ca. 1850- 1880

Paradoxalmente, o desenvolvimento de comércio "legítimo" em Angola, pela sua articulação com diferentes formas de
escravidão vigentes nas sociedades africanas, também deu um grande estímulo à escravatura interna nessas sociedades ". A
oferta e a procura de escravos variavam muito conforme as preferências ou as necessidades económicas e sociais dos dife-
rentes grupos africanos 66. As fontes europeias disponíveis demonstram inequivocamente que muitos grupos africanos atri-
buíram um valor aos escravos e ao gado, superior ao valor das importações europeias, sobretudo na troca de artigos de
alto valor político e simbólico,tais como o mariim. Entre eles incluíam-se os Cokwe, talvez os maiores produtores de mar-
fim no interior na década de 1850. Este fenómeno é explicado em primeira instância pelas tensões eventualmente exis-
tentes nas sociedades matrilineares dessa região, cujos padr6es de residência tendiam a separar um homem da sua mulher
e tilhos. Daí o eventual interesse em comprar homens e mulheres como escravos, para constituir unidades familiares
(re)produtivas independentes das regras de linhagem Assim, à semelhança de outras sociedades vizinhas, os Cokwe apro-
veitaram as novas oportunidades comerciais para comprar mulheres adolescentes e rapazes, integrando-as depois nas suas
unidades domésticas e aldeias

''Graça. 1890, pp. 4 17, 440; Henr~ques.1998, p. 465


" Tratam-se de processos que se tornaram ev~dentespor toda a parte do interior nesse período: velae, por cxernplo, Dias, 1997
" Trata-se de um efeito geral em todo o contnente africano no século XIX: veja-se, por exemplo, Klein, 197 1 .
& V o rexemplo. ao que parece, os Lwena e lovale não incorporaram mulheres de outros grupos africanos nas suas aldeias, preferindo antes de vendê-las
aos Ovimbundu: Papstein, 1978.
" Veja-se, por exemplo,Areia. 1985, p. 9 3 Outras sociedades africanas onde as relatos europeus registam pmcura de escravas nesse pen'odo incluiram, por
exemplo, osvili (Mubiri), mas a norte. os Imbangala, e os Luboko e Haku, ao sul do Kwania: veja-se, por exemplo, Livingstane, 857. pp. 4 19. 447. Dias, 1997.
Carvalho, 1890194,li! p 745
A procura de escravos por parte dos Cokwe e de outras sociedades africanas era favorecida pela redução drástica do
tráfico transatlântico a parlir dos meados do século XIX, que produziu uma queda abrupta de preços dos escravos acu-
mulados nas aldeias dos principais fornecedores africanos, nomeadamente os Estados Ruwund, Kasanje, Matamba e outros
intermediários da zona do Kwango. Esta situação, juntamente com os altos preços de marfim em Luanda, Benguela ou
Ambriz, tornou cada vez mais lucrativa aos sertanejos portugueses e outros grupos intermediários, satisfazer essa procura
de escravos por parte das próprias sociedades africanas do interior; de tal forma que, na segunda metade do século, os
escravos se tornaram a moeda de troca principal nas transacçoes comerciais do mariim *. Deste modo, dentro de pouco
tempo, os escravos voltaram a ser a principal exportação do Estado Ruwund, sobretudo A medida que o marfim escasse-
ava". Pela sua parte, os Cokwe parecem ter privilegiado a compra de mulheres e crianças Aruwund, reforçando, assim, os
laços históricos e mitológicos que os ligava ao Ruwund. Souberam garantir a lealdade dessas mulheres, tratando-os bem e
"...nunca as vendendo, tal como não vendem os filhos que têm com elas..:'". Assim, os Cokwe fortaleceram, progressiva-
mente, o seu poder reprodutivo e militar à custa do Estado Ruwund que se encaminha, cada vez mais, para a dissolução.
Essa expansão do tráfico de escravos interno estava proximamente ligada, ainda, com o desenvolvimento de novos e
mais complexos sistemas de comércio centrados na rota que se dirigia, em direcção nordeste, para além do rio Kasai atra-
vés da capital de Kalamba, no território dos Bena Lulua e Baluba, produtores, tais como os Cokwe, de mariim e de bor-
racha ". Este caminho, aberto, nos anos 1860, pelos caçadores Cokwe transformou-se, rapidamente, na rota principal de
todas as caravanas que percorriam o interior de Angola, ultrapassando em importância as duas rotas paralelas, mais anti-
gas, que ligavam o comércio europeu de Bié e de Kasanje à Musumba, a capital do Estado Ruwund. Assim, na segunda
metade do século, tornou-se prática geral das caravanas de comércio portuguesas, oriundas de Mbaka ou do Bié, fazer

" Veja-se os comentários de Carvalho, 1890194, I. p. 272; 11, p. 272; IV, p. 745
O' Miller. 1970, p. 194. Por sua ver, o prncipal recurso das agricultures portugueses, protagonistas da nova economia colonial de plantaçza nos distritos de
Luanda ou de Moçamedes continuou a ser a mão-de-obra escrava resgatada por comerciantes portugueses às autoridades africanas do nterior. em
especal as do Estado Ruwund ou das terras de Njinga.Alias. na década de 850, teria sida mais barato comprar ou resgatar um escravo nessas regiões
para 15$000 do que gastar. anualmente, l8$000 na salário de um carregador; como era exigida pela lei. No terceiro quartel do século X X muitos dos
escravos empregadas nas empresas coonais do sul de Angola ou nas plantações de S.Tomé eram vitimas de guerras ou assaltos africanas. Entre as
populações africanas mais afectadas neste penado ncuíam-se os chamados "Ngangea". cujas aldeias dspersos e solados, eram muito vulneráveis ao
ataque por parte de grupos de guerreiros Ambo ou Cokwe vizinhos: sobre isso vejase Dias, 1998.
"
Carvalho, 1895, p. 858; 1890, p. 7 1 I
" Livingstone, 1963. p. 245
" Os caçadores e aldeias Cokwe romepram a expandir a partir da "Quiboco" para a margem direrta do rio Kwango e terras do chefe Ruwund, Mona
Kimbundu (Quimbundu), nas f i n a da década de 1850. Mas foi só nos meadas das anos 8 6 0 que os cacadores Cokvve atravessaram aquele rio.
penetrando nos territórios dos Bena Lulua e Luba: veja-se Carvalho, 189 I, p. I i. Miller. 970. pp. 182- 183
uma primeira escala na Bena-Lulua, mais ao norte, ou em terras como as dos Lwena, mais ao sul ". Nestes sítios, os Iíde-
res das caravanas trocavam mercadorias europeias importadas, junto com produtos da terra tais como panos, enxadas,
ou sal, para homens e mulheres escravizados. Deste modo, elas obtiveram os meios necessários para comprar o marfim
não só aos caçadores e produtores Cokwe, mas também às autoridades politicas dos grupos Luba e Kuba, a nordeste do
rio Kasai, onde existia, igualmente, uma forte procura de escravos ". Pela sua parte, os caçadores Cokwe que penetraram
nas terras dos Bena Lulua e Baluba, também se empenharam progressivamente, a partir da década de 1860, no comér-
cio e no transporte dos produtos de exportação colonial, organizando as suas próprias caravanas, que muitas vezes se
transformaram em simples grupos de pilhagem ''.Entre as décadas de 1870 e 1890, nas terras muito longínquas do Kasai,
as pequenas caravanas de caçadores Cokwe deram lugar; cada vez mais, a caravanas maiores e mais complexas, por vezes,
de centenas de carregadores, incluindo mulheres e crianças ". Elas concorreram com outros grupos rivais de intermediá-
rios africanos, entre eles os Mbangala7', MaSongo e Ovimbundu, trocando sal, espingardas e outras importações europeias
por marfim, escravos, e, mais tarde, borracha, que transportaram até aos mercados coloniais na costa atlântican.A expan-
são deste comércio foi assinalada pela abertura pelas caravanas cokwe de uma nova rota saindo da capital da Kalamba
em direcção a sudoeste, através de Mai Munene, para Kassanje, onde se encontravam os agentes do comércio colonial.
O desenvolvimento do comércio e das comitivas africanas, incluindo as dos Cokwe, influenciou a redução da circula-
ção de caravanas de comércio europeias entre a colónia portuguesa e as regiões mais a leste. Para esta situação também
contribuiu a decisão portuguesa, nos finais da década de 1860, de se retirar militar e administrativamente do interior; o
que levou à retirada também das principais casas comerciais portuguesas de Kasanje e do Kwango O afastamento pro-
gressivo dos elefantes do hinterland da colónia portuguesa por sua vez desanimou o comércio de caravana português,
levando ao abandono temporário do Bié. N a década de 1870, a insegurança ocasionada pela desintegração política de
Kasanje, em especial a hostilidade dos Mbangaia, voltaram a impedir a passagem dos comerciantes portugueses além

'* Arnot, 1889.p 81


Carvalho, 8 9 I, p. 55; Pogge, 1880. p. 52, citado em Miller; 1970, p. 184
Capela e lvens,188 1 , 1, p. 292
" Informações sobre o tamanho e a composição das caravanas Cokwe entre as décadas de I860 e 8 8 0 são fornecidos por Silva Porta, por Henr~quede
Carvalho e pelos vajantes alemZes Schutt, Pogge e Wissman: vejam-se, por exemplo. os dados citados em Henrques 1998. pp. 6 3. 616: Miller. 1970, p.
184: Bastin, 1961, pp. 28-29.
Veja-se Capello e Ivens, 1881.1. pp. 274-282 para uma descrição da organizaqão e das métodos do comércio de caravana Mbangala por volta de 1880.
Veja-se, também, Carvalho, 1890/94,1,pp. 271274; I , pp. 348-49.
P' Capello e Ivens, 188 I . p. 225. O viajante inglês, cameron, também encontrou urna caravana cornposia de mas de 700 carregadores cocwe, avimbundu e
Iwena, cada grupo mantendo-se separado dos outros , excepto quando era necessár~ocooperar mutuamente na defesa ou em ofensivas coledivas da
caravana: Camero, 1885. pp. 327, 364, 375-76: Miller 1970, p. 185.
Bo Ver a notícia publicada por Costa no Boletim Oficial da Governo Geral da Província de Angola (BOGGPA), 1870.8. 19 de Feverero. O desaparecimento
do marfim do hinterland da colónia portuguesa é referido no jornal 1uandense.A Civilização da África Portuguesa, no. 59.291311868
Kwango. Em contrapartida, do ponto de vista dos próprios Mbangala, a fragmentação do poder centralizado do Estado
de Kasanje liberalizou o comércio, favorecendo processos de fissão social e política internos conducentes a fundação de
novas povoações e aldeias com base nas escravas acumuladas e financiadas através dos lucros comerciais - uma situação
bem visível para os viajantes europeus em Kasanje em princípios da década de 1880. Semelhantes processos produziram
efeitos ainda mais imprevisíveis entre os Cokwe, dando lugar a uma expansão territorial e militar de grande envergadura,
com consequências dramáticas para a região.

7.A expansão territorial das aldeias Cokwe

Datavam pelo menos dos finais da década de 1850 as primeiras migrações de aldeias e famflias fora do Ciboku, acom-
panhando os movimentos dos caçadores e das caravanas em direcção ao norte, para a margem direita do rio Kwango, e
para as terras do representante político Ruwund, Mono Kirnbundu8.Uma década mais tarde esse movimento tinha-se trans-
formado numa migração lenta mas maciça de aldeias inteiras em direcção não só a norte mas, sobretudo, ao sul, para uma
região relativamente vazia, de pouca população.A migração continuava até ao século XX, sendo uma realidade dinâmica
que determinou o mapa étnico desenhado por Ferreira Diniz em 1914 (Fig. I).
Como interpretar esse fenómeno? D e facto, desde o século XIX, os motivos dessa migração Cokwe têm sido objecto
de muito debate e especulação.Tratava-se de uma deslocação determinada pela simples perseguição das manadas de ele-
fantes, como pretendia o explorador português oitocentista Henrique de Carvalho? Era simplesmente para fugir à seca e
à epidemia, como sugere Marie-Louise Bastin?
Será que a migração resultou fundamentalmente de tendências históricas para a fissão social, alimentadas por ambições
individualistas de fundar novas unidades familiares autónomas com as escravas compradas através do comércio, como sali-
entam, por exemplo joseph Miller e Manuel Laranjeira Rodrigues de Areia? O u será que se tratava, desde logo, de uma
estratégia política colectiva e deliberada para se libertarem do controlo do império Ruwund, dominando e "eliminando"
Musumba, como afirma Isabel Castro H e n r i q u e ~ ? ~ ~
E razoável supor que todos esses motivos teriam influenciado, a diferentes níveis e em diferentes momentos, a migra-
ção cokwe, sendo impossível, no entanto, distinguir motivos comerciais de motivos políticos pelo simples facto que a situ-
ação dos Cokwe não era, de maneira nenhuma, homogénea. A o nível mais geral, parece evidente que a acumulação e a
incorporação nas aldeias Cokwe de crescente número de escravas, obtidas, desde os meados do século, a partir de tro-
cas comerciais do mariim, ou de raids contra outras populações do interior; teriam alimentado tendências mais antigas,

O' Cavalho, 1898. pp. 223-224: Henriques. 1997, pp. 601.602. basdeando-se nas informações fornecidas pelos exploradores alernáes Schutt e Buchner em
8 7 8 e 1879.
O' Henriques, 1997, pp. 602-603

34
n A ~ I X Z , ~ , ~, ,~r \ , TSHOKWE
~~.~,~ i i ' i r , ~n w i ~ w i i i ~ ~ , ~
sempre presentes, de tissão social e política, dando lugar constantemente a novas unidades familiares e políticas autóno-
mas. Por sua vez, as pressões demográficas resultantes do aumento dessa população escrava foram, sem dúvida, agravadas
por uma sucessão de crises, excepcionalmente severas. de seca e fome. seguidas por epidemias de varíola, que assolavam
toda a costa e interior de Angola entre 1857 e 1863 e ainda durante a década de 1870, levando a fugas e migrações de
população em várias zonas do território ". Os Cokwe encontrados pelo explorador Serpa Pinto entre os Luchazi nos
finais desta década afirmaram ter emigrado fora das terras de Ciboku e de Alto Cikapa para fugir à doença e também
por causa da falta de caça nessa região 84. E difícil escapar da conclusão que foram esses os factores determinantes que
levaram muitas famílias Cokwe a saírem, inicialmente, fora das suas terras de origem. Mas a mobilidade dessas unidades
familiares Cokwe foi fortemente influenciada também pelo desejo de estabelecer contactos directos com o comércio
europeu, o que é demonstrado pela sua presença, nos princípios da década de 1860, na margem direita do rio Kwango,
frente à feira de KasanjeBS.Por sua vez, novas iniciativas, no sentido de aproveitar a crescente procura europeia de bor-
racha, teriam influenciado a maior velocidade da migração dos Cokwe a partir de 1870. Sem dúvida que foi esse comér-
cio que proporcionou aos Cokwe os meios para abalar as autoridades políticas Ruwund que há três séculos Ihes impu-
seram tributos. Mas parece altamente especulativo, sem outras informações, falar da existência de um projecto político
colectivo de esmagar o poder do Estado Ruwund, atribuindo a ele a primazia em termos de motivo para a deslocação e
expansão Cokwe 86.
As exportações coloniais de borracha iniciaram-se a partir de Benguela nos finais da década de 1860.Atingiram quan-
tidades significativas na década de 1870 e, em 1886. o seu valor ultrapassou o total do valor das exportações de cera e de
marfim ". A maior parte das primeiras exportações de borracha foi produzida pelos Cokwe a partir da seiva de trepadei-
ras e de árvores, nas mesmas florestas do Ciboku e do Alto Cikapa que produziam a cera de abelha. N o entanto, a bor-
racha rapidamente desapareceu dali devido à destruição dessa fonte florestal, obrigando à deslocação de pessoas mais ao
norte e ao sul, em busca de novas zonas de exploração. Continuando a migração iniciada já na década de 1860, familias
Cokwe penetraram nas galerias florestais, pouco habitadas, ao norte e ao sul, infiltrando-se nas terras dos Aruwund e dos
Luchazi respedivamente.Tratava-se de um movimento progressivo, embora fragmentado e disperso, de aldeias fundadas
independentemente umas das outrase8.Uma vez estabelecidas, as suas aldeias cresciam rapidamente através da incorpora-

Ibid. Sobre as epidemias de Angola neste período, veja-se Wheeler. 1964, pp. 356-357. Para uma análise detalhada da articulação entre os desastres
ecológicos e as abvidades coloniais entre os séculos XIX e XX, veja-se Dias, 198 1
Pinto, 1880, 1, p 234
O' Carvalho, 1998, pp. 223-224
B6 Cf Henriques, 1997, p. 663
O' Childs, 1949, pp. 205, 208
Pinto, 188 I ,Vol. I, p. 234
FF. 5 " A povo%+ dos Qutoms de tal modo
se dwtacava do que atC, entao cmheriam que nF@
ttsbmor ;m desejo de &wa-Ia na n u m cartsra
de vagem: e corno não fmse trivial a construçã4 de
.
c% sobre o o h a k t e dirreram ncrs 6 s da oovm&
,
a q u m mntwOgamos,-r isso neces.siwg, porque no
Umpo das gan& trshhuuas acodem ao ntlo s aguas
e enehurradas ficando o solo PaJtosa por muitw dm

ção e rápida assimilação cultural, de mulheres de outras grupos v~z~nhos,


em particular as mulhew &uwunde. Q "tmom"
da borracha favoreceu o mwmento migratório de aldeias inteims, uma vez que a recolha e a preparagáo de bowachã. em
contraste com a caça conrtituia uma adividade rompartilhada pelas mulheres e crianw, que asslm acompanham os
"
homens em busca do mesmo produto. Inicialmente bem-vindos nas t e m dos Aruwund, devido não só a sua habilidade
como caçadores :5 Temiros", como também à sua tendência para çe estabelecer em m a s flwestm e montanhosas não
habitadas, adaptando a construç%odas suas casas an, meio ambiente ecológco (Fig 51, a presença C o k se tornou cada
vez mais violenta com a intensificaç% desse movimento mtgratóno nas décadas de 1870 e 1 880
Apesar dessas trmsformat$es económrcas e da sua rápida expanao demográfm. e terntor~al, parece evidente que os
habitantes dessas aldeias migrâlónas, sbm perdeir a wa autonomia, mantinham a comi@nciacolectiva rk. sua identidade his-
Canco-cultural Cokwe, expressa atràVé2 dos seus mtos de origem e de outras marcas culturais, tais como as artes de escul-
tura e metaJ~rgia~~. E provável que essa tdentrdade colectiva f o ~ ereforçada aincia através de rituais complexas de culto
religioso, unwrsais entre os Cokwe no &ulo XX, em torno do$ mahombo P3. Com efeit~,a rnigra@o Cokwe era uma
migraeo coesa, em que aldeias nunca perderam contactos; umas ~ o m as autm. É evdente dos relatos de explorado-
res tais como, por exempla Capeio e Ivens que, nã;o obstam as s~ tend2ncias para a figsão social e polít~ca,gmceparte
dos Cokwe não s 6 do Ciboku e Aito Giba mas também dos novos tewit6rios povoados @os migrantes man a nor-

" Carvalho, 1890, p 487


¶ Miller: 1970,p 187
* Tordax 1925, p 271
" Hmques 1997, p 604
" Enue os C o h , na de'cada de 1950. O temo hamba x apl~g'aaa um m d e mimm e dersidade de obprtos con%&rados a ser imbuides com
dereritss caiegurtab de força ou poder sobrenaturais,originando ~s antBpaSMdos.vela-se Lima I b7 I, p 79
deste, ainda mantinha, nos finais da década de 1870, grande respeito pelos seus
chefes políticos regionais. A importância dessas autoridades políticas entre os
Cokwe é evidente na imagem de um " Muata'do T'Chiboco" (Fig. 6), fornecido
por Capelo e Ivens. Em 1877, o chefe Cokwe N'Dumbo-Ternbo9' (Fig 7), ... "

homem elegante, de figura distinda, typo intelligente, ar nobre e maneiras delica-


das...", recebeu os dois europeus diante um enorme cortejo, com grande cere-
mónia, dizendo que "...Os meus domínios são tão grandes, que se estendem
daqui a Catende e para o norte até Quimbundu; nelles só eu governo. A mim
tudo obedece" 9s. Pouco depois, em 1879, outro viajante europeu, o alemão Max
Buchner; refere-se a existência de três grandes titulares políticos Cokwe- Mono
Ndurnbo o Ternbo, Mona Kiniarna ou Mushiku, e Mono ffissenge - triunvirato esse
que ainda dominava politicamente todos os Cokwe do nordeste angolano na
década de 1950 96,
Nessa data, a ocupação progressiva de territórios a norle e ao sul do Ciboku
assegurava aos Cokwe a hegemonia comercial a leste dos rios Kwango e Kwanza.
Os seus chefes políticos impediam a livre circulação de caravanas de comércio
coloniais a leste do Kwango, bloqueando a passagem dos rios e caminhos, e exi-
gindo rnilongos e direitos de passagem excessivos a outros grupos de comercian-
tes africanos. Praticavam razias violentas contra as caravanas que se opuseram a
essas exigências, aproveitando-se das cargas abandonadas e retendo ou ven-
dendo como escravos, os carregadores capturados ". Em 1878, os Cokwe esta- Fig. 6
belecidos em Kimbundu ainda pagavam tributos ao chefe Ruwund, Mono
Kirnbunduq8.Porém, a marginalização comercial e crescente pobreza do Estado

94 De acordo com Capello e Ivens (1881.1. p. 161),"Tembo aqu significa principe, e na região dos lagos parece designar elephante.:'
'' Capello e Ivens, 188 1,1, pp. 16 I - 164. NdurnbaTemba " ..Trajava um panna de riscado preso á cinta por uma correia,tendo suspensa adiante pequena pelle
de anteope. Casaco de fazenda escuro, coberto de quadradinhai bordados a cassungo... Uma coroa de IatZo, como a das monarcas da Europa.... cingia-
lhe a fronte, tendo na parte inferior uma fita bordada a missanga de côres. Pendia-lhe da pescaco exótico colal; onde figuravam das búzios( Cyprea
moneta) e um pequeno chifre de antilope. Os seus dedos, guarnecidos de annesde latãa,terminavam por longas unhas do mesma mebl..:'. Marie Louise
Badin recorda que Ndumba significa leão: Bastin, 1994, p. 4 1 .
Lima, 9 7 I, p. 58, citando Büchner; 1883. p. 3761
" Carvalho. 1890194. V, p. 745,111, p. 89. Santos, 9 8 I, p. 67. Os exploradores Raberto Ivens e Hermenegildo Capello também afirmam que os Cabe fingiam,
perante as popula@es africanz do interiol; ser eles próprios os produtores das mercadorias europeias que levavam nas suas caravanas: Capello e Ivens, i 881.
" Bastin, 1961, p. 26, citando Schutt (188 1).
Ruwund mais a leste tornou o Mwant Yaav e a sua população cada vez menos
capazes de resistir às incursões dos Cokwe, que já se encontraram entre as mais
numerosas e poderosas das formações sociais e políticas apoiadas pelo c o m é ~ i o
colonial a leste do Kwanza.

8."Senhores da Guerra"

Na década de 1880, a escassez progressiva de recursos causada pela destru-


ição sistemática dos elefantes e das árvores de borracha, levando à concorrência,
cada vez mais intensa, entre os numerosos grupos de produtores e intermediá-
rios africanos que operavam além dos rios Kasai e Kwanza, gerou grande insegu-
rança e violência entre as sociedades dessa região. Aumentou-se a prática das
incursões e pilhagens contra as populações do Kasai, da Lunda e das outras
regiões mais a leste. Os Cokwe, juntamente com os Lovale e Lwena da região de
Ngangela" emergiram como os principais assaltantes dessa zona, transformando-
se em guerreiros que assaltaram e aterrorizaram a população em busca de escra-
vos e alimentos. Os Ovimbundu e Mbangala, que antes tinham assaltado essas
populações para escravos agora preferiram obtê-los em troca de armas de fogo,
o que contribuiu para aumentar a violência através da região, tornando-se espe-
cialmente notórias, neste período, as correrias esclavagistas dos Cokwe. As cara-
vanas de comércio Cokwe tornaram-se, cada vez mais, grupos de salteadores. Os
Fig. 7 " T r a j a v a um panno de riscado preso á cinta
por uma correia, tendo suspensa adiante pequena poucos viajantes europeus que atravessaram essa zona na década de 1880 refe-
pele de antelope. Casaco de fazenda escuro, coberta rem a presença de caravanas de guerreiros cokwe, às vezes compostas de cen-
de quadradinhas bordados a cossunga... Uma coroa
de latão. como a dos monarchas da Europa... cingia- tenas de homens, que viviam de pilhagem, caindo sobre aldeias indefesas, ou rou-
lhe a fronte, tendo na parte infer~oruma fita bordada bando outras caravanas de comércio. A superioridade dos Cokwe baseava-se na
a missanga de cores. Pendia-lhe do pescop exotico
collar. onde figuravam dois bulios (Cyprea mooeta) e sua posse de armas de fogo, permitindo-lhes aterrorizar as populações do Kasai,
um pequeno chifre de antilope. Os seus dedos, guar- onde as mesmas armas eram, ainda, relativamente escassas. Altamente móveis e
necidos de anneis de latão, terminavam por longas
organizados, os Cokwe operavam a partir de campos de guerra, dos quais foram
unhas do mesmo metal...".
Copello e Ivens 188 1, i, pp. 16 1-1 64. saindo patrulhas em busca de mantimentos e mulheres IM.

Sobre os raids esclavagistas dos Lovale contra os Aruwund e Aruwund (Lunda)-Ndembo, veja-se Papstein, 1978, pp. 179- 9 0 .
Im Carvalho, 1890. pp. 472-73. para outras fontes veja-se Miller. 1970, pp. 190- 19 I
A principal vítima política dessa violência foi o Estado Ruwund. Com a abertura da nova rota ao Kasai, Musumba ficou
cortada do comércio externo de borracha e cera uma vez que as caravanas já não se dirigiam para o rnusurnb do Mwont
Yaov. Com efeito, nos finais dos anos de 1870, os Cokwe impediram os contactos entre o musumb e os agentes das fir-
mas portuguesas estabelecidas em Mona Kimbundu, o posto oriental mais avançado, desde a década de 1840, do comér-
cio português, fundado pelo Mwont Yoav para impedir os Cokwe de impor o seu controlo sobre a rota principal de
Kasanje para o Estado Ruwund ' O 1 . Este entrou em declínio económico, a sua população visivelmente mais pobre, compa-
rada com as aldeias Cokwe da mesma zona. A situação foi exacerbada, ainda, pelos conflitos dinásticos internos os quais
levava à desintegração do antigo"império" Oi. Em 1875, os Cokwe ajudaram a instalar um pretendente no título de Mwont
Yoav, em troca do direito de pilhar e capturar escravos. Daí em diante, os Cokwe tornaram-se mercenários dos diferen-
tes candidatos políticos rivais entre os Aruwund, reunindo grandes grupos de guerreiros com a promessa de pilhagem e
aquisição de mulheres .'O
A partir desse momento, uma nova geração de guerreiros cokwe parece ter-se transformado em chefes políticos, uti-
lisando a guerra como meio de conseguir o poder político. O conflito e a violência alastrou-se até que, nos meados da
década de 1880, uma série de batalhas entre as forças do Mwont Yaav e os Cokwe acabará na derrota decisiva daquele.
Em 1885, os guerreiros Cokwe saquearam o rnusumb, entregando-se, depois, ao saque geral das aldeias e escravos
Ruwund " . A derrota final deu-se durante a expedição colonial para o leste angolano do Major Henrique Dias de Carvalho,
que partiu para Malange, em 1884, tendo, como objectivo, criar uma cadeia de estações ou acampamentos em direcção ao
rnusurnb do Mwont Yoov, de modo a afirmar a ocupação portuguesa daquela região. Em 1886, Carvalho atravessou o rio
Kasai, concluindo, em janeiro de 1887, um novo tratado de vassalagem com o Mwant Yoav interino, Mukanza 'O5. O ano de
1890 marcou o auge da expansão dos raids e do comércio Cokwe contra o Estado Ruwund. Nos anos seguintes, sofre-
ram uma série de reveses até que, em 1898, os Aruwund, reunidos sob a liderança do Mwont Yaov Mushid e o seu irmão
Kawel, conseguiram expulsar os guerreiros Cokwe do coração do "império" 'O6. N o entanto, na primeira década de 1900,
os Cokwe continuavam a movimentar-se além do rio Kasai, nas terras dos Kuba, prosseguindo, com violência, os seus ape-
tites esclavagistas, não obstante a presença belga I".

'O' Carvalho. 890, p. 143. Idem.. 1890, pp. 556-560


'" Para a história da política interna Ruwund neste período, veja-se, por exemplo. o estudo de Kananmpumb, 1973, pp. 25-50
'" Carvalho. 1890, p. 487
lm Para uma descri~ãodeites acontecimentos, veja-se Carvalho, 1890, especialmente pp. 599-602,626-647. 65 1-56
Duysten, 1958, p. 94. citado por Pél~ssiel;1986. 1, p. 355
Duyster. 1958, p. 98, citado por Péissier. 1986, I, p. 372
" Bastin, 196 1, pp. 28-29
9. O fim da autonomia económica e política Cokwe

A crescente afluência das comitivas africanas, entre elas a dos Cokwe, para a
colónia portuguesa a partir da década de I870 transformou algumas das antigas
feiras e entrepostos comerciais do interior em empórios urbanos muito movi-
mentados. Em especial Malanje, fundada em 1857, transformou-se, depois do
abandono da feira de Kasanje, no principal entreposto comercial do interior do
continente para as firmas europeias estabelecidas em Luanda. N a década de
8 8 0 , o comércio de Malanie, apoiava
, cerca de 20 estabelecimentos de maior
dimensão, com casas filiaes que se estendiam na baixa deTala Mugongo e mesmo
na feira de Kasanje. Os membros das caravanas Cokwe, Mbangala ou Ovimbundu
negociavam com os representantes dessas firmas a venda de borracha e de escra-
...
'i,: vos em troca de bens europeus importados.Também trocaram borracha e escra-
vos por aguardente fabricada por comerciantes omboquistos que migraram para
Malanje para interceptar e organizar o comércio de borracha e de escravos aflu-
indo do interior mais a norte e a leste para a costa atlântica '''.Inevitavelmente,
esses contactos favoreceram uma maior europeização dos negociantes africanos
que se dirigiam a esses centros, incluindo os Cokwe. De acordo com Silva Porto,
sempre que contactaram com os comerciantes europeus para lhes propor algum
negócio, os Cokwe vestiam as suas melhores roupas europeias, incluindo chapéus
e sapatos Iw. A europeização do vestuário dos negociantes Cokwe na década de
1880 é também registado por Henrique de Carvalho (Fig. 8) O . Mesmo concor-
dando que o uso de roupas europeias representava um comportamento pontual
e ritualizado, servindo para estruturar as relações Cokwe com o comércio euro-
p e u , esse comportamento é também indicativo de um processo de crescente
diferenciaçxo interna provocada pela sua interacção com o comércio e a cultura
Fig. 8 "Um negociante Quioco" europeus. Neste contexto, a imagem do Cokwe como caçador e guerreiro,

É possível que esta migraçáo contribuiu para o notável declínio de população e redqão da importância económica do próprio distrdo de Arnbaca, antes
o distrido colonial mais rica em escravos e gado: vel: por exemplo, Capello e Ivens, 188 1, Il, p. 3. Carvalho. 1890, p. 8 8
'm Henriques, 1997, p. 6 19, citando Porta, 1885, pp. 169. 603 e 6 2 ; Id., 1886. p. 3 16
' ' O Carvalho, 890.

"' Henriques, 1997, p. 6 18


exempliiicado pelo magnífico desenho de Capello e Ivens (Fig. 9) representa só
uma das possíveis imagens de uma sociedade cada vez mais complexa.
D o ponto de vista do comércio e do governo colonial português, o afasta-
mento progressivo das fontes do marfim e da borracha para o interior do conti-
nente africano e a presença alemã na região tornavam cada ver mais urgente des-
bloquear os caminhos e ocupar o território além-Kwango I". Passo importante foi
a reocupação militar de Kasanje, em 1883 I". Nos anos seguintes, verificou-se a
proliferação dos estabelecimentos comerciais portugueses entre Malange e o rio
Kwango. Pela sua parte, o governo português encarava este processo como a
forma melhor e menos dispendiosa não só de garantir a afluência do comércio
Mbangala e Cokwe à colónia portuguesa, como também de conseguir o avanço
pacífico da ocupação colonial do interior ' I 4 . Porém, entre 1890 e 1920, a pressão
da concorrência belga na Lunda e as reclamações inglesas de soberania na região
dos Ngangeias ' I s obrigaram os portugueses a consolidar as fronteiras de Angola
e a impor; à força, a presença política e administrativa portuguesa nessas áreas.
Nas décadas de 1900 e 19 10, uma série de expedições militares alcançaram o
domínio português sobre as regiões produtoras de borracha e as redes de
comércio locais do leste de Angola contra a resistência violenta das autoridades
políticas africanas, em especial entre as populações Cokwe que antes dominavam Fig. 9 ' . . E um cacador de T'chiboco, alto, esguio.
o comércio de borracha nas bacias do Kwilo e do Kasai 1 6 . secco e nervoso, de symbóicas pennas e ch~frena
cabe~a.longa pera, emendada com cabello alheio,
Com a sua incorporação progressiva dentro do novo Estado colonial, a auto- tendo no extremo uma chapa de suspensapar
nomia económica e ~oiíticados C0kWe terminou. Para isto contribuiu decisiva- correia. a aue se acham lieadar duas oelles de chacal
de hyena, um n'4abiiem'Poco,m@eixe, butesso~
mente também o coiapso dos preços internacionais da borracha, em 19 13, que
o benze e banga, termnando por manilhas nos pulsos
efectivamente pôs fim à grande era de exploração europeia mercantil de maté- tornoze~os...~~ ,
rias-primas, juntamente com as oportunidades de resposta económica africana. Cape!!o e {vens, 1881. I, pp. 193-194

"> Carvalho, 1890194. 1. p. 362


'" AHU,Angola, I" Reparti~ão,pasta 3, ofício"Relatória do governador Geral de Angola referido ao anno compreendido entre o I" de Setembro de 8 8 2
e eeual dia e mez do anno de 1887'. publcado em O i v e r a e Co~rtoeds., 1968. 1. pp. 662-63:AHU.Angola. I ' Reparticão, pasta 4. ofício "0.467, do gov.
geral, de 14/911884, com os documentos anexas, publicados em Oliveira e Couto. eds. 9 7 1, I , pp. 26 -263.
'" Carvalho, 1898, p. 30 1
' ' iBaker 1905, pp. 201 2 0 4 . citado por Papstein, 9 7 8

" I Para as fonts e urna cronologia detalhada das opera~ões militares e resistências africanas no leste de Angola. vejaie, sobretudo Pélissier 1986, I, pp 361 -397

41
TSHOKWE
N o seu lugar; os empreendimentos criados pela crescente presença, na África Central, de capital industrial europeu, exigiam
sobretudo trabalhadores. Daí em diante, as actividades económicas cokwe passaram a ser esmagadoramente subordinadas
aos interesses agrícolas e industriais coloniais. A descoberta de diamantes no novo distrito da Lunda, em 19 12 ' I 7 , e a for-
mação, cinco anos depois, em 1917, da Diamang pela Companhia de Pesquisas Mineiras de Angola, acelerou a subjugação
económica e política dos Cokwe para o nível de serventes. Para a exploração manual das minas de diamantes seria neces-
sário o recrutamento forçado, anualmente, de milhares de trabalhadores. Contra esta nova realidade, alguns grupos de
Cokwe ofereceram uma resistência guerreira fragmentada e episódica que foi finalmente apagado pelas colunas militares
portuguesas nos meados da década de 1920. Para fugir aos impostos e ao trabalho forçado, grande número de Cokwe,
Luchazi, Mbunda, Luvale e Ndembu migraram do leste de Angola para a Rodésia do Norte, onde a incipiente administra-
ção inglesa se encontrava temporariamente mais fraca do que a portuguesa. Outros evitaram o trabalho das minas arris-
cando-se na lucrativa actividade de contrabando de diamantes ' I 8 . Outros ainda refugiaram-se no vasto sertão, subsistindo
longe de quaisquer contados europeus para além da década de 1940 ' I 9 .

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Style and ethnicity:


reflections on methods for the study of arts in the Zambezi and Kasai headwaters

"Le renoncernent à Ibngélisrne de lhtérêt ptir pour io prme pure est le prix qu'il @tit payer pour
comprendre Ia logique de ces univen socioux qui à travers I'alchimie sociole de leun Iois historiques de
fonctionnernent, porviennent à extraire de I'afronternent souvent irnpitoyoble des possions et des intérêts
porticulien l'essence sublimée de liiniversel; et ofrir une vision plus "raie et en définitive, plus rassurante, porce
que moins suhumaine, des conquêtes les plus haures de kntreprise hurnaine" (Bourdieu 1992, 16)

This paper is a short discussion of style in the arts of some peoples of the upper Zambezi and upper Kasai, in particular;
among the Chokwe, Lunda and Lwena, or Luvale peoples. Firstly I shall discuss current uses of the concepts of art, style and
ethnicity.The first question I asked myself was: what is the validty of the distinction and classification o f ethnic styles, and is this
approach useful t o our knowledge of the works of art? Secondly are these apparent styles pervasive in all fields o f art
production?Thirdly would there be something like regional styles in the cultural area of Zambezi and Kasai headwaters? It is
not my purpose here t o practically analyse and discuss the vanety of "ethnic styles" o f the region in any way or t o propose
definite answers. Rather the purpose isto discuss the dificulties of the concept and the necessity t o broaden the scope of our
research in time, space and theory in order t o unravel variants and invariants in the formal aspeds of w o r k o f art.
A number o f concepts underlying my argument are dei-ived fmm Alfred Gell's anthropological theory o f art ( 1 992;
1996: 1998) which, departing from institutional and aesthetic definitions, defines artworks mostly as indexes ofsociol ogency
rather than meaningful representotions, or depictions of events, forces o r beings even though they can partially fulfil this
role at times. Any object, including the human body and music can become "art" if they have an interpretation that reveals
the fact that they ernbody "complex ideas and intentions" (Gell 1996, 15) in a web o f social relotionships, and if they
require, for their making o r for their further use, technological skills whose mastery remains out of reach of the common
of the mortals (Gell 1998) . A r t is also conceived of as a component of technology, the "technology o f enchantment", that

Borir Wartiau, Royal Mureum for Central Africa de Tervuren. Bblgica.


' Alfred Gel's theory itselfwas influenced by the work of E. Gombrich (Artond lllusion, 1960).who had theorised on the relatonship betuieen formal aspecis
af works of art and the effed, or impact, of the illusion which they procure.

49
8 , , TSHOKWE I ' i . , , , ,
differenciate art frorn other artefacts by investing thern with rnagical powers (Gell 1992): "As a technical systern, art is
oriented towards the production o f the social consequences which ensue frorn the produdion o f these objects.The
power o f art objects sterns frorn the technical processes they objectively ernbody: the technology o f enchantrnent is
founded on the enchantrnent o f technology" (Gell 1992,44). Any object has a sign and agency value that primes over its
pedestrian use value, and this is especially true in the case of works o f art because they ernbody intentionality lt is here
that a distinction between the artisan and the artist, according t o the present working definition of"artW,can be addressed:
the artist could be distinguished as slhe who has a role t o work on social relationships via the object slhe has crafted,
which brings about the ernergence of a belief in the mystical and the rnagical power o f hislher object and hislher person.
This, obviously, extends substantially the field o f art.To this purpose, I rnust therefore rernark that I use the terrn "art"
accordingly (liberally, in the context o f art-historical scholarship) t o refer t o artefacts "in the vicinity of which" social agency
is concentrated, oriented or created (Gell 1998) and not t o objeds distinguished only by subjective aesthetic judgernent.
A certain effort o f "rnethodical philistinisrn" (Gell 1992) is therefore required t o avoid unduly narrowing the field o f the
anthropological enquiry into the artistic phenomenon due t o the effects of one's own aesthetic judgernent.
I refer t o works o f art as "indexes" o f relationships, rather than "syrnbols" o f other objects, as has prevailed in the
discipline, because in Chokwe related arts, rnost artefacts are active elements, o r "agents", in networks o f inter-related
social actor8 (hurnan beings, spirits, deities, forces, etc.), and not rnere tokens "syrnbolising" some other distinct reality alien
t o this world. For instante, a rnask is a rnask, a likishi (or -kishi) that rnen use t o perforrn specific social purposes (Photo.
1-2). Whatever its style, it rnay relate by its specific features t o other cultural notions such as social characters o r rnythical
heroes, but it has irnrnediate reality and power in the hic et nunc o f its instantiation in perforrnance.The rnask is properly
a fetish that has will and power: it has existence of its own. What people see and interact with on the village scene is the
rnask as agent, that scares, soothes, o r arnuses, not an irnage that stands for some alien and unseen reality that needs t o
be deciphered.The sarne goes for rnost other art forrns such as carvings o r rnagical paraphernalia.
I have no interest in discussing the word art itself. and those who already resist the objectivation, rnay wish t o cal1
sornething else the objects I refer t o if bothered by such a broadening o f the concept. I will rernark, however; that such a
working definition o f art has t w o major advantages over the philosophical, aesthetic, or institutional definitions: it offers a
rnethodological approach that atternpts t o free frorn any aesthetic, historical o r social constraint in the appreciation o f the
adequacy o f the inclusion o f the artefact in the category "art". As a consequence, it probably includes anything that has
ever been called art in all intellectual traditions, European, others, and a little more. Incidentally, a category constructed in
such a way may also preserve frorn anachronisrn and ethnocentrism.This is not to denigrate the sociology o f art
circulation o r aesthetics.The agenda is different. In contra*, any "essentialist" definition of art o r the artist will be the
produce of an institution, a judgernent o f taste, and can not therefore be o f any help for an anthropology o f art.
Phora 1-2 (leít) Kaielwo mask photagra-
phed amang Congolese Chokwe around
19 19 5Afr1caMuseum, Tervuren (nght)
Kalelwo mask among the Luvae of Lambia
Phota B Wait~au,1995 Feaiures of the
face are arnong the few elements which
may recall an eihnic-based style The struc-
ture making and decoratio" of t h e rest of
the masks heads and of the costumes are
closerThe role and signficance of this fear
some mask, always equipped w ~ t hmachete
and strck. is similar today amang the Luvale
as ri war 80 years and severa1 hundred
m~lesaway among the Chokwe

Style as a concept

The cornbination of formal qualities in a work of art, or an ensernble of works of art generally is referred t o as style; it
can be observed in shape, mattel; coloul; rnotitf topic or c~rnbinationof these various elernents. Style is distinct frorn
meaning, function ar nature. Style, as a visible recurrent phenomenon. does not here refer t o especially or restridively
accomplished craftsmanship of some sort, but t o formal aspeds of artefacts, without any of the judgement of aesthetic
value that should be left out of a fully reasoned approach (6 Gell 1992; 1998; Bourdieu 1992). It has been frequently noted
by ethnographers that rnost African art production was not meant to be "beautiful" in the first place, that is in Kantian or
Hulmean aesthetic terms, but rather to be eficacious and forcefu1.A~in any a r t it needs enough agency t o have an "impad"
and serve its purpose. In our context, the queer notion of"ututomboM(the "beautiful", in Chokwe) is, by the state of the art
of our knowledge of emic notions of aesthetics, a useless concept. An aesthetics of perception, and one of production
would require much more specific field research data than is available today
A proof of the arbitrary character of this approach is that the objed categories detining art in the eyes of Western
scholars of African material culture (and artists and coilectors too], have varied with time, not so much because it was
"discovered" that such o r such type o f artefad actually was o r was not art
arnongst the culture that produced it, but a projection o f the shifting focus o f
Western aesthetics (c6 MacGaffey 1998).To confirm this, one can quote Susan
Vogel's use of a vulgar African fishing net as piece of art in her famous ArtlArtif~ct
show (Vogel et ai. 1988), thereby replicating some art statements that Duchamp
and Warhol had produced in the field ofAmerican art.The museum o r a r - gallery
seleds and "frarnes apart" what it will establish as "African Art". that now includes
plain ladders and wooden beds that often were never intended t o be anything
like art by their creators. Traditionally, the rest o f the material culture,
"ethnographica", is (luckily) ignored by the art market and confined t o
substantially less aesthetically valued displays in museums. For MacGaffey,African
rnagical objects such as Kongo rninkisi actually could only become art, in the
European sense o f the term, once they had been rernoved from their context o f
origin. and their accompanirnents, name, identity, fundion o r surface (some were
re-shaped, varnished, etc) t o meet up with Europeans standards. In the
nineteenth century (and until quite recently) the rnuseum o f ethnography, was
meant t o "precisely exernplify not art but the contrast between primitive cultures
and those capable of producing art" (1 998, 224). A corolary has been that the
debates on the nature o f exotic artefacts ("art" or "not art") have long served
the purpose o f defining our Euro-American conception o f art as against that o f
Others' (cfibidern, 222), and another has been t o ignore the logics that prevailed
in the fields o f art produdion that gave rise t o the making and use o f these
objeds (Bourdieu 1992).
In addition, I observe that styles are an objective reality and that some of
them seern cross-culturally t o have the capacity t o captivate and titillate the gaze.
even out o f their original context of use, thereby demonstrating superiority in
terms of visual agencyThis could be the case for instance o f canonical "Ucokwe"
style carving (Photo. 3, 4), t o which I will come back later However; this visual
Phoro 3 Ucokwe style carving of mythical hero agency does not bring meaning in itselí and if our eye is caught, our rnind is not,
Ch~bindalunga, collected n 1904 in the Moxica or at least not in a way that was intended by the artist. In other words, visual
region by Fonseca Cardoso. Note the strength and
masiiveness of the body. the d~gnitary'sheaddress and
agency, which seems tied up with style, might be an independent variable in the
the weaponry IAMC 86.04 3. H. 40 cm. Wood. hair field o f agencies knitted around the work o f art. But, some other artefacts can be
discarded (and have been, rnostly by collectors and many scholars) as "out o f
style" or lacking"graceUeven though they may have interesting idiosyncratic styles,
agencies, meanings o r functions ($ Layton 199 1 , 16 1 - 162). just because we did
not "see art" in them. Why is it so and what have been the historical fields o f
production and interpretation o f this art? Perhaps its supposed "ack of style"
sirnply derived frorn the fact that they did not require visual agency t o be
eficacious art. N o t all art need be based on the visual, and whatever its kind,
regardless o f our spontaneous reaction, it needs to be re-contextualised in its
original iield of production and use. 2The anthropologist of art, like the sociologist
of art according t o Bourdieu: ". .. s'oppose à "l(irni des beoux spectocles et des
belles voix" qu'est aussi i'écrivain: Ia 'kéolité" quil poursuit ne se loisse pos réduire oux
données irnrnédiates de l'expérience sensible dons lesquelles elle se livre; i1 ne vise pas
ò donner à vai< ou ò senti< mais ò construire des systèmes de relations intelligibles
copobles de rendre raison des données sensibles" (1 992, 14).Together with the taste
for antiquity, predilection for smooth-surfaced figurative objects, is a Euro-
American bourgeois attitude that may be studied in its own right, but does not
forrn a base for anthropological enquiry.
It could be dernonstrated that the "technologically" rnost sophisticated styles,
in our own sense o f craftsrnanship, e.g. Uchokwe, and what I cal1 "colonial
Chokwe court style", are accornplishment o f otherwise less salient features o f a
less pronounced style, but that this by no means irnplies that they are
intelledually superior I would contend that craftsrnanship is but one category in
which style isto be developed, and that thought styles reflected and discerned in
other art worlts probably are of higher historical importance. Whatever the field
o f expression however; perfection o f style, after all, is often aUquestfor grace", but
grace of the religious sort, in a way or anothei; which rneans that t o irnprove it is
an effort towards transcendence (r$ Bateson 1973), and formal styles rnay refled
thought styles.This achievement can be relevant t o the dornain o f religion, politcs, Photo 4 Snuftbax staff in the Moxco
rnedicine o r any other domain o f human social activity which stresses again the ityle. Collerted benhieen 1913 and 1915
in the Shaba (D. R. Congo) by Ch. A.
Wiliame. RMCA. RG. 41233. H. 47 cm.
Ag a r I wish not to supgest that an aeithettc focus on the visual arts s Ilegitimate ony that it s a Wood (Uapaca sp.), nails. OAfrica
Museum,Tervuren. Photo R. Arselberghs.
btased start for an anthropoy of art
necessity t o consider jointly the creation o f w o r k o f art and social relationships. Bateson suggested that " . . . if art is
sornehow expressive o f something like grace or psychic integration [of the individual into society], then the success of this
expression rnight well be recognizable across cultural barriers" (1973,235-236). It is the role o f the anthropology of art t o
investigate the necessities o f works o f art that would rnake this possible.
Style is constituted by an array o f relations between formal, stylistic, geometrical and decorative features in a set of
artworks, each o f which may, o r rnay not, bear on the significance o r eficacy o f the artwork. A style can be described at
the level o f individual artist (ex.: Sarnanana Kachaku), at the leve of an atelier (ex.: Dundo village) o r school (ex.: Moxico
school), a geographical area (ex.: West Kasai), a socio-cultural forrnation o r "ethnic group" (ex.: Luchazi), and, I contend, a
broader cultural region. In all these cases there are objective continuurn o f transforrnation o f style in time between
generations, in space between "ateliers", ethnic groups or regions. Accordingly one can observe retention and protentions
o f stylistic features between w o r k proceeding from within these diverse units, and also retentions and protentions o f
relations between such stylistic configurations.
Before going any further in the discussion o f terms o f reference, I would like t o rnake a few remarks about the difficulty
o f enquiring about art styles in the field. Among the greatest obstacles t o the understanding o f art is the fact that it
expresses things o r does things that often can not be expressed or done otherwise, for instance in speech, or by any other
mediurn on a everyday basis and following cornrnon sense. A r t conveys the ineffable o r "indicible" and operates by rnagic
o r technological enchantrnent (Gell 1992: 1998). Isadora Duncan s quoted t o have said:"If I could tell you what it rneant,
there would be no point in dancing it" (Bateson 1973, 242). Many an artist could utter sornething similar about his or her
art. Conformably, it is therefore a quasi-initiatic and partly paradoxical effort o f intuition and sensibility, mixed with close
systernatic observation that is required while in the field t o surround the subject matter o f the anthropology o f art, which
then requires t o be rationalised in a textual discourse. If one c a i try t o deflect one's attention frorn what at first sight
appears as "art", it is much harder t o discern and focus on "technologies o f enchantrnent" that do not fit in our aesthetic
rnake up and which may even be based on other than visual terms.
There is a second hindrance which consists in the frequent lack of a certain awareness, and o f a discursive knowledge,
on the part o f the artist o r perforrner approached in the tield (although "super-informants" are an exception). Habit
implying forgetfulness (hobitus), a good dea o f "traditional art" is dificult t o enquire about. As Bateson has it, but it could
have been Bourdieu: "The econornics of the system. in fact, pushes organisms towards sinking into the unconscious those
generalities of relationship which rernain permanently true and towards keeping within the conscious the pragrnatics o f
particular instances.The premises may economically, be sunk but particular conclusions must be conscious" (Bateson 1973,
246).This is the reason why during enquiry in the field it is often rnuch easier t o gather pradical and detailed inforrnation
on particular features o f art forrns than t o talk about the overall perforrnance about the ideologies o r representational
systerns they underpin.
Ethnicity as a concept

In this text, I am inciined t o use the term "socio-cultural formation" t o refer t o "the Chokwe",'Yhe Luvale","the Luchazi",
etc. because it prevents me at the same time from using a t e m in need o f a more specific use ("ethnic group"), and instead
of the frequent use o f a number o f others, such as "people", "group", "poiity", "empire", "chiefship" and so on, which are all
relatively inadequate t o describe the socio-cultural formations under scrutiny
Besides what was said above, style is also what we recognise, mostly by education and experience, and which helps us
t o infer ethnic o r geographical provenance. Now, only very few scholars such as Marie-Louise Bastin have proceeded
empirically by a study of the origins of museum collections and classification of their styles. Conversely we, as followers,
mostly ascribe "ethnic origins" t o pieces by comparison, therefore reinforcing abitrarily the correlation between a given
style and an "ethnicity". Furthermore, needless t o say that "ethnicity" is a tricky concept in upper Kasai and Zambezi (von
Oppen 1993; Wastiau 2000). Firstly socio-cultural formations have no geographical boundedness and most people are
culturally and linguistically o f mixed ascendancy because o f migrations and intermarriages. Consequently one may draw no
sharp borders as Olga Boone did for South-West Congo ( 1 973). Adually if this were done it might trigger a general
uprising in the region. Socio-cultural formations have been fluid, interwoven, and so have their cultures for as far baclc as
historical documents allow us t o go (Papstein 1978;Vansina 1966 von Oppen 1993;White 1949). By this I mean that the
quest for the determination of a "pure ethnic style" is the same bias and bears the same consequences as t o seekUethnic
purity" (6Levine 1999) !Unless one subscribes t o the point o f view that traditions and change are not exclusive (Vansina
1989),"tradition", as a strong concept, may imply immutab1e"ethnic art", although there are no such things as bounded and
perpetua1 traditions in the field o f art, neither in Africa nor anywhere else. When I use the term 'Yradition", it is rather t o
the contrary with the convidion that "tradition" is a measure o f integration of new cultural elements (technologies t o work
out and construct the social), therefore a measure of change.
Ethnicities as we know them, are t o a great extent ideologicai constructs produced by the European observers and
colonial agents during the XIXth and the XXth centuries, on a nominal basis and mainly after the observation of language and
chiefship (Amseile and M'Bokolo 1999). It has always been different for the inhabitants of the region, who have had different
agendas and have used several names t o refer t o themselves and t o others OrJastiau 2000). For example, the "Mawiko"
(people fom the West) and t o a certain extent the "Luvale", both o f whom migrated from Western Angola t o actual Zambia,
derived their ethnonym from blanket-names given by former inhabrtants o f the land (Lori, Mbwela, Lunda) or by the European
administrators.The term "Nganguela" has been used by several populations t o name their eastern neighbours, the term
meaning "from the rising sun". lnterestingly a number of related "groups" that have been called Nganguela actually lived in a

I Consder for exarnple the hisiorical cornplexities of an ethnicity such as that of the neighbouring Nkoya (Van Binsbergen 1993).
homogenous environrnent, and had developed similar rnodes o f production and technologies (von Oppen 1993, 30), which
suggests that ethnonyms could derive from sornething other than language or political organisation.
Certainly, these socio-cultural forrnations (Luvale, Chokwe.. .) had been open t o other cultures for a very long time.
Bear witness t o this is the rnost "classic" Uchokwe "autochthonous country" sculpture, the flint-stone guns in the hands o f
supposed rnythical ancestor Chibinda Ilunga, present frorn the eighteenth century on words (Photo. 3). European square
and folding chairs, pipes or snuff-boxes which nature, form and style betray coastal and Portuguese influences corroborate
this (Photo. 4) (Bastin 1982a, 1 989, 199 I ; Wastiau 2000). lt is also exemplified by the rnyths of migration, conquest and
ethnogenesis, o r by the rniyachi clanship system that once cross-cut some "ethnic divisions", that there can only be partial,
temporary and blurred ethnic distinctions. It rnust also be remembered that ethnic afiliation is not exclusive, and that it is
negotiated throughout the life o f an individual, in initiations, rnarriage and political engagements.
Let us consider too, the rneans by which the "Chokwe" conquered alien populations.According t o Vansina ( I 966,2 18-
222), one tactic was t o establish small settlernents o f hunters in the proxirnity of cultivated areas among peoples who did
not hunt. After some time, the immigrants appointed their own chief, and gradually rejected the autochthonous landlord,
oflen overthrowing him by force.The overall population then becarne "Chokwe". Chokwe expansion, according tovansina,
required nurnbers that Ucokwe country is unlikely to have provided. Assimilation o f "foreigners", stolen wives and slaves
increased their number and their descent belonged t o the lineage o f their Chokwe father; which insured that the next
matrilineal generation would be "full-fledged Chokwe". It is in this conte*, in which wornen were highly comrnoditized, that
we may want t o reconsider the aesthetics o f the ferninine-ooking pwo masks (Photo. 9). Larger populations were
surrounded and seti1ed:"Gradually the enclosed groups began t o be considered as Chokwe by outsiders and they were
assimilated culturally, so that they themselves began to see themselves as Cokwe. Among others, this was the case with
Lunda Mukundu of Northeastern Angola" (op. cit., 220).
It turns out that the history o f art in the upper Zambezi and Kasai is a history of art circulation and borrowing, one of
intense creativity and sweeping change.This, however; it will be shown, does not irnply that there are no stylistic o r conceptual
recurrences, but t o find thern, we need t o grasp the fluidity of such a notion as "tradition" and understand that it rnay relate
t o something other than the uncritical preservation of formal style in our own classic sense o f the term.Art production. the
specific material culture that concentrates notions o f agency around itselt offers a material and objective basis t o reconsider
such notion as "ethnicity" and "ethnic" style. As such, is there any interest, after all, in defining an 'ethnic style'? Formal styles
and thought styles develop around central ideas, concepts, or tropes in the socio-cultural forrnations, t o be ernbodied in
artworks.This type o f critical embodiment is t o be discussed in the following pages. A r t history rnust be a history of ideas
and o f social relations, not a rnere factual and pseudo-objective history o f forrns: "enquiry" into relations rnust prime over
"record" o f fads (Onians 1978).

56
's 8 , ., TSHOKWE , I , , . , , , ,,
The upper Zambezi and upper Kasai style area

L
Loosely defined, the geographical region of Kasai, Zambezi, Kwango and Lunge
Vungu headwaters includes a number of socio-cultural formations, rnost of which
trace their origin in migrations and ethnogenesis over the past t w o o r three
centuries. Historical and oral-historical sources al point t o this f a d (Carneron

-m
1877: Carvalho 1890; Miller 1969; Papstein 1994; von Oppen 1993; Wastiau
2000). There has thus been no permanent association o f a socio-cultural V. .!=
formation t o one very specific geographical area over a long period of time, but
rather a history of population flux and culture hybridisation. In fadWethnicgroups"
today are very different from what they were some 100 o r 200 years ago. So are
aspects o f their culture, of their arts. O n the other hand, there has long been (at
least over the past 150 years) a broad cultural cornmunity arnong these peoples,
most of which have shared, beside a comrnon clanic system (rniyachi), mutotis
rnutandis, the sarne initiation rituals for young and older men and women, the 1
ancestral cult, ngornbo divination and hambo possession rituals. In these, h,
comparable artefacts are used which, because o f their similar form and style, can

L
sornetirnes hardly be distinguished on an "ethnic" o r even geographical basis:
ngornbo divination basket, tuhembi clay fertiity figurines, tombwe hunting shrines,
among others (Photo. 5, 6). In fact, there is more in cornmon with these socio-
cultural forrnations than there is t o differentiate them.This is refleded in the f a d
that part of their arts differ in style and a larger part is almost undifferentiated
(this is leaving crafts aside, which also show cornmon conception). lf one rnakes
abstradion o f wooden masks and figure sculpture,the cultural continuum appears
more clearly.What interests me in consequence is what makes these cultures akin
and rnutually intelligible, rather than what separates thern. Photo 5-6Tuhembi clay , . .. , tographed in
9 3 5 by Roelandts. in a Chokwe shrine for the
W e are not talking about a highly fragmented cultural area comprising a great hombo spirit ,iogo, in M~~ ~ ~ ~ h i south k ~
number o f ethnic groups all clearly distind and speaking rnutually unintelligible Kwanso (D R.Congo).linga is sad ta bethe Chokwe
equivalent o i lihomba lyo komayuvo of the Luvale, a
languages as one can find for instance along the linguistic fragmentation belt ,pirit of kin ,nvolved Ch,pango infertility
between Nigeria and Cameroon. Chokwe, Lunda, Luchari o r Nganguela, Luvale treatment. B A i r i c a Museum. Tervuren. (r~ght)
Tuhembi figurines inside a seclusion house for the
and Mbunda for instance, are large, historically related socio-cultural forrnations treatment of infertility Kapiolalo Zamberi
counting in the hundreds of thousands, most o f which have long coexisted in (Lambia). ~ h o t oB.Wastiau, 1995.
rnulticukural environrnents. However; taking late XIXth and early XXth century wood-carving as a subject matter; one could
draw tables or charts o f protentions and retentions o f stylistic features in the shape o f AIfred H. Barr's (1936) o r Alfred
Gell's (1998) and look for iiliations, bifurcations, encounters, etc.Yet, one could also look for cornmon base elements.
Another approach would be t o determine how style rnay inforrn about technologies that are available t o the artist,
hisiher tools and raw material: therefore o f the availabiity of resources, their exploitation and distribution.Technology is
fully related t o the econorny o f the region (Vansina 1998,203 R,),and so is style: they rnust be approached together: How
for instance does one interpret rnorphologically distinct bark rnaslcs that nevertheless have been stylistically and
technically very similar (I do not say identical) among several ethnicities o f the region? One key is that different
populations were culturally akin, and that mukanda initiation and its technology has dernocratically cut across ethno-
political boundaries. Conversely, wooden rnasks that are not strictly related to initiation, such as pwo o r chihongo, have
developed very distinct styles.
A thoroughly systernatic analysis o f ethnic carving styles in the upper Kasai, the upper Zambezi, and indeed Angola, on
the basis o f art colledions is doubtless Marie-Louise Bastin's major contribution t o the history of art n Africa: frorn Art
décoratif ishokwe ( 196 1 ), t o Mernorial de Culturas ( 1 994), and up t o her latest publications such as Figurine masculine d'un
ancien couple (1998), she laboriously contrasted and related the forms and decorative patterns o f a very large corpus of
carved artefads. Marie-Louise Bastin realised irnrnediately the intirnate connection between the styles of several peoples of
the Kasai, Zarnbezi, Kwango and LungweVungu headwaters in this field (1973; 1982a).4Yet there is more t o art than
carvings and rnasks: rnost peoples o f the area have elaborate conceptual art in their rnagic and therapeutic paraphemalias
for the ancestral cult, divination o r spirit possession. They have cornplex performance arts in relation t o masquerading,
dancing, oral arts, and they have had reiined body decoration art as well.The ernbodied aesthetics are especially developed
throughout the cultural area in dance and spirit possession performances.The anthropology and art history o f those
remains largely t o be done.
In her enquiry as t o the cornrnon ancestry of these peoples, and in particular that o f the Chokwe, Marie-Louise Bastin
has frequently based her research on the reports of Capello and Ivens ( 1 88 1 , 1, 173- 174) o f what they heard frorn the
Chokwe chief NdurnbaTernbo to explain the origin of three peoples o f the region: "ln the powerful capital o f the Lunda
(Ruund) a wornan o f nobe birth, called Ternbo or Lucoquessa, had three sons, NdurnbaTernbo. Muzurnbo Ternbo and
Kasanji Ternbo. As they were excellent hunters, they t o o decided one day t o strike out towards the west with their
attendants and followers in search o f lands -sparsely populated- where they rnight settle and forrn a state. The oldest,
Ndurnba ternbo, conquerred 'T'chiboco' (Ucokwe), that is, the native country o f the Chokwe, whose capital lies west ofthe

' Namely the Lunda, Minungu, Lwena or Luvale, Songo, Ovimbundu. Nganguela. Mbunda,Shinji, Halo, mbangala, Lwimbi, Luchazi, Mbwela and Lunda-Ndembu.
To these could be added a few others such as the Camatapa, Kakongo and Luyi.
source o f the Kwango", the rernaining people settling in other areas (quoted in Bastin 1998, 61). Marie-Louise Bastin
analysed all known relations of this rnythology as were reported by nineteenth century explorers from arnong the severa1
polities o f the area (Bastin 1978). In rnost other accounts, the union o f a Lunda aristocrat. Lueji and an errant Luba hunter;
Chibinda Ilunga, provides the starting point for ancestral charts (possim). Whether o r not these have historical o r "rnerely"
mythical value they all point t o a certain cultural comrnonality that has prevailed frorn at least the mid nineteenth century
until the late colonial era. It has long been accepted that a number o f peoples o f the area under scrutiny could have had a
comrnon cultural ancestry going rnuch further back which would have been confirmed in the rnyths of hunter Chibinda
Ilunga and princess Lweji (Birmigham 1966; de Heusch 1972 and 1988;Vansina 1998a). According t o the theoretical
standpoint, the latter either confirm the comrnon underpinning origin o f the socio-cultural forrnation, o r they point t o a
common ideology. Of course, one can easily see that both aspects integrate each other; penetrating history and vice verso.
jan Vansina has recently broken the tale o f an historic Uruund diaspora, which he had himself contributed t o founding
(1 983), by convicingly suggesting, that the adoption of such rnyths of origin, so ideally inter-linking a nurnber o f populations
of the region rnight have been introduced as late as the nineteenth century.They would have served the purpose t o
putatively establish kin ties between distinct segrnents o f the population, namely the military superior but new-coming
Chokwe and the old established Uruwund dynasty (Vansina 1998a). Interestingly enough,this could correspond t o the rise
of Chokwe "expansion" or"colonial" style in court carving. Put sirnply some o f these rnigrations o f chiefly siblings related in
the corpus o f rnyths rnight have never happened and would have served the purpose t o legitimate the XIXth century
ethno-political set up (Vansina, op. c;t).This recalls Prof, de Heusch's structuralist approach which Vansina himself had so
vehernently opposed (1 983).Without falling in relativisrn, one can say that there probably was a cornbination o f historicity
and myth, new rnyths being created and integrated in larger; older rnythical systerns in the sarne way as new cultural iterns
o r concepts are integrated in pre-existing cultures and constellations of rneaning during periods o f historical change.
This is not the place t o discuss these sources any further Sufice t o stress that, just as for art which is often related t o
it, at the leve1 o f rnythology, these socio-cultural forrnations share a common structured basis that can hardly be
distinguished, and that each present specific "stylistic features" meaningfully stressing kinship and distindion with regard t o
other socio-cultural forrnations.Art and rnythology in some cases might actually have developed in tandem.
Stirnulated by European trade (see map.), rnade possible by privileged access t o fire arrns, Chokwe expansion from the
sources of the Kwango t o the East and the North would have started around mid-nineteenth century when the extensive
slave trade gave precedente t o ivory and wax trade, and ended in the 19 108, by paradoxical European repression and
"pacification" (Miller 1969; Vellut 1973; von Oppen 1993) . "Les explorateurs de Ia seconde moitié du XIXe siècle
témoignent de leur déplacement vers le nord et le nord-est. La vie de ce peuple devient alors serni-nomade. En tout cas,
peu favorable a I'élaboration d'un art de cour qui dernanderait une organisation bien établie et I'appui de mécènes" (Bastin
1994.42). It is reported that the Chokwe rernained rebellious and uncontrolled by the Portuguese until the advent of mining
Photo 7 Expansion e l e spear w ~ t hhunting in the 1920s (Miller 1969, 74). By the end o f their expansion they also went
whistle attached colected by J.-A.T Fourche in
the Kasai (R. D Congo) between 1933 and South, as far as reaching the Kwanyama. But most populations of the area were
1942. RMCA, RG. 43548. H. 182 cm Wood on the move and the Luvale, for instante, also achieved political pre-eminence by
(Parinori cumtellifolio zubip.Mobolo) Whistle: H.
95 mm Wood (Crossopterin febiifuga), steel,
war and trade in the Eastern fringe of the region by mid t o late XIXth century
nails. O Africa Museum. Tervuren. Photo R. (von Oppen 1993; Wastiau 2000). The Lunda also were migrating, and the
Asselberghs. Luchazi, Nganguela. Lwimbi, Mbunda among other oriental neighbours o f the
Chokwe also moved in numbers towards the East and the South, reaching Lunda,
Mbwela and Lozi countries in which they settled t o this date (hastiau 2000).

Ucokwe and chokwe expansion styles

"Seule en vérité I'histoire sociale peut fournir les moyens de redécouvrir Ia


vérité historique des traces objectivées ou incorporées de I'histoire qui se
présentent à Ia conscience sous les apparences de I'universel" (Bourdieu 1992,
508).
After Art Décoratif Tshokwe, Marie-Louise Bastin focused her study on
nineteenth century and early twentieth century carving. She distinguished
"Ucokwe" sculpture, a court art o f the early XIXth century, from the "expansion
style", from 1850 onward. "Ucokwe", would have been confined t o the sources
o f the Kasai, Lungwe Vungu and the Kwango (Photo. 3, 4). A palatine art
characterised by chiefly statuary, it would gradually have disappeared together
with the original autochthonous chiefship at the time o f the territorial expansion
and European colonisation (Bastin 1982a, 253-254). Two major schools were
distinguished: the school o f the Serra de Muzamba and that o f Moxico.The
expansion style, more recent and de-centred is thought t o have been mostly
devoted t o ancestral worship, mohombo spirit possession rituals and masks,
although some court art subsisted in the form o f thrones, spears and luxury
objects (Photo. 7, 8, 9). Indeed,the older Ucokwe art style characterised by finely
Photo 8 Expansion style palaiine chair from
South Kasai (D. R Congo), colleited before crafted large objects or figures probably designed t o comemorate and enhance
191 I. RMCA. RG. 20594. H. 95 i m W 37 cm
.-
Wood (Vttex doniono verbeoaceae). leather.
nails. pearlr. OAfrica Museum, Tervuren. i cf the Powell-Cotton colledions in British Muieum and those callected by António Carreira that are
Photo R.Asselberghs. kept at the Natianal Museum for Ethnology in Lisbon.
Photo 9-10 (leit) pwo (woman) mask from theTervuren Museum, coeded South ofTshikapa in the Kasai before 1930. Note the tax tags and the Eurapean coins
attached t o the hairdo and the earlobes. RMCA, RG. 325 10. H. 225 mm W 3 5 mm Wood (Abtania), fibre. cay metal pieces, beads. O Africa MuseumTervuren.Photo
RArseberghs. (right) pwevo (woman) mask worn by Lwale dancer Kenneth Kapau Lisamba far"multi~ethnic" public n Zambezi (Zambia). Note the trendy hairdo.
the bright colours of the conume and the imported scari on the breasis. Phato B.Wasiiau, 1997.

the power o f lineage-based chiefship had t o vanish among the rather nomadic courts o f warlords who earned their
position and following by their achievements in the arts oftrade and war rather than by matrilineal inheritance oftitle.What
has been presented so far as Chokwe's greatest art is indeed early XIXth century court art, Ucokwe art, and the carvings
of the following "expansion style".
Nevertheless,as Marie-Louise Bastin herself acknowledges, only few pieces of court art were colleded until the beginning
o f this century and it cannot be ascertained that there were no stylistically different art forms such as bark masks and other
perishable media for instante, which renders their contextual interpretation dificult. Our knowledge o f nineteenth century art
style can therefore only be o f limited extent and hypothetical value. Besides, court art, albeit of a different tradition and style,
perhaps also displaying less of a certain craftsmanship pleasant t o our eye, has existed among other chiefships such as the
Aruwund, the Luunda and the Luvale among others. where it is still t o be found (Photo. 1 1-12). In terrns o f aspect, the
"expansion style", which is above all a later style, has been described as a "weakening o f the older style" of the courts of the
"autochthonous country" at the sources o f the Kwango. Nevertheless, it displays retentions of the Moxico and Mussongo
schools, in a similar fashion that in space and among different socio-cultural formations, one can observe similarities that either
corresponds t o a comrnon background, or mutual borrowings.That expansion art was different from Ucokwe, should find its
first explanation in the fact that that "expanding" fradions, which aggutinated different groups, lived a relatively semi-nomadic
life, dedicated t o trading over ong distantes, warring and raiding slaves; a life style hardly auspicious t o the development of
luxurious furnitures and irnpractical objeds such as large carvings.This accurred
when they settled down at the end o f their journey.
One can also observe a wide array o f formal protentions and retentions at a
synchronic level in the styles of "classic" carvings among cognate social forrnations
o f the area, such as the Songo, the Lwena or the Nganguela, Matapa or Mbunda.
Marie-Louise Bastin recognised the similarities rallying the sculptures o f a number
o f these peoples and conceived of a possible Chokwe influence, "un
rayonnement artistique", on their neighbours o r conquests rather than the
contrary. But although such a process is likely t o have taken place at the time of
Chokwe expansion, it is o f course very dificult t o sustain any such "influence"
hypothesis to explain all the common essential features at the levei of artefacts
with the scarce historical evidence at hand. I contend that there must have been
a common cultural background even prior to the XIXth century Chokwe
expansion, and that the kinship o f styles must have derived partially from the
violent encounter o f the socio-cultural formations.
It is comrnon t o hear o r read that Chokwe art production, beginning with the
"expansion style", and production outside the core o f later Chokwe country are
"poorei' and decayed versions of Ucokwe. Such is the case o f Zambian art of
the Northwestern Province, which Manuel Jordán has researched and promoted
over the past years (lordán 1998: Felix and Jordán 1998).Yet this so-called decline
Photo I I Chiei Ndungu of the Luvale with chiefly is only relevant if we project a rnodernist European aesthetic and European pre-
regalia and wearing his U r w u n d crown, in Mize
(Lamberi. Zarnbia). Hir wife n the backgraund. modernist conception o f craftsrnanship. For if we are t o consider arts in a
wears a headdrerr similar t o his, but smaller and broader scope as proposed in the introduction, we realise that whereas we
exempt of the grey parrot's red tail feathers on the
top.Thore are said t a have been offered t o the court haven't the slightest evidence to what purpose iterns such as Chibinda llunga
by Aruwund paramount MwataYamvo himself (see figures rnay have been rnade, it is possible t o develop in-depth approaches o f
Palmeirim 9 9 8 ) Photo B.Wastiau, 1997.
numerous other artistic traditions. It seems quite obvious though, in the light of
what we now know of the material culture of the area, and art in general, that

"Art productian becarne limted more and more t o rnask, snuff-rnortars, pipes, hour-gass drurns, and chairs. Artistic achievernent was expressed above all
in rnask, (perhaps because the religious and family traditions have been rnaintained), and in chairs. In the fields of figure-carving and decorative art.
naturalism has declined (features and details become schernatized, natural hair and beards have been discarded).The p r d l e has become heavy. the Iines
and volumes are soitened, the strength and vitaity have been iost. and the stanre is static.The rnajority a f figures are stereotypes" (Bastin 1982a. 253).
the practical use value o f such carvings (as other court objects) must have been
subordinated t o their function as markers o f the social rank of their ownerThe
awe inspired by the mastery o f a chiefly anthropomorphic carving could have
been transposed on the ruler depicted by, o r associated with it. Conversely we
know for sure what purpose the masks, hamba figurines, sorcery tigurines and
other paraphernalia produced over the last century have been made for Besides,
it is still possible today t o gather data about the latter and observe retentions o f
the former since art is far from disappearing from these regions (Jordán 1998).
To establish the Chokwe origin o f some art forms and techniques (for
instance mask, divination baskets, ironworlcing arnong others) one often relies on
ethnographic reports o f specific instantes andlor relations of emic perspedives of
representatives of peoples subaltern to the Chokwe. But if Chokwe artists were
said t o be so good as t o be comrnissioned by foreigners for chiefly regalia and
initiation paraphernalia at the t u m of the century (as they can be today), i t also
happened the other way round, and some Minungu carvers have produced
masterpieces for Chokwe patrons in the region o f Muconda.The Luvale could
have a fine carving style but still order their royal drums (mikupelo) from

difference (e.g. long decorated pipes,the bull motif the ernbracing caryatid rnotif) Phofo ' 2 Chef Ndungu of the Luvale during likumbi
lyo Mire annua festival. MIE (Lambia). Sitting on his
(Bastin 1982b). As with myth, these statements on the "ethnic authorship" of a throne oirtdoor shed, he is kept by hii tuposu
cultural produdion should be considered critically within the context of social vigils in uniform. He ir clad in leopard skinds and
holds a whirk made of the pulu (Gorgon
and political relations during the Chokwe expansion and colonyThey are likely t o aunnus)antelope Photo Modesta
be part of an ideological discourse, not outright historical evidence. Here the
problern o f ascribing ethnic origin t o w o r k o f art is all the more acute. Marie-
Louise Bastin had found the "ethnic distindion" could be dificuk, if not irnpossible
in some cases. For instance, in the Muconda region: " . . . tribal distindions are
often dificult t o make.The various styles have becorne arnalgarnated into one
hybrid, affected and stereotyped form" (Bastin 1982a, 254). But could this not be
the result of Chokwe assimilation of the conquered populations? Not all Roman
art was produced by Roman ariists!That there has been a "Chokwe influence" is

63
TSHOKWE I,,.. i ., , ,
.,.,,
not in doubt, but we are still in need o f explaining why. Expanding through trade and raiding, assimilating through
appropriation and rape, they conquered, settled and occupied many lands and populations where life, rnodes o f production
and technologies were deeply affected, including at the level o f artistic produdion.
Already in her thesis Marie-Louise Bastin discussed the mutual influences between close neighbours,and those that the
Chokwe would have had on more remote groups such as the Pende, Luluwa, Nsapo. Mbangani, Kete, or Kongo o f the Kasai
and the Kanyok (Bastin 1973,27 1-279; 1982a, 285). But the further afield one goes and the less historical evidence there
is,the harder it isto talk about "influente" and "borrowing" rather than "common cultural background".Just as one can easily
differentiate a "Scandinavian style" from a "Germanic style" o r a "Mediterranean style". broad stylistic regions can indeed be
disiinguished, although any attempt t o do so strictly proves problematic, for any choice o f stylistic trait or field o f art t o
operate a classification is arbitrary and will yield different results.Also, unless they can be proved t o have occurred, such
"influences" as mentioned above can only be presurned.
It is still assurned, for instance, that the Lunda have had no art of their own, which is a pretty darnning statement which
ought t o be replaced by the statement "most Luunda, Uruwund and Aluund arts t o our knowledge have not featured large
anthropomorphic carvings of "classical" interest and wooden rnasks". O f course, as any people, they have produced numerou8
original w o r k t o this day, as a nurnber o f studies bear witness, such as the data collected arnong the Lunda Ndembu (rurner
1967), Luunda (De Boeck and Devisch 1994), and Aruwund (Palmeirim, 1998), for instance.Would we dare say that Muslim
peoples have no art because they have no figurative art? Arnong other examples, contrarily to what has become a received
idea, at least some Lunda such as the Ndembu can craft a wide range of mokshi masks; all the Lunda build and use shrines,
rnagic, sorcery or healing paraphernalia and have performances that fall within the scope of our definition of art.As for mask,
conternporary examples have featured rnen from different "ethnic groups", among which Lunda elements,joining t o craft the
cornponents of a single piece. Mutotis mutondis one finds the same core of material culture and art forms amongst these
related populations.The presence or absence among one of them o f free-standing tigurative carving, of one type o f mask, or
of palatine paraphernalia is rather trivial in the face of the cultural patrimony that they share.
Craftsmen and carvers have been valued in the Chokwe Diaspora, mainly where they have lived among Luunda or
Aruwund-speaking peoples that they regularly failed t o dominate (Crawley 1972; 1973; cj! D e Boeck 1993). A good chief
had t o be one himself "lf a chief lacks such skills, he will be all the more eager t o encourage these craftsrnen t o settle in
his capital, becorne his courtiers, and supply sculpture and fine rnetalwork t o his court and chefferie" (Crawley 1972, 37).
This interest for court art, probably issued from the XIXth century, extended t o Lwena-Luvale courts and prevailed at least
until the 1960'.During the colonial era it probably helped the "estranged conquerors" t o manage their predicarnent in alien
territory Besides, systematic participation and patronage o f the Chokwe chiefs in mikondo initiation rituals also supported
the development o f certain crafts (ibidem). In fad, some artefacts such as prestigious iterns found among Chokwe minority
groups seem pretty "unrealistic" (cf: Baudrillard 1972, 19) in South-West Congo during the first quarter o f this century, in
the face o f t h e inaccessibility o f the power that such artefacts were supposed t o convey Probably, if we want t o discern the
role of such ancient artefads, we ought t o seek clues as t o how and for whom they were produced, and how and t o what
end they were displayed o r used.
Broadly speaking,the style o f the cultural region has t o be observed in a combination o f possession performances,fibre
and wood rnasks, anthropornorphic and zoornorphic woodcarvings and chiefly and rnagical paraphernalia, most o f which
have not been historically documented as yet. Palatine arts developed within chiefship and chiefship together with long-
distance trade, wars and ethnicities. lf Ucokwe court art was produced for the glory o f the established rulers, expansion art
seems more like an atternpt t o distinguish the small and relatively disernpowered, though ingenious and aggressive, minor
migrant courts. Both cases contrast with the older art forrns that have sprung out o f the more egalitarian segments of the
upper Zambezi and Kasai populations.
If one goes beyond style, forrn, artist o r school, t o investigate the historical tield o f produdion from which the arts
under scrutiny all derive, one rnay begin t o unravel unsuspected relations and causalities. Clear stylistic distindion have
occurred rnostly in carving, and probably only matched a certain "ethnic differentiation" at times o f political struggle,
conquest, colony andior ethnogenesis.They are the produce o f historical changes, shifts, events, in which people, creators
and users alike, were engaged, both provoking and undertaking their effects.
The Ucokwe o f the aboriginal country was a lavish and realistic style charaderised by distinguished figures, efigies o f
supposed mythical ancestors o r chiefs, elaborate thrones and accessories such as snuff-boxes. Objeds in this style were
collected late in the XIXth century but unfortunately virtually no historical data is available about their produdion and
use. One can only presume that they indexed the dominion o f a developed political oligarchy and some cultural icons
related t o masquerading, hunting and trading. From around 1850, expansion o r colonial period art, rnainly t o the north
(Kasai) lacks the "great anthropomorphic statuary" o f the "classic style" and corresponds t o the more common art forms
existing today that are related common t o chiefship, religious and therapeutic pradices, but also comprises luxurious items
(tinely carved and decorated ).
In both cases though, wood carving, as a salient (and incidentally perennial) feature o f Chokwe art produdion, was
developed in relation t o the exercise o f political powerThis is probably where it most distinguishes itself from its Itindred
which did not reach such political and military pre-eminence during the same period. More than "... exterior signs o f
maintenance o f the Chokwe chief's prestige" (Bastin 1973, 199), there ought t o have been a real political economy of the
signs (Baudrillard 1972), with effects within and without the Chokwe realm, in the country o f origin and during the
expansion. In the colonial social formation, this was particularly striking in chiefs' regalia. I t is in this context o f strong
authoritarian relations that we rnust interpret style in relation t o power; for this is when objeds take their full meaning and
becorne important agents within webs of social relationships. Beyond their ritual agency objeds are the media o f "social
prestations", rneaningful t o the constitution of the social order o f the time and place. It is similarly evidenced i r ostentation

65
i ' \ ~ ., .,., . TSHOKWE I I'.. ... 1, . , , ,, ,,
and conspicuous waste, a fact visible in some rnasquerades, thrones, drums, palace architecture, and so on. It is very clear in
the manufacture of instrurnents o f dornination such as spears, guns and swords (Photo. 7). As a corollary, when individuais
from a dorninated segrnent o f a social organisation have the opportunity t o live by their art it is very likely that they do so
by stressing the superior status of their rnasters. It must have been a sort of "irnpératif culturel" for the conquerors t o assert
superiority in as rnany tields as they could.
For exarnple, how t o interpret the gesture o f the MwataYarnvo, the Uruwund pararnount chief in power in 19 10, who
gave a Norwegian oficer a chair of his that was of Chokwe style (Bastin 1973 , 208)? More than inforrnation about the
diffusion of styles in the region this rnight inform as t o how chiefly regalia crafted in a certain style could be used in a
politically and culturally tense context. Although this is a rnere hypothesis for the time being, it could have been a strong
staternent of the Uruwund paramount t o offer a representative of the upcoming European colonial power a piece of regalia
in the style o f courts that were not fully under his control! Frorn rny Zarnbian experience, I can say with assurance that
should a palatine work of art in an "ethnically characterised style" be handled by representatives o f another ethnicity, this
would lead t o outrage. Sornetirnes however; the relationship between ethnicities with regard t o an artwork can be
insignificant. Such is the case o f the Luvale sacred mukupelo hourglass drurns, real badges o f kingship,that are bought frorn
the Mbwela for purey technical reasons.

Regional arts

As stated in the introduction, it is not rny intention t o discuss speciiic styles in graphic detail but rather t o develop
prelirninary questions, and I will refer the reader in need o f learning the various recognisable features o f the area's carving
styles t o consult Marie-Louise Bastin's extensive and detailed studies (cf bibliography).The ritual institutions that are
cornrnon t o the peoples in question are at the basis of the social organisation, regulating all transitional stages in the life o f
individuals, whatever their ethnicity o r rank (lordán 1998).There is also a sense o f linguistic cornrnunity that prevails
between certain groups: Marie-Louise Bastin ernpirically remarked the kinship between languages such as Luvale and
Chokwe which is now confirmed by current research in linguistics. But let us look at rnale initiation. If Prof de Heusch's
theory about the relatively recent (XIXth century) diffusion of the mukondo in the region is t o be contirmed, that is, that
circumcision was brought t o the upper Kasai and Zarnbezi by the Sotho, via the intermediary o f the Southern Lunda (de
Heusch 1988, 40-43), then one has a further case in point for the study o f the relationship between style and ethnicity.
Conceptually. technically, and t o a certain extent in form, initiation (m)akishi are very cornparable within the "strudural
ensemble" in cause, and it is often dificult t o ascribe ethnic origin t o some o f the bark rnasks such as chizaluke, kalelwa,
chikunza o r other rnitre-shaped characters, especially if we take into account the full costume (inseparable frorn the "head")
and the associated perforrnances (Photo. 1 , 2). 1 therefore propose that either:
- local association o f autochthonous masks t o circumcision occurred (the Sotho did not use any masks) and thereafter
was diffused by contact, o r via XIXth century conquerors, such as the Chokwe.
- or, most ethnicities o f the region N o r t h o f the Lozi possessed such masks and individually operated the same
association between the mukando and their masks.

It is remarkable that while one can say that those bark mask are stylistically the same from a valley t o the other; what
differs most is the variety of forms that a number o f them are given (corresponding t o a number o f distinct characters).
Conversely, a wooden mask least related to initiation, such as pwo (or pwevo), has shown more stylistic variability
(Photo. 9, 10).
In my research, I mostly dealt with spirit possession performances and their associated paraphernalia, which, similarly
show common concept and style, a fact of which the ritualists (vimbando, vimbuke, vongongo, etc.) are well aware. Only a
glance at the published iconography of tuhembi fertility clay figurines and tambwe hunting shrines (clay lions) will reveal this
(for instance: Baumann 1935, pl. 34-35; Martins 1993, ph. 12- 13;Wastiau 1998;Wastiau 2000) (Photo. 5, 6).
Any research in the region's arts at large unravels corresponding forms, similar material, identical uses and related styles
in most domains. Style being defined by relations between features of forms, the study of styles ought t o be the study of
relations between relations o f features. Starting from a visual point of view, it is therefore logically the ensemble o f the
production of stylistically-related artworks that should constitute the body of material t o be studied, whether ascribed
identical o r distinct "ethnic provenance". Starting from a conceptual point o f view is another matter: But ethnographers have
always felt the compulsion t o distinguish and differentiate ethnic groups together with styles, which is natural and laudable
t o a certain extent, but which may alço blur the ethnographic description. lt has been the case that elements o f a culture
were left out o f description andlor analysis on the grounds that they did not "belong" t o the peoples in question, but were
an "influente", o r recent "borrowing". For example, in the midst o f some "notas etnográricas" on the Nganguela,
ethnographer António Carreira had t o insist on what was "legitimate" (sic) Nganguela culture, and what "belonged" t o the
Chokwe:"Todos estes costumes ganguelas merecem estudo aprofundado com base em pesquisas de campo, por forma a
destrinçar o que é legítima pertença da cultura do grupo do que, porventura, consitui influência estranha. Isso é, porém,
tarefa de quem possua conhecimentos seguros dos povos e, em especial, das línguas" (1968, 61). For him and other
ethnographers of the era, it was obvious and unquestionned that there was, or at least had been, a clear overlap o f ethnicity,
language and culture. Ironically other scholars quesiioned the existente o f such an "ethnic group" as the Ganguela, often
identifying them as truly Mbwela, o r a cluster o f other ethnicities. Constant references in the literature for over one century
leads me nevertheless t o believe that there has been a socio-cultural formation either being called or calling itself
Nganguela, and displaying a material culture proportionally similar t o that o f the peoples it has been related to, namely the
Mbwela-, Chokwe-, and Luchazi-speaking peoples (cf Wastiau 2000. introduction).
Marie-Louise Bastin was not far frorn the sarne conclusion when in respect t o wood carving o f kindred o r close styles
such as Lwena, Chokwe and Songo, she asserted that it was the analysis o f the whole corpus that would indicate the
prekrred feotures of one or the other people (Bastin 1973,222), bui that in some cases there were no absolute correlations
t o be drawn between distinctive stylistic features and "ethnicity". Indeed,there are many comrnon rnotifs arnong the various
socio-cultural formations, such as crosses, scarification lines and the sort, as well as associations o f rnotifs and forrns.
These questions, and that o f style permanency, rnust be further articulated with historical change. Just as Ucokwe art
style gave way t o "colonial expansion style", any field o f art produdion undertakes historical change when the culture in
which it has emerged engages in transformations, rnostly by cultural contact in rnigrations, trade o r wars.This rneans not
that all is constantly invented anew. Rather t o the contrary, any new production is derived in the line o f previous
productions, it has a recapitulative asped, respecting structural patterns and retaining rnost (or at least some) of the forrner;
o r prirnitive features, even if change is swift.This, in fact, could held true in all artistic traditi0ns.A~A. Gell had it:"An artefact
o r event is never either traditional or innovatory in any absoluie sense, or; as time-philosophen are inciined to put it, sub
specie oeternitatis" (Gell 1998,256). O n the one hand, all the older art works o f the type known t o the artist are as rnany
protensions for hirn or her t o create sornething forrnally and stylistically similar. O n the other hand, the artist is able t o
project in the future hislher ideas, which slhe has ernbodied in the artwork (via concept, forrn and style).
Unlike court art, ritual arts developed in the more egalitarian segments o f the population.They did not serve the
purpose o f gloriving the temporal power o f chiefs or o f powerful traders, and therefore failed t o becorne an objea of
interest before the advent o f ethnography in the region in the XXth century,As such it has rernained a dificult exercise to
talk about a history of art in the region, because docurnents for the period extending beyond the past century are scarce
and do not allow for generalised and precise cornparisons. But if one adopts a broader view o f art in time, space and
concept as is proposed, extended and numerou8 fields open for enquiry into XXth century art that can be docurnented
by substantial data: archives, books, ethnographic and photographic colledions and before all fieldworkTherefore, I want t o
end this paper with a few exarnples that illustrate how an anthropology o f art rnay interrelate and explain artworks, history
and style, without presupposing o r overernphasising any correlation between style and ethnicity

Chairs and thrones

Insofar as it is wise to project ethnographic findings into the past, it can be suggested that chairs, both in the past and
present have been indexes o f seniority and (mostly rnale) power in the region under scrutinyThe chief's seat, o r more
sirnply the chair o f the elder of the rnatrilineage on which the village is based is often called litando, say throne, instead o f
chitworno, the cornrnon term for a chair o r stool. It is inherited through the uterine line together with the positions and
other badges of power In the courts, be they Lunda, Luvale or Chokwe, finely carved and decorated thrones were arnong
severa1 key artefacts that established and maintained the power of their owners (Photo. 8) along with other paraphernalia
such as mikwale double-edged swords, fly-switches, royal drums and in some places bells.Although such chairs have become
rare, imposing European colonial-style armchairs were introduced as a substitute. A fine and heavy chair not only informs
on the status o f the sitter; it is a means by which an institution (chiefship) and its representatives can act on some social
relations. For instance, t o build and use a chair larger than that of the chief would be an offence. A t another level, not t o
give me the best chair in a bush village is an invitation for me t o leave at once.' In a specific spirit possession cult named
jila, members issued from rather marginalised segments o f society perform healing rituals where the humblest is brought t o
sit on a chair for the time o f the cure, thereby marking ritual inversion o f the established norms. I have made the hypothesis
that the gift of a Chokwe-styled chair by MwataYamvo to an European seemed t o me t o be more that the statement of
friendly intentions.Today, the Luvale throne of chief Ndungu, near Zambezi, is a very large and heavy armchair flanked by
t w o large polished and smooth sculpted lions (more on certain occasions) (Photo. I I, 12).Those,that probably were made
in the 19408, are not meant t o reflect any 'Yraditional belief" in a lion spirit, but rather t o resemble the lions that flanked
the throne o f Solomon as described in the old testament. Styled in the 1940s in the fashion o f some crafts that were
introduced by missionaries such as F. Coillard in the region as far back as the late nineteenth century (Maclntosh 1907, 120)
these felines have remained in the present as a powerful emblem o f Luvale chiefship not to be dissociated from the throne.
Many other examples could be given that confirm the use o f seats t o negotiate power; hierarchy and filiation. In all cases, I
contend, the style in which the chair is carved or built, informs and qualifies its social role which can, o r can not, be relevant
t o ethnicity, but certainly is o f secondary importante in most cases.

Modernity and the alien

My second example has t o do with the incorporation o f modernity and the white alien in traditional art to inflate and
emphasise agency Marie-Louise Bastin pointed out the early integration of elemenb of foreign culture such as chairs and
guns (passim), and later bicycles and other vehicles in Chokwe carving (Bastin 1973, 200; 199 I), but this in fact is a feature
common t o all the people o f the area, if not o f most African cultures: think of the Lozi sorcery night guns (Reynolds l958),
the Holo "crucifix" figures, and European characters in Luvale or other spirit possession (Lips 1937; Stoller 1995;Wastiau
1998; 2000), among others.This process took place from the onset o f intercourse with foreign traders, be they the famous
"pombeiros",Angolans, Europeans (Bastin 199 1) orArabs.After all, it is not different from the one that led most Chokwe-
dominated socio-cultural formations t o adopt and adapt part of their culture, be it forms of masquerading, types of spirit
possession, or carving styles.

' For a cross-cultural example on sitting arrangemenis and t h e rnaking of hierarchy. seeToren ( 9 9 0 ) .
These assirnilations by no rneans meant either a loss o f a "tradition" o r "identity" but rather a cultural reinforcement
designed t o colledively anticipate the successes o f a positive engagement with the upcoming colonial power; and later lhe
postcolonial culture. By integrating new forms and symbols in pre-existing ritual and symbolic structures, upper Zambezi and
Kasai peoples insured both an interpretation o f historical changes they were bringing about and a development of their
syrnbolic-conceptual resources.This attitude has allowed ofhciants o f the most modern possession cults, which incorporate
numerous images of modernity such as radios o r military attires, t o describe their deeds as pertaining t o "tradition"
(chisémwo), and not as alien o r "undele" (i.e. "of the white rnanm').Thesarne process o f translation o f culture allowed an
inforrnant o f Marie-Louise Bastin t o describe the famous carvings of standing hunters as a depictions o f the rnythical
Chibinda Ilunga (Bastin l978), although most featured rifles and not bows, as Chibinda is said to have carried according t o
mythologyThough data is virtually non-existent, one can guess that primo bcie rneaning (here a representation o f Chibinda
Ilunga) was largely subordinate t o agency: possibly a visual glorification o f ancestorship and iiliation, that is, the role o f the
object as rnediator in social reations, between individuals, groups and spirits. O n the other hand, a change in style such as
lhe inclusion o f rnodern weaponry arnong lhe figurative elernents might be an indication o f the will to update an older
concept with rnodern rneans.The stylistic addition only qualifies in a different way the perennial nature o f the agency o f lhe
object. It also modernises it without destroying the otherwise characteristic formal features that were irnrnediately
recognisable t o the beholder o r user
The same can be said about artefacts such as the mokishi masks, which seems t o have fulfilled rather constant fundions
in the context o f mukondo initiation. Although there have been some "ethnic speciiicities", a number o f socio-cultural
formations o f t h e region share the sarne bulk of masquerades, which have the same basic style: mokishi bark rnasks always
sport red and white strips o f cloth, paper o r paint on a black resin, o r now tar background, knitted fibre costume, iibre,
blanket or hide skirt o r apron (Photo. 1 , 2).There is a certain typology o f funny and o f fearsome characters that have
homologous shapes. A t the local level however; sometimes, though rarely on an ethnic basis, rnostly on a regional basis o r
at times on an individual basis, specific styles and sub-styles are created that wax and wane in time and space.

Spirit possession arts

The third exarnpe I would like t o give here deals with the arts (rnostly sculpted staffs. costumes, arnorphous magical
paraphernalia and sometimes figurines) which were created within a regional possession cult, which, by definition, has spread
over ethnic boundaries.The jia cult, which use o f chairs I have rnentioned earlier; has specific staffs and costumes which have
been known over a large area ofwestern and Northwestern Zarnbia and Eastern Angola.Their carved staffs. for instante,
definitely have a style o f their own which is distinct from staffs o f other cults or frorn older ethnic styles o f the region
(Photo. 13).They present, however; a number o f resemblances with the lattei; be it in terms of agency form o r style. Some
figures, such as the Chikuza mask and Kalulu half being figure belong t o the
regional cultural background, but have been reshaped in a style spec~fict o the cult
to fulfil specific roles.
In these three examples, art forms have appeared as rneans t o "fashion and
refashion" aspects o f cultural memory (r$ Stoller 1995), by working agency, form
and style to integrate historical events into a pre-existing cuitural herrtage in a
'Yradrtional" manner This seems to be the reason why processes of historical,
cultural or ethnic rntegratton may be refiected in changes of style. Style qualifres
agenq religious, politrai or other; by making visible and by locating rt in socio-
temporal space.The first example, discussed frorn the introduction, was that of
the upper Kasai colonial Chokwe style in the late XIXth and earlymth centunes.
By outdoing their netghhours and partners in art the Chokwe dembnsbated their
dominion of matters of politis, religion, rnedicine and technologies, and thereóy
reinforced their temporal superiority in the rqion.

Conclusion

It is probable that we cannot deveiop our knowledge of the ar% of the region
under scrutiny without relying t o a certain extent on concepti of "ethnicity" and
"tradition" (Levine 1999,Vansina 1989), but we must beware of there being no Photo 13 Sia medicine shr,ne related to
necessary or systematcc correspondente between language, ethnicity styie, form mukondo-derived mohombo spirrtr d u r the ~ annual
June ceremony of the j~lacult R Mbaiakanyi viliage.
and use.As a matter offact, art style and ethnic~tyamongthe kindred peoples of Zambezi (Zam b,aJ
ro%,onal cdt Itha t s
the Lungwe Vungu, Kaiai and Zambezi headwaters have seldom been fuiiy m n ethnic-based),has ncorporated a xore of local
%
' !Ona' mask and buin 'plnts Pantheon"
correlated. Only some palatine art styles of the late XIXth and early XXth
such as this d i i k o rnarker ]!Ia sta& come in recog
century pertiaps the continuation of some former styk such as Ucokwe, appear hizable rm ieature bulgrng ihaft with mn~caitop
as fuliy differentiated on an ethnic basis,Those can he defined through the study decOrated with whlte pearis and a polnted end
Photo B W&tau, 1994
of a restricted corpus o f wood carvingi only They may have flounshed at the
same tcrne as ethnicity itself developed in the context of a polrtical and miiitary
struggle. Less empowered socio-cultural formations, such as the subjugated
Luunda, the South-Western Luvale or smaller populations such as rhe Holo.
Luchazi or Camatapa did not produce any such arts i r this penod On ihe other
hand a complex, refihed and multifaceted regional art cutting across
"ethnicities"constantly developed in the fields o f religion and therapy (Jordán
1998, Wastiau 2000) Ethnic-based styles developed in the iields of solid wood
carving principally whereas regional styles characterised most other fields One
can also conclude that an ethnic-based differentiation o f style may occur without
being pervasive in the various fields o f produdion, and that the arts o f divination,
witchcraft. spirit possession and masquerading are common to most o f the
peoples of the region and generdly indistinguishable on an ethnic basis, unless
they are circumstantially designed for this purpose.
Art, at large, rnust be approached in the double perspedive of synchrony and
diachrony t o reveal its mediatory role in a socio-cultural formation. Much remains
t o be done t o systematise more data, specify and deepen the ethnographic and
theoretical questions. Certainly, Marie-Louise Bastin gave us a priceless oeuvre t o
start research with and blazed a number o f trails in this field.

Photo 14 Ngornbo yo lipele divination basket used by


dviner Samundengu in Murhona Zarnbezi (Zarnbia).
Only few anthropomorphic i t e m contaned in the
basket may at times show ethnic-based style. Such a
d~vinationtechnique can be practised by anyone
having been possessed by a spirit called lihornbo lya
kayongu, and used t o heip any client regardless of
ethniciq. Phato B.Wasiiau, i995.
UPPER ZAMBEZI AND UPPER KASAI CULTURE AREA c.1870

LUZI S&-utlturalmOn rrrnr C m r t e w k h

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77
TSHOKWE I
Manuel Jordán

Zambian Makishi Masquerades and the Story of Categories

introduction

Luvale, Lunda, Luchari, Mbunda,Thokwe, and other related peoples of western and northwestern Zambia often engage
their ancestors t o benett from their spiritual influence and assistance. ' The ancestors "come back t o life" in their
rnasquerade forms t o participate in the affairs of their living descendants. 'These peoples, living in areas o f Zambia,Angola,
and the Dernocratic Republic o f the Congo, create more than one hundred ancestral mask characters, o r rnokishi (sing.
Iikshi), which are performed during occasions such as the rnukondo initiation of boys and the investiture and confirmatory
ceremonies o f chiefs (Bastin 1982: 8 I - 105: Kubik 1983: 88- 135; Félix and Jordán 1998; Jordán 1998).
The different makshi characters have distinct physical, symbolic, and behavioral attributes which relate diredly t o the
particular roles they fultll in ritual and ceremonial occasions.Their defined attributes and dispositions also indicate character-
type similarities, however In certain perforrnative contexts, for exarnple, rnokshi groupings, orders, or hierarchies are observed.
This suggests broader categories wiihin which rnokishi characters rnay either substitute or complement one another '
Masquerade performances are part o f a drama which is devised as an overarching narrative, o r "story," which
symboically branches out to touch on a variety o f issues o f socio-cultural significance.'This essay presents one such

Manuel Jordán, Irir & 0. Gerald Canter Cenrer forvisual Artr. Sranford Universiry.
' Thls essay s dedicated to Marie-Lauise Bastin, whose contriblrtions to the iield of Afrlcan art hstory and dedication to the arts of Chokwe-related peoples
are a source af inspiration for my own warkihis artile is based in part on iieldwork I conducted n western and northwestern Zambia from 9 9 1 through
I993 and in 1997. Initial research was generously funded by the Universty of lowa Project for the Advanced Study of Art and Life in Africa (PASALA).The
second iield research trip was sponsored by the Birmngharn Museum of Art.
See Wastau (997. 1998),Turner (1968). and White (1948a. l948b) for docurnentation of other forrns of ancestral manifesiation.
' A choice of rnakishi characters is made for any given ceremonial or ritual conte*. What is mast imporiant s that at least one character from a particular
category s present so as to maintain a c e r t a n hierarchywithin these categories.any of a arge number of characters may be selerted to fu16I specific rales.
This subjed is elaborated in the seaian of this headed "Makishi Categories: Mukonda Context:'
See Jordán (1993) for an elaboration on the soco-cultura ramiiications of masquerades.
narrative regarding the appearance o f masquerades in the context o f a royal
confirmatory ceremony5The narrative, based on direct observation in the field,
taken together with other tield information provides a contextual framework for
the consideration o f both established and proposed makishi masquerade
categories according t o defined physical, behavioral, and performative attributes.

A contextual narrative

Early in the morning, the rnakishi mask characters crossed the Zarnbezi River
in canoes. corning frorn the west, where the sun sets, where graveyards are
located, and where the ancestors dwell When they reached the east bani<, they
Photo I Male Visaluke characters are assisted by
women in findlng
.objeçts
. hidden inride the body moved out o f sight o f the spectators t o regroup for a ceremonial procession. First
of a zoomorphic figure built from sand. Zambia. appeared Pwevo, the mask of the beautiful woman, followed by younger females
Northwestern Province, 1997.
and a hierarchical line o f rnakishi that included auspicious male ancestors. followed
by certain ambiguous characters, in turn followed by intimidating makishi types.'
When the procession returned t o the place o f their river-crossing, the
fernale characters moved aside and the malevisaluke (sing. Chisaluke) joined a
number o f women t o search for items hidden inside the body o f a large
zoornorphic creature, which the women had modeled on the ground from river
sand (Photo. I). The women provided a rhythm with songs and whistles and,
along with the Visaluke, they fel1 t o their knees and dug on the sand in a
choreographed fashion The male rnakishi found the hidden items, including
bottles o f alcoholic beverages that they kept as gifts

I purposely present the folowing section as a narrative to itress how the eventuaity ofmakkhi performances take the f o m of a dramatic context in which
the main characters assume prescribed mles that follow hierarchies that configure themselves in defined categories.The nfamation is based on my field
notes and abservatians, as well as on ihe commentanes of Zambian assisiantr and friends who were present during the canfimatary ceremonies of the
Luvale Paramount, Nduny, n 1997.
Aaua graveyards are located beyond the west bank of the Zamber River (near the town of Zambezi n northwestern Lambia) but mokahi are always said
ta come from the west because the sunset is symbolicaly assaciated with death and s therefare the place af the ancesiors.
' The "auipiciaus,""ambiguous," and '\ntimidating9attributes relate to categories I introduce ater n this essay
' The sand roamorphic creature is consistent with figures created as part of mohomba ancestral shrines. See Wastiau (1997: ill. 20). Fontinha (997: 53),
Martns (1993: il. 12) for reated figures made from earth or clay,
When this was over, the makishi regrouped for a relatively long journey t o the palace of Ndungu, paramount chief of
the Luvale.The rnokishi eventually arrived at the chiefs royal mukanda camp, where they remained in the privacy o f the
shelter in the company of a sele& group of initiated Luvale m e n 9 Later that day, the makishi returned t o the grounds
surrounding the palace t o interad with people.The performers of female charaders danced to celebrate the occasion o f
Chief Ndungu's annual confirrnatory ceremony, but also t o show-off their dancing skills. The larger intirnidating and
aggressive makishi also came out of the rnukando shelter throughout the day to approach, and then harass and chase,
wornen, children, and the uninitiated.These makishi later "relaxed" and performed energetic dances in a dance arena t o
celebrate the occasion. O
O n the next day, crowds o f people arrived at a stage where regional chiefs, government officials, and other dignitaries
sat t o wait for Chief Ndungu and his wife t o arrive in a royal procession. ' Several women in ceremonial dress, singing and
gesturing with ceremonial axes and flywhisks, entered the stage first t o announce the arrival of the chief and his entourage.
The Luvale chief and his wife then appeared, carried on a palanquin and escorted by the police and court officials. Chief
Ndungu and his wife sat on their thrones while a "master o f ceremonies" made welcoming remarks and general
announcements with the aid o f a microphone.
Later, a procession o f mokishi, reminiscent o f the chief's own, arrived at the ceremonial arena from the mukanda
enclosure.The procession followed the rnodel o f organization observed the day before, except for the appearance of a two
new charaders, including the Luvale "king o f all makishi," called Kayipu, and an assistant likishi (pl. makishi) called Kapalu. "
Kapalu ran around keeping the crowds at bay while the makishi procession entered the arena.The makishi remained in the
order they had arrived the day before except that Kayipu was now in front, escorted by Pwevo alongside. Behind them
followed the younger females, the rnale characters, the ambiguous charaders, and the large aggressive types. Kayipu, being
the king o f ali ancestral rnasks, sat on a throne across the yard frorn where Chief Ndungu sat on his own. l 3 The makishi
knelt in front of Kayipu and greeted this king likishi in the sarne fashion as the audience had saluted Chief Ndungu. Later;

W ~ u k o n d ais the narne of the initiation of boys into aduhhood. It is also a t e m that r e f e ~to the inkiation camp or the shelter where initlates remain in
seclusion.The "royal' mukando carnp war. made solely as the ternporary place of residente for rnokshi participatng in the confirrnatory ceremonies and was
not associated with an initiation. On the other hand, some of the participatng makishi came frorn vilages hostng mokanda initiations and rnaintainng ther
own camps. Other mask charaders were made specifically for lhe chief's cerernony
In different ceremonial ocrasians the aggressive rnakishi types adopt a more congenia behaviorThey concentrate on their dancing abilities and refrain (for
the most ~ a r t fram
) threatenng and chasing people.
'' The dignitaries incude members of the chievs caurt (title holders), other chiefs, Zarnbian government oficiais, and foregn dgnitaries.The Swedsh
ambassador to Zambia was present during this event.
'I These charaders. beng"roya1," had nat particpated n the prevous rnokichi processiow but had rernained in the royal mukanda camp unti the main event.
The 'Yhrone" was a arge inverted mortar
Kapalu assisted Kayipu in sacrificing a goat (Photo. 2). Chief Ndungu's ceremony
continued and toward the end some o f the non-aggressive makishi performed t o
honor the Luvale paramount. "

Makishi Categories: Royal Ceremonial Context

Chief's confirmatory ceremonies have a predetermined order and design.The


participants tend t o specific duties, follow prescribed steps, and perform within a
-, hierarchy that incudes the paramount chief, other regional chiefs together with
their delegations and title holders, dignitaries, representatives of the chiefs legal
system, police/miitary, male and female ceremonial and ritual experts, assistants,
. attendants o r "keepers:' and the general audience or audiences. l i These annual
. , . ceremonies help renew the bonds between the people and the traditional form
[ * o f authority represented by the paramount chief's sovereignty over the land and
his constituency In the case of Chief Ndungu, his leadership is justified in praises
. . recited oudly by court orators and accounts presented publicly by court
historians which exalt the achievements o f those who have held the same
(Ndungu) royal title.The presence o f other chiefs, government officials, and
dignitaries also validates the chief's claims t o supreme authority, and they honor

. ,- . . , . . . &.?:
. . , . and underscore his titular and personal legitimacy by paying tribute in the form
. . . of money placed at his feet. l6
..-
Similarly,the appearance o f makshi at the chiefs ceremony represents a form
Photo 2 Kayipu, the Luvale "king" of all rnaktshi
sacrifices a goat with a spear zambla,~ ~ ~ t ohf ancestral
~ ~ i validation.
t ~ ~ Beyond
~ being incidental forms o f entertainment, the
Province, 1997. makishi signify the continuous interest o f generations past in the affairs o f their
living descendants, sanctioning matters o f the people and reaffirming the
continuity of a chief's royal lineage. l 7
Obvious parallels exist between the chief's procession and that of mokshi.
Just as the makishi were received by women on the east bank of the Zambezi

'+ The performanre w a also pari o f a three-day competiton o f mask periormers.


The police presence has been ncreased recently due t a inter-ethnic (Luvale vs. Lunda) unrest in the area (Bor~sWastiau, personal comrnunication: 2000).
These rayalties are probably a rernnant o f earlier forrns oftaxation eitablished by chiefs.
' See Palrneirm (1994) for a detailed itudy of the"ideology o f kingship"among the related Lunda ofthe Demacntic Repubir o f the Congo.
river and the female makishi led the mask procession, so, too, a group o f women
similarly entered the arena first t o announce the entrance o f the paramount
chiefs procession.After Chief Ndungu arrived with his wife at his side, Kayipu,the
Ikng of makishi, entered the ceremonial arena in the cornpany of Pwevo. Similarly,
Chief Ndungu's police escort, representing law enforcement, may be matched
metaphorically with the "aggressive" makishi, which size and weapons have a
cornparably intimidating effect. Kapalu (Kayipu's assistant) in particular performed
his duty of crowd control by scaring spectators with the same long spear he used
t o kill the sacrificial goat.Although severa1 other correlations could be drawn, the
most obvious parallel with Chief Ndungu's gathering is the treatment o f Kayipu as
an enthroned king saluted by his makishi court, while seated on his throne
mirroring chief Ndungu's own gathering and circumstances.
It is clear from the order o f mask processions and their organization
according t o makishi type (female, male, ambiguous, aggressive/intimidating o r
royal) that masks exist within a hierarchy defined according t o the physical
rharacteristics and symbolic and behaviora attributes o f their characters.

-1
Mokishi Categories: Mukondo Context

The same mask typology is clear during mukondo, where particular roles are ..x
assigned certain mokishi according to their defined dispositions.
The more accessible o r approachable mokishi often perform with participatory Photo Pwevo, the accersible female ancertor is
audiences to celebrate the event of rnukondo. IBThisaccessible category includes surrounded by peope in a ceremonial cantext.
Lambia. Northwestern Pmvince, 1997.
male and female (or anthropomorphic) mask, zoomorphic makishi, and mask that
represent the fool and the foreigner; or neighbor (Photo. 3).
"Ambiguous" makishi types symbolicaly embody some o f the principles of
secrecy guarded by men in relation t o their initiation practices, and mirrorthe men's
access t o complex supernatural powers. '' People generally keep a respectable

Most active in these pariicipatory audences are women who direaly interna with, and thereby maintain, the rnakishi '5 perfarmances by becoming their
counterparii.
' Mukando initiations are veiled in secrec): and men claim that al! sorts of supernatural agencies are aaive in such iontexts
distance from these rnakishi because their presence, physical appearance, and
enigmatic behavior alone imply their extraordinary powers (Photo. 4).
"Aggressive" rnokishi types also have some o f the powers of the ambiguous
characters but their normally contentious behavior and intimidating physical
attributes place these rnakishi a notch above the "ambiguous" charaders and one
below the awesome "royal" types in the hierarchy o f power2' (Photo. 5).
Aggressive masks are the main guardians o f the mukando initiation. These
characters actively chase and threaten the uninitiated with their weapons and
perform crucial roles n key mukanda events.
A general order o f makishi appearances, based on the attributes and
dispositions o f different characters, also exists for mukondo. Anthropomorphic
types such as Pwevo and Chileya (also called Chiheu) may appear on the first day
of rnukondo, in relation t o the actual circumcision o f boys, when the charaders
arrive at the village t o symbolically indicate the operation and its initial success."
Ambiguous and aggressive types are made and performed only as the mukonda
initiation continues. These may appear weeks, o r months, after the time o f
circumcision.
The aggressive makishi characters have specific ritual duties during mukanda.
Once the circumcision wounds have healed, weeks after the onset of initiation,
aggressive rnokishi appear at sunrise t o escort initiates t o a river for a ritual bath.
Before this procession,the initiates and keepers o f the camp honorthese rnokishi
Photo 4 Katotola's feathered headdress and r e d through prayers and invocations.Towards the end o f rnukanda initiation, one of
white eyes syrnbolically reflect the characteh
the aggressive rnokishi (e.g. Mupala, Utenu, Mwendumba. o r another) temporarily
arnbiguous "ature and access t o supernatural
powers. Zambia, Northwestern Province, 199 I relaxes its aggression and assists the women in stirring the ritual brew they
prepare in large containers. Before and after this collaboration, however;the likishi
plays on its passive-aggressive disposition. It gets angry for no reason, chases
people, o r simply stands and postures.
Other than at the onset o f initiation,accessible rnakishi types also appear during
rnukanda events which mark key transitions towards the conclusion of rnukando.

" 'Powei' is an attrbute that always carne up when I disrussed rnakisht types with different Zarnbian assistants
The characters d o not come t o the vilage until the circurncislon process is Cnished
Chisaluke,a male guardian ancestor; only appears during the last weeks o f rnukondo
and is received by Pwevo and escorted t o the village hosting the initiation where
the character is received by women and the village head person. A few weeks
before the graduation ceremonies, Pwevo and Chisaluke, as a male-female pair; visit
a chiefs village o r court t o request permission t o conclude the rnukonda-related
events.Another accessible character: Ngaji, arrives at the village only days before the
rnukanda graduation ceremonies,t o serve as a 'iudge" for the concluding events.
Although no ordered rnakishi processions occur during rnukonda, which
would help further distinguish the hierarchy of characters, the typology is evident

I
in rnokishi appearances and the specific rituallceremonial roles rnakishi assume. "
The people in charge o f different rnukondo camps, however; have a choice of
which rnokishi characters t o create.Any of a number of aggressive types (Mupala,
Kalelwa, Chikuza, Utenu, Mwendumba, o r others) may be selected as the
protective ancestor t o guard a rnukando. What is most important is not which
particular character fulfills the role o f the protective aggressive ancestor but that
at least one likishi o f that type, o r category, is included t o perform speciiic
symbolic and rituallceremonial duties. Similarly, while it is vital that an accessible
female character appears
. . in conjunction with rnukonda; it is o f minor importance
whether that character type is represented by a woman, a young woman, an old
woman o r a female chief charader
During chilende, the rnukondo graduation
- events, all the rnakishi appear t o
L
celebrate the initiates' accomplishments.The rnakishi perform one after another; ~ h o t os MupalaS arge sire and intimidating features
until sunset. Although the coordination o f rnakishi appearances for chilende is
often erratic, the characters generally follow a prearranged ordeii An accessible-
,~"bP,,~~,";;We"na~~~~,;~,"," Ofthe

type mask, such as Pwevo, may initiate the dances to get people in a celebratory
mood. A Chisaluke likishi might follow t o indicate the presence and participation
o f the tuteary male ancestoi; followed by other accessible anthropomorphic
masks and animal characters.These would generally be followed n turn by

I' Mukondo initiations may 1 s t anywhere frorn a couple of months to more than one year
" Chilende is ofien erratic because many mask characters perform during the sarne dayThat rneans that men within the initiation carnp need to be prepared
to quckly exchange costumes and other items.There may be twelve rnakishi iharaders in one mukando camp but only four costumes available.This
sometimes creates delays, and improvisat~onis often needed t o be able t o continue the reremonies.
ambiguous and aggressive types in order o f their size and powers.Towards the end o f chilende, the makishi who appeared
late in the initiation process, such as Chisaluke and Ngaji (the judge), along with such other anthropomorphic and accessible
types as Chileya and Pwevo, are received in the village as "heroes" carried on the shouders of mukanda attendants.This
special treatment supports the proposition that they belong t o a category distind from the aggressive and ambiguous types.

Established Categories

Marie-Louise Bastin (1 982: 8 1-92) notes three major categories for Chokwe masquerades, including a"sacredUtype that
consists solely o f Chikungu, which is a powerfu royal mask kept and performed o n y by high-ranking chiefs during
enthronement procedures or for propitiatory cerernonies that may require a ritual animal sacriiice. Her second category,
"circumcision masks" with speciiic roles in relation t o the mukanda initiation camp. includes such rnasks as Chikuza and
Kalelwa, which are auspicious t o the carnp and the initiates and have syrnbolic attributes related t o fertility, strength or
endurance. and continuity.The third category consists o f "dance rnasks," which Bastin defines as secular and performed as
forrns o f "profane entertainment."'"his category includes Chihongo, a Chokwe spirit o f "wealth and power;" Pwo (also
called Pwevo), the fernale ancestor; and such characters as Katoyo ("the white rnan") and various animal types including
Nguu (the pig) and Hundu (the baboon).
Patrick Wele (1993: 22-26, 58-63) suggeds t w o categories o f Zamban makishi characters. His first category includes
such rnask as Kayipu, the Luvale equivalent o f t h e Chokwe Chikungu that appears in Bastin's "sacred"category, and Chikuza,
Kalelwa, Mupala, and Katotola, which Bastin calls "circumcision mask." Wele's second division is similar t o Bastin's "dance
masks" category, although he impies that subdivisions can be didinguished on the basis o f character attributes.
The table below offers an alternative typological model for a seledion o f makishi found in western and northwestern
Zambia. 2iThe table is based on Bastin's and Wele's categorization o f rnask types, my own fied docurnentation o f Zambian
makishi masquerades. the information provided by numerous Zambian friends and iield assistants/informants,together with
currently availabe sources pertaning t o this region.
The selected characters are described and interpreted under the four major categories identified in this essay (royal,
aggressive, ambiguous, and accessible), which are subdvided further according t o the speciiicity of the characters' symbolic,
physical, and behavioral attributes.

" I disagree wrth the idea that any mask type s a form of"profane entertainment'' (Bastn 1982: 8 I) because though these rnasks entertain at one evel, they
still retain their relig~ousand symbol~cassaciatians.They are also cruc~alto the transmission of knowledge and relevant socio-cultural nforrnation Uordán
1998, Fel~xand Jordán 998).
" Although I focus on chanrters that are most comrnony perfarmed n Zambia, these categories also appy to Chaknie-related masquerades in Angola and
the Democratic Republic of the Congo.
Table of Mokishi categories

( J+rnanly associated with this group: Jcreated by this group; - not docurnented in relation t o this group; ? possibly created by this group)

Name
Category Description Attributes and Performance
and People

Kayipu. Huge arched headdress with decorative o r syrnbolic "King" of all rnakishi. Kept only by senior or pararnount
Ia.
Royal Kahipu designs in the front and numerou8 feathers covering the chiefs. Represents aspects o f Luvale royal ancestry.
back. Mask rnade frorn epherneral materials. Unsurpassed physical and supernatura powers.
Luvale Ji Anthropornorphic face with exaggerated rnouth, nose. Periorrned in context of royal confirrnatory cerernonies
Luchazi ? eyes. and cheeks, often h~ghl~ghted in red.Whrte feather: and funerais. Perforrnance is rnainly cerernonial. It eads
figurine, or srnall decorative panel protruding frorn the rnakishi procession into chiefs palace during annual
top of the head, in front of headdress. Overail knitted cerernonies. Sits on its own throne in front of audience
fiberlcotton costume. Wears blanket or printed textile of other rnakishi. Kayipu is not accessible t o people.The
as skirt. Holds spear o r knifelsword (rnukwaie) for iikishi or an assisiant rnask rnay physicaly punish anyone
animal sacribce. who gets too close t o it.Severe legal consequences rnay
result frorn an inappropriate approach t o the rnask It is
the rnost powerful o f all rnakishi.The rnask does not
generally occur in the context of rnukanda initiations.

l a. Kateya Gigantic, broad, abstracted, and 3-dimensional Attributes similar t o those of Kayipu Represents a
Royal semicircular facelhead fully covered with decorative o r Mbunda royal ancestral spirit with extraordinary physical
Mbunda J+ syrnbolic rnotifs. Mask rnade frorn epherneral rnaterials. and supernatura powers.ihe iikishi rnay perforrn as a
Eyes, nose, large rnouth. and rnukiple cheekz, deiined in royal Mbunda ernissary during confirrnatory cerernonies
relief on bottorn (straight) portion o f sernicircle. Fiber for pararnount Luvae chiefs, since the Zarnbian Mbunda
beard attached around rnask's bottorn edge. Back do not have chiefs of equa political bearing.The rnask
oy'head" covered with feathers. Overall knitted also requires distance frorn spectators. It does not
fiberlcotton costume. Wears a skirt rnade of fibers. dance bui rernains at a visible distance frorn other
Holds an axe or an adre as weapon. Luvale rnaskz and peope.The rnask does not generally
occur in the context o f rnukanda.

Ib. Kapalu Face made o f knitted fiber or cotton with large attached Kapalu serves as an assistant t o Kayipu. It controls
Royal red and white eyes and a distinctive headdress of crowds during cerernonies by threatening thern with a
assistant Luvale Ji feathers "bunched" within a round bber frarne. Overall spearThe likishi ask for rnoney frorn people and rnay
knitted fiberlcotton costume. Wears shorts o r pants openly collect any minor objects or iterns (hats,
instead of skirt. Holds a long spear as a weapon. sunglasses, drinks, etc.) t wants. The rnask rnay
syrnbolicaily represent a f o m of"legaV' authority tt rnay
assist Kayipu in sacrificing a goat dunng ceremonies.
Category
Name
and People I Description
I Attributes and Performance
I
2. Chikuza, Face has anthropornorphic detais but head extends t o Chikuza is symbolically associated with fertility and
Aggressive Chikunza forrn a very tal1 and slightly curved conical (antelope success in hunting. It is auspicious to mukanda but rnay
horn-like) shape with rings down a (frontal) spine. Mask be present at cerernoniai events and other occasions.
C h o h e J+ is normay made from epherneral rnaterials. Chikuza Although Ch~kuza rnay chase wornen and the
Luvale J wears a fiber skrt and neck covering.The iikishi rnay uninitiated with its weapons. it is probably the rnost
Luchaz J h o d a beil, a tree branch. an axe or other weapon. "relaxed" of all the mokishi in this category Its dance
Lunda J stresses the mas@ fertility attriblrtes.The iikishi pants its
Mbunda J feet firrnly on the ground (separated) and twirls its hips
t o create a "fannng" motion with its skrt.

Kalelwa Anthropornorphc face with a large headdress rnade in Kalelwa is mainly associated with mukanda. lt is
different styles. A tubular elernent extends frorn the considered a protedive spirit for the carnp and initiates.
Chokwe J+ rniddle-top of the head. Curved bandsiextensions or It is one of the aggressive makishi which chase wornen
Luvae J arched "winged" structures connect the head with the and uninitiated males with its weapons. Kalelwa is one of
Luchaz J upper portion of the tubular element, or surround the a few makishi which may syrnbolically assist wornen in
Lunda J tubular elernent. Patterns or rnotifs decorate the the preparation of alcoholic beverages towards the
Mbunda J headdress. Mask is normay rnade frorn epherneral conclusion of mukonda intiations. It has attributes of
materials.The costume incudes a fiber or animal peit physical and supernatural power Its dance is similar t o
skirt. It may h a d a tree branch, a machete. or any other that of Chikuza, although a b ~ more
t ernphatic. Kalelwa
weapon. and Chikuza are generally agreed t o be of Chokwe
origin but they are comrnonly rnade by all the related
peoples of western and northwestern Zambia.

2. Mupala Mupala is a srnaller verson of Kayipu. It has a similar but Mupala is the "ord" and main guardian spirit of the
Aggressive srnaller headdress with feathers on the back, and an mukonda initiation carnp, but also appears in
Chokwe J anthropomorphic face with exaggerated rnouth, nose. confirrnatory cerernonies for chiefs. Mupala s an
Luvale J+ eyes, and cheeks, but lacks Kayipu's feather; figurine. or aggressive rnask and it is more intimidating than other
Luchari J+ smal decorative panel atop its forehead. Wears an rnasks in this category because of its large size and
Lunda J overal knitted fiberlcotton costume and an animal pelt exaggerated facial features. Its general behavior and
Mbunda J as a skirt. Holds a tree branch. a machete o r other dance are similar t o those of Chikuza and Kalelwa.
weapon. Mask is normally rnade frorn ephemeral Mupala is rnade by all the related peoples of western
materias but wooden examples are rnade on occasion. and northwestern Zambia but it is generally perceived
as having a Luvale or Luchar origin. 0ther"aggressiven
rnask are closely related in rnorphoogy to Mupala.

Litotola, A Bkishi easily mistaken as Mupala is instead identified as Mupala and LitotoldKatotola are closely related rnask.
Katotola a Katotola or Litotoa, soely because it has an additional built in a similar fashion.The names are interchangeable
srnall arched elernent placed atop the forehead, in front in some areas. Where the character distindons are
1 1 and People I Description Attributes and Performance
I
Chokwe J of the larger arch. KatotoldLitotoa sornetimes lack the rnade, Katotola andior L~totolaare considered cousins
Luvale J+ feathers on the back o f the headdress, which are of Mupala. The rnokishi functions, behavior, dance,
Luchari J typically present in the Mupala mask. Instead, a small attributes and symbolic associations are therefore very
Lunda J kee-shaped structure may protrude perpendicuarly similar Katotoldltotola is mainly associated with the
Mbunda J from the back of the iarger arch. The rear of the LwenaILuvale, although the Luchazi also create the
headdress may be painted with designs o r divided down character
the rniddle by contrasting fields of red and white
pigrnentation.

2. Mwendumba A double arched headdress crowns this masks Mwendumba s another aggressive character that is
Aggressive anthropomorphic face.Tle back arch is smaller than the auspicious t o rnukanda but appears in other contexts as
Chokwe J+ one it parallels t o the front. The headdress is in the well. Although identified as "the lion," it has little in
Luvale J same shape but much smalier than that o f Mupala and common with other animal characters (including
Luchazi J its "cousins." The headdress is decorated w ~ t h another version o f the lion). which are placed here
Lunda J decorativeisyrnbolic pattemsThe rnask also wears an under a separate category Instead, the association
Mbunda J overall kritted iiberlcotton costume. It generally wears serves as a metaphor for strength or power; and the
an animal pelt as a skirt. It rnay holds a branch or other Iikishi behaves and periorms in a manner that s similar
weapons. to that of other aggressive characters. Mwendurnba is
smaller than other rnasks n the aggressive category and
rnost people consider it junior t o the other maskr.This
likishi is made by all the related peoples discussed here
but it is considered by some to be a Chokwe mask.

2. Utenu Utenu has an anthropomorphic face with a flat. keel This Iikishi is also considered "junioi' t o such mask as
Aggressive shaped headdress decorated wrth different patterns The Mupala and Kalelwa. Utenu is extrernely aggressive in
Chokwe J+ character wears an overall fibericotton costume and chasing people and it casts insults and makes rude
Luvale J normaly wears a pelt as a skirt A machete is Utenu's utterances.The Iikishi is called 'the angry one," and the
Luchazi J favorrte weapon name "karoye" rneaning "I am angry," is sornetimes
Lunda J written on its headdress.The masks dance is similar t o
Mbunda J that of other aggressive rnakishi. only more vioent.The
mask sornetimes runs and "crashes" on the bushes or
shrubs, dernonstrating its uncontrolable rage.

3. Katorola. Face made in knitted fiber or cotton with large attached This version of Katotola (also known as Ngondo) is not
Ambiguous Ngondo eyes, often red and white, and a distinctive headdress of to be confused with the aggressive rnask of the sarne
feathers added t o the head or "bunched" within a narne (related t o Mupala) that has a iarge arched
Chokwe J+ round fiber frame.This rnask s similar t o Kapalu in the headdress Katotola's srnall feathered headdress 1s similar
Luvale J ''royav' category only with a smaller (shorter) crown of to those worn bv diviners dur~np.exorcism rituals The

89
I ! TSHOKWE i i
Name
Category Description Attributes and Performance
and Peopie

Luchazi J feathers. Another styie, favored by some Lunda and mask is also a protective spirit. Its mere presence
Lunda J+ Chokwe, iacks the feathers and includes a small suggests supernatural powers. It does not have to chase
Mbunda J structural arch from the front t o the back of the head. people; they keep a distance from the Iikishi because
Overall knitted fiberlcotton costume. May wear shoris they recognize its supernatural powers. Katotola piays
(pants) nstead o f skiri. Holds two wooden sticks. kukuwa siick, called the "bones o f the ancestors." lt s
sad t o be able to find things that are hidden or invisible.

Kalulu, Ths small mask has anthropomorphic facial features Kalulu (Bwanda or Kashinshi) is 'the hare:' Like the fast
Bwanda, wrth dstndive "hare" ears projeding upwards from the and snesb animal, Kalulu is a trickster spirit with super-
Kashinshi sides Mask made from ephemeral material8 Overall natural powers. Although an animal, the association is
knrtted fiberlcotton costume Wears fiber skirt and neck mainly metaphoncal as the Iikishi ads as an ambiguous
Chokwe J covering May hold an axe o r a small weapon charader that pretends to stea things, including taking
Luvale J babes from their mothers. Another version of Kauu.
Luchazi J manifested as a half-being and trickster, appears n the
Lunda J context of divnation.
Mbunda J

Chimbanda Vnless identified in the fied as such, t is sometimes dif- Chimbanda, the "heaiei' of'diviner" (more properly
ficuit t o discem this rnask from other anthropomorphic nganga in Lambia). has supernaturai powers similar t o
Chokwe J characters. Some distinguishing eements may be the those of Kaluiu and KatotolalNgondo, including the
Luvale J incorporation of a feathered headdress of the type ability t o see "invisible" things. Because Chimbanda
Luchari J worn by KatotolaINgondo on an anthropomorphic face represents a human healerldiviner; it has ess abstracted
Lunda J mask made in wood or from ephemeral materials. Facial features than the other ambiguous mask.
Mbunda J features may include details contrasted in red and white.
Chimbanda may hold an axe andlor a flywhisk

Luvwengi, Anthropomorphic face mask related to Chjmbanda in Luvwengi (also Chikungila) is a version of Ch~mbanda
Chikungila type and style May similarly be created in wood o r with specfic attributes of power that relate t o itc abilrty
from ephemeral material8 Face may be divided down t o eat or swallow anything it w~shes(chrckens, goats,
Chokwe J ~ t smidline by contrastng fields of red and white colors tables, cars etc)
Luvale J Holds an axe andlor a flywhisk
Luchazi J
Lunda J+
Mbunda J+

4a. Chihongo Anthropomorphic mask made erther in wood or from Chihongo represents a C h o h e male spirit o f wealth
Accersible ephemeral materiais The main distingushing eernent 1s and power The disc shaped beard and crown is
male Chokwe J+ a disc-shaped beard carved or modeled below the chin remniscent of those worn by some Chokwe chefs The
Category 1 an"e
l 1 Description
I Attributes and Performance

Luvale - Facial scarificaton detais are added in strips of paper or Iibshi may appear n initiations for the sons of Chokwe
Luchari - carved in relief in the case of wooden mask Wears a chiefs. at royal confirmatory ceremonies or during other
Lunda - crown or high arched diadem t o which feathers are events. Chihongo is not aggressive but rather represents
Mbunda sometimes added Overall knitted fiberlcotton costume an auspicious male spirit made accessible t o peope
Wears broad fiber skirt over a frame of bent branches through its public performances.The Chihongo dance s
characterized by a rhythmic swaying o f the hipslfiber
skirt from side t o side.This character is rare in Zambia.
where there are no Chokwe chefs. However I have
been told that Angolan Chihongo mask have been sent
t o Zambia t o perform in honor of other chiefs.

4a. Sachihongo Sachihongo is carved in wood in various related styles. Sachihongo s the Mbunda version of the Chokwe
Accessible Samahongo The main style features a large, broad, rounded facial Chihongo male spint of wealth and power Sachihongo
male outline in which large eyes, nose, and mouth are carved seems to have more attributes or symbolic associatons
Chokwe - in relief Forehead "wrinkies" are commonly included in as it may be described as a chie6 a successfu hunter a
Luvale - different Mbunda mask as incised undulating ines at the diviner, or another social type. The likishi s also
Luchari - bonom of the forehead, above the eyes. Feathers are approachable through its public performances.As in the
Lunda - inserted in hoies around the upper ndge of the circular case of most other masks, the Sachihongo dance
Mbunda J+ mask. Other feathers may be attached t o the top of stresses fertility as it wirls i k hips t o create a "fanning"
the head. A fiber beard is tied onto the holes on the motion with its skiri.
bottom ridge o f the mask. lt wears an overall knined
fiberlcotton costume, a fiber skirt and neck covering,
and it may hold an axe or flywhisk.

4.3. Chisaluke Anthropomorphic face mask mainly constructed from Chisaluke is a maie tutelary spirit whose main role is
Accessible ephemeral materials but also carved in wood. Facial linked t o the mukanda initiation. It is the only mask
male Chokwe J features are carved or applied in paper andlor stnps of character dupcated within an initiation camp. since
Luvae J c1oth.A beard of fibers is tied or glued t o the chin area each initiate should have his own Chisaluke as a tutelary
Luchar J of the maskThe main distinguishing features are three ancestor Chisaluke mask appear duflng the final two or
Lunda J small, round lobes extending from the forehead. the three week of an inrtiaton, and take an active role in
Mbunda J cental one with a"pug," and small animal pelts attached revising the dancing skils of initiates before their
t o its head as "haic' It wears an overall knitted graduation. Chisaiuke's dances vary according t o the
fiberlcotton costume and shorts instead of a skirt. May occasion, and take on different behavioral attitudes t o
wear fuifui phallic appendage. complement specific mukondo events. Chisaluke is one
of severa1 charaiiem in this category which wear the
fuifui phallic appendage in specific dances t o stress
attr~butesof fertiiity
Category 1 an,""le Description
I Attributes and Performance
I
Chileya, Chileya. also know as Chiheu, is similar t o Chisaluke, Chiieya is another rnale tutelar/ ancestor which appears
except for its lack of forehead lobes and different"hai(' rnainly in the context o f rnukonda-related events. Its
which is generaly rnade by applying cotton o r feathers perforrnance is related t o that of Chisaluke but it does
Chokwe J t o the rnasks cap. It also has an anthropomorphic face not have a dired relationship with the initiates or their
Luvae J rnask constructed rnainly from epherneral rnaterials but learning process. Chileya's behavior and periorrnance
Luchm J also carved in wood. Facia features are carved o r vary according t o the specific cerernonies in which it
Lunda J applied n paper andior strips o f cloth. t wears an participates. Part o f the periorrnance behavior rnay
Mbunda J overall knitted fiberlcotton costume and shorts instead seern "erratic" or"foolish" but that is just one aspect of
of a skirt. May wear fuifui phailic appendage. the likishh persona. Although the charader has
sornetmes been described as the "fool" and also as an
"old rnan", two other characters speciiically reflect
foolish behavior (Ndondo) and old age (Kashinakaji).

4 a. Ngaji Headlface covering rnade in knitted fiber or cotton.The Ngaji is the most abstract-looking charader in this
Accessible face s defined by an attached flat, rectangular band category, and physically it may have more in cornmon
rnale Chokwe J (rnade of wood, cardboard or a stnp of metal) placed with mokishi in the arnbiguous category Nonetheless,
Luvale J horizontaily across the middle to define facial features. Ngaji's periornance and attributes are closely related to
Luchazi J The eyes and rnouth are highiighted by white paper those of such rnasks as Chileya and particularly
Lunda J applied over a red backround. A dstinctive headdress Chisaluke. Like Chisaluke, Ngaji has a specific role within
Mbunda J o f feathers is "bunched" within a round fiber frarne rnukondo that relates t o the last events during the
(similar t o that in sarne KatotoldNgondo examples). initiates' graduation cerernonies and before the
Overall knitted fiberlcotton costume. May wear shorts conclusion of the carnp. Ngaji only appears during the
instead of skirt. May wear fuifui phallic appendage. last few days of rnukando t o serve as a judge o í the
initiates and the final initiation events. For the rnukando
graduation cerernonies, Ngaj~,ike Chisâluke and Chileya,
is carried on a rnan's shoulders into the perforrnance
arena.These rnokshi are treated as heroes and received
by arge crowds who celebrate the successful
cornpletion of rnukanda-related evenrs.

4 b. Pwevo, Anthropornorphic mask rnade either in wood or frorn Pwevo represents a primordial female ancestor
Accessible Pwo, epherneral rnaterials. May include elaborate facial Character is very active during rnukanda events, with
female Mubanda scarification detais applied n strips of paper or rarved numerou8 appearances for the enjoyment of people
in relief for wooden rnasks.Wears a fiber coiffure that celebrating the event. It is one o f the rnain rnukando-
Chokwe J irnitates one o f severa1 hairstyles favored by wornen. related rnakishi aithough it appears at other cerernonial
Luvale J Beads and metal earrings are oíten added rnainly as occasions, including the investiture of chiefs (where it
Luchazi J decorative elements. Overal knitted fibericotton may ead processions) and political nllies.Although dan-
Lunda J costume. Lengths of irnportedlprinted texties worn as cedlperforrned by rnen, it serves as a syrnboic emissary
Category 1 anYZple 1 Description Attributes and Performance

Mbunda J wrap-around skirt A dance bustle and ankle nnles are for wornen, particularly the mothers of initiates. It repre-
worn to ernphasize dance movements May hold a smal sents the beauty, morality, and abilities associated with
adze, axe or f l w h s k women. It escorts male makshi such as Chsaluke t o
present an image of gender interdependence. Pwevo's
perforrnance imitates dances steps associated with
wornen. A quintessentially accessible mask type.

4 b. Mwana Physical attributes practically the same as those of Mwana Pwevo, or Mwana Pwo, literally means "young
Accessible Pwevo. Pwevo or Pwo, but t o refled the physcal appearance of wornan:'The symbolic and behavionl attributes of this
female -Pwo. a young woman it may wear a simpler hairqle and few character are practicay identica t o those of Pwevo.
-Mubanda or no faria scarification marks. although the younger female rnay represent more
"modern" values or morals. In some areas the names
Chokwe J "Pwevo" and "Mwana Pwevo" are interchangeable.
Luvale J
Luchaz J
Lunda J
Mbunda J

4 b. Chiwigi Another version of Mwana Pwevo with the same Chiwigi rnay further stress the attitude and demeanor
Accessible appearance and attributes. The only distinguishing (sometimes vanity) o f some young women, whch
female Chokwe J feature is its çrraight and long, abundant (imported wig- contrasts with the more rnature and accomplished
Luvale J Ike) hair femae, Pwevo.
Luchzi J
Lunda J
Mbunda J

4 b. Kashinakaji Another venion o f the female charactei; carved n Kashinakji,the old woman, honors wornen of advanced
Accessible wood or made from ephemeral materials, with facial age for t h e ~ r contributions t o society and
female Chokwe J features siightly manipuated t o represent old age. accomplishments as "fulfilled" mothers.The likishi may
Luvale J Wooden breasts, attached t o rts overal fiber costume. h o d a stick o r cane t o emphasize the age attributes.
Luchzi J sometimes hang low t o indicate the woman has raised Although Kashinakaji generally represents a old woman.
Lunda J many children. occasionaly the name refers t o the representaton of an
Mbunda J old man.

4 b. Lweji. Anthropomorphic Janus-faced mask made from Lweji represents the celebrated and welldocumented
Accessible female chief epherneral materials.The two faces project in opposite Lunda female chief of the same name. She represents
female directions from a shared central arched headdress that royal attriblries, and holds a siick with bundes of cloth
Chokwe J re~resentsa crown. Facial features and decorative t o ndicate her ong ioumey from the world ofthe dead
category I anFEp1e I Description Attributes and Performance

Luvae J rnotifs applied with strips of color paper Overall knitted (and the past) t o the world o f the Iiving The Iikishi has
Luchar J fiberlcotton costume. Lengths o f irnportedlprinted oniy been docurnented arnong the Chokwe However;
Lunda J texties worn as wrap-around skirt. May hold a stick versions o f Pwevo (particuiarly in wood) created by
Mbunda J over the shoulder with bundles of clothes. these related peoples sometimes include elaborate
diadems o r small, arched crown-like elernents, which
rnay indicate that the character represented is a fernale
chef or a wornan with roya associations

4 c. Katoyo. Anthropornorphic rnask rnade either in wood or fmrn Katoyo represents the European, white person or
Accessible Chindele epherneral materials. Katoyo has a protruding forehead foreigner The iikishi s intended as a caricature of 'Yhe
Outsider or a cap. Facial features inciude a long o r pointed nose other" lt ridicules the "awkward" features and behavior
Chokwe J and an "uglq' rnouth with exaggerated teeth, which may o f foreigners. Itc perforrnance, however; is sirnlar t o that
Luvale J be carved ar forrned by inserting bones, animal teeth or of such rnakishi as Chileya and Chisaluke, since this
Luchazi J sticks. Facial hair is often attached near the rnouth. Facial character is carried on peoples shoulders during
Lunda J scarification details are often included. Overall knitted chilende where it periorms "explicit" dances with its
Mbunda J fiberlcotton cosiurne.The character rnay wear a fuifui or fuifii or phallus.This rnay relate directly t o the peneived
phallus around the waist. sexual behavior of fowigners.

Simonde Anthropornorphic masks made in wood o r other These characters represent "the o t h e t ' but more
Accessible and Kankoya materialsThe rnasks are purposely "ugly" and include speciiically "the neighbo?' Sirnonde represents the Lozi
Ouuider distorted, exaggerated or "unpleasant" facial features. (Barotse) and Kankoya represents the Nkoya of
Chokwe J Overall knitted fiberlcotton costume, sometimes western and northwestern Zarnbia. who do not
Luvae J wrapped with rags or old. torn clothes. practice circurncision and are therefore perceived by
Luchar J some as culturally 1acking.The characters ridicue the
Lunda J "uncivilized" attributes of these peoples. These
Mbunda J characters aw"accessible" and entertaining. at least t o
Chokwe-related peopies.

Ngulu Mask norrnally carved in wood, akhough fiber versions Ngulu represents the dornestic pig. Rarer variations of
Accessible are also rnade. The mask is generally created as a the character include a w l d pig and an aardvark, which
anthropo Chokwe J naturaistic representation of a pig.Anirnal furs (generally have quite similar physical and behavioral attributes,
zoomorph Luvale J rnonkey but aiso genet or rnongoose) are attached t o although the syrnboic associations differThe pig dances
Luchazi J the top o f the head. Some exarnples have a fiber on the ground ar standing. irnitating the uncontrollable
Lunda J coiffure o r cap. Overall fiber costume and addenda behavior of the animal, which is t o be contrasted with
Mbunda J similar t o those worn by rnost anthropomorphic the proper"civi1ized" behavior of such anthmpornorphic
makishi. types as Pwevo.
Name
Category Description Attributes and Performance
and People

4 d. Hundu Usually carued in wood although fiber versions exist. Hundu, the baboon, is actually treated as a hybrid
Accessible The mask is generally created as a stylized character, part human and part animal. Baboons are
anthropo Chokwe J representation of a baboon. Some examples blend symbolically interpreted as relatives o f humans that
zoomorph Luvale J human and simian features t o the point that it is dificult inhabit the wilderness.The character may hoid a flyhisk
Luchari J t o identify the character if it has lost its original and its behavior is somewhat related t o rnakishi that
Lunda J headdress.Animal furs (normally monkey but also genet represent diviners or heaers. Although the character
Mbunda J or mongoose) are attached t o the top o f the head. has ambiguous attributes, it is "accessible" in its
Overall iiber costume and addenda similar t o those demeanor and is celebrated as a relative with powedul
wom by most anthropomorphic rnakshi. supernatural attributes, which derive from its
experience in the wilderness or outside the reaim of
the village.

4 e. Ndumba. Various animals, ncluding NdumbalTambwe (Iion), These animal forms are mainly associated with the
Accessible Tambwe Mbachi (tortoise), Munguli (hyena), and others that are Mbunda of western Zambia (and the Mbwela in
zoomorph plus constructed by creating a frame o f bent twigs and Angola) although Luvale and Luchari examples aiso
Mbachi branches to which bark, burlap. or a similar material is exist.These are not animal face-mask with body suik
plus added t o model the bodyThe animal forms are hollow which are períorrned in upright position but fonns that
Munguli and the períormer (sometimes two) hides inside the take the overall body shape of various animals, and
structure t o animate the creature. The characters' petform "on four legs" on the ground. The animals
Chokwe - mouths o r heads are often articuiated. appear in the context o f mukonda and during
Luvale J chefs' confirmatory ceremonies. These entertaining
Luchazi J masquerades rrlate t o proverbs and occurrences
Lunda - defined through stoory-telling.
Mbunda +

Conclusion

Mokishi masquerades are created and reconfigured constantly, and from time t o time new forms arise t o comment on
current events and situations. Besides the principal categories presented above, a further "modern" or "recent" category
should accommodate relatively new mokishi. Characters representing airplanes, helicopters, and butterties have been
performed in Zambia for many years (Photo. 6).Their performance behavior and physical attributes suggest that these
characters fluctuate between the ambiguous and aggressive categories. Recent mokishi characters include one with a head
II superstructure that takes the form o f aVCR player and another representing a
b o o m - b o ~ . 'Because
~ these forms are beng developed currently it is best t o
categorize them separately until the characters and their attributes have
I become clearer and they can be integrated into the appropriate place in the

II
typology l7
The categories proposed here are by no means monolithic or static. In fact,
makishi may traverse these categories t o accommodate social, ritual o r
ceremonial needs. Howevel; the documentation o f these "intended" orders and
hierarchies should support a better understanding o f the logic behind rnakishi

I
masquerades as these inform and complement broader social and cultural
processes.
A hierarchical typology o f rnakishi characters emerges from analysis both o f
the roles rnakishi fulfill in different ritual o r ceremonial contexts and o f the
symbolic, physical, and behavioral attributes of each 1ikishi.The intricacy of this
I typology reflects the complex cosmology that is involved whenever the

I1 ancestral past reunites with the present concerns o f the iving. Furthermore, the
repertoire of rnakishi ancestral charaders mirrors sociev Human and ancestral
hierarchies are correlated. and their character types kange in attribute and
disposition from the sublime t o the absurd. In the case o f rnakishi, as in the case
Phoro 6The "butteliiy" lhkishi is a relatively new mask
that may havederlvedim m
ear~er iorms represen o f humans, for every aggressive individual there is one who is benign, and for
ting birds. Zambia, Northwestern Provnce. I992
every king there is at least one fool

Dianne Emanuel, personal communcaton and photos, 2000.


" New forms of masquerades that are"successíui"or deemed effedive are immediately mitated and repested in other mukanda camps.These may eventualy
hecome part of a large repertoire of familiar masquerade types.Those that "expire"or are not repeated are still worth documentng as they may reate to
the specific needs ar concems of a cornmunrlyThe "rerent'types are usually variations of already establ~shedforms.The airpane. for example, probahly
derives fmm one ofthe different representations of brds (Allen Roberts. personal communicat~on:9 9 3 ) Similarly, the buttefly mask may be a varation of
the same genenl theme of'yhngs that fly." Although the symbalic associations differ. the períormances a i these characters are smilar
Other masking tnditions are sustained by Chokwe related peopes.These include children marquerades that are devaid of a ntual or ceremonial cantext,
women's masquerades that "take-on" lhe personae of same makshi (Cameron 998). and adult male mungonge initiation masks that should be categarized
as "ominous" because they represent extraordinary spiritual agencies and supematural powers that are different than those embodied by rnakishi íJordán,
etal 1998: 154-155; Kubik 993: 27.29: Baeke 1992: 102).
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Manuela Palmeirim

As Duas Faces de Ruwej:


Da Ambiguidade no Pensamento Simbólico dos Aruwund (Lunda) '

Durante o seu trabalho de campo no noroeste da Zâmba em 199 1-92, Manuel Jordán fotografou uma máscara de
resina fabricada por um artista cokwe' para um ritual de iniciação que representa uma figura mkica, central para os aru-
wund, vizinhos dos cokwe, a da princesa Ruwej (ou Lweji, como o nome é pronunciado em Angola e na Zâmbia). Esta más-
cara, descrita por jordán num artigo de 1993, é uma máscara curiosa. e curiosa por duas razões:
Em primeiro lugar; porque a grande especialista em arte cokwe que hoje homenageamos com este conjunto de con-
ferências, a Professora Marie-Louise Bastin, não havia encontrado, até então, qualquer representação plástica de Ruwej entre
os cokwe e povos aparentados (cf Bastin 1998: 16). Marie-Louise Bastin, ao longo de toda a sua obra, realça o lugar único
que uma outra figura mítica ruwund I , a do herói caçador CibindYirung (designado noutros contextos por Cibinda llunga),
ocupa na estatuária dos vizinhos cokwe (cf Bastin 1978). CibindYirung, um caçador estrangeiro de origem luba, seria o res-
ponsável pela introdução entre os aruwund, dizem os m~tos,da etiqueta real e de uma cultura mais sofisticada. O seu casa-
mento com a princesa autóctone Ruwej teria finalmente conduzido a sociedade ruwund a emergência da realeza sagrada.
O esplendor artístico concedido pelos colcwe a Cibind Yrung contrasta, contudo. com a quase total apatia, a nível da
expressão plástica, face a esse outro personagem que, segundo as tradições orais, concorre igualmente para a fundação da
realeza entre os aruwund: a princesa detentora do poder ancestral, Ruwej. Compreendemos, portanto, que a máscara foto-
grafada por Jordán desperte, neste contexto, uma curiosidade particular
Mas a máscara é ainda interessante por um outro motivo: trata-se de uma representação com cabeça de Janus,isto é,
uma máscara com duas faces (cf, Foto I ) +. E é aqui exactamente que eu gostaria de me deter para efeitos desta apresen-

Manuela Palmeirim. Instituto de Ciências Sociais, universidade d o Minho, Portugal.


' Os aruwund, entre os quais fiz trabalho de campo em 1987-88 e 1992, habitam hoje os territórios de Kapanga e Sandoa (provinc~ado Katanga) e
Kahemba (provinca de Bandundu) no sul da República Democrática do Congo, estendendoxe ainda pela zona fronteiriça do nordeste de Angola.
' Fo adoptada a ortografia estabelecida pelo Alfabeto Internacional Afrcano já recorrente na literatura antropológica.Assim, C tem o valor de tsh, pelo que
' ' C a b e ' ' por exemplo, deverá ler-se 'tshokwe'.
' O termo "ruwund' é aqui usado coma adjeitivo referente a "aruwund".
' Agradece a Manuel Jordán o ter dsponibiizado duas das suas fotografias ( I e 3) para serem reproduzidas neste texto.

99
TSHOKWE
tação. Na verdade, detentora de duas faces orientadas em direcções opostas, esta
máscara surge como a expressão última, sob a forma de uma representação
metafórica, da ornbiguidode que parece caracterizar o pensamento simbólico dos
aruwund e, em particular; a figura mítica da princesa Ruwej. O que eu proponho,
afinal, é a leitura deste objecto de arte cokwe à luz da ideologia da realeza
ruwund tal como ela nos é dada a conhecer pelas tradições orais de fundação
do estado.

O mito de fundação do estado ruwund conta-nos que a realeza se originou


na sequência da chegada de um caçador estrangeiro de origem luba, Cibind
Yirung, como disse há pouco, às terras dos aruwund então governados por Ruwej
e por um conjunto de notáveis, todos de igual estatuto, os otubung. A princesa
havia recebido o poder de seu pai, Nkond, o qual deserdara os filhos, promoto-
res constantes de desordem, para entregar; aquando da sua morte, a insígnia do
poder (um bracelete de tendões humanos designado rukon) à sua filha Ruwej.
Cibind Yirung, exímio caçador e portador de maneiras refinadas, acaba por
ficar entre os aruwund, a quem ensina o uso do arco e da flecha, casando-se final-
mente com Ruwej. Algumas versões do mito declaram que Ruwej era estéril e,
portanto, incapaz de assegurar a sucessão (cf Duysters 1958:8 1-6: Biebuyck
1957797-804), pelo que o caçador acaba por desposar uma segunda mulher;
Foto I o,kisl, , ,m duasfarei chamada Kamong,que daria à luz um filho, aquele que mais tarde viria a ser o pri-
(fotog. de Mlordán). meiro rei e detentor do t'tulo de Mwont Yoov.
Luc de Heusch demonstra no seu trabalho de 1972, Le roi ivre ou \'origine de
I'Étot, como esta narrativa, considerada como "mito" e analisada num conjunto
mais vasto de tradições de fundação de outros povos da África central, traduz
uma progressão de um sistema social rude e elementar (associado a Ruwej e
aos otubung) para uma ordem inovadora, mais sofisticada e concebida como cul-

i Várias versões desta narrativa têm sdo coligidas, nomeadamente por Duysters (1958:816). Biebuyik (1957:797-804),Dias de Carvalho ( I 89058.76) e.
para o território de Kahemba,Struyi (1948:370-75).Uma pubica~ãometodista na língua ruwund fornece-nos,contudo,a mais exiensa variante deste mito
(Ngand yetu, 9 19).

i o n
I! \ . , . . ' I , , , . . , ~TSHOKWE I ' . , . \ , ~\N.,I>,,.
turalmente superior, associada ao caçador estrangeiro. O tema da esterilidade de Ruwej, absolutamente vital na análise de
de Heusch, significaria para o autorUumaruptura da ordem sociológica" (ibid.:19 I) vindo a nova ordem (a realeza sagrada)
a instalar-se sob o signo da fecundidade. CibindYirung é um caçador, constituindo-se a caça como uma imagem metafó-
rica da fecundidade (cf ibid.203). De Heusch demonstra como os dois personagens instituem todo um sistema de opo-
sições estruturais que se estendem também às suas qualidades cosmogónicas (cf ibid.:226).
N a verdade, revelando-se estéril e abdicando portanto da maternidade, Ruwej não só se vê até certo ponto impossi-
bilitada de dar continuidade ao poder herdado dos seus antepassados como se demarca visivelmente da emergência da
nova 0rdem.A tarefa de conceber o primeiro Mwont Yaov, o fundador da realeza sagrada, é confiada a uma segunda mulher,
Kamong, que, essa sim, assume uma verdadeira conjunção com Yirung. Esta "recusa" de Ruwej em se comprometer na
emergência da realeza instaura, sem dúvida, uma oposição entre a ordem autóctone original (representada por Ruwej e os
atubung) e a ordem inovadora associada à fecundidade, afinal os dois princípios que, segundo de Heusch, definem a ideo-
logia dualista da soberania na África central. Esta dualidade mantém-se, de resto, na organização da corte ruwund dos nos-
sos dias onde uma dignitária feminina com o titulo de Nswoan Murund perpetua a figura mítica de Ruwej (através de um
sistema que se aproxima da"sucessão posicional" descrita por A. I. Richards para os Bemba da Zâmbia, cf 1940, 1950), assu-
mindo-se como a representante máxima da autodonia e do povo original por oposição à nova ordem encimada pelo
Mwont Yoav, como sucessor de Cibind Yirung. A Nswaon Murund e os dezoito dignitários que representam os otubung não
participam, pois, na governação político-administrativa do reino, reservando-se funções estritamente rituais como originais
detentores da terra dos aruwund (anshir-a-ngond).
Regressemos, contudo, ao tema mítico da esterilidade de Ruwej. Se é verdade que a incapacidade da princesa em pro-
criar instaura diferença e oposição, como nos é dado concluir pela análise de de Heusch, Ruwej declara-se, por outro lado,
claramente empenhada na união entreyirung e Kamong, da qual nasceria o fundador da dinastia dos AntYoav (pl. de Mwant
Yoov). E assim que algumas versões do mito nos dizem que o consentimento da princesa era absolutomente indispensável
para que essa segunda união se pudesse realizar (cf, Ngand yetu: 16). Noutras versões é a própfla princesa que escolhe uma
mulher para conceber; em seu lugar, o primeiro rei (cf Duysters 195894).
Ruwej surge, pois, como uma heroína marcada por uma extrema ombivol6ncia (cf. Palmeirim 1993): representando o
poder dos antepassados e a ordem ancestral por oposição à nova civilização que Yirung pretende instaurar; Ruwej pro-
porciona, não obstante, todas as condições para a emergência da realeza sagrada. E ela que, segundo a versão coligida por
Dias de Carvalho (1 890:58-76), toma a iniciativa de seduziryirung oferecendo-lhe aposentos na sua própia casa (ibid.:69),
é ela que persuade os otubung a aceitar o recém-chegado (ibid.:70), sendo contra o vontode de seus irmãos que confia a insig-
nia do poder ao caçador luba (cf ibid.:75: Duysters 195893; Struyf 1948:374-5) e. finalmente, é ela que induz Kamong a
assumir a aliança de duas ordens que, paradoxalmente, havia declarado inconciliáveis.

101
!\ TSHOKWE I i
Tal como argumentei já num outro texto (1993:5 14), uma leitura conjunta das várias variantes coligidas do mito toma
inteligível esta cumplicidade implícita das esposas deYirung. Kamong é, no pensamento simbólico ruwund, um mero desdo-
bramento da princesa Ruwej cuja única tarefa é a de consumar a conjunção comyirung que Ruwej havia já esboçado sob o
signo de uma aliança matrimonial. E assim que várias versões do mito partilham uma mesma preocupação: a de acentuar
a origem local de Kamong, assim como a sua relação de parentesco com Ruwej. Descendendo de um chefe de Nkalaany,
considerado o berço da nação ruwund, Kamong assume-se de uma forma inequívoca como representante do povo autóc-
tone e, portanto, numa posição privilegiada para realizar; em nome de Ruwej, a união entre as duas ordens. O distanciamento
entre Kamong e Ruwej como personagens míticas é, pois, claramente minimizado, sendo esta proximidade, reforçada por
uma relação de parentesco entre ambas (c{ Hoover 1978b:23 1). Kamong surge, no pensamento simbólico ruwund como
uma "cisão" da princesa cuja missão é a de levar até às últimas consequências a conjunção comYirung. concebendo o seu
filho, tarefa na qual Ruwej não poderia comprometer-se a fim de assegurar o antagonismo e dualidade constitutivos do apa-
rato ideológico da nova ordem.
Ora, estas duas personagens míticas (assim como o dualismo que veiculam) são, na corte do rei ruwund, perpetuadas
por duas altas dignitárias femininas: a Nswaan Murund, representante de Ruwej, como vimos, e a Rukonkish, considerada a
mãeltia (moaku) simbólica do Mwont Yaav e herdeira de Kamong. Se a Nswoan Murund perpetua a aparente renúncia de
Ruwej à fundação da realeza sagrada, a Rukonkish assegura continuidade à aliança que Ruwej havia iniciado com Yirung.
declarando-se fiel a ordem emergente. E assim que a Nswoan Murund é mantida à margem da política do reino ao passo
que a Rukonkish é a dignitária que, no reino, possui mais territórios e cujo envolvimento com a realeza é incessantemente
afirmado nos requisitos do seu cargo como conselheira do rei.
O sistema de "parentesco perpétuo" (cf Cunnison 1956) dá perfeitamente conta desta dicotomia entre as mais altas
dignitárias femininas da corte.Assim, os aruwund pensam a relação entre a Nswaan Murund e o Mwont Yaav em termos de
uma aliança matrimonial. A incumbente do cargo de Nswoan Murund é considerada a esposa simbólica do rei. E muito
embora se trate de uma relação meramente simbólica entre cargos (o soberano dispõe de várias mulheres que, essas sim,
sendo as suas verdadeiras esposas coabitam com ele no palácio real), os aruwund não vêm com estranheza as visitas da
Nswoan Murund ao palácio,tendo-me sido mais do que uma vez assinalado que tal era "natural" dado que, afinal, se tratava
de esposos. E assim que, sendo "cônjuges", o rei e a Nswoan Murund são escolhidos em grupos de descendência indepen-
dentes (cf, Hoover 1978a:1 12). Esta "relação de afinidade" que une a Nswaan Murund ao Mwont Yaav declara-os essencial-
mente diierentes (é na diferença, afinal, que se funda qualquer aliança matrimonial).

O nome"Kamong"signifira, ruriosamente."clitoris", o que parece sugerr que a papel mítico de Kamong se reduz, afinal. à tarefa de gerar o filho deYirung
e rei fundador
Por seu turno, a relação simbólica que une o cargo de Rukonkish ao de
Mwont Yaov é concebida como sendo uma relação entre parentes e não entre
afins. Enquanto representante de Kamong,a Rukonkish é considerada "mãeltia" do
Mwont Yoov e, como tal, as incumbentes deste cargo são designadas pelo rei
entre os seus parentes mais próximos (cf ibid.: 1 12-3; Byvang 1937:429).
Estas relações perpétuas entre dignitários e rei ', se formuladas num idioma
de parentesco e casamento, constituem-se como verdadeiras metáforas de rela-
ções simbólicas. Assim, a relação matrimonial que une a Nswoon Murund ao
Mwont Yoov, fundada na dikrenço, não é mais do que uma metáfora da relação
entre opostos afirmada por Ruwej e CibindYirung. Pelo contrário, a ligação que a
Rukonkish mantém com o soberano, ,aerpetuando a coniunçóo
~ . levada a cabo
entre Kamong e o herói caçador e evidenciando o estreito envolvimento desta "de,2,u~n,"~~"""~~,bUa~
~ , de ~ ~ ~ ~
dignitária na nova ordem como conseheira do rei, é uma relação de proximi- (~otog.de~.~ntt,ony).
dade, uma proximidade que é codificada numa relação entre parentes, ou seja,
numa relação entre semelhantes (cf Palmeirim 1993:54).

Vimos como no pensamento simbólico Ruwund a bigamia de CibindYirung


tem como propósito enfatizar a ornbiguidode que caracteriza a atitude de Ruwej
no mito de fundação e que traduz, afinal, a própria natureza ambivalente (e dual)
da ideologia da soberania entre os aruwund. A duplicidade do comportamento
de Ruwej é magnificamente veiculada pelas insígnias de poder que a Nswoon
Murund, sua representante na corte, exibe em ocasiões rituais. Assim, tal como
os otubung que representam a ordem original e os chefes autóctones, a Nswoon
Murund detém um rukon, um bracelete de tendões humanos que é guardado
numa cesta (cirnpiding) puriticada com caulino branco e que é o símbolo
máximo do poder ancestral deixado a Ruwej por seu pai, Nkond. Para além
disto a Nswoon Murund e os otubung, sendo representantes dos antepassados
dos aruwund, são vistos como pessoas idosas. E assim que se deslocam, em oca-
siões rituais, com a ajuda de um cajado (rnukornbu). Finalmente, é também insíg-
nia desta dignitária e dos chefes ancestrais uma pena branca (kosol kotok) que

' Não apenas a Nswoon Muiund e a Rukanksh mas todos os notaveis do reino se encontram ligadas ao soberano por uma relacão perpétua
colocam no cabelo (Foto 2) e que remete para a primeira aldeia que, segundo
as tradições orais, Ruwej e o seu povo haviam fundado ao emergir da escuridão
da gruta de origem para a luminosidade do exterior (Kasal Katolc, o nome dessa
aldeia original, significa simultaneamente "pena branca" e "fazer-se luz"). Esta
pena. contudo, só é usada pela Nswaan Murund durante a investidura do rei que
tem lugar no rio Nkalaany e em algumas outras ocasiões rituais quando a
Nswaan Murund também se veste, uma vez mais como os atubung, com um
pano branco (malakaany) que evoca o seu poder eminentemente ritual.
Contudo, e não obstante representar a ordem autóctone, as insígnias da
Nswaan Murund incluem também elementos que a ligam indiscutivelmente à
nova ordem política associada aYirung. Na corte, durante as audiências reais na
praça pública, a Nswaan Murund poderá vesiiFse como qualquer outra dignitária
do estado com funções político-administrativas (cilol, pl.: ayilol) com um pano
colorido e a sua coroa de missangas íyiibangul ya yaopu ya makond), para alguns
. evocativa do belo penteado que os mitos atribuem a Cibind Yirung (cf Hoover
1978b:557), e com pulseiras de fio de cobre (jinsambu) colocadas nos pulsos e
nos tornozelos. Usando as insígnias dos ayilol - os chefes que. com o rei, gover-
nam o estado - ela exibe uma tiliação a ordem do Mwant Yaav em cuja emer-
gência se encontra indubitavelmente comprometida8.Contudo, se o Mwant Yaav
- - se ausentar da capital do reino a Nswaon Murund deve abdicar de se comportar
U
- como um cilol pois tal atitude seria compreendida como estando a reclamar para
Foto 3 Máscara (likshi) de Ruwej em corpo nteiro si O lugar de chefe máximo dos aruwund. Nessas circunstâncias deverá colocar o
exibindo o cajado (fotog. de M. jordán).
seu pano branco e, vertendo vinho de palma (moruvu ma ntamb) sobre o rukan,
evocar os antepassados rogando-lhes a protecção do soberano durante a sua
ausência do país ruwund.

Voltemos, finalmente, a olhar para a máscara cokwe que constitui a razão (ou,
talvez, o pretexto) desta conferência.

Para uma análse mais detalhada do sistema de insígnias dos dignitários ruwund e da forma como este codifica uma oposi(ãa entre as ayiioi, enquanto che-
fes polkico-administratvos d o estada, e os atubung, os representantes do poder ancestral e originais detentores das terras dos aruwund. cf. P a m e r m 9 9 8 .
Manuel Jordán relata que quando o Ii!4shi9 Ruwej chegou à aldeia onde se encontrava a fazer trabalho de campo lhe
foi oferecida uma cadeira pelo chefe lunda Citofu que comunicou aos presentes que Ruwej se encontrava extremamente
fatigada porque acabara de chegar de longe (o likishi teria pretensamente chegado de Angola de onde o modelo da más-
cara foi trazido pelo artesão, cf. ibid.:53). Fatigada, sem dúvida, peia suposta viagem, mas fatigada também porque Ruwej
como última representante dos antepassados é, dizem os aruwund numa das fórmulas simbólicas (nkumbu) que lhe dedi-
cam, "uma mulher extremamente idosa (koshin-a-koj), uma mulher que anda [tal como os otubung] com a ajuda de um
cajado"(cf. Foto 3).
O discurso que Samukinji, o artesão da máscara, produz é certamente revelador e inteligível a luz da nossa reflexão
sobre a ideologia da realeza ruwund. Samukinji explica a Jordán que a máscara tem duas faces porque uma é "pour le chef"
e a outra "pour le peuple" (1993:53). Assim, diz-nos: "Quand un likishi Lweji rend visite à un chef pour le saluer; un visage
regarde le chef tandis que I'autre regarde en amière vers ses sujets" (ibid.). Como acrescenta ainda, uma das faces olha "vers
le passé" enquanto a outra "en avant vers le futur" (ibid.:54). Ruwej é, sem dúvida, essa figura mítica com duas caras: aquela
que, comprometida numa aliança com CibindYirung, se envolve no nascimento da nova ordem e se vira, portanto, para o
chefe (isto é, para o rei), e outra que, como representante dos antepassados, permanece para sempre ligada ao passado,
ao povo original e à autodonia. São as duas faces da mesma ideologia. Como Samukinji nos diz (cf. ibid:53), trata-se de soli
ni sali."dois lados de uma mesma coisa" 'O.

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tal representação permanecer obscuro, ela parece sublinhar; na sua opnão. a ubiquidade do espírito que evoca ( c t ibid.:83).Não deixa de ser nteressante
notar; a este respeito. que se Ruwej é considerada a representante márima dos atubung, os chefes de terra ruwund,também cikungu "évaque I& ancêtres
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Nota de Abertura 5

Prefácio 7

Luc de Heusch 9
Pour Marie-Louise Bastin

Jill Dias 17
Caçadores,Artesãos, Comerciantes, Guerreiros:
Os Cokwe em perspectiva histórica

Boris Wastiau 49
Style and ethnicity: reflections on methods for the study
of arts in the Zambezi and Kasai headwaters

Manuel Jordán 79
Zambian Mokishi Masquerades and the Story of Categories

Manuela Palmeirim 99
As duas Faces de Ruwej:
Da Ambiguidade no Pensamento Simbólico dos Aruwund (Lunda)