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Recife | Dezembro de 2011

100 anos

Foto: Divulgação
de Gonzagão
NESTA EDIÇÃO
Cidade de Exu relembra
seu filho ilustre
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Feira de Caruaru inspirou


um dos grandes sucessos
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Religiosidade sertaneja
marca obra do rei do baião
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Sanfona de oito baixos


continua sendo base
do forró
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2 | Recife, dezembro de 2011 O BERRO

Carta ao leitor

De popular a clássico
A sanfona dos oito baixos, o cha- explorar a atualidade do legado deixa-

Foto: Divulgação
peú de couro, o sorrizo largo, o frasea- do pelo cantor, sua importância e suas
do perfeito nas letras que incorporam contradições.
o linguajar do homem sertanejo. O Na cidade de Exu, o Parque Asa
cantor pernambucano Luiz Gonzaga, Branca preserva a casa do cantor e
durante quase meio século, ajudou a muitos dos objetos que fizeram parte
criar e amplificar a imagem do nor- de sua vida. Os moradores da cidade
destino. E virou sinônimo de forró, usam, orgulhosos, motivos da sua obra
o gênero musical que ajudou a tornar nos nomes no comércio e preservam
famoso em todo o Brasil. De quebra, a memória do filho mais ilustre. No
assumiu um papel fundamental na Recife, um circuito cultural e de expo-
música popular brasileira. Para lem- sições relembra a figura de Gonzagão,
brar o seu centenário de nascimento, com uma programação que vai crescer
esta edição de O Berro é dedicada ao neste ano de 2012, por causa das co-
rei do baião. memorações do centenário.
Com suas músicas e composições, A feira de Caruaru, imortalizada
Gonzaga representa a cultura popu- na letra de Onildo Almeida e cantada
lar nordestina no que ela tem de mais por Gonzaga, é tema de outra repor-
expressivo: a luta contra os elemen- tagem. O jornal traz também duas ma-
tos da natureza, a camaradagem entre térias que tratam da relação do com-
amigos, a singeleza das festas juninas, positor com o catolicismo, expressa
o gosto pela diversão, a opção pela no disco “O sanfoneiro do povo de
alegria diante das dificuldades e, tam- Deus?”, e de sua adesão à Maçonaria.
JOVEM Gonzaga numa foto promocional tirada nos anos 30 bém, é necessário dizer, uma dose de O Berro mostra também a tradi-
machismo. Gonzaga tinha tudo para ção da sanfona dos oito baixos, manti-
se tornar uma figura simbólica: talen- da pelo músico Arlindo, antigo amigo
Foto: Divulgação

to musical e carisma. Era diferente de e parceiro de Gonzaga. O mercado de


todos os outros. Alcançou o sucesso discos de vinil e cds que ajudam a per-
justamente numa época em que, com petuar a obra do forrozeiro também
a proliferação dos meios de comunica- foi abordado.
ção, o Brasil descobria a riqueza cultu- Entrevistamos também Toinho do
ral de suas regiões. Baião, colaborador de Gonzaga, e que
Gonzaga é também um exem- ainda divulga o trabalho dele, e João
plo eloquente de como as origens Silva, que teve a proeza de ter sido seu
modestas de um artista podem gerar parceiro em nada menos do que 130
um grande fenômeno de massa com músicas.
qualidade. E que sucesso popular não Hoje já existem grupos interessa-
tem de ser necessáriamente confudido dos por forró nos Estados Unidos e
com a mediocridade e a banalização, até no Japão. “Asa Branca”, por exem-
tão comuns neste início de século 21. plo, tem versões cantadas em várias
Hoje, assim como é impossível línguas. Só isso já garantiria o nome
falar do sul dos Estados Unidos sem do compositor pernambucano na his-
pensar em músicos como o blueseiro tória da música.
Robert Johnson e o jazzista Louis Ar- Extremamente popular no seu
mstrong, assim como Cartola e Pixin- tempo, ainda hoje conhecido por to-
guinha são inseparáveis dos subúrbios dos, Luiz Gonzaga sobrevive ao tem-
cariocas, não é possível pensar o Nor- po e já é sério candidado, com o pas-
deste brasileiro sem lembrar a figura sar dos anos, a se tornar um clássico
de Luiz Gonzaga. definitivo da música brasileira.
Nas próximas páginas, encontram- Marcelo Abreu
CATÓLICO Capa de disco lançado em homenagem a dois papas se reportagens variadas que tentam

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Alexandre Figueirôa Alexandre Cunha
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Nilton César
O BERRO Recife, dezembro de 2011 | 3

Gonzaga ainda hoje movimenta Exu


ELIANE CARNEIRO ro e os que não o conheceram forte, uma celebridade, nós
PRESENÇA A

Foto: Eliane Carneiro


– têm uma visão diferente sabemos disso. Cultuamos lembrança está por
Exu, como muitas cidades sobre o Rei do Baião. Para os Luiz Gonzaga como nosso toda a cidade
do interior, ainda mantém tra- mais velhos, que viram uma filho maior”, declarou. Maria
dições e hábitos de uma vida cidade violenta, marcada por Aparecida de Sá, comercian-
pacata. É comum as pesso- brigas entre famílias rivais te há 20 anos, observa que
as deixarem o carro e a casa (Alencar, Peixoto, Sampaio o trabalho do cantor não se
abertos, colocarem as cadeiras e Saraiva), Luiz Gonzaga foi restringia apenas à música e
na calçada para conversar du- um apaziguador. Utilizando- sua influência na cidade per-
rante a noite, e a maior parte se do prestígio que tinha, manece. “Fez muito pela paz
do comércio não funciona de- conseguiu junto ao presidente de Exu. Lutou, foi lá fora e
pois das cinco da tarde. O que em exercício Aureliano Cha- buscou recursos. Hoje, gra-
difere Exu do resto do sertão ves – vice-presidente de João ças a ele, tem turismo, tem a
é a constante presença de Baptista Figueiredo – que um festa, que traz recurso para a
Luiz Gonzaga. Há, por toda a interventor fosse nomeado, cidade.”
parte, a imagem, o nome ou em 1981, para acabar com os A assistente social Tâma- ria Helenilda dos Santos, pro- Gonzaga é reconhecido
as canções dele. Seja no pos- conflitos em Exu. ra Moreira é coordenadora de fessora e coordenadora de um por ter cantado as coisas do
to de gasolina, no restaurante, Segundo Zilclécio Saraiva, um grupo que resgata a cul- centro de artesanato, defende sertão, ter uma visão huma-
na pousada, na praça ou, até atual secretário de Adminis- tura do sertão por meio de a imagem que os exuenses nista e voltada à natureza.
mesmo, na “lan house” – que tração e três vezes prefeito da danças típicas da região, como têm de Luiz Gonzaga. “Ele é Esse olhar diferenciado con-
avisa que Gonzaga agora é cidade, a atuação do artista foi o baião, o xote e o xaxado. Tâ- um motivo de inspiração, por- quista seguidores como o
virtual – a cidade é toda in- determinante para a pacifica- mara diz que a finalidade do que passou por todo o tipo de professor de sanfona Cosmo
fluenciada pela obra que ele ção, sendo reconhecido por projeto voltado às crianças é preconceito: pobre, preto, do Damião, de 20 anos. “Eu te-
deixou. isso. “Ele sonhou isso e ide- “elevar ao máximo” o nome sertão, do nordeste e conse- nho que seguir essa cultura,
No entanto, não é um le- alizou, trouxe a intervenção de Luiz Gonzaga. “Ele é re- guiu vencer. É uma referência sinto como obrigação. É uma
gado somente artístico. Duas para que nós pensássemos ferência não só na região, mas de lutar pelo seu ideal, mesmo influência muito forte, espe-
gerações de exuenses – os melhor. É a nossa expressão no país. A gente quer que com muitas portas batendo cialmente, entre os sanfonei-
contemporâneos do sanfonei- maior. Um nome realmente nunca se esqueçam dele.” Ma- em sua cara, ele não desistiu.” ros de Exu.”

Parque Aza Branca preserva objetos pessoais


ELIANE CARNEIRO xos, usada num show no Recife.
Foto: Eliane Carneiro

As paredes repletas de recortes


Com vista para a cidade de de jornais e fotografias de pa-
Exu, o primeiro andar da casa rentes, artistas e amigos ajudam a
em que Luiz Gonzaga morou, contar a trajetória desse sertanejo
os últimos anos de vida, é o pobre que conquistou o Brasil e
ponto alto da visita ao parque chegou a se apresentar na França.
Aza Branca, no sertão do Ara- O museu, além de ter todos
ripe, a 607 km do Recife. A in- os prêmios e títulos, guarda ob-
timidade do Rei do Baião é des- jetos pessoais, inclusive a cadeira
vendada em cada canto, desde de rodas usada quando o cantor
a fé, no terço pendurado no ficou doente. Cícera Maria dos
espelho da cama, passando pela Santos, guia do parque, afirma
coleção de gibões e chapéus de que o espaço foi idealizado pelo
couro, até no banheiro, onde próprio Gonzaga. “Ele vivia fa-
ele desfrutava de uma grande lando em fazer esse museu. Viu
banheira feita de alvenaria. o projeto, já (diagnosticado) com
Todos os objetos, espalhados o câncer de próstata, mas morreu
pelas paredes e cômodos, reme- INTIMIDADE O quarto preserva (em 1989) antes da inauguração.
tem a alguma faceta de Gonzaga. os objetos pessoais do artista O filho dele (Gonzaguinha) tam-
A mesa, com dois grandes ban- bém tinha planos para o local, no
cos, no estilo refeitório, acomoda presente pelos aposentos é a re- um instante, ele ausentou-se, além dos restos mortais dele, os entanto, pouco tempo depois do
até 15 pessoas. Percebe-se, nesse ligiosidade. Na sala que conduz mas em breve retornará. Entrar da mulher (Helena), os dos pais pai, morreu (em 1991) em um
detalhe, o apreço dele por lugares às escadas, para o primeiro piso, lá é sentir que a história dele (Januário e Santana) e os do ir- acidente de carro”.
com muita gente. E, para hospe- há um altar, onde as imagens do permanece viva, como o casal mão Severino dos Santos. Aberto diariamente das 8h
dar todos, ele ergueu outra casa, padre Cícero e do frei Damião de asa branca mantido em um Ao lado do mausoléu, está o às 12h e das 13h às 17h, o Aza
ao lado da dele, que mais tarde se destacam. Em outro altar, viveiro, na frente do terraço. museu do Gonzagão. que guarda Branca (asa grafada com z, por-
serviria de pousada. Em frente, dentro do quarto de Gonzaga, Após conhecer esse recanto, todo o acervo do artísta. Entre os que houve um erro na hora do
há um palco, no formato de fer- chamam atenção os crucifixos e outro ponto central da visita ao objetos, estão a primeira sanfona registro, que mais tarde não foi
radura, onde o cantor entretinha um retrato, na parede, do papa parque Aza Branca é o mausoléu. de oito baixos, presente do pai, corrigido, pois agradou ao can-
os convidados. João Paulo II. Nesse local, com portas envidra- a utilizada na homenagem, em tor) tem outros espaços para a vi-
Ainda no refúgio do Rei A presença dos objetos pes- çadas e paredes adornadas com 1980, no Ceará, para o papa João sitação, como a Casa de Januário
do Baião, outra marca sempre soais dá a impressão de que, por algumas fotos de Gonzaga, estão Paulo II, e a última, de 120 bai- – onde viveu o pai de Gonzaga.
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Forró agita mercados do Recife


ALEXANDRE CUNHA no período junino de 2009, tros foi a criação da Meda- como o “embaixador do for- gente. Característica que hoje
o projeto consiste na reunião lha Memorial Luiz Gonzaga. ró”, o apresentador do pro- sinto falta no nosso forró”,
A vida e a obra de Luiz de forrozeiros e amantes do “É uma homenagem àqueles grama “Forró, Verso e Vio- afirma. Na sua opinião, Gon-
Gonzaga sobrevivem ao tem- pé de serra nos principais com notórios serviços presta- la”, da Rádio Universitária zaga ajudou a despertar uma
po. Seja como tema de filme, mercados públicos da cidade. dos à arte pernambucana. Es- FM, tem um histórico com sensabilidade nas outras regi-
bloco carnavalesco ou escola As primeiras apresentações o rei do baião. “Tive o pri- ões, sobre a realidade do povo
de samba, a herança cultu- aconteceram no Pátio de São Todo último vilégio de ser amigo de Luiz nordestino, por meio do ape-
ral deixada pelo compositor Pedro, onde está localizado Gonzaga. Uma das grandes lo contestador de algumas de
mantém-se presente. Porém,
sábado do mês,
o memorial, como forma de alegrias da minha vida foi di- suas letras.
um sentimento de nostalgia, atrair as pessoas a conhece- o público pode vidir o palco com ele no mu- Zelito Nunes, poeta, pes-
“tempo bom que já não vol- rem o acervo e as atividades dançar ao som nicípio de Serra Talhada, em quisador da cultura regional
ta”, é comumente compar- do lugar. das músicas de confraternização ao poeta Zé do estado e também conde-
tilhado entre defensores do Em 2011, o evento ga- Marcolino, no final da década corado com a Medalha Me-
Gonzaga
forró de raiz, inquietos com nhou caráter itinerante, ex- de 80. Juntos, cantamos ‘Asa morial Luiz Gonzaga, diz
o desenvolvimento sem freio pandindo os shows, gratuitos, Branca’”. que a batalha entre os “artis-
das bandas “estilizadas”. aos mercados da Madalena, critores, sanfoneiros, ou seja, Segundo Ferraz, os com- tas da raiz” e bandas de forró
No intuito de preservar e Encruzilhada e Boa Vista. baluartes da cultura que con- positores atuais devem-se es- estilizado, contratadas por
perpetuar o ritmo consagrado De acordo com José Mauro tribuem, nos dias atuais, para pelhar no olhar crítico que o grandes gravadoras, é absolu-
por Gonzagão, sob a musica- de Alencar, gerente do me- a manutenção da tradição”, “velho Lua” tinha com as coi- tamente desleal. “A iniciativa
lidade tradicional da sanfona, morial, o Sábado Danado de conta Alencar. sas cotidianas da vida. “Gon- do Sábado Danado de Bom é
triângulo e zabumba, o Me- Bom (nome inspirado na fa- Um dos primeiros home- zaga cantava sobre a seca, os corajosa, pois é um trabalho
morial Luiz Gonzaga reali- mosa música de Gonzagão) nageados com a simbólica vaqueiros, os carros de boi. quase suicida. O forró pre-
za, mensalmente, o “Sábado tem tido grande sucesso, e um medalha foi o cantor e radia- Registrava, nas músicas, os cisa de pontos de resistência
Danado de Bom”. Iniciado dos progressos nos encon- lista Ivan Ferraz. Conhecido costumes e tradições da sua como este.”

Exposições perpetuam a trajetória do rei


GABRIELA ARANTES Frei Damião e candeeiros) justa- ressam em ver esses objetos”, diz
Foto: Gabriela Arantes

mente para mostrar ao público Samuel Musselman, turismólogo


Simplicidade e ousadia a realidade do ambiente serta- e assessor do museu.
marcaram os passos de um nejo. Associado à arquitetura, A popularidade do forrozei-
homem que cantou como nin- encontra-se um vasto acervo ro também alcançou a internet.
guém os problemas do Sertão. distribuído entre livros, discos, O pesquisador Paulo Vanderley,
Com uma voz diferenciada, o documentários, fotos, depoi- 31 anos, criou o site Luiz Lua
sanfoneiro revelou ao mundo mentos e DVDs. Diariamente, Gonzaga em 28 de setembro de
a riqueza de estilos musicais grupos de escola e turistas vão à 2005. A admiração pelo pernam-
como o xote e o baião. galeria conferir o setor educati- bucano é antiga. “Eu o ouço des-
Mais de duas décadas após vo, de pesquisa e de música. “As de criança. Meu pai colocava as
sua morte, ele ainda é visto pessoas que vêm aqui se interes- músicas dele no carro e na vitrola
como um ícone da cultura nor- sam muito em pesquisá-lo, ler em casa”, afirma Vanderley.
1
destina. Seu legado está presen- os livros, assistir aos documen- Essa afinidade o instigou
te em diversos cantos do país. tários e escutar suas músicas”, a montar o guia virtual, que é
Um exemplo disso é o Memo-
Foto: Gabriela Arantes

diz Marcos Leite, estudante de composto de vídeos, histórias e


rial Luiz Gonzaga, localizado 2
Ciências Sociais e estagiário do discografias. “Escolhi a internet
no Pátio de São Pedro, no cen- memorial. “Ouvi falar daqui. porque é o meio mais democrá-
tro do Recife e criado em 2 de Gosto demais desse compositor tico de acesso. O site é para fazer
agosto de 2008 (a inauguração e esse local preserva a memória justiça à memória dele”.
ocorreu nesse dia porque o dele e invoca minha curiosida- O escritor e jornalista Rena-
Rei do Baião morreu em 2 de de”, conta o músico mineiro to Phaelante conheceu Gon-
agosto de 1989). A iniciativa de Raphael Funchal, de 23 anos. zaga em 1960, época em que
construí-lo partiu da Secreta- Assim como o Memorial, o atuava como locutor na Rádio
ria de Cultura da Prefeitura do Museu do Forró Luiz Gonza- Clube. Graças a tal contato, lan-
Recife, com o objetivo de man- ga, em Caruaru, é outro ponto çou o livro “Luiz Gonzaga e o
ter e divulgar a obra do artista. de destaque na preservação da Cantar Nordestino” e reconhe-
“Como ele deixou uma riqueza biografia do cantor. Idealizado ce a importância de relembrá-
cultural muito grande, o espaço pelo Governo do Estado de lo. “Foi o Pelé da música popu-
tem por obrigação tornar pú- Pernambuco em 29 de maio de lar brasileira, o maior cantador
blico tudo que é relacionado 1999, o espaço recebe ,em mé- que o povo já viu”.
a ele,” afirma Pedro Américo, dia, de 1000 a 1200 visitas por
pesquisador do Memorial. mês. “Funcionamos de terça a 1. PEÇAS que pertenceram a
O lugar atrai a atenção por domingo. Temos vinis, sanfonas, Luiz Gonzaga
apresentar um cenário interio- partituras e vários objetos pesso-
rano (parede de taipa, cordéis, ais dele. Quando chegam os vi- 2. VINIS fazem parte do acervo
santos como São João Menino e do Memorial
sitantes, rapidamente eles se inte-
O BERRO Recife, dezembro de 2011 | 5

Feira de Caruaru rendeu disco de ouro


NILTON CÉSAR programa,ouviu por acaso a
HOMENAGEM Estátua do

Foto: Nilton César


compositor na entrada da feira
gravação e decidiu que aquele
O mercado popular da seria seu próximo sucesso.
“capital do agreste” nunca Onildo Almeida e Gonzaga
mais seria o mesmo após o ficaram amigos e o compositor
grande sucesso da música “A chegou a produzir um show do
feira de Caruaru”, composta Rei do Baião, que reuniu 30 mil
por Onildo Almeida e eterni- pessoas em Caruaru.
zada na voz de Luiz Gonzaga. A parceria seria abalada
Na descrição contida na quando, em uma viagem de
letra da música, o mercado Gonzaga à capital do forró,
parece guardar um mundo em Onildo entregou-lhe uma fita
suas barracas. Parte da letra, com seis gravações.
Onildo atribui à sua criativi- O tempo passou e quando
dade, que, para ele, não se ex- se encontraram novamente,
plica, acontece. o compositor perguntou-lhe
Para Emanuel Leite, mem- se tinha gostado das músi-
bro da Academia Caruaruen- cas e Gonzaga nem sabia do
se de Cultura, Ciências e Le- que Onildo falava. O poeta
tras, a música é a propaganda jurou que o safoneiro nunca
da feira e é graças a ela que, mais gravaria uma canção sua.
em 2006, o mercado ganhou Anos mais tarde, a desavença
o título de Patrimônio Cultu- seria desfeita quando ambos
ral Imaterial Brasileiro, conce- mestre Vitalino, que Onildo A variedade parece não ter fim. bano Jackson do Pandeiro, o descobriram que um produ-
dido pelo Instituto do Patri- costumava comprar. Para Onildo, essa diversidade que por ironia do destino, não tor perdera a fita e sucessos
mônio Histórico e Artístico Hoje, a arte popular con- não impede que a cultura local aconteceu. como “Marinheiro, marinhei-
Nacional (Iphan). tinua presente. Dos bonecos permaneça. Como na música Certo dia, uma gravação de ro” acabaram sendo explora-
Desde pequeno, Onildo de barro, que são famosos em escrita há quase 60 anos, a tra- “A Feira de Caruaru”, gravada dos por outros artistas.
costumava andar pela feira todo o país, como diz a melo- dição da feira é vender tudo o pelo próprio Onildo, estava Para Zélia Santos, co-
e observou que aquele não dia, a instrumentos musicais, que se possa imaginar, afinal, tocando nos estúdios da Rá- merciante da feira, a música
era um mercado comum. Na caldo de cana e eletrodomésti- como diz a letra, “de tudo que dio Jornal, em Caruaru, onde sempre será atual, pois a cada
Feira de Caruaru dos anos cos, tudo isso continua presen- há no mundo, tem na feira de o compositor trabalhava como verso, a letra se renova como
de 1940, o comércio de rua te. Mas hoje há uma invasão de Caruaru”. técnico do programa “Expres- a feira da realidade, que inova
vendia artigos de luxo, mó- produtos vindos do Paraguai, A música, inicialmente, se- so da Alegria”. Gonzaga, que sem deixar de lado o espírito
veis coloniais, artesanato do da China e de outros lugares. ria gravada pelo cantor parai- estava lá como convidado do nordestino.

Música na sala de aula, sim sinhô!


ALEXANDRE AMORIM o falar do sertanejo é possível vos”, contou Diogo. país...’, o autor intensificou da Costa Lins (Facol), as mú-
de ser entendido. Eles perce- O uso dessas figuras po- uma ação para atribuir mo- sicas de Gonzaga são aulas
Com uma bagagem de bem como a língua pode ser dem aguçar a interpretação vimento à música”, afirmou sobre o Brasil. Nelas se ob-
possibilidades interpretati- discriminada por se distan- dos estudantes e fazê-los Mendonça. serva o cenário de relações
vas, as músicas cantadas por ciar das normas gramaticais, compreender o assunto atra- Temas como a religiosi- políticas, marcado pela desi-
Luiz Gonzaga, podem ser mas que nas músicas os erros vés da contextualização da dade e o sofrimento, assun- gualdade social, mostrando
recursos para desenvolver da fala servem para aproxi- teoria com a prática. Outra tos abordados por autores um Luiz Gonzaga consciente
atividades pedagógicas na es- mar o ouvinte do povo do consagrados da literatura, de que era porta voz das de-
cola. A ideia de alguns pro- Sertão”, disse. “É preciso como Graciliano Ramos e mandas do Nordeste.
fessores é fazer com que os Já para o professor de João Cabral de Melo Neto, “Em uma apresentação,
alunos tenham acesso a um português Diogo Mendon-
aproximar também são encontrados ainda na década de 50, ao can-
cardápio cultural diversifica- ça, que ensina no Colégio Gonzaga na obra do rei do baião. “É tar ‘Vozes da Seca’, Gonzaga
do, possibilitanto, assim, o Dom, a obra musical de Luíz da cultura preciso aproximar Gonza- discursou no meio da canção
ensino através da troca de Gonzaga serve de apoio, letrada”, afirma ga da cultura letrada. Assim e agradeceu ao homem que
identidades culturais. por exemplo, para explicar como esses escritores, ele criou a Sudene, lançando um
Segundo Lylian Cabral,
a mestranda
as figuras de linguagem. Na transformou em poético as — obrigado, Juscelino —,
mestranda em literatura pela canção “Asa Branca”, escrita Lylian Cabral infelicidades da vida cotidia- então presidente Kubitschek.
Universidade Federal de Per- em parceria com Humberto na e cantou e contou para o Esse caso em especial já me
nambuco (UFPE), um dos Teixeira, os alunos podem figura bastante presente nas Brasil um Pernambuco que rendeu excelentes aulas de
pontos importantes ao tra- ver o uso das metáforas. “No letras de Gonzagão é a hi- ele queria ver mudado”, afir- história”, disse Luciana.
balhar na escola o universo trecho: ‘quando o verde dos pérbole, função que atribui mou Lylian. Ainda segundo Luciana
cantado por Gonzaga está na teus óio se espaiá na pranta- o exagero de algumas ações Cavalcanti, quando o profes-
desmistificação do engessa- ção...’, o autor cria uma com- para chamar atenção dos ou- NA FACULDADE sor utiliza a produção cultural
mento de uma língua e de sua paração entre a cor dos olhos vintes. “Na música ‘A vida Para a professora de his- na sala de aula, ele faz com que
fala. “Através dessas músicas, da mulher amada e o sonho do viajante’, no trecho: ‘mi- tória Luciana Cavalcanti, da o aluno observe como a arte se
os alunos compreendem que de ver a terra rica de culti- nha vida é andar por esse Faculdade Escritor Osman relaciona com a realidade.
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Obra é marcada pela religiosidade


MARIANA LEMOS anos de 1964 a 1966”, com- hoje, a missa acontece anual-

Foto: Eliane Carneiro


plementa. mente em Serrita, conhecida
Mesmo vivendo em meio O ritmo dançante do tra- como a capital do vaqueiro, e
a inúmeros sofrimentos e dicional forró “pé-de-serra”, é considerada uma das maio-
tragédias, o sertanejo man- com seus arranjos de sanfo- res manifestações culturais
tém sua fé inabalável. O rei na, zabumba e triângulo, cede de todo o Sertão.
do baião, Luiz Gonzaga, can- lugar a um canto triste e me- O frei Alberto Bezerra,
tou como poucos a identida- lancólico, quando Gonzaga da Paróquia Nossa Senhora
de nordestina e o chamado homenageia um primo, o va- do Carmo, interior de Sergi-
“catolicismo popular”, um queiro Raimundo Jacó, assas- pe, afirma que é emocionante
dos temas mais recorrentes sinado na cidade de Serrita, presenciar a fé dos fiéis que
e marcantes em suas com- no interior pernambucano. A chegam para a missa. “Eles
posições. primeira Missa do Vaqueiro vêm das mais distantes cida-
Missas, romarias e os foi realizada como forma de des, algumas que eu nunca
mais variados rituais católi- protesto e reuniu centenas de nem tinha ouvido falar, mas
cos são o pano de fundo do sertanejos de todas as partes todos chegam vestidos com
disco “O Sanfoneiro do Povo do Nordeste. aquela indumentária pesada
de Deus”, o de maior conte- A canção “A morte do va- de couro e trazendo suas mu-
údo religioso de sua carreira, queiro”, composta por Gon- lheres e filhos para a celebra-
que foi lançado por Gonzaga zaga e Nelson Barbalho virou ção, assim como aconteceu na
no ano de 1968. Nesse dis- uma espécie de hino para os primeira missa com Gonzaga
co, o Gonzaga canta desde sertanejos. “A música foi fei- em 1971”, afirma. Durante a
“Beata Mocinha”, passando ta para Raimundo Jacó, mas celebração a céu aberto, cer-
por uma louvação ao Papa CASA DO REI Em Exu, objetos de Gonzaga mostram sua fé católica representa todos os homens ca de mil vaqueiros desfilam
João XXIII, até chegar à es- do sertão que desafiam a seca em procissão, levando alguns
pirituosa faixa “O jumento é piegas, mas sim incrivelmen- do logo após um período de e os perigos da caatinga, e, de seus pertences como for-
nosso irmão”. Ele trata da te- te autêntica, a cara do povo crise financeira e de escassez apesar de todo o sofrimen- ma de oferenda, antes de se
mática religiosa com bastante do sertão”, disse por e-mail de shows, o que o fez atuar to, ainda mantém viva a sua dispersarem para o trabalho
leveza. “A maneira como ele o poeta cearense Arievaldo como músico de estúdio e até crença em Deus e em dias pesado nas fazendas do alto
canta não é nem um pouco Nunes. “O disco foi lança- fazer campanha política, nos melhores”, conta Nunes. Até sertão do Araripe.

Maçonaria foi homenageada com baião


MILTON COUTO disse por telefone que sempre cerca de dez milhões de seguido-
Foto: Arquivo Pessoal

tinha lugar marcado para se en- res no mundo, segundo a Confe-


“Ela é tão linda é tão bela/ contrar com Gonzaga, quase to- deração da Maçonaria Simbólica
Aquela acácia amarela/ Que a dos os dias. “Quando dava umas do Brasil. O catolicismo se opõe,
minha casa tem/ Aquela casa di- sete horas da noite, ia para o Par- abertamente, à sociedade secreta.
reita/ Que é tão justa e perfeita/ que Asa Branca ouvir os ensina- Segundo o catolicismo, os fiéis
Onde eu me sinto tão bem.” É mentos dele. O que mais aprendi que são maçons cometem peca-
com esse refrão da canção “Acá- do e estão proibidos de comun-
cia Amarela”, que o cantor Luiz Gonzaga gar. Mas isso não parecia inco-
Gonzaga e o músico Orlando modar o católico Luiz Gonzaga.
chegou ao posto
Silveira homenagearam a ma- O contador e maçom José
çonaria, no disco “Eterno Can- de mestre na Mamoré, hoje morador de Be-
tador”, lançado em 1981. Para sociedade. lém, no Pará, entusiasma-se ao
PROSA Quase todas as tardes, Marconi encontrava o ídolo
a sociedade secreta, a acácia é a Hoje, a loja contar a história dos minutos
planta que simboliza pureza e se- maçônica de que passou ao lado do Rei do ele fosse para onde estava, na ro e, perto de morrer, chegou a
gurança. Foi no ano de 1961 que Baião. Em 1977, Mamoré, vol- primeira classe. “Mestre Lua me ser mestre maçom, cujo dever é
Gonzaga ingressou na maçona-
Exu leva o tando de avião do Acre, num disse que estaria em Belém no entusiasmar os outros seguidores
ria. Hoje, a loja maçônica de Exu, nome dele voo que fez escala em Manaus. mês seguinte e que queria jantar a seguirem acreditando na socie-
terra natal do cantor, leva o nome conheceu o cantor no aeroporto comigo no hotel.” Trinta dias se dade. Apesar de chegar a esse
do ilustre membro. com o mestre foram duas coisas: num encontro totalmente ines- passaram e, no dia da apresenta- posto, ele não era assíduo. “Não
Hoje, alguns amigos relem- simplicidade e humildade. Ele perado. “Me dispersei dos ami- ção na capital paraense, Mamoré tinha muito tempo para se dedi-
bram a participação do cantor na tratava as pessoas de igual para gos e dei de cara com meu ídolo não conseguiu sequer dormir di- car, sempre estava viajando. Mas
sociedade secreta. É o caso do igual., mesmo sabendo do peso em carne e osso, no aeroporto reito. No quarto, Gonzaga inter- era fervoroso”, afirmou Paulo
gerente de banco Paulo Marconi do seu nome para a cultura bra- de Manaus. Cheguei perto dele pretou algumas músicas, entre Marconi Silva. Doente, já de ca-
Silva, que conheceu Gonzaga em sileira. De vez em quando, bate e falei uma frase maçônica. Ele elas “Acácia Amarela”, apesar deira de rodas, o Rei do Baião se
1988, quando o banco em que um saudade de sentar e conver- me respondeu: ‘Tão novinho e de a canção ainda não ter sido apresentou na loja de Exu e can-
trabalhava resolveu transferi-lo sar com ele”, afirmou. já é um irmão’.” gravada na época. “Ele disse que tou “Acácia Amarela” para uma
de Canapi, no sertão de Alagoas, Liberdade, igualdade de di- Coincidentemente, o voo de era um presente para mim, em plateia de amigos maçons, inclu-
para Exu, sertão de Pernambuco. reitos e obrigações sem diferença Mamoré era o mesmo de Gon- primeira mão”, falou. sive Paulo Silva. “Todos ficaram
Silva, que hoje mora em Porto são os três principais preceitos da zaga. Sabendo da presença do O Rei do Baião passou pelo emocionados. Inclusive ele, que
Alegre, no Rio Grande do Sul, maçonaria. A sociedade possui fã no avião, o músico pediu que posto de aprendiz, companhei- chorou”, relembra Silva.
O BERRO Recife, dezembro de 2011 | 7

A tradição dos oito baixos Uma legião


de herdeiros
CAMILA LINDOSO Dias, que pesquisa por conta própria BEATRIZ BRAGA

Foto: Fábio Jardelino


a história do acordeom, desde 2007
Uma tradição passada de pai para fi- está havendo a crescente procura pelo Luiz Gonzaga saiu do Sertão do
lho. Foi ainda quando criança que Luiz fole de oito baixos, tanto no Nordeste Araripe com sua sanfona e mudou
Gonzaga aprendeu a tocar a sanfona de quanto no Sul e Sudeste. “Acabou essa a história da música brasileira. A
oito baixos do pai Januário. Conhecida história de que esse tipo de arcodeom influência do cantor chegou a ou-
no Nordeste como fole de oito baixos, está desvalorizado”, diz a historiadora. tros estilos, não apenas o forró e
concertina ou pé-de-bode, o instrumen- Segundo ela, existem incentivos públi- seus derivados, como o movimen-
to é considerado um símbolo da músi- cos e privados, como escolas e cursos, to artístico Tropicalismo. O cantor
ca nordestina. Hoje, há incentivos para voltados para o instrumento, além de era mestre, ainda, na solidariedade
manter viva a sanfona que foi essencial instituições que investem nos alunos in- e, sendo assim, grandes artistas ti-
tanto para Gonzagão quanto para a tra- teressados. “Em Caruaru, existe a Esco- veram seu apoio para continuar a
jetória de outros sanfoneiros. la de Sanfona de Oito Baixos. Em Santa tradição do Baião. Hoje, a qualida-
Arlindo dos Oitos Baixos, morador Cruz do Capibaribe tem a Orquestra de do forró brasileiro deve muito
do bairro de Dois Unidos, no Recife, Sanfônica de Oito Baixos e em Salguei- à visão artística de Luiz Gonzaga.
é um dos músicos que consagraram a ro já aconteceu o primeiro Encontro de “Ele olhou para mim e falou: você
carreira junto ao instrumento. “A mais Sanfoneiros”, conta Dias. tem uma voz muito boa para o for-
moderna, como a de 80 e 120 baixos, Questionada sobre a transmissão ró, por que não canta?” disse Na-
tem uma nota só abrindo e fechando. ACORDEOM Em casa, Arlindo mantém
dos ensinamentos da sanfona, a histo- dia Maia, cantora pernambucana
um espaço para os instrumentos
Mas a de oito baixos não. Quando aper- riadora diz que hoje a tradição continua há 18 anos, uma das herdeiras da
ta um dos botões sai uma nota quando “Com o tempo ele me convidou para sendo oral. “Ainda não existe um méto- obra do Rei.
fecha e outra quando abre a sanfona”, alguns eventos em São Paulo e no Rio do estabelecido para ensinar oito baixos. Gonzaguinha, Domiguinhos,
explica Arlindo. Segundo o músico, o de Janeiro e, depois disso, toquei junto Tudo é através da prática”, conta ela. Santanna e Nadia Maia são ape-
instrumento, além de ser mais difícil de com ele cerca de 20 anos”, conta o mú- De acordo o músico e compositor nas alguns dos cantores cuja vida
tocar, ainda possui uma afinação dife- sico, que, ainda nesse tempo, começou pernambucano Herbert Lucena, cria- profissional Luiz Gonzaga influen-
renciada dos demais. a fazer carreira solo com o fole de oito dor do selo Coreto Records, que já gra- ciou. Ao lado de Humberto Teixei-
Arlindo nasceu na cidade de Siri- baixos por influência de Gonzaga. De- vou CDs de diversos artistas regionais, o ra, popularizou e definiu um ritmo
nhaém, Zona da Mata Sul de Pernam- vido à diabetes, Arlindo perdeu com- fole de oito baixos foi e continua sendo próprio do Nordeste. Por meio do
buco, em 1942, e aprendeu a tocar pletamente a visão, mas, segundo ele, a base das músicas juninas: “Ouço mui- rádio, levou sua invenção safona
com o pai ainda criança. Mas foi em isso não o impediu de realizar shows e tos discos antigos do gênero e noto que – zambuba e triângulo às casas de
um show na exposição de animais do repassar os ensinamentos musicais. na maioria deles a sanfona de oito bai- brasileiros das cinco regiões. “A
Recife que conheceu o Rei do Baião. De acordo com a historiadora Lêda xos está sempre presente”. coisa de Luiz Gonzaga era inven-
tar moda. Ele fez coisa que nin-
Discos preservam clássicos do forró guém tinha pensado antes”, disse
Dominguinhos, que começou sua
GABRIELLE BUARQUE carreira com um presente do can-
Foto: Gabrielle Buarque

tor, uma sanfona, e se tornou um


Muitos foram os discos grava- de seus maiores seguidores.
dos por Luiz Gonzaga, ao longo Apesar de hoje a influência de
de sua carreira. Hoje, com a venda Gonzaga nas gerações que lhe su-
de produtos piratas e a força dos cederam ser evidente, na época, o
downloads, ter a coleção completa artista encontrou algumas dificul-
de LPs e CDs do compositor per- dades. O diretor Fernando Lobo,
nambucano é privilégio de cole- por exemplo, o proibiu de cantar,
cionadores. A maioria das lojas da chamando sua voz de “taboca ra-
Região Metropolitana do Recife xada”. Mas sua obra logo virou
dispõe de CDs de Gonzaga, com febre nacional. Caetano Veloso e
preços que variam entre R$ 9,90 Gilberto Gil, pais do Tropicalismo,
DISCOS DE VINIL Registram a obra do compositor pernambucano
a R$ 30,00. Por este último preço consideram Luiz Gonzaga respon-
também podem ser adquiridos ou- Na Disco Mania, loja de vinis muito procurado e sempre tem al- sável pela qualidade das primeiras
tros formatos, como o DVD “Da- usados, encontram-se obras de guma encostada. Hoje vendo uma músicas que deram início ao mo-
nado de bom”. Luiz Gonzaga por, no máximo, radiola usada por R$ 150,00, R$ vimento revolucionário verde e
Apesar de todos os recursos R$ 10,00, devido à facilidade de 250,00.” amarelo.
que vêm sendo usados, as pessoas localização da sua discografia. Porém, no final, o importante A contribuição e o legado de
continuam comprando CDs. Um A dificuldade existente no vinil é o valor das músicas de Gonza- Gonzaga à música e cultura brasi-
recurso utilizado por algumas lojas é o toca-disco, pois não é possível gão no cenário sóciocultural do leira são incontestáveis. “Ele can-
é a encomenda do disco, se ainda escutar sem o aparelho específico. Estado, como diz o músico Mar- tava o Nordeste de forma enrique-
tiver no fornecedor. Segundo Fá- O mercado já recomeçou a criar celo Melo, do Quinteto Viola- cedora e era atualíssimo. Até hoje,
bio de Melo, dono da loja Passa- equipamentos, ainda economica- do, banda que já tocou com Luiz suas músicas continuam a falar da
disco, não existe dificuldade em mente inacessíveis à grande maio- Gonzaga. “Trata-se de uma genia- realidade”, lembra Nadia Maia. A
vender os CDs do cantor. “Luiz ria. Mas o dono da loja Disco lidade que surgiu para ficar na his- maior herdeira da música do can-
Gonzaga é um artista que vende o Mania,Valdemar Oliveira, afirma tória da música popular brasileira. tor, sem dúvidas, é a cultura brasi-
ano todo. E tanto é que gravado- que isso não é problema. “Aqui É uma unanimidade nacional que leira, que terá, sempre, lembranças
ras lançam e relançam títulos dele na minha loja eu vendo em mé- influenciou e influenciará muitas da riqueza musical inventada pelo
mesmo fora do período junino.” dia três por semana. É um objeto gerações em nosso país”, afirma. nordestino.
8 | Recife, dezembro de 2011 O BERRO

Músico mantém acesa a chama do baião


ANDRÉ AMORIM ficou conhecido foi dado eu respondi. Foi então que

Foto: Arquivo pessoal


por Luiz Gonzaga de uma ele disse que a partir daque-
Em 1989, o Nordeste forma inusitada, no pri- le dia meu nome seria Toi-
perdia um de seus maiores meiro dos muitos encon- nho do Baião”, relembra.
defensores e divulgadores. tros que os dois tiveram. Naquele dia, Gonzaga dis-
O baião, ritmo que ajudou a “Esse dia foi muito emo- se: “Você foi o único cabra
consagrar, perdia o seu Rei. cionante. Eu quase morri que me fez parar o carro
Por onde passou, Luiz Gon- do coração. Eu fui fazer para confirmar se você es-
zaga deixou sua marca ao um teste para cantar numa tava cantando mesmo. Sua
cantar os problemas e lutas casa de show em Olinda voz é idêntica à minha.”
do sertanejo. Ao deixar os e, quando eu olhei, vinha O encontro abriu as
palcos, a música dele con- um morenão em minha di- portas para que Toinho par-
tinuou ecoando. A forma reção, de mãos dadas com ticipasse de alguns shows
como cantou suas canções dona Helena. Quando eu com o ídolo, como tocador
inspirou novas gerações que olhei bem, era o rei do de triângulo e cantor. “Mui-
PARCERIA Toinho do Baião toca ao lado de Luiz Gonzaga
mantêm viva a memória do Baião”, disse. A semelhan- tas vezes, quando ele estava
Rei do Baião. Natural de Vitória de o ídolo. “Ela gostava mui- ça entre as vozes era tão muito debilitado, ele per-
Com chapéu de couro, Santo Antão, o primeiro to de escutá-lo. Ela dizia grande que o Gonzaga fi- guntava se eu sabia a letra
gibão, óculos escuros e uma contato de Toinho do Baião que achava a voz dele muito cou em dúvida se Toinho e então dizia para eu cantar
voz grave, Antônio Evange- com a música de Luiz Gon- bonita e que nunca ia apa- estava realmente cantando. poque ele estava cansado”,
lista da Costa, de 64 anos, zaga foi aos sete anos de recer uma voz como a dele. O diálogo do primeiro disse.
mais conhecido como Toi- idade. “Asa branca” e ou- Eu tomei aquilo como um encontro continua preser- Os momentos juntos
nho do Baião, emociona tros sucessos fizeram parte desafio e como eu gostava vado nas lembranças de renderam muitas histórias e
muita gente por conta das da infância do cantor. Dez muito dela, tentei cantar Toinho. “O palco onde es- boas lembranças. Por con-
semelhanças com o ídolo. anos mais tarde, quando como ele”, disse. tava era baixinho, ele che- ta da semelhança entre os
Há mais de 40 anos ele in- conheceu a primeira namo- O que começou como gou perto de mim e pediu dois, a pergunta que Toinho
terpreta as músicas do gran- rada, ele se viu desafiado um desafio, logo virou tra- ajuda para subir no palco. mais escutava era se Luiz
de mestre. pela paixão a cantar como balho. O nome com o qual Ele perguntou meu nome e Gonzaga não era seu pai.

João Silva, um parceiro em 130 músicas


ANDRÉ LUFRAMAIA peito de orgulho: o de ser o com- 11 milhões de LPs vendidos.
Foto: André Luframaia

positor que mais teve canções Mesmo estando no Rio, João


“Tá é danado de bom. Tá gravadas pelo cantor. tinha que se deslocar para Exu,
danado de bom, meu compadre. De acordo com o pesquisa- nos meses de setembro, para dis-
Tá é danado de bom, forrozinho, dor Cícero Lisboa, uma das prin- cutir os lançamentos. O entrosa-
bonitinho, gostosinho, safadinho, cipais distinções de João Silva, foi mento entre eles era confortável.
danado de bom.” A letra é facil- a força de sua musicalidade. “Ele “Quando eu levava minhas letras
mente reconhecida. O leitor tam- entrou na vida de Luiz na metade e o repertório do disco em fitas
bém deve recordar dessas outras da década de 1970 pra cá. Mas foi cassete, eu tinha que cantar todas
músicas: “Nem se Despediu de em 1980 que ele consagrou a car- elas para ele ouvir. Em seguida,
Mim”, “Pagode Russo” e “Deixa reira do cantor com um sucesso Gonzaga pegava a sanfona e pro-
a Tanga Voar”. Todas elas foram atrás do outro. João foi o princi- curava ritmar as músicas do jeito
consagradas na voz de Luiz Gon- pal parceiro de Gonzaga. Se não dele. Feitos os ajustes, eu voltava
zaga, mas, muita gente não sabe o maior.” para o Rio e começava a produ-
que a autoria delas, pertence a ou- A relação entre eles começou ção no estúdio, até ele ir à grava-
tro pernambucano que também no Rio de Janeiro, por intermédio dora para colocar a voz final.”
nasceu com talento para o forró. da ambição da RCA, a gravadora Para o escritor e pesquisador
O compositor João Silva, nas- do rei, ao convidál-o para pro- José Maria Marques, autor do li-
cido em Arcoverde, é o respon- duzir o novo disco “Danado de vro “Mestre João Silva: Pra não
sável por todas elas e outras duas Bom”, com o objetivo de chegar morrer de tristeza, o maior par-
mil canções. Foi na adolescência as 100 mil cópias (disco de ouro). ceiro de Luiz Gonzaga” (edições
que ele despertou para a música e O trabalho rendeu seis discos de Bagaço), essa intimidade facilitou
tornou-se um dos principais com- ouro e, chegou a um milhão de a parceria e mostrou novos pa-
positores e amigos de Gonzaga. cópias vendidas. Um resultado de- radigmas. “Suas composições
Afinal, foram nada menos terminante para torná-lo o com- trouxeram um bom humor às SILVA é autor de letras como “Pagode russo“ e “Danado de bom”
que 130 canções próprias eter- positor e produtor musical exclu- músicas de Gonzagão. Revelou
nizadas na voz do Rei do Baião sivo do artista famoso de Exu. a modernidade na época, com no Recife e sobrevive dos direi- narrar a vida do principal parcei-
e inúmeras vendagens de discos “Gonzaga só veio ganhar muito letras bem rimadas. O povo não tos autorais. Em 2009, gravou o ro do Rei do Baião. Mais uma
até o último trabalho “Aquarela dinheiro quando veio parar em queria mais saber das tristezas do CD “Sertão Puro” e planeja lan- conquista que vai orgulhar a mu-
Nordestina”, em 1989. Esse sim- minhas mãos. Eu coloquei o rei sertão, queria cantar suas alegrias”, çar outro trabalho em 2012, além lher, os cinco filhos, cinco netos,
pático senhor de 77 anos, de fala nos braços do povo novamente.” disse Marques. do documentário “Recordações um bisneto e toda uma legião de
enfática e timbre forte, coleciona Silva destaca ainda, que produziu Após a morte do cantor em Nordestinas”, produzido pela fãs de João Silva e de Luiz Gon-
vários títulos, mas um enche o outros nove discos e um saldo de 1989, João Silva ficou morando cineasta Deby Brennand, que vai zaga em todo o Brasil.

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