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Terapias alternativas/complementares: Terapias alternativas/

complementares:

o saber e o fazer das enfermeiras do distrito


o saber e o fazer das
enfermeiras do
Distrito Administrativo

administrativo 71 - Santo Amaro - São Paulo*


71 - Santo Amaro -
São Paulo

ALTERNATIVE OR COMPLEMENTARY THERAPIES: KNOWLEDGE AND ACTION OF THE NURSES AT THE


71st ADMINISTRATIVE DISTRICT - SANTO AMARO, SÃO PAULO, BRAZIL

TERÁPIAS ALTERNATIVAS /COMPLEMENTARIAS: EL SABER Y EL HACER DE LAS ENFERMERAS DEL


DISTRITO ADMINISTRATIVO n. 71 - SANTO AMARO- SAN PAULO-BRASIL

Helena Maria Fekete Nuñez1, Suely Itsuko Ciosak 2

RESUMO ABSTRACT RESUMEN * Trabalho extraído da


Este estudo objetivou The purpose of this study is Este estudio tuvo por objetivo Dissertação de
Mestrado em
verificar o saber e o fazer to investigate the nurses verificar el saber y el hacer de Enfermagem intitulada
das enfermeiras que atuam knowledge and actions taken las enfermeras que trabajan “Terapias alternativas/
nas unidades municipais de regarding alternative or en las unidades municipales complementares: o
saber e o fazer das
Saúde do Distrito complementary therapies de Salud del Distrito enfermeiras do Distrito
Administrativo 71-Santo (AT or CT) at the County Administrativo n. 71, de Administrativo 71-
Amaro -São Paulo, frente às (municipal) Health Units of Santo Amaro -San Paulo - Santo Amaro - São
Paulo” do Programa de
Terapias Alternativas/ the 71st Administrative Brasil, en relación a las Pós-Graduação em
Complementares(TA/C). District, in Santo Amaro, SP. Terapias Alternativas/ Enfermagem de
The research use a Complementarias (TA/C). Saúde Coletiva-Escola
A pesquisa, de abordagem de Enfermagem da
quantitativa com análise quantitative aproach and a La investigación, de abordaje USP (EEUSP), 2002.
qualitativa dos dados, qualitative analysis of the field cuantitativo con análisis 1 Enfermeira do
cualitativo de los datos, Programa da Saúde da
permitiu evidenciar que data that showed that 89% of Família, Jd Monte
89% dos enfermeiros the nurses have confidence in demonstró que el 89% de las Azul, Vila das Belezas,
acreditam nas TA/C porém, AT/CTs but only 22,2% know enferrmeras creen en las DS São Luiz, São
TA/C, sin embargo apenas Paulo; Mestre em
apenas 22,2% têm the legal basis for its use and Enfermagem na área
conhecimento do respaldo 5,5% had courses on the 22,2% tienen conocimiento de Saúde Coletiva
legal e 5,5% têm cursos techniques. 44,4% use these del fundamento legal y 5,5% (EEUSP).
2 Profa Dra do
nesta área; 44,4% aplicam therapies on themselves and hicieron cursos en esta area; Departamento de
em si mesma e 11,1% 11,1% on their patients. 44,4% aplican en sí mismas Enfermagem em
aplicam nos pacientes, sete Altogether 7 diferent AT/CTs y 11,1% aplican en los Saúde Coletiva da
EEUSP; Diretora do
TA/C distintas, classificadas were listed and classified in pacientes siete TA/C distintas, Departamento de
em cinco grupos de HILL. 5 Hill’s groups. clasificadas en cinco grupos Enfermagem do
Desvendou-se que há It was found that there is a de HILL. Se constató la Hospital Real e
Benemérito da
necessidade de buscar need for including new necesidad de buscar nuevos Sociedade Portuguesa
novos saberes como opções knowledge as a conocimientos como opciones de Beneficência.
de assistência à promoção complementary option for de asistencia para la
da saúde da população. the promotion of the promoción de la salud de
population’s health. la población.

PALAVRAS-CHAVE KEYWORDS PALABRAS-CLAVE


Enfermagem holística. Holistic nursing. Enfermería holística.
Terapias alternativas. Alternative therapies. Terápias alternativas;
Terapias complementares. Complementary therapies. Terápias complementares;
Promoção da saúde. Health promotion. Promoción de la salud;
Pesquisa em enfermagem. Research on nursing. Investigación en enfermeria.

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INTRODUÇÃO medicina convencional um sistema de pen-
Helena Maria F. Nuñez
Suely Itsuko Ciosak samentos que estuda o funcionamento cor-
Na época da minha formação profissio- po humano a partir de uma perspectiva que
nal, na década de setenta, pouco se falava considera ser ele constituído por múltiplos
sobre tratamentos alternativos à medicina tra- sistemas energéticos que se influenciam re-
dicional, também conhecidos como terapias ciprocamente e que nossos pensamentos e
alternativas ou complementares ( TA/C). emoções afetam nossa fisiologia e que tera-
pias simples, como ervas, água, essências flo-
Após muitos anos de experiência na en- rais, por exemplo, podem ser agentes de cura
fermagem alopática, em 1998, prestei servi- muito eficazes.
ços de enfermagem numa clínica formada por
uma equipe multidisciplinar, onde os pacien- É baseado neste conceito que as TA/C
tes, na grande maioria oncológicos, ou porta- são consideradas, pois elas podem ser defi-
dores de doenças imunológicas, recebiam nidas como
além de tratamentos convencionais, tratamen-
um amplo domínio de recursos de cura
tos complementares como: homeopáticos, que engloba todos os sistemas de saúde,
antroposóficos, fitoterápicos, imunoterá- modalidades e práticas e suas teorias e
picos, toque terapêutico, Reiki, desbloqueio crenças acompanhantes; inclui todas as
e alinhamento dos chakras, terapia artística, práticas e idéias auto-definidas por seus
euritmia curativa, relaxamento, visualização, usuários como prevenindo ou tratando as
troca de vivência em grupo, meditação e tra- doenças ou promovendo a saúde e bem-
balho biográfico antroposófico, que visavam estar. (5)
torná-los mais conscientes e colaboradores
na promoção, prevenção e recuperação da Nesta pesquisa foram adotados os ter-
sua saúde. mos terapias alternativas e terapias comple-
mentares, indicando a mesma prática, embo-
Percebi que com esta atuação mais inte- ra não sejam sinônimos, mas porque o termo
gral, no cuidar, o paciente relatava grande alternativas é o mais divulgado.
melhora na qualidade de vida durante seu
processo de doença. Na organização de Hill(6), as correntes
terapêuticas básicas das medicinas alternati-
Silva, Gimenes(1) afirmam que vas são classificadas em quatro: Medicina
Oriental, Hindu ou Ayurvédica, Homeopáti-
o paradigma emergente, também chamado
de holístico (etimologicamente, holístico e
ca e a Medicina ampliada pela Antroposofia
holismo derivam do grego holikós, que sig- e as técnicas ou práticas complementares nem
nifica todo, inteiro, completo e na filosofia é sempre pertencem apenas a uma corrente de
a síntese de unidades em totalidades orga- medicina alternativa/complementar; por exem-
nizadas), evita tratar de forma isolada o plo, tanto a medicina chinesa quanto
processo saúde-doença, que tende a ser ayurvédica, homeopática e antroposófica,
visualizado com um continuum, em que a fazem uso da fitoterapia, mas cada uma com o
saúde deixa de ser um estado estático de enfoque de sua corrente. A população, que
perfeito bem estar, subentendendo-se
faz uso das TA/C, procura em geral as práti-
mudança contínua aos desafios ambientais
cas que lhe fazem bem, não se importando na
e ao equilíbrio dinâmico do organismo, que
envolve aspectos físicos, psicológicos,
maioria dos casos em seguir uma determina-
mentais, sociais e espirituais. da linha de medicina. A autora, classifica as
TA/C em sete grupos distintos: terapias físi-
Nas Teorias que fundamentam a Enferma- cas, hidroterapias, fitoterapias, terapias
gem, de Martha Rogers e Myra E. Levine, nutricionais, terapias mentais-espirituais, e
o Homem é visto como um ser holístico (2) . terapias de exercícios individuais.

Com a expansão do modelo mecanicista Existem ainda outras terapias que não são
newtoniano da Física pela visão einsteiniana mencionadas por Hill(6), porém são relatadas
da Física Quântica, os seres humanos pas- por muitos profissionais da saúde e terapêutas,

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sam a ser vistos não mais apenas como má-
quinas (3,4) e sim, como campos de energia
que se interpenetram e se influenciam reci-
tais como a Calatonia, Cura Prânica, Reiki, To-
que Terapêutico, Neurolingüística, Terapia Bi-
ográfica Antroposófica, Tai-Chi-Chuan, Lian-
2003; 37(3): 11-8. procamente. Com isso, Gerber(3) introduziu na Gong, Do-In.
No Brasil, podemos destacar como enfer- trito Administrativo-71 Santo Amaro, do
Terapias alternativas/
meiras pioneiras nos estudos na área de TA/ Município de São Paulo, sobre as TA/C, e os complementares:
C, Dra Maria Jacyra Nogueira (7) e Dra Maria objetivos específicos são: caracterizar as en- o saber e o fazer das
enfermeiras do
Alves Barbosa (8) . fermeiras que atuam nas unidades de saúde, Distrito Administrativo
junto à população, identificar quais são as 71 - Santo Amaro -
Para sedimentar as TA/C, o próprio COFEN TA/C conhecidas e utilizadas pelas enfermei- São Paulo
apoiou, através do Parecer Normativo nº 004/ ras, verificar os resultados obtidos com as
95, o reconhecimento das práticas alternati- TA/C, as facilidades e dificuldades encontra-
vas (Acupuntura, Iridologia, Fitoterapia, das pelas enfermeiras, nas Unidades de Saú-
Reflexologia, Quiropraxia, Massoterapia, den- de, para exercerem as TA/C.
tre outras), como atividade profissional vin-
culada à saúde e não estando vinculados a
qualquer categoria profissional; e através da MATERIAL E MÉTODOS
Resolução COFEN-197/97 que
O projeto recebeu parecer favorável do
estabelece e reconhece as Terapias Al- Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/EEUSP),
ternativas como especialidade e/ou quali- sob o parecer n. 148/2001.
ficação do profissional de Enfermagem,
desde que o profissional de Enfermagem Após autorização escrita de cada diretor
conclua e tenha sido aprovado em curso das nove unidades de saúde, foi solicitando
reconhecido por instituição de ensino ou anuência das(os) enfermeiras(os), através do
entidade congênere, com uma carga ho- consentimento livre, em participar do presen-
rária mínima de 360 horas (9) . te estudo, sendo assegurado o anonimato.
Segundo Antunes(10), Foi realizado um estudo exploratório
prospectivo, sobre o conhecimento e a prática
a implantação do Sistema Único de Saúde
que as enfermeiras têm sobre as TA/C, através
no Brasil, trouxe um grande desafio para
da aplicação de um questionário à todas as en-
a enfermagem: redirecionar suas práticas
para o atendimento integral à saúde cole-
fermeiras que atuam diretamente com usários,
tiva e individual da população brasileira, nas unidades municipais de saúde do Distrito
Administrativo–71 (DA-71) Santo Amaro.
o que poderia ser amparada pelas TA/C,
porém a falta de uma pesquisa voltada à aten- Os nove Serviços de Saúde do DA Santo
ção primária à saúde com as TA/C, levou à Amaro que possuem enfermeiras e atendem di-
presente investigação, cujo objetivo princi- retamente a população em assistência primária
pal é verificar o saber e o fazer das enfermei- e secundária, e que são foco desta investiga-
ras, que atuam nas unidades de saúde do Dis- ção, encontram-se na Tabela 1, a seguir:
Tabela 1 - Relação da Unidades de Saúde do DA -71 e total de enfermeiras
lotadas nas respectivas unidades (São Paulo- jun/ago- 2001)

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2003; 37(3):11-8.
RESULTADOS mas práticas alternativas, buscou-se entre as
Helena Maria F. Nuñez
Suely Itsuko Ciosak entrevistadas conhecer esta prática e verifi-
Percorrendo as nove Unidades de Saúde camos que embora 15(83,3%) enfermeiras re-
do DA-71 Santo Amaro, foram entrevistadas ferem ter uma filosofia de vida ou uma reli-
18 enfermeiras, que correspondem ao total dos gião, existe uma grande heterogeneidade
profissionais destas unidades, sendo quanto à sua prática: 4(22,2%) enfermeiras
17(94,4%) do sexo feminino e 1(5,6%), do sexo são Católicas; 3(16,7%) são Adventistas e 3
masculino. Os mesmos resultados foram tam- Kardecistas.Também foram referidas o Budis-
bém constatados por Bezerra(11),Oguisso(12,13) mo, Messiânica, Batista e Protestante, a filo-
e Ciosak(14), confirmando mais uma vez que sofia de vida de “amar ao próximo”, mostran-
esta profissão continua sendo predominan- do existir oito diferentes religiões ou filosofi-
temente feminina (cerca de 95%). as e um ateísmo entre as enfermeiras entre-
Como algumas práticas religiosas ou filo- vistadas; 2 (11,1%) não responderam, neste
sofias de vida condenam ou reforçam algu- quesito (Quadro 1).
Quadro 1 - Relação das Religiões, Escolas de Graduação e Pós-Graduações das Enfermeiras do
DA-71 - (São Paulo - 2001)

**Escolas de Graduação: abreviaturas: N* é o número de enfermerias

Fez-se um levantamento das Escolas de enfermerias de EEPr. Chama atenção, ainda,


Enfermagem, buscando, ainda, apreender a que nenhuma das enfermeiras entrevistadas
influência da formação no conhecimento, per- cursou PG em TA/C (Quadro 1).
cepção e aceitação das TA/C; as Escolas de
Enfermagem foram classificadas em públicas Das enfermeiras do DA-71, 17(94,4%) tem
(EEPú) e privadas ( EEPr) (Quadro 1). mais de 35 anos de idade e 8(44,4%) tem de 15
a 20 anos de formada, sugerindo estar no
As enfermeiras se graduaram em 11 dife- mercado de trabalho há muitos anos, confir-
rentes Escolas de Enfermagem das quais mados pelos dados seguintes: 13(72,2%) en-
5(45,4%) são EEPú, e 6(54,6%) são EEPr; a fermeiras tem mais de dez anos de trabalho
maioria da enfermeiras, 12(66,7%) é oriunda no Serviço Público, revelando ser um grupo
de EEPr e 6 (33,3%) de EEPú (Quadro 1). de enfermeiras estável no sistema de traba-
lho, acrescentando assim ao saber acadêmi-
Foi realizado, também, um levantamento co, um saber enriquecido pela prática da pro-
sobre as Pós Graduações (PG) cursadas pe- fissão. Das 18 enfermeiras, 11(61,1%), atuam
las enfermeiras, para averiguar quais os cur- há menos de cinco anos na unidades atuais.
sos ou tendências que as enfermeiras busca-
ram, para complementar sua formação básica Quanto ao modo como as enfermeiras per-

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e se algumas já demonstravam interesse nas
áreas de TA/C. Verificou-se que as enfermei-
ras do DA-71, frequentaram um total de 27
cebem e reagem frente às TA/C, 16(89%) acre-
ditam nas TA/C, mostrando não haver interfe-
rência da religião nem da formação acadêmica
2003; 37(3): 11-8. cursos de PG, sendo 23(85%) cursadas pelas e 8(44,4%) têm experiência na área(Figura 1).
Terapias alternativas/
94,40% complementares:
88,90% o saber e o fazer das
enfermeiras do
89% 77,80% Distrito Administrativo
71 - Santo Amaro -
São Paulo
55,60%

44,40%

22,20%
5,50% 5,50% 5,50%

0% 0% 0,00%

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Figura 1 - Saber das enfermeiras do DA 71 em relação às TA/C
(São Paulo jun/ago- 2001)

Chama a atenção o fato de apesar do Foram levantadas as experiências com as


TA/C que as enfermeiras têm consigo mes-
COREN ter promulgada a Resolução COFEN-
mas, com seus familiares, usuários/clientes e
197 em 1997, 14 (77,8%) do total das
funcionários de sua unidade de saúde e ou-
enfermeiras referem não conhecer o respaldo
tros que as procuram.
legal e 16 (89%) não conhecem cursos que as
tornariam especialistas em TA/C. Somente um Quanto à aplicação em si próprias, mais
profissional disse ter feito curso na área de da metade, ou seja, 10(55,6%) não responde-
TA/C, com carga horária de 20hs, durante a
ram a esta questão, o que mostra, talvez, uma
graduação (FAE) ( Figura 1).
certa resistência em aceitar e adotar estas prá-
Podemos constatar na população desta ticas. De uma forma coerente, verificamos que
pesquisa, que estas enfermeiras, não tiveram 12(66,7%) não responderam, também, as ques-
formação para conhecerem as TA/C e assim, tões relativas às aplicações em seus familia-
poderem usá-las, recomendá-las, distingui-las res 15(83,3%), em usuários e funcionários e
dentre as que realmente contribuem no aten- 16(89,9%) em outros (Figura 2).
dimento e sem riscos à população.

89,90%
83,30% 83,30%

66,70%
55,60%
44,40%
33,30%

11,10% 11,10% 11,10%


5,60% 5,60%
0% 0% 0%

Figura 2: Fazer das enfermeiras do DA 71, em relação às TA/C


(São Paulo jun/ago- 2001)

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Oito(44,4%) enfermeiras mencionaram Sintetizando o fazer das enfermeiras e,
Helena Maria F. Nuñez
Suely Itsuko Ciosak usar para si mesmas: meditação, fitoterapias considerando a Classificação de Hill(6), veri-
com chás, alho, limão, própolis, recebiam ficamos que as TA/C foram citadas de formas
acupuntura, do-in, florais de Bach, homeopatia, variadas. Averiguamos, também, que algumas
dietoterapia, e alguns tratamentos naturais; enfermeiras utilizavam mais de uma prática.
6(33,3%) enfermeiras utilizam para seus famili- Pudemos notar que, foram mencionadas no
ares: meditação, chás de plantas, com alho, total, nove diferentes práticas de TA/C:
cebola, limão, maracujina, capim santo, chá de acupuntura, florais de Bach, do-in, medita-
chuchu, do-in, florais, homeopatia, dietoterapia ção, dietoterapia, ervas medicinais, Lian Gong,
e alguns tratamentos naturais; 2(11,1%), en- (homeopatia e “alguns tratamentos naturais”,
fermeiras aplicam em usuários e clientes da não foram classificados nos grupos de
unidade: do-in e dietoterapia em gestantes e TA/C) , fazendo parte de um total de cinco
alguns tratamentos naturais; 2(11,1%) empre- grupos distintos de TA/C, ou sejam: terapias
gam em funcionários a dietoterapia, alguns tra- físicas (meridianas), mentais e espiri-
tamentos naturais e Lian Gong, e para outros tuais, fitoterapia, nutrição e de exercícios
que as procuram 2(11,1%) enfermeiras utili- individuais. (Tabela 2).
zam: chás de erva cidreira, capim santo, horte-
lã, dietoterapia e alguns tratamentos naturais.

Tabela 2 - Relação de Grupos de TA/C na classificação de Hill e total de enfermeiras


do DA-71 que as aplicam (São Paulo jun/ago– 2001)

Aplicam*:A= si mesma ; B= familiares; C= usuários/clientes da unidade de saúde; D= funcionários e E= outros


que aprocuram.

Nos dados encontrados por Barbosa(8) e ministrado ao paciente sem medicamen-


Souza(5), podemos observar que os quatro tos tradicionais, que o profissional pode
grupos de TA/C de maior incidência, utiliza- utilizar junto ou não à medicina propria-
das pelas enfermeiras também foram, em or- mente dita, com terapias complementares
dem decrescente, a Fitoterapia, Nutrição, Te- ;qualquer ação de intervenção natural ou
rapias Físicas–meridianas e Terapias Mentais comportamental nos hábitos, que verifi-
quem na alimentação, repouso, lazer, ou

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e Espirituais, reforçando os dados desta pes-
quisa. em todas as necessidades humanas bá-
sicas; e tem como objetivos a cura, a

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Ao conceituar TA/C, 11(61,1%) das en- melhora da qualidade de vida ou minimizar
2003; 37(3): 11-8. fermeiras afirmaram que “é um tratamento”: o sofrimento dos pacientes.
A maioria, ou seja, 15(83,3%) mesmo sem CONCLUSÕES
Terapias alternativas/
ter experiência com TA/C, apoiam a sua práti- complementares:
ca, principalmente: a dietoterapia, fitoterapia, o saber e o fazer das
Tendo em vista os objetivos propostos enfermeiras do
acupuntura, do-in, florais de Bach, toque os resultados obtidos com a investigação das Distrito Administrativo
terapêutico e a meditação. 71 - Santo Amaro -
18 enfermeiras, lotadas nas unidade de saúde São Paulo
municipais do DA-71, permitem as seguintes
Poucas foram as facilidades e muitas as
conclusões:
dificuldades encontradas para aplicar TA/C,
sendo que: 11(61,1%) descreveram sobre fa- 1. na população predomina o sexo feminino
cilidades aquelas relacionadas à aquisição de (94,4%); 83,3% referem ter uma filosofia de
ervas medicinais, demanda espontânea para vida ou religião, 66,7% das enfermeiras gra-
atendimento com TA/C, oportunidade de duaram em Escolas de Enfermagem privadas;
maior aproximação com o usuário/ cliente e frequentaram um total de 27 cursos de pós
favorecimento da introdução das TA/C na graduação; 94,4% possuem faixa etária acima
unidade de saúde, por ser pública. dos 35 anos; 77,8% se formaram há mais de
15 anos, 72,2% têm mais de dez anos de tra-
Quinze(83,3%) referiam dificuldades para
balho no Serviço Público, e 61,1% atuam há
exercer as TA/C, relacionadas em quatro gru-
menos de cinco anos na unidades de saúde
pos: quanto a recursos físicos e humanos da
atuais. Essa diversidade de características não
unidade de saúde: espaço físico restrito, es-
influenciou no saber e fazer nas TA/C.
cassez de enfermeiras para demanda de paci-
entes na unidade, falta de credibilidade nas 2. quanto aos grupos de TA/C conhecidas e
TA/C; capacitação: pouquíssimo material utilizadas, foram: 36,4% Fitoterapia (Florais
escrito, de pesquisa e audio-visual, falta de de Bach, ervas medicinais); 27,3% Nutrição
cursos e reciclagem, e desconhecimento dos (inespecífica); 22,7% Terapias físicas-
profissionais de saúde; equipe de trabalho: meridianas (Acupuntura e Do-In); 9,1% men-
não aceitação da prática por enfermeiros, che- tais e espirituais (Meditação) e 4,5% Terapi-
fia, médicos, necessidade de ter aprovação as de exercícios individuais (Lian Gong).
da Diretoria, falta de contribuição, pouca dis-
ponibilidade de tempo e quanto aos usuári- 3. quanto aos resultados obtidos com a apli-
os/clientes da unidade de saúde: falta de cação das TA/C: 89% acreditam nas suas
conscientização e dilvulgação para a popula- ações; 44,4% têm experiência; somente 22,2%
ção em geral, baixa compreensão, pouca cren- conhecem a legislaçãopertinente; 94,5% não
ça, relacionar TA/C com fatos sobrenaturais. fizeram nenhum curso relacionado; 89% não
Estes dados reforçam os achados de Barbo- conhecem cursos que a tornam especialistas;
sa(8), que relatou as facilidades e dificulda- 44,4% aplicam-na em si mesmas; 33,3% apli-
des encontradas pelos enfermeiros ao utili- cam em seus familiares; 11,1% a aplicam em:
zarem as TA/C, referindo-se ao usuários/ clientes, funcionários e em outros
que as procuram.
tríduo apoio-aceitação-rejeição, tanto
institucional quanto da equipe de trabalho 4. As dificuldades apontadas por 15(83,3%)
destes profissionais, falta de amparo le- enfermeiras foram: a falta de capacitação em
gal, e ausência de disciplinas oficializa- TA/C, tabus e preconceitos das equipe e dos
das nos currículos das escolas. usuários de sua unidade e recursos físicos.

A investigação mostrou o quão grande é


CONSIDERAÇÕES FINAIS
o interesse da enfermeiras sobre as TA/C, e o
quanto se encontram limitadas pela falta de
informação e formação. Nogueira(7) colocou, há quase 20 anos,
que a enfermeira é um”profissional que vem
Realizar esta investigação foi gratifican- sendo subutilizado pelos sistemas de assis-
te, pois o fato de estar averiguando o saber e tência primária. Sua função terapêutica ainda
o fazer das enfermeiras na área das TA/C, não é bem aceita. Uma das providências ne-
despertou em muitas delas o sentimento de cessárias é que as enfermeiras reconheçam a

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utilidade, interesse em ampliar seus conheci- importância de sua atuação e aceitem o seu
mentos e aplicá-los para melhorar a qualida- novo papel e redefinam suas ações nos ser-
de de vida individual e da comunidade. viços de saúde”.
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Essa situação ainda não se reverteu. A porém o desconhecimento da legislação, a
Helena Maria F. Nuñez
Suely Itsuko Ciosak enfermeira deve abrir este novo espaço, am- falta de capacitação teórico- prática, as limita
parar-se com o respaldo legal, associar-se a na experiência.
entidades, participar de formação nesta área.
A população tem utilizado muitas TA/C para Concordamos com Dra Taka Oguisso que,
sua saúde, e pelas dificuldades em encontrar em uma de suas aulas na disciplina de Histó-
nos serviços de saúde um atendimento inte- ria da Enfermagem, coloca com propriedade:
gral, cada vez mais, têm buscado outros “precisamos ser enfermeiras capazes de ou-
terapeutas, nem sempre profissionais da saú- sar”, para buscar o saber e ocupar os espa-
de, para sanar seus problemas. As enfermei- ços com o fazer, efetivo, científico e consci-
ras desta investigação mostraram-se interes- ente, pois nós somos enfermeiras agentes
sadas nas TA/C,sendo que a maioria acredita ativas da transformação e do desenvolvimen-
que elas podem auxiliar na melhoria da saúde, to da Enfermagem deste milênio.

REFERÊNCIAS

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