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XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental

III-026 - TRATAMENTO DE RESÍDUOS: RECUPERAÇÃO DE PRATA

Marta Regina Lopes Tocchetto(1)


Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria. Mestre em Engenharia de
Produção pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS). Professora Assistente do
FOTOGRAFIA
Departamento de Química da UFSM responsável pelas disciplinas de Toxicologia e
Segurança de Laboratório e Tecnologia Química Experimental I. NÃO
Nádia Suzana Schneider Viaro DISPONÍVEL
Química Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria. Doutora em Bioengenharia
(UFRGS). Professora Adjunto Departamento de Química responsável pela disciplina de
Análise Instrumental – UFSM-RS.
Rodrigo Barroso Panatieri
Técnico em Química - ETFPEL - RS. Acadêmico do Curso de Química Industrial - UFSM-RS.

Endereço(1): Rua Eng. Rogério Tocchetto, 180 - Bairro Nossa Senhora de Lourdes - Santa Maria - RS - CEP:
97060-250 - Brasil - Tel: (55) 222-6859 - e-mail: mtoqto@base.ufsm.br

RESUMO
É notório na atualidade, a preocupação da comunidade com o destino dos resíduos provenientes das mais
variadas atividades humanas. Uma das saídas para minimizar o impacto ambiental, bem como diminuir é
reaproveitar a maior quantidade destes resíduos. Este trabalho objetiva propor rotas para o reaproveitamento
de resíduos de prata através de métodos gravimétrico e eletroquímico.

PALAVRAS-CHAVE: Tratamento, Resíduos, Prata.

INTRODUÇÃO
Minimização significa diminuição de resíduos, redução de sua geração até o limite viável. De acordo com a
definição adotada pela EPA (United States Environmental Protection Agency), reciclagem é ação de coletar,
reprocessar, comercializar e utilizar materiais anteriormente considerados como lixo. Dentre muitos dos
benefícios promovidos estão o decréscimo do uso de recursos naturais, comparada por Nemerow (1991),
como “decaimento da entropia de formação”.

A recuperação de resíduos objetiva recuperar frações ou algumas substâncias que possam ser aproveitadas
no processo produtivo desde que em condições econômicas mais ou menos vantajosas e representa um
serviço benéfico à sociedade, independente da rentabilidade, Tocchetto (1999). Os metais constituem bons
exemplos de recuperação a partir de seus resíduos.

A valorização permite a extração de materiais que possam ser comercializados ou utilizados para geração de
energia, reduz custos e volume de resíduos a ser dispostos, bem como custos de produção.

Através deste trabalho, cujo objetivo é a recuperação de prata de um desalinizador e de descarte de


laboratório de química, demonstra-se pelo tratamento químico, a valorização de um resíduo cuja disposição
inadequada causará impacto negativo sobre o meio ambiente. A recuperação dos resíduos de prata pode ser
através de método gravimétrico sob a forma de AgNO3 e através de deposição eletroquímica, sob a forma de
Ago. Neste estudo foram utilizadas duas amostras, um desalinizador utilizado pela Aeronáutica (Base Aérea
de Santa Maria) e resíduos de prata gerados em laboratórios de química.

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MATERIAIS E MÉTODOS
No desalinizador foi realizado análise qualitativa para confirmar a presença de prata com o seguinte
procedimento: a amostra foi macerada e dissolvida com HNO3 2mol L-1. Nesta solução testou-se a
precipitação de cloretos com a adição de HCl 2% (v/v) e de iodetos com a adição de KI 10% (m/v), em ambos
casos houve a formação de precipitado evidenciando a presença de prata.

A medida quantitativa deste metal, pelo método de Volhard como descreve-se a seguir: tomando 1g de
amostra que foi dissolvida a um volume de 100mL retirou-se uma alíquota de 10mL para proceder a titulação
frente a um padrão de KSCN 0,0959mol L-1.

A rota proposta para a recuperação de prata seguiu conforme a descrição abaixo: a precipitação de AgCl com
HCl conc. em 5g da amostra (desalinizador). A este precipitado junto-se 1,4g de Cu0, NH4OH conc. e água
quente promovendo a troca da prata pelo cobre resultando a formação de Ag0 que foi dissolvida com HNO3
6mol L-1. O AgNO3 (solução) foi separado por filtração simples e evaporado em rotavapor ocorrendo a
cristalização do nitrato. Após a recristalização, os cristais de AgNO3 foram lavados com etanol, filtrados e
levados ao dessecador para posterior pesagem e cálculo de rendimento.A otimização da rota foi conseguida
com a solubilização do AgCl com NH4OH concentrado antes da adição de cobre e evaporação da solução de
AgNO3 em manta elétrica ao invés do rotavapor.

Para o desenvolvimento da técnica de eletrodeposição de prata, montou-se uma célula eletrolítica, utilizando-
se uma solução de resíduo de prata, proveniente de laboratório de química. Alternou-se o catodo (polo
negativo) e o anodo (polo positivo) com ferro, grafite e cobre, aplicando-se uma d.d.p. (diferença de
potencial) de 1,5V e 2,0V, por um tempo de trinta minutos à temperatura de 25oC ± 2oC.

Para tal experimento, utilizou-se uma fonte de corrente Entelbra / ETB – 248D. O esquema de montagem dos
equipamentos está descrito na Figura 1.
As peças do catodo e do anodo foram pesadas antes e após os experimentos, bem como foi realizada análise
qualitativa do material que foi depositado.

Figura 1 - Esquema de montagem dos equipamentos para a eletrodeposição de prata.

RESULTADOS
A análise quantitativa do desalinizador evidenciou teor de 40,36% (g/g) de prata.

Os resultados da eletrólise estão apresentados na Tabela 1.

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Tabela 1 - Eletrólise de Solução de resíduos de prata obtidos em laboratórios de química.


Experimento Material do Material do d.d.p. Aumento de Análise Intensidade
anodo catodo aplicada massa no Qualitativa da deposição
(polo positivo) (polo negativo) (V) catodo (mg) para Prata no catodo
realizada no
catodo após a
eletrólise
1 Grafite Ferro 1,5 - - Fraca
2 Ferro Grafite 1,5 - - Fraca
3 Grafite Ferro 1,5 - - Fraca
4 Ferro Grafite 1,5 - - Fraca
5 Ferro Grafite 1,5 1,1 - Fraca
6 Grafite Ferro 1,5 0,8 - Fraca
7 Ferro Grafite 1,5 - - Fraca
Experimento Material do Material do d.d.p. Aumento de Análise Intensidade
anodo catodo aplicada massa no Qualitativa da deposição
(polo positivo) (polo negativo) (V) catodo (mg) para Prata no catodo
realizada no
catodo após a
eletrólise
8 Grafite Cobre 1,5 - - Fraca
9 Cobre Cobre 1,5 - - Fraca
10 Cobre Cobre 1,5 - - Fraca
11 Cobre Cobre 1,5 0,4 - Fraca
12 Cobre Grafite 1,5 1,5 Positivo Fraca
13 Grafite Cobre 1,5 - Positivo Fraca
14 Cobre Ferro 1,5 1,2 - Fraca
15 Grafite Cobre 2,0 7,8 Positivo Boa
16 Grafite Cobre 2,0 2,5 - Média
17 Cobre Cobre 2,0 0,8 - Média
18 Cobre Grafite 2,0 34,7 * Positivo Fraca
* Essa massa corresponde a depositada no catodo (1,1mg) mais uma porção de prata reduzida recolhida
do banho eletrolítico (33,6mg).

Os resultados da gravimetria estão na tabela 2.

Tabela 2 - Recuperação de prata por gravimetria.


Experimento Amostra Massa da Massa Massa % de recuperação
amostra recuperada recuperada de prata (g/g)
expressa em expressa em expressa em
prata (g) AgNO3 (g) prata (g)
1 Desalinizador 2,0180 0,8500 0,5400 26,76
2 Desalinizador 1,0090 0,6000 0,3810 37,76
3 Res. de lab. 0,3010 0,1500 0,0950 31,64
4 Res. de lab. 0,9784 0,9000 0,5715 58,41

CONCLUSÕES
• Nos nove primeiros experimentos utilizou-se como banho de imersão uma solução com AgCl (insolúvel), do
dez ao quatorze adicionou-se 5% m/v de NaNO3, nos demais o AgCl foi solubilizado com NH4OH conc.;
• No experimento quinze observou-se um depósito prateado e nos outros um depósito cinza escuro;
• Quando se trata de depósito “fraco”, é facilmente removido pelo atrito; o depósito classificado como
“médio”, é removido pela raspagem e o “bom” é removido pela raspagem, tendo a aparência metálica de
prata reduzida. Convém salientar que não houve nenhum tipo de tratamento nas superfícies dos
eletrodos, devido a este fato é que não conseguiu-se melhor aderência;

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• A adição de NaNO3, que é um eletrólito forte, facilitou a mobilidade iônica e deposição no catodo, sendo
este constituído de grafite (anodo de cobre) e cobre (anodo de grafite);
• O AgCl foi solubilizado com NH4OH conc. formando [Ag(NH3)2]+ facilitando ainda mais a migração do
ion prata;
• No processo eletrolítico, ocorre um fluxo contínuo de elétrons no circuito fora da pilha eletrolítica, sendo
estes elétrons doados ao anodo por constituintes da solução, enquanto que um número igual de elétrons
são adquiridos pelo catodo, retirados dos componentes da solução. Já dentro da célula eletrolítica, ions
estão migrando continuamente, sob a influência do campo elétrico e/ou se difundindo através da solução
a diferentes velocidades. Este fato, explica a solubilização da prata, a mobilidade de seus ions e a
deposição da mesma;
• Na série eletroquímica, o Fe é mais ativo que o Cu, o Cu mais que a Ag e a Ag mais que o C (grafite).
Assim, verifica-se que entre C grafite (anodo) e C grafite (catodo) não há d.d.p. (diferença de potencial),
entre Cu (anodo) e C grafite (catodo) há uma grande d.d.p. e a reação ocorre espontaneamente. No caso
inverso, a reação não ocorre espontaneamente. No caso de Cu (anodo) e Fe (catodo) e no caso de C
grafite (anodo) e Cu (catodo) as reações não são espontâneas neste sentido. A melhor deposição de prata
ocorreu com C grafite (anodo) e Cu (catodo), provavelmente ocorreu devido à série eletroquímica
favorável, grande mobilidade iônica devido à solubilização da prata e maior d.d.p. aplicada.
• Rendimento da recuperação de prata por gravimetria aumentou sensivelmente quando realizou-se as
alterações de otimização (solubilização do AgCl com NH4OH concentrado antes da adição de cobre e
evaporação em manta elétrica e não rotavapor);
• A melhor eletrodeposição ocorreu no caso de o resíduo ser solubilizado por NH4OH, constituindo o
complexo [Ag(NH3)2]+, tendo os eletrodos C grafite como anodo e cobre como catodo, aplicando-se uma
d.d.p. de 2,0V através de uma fonte de corrente;
• Os métodos utilizados mostram-se viáveis para a recuperação para os resíduos;
• Ambos métodos de recuperação, por serem de baixo custo, possibilitam sua realização em qualquer
laboratório;
• A recuperação deste metal reduz custos, pois possibilita a reutilização do mesmo como matéria prima;
• Para estudos posteriores pretende-se realizar comparação de rendimento entre os métodos de
recuperação, análises de custos bem como, melhorar rendimentos e pureza da prata recuperada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. NEMEROW, N. L. Industrial and Hazardous Waste Treatment. New York: International Thomson
Publiesing Inc. 1991
2. TOCCHETTO, M.R. L. O Gerenciamento dos Resíduos Sólidos no Rio Grande do Sul considerando a
implantação do Pólo Automotivo de Gravataí. Santa Maria, 1999. Dissertação (Mestrado em Engenharia
de Produção) – Programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa
Maria, RS.
3. THOMAS, N. C. Recovering Silver Nitrate from Silver Chloride Residues in about Thirty Minutes,
Journal of Chemical Education, 1990, n. 67, p.794.

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