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MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA

Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral

Serviço Geológico do Brasil – CPRM


Departamento de Gestão Territorial - DEGET

Ação Emergencial para Delimitação de Áreas em Alto e Muito


Alto Risco a Enchentes e Movimentos de Massa
São Cristovão - Sergipe

Outubro 2015
Ação Emergencial para Delimitação de Áreas em Alto e Muito Alto Risco a
Enchentes e Movimentos de Massa
Município de São Cristovão - Sergipe

Introdução e Objetivos

Anualmente, inúmeros desastres naturais têm ocorrido por todo o país, a exemplo das
inundações de Alagoas e Pernambuco em 2010, Santa Catarina em 2011, as chuvas catastróficas
ocorridas na região serrana do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011 e as fortes chuvas que
atingiram, em janeiro de 2012, os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e em
fevereiro de 2012, o Acre, acarretando a perda de milhares de vidas humanas em suas
totalidades e ultrapassando todas as expectativas e previsões dos sistemas de alerta existentes.
Mais recentemente, em dezembro de 2013, as chuvas de verão voltaram a fazer vítimas fatais e
causaram grandes prejuízos nos estados do Espirito Santo e Minas Gerais.

Diante deste quadro, desde 2011, o Governo Federal tomou a decisão de criar um
programa de prevenção de desastres naturais, visando minimizar seus efeitos sobre toda a
população.

O crescimento acelerado das cidades, aliado à sua ocupação desordenada, gerada pela
falta de políticas eficazes de controle urbano, tem sido o principal responsável pelas
consequências catastróficas das anomalias meteorológicas que se sucedem em grandes e
pequenos núcleos urbanos. Ocupação de encostas sem nenhum planejamento ou critério
técnico, bem como a ocupação das planícies de inundação dos principais cursos d’água que
cortam a maioria dos municípios brasileiros, tem sido os principais causadores de mortes e de
grandes perdas materiais.

Visando uma redução geral dessas perdas, o Governo Federal, em ação coordenada pela
Casa Civil da Presidência da República e em consonância com os Ministérios da Integração
Nacional, Ministério das Cidades, Ministério de Ciência e Tecnologia, Ministério da Defesa e o
Ministério de Minas e Energia, firmaram convênios de colaboração mútua para executar em
todo o país o diagnóstico e mapeamento de áreas com potencial de risco alto a muito alto.

O programa está sendo executado pelo Serviço Geológico do Brasil – CPRM, empresa do
Governo Federal ligada ao Ministério de Minas e Energia, com duração prevista para quatro
anos, tendo sido iniciado em 2011, com previsão de setorização de 821 municípios em todo o
Brasil até 2015. Entretanto, devido às grandes demandas e ao histórico de vários municípios
brasileiros, iniciou-se uma ação emergencial em novembro de 2011 em alguns municípios, com
o objetivo de setorizar, descrever e classificar as áreas com potencialidade para Risco Alto e
Muito Alto.

Os dados resultantes deste trabalho emergencial estão sendo disponibilizados em


caráter primário à Defesa Civil de cada município estudado e os dados finais estão alimentando
o banco nacional de dados do CEMADEN - Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres
Naturais, órgão criado pelo Governo Federal em 2011, ligado ao Ministério de Ciência e
Tecnologia localizado atualmente em Cachoeira Paulista – SP, responsável pelo monitoramento
permanente e emissão de alertas da ocorrência de eventos climáticos de maior magnitude que
possam colocar em risco vidas humanas em todo o país. Paralelamente, esses dados são
enviados ao CENAD (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres), localizado em
Brasília - DF, ligado ao Ministério da Integração Nacional, que tem como atribuições, dentre
outras, o monitoramento, previsão, prevenção, preparação, mitigação e resposta aos desastres
naturais, direcionando os alertas aos estados e municípios em situação de risco.

Metodologia

O trabalho é desenvolvido com a visita de campo às áreas com histórico de desastres


naturais ou identificadas pelas Defesas Civis municipais como sendo de Alto ou Muito Alto risco,
ainda que sem registro de acidentes. No local, observamos as condições das construções e, em
seu entorno, topografia e declividade do terreno, condições de escoamento de águas pluviais e
servidas, estrutura da drenagem natural e indícios de processos geológicos instalados ou em
processo de instalação, que possam estar desestabilizando as encostas do terreno, com
potencial para a ocorrência de escorregamentos, rolamento de blocos e outros processos,
naturais ou condicionados pela ação antrópica. Em áreas com potencial apenas para inundações
(áreas planas), é feita análise da drenagem, com observação de fatores como assoreamento,
lançamento de lixo e detritos nas margens, pontos de retenção do escoamento e estado da
mata ciliar. O trabalho é complementado com análise de imagens aéreas de setores mais amplos
do terreno, definindo-se um setor de risco de acordo com um conjunto de situações de similares
dentro de um mesmo contexto geográfico.

Localização e Acesso

São Cristóvão é um município brasileiro do estado de Sergipe, localizado na Região


Metropolitana de Aracaju. Trata-se do quarto município mais antigo do Brasil, fundado em 1590
(425 anos), tendo sido a primeira capital do estado, até 1855.

O acesso, a partir de Aracaju, é efetuado pelas rodovias pavimentadas BR-235, BR-101 e


SE-212, num percurso total de 25km. Limita com os municípios: Aracaju, Areia Branca, Nossa
Senhora do Socorro, Laranjeiras, e Itaporanga d’Ajuda.

Fig. 1 – Localização de São Cristóvão em Sergipe


Aspectos Fisiográficos, Geológicos e Geomorfológicos do Município de São Cristóvão

São Cristóvão está situado na Mesorregião Leste Sergipano e Microrregião Aracaju.


O clima do município é caracterizado como Tropical megatérmico sub-úmido, com maior
incidência de chuvas nos meses de abril, maio e junho; A temperatura média é de 25⁰C.

O relevo está caracterizado pelas seguintes unidades geomorfológicas: a) Planície


Litorânea, contendo as planícies marinhas, flúvio-marinhas e fluviais; b) Tabuleiros Costeiros,
englobando relevos dissecados em colinas e interflúvios tabulares; c) Superfície dos rios
Cotinguiba-Sergipe, portando feições dissecadas em colinas, cristas e interflúvios tabulares.

O município está inserido em duas bacias hidrográficas, a do rio Vaza-Barris e a do


Sergipe. Constituem a drenagem principal, além do rio Vaza-Barris, os rios Comprido, Pitanga,
Poxim-mirim, Poxim-açu, Pratal e Paramopama.

A vegetação é do tipo litorânea com resíduos de Mata Atlântica e Cerrado.

Os solos são Podzólico Vermelho Amarelo, Aluviais Eutróficos e Distróficos, Gray Pouco
Úmido, Podzol e Indiscriminados de Mangues.

Geologicamente, o município está inserido totalmente na Província Costeira e é


constituído pelos litotipos das formações Calumbi e Cotiguiba, do Grupo Barreiras e dos
depósitos de Pântanos e Mangues, Flúvio-lacustres, Litorâneos e Aluvionares (Fig. 2).
Fig. 1 – Esboço Geológico
Caracterização dos Setores de Risco

Os trabalhos de setorização de risco desenvolvidos pelo Serviço Geológico do Brasil-


CPRM levantam e descrevem apenas aqueles setores cujo grau de risco situa-se nos níveis Alto
(R3) e Muito Alto (R4), conforme a classificação do Ministério das Cidades, 2007 (Tabela 1).
Dessa forma, alguns dos setores indicados e visitados, não foram inseridos neste levantamento
por estarem enquadrados nos níveis R1 e R2, perfeitamente administráveis por monitoramento
e pequenas intervenções das prefeituras.

Tabela 1: Tabela de classificação de grau de risco (Ministério das Cidades/2007).

Descrição Resumida dos Setores de Risco

Foram identificados setores de alto risco (R3) na área urbana do município de São
Cristovão, que podem ser divididos em:

GRAU DE
LOCAL NUM_SETOR TIPOLOGIA
RISCO

Rua Gracco Cardoso - Bairro Centro SE_SAOCRIS_SR_01_CPRM Alto Inundação

Comunidade Lourival Batista SE_SAOCRIS_SR_02_CPRM Alto Deslizamento


Rua Bela Vista - Bairro Centro SE_SAOCRIS_SR_03_CPRM Alto Deslizamento

Rodovia João Bebe Água SE_SAOCRIS_SR_04_CPRM Alto Deslizamento

Conjunto Rosa Elsa SE_SAOCRIS_SR_05_CPRM Alto Inundação

Os polígonos definidos como setores de risco marcam as áreas com maior probabilidade
de ocorrência de desastres, de acordo com avaliação feita pelos técnicos da CPRM que visitaram
as áreas, considerando também os relatos dos moradores e os registros municipais de
ocorrências. Destacando que os limites destes polígonos devem ser atualizados periodicamente,
pois a dinâmica dos riscos evolui ou regride com a passagem do tempo, conforme a adoção ou
não de políticas mitigadoras de riscos, pela prefeitura local.

Descrição dos Setores

Setor SE_SAOCRIS_SR_01_CPRM:

Setor localizado na Rua Gracco Cardoso, área central do município. Área sujeita a
inundações do Rio Paramopama.

O município de São Cristóvão abriga uma grande área estuarina com muitos rios e
córregos, áreas essas que foram ocupadas sem o respeito à área que compreende a planície de
inundação dos cursos d'água. A última grande inundação aconteceu no mês de abril do ano de
2015, quando o centro da cidade ficou intransitável quase na sua totalidade e muitas moradias
foram afetadas.

O Rio Paramopama é do tipo meandrante e por ser localizado numa área estuarina
litorânea, recebe muitos afluentes, o que amplia a sua area de expansão. A calha do rio
encontra-se bastante assoreada, com vários trechos invadidos pela vegetação e suas margens
ocupadas por imóveis que reduzem ainda mais sua area de expansão.

As moradias apresentam vulnerabilidade média (casas de alvenaria) à ação destrutiva


das águas. Foram contabilizados, aproximadamente, 2000 moradias, com cerca de 8000 pessoas
ameaçadas neste setor, além de vários estabelecimentos comerciais.

Documentação Fotográfica
Setor SE_SAOCRIS_SR_02_CPRM:

Setor localizado na Comunidade Lourival Batista. Área sujeita a deslizamentos planares


de solo.

A movimentação do terreno é perceptível por uma ruptura extensa, inclusive a área foi
interditada pela prefeitura. O município de São Cristóvão é tombado pelo patrimônio histórico
devido ao fato de ser a quarta cidade mais antiga do país com 425 anos de fundação.

Apesar de encontrarmos no trecho urbano vários bueiros com tampas sinalizadas, a


informação recebida é de que muitos deles ainda não estão ligados à rede geral de esgotos.
Neste setor falta drenagem adequada na crista e base do talude, o que facilita a ocorrência de
deslizamentos.

As moradias apresentam vulnerabilidade média (casas de alvenaria) à ação destrutiva


dos deslizamentos. Foram contabilizados, aproximadamente, 25 moradias, com cerca de 100
pessoas ameaçadas dentro deste setor.
Documentação Fotográfica
Setor SE_SAOCRIS_SR_03_CPRM:

Setor localizado na Rua Bela Vista - Bairro Centro. Área sujeita a deslizamentos planares
de solo.

O setor não possui um sistema de drenagem adequado, o que gera uma catalisação no
processo erosivo e de saturação do solo, potencializando o risco de ocorrência. As moradias
foram construídas no sistema de corte/aterro sem respeitar a distancia segura referente à crista
e à base do talude, elevando assim o risco de atingimento. Observamos que uma moradia está à
beira do colapso, por estar muito próxima à crista da encosta, onde parte da sua estrutura já
apresenta ângulo de declividade negativo. Ainda podem ser observadas no setor, alguns
alicerces de casas que foram atingidas por escorregamentos e depois demolidas pela Defesa
Civil, numa correta intervenção preventive.

As moradias apresentam vulnerabilidade média (casas de alvenaria) à ação destrutiva.


Foram contabilizados, aproximadamente, 30 moradias, com cerca de 120 pessoas ameaçadas
dentro deste setor.

Documentação Fotográfica
Setor SE_SAOCRIS_SR_04_CPRM:

Setor localizado às margens da Rodovia João Bebe Água. Área sujeita a deslizamentos
planares de solo.

O talude de corte foi gerado como um corte de estrada da rodovia conhecida como João
Bebe Água e, a partir daí, a população começou uma ocupação desordenada a partir da crista do
talude, sem respeitar uma distancia minima de segurança e sem obras de contenção e/ou
impermeabilização da area ocupada. Observamos no local, moradias de diferentes padrões
construtivos e somente as melhores construções apresentam estrutura de drenagem, que se
limita à area da mesma, o que não garante a segurança estrutural da área.

Foram contabilizadas, aproximadamente, 10 moradias, com cerca de 40 pessoas


ameaçadas neste setor.

Documentação Fotográfica
Setor SE_SAOCRIS_SR_05_CPRM:

Setor localizado no Conjunto Habitacional Rosa Elze. Área sujeita a inundações


periódicas do Riacho da Xoxota e drenagens locais.

A última inundação ocorreu em abril de 2015 e também foi a maior já registrada pela
Defesa Civil Municipal. O conjunto Rosa Elze é um bairro-dormitório importante, já que se
encontra mais próximo de Aracaju que da sede municipal e fica bem próximo ao Campus da
UFSE (Universidade Federal de Sergipe).

A recorrência dos eventos é grande e atinge muitas moradias, além de fechar uma
importante rodovia, que liga São Cristóvão a Aracaju. O riacho em questão está muito
assoreado, com muita vegetação em seu leito, além de extremamente poluído, favorecendo a
transmissão de doenças por veiculação hídrica. A área deste setor de risco é uma grande várzea,
ocupada através de aterros sem nenhum controle urbano e sempre invadida pelas águas
pluviais com a ocorrência de chuvas mais intensas

As moradias apresentam vulnerabilidade média (maioria de alvenaria) à ação destrutiva


das inundações. Foram contabilizados, aproximadamente, 1000 moradias, com cerca de 4000
pessoas ameaçadas neste setor.
Documentação Fotográfica
Sugestões de Ações Estruturais

• Implantação de sistema de drenagem de crista e base, para direcionar as águas servidas


e pluviais de forma segura até a linha de base das encostas;

• Remoção das moradias em situação de Risco Muito Alto ou Iminente, com a demolição
imediata das mesmas, prevenindo a reocupação;

• Implantação de obras de contenção/proteção dos taludes, impedindo o avanço do


processo erosivo;

• Remoção do lixo, entulhos e restos de construção das margens das drenagens naturais;
Regularização da coleta de lixo municipal, principalmente nessas áreas;

• Replantio, no período chuvoso, de mudas adequadas à recomposição da mata ciliar;

• Dragagem e desassoreamento do leito do rio e drenagens naturais, em toda a extensão


da zona urbana;

• Construção de moradias populares em locais seguros, para remoção gradual da


população que hoje ocupa as áreas de risco em São Cristovão;

• Implantação de sistema de coleta e tratamento de esgotos, reduzindo o grande risco


hoje existente de contaminação por doenças de veiculação hídrica.

Sugestões de Ações Não Estruturais

• Implantação de políticas públicas de controle urbano, para fiscalização efetiva das áreas
de Risco Alto e Muito Alto, impedindo novas ocupações;

• Campanhas de educação ambiental para a população, no sentido de evitar o


lançamento do lixo doméstico nos cursos d’água. Para tanto, é imprescindível que o
serviço de coleta de lixo funcione efetivamente em toda a zona urbana;

• Quantos aos esgotos, apenas com investimentos em tratamento de efluentes, pode-se


cobrar da população o fim do lançamento dos esgotos nos cursos d’água;

• Adequação da COMPDEC (Comissão Municipal de Proteção e Defesa Civil) de São


Cristovão, de acordo com os padrões exigidos pelo SEDEC (Secretaria Nacional de Defesa
Civil - www.mi.gov.br/sedec.), dando ao município condições básicas para receber
auxílio imediato do Governo Federal, na ocorrência de desastres naturais.

Este relatório tem caráter informativo e, em si, não esgota a análise das áreas de risco aqui
consideradas. O simples convívio com as situações de risco sem a adoção de medidas
estruturadoras, não mantém o grau de risco estacionado. A evolução é natural... Portanto, faz-
se necessário monitorar e manter um trabalho constante para a minimização dos efeitos, na
ocorrência de Desastres Naturais.
Agradecimentos

O Serviço Geológico do Brasil – CPRM vem, em nome do Governo Federal, agradecer a


especial atenção da Prefeitura Municipal de São Cristovão, na pessoa de Luciano Silva Santos,
Coordenador da Defesa Civil Municipal, pelas valiosas indicações e acompanhamento nas
áreas de risco deste município, possibilitando o cumprimento de nossas metas.

Contato Municipal

Órgão Municipal: Coordenadoria de Defesa Civil

Responsável: Luciano Silva Santos

Telefone: (079) 9975-4412

E-mail:

Equipe Executora:

Breno Augusto Beltrão

Frank Gurgel Santos

Geólogos / Pesquisadores em Geociências

Serviço Geológico do Brasil - CPRM

Superintendência Regional de Recife – SUREG – RE

São Cristovão, Outubro de 2015