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S a n t o A g o s t in h o

C o n f is s õ e s

Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J.

NOVA CULTURAL
L iv r o VII

A C a m in h o D e D e u s

I — O problema de Deus e o problema do mal.


A astrologia (1-8).
II — O neoplatonismo e Santo Agostinho.
Solução ao problema do mal (9-21).
1
E m a n c i p a n d o -se do F a l s o C o n c e it o D e D eu s

1. A MINHA adolescência má e nefanda já tinha morrido. De


caminho para a juventude, quanto mais crescia em anos, tanto
mais vergonhoso me tornava com a minha vaidade, a ponto de
não poder imaginar outra substância além da que os nossos olhos
constantemente vêem. Desde que comecei a ouvir as lições da Sa­
bedoria, não Vos supunha, ó meu Deus, sob a figura de corpo
humano, pois sempre fugi deste errado juízo, e me alegrava de
encontrar esta verdadeira doutrina na fé da nossa mãe espiritual,
a vossa Igreja Católica. Mas não me ocorria outro modo de Vos
conceber na imaginação!
Ora, sendo eu homem — e que homem! —, esforçava-me
por Vos imaginar o grande, o único verdadeiro Deus. Com efeito,
acreditava, com todas as fibras do coração, que éreis incorruptível,
inviolável e imutável. Porém, apesar de não saber de onde e o
modo como me vinha esta certeza, via perfeitamente e estava certo
de que aquilo que se pode corromper é inferior ao incorruptível,
e o que não se pode deteriorar, sem hesitação o antepunha ao
deteriorável, e o imutável parecia-me melhor do que aquilo que é
suscetível de mudança.
O meu coração clamava com violência contra todos os meus
fantasmas. Com este único golpe, esforçava-me por enxotar da vista
do meu espírito a turbamulta das imagens imundas que volitavam
à minha volta. Mas, apenas dispersa, eis que, num abrir e fechar
de olhos, ela, apinhando-se, de novo se aproximava e irrompia
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O S PEN SA D O RES
SA N TO A GOSTIN H O

contra as minhas pupilas, obscurecendo-as. E assim, apesar de não vossa presença, governando-as interiormente com vossa oculta ins­
Vos conceber sob a forma de corpo humano, necessitava, contudo, piração e exteriormente dirigindo tudo o que criastes.
de Vos imaginar como sendo alguma coisa corpórea situada no Assim conjeturava eu, pois não Vos podia conceber de outra
espaço, quer imanente ao mundo, quer difundida por fora do mun­ maneira. Tal conjetura, porém, era falsa. Deste modo, uma parte
do, através do infinito. Era este o ser incorruptível, indeteriorável, da terra que fosse maior deveria também encerrar maior parte de
imutável, que antepunha ao que é corruptível, sujeito à deterioração Vós; e outra que fosse menor, uma parte menor. Estando tudo
e à mudança. Tudo o que concebia como não ocupando espaço assim impregnado de Vós, o corpo do elefante, pelo fato de ser
me parecia um nada absoluto, e não um vácuo, como sucederia se maior e ocupar mais espaço que o de um pássaro, teria propor­
arrancássemos um objeto de um lugar e este ficasse vazio de qual­ cionalmente mais de Vós que o corpo do pássaro. E, deste modo,
quer corpo terrestre, úmido, aéreo ou celeste.1 Com efeito, neste partido em fragmentos, comunicaríeis a vossa presença às grandes
caso, um lugar vazio seria como que um nada espaçoso. e pequenas partes do Universo, respectivamente com grandes e
2. Assim "atoleimado de coração", sem consciência nítida de exíguas porções de Vós mesmo. Não é, porém, assim. Mas ainda
não tínheis iluminado as minhas trevas.
mim mesmo, considerava um puro nada tudo o que não se esten­
desse ou difundisse ou conglobasse ou dilatasse por um certo es­ 2
paço, ou assumisse ou pudesse assumir qualquer destes estados. A r g u m e n t o D e N e b r íd io C o n t r a O s
Quais são as formas por onde meus olhos costumam passar, tais M a n iq u e ís t a s
eram as imagens por onde meu espírito caminhava. Eu não notava
que este ato apreensivo de entendimento com que formava essas 3. Bastava-me, Senhor, para esmagar aqueles sedutores se­
imagens não era da mesma natureza que estas. Com efeito, a ati­ duzidos, aqueles faladores mudos — pois o vosso Verbo não falava
vidade intelectual, se não fosse alguma coisa de grande, não po­ por meio deles — , sim, bastava-me a objeção que já de há muito
deria formar imagens. tempo, em Cartago, lhes costumava propor Nebrídio, com que nos
A Vós, ó Vida da minha vida, também Vos imaginava como abalava a todos nós, que o ouvíamos: Que poderia fazer contra
um Ser imenso, penetrando por todos os lados a massa do Universo Vós esta desprezível raça de trevas — de que os maniqueístas se
e alastrando-Vos fora dele, por toda parte, através das imensidades costumam servir como de massa hostil para Vos atacar — se não
sem limites, de tal modo que a terra, o céu e todas as coisas Vos aceitásseis batalha contra ela?
Se alguém Vos respondesse que poderia ser nociva em algum
continham e todas elas se acabavam em Vós, sem, contudo, aca-
ponto, então serieis violável e corruptível! Se, porém, dissesse que
bardes em parte alguma.
em nada Vos podia danificar, nenhum motivo haveria para que
Mas assim como a massa do ar, deste ar que está por cima
lutásseis e pelejásseis em tais circunstâncias que uma parte de Vós,
da terra, não se opõe a que a luz do sol penetre por ele, atraves­
um membro vosso ou um rebento da vossa própria substância se
sando-o sem o rasgar nem cortar, mas enchendo-o inteiramente, misturava com forças inimigas e com naturezas que não criastes.
assim julgava que não só as substâncias transparentes do céu, do Ao contato destas, essa parte de Vós de tal modo se corrom­
ar e do mar, mas também as da terra eram por Vós penetradas peria e danificaria, que, caindo da felicidade para a miséria, ne­
em todas as suas partes, grandes e pequenas, para receberem a cessitaria de socorro para se poder libertar e purificar! Ora, esse
rebento de Vós mesmo era a nossa alma, que o vosso Verbo, livre,
1 Os antigos supunham que entravam quatro elementos na composição dos corpos: terra, deveria, com sua ajuda, arrancar do cativeiro, que o vosso Verbo
água, ar e fogo. Não tinham ainda a noção dos corpos simples da química. (N. do T.)
imaculado deveria remir da corrupção. Neste caso o Verbo seria cor-
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O S PE N SA D O RES SA N TO A G OSTIN H O

ruptível, pois era formado de uma só e mesma substância que a a certeza absoluta de que não era outro senão eu quem queria ou
alma. Ora, se eles afirmam que tudo o que sois, isto é, a substância não queria, experimentando cada vez mais que aí estava a causa
de que Vos formais, é incorruptível, (segue-se que) todas aquelas do meu pecado. Quanto ao que fazia contra a vontade, notava que
suposições são falsas e abomináveis; se dizem, pelo contrário, que isso era antes padecer (o mal) do que praticá-lo. Considerava isso
o Verbo é corruptível, tal afirmação é, por si mesma, falsa, e logo, não uma falta, mas uma punição, em que, reconhecendo a vossa
à primeira palavra, digna de abominação. justiça, era logo forçado a confessar que justamente recebia o castigo.
Bastava-me, portanto, só este raciocínio contra aqueles que Mas de novo refletia: "Quem me criou? Não foi o meu Deus,
a todo o custo deveria vomitar do meu peito oprimido. Com efeito, que é bom, e é também a mesma bondade? De onde me veio,
sentindo e falando assim de vós, não tinham por onde sair, senão então, o querer eu o mal e não querer o bem? Seria para que
cometendo um horrível sacrilégio de coração e de língua. houvesse motivo de eu justamente ser castigado? Quem colocou
em mim e quem semeou em mim este viveiro de amarguras, sendo
3 eu inteira criação do meu Deus tão amoroso? Se foi o demônio
A Causa D o M al quem me criou, de onde é que veio ele? E se, por uma decisão de
sua vontade perversa, se transformou de anjo bom em demônio,
4. Mas, ó Senhor Nosso — ó Deus verdadeiro que criastes
qual é a origem daquela vontade má com que se mudou em diabo,
não só as nossas almas mas também os nossos corpos, e não só
tendo sido criado anjo perfeito por um Criador tão bom?"
nossas almas e corpos, mas ainda todos os seres e todas as coisas
De novo me sentia oprimido e sufocado por estes pensamen­
—, eu já então afirmava e cria firmemente que sois incontaminável,
tos, mas de modo algum arrastado àquele inferno do erro "onde
alheio a toda alteração, e absolutamente imutável.
ninguém Vos confessa",1 se se admite a tese de estardes Vós antes
Todavia, não tinha uma idéia clara e nítida da causa do mal.
sujeito ao mal do que o homem ser capaz de o cometer.
Porém, qualquer que ela fosse, tinha assente para mim que de tal
modo a havia de buscar, que por ela não fosse constrangido a crer,
como mutável, um Deus imutável, pois, de outra maneira, cairia 4
no mal cuja causa procurava. Por isso, buscava-a com segurança, D e u s É I n c o r r u p t ív e l
certo de que não era verdadeira a doutrina que estes homens pre­
gavam. Fugia deles com a alma, porque, quando eu indagava a 6. Assim me esforçava por encontrar as outras verdades, do
origem do mal, via-os repletos de malícia que os levava a crerem mesmo modo que já tinha descoberto ser melhor o incorruptível
antes sujeita ao mal a vossa substância do que a deles ser suscetível que o corruptível. Por conseguinte, confessava que Vós, quem quer
de o cometer. que fósseis, não estáveis sujeito à corrupção, jamais alma alguma
5. Esforçava-me por entender (a questão) — que ouvia de­ pôde ou poderá conceber alguma coisa melhor do que Vós — sumo
clarar — acerca de o livre-arbítrio da vontade ser a causa de pra­ e ótimo Bem.
ticarmos o mal, e o vosso reto juízo o motivo de o sofrermos. Mas Sendo absolutamente certo e inegável que o incorruptível se
era incapaz de compreender isso nitidamente. antepõe ao corruptível — como aliás já admitia — , poderia eu, se
Tentava arrancar do abismo a vista do meu espírito. Porém não fósseis incorruptível, ter atingido com o pensamento algo mais
de novo mergulhava nele, e, sempre com reiterados esforços, me perfeito que o meu Deus. Portanto, logo que vi que o incorruptível
submergia sem cessar. Erguia-me para a vossa luz o fato de eu se deve preferir ao corruptível, imediatamente Vos deveria ter bus-
saber tanto ao certo que tinha uma vontade como sabia que tinha
uma vida. Por isso, quando queria ou não queria uma coisa, tinha 1 si 6, 6 .
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OS PEN SADO RES SA N TO A G O STIN H O

cado, e, em seguida, deveria indagar de onde vem o mal, isto é, parte e de todos os lados infinito na vossa imensidade, tendo dentro
a corrupção, a qual de modo algum pode afetar a vossa substância. de si uma esponja da grandeza que nos aprouvesse, mas rodeada
É absolutamente certo que de modo nenhum pode a corrup­ e inteiramente cheia de um mar imenso.
ção alterar o nosso Deus, por meio de qualquer vontade, de qual­ Assim, a vossa criatura finita, supunha-a eu cheia de Vós,
quer necessidade ou de qualquer acontecimento imprevisto, porque que sois o infinito. Dizia: "Eis Deus, e eis o que Deus criou! Deus
Ele é o próprio Deus, porque tudo o que deseja é bom e Ele próprio é bom e assombroso e incomparavelmente preferível a tudo isto.
é o mesmo Bem. Ora, estar sujeito à corrupção não é um bem. Ele é bom e, por conseguinte, criou boas coisas. E eis como Ele as
Não podeis ser obrigado, por força, seja ao que for, porque rodeia e as enche! Onde está, portanto, o mal? De onde e por onde
em Vós a vontade não é maior do que o poder. Porém, seria maior, conseguiu penetrar? Qual é a sua raiz e a sua semente? Porventura
se Vós mesmo fósseis maior que Vós mesmo. Mas a vontade e o não existe nenhuma? Por que recear muito, então, o que não existe?
poder de Deus são o mesmo Deus. Para Vós, que tudo conheceis, E, se é em vão que tememos, o próprio medo indubitavelmente é
existe acaso alguma coisa imprevista? Nenhuma natureza existe, o mal que nos tortura e inutilmente nos oprime o coração. Esse
senão porque a conhecestes. Para que proferimos nós tantas pala­ mal é tanto mais compressivo quanto é certo que não existe o que
vras a fim de comprovar que a substância de Deus não é corrup­ tememos, e nem por isso deixamos de temer. Por conseqüência,
tível, já que, se o fosse, não seria Deus? ou existe o mal que tememos, ou esse temor é o mal.
"Qual a sua origem, se Deus, que é bom, fez todas as coisas?
5 Sendo o supremo e sumo Bem, criou bens menores do que Ele;
É D eu s O A u to r D o M a l?
mas, enfim, o Criador e as criaturas, todos são bons. De onde,
pois, vem o mal? Ou seria pelo fato de Deus fazer tudo isso com
7. Buscava a origem do mal, mas buscava-a erroneamente.
matéria em que existia algo de mau, e ao dar-lhe a forma e ao
E, ainda mesmo nessa indagação, não enxergava o mal que nela
ordená-la, ter deixado nela alguma coisa que não transformasse
havia.1 Obrigava a passar, ante o olhar do meu espírito, todas as
em bem? E isto por quê? Não podia Ele convertê-la inteiramente
criaturas, tudo o que nelas podemos ver, como a terra, o mar, o
de modo a não permanecer nela nada de mau, já que era Onipo­
ar, as estrelas, as árvores e os animais sujeitos à morte, bem como
tente? Enfim, por que quis fazer dela alguma coisa, e por que não
aquilo que não vemos nela, como o firmamento do céu, todos os
anjos e todos os espíritos celestes. Mas, como se estes últimos fos­ preferiu antes reduzi-la totalmente ao nada, com a sua mesma
sem corpóreos, a minha imaginação colocou-os a uns nuns lugares, Onipotência? Poderia acaso ela existir contra a vontade divina? Se
a outros em outros. a matéria é eterna, por que a deixou perdurar tanto no passado,
Fiz da vossa criação uma única e imensa massa, diferenciada por um espaço indefinido de tempo, e por que motivo se compra-
em diversas espécies de corpos: uns, corpos verdadeiros; outros, zeu em fazer dela alguma coisa, só tanto tempo depois?
espíritos que eu imaginava sob a figura de corpos. Eu a supus não "Se subitamente quis fazer alguma coisa, por que a não re­
com a sua própria grandeza, porque a não podia saber, mas com duziu ao nada, sendo Onipotente, e não ficou só Ele, todo verda­
a que me agradou, porém, limitada de todos os lados. A Vós, Se­ deiro Bem, todo sumo Bem, todo Bem infinito? Se não convinha
nhor, infinito em todas as direções, imaginei-Vos a rodeá-la e pe­ que Aquele que é bom permanecesse estéril de obras boas, não
netrá-la de todas as partes, como se fósseis um único mar em toda poderia Ele fazer desaparecer e aniquilar a matéria que era má,
estabelecendo outra que fosse boa, de onde criasse tudo? Não seria
1 Santo Agostinho queria ver o mal como se ele fosse alguma coisa de positivo. Não
pois todo-poderoso, se nada de bom pudesse criar sem a ajuda
compreendia que o mal é ausência de ser ou de perfeição. (N. do T.) daquela matéria a que Ele mesmo não tinha dado a existência."
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SA N TO A G O STIN H O
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Revolvia tudo isto dentro do meu peito miserável, oprimido do a sua estrela", como eles dizem. Porém, eu, que já então neste
pelos mordazes cuidados do temor da morte e por não ter encon­ assunto me começava a deixar dobrar pelas razões de Nebrídio,
trado a verdade. Estava, contudo, arraigada no meu coração a fé não me recusei a expor-lhe os meus prognósticos e o que me ocor­
em "Jesus Cristo, vosso Filho, Senhor Salvador Nosso,1 professada rera, acrescentando contudo que estava já quase persuadido de
pela Igreja Católica. Se bem que me achasse ainda informe e flu­ que tudo isto era ridículo e quimérico.
tuando para além da norma da doutrina, contudo o meu espírito Contou Firmino então que seu pai também se interessava
não abandonava a fé, antes cada vez mais se abraçava a ela. por semelhantes livros e que tivera um amigo que, do mesmo
modo e simultaneamente, acreditava em tudo aquilo. Com igual
6 unanimidade e com igual ardor se entregavam a essas ninharias
O s V a t ic ín io s D o s astró lo g o s que lhes incendiavam o coração. Até observavam os momentos
do nascimento dos animais domésticos que em casa viam a luz
8. Também já tinha rejeitado as enganadoras predições e os do dia, anotando a posição das estrelas, para deste modo fazerem
ímpios delírios dos astrólogos. Ainda nisso, meu Deus, Vos quero deduções das experiências da sua arte. Dizia, pois, Firmino ter
confessar as vossas misericórdias, desde as fibras mais secretas da ouvido referir ao pai que, quando a mãe se ia predispondo para
minha alma! Fostes Vós, só Vós — pois quem é que nos afasta da o dar à luz, também uma escrava daquele amigo paterno se achou
morte de todo o erro, senão a Vida que não conhece morte, a grávida, coisa que não passou despercebida ao senhor, o qual, com
Sabedoria que ilumina as inteligências indigentes, sem precisar de apurada diligência, até procurava informar-se de quando as cadelas
luz alguma, e rege todo o mundo, até às folhas movediças das tinham a cria.
árvores? —, fostes Vós que medicastes a contumácia que eu opunha E aconteceu que — contando com a maior cautela os dias,
ao arguto velho Vindiciano, e a Nebrídio, jovem de alma admirável. as horas e as partes mínimas das horas, um, da mulher e o outro,
0 primeiro dizia-me com toda a veemência e o segundo freqüen­ da escrava — ambas se recolheram ao leito ao mesmo tempo, de
temente — ainda que com certa hesitação — que nenhuma arte modo que, com igual minúcia, foram obrigados a dar a mesma
existia para prever o futuro; que as conjeturas eram fundadas no
estrela, um ao nascimento do filho e o outro ao nascimento do
acaso, e que, por jogo de palavras, se vaticinavam muitas coisas;
escravozinho. Quando as mulheres começaram a sentir as dores
que aqueles mesmos que as diziam ignoravam se se haviam de
do parto, informaram-se eles mutuamente do que em suas casas
realizar, acertando nelas somente porque as não calaram.
se passava. Prepararam criados para mandarem um ao outro a
Fostes Vós que me suscitastes um amigo, assíduo em inter­
anunciar, com igual rapidez, o nascimento das crianças. Estas in­
rogar os astrólogos. Embora ele não fosse muito versado nessa
formações facilmente as conseguiam, como se o fato se passasse
ciência, contudo, como já disse, curiosamente consultava os astró­
logos, e sabia alguma coisa que afirmava ter ouvido ao pai. Igno­ no seu respectivo prédio.
rava ele quanto isso valia para destruir a fama daquela arte! Acrescentava Firmino que esses mensageiros se cruzavam
Este homem, chamado Firmino, que tinha sido educado nas com tanta precisão a meio do caminho das duas casas que era
artes liberais e instruído na eloqüência, consultou-me um dia, como impossível que ambos não observassem exatamente as mesmas
a amigo muito íntimo, a respeito de uns negócios em que tinha posições dos astros, nas mesmas frações de tempo. E contudo, Fir­
grandes esperanças. Perguntou qual fosse o meu vaticínio, "segun­ mino, como filho de família ilustre, seguia pelos caminhos mais
esplêndidos do mundo, enriquecia continuamente e era cumulado
1 2 Pdr 2, 20.
de honras; ao passo que o escravo, sem jamais ser aliviado do jugo
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SAN TO A G OSTIN H O
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da sua condição, servia a seu senhor, segundo informava aquele que visse os mesmos documentos. Neste caso, não era por arte,
que perfeitamente o conhecia. mas por acaso é que dizia a verdade.
9. Ouvindo estas coisas e dando-lhes fé, em razão do crédito Vós, porém, Senhor — justíssimo organizador de tudo — ,
que me merecia quem as narrava, toda aquela minha relutância por meio de um secreto instinto, desconhecido aos consulentes
e aos astrólogos, fazeis que cada qual, enquanto consulta, ouça
caiu vencida. Esforcei-me logo por afastar Firmino daquela vã cu­
o que lhe convém ouvir, segundo os merecimentos ocultos da
riosidade, dizendo-lhe que, examinando eu as constelações que
sua alma e segundo os abismos dos vossos incorruptíveis juízos.
presidiram ao seu nascimento, para lhe declarar a verdade, devia
Que nenhum se atreva a perguntar-Vos: "Que é isto? Para que
igualmente adivinhar que seus pais eram os primeiros entre os
é isto?" Não vo-lo pergunte; não vo-lo pergunte, porque é um
seus concidadãos; sua família era nobre na própria terra natal, que
simples homem.
ele era de condição livre e que recebera educação esmerada e fora
instruído nas artes liberais. Se aquele escravo me pedisse que lhe
7
dissesse a verdade segundo as mesmas constelações — já que estas
A in d a O P r o b l e m a D o M a l
pertenciam a ambos — , novamente deveria ler nelas que esse tal
era de família abjeta, de condição servil, e tudo o mais, que difere
11. Deste modo já Vós, ó meu Auxílio, me tínheis libertado
e dista muito das circunstâncias do primeiro caso. daquelas prisões. Entretanto buscava, sem êxito, a origem do mal.
Mas como seria possível que eu, examinando a mesma cons­ Porém, não permitíeis que eu, nas ondas do pensamento, me apar­
telação, falasse a verdade, predizendo futuros diversos? No caso tasse daquela fé pela qual acreditava na vossa existência, na vossa
de lhes prognosticar idêntico destino, eu não diria por isso a ver­ substância inalterável, na vossa providência para com os homens,
dade. De onde com toda a certeza se conclui que os fatos preditos e na vossa Justiça. Cria em Jesus Cristo, vosso Filho, na Sagrada
pela contemplação dos astros não se dizem por arte, mas por acaso; Escritura, que a autoridade da vossa Igreja recomenda. Cria que
e que as falsidades proferem-se, não por imperícia na arte, mas Vós estabelecestes um caminho de salvação para os homens em
porque falhou a sorte. direção àquela Vida que começa após a morte.
10. Aberta esta entrada, ruminava tudo isso comigo, para que Salvos e bem arraigados, no meu coração, estes princípios,
nenhum desses loucos, que viviam de tal negócio e que eu desejava investigava angustiosamente a origem do mal. Que tormentos
atacar imediatamente e pôr a ridículo, me pudesse resistir, lançan­ aqueles do meu coração parturiente! Quantos gemidos, meu Deus!
do-me à cara que Firmino e o pai me tinham enganado. Desviei Quando em silêncio, esforçadamente, Vos procurava, grandes cla­
o fio do raciocínio para os que nascem gêmeos. A maioria destes mores se dirigiam à vossa misericórdia. Eram as angústias tácitas
saem do ventre materno, um após outro, com tão pequeno intervalo da minha alma. Vós sabíeis o que eu padecia, mas nenhum homem
de tempo, que a este — por mais que haja luta entre os gêmeos 0 sabia. De fato, quão pouco era o que comunicava com a língua
para possuírem na ordem natural a primazia — é impossível re­ aos ouvidos dos meus mais íntimos amigos! Porventura chegava
até eles todo o tumulto do meu coração, que nem o tempo nem
gistrá-lo pela observação humana e tomar notas dele, de molde a
os meus lábios bastavam para declarar?
que os astrólogos, examinando-as, se possam pronunciar exata­
Mas todas "as lamentações que rugiam do fundo do meu
mente. Os prognósticos não serão exatos porque, vendo o astrólogo
coração" iam ter aos vossos ouvidos; "diante de Vós estava o meu
os mesmos documentos, deveria dizer a mesma coisa de Esaú e
desejo, mas a luz dos vossos olhos não estava em mim",1 porque
Jacó. Mas os sucessos na vida de um e de outro não foram os
mesmos. Portanto, ou o astrólogo anunciava falsidades ou, no caso
1 Sl 37, 9- 11.
de falar certo, não deveria dizer a mesma coisa de ambos, ainda
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OS PEN SA D O RES SA N TO A G O STIN H O

ela estava dentro, e eu estava fora. Nem ela precisava de espaço. inteligência melhorava, de dia para dia, com o colírio das minhas
Mas eu fixava a atenção naquelas que são contidas pelo espaço dores salutares.
sem aí encontrar um sítio para descansar. Nem elas me hospeda­
vam de modo a poder dizer: "Isto me basta; estou bem!" Nem me 9
deixavam partir para onde me achasse satisfeito. Quanto a elas, O N e o p l a t o n is m o E A F é C r is t ã
era superior; mas era inferior com relação a Vós. Éreis para mim,
sujeito a Vós, verdadeiro gozo, submetendo-me todas estas cria­ 13. Querendo Vós mostrar-me primeiramente como "resistis
turas que criastes abaixo de mim. aos soberbos e dais graças aos humildes"1 e quão grande seja a
Esta minha situação constituía um justo equilíbrio e um lugar misericórdia com que ensinastes aos homens o caminho da humil­
intermediário da minha salvação, se perseverasse servindo-Vos dade, por "se ter feito carne o vosso Verbo e ter habitado entre os
conforme à "vossa imagem". Mas como eu, na minha soberba, me homens",2 deparastes-me por intermédio de um certo homem, in-
rebelei contra Vós e investi o Senhor, confiado "no escudo da minha tumescido por monstruoso orgulho, alguns livros platônicos, tra­
dura cerviz",1 até mesmo estas ínfimas criaturas se ergueram sobre duzidos do grego em latim. Neles li, não com estas mesmas pa­
mim e me oprimiam, sem nunca ter sossego nem alívio. lavras, mas provado com muitos e numerosos argumentos, que ao
Enquanto as olhava, elas mesmas se me ofereciam, de toda princípio era o Verbo e o Verbo existia em Deus e Deus era o Verbo: e
parte, em tropel e em massa. Mas voltava a refletir e logo as imagens este, no princípio, existia em Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele,
dos corpos se me opunham, como que a dizerem: "Para onde vais, e sem Ele nada foi criado. O que foi feito, n'Ele é vida, e a vida era a
indigno e impuro?" E com as minhas chagas, cresciam elas em luz dos homens; a luz brilha nas trevas e as trevas não a compreenderam.
ousadia, porque "humilhastes o soberbo como a homem ferido".2 A alma do homem, ainda que dê testemunho da Luz, não é, porém,
Com a presunção, separava-me de Vós. A minha face, bastante a Luz; mas o Verbo — Deus — é a Luz verdadeira que ilumina todo
inchada, tapava-me os olhos. homem que vem a este mundo. Estava neste mundo que foi feito por Ele,
e o mundo não o conheceu. Porém, que veio para o que era seu e os
8 seus não o receberam; que a todos os que o receberam lhes deu poder de
O C o l ír io D a s D o r e s fazerem filhos de Deus aos que crescessem em seu nome — isto não o
li naqueles livros.3
12. Mas Vós, Senhor "permaneceis internamente"3 e "não Vos 14. Do mesmo modo, li nesse lugar que o Verbo Deus não
irais conosco para sempre"4 porque Vos compadecestes da terra e nasceu da carne, nem do sangue, nem da vontade do homem, mas
do pó e Vos comprazestes em reformar, na vossa presença,5 as de Deus. Porém, que o Verbo se fez homem e habitou entre nós,4 isso
minhas deformidades. não o li eu aí.
Estimuláveis-me com um misterioso aguilhão para que esti­ Descobri naqueles escritos, expresso de muitos e variados mo­
vesse impaciente até me certificar da vossa existência, por uma dos, que o Filho, "existindo com a forma do Pai, não considerou
intuição interior. O meu tumor decrescia ao contato da mão oculta como usurpação ser igual a Deus", porque o é por natureza. Porém
da vossa medicina. A vista perturbada e entenebrecida da minha aqueles livros não trazem que "se aniquilou a si mesmo tomando

1 Jó 15, 26. 1 Tg 4, 6; 1 Pdr 5, 5.


2 Sl 88, 11. 2 ]o 1, 14.
3 Sl 32, 11. 3 Infelizmente, essas traduções, que Santo Agostinho leu, não chegaram até nós. A maioria dos
4 Sl 84, 6. autores julga que a referência diz respeito a livros de Plotino e de Porfírio. (N. do T.)
5 Sl 58, 21. 4 Jo 1, 13.

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O S PE N SA D O RES SA N TO AGOSTIN HO

a forma de escravo, feito à imagem dos homens e sendo julgado, mogênito, "de coração voltado para o Egito",1 curvando a vossa
no exterior, como um homem". Não dizem que "se humilhou fa­ imagem — a sua alma — ante o ídolo do "bezerro que come feno",2
zendo-se obediente até à morte, e morte de cruz, pelo que Deus em lugar de Vós, honrou a cabeça de um animal.
0 exaltou dos mortos, e lhe deu um nome que está acima de todo Encontrei nesses livros estas afirmações, mas não me alimen­
nome, para que ao nome de Jesus todo joelho se dobre nos céus, tei delas. Agradou-Vos, Senhor, arrancar de Jacó o opróbrio do
na terra e nos infernos, e toda língua confesse que o Senhor Jesus abatimento, para que o maior servisse ao menor. Chamastes os
está na glória de Deus Pai".1 povos à vossa herança. Eu também vim para Vós de entre os povos
Lá, encontrei "que o vosso Filho Unigênito, eterno como Vós, e fixei a mente no ouro que, segundo a vossa vontade, o vosso
permanece imutável antes de todos os séculos e sobre todos os povo tirou do Egito, pois era vosso, onde quer que ele estivesse.
séculos, que, para serem bem-aventuradas, todas as almas recebem Por meio do vosso Apóstolo, dissestes aos atenienses que em Vós
da sua plenitude, e que, para serem sábias, são renovadas pela "vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram
participação da Sabedoria que permanece em si mesma". Que "não alguns dos vossos poetas".3 Naturalmente daqui vieram aqueles
perdoastes ao vosso único Filho, mas o entregastes por todos nós"2 livros. Mas não me fixei nos ídolos dos egípcios, a quem serviam
— isso não vem naqueles livros. com o vosso ouro "aqueles que mudaram a verdade de Deus em
"Escondestes pois estas coisas aos sábios e as revelastes aos mentira, venerando e submetendo-se antes à criatura do que ao
humildes",3 para que viessem "a Ele os atribulados e os sobrecar­ Criador"4
regados e Ele os aliviasse, porque é manso e humilde de coração".
Dirige os benignos na justiça e ensina aos mansos os seus caminhos.
10
Vê a nossa humildade e o nosso trabalho e perdoa-nos todos os
O DESCORTINAR D O MISTÉRIO DIVINO
pecados.4 Porém, aqueles que se levantaram no coturno de uma
doutrina mais sublime5 não O ouvem dizer: "Aprendei de mim
que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para 16. Em seguida aconselhado a voltar a mim mesmo, recolhi-
as vossas almas". Ainda que conheçam "a Deus, não O glorificam me ao coração, conduzido por Vós. Pude fazê-lo, porque Vos tor-
como Deus, nem Lhe dão graças, mas desvanecem-se em seus pen­ nastes meu auxílio.
samentos e o seu coração insensato obscurece-se. Dizendo-se sá­ Entrei, e, com aquela vista da minha alma, vi, acima dos
bios, tornam-se estultos". meus olhos interiores e acima do meu espírito, a Luz imutável.
15. Por isso lia também aí que transformaram a imutável gló­ Esta não era o brilho vulgar que é visível a todo o homem, nem
ria da vossa incorruptibilidade em ídolos e em estátuas de toda era do mesmo gênero, embora fosse maior. Era como se brilhasse
espécie, à semelhança de imagem do homem corruptível, das aves, muito mais clara e abrangesse tudo com a sua grandeza. Não
dos animais e das serpentes,6 ou seja, o alimento dos egípcios, pelo era nada disto, mas outra coisa, outra coisa muito diferente de
qual Esaú perdeu o direito de primogenitura.7 Israel, o povo pri­ todas estas.

1 F/p 2 ,6 -1 1 . 1 At 7, 39. Santo Agostinho, na exposição do Salmo 46 (Com. ao Sl 46), assim se exprime:
2 Sl 24, 18. "Sabemos que as lentilhas são o alimento dos egípcios porque abundam no Egito. São
3 M í 11, 29. célebres as lentilhas de Alexandria, e chegam até às nossas terras como se aqui não
4 Rom 1, 21. nascessem lentilhas. Portanto, Esaú, desejando o alimento dos egípcios, perdeu a
5 A filosofia de Plotino ou neoplatônica, que foi o supremo esforço do pensamento helênico, primogenitura. Assim, o povo judeu, de quem foi dito 'voltaram-se de coração para o Egito',
ignorou a Cristo. Tudo nela se dirigia a pôr o homem em contato com o Uno por meio desejara de certo modo as lentilhas, perdendo a primogenitura". (N. do T.)
do êxtase voluntarista. (N. do T.) 2 Sl 105, 20.
6 Rom 1, 23. 3 At 17, 28.
7 Gên 25, 33. 4 Rom 1, 25.

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O S PEN SA D O RES
SA N TO A G O STIN H O

Essa Luz não permanecia sobre o meu espírito como o azeite prender-me a Deus",1 porque, se não permanecer n'Ele, também,
em cima da água, ou como o céu sobre a terra, mas muito mais não poderei continuar em mim. Ele, porém, permanecendo em si,
elevada, pois Ela própria me criou e eu sou-lhe inferior, porque renova todas as coisas. "Vós sois o meu Senhor, pois não careceis
fui criado por Ela. dos meus bens."2
Quem conhece a Verdade conhece a Luz Imutável, e quem
a conhece, conhece a Eternidade. O Amor conhece-a! Ó Verdade
eterna, Amor verdadeiro, Eternidade adorável! Vós sois o meu
12
Deus! Por Vós suspiro noite e dia. Quando pela primeira vez Vos O Pr o b lem a D o M a l .
conheci, erguestes-me para que aprendesse a existência d'Aquele A P e r f e iç ã o D a s C r ia t u r a s
que era objeto do meu olhar. Mas eu ainda não era capaz de ver!
Deslumbrastes a fraqueza da minha íris, brilhando com veemência 18. Vi claramente que todas as coisas que se corrompem são
sobre mim. Tremi com amor e horror. Pareceu-me estar longe de boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem
Vós numa região desconhecida, como se ouvisse a vossa voz lá se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem
do alto: "Sou o pão dos fortes; cresce e comer-Me-ás. Não Me trans- absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem ne­
formarás em ti como ao alimento da tua carne, mas mudar-te-ás nhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse.
em Mim".1 De fato, a corrupção é nociva, e, se não diminuísse o bem,
Conheci que, "por causa da iniqüidade, castigastes o homem não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica — o
e secastes a minha alma como teia de aranha".2 E disse: "Porventura que não é aceitável — ou todas as coisas que se corrompem são
não existe a verdade, pelo fato de não estar espalhada por espaços privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fos­
finitos nem infinitos?" sem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir.
Vós respondestes-me de longe: "Sim, Eu sou o que Sou".3 Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores
E ouvi como se ouve no coração, sem ter motivo algum para porque permaneciam incorruptíveis. Que maior monstruosidade
duvidar. Mais facilmente duvidaria da minha vida do que da do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder
existência da Verdade, cujo conhecimento se apreende por meio todo o bem?
das coisas criadas. Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente
de existir. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as
11 coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não
A R e l a t iv id a d e D a s C r ia t u r a s é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem. Na ver­
dade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um
17. Examinei todas as outras coisas que estão abaixo de Vós grande bem, ou seria substância corruptível, e, nesse caso, se não
e vi que nem existem absolutamente, nem totalmente deixam de fosse boa, não se poderia corromper.
existir. Por um lado existem, pois provêm de Vós; por outro não Vi, pois, e pareceu-me evidente que criastes boas todas as
existem, pois não são aquilo que Vós sois. Ora, só existe verda­ coisas, e que certissimamente não existe nenhuma substância
deiramente o que permanece imutável. Por isso, "para mim é bom que Vós não criásseis. E, porque as não criastes todas iguais,
por esta razão, todas elas, ainda que boas em particular, tomadas
1 Assim sucede na Eucaristia. Porém a frase refere-se à Sabedoria Divina. (N. do T.)
2 Jer 31, 15.
1 Sl 72, 28.
3 Êx 3, 14.
2 Sl 15, 2.

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O S PE N SA D O RES SA N TO A G O STIN H O

conjuntamente são m uito boas, pois o nosso Deus criou "todas as tavelmente mais perfeitos que os inferiores. Mas um juízo mais
coisas muito boas".1 sensato fazia-me compreender que a criação em conjunto valia mais
que os elementos superiores tomados isoladamente.
13
A So lu ç ã o D o P r o b lem a D o M a l . 14
A s D is s o n â n c ia s D e P o r m e n o r A T r a je t ó r ia D e U m E r r o

19. Em absoluto, o mal não existe nem para Vós nem para
20. Não há saúde naqueles a quem desagrada alguma parte
as vossas criaturas, pois nenhuma coisa há fora de Vós que se
da vossa criação, como em mim também não a havia, quando me
revolte ou que desmanche a ordem que lhe estabelecestes. Mas
não agradavam muitas coisas que criastes. Porque a minha alma
porque, em algumas das suas partes, certos elementos não se
não ousava desgostar-se do meu Deus, recusava olhar como obra
harmonizam com outros, são considerados maus. Mas estes coa­
vossa tudo o que lhe não agradava. Por isso, lançara-se na "teoria
dunam-se com outros, e por isso são bons (n o c o n ju n t o ) e bons
das duas substâncias",1 mas não encontrava descanso, e apenas
em si mesmos. Todos estes elementos que não concordam mu­
expressava opiniões alheias.
tuamente concordam na parte inferior da criação a que chama­
Desembaraçando-se destes erros, a minha alma tinha ima­
mos terra, cujo céu acastelado de nuvens e batido pelos ventos
ginado, para si, um Deus que se difundia por toda parte através
quadra bem com ela.
do espaço infinito. Julgando que éreis Vós, colocara esse Deus
Longe de mim o pensamento de dizer: "Estas coisas não
no seu coração, e de novo ela se transformou num templo abo­
deveriam existir". Embora, ao considerá-las só a elas, eu desejasse
minável do seu ídolo 2 Todavia, depois que afagastes, sem eu o
que fossem melhores, contudo bastava só isto para eu ter de
saber, a minha cabeça e fechastes "meus olhos para que não
Vos louvar, pois sois digníssimo de louvor, como o proclamam
vissem a vaidade",3 desprendi-me um pouco de mim mesmo, e
"os dragões da terra e todos os abismos, o fogo, o granizo, a
a minha loucura adormeceu profundamente... Despertei em vos­
neve, a geada, o vento das tempestades que executam as vossas
sos braços, e vi que éreis infinito, mas não daquele modo. Esta
ordens; os montes e todas as colinas; as árvores frutíferas e todos
visão não provinha da carne.
os cedros; as feras e todos os gados; os répteis e as aves que
voam; os reis da terra e todos os povos; os príncipes e todos os
juizes da terra. Os jovens e as donzelas, os velhos e os mais 15
novos louvam o vosso nome".2 A H a r m o n ia D a C r ia ç ã o
Mas também Vos louvam lá do alto do céu... Entoam os vossos
louvores, Deus Nosso, "nas alturas, todos os vossos anjos, todas 21. Olhei depois para as outras coisas e vi que Vos deviam
as potestades, o Sol e a Lua, todas as estrelas e a luz, os céus dos a existência. Vi que tudo acaba em Vós, mas não como quem ter­
céus. Também as águas que estão sobre os céus exaltam o vosso mina num espaço material. Vós sois Aquele que tudo conserva na
Nome".3 Já não desejava coisas melhores, porque, abarcando tudo Verdade, como se tudo sustivésseis na palma da mão. Por isso
com o pensamento, via que os elementos superiores são incontes-
1 Refere-se à doutrina maniqueísta do dualismo do bem e do mal, isto é, da luz e das trevas.
(N. do T.)
1 Gên 1, 31. 2 Aquela noção de que Deus era "ídolo" porque a alma materializava e circunscrevia ao
2 Sl 143, 7-12. espaço o Ser infinito. (N. do T.)
3 Sl 148, 1-5. 3 Sl 118, 37.

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O S PEN SA D O RES SA N TO A G O STIN H O

todas as coisas são verdadeiras enquanto existem, e não há falsidade guma eu duvidava da existência de um Ser a quem me devesse
senão quando se julga que existe aquilo que não existe. unir. Sabia, porém, que ainda me não encontrava apto para essa
Reconheci que cada coisa se adapta perfeitamente não só ao união, pois "o corpo que se corrompe sobrecarrega a alma, e a
seu lugar, mas também chega a seu tempo. Reconheci que Vós — morada terrena comprime o espírito que se dissipa".1
único Ser Eterno — não começastes a operar depois de épocas Estava certíssimo de que "as vossas perfeições invisíveis se
incalculáveis de tempo, porque todos esses espaços de tempo, pas­ podem tornar compreensíveis desde o princípio do mundo por
sados ou futuros, não teriam passado nem viriam, se Vós, na vossa meio das coisas criadas, bem como o eterno poder e a vossa Di­
imutabilidade, não agísseis. vindade".2 Buscando, pois, o motivo por que é que aprovara a
beleza dos corpos, quer celestes, quer terrenos, e que coisa me
16 tornava capaz de julgar e dizer corretamente dos seres mutáveis:
O n d e R e s id e O M a l "Isto deve ser assim, aquilo não deve ser assim", procurando qual
fosse a razão deste meu raciocínio ao exprimir-me naqueles termos,
22. Senti e experimentei não ser para admirar que o pão, tão descobri a imutável e verdadeira Eternidade, por cima da minha
saboroso ao paladar saudável, seja enjoativo ao paladar enfermo, e inteligência sujeita à mudança.
que a luz, amável aos olhos límpidos, seja odiosa aos olhos doentes. Deste modo, dos corpos subia pouco a pouco à alma que sente
Se a vossa justiça desagrada aos maus, com muito mais razão por meio do corpo, e de lá à sua força interior, à qual os sentidos
lhes desagradam a víbora e o caruncho que criastes bons e adap­ comunicam o que é exterior — é este o limite até onde chega o co­
tados às partes inferiores dos seres criados, às quais os próprios nhecimento dos animais —, e, de novo, dali à potência raciocinante.
malvados são tanto mais semelhantes quanto são mais diferentes A esta pertence ajuizar acerca das impressões recebidas pelos sentidos
de Vós. Do mesmo modo são os maus tanto mais parecidos com corporais. Mas essa potência, descobrindo-se também mudável em
os elementos superiores da criação quanto mais se tornam seme­ mim, levantou-se até à sua própria inteligência, afastou o pensamento
das suas cogitações habituais, desembaraçando-se das turbas contra­
lhantes a Vós.
ditórias dos fantasmas, para descortinar qual fosse a luz que a escla­
Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância,
recia, quando proclamava, sem a menor sombra de dúvida, que o
mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema —
imutável devia preferir-se ao mudável.
de Vós, ó Deus — e tendendo para as coisas baixas: vontade que
Daqui provinha o seu conhecimento a respeito do próprio
derrama as suas entranhas e se levanta com intumescência.1
Imutável, pois, se de nenhuma maneira o conhecesse, não o ante­
17 poria com toda a segurança ao variável.
A sc en sã o D o lo ro sa Foi assim que ela atingiu aquele Ser, num abrir e fechar de
olhos. Compreendi então que "as vossas perfeições invisíveis se
23. Admirava-me de já Vos ter amor e de não amar um fan­ declaram por meio das coisas que foram criadas".3 Mas não pude
tasma em vez de Vós. Não permanecia estável no gozo do meu fixar a vista, e, ferido pela minha enfermidade, tornei aos vícios
Deus. Era arrebatado para Vós pela vossa Beleza, e logo arrancado habituais. Não conservava comigo senão aquela lembrança amo­
de Vós, pelo meu peso, para me despenhar, a gemer, sobre as rosa, desejando, se assim me posso exprimir, os aromas dos ali­
ínfimas criaturas. Este peso eram os hábitos da luxúria. mentos que ainda não podia comer.
Mas a vossa lembrança acompanhava-me. Nem de forma al­
1 Sab 10, 15.
2 Rom 1, 20.
1 Eclo 10, 9. 3 Rom 1, 20.

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O S PEN SA D O RES SAN TO A G O STIN H O

18 recia-me que tinha merecido tão grande autoridade de magistério


O Ú n ic o Ca m in h o P a r a A V e r d a d e pelo cuidado com que se ocupou de nós.1 Nem sequer podia sus­
peitar que mistério encerravam as palavras: "O Verbo se fez ho­
24. Buscava um meio para me prover de forças a fim de ser mem".2 Simplesmente pelos escritos que d'Ele tratavam sabia que
apto para gozar-Vos, mas não o encontraria, enquanto não abra­ comeu, bebeu, dormiu, fez caminhadas, regozijou-se, entristeceu-
çasse "o Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem-
se, conversou, e que aquela carne não se tinha unido ao vosso
Deus bendito por todos os séculos, que está acima de todas as
Verbo senão pela alma e inteligência humana.3
coisas".1 Ele chamava-me e dizia: "Sou o caminho, a Verdade e a
Isto já o sabe todo aquele que conhece a imutabilidade do
Vida".2 Eu também devia crer que o Alimento que era incapaz de
vosso Verbo, imutabilidade que eu já conhecia quanto me era pos­
tomar se uniu à carne, pois "o Verbo se fez homem",3 para que a
sível, e de que não duvidava absolutamente nada. Com efeito, mo­
vossa Sabedoria, pela qual criastes tudo, se tornasse o leite da nossa ver agora pela vontade os membros do corpo, e logo depois não
infância. os mover; sentir agora um afeto e logo depois já o não sentir;
Como possuía pouca humildade, não compreendia que Jesus, exprimir, por meio de sinais, sábias idéias, e logo voltar ao silêncio
0 meu Deus, fosse humilde, nem alcançava de que ensinamentos são características da mutabilidade da alma e da inteligência. Se
fosse mestra a sua fraqueza. Com efeito, o vosso Verbo, Verdade isso que d'Ele se escreveu fosse falso, também tudo o mais correria
eterna, exaltado sobre as criaturas mais sublimes, ergue até si os 0 risco de ser mentira, e nenhuma fé salvadora subsistiria nestes
que se lhe sujeitam. Porém, nas partes inferiores da criação cons­ livros, para o gênero humano. Porque tais escritos são autênticos,
truiu para si, com o nosso lodo, uma vivenda humilde. reconhecia apenas em Cristo um homem completo: não só um
Por meio desta, rebaixa e atrai para si os que deseja submeter. corpo humano ou um corpo e uma alma sem mente,4 mas um
Cura a soberba e alimenta o amor, para que, cheios de confiança homem real, que eu julgava avantajar-se aos restantes mortais, não
em si mesmos, se não afastem para mais longe. Pelo contrário, por ser a personificação da Verdade, mas por motivo da grande
humilham-se ao presenciar a seus pés a Divindade tornada humilde excelência de sua natureza humana e de sua mais perfeita parti­
pela comparticipação "da túnica da nossa carne",4 e cansados pros- cipação quanto à Sabedoria.
tram-se-lhe diante d'Ele, que, erguendo-os, os exaltará. Alípio, porém, supunha que os católicos acreditavam num
Deus, revestido de carne, de modo que além de Deus e da carne
19 não havia em Cristo uma alma. Não julgava que Lhe atribuíssem
H e s it a n t e N a D o u t r in a D o V e r b o uma inteligência humana. Porque estava bem persuadido de que
as ações de Jesus Cristo, transmitidas à posteridade, não se dariam
25. Eu, porém, pensava de outra maneira, e somente imagi­
nava o meu Senhor Jesus Cristo como um homem de excelente 1 Como Fotino, Santo Agostinho acreditava, nesse tempo, que Jesus Cristo fosse um simples
sabedoria, que ninguém poderia igualar, sobretudo porque nasceu homem a quem fora concedida a plenitude da graça em paga das suas virtudes humanas.
(N. do T.)
maravilhosamente de uma Virgem, para nos dar exemplo de des­ 2 Jo 1, 14.
prezo das coisas temporais e adquirir a imortalidade divina. Pa­ 3 Santo Agostinho não põe em dúvida a união substancial do Verbo com a natureza humana,
em Jesus Cristo. Apenas afirma que não houve mistura das duas naturezas. Declara-o nas
palavras a seguir. (N. do T.)
4 O texto latino traz: "sitie mente animum Mens, na filosofia de Santo Agostinho, compreende
1 1 Tim 1, 5. a Ratio, ou faculdade discursiva, de cujo exercício resulta a ciência; e a inteligência, de
2 Jo 14, 6. cujo exercício resulta a Sabedoria (conhecimento intuitivo do imutável ou puro inteligível).
3 Jo 1, 14. Mens ê o que há de mais sublime na alma. Agostinho desconhecia então a inteligência
4 Gên 3, 21. humana de Cristo. (N. do T.)

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O S PEN SA D O RES SA N TO A G O STIN H O

n'Ele sem uma criatura vital provida de razão, Alípio, com dema­ querer parecer um sábio; não chorava e, por acréscimo, inchava-me
siada preguiça, se ia aproximando da mesma fé cristã. Mas depois, com a ciência.
reconhecendo que tal erro era próprio dos hereges apolinaristas,1 Onde estava aquela caridade que se levanta sobre o alicerce
jubiloso, juntou-se à fé católica. da humildade, que é Jesus Cristo? Quando é que estes livros
Confesso, porém, que só um pouco mais tarde aprendi de ma ensinariam? Por isso, segundo julgo, Vós quisestes que eu
que modo a verdade católica se aparta do erro de Fotino, a respeito fosse ao seu encontro antes de meditar as vossas Escrituras, para
de "o Verbo se ter feito homem".2 Por isso a reprovação dos hereges que se imprimisse em minha memória o sentimento que nelas
dá azo a que se manifeste claramente o que sente a vossa Igreja experimentei.
e o que contém a sã doutrina. "Foi necessário haver hereges para Depois, quando em vossos livros encontrasse a serenidade e
que os fortes se manifestassem entre os fracos".3 minhas feridas fossem tocadas por vossos dedos e fossem por eles
curadas, discerniria perfeitamente a diferença que havia entre a
presunção e a humildade, entre os que vêem para onde se deve
v 20 ir e os que não vêem por onde se vai nem o caminho que conduz
D o P l a t o n i s m o À Sa g r a d a E s c r i t u r a
à pátria bem-aventurada. Esta será não somente objeto e contem­
plação, mas também lugar e morada.
26. Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser
Ora, se antes de tudo me tivesse instruído nas vossas Santas
induzido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi que "as vossas
Escrituras, e, familiarizado com elas, sentisse a vossa doçura, se
perfeições invisíveis se percebem por meio das coisas criadas".4
deparasse depois com aqueles volumes (dos platônicos), talvez eles
Sendo repelido (no meu esforço), senti o que, pelas trevas da minha me arrancassem do sólido fundamento da piedade. Ou, se persis­
alma, me não era permitido contemplar: experimentei a certeza de tisse no sentimento salutar que deles tinha haurido, julgaria que,
que existíeis e éreis infinito, sem contudo vos estenderdes pelos se alguém aprendesse só por esses livros, também deles poderia
espaços finitos e infinitos. Sabia que éreis verdadeiramente Aquele alcançar o mesmo afeto espiritual.
que sempre permanece o mesmo, sem Vos transformardes em ou­
tro, quer parcialmente e com algum movimento, quer de qualquer 21
outro modo. Sabia que todas as outras coisas provêm de Vós, pelo En tre O Esplen d o r D a V er d a d e
motivo único e seguríssimo de existirem. Sim, tinha a certeza disso. E O P l a t o n is m o
Porém, era demasiado fraco para gozar de Vós!
Tagarelava à boca cheia como um sabichão, mas, se não bus­ 27. Por conseguinte lancei-me avidamente sobre o venerável
casse em Cristo Nosso Salvador o caminho para Vós, não seria estilo (da Sagrada Escritura), ditada pelo vosso Espírito, preferindo,
perito, mas perituro.5 Já então, cheio do meu castigo, começava a entre outros autores, o Apóstolo São Paulo. Desvaneceram-se-me
aquelas objeções segundo as quais algumas vezes me pareceu haver
1 Apolinário, bispo de Laodicéia, viveu no século IV. Negou que em Jesus Cristo houvesse contradição na Bíblia e incongruência entre o texto dos seus dis­
inteligência humana, afirmando que o Verbo fazia as vezes desta. (N. do T.)
2 Fotino, herege do século IV e bispo de Sírmio, negou a união substancial do Verbo com
cursos e os testemunhos da Lei e dos Profetas. Compreendi o as­
a natureza humana, de tal forma que Jesus Cristo era filho adotivo de Deus e puro homem. pecto único daqueles castos escritos, e "aprendi a alegrar-me com
(N. do T.)
3 1 Cor 11, 19. tremor".1 Comecei a lê-los e notei que tudo o que de verdadeiro
4 Rom 1, 20.
5 Temos de novo um jogo de palavras: "perito" e "perituro". "Perituro": que havia de perecer.
(N. do T.) 1 Sl 2, 11.

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O S PEN SADO RES SA N TO AG OSTIN HO

tinha lido nos livros dos platônicos se encontrava naqueles, mas d'EIe a minha salvação, porquanto Ele é o meu Deus e Salvador.
com esta recomendação da vossa graça: que aquele que vê não se Ele me recebe e d'Ele não me apartarei mais."1
glorie como se não tivesse recebido não somente o que vê, mas também Nos livros platônicos ninguém ouve Aquele que exclama:
a possibilidade de ver.1 "Com efeito, que coisa tem ele que não "Vinde a Mim, vós, os que trabalhais". Desdenham em aprender
tenha recebido?"2 E Vós, que sois sempre o mesmo, não só o ad- d'Ele, que é manso e humilde de coração. "Escondestes estas coisas
moestais para que Vos veja, mas também para que se cure a fim aos sábios e entendidos, e as revelastes aos humildes."2
de Vos possuir. Uma coisa é ver de um píncaro arborizado a pátria da paz
Aquele que não pode ver de longe, percorra, contudo, o ca­ e não encontrar o caminho para ela, gastando esforços vãos por
minho por onde possa vir a contemplar-Vos e a possuir-Vos. Efe­ vias inacessíveis, entre os ataques e insídias dos desertores fugitivos
tivamente, ainda que o homem se deleite na "lei de Deus, segundo com o seu chefe Leão e Dragão;3 e outra coisa é alcançar o caminho
o homem interior", que fará ele "perante a outra lei dos seus mem­ que para lá conduz, defendido pelos cuidados do general celeste,
bros, que recalcitra contra a lei do seu espírito e o cativa na lei do onde os que desertaram da milícia do paraíso não podem roubar,
pecado, escrita nos seus membros"?3 "Por isso, Vós, Senhor, sois pois o evitam como um suplício.4
justo; nós, porém, pecamos, cometemos iniqüidade; procedemos Estas coisas penetraram-me até às entranhas, por modos ad­
impiamente, e a vossa mão pesou sobre nós.”4 Justamente fomos miráveis, ao ler (São Paulo) "o mínimo dos vossos Apóstolos".5 E
entregues ao pecador antigo, ao príncipe da morte, pois persuadia enchia-me de espanto, considerando as vossas obras...
a nossa vontade a conformar-se com a sua, "que não permaneceu
na vossa verdade".5
Que fará o infeliz homem? "Quem o livrará deste corpo de
morte, senão a vossa graça por Jesus Cristo Nosso Senhor",6 que
Vós gerastes coeterno e criastes no princípio de vossos caminhos,
ao qual "o príncipe deste mundo",7 apesar de o não encontrar em
nada merecedor de morte, o matou? "Foi assim anulado o libelo
que nos era contrário."8
Ora, isto não o dizem os livros platônicos. Suas páginas não
encerram a fisionomia daquela piedade, nem as lágrimas da com-
punção, nem "o vosso sacrifício nem o espírito compungido, nem
0 coração contrito e humilhado" (Sl 50,19), nem a salvação do povo,
nem a cidade desposada (Apc 21, 2), nem o penhor do Espírito
Santo, nem o cálice do nosso resgate (2 Cor 5 ,5). Lá ninguém canta:
Porventura a minha alma não há de estar sujeita a Deus? "Depende

1 1 Cor 4, 7.
2 1 Cor 4, 7.
3 Rom 7, 22. 1 Sl 61, 2, 3.
4 Dan 3, 27; Sl 31, 4. 2 Mt 11, 28; 11, 25.
5 jo 8, 44. 3 Sl 90, 13.
6 Rom 7, 24. 4 Nesta passagem parece ter-se inspirado Santo Inácio de Loyola para elaborar a meditação
7 Jo 14, 30. das Duas Bandeiras. (N. do T.)
8 Col 2, 14. 5 1 Cor 15, 9.

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