Você está na página 1de 2

Dizei uma palavra e seremos salvos

Há um pequeno iraque no sopé da Guia, antes ainda do asfalto de Cacilhas se lançar na voragem
sinuosa de curvas e contra-curvas que os mafarricos do volante chamam de ésses da solidão. Evocar
resquícios de solidão em Macau, na Macau pós-contemporânea das roletas e das rebanhadas de
visitantes, é exercício que oferece cambiantes de absurdo, acto quase tão pecaminoso como
conjugar Darfur e fartura num mesmo enunciado; se não são as hordas de visitantes e os passeios
atravancados, o vai e vem de almas em constante transumância, são os casinos, os hotéis e as torres
residenciais que emergem do casco histórico como erecções inoportunas e descompostas, os
gigantes de betão que ofuscam e humilham colinas e monumentos, as câmaras de vigilância e a
penosa ausência de silêncio, a incómoda tomada de consciência de que por cá nunca se está só em
circunstância alguma. Em Macau, a solidão é – como dizem os ingleses do alto de uma certa
soberba – uma commodity.
Ao volante de um qualquer bólide pela estrada de Cacilhas, ao luar e ao sonho, na estrada outrora
deserta, sozinho guio, guio devagar e um pouco me parece, ou me forço um pouco para que me
pareça, que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo. Mesmo que anacrónicas, as
tortuosas linhas que confinam os ésses da solidão são, ainda assim, as que melhor transportam
Álvaro de Campos para Macau, o bardo imaginário em trânsito ou em fuga por uma passagem para
o passado, porque é o passado que se evoca quando se misturam curvas com estados de espírito.
Afastados do Senado, da Rua Central e do esparso burburinho dos finais de oitocentos e debruçados
sobre um mar pardo e tépido, os ésses de Cacilhas cedo se denominaram da Solidão, tal era o hoje
inimaginável afastamento do centro da cidade. O burgo cresceu, desconjuntou-se, a solidão deixou
de ser possível, mas o nome permanece, ressuscita ano após ano por uma meia dúzia de dias,
embalado pela euforia dos motores, um fantasmático eco do passado. A designação tem óbvias
qualidades poéticas e hoje, mais do que nunca, as curvas da Estrada de Cacilhas por onde Álvaro de
Campos nunca circulou mas poderia muito bem ter circulado, mereciam pontificar com sumária
brevidade no Dicionário de Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. Os ésses
da solidão desejada.
Não que em Macau não exista solidão. Existe. E existe a da pior espécie, a que se confunde com
indiferença. No sopé da Guia, antes ainda do asfalto de Cacilhas se lançar na voragem sinuosa de
curvas e contra-curvas que Manguel e Guadalupi ainda desconhecem, há um pequeno iraque -
assim mesmo, escrito em minúsculas, que o que se passa no verdadeiro Iraque é grave demais para
servir de pretexto ou ponto de comparação ao que se quer enunciar.
Ter o azar de se cair enfermo em Macau ao fim-de-semana é experiência que rasa a ficção
científica. Mal se cruzam as portas da enfermaria das urgências do Centro Hospitalar Conde de São
Januário é-se teletransportado para um quase cenário de guerra: quartos a abarrotar, camas nos
corredores, médicos e enfermeiros que se atropelam numa voragem insensata, pacientes vergados à
dor e familiares irados, vergados ao pânico. Num mesmo quarto, um estropiado, um pré-cardíaco,
um idoso dobrado sobre si mesmo (um fio ténue de respiração) e um alcoolizado, que promete em
uivos insanos, a morte a todos os outros.
O estropiado foi o primeiro ali a ser depositado. Assomou ao hospital no adeus ao dia e não viu já a
cidade encher-se de sombras e os néons subjugarem a servidão da noite. Os outros foram chegando
a uma cadência incerta, primeiro o idoso, os olhos enevoados pregados ao tecto, depois o pré ou
pós-cardíaco, inerte, uma máscara de oxigénio sobre a cara e uma expressão de vaga beatitude, não
se sabe bem se induzida, se natural, se de apego à vida ou de resignação à morte. Do lado de fora da
cortina de poliuretano, um familiar em desespero insurge-se contra a demora, grita com médicos e
enfermeiros, pontapeia qualquer coisa.
O estropiado digere a passagem das horas com a ajuda benfazeja de um telemóvel. São onze e
muito da noite quando o alcóolico se junta à festa. Brilham-lhe nos olhos constelações de sangue. A
ânsia de expurgar os demónios que traz dentro de si levam-no a contorcer-se, a evocar o vómito e o
esforço enfurece-o. Arranca de um golpe o catéter do soro, grita, garante num mandarim lento e
mastigado que é cidadão de Macau e de olhos postos no frágil idoso promete que o mata, num
inglês com mais de cómico, do que de ameaçador. Ainda debruçado sobre um qualquer limbo, o
pré-cardíaco alivia-se debaixo dos lençóis, é limpo e enxugado à frente de todos. O acre cheiro dos
humores humanos toma conta do exíguo quarto.
A noite termina para o estropiado – um pé ao pendurão sobre um molho de travesseiros – às
primeiras horas da madrugada com uma notificação que não surpreende: as salas de cirurgia estão
cheias e só daí a dois, três dias será possível conduzir a operação. Não é uma intervenção urgente,
explicam, e há que racionalizar.
Pobre cidade rica. Seiscentos mil habitantes, milhões de visitantes e um único hospital, feito de
remendos e acrescentos, onde a vida caminha de mãos dadas com a morte e médicos e enfermeiros
esticam ao máximo o estoicismo e a paciência para que o atendimento aos pacientes adquira, ainda
assim, contornos de humanidade. O estado de quase calamidade em que a saúde pública em Macau
está mergulhada é uma das razões pelas quais o Chefe do Executivo re-eleito a 31 de Agosto não é o
“meu” Chefe do Executivo. Não será a única, mas é a mais premente. Mais do que a nuance de ter
sido reconduzido através de uma eleição com contornos latos de ficção eleitoral, aos residentes de
Macau deveria incomodar a inércia com que um governo aparentemente unânime e todo poderoso –
que decide a seu bel-prazer o que deve e o que não deve ser legislado – diligencia a gestão da saúde
e dos assuntos sociais. A contratação de especialistas prolonga-se por anos a fio, os que por cá
trabalham são afastados mal a sombra dos 65 anos se insinua e o mais do que necessário Hospital
das Ilhas, anunciado em 2010, deixou de ser uma miragem para ser cada vez mais uma mentira, que
é o que se chama às promessas mil vezes repetidas e nunca cumpridas. Com o superavit financeiro
de que dispõe o território, no caso do Hospital das Ilhas (mas também da problemática dos taxistas e
do imobiliário), dizei uma palavra, Sr. Chui – FAÇA-SE – e seremos salvos. Quem sabe se depois
de tal acontecer, a salvação e o respeito da população de Macau não chegarão também para si?

Interesses relacionados