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“Quadrado mágico” dá o mote a emissão filatélica única

Filatelia para génios

A Direcção dos Serviços de Correios de Macau lançou em Outubro uma emissão filatélica que
dá que pensar. A série tem por base o “quadrado mágico”, um conceito matemático
transversal às culturas chinesa e ocidental em que a estratégia e o raciocínio andam de mãos
dadas. A série filatélica só no próximo ano fica completa, mas já valeu aos Correios do
território reconhecimento internacional.

E se um selo fosse também um convite ao raciocínio e à redescoberta de alguns dos mistérios da


matemática? A Direcção dos Serviços de Correios quer fazê-lo pensar enquanto espera para enviar
uma carta ou uma encomenda postal e transformou um mito primordial da cultura chinesa numa
bem sucedida emissão filatélica. Reza uma das mais antigas lendas do norte da China que há quatro
mil anos Yu Huang, o Imperador de Jade, viu emergir das águas do rio Luo – um dos tributários do
Rio Amarelo – uma tartaruga com uma carapaça enigmática. O animal teria o dorso perfurado por
pequenos buracos configurados de acordo com uma lógica muito própria: tida como um ente divino,
a tartaruga exibia no casco um diagrama quadrangular, formado por nove segmentos uniformes,
onde se agrupavam incisões em número distinto.
A couraça do quelónio avistado pelos sábio imperador Yu na margem do rio Luo conforma o
primeiro exemplo conhecido de um “quadrado mágico”, uma configuração numérica em que a soma
dos números das linhas, das colunas e das diagonais é constante, sendo que em nenhuma das
direcções as parcelas se repetem.
No dorso da mais cabalística das tartarugas da mitologia chinesa, a soma das filas, das colunas e da
diagonal principal do diagrama totaliza impreterivelmente quinze incisões. A configuração
matemática hoje conhecida por “Luo Shu” (洛書) ou “Pergaminho do Rio Luo” deu o mote a uma
série filatélica que já valeu à Direcção dos Serviços de Correios reconhecimento internacional.
Louvada pelo diário britânico “The Guardian” pela originalidade, a emissão é composta por nove
selos, cada um apetrechado com um quebra-cabeças distinto e um convite à reflexão. Os seis
primeiros encontram-se em circulação desde nove de Outubro. Os três restantes só na recta final de
2015 serão conhecidos, revela Derby Lau Wai Meng, directora dos Serviços de Correios:
“Lançamos este ano, a 9 de Outubro, uma emissão filatélica subordinada ao “quadrado mágico”. No
“quadrado mágico” concebido pelos Correios de Macau temos nove selos, mas este ano só
emitimos seis. Os três restantes, que irão completar a série e o quadrado, serão lançados no próximo
ano.”
Composta por nove estampilhas individuais com um valor facial que oscila entre uma e nova
patacas, a série recriará, depois de completa, a mesma configuração numérica que o Imperador de
Jade encontrou na carapaça da enigmática tartaruga do rio Luo. Entre os nove “quadrados mágicos”
retratados na emissão filatélica lançada pela Direcção dos Serviços de Correios em meados de
Outubro estão um palíndromo escrito pela poetisa Su Hui há mais de 2400 anos, uma sequência
matemática imperfeita criada pelo inventor e diplomata norte-americano Benjamin Franklin, uma
tabela de cálculo gravada no canto superior direito de uma tela pelo pintor Albrecht Dürer ou uma
sopa de letras de características ambigramáticas e com alegados poderes místicos encontrada por
entre os escombros de Pompeia.
Concebidos ao abrigo da série de emissões dedicadas pelos Correios à ciência e tecnologia, os dez
quadrados mágicos têm por objectivo sensibilizar a população da Região Administrativa Especial de
Macau para a relevância do conhecimento científico. Idealizada por Carlos Roldão Lopes, antigo
directo dos Serviços de Correios, a emissão conjuga num produto filatélico ímpar matemática,
mitologia e mistério. Do esforço resulta um expediente mais atractivo de enraizar o gosto pela
ciência e pela tecnologia em quem tem o território como casa: “Quando produz conteúdos, a
Direcção de Serviços de Correios procura ser o mais abrangente e o mais pedagógica possível e é
neste sentido que concebemos uma série de emissões dedicadas à ciência e tecnologia. Desde 2003,
se não estou em erro, que publicamos todos os anos ou de dois em dois anos uma emissão sobre
assuntos relacionados com ciência e tecnologia. O objectivo destas emissões passa por promover o
conhecimento científico e as concretizações tecnológicas dele decorrentes junto da população em
geral e em particular junto das gerações mais jovens”, sublinha Derby Lau. “Queremos que os mais
jovens se sintam atraídos pela ciência e pela tecnologia e que não se cinjam apenas a disciplinas ou
a opções de carreira que possam significar à partida emprego garantido ou salários melhor
remunerados. É muito importante para o desenvolvimento sadio da sociedade que os jovens sem
mantenham abertos ao conhecimento científico”, complementa a directora dos Serviços de
Correios.
Fundados em 1884, os Correios de Macau celebraram a 1 de Março último 130 anos, mas só nos
primórdios da década de 80 do século passado começaram a produzir as suas próprias emissões,
subordinadas a temáticas que vão ao encontro do carácter plural e cosmopolita do território.
Aguardados com expectativa dentro e fora das exíguas fronteiras que delimitam Macau, os três
últimos selos da série do “quadrado mágico” devem ser emitidos o mais tardar em Outubro do
próximo ano, mas o labor criativo dos responsáveis pelas competências postais da Direcção dos
Serviços de Correios não se fica pelo “Luo Shu” e pela mística abrangência de palíndromos,
ambigramas e capicuas. Para 2015 estão previstas entre 12 a 14 novas emissões filatélicas
subordinadas a temáticas tão diversas como o sol e a lua, o vinho e o leite. No próximo ano, os
Correios de Macau vão celebrar a importância de um elemento vital, homenagear o génio de um
músico nascido no território, obsequiar a filantropia e o espírito de entrega de uma organização e
enaltecer, com um poema visual de duas polegadas e meia, um dos mais amados ex-libris da cidade:
“Para além da emissão referente ao Ano Novo Lunar da Cabra, vamos produzir uma emissão com
paisagens da China, uma série dedicada às zonas húmidas de Macau, um selo evocativo do 110.º
aniversário do nascimento do músico Xiang Xinghai, uma emissão comemorativa dos 110 anos do
Movimento Rotário Internacional e outra evocativa da importância da água para a vida na Terra”,
clarifica Derby Lau. “Não menos importante, vamos lançar uma emissão que a meu ver tem tudo
para suscitar muito entusiasmo junto da população em geral e dos coleccionadores, em particular. O
nosso Farol da Guia faz 150 anos e não podíamos de todo deixar passar a ocasião em claro”,
salienta com irremissível orgulho a responsável máxima pela Direcção dos Serviços de Correios.