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Ministério Público admite falhas mas nega ilegalidades

Falhas sim, ilicitudes não. O Ministério Público admitiu na sexta-feira que as autoridades do
território não avançaram com todas as diligências necessárias para apurar a verdade no âmbito do
caso Luis Amorim.

Não houve surpresas na leitura das alegações finais relativas ao caso Luis Amorim. O Ministério
Público negou na sexta-feira a existência de qualquer ilicitude na forma como as autoridades de
Macau geriram as averiguações relativas à morte do jovem português, em Setembro de 2007.
Joaquim Sousa, o magistrado incumbido de assegurar a representação do Ministério Público,
reconheceu, ainda assim, a existência de falhas no processo de investigação.
As forças de segurança do território concluíram que a morte de Luis Amorim, a 30 de Setembro de
2007, se tratou de suicídio. A tese foi desde o início refutada pela família do jovem de 17 anos, que
acusou as autoridades de Macau de nunca terem equacionado e investigado a hipótese de homicídio.
Na sexta-feira, Joaquim Sousa admitiu que não foram tomadas todas as diligências necessárias e
reconheceu a existência de falhas no processo. O magistrado começou por admitir que o local onde
foi encontrado o corpo foi lavado quase de imediato, num gesto que inviabilizou a recolha de
indícios no local. O representante do Ministério Público admitiu ainda que as roupas do jovem
foram entregues à família sem ter sido conduzido qualquer exame pericial e reconheceu que
algumas das diligências sugeridas pelo pais de Luis Amorim não foram realizadas. Entre as
recomendações feitas pela família figurava a condução de uma segunda autópsia, expediente que foi
solicitado por mais do que uma ocasião e que o Ministério Público entendeu não ser necessário.
As omissões das autoridades do território têm, no entanto, um alcance mais vasto, anuiu na sexta-
feira Joaquim Sousa. O magistrado admitiu também que não foi feita “uma reconstituição dos
acontecimentos” no bar onde Luis Amorim foi visto pela última vez. A família suspeita que algo de
grave possa ter acontecido dentro do Bex, mas Joaquim Sousa diz que é impossível reconstituir o
que se passou no estabelecimento por existir um véu de silêncio sobre a fatídica noite em que o
jovem português foi encontrado morto: “Há um manto de silêncio sobre o assunto. Como é que a
polícia pode reconstituir?”, justificou.
O magistrado reconhece ainda que o bar – que fechou portas pouco tempo após o incidente – não
foi imediatamente investigado e que as gravações do sistema interno de videovigilância também
não foram requisitadas pela polícia. Os pais de Luis Amorim, que acusam as autoridades do
território de terem sido negligentes na forma como conduziram o processo, alertaram as forças de
segurança para a necessidade de serem ouvidos os funcionários do bar, mas quando a investigação
se prestou a interrogar os seguranças do estabelecimento já era tarde demais: “A polícia não ouviu
os funcionários, mas isso não quer dizer que não tenham sido feitas diligências para os encontrar.
Mas iam sempre parar a becos sem saída”, reconheceu Joaquim Sousa.
O representante do Ministério Público pôs ainda em casa as conclusões da análise pericial
encomendada ao Instituto Nacional de Medicina Legal de Portugal. O relatório indica taxativamente
que as lesões que Luis Amorim apresentava não eram compatíveis com uma queda, mas com
agressões, mas Joaquim Sousa alega que “os peritos de Coimbra basearam-se em fotografias, num
relatório com problemas de tradução e numa exumação que não permite análise de tecidos moles”.
O magistrado manifestou-se convicto que, por terem tido uma maior “imediação com o cadáver”, os
médicos de Macau possuem uma ideia mais rigorosa do que poderá ter acontecido ao jovem
português na noite de 30 de Setembro de 2007.
Nas alegações finais, o advogado da família Amorim, Pedro Redinha, voltou a criticar o facto das
autoridades do território terem rotulado o caso como suicídio desde a primeira hora. O causídico
considera que não ficou provado sequer que Luís Amorim tenha estado na ponte Nobre de Carvalho
e sustenta que a hipótese de queda é fictícia. Tendo por base os pareceres do Instituto de Medicina
Legal de Portugal e o relatório antropológico, a defesa sustenta a tese de que o jovem foi agredido.
A família de Luis Amorim instaurou um processo contra a RAEM por negligência das autoridades
na forma como a morte do jovem foi investigada. Os pais de Luis Amorim pedem uma
indemnização civil de 15 milhões de patacas. - com Agência Lusa.