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O nascimento da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) às zero horas de 20 de

Dezembro de 1999 entregou nas mãos da República Popular da China o exercício da soberania da
Cidade do Santo Nome de Deus, mas o aperto de mão com que Jorge Sampaio e Jiang Zemin
selaram a transferência da administração do território para as autoridades chinesas não obliterou
nem fez perigar as marcas de mais de quatro séculos de diálogo e de intercâmbio entre o Oriente e o
Ocidente, entre portugueses e chineses. Se é um facto que em termos jurídicos e administrativos,
Portugal deixou a 20 de Dezembro de 1999 de ser tido e achado na gestão dos assuntos de Macau,
não deixa também de ser relevante inferir que a cerimónia que pautou o regresso do território à
soberania chinesa não foi mais do que o ponto fulcral de um longo processo de ajustamento iniciado
a 13 de Abril de 1987 com a assinatura, em Pequim, da Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre
a Questão de Macau.
As necessárias rectificações induzidas pelo assumir do exercício da soberania da península e das
ilhas adjacentes por parte da República Popular da China reflectiram-se a título executivo, judicial e
legislativo em rupturas negociadas, com a entrada em vigor da Lei Básica da RAEM a fazer-se
acompanhar pela entrada em funções de um novo governo e de uma Assembleia Legislativa
reformulada. As alterações de índole política foram, ainda assim, a excepção e não a regra. Se a
título político a harmonização com a nova realidade administrativa de Macau tornou necessárias
mudanças com efeitos imediatos, domínios houve, como o desporto e a expressão lúdica, em que
o caminho se fez andando e a mecânica do ajustamento ao novo status do território como entidade
com uma autonomia alargada se materializou de forma progressiva, sem que se fizessem notar de
imediato alterações de ordem estrutural ou organizacional.
O advento da Região Administrativa Especial de Macau fez-se acompanhar pela óbvia adopção por
parte de associações e de organismos desportivos das cores e dos elementos que desde a retoma da
soberania por parte da China melhor simbolizam a nova realidade administrativa do território: o
verde esmeralda da bandeira regional tornou-se por analogia uma componente identitária, o mesmo
sucedendo com a flor de lótus de três pétalas. Com a transferência de soberania foram várias as
associações e colectividades desportivas que se reinventaram a título iconológico, com a adopção de
uma imagética mais consoante com o novo estatuto administrativo de Macau. Os organismos
responsáveis pela tutela de desportos como o futebol, o basquetebol, o tiro, o taekwondo ou o
hóquei em patins foram alguns dos que adoptaram a flor de lótus e a colocaram em lugar de
destaque nas novas insígnias, assumindo com um certo vanguardismo o corte simbólico com a
prática desportiva feita à sombra do estandarte do Leal Senado.
A ruptura acabou por se prefigurar mais circunstancial do que orgânica. A nova ordem política e
administrativa não acarretou sobressaltos nem em matéria de liderança, nem em termos de
conteúdos programáticos, com as novas autoridades da Região Administrativa Especial a
assegurarem a continuidade das competições e dos eventos organizados à data da transferência de
administração entre Portugal e a República Popular da China e a manutenção da hierarquia dirigente
no então Instituto dos Desportos e na Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau. O
primeiro continuou após 1999 a ser dirigido pelo macaense Manuel Silvério. A segunda,
responsável pela organização do principal certame desportivo regular a ter o território como palco, é
ainda hoje liderada por João Manuel Costa Antunes, engenheiro civil de formação que esteve
também à frente dos destinos da Direcção de Serviços de Turismo até ao final de 2012.
Se em matéria de desenvolvimento desportivo a retoma de Macau por parte da China se
caracterizou em termos imediatos mais pela continuidade do que por ajustamentos de vulto, não é
de todo despropositado situar, em termos de prática desportiva, a passagem de testemunho entre
Portugal e a República Popular da China onze meses depois da transferência factual de poderes
entre Lisboa e Pequim. A 19 de Novembro de 2000, a vitória de André Couto na Taça
Intercontinental de Fórmula 3 da Federação Internacional do Automóvel proporcionou, em 47 anos
de Grande Prémio de Macau, uma cerimónia inédita, simbólica da própria identidade do território.
Nascido em Lisboa, mas com sangue chinês da parte da mãe, o piloto – então com 23 anos – subiu
ao patamar mais alto do pódio, com a bandeira da Região Administrativa Especial de Macau a ser
hasteada por detrás, ao som da “Marcha dos Voluntários”, o hino nacional da República Popular da
China.
O 47º Grande Prémio de Macau foi o primeiro a realizar-se depois da transferência de poderes,
mantendo como sustentáculo de internacionalização a trindade composta pela Taça Intercontinental
de Fórmula 3, pelo Grande Prémio de Motociclismo e pela chamada “Corrida da Guia”. Catorze
anos depois, o triunfo de André Couto postula-se ainda como uma das maiores honras individuais
alcançadas por um desportista do território e apenas em 2012 se registou uma vitória com similar
capital simbólico, quando António Félix da Costa imitou André Couto e fez soar os acordes de “A
Portuguesa” no Circuito da Guia, 59 anos depois de Eduardo de Carvalho se ter sagrado o primeiro
vencedor do Grande Prémio de Macau.
O período que mediou entre os triunfos de André Couto e de António Félix da Costa na Taça
Intercontinental de Fórmula 3 foi um período de extensas modificações no âmbito do desporto
motorizado internacional, com o aparecimento e consolidação de novas competições e a
transfiguração das provas já enraizadas, com a adopção de novas directivas e regulamentos. A
conjugação de uma tal dinâmica com a maior disponibilidade financeira que, de um modo geral,
abonou a favor das economias asiáticas fez disparar o número de etapas do Campeonato do Mundo
de Fórmula 1disputadas nos circuitos do mais vasto continente do planeta, contribuindo de forma
preponderante para a erosão do binómio Sepang-Suzuka e, de um modo marginal, para um acentuar
da perda de prestígio e do capital de projecção do Grande Prémio de Macau.
Se na década de 80 e na primeira metade da década de 90 o certame era justamente entendido como
uma espécie de antecâmara do circo máximo da velocidade ou pelo menos a prova dos nove dos
que ambicionavam mais altos voos nas lides do desporto motorizado, com o passar dos anos, a Taça
Intercontinental de Fórmula 3 perdeu alguma capacidade de projecção e um triunfo na Guia deixou
de ser sinónimo de presença garantida por entre a elite do automobilismo mundial. Seis dos
vencedores das oito primeiras edições da corrida alcançaram carreiras bem sucedidas ao volante do
mais apetecido dos monolugares. Entre os pilotos que venceram no Circuito da Guia e depois
singraram na Fórmula 1 estão nomes incontornáveis do automobilismo mundial como Ayrton
Senna, David Brabham, Michael Schumacher ou David Coulthard, mas depois da viragem do
milénio vencer em Macau deixou de ser garantia do que quer que seja. Dos 15 pilotos que
triunfaram no Grande Prémio de Fórmula 3 após a transferência de administração, apenas o
brasileiro Lucas di Grassi, que venceu a prova em 2005, atingiu a categoria rainha do
automobilismo, sem se conseguir ainda assim afirmar nos meandros da Fórmula 1.
Nem o extraordinário feito alcançado em 2010 por Edoardo Mortara nos mais de seis mil metros do
traçado de Macau facilitou o acesso ao milionário circo máximo da velocidade. O ítalo-helvético
tornou-se o primeiro piloto a revalidar o ceptro intercontinental de Fórmula 3 em quase três décadas
de competição, ao repetir o triunfo na Guia depois de já ter ganho a prova em 2009.
Mais do que rampa de lançamento para mais altos voos, Macau tornou-se para as novas gerações de
pilotos um ritual de passagem: vencer na RAEM deixou de garantir o que quer que seja, mas o
triunfo acarreta um capital de prestígio que poucos se dão ao luxo de negligenciar. Dos 24 pilotos
que disputaram a edição de 2014 do Campeonato do Mundo de Fórmula 1, quinze competiram no
Grande Prémio de Macau e ainda que nenhum tenha triunfado na Guia, a proporção é por si só
exemplificativa do poder de atracção da competição.
Face às enormes alterações registadas nos meandros do desporto motorizado internacional, aos
responsáveis pela organização da prova não restou alternativa senão acompanhar o rumar do
tempos, com a introdução regular de novas corridas e categorias com o intuito único de manter o
cartaz competitivo do certame o mais atractivo possível. Neste âmbito, a mais significativa das
inovações teve como expoente a incorporação, em 2005, do Circuito da Guia no Campeonato do
Mundo de Carros de Turismo. O traçado do território passou a acolher desde então a derradeira
etapa do certame e a chamada “Corrida da Guia” desdobrou-se em duas mangas que ajudaram a
definir o nome do campeão do mundo da especialidade em sete das dez edições do WTCC
disputadas até à data. Ganha pela argentino José Maria López (que venceu também a primeira
manga no Circuito da Guia), a derradeira encarnação do Campeonato do Mundo de Carros de
Turismo pode ter pautado o adeus da competição ao traçado de Macau. A possibilidade não foi
ainda confirmada oficialmente, mas a imprensa da especialidade dá como certa a substituição da
prova por um novo certame, a TC3 International Series.
Durante a última década e meia foram várias as provas que pontificaram com maior ou menor
margem de sucesso no cartaz do Grande Prémio de Macau, mas o evento foi alvo de outras medidas
de ajustamento não tão visíveis, mas igualmente preponderantes. As mortes de Bruno Bonhuil, em
2005, e de Luis Carreira e de Philip Yau, em 2012 ensombraram de forma incontornável o evento e
aceleraram um certo impulso para a profissionalização das chamadas corridas de suporte do cartaz
da competição.