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GLOBALIZAÇÃO E DEMOCRACIA:

OS DIREITOS SOCIAIS NO CENÁRIO POLÍTICO BRASILEIRO

Lucíola Maria de Aquino Cabral1

SUMARIO

RESUMO. ABSTRACT. INTRODUÇÃO1. Sistema político brasileiro e


centralização política do poder. Federalismo e democracia no Brasil segundo
a Constituição Federal de 1988. Democracia e globalização no cenário
político brasileiro. Democracia e direitos sociais no Brasil pós 1988.
CONCLUSÃO. REFERÊNCIAS.

RESUMO

O presente artigo busca analisar de forma breve o tema da globalização, destacando aspectos
relacionados a democracia e a efetivação dos direitos sociais no contexto político brasileiro. Não
constitui seu objetivo aprofundar a discussão acerca das várias questões relacionadas ao tema, mas
tão somente demonstrar que o fenômeno da globalização concorre para o déficit da democracia nos
países periféricos e que, no caso específico do Brasil, acarretou também a necessidade de reformas
políticas e econômicas no Estado brasileiro. O modelo econômico adotado no Brasil, a partir da
Constituição da República de 1988, inicialmente não guardava sintonia com as novas regras da
economia mundial, sendo, portanto, incompatível com os mercados externos. Assim, a reforma do
Estado operada por sucessivas Emendas Constitucionais abriu as portas do país para investimentos
internacionais e para o capital, acarretando, em consequencia, uma crise generalizada da
democracia, acompanhada da não realização dos direitos sociais prometidos na Carta Federal e do
aumento das desigualdades sociais.

Palvras-chave: Globalização. Democracia. Economia. Direitos sociais. Desigualdades


sociais.

ABSTRACT

The goal of this paper is to analyze briefly the theme of globalization, pointing out aspects
related to democracy and the implementation of social rights in the Brazilian political context. The
paper does not intend to deepen the discussion about the various issues related to this theme, but
just to show that the globalization phenomenon collaborates to the deficit of democracy in the
peripheral countries and that, in the specific case of Brazil, it has also caused the need for political
and economic reforms in the Brazilian state. The economic model adopted in Brazil after the 1988
Federal Constitution was not aligned to the new world economic rules, being, therefore
incompatible with foreign markets. This way, the State reform opened opportunities to international
investments and capital, causing, as a consequence, a general crisis in democracy, marked by the
lack of implementation of social rights and the increase of social inequalities.

Key-words: Globalization. Democracy. Economy. Social rights. Social inequalities.

1
Doutora em Direito Constitucional (UNIFOR – Fortaleza), Doutora em Ciências Jurídicas e Sociais (UMSA,
Buenos Aires), Mestre em Direito Constitucional (UNIFOR – Fortaleza), Especialista em Direito Público
(UFC – Fortaleza), Procuradora do Município de Fortaleza. Professora da Universidade de Fortaleza -
UNIFOR e membro do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública - IBAP.
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INTRODUÇÃO

A Constituição Federal brasileira de 1998 é fruto de um processo de redemocratização e de


descentralização política instaurado depois de mais de 20 (vinte) anos de autoritarismo.
O processo de redemocratização trouxe consigo a descentralização política, fiscal e
administrativa, além da renovação do federalismo, objetivando a promover a melhoria dos serviços
públicos e da distribuição de renda.
O impacto dessas mudanças, principalmente nos aspectos da descentralização política e
tributária, sobre a federação e as políticas públicas, tem sido objeto de constantes debates, sendo
imprescindível que se ressalte a importância do funcionamento do sistema federal brasileiro para o
amortecimento das desigualdades sociais.
Necessário ressaltar, entretanto, que as mudanças empreendidas pelo texto constitucional não
foram suficientes para debelar a crise econômica instalada no país. Assim é que, em uma economia
globalizada, considerava-se indispensável efetuar novas alterações no ordenamento jurídico
brasileiro visando, por um lado, permitir o ajuste econômico e, por outro, viabilizar a abertura do
mercado interno para os investimentos internacionais.
Este trabalho analisa aspectos da globalização e da democracia no contexto político brasileiro.
No primeiro capítulo consta uma breve explanação acerca do sistema político e da centralização
política do poder por parte do chefe executivo. O segundo capítulo trata da democracia brasileira
ora enfocada sob a perspectiva da Constituição Federal de 1988. O terceiro capítulo aborda dois
temas polêmicos: democracia e globalização no cenário político brasileiro. Cuida-se, em seguida, de
analisar aspectos da democracia e dos direitos sociais no Brasil. Por último, trata-se do tema das
desigualdades sociais, incluindo-se aí o problema da pobreza e da exclusão social.

1 SISTEMA POLÍTICO BRASILEIRO E CENTRALIZAÇÃO POLÍTICA DO PODER

O art. 1º da Constituição Federal de 1988 preceitua que a República Federativa do Brasil é


formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constituindo-se em
Estado Democrático de Direito, fundamentando-se nos seguintes princípios: I) a soberania; II) a
cidadania; III) a dignidade da pessoa humana; IV) os valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa; V) o pluralismo político.
As constituições brasileiras, desde 1891, vem mantendo algumas linhas básicas, preservando,
por exemplo, os princípios da federação e da república, que exercem função de indiscutível relevo
no ordenamento jurídico nacional. Tais princípios constituem os pilares do sistema constitucional
brasileiro e destinam-se também a orientar a interpretação dos demais princípios que o integram.
O federalismo nasceu com a Constituição norte-americana de 1787, caracterizando-se pela
repartição espacial de poder, possibilitando a formação de múltiplas organizações governamentais,
distribuídas regionalmente, dotadas de autonomia política, administrativa e financeira. O Estado
Federal, portanto, configura-se pela reunião de dois tipos de entidades: a União e as coletividades
regionais autônomas (Estados federados).
Saliente-se, porém, que somente o Estado federal – que constitui o todo - possui
personalidade jurídica de Direito Público internacional, enquanto a União – formada pela reunião
das coletividades, constitui pessoa jurídica de Direito Público interno, autônoma em relação aos
Estados, competindo-lhe exercer as prerrogativas da soberania do Estado brasileiro. Os Estados-
membros, por sua vez, assim como os Municípios e o Distrito Federal, são entidades federativas
dotadas de personalidade jurídica de direito público interno e de autonomia.
No âmbito das relações internacionais, entretanto, o Estado federal é considerado como uma
unidade, por ser detentor da soberania.
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A autonomia do Estado federal assenta-se, basicamente, em dois elementos: a) na existência


de órgãos governamentais próprios, ou seja, que não dependam do órgão central relativamente à
forma de seleção e investidura; b) na posse de competências exclusivas. Tais elementos encontram-
se inseridos nos artigos 18 a 42 do texto constitucional em vigor.
A repartição de competências entre a União e os Estados-membros é inerente à natureza do
Estado federal, destacando-se, no caso do Brasil, a inserção dos Municípios como componentes da
federação. Internamente, portanto, a União exercita sua competência sobre um único corpo
nacional, reservando-se aos demais entes da federação o exercício das competências atribuídas pela
Constituição Federal.
Os limites da repartição de competências dos entes federados são fixados pela Constituição,
variando de acordo com o tipo de Estado federal. A Constituição Federal brasileira de 1988
estabeleceu um sistema de distribuição de competências mais equilibrado que as anteriores,
objetivando reduzir as desigualdades regionais e sociais e instituir uma convivência harmoniosa
entre o poder central e os poderes estaduais e municipais.
Os mecanismos de equilíbrio estabelecidos para preservar a harmonia entre os poderes
realçam a supremacia da república, tendo resultado daí a adoção do sistema presidencialista, nos
moldes de sua matriz norte-americana, estruturado com base nos ideais de democracia, liberdade,
igualdade e soberania popular.
Ademais, a opção do constituinte brasileiro pelo regime republicano de governo acarreta
desdobramentos no âmbito do sistema jurídico, a exemplo da aplicação do princípio da separação
dos poderes, a periodicidade dos mandatos políticos e a responsabilidade política do Chefe de
Governo.
No sistema presidencialista brasileiro, o representante do Estado acumula as funções de Chefe
de Estado e de Governo, constituindo o ponto central para onde convergem todas as instituições,
conforme salienta Ataliba:

Ocupa o lugar dos reis no ancien regime, com a diferença de que é eleito por período fixo,
predeterminado; o presidente da república é o centro catalisador e impulsionador de quase
toda a atividade política. É peça fundamental da armação institucional. Personifica o Estado
e tem nas mãos todos os instrumentos de comando e direção do Executivo, além de amplos
meios de liderança do próprio Estado. (ATALIBA, 2001, p. 52).

Examinando as atribuições do presidente da república constantes do atual texto constitucional,


é possível depreender que a concentração de poderes em uma só pessoa é um dos pontos de maior
destaque.
A história comprova, entretanto, que essa concentração exacerbada de poderes em uma só
pessoa representa um grave risco para as instituições, afigurando-se incompatível com a
democracia, em cuja essência repousa o princípio da legitimidade.
Muitas são as conseqüências da exacerbada concentração do poder nas mãos do Chefe do
Executivo. Em primeiro porque essa tendência não foi desejada pelos constituintes que procuraram
fortalecer o Legislativo e o Judiciário em detrimento do Executivo, fazendo inserir no texto
constitucional a possibilidade de implantação do sistema parlamentarista.
Em segundo, a concentração do poder em favor do Executivo possibilita amplo poder de
intervenção em áreas vitais ao desenvolvimento como economia e finanças, a exemplo do que
acontecia a época do Estado Novo.
Ocorre que, desde a Constituição de 1934 tem sido destacada a preocupação do Estado
brasileiro com relação aos desequilíbrios regionais e sociais. Entretanto, o tema ganhou amplitude a
partir da Constituição de 1946, quando a concepção de que a atuação estatal e o planejamento
passaram a ser considerados elementos essenciais para o desenvolvimento, fazendo com que as
demais Constituições cuidassem de instituir instrumentos visando à superação das desigualdades.
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Assim, federalismo cooperativo e Estado Social tem em comum o objetivo de promover a


igualdade de condições sociais e de vida dos cidadãos e a redução das desigualdades sócio-
econômicas, em consonância com as disposições do art. 3º da Constituição Federal de 1988. Tal
pressuposto só se cumprirá, entretanto, se os entes federados detiverem capacidade política e
econômica para realizar suas atribuições.

2 FEDERALISMO E DEMOCRACIA NO BRASIL SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO


FEDERAL DE 1988

Muitas e inumeráveis são as vantagens do federalismo, tanto que tornou-se a forma de


organização predominante do Estado democrático. Credita-se tal fato à descentralização do poder,
instrumento fundamental para o exercício da democracia.
Consoante Bastos, federalismo e democracia são instituições que se complementam:

Quer dizer, quanto mais perto estiver a sede do poder decisório daqueles que a ele estão
sujeitos, mais probabilidade existe de o poder ser democrático. Esse é um ponto
fundamental: não teremos uma autêntica democracia no Brasil se não houver uma forte
tendência descentralizadora. Urge, pois, abrir mão de certas velharias inseridas na
Constituição, que confundem a federação com um mecanismo de convivência de Estados
carentes de unidade nacional para abraçar a federação como um instrumento de
democracia. (BASTOS, 1999, p. 249).

O conceito de democracia, porém, não é algo estático, construído, definitivo. A democracia


não constitui, ela mesma, um valor-fim, mas, sim, um valoroso instrumento de realização de justiça
social, através da afirmação da vontade popular e da garantia dos direitos fundamentais. Mais
correto seria dizer com Silva, que a democracia ultrapassa o velho conceito de Lincoln:

(....) podemos aceitar a concepção de Lincoln de que a democracia, como regime político, é
governo do povo, pelo povo e para o povo. Podemos, assim, admitir que a democracia é
um processo de convivência social em que o poder emana do povo, há de ser exercido,
direta ou indiretamente, pelo povo e em proveito do povo. Diz-se que é um processo de
convivência, primeiramente para denotar sua historicidade, depois para realçar que, além de
ser uma relação de poder político, é também um meio de vida, em que, no relacionamento
interpessoal, há de verificar-se o respeito e a tolerância entre os conviventes. (SILVA, 1999,
p. 130).

O exercício da democracia não exige o cumprimento de pré-requisitos, mas requer a


persecução de objetivos sociais, através da universalização de prestações pessoais como seguridade,
saúde, assistência social, educação, cultura, e melhoria da qualidade de vida, que deverão ser
asseguradas pelo regime democrático, a fim de viabilizar o cumprimento do princípio da igualdade
material. Ressalte-se que a universalização e a participação popular inserem-se entre os
fundamentos do Estado Democrático de Direito, conforme previsão constante do art. 1º da
Constituição Federal brasileira de 1988.
A democracia, segundo a doutrina, abriga três princípios básicos: i) o princípio da maioria; ii)
o princípio da igualdade, e iii) o princípio da liberdade.
Aristóteles entendia haver várias espécies de oligarquia e de democracia, classificando a
democracia em cinco categorias, a saber:

La primera forma de democracia es la que recibe este nombre en aténcion sobre todo al
principio igualitário. Otra forma de democracia es aquella en que las magistraturas se
distribuyen de acuerdo con los censos tributarios, pero éstos son reducidos, por más que
sólo quien posee la necesaria propriedad puede participar en el gobierno, y no participa
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quien la ha perdido. Otra forma de democracia es aquella en que pueden participar del
gobierno todos los ciudadanos cuya ascendencia sea inobjetable, pero, en última instancia,
gobierna la ley. Otra forma de democracia consiste en que todos puedan participar de las
magistraturas, con sólo que sean ciudadanos, pero también gobierna la ley. Otra forma de
democracia es en todo como la anterior, excepto que es el pueblo y no la ley el soberano; y
esto ocurre cuando los decretos de la asamblea tienen supremacía sobre la
ley.(ARISTOTELES, 1994, p. 225).

Relativamente à última forma de governo em que o povo, e não o rei, é o soberano,


Aristóteles explicava que esta situação se produzia por obra dos demagogos, que nasciam onde as
leis não eram soberanas. Afirmava ainda, que essa democracia era censurável, pois não era
verdadeiramente uma república ou governo constitucional, porque, onde as leis não governam, não
existe república.
Desde Aristóteles, a liberdade e a prevalência da opinião da maioria são citadas como
princípios da democracia, todavia, Silva adverte que maioria não é princípio, mas simples técnica
de que se serve a democracia para tomar decisões no interesse geral, considerado um determinado
momento histórico. Não sendo princípio nem dogma da democracia pode ser substituída por outra
técnica mais adequada, como é o caso da representação proporcional, onde o povo participa, por
meio de seus representantes, no poder. (SILVA, 1999, p. 134).
Consoante Dahl, o parlamento se originou nas assembléias locais convocadas
esporadicamente, sob a pressão de necessidades, durante o reinado de Eduardo I, no período
compreendido entre 1272 e 1307. (DAHL, 2001:31).
As assembléias locais haviam sido criadas para permitir a participação dos homens livres nas
decisões do governo, que precisava do consenso dos governados para aumentar os impostos.
Posteriormente, esta prática passou a ser adotada também em relação às leis em geral.
A partir do século XVIII, entretanto, a evolução do parlamento conduziu a um sistema
constitucional caracterizado pela limitação de poderes onde o poder da aristocracia hereditária da
Casa dos Lordes era controlado pelo poder exercido pelo povo através da Câmara dos Comuns. Por
outro lado, as leis promulgadas pelo rei e pelo parlamento eram interpretadas por juízes que, em
geral, exerciam suas funções com certa independência de um e de outro.
Esse modelo foi muito louvado por Montesquieu, vindo a inspirar os colonos americanos na
criação de uma nova república, dotada das virtudes do sistema inglês, porém, sem os vícios da
monarquia. Verifica-se, portanto, que as idéias e práticas políticas originadas na Europa
contribuíram decisivamente para a formação de convicções e instituições democráticas.
Dahl destaca, ainda, que o governo representativo não possui origem democrática, embora
tenha sido inserido na teoria e na prática democrática:

O governo representativo não se originou como prática democrática, mas como artifício
pelo qual os governantes não-democráticos (principalmente os monarcas) poderiam enfiar
as mãos em valiosos rendimentos e outros recursos que desejavam, especialmente para
fazer as guerras. Em sua origem, a representação não era democrática: era uma instituição
não-democrática, mais tarde enxertada na teoria e na prática democrática. (DAHL, 2001, p.
118).

Contudo, a questão que se quer colocar respeita ao dilema básico da democracia lançado por
Dahl acerca da participação do cidadão nas decisões políticas e da eficácia do sistema, considerados
o número de pessoas numa unidade política e a extensão de seu território:

Quanto menor a unidade democrática, maior seu potencial para a participação do cidadão e
menor a necessidade de que os cidadãos deleguem as decisões do governo aos seus
representantes. Quanto maior a unidade, maior sua capacidade para tratar de problemas
importantes para seus cidadãos e maior a necessidade dos cidadãos delegarem as decisões a
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representantes. (DAHL, 2001, p. 125).

O lado sombrio do governo representativo, como anuncia Dahl, consiste no fato de que, nele,
os cidadãos delegam imensa autoridade arbitrária para decisões de extraordinária relevância não
somente aos seus representantes eleitos, mas também a administradores, burocratas, funcionários
públicos, juízes e, em grau ainda maior, a organizações internacionais.
A propósito da democracia representativa, deve ser enfatizado que a moderna sociedade
política ocidental tem suas raízes fincadas nas revoluções americana (1776) e francesa (1789), tendo
se constituído, originalmente, sobre duas vertentes democráticas: a democracia direta ou popular e a
democracia liberal ou formal.
Chomsky explica que a diferença fundamental entre esses dois tipos de democracia reside na
conceituação da relação entre o poder operativo do Estado e a influência do povo sobre este,
destacando que:

En la democracia direta las minoryas tienden – en teoria – a ser el verdadero soberano del
proceso democrático; en la democracia liberal, el poder real operativo del Estado está en
manos de la clase dominante, con el pueblo jugando un papel aclamatório y legitimador.
(...) Con la implosion del socialismo europeo y su correspondiente superestructura política
– “democracia popular” -, la democracia liberal se impuso como hegemônica en el mundo,
de tal manera, que quando hoy dia se habla de “la democracia”, se refiere generalmente a
este tipo de organización política. (CHOMSKY, 1997, p. 157).

Bobbio, por sua vez, distingue entre democracia participativa e Estado parlamentar,
explicitando que a expressão “democracia participativa” refere-se às deliberações coletivas, ou seja,
aquelas que são afetas à coletividade como um todo. Tais deliberações, embora tomadas por pessoas
que integram essa sociedade, são efetivadas por pessoas eleitas para esta finalidade. (BOBBIO,
2000, p. 56).
Com efeito, é preciso trazer ao debate intelectual e político algumas indagações sobre o tema
democracia, como por exemplo: a) o que é democracia; b) quais são seus limites, alcances e
objetivos mínimos; c) o que cada indivíduo entende por democracia, de acordo com sua situação
econômico-social; d) que problemas resolverá a democracia; e) o que o cidadão comum ou o
intérprete entende por democracia diante de suas condições objetivas de existência.
Estas e outras indagações foram colocadas por Bercholc, que destaca a necessidade de
delimitar de alguma forma o conceito de democracia dentro de uma perspectiva realística e
dinâmica, sem, todavia, aprisioná-lo em uma fórmula estanque e excludente, a fim de serem
evitados equívocos intermináveis. (BERCHOLC, 2003, p. 51).
A discussão merece ser aprofundada, todavia, a amplitude dessas questões ultrapassa o escopo
deste trabalho, devendo, por isso, ser tratada em outro momento.
Não se pode ignorar, entretanto, a inexorável realidade do mundo hodierno que evidencia a
crise enfrentada pelos países em geral e, em especial, pelo Brasil, relativamente ao exercício da
democracia e da soberania, dentro do contexto da globalização.

3 DEMOCRACIA E GLOBALIZAÇÃO NO CENÁRIO POLÍTICO BRASILEIRO

O fenômeno da mundialização da economia criou uma realidade nova onde não se


reconhecem fronteiras físicas ou geográficas para o mercado capitalista, que, entretanto, está a
exigir mudanças nas relações políticas e sociais entre os Estados.
Nesse sentido, Campilongo anota que “O sistema global – na era das comunicações ultra-
rápidas e da informatização da sociedade – é fenômeno novo, mutante e de configurações ainda
incertas. A democracia precisa ajustar-se a ele. (CAMPILONGO, 2000, p. 102).
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A globalização, na esfera da política, acarreta a universalização de valores considerados como


tais por outros povos e por outras culturas, como, por exemplo, os valores da democracia, os
direitos humanos e a preservação ambiental. Daí resulta a importância da discussão sobre a
instituição de um regime internacional, em decorrência de interesses e objetivos comuns dos povos
e Estados, com reflexos sobre as respectivas instituições nacionais.
A importância de um regime internacional se evidencia quando a ele aderem a maioria dos
atores internacionais, tornando-se, por conseguinte, razoavelmente consensual no mundo. Exemplo
disto são os acordos internacionais concernentes a experiências atômicas e a preservação ambiental.
A participação dos diversos países no processo decisório acarreta o comprometimento com os
resultados alcançados, trazendo, ademais, conseqüências políticas para os Estados. Tais
conseqüências, no âmbito político, encontram-se diretamente ligadas à questão do exercício do
poder – à democracia - e ao enfraquecimento do Estado, consoante observa Vigevani:

Como sabemos, a globalização traz como uma de suas conseqüências mais importantes
exatamente o debilitamento do Estado. Em primeiro lugar porque este tem que adequar-se
aos regimes internacionais livremente pactuados, limitadores das decisões nacionais. Em
segundo lugar, e uma vez que o processo de globalização significa que o espaço econômico
é global, porque as decisões que incidem sobre o planejamento dos Estados escapam cada
vez mais ao seu controle, portanto à capacidade de decisão da sociedade. (VIGEVANI,
apud DOWBOR et al, 2000, p. 294).

A novidade introduzida pela globalização nas relações políticas entre os Estados remete aos
temas da legitimidade e da democracia diante de uma nova conjuntura. A crise do Estado moderno
torna imprescindível a modificação das regras do Estado de Direito e das políticas sociais que o
integram. A flexibilização atende, portanto, as necessidades criadas pela revolução nas forças
produtivas: a sociedade informática, a revolução da inteligência artificial e a informação, como
elementos fundamentais de valorização do capital. (GENRO, 2002, p. 85).
Retorna-se, pois, ao tema da legitimidade como pressuposto da democracia, nos exatos termos
referidos por Bercholc:

Desde ya que nos referimos al concepto de legitimidad en su sentido mentado de obtención


por la autoridad política, de consenso, aceptación y obediência por parte de los ciudadanos
y la población en general, para un programa de gobierno o con decisiones tomadas desde la
administración del Estado, en grado tal que permita la implementación de las decisiones y
que las mismas sean acatadas sin necesidad o con la aplicación mínima necesaria a efectos
del acatamiento, del poder de coerción que monopoliza el Estado. (BERCHOLC, 2003, p.
51).

No tocante a este aspecto, Chomsky chama atenção para a escassa legitimidade demonstrada
com o resultado alcançado nas eleições do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A estratégia
política utilizada pelo ex-presidente durante sua campanha eleitoral baseou-se na estrutura do mito
em sentido antropológico, ou seja, na existência do bem e do mal representados, respectivamente,
pela estabilização e pela inflação. O mito caracterizado pela moeda fez reverter uma situação de
popularidade eleitoral desvantajosa diante do candidato Luis Inácio da Silva no curto período de
oito meses.

Se consideramos esta política de manipulación dentro del contexto educativo brasileño,


discutido en capítulos anteriores, y del hecho de que la votación efectiva en las elecciones
de 1990 y 1994 fue de 48,7 por ciento e 48,2 por ciento del electorado con derecho a
sufrágio, entonces queda clara la escasa legitimidad del cargo que ostenta Cardoso.
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(CHOMSKY, 1997, p. 158).

Contudo, para explicar o processo da globalização, Bercholc descreveu alguns elementos


visando desenvolver uma teoria de um novo tipo de Estado que está sendo gestado: o Estado
Supranacional, onde os processos de integração econômica e de supranacionalidade política estão
assentados em três pilares:

Los três pilares del proceso de Supranacionalidad e Integración los identificamos con los
efectos centrípetos de:
1. La centralización política y la superposición de estructuras administrativas de los
Estados Supranacionales, los Estados Nacionales y las tensiones con los Estados
Regionales.
2. La concentración econômica y la imposición de su “racionalidad” por sobre las
perspectivas políticas clásicas.
3. La homogeneización cultural y su fuerte articulación con la moderna tecnología
disponible en los medios de comunicación masiva. (BERCHOLC, 2003, p. 157).

O fenômeno da mundialização da economia, como preferem denominar os franceses,


dissemina seus efeitos não somente na economia, mas nas relações políticas dos Estados, tanto
externa como internamente, estendendo-se sobre seus territórios e sua população. A nova ordem
mundial impõe que os conceitos de política, de democracia e de Estado sejam revistos, em face do
processo de integração instaurado nos diversos espaços.
Esse processo de integração, se por um lado, acarreta a universalização de alguns valores, por
outro, possui um custo social e político muito elevado, na medida em que interfere no ordenamento
jurídico dos Estados, modificando os contornos de sua soberania, criando níveis diferenciados entre
aqueles menos desenvolvidos economicamente.
O velho paradigma do Estado soberano tornou-se obsoleto, impondo a superação da forma do
Estado nacional e a reconstrução do direito internacional não mais sob o fundamento da soberania
dos Estados, mas, sim, da autonomia dos povos. Reformula-se, assim, o conceito clássico de
soberania que resulta agora compartida e delegada aos órgãos supranacionais.
A centralização política, a concentração econômica e a homogeneização cultural constituem
traços característicos dos processos de integração econômica e de constituição de Estados
supranacionais. A supranacionalidade, entretanto, acarreta um déficit democrático, tornando
essencial que o Estado propicie condições favoráveis ao desenvolvimento e expansão da
democracia, cujo maior problema hoje reside em sua capacidade ou incapacidade em dar respostas
eficientes ao acúmulo de demandas que se apresentam no cenário de pobreza e exclusão social e
perda da cidadania (desciudadanización).
Assiste-se hoje a uma crise e processo de superação dos Estados Nacionais, em decorrência
do processo de globalização que ampliou o mercado econômico de livre comércio, cuja tendência
aponta para a transformação do mundo em um grande mercado comercial, com predominância do
econômico sobre o político e onde a cultura constitui apenas mais um produto industrial a ser
consumido.
É necessário, portanto, que seja enfrentada a questão de fundo concernente à reforma do
Estado, que compreende em sua dimensão a reforma do aparelho do Estado, incluindo aspectos
técnicos, organizacionais e políticos. Cuida-se de distinguir entre governança e governabilidade. A
primeira refere-se à reformulação da forma burocrática de administração e de prestação de serviços
públicos, visando à eficiência do agir estatal. A segunda diz respeito à redefinição das funções do
Estado, à forma de intervenção econômica e social, suas relações com o mercado e a sociedade e,
sobretudo à relação entre seus próprios poderes.
Vale ressaltar que, dentro do programa de ajuste estrutural e de reforma do Estado, o tema da
descentralização se destaca em função de sua amplitude conceitual que interage com outros
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conceitos como, por exemplo, autonomia, flexibilização, democratização, transparência,


participação popular, federalismo, subsidiariedade, privatização e terceirização de serviços públicos.
(BENTO, 2003, p. 114).
A descentralização política é inerente à forma federativa de Estado, em especial a
problemática da autonomia das entidades que o integram. Contudo, a definição de descentralização
deve destacar a separação entre um núcleo governamental formulador de estratégias e uma periferia
implementadora não necessariamente estatal. (BENTO, 2003, p. 116).
Ademais, no debate acerca da descentralização, o conceito de comunidade ganha especial
importância, estando relacionado a uma sociedade onde os cidadãos participam de sua construção.
Entretanto, a operacionalização de um novo modelo de administração pública descentralizada
requer o desenvolvimento de novos mecanismos de gestão, mais ágeis e capazes de adaptar-se às
diversas situações da atualidade, assim como a aplicação de procedimentos de democracia direta e
participativa na formulação de políticas públicas e na implementação de serviços, devidamente
acompanhados da descentralização de recursos públicos.
A descentralização política e administrativa, portanto, são indissociáveis da descentralização
econômica e da autonomia fiscal, passando, nos Estados federais, pela reformulação do pacto
federativo. Tal assertiva se propõe com base no princípio da subsidiariedade, aplicável sempre que
houver dualidade ou pluralidade de forças sociais ou políticas, ou ordenamentos jurídicos, incidindo
sobre um mesmo objeto ou cuidando de uma mesma tarefa. Trata-se de um princípio conformador
da sociedade, que reconstrói as relações entre ela e o sistema político, visando à “autonomia da
pessoa humana em face das estruturas sociais”. (BENTO, 2003, p. 123).
Deve-se considerar, ainda, que a reforma da gestão pública brasileira realizada no período
compreendido entre 1995-98 foi fundamentada em dois princípios básicos: i) tornar os
administradores ou gestores públicos mais autônomos e responsáveis; ii) conferir ao Estado
somente a execução de tarefas que lhe são próprias (aquelas que envolvem o emprego do poder de
Estado, ou que apliquem os recursos do Estado). (PEREIRA, s.d., p.13).
Não há dúvida de que o Brasil necessita de um novo pacto, uma vez que a Constituição de
1988 perdeu sua força normativa em face das reformas engendradas pelo poder central. (SOARES,
2001, p. 471).
Observa-se ademais, que a redução das desigualdades regionais e sociais não foi
implementada, tendo em vista que o Brasil, visando à reduzir o déficit público, optou por seguir o
receituário do Fundo Monetário Internacional - FMI, o que concorreu para o agravamento nesses
últimos anos das desigualdades sociais, em face das políticas de arrocho salarial e de concentração
de renda.
Em síntese, a política neoliberalista é tida como justificadora de reformas políticas e
econômicas supostamente capazes de ampliar a liberdade e a participação dos indivíduos no
processo democrático, bem como de promover a melhoria das condições sociais. Contudo, na
prática, sua maior realização consiste em liberar as amarras internas dos países para o grande
capital.
São várias as metáforas por meio das quais se expressam alguns dos ideais mais específicos e
as características gerais do neoliberalismo: nova ordem econômica mundial, mundo sem fronteiras,
aldeia global, fim da geografia, fim da história e outras. Estes são, porém, elementos essenciais ao
discurso ideológico sob o qual se reiteram e se agravam desigualdades e contradições estruturais,
tais como: o trabalho subordinado ao capital, o trabalhador subordinado a máquina ou ao
computador, o consumidor ao mercado, o bem estar à eficiência, a qualidade à quantidade, a
coletividade à lucratividade. (IANNI, 1999, p. 187, tradução nossa).

4 DEMOCRACIA E DIREITOS SOCIAIS NO BRASIL PÓS 1988


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Os direitos sociais encontram-se previstos nos artigos 6º a 11, da Constituição Federal de


1988, colocando-se no mesmo patamar dos direitos fundamentais, sendo razoável concluir que o
tratamento dispensado à matéria justifica-se pelo fato de o constituinte ter conferido valor
transcendente ao princípio da dignidade da pessoa humana. (SILVA, 1999, p. 288).
Nesse sentido, a eficácia das normas constitucionais relativas aos direitos sociais não pode
ficar comprometida, tendo em vista que tais direitos devem possibilitar o exercício das liberdades
civis e políticas inerentes à democracia, sustentando o citado autor que os direitos sociais valem
como pressupostos de gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais
mais propícias ao auferimento da igualdade real, podendo ser agrupados em cinco classes distintas,
a saber: a) direitos sociais relativos ao trabalhador; b) direitos sociais relativos à seguridade,
compreendendo os direitos à saúde, à previdência e à assistência social; c) direitos sociais relativos
à educação e à cultura; d) direitos sociais relativos à família, criança, adolescente e idoso; e) direitos
sociais relativos ao meio ambiente. (SILVA, 1999, p. 290).
Os direitos sociais têm origem no princípio da igualdade, um dos pilares da democracia,
constituindo-se em prestações positivas do Estado destinadas à melhoria da qualidade de vida dos
cidadãos, através de instrumentos que propiciem a equalização de situações sociais desiguais.
A concepção dos direitos sociais como prestações positivas do Estado explicita um
compromisso assumido no sentido de promover a realização em concreto desses direitos,
estabelecendo-se as necessárias garantias políticas para sua eficácia:

Primeiro, a construção de um regime democrático que tenha como conteúdo a realização da


justiça social. Segundo, o apoio a partidos e candidatos comprometidos com essa
realização. Terceiro, a participação popular no processo político que leve os governantes a
atender suas reivindicações, tal como a vontade política que conduziu os Constituintes a
inscrever esses direitos de forma ampla e abrangente. (SILVA, 2004, p. 3).

A dificuldade na efetivação dos direitos sociais reside em sua identificação como direito
subjetivo, e, portanto, insusceptível de oposição contra o Estado. A realização dessas prestações
dependeria de sua previsão em lei ordinária, por tratar-se, em alguns casos, de normas de conteúdo
programático. Esse entendimento, entretanto, é rechaçado por autores como Canotilho e Perez
Luño, conforme observa Silva:

A primeira coisa que é preciso rechaçar, como nota Perez Luño, é "a afirmação de que
enquanto os direitos de liberdade se beneficiam da tutela constitucional diretamente os
direitos sociais não podem ser objeto imediato de tal tutela, pois, se a constituição pode
formular positivamente os direitos sociais pode também tutelá-los em igual medida que os
demais direitos nela proclamados". Daí que é preciso repensar também a doutrina das
normas programáticas, em termos que aqui não poderemos mais que sugerir, buscando
responder à pergunta feita por Canotilho: "como pode (se é que pode) uma constituição
servir de fundamento normativo para o alargamento das tarefas estatais e para a
incorporação de fins econômico-sociais, positivamente vinculantes das instâncias de
regulação jurídica?"
Certo é que muitas das normas constitucionais que outorgam os direitos sociais requerem
uma atividade legislativa posterior para a sua concretização, mas daí não se pode concluir
pela sua não preceptividade. "A sua disciplina - diz Canotilho - é obrigatória e as directivas
por elas definidas, longe de serem meros convites para legislar, assumem o caráter de
verdadeiras imposições constitucionais de actividade legiferante". Significa isso repelir a
tese dos direitos econômicos, sociais e culturais como simples direitos legais, tese que
assenta fundamentadamente na concepção de que tais diretivas "não alicerçam qualquer
pretensão subjectiva, judicialmente accionável", pois só "quando o legislador concretiza
essas diretivas, fundamentando poderes jurídicos subjectivos, é que se pode falar de direitos
subjectivos", logo, "os direitos subjectivos só existem no âmbito da lei ordinária" não no
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âmbito da própria norma constitucional programática. (SILVA, 2004, p. 3).

Uma outra questão que se coloca diz respeito à eficácia desses direitos diante de terceiros,
considerando-se que alguns direitos sociais, tais como os relativos aos trabalhadores, como observa
Silva, não configuram meras prestações estatais, mas são impostas a terceiros, no caso, as empresas
privadas. Nesse caso, sua aplicação alcança pessoas privadas, extrapolando a concepção de que se
trata apenas de direitos públicos subjetivos destinados a regular relações de subordinação entre o
Estado e os cidadãos, ressaltando Silva que esse entendimento decorre da idéia de que os direitos
fundamentais são apenas os preceitos normativos surgidos para tutelar os cidadãos contra a
onipotência do Estado não se justificando nas relações entre particulares. Essa visão, entretanto,
encontra resistência entre os autores estrangeiros como se observa adiante:

É fácil advertir o caráter ideológico deste raciocínio ligado a uma concepção puramente
formal da igualdade entre os diversos membros integrantes da sociedade. Mas é um fato
notório que na sociedade moderna neocapitalista essa igualdade formal não supõe uma
igualdade material, e que nela o pleno desfrute os direitos fundamentais se vê, em muitas
ocasiões, ameaçado pela existência no plano privado de centros de poder, não menos
importantes do que os que correspondem aos órgãos públicos. Daí que se tenha tido que
recorrer a uma série de medidas destinadas a superar os obstáculos que de fato se opõem ao
exercício dos direitos fundamentais por parte da totalidade dos cidadãos no plano da
igualdade. (LUÑO, apud SILVA, 2004, p.3).

O tema tem sido objeto de estudos mais desenvolvidos em países como Alemanha, Espanha e
Portugal, tratando-se, segundo a doutrina alemã, da “eficácia externa dos direitos fundamentais”,
que pretende superar a tese de que os direitos fundamentais só podem ser contrapostos aos poderes
públicos, únicos obrigados a respeitá-los.
Ubilos, por sua vez, entende que “os poderes privados constituem hoje uma ameaça para o
gozo efetivo dos direitos fundamentais não menos inquietantes que a representada pelo poder
público”. (UBILOS, apud SILVA, 2004, p. 4).
De regra, as normas referentes aos direitos fundamentais possuem aplicabilidade imediata,
porém, a vigente Constituição condiciona o exercício de alguns direitos sociais a uma lei de
natureza integradora, resultando daí que tais direitos possuem eficácia contida e aplicabilidade
indireta.
No contexto do Estado Social, a execução de políticas públicas constitui tarefa primordial
para sua realização, exigindo, em contrapartida, a elaboração de um planejamento para a
implantação de políticas sociais a médio e longo prazo. O Estado torna-se responsável pelo bem
estar coletivo, materializado através dos direitos sociais, sob o amparo da democracia, objetivando
assim, assegurar o direito à igualdade com a garantia de liberdade.
Como ressalta Bercovici, o Estado não se limita mais a promover a igualdade formal, a
igualdade jurídica, e que a igualdade perseguida é a igualdade material, não mais perante a lei, mas
através da lei. Nesses termos, justifica-se a intervenção do Estado para garantir a igualdade de
oportunidades e a liberdade. (BERCOVICI, 2004, p. 3).
As políticas públicas encontram seu fundamento na necessidade de concretização de direitos
por meio de prestações positivas do Estado, que poderiam estar contempladas genericamente em
uma política de desenvolvimento econômico e social nacional, visando à erradicação da pobreza e
das desigualdades.
O planejamento, portanto, apresenta-se como instrumento legitimador das ações do Estado,
constituindo “expressão da política geral do Estado” e, nesse aspecto, comprometido
axiologicamente, tanto pela ideologia constitucional, como pela busca da transformação do status
quo econômico e social.
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O que ocorre, entretanto, é que existe um distanciamento entre as diretrizes contidas nas
normas constitucionais e a realidade política e social brasileira. Embora a Constituição Federal de
1988 tenha estabelecido os fins e os objetivos a serem alcançados pelo Estado e pela sociedade,
caracterizando-se, por isso mesmo, como uma Constituição dirigente, ela não se substitui à
atividade política.
Como afirmou Schneider, a Constituição é, fundamentalmente, direito político: do, sobre e
para o político. E é por meio da política (e do Estado), conforme destacou Streck, que a
Constituição vai ser concretizada. (SCHNEIDER, apud BERCOVICI, 2004, p. 4). Retorna-se,
portanto, ao ponto central da questão: o dever de proteção do Estado brasileiro contra todas as
formas de desigualdade – pobreza e exclusão social.
Cuida-se, no caso, de assegurar o exercício da igualdade formal, que se coloca como
pressuposto do exercício da liberdade e como norma impositiva das ações do Estado para sua
efetivação, notadamente no que concerne à implementação de políticas sociais e econômicas.
O princípio da igualdade irradia-se em vários dispositivos do texto constitucional,
inaugurando o art. 3º que trata dos objetivos fundamentais da República Federativa brasileira. As
disposições constantes do citado art. 3º são explícitas em determinar aspectos de atuação prioritária,
nas esferas pública e privada, visando à consolidação do Estado Democrático de Direito. Tais
objetivos, de outra parte, revelam a própria razão de ser do Estado brasileiro, constituindo cláusulas
do pacto social onde os direitos fundamentais funcionam como instrumentos para sua consecução,
de acordo com os meios assegurados pelo ordenamento para garantir seu atingimento.
A Constituição Federal de 1988, segundo Bonavides, é, basicamente, em muitas de suas
dimensões essenciais uma Constituição do Estado social e, portanto, refratária ao individualismo no
Direito e ao absolutismo no Poder. (BONAVIDES, 2003, p. 371). Contudo, o maior problema
enfrentado pelo direito Constitucional hodierno consiste em como juridicizar o Estado social, como
estabelecer e inaugurar novas técnicas ou implementar institutos processuais aptos a garantir o
exercício dos direitos sociais básicos, a fim de torná-los efetivos. Nesse aspecto, o Estado social
brasileiro, instaurado a partir da Carta de 1988 fez consideráveis avanços, inserindo no vigente
ordenamento jurídico institutos destinados à salvaguarda dos direitos fundamentais denominados de
“remédios constitucionais”, a exemplo do mandado de injunção, o mandado de segurança coletivo e
a ação direta de inconstitucionalidade por omissão. 2
Salienta Bonavides que “o Estado social brasileiro é, portanto, de terceira geração, em face
desses aperfeiçoamentos: um Estado que não concede apenas direitos sociais básicos, mas os
garante”. (BONAVIDES, 2003, p. 373).
Não se cuida, portanto, de normas de conteúdo programático, destinadas a pacificação de
conflitos pela simples positivação, mas, sim, de obrigações que devem ser perseguidas pelo poder
público e pela sociedade, conjuntamente.
2
O mandado de injunção encontra-se previsto no inciso LXXI, do art. 5º, da CF/88: “Conceder-se-á
mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício de direitos e
liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania”. Nos
termos do art. 8º, III da CF/88, o mandado de injunção poderá ser impetrado por sindicato para defesa dos
direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria.
O mandado de segurança coletivo encontra-se previsto no inciso LXX, do art. 5º, da CF/88 com a seguinte
redação: “O mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação
no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e
em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados”.
A Constituição Federal de 1988, por força do princípio da supremacia, que requer que todas as situações
jurídicas se conformem com os princípios e preceitos constitucionais, reconhece duas formas de
inconstitucionalidade: a) por ação – quando a produção de atos legislativos ou administrativos contrariam
normas ou princípios constitucionais, contrariando, assim, o princípio da compatibilidade vertical das
normas; b) por omissão – quando não sejam praticados atos legislativos ou administrativos requeridos para
tornar plenamente aplicáveis normas constitucionais. A ação de inconstitucionalidade encontra-se prevista
no art. 103 da Constituição de 1988.
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No âmbito internacional, Arzabe destaca a importância da Declaração de Direitos Humanos,


de 1948, que estabelece que os direitos econômicos, sociais e culturais são indispensáveis à
dignidade da pessoa e ao livre desenvolvimento da personalidade e que sua realização constitui
direito de cada membro da sociedade, nos termos de seu art. XXIII e XXV:

Art. XXIII – 1. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a
condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. 2. Toda pessoa
que trabalha tem o direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim
como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se
acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
Art. XXV – 1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua
família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e
os serviços socais indispensáveis, o direito à segurança, em caso de desemprego, doença,
invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em
circunstâncias fora de seu controle.

Outros documentos mencionados por Arzabe referem-se ao Pacto Internacional dos Direitos
Econômicos Sociais e Culturais e o Pacto Internacional dos Direitos Políticos, que explicitam, em
seus respectivos preâmbulos, a relação entre a privação no âmbito econômico e o gozo dos direitos
econômicos, sociais e culturais, dispondo que os Estados-Partes reconhecem que:

Em conformidade com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o ideal do ser


humano livre, liberto do temor e da miséria, não pode ser realizado a menos que se criem
condições que permitam a cada um gozar de seus direitos econômicos, sociais e culturais,
assim como de seus direitos civis e políticos. (ARZABE, 2009, p. 8).

Evidencia-se, portanto, que as desigualdades sociais e econômicas inviabilizam o acesso


material aos direitos fundamentais do cidadão assegurados formalmente pelos instrumentos
internacionais de proteção de direitos humanos, pela Constituição Federal e pela legislação
infraconstitucional.

CONCLUSÃO

O tema das desigualdades sociais traz à tona a discussão acerca das políticas sociais no Brasil,
cujos indicadores traduzem a ineficiência do Estado para efetivação dos direitos sociais assegurados
pela Constituição, bem como a ausência de políticas nacionais coordenadas visando ao
desenvolvimento econômico e à redução da pobreza.
A construção de uma sociedade mais justa e igualitária requer, entretanto, a compatibilização
entre os objetivos e a execução dos respectivos programas da área social, o que exigiria uma
política nacional, além de disponibilidade e constância dos recursos para sua implantação e
continuidade.
As políticas e programas sociais implementados no país carecem de unidade e racionalidade,
além de não atenderem a alguns quesitos básicos, tais como a prévia avaliação e definição do
público alvo, dificultando a criação de uma sociedade mais igualitária e democrática.
É necessário rever as diretrizes que imperam na área social, a fim de articular políticas de
desenvolvimento econômico e políticas de desenvolvimento social.
O discurso neoliberalista, conforme foi dito acima, introduziu novos preceitos para justificar a
necessidade de reforma do Estado, ao mesmo tempo em que impôs uma lógica diferente ao mercado
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e às sociedades modernas. As questões concernentes às relações entre Estado/mercado,


público/privado, universalização/focalização, centralização/descentralização, constituem temas de
debate atual.
Observa-se que o grande desafio dos países latino-americanos, segundo Lechner, consiste em
compatibilizar a integração na economia mundial com a integração interna, enfrentando uma
sociedade fragmentada, reflexo da precariedade do processo de modernização econômica.
(LECHNER, apud COHN, 2009, p. 4).
Essa dupla integração caracteriza-se pela necessidade de medidas de fomento não rentáveis
para o setor privado, tais como de infra-estrutura, sociais e de educação, consideradas medidas de
regulação originadas da iniciativa estatal. Trata-se, portanto, de repensar o próprio conceito de
Estado, considerando não só a relação Estado/mercado, mas, sobretudo, a construção de um Estado
democrático capaz de integrar de forma efetiva seus cidadãos.
A inter-relação entre democracia política e democracia social, como observa Lechner, faz
surgir a questão central presente nos países latino-americanos:

(...) como compatibilizar democracia e desenvolvimento, uma vez que não só o


desenvolvimento desigual é resultado inevitável do livre mercado, quando não existe
escassez, mas sim miséria, não só as leis do mercado tornam-se inoperantes como a sua
própria racionalidade supõe a igualdade de oportunidades para competir, sendo que ele
mesmo não gera esse pressuposto. Daí a conclusão de que a própria dinâmica do mercado
exige corretivos externos para evitar que a iniqüidade se petrifique e tenha efeitos
intergeracionais (educação). (LECHNER, apud COHN, 2009, p. 4).

Arzabe destaca que o caso brasileiro reflete bem as conseqüências da pobreza no acesso e no
exercício de direitos fundamentais.

Como líder às avessas no processo de distribuição de renda no mundo, campeão da


concentração da renda nas mãos de poucos, o Estado brasileiro distribui a mais da metade
de sua população doenças, ausência de moradia, educação insuficiente que não permite
trespassar a barreira do analfabetismo funcional, desemprego e desagregação cultural.
Largos extratos da população sofrem não somente a ausência do Estado, mas a omissão
ativa, que privilegia parcelas reduzidas e aquinhoadas da sociedade, caracterizando
verdadeira violação dos direitos humanos, em franca oposição aos fins legitimadores da
razão de constituição e de existência do Estado. (ARZABE, 2009, p. 4).

Arzabe explica, ainda, que as características pessoais do cidadão, como idade, doenças ou
certas deficiências interferem na obtenção de renda e na inserção da pessoa na sociedade e no
mercado de trabalho, afetando, portanto, a possibilidade de conversão de renda em capacidades.
Dessa forma, os mais pobres, também chamados miseráveis ou indigentes, quando excluídos,
menos chances têm de participar do pacto social. A citada autora salienta ademais que pobreza e
exclusão social são expressões com significados distintos e que a noção de pobreza enfatiza
aspectos distributivos, que podem ser definidos como a falta de recursos à disposição de um
indivíduo ou família.
A idéia de exclusão social, todavia, particularmente adotada na França, refere-se a aspectos
relacionais, isto é, na participação social inadequada, na ausência de proteção social, na ausência de
integração social e na ausência de poder. Diz-se, portanto, que o excluído socialmente se encontra
destituído de recursos de toda espécie: econômicos, sociais, jurídicos, culturais etc.
Para Sen, a pobreza é, sobretudo, e na sua parte mais sensível, uma questão de inadequação
dos meios econômicos da pessoa para a sua realização na sociedade. (SEN, apud ARZABE, 2009,
p. 4).
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Por último, salienta-se que o critério da baixa renda dissociado das condições sociais do
cidadão não é o mais adequado e confiável para avaliar o universo dos cidadãos considerados
pobres, por recusar o reconhecimento das diferenças pessoais. Nesse sentido afirma Sen, que “O
critério das capacidades transcendente da visão limitada da renda, permite melhor apreender a
complexidade da realidade social dos que vivem em condições abaixo do necessário para a
realização eficiente das faculdades humanas na sociedade atual. (SEN, apud ARZABE, 2009, p. 4).
Em conclusão, pode-se afirmar que:

 Particularmente no caso do Estado brasileiro, a ineficiência e a ineficácia de programas na


área social tem sido severamente criticadas, em virtude de a descentralização implantada
pela Constituição de 1988 não ter conseguido gerar um consenso com relação à forma de
implementação dessas ações e seus reflexos no pacto federativo;
 O Estado brasileiro é marcado por profundas desigualdades, em especial no tocante à
distribuição de renda, cuja heterogeneidade em todo o território nacional não consegue
enfrentar a questão da pobreza com seus desdobramentos;
 As ações públicas na área social devem ser dirigidas àqueles grupos identificados como
despossuídos, objetivando promover a equidade do acesso dos cidadãos aos direitos sociais,
independentemente do nível de renda e da inserção no mercado de trabalho, para que
superem sua situação de pobreza; (COHN, 1995, p. 3);
 A problemática da pobreza, da exclusão social, do acesso e do exercício dos direitos na
sociedade moderna relaciona-se às questões de gênero, de raça, de origem e de idade,
convergindo todas ao tema da pobreza e das desigualdades econômicas. Assim, os
indivíduos compartilham as desigualdades comuns à carência econômica e não raro à
pobreza: falta de acesso aos serviços de saúde, falta de moradia, de ocupação social, de lazer
e de trabalho, derivando para a desigualdade política;
 A pobreza, somada à falta de acesso ao mercado de trabalho e à conseqüente falta de
recursos constituem obstáculos à participação do cidadão no processo democrático,
contribuindo para agravar os problemas de integração social e revelando as feições mais
cruéis da desigualdade de renda.

Do que foi exposto resulta que o processo de mundialização da economia, não obstante
tenha ampliado as possibilidades de acesso do cidadão à informação, e, em certa medida, tenha
contribuído para o surgimento de novas democracias, enriquece mais aos ricos e empobrece mais
aos pobres. (DELGADO, 2000, p. 30). Isto porque a implementação de políticas neoliberais
consubstancia uma nova fase de expansão do sistema capitalista, caracterizada, em especial, pela
expansão dos mercados financeiros e pelo debilitamento do Estado, acarretando conseqüências
graves como, por exemplo, o aumento do desemprego.

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