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AUTISMO (PRIMEIRA PARTE)

José Salomão Schwartzman é neuropediatra. Formado na Escola Paulista de


Medicina da Universidade Federal de São Paulo, especializou-se em Neurologia
Infantil no Hospital for Sick Children, em Londres, e é professor titular de pós-
graduação em Distúrbios do Desenvolvimento na Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
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Há crianças que parece não aprenderem a reconhecer os códigos que regem a


comunicação humana. Alheias à presença dos outros, encerradas num
universo próprio e inatingível para todos que as cercam, apresentam padrões
restritos e repetitivos de comportamento. Essa tríade de sintomas – dificuldade
de interação social, de comunicação e repetição de comportamentos
padronizados – caracteriza um transtorno do desenvolvimento conhecido como
autismo.

O médico austríaco Leo Kanner usou essa palavra em 1943 para descrever
uma série de sintomas que observava em alguns de seus pacientes. Com o
passar dos anos, porém, ficou provado que essas crianças apresentavam
apenas uma das manifestações de autismo. Na verdade, as dificuldades do
autista variam em grau e intensidade e o comprometimento pode ser muito
grave e estar associado à deficiência mental, ou tão leve que o portador do
transtorno consegue levar uma vida próxima do normal.

Apesar de autismo não ter cura, quanto antes for diagnosticado, melhor.
Crianças convenientemente tratadas podem desenvolver habilidades
fundamentais para sua reabilitação. O problema é que, muitas vezes, os pais
se recusam a admitir que o filho tem algumas características que requerem
atenção especial e não procuram ajuda.

No Brasil, existe a AMA – Associação Amigos do Autista – (www.ama.org.br)


que presta assistência a autistas.
CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO
Drauzio – Você poderia caracterizar o que se entende por autismo?
José Salomão Schwartzman – Na verdade, o que se chama de autismo nada
mais é do que um tipo de comportamento que se caracteriza por três aspectos
fundamentais. Primeiro: são crianças que parecem não tomar consciência da
presença do outro como pessoa. Segundo: apresentam muita dificuldade de
comunicação. Não é que não falem, não conseguem estabelecer um canal de
comunicação eficiente. Terceiro: têm um padrão de comportamento muito
restrito e repetitivo. Atualmente, qualquer indivíduo que apresente esses
sintomas, em maior ou menor grau, é caracterizado como autista.
Como se vê, o conceito de autismo é muito amplo. Costumo compará-lo com o
de deficiência mental, outro conjunto de sinais e sintomas presentes numa
série imensa de pessoas.
Drauzio – Como vocês classificam o autismo?
José Salomão Schwartzman – Atualmente, costuma-se dizer que não há
autismo. Existe um espectro de desordens autísticas, em que aparecem as
mesmas dificuldades em graus de comprometimento variáveis. Há o indivíduo
portador das características citadas em grande proporção e com deficiência
mental grave; o grupo com o tipo de autismo descrito pelo médico austríaco
Leo Kanner que tem comprometimento moderado e os indivíduos com a
Síndrome de Asperger (Hans Asperger foi o médico que a descreveu), que são
autistas com linguagem e intelecto preservados.
Drauzio – Você poderia dar um exemplo de autista em cada grupo?
José Salomão Schwartzman – Exemplo do primeiro grupo é o autista grave,
aquele que aparece em propagandas das instituições que cuidam dessas
pessoas. São crianças isoladas, que não falam e repetem movimentos
estereotipados permanentemente, ou ficam girando em torno de si mesmas.
Como não são sensíveis à comunicação, não respondem quando se fala com
elas, não interagem com o outro e têm, em geral, deficiência mental importante.
Ao segundo grupo pertencem os autistas que chamamos de clássicos. Esses
falam, mas não se comunicam. São capazes de repetir fora do contexto uma
frase inteira que ouviram num programa de televisão na noite anterior. No
entanto, se lhe perguntarmos quantos anos têm ou qual é o seu nome, não
respondem. Isso mostra que ouvem e podem falar, mas não usam a fala com
ferramenta de comunicação. Esses têm também dificuldade de compreensão.
Embora possam entender enunciados simples, apreendem apenas o sentido
literal das palavras. Não compreendem as metáforas nem o duplo sentido. Se
você disser “muito bem”, não são capazes de perceber que, na língua
portuguesa, essa expressão pode significar tanto “muito bem” quanto “muito
mal”. Autistas clássicos são voltados para si mesmos e têm ligação muito pobre
com o ambiente. Não olham nos olhos dos outros, não entendem pistas
sociais.

No terceiro grupo, estão os portadores da Síndrome de Asperger, que


apresentam as mesmas dificuldades dos outros, mas numa medida bem
reduzida. São verbais e inteligentes. Tão inteligentes que chegam a ser
confundidos com gênios, porque são imbatíveis nas áreas do conhecimento em
que se especializam. Vi na televisão uma criança portadora dessa síndrome
que costuma ser apresentada como uma das maiores autoridades mundiais em
animais pré-históricos. O garoto sabe tudo sobre dinossauros. De onde vieram,
o tipo de DNA, o que comiam, onde viveram. Entretanto, se lhe fizermos uma
pergunta simples – Quantas pessoas vivem na sua casa? -, ele se comporta
como se estivéssemos falando grego.

Estabelecer a diferença entre superdotados e portadores da síndrome de


Asperger em crianças pequenas é quase impossível. Há um menino em
Manaus que sabe de cor o mapa cartográfico da cidade. Desenha todas as
ruas, coloca o nome das lojas e o número dos telefones, mas não consegue
ser alfabetizado na escola.

Drauzio – Não dá para imaginar como uma pessoa é capaz de decorar o


mapa cartográfico de uma cidade ou até mesmo uma lista telefônica
inteira e não é capaz de interpretar conhecimentos mínimos como seu
nome e o número de pessoas que moram em sua casa.
José Salomão Schwartzman – Eu acredito que a pessoa normal não enxerga
com os olhos. Registra a imagem nos olhos, mas é seu cérebro que processa a
informação. Nos autistas com síndrome de Asperger, a visão é fotográfica. Eles
veem o que a retina capta. Existe um rapaz na Inglaterra, com cerca de trinta
anos, que é considerado um dos maiores desenhistas contemporâneos. O
neurologista inglês Oliver Sacks, autor de vários livros a respeito de autismo,
levou-o a passear pelo mundo. Depois que visita uma cidade, ele é capaz de
desenhar os edifícios respeitando as proporções e reproduzindo todos os
detalhes com precisão. Esse moço faz uma coisa impossível para qualquer um
de nós. Se você e eu descrevermos o mesmo objeto, certamente iremos
descrever duas coisas diferentes, porque cada um de nós o enxergou a seu
modo. Ele não. Reproduz o prédio exatamente como é.
CAUSAS
Drauzio – Você não acha estranho existir uma patologia com classificação
de espectro tão amplo, que abrange pessoas com incapacidade total de
comunicação e outras com sinais de genialidade?
José Salomão Schwartzman – Esse é o problema. Quando Kanner descreveu
o autismo em 1943, achou que estava descrevendo uma doença específica
que não fugia do quadro clássico que os onze pacientes estudados
apresentavam. O fato é que, com o passar do tempo, fomos vendo que não era
uma doença específica, nem ocorria por culpa da mãe, porque era essa a visão
que se tinha naquela época e, por incrível que pareça, persiste até hoje em
alguns lugares.
Em outras palavras: por conta da maternagem inadequada, a criança normal
tornava-se autista. Tanto era assim que ainda há gente dizendo que o autismo
é causado por um ambiente problemático e propõe terapias psicanalíticas
como tratamento.

Entretanto, à medida que se foi conhecendo melhor essa patologia, o conceito


de autismo ampliou-se de tal forma que cabe uma comparação com a
deficiência mental, primeiramente descrita como um quadro clássico, típico de
alguns pacientes, e depois como problema que compreende uma categoria
enorme de doenças.

Na verdade, não é exagero dizer que autismo não é uma doença; é um capítulo
da neuropediatria.

Drauzio – Existem causas para o autismo?


José Salomão Schwartzman – Nós nunca vamos conhecer a causa do
autismo, porque a cada momento estamos descobrindo novas possibilidades.
Eu poderia elencar 20, 30, 40 condições diferentes que podem cursar com
autismo. A síndrome de Down, a síndrome do X-Frágil e uma série de outras
doenças podem cursar o autismo. Da mesma forma, a síndrome fetal alcoólica
provocada pela ingestão de álcool durante a gravidez é uma das causas
frequentes de deficiência mental e autismo.
DIAGNÓSTICO
Drauzio – Crianças autistas nascem, choram, alimentam-se normalmente.
Em que fase da vida aparecem as primeiras manifestações da doença?
José Salomão Schwartzman – Depende muito da gravidade do
comprometimento. Vamos pegar o exemplo do autista clássico. Às vezes, a
mãe conta que, desde que saiu da maternidade, esse filho é diferente dos
irmãos. Não olha para ela, não quer pegar o peito, não se aninha no colo. No
entanto, frequentemente, por não conhecer a doença, ela acha que esse é o
jeito, é o temperamento daquela criança.
Existem filmes provando que uma criança normal com cinco horas de vida já é
capaz de imitar uma expressão fisionômica. Se estiver bem alimentada e num
ambiente tranquilo e mostrarmos a língua, ela nos mostrará a língua também. A
criança autista nunca faria isso. Perceber essa diferença, porém, depende
muito dos olhos de quem está observando. Hoje, se fala muito sobre
diagnóstico precoce de autismo. Ami Klin, psiquiatra e neurocientista brasileiro
que estuda muito o problema e dirige o centro de pesquisa sobre autismo da
Universidade de Yale, defende o diagnóstico em bebês. É obvio que é
impossível fechar o diagnóstico de autismo numa criança de seis, oito meses.
Não se fecha, mas levanta-se a suspeita, o que permite adotar uma conduta
terapêutica até certo ponto corretiva.

Drauzio – Sua grande experiência clínica no acompanhamento desses


pacientes mostra que os pais começam a perceber o problema quando o
filho tem que idade?
José Salomão Schwartzman – Com três anos. Essa é a fase em que já
esperaram tempo suficiente para a criança falar, para comunicar-se de alguma
forma. Entretanto, quando se levanta a história do paciente, em todos os casos,
surgem indícios importantes de que já havia algum distúrbio no
desenvolvimento dessa criança que não foi corretamente considerado.
Se os pais dos bastante afetados procuram auxílio quando o filho tem entre
dois e quatro anos, autistas poucos afetados podem descobrir que têm a
doença depois de adultos. Tenho casos de pais que souberam ser portadores
da síndrome de Asperger, que é o autismo de bom rendimento, quando o
diagnóstico foi feito no filho.

PREVALÊNCIA
Drauzio – Existe concentração de casos de autismo em certas famílias?
José Salomão Schwartzman – Existe um fator genético indiscutível. Nos
casais que já tiveram filhos autistas, a probabilidade de ter mais um é de cerca
de 2%. Parece pouco, mas significa um risco de 50 a 100 vezes maior do que
na população em geral.
Drauzio – Qual é a prevalência do autismo na população?
José Salomão Schwartzman – Admite-se que a prevalência não só do
autismo clássico, mas de todas as condições do espectro autista seja de um
para mil. Na Califórnia (EUA), os últimos relatos falam de um caso para cada
150 crianças, o que não é possível. Talvez, o conceito deles seja tão amplo,
que daqui a pouco todos nós seremos considerados um pouco autistas.
Drauzio – Qual é a vantagem do diagnóstico precoce de uma doença que
pode ter uma evolução que vai desde o retardo mental e a impossibilidade
de aprender até a genialidade se o conhecimento for dirigido?
José Salomão Schwartzman – Se tenho uma criança que necessita de mais
estímulo para tentar estabelecer uma relação com a mãe, com o pai, com os
irmãos, o aconselhamento familiar precoce permite ensinar técnicas que
tentem facilitar essa comunicação. Além disso, existem medicamentos que
podem ser indicados em determinadas situações.
Não há cura para o autismo, mas acontece que algumas pessoas têm melhora
tão grande com o tratamento que podem levar vida independente. Tenho
autistas adultos, casados, com filhos, que são excepcionalmente bem dotados
em algumas áreas do conhecimento e tomaram consciência da própria doença
aos 40 anos. Esses tiveram um percurso feliz, porque o distúrbio evoluiu de
forma adequada e, em grande medida, tiveram famílias e escolas que
souberam trabalhar suas dificuldades.

REAÇÃO DOS PAIS


Drauzio – Como reagem os pais ao saber que têm um filho com autismo?
José Salomão Schwartzman – Minha sensação é que das condições que
cursam com os distúrbios de desenvolvimento, o autismo talvez seja a mais
difícil de conviver. Como é possível ter uma relação de afeto com alguém que
não corresponde a nenhuma tentativa de aproximação, que não se pode
abraçar nem dar um beijo nem ensinar a falar tchau?
Na família de um autista, não é só a criança que está doente. A família inteira
fica seriamente comprometida. Por isso, quando observavam a dinâmica
familiar alterada, os autores antigos chegavam à conclusão de que pais tão
ruins assim, que não se comunicavam com os filhos, desencadeavam esse tipo
de comprometimento na criança.

Drauzio – Eles consideravam a consequência, como causa.


José Salomão Schwartzman – Faziam isso, quando, na verdade, é a criança
doente que, desde o começo, não permite uma relação parental adequada.
Entretanto, tudo vai depender muito de quem são os pais e de como reagem.
Há os que, apesar da dificuldade de entrar em contato com a criança, tentam
identificar o que ela tem de anormal. Entretanto, é frequente encontrar famílias
que não querem ver a dificuldade do filho. Muitas se negam a perceber que o
filho adolescente, durante a vida toda, teve um comportamento fora do habitual
e acabam inventando explicações para não admitir que ele é portador de uma
condição grave como o autismo. Isso atrasa demais a possibilidade de ajudar a
criança.
TRATAMENTO
Drauzio – Os autistas devem frequentar escolas comuns?
José Salomão Schwartzman – Depende do grau de comprometimento.
Atualmente, no Brasil, a política é tentar a inclusão dos indivíduos com
deficiência em escolas regulares. Isso vale para algumas pessoas e para
algumas escolas.
Pessoalmente, não gosto de discutir a inclusão como algo filosófico ou
determinado pelo MEC. Acho que se deve analisar caso a caso e levar em
conta, antes de mais nada, o local onde estarão melhor os deficientes. Tenho
dois autistas adolescentes cursando a USP. Não têm vida social intensa, mas
estão vivendo de forma bastante adequada. Se você conversar com eles,
perceberá algo de estranho em seu comportamento, mas talvez a maneira de
agir desses estudantes não se distancie muito da de vários conhecidos
esquisitos que temos.

Indivíduos como eles podem e devem cursar escolas regulares. A questão é


quando a criança não fala, não se comunica e apresenta movimentos
estereotipados. Colocada dentro de uma classe regular, não só será excluída
do grupo, como deixará de beneficiar-se com a aplicação de técnicas
pedagógicas que dão certo com os autistas. Por exemplo, a
técnica Teacch que é muito usada nos Estados Unidos e baseia-se na
modificação do comportamento.
Na verdade, ninguém pode dizer que o melhor tratamento para crianças
autistas é este ou aquele. Cada pessoa exige uma abordagem individualizada
de acordo com as características de suas dificuldades.

Drauzio – Existiria uma linha mestra a ser seguida no tratamento dos


autistas?
José Salomão Schwartzman – Não existe. Se a criança apresenta prejuízo da
comunicação, o atendimento tem de ser precoce e é preciso utilizar todos os
métodos disponíveis para estabelecer algum tipo de comunicação. Se não
conseguir fazê-lo verbalmente, que seja por qualquer outro modo. Há quem
ensine a linguagem de sinais para os autistas. Outros usam o computador. O
importante é convencer a família de que o fundamental é estabelecer uma
possibilidade de comunicação entre o autista e o mundo, não importa qual seja.
Os prejuízos de linguagem dos autistas verbais, sua dificuldade de entender as
metáforas e o duplo sentido, podem ser superados pela cognição. Um dos
rapazes que estão estudando na USP e foram aprovados no vestibular, é ótimo
aluno e provavelmente vai ser ótimo professor da disciplina que escolheu.
Outro dia, ele me falou: “Salomão, ter síndrome de Asperger é uma coisa
complicada”, e pediu para mãe me contar o que lhe havia acontecido. Desde
que ele era pequenininho, antes de sair para o trabalho, a mãe deixava um ovo
cozido e descascado para o filho comer no café da manhã. Um dia, porém, ela
não seguiu esse ritual completamente e, quando voltou para casa, encontrou o
rapaz, que deveria estar na faculdade, sentado à mesa, olhando para o ovo.
“Você perdeu hora?”, perguntou. “Não, mãe, você esqueceu de descascar o
ovo”. Como nunca tinha visto alguém descascar um ovo, foi incapaz de fazê-lo.

De fato, fica difícil de entender como um rapaz que passou no vestibular, é


excelente aluno, inteligente, é incapaz de enfrentar uma situação nova tão
simples quanto descascar um ovo.

Drauzio – Não só não descascou o ovo, como ficou paralisado…


José Salomão Schwartzman – Absolutamente paralisado. E ele conta outras
experiências iguais. Um dia, a mãe lhe pediu para pegar um objeto no porta-
malas do carro. Como demorasse muito para voltar, foram atrás dele para ver o
que estava acontecendo. Encontraram o rapaz no estacionamento do
restaurante, com a chave do carro na mão, olhando para o porta-malas sem
saber como abrir, pois nunca ninguém lhe tinha ensinado a enfiar a chave na
fechadura. Isso prova a necessidade e importância de adotar atitudes
pedagógicas. É preciso ensinar esses indivíduos a fazerem determinadas
coisas que presumiríamos serem capazes de aprender sozinhos.
Drauzio – É visível o progresso dessas crianças quando tratadas
adequadamente?
José Salomão Schwartzman – Em algumas, sim. O problema é que quanto
maior a deficiência mental, menor a possibilidade de ganhos significativos. No
entanto, como nas crianças pequenas os dados para diagnóstico não são
claros, empenho-me no tratamento, embora as respostas possam ser muito
diferentes. Há casos que evoluem tão bem, que se usa a expressão “saiu do
quadro autístico”, que não é adequada. Autismo é um distúrbio incurável. Se
houve reversão do quadro, a pessoa não era autista.
Tenho muitos pacientes com autismo que sararam, mas nunca vou apresentá-
los num congresso, porque foram classificados como autistas por erro de
diagnóstico. Por isso, fechar o diagnóstico antes do cinco anos é complicado. O
médico pode levantar a hipótese, mas o consenso é que o diagnóstico de
certeza só seja feito por volta dos quatro anos e meio de idade.

Publicado em 12/12/2011.

Revisado em 06/08/2013.
Como identificar os primeiros sinais de
autismo leve
Beatriz Beltrame
Pediatra
O autismo leve pode ser diagnosticado em qualquer fase da vida e não tem cura,
mas ele geralmente é diagnosticado na infância quando a criança apresenta
algumas características do autismo, que podem ser observadas pelos familiares ou
professores, por exemplo.
Os primeiros sintomas do autismo leve podem ser observados quando a criança,
entre os 3 e 5 anos de idade, já apresenta dificuldades no relacionamento, na fala
e na interação com os outros.
Sintomas e características do autismo leve
Os sintomas e características do autismo leve podem abranger uma destas 3
áreas:
 Problemas na comunicação, como não conseguir falar corretamente, dar uso
indevido às palavras, não saber expressar-se utilizando palavras;
 Dificuldade na socialização, como dificuldade em ter amigos, em iniciar ou
manter uma conversa, olhar nos olhos;
 Alterações de comportamento, como padrão repetitivo de movimentos e
fixação por objetos.

Algumas características do autismo que podem ajudar no seu diagnóstico são:


 Relacionamento interpessoal afetado;
 Riso inapropriado;
 Não olhar nos olhos;
 Frieza emocional;
 Poucas demostrações de dor;
 Gostar de brincar sempre com o mesmo brinquedo ou objeto;
 Dificuldade em focar-se numa tarefa simples e concretizá-la;
 Prefere ficar só do que brincar com outras crianças;
 Aparentemente não ter medo nenhum de situações perigosas;
 Ficar repetindo palavras ou frase em locais inapropriados;
 Não responde quando é chamado pelo nome como se fosse surdo;
 Acessos de raiva;
 Dificuldade em expressar seus sentimentos com fala ou gestos.
Os autistas leves geralmente são muito inteligentes e extremamente sensíveis a
mudanças inesperadas. O diagnóstico do autismo leve pode ser feito pelo
psiquiatra em qualquer fase da vida do indivíduo, mas geralmente ocorre na
infância.
O que fazer se suspeitar de autismo leve
Em caso de suspeita de autismo leve deve-se conversar com um psicólogo ou
levar a criança ao pediatra para que sejam realizados testes que ajudam no
diagnóstico.
O comportamento da criança deve ser avaliado pelos seus familiares e também
pela escola, se a criança a frequentar. Por vezes, o autismo leve meses até ser
diagnosticado porque é comum que achem que a criança é mal educada ou faz
birras porque suas características não são tão claras como ocorre no autismo.
Autismo leve tem cura?
Na maioria das vezes o autismo leve não tem cura, o que acontece é que com a
estimulação e os tratamento de fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e
educação adequada e especializada, ao autista consegue atingir um
desenvolvimento mais próximo do normal.
Entretanto, existem relatos de casos de pacientes que foram diagnosticados com
autismo antes dos 5 anos de idade que parecem ter alcançado a cura através do
tratamento com uma equipe multidisciplinar, mas ainda não são necessários mais
estudos que comprovem como o tratamento possa curar o autismo.
Como lidar com o autismo leve
O tratamento para o autismo leve nem sempre é necessário, mas pode ser feito
através da psicoterapia, por exemplo. Esta ciência irá ajudar o autista a se
desenvolver e a interagir melhor com os outros, facilitando sua vida e a dos
demais.
A maioria dos autistas necessita de auxilio para a realização de algumas tarefas,
mas é capaz de adquirir independência para realizar a maioria das atividades de
vida diária, mas tudo vai depender do seu grau de comprometimento e interesse.
Veja como os tratamentos podem ajudar a conviver com o autismo:
 Como a alimentação pode melhorar o autismo
 Tratamento do autismo
 Musicoterapia para Autismo

Como a alimentação pode melhorar o


autismo
Tatiana Zanin

Nutricionista

A alimentação para autismo deve ser isenta de caseína, glúten e soja. Essa dieta
promove alterações cerebrais que diminuem a euforia e a agressividade dos
autistas, sendo uma ótima forma de complementar o tratamento do autismo infantil
e adulto.
Os autistas tendem a ter algumas deficiências nutricionais, que quando são
supridas também ajudam a controlar melhor a doença. A maior parte dos autistas
possui:
 Deficiência em zinco;
 Excesso de cobre;
 Deficiência em cálcio e magnésio;
 Deficiência em ômega 3;
 Deficiência de fibras;
 Deficiência em antioxidantes.
O autista é incapaz de tirar o total proveito das terapias comportamentais se
tiver um cérebro desnutrido, inflamação gastrointestinal ou acúmulo de compostos
tóxicos - fatores que prejudicam a comunicação cerebral. Por isso, a alimentação é
fundamental.
O que o autista deve comer
Algumas dicas do que se pode comer no autismo são:
 Alimentos ricos em ômega 3 como sardinha, salmão, cavala, nozes,
amêndoas, avelãs, cajus, pinhões, sementes de linhaça, sementes de
abóbora, sementes de chia;
 Alimentos ricos em antioxidantes, como frutas e legumes orgânicos.
Alimentos ricos em ômega 3

Alimentos antioxidantes de origem

biológica

É importante que a alimentação do paciente autista seja anti-inflamatória e, por


isso, os ômega 3 e os antioxidantes são fundamentais. Além disso, deve-
se também preferir carnes magras e cereais integrais.
O que o autista não deve comer
Algumas dicas do que não comer ou evitar no autismo são:
 Alimentos industrializados e não orgânicos, pois contribuem para
aumentar a toxidade no organismo;
 Alimentos com corantes alimentares, pois estão associados a alterações do
comportamento e a hiperatividade nas crianças;
 Alimentos com trigo, cevada, centeio e aveia, pois a dieta sem glúten pode
ajudar a reduzir os sintomas;
 Leite e seus derivados, pois o paciente autista pode beneficiar de uma dieta
sem caseína;
 Soja.
Não comer industrializados

Não tomar leite e derivados com

caseína

A dieta sem glúten, sem caseína e sem soja de todas as abordagens dietéticas é a
que tem revelado efeitos mais positivos no maior número de crianças com autismo.
Como esta dieta é muito específica é importante o acompanhamento de um
nutricionista.
Veja como garantir a quantidade de cálcio que a criança precisa: Alimentos ricos em
cálcio sem leite.

Tratamento do autismo
Beatriz Beltrame

Pediatra

O tratamento do autismo, apesar de não curar esta síndrome, pode melhorar a


comunicação do autista, a concetração e diminuir os movimentos repetitivos
melhorando assim a qualidade de vida do próprio autista e também da sua família.
O tratamento geralmente é feito com uma equipe composta por médico,
fisioterapeuta, psicoterapeuta, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo e muitas
vezes deve ser feito por toda vida. Algumas estratégias que podem ser úteis para
o tratamento incluem:
Remédios
Apesar de não existirem remédios específicos para tratar e curar o autismo, o
médico poderá indicar medicamentos que podem combater sintomas relacionados
ao autismo como agressão, hiperatividade, compulsividade e dificuldade para lidar
com a frustração, como por exemplo clozapina, risperidona e aripiprazol.
Alimentação
Alguns alimentos tendem a melhorar ou a agravar os sintomas do autismo, por
isso é importante estar atento ao que a criança come. Os alimentos que não
devem ser ingeridos incluem o leite e seus derivados porque contém caseína,
industrializados e com corantes, devendo-se dar preferência aos alimentos
orgânicos, comprados na feira, ricos em antioxidantes e ômega 3. Veja como
a alimentação pode melhorar o autismo.
Fonoaudiologia
O acompanhamento com o fonoaudiólogo é importante para melhorar a
comunicação verbal do autista com o mundo. Durante as sessões são realizados
diversos exercícios que podem ajudar a criança a aumentar o seu vocabulário e
melhorar a entoação da voz, podendo ser realizados jogos e brincadeiras para
atrair a atenção da criança.
Musicoterapia
A música ajuda o autista a entender as emoções, aumentando sua interação com
o mundo à sua volta. O objetivo não é aprender a cantar ou tocar nenhum
instrumento, sendo somente importante saber ouvir e se expressar através dos
sons que os instrumentos podem produzir e também através de movimentos de
dança, por exemplo, num ambiente leve e descontraído. Conheça outrosbenefícios
da musicoterapia para autistas.
Psicoterapia
A psicoterapia deve ser guiada pelo psicólogo e pode ser realizada sozinho ou em
grupo, com encontros semanais. Nela pode ser utilizada a terapia comportamental,
por exemplo, que pode ajudar a se vestir sozinho.

Psicomotricidade
Pode ser orientada por um fisioterapeuta especialista e durante as sessões podem
ser realizados diversos jogos e brincadeiras que podem ajudar a criança a focar
sua atenção em apenas uma coisa de cada vez, a amarrar os sapatos,
contribuindo para um melhor controle dos movimentos, combatendo os
movimentos repetitivos, que são comuns em caso de autismo.
Equoterapia
A terapia com cavalos é muito útil para melhorar a reação de endireitamento do
corpo, quando a criança está em cima do animal, a coordenação motora, o
controle da respiração e desenvolver a autoconfiança do autista. As sessões
geralmente duram entre 30 minutos e 1 hora.
Como cuidar da criança autista em casa
Alguns cuidados importantes que se deve ter em casa, para melhorar a qualidade
de vida do autista, são:
 Observar se o filho possui algum talento especial, porque muitos autistas
possuem aptidão para matemática, música, desenho ou informática, por
exemplo;
 Respeitar as rotinas, pois o autista não tolera bem as mudanças;
 Evitar ter móveis e objetos desnecessários em casa, para protegê-los de
acidentes;
 Desenvolver bons hábitos do sono, respeitando o horário de dormir, com luzes
menos intensas e refeições leves antes de ir para cama.
Uma outra dica importante é evitar locais como lanchonetes e supermercados, pois
para o autista existem muitos estímulos nestes locais, que o incomodam como
luzes muito fortes, auto falantes anunciando as ofertas do dia, alguém tossindo e
bebês chorando, por exemplo. Com o passar o tempo, os pais vão percebendo o
que o filho tolera ou não e assim que se sentirem seguros poderão levar a criança
para estes locais.
O autista pode frequentar a escola como qualquer outra criança, não necessitando
do ensino especial, mas isso depende do grau do autismo. No entanto, nos casos
de autismo mais graves a criança pode encontrar mais dificuldade para
acompanhar seus colegas de classe, gerando sintomas como ansiedade e
irritabilidade, que podem comprometer o aprendizado. Por isso, alguns pais optam
por matricular seus filhos na escola especial ou contratam professores para
ensinar a criança em casa.
Os pais do autista devem ter, de tempos em tempos, um dia de descanso para
renovar as suas forças porque somente assim poderão oferecer o melhor para os
seus filhos.

Sinais e sintomas que podem indicar


Autismo
Beatriz Beltrame

Pediatra

Os sinais do autismo podem ser observados pelos pais entre os 2 e 3 anos de


idade, pois a criança autista tem características muito específicas e pode
apresentar alguns comportamentos 'estranhos' que chamam atenção.
Normalmente os pais, avós e professores da creche ou do jardim de infância são
os primeiros a desconfiar do autismo quando a criança parece que fica parada no
tempo, sem ter nenhum tipo de interação com outras crianças ou brinquedos.
Quando este comportamente se torna frequente ou quando a criança também
apresenta outros sinais como ficar se balançando para frente e para trás o tempo
todo, os pais devem ficar desconfiados e observar os comportamentos da criança
e em caso de suspeita, levar a criança ao pediatra.
Sinais que podem indicar autismo
Os primeiros sinais de autismo podem ser observado em bebês que apresentam
os seguintes sinais:
 Até 9 meses: Não se aconselham ao colo da mãe ou do pai e não olha nos
olhos, não sorri, não emite sons que possam chamar a atenção dos adutos;
 Com 1 ano: Não olham quando são chamados pelo nome e
 Após os 2 anos: Não usam mais de 2 palavras que não sejam repetição.
Para saber se a criança tem autismo ela deve apresentar os seguintes sinais e
sintomas, de forma frequente a partir dos 2 anos de idade:
Dificuldade na interação social

 Não olhar nos olhos ou evitar não olhar nos olhos mesmo quando alguém fala
com ela, estando bem próximo;
 Risos e gargalhadas inadequadas ou fora de hora, como durante um velório
ou uma cerimônia de casamento ou batizado, por exemplo;
 Não gostar de carinho ou afeto e por isso não se deixa abraçar ou beijar;
 Dificuldade em relacionar-se com outras crianças e por isso prefere ficar
sozinho do que brincar com elas;
 Repetir sempre as mesmas coisas, brincar sempre com os mesmos
brinquedos.
Dificuldade de comunicação

 A criança sabe falar, mas prefere não falar nada e mantém-se calada por
horas, mesmo quando fazem perguntas para ela;
 A criança refere-se a si mesma com a palavra: você
 Repete a pergunta que lhe foi feita várias vezes seguidas sem se importar se
está chateando os outros;
 Mantém sempre a mesma expressão no rosto e não entende gestos e
expressões faciais dos outros;
 Não atender quando é chamado pelo nome, como se não estivesse ouvindo
nada, apesar de não ser surdo e de não ter nenhum comprometimento
auditivo;
 Olhar com o canto do olho quando sente-se desconfortável;
 Quando fala a comnunicação é monótona e com tom pedante.
Alterações comportamentais

 Não tem medo de situação perigosas, como atravessar a rua sem olhar para
os carros, chegar muito perto dos animais aparentemente perigosos, como
cães de grande porte;
 Ter brincadeiras estranhas, dando funções diferentes aos brinquedos que
possui;
 Brincar com somente uma parte de um brinquedo, como a roda do carrinho,
por exemplo, e ficar constamente olhando e mexendo nela;
 Aparentemente não sente dor e parece que gosta de se machucar ou de
machucar os outros de propósito;
 Leva o braço de outra pessoa para pegar o objeto que ela deseja;
 Olha sempre na mesma direção como se estivesse parado no tempo;
 Fica se balançando para frente e para trás por vários minutos ou horas ou
torcer as mãos ou os dedos constantemente;
 Dificuldade a se adaptar a uma nova rotina ficando agitado, podendo se
autoagredir ou agredir os outros;
 Ficar passando a mão em objetos ou ter fixação por água;
 Ficar extremamente agitado quando está em público ou em ambientes
barulhentos.
Caso os pais ou professores observem estes sintomas na criança é recomendada
uma consulta com um neuropediatra para que ele faça o diagnóstico do autismo e
indique o tratamento adequado.

Será Autismo?

A criança fica muito agitada quando ouve música ou


está num ambiente que desconhece, como uma
lanchonete cheia de gente, por exemplo?

Autismo é mais frequente em meninos


Os meninos são mais afetados que as meninas e apesar das causas do autismo
ainda não serem totalmente compreendidas, sabe-se que esta doença não tem
cura, mas que o tratamento pode ajudar a controlar alguns sintomas e tornar a
convivência familiar um pouco mais facilitada.
Embora as causas não seja totalmente conhecidas, sabe-se que esta síndrome
tem uma causa genética, que pode ser agravada quando um dos pais tem mais de
40 anos, a criança nasceu pré-matura, com menos de 2,5 kg, a falta de ácido fólico
e uso de drogas ou remédios como ácido valproico durante a gestação.
Como tratar
O tratamento do autismo varia de uma criança para outra porque nem todos são
afetados da mesma forma. De forma geral é necessário recorrer a diversos
profissionais de saúde como médico, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e
psicopedagogo, sendo muito importante o apoio familiar para que os exercícios
sejam realizados diariamente, melhorando assim as capacidades da criança.
Este tratamento deve ser seguido por toda a vida e deve ser reavaliado a cada 6
meses para que possa ser adequado às necessidades da família. Veja exemplos
de remédios que podem ser usados e outras terapias clicando aqui.