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TAMBAÚ, CIDADE DOS MILAGRES

Maria Isaura Pereira de Queiroz1

Nota sobre a transcrição: para facilitar a pesquisa, são indicadas entre colchetes e em
itálico, ao longo do texto, as páginas que correspondem à edição da revista Anhembi
Direção de Paulo Duarte, Ano V, Novembro de 1958, Volume XX.

Também, preferiu-se manter a gramática original e eventuais discordâncias


ortográficas, a fim manter a autenticidade do texto.

VII – AS PRÉDICAS DO PADRE DONIZETTI. – Não pudemos ouvir todas as


prédicas do Padre Donizetti; havia muito o que ver e nem sempre pudemos estar na Praça dos
Milagres à hora exata do sermão, muito embora só tivéssemos deixado de ir na noite que
passámos na Casa Paroquial. Eis o que pudemos recolher.

Prédica de 13-5-1955 (20 horas): – O Vigário afirmou que fazia milagres, dizendo que
volta e meia jesus escolhe um instrumento para tal, e que no caso o instrumento tinha sido èle.
Já sofrera muito na vida e fora muito perseguido, principalmente por ser amigo dos pobres, o
que lhe valeu um processo como comunista, acusação de que ele foi absolvido, ficando
inteiramente provado que era inverídica. Na realidade, tanto era amigo dos pobres quanto dos
ricos, não fazia distinção alguma, e suas bênçãos se estendiam a todos. Fôra vigário em Vargem
Grande durante 18 anos e há 29 anos que é vigário em Tambaú.

Não protestou quando ergueram as garrafas para benção.

Prédica de 14-5-1955 (9 horas): – Afirmou o Vigário que a benção, dada em Tambaú


ao membro de uma família, é recebida pelos outros membros como se estivessem presentes:
assim, os que tiverem parentes no estrangeiro, em Portugal, na Espanha, na Itália, no Japão,
podem ficar certos de que seus parentes estarão recebendo a benção como se ali achassem.

Nessa manhã condenou o fanatismo. E quando o povo começou a erguer as garrafas


para a bênção, gritou em voz tonitro-ante:

– Abaixem tudo! Não ergam as garrafas! Isso é fanatismo e fanatismo é cousa muito
feia! (sic)

1
Pesquisadora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, enviada
a Tambaú para pesquisar os fenômenos taumatúrgicos ocorridos no período das “Grandes Romarias”.
Depois, no momento em que ia fazer as clássicas perguntas: “Quem sarou?” etc, -
interrompeu-se e pôs-se a gritar:

– Afastem-se! Afastem-se! Tem gente morrendo sufocada aqui na minha frente! Vão
embora! Desapertem! Saiam da Praça! Já tomaram a benção, não tem mais o que fazer aqui!
Vão [49] embora! E nem fiquem em Tambaú: vão direto para suas casas! Tomem já o trem das
10 e meia! Não vêem que Tambaú não comporta tanta gente?

Soubemos mais tarde que, houve um movimento entre o povo que queria a todo custo
se aproximar do Vigário, algumas pessoas desmaiaram no apêrto que se deu, crianças e doentes
choravam, e èle, assustado, não terminou a prédica da maneira costumeira, mas mandou a
multidão dispersar imediatamente. Desse dia em diante, no fim da prática, não deixava de
ordenar (porque o tom era de ordem e não de conselho) que fossem todos no mesmo instante
de volta para suas casas, insistindo que Tambaú não podia conter tal povaréu e que não era
necessário ir acumulando bênçãos, uma só bastava.

Prédica de 15-5-1955 (9 horas): – Falou o Padre sobre a fé que move montanhas:


ninguém precisa de padres nem de intermediários para fazer milagres, basta ter fé que consegue
tudo quanto quer. Estas afirmações estão nos Evangelhos, em S. Paulo e em S. Tiago. Êle,
Vigário, tem sido atacado por padres que o acusam de querer passar por santo; nunca teve êsse
intento; não é mais do que um intermediário nos milagres que se realizam. Todos os presentes
– êle, os fiéis, - desejavam ser santos, mas não o eram. Os padres que o combatem deviam ler
a Sagrada Escritura, ler S. Paulo e S. Tiago e aprender a diferença que há entre uma pessoa que
faz milagres e um santo; é incrível tanta ignorância em quem tem a obrigação de estudar e de
saber! (sic) Qualquer um que tenha fé faz milagres; para isso não precisa nem dos padres, nem
da autoridade da igreja.

Prédica de 15-5-1955 (20 horas): – O Vigário começou protestando a maior obediência


à Igreja e ao Papa, ao Cardeal Mota que muito admira, ao bispo Diocesano. Tudo quanto diz é
inspirado nas Sagradas Escrituras, que constituem o seu estudo predileto, assim como o
Breviário é sua leitura diária. Mas apesar de seus bons propósitos, não há apenas gente a seu
favor, há também gente que lhe é contrária – e o que deseja acima de tudo é paz. Os que ali vão
em busca de cura estão a par da realidade dela; mas os descrentes ficam espalhando que a
doença vai voltar, ou que os doentes pensam que sararam mas não estão inteiramente curados.
Cristo também foi atacado da mesma maneira que o Padre hoje. Os grandes sacerdotes da época
negavam a Cristo e diziam que era feiticeiro porque alcançava curas. Se diziam isto de Cristo,
o que não será dito hoje do Vigário? Há muito tempo, há 40 anos, o Vigário prega contra o
protestantismo, o comunismo, o anticlericalismo; e no [50] entanto há quem afirme que é
Belzebu que está em Tambaú – O que muito o entristece. Em verdade, cristo abandonou as
capitais do mundo e está em Tambaú, onde seu Pai celeste obra milagres admiráveis.

Prédica de 16-5-1955 (9horas): – Quando o Padre assomava à porta para o sermão


habitual, uma chuvarada desabou sobre a multidão aglomerada na Praça. Desde cedo o tempo
estava brusco e ameaçador. Êle usou da circunstância para afirmar que quem não fazia
penitência não ganhava o céu e que a mão de Deus se armava sempre contra as cidades que
deviam ser destruídas. Mas a bênção também, como aquela água, vinha do céu.

Prédica de 16-5-1955 (20 horas): – Assistimos à bênção de dentro da Casa Paroquial,


onde tínhamos entrado para conversar com o Padre. Visto pela abertura da porta, era
impressionante o espetáculo daquele mar de gente em silêncio, erguendo velas e garrafas – e o
luzir das velas fazia brilhar as garrafas enchendo a escuridão da noite de milhares de estrelinhas
amareladas e brancas.

O Vigário, no sermão, falou da venda de bênção. Parece incrível que se possam vender
bênçãos, mas foi nos próprios Evangelhos que encontrou a referência: Jacó comprou de Esaú a
bênção paterna em trôco de um prato de lentilhas. Anos depois, os irmãos se reuniram e viveram
muito felizes. Esaú entrando o patrimônio e Jacó com a bênção, que fazia o patrimônio
prosperar. Era o que estava se dando entre o Padre e os fiéis: o Padre dava as bênçãos, os fiéis
prosperavam. Era semelhante também o caso da multiplicação dos pães e dos peixes; o que se
via, agora, era idêntica multiplicação de bênçãos. Estas não eram descobertas surpreendentes,
as duas constavam da Escritura; bastava que se estudassem os Livros Santos com afinco para
que se encontrasse explicação para todas as cousas.

VIII – OS MILAGRES. – Todos os residentes com quem falámos acreditavam


piamente nos milagres e afirmavam ter assistido a vários; conversámos com 20 habitantes do
local, todos eles tinham casos extraordinários para contar. Disseram-nos que, antes da grande
afluência de peregrinos, era fácil assistir a milagres, o que se tornara depois quase impossível
porque tudo se perdia no meio da multidão.

– “Antes é que era bonito, disse-nos uma informante. – O Pe. Donizetti mandava separar
as pessoas em duas filas, os aleijados de um lado e os fiéis do outro; os aleijados entravam
primeiro na Casa [51] Paroquial e recebiam a bênção, em seguída os fiéis; todos recebiam
bênçãos individuais. Como eram poucos os que vinham, nós da cidade subíamos todos os dias
à Praça, de manhã e de noite, para apreciar; e víamos os que entravam por uma porta, doentes,
cegos, paralíticos, ir saindo curados pela porta da Sala dos Milagres, onde de passagem
deixavam muletas ou outros aparelhos. Era comoventíssimo, todo mundo aplaudia e chorava.
Agora, nem a gente tem mais emoção: por um lado, os milagres são tão numerosos que o pessoal
acostumou; curar paralisia e cegueira é coisa vulgar, para isso ninguém mais liga; por outro
lado, a quantidade de gente é tal que nem se pode ver direito, nem há mais vibração”.

De fato, já descrevemos a falta de vibração emotiva nas pessoas que enchiam a Praça;
mesmo os que viam milagres, limitavam-se a algumas exclamações; o mais geral era um
silêncio embasbacado. Os que se encontravam distantes, essês então ouviam as palmas e quando
a história lhe chegava, visivelmente aumentada, suas manifestações se reduziam a alguns “–
Louvado seja Deus!” que partiam principalmente das mulheres.

Quase tôdas as pessoas com quem conversávamos, na Praça ou nas ruas adjacentes,
afirmaram ter visto milagres: porém quando os apertávamos com perguntas, muitos acabavam
confessando que “o povo em volta deles tinha visto, mas que eles mesmo não, porque estavam
mais longe”. Os que afirmavam a pés juntos ter realmente presenciado curas, quase nunca
tinham visto como eram os miraculados antes, só depois que a cura se operara; mas narravam
a história com grande entusiasmo. Muitos raros os que afirmavam ter visto a pessoa antes e
depois do milagre; entre estes uma senhora de Santos, que contava ter visto cinco curas
extraordinárias somente na noite de 13 de maio, sendo que de três estava suficientemente perto
para poder observar a pessoa enquanto doente e depois de curada: uma paralítica que andou,
uma louca que acalmou, e um menino que entrou na Casa Paroquial (era na 6ª feira à noite, o
último dia em que se penetrou na Sala dos Milagres) deitado numa cama e que saiu a carrega-
la!

Existiam três arquivos de milagres: um na Casa Paroquial; outro em poder do Dr. José
Vitor Pedroso Chagas, do Correio Paulistano; e o terceiro, formado por Pedro Geraldo Costa,
locutor da Rádio Nacional.

Tivemos entre as mãos e folheamos o arquivo da Casa Paroquial: duas pastas em que
estavam guardadas centenas de declarações com firma reconhecida, proclamando curas; junto
de algumas havia atestados médicos, radiografias, fotografias. As curas mais interessantes eram
resumidas e narradas nos boletins diários da rádio local. Apresentamos aqui, como exemplo,
algumas curas de romeiros [52] provenientes da capital de S. Paulo e que traziam endereço
completo, o que nem sempre se dava:
Ortência Paulo Pessoa – Rua Barão de Tatui, 427, não andava devido a ter quebrado o
menisco; após a bênção, andou normalmente.

Carlos Pudles – Rua José Maria Lisboa, 265 – operado de úlcera de estômago,
continuava a ter dores atrozes, que passavam com a bênção.

Maria Jacysin – Rua Rodolfo Miranda, 162 – tinha um câncer no esôfago e há 5 meses
não comia; curou-se completamente com a bênção.

Nair Henriques Nogueira – Rua Herval, 461 – sofria de reumatismo deformante e tinha
dores horríveis; tudo passou com a bênção.

Terezinha Fiori – Av. Tucuruvi, 621 – sofrendo das faculdades mentais, saiu do
Sanatório Pinel para vir a Tambaú, onde ficou completamente curada com a bênção.

Marciano de Oliveira – Presidente da J. P. Ação Católica Ipiranga – sofria do estômago


e não se alimentava quase; curou-se inteiramente.

Joaquina de Souza Torres – Rua Cesário Mota, 137 – tinha artritismo deformante e
reumatismo há 33 anos, cura completa.

Terezinha Visne – Rua André Escudeiro, 3, Carandiru – tinha um defeito na perna e


andava com dificuldade, ficou andando perfeitamente.

Manoel Rakia – Rua José Cirilo, Pari – curou-se de um quisto na espinha.

Lúcia Pereira Vicente – Rua União, 49 – sofria de úlcera de estômago há 49 anos e ficou
inteiramente curada.

Caetano Pagano – Rua Evaristo Castro, 122 – sofrendo de reumatismo deformante, teve
cura imediata.

Darcy Arruda – Secção de Publicidade do Correio Paulistano – curou-se de reumatismo


no braço.

Antonio Noberto Costa – Rua Guaianazes, 336, Sto. Amaro – aleijado, andava com
aparelho ortopédico, que deixou na Sala dos Milagres.

Odete Barbosa, Rua Guabiza, 162 – Tuberculosa, foi curada pela bênção à distância e
veio agradecer ao Padre.
Juvelina de Souza – Rua Borges, 770, Tucuruvi – paralítica, não andava nem conseguia
dobrar os joelhos; após a bênção coletiva, sarou, andou e ajoelhou-se.

José Ferreira da Silva – Rua Sto. André, 4, Osasco – Abandonou os óculos graduados
após a bênção. [53]

Eliana Goulart Leão – Rua Cel, Melo de Oliveira, 236, Vila Pompéia – esta menina mal
enxergava e estava condenada a sofrer delicada operação na vista; curou-se com a bênção, cura
presenciada por d. Lafaiete Libânio, bispo da Diocese de S. José do Rio Preto.

Evelina Leão – Rua Caraibas, 409 – curou-se de uma paralisia no braço esquerdo.

Deize Mussumaior – Rua Boquitas, 61 – demente há dois anos, curou-se com a bênção.

Laurinda Pereira da Conceição – Rua Itaguai, 10, Jabaquara – seu filho curou-se de
reumatismo infeccioso e deformante.

Carmem Breta Berbari – Rua Cel. Luiz Barros, 229, Sto Amaro – seu filho sofria de
urticária e ela mesma, de eczema: ambos se curaram.

Neli Almeida da Silva Martins – Al. Barão de Limeira, 1022 – sofria de um mal de
estômago incurável e sarou completamente.

José Junqueira Franco – Rua 14, nº 528, Vila Campo Grande, Sto. Amaro – curou-se de
uma hérnia.

As graças foram obtidas de várias maneiras: por meio da bênção especial, da bênção
individual, da bênção coletiva, da bênção à distância, ou do emprego da água benta, Pena que
não registrassem nos arquivos qual das bênçãos tinha operado a cura, o que só raramente foi
feito. A bênção a distância operava ora através do rádio, a pessoa escutando o Padre, ora porque
uma peça de sua roupa, um retrato, ou a carta com seu pedido tinha sido abençoados em
Tambaú.

Os casos registrados acima eram dos mais corriqueiros, Houve outros muito mais
importantes: o célebre caso da louca, cujas correntes estão penduradas na Casa dos Milagres; o
do menino que andava com aparelhos ortopédicos em ambas as pernas, que se curou e cujo
retrato, primeiramente com os aparelhos, depois jogando futebol, também figura na sala (êste
menino aparece na fita “O Poder da Fé”); o de pessoas atacadas de fogo selvagem.
Às vezes, o doente não sarava com a primeira nem com a segunda bênção, só com a
terceira ou a quarta; de modo que travavam-se diálogos curiosos em que se falava das bênçãos
como de uma mezinha comum: “Quantas bênçãos já “tomou”? Que bênçãos foram? etc”. Havia
também quem acreditasse que nos casos graves só o contacto direto com o Padre, a imposição
das mãos, tocar-lhe na batina, obraria o prodígio.

Todavia, apesar de termos permanecido seis dias em Tambaú freqüentando a Praça dos
Milagres de manhã e à noite, nada presenciámos que não pudesse ser racionalmente explicado.

Logo na noite de chegada, vimos dois “miraculados”: um velho que, segundo dizia,
estava tendo um ataque, de que sofria com freqüência, [54] quando a bênção do Padre o atalhou
e êle sentiu-se completamente bom; uma senhora que ensaiava alguns passos com dificuldade,
mas sozinha – e os que a rodeavam exclamavam que ali chegara sem poder andar: perto, alguém
aconselhava:

– É assim mesmo, dona, vá devagarinho; e todos os dias a senhora vai procurando andar
mais um pouco, mais um pouco e acaba sarando de todo.

Levaram-nos, no sábado, a ver um menino mudo que, de manhã, recebera a bênção e se


pusera a falar. Era um menino de 5 a 6 anos, bem conformado, sem nada de extraordinário.
Nunca tinha falado, afirmaram os membros da família que o hospedava (o pai, que o trouxera,
tinha saído e não pudemos conversar com êle; chama-se Fernando Gesse e mora na Rua 2, nº
40, Vila Brasilândia, Freguesia do Ó); após a bênção começou a dizer algumas palavras e
passara o resto da tarde repetindo-as:

– Diga, Jorge, diga “papai”:

O menino, com enorme esforço, repetia os sons, conseguindo pronunciar de maneira


meio anasalada “pai”; mas “mãe” já saiu antes “mé” do que outra coisa; tentava repetir outras
palavras que pronunciavam diante dele, sempre como quem vence grande dificuldade e dando
a impressão de que possuía qualquer malformação na laringe, e era só a sílaba final que saia.

No domingo à noite, chegámos à Praça quando a bênção já havia terminado. A gente


não muita. De repente ouvimos gritar: “– Milagre! Milagre!” e corremos para o lado de onde
partiram as exclamações. Uma mulher de Promissão que andava há oito meses apoiada numa
muleta, de repente sentiu-se curada e pôde andar sem ela: mancava um pouco mas andava com
desembaraço; transtornada de alegria, agitava a muleta no ar como se fosse um bastão de balisa.
Perguntámos de que sofria; replicou que arranhara a perna há oito meses, o arranhão
infeccionara e desde ai não pudera mais andar direito, o joelho não dobrava, a articulação da
coxa emperrara; tinha dores, formigamentos, a perna queimava. De repente, após a bênção
coletiva, tudo desaparecera e ela andara normalmente.

Noutra parte da Praça, nova correria, palmas, vozerio comovido. Eram três irmãos
miraculados. Pobres crianças! A mãe afirmava, sem muita convicção, que nenhum dêles jamais
conseguira andar sem se apoiar noutras pessoas; agora estavam andando sozinhos; além disso
a menina, que era muda, falara após a bênção. A menina tinha seus 13 anos e era claramente
uma débil mental; dava passinhos curtos como uma boneca de corda, sem erguer os pés do
chão; diziam-lhe: “– Fale, diga N. S. Aparecida!” – mas enquanto estivemos por perto não
pronunciou uma palavra, um som sequer. [55]

– Coitadinha! explicavam em redor – Nem consegue falar de tanta alegria de se ver


curada!

Junto dela, um meninão de 12 anos, desengonçado, corpo todo exquísito, pernas e braços
finos, enorme curvatura sem chegar a ser corcunda, fisionomia de imbecil, dava passos
trôpegos, não conseguindo caminhar em linha reta. E finalmente, mais distante, o menorzinho,
oito anos, também desconjuntado, pernas e braços tortos, o único que tinha um rosto inteligente,
com grande esforço e um medo enorme de cair dava seus passinhos arrastando os pés no chão.

O último milagre que presenciamos deu-se segunda-feira à noite, na Casa Paroquial.


Juntamente com outras pessoas que receberam a bênção especial. Entrou lá uma moça agitada,
falando sem parar, aspecto aéreo e ausente – louca; vinha acompanhada de um casal e todos os
três foram conduzidos para uma alcova, passagem para a Sala dos Milagres, onde ficaram à
espera do Padre. Passamos por lá duas vezes; a moça murmurava sem parar e sem erguer muito
a voz, referindo-se o tempo todo a “êle” que não vinha, que estava demorando e de vez em
quando fazia menção de se erguer da cadeira; o casal a acalmava:

– Fique quietinha, “êle” vem já.

Depois da bênção especial e da bênção coletiva, o Padre Donizetti dirigiu-se para a


alcova e os que estavam por perto acorreram a fim de presenciar o fato; êle zangou-se e voltou
a sala de jantar resmungando:

– Não é possível! Com essa quantidade de mentores em volta não se pode fazer nada!
Não há concentração, não há consciência, nada se consegue.
Um pouco mais tarde, para lá se dirigiu só e ficou alguns minutos com a louca e o casal;
ao sair, declarou da porta com tôda convicção e autoridade:

– Está completamente curada!

Houve em volta um zum-zum de emoção e de alegria, comentários abafados. Saíu da


sala a miraculada acompanhada do casal, o homem veio agradecer ao Vigário; a moça tinha
parado de falar, mas não vimos diferença no ar alheio e aéreo com que tinha entrado.

Não queremos, narrando estes casos, senão apresentar honestamente e sinceramente o


que presenciámos em Tambaú. Não somos nós que rotulamos tais casos de “milagres”, eles
assim são chamados por todos que os assistiram e pelo próprio Vigário. Não nos podemos
pronunciar sobre se houve ou não houve cura, nem princípios de cura: na maioria (salvo a moça
louca) não vimos os doentes antes de se dizerem miraculados, nem tivemos dêles notícias
depois para [56] saber se a cura se mantinha. Mas, a nosso ver, nenhum desses casos podia ser
chamado de acontecimento sobrenatural.

Falta falar do “milagre da garrafa”. Logo na noite da chegada, notámos um ajuntamento


em torno de um homem que mostrava qualquer coisa na sua garrafa de água benta; nela via
distintamente N. S. Aparecida sobre a cabeça do Padre Donizetti, explicava. Olhámos. Por uma
razão qualquer, aparecia no vidro uma sombra triangular, como triangular é a imagem de N. S.
Aparecida; mas não vimos nem o rosto da Santa, nem sua coroa, nem a cabeça do Padre, como
muita gente exclamava estar a enxergar.

Mais tarde, verificamos que êsse fato era comum após as bênçãos: quase todos os
possuidores de garrafas se punham a olhar a sua, virando-a contra a luz e resguardando-a com
a sombra da mão, e a maioria via nela a imagem. Os que não viam ficavam desconsolados: não
era uma prova de falta de fé?

A crença do povo nos milagres pareceu-nos ingênua e total. Havia sempre uma
explicação para os malogros, como por exemplo o comentário que ouvimos numa roda, ao sair
da casa do Vigário. Tratava-se de uma senhora que se tinha sado por curada e que, ao chegar
em casa, sentia voltarem todos os males:

– “Mas também, cheias de pecados como ela é ...” exclamavam os ouvintes.

Todos os que inquitimos, mesmo os mais penalizados por não terem visto nada de
extraordinário e por não terem podido penetrar na Sala dos Milagres – estavam contentes por
terem vindo e nos diziam “que fora uma beleza!” Era sensível e geral esta impressão de alegria,
de satisfação ou pelo menos de consôlo dos que partiam: levavam a convicção de que, com vida
piedosa e muita fé, alcançariam também as graças que tinham “visto” os outros obtere; e além
disso, orgulhavam-se de terem participado de algo Sobrenatural, guardavam a emoção de terem
vislumbrado de longe um santo.

E a atitude do Padre diante dos prodígios que obrava?

Vimo-lo sempre afirmar, quer nas prédicas, quer em conversa, que fazia milagres;
assegurou, como já dissemos, que até a morto ressuscitara. Conversando sobre as curas, disse
que não se preocupava mais com o registro de curas, disse que não se preocupava mais com o
registro de curas de paralisia, loucura, câncer, etc; atualmente apenas suas moléstias o
interessavam: fogo selvagem, da qual possuía já 9 casos de cura comprovados, mas achava
pouco dada a impotância da doença; e lepra da qual não tinha ainda nenhum registro. É verdade,
prosseguia, que aqui há a dificuldade de alguém querer admitir que é leproso. A mesma cousa
acontece com as senhoras e suas doenças: só contam o que é no segrêdo do confissionário,
saram, mas ninguém pode apregoar essa cura porque não se pode trair o segrêdo do
confissionário. [57]

Não nos interessa discutir de houve ou não milagres em Tambaú; estamos certos de que
curas interessantes se deram sob a influência do Padre, cuja grande figura imponente, voz
estentórica, modos autoritários, completa confiança em si próprio e completa crença em seus
poderes sobrenaturais (quanto a isto não temos dúvidas: o Vigário crê firmemente que opera
milagres) exercem um domínio visível sobre todos que dêle se acercam. O Padre não é pois,
um impostor, não é um charlatão; é sinceramente convicto. E sua convicção naturalmente tende
a reforçar-se diante da crença certa de milagres de criaturas que o procuram. Há perfeita
reciprocidade: o Padre crê nos milagres que opera; os fiéis crêem na força sobrenatural do
Padre.

IX – A IGREJA E OS MILAGRES. – Algumas pessoas nos perguntaram tanto em S.


Paulo quanto em Tambaú: por que é que os padres em geral não gostam do que está acontecendo
em Tambaú?

Pergunta que não corresponde totalmente à verdade; segundo as prédicas do próprio Pe.
Donizetti, havia dentro da Igreja tanto uma ala simpática ao Padre, como uma ala contrária.

Era voz corrente em Tambaú que o Bispo de Ribeirão Preto e o Vigário de Casa Branca
se mostravam aborrecidos com o que ali acontecia. Nenhuma prova tivemos em relação ao
Vigário de Casa Branca. Quanto ao Bispo de Ribeirão Preto, dois jornais daquela localidade
traziam artigos que indicavam sua atitude:

“Ao meu dileto amigo e respeitabilíssimo sacerdote, Pe. Donizetti Tavares de Lima,
Vigário de Tambaú, está sendo atribuída a faculdade de “fazer milagres”. ‘A que pese
a larga divulgação de testemunhos e escritos num “Livro de Milagres”, duvido e
duvido muito que tenha êle obrado um único”. “O que pode ocorrer, e disto não
duvido, é que muita gente tenha seu estado de saúde melhorado, e muita gente cuja a
enfermidade seria mais de caráter psíquico do que físico, se tenha curado por sugestão,
coisas, ambas que, para mim, não passam de higienização da alma. Mas curar, mesmo
– que me perdoe o revmo. Pe. Donizetti e todos quantos exploram o assunto – é que
êle não cura, embora Cura seja.”
“Aliás, a própria Autoridade Diocesana, extra-oficialmente, já nos fez sentir que
devemos aguardar o seu pronunciamento em tempo oportuno, pois sendo cauta, não
decide em coisa de tanta monta, e em nenhuma outra, sem provas insofismáveis.
É bom lembrarmos do Padre de Poá ... do Padre de Urucânia ... É bom lembrarmo-nos
que muitos outros aos quais se atribuem faculdades de poder curativo, idênticas à que
ora se atribuem ao boníssimo Vigário de Tambaú. E lembrarmo-nos, sobretudo, das
tremendas desilusões que o nosso exagêro nos proporcionou...
Bem haja, portanto a Autoridade Diocesana que nos adverte sobre o assunto.” (Orestes
Lopes de Camargo. “A Cidade”, de Ribeirão Preto, 29 de março de 1955). [58]

O artigo de fundo do Diário de Notícias, Jornal que é tido como “jornal do Bispo”,
levanta-se contra a exploração que em torno do caso teceram jornais, revistas, rádio-emissoras
e cinemas, fazendo notar que eles, do Diário de Notícias, que seriam os “primeiros interessados”
em divulgar fatos sobrenaturais, nada diziam nem a favor nem contra.

“A Igreja Católica jamais necessitou de sensacionalismo”, – As Autoridades


Eclesiásticas primam pela prudência na apreciação de eventos desta ordem, tão do
gosto dos católicos sentimentais e, ao mesmo tempo, tão proveitosos aos mercadores
da imprensa falada e escrita. Ninguém se iluda: tôda essa propaganda feita pelo rádio
e pela imprensa não procede do amor a Deus e à Igreja Católica. É guiada pelo
interêsse econômico e pela mania do sensacionalismo de reportagem. Por que essa
gente não espera, com calma e paciência o pronunciamento sereno, objetivo e
prudente que, a seu tempo darão as Autoridades Eclesiásticas? É claro que estas só
tomarão posição depois que tudo for objetiva e cientificamente estudado. O conceito
de “milagre” não pode ser identificado com graças extraordinárias ou com efeitos
raros que, talvez – e aqui é que está o ponto da questão, – possam ser obtidos e
explicados sem direta intervenção divina e, portanto, sem milagre no sentido autêntico
do termo. Por tudo isso, o nosso jornal continua na posição inicialmente adotada: não
é do pró nem do contra. Apenas aguarda, por prudência humana e cristã, o julgamento
dos poderes eclesiásticos competentes”. (Diário de Notícias de Ribeirão Preto, 23-3-
1955).

Idêntica manifestação ouvimos de um padre que encontrámos na Praça dos Milagres,


sábado à noite, após a bênção. Perguntamos-lhe qual a sua opinião sôbre o fato. Replicou que
a Igreja adorava uma atitude de prudência; somente a Igreja pode afirmar quando um
acontecimento é ou não milagroso; nenhum padre pode dar opinião sobre o que se passa em
Tambaú antes da Igreja ter falado a respeito. Cumpria-lhe, pois, esperar o pronunciamento que
a Igreja ainda não exarou; quando muito podia dizer que ali se passaram fatos que pareciam
extraordinários. As prédicas do Pe. Donizetti dirigidas contra o espiritismo e contra o
comunismo são, por êsse lado, úteis, pois o Padre tem influência sobre o povo e assim concorre
para afastá-lo de dois males que afligem o Brasil.

– E que acha o senhor deste movimento de fé do povo?

– Ah, minha senhora, não é um movimento de fé católica, é apenas uma manifestação


da religiosidade que forma o fundo de todo o brasileiro. Se um curandeiro qualquer obtivesse
èxito, como obteve o Padre Donizetti e dispusesse dos meios de divulgação que foram postos
ao alcance deste, pode a senhora ficar certa de que veríamos em tôrno dêle um movimento igual
ao que estamos presenciando em tôrno do Padre de Tambaú. O povo brasileiro tem [59] um
fundo muito pronunciado de religiosidade e de superstição; é o que o traz aqui; mas é uma
religiosidade não definida, vaga, uma superstição que degenera em fanatismo, mas devia ver
que tôda essa gente que vem para cá é trazida pela superstição.

Não temos nenhuma indicação concreta de medida que porventura tivessem sido
tomadas pela Igreja para circunscrever o fenômeno além de recomendações de prudência já
referida. E o Padre Donizetti fazia questão de frisar que a Igreja não estava intervindo em nada
para a cessação das bênçãos, o que decorria exclusivamente de sua vontade particular.

A respeito da cessação das bênçãos é interessantes lançar uma vista d’olhos pelos
Boletins da rádio local, que eram redigidos, como tivemos ocasião de presenciar, na própria
casa do Vigário. O Boletim de 25 de março de 1955 afirmava “com certeza” (estas palavras
grifadas) que as bênçãos “NÃO SERÃO INTERROMPIDAS” (grifo novamente), o que
indica que rumores já corriam sobre a interrupção. Entretanto, dois dias depois, a 27 de março
de 1955, o Boletim avisa que as bênçãos iam cessar a 30 de junho, pois o mês de junho seria
inteiramente dedicado pelo Pe. Donizetti ao Congresso Eucarístico, em homenagem ao Cardeal
Mota. Daí por diante renovam-se os avisos de que as bênçãos deixariam de ser dadas a 30 de
junho. A 25 de abril, o Pe. Donizetti esclarecia a todos “que no dia 30 de junho encerrará suas
bênçãos por motivo de ordem elevada, e não por ordem do Bispo Diocesano, como afirmou o
matutino paulista “Fôlha da Manhã”. Finalmente, nos primeiros dias do mês de maio, começa
a ser anunciado que as bênçãos cessarão a 30 de maio.
Com relação a est mudança de data, o próprio Vigário mandou imprimir o seguinte
comunicado, para ser amplamente distribuído na cidade e, segundo nos declarou, desfazer
dúvidas (os exemplares que possuímos foram recebidos diretamente de suas mãos):

“ROMEIROS ... PEREGRINOS... DE TAMBAÚ”


O PADRE DONIZETTI TAVARES DE LIMA DARÁ PELA ÚLTIMA VEZ AS
SUAS BÊNÇÃOS NESTE MÊS DE MAIO FICANDO POR ISSO,
DEFINITIVAMENTE SUSPENSAS POR MOTIVOS ELEVADOS,
Mas não pensem que Tambaú ou APARECIDA DO SUL, como querem os
Romeiros, cairá no esquecimento. ISSO NUNCA.
Como seria possível aos milhares e milhares de agraciados cujos depoimentos nesse
sentido figuram na CASA DOS MILAGRES, esquecerem que foi em Tambaú que
recobraram a saúde? Como impedir aos que adquiriram a visão, movimentos de
membros [60] paralisados há longos anos cura de moléstias como fogo selvagem que
a medicina até nossos dias não encontrou cura? Como recuperar memória desta terra
aos que depositam na Casa dos Milagres os aparelhos ortopédicos, camisas de força,
correntes, cordas, óculos, muletas?
TAMBAÚ, TERRA DOS MILAGRES, abençoada terra em que o bondoso
PADRE DONIZETTI TAVARES DE LIMA ministrou durante seis meses a DOIS
MILHÕES DE PESSOAS provindas das mais longínquas regiões do mundo a sua
milagrosa bênção viverá sempre enquanto houver um coração agradecido a Deus.
Tambaú, 11 de maio de 1955”.

Durante a conversa que mantivemos, advertiu-nos seriamente o Vigário contra o erro de


dizer que suspendia as bênçãos por “motivos superiores”; daríamos a entender assim que ordens
superiores externas o tinham obrigado a tal, quando na verdade, eram “motivos elevados” seus,
de ordem particular, a causa da cessação. E concluiu com a mesma notícia que os alto-falantes,
antes da prédica, divulgavam diariamente: continuaria a das cotidianamente as “bênçãos
secretas”, no recesso de sua cela da Casa Paroquial; os fiéis que, às 9 da manhã e às 8 horas da
noite, se recolhessem em oração a N. S. Aparecida e pensassem nêle, a receberiam, estivessem
onde estivessem.

Outra informação curiosa a respeito das relações do Vigário com as autoridade


eclesiásticas está na notícia divulgada pelo Boletim de 27 de abril: o Pe. Donizetti fazia saber
“que não mais dará bênçãos particulares para aqueles portadores da apresentação dos Bispos
Diocesanos. O que o leva a tomar tal medida é uma série de irregularidades e desavenças que
se estavam verificando neste particular”.

Mas se havia dentro da Igreja pelo menos uma vontade de limitação das atividades do
Padre, não podemos deixar de lado que diàriamente padres e freiras visitam o Vigário; todas
estas visitas estão registradas no livro de visitantes da Casa Paroquial e eram cotidianamente
noticiadas nos Boletins da rádio local. Na tarde de domingo, quando pela primeira vez
penetrámos na Casa Paroquial, havia uma freira entre as pessoas que esperavam a bênção
especial. Na segunda-feira à noite, jantavam com o Vigário Monsenhor dr. Carvalho, de Tatui,
e Monsenhor Hermínio Malzone de Guaxupé, além do sr. Carlos Pudles, funcionário da Côrte
Cardinalícia de S. Paulo.

De acordo com os 48 Boletins arquivados na rádio local (que, como vimos, irradiava
um Boletim por dia), tinham, até 17 de maio, visitado o Pe. Donizetti: dois bispos, o Bispo de
Campos, no Estado do Rio, e o Bispo de S. José do Rio Preto, d. Lafaiete Libânio; [61] 7
monsenhores; 6 cônegos; 1 pe. Provincial, dos Salesianos; 1 funcionário da Côrte Cardinalícia;
67 padres, cinco frades, 46 freiras, todos nominalmente citados; mas havia dias em que, devido
ao acúmulo de gente, não tinha sido possível anotar os nomes dos padres e freiras que
compareceram à Casa Paroquial.

Verifica-se, pois, que havia uma boa corrente dentro da Igreja simpática ao Padre de
Tambaú. Os padres eram em sua maioria do interior: dentre os 67, 42 vinham tanto do interior
de S. Paulo quanto do interior de Minas; 6 da capital de S. Paulo, e de 16 não era dada a
proveniência.

Já tínhamos notado as referências elogiosas feitas ao Cardeal Mota nas prédicas do Pe.
Donizetti. Na noite em que estivemos na Casa Paroquial, ali se encontrava também o já citado
funcionário da Côrte Cardinalícia sr. Carlos Pudles,em companhia da esposa, jantando à mesa
do Pe. Donizetti. Terminando o jantar, êste senhor pronunciou um improviso exaltando o Padre
de Tambaú e seus milagres; anunciava também que a 13 de junho, em agradecimento à bênção
que recebera, chegaria a Tambaú de presente para o Vigário uma imagem de N. S. Aparecida
que há um ano está peregrinando pelo Brasil; Pe. Donizetti respondeu tecendo louvores ao
Cardeal Mota, ali dignamente representado pelo sr. Carlos Pudles; e no fim da noite, quando
este e sua esposa se dispunham a sair, o Vigário foi buscar em seus aposentos um presente para
enviar ao Cardeal Mota – um crucifixo de dois palmos de altura, mais ou menos, em bronze
dourado sôbre pedestal de mármore. O tom com que o Vigário se referia ao Cardeal, mau grado
grandes protestos de obediência, era o de tratamento de potência a potência.

Uma noticiazinha que encontramos nos Boletins da rádio confirma essa impressão; o
Boletim de 8 de maio dizia que havia perfeita reciprocidade nas relações entre o Cardeal Mota
enviava pedidos de bênção ao Padre, para diferentes pessoas, este também não deixava, todos
os dias de pedir bênçãos ao Cardeal Mota (sem especificar que espécie de bênçãos, nem para
quem, nem como eram pedidas).

X – CRITÉRIOS PARA A DISTRIBUIÇÃO DAS BÊNÇÃOS ESPECIAIS – “Aqui


não há diferenças econômicas e políticas, todos são iguais, desde os que chegam de “cadillac”
aos que chegam de pau-de-arara”, proclamava o Boletim de 8 de maio de 1955.

No entanto, estabelecia-se um distinção entre os que recebiam a bênção coletiva, na


Praça dos Milagres, os que recebiam a bênção especial, no interior da Casa Paroquial, e os que
recebiam bênção individual. [62]

A princípio, quando o movimento era pequeno, todos os romeiros recebiam a bênção


individualmente. Mas quando o número dêles cresceu em demasia, as bênçãos individuais
acabaram, embora continuasse a haver bênçãos especiais, Estas eram dadas na Sala dos
Milagres; reuniam-se ali as pessoas privilegiadas, o Padre entrava, benzia e saia; a bênção
especial era, pois, também uma bênção coletiva, com a diferença de que a outorga era feita na
intimidade da Casa Paroquial. Bênção individual, só o vimos dar à louca, embora tivéssemos
estado presentes a duas bênçãos especiais (domingo e segunda-feira).

Para a bênção coletiva é que não existia diferenciação de espécie alguma: bastava
chegar, tomar lugar na Praça e receber a bênção. E qual o critério para a escolha dos
comtemplados com a bênção especial que, apesar da notícia de suspenção anunciada pelo
Boletim de 1º de maio de 1955, continuou a ser concedida.

Segundo afirmação unânime dos habitantes de Tambaú, a primeira condição para que
uma bênção especial fôsse concedida era o Padre acceder em dá-la. Conformo estivesse o
Vigário de bom ou de mau humor, dava ou não dava a bênção. O exemplo considerado
significativo era o que tinha passado com o filho do governador Pedro Ludovico: durante todo
o dia de sábado, tentou por todos os meios ser recebido e não conseguira; o Pe. Donizetti, muito
zangado nesse dia, resolvera não abrir a Casa Paroquial para ninguém e não fez exceções.

As autoridade civis de Tambaú, as pessoas gradas que ali residiam, viam-se em má


situação diante de parentes e de amigos que lhes rogavam a intervenção para ser conseguida
uma benção especial; sua apresentação não tinha nenhum valor. Observação semelhante fora
feita em S. Paulo por uma cunhada do Pe. Donizetti: o Padre não fazia caso da recomendação
de gente da família.
Parecia assim que realmente o Pe. Donizetti não atendia senão sua própria vontade; no
entanto, duas espécies de pessoas não recebiam negativa de sua parte: os que traziam
recomendações do Cardeal Mota e os que possuíam cargo ou posição política de real relêvo em
S. Paulo.

Vimo-lo dizer, na noite de segunda-feira, que tinha resolvido acabar de uma vez com as
bênçãos especiais e que dera ordens terminantes para tal; mas como, nesse dia, chegara o
funcionário da Côrte Cardinalícia, sr. Carlos Pudles, com recomendação escrita do Cardeal
Mota, vira-se obrigado a fugir ao que estabelecera; e uma vez que abria exceção, então estendia-
se também aos outros que, nessa tarde, tinham procurado D. Mariquinhas Rezende para pedir
entrada na Casa Paroquial. [63]

Apesar das melhores recomendações, sempre se corria, pois, o risco de não se abrirem
as portas da Casa Paroquial, quando não se verificavam as circunstâncias acima indicadas; e
isso também para jornalistas e radialistas, os quais todavia gozavam de uma posição
privilegiada em relação às outras pessoas. O humor do Padre decidia em última instância. Os
pedidos não eram feitos diretamente a êle, passavam por intermédio de D. Mariquinhas
Rezende, que êle chamava sorrindo de “nossa introdutora diplomática”. Pertencente a uma das
primeiras famílias locais, D. Mariquinhas dedicara tôda sua vida às obras religiosas, era
presidente das Filhas de Maria e acompanhava o trabalho do Pe. Donizetti desde que êle viera
instalar-se em Tambaú.

Diante de sua casa havia sempre um aglomerado de pessoas a pedir para serem recebidas
na Casa Paroquial; ninguém lá penetrava sem antes ter passado por ela – nem os possuidores
das mais altas recomendações.

Quando D. Mariquinhas Rezende via, de manhã, que a disposição do Vigário era boa,
avisava os interessados para que fossem, em determinada hora, esperá-la na porta lateral da
Casa Paroquial. Ali, pela cozinha, introduzia-os na Sala dos Milagres, atravessando o canto da
Sala de Jantar, onde esperavam que o Pe. Donizetti se dignasse aparecer e dar a bênção.

No momento da introdução das pessoas sempre entravam muitas mais do que por acaso
se tivessem postado junto àquela porta. D. Mariquinhas tinha tendência a deixar entrar mais
gente – e mais gente pobre – do que simplesmente os que possuíam recomendação; era visível
que, por vontade sua, teria admitido em primeiro lugar os pobres aleijados e inválidos que
ficavam durante horas diante da porta principal da Casa Paroquial, numa longa espera paciente
para chegar a lobrigar o vigário mais de perto durante os minutos da bênção coletiva. Desse
modo, a composição das pessoas que formavam os “privilegiados” da bênção especial era
sempre heterogênea; gente com aspecto de Classe alta, poquíssimos; a maioria era boa classe
média, salpicada de povo.

Assim, nenhuma influência sobre o Padre exerciam seus auxiliares, mesmo os mais
antigos e mais dedicados; a autoridade tôda exercia-a êle e só êle, de maneira olímpica e
totalitária; quem o rodeava tremia de medo diante da possibilidade de ouvi-lo erguer a voz, o
que aliás acontecia com muita freqüência.

O Prefeito resumiu a opinião geral, quando se queixou de que “o Padre não ouve
ninguém; ninguém manda nêle; faz o que bem entende”. O estado que coisas era claramente
visível desde o primeiro instante em que punha os pés na Casa Paroquial e se conversava [64]
com qualquer um dos auxiliares, fôssem as irmãs Rezende, as irmãs Mello, ou o sr. Nicola, e
foi confirmado por todos os habitantes do lugar com quem conversávamos. O Padre nunca
admite, nem nunca admitira, conselhos de ninguém; sempre resolvera sòzinho tôdas as
questões, problemas e negócios que surgiam na paróquia; e tudo tinha de ser feito
exclusivamente de acordo com sua vontade e determinação. Agora, diante do que se passava
em Tambaú, tôdas as providências e tôda a organização tinha partido dêle; ninguém tinha
coragem de contradizê-lo, e o que êle propunha, mesmo desacertado ou insuficiente, era posto
em prática. E como todos curvavam a cabeça diante dêle, melhores iniciativas, desde que
partidas de outrem, estavam destinadas ao desprezo: pois o povo local só seguia o que êle
mandava, e êle não aceitava sugestões de ninguém, por melhores que fôssem, só realizando o
que dêle mesmo tinha partido.

Seja como for, mesmo dependendo em última instância da vontade do Vigário, as


recomendações sempre valiam para a pessoa se colocar bem junto a D. Mariquinhas Rezende.
Já vimos que anteriormente tinha vindo gente apresentada pelos Bispos Diocesanos, mas que o
Padre resolvera não recebe-las mais. Já vimos que apresentação de autoridades civis e de
pessoas da família do Padre não eram levadas em conta. Quem, então, além do Cardeal Mota,
lograva ser tomado em consideração? Foi o que não pudemos verificar bem. Apenas ficou
patente que muitos traziam cartas de Pedro Geraldo Costa, da Rádio Nacional, e outros do dr.
José Vitor Pedregoso Chagas, do Correio Paulistano, e que jornalistas e radialistas eram tratados
de maneira especial.
A admissão para conversar diretamente com o Padre era mais difícil e só a vimos ser
outorgada: à mocinha louca cinda de Goiás, que recebeu bênção individual; ao funcionário da
Côrte Cardinalícia e a três eclesiásticos; a uma senhora que morara longos anos em Tambaú; a
jornalistas e radialistas. Não eram, pois, todos os padres e freiras que tinham acesso fácil à Casa
Paroquial e junto ao Padre; muitos houve que só receberam a bênção especial e não trocaram
uma palavra com êle, como uma freira que vimos na Sala do Milagres no domingo à noite; e
também houve padres que não foram recebidos, nem para a bênção especial, muito embora
tivessem querido penetrar na Casa Paroquial.

Estas visitas admitidas mais na intimidade da Casa Paroquial eram registradas numa
espécie de livro de presença e reproduzidas na irradiação do Boletim do dia seguinte pela rádio
local. Pudemos ver que não fora muito numerosa a visita de personalidades de marca. Eis as
pessoas de relevo social ou político que tiveram seus nomes nos Boletins: major Márcio
Coqueiro, sub-comandante [65] da zona aérea de S. Paulo, acompanhado do Tte. Melo Forte;
família Figliolini; dr. Romeu Illinois, professor da U.S.P.; dr. Hugo Levy Rezende, médico no
Araxá; dr. Evaristo Rebelo da Silva, do Departamento Jurídico da Municipalidade de S. Paulo;
dr. Roberto Rodrigues Costa, Juiz de direito de Monte Alto; dr. José Almeida Barros, de
Ribeirão Preto; d. Ana Ráo, sra. Gal, Porfírio da Paz; d. Leonor da Silva Quadros, mãe do
governador Jânio Quadros; sra. Iracema da Fontoura; família Matarazzo; dr. José Adolfo
Pereira, promotor em Juiz de Fora; gal. Otaviano Garcia Barão, professor da Escola Militar do
Rio de Janeiro; prof. Rossini Tavares de Lima, acompanhado dos srs. Afonso Dante Chiara,
Nelson Nicolela, José Ribeiro e dr. Ronaldo Ribeiro; dr. Gil Lemos, de Belo Horizonte, e
família; monsenhor Manfredo Leite.

Contrariamente ao apregoado no Boletim, havia pois distinção entre romeiros segundo


critérios: recomendações do Cardeal Mota; posição política ou social realmente influente; a
qualidade de jornalista ou radialistas.

XI – AS ESMOLAS – Quem entrasse na Igreja de S. José depararia, à esquerda, um


quadro para afixar notícias comuns da paróquia contendo apenas a seguinte informação, escrita
à mão num pedaço de papel branco:

“O futuro templo de N. S. Aparecida de Tambaú tem nos Bancos desta cidade Cr$
2.204.626.20, Tambaú, 1-2-1955 – Padre Donizetti Tavares de Lima”.
Quando chegámos a Tambaú, era voz geral que esses dois milhões de cruzeiros já
tinham sido ultrapassados há muito e que o Padre possuía quatro milhões recolhidos nos Bancos
da Cidade e outros quatro milhões espalhados em casa de pessoas de sua confiança, na cidade.
Tôdas as noites, disseram-nos, o dinheiro recolhido na Igreja ou na Casa do Paroquial é socado
dentro de grandes sacos e levado, ou para um dos bancos, ou para uma casa de família.

Estimativa e descrição não seriam exageradas? Tivemos ocasião de verificar “de visu”
que o movimento das esmolas era de fato impressionante.

Na segunda-feira de manhã, passámos três horas na Igreja de S. José, a apreciar o


movimento. Já contamos do atropelo de gente entrando e saindo na maior desorganização, e de
como davam as esmolas.

Os altares tinham sido defendidos do público por uma cêrca feita com bancos de Igreja,
de modo que os fiéis não podiam aproximar-se de nenhum dêles: apenas a grande imagem do
Senhor dos Passos no seu andor, colocada junto à porta principal, não tinha [66] proteção de
espécie alguma. Junto de um dos altares, uma das zeladoras da Igreja, expressamente designada
para isso pelo Padre Donizetti, recebia esmolas, cartas, retratos, fitas, flores, e até bolos e sacos
de frutas que devotas levavam de presente ao Padre. “Às 9 horas da manhã, bastante esmolas
tinham sido recebidas e o dinheiro fora arrumado direitinho sôbre o altar em macinhos de notas
de 1, 2, 5, ... até 500 cruzeiros, para facilitar o trôco; a zeladora não tinha mãos a medir para
receber tudo quanto lhe davam.

Os fiéis que não podiam chegar até lá, jogavam suas esmolas nos outros altares, de modo
que notas e moedas iam se amontoando sôbre o altar e no chão em volta; também a Imagem do
senhor dos Passos recebia dádivas que, escorregando dos paus do andor, caiam pelo chão.
Finalmente, do lado de fora da Igreja, no Cruzeiro, no meio de uma floresta de velinhas acesas,
junto a uma pequena imagem de N.S. Aparecida que algum devoto ali colocara, também iam
sendo deixados donativos.

Perguntámos à zeladora se ela ficava na igreja sòzinha, se ninguém mais viria auxilià-
la; respondeu que o Pe. Donizetti determinara que só ela recebesse as esmolas na Igreja e que
sua irmã, numa barraquinha perto da Casa Paroquial, recebesse outras de quem não conseguia
entrar na Igreja. Por mais que tivesse contado ao Padre do perigo que era todo aquèle dinheiro
se amontoando nos diversos altares sem ninguém para tomar conta, não fizera caso e não
designara nem uma pessoa para ajudá-la. Ela bem que tinha visto, de vez em quando, moleques
passarem a mão nalguns cobres, mas que fazer? Não podia tomar a iniciativa de pedir auxílio,
porque só o padre é que dava ordens; e no único dia em que, sem licença, solicitara a duas
pessoas conhecidas que a auxiliassem, êle, ao saber, armara tal barulho que nem queria lembrar!

Segundo observámos, a quantia dada em esmola oscilava geralmente entre Cr$ 5,00 e
Cr$ 50,00; as esmolas de Cr$ 100, 00 e Cr$ 200,00 também não eram raras e vinham muitas
vezes de gente de aspecto bastante pobre (aliás, o povo que estava na igreja era nitidamente
composto de gente da baixa classe média, assim como de caboclos, operários, colonos, etc.);
vimos algumas notas de Cr$ 500, 00 e só uma de Cr$ 1.000,00 – tudo isso no posto de
observação que tínhamos escolhido, junto à imagem do Senhor dos Passos; pode ser que nos
outros altares tivessem surgido mais notas de mil cruzeiros.

Por volta do meio-dia, a quantidade de dinheiro formava verdadeiras montanhas (sem


exagêro) sôbre os altares e no andor do Senhor dos Passos. Não havia na Igreja onde guarda-lo
e os sacos ainda não tinham chegado. A zeladora, desde muito desistira de conservar os maços
em ordem e limitava-se a catar o trôco naquele incrível amontoado de notas de tôda a espécie
em equilíbrio instável. [67]

Abandonamos então a Igreja, depois de vermos recolherem as esmolas do Cruzeiro e de


termos assistido às queixas da irmã da zeladora, encarregada da barraquinha junto à Casa
Paroquial, que declarava não poder arcar sòzinha com a quantidade de povo que ali fazia
donativos. Deixamo-las ambas entregues a seus misteres, de que só largariam à noite, quando
(segundo nos afirmaram novamente) todo aquêle dinheiro seria posto em sacos de estopa e
levado para uma casa de família, onde seria contado e guardado.

Nessa noite fomos à Casa Paroquial. Lá dentro, uma senhora percorria os grupos de
pessoas que entravam para a bênção especial, recebendo esmolas numa bandeja. Mas não era
só êsse o dinheiro que entrava para a Casa Paroquial. Três mocinhas num quarto, passavam o
dia abrindo cartas que cotidianamente chegavam, em quantidade inverossímeis, à casa do
Vigário 2; os selos, recortados, iam para uma grande caixa de papelão; as fotografias eram
àrrecadadas para a Sala do Milagres; e o dinheiro que quase todas traziam dentro era reunido
ao resto das esmolas. Quanto à carta deixavam-na no chão; no fim da noite, o Padre abençoava

2
Informaram- nos que só através da Rádio Nacional recebeu o Vigário 70.000 cartas.
a montanha de cartas e no dia seguinte eram todas incineradas no quintal; lê-las seria
impensável e impraticável.

Todavia, uma outra maneira de dar esmolas nos apareceu mais curiosa. A casa Paroquial
mantinha-se dia e noite hermèticamente fechada para impedir invasões, que várias vezes foram
tentadas; sómente se abria a porta do centro na hora das bênçãos. As vidraças de guilhotina,
colocadas do lado de fora das folhas de pau, ficavam todas duas abaixadas para que algum ar
penetrasse pelas frestas superiores daquelas, sempre cerradas. O povo, então atirava suas
esmolas no vão formado pela vidraça de guilhotina e pela folha de madeira da janela da Sala
dos Milagres.

Lá pelas 10 horas da noite, terminadas as bênçãos, o sr. Nicola, encarregado da Sala dos
Milagres e auxiliar do Pe. Donizetti, abria a folha de pau e recolhia o dinheiro; vimos quando
este despencou no chão, em notas de 5 a 10 cruzeiros principalmente, ao ser aberta a janela. O
funcionário de um dos Bancos locais já estava a postos para contar tudo e levar embora. Nesse
dia tinham sido recebidos na Casa Paroquial, tanto na janela, quanto na bandeija e nas cartas,
Cr$ 47.275,00.

Contou-nos o sr. Nicola com evidente orgulho que o Vigário já possuía nos Bancos
recolhida sòmente na Casa Paroquial, a quantia de quatro milhões e seiscentos e dezoito mil
cruzeiros; quanto ao dinheiro dado na Igreja, êsse não ia para os Bancos, o Padre lhe dera outro
destino de que o sr. Nicola não estava informado. [68]

Para a contagem do dinheiro, o Padre determinava um rodízio dos três bancos da cidade,
Scatena, Bandeirantes e Moreira Salles, comparecendo dois de cada vez à Casa Paroquial.
Assim, em maio, o rodízio começará pelos bancos Bandeirantes e Scatena; no dia seguinte,
Scatena e Moreira Salles; no outro dia, Moreira Salles e Bandeirantes; no quarto dia, novamente
Bandeirantes e Scatena, e assim por diante. A contagem do dinheiro nas casas de família era
feita por pessoas da confiança do Padre, escolhidas entre a gente conhecida da cidade, e também
segundo um rodízio que o próprio Padre estabelecera.

Para que todo êsse dinheiro?

Desde a nossa chegada, disseram-nos que duas coisas sempre se tinha podido afirmar a
respeito do Pe. Donizetti: sua perfeita honestidade e a pureza de seus costumes. Havia quem o
considerasse um ganancioso, sempre a pedir dinheiro aos paroquianos, Na hora das esmolas,
durante a missa, fazia questão de ir êle mesmo com o saquinho, de banco em banco, verificando
quem dava e quem não dava; e se por acaso ouvia o tinir de uma moeda, reclamava: “Quem
dava níqueis era porque tinha pouco, e nesse caso era melhor não dar nada.” No entanto, para
si mesmo não queria nada; andava mal arrumado, vestia batina surradíssima, sua casa era velha,
sem conforto, muito pobre, seu passadio modesto (o que tudo verificá-mos também
pessoalmente).

Tôdas as economias que sempre fez, todas as esmolas que pediu e pede são para a
realização de seu sonho: construir em Tambaú um grande templo consagrado a N. S. Aparecida,
o maior a ela dedicado e transformar assim Tambaú numa verdadeira APARECIDA DO SUL,
como diz nos folhetos que mandou imprimir. [69]

Agradecimento

Ao Reitor do Santuário de N. S. Aparecida em Tambaú, Pe. Anderson Godoi de


Oliveira, pela possibilidade de consulta ao exemplar original da Revista Anhembi
que se encontra no Museu/Casa do Padre Donizetti.

***

Transcrição

Renato Gonçalves dos Santos

Graduação em História - UNIFEOB


Pós-Graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano

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