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ASPECTOS GERAIS DA LÍNGUA CULTA: GRAFIA E EMPREGO DE ALGUMAS PALAVRAS E

EXPRESSÕES
Você terá, neste tópico, a oportunidade de aperfeiçoar seu desempenho no que diz respeito à
grafia e ao emprego apropriado de formas e expressões que, geralmente, causam problemas a quem
pretende falar ou redigir o português culto; ou seja, vamos refletir sobre algumas expressões que
sempre temos dúvidas ao escrever e que, muitas vezes, comprometem o sentido do texto. Isso
ocorre quando, por exemplo, utilizamos “mas” em lugar de “mais”, “mal” em lugar de “mau”,
“aonde” em lugar de “onde”, “acerca de” em lugar de “há cerca de”, “senão” em lugar de “se não”,
entre outros casos.
Vamos lá!

Mal/mau
A pronúncia das duas palavras confunde-se ao falarmos, pois os sons são realmente muito
semelhantes. O problema maior acontece quando escrevemos. É muito fácil, porém, diferenciar um
do outro:
1) A seleção brasileira jogou mal, mas conseguiu vencer a partida.
2) Trabalhar é um mal necessário.

“Mal” pode ser advérbio ou substantivo, dependendo do contexto.


No caso da 1ª oração, “mal” é um advérbio de modo, pois adquire o sentido de
“erradamente”, “de modo irregular”, “incorretamente”.
Observe, a seguir, alguns aspectos do uso do “mal” como advérbio:
 Ele sempre completará a ação de um verbo: “jogou mal”, “comeu mal”, “sentiu-se mal”.
 Ele será sempre invariável; isto é, não passa para o plural. Em nossa infância, era muito
comum usarmos a expressão “estar de mal”, ou seja, estar de relações cortadas.
 É sempre empregado em oposição a “bem”.

Veja alguns exemplos:


 Ele administra mal sua empresa.
 Fale bem ou mal, mas falem de mim.

No caso das orações a seguir, “mal” é um substantivo e significa “prejudicial”, “nocivo”. É,


também, empregado como sinônimo de “doença”, “moléstia”, “enfermidade”. Nesse caso, é variável,
admitindo o plural “males”. Veja os seguintes exemplos:

1) O mal não compensa.


2) Dos males, o menor.

“Mau”, por sua vez, é adjetivo e significa “imperfeito”, “ruim”, “que causa mal, prejuízo”, “de
má índole”, “de má qualidade”. Veja um exemplo:

 Há sempre um quê de bondade no que é mau.


Observe alguns de seus aspectos:

 É variável, admitindo o feminino “má” e o plural “maus”.


 É antônimo de “bom”.

Para facilitar, você pode usar a seguinte regra prática: “mal” opõe-se a “bem”, e “mau” opõe-
se a “bom”. Veja alguns exemplos:

1) O mal não compensa./O bem não compensa.


2) Tem um mau coração./Tem um bom coração.
3) Ele é um sujeito de má índole./Ele é um sujeito de boa índole.
4) O ladrão se viu em maus lençóis.

Por que/por quê/porque/porquê

Por que/Porque
Leia a letra da música de Paula Toller, interpretada pela Adriana Calcanhotto, chamada Oito
anos:

Oito anos
(Paula Toller e Dunga)

Por que você é Flamengo


E meu pai Botafogo
O que significa
“Impávido colosso”?

Por que os ossos doem


enquanto a gente dorme
Por que os dentes caem
Por onde os filhos saem

Por que os dedos murcham


quando estou no banho
Por que as ruas enchem
quando está chovendo

Quanto é mil trilhões


vezes infinito
Quem é Jesus Cristo
Onde estão meus primos

Well, Well, Well, Gabriel...


Por que o fogo queima
Por que a lua é branca
Por que a terra roda
Por que deitar agora

Por que as cobras matam


Por que o vidro embaça
Por que você se pinta
Por que o tempo passa

Por que a gente espirra


Por que as unhas crescem
Por que o sangue corre
Por que a gente morre

Do que é feita a nuvem


Do que é feita a neve
Como é que se escreve
Réveillon
(LETRAS TERRA, 2011).

Observe que aparecem várias perguntas empregando a palavra “por que”, separadamente e
sem acento.
Suponhamos que respondêssemos a algumas dessas perguntas:
1) “Por que as cobras matam?”. R.: As cobras matam porque são venenosas.
2) “Por que o vidro embaça?”. R.: O vidro embaça porque o ar é quente.
3) “Por que a gente morre?”. R.: A gente morre porque tudo tem seu fim.

Agora que você já conferiu os exemplos anteriores, vamos entender, então, a diferença entre
“por que” e “porque”:

 A forma “por que” usada na pergunta é, no caso, a sequência de uma preposição –


“por” – e um pronome interrogativo – “que”. Já a forma “porque” que aparece nas
respostas é uma conjunção, equivalendo a: “pois”, “já que”, “uma vez que”, “como”.
 A melhor maneira de sabermos quando o “porquê” deve vir junto ou separado é
substituí-lo por: “por que motivo”, “por que razão”. Se fizer sentido, deve ser separado.

Veja outros exemplos em que isso ocorre:


1) Por que (motivo) os corruptos não vão para cadeia?
2) Os brasileiros se perguntam por que (motivo) os corruptos não vão para a cadeia.

Observe que, na pergunta em forma direta ou em forma indireta, a palavra “motivo” está
implícita. O segundo exemplo, por sua vez, é uma pergunta indireta e, por isso, não há ponto de
interrogação.
Já nas respostas, o termo “porque” é junto e sem acento, pois a substituição pela expressão
“por que motivo” não faz sentido. Veja:

1) A situação agravou-se porque muita gente se omitiu.


2) Sei que há algo errado porque ninguém apareceu até agora.
Há casos em que o “por que” representa a sequência “preposição + pronome relativo”,
equivalente a “pelo qual” (ou “pela qual”, “pelos quais”, “pelas quais”). Em outros contextos, “por
que” equivale a “para que”.
Para que as observações anteriores fiquem mais claras, observe a substituição das expressões:
1) O túnel por que (ou pelo qual) deveríamos passar desabou ontem.
2) Lutamos por que (ou para que) um dia este país seja melhor.
3) Estas são as reivindicações por que (ou pelas quais) estamos lutando.

Por quê/Porquê
Escreve-se “por quê” (separado e com acento) quando ele surgir no final de uma frase,
imediatamente antes de um ponto final, de interrogação, de exclamação ou de reticência. Isso
acontece porque, em virtude da sua posição na frase, o monossílabo “que” passa a ser tônico,
devendo ser acentuado:
1) Ainda não terminou? Por quê?
2) Você tem coragem de perguntar por quê?
3) Claro. Por quê?
4) Não sei por quê!

Escreve-se “porquê” (junto e com acento) quando se tratar de um substantivo. Significa causa,
razão, motivo. Normalmente, vem acompanhado de artigo e pode vir pluralizado: “os porquês”. Veja
os seguintes exemplos:
1) Dê-me ao menos um porquê para sua atitude.
2) Não é fácil encontrar o porquê de toda essa confusão.
3) Creio que os verdadeiros porquês mais uma vez não vieram à luz.

Onde/aonde
Para entender a diferença entre “onde” e “aonde”, vamos utilizar o texto a seguir:

Objetos perdidos
Os guarda-chuvas perdidos... aonde vão parar os guarda-chuvas perdidos? E os botões que se desprenderam? E as
pastas de papéis, os estojos de pince-nez, as maletas esquecidas nas gares, as dentaduras postiças, os pacotes de
compras, os lenços com pequenas economias, aonde vão parar todos esses objetos heteróclitos e tristes? Não sabes?
Vão parar nos anéis de Saturno, são eles que formam, eternamente girando, os estranhos anéis desse planeta misterioso
e amigo (QUINTANA, Mário. Disponível em: <http://recantodasletras.uol.com.br/prosapoetica/205241>. Acesso em: maio
2009.

Mário Quintana pergunta-se aonde foram parar vários objetos que perdemos no dia a dia.
Muitas vezes, em uma situação como essa, não sabemos se usamos “aonde” ou “onde”. A
tendência, no português atual, é considerar a seguinte distinção:
“Aonde” indica a ideia de movimento ou aproximação. Costuma referir-se a verbos de
movimento. Para entender melhor, veja os exemplos a seguir:
1) Aonde você vai?
2) Aonde querem chegar com essas atitudes?
3) Aonde devo me dirigir para obter esclarecimentos?
4) Não sei aonde ir.

“Onde” indica o lugar em que se está ou em que se passa algum fato. Normalmente, refere-se
a verbos que exprimem estado ou permanência. Veja os exemplos:
1) Onde você está?
2) Onde você vai ficar nas próximas férias?
3) Discrimine os locais onde as tropas permanecem estacionadas.
4) Não sei onde começar a procura.

O estabelecimento dessa diferença de significado tem sido uma tendência do português


moderno. Hoje, é comum encontrarmos o emprego indiferente de uma ou de outra forma por
reproduzir, mais fielmente, a língua falada.

Mas/mais
Observe o poema “Perguntas”, de Carlos Queiroz Telles (1992, p. 12):

Perguntas
Espelho,
espelho meu,
dizei-me se há alguém
mais atrapalhada,
mais confusa,
mais entusiasmada,
mais preguiçosa,
mais esquisita,
mais animada,
mais perdida, mais alegre
e mais apaixonada
do que eu.

Ao ler os primeiros versos: “espelho, espelho meu [...]”, você certamente se lembrou de um
conhecido conto de fadas, mas a personagem não era a madrasta da Branca de Neve, e sim uma
adolescente muito atrapalhada, muito confusa, muito preguiçosa e apaixonada.
Observe que o “mais”, em “mais atrapalhada, mais confusa, mais preguiçosa, mais
apaixonada”, no poema, foi usado com uma ideia de quantidade, de intensidade, equivalendo a
“muito”. “Mais” é pronome ou advérbio de intensidade, opondo-se, normalmente, a “menos”:

1) Ele foi quem mais tentou; ainda assim, não conseguiu.


2) É um dos países mais miseráveis do planeta.
Por sua vez, “mas” é uma conjunção adversativa que indica contrariedade. Equivale a “porém”,
“contudo”, “entretanto”, como você pode perceber por meio dos seguintes exemplos:
1) Tentou, mas não conseguiu.
2) O país parece ser viável, mas não consegue sair do subdesenvolvimento.
3) Pensei que o poema fosse falar da madrasta de Branca de Neve, mas falava de uma
adolescente atrapalhada, confusa... E apaixonada.

Que/quê
Leia o poema Quadrilha, um dos mais famosos de Carlos Drummond de Andrade, e observe o
emprego da palavra “que”:

Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava
Lili que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou-se com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história (CASA DO BRUXO, 2011).

Nesse caso, o “que” é um pronome, pois foi empregado para substituir o nome dos
personagens do poema. Desse modo, quando se tratar de um pronome, conjunção, advérbio ou
partícula expletiva átona, o “que” não é acentuado. Para entender melhor, veja outros exemplos:
1) (O) Que você pretende?
2) Você me pergunta (o) que vou fazer. (O) Que posso fazer?
3) Que beleza! Que bela atitude!
4) Convém que o assunto seja discutido seriamente.
5) Quase que me esqueço de avisá-lo.

Em outros casos, ele pode tornar-se tônico devido à sua posição na frase, passando a ser
acentuado. Isso ocorre quando o “quê” está no final da frase, como nos exemplos a seguir:
1) Você está falando de quê?
2) Queria ajudar, mas não tinha com quê.

Veja, agora, seu uso como interjeição, indicando surpresa, espanto:


1) Quê! A inflação acabou?!
2) Quê! Consegui chegar a tempo?!

Você pode criar os seus próprios poemas, inspirando-se no modelo de Drummond. Use, em
suas orações, não apenas o pronome relativo “que”; há, também, os pronomes “quem”, “cujo” e
“qual”, que podem oferecer boas possibilidades de criação. Tente!

Ao encontro de/de encontro a


“Ao encontro de” indica aproximação agradável ou concordância, aproximar-se de algo ou
alguém. Observe os exemplos:
1) Veio ao meu encontro e abraçou-me afetuosamente.
2) Sua opinião veio ao encontro das nossas e, assim, pudemos estabelecer um acordo.
3) Ainda bem que sua posição veio ao encontro da minha. Pudemos, assim, unir nossas
reivindicações.
Por sua vez, “de encontro a” indica oposição, choque, colisão. Veja os exemplos a seguir:
1) O homem foi de encontro à porta e machucou a testa.
2) Como você queria que eu o ajudasse se suas opiniões sempre vieram de encontro às
minhas? Nós pertencemos a mundos diferentes!
3) O caminhão foi de encontro ao muro, derrubando-o.

Acerca de/há cerca de/cerca de


Para entender melhor o uso dessas expressões, vamos utilizar o seguinte texto:

13º Simpósio Internacional de Iniciação Científica da Universidade de São Paulo


Há cerca de quatrocentos anos, uma meditação sobre a morte e a natureza humana do poeta inglês John Donne nos
explicou que "nenhum homem é uma ilha". Se ele vivesse hoje, poderíamos imaginar que sua frase se referisse à
Iniciação Científica, que só floresce em um ambiente científico povoado por vários atores: o líder orientador, os alunos de
pós-graduação e, cada vez mais, os pesquisadores pós-doutorandos (disponível em:
<http://www.usp.br/siicusp/13osiicusp/apresentacao.htm>. Acesso em: 5 jul. 2009).

“Há cerca de” é uma locução utilizada para indicar tempo passado. Veja outros exemplos:
1) Os primeiros colonizadores surgiram há cerca de quinhentos anos.
2) Há cerca de trinta dias foi realizada a partida decisiva.

“Acerca de” é uma locução que equivale a “sobre”, “a respeito de”. É utilizada para introduzir
o assunto discutido. Observe os exemplos:
1) Haverá uma palestra acerca das consequências das queimadas sobre a temperatura
ambiente.
2) Conversamos acerca dos problemas nacionais.

“Cerca de” é uma locução que indica quantidade aproximada, equivalendo a


aproximadamente. Os exemplos a seguir ilustram o uso da expressão:
1) A cantora tem cerca de trinta anos de idade.
2) Cerca de dez mil pessoas compareceram ao comício.

Afim/a fim
Para que você entenda a diferença entre essas expressões, atente para o seguinte diálogo:

Estar a fim
— Mãe, posso tatuar um dragão no meu braço direito?
— Não!
— Posso desmontar o rádio relógio pra fazer uma arma laser?
— Não!
— Mãe, posso trocar a água do aquário por loção de barba?
— Não!
— Posso amarrar o gato no bidê com as cordas do violão novo do papai?
— Não!
— Posso cortar o seu vestido pra fazer uma roupinha de Batman?
— Não!
— Então, posso tomar banho, escovar os dentes e ir dormir?
— Pode!
— Não estou a fim! (Folha de São Paulo, 16 abr. 2004).
A expressão “estar a fim”, usada nesse diálogo, apesar de ter sido empregada de forma
negativa, traduziu uma ideia de finalidade. Significa “para”, “estar com disposição ou desejo”.
Quando assim for, é usada separadamente. Observe:
1) Prestamos atenção a fim de evitar dúvidas.
2) Deixou recomendações a fim de que tomássemos conta de seus interesses.
Já o “afim”, escrito junto, relaciona-se com a ideia de afinidade. É um adjetivo que significa
“igual”, “semelhante”. Veja os exemplos:

1) Tiveram comportamentos afins durante os trabalhos de discussão.


2) São espíritos afins.
E você, caro aluno, está “a fim” de continuar? Então vamos em frente!

Senão/se não
Acreditamos que você já conheça a música Caçador de mim, interpretada por Milton
Nascimento, composta por Luís Carlos de Sá e Sérgio Magrão, muito divulgada e apreciada por ter
uma letra que mexe com a alma da gente. Leia com atenção sua letra para, a seguir, estudarmos o
uso do senão e do se não:

Caçador de mim
(Luís Carlos Sá e Sérgio Magrão)

Por tanto amor, por tanta emoção


A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu, caçador de mim
Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim
Nada a temer
Senão o correr da luta
Nada a fazer
Senão esquecer o medo
Abrir o peito à força
Numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura
Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim
(LETRAS TERRA, 2011)

Agora, repare nesta propaganda:

SE NÃO

FOR
BOSCH,

BUZINE!

Veja o emprego de “senão” no poema e de “se não” no anúncio.


No anúncio de buzinas Bosch, fica evidente o emprego de “se não” indicando uma condição. Já
na letra da música de Sérgio Magrão e Luís de Sá, foi usado “senão” no sentido de “caso contrário”
ou “a não ser”.
Veja outros exemplos:
1) Estude, senão não autorizarei sua viagem. (caso contrário)
2) Se não estudar, não irá ao passeio. (condição)

Demais/de mais
No trecho da letra de música de Chico Buarque, chamada “Deixe a menina”, o poeta procura
intensificar a ideia de que o rapaz com quem fala não está nada bem. Observe:

Deixe a menina
(Chico Buarque)

Não é por estar na sua presença


Meu prezado rapaz
Mas você vai mal
Mas vai mal demais
São dez horas, o samba tá quente
Deixe a menina contente
Deixe a menina sambar em paz

Eu não queria jogar confete


Mas tenho que dizer
Cê tá de lascar
Cê tá de doer
E se vai continuar enrustido
Com essa cara de marido
A moça é capaz de se aborrecer [...]
(HOLLANDA, 1989. p. 182).

“Demais”, nesse caso, é um advérbio de intensidade, cujo sentido é “muito”. Ele aparece
intensificando verbos, adjetivos ou outros advérbios. Veja os exemplos:
1) Eles se amam demais.
2) Está cansado demais.

“Demais” também pode ser pronome indefinido, equivalendo a “os outros”, “os restantes”,
como nos trechos a seguir:
1) Apesar de ter chegado até lá com integrantes de um grupo, resolvi partir sozinho,
deixando aos demais a liberdade de escolher.
2) Fiquei sabendo posteriormente que os demais membros da comissão também acabaram
abandonando os projetos.
Já a expressão “de mais” opõe-se a “de menos”. Ela se refere sempre a um substantivo ou
pronome. Veja os exemplos:
1) Não vejo nada de mais em sua atitude!
2) Decidiu-se suspender o concurso público porque surgiram candidatos de mais.
3) Não fizemos nada de mais.

Na medida em que/à medida que

“Na medida em que” exprime relação de causa e equivale a: “porque”, “já que”, “uma vez
que”. Veja os exemplos:
1) O fornecimento de combustível foi interrompido na medida em que os pagamentos não
vinham sendo efetuados.
2) Na medida em que os projetos foram abandonados, a população carente ficou entregue à
própria sorte.

“À medida que”, por sua vez, indica proporção, desenvolvimento simultâneo e gradual.
Equivale a “à proporção que”. Veja os exemplos:
1) Os verdadeiros motivos da renúncia foram ficando claros à medida que as investigações
iam obtendo resultados.
2) A ansiedade aumentava à medida que o prazo fixado ia chegando ao fim.

Evite usar a expressão “à medida em que”, resultante do cruzamento das duas locuções
estudadas. Trata-se de uma expressão que a gramática prescritiva não reconhece.

A par/ao par
A expressão “a par” tem o sentido de “bem informado”, “ciente”. Veja os exemplos a seguir:
1) Mantenha-me a par de tudo o que acontecer.
2) É importante manter-se a par das decisões parlamentares.

Em contrapartida, “ao par” é uma expressão usada para indicar relação de equivalência ou
igualdade entre valores financeiros (geralmente, em operações cambiais). Veja o exemplo:
1) As moedas fortes mantêm o câmbio praticamente ao par.

A/há
O termo há, do verbo haver, geralmente tem sentido de “existir”. Observe, na música “Todos
juntos”, de Chico Buarque, seu emprego:

Todos juntos
(Enriquez/Bardotti/Chico Buarque)

Uma gata, o que é que tem?


— As unhas
E a galinha o que é que tem?
— O bico
Dito assim, parece até ridículo.
Um bicho se assanhar.
E o jumento, o que é que tem?
— As patas
E o cachorro, o que é que tem?
— Os dentes
Ponha tudo junto e de repente vamos ver o que é que dá.
Junte um bico com dez unhas, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te respeitar.
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco,
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer.
— Ao meu lado há um amigo que é preciso proteger.
Todos juntos somos fortes, não há nada a temer.
Uma gata, o que é que é?
— Esperta
E o jumento o que é que é?
— Paciente
Não é grande coisa realmente pr’um bicho se assanhar.
E o cachorro, o que é que é?
— Leal
E a galinha, o que é que é?
— Teimosa
Não parece mesmo grande coisa, vamos ver o que é que dá.
Esperteza, Paciência
Lealdade, Teimosia
E mais dia menos dia a lei da selva vai mudar.
Todos juntos somos fortes
Somos flecha somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer.
— Ao meu lado há um amigo que é preciso proteger.
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer.
...E no mundo dizem que são tantos saltimbancos como somos nós
(HOLLANDA, 1989, p. 184)

A palavra “há”, do verbo haver, é, também, usada em expressões que indicam tempo já
transcorrido. Nesse sentido, é equivalente ao verbo “fazer”. Observe os exemplos:
1) Tais fatos aconteceram há dez anos.
2) Tudo aconteceu faz dez anos.

Por sua vez, o termo “a”, sem “h” e sem acento, surge para indicar tempo futuro e é usado em
expressões em que a substituição pelo verbo “fazer” é impossível. Você pode perceber isso com os
exemplos a seguir:
1) O lançamento do satélite ocorrerá daqui a duas semanas.
2) Partiriam dali a duas horas.