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JOTA

O futuro do Direito

1ª edição
2017
Copyright © 2017 por JOTA

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CAPA, REVISÃO E DIAGRAMAÇÃO


Equipe Cia do eBook

ISBN
978-85-5585-092-9
SUMÁRIO

Apresentação ...................................................................................... 06

Prefácio: A revolução no mundo de Cícero ........................................ 08

Primeira parte: Cenário .................................................................. 16

Advocacia 2.0: como advogar no século XXI .................................... 17

ELI, o robô assistente de advogado .................................................... 23

Brasil, o país dos bacharéis “doutores” .............................................. 26

Uma crítica ao estudo esquematizado do Direito ............................... 30

Formado em Direito? Veja 23 carreiras possíveis ............................... 36

“Jovens bacharéis não são ensinados a cobrar honorários” ................ 47

10 livros para quem deseja trabalhar com arbitragem ........................ 52

“Advogado corporativo deve ter interesse genuíno por negócios” ..... 56

Segunda parte: Transição ................................................................ 59

Análise Econômica do Direito chega aos tribunais do país ................ 60

Carta a um jovem pesquisador do Direito ........................................... 79

Por uma ciência do Direito mais apropriada ....................................... 87

Para viabilizar mais adoções, deputado propõe mudanças na destituição


do poder familiar ................................................................................ 96

Carta a um jovem advogado especialista em Direito Digital ............ 100

Inteligência Artificial como ferramenta anticorrupção ..................... 105

Faculdades de Direito oferecem disciplinas em inglês ..................... 108


Terceira parte: Empreendedorismo .............................................. 114

Mercado jurídico saturado? Empreender pode ser a solução ............ 115

Inovação Digital – cases do futuro do Direito ................................... 134

Advogados não serão substituídos pela tecnologia ........................... 145

Empreendedorismo e Direito ............................................................ 149

Fundo de Investimento de Advogados em lawtechs ......................... 155

Inovação e a velha crise do ensino jurídico ....................................... 160


Apresentação

O trabalho jurídico da maneira como era pratica-


do no início desta década está com os dias contados. Sof-
twares já escrevem petições simples. Um robô-advogado
é capaz de consultar 200 milhões de páginas em segun-
dos. Uma tecnologia, desenvolvida por um banco, analisa
acordos de empréstimo comercial que tomavam 360 mil
horas por ano dos advogados da instituição.
Enquanto isso, no país onde há mais de um milhão
de advogados e em que 850 mil estudantes buscam o di-
ploma de bacharel, os cinco livros jurídicos mais vendidos
no primeiro semestre de 2017 foram Vade Mecums. A le-
tra e a interpretação da lei sempre serão essenciais para o
trabalho jurídico, mas não são mais os únicos elementos
necessários. Estudantes e as próprias universidades preci-
sam se adaptar.
Em outubro de 2016, o JOTA criou a editoria
Carreira, apoiada pelo Itaú, com a missão de promover
debates que auxiliem os leitores que estão ingressando no
mercado a tomar boas decisões profissionais.

6 O futuro do Direito
O e-book O Futuro do Direito, que você lê agora em
sua tela – provavelmente portátil – traz uma compilação
das melhores reportagens sobre o tema publicadas ao lon-
go do último ano, além de artigos inéditos.
Apesar de todas as novidades, os advogados e demais
operadores do Direito evidentemente não desaparecerão.
Mas, provavelmente, terão atribuições distintas das que
exercem hoje. O JOTA acompanha todas estas mudanças
para deixar você bem-informado antes de todos. E esta
jornada está só começando.

Kalleo Coura, editor de Carreira

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JOTA
Prefácio: A revolução no mundo de Cí-
cero
Por Oscar Vilhena

Diretor da FGV Direito SP. É formado em Direito pela PUC-SP, dou-


tor pela USP e pós-doutor pela Universidade de Oxford

A dvogados, juízes e outros operadores do Direito


somos habilitados a ouvir relatos e dar a eles um sentido
jurídico. Transformamos o desejo de um empreendedor
em um contrato, o sentimento de injustiça em uma ação
judicial, uma disputa comercial em uma arbitragem e um
crime em uma sentença. Desde Cícero, nos retratamos
como artífices da interpretação e aplicação das leis de um
país.
Essa realidade, no entanto, vem sendo rapidamente
transformada, por diversos fenômenos externos e internos
ao próprio Direito, com forte impacto sobre a profissão ju-
rídica, assim como sobre o ensino e a pesquisa em Direito.
A globalização, a aplicação de novas tecnologias de in-
formação são os fenômenos externos ao Direito que mais

8 O futuro do Direito
obviamente estão impondo uma reformulação do modo
como se pensa e se aplica o Direito.
Mais do que isso, a função do Direito e sua estrutura
interna também vêm se transformando profundamente no
último século. Se no passado o Direito tinha como função
essencial a estabilização de expectativas, por intermédio
da aplicação de regras e precedentes previamente estabe-
lecidos, no mundo contemporâneo o Direito passou a ser
utilizado de forma cada vez mais corriqueira como ins-
trumento de transformação e conformação da vida social,
cumprindo aos seus profissionais responder e colaborar
para a solução de problemas complexos que afligem a so-
ciedade. Ao acumular mais essa função, o Direito neces-
sariamente foi se desformalizando, como já alertava Max
Weber, no início do século XX. Ao adquirir uma natureza
cada vez mais instrumental, o Direito passou a se relacio-
nar de forma mais intensa com outras disciplina que lhe
fazem fronteira, como a Economia, a Sociologia, a Ad-
ministração, e a própria Filosofia, posto que seus profis-
sionais são constantemente convocados não apenas para
dizer se um comportamento é legal ou ilegal, se uma lei
ou um contrato são válidos ou inválidos, mas também para
opinar sobre o impacto econômico de um determinado
modelo contratual, ou sobre as consequências sociais de
uma determinada política pública.
O Direito, porém, não se tornou mais complexo pela
ampliação funcional de sua tarefa, mas também por não
ser mais contido pelas fronteiras de um Estado. Evidente
que sempre houve Direito Internacional ou a relação jurí-
dica entre o Direito de múltiplas jurisdições. Os Direitos

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JOTA
Romanos e Medievais dão inúmeros exemplos tanto de
um Direito cosmopolita, como a necessidade de se arti-
cular inúmeras jurisdições. Nada se compara, no entanto,
com o grau de interação e interconexão que permeia as
relações jurídicas contemporâneas.
O que há de comum na criação de um novo banco de
desenvolvimento pelos BRICS; na construção de imensas
usinas hidroelétricas na Turquia ou no Brasil, que contam
com investimentos estrangeiros e atuação de consórcios
internacionais na sua efetivação; na abertura de capital de
uma empresa que atua em múltiplos mercados; no fluxo
anual de mais de US$ 1,5 trilhões em investimentos es-
trangeiros diretos; no combate à corrupção e ao crime or-
ganizado, que inclui lavagem de dinheiro ou remessa de
capital para paraísos fiscais; no turismo sexual no sudoeste
asiático ou no Nordeste brasileiro que envolve tráfico de
pessoas e a concorrência de agentes em múltiplas jurisdi-
ções; ou ainda a constante ameaça à privacidade de bilhões
de pessoas ao redor do mundo, ao se propor a criação de
uma porta de acesso para que os agentes de aplicação da
lei possam interceptar a comunicação efetivada por inter-
médio de aplicativos?
A resposta pode parecer simples: todos são eventos
com uma dimensão jurídica cada vez mais complexa, glo-
balizada e interligada a outras áreas de conhecimento. O
complicado é que o enfrentamento desses e outros proble-
mas envolvem uma infinidade de regras e práticas jurídicas
que não se encontram confinadas numa única jurisdição,
exigindo daqueles que operam o Direito um conhecimento
para o qual não foram necessariamente preparados. Para

10 O futuro do Direito
professores de escolas de Direito, o desafio é como me-
lhor educar uma nova geração de juristas para um mundo
completamente distinto daquele mais paroquial, ordenado
e analógico em que foram formados? Partilho com o leitor
algumas das ideias que me pareceram mais instigantes.
A onipresença do Direito nas diversas esferas de
nossa vida tem exigido de outros profissionais, como ad-
ministradores, contadores, economistas e mesmo médicos
e cientistas, um conhecimento cada vez mais sólido do Di-
reito aplicável às suas esferas de atuação. Por outro lado,
para que sejam minimamente capazes de atuar, advogados
precisam ampliar seus conhecimentos sobre tecnologia,
gestão, economia, etc. Nesse sentido, escolas de Direito
precisam se abrir para outras disciplinas e, ao mesmo tem-
po, serem mais ambiciosas para treinar profissionais de
outras áreas.
Um segundo ponto refere-se à necessidade de inter-
nacionalização do ensino e pesquisa. Muito embora hoje
mais de 50% do PIB mundial esteja sendo produzido nos
países em desenvolvimento, cerca de 90% do mercado
internacional de advocacia é controlado por firmas ingle-
sas e norte-americanas. O sucesso anglo-saxão não tem
um significado apenas econômico para Wall Street ou a
City Londrina, mas também reflete uma desproporcional
influência institucional desses dois países na economia in-
ternacional. Os países que não contarem com uma inteli-
gência jurídica cosmopolita e instituições sofisticadas se
transformarão em meros clientes.
Uma terceira questão é a necessidade de conferir ao
aluno o protagonismo do processo de aprendizagem. Dada
11
JOTA
a velocidade das mudanças, não mais se pode imaginar
que um ensino focado na transferência de conhecimento
do professor para o aluno seja suficiente. O que devemos
promover são habilidades analíticas, criatividade e sólidos
conhecimentos sobre os princípios que regem o Direito.
Mais do que o treinamento de “operadores do Direito”,
devemos ter a ambição de formar “arquitetos jurídicos”,
capazes de forjar inovadoras soluções jurídicas para pro-
blemas complexos.
Para além da globalização uma outra dimensão a de-
safiar aqueles que praticam, pesquisam e ensinam Direito
é lidar com as diversas tecnologias de processamento de
dados, comunicação e mesmo inteligência artificial que,
se demoraram mais para chegar ao campo do Direito, hoje
constituem uma realidade inelutável.
Se a aplicação das tecnologias de processamento e
comunicação de dados provocou um avanço incremen-
tal na profissão, permitindo que todos pudéssemos fazer
muito mais coisas em muito menos tempo, com a chegada
do big-data e da inteligência artificial aplicadas ao Direi-
to, as inovações prometem ser disruptivas e não simples-
mente incrementais. A capacidade de analisar bilhões de
informações e, sobretudo, de estabelecer conexões lógi-
cas entre elas, como prenunciada pelo programa Watson,
da IBM, sugere que grande parte do trabalho mecânico
dos operadores do Direito pode ser brevemente assimila-
do por entes tecnológicos (robôs e softwares). Esse, pelo
menos, é o prognóstico de recente relatório publicado
pela International Bar Association.
A mudança que já começa a ser percebida é profun-

12 O futuro do Direito
da e os segmentos que não forem capazes de se adaptar
terão dificuldade em sobreviver. Do lado dos escritórios,
os serviços sob medida, cautelosamente elaborados para
um cliente fidelizado, vêm sendo pressionados por pro-
dutos e serviços jurídicos estandardizados, empacotados
e oferecidos como commodities, não necessariamente por
escritórios de advocacia. Consultorias, empresas de con-
tabilidade ou startups, criadas por jovens com múltiplos
saberes, pressionam o mercado tradicional. Se a regulação
da profissão por muito tempo foi capaz de assegurar o mo-
nopólio da prestação dos serviços jurídicos nas mãos dos
profissionais do Direito, essa barreira regulatória tende a
se tornar cada vez mais ineficiente para conter serviços
de natureza jurídica oferecidos por profissionais de outras
áreas.
Mesmo do lado das agências públicas de aplicação
da lei, o emprego das novas tecnologias, tende a gerar não
apenas mais velocidade, como também mais transparência
e, eventualmente, menos arbitrariedade por parte das auto-
ridades. Da lavratura de multas, sem qualquer intermedia-
ção humana, ao ingresso num país tendo apenas os olhos
biometricamente escaneados, ficam reduzidas as oportuni-
dades para pequenos arbítrios e ineficiências burocráticas.
Se ainda não há máquinas julgando, e nem seria desejá-
vel que houvesse, já é possível discernir e agregar casos,
para que recebam tratamento mais efetivo e isonômico.
Há hoje experiências promissoras na Advocacia-Geral da
União que ampliarão em muito a eficiência da proteção do
interesse público em campos como o Direito Tributário,
Previdenciário e mesmo as contratações públicas.

13
JOTA
Evidente que há o lado altamente sombrio dessa re-
volução. Um primeiro aspecto é o desproporcional aumen-
to na capacidade do Estado de imiscuir-se na vida privada
e assim ampliar sua disposição de controle e coerção sobre
nossas vidas, da qual precisamos aprender a nos defender.
A tecnologia também terá um efeito desagregador da pro-
fissão, ainda mais num país que permite a criação de um
número exorbitante de escolas de Direito, que diplomam
milhares de jovens bacharéis inabilitados para operar nes-
se novo mundo.
A revolução tecnológica já tem provocado e irá
provocar mudanças ainda mais drásticas no modo como
aprendemos e ensinamos Direito. Nossas salas precisam
ser transformadas em experiências pedagógicas que forta-
leçam as capacidades analíticas, os conhecimentos sobre
os fundamentos do Direito e as habilidades para solucionar
e negociar problemas complexos, essenciais ao jurista. De
outro lado, necessitamos estreitar o diálogo com diversos
campos de conhecimento, como tecnologia, neurociência,
economia e gestão.
Há, por fim, uma preocupação com o próprio sentido
da educação jurídica nos dias de hoje. A promessa de pol-
pudas recompensas financeiras seduz um grande número
de jovens não necessariamente vocacionados para a pro-
fissão. O risco é que muitas escolas de Direito, mesmo as
de ponta, se tornem existencial e politicamente estéreis,
contribuindo para a formação de advogados céticos que
pouco contribuam para o bem da comunidade. A receita
parece ser estimular programas como clínicas de interesse
público, que favoreçam a cooperação e um maior compro-

14 O futuro do Direito
misso com a sociedade e os valores da justiça, que se en-
contram no cerne da profissão desde os tempos de Cícero.
Ao hospedar esse debate multidimensional
o  JOTA  contribui para que profissionais e educadores
jurídicos possam ter uma compreensão mais adequada
de seus desafios, assim como melhor se qualificar para
atuar não apenas num mundo em rápida transformação,
mas também a partir de um Direito que vem assumindo
responsabilidades que são cada vez mais amplas e que,
portanto, impõe novas habilidades e saberes àqueles que
se aventuram nesse Direito do futuro.

15
JOTA
Primeira Parte
Cenário
____________________________

16 O futuro do Direito
Advocacia 2.0: como advogar no século
XXI
Disrupção no mercado jurídico irá alterar completa-
mente a rotina dos profissionais

Bruno Feigelson, sócio do escritório Lima ≡ Feigelson Advogados,


CEO do Sem Processo e presidente da Associação Brasileira de lawte-
chs e legaltechs (AB2L)

É uma grande honra ser convocado para refletir a


respeito do futuro da advocacia, especialmente em razão
do convite ter sido feito pelo time do JOTA, que vem re-
volucionando a forma de apresentar conteúdos jurídicos e
políticos no país.
A verdade é que a grande vantagem em se fazer esse
exercício de futurologia, – como bem observou o profes-
sor Egon Bockmann Moreira, em recente artigo abordan-
do o tema –, “reside na mais absoluta irresponsabilida-
de do profeta”. No entanto, diante da minha atuação no
escritório Lima ≡ Feigelson Advogados, na lawtech Sem

17
JOTA
Processo e na AB2L (Associação Brasileira de lawte-
chs e legaltechs), penso que posso contribuir com algu-
mas observações que cultivei refletindo e debatendo com
grandes expoentes da advocacia nacional.
Dito isso, e antes de iniciar a especulação a respeito
do que será a advocacia das próximas décadas, cabe sa-
lientar que acredito profundamente que não seremos ex-
tintos. Apesar do que muito vem se alardeando a respeito
dos ditos “robôs advogados”, penso que a disrupção no
mercado jurídico irá alterar completamente a rotina dos
profissionais que atuam neste segmento, sem com isso
retirar a importância dos seres humanos que lidam pro-
fissionalmente com interesses alheios (seja de indivíduos
ou de corporações). Muito pelo contrário, o profissional
que conseguir se adaptar ao mundo exponencial, comple-
tamente remodelado pela quarta revolução industrial, terá
expressivo protagonismo na nova realidade.
Certamente nós, advogados do final da segunda dé-
cada do século XXI, teríamos grandes dificuldades para
entender e interagir com este “advogado do futuro”, que
na minha concepção já está se remodelando, e terá sua
completa transformação ao longo dos próximos 5 a 10
anos. Assim, passo a listar as características que parecem
estar cada vez mais sendo valorizadas por indivíduos e
corporações, e que possivelmente serão ampliadas na me-
dida em que a inovação tecnológica progressivamente se
expanda pelos nossos hábitos de vida.
1. Constante uso das lawtechs e de tecnologias
em geral: Da mesma maneira que o uso do Word, e-mail,
Google e WhatsApp já é indispensável ao exercício

18 O futuro do Direito
profissional dos advogados, o uso de softwares desenhados
especificamente para o mercado jurídico será uma
realidade cada vez mais constante e presente na vida dos
advogados. O uso de plataformas digitais será imprescin-
dível para tarefas como pesquisar posicionamentos dou-
trinários, fundamentar pareceres, elaborar peças e contra-
tos, acompanhar mudanças legislativas e posicionamentos
de tribunais, negociar contratos e resolver conflitos. As
“commodities” da vida do advogado, em especial, serão
devoradas pela tecnologia. Advogar sem o uso de lawte-
chs, em um futuro nada distante, será tão absurdo quanto
imaginar, atualmente, a possibilidade de usar a máquina
de escrever em vez do computador.
2. Prestigiar mais o processador do que a me-
mória: Tradicionalmente, no âmbito da advocacia, a
experiência – “os cabelos brancos” – sempre foi valorizada.
Em uma realidade com baixo fluxo de informação, em que
a assimetria de informação era comum e as transformações
sociais e setoriais ocorriam em nível controlado, deter a
informação era tudo. No entanto, em uma sociedade em
que grande parte da informação está disponível, o fluxo
de transformações é exponencial e acelerado, advogar
significará cada vez mais processar de maneira célere
as alterações econômicas, setoriais e sociais, buscando
resultados assertivos para os clientes. Assim, pode-se
apostar em um futuro nada distante de advogados novos,
qualificados, especializados e amplamente conectados
com as mudanças em todos os sentidos.
3. Capacidade para encontrar e traduzir
respostas:  A integração global, o rápido fluxo de

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JOTA
informações e a complexidade do mundo moderno
irão impor um ritmo cada vez mais célere de novos
posicionamentos normativos, jurisprudenciais e
doutrinários. Desta forma, o advogado 2.0 estará conectado
na nuvem de informações em tempo integral, sempre
disposto a mapear, interpretar e traduzir da maneira mais
rápida possível as mudanças. Grande parte do trabalho dos
advogados das próximas décadas será acompanhar novos
posicionamentos, compreender os respectivos reflexos e
informá-los aos executivos e indivíduos em geral.
4. Maior nível de objetividade nas contratações: O
exercício da advocacia sempre foi uma típica obrigação
de meio, em que as certezas a respeito do sucesso eram
limitadas, ensejando todo tipo de esforço e investimento
para criar reputação. A transparência da nova era irá
substituir progressivamente fachadas de mármore
e publicações em revistas especializadas por dados
objetivos. As contratações serão pragmáticas, não abrindo
espaço para desperdícios financeiros. O advogado 2.0 será
medido por resultados, habilidades comprovadas e atuará
em ambientes com muita tecnologia e pouca pompa.
A modernidade oportunizará a maior valorização do
conteúdo do livro em detrimento da beleza da capa.
5. Compreensão e criatividade na resolução de
problemas novos e complexos: A curva de comoditização
dos assuntos jurídicos será cada vez mais célere. Os
resultados dos desafios impostos serão compartilhados,
oportunizando desta forma poucas possibilidades de se
obter resultados financeiros com respostas antigas. Da
mesma maneira, a utilização de tecnologia acabará com a

20 O futuro do Direito
mais-valia típica de serviços jurídicos automatizados. Por
outro lado, os desafios que serão impostos aos advogados
serão cada vez mais novos, com menor número de prece-
dentes e que demandarão soluções rápidas e criativas. O
advogado 2.0 terá que ser amplo conhecedor de assuntos
diversos da vida, multidisciplinar e criativo. Na medida
em que os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário não
possuirão a capacidade de interagir com as mudanças no
prazo em que elas ocorrem, caberá ao advogado desenhar
os limites e interpretações adequadas.
6. Analistas de dados: Tanto para interpretar as
decisões relacionadas aos diversos temas, bem como para
formular novos posicionamentos, será imprescindível
o uso das ciências de dados. A atuação profissional do
advogado ainda se fundará no poder argumentativo,
contudo, tal dinâmica será amplamente baseada em
resultados objetivos e fruto de análises de dados. O espaço
para o convencimento será mais balizado em observações
estatísticas. O sucesso do advogado 2.0 terá expressiva
relação com sua capacidade de analisar, interpretar e expor
tais informações.
7. Celeridade na resolução dos conflitos: O
advogado 2.0 é um rápido “resolvedor” de questões. A
velocidade da nova era não oportuniza mais espaço para
longos litígios. No âmbito das grandes corporações, o
sinal dos novos tempos está na privatização da resolução
dos conflitos que se dá por meio da arbitragem. Da mesma
forma, é crescente a adoção da mediação e da conciliação.
Seja como for, no campo da advocacia 2.0, o papel de
“negociador” será muito mais prestigiado do que o de

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JOTA
“litigante”. O uso de plataformas digitais para a resolução
de conflitos é um fenômeno em ascensão e irreversível. A
sigla ODR – Online Dispute Resolutions – será reconhecida
no futuro como o grande palco de atuação do advogado
2.0.

Texto inédito para este eBook

22 O futuro do Direito
ELI, o robô assistente de advogado
Criado para dar maior produtividade aos advogados,
robô é treinado para realizar diversas tarefas

Luís Viviani, repórter do JOTA

A empresa de tecnologia Tikal Tech, especializa-


da no segmento jurídico, lançou em julho o “robô-advo-
gado”  ELI  – sigla para Enhanced Legal Inteligence (in-
teligência legal melhorada). Trata-se de um assistente
personalizado treinado para realizar diversas tarefas para
auxiliar advogados e advogadas.
O robô pode acompanhar processos, assessorar em
colaborações, e responder aos clientes na forma de cha-
tbot. Ele ainda pode ajudar na coleta de dados, geração
e organização de documentos, formatação de petições e
interpretação de decisões judiciais para auxiliar na escolha
de modelos aplicáveis a casos concretos.
“O ELI sempre vai ser contratado por advogados
para trabalhar para eles – não para substituí-los. É uma
23
JOTA
forma de os profissionais atenderem aos clientes de uma
maneira automatizada”, diz o advogado Antônio Maia,
fundador da Tikal Tech.
Mas é preciso saber programar para utilizar o ELI?
Segundo Maia, não. “O advogado não precisa saber pra-
ticamente nada de programação. Basta conhecer o direito
em questão e o ELI vai ajudá-lo”.
Mais de 300 advogados já usam a nova ferramenta
e, segundo o empresário, há uma média de 10 a 15 novos
pedidos por dia.
Questionado se jovens advogados iriam perder espa-
ço por causa das novas tecnologias no segmento jurídico,
Maia diz que é possível que isso ocorra. Por outro lado,
surgirão novas oportunidades. A utilização de plataformas
pré-prontas, segundo ele, pode trazer novas possibilidades
de trabalho.
“O mercado de petições que existe em grupos de Fa-
cebook é um exemplo de como se abrem novas portas.
Tem sites que fazem aproximação profissional do advoga-
do com determinados tipos de clientes, de causas, e isso
possibilita que ele tenha atividades que não teria antes”,
diz.

ELI ICMS Energia


Uma das funções do robô é chamada de ELI ICMS
Energia. Trata-se de uma automação para o processo de
restituição do ICMS em contas de energia elétrica. Segun-

24 O futuro do Direito
do Maia, com a coleta de informações e cálculo da resti-
tuição até a petição inicial há uma economia de centenas
de cliques, acessos, downloads de contas e atualização de
índices de inflação.
“Dependendo das questões, o sistema vai, com base
nas informações que o advogado o instruiu, dar uma res-
posta sobre aquilo que a pessoa quer. Se ela tem direito ou
não e qual é o fundamento do direito que ela eventualmen-
te pode ter”, explica Maia.
No caso de a situação jurídica se aplicar a um núme-
ro grande de pessoas, o ELI faz um serviço de assessoria
de litígios, com modelos já prontos, organizando e cole-
tando documentos.
Outra característica do robô são os relatórios inte-
ligentes. “Como ele trabalha com as outras plataformas
da Tikal Tech, tem acesso a todo acervo de informações
que a LegalNote [sistema de acompanhamento de proces-
sos] tem”, explica. Com isso, seria possível, por exemplo,
prever que tipo de ações se costuma ganhar ou perder em
determinado lugar, com determinado juiz.

Texto inédito para este eBook

25
JOTA
Brasil, o país dos bacharéis “doutores”
Um em cada dez universitários estuda Direito

Kalleo Coura, editor do JOTA

Guilherme Pimenta, repórter do JOTA

O Ministério da Educação divulgou no início do


mês o Censo da Educação Superior de 2015, que mostra
que um em cada dez universitários do Brasil está assis-
tindo a uma aula de Direito nos bancos da faculdade. São
853.211 estudantes distribuídos em 1172 cursos, o que
faz do Direito a opção de ensino superior mais popular do
país.
No ano passado, exatos 105.324 novos bacharéis
foram despejados no mercado. Todo o grupo classificado
pelo Ministério da Educação de “Engenharia, produção e
construção”, que inclui Arquitetura e as mais diversas en-
genharias, formou praticamente o mesmo número de pes-
soas. Medicina gradua apenas 17.123 estudantes enquanto
jornalismo, com um mercado em eterna crise, forma 7.399

26 O futuro do Direito
profissionais.
Não é exagero dizer que o Brasil é o país dos bacha-
réis – e dos advogados também. A Ordem dos Advogados
do Brasil já registra 995.905 advogados em seus quadros.
Isto significa que a cada mil habitantes, cinco são advoga-
dos.
Embora no último exame da Ordem, no estado de
São Paulo, apenas 5.064 dos 28.165 candidatos inscritos
tenham sido aprovados, o número de advogados não para
de crescer.

Advogados no mundo
O Brasil é o terceiro País do mundo com mais advo-
gados em números absolutos. Perde apenas para Estados
Unidos, com 1,3 milhão, e Índia, que possui 2 milhões de
operadores do Direito – muito embora a ordem dos ad-
vogados local estime que 30% não atue na área ou, pior,
ostente um diploma falso na parede.
Levantamento feito pelo JOTA com 22 países
mostra que, em termos proporcionais, o Brasil supera
os líderes Estados Unidos e Índia, ficando atrás apenas
do Paraguai. Estima-se que nosso vizinho tenha 60 mil
advogados, ou quase nove advogados para cada mil
habitantes. Contudo, não se sabe quantos paraguaios
atuam de verdade na profissão e, como por lá não existe
um conselho profissional, basta se formar na faculdade
para se tornar advogado.

27
JOTA
Origem da desproporção
Neste cenário, é impossível não se perguntar: há es-
paço para tantos operadores do Direito?
A resposta do pesquisador Ivar Hartmann, professor
da FGV Direito Rio, é um sonoro não. Para ele, existe um
contingente desproporcional de alunos de Direito atraídos
por uma promessa de salários e de garantias de funções
públicas exclusivas que são desproporcionais ao que se
paga, em média, no setor privado.
Os concursos públicos para cargos de alto escalão,
de fato, são absurdamente concorridos. O último para de-
legado de Polícia Federal, por exemplo, teve 46.633 ins-
critos para apenas 150 vagas – uma concorrência de 311
candidatos para cada vaga. Para se ter uma ideia, o curso
mais concorrido da Fuvest no ano passado, o de medicina
em Ribeirão Preto, teve 72 candidatos para cada vaga.
Para o pesquisador, nem o mercado privado nem o
público conseguem absorver toda essa oferta de bacharéis.
“Ainda assim, se o aluno colocar na ponta do lápis, é evi-
dente que é mais vantajoso estudar para concursos. Para
muita gente que se forma em Direito por meio do Prouni
ter estabilidade e receber um salário de R$ 5 mil de técni-
co num tribunal é um sonho”, afirma.
“O Brasil desperdiça um capital humano monumen-
tal ao fazer com que essas pessoas joguem fora três, quatro
anos de suas vidas sem produzir nada e se preparando para
um teste que sequer será útil para a rotina profissional da-
queles que serão aprovados”, avalia Hartmann.

28 O futuro do Direito
Então, o que fazer?
Para o professor Otávio Silva e Pinto, presidente da
Comissão de Graduação da Faculdade de Direito da Uni-
versidade de São Paulo, o fundamental para o bacharelan-
do é estudar muito. “Ele precisa ter consciência de que não
conseguirá uma posição no mercado de trabalho relacio-
nada à área só porque está fazendo o curso”, afirma. “Até
mesmo porque a qualidade da faculdade muitas vezes não
garante a esse profissional a possibilidade de passar na
OAB ou em concursos públicos”.
Mesmo assim, para Pinto, o Direito abre caminhos
e pode ser um diferencial até mesmo para trilhar a área
empresarial. “Para ter uma ascensão profissional, o estu-
dante precisa estar bem-informado, conhecer as diferentes
visões e doutrinas a respeito do segmento que ele pretende
trabalhar. Apesar do grande número de bacharéis, existe
uma demanda da sociedade por profissionais da área jurí-
dica, que não necessariamente serão advogados.”
O diretor da Faculdade de Direito da Universidade
Presbiteriana Mackenzie, Felipe Chiarello, diz sempre
abordar a questão em suas aulas inaugurais sobre Direito
Econômico. “O mercado nunca está saturado para quem é
bom. O aluno tem que saber o que quer, otimizar o resul-
tado depois que se formar. É importante, por exemplo, ter
uma publicação de qualidade no final da graduação para
mostrar para um futuro empregador que ele é diferencia-
do”.
Texto publicado em 18/10/2016

29
JOTA
Uma crítica ao estudo esquematizado do
Direito
Utilizar “resumões” para ensinar alunos, sem dúvida,
não cumpre a função social do Direito

Marco Aurélio Florêncio Filho, doutor em Direito pela PUC-SP,


mestre em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), pro-
fessor e advogado

A tualmente, vive-se no Direito uma crise axioló-


gica [1], que demanda uma (re)leitura de alguns postu-
lados estruturantes na seara acadêmica. Aqui, farei uma
crítica, espero do ponto de vista construtivo, pois se assim
não fosse optaria por não escrever o presente, acerca do
estudo esquematizado do Direito, que apesar de ter uma
finalidade (vejo unicamente de revisão) ocasiona grandes
perdas na formação intelectual do jurista.
Certamente, o curso de bacharelado em Direito re-
quer do aluno bastante leitura, visto que o Direito, enten-
do, é uma ciência argumentativa. É por isso, aliás, que
muitos alunos não conseguem compreender os institutos

30 O futuro do Direito
jurídicos, pois procuram analisá-los a partir de postula-
dos cartesianos reduzidos, muitas vezes, unicamente em
cadernos (parece-me que daqui surgiu o Direito esquema-
tizado).
Desculpem-me a redução de complexidade, mas
compreendo que a doutrina que deve ser utilizada pelo
discente circunda a partir das seguintes possibilida-
des:  i) tratados novos; ii)  tratados antigos; iii)livros es-
pecializados e iv) periódicos nacionais (indexados pelo
qualis periódicos) [2] e estrangeiros.
Os tratados novos, praticamente em extinção, são
aqueles livros em que o autor busca abordar todos os temas
estudados numa área do Direito, por exemplo, tratado de
Direito Penal, tratado de Direito Civil, tratado de Direito
Administrativo etc. Cumpre destacar que pouco importa
o termo “tratado”, que pode ser um “curso”, “manual”. O
importante é versar seriamente sobre os temas abordados.
Já os tratados antigos, esses, em maior número, qua-
litativamente, são, particularmente, maravilhosos. Causa
tanta estranheza a falta de tratadistas como os que tivemos
no Brasil no século XX, que a Georg-August Universität,
em Göttinguen (Alemanha), através do CEDPAL (Centro
de Estudos de Direito Penal e Processual Penal Latino-
-americano) está a organizar um livro em homenagem a
Aníbal Bruno, para resgatar a obra deste grande jurista do
Direito Penal brasileiro [3]. Deve-se destacar que Aníbal
Bruno não finalizou o seu “Direito Penal”, constituído por
três volumes da Parte Geral e um volume, apenas, da parte
especial, “Crimes contra a Pessoa”. Também, não podería-
mos deixar de mencionar o “Tratado de Direito Privado”
31
JOTA
de Pontes de Miranda, em 60 volumes.
Por fim, reputo como importante para o bacharelan-
do em Direito realizar pesquisas nos periódicos indexados
pelo qualis da área do Direito da Capes ou periódicos in-
ternacionais para realizarem estudos mais aprofundados
acerca de temas do Direito.
Daí, o leitor pode me perguntar: e os livros jurídi-
cos esquematizados, possuem alguma finalidade? Entendo
que sim, caro leitor, para uma revisão. No entanto, acre-
dito que se for realizado um fichamento das opções acima
mencionadas, não haverá necessidade de estudo por livros
esquematizados.
Mas, o insistente leitor irá indagar-me, provavel-
mente: é importante estudar por livros esquematizados
para concursos públicos? E, aqui, repousa um problema,
que não é exclusividade no Brasil. Decerto, se essa per-
gunta me fosse formulada há cinco anos, provavelmente
eu responderia que o estudo para concursos públicos deve
se dar a partir da leitura de tratados novos, atualizados.
Entretanto, hoje, posso afirmar que no Brasil e na Europa
a busca pela carreira pública, muitas vezes não por voca-
ção, mas sim em busca da estabilidade financeira, faz com
que muitos pretendentes a cargos públicos (no Brasil, são
os denominados “concurseiros”) estudem por livros nos
moldes, esquematizado, sinopse, “resumão”.
Tive a oportunidade de, nos últimos 5 anos, realizar
pesquisas e ministrar palestras em alguns países europeus,
em especial: Portugal, Itália e Alemanha. Para minha sur-
presa, ao visitar as livrarias desses países, encontrei diver-

32 O futuro do Direito
sos livros para concursos públicos (nos moldes esquema-
tizados) e, pasmem, dificuldade em encontrar tratados de
Direito ou livros em temas específicos. Apenas, achei os
livros que procurava, bem como os periódicos especializa-
dos, nas bibliotecas das Universidades que visitei. Ainda
bem!
Entretanto, utilizar sinopses, “resumões” ou esque-
matizados para ensinar alunos, sem dúvidas, não cumpre
a função social do Direito, visto que os conflitos que os
juristas, via de regra, resolvem são extremamente comple-
xos e correspondem a uma expectativa de direito de um
terceiro (ser humano), que está longe de ser resolvido por
um esquema.
Espero que compreendamos bem a responsabilidade
que temos, como juristas, com a sociedade na qual esta-
mos inseridos, para que possamos solucionar, da melhor
forma, os conflitos que nos são apresentados. O resgate
ético-social que tanto se proclama atualmente passa por
nós mesmos. Conceber uma doutrina do bom comporta-
mento passa por uma construção de postulados firmes.
Sem dúvidas, o estudo não é uma tarefa fácil, principal-
mente o estudo jurídico. São horas e horas de reflexão para
se compreender determinados institutos e sua relação com
a sociedade.
Entristece-me, por exemplo, verificar nos Tribunais
Superiores a citação de livros esquematizados nos acór-
dãos prolatados, o que, para mim, revela a simplificação
na solução de uma demanda, que, certamente, não pode
ser resolvida por esquemas.

33
JOTA
Difícil é nessa sociedade informatizada fazer com
que se leia mais de 140 caracteres. Porém, quem disse que
Direito é fácil? E que simples soluções são as melhores?
Finalizo aqui minha opinião, que não possui preten-
são de verdade, mas apenas poderá servir para uma re-
flexão posterior, que o curso de Direito não termina. Por
certo, formamo-nos e iniciamos uma carreira jurídica, mas
enquanto estivermos atuando nas demandas jurídicas, fa-
z-se necessário estudar bastante e nos aprimorarmos, pelo
menos, no tocante à cultura jurídica. Conclamo aos que
estão envolvidos no ensino jurídico no Brasil a resgatar-
mos nossos tratadistas e despertar em nossos alunos o pra-
zer no estudo do Direito!

Texto publicado em 10/03/2017

[1] Na verdade, este problema atinge a sociedade em geral. Se-


gundo GOYARD-FABRE: “Nas sociedades “avançadas” que se de-
claram democráticas não existe mais consenso relativo aos ideais po-
líticos, aos interesses sociais e aos valores éticos; no lugar do sistema
de valores tradicionais, o jogo da competição se instalou nessas socie-
dades industrializadas ao máximo e, com esse jogo competitivo, se dá
livre curso ao pluralismo, à irracionalidade, ao individualismo e até
ao egoísmo. A obsessão com a produção e a eficácia econômica engen-
drou uma desintegração axiológica. A herança moral perdeu seu sen-
tido.” (GOYARD-FABRE, Simone. O que é Democracia? Tradução
Cláudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2003.)

[2] https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/cole-
ta/veiculoPublicacaoQualis/listaConsultaGeralPeriodicos.jsf

[3]  http://cedpal.uni-goettingen.de/index.php/eventos/semina-

34 O futuro do Direito
rios/362-sem-a-teoria-penal-de-anibal-bruno

35
JOTA
Formado em Direito? Veja 23 carreiras
possíveis
Bacharéis podem prestar diversos concursos exclusivos
ou optar por áreas inovadoras

Kalleo Coura, editor do JOTA

Guilherme Pimenta, repórter do JOTA

C erca de 260 mil pessoas se matriculam anual-


mente em cursos de Direito no Brasil, com o objetivo de
se unir a um contingente de milhões de bacharéis e advo-
gados e milhares de outros profissionais que atuam na área
jurídica.
Da matrícula à definição da carreira, o caminho cos-
tuma ser longo. Para produzir conteúdo relevante e exclu-
sivo para estudantes de Direito, concurseiros e jovens já
no início da carreira que escolheram, o JOTA lança hoje
a editoria Carreira.
Toda semana, publicaremos matérias especiais com

36 O futuro do Direito
o intuito de auxiliar os leitores na tomada de decisões re-
lacionadas à vida profissional — desde o momento em que
pisaram pela primeira vez na sala de aula da faculdade.
Como o estudo do Direito abre um leque extraordi-
nário de oportunidades ao recém-formado, para começar,
listamos as principais carreiras que um bacharel pode se-
guir fora do escritório de advocacia — seja no setor públi-
co ou mesmo no setor privado — e qual é a remuneração
inicial de cada uma delas.
No setor público, existem diversas carreiras exclu-
sivas para bacharéis em Direito ou para advogados. Além
de oferecerem estabilidade, algumas carreiras públicas pa-
gam salários iniciais altíssimos se comparados à realidade
do funcionalismo público em geral e até mesmo a do mer-
cado privado.
Na área privada, as possibilidades vão muito além do
tradicional cargo num grande escritório jurídico. Muitas
vezes vistos com reservas por integrantes das bancas tra-
dicionais, os departamentos jurídicos de grandes empresas
são uma ótima oportunidade para o jovem ganhar espaço
no mercado e, quem sabe, futuramente ocupar cargos de
direção numa multinacional. O terceiro setor também é
uma área que tem atraído jovens estudantes e bacharéis,
cada vez mais preocupados em agregar valor social ao tra-
balho.
A lista, claro, não esgota todas as possibilidades de
um recém-formado. Sugestões de pautas são muitíssimo
bem-vindas. Divida suas dúvidas e aspirações conosco,
através do e-mail do nosso editor, Kalleo Coura (kalleo.
37
JOTA
coura@jota.info).

Carreiras públicas
Uma miríade de cargos públicos pode ser ocupada
exclusivamente por bacharéis de Direito, que são atraídos
principalmente pela alta remuneração inicial e pela esta-
bilidade.

Juiz
Os magistrados processam e julgam as ações judi-
ciais resultantes do conflito entre pessoas jurídicas e/ou
físicas, entre entes públicos e entre particulares e entes
públicos. Para ocupar o cargo, o candidato deve ser apro-
vado em concurso de provas e títulos e comprovar ter, no
mínimo, três anos de atividade jurídica. Há concursos para
magistratura estadual, federal, trabalhista e militar.
Salário inicial: R$ 24.818,71 (TJ-SP) e R$ 27.500,17
(Tribunais Regionais Federais e Justiça Militar)

Promotor de Justiça
O Ministério Público (MP) é responsável pela defesa
da ordem jurídica, dos interesses da sociedade e do regime
democrático. O integrante do MP também fiscaliza a apli-
cação das leis e defende o patrimônio público. A atuação
do promotor se dá tanto na área criminal quanto na área
cível em âmbito estadual. Para ocupar o cargo, o candi-
dato deve ser aprovado em concurso de provas e títulos e

38 O futuro do Direito
comprovar ter, no mínimo, três anos de atividade jurídica.
Salário inicial: R$ 24.818 (MP-SP)

Procurador da República
Os membros do Ministério Público Federal (MPF)
também são responsáveis pela defesa da ordem jurídica,
dos interesses da sociedade e do regime democrático. Os
procuradores da República atuam nas áreas constitucional,
cível, criminal e eleitoral — primordialmente em âmbito
federal. Para ocupar o cargo, o candidato deve ser apro-
vado em concurso de provas e títulos e comprovar ter, no
mínimo, três anos de atividade jurídica.
Salário inicial: R$ 28.947,55

Procurador de Contas
É o representante do Ministério Público junto aos
Tribunais de Contas. O profissional fiscaliza o cumprimento
da Constituição e das leis ordinárias, principalmente
quanto à fiscalização contábil, financeira, orçamentária,
operacional e patrimonial do Estado e dos municípios.
Salário inicial: R$ 30.471 (TCE-SP)

Procurador do Estado
É o advogado do Estado, que atua prestando tanto
advocacia consultiva quanto representando o ente público
nos tribunais. Também é responsável por escrever e
analisar contratos e editais de licitação.

39
JOTA
Salário inicial: R$ 22.178,35

Procurador do Município
É o advogado do Município. Desempenha as
mesmas funções do procurador do Estado, mas em relação
ao município. Em geral, pode atuar na advocacia privada
também mesmo sendo concursado.
R$ 28.076 (na cidade de São Paulo)

Defensor Público
O defensor público presta assistência jurídica gra-
tuita a quem não tem condições de pagar por uma defesa
particular. Em geral, são atendidas pessoas que recebem
menos de três salários mínimos. Além disso, é dever do
defensor público promover os direitos humanos e defen-
der os direitos coletivos dos necessitados.
Salário inicial: R$ 18.431,20 (São Paulo)

Delegado de Polícia
É o responsável por presidir o inquérito policial,
coordenar agentes e comandar toda a parte jurídica da
investigação criminal. Os delegados de Polícia Civil atuam
em âmbito estadual enquanto os delegados da Polícia
Federal coordenam investigações de natureza federal.
Salário inicial: R$ 10.079 (Polícia Civil em São Pau-
lo) ou R$ 16.830,85 (Polícia Federal)

40 O futuro do Direito
Procurador no Banco Central
É responsável pela representação judicial e
extrajudicial do Banco Central do Brasil. Além disso,
também presta consultoria e assessoria jurídica para a
autarquia.
Salário inicial: R$ 17.330

Procurador Federal
Representa judicialmente e extrajudicialmente as
autarquias e fundações públicas federais, como por exem-
plo o Instituto Nacional do Seguro Social, o IBAMA, as
Agências Reguladoras e as universidades federais. Tam-
bém presta consultoria e assessoria jurídica a estes entes
públicos.
Salário inicial: R$ 17.330

Procurador da Fazenda Nacional


Faz a representação judicial e extrajudicial da União
em matéria tributária, de cobrança e execução de dívida
ativa da União. Também exerce as funções de consultoria
e assessoria jurídicas junto ao Ministério da Fazenda.
Salário inicial: R$ 17.330

Advogado da União
É responsável pela representação judicial e
extrajudicial da União (todos os Poderes) nas matérias

41
JOTA
jurídicas não abrangidas pela atuação do Procurador da
Fazenda Nacional, além de exercer as funções de consul-
toria e assessoria jurídicas junto aos órgãos do Poder Exe-
cutivo da União.
Salário inicial: R$ 17.330

Tabelião de notas
A função é aconselhar as partes de maneira imparcial
e confeccionar documentos públicos com o intuito de pre-
venir litígios e garantir a segurança jurídica e o respeito à
legislação. Os principais atos praticados pelo notário são
as escrituras públicas, os testamentos, as atas notariais, as
procurações, as autenticações e o reconhecimento de fir-
ma.
Salário: Calculado com base nos lucros obtidos pelo
cartório. Em 2015, um cartório de Brasília, por exemplo,
faturou R$ 26 milhões ao longo do ano.

Iniciativa privada e carreiras não exclusivas


Fora dos grandes escritórios de advocacia, há inúme-
ras oportunidades para bacharéis de Direito ou advogados.
Algumas não são exclusivas para profissionais formados
na área, mas os conhecimentos jurídicos adquiridos ao
longo da faculdade costumam ajudar os operadores do Di-
reito a serem bem-sucedidos.

Árbitro
É geralmente escolhido pelas partes que, em comum

42 O futuro do Direito
acordo, buscam a solução do conflito. O profissional,
ao final das audiências, é responsável por emitir uma
sentença, para a qual não cabe recurso.
Salário inicial: varia de acordo com as arbitragens.
De acordo com a Federação das Indústrias do Estado de
São Paulo (FIESP), em litígios abaixo de R$ 8 milhões,
o valor é de R$ 500 por hora trabalhada. Acima disso, a
renda é variável.

Pesquisador
É um profissional que atua, geralmente paralelamente
a outra atividade, pesquisando temas sobre as principais
áreas do Direito. É necessário que o profissional tenha
doutorado ou, no mínimo, mestrado, podendo trabalhar
em faculdades ou até em grandes escritórios de advocacia.
O trabalho geralmente é dividido entre pesquisas de longo
prazo, com duração de até três anos, ou de curto prazo,
que costumam tomar um ou dois meses.
Salário inicial: R$ 8.000

Professor
É quem ministra aulas aos alunos da Faculdade de
Direito ou em cursinhos preparatórios para a OAB ou para
concursos públicos. Pode ser especialista em qualquer área,
como penal, cível, trabalhista, tributário, administrativo e
outras.
Salário inicial: R$ 6.979 (USP) ou R$ 80 horas/aula
em cursinhos preparatórios
43
JOTA
Consultor legislativo
O profissional pode trabalhar no Senado, na Câmara
dos Deputados, em Assembleias Legislativas ou Câmaras
de Vereadores, auxiliando os políticos na criação de pro-
jetos de lei ou de emendas constitucionais, com um olhar
técnico do Direito.
Salário inicial: R$ 29.099,23 no Senado e R$
28.570,79 na Câmara dos Deputados

Conciliador
Busca ajudar as partes a chegar a uma solução por
meio de acordos, em uma tentativa de desafogar o Poder
Judiciário.
Salário inicial: Em São Paulo, é de R$ 47 para cada
duas horas trabalhadas

Mediador
Ajuda as partes que já se conhecem a restabelecer
um canal de comunicação. O acordo não é uma conse-
quência necessária da mediação. Para atuar, é necessário
que o profissional faça um curso de capacitação de media-
dores oferecido pelos tribunais ou câmaras de mediação.
Salário inicial: Em São Paulo, é de R$ 47 cada duas
horas trabalhadas

Diplomata

44 O futuro do Direito
Deve defender, representar e negociar questões de
interesse do país junto à comunidade internacional.
Salário inicial: R$ 15.005,26

Advogado corporativo
O profissional presta assessoria jurídica às empresas.
Elabora contratos sociais de acordo com as necessidades
da empresa, e também acompanha os processos cíveis, tra-
balhistas e tributários.
Salário inicial: em torno de R$ 5.000

Advogado do terceiro setor


É recomendável que o profissional entenda ou
queira aprender sobre administração, política, gestão,
estatística e, sobretudo, estar disposto a atuar fora da
caixa. No âmbito jurídico, um advogado no terceiro setor
pode atuar em advocacy (lobby) e processo legislativo
ou cuidar da gestão de parcerias e contratos externos.
Entre as atividades extrajurídicas destacam-se: realização
de pesquisas e representação institucional. No dia a dia,
o profissional pode ter de exercer desde as tarefas mais
simples e burocráticas até a redação de uma ata ou outro
documento formal.
Salário inicial: R$ 4.000

Consultor estratégico de startups


O profissional acompanha atividades de uma empre-

45
JOTA
sa em início de funcionamento e presta assessoria rela-
cionada a assuntos fiscais, trabalhistas, societário, regu-
latório, etc. É responsável também pelo desenvolvimento
de equipes estratégicas para determinada área de atuação,
monitorar metas e participar da produção de novos proje-
tos.
Salário inicial: R$ 5.700

Texto publicado em 03/10/2016

46 O futuro do Direito
“Jovens bacharéis não são ensinados a
cobrar honorários”
Para presidente da OAB-RN, recém-formados não sa-
bem exercer a advocacia

Kalleo Coura, editor do JOTA

O s cursos de Direito não ensinam ao estudante


como se portar numa audiência, como cobrar honorários e
como avaliar o custo de um processo.
O resultado é que ele chega ao mercado de traba-
lho sem saber como exercer na prática a advocacia, avalia
Paulo de Souza Coutinho Filho, presidente da seccional da
OAB no Rio Grande do Norte.
“Se o jovem advogado não souber calcular o custo e
cobrar aquém, ele vai pagar para trabalhar”, diz Coutinho
Filho. “Por isso, a OAB tem desenvolvido ações junto a
graduações e jovens advogados para que eles sejam prepa-
rados para a vida prática”.

47
JOTA
Sobre a tabela de honorários local, que cobra acima
da mediana nacional, Coutinho Filho afirma que alguns
valores não refletem a realidade atual do Estado.
“Estamos no processo de consulta pública e um dos
pontos que vai ser modificado é o estabelecimento de um
valor médio da hora trabalhada”, conta.

Leia a entrevista completa com Paulo de Souza


Coutinho Filho, presidente da OAB-RN:

Qual é a vantagem de se ter um piso dos advoga-


dos?
O piso estabelece um valor mínimo. Infelizmente te-
mos uma advocacia com um número de profissionais cres-
cente, o que reduziu o valor de remuneração. Temos aqui
uma lei estadual que estabelece o piso para o advogado
privado. O valor para 20 horas semanais é de R$ 1.300 e
para 40 horas é de R$ 2.600. A lei foi aprovada em 2015
e sancionada pelo governador no ano passado. Também
temos uma tabela de honorários que é referência para a ad-
vocacia autônoma, mas não tínhamos uma referência que
obrigasse a contratação por parte de escritórios, empresas.
O valor mínimo da hora de consulta no Rio Gran-
de do Norte é de R$ 436, acima da mediana nacional,
que é de R$ 300. Os advogados realmente cobram isso?
Não. Estamos enfrentando esse problema na nova
tabela. Estamos no processo de consulta pública e um dos

48 O futuro do Direito
pontos que vai ser modificado é o estabelecimento de um
valor médio da hora trabalhada. Esse valor não reflete a
realidade. Na época em que a tabela foi criada poderia re-
fletir. Hoje não.
Qual é a taxa de inadimplência da OAB-RN?
A inadimplência histórica é algo em torno de 38%,
41%. É bastante alta. Temos hoje uma advocacia em que
parte dela se inscreve na Ordem, mas não exerce efetiva-
mente a profissão. Essas pessoas estão buscando um con-
curso público e se esquecem da anuidade. Temos que fazer
um trabalho muito grande não de cobrança, mas de cons-
cientização porque todos os benefícios são exclusivos dos
advogados adimplentes. Acredito que temos conseguido
recuperar o débito em atraso ao fazer esta conscientização.
Só os adimplentes têm acesso à caixa de assistência, que
conta com uma rede conveniada com clínica de atendi-
mento médico e odontológico, centro de inclusão digital
e muitos outros benefícios. Ainda não estamos incluindo
os inadimplentes no SPC, mas vamos começar a fazer isso
ainda neste ano. Sei que isto tem feito diferença em outros
estados.
O senhor sabe quantos advogados atuam como
dativos no Estado?
Não é um percentual considerável, não. Algumas se-
cretarias abrem o cadastro e o juiz faz a nomeação de acor-
do com os nomes listados. Não são muitos os advogados
porque o recebimento é complicado, depende do gover-
no estadual e os profissionais têm que entrar com ação de
execução para poder receber.
49
JOTA
Hoje são 11.057 advogados no Rio Grande do
Norte. O mercado está saturado?
Não, acho que ainda tem espaço. O Estado está cres-
cendo e a área industrial tem se desenvolvido. Temos um
parque eólico muito forte, e a área de petróleo e gás tam-
bém. É obvio que o mercado em si, em função da condi-
ção financeira do país, se retraiu. Não temos uma pujança
como gostaríamos, mas há espaço para jovens advogados,
sim.
Quais são os principais desafios da advocacia no
Estado?
É a questão dos honorários sucumbenciais. Temos
muitos casos de aviltamento. Os juízes têm estabelecido
remuneração muito aquém do mínimo. Por exemplo,
temos vários processos que demoraram sete anos para ter
um julgamento e que o juiz arbitrou R$ 500 de honorários
sucumbenciais, sendo que o caso era de fornecimentos de
medicamentos de mais de R$ 800 mil. A única remuneração
do advogado era sucumbencial. Não dá. Com o novo
CPC ficou mais difícil isso, mas a gente ainda enfrenta
dificuldades em decisões anteriores ao novo Código na
primeira instância. Nesse caso específico, a decisão foi
realmente absurda. O argumento foi que não houve tanto
trabalho de interpretação por parte do advogado já que
esta ação poderia ter sido elaborada para se buscar um
medicamento mais barato. A argumentação serviria tanto
para a obtenção de um AAS como para um remédio de alta
complexidade, que era o caso, segundo o juiz. O tribunal
reviu o caso e arbitrou os honorários em R$ 5 mil.

50 O futuro do Direito
E o principal desafio da seccional da OAB?
Nós temos uma grande preocupação com a qualifi-
cação do advogado. Acho que talvez o grande desafio é
a recepção dos novos advogados. A grade curricular não
trabalha a formação do profissional. Não temos matéria de
gestão, os jovens não são ensinados a cobrar honorários,
ou seja, o bacharel sai do curso sem qualquer conheci-
mento para exercitar a advocacia como ela deve ser hoje,
sem uma visão empresarial. Ele não sabe em qual especia-
lidade ele pode investir, onde ele pode ter realmente um
resultado mais interessante financeiramente, sai absoluta-
mente verde para a advocacia e preparado quase que ex-
clusivamente para fazer um concurso público. Por isso, a
OAB tem desenvolvido ações junto a graduações e jovens
advogados para que eles sejam preparados para a vida prá-
tica. São cursos de iniciação à advocacia que focam em
aspectos práticos: como se portar numa audiência, como
cobrar honorários, como avaliar o custo de um processo
e por aí vai. Se o jovem advogado não souber calcular o
custo e cobrar aquém, ele vai pagar para trabalhar.
Por que as faculdades não ensinam isso?
Acho que essa ausência talvez seja uma questão cul-
tural de a advocacia ser considerada a profissão de quem
tem oratória, de quem é desenrolado numa audiência e fi-
camos muito tempo sem nos preocupar com a preparação
para a gestão do escritório. A juventude está predisposta a
aprender, só precisa de um empurrãozinho.
Texto publicado em 01/05/2017

51
JOTA
10 livros para quem deseja trabalhar
com arbitragem
Advogado listou obras de Kafka, Maquiavel e Carlos
Alberto Carmona

Carlos Forbes, presidente do Centro de Arbitragem e Mediação da


Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CAM-CCBC)

F azendo esta lista, vejo que o meu interesse pela ad-


vocacia, pelo contencioso e pela arbitragem vem de uma
visão histórica de que os problemas do mundo têm solu-
ção.
Por mais complexa que seja a situação, colocando-a
de maneira ordenada e seguindo o raciocínio de que tudo
tem princípio, meio e fim, é possível entregar o Direito de
maneira correta e objetiva para a satisfação da paz social.
Alguns podem considerar tal constatação uma visão
utópica e quase ingênua, mas se não houver a busca pela
justiça jamais se chegará à Justiça.

52 O futuro do Direito
1-) Odisseia, de Homero
Meu gosto pela leitura inicia-se com este clássico
dos clássicos. Anos mais tarde, relendo, verifico que o
meu gosto pelo Direito encontra guarida em uma série de
reviravoltas daquele que busca retomar seu trono ao final
de uma longa aventura.
2-) Duna, de Frank Herbert
Duna é para mim o suprassumo da capacidade hu-
mana de desenvolver um mundo próprio, com princípio,
meio e fim, ou, às vezes, sem fim (ver os cinco outros li-
vros da série).
3-) O Processo, de Franz Kafka
Voltas e reviravoltas sobre a impossibilidade de sa-
ber a acusação/defesa. Tão marcante e complexo que pode
e deve ser lido várias e várias vezes.
4-) O Falcão Maltês, de Dashiel Hammet
Clássico do policial noir, onde a confusão de dados
e ideias inicialmente colocadas revelam a capacidade do
autor, um de meus preferidos, de colocar ordem e expli-
cação em tudo. São os vários detalhes durante a narrativa
que permitem chegar ao final, tendo uma leitura prazerosa
e conclusiva.
5-) O Príncipe, de Maquiavel
Muito mais do que só “os fins justificam os meios”
é um tratado de política, que demonstra a necessidade de
conhecer o passado para entender o presente e planejar o
53
JOTA
futuro.
6-) A Luta Pelo Direito, de Rudolf von Ihering
O livro revela a necessidade da busca do entendi-
mento filosófico da existência e da finalidade do Direito.
Penso que deve ser o primeiro livro entregue aos estudan-
tes de Direito. Penso que foi o primeiro livro que li na
Faculdade de Direito da UERJ.
7-) Primeiras Linhas de Direito Processual Civil,
de Moacyr Amaral Santos
É o básico que precisa ser lido para compreensão do
Direito Processual. Mesmo referindo-se ao antigo Código
de Processo Civil sua leitura continua obrigatória para
perfeito entendimento dos princípios e regras que regulam
o processo e o procedimento.
8-) Hermenêutica e Aplicação do Direito, de Car-
los Maximiliano
Talvez o maior livro para o entendimento do Direito
e da sua aplicação. O princípio basilar da regra de inter-
pretação, qual seja que “a aplicação do Direito consiste no
enquadrar um caso concreto em a norma jurídica adequa-
da”, está nesse clássico de 1925, que continua tão atual
como se fosse escrito para esse nosso tempo.
9-) Arbitragem e Processo, de Carlos Alberto
Carmona
Um dos autores da Lei de Arbitragem Brasileira, os
outros são Selma Lemes e Pedro Batista Martins, apresen-

54 O futuro do Direito
ta, neste livro de leitura obrigatória, uma síntese de tudo
aquilo que se precisa entender e compreender a respeito de
arbitragem. Não há como se aprofundar no tema sem con-
tar com o ensinamento detalhado e objetivo deste livro.
10-) International Commercial Arbitration, de
Gary Born
O livro de Gary Born, lido por todos aqueles que
pretendem aprofundar seu conhecimento na matéria, é
aclamado como o texto padrão para compreensão da arbi-
tragem e sua contextualização no mundo.”

Texto publicado em 13/04/2017

55
JOTA
“Advogado corporativo deve ter interes-
se genuíno por negócios”
Oportunidades na carreira estão crescendo, segundo
Flávio Franco, diretor jurídico da Netshoes

Laura Diniz, editora do JOTA

Raquel Salgado, editora do JOTA

N o saturado mercado de trabalho dos profissionais


do Direito, encontrar um nicho que absorve cada vez mais
profissionais representa um tremendo alento. Pois essa é
a realidade dos advogados corporativos, segundo Flávio
Franco, diretor jurídico da Netshoes e coordenador de um
curso pioneiro de educação executiva para profissionais
de departamentos jurídicos no Insper, em São Paulo.
O papel do jurídico nas empresas está crescendo,
segundo Franco, por uma série de fatores. Em primeiro
lugar, porque os negócios estão cada vez mais regulados,
a exemplo do e-commerce. Em segundo, porque o com-
pliance é uma prática que veio para ficar nas companhias

56 O futuro do Direito
e sua implantação passa pelo time interno de advogados.
Em terceiro, porque as empresas estão começando a valo-
rizar o jurídico como parceiro nas estratégias comerciais.
A participação maior dos advogados no dia a dia das
empresas caminhou nos últimos anos em sintonia com uma
mudança no perfil dos profissionais. “Por muito tempo, o
jurídico foi visto como um departamento que servia para
atrapalhar. Os gestores mais modernos estão mostrando
para as empresas que os advogados estão ali para ajudar a
viabilizar negócios”, diz Franco. “Há um caminho longo a
percorrer. A gente ainda se depara muito com um perfil ju-
rídico da década de 80, do advogado que se veste diferente
das outras pessoas da empresa, que fala diferente, que usa
latim. Mas o momento é de oportunidade para transformar
essa realidade”, avalia o diretor.
Para ser um bom advogado corporativo, segundo
Franco, o profissional precisa “ter interesse genuíno por
negócios e gostar mais de gente que de papel, porque, nas
empresas, o Direito é instrumento”.
Por isso, no curso do Insper, leis e doutrinas são as
coisas de que menos se fala. Nas aulas, diretores jurídicos
experientes falam das competências exigidas do executi-
vo da área, como capacidade de comunicação, liderança,
conhecimento de contabilidade (“tem que saber provisio-
nar”) e relações governamentais e muita gestão – de pes-
soas, projetos, rotina, crise e de escritório externo (como
definir quem contratar, como medir as entregas).
“Comunicação é importante, por exemplo, para
construir parcerias dentro e fora da empresa. Os outros
57
JOTA
executivos têm de me ver como viabilizador de negócios
e isso não se conquista com decreto”, explica Franco. “A
contratação de escritórios externos também tem suas pe-
culiaridades. Eu não vou contratar um cara porque ele me
mandou um folder bonito ou me adicionou no LinkedIn.
Não vou contratar o cara que joga golfe comigo. O mer-
cado é muito exigente. Os gestores querem escritórios que
conheçam e agreguem valor ao negócio.”
Desde 2015, já houve duas edições do curso, de 42
horas, divididos em dois meses e meio de aulas. Duas no-
vas turmas estão contratadas para 2017. Não são aceitos
advogados de escritórios, apenas os que já trabalham em
empresas. “É um público de gestores ou coordenadores,
já qualificados, para suprir uma carência de formação do
mercado.”
Entre os professores, estão, além de Franco, outros
nomes importantes da área, como Luciana Freire, Gian-
franco Cinelli, Gustavo Biagioli, Luciano Malara, Frede-
rico Andrade, Amira Chammas e Elias M. Neto.
Segundo Franco, as escolas de Direito hoje formam
apenas litigantes. “Não se fala de gestão, nem do próprio
escritório, muito menos de um departamento jurídico. Pre-
tendemos ter um curso de pós-graduação para gestores ju-
rídicos e, no futuro, espero que isso seja uma disciplina na
graduação.”

Texto publicado em 26/10/2016

58 O futuro do Direito
Segunda Parte

Transição
____________________________

59
JOTA
Análise Econômica do Direito chega aos
tribunais do país
Kalleo Coura, editor do JOTA

O exemplo da Lava Jato

A o julgar o pedido de suspeição feito pelo ex-


-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o desem-
bargador João Pedro Gebran Neto por ter relação de
amizade “estreita e íntima” com o juiz de primeiro grau
Sérgio Moro, os desembargadores da 4ª Seção do Tribu-
nal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) consideraram
que “a relação de amizade entre juízes não constitui mo-
tivo legal para o afastamento de magistrados. Ademais,
não está comprovada a amizade íntima entre o julgador
de primeira instância e o desembargador que apreciou a
exceção oposta em face do primeiro”.
O que mais chamou atenção neste julgamento foi

60 O futuro do Direito
uma argumentação não tão usual nos tribunais utilizada
pela relatora, a desembargadora Cláudia Cristina Cristo-
fani. A magistrada foi além da dogmática jurídica que os
brasileiros estão acostumados a ler nas sentenças e teori-
zou sobre os incentivos e custos de se propor uma ação
como esta, que os julgadores consideraram descabida.
Em seu voto, Cláudia argumentou que “se o cum-
primento das sanções pode ser adiado ou evitado a deter-
minado custo, o agente estará mais motivado a despendê-
-lo quanto mais grave for a punição prevista – no caso de
pessoas com projeção política, pode ser considerada san-
cionatória a drasticidade das consequências reputacionais
decorrentes de eventual condenação penal”.
“Assim, supondo que exista um custo a ser despen-
dido para evitar a aplicação de sanções (X), este custo po-
derá ser usado como uma medida da fraqueza da capacida-
de administrativa do Estado de obrigar à obediência legal:
nenhuma sanção será aplicada se exceder X, e quando a
sanção for maior que X o agente irá arcar com este custo,
de forma eficiente, para evadir da sanção.”
Para ela, “diante disso, o Estado-Juiz precisa estar
munido de correspondente força, a se contrapor às tentati-
vas de fuga de responsabilização de requeridos em proces-
so judicial, que, se bem-sucedidas, revelariam intolerável,
desnecessário e inconstitucional grau de fraqueza estatal.”
E conclui: “se bem-sucedida, a estratégia, de despre-
zível custo, colocaria de joelhos a jurisdição ao preço do
protocolar de uma petição de exceção, palavras escritas no
papel que, conforme o dito popular, ‘tudo aceita’. Seria o
61
JOTA
fim do processo criminal como mecanismo de revelação
compulsória de verdades e da jurisdição que prestigia e
aplica valores constitucionais”.
Cláudia Cristofani cita ainda o professor e juiz ame-
ricano Richard Posner, um dos bastiões da Law & Econo-
mics, ao dizer que “ao tender a aplicar a legislação con-
solidada, dando guarida aos ‘contratos legais’ pretéritos,
o Poder Judiciário fomenta a durabilidade dos arranjos
legislativos, desincentivando acertos e guinadas imedia-
tistas, e dificultando que a Constituição seja continuamen-
te reinterpretada conforme a preferência dos legisladores
correntes, ou dos grupos de interesses atuais”.
Este tipo de argumentação usada pela magistrada
está se tornando cada vez mais presente na academia e
– embora ainda incipiente – até mesmo nos tribunais do
país. Trata-se da chamada Law & Economics (Direito e
Economia), Economia Aplicada ao Direito ou Análise
Econômica do Direito (AED).

A situação no Brasil e nos EUA


“Pouco mais é necessário para erguer um Estado, da
mais primitiva barbárie até o mais alto grau de opulência,
além de paz, de baixos impostos e de boa administração
da Justiça: todo o resto corre por conta do curso natural
das coisas.”
Não por acaso, o economista Adam Smith, que disse
essa frase numa conferência em 1755, cita a Justiça como
um dos elementos centrais de um Estado que funciona de

62 O futuro do Direito
maneira adequada. Considerado o pai da Economia mo-
derna, Smith era versado em Direito – tanto que em 1762
recebeu o título de Doutor em Direito pela Universidade
de Glasglow, na Escócia.
Por muitas décadas, ao menos no Brasil, desde que
a Economia se tornou uma disciplina autônoma do Direi-
to, a intersecção entre as duas áreas do conhecimento foi
completamente relegada. Enquanto nos Estados Unidos, a
Law & Economics despontou com força na década de 60
e passou a ser objeto de estudo nas melhores faculdades de
Direito, no Brasil apenas na última década é que a inter-
secção entre as duas áreas começou a ser mais difundida
e discutida.
“Boa parte das melhores universidades tem uma
equipe de professores PHDs em Economia full-time dentro
da escola de Direito. Eles já compreenderam bem a
importância de se ter uma análise, uma visão econômica do
Direito”, afirma a economista Luciana Yeung, professora
do Insper e pesquisadora da área.
Para se ter uma ideia de quão incipiente ainda é esta
intersecção no País basta olhar os números de faculdades.
São nada menos que 1.171 cursos de Direito ante apenas
dois cursos de pós-graduação – um deles criado neste ano,
no Instituto de Economia da Unicamp – exclusivamente
sobre Direito e Economia.
O conceito do que se costuma chamar de Direito e
Economia, Law & Economics ou Análise Econômica do
Direito nada mais é do que o uso de um ferramental próprio
da Economia às normas e instituições jurídicas. O econo-
63
JOTA
mista americano David Friedman define a disciplina da
seguinte forma: “a ciência econômica, cujo objeto em seu
nível mais fundamental não é o dinheiro ou a economia,
mas as implicações da escolha racional, é um instrumental
essencial para se entender os efeitos das regras legais”.
A economista americana Susan Rose-Ackerman,
professora da Faculdade de Direito da Universidade de
Yale, avaliou, em entrevista ao JOTA, que “uma das difi-
culdades do Brasil e de muitos outros países é que Direito
é um curso de bacharelado. Então, os alunos chegam à fa-
culdade com poucos conhecimentos de outras disciplinas,
como Economia”.
Como nos Estados Unidos, Direito é uma pós-gra-
duação, e, segundo a professora, um grande número de
alunos já fez uma ou duas disciplinas relacionadas a Eco-
nomia, não é tão difícil introduzir materiais que convidem
os estudantes a explorarem as conexões entre os dois cam-
pos. “Eles, inclusive, podem ser críticos inteligentes da
abordagem de Law & Economics porque eles realmente
sabem o suficiente de economia para perceber tanto suas
fraquezas quanto suas vantagens.”
Para a professora Susan, “se os advogados se preo-
cuparem apenas com a lei, isso pode fazer com que eles
ignorem as consequências das normas legais no mundo
real e limitar as propostas de mudanças apenas para as já
formalmente ‘legais’, o que não trará muitos benefícios
sociais”.
Por outro lado, a economista reconhece que “é ver-
dade que estudiosos de Law & Economics não estão co-

64 O futuro do Direito
mumente equipados para lidar com questões mais amplas
de Justiça social. Eles podem recomendar maneiras de
promover um objetivo justo da maneira mais eficaz e efe-
tiva, mas não terão qualquer expertise em especial para
determinar qual é este objetivo. Muitos advogados, por
outro lado, também não são os mais competentes para de-
cidir questões envolvendo este assunto. O significado de
Justiça não é apenas um conceito técnico ensinado numa
faculdade de Direito”.

Os motivos da dianteira americana


Embora a Law & Economics tenha despontado em
Chicago, na década de 60, a razão para que esta discipli-
na seja ainda pouco difundida no Brasil é ainda anterior,
nas visões do constitucionalista Oscar Vilhena, diretor da
FGV Direito SP e do advogado Luciano Timm, presidente
da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE).
O debate jurídico no início do século XX, tanto nos
Estados Unidos quanto nos países escandinavos, provocou
o surgimento de uma nova corrente chamada de realismo
jurídico, que pregava, de forma geral, que os operadores
do Direito deveriam deixar de ser burocratas fiéis aplica-
dores da norma para extrair sentido do que de fato estava
acontecendo na realidade dos tribunais.
“Nós perdemos este salto histórico”, lamenta Oscar
Vilhena, para quem sempre tivemos uma escola formalista
e dogmática, completamente distinta da abordagem pro-
posta pelos realistas. “Nós tivemos uma academia jurídi-

65
JOTA
ca muito descolada da realidade, que gira em torno de si
em seus próprios debates — muitas vezes dogmáticos e
alheios à realidade. Ainda hoje há este deslocamento.” Em
resumo, não temos uma corrente forte de Law & Econo-
mics no país porque queimamos uma etapa ainda anterior
ao surgimento desta intersecção.
Para Luciano Timm, este pensamento ganhou for-
ça nos Estados Unidos porque não encontrou um “preda-
dor”. A situação foi diferente na América Latina. “Temos
um predador ideológico aqui. Nosso pensamento é muito
mais em favor do mais fraco e pouco pragmático. Não nos
livramos do efeito do ‘perfeito idiota latino-americano’,
socialista e protetor dos fracos e oprimidos. Além disso,
a dogmática jurídica resiste a pensamentos atuais, mais
novos”, diz.
Luciano Timm é um dos responsáveis pelo floresci-
mento da disciplina no país. Hoje ele preside a Associação
Brasileira de Direito e Economia (ABDE), que completa
dez anos no segundo semestre. “Quando a ABDE come-
çou, ninguém tinha ouvido falar ainda nisso. De lá para
cá, muita coisa já mudou: várias universidades já têm pro-
fessor com linha de pesquisa nessa área e no próprio Judi-
ciário já temos decisões importantes”, afirma. Apesar do
avanço, Timm reconhece que a disciplina ainda enfrenta
resistências. “Não é a maioria que já aplica, claro. Desem-
bargadores costumam ser mais conservadores nesse senti-
do. Tendem a ser mais paternalistas, na linha de proteger
hipossuficientes e também estão há mais tempo sem estu-
dar”, alfineta.

66 O futuro do Direito
Outra visão
Na pesquisa Law and Economics in the Civil Law
World: The Case of Brazilian Courts, o advogado brasi-
leiro Bruno Salama, professor visitante de Law & Econo-
mics na Universidade de Berkeley, elencou, em coautoria
com Mariana Pargendler, da FGV Direito São Paulo, nove
possíveis razões já citadas na literatura que explicariam
por que a disciplina floresceu nos Estados Unidos enquan-
to encontra resistências em países de tradição Civil Law.
São elas: a alegada singularidade da ideologia ame-
ricana, atitudes divergentes em relação à ciência e prática
jurídicas no mundo civil, a falta de habilidades matemá-
tica e econômica entre os estudantes dos países de Civil
Law, as barreiras linguísticas e a inércia, o poder compa-
rativamente maior dos tribunais americanos, os diferentes
incentivos dados aos professores de Direito, o grau de pro-
tecionismo dos profissionais do Direito, má-interpretação
sobre o método comparativo, outras diferenças culturais e
até mesmo a dominação marxista das faculdades econô-
micas.
Para Salama, contudo, trata-se de uma lenda a afir-
mação de que os juízes brasileiros não levam em conta
argumentos econômicos ao julgarem. “Intuitivamente, os
juízes pensam sobre incentivos muitas vezes. Os juízes
estão ávidos por formulações sobre impactos de decisões
judiciais”, afirma. “Dado que o Poder Judiciário brasileiro
migrou da periferia do arranjo político para o centro, tor-
nou-se importante em muitos casos pensar nos incentivos
gerados por suas decisões. Esse é um tema que precisa ser
digerido pelos nossos juristas e explorados eventualmen-
67
JOTA
te.”
No Brasil, segundo Salama, professores, juízes e
operadores do Direito olham para a realidade por um viés
sociológico enquanto nos Estados Unidos é o raciocínio
econômico que está presente em todas as disciplinas. “A
economia não é a única ciência para pensar sobre impac-
tos. A sociologia jurídica também traz leituras da realidade
e das consequências das decisões”, afirma.
Por outro lado, Salama concorda que a educação ju-
rídica se beneficiaria de uma discussão maior sobre incen-
tivos econômicos. “É um movimento em curso no País.
Isso tem que estar na graduação porque ao fim e ao cabo
aplicar bem o Direito é um exercício de prudência. E exer-
cer a prudência, em alguns casos, envolve questões con-
sequenciais.”

E a jurimetria?
O advogado Marcelo Guedes Nunes, presidente da
Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ), lembra que a
Economia, há 100 anos, era uma disciplina ligada ao Di-
reito, mas hoje, é um ramo do conhecimento autônomo
que está “devorando o próprio pai”. “Foi a Estatística que
permitiu que a Economia se tornasse o que se tornou”,
avalia Nunes.
Para Nunes, a abordagem da Análise Econômica do
Direito é “muito interessante”, “extremamente válida” e
“vale realmente a pena ser explorada”, mas ele defende
que se trata de Economia e não de Direito já que o “Direito

68 O futuro do Direito
se torna um objeto de estudo para economistas”.
“Eu faço pesquisa empírica do Direito — e isso é
um fenômeno diferente”, afirma. “O que nós defendemos
é que o Direito tem a sua própria disciplina empírica: a
Jurimetria. Todo ramo das humanidades tem a sua própria
disciplina empírica e o Direito tem a dele. A gente pode
discutir as consequências do Direito sem utilizar a econo-
mia”.

A realidade nos tribunais


O Tribunal Administrativo de Defesa Econômica do
Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE)
é o órgão em que conceitos econômicos aplicados ao Di-
reito estão mais presentes nos julgamentos. “Eu aplico a
análise econômica do Direito em 100% dos casos”, afirma
o conselheiro Alexandre Cordeiro.
“A Economia está imbricada no Direito da Con-
corrência mais do que em qualquer outro ramo. A gente
utiliza instrumentos da própria Economia para fazer uma
interpretação do Direito Administrativo Sancionador do
Direito Concorrencial. Se quero determinar qual seria a
pena adequada para tal caso, faço uma análise econômica,
seguindo a teoria de Gary Becker, e vou encontrar”, afirma
Cordeiro.
Para o conselheiro, “o Direito não tem uma meto-
dologia de análise do comportamento humano enquanto
a Economia tem. Isso facilita legisladores e magistrados a
tomar decisões mais racionais”. E não é só no CADE, nem
69
JOTA
na Lava Jato, como relatado no início desta reportagem,
que a Economia aplicada ao Direito tem sido utilizada em
decisões judiciais.

No STJ
Num julgamento de abril de 2015, o ministro Luís
Felipe Salomão, no papel de relator, votou pelo provimen-
to de um recurso especial utilizando-se da análise econô-
mica do Direito. O Banco do Estado do Rio Grande do Sul
buscava a anulação de uma decisão judicial que concedia
uma revisão de prestações do saldo devedor e repetição de
indébito num contrato de financiamento habitacional.
Em seu voto, Salomão argumentou que a análise
econômica do Direito “visa à aproximação das normas ju-
rídicas à realidade econômica, por meio do conhecimento
de institutos econômicos e do funcionamento dos merca-
dos. A interação das duas ciências é o mote da Escola, não
a exclusão de uma pela outra. A regulamentação jurídica,
acreditam os defensores da escola econômica, pode in-
fluenciar empreendimentos econômicos e promover o de-
senvolvimento e a mudança social”.
O ministro citou uma obra de Luciano Timm em
que o advogado afirma “que a análise econômica do Di-
reito permite medir, sob certo aspecto, as externalidades
do contrato (impactos econômicos) positivas e negativas,
orientando o intérprete para o caminho que gere menos
prejuízo à coletividade, ou mais eficiência social. A co-
letividade deixa de ser encarada apenas como a parte fra-

70 O futuro do Direito
ca do contrato e passa a ser vista como a totalidade das
pessoas que efetivamente ou potencialmente integram um
determinado mercado de bens e serviços, como no caso do
crédito”.
A análise econômica do Direito, argumentou o ma-
gistrado, “aposta no efetivo cumprimento dos contratos de
financiamento de imóveis, por exemplo, como pressupos-
to para o sucesso do sistema como um todo. A satisfação
de cada um dos pactos celebrados entre financiadores e fi-
nanciados, individualmente considerados, é requisito para
que o sistema evolua e garanta o beneficiamento de outros
tantos sujeitos, de toda coletividade interessada”.
No caso concreto, o ministro considerou também
que a alegação de abusividade do contrato era “um tan-
to quanto genérica” e “um descontentamento geral com
o contrato em si”. Diante disso, considerou que o Banri-
sul tinha razão e que impunha-se “a anulação de todos os
atos até aqui praticados, inclusive a sentença e o acórdão,
abrindo-se prazo legal para emenda à inicia”.

No TJ-SC
Em 2014, ao relatar um mandado de segurança con-
tra uma decisão que negava o acesso gratuito à Justiça, o
juiz Alexandre Morais da Rosa também se valeu da análi-
se econômica do Direito para julgar o caso.
No voto, Rosa questionou se, num país de extrema
exclusão social, em que os recursos e meios para garantia
do acesso à Justiça são escassos, deveria-se aceitar toda e
71
JOTA
qualquer demanda posta em juízo com pedido de gratui-
dade. Logo em seguida, respondeu que não. Segundo ele,
pelos levantamentos do Tribunal de Justiça de Santa Ca-
tarina, um processo custava à época, em média, R$ 1 mil.
Nas palavras dele, como o exercício do direito de de-
mandar em Juízo não nasce em árvore, “em face dos limi-
tados recursos do Poder Judiciário e de sua capacidade de
assimilação, a propositura de ações abusivas, frívolas ou
de cunho meramente patrimonial e repetitivas, sem custo,
pode gerar o excesso de litigância”. Além disso, “o custo
de um processo é assimilado pela coletividade e pelos de-
mais usuários na forma de uma externalidade negativa”.
Por isso, argumentou o magistrado, “a mera declara-
ção de pobreza não pode mais ser aceita pelo Poder Judi-
ciário, justificando-se, a exigência de documentos outros
que demonstrem, de fato, a ausência de condições mate-
riais”. No caso em questão, considerou, “andou com acer-
to a decisão que indeferiu a gratuidade, razão pela qual a
petição inicial é indeferida, até para não gerar mais custos
de gestão (pedido de informações, cartório, remessa de do-
cumentos, parecer do Ministério Público, etc.)”. Ao fim do
voto, um recado: “é preciso otimizar o Poder Judiciário.”

A preparação de um magistrado
O juiz federal Erik Navarro, do Tribunal Regional
Federal da 2ª Região, está fazendo doutorado em Harvard
sobre Law & Economics. “Meu objetivo é aplicar a análi-
se econômica do Direito no Processo Civil aí no Brasil”,

72 O futuro do Direito
afirma o juiz.
Navarro afirma que tem percebido um interesse
maior e mais discussões sobre a disciplina em terras brasi-
leiras, talvez porque, em suas palavras, “o Direito no Bra-
sil não deu certo”. “É só olhar para o sistema de Justiça
para ver que ele não funciona. Temos que arrumar uma
solução e talvez ela seja a junção do Direito a matérias
mais consequencialistas, como a Economia”, afirma.
Na visão do magistrado, não existe uma dicotomia
absoluta entre pensar nas consequências ou aplicar a lei.
A questão é considerar as consequências da interpretação
que se vai fazer. Entre os juízes, segundo Navarro, ainda
há um desconhecimento muito grande sobre a Economia
aplicada ao Direito, “questão que nem está muito em con-
sideração”. “O juiz tem muito trabalho, muito processo.
Às vezes é mais simples você não se preocupar com essas
questões e, também, muitas vezes, o juiz não tem tempo
ou mesmo condição, dados, para fazer este tipo de avalia-
ção.”
Na visão de Navarro, é na Justiça do Trabalho, por
razões ideológicas, em que se encontra maior resistência
à Economia aplicada ao Direito. Neste ramo, existe uma
predisposição, na média, segundo o magistrado, “de se
preocupar mais com a questão da Justiça social, mas eles
não percebem que as decisões podem interferir negativa-
mente na Justiça social porque você causa consequências
que vão ferir mais pessoas do que se está tentando prote-
ger”.

73
JOTA
O caso dos medicamentos
A cada dia útil são criadas no Brasil inacreditáveis
46 novas regras tributárias. Além disso, de 1988 até 2014,
em média, foram publicadas 522 normas a cada dia ver-
sando sobre diversos temas. “Nós sabemos que essas leis
são criadas com base em achismos. Alguém, às vezes,
com boas intenções cria regras do nada sem nenhum tipo
de mensuração de impacto. Depois somos nós que paga-
mos a conta”, analisou a economista Luciana Yeung, na
aula inaugural da especialização em Direito e Economia
da Unicamp.
Com tantas novas regras tributárias sendo criadas
diariamente não é de se estranhar que o Brasil ocupe a
nada louvável 181ª posição entre 190 países no quesito
facilidade no pagamento de impostos no ranking Doing
Business, feito pelo Banco Mundial. Ou seja, apenas nove
países do mundo possuem um sistema tributário pior que
o brasileiro. No ranking geral da facilidade em se fazer
negócios o Brasil vai só um pouco melhor: fica na 123ª
colocação, atrás de potências como Suazilândia, Kosovo,
Vietnã e até Paraguai.
“Jurista sozinho não consegue melhorar a qualidade
das leis. Economista sozinho também não consegue. Sem
econometria não dá para medir impacto, nem saber se uma
lei vai ser melhor ou pior”, afirma Luciana.
O mesmo raciocínio que Luciana emprega para a
econometria, o advogado Marcelo Guedes Nunes em-
prega para a jurimetria. Um bom exemplo recente de um
projeto que não foi criado baseado em achismos é o do

74 O futuro do Direito
PL 5.850/2016, que agiliza procedimentos relacionados
à destituição de poder familiar e à adoção de crianças e
adolescentes, de autoria do deputado federal Augusto
Coutinho (SD-PE). O projeto foi inteiramente baseado na
pesquisa Tempo dos processos relacionados à adoção no
Brasil: uma análise sobre os impactos da atuação do Po-
der Judiciário – coordenada por Guedes Nunes, presidente
da ABJ. A pesquisa demonstrou que havia uma janela de
oportunidade para adoção dessas crianças bastante limi-
tada por causa da demora no processo de destituição e é
justamente isso que a nova proposta pretende reduzir.

A questão da saúde
Além de poder mensurar o impacto de leis em ges-
tação, a Economia aplicada ao Direito também é útil para
magistrados preocupados com o impacto de suas decisões.
As discussões sobre o direito à saúde são um terreno fértil
para este tipo de análise – não só aqui, mas também nos
Estados Unidos.
Na visão do advogado Leonardo Barém Leite, que é
graduado não só em Direito, mas também em Economia
e Administração, um dos motivos de a saúde ser tão cara
nos Estados Unidos, além da excelência de alguns profis-
sionais, do preço das máquinas e dos exames, é o grande
número de condenações civis por erro médico. “Se olhar-
mos do ponto de vista do Direito puro, esse erro deve ser
reparado e é isso. Do ponto de vista econômico, não vamos
alijar este direito, mas vamos recontextualizar e pensar em
que medida devemos fixar esta reparação para que de um

75
JOTA
lado ajude a reparar aquele erro, mas sem que isso impacte
tanto no seguro médico a ponto de ele ficar caro demais e a
sociedade vir a pagar um preço muito mais caro”, analisa.
Em setembro do ano passado, o filósofo e colunista
da Folha de S. Paulo Hélio Schwartsman explicou bem,
em sua coluna, o dilema de se tomar decisões envolven-
do o direito à vida: “o caso clássico é o do bebê doente
que precisa de um remédio de alto custo não coberto pelo
sistema de saúde. Se o gestor segue as regras e nega o
tratamento, será visto como um monstro insensível à dor
da família. Se, por outro lado, ele autoriza a compra do
fármaco, será censurado por ter agido de forma antirrepu-
blicana, passando por cima dos interesses de um número
muito maior de pacientes que não padecem de moléstias
midiáticas.”
Os ministros do Supremo, que terão de decidir so-
bre essa questão, diz Schwartsman, “serão criticados por
qualquer decisão que tomem. Ou estarão privando alguns
doentes com nome, rosto e história do Direito à saúde, ou
estarão agindo de forma fiscalmente irresponsável, o que,
ao fim e ao cabo, também resulta em subtrair direitos vi-
tais a um conjunto anônimo de pacientes”. O impacto nos
cofres públicos em 2016 nas esferas federal, estaduais e
municipais chegou a R$ 7 bilhões.
Decisões envolvendo fornecimento de medicamen-
tos fora do que foi contratado junto a planos de saúde
também geram impactos para a coletividade. Um exemplo
recente ajuda a ilustrar o tema. A 6ª Câmara de Direito Pri-
vado do Tribunal de Justiça de São Paulo, em 25 de maio
deste ano, determinou que a Amil deve fornecer a uma

76 O futuro do Direito
mulher com amiotrofia espinhal progressiva tipo I um me-
dicamento chamado Spinraza (susinersen). O contrato não
previa o fornecimento deste medicamento até porque ele
é considerado experimental e, apesar de recentemente ter
sido aprovado pela FDA (Food and Drug Administration)
nos Estados Unidos, sequer é registrado pela Agência Na-
cional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O relator do caso Rodolfo Pellizari questiona: “como
suprimir os direitos fundamentais à vida e à saúde, consa-
grados na Constituição Federal, em prol de rançosa buro-
cracia existente no país? É aceitável que a parcela menos
favorecida da sociedade padeça de moléstias, cujo trata-
mento existe e é aplicado em outros países, porque a falta
de recurso financeiro, aliado a morosidade dos órgãos res-
ponsáveis pela aprovação de remédios, os impede de ter
acesso? Certamente que não.”
Pellizari não concorda com a argumentação da ope-
radora de que o custo inesperado trará uma onerosidade
maior aos outros usuários do plano de saúde: “não mere-
ce acolhida a tese de que a manutenção da decisão com-
batida acarretará a inviabilidade do plano de saúde, quer
por ‘criar precedentes’, quer por onerar demasiadamente
a operadora, afinal, não são tantos os beneficiários que ne-
cessitam de tratamentos diferenciados.”
“Alguns magistrados acham que ao julgar casos in-
dividuais isso não se refletirá em prejuízo para os próprios
consumidores. Mas se reflete, sim, porque é custo. No ano
seguinte isso vai entrar no aumento da sinistralidade ou
ser incorporado como um tratamento que vamos oferecer
para todos. O plano de saúde privado pode custear tudo,
77
JOTA
mas poucas pessoas vão ter condições para pagar o valor
da mensalidade de um plano assim”, argumenta Eduardo
Gil, diretor jurídico da Amil. No caso em particular do
tratamento que não é aprovado pela Anvisa a estimativa é
que cada etapa do tratamento custe R$ 2 milhões.
Quando a decisão envolve o direito à vida, nas pa-
lavras do conselheiro do CADE Alexandre Cordeiro, as
escolhas são trágicas. “As pessoas têm o direito à vida,
mas se o Estado continuar a ser condenado a fornecer re-
médio atrás de remédio, uma hora não vai dar. Com US$
500 mil que são gastos num único remédio experimental
eu compro inúmeras ampolas de insulina e consigo salvar
muito mais pessoas. Fazendo esta simples análise econô-
mica estou sendo utilitarista, sim, mas em benefício da so-
ciedade”, argumenta. “A vantagem da análise econômica
do Direito é conseguir medir o impacto das decisões e das
normas. O Direito não pode mais ser um fim em si mes-
mo.”

Texto publicado em 01/07/2017

78 O futuro do Direito
Carta a um jovem pesquisador do Direi-
to
O que existiu até hoje no País é a opção de uma carrei-
ra amadora de pesquisa na área

Ivar A. Hartmann, professor e pesquisador da FGV Direito Rio,


coordenador do projeto Supremo em Números

À queles jovens que iniciam – ou pensam em ini-


ciar – carreira em pesquisa na área do Direito no Brasil
tenho essencialmente duas notícias: uma boa e uma ruim.
Sempre melhor começar pela ruim. Uma carreira pro-
fissional de pesquisa científica no Direito praticamente não
existe. O que existiu até hoje no país é a opção de uma car-
reira amadora de pesquisa no Direito. A explicação mais
simples é a falta de incentivo financeiro. A remuneração
de um professor de Direito em uma universidade federal
é cerca de um terço daquela de um juiz federal ou de um
procurador da República, apesar de o tempo de formação
para o cargo ser o dobro.

79
JOTA
Docência e pesquisa no Direito acabam sendo, por-
tanto, uma segunda ou terceira atividade. Um hobby que
às vezes não cobre o custo da gasolina e estacionamento
do professor. Segundo o Observatório do Ensino do Di-
reito, apenas 6% dos contratos de trabalho para ensino de
Direito no Brasil são de tempo integral e com exclusivida-
de. É realmente difícil exercer a docência de forma séria
nessas condições – e a pesquisa com rigor e método é im-
possível, com raríssimas exceções.
Mas a discrepância salarial conta apenas metade da
história. Em outras áreas, como física e matemática, o sa-
lário de professores de ensino superior não levou a esse
resultado. Décadas atrás, as carreiras práticas como a ad-
vocacia, magistratura e Ministério Público eram a porta de
entrada e o requisito moral para tornar-se professor. Não
havia exigência de mestrado ou doutorado. Quando as fa-
culdades de Direito brasileiras começaram a ser mais do
que apenas salas de aula, efetivamente criando projetos de
pesquisa e programas de mestrado e doutorado acadêmi-
co, essas carreiras práticas continuaram sendo uma via de
acesso e uma condição de legitimação.
Ambos os fenômenos estão relacionados, é claro. Se
na década de 50 a remuneração do magistério jurídico per-
mitisse uma vida confortável e viesse junto com exigência
de dedicação real à academia, hoje teríamos um panorama
muito diferente.
Mas o fator determinante parece ser realmente a
confusão de papéis e capacidades. No Direito brasileiro, a
longa escassez de pessoas cujo real ganha-pão é a univer-
sidade acabou influenciando o modelo do que é ser pro-

80 O futuro do Direito
fessor e ser pesquisador. Presume-se que as competências
desenvolvidas para atuar numa carreira prática habilitam
o profissional a atuar também em uma carreira acadêmica.
Se sabe fazer sustentação oral então sabe dar aula. Se já
escreveu muitas sentenças então é capaz de desenvolver
um artigo acadêmico.
Essa confusão se manifesta na produção intelectual.
O exercício do magistério e pesquisa como atividade se-
cundária ou hobby durante tantas décadas trouxe consi-
go um paradigma de ciência no Direito que consiste em
manuais de exposição e comentário raso de textos legais.
Não há um problema de pesquisa, não há uma pergun-
ta relevante formulada, não existem hipóteses. Acima de
tudo, não há o esforço para responder perguntas novas. Há
apenas repetição de opinião ou defesa de uma tese tal qual
em uma petição. Mais recentemente o número de disser-
tações e teses aumentou, ao mesmo tempo em que surgi-
ram revistas acadêmicas procurando artigos resultantes de
pesquisa inovadora. Mesmo assim, os textos continuam
sendo em sua vasta maioria meros ensaios. A pesquisa que
se pretende teórica, mas é malfeita é talvez o maior pro-
blema. Já a pesquisa empírica é quase inexistente.
A má-notícia, portanto, é que o campo de atuação
continua sendo, sob o ponto de vista das condições de tra-
balho, do perfil dos colegas e da produção intelectual, sal-
vo algumas felizes exceções, essencialmente amador.
A boa notícia é que há, portanto, tudo a fazer. Histo-
ricamente esse é o ponto de virada da docência e, especial-
mente, da pesquisa em Direito no País. A jovem pesqui-
sadora e o jovem pesquisador do Direito têm o privilégio
81
JOTA
de estar começando a carreira em um tempo de rupturas e
desafios decisivos. Não há nada mais estimulante do que
isso!
A pesquisa precisa ser planejada e executada em sin-
tonia com a realidade social. Essa sintonia pode significar
uma relação mais ou menos direta, visando efeitos a curto
ou longo prazo. De qualquer forma, os acadêmicos, inclu-
sive no Direito, não podem encastelar-se e olhar apenas
para o próprio umbigo. Infelizmente, os tempos de ama-
dorismo consolidaram uma maneira errada de “conexão
com a realidade”: a experiência prática dos autores. Um
promotor de Justiça, por exemplo, produz um artigo so-
bre dogmática do tipo penal de roubo resultante da revisão
de alguns livros e decisões judiciais escolhidas arbitra-
riamente para sustentar seu argumento. Tradicionalmente
esse tipo de produção é vista como estando atenta à reali-
dade essencialmente porque o autor trabalhou muitos anos
com processos sobre roubo.
Os jovens pesquisadores têm a oportunidade e a mis-
são de quebrar esse ciclo. Há duas formas, a depender do
tipo de pesquisa que desejam empreender. A ponte que
devem usar para permitir que a academia descreva o que
ocorre no mundo real é o método científico empírico e não
a experiência pessoal. Já se o objetivo é formular abstra-
tamente explicações para o que ocorre no mundo real essa
ponte é o método científico teórico e não a opinião. Um
bom pesquisador pode especializar-se em métodos teóri-
cos ou empíricos, mas não deve ignorar os aspectos bási-
cos de qualquer um dos dois. Atualmente ainda é consi-
derado aceitável um professor pesquisador no Direito que

82 O futuro do Direito
faz pesquisa teórica e não sabe a função de uma etnografia
ou não consegue explicar a diferença entre média e media-
na. Também há muitos adeptos da pesquisa empírica que
ignoram o papel da teoria. Esse tipo de atitude não apenas
inviabiliza pesquisas com múltiplos métodos como tam-
bém dificulta o diálogo entre os pesquisadores e as áreas.
Isso vai mudar no médio prazo.
Recentemente, quando o Supremo Tribunal Federal
alterou o entendimento sobre execução da pena a partir
da condenação em segunda instância, muitos profissionais
estimaram, com base em décadas de experiência pessoal
em advocacia criminal e defensoria pública, que o novo
entendimento traria o caos do sistema prisional brasileiro.
Utilizando método empírico quantitativo e zero experiên-
cia de atuação nessas áreas, a equipe do Supremo em Nú-
meros mostrou que o impacto nas prisões brasileiras seria
de 2,1%.
Ao mesmo tempo, a pesquisa empírica que produz
novos achados tem uma desvantagem para seus autores.
Ela pode incomodar aqueles que não são beneficiados pe-
los resultados. A produção manualesca e de ensaios acaba
sempre sendo reduzida a argumentos e opiniões. Quando
alguém não gosta de um argumento ou uma opinião, pode
simplesmente devolver outro. O custo de veicular opinião
é zero. O custo de formular um argumento teórico sólido é
maior. Já para rebater resultados produzidos com método
científico é preciso conhecer esse método e provar que os
achados estão errados ou fazer novos estudos. Isso é ainda
mais difícil. Os jovens pesquisadores precisam aceitar o
fato de que seus estudos por vezes serão recebidos com

83
JOTA
ataques gratuitos.
A reação negativa ou positiva só existe quando a pes-
quisa tem relevância e não é ignorada. O impacto real de
um estudo é o objetivo principal e também o retorno mais
gratificante que a jovem pesquisadora e o jovem pesqui-
sador devem buscar. Esse impacto pode ser, por exemplo,
a reformulação de uma teoria que leva à revisão de uma
política pública – ainda que a médio prazo. Ou a mudança
de um entendimento jurisprudencial consolidado a partir
de um novo dado sobre a realidade prática da aplicação
desse entendimento. Pode ser inclusive a alteração de uma
lei. Profissionais de outras carreiras lidam com o efeito
diário de seu trabalho e suas decisões, mas naturalmente
também buscam esse impacto maior, que fuja do escopo
do caso individual e alcance efeito regional ou nacional.
Mais do que jovens com o mesmo tempo de atuação
em outras carreiras jurídicas, no entanto, os pesquisadores
do Direito têm instrumentos para produzir efeitos positi-
vos sistemáticos na sociedade com maior rapidez. Após
anos de gestão e tramitação no Congresso, quando o novo
Código de Processo Civil aguardava a sanção presiden-
cial, o Supremo em Números fez um singelo levantamen-
to sobre o efeito de um inciso que garantiria 15 minutos
de sustentação oral às partes em qualquer agravo. No Su-
premo, essa regra exigiria 2.350 horas de sessão de julga-
mento por ano, enquanto que plenário e turmas somados
realizam 672. Um único inciso inviabilizaria o funciona-
mento da mais alta corte do país. Informamos o resultado
do estudo à Folha de São Paulo, que publicou um editorial
em um sábado. Na terça seguinte a então presidente Dil-

84 O futuro do Direito
ma Rousseff sancionou o novo CPC vetando, entre outras
disposições, esse inciso.
É preciso que fique claro que o pesquisador do
Direito é aquele que emprega rigor acadêmico e método
para realizar pesquisa teórica ou empírica. Ambas são
necessárias e complementares. Ocorre que a pesquisa
empírica é muito sub-representada e de execução mais
custosa. Isso faz dela hoje um campo mais promissor,
com muito mais espaço para ocupar e coisas novas a fazer.
Felizmente há uma rede de subsídio, organização e apoio
da pesquisa empírica no Direito cada vez mais ampla e
eficiente. Um exemplo importante é a Rede de Pesquisa
Empírica em Direito. Alguns programas de pós-graduação,
como o mestrado em direito da Unilasalle, estipulam
em seu regimento a obrigação de pesquisa empírica nas
dissertações.
Em termos de viabilidade financeira, a remunera-
ção pessoal é apenas o princípio. Os jovens pesquisadores
precisam estar atentos para a necessidade que a pesquisa
empírica geralmente traz de investimento em equipes, la-
boratórios, materiais de trabalho, viagens e hardware, por
exemplo. A captação de recursos internos e externos, pú-
blicos e privados, nacionais e estrangeiros é uma tarefa
central na atividade do pesquisador.
Inovações viabilizadas pela tecnologia da informa-
ção tornam os tempos atuais ainda mais estimulantes para
a pesquisa no Direito. Os jovens pesquisadores, especial-
mente trabalhando com métodos quantitativos, podem ex-
plorar novos rumos da atuação acadêmica que envolvem
o desenvolvimento de ferramentas para a pesquisa de ter-
85
JOTA
ceiros. O baixo custo da inovação em TI permite a criação
de modalidades originais de obtenção, armazenamento,
organização de e interação com os dados. O cientista de
dados jurídicos é um profissional cobiçado e com espaço
de atuação não apenas em universidades, mas também em
empresas como Jusbrasil, RavelLaw e Netlex.
A jovem pesquisadora e o jovem pesquisador do Di-
reito encontram um mercado de trabalho em plena trans-
formação e já muito diferente daquele que recebia jovens
professores há vinte anos. O principal desafio ainda é pro-
fissionalizar a carreira, mas as atuais oportunidades e pos-
sibilidades da atuação em pesquisa no Direito tornam a
escolha estimulante e promissora.

Texto publicado em 16/05/2017

86 O futuro do Direito
Por uma ciência do Direito mais apro-
priada
O Direito precisa se reconhecer como ciência e avançar
na investigação de causalidade

Guilherme Jardim Duarte, editor do JOTA

Q ualquer pesquisador em Direito provavelmen-


te já deve ter feito o exercício de conversar com amigos
pesquisadores veterinários, médicos, economistas, soció-
logos, e comparar a sua pesquisa com a deles. É inevitá-
vel perceber a diversidade das questões com as quais eles
trabalham. Fazer exercício emagrece? Tabaco causa cân-
cer? Os desembarques na Normandia foram vitais para o
fim da Segunda Guerra? Todos os seus objetos de pesqui-
sa guardam um elemento em comum: buscam descobrir
relações causais entre eventos para explicá-los e usam
métodos para testar hipóteses.
Quando nos voltamos para a “ciência do Direito”,
porém, sentimos uma estranheza. Primeiro, porque pes-
87
JOTA
quisadores do campo não estão acostumados aos mesmos
métodos. Por exemplo, “testagem de hipóteses” torna-se
uma expressão estranha. Falar em técnicas como regres-
são ou estudos de caso também pode nos fazer soar como
falantes de um idioma estrangeiro. Além disso, as ques-
tões investigadas dentro do campo do Direito são muito
distintas daquelas mencionadas acima. No geral, consis-
tem em revisões bibliográficas de temas comuns de ma-
nuais, ou, o que se tornou mais comum nos últimos anos,
descrições enfadonhas sobre como tribunais decidem num
determinado sentido. Há exceções, é verdade, mas, a gros-
so modo, esse é o panorama que se apresenta.
Marcos Nobre, há oito anos, num texto chamado
“Apontamentos sobre a pesquisa em Direito no Brasil”
[1] apresentava um diagnóstico péssimo do campo. Dois
dos problemas levantados na época era a falta de profis-
sionalização dos cientistas, que geralmente se dedicavam
a outras atividades profissionais (eram advogados, juízes,
promotores), e o isolamento do campo em relação a outras
ciências humanas. Muita coisa mudou desde então. Houve
uma maior profissionalização, o Direito absorveu muito
da sociologia, da antropologia, da economia. A dedicação
à pesquisa empírica aumentou. No nosso ponto de vista,
porém, ainda precisamos superar muito mais. Para progre-
dir como ciência, precisamos aceitar duas características
que são fundamentais: a) o reconhecimento da não espe-
cificidade de uma ciência do Direito, ou, em outras pala-
vras, reconhecer que ciência é apenas um método e que o
fenômeno jurídico é só mais um objeto; b) reconhecer que
precisamos enfrentar mais questões causais.

88 O futuro do Direito
Ciência como método
Em nossa história como campo de pesquisa, muita
tinta foi gasta por se afirmar que existe uma ciência jurí-
dica que é distinta das outras ciências. Segundo uma série
de autores, essa diferença se daria por uma metodologia
que é completamente própria ao Direito. As descrições va-
riam, mas, afirmam eles, a ciência jurídica é específica e
não deve ser confundida com outras. Tomamos o ponto de
vista oposto. Essa especificidade, em nossa perspectiva,
não deve ser reconhecida. A fim de nos situarmos como
cientistas, devemos aceitar que existe um único método
que perpassa todas as ciências, tanto duras quanto moles,
e que esse método também se aplica ao estudo de normas
jurídicas, de decisões judiciais e de instituições responsá-
veis por dizer o que é o direito.
Esse método científico pode ser entendido por três
características. Primeiro, ele consiste em criar teorias ou
corpos de explicações sobre o funcionamento do mundo.
Por exemplo, se temos explicações coesas de como juízes
decidem, essa é uma teoria, que pode ser testada. Esse con-
junto pode ser formalizado matematicamente, com defini-
ções e provas, mas essa característica não é fundamental
para definir o método. Além disso, deve haver precisão o
suficiente para que haja identificação de questões causais,
assunto que exploraremos melhor mais abaixo.
Também precisamos de métodos comuns para testar
teorias. Para isso, precisamos dominar técnicas de natu-
reza quantitativa ou qualitativa [2]. Essas técnicas devem
ser reconhecidas e aceitas pela comunidade científica, o
que garante reprodutibilidade, isto é, que outros cientistas
89
JOTA
sejam capazes de duplicar os mesmos testes e obter novos
resultados. Entre elas, podemos mencionar os estudos de
caso, os experimentos controlados, os experimentos natu-
rais, as regressões lineares, entre outras.
Segundo a nossa definição, assim, ciência é carac-
terizada pelo método [3]. Se utilizamos nomes, isso serve
apenas para demarcar o objeto. Ciência do Direito então
seria a aplicação desse método científico para estudar o fe-
nômeno do Direito; ciência política, para a política; epide-
miologia, para os problemas de saúde; e assim por diante.
Uma objeção pode ser levantada no que diz respei-
to à interdisciplinaridade. Existem metodologias distintas
quando um mesmo objeto é estudado por departamentos
diferentes? Por exemplo, mudanças constitucionais são
pesquisadas tanto nos Departamentos de Direito Constitu-
cional quanto nos de Ciência Política – há ou deveria ha-
ver diferenças nas abordagens? Nossa resposta é que esse
fenômeno é apenas departamental, derivado da maneira
como as universidades e congressos se organizam e não
há o que justifique que as abordagens sejam diferentes na
prática. Por isso mesmo, acreditamos que o diálogo entre
os departamentos deve ser estimulado.

Causalidade
Além de reconhecer que ciência é método, é neces-
sário assumir que nosso principal papel como cientistas é
o de descobrir relações de causa e efeito na natureza. Em
outras palavras, visamos investigar de que maneira alguns

90 O futuro do Direito
fatores causam outros, com todas as condições mantidas
ou com algumas modificações [4]. Como foi mostrado,
questões desse tipo são comuns na ciência.
Todavia, o Direito como campo de pesquisa, sobre-
tudo no Brasil, ainda não adota essa perspectiva como seu
foco principal de trabalho. Mesmo o “boom” da pesquisa
empírica pelo qual passou o campo nos últimos anos ainda
nos trouxe muito mais questões descritivas que causais.
Por exemplo, é comum encontrar artigos sobre como de-
cidem tribunais e juízes, mas as razões pelas quais eles to-
mam essas decisões ainda não se tornou objeto comum de
pesquisa. Essa crítica não quer dizer, evidentemente, que
pesquisa descritiva não seja interessante por si só, mas,
sob o nosso ponto de vista, análises causais são geralmen-
te mais interessantes.
Podemos pensar em hipóteses do porquê a causalida-
de ainda não é central na ciência jurídica. Uma explicação
inicial é a de que faltam perguntas de pesquisa, mas isso é
falso. Questões causais aparecem todo dia no trabalho dos
investigadores. Vejamos alguns exemplos. Uma alteração
legislativa tem o condão de desafogar o processo civil?
A decisão do STF sobre cláusula de barreira causou um
aumento do número de processos? Quais as causas de um
juiz decidir de um ou de outro jeito? O estatuto do desar-
mamento diminuiu o número de homicídios no Brasil? To-
das essas questões são interessantes de um ponto de vista
científico e poderiam ser objeto de pesquisa.
Se as questões existem, por que é que há poucos tra-
balhos causais no Direito, sobretudo no Brasil? Arrisco
dizer que isso ocorre por algumas razões, a primeira delas
91
JOTA
é a falta de contato do pesquisador de Direito no Brasil
com metodologia. Ao contrário de outros campos em que
os pesquisadores são acostumados desde cedo a criticar
a pesquisa alheia e a passar por árduas disciplinas sobre
métodos, no Direito, isso ainda pouco ocorre. As escas-
sas iniciativas de formação metodológica – e um exemplo
ótimo é a Escola de Métodos e Técnicas de Iniciativa da
Rede de Pesquisa Empírica em Direito – não são capazes
de satisfazer a demanda.
O estudante de Direito, assim, não é acostumado a
pensar de maneira causal, pois não tem treinamento cien-
tífico em sua formação. Causalidade exige modelagem,
exige que se pense o que está ocorrendo por trás do fenô-
meno. Há uma série de problemas comuns que são facil-
mente identificados por alguém com bagagem metodoló-
gica. Este gráfico, representando uma situação hipotética,
é ilustrativo. Para os não iniciados em estatística descriti-
va, trata-se de um gráfico de dispersão. Cada ponto repre-
senta uma observação de uma pessoa, de acordo com seu
nível de atividade física e seu colesterol [5].
Um olhar não treinado, ao vislumbrar a primeira
parte do gráfico, diria que existe correlação positiva entre
exercício e colesterol, pois os observados com uma quan-
tidade menor do primeiro possuem um menor nível do se-
gundo, e os com uma quantidade maior do primeiro, um
nível maior do segundo. Dessa maneira, poderia concluir,
fazer menos exercício diminui o nível colesterol. Porém,
um cientista aplicado enxergaria claramente no caso uma
instância do Paradoxo de Simpson. Em outras palavras,
correlação não implica causalidade, e, ao dividir as obser-

92 O futuro do Direito
vações por idade, como o segundo gráfico faz, percebe-
mos que a correlação se inverte e se torna negativa.
Esses problemas não aparecem só na medicina, mas
também no Direito. Por exemplo, existe uma influência
de pareceres da Procuradoria-Geral da República para
as decisões do Supremo Tribunal Federal? Um cientista
ingênuo compararia apenas as taxas de sucesso de ações
com parecer favorável contra as com parecer contrário.
O problema, nesse caso, é que um mesmo fator pode es-
tar causando tanto manifestação quanto às decisões, por
exemplo, a legalidade mesma do objeto. Em termos de
diagramas representando relações causais:

Segundo esse modelo, embora exista uma relação en-


tre parecer e decisão, a legalidade impacta os dois. Dessa
maneira, para calcular o efeito, precisaríamos condicionar
em alguma eventual medida de legalidade. Esse exemplo
basta para mostrar como questões de modelagem causal
são importantes e deveriam ser abordadas no Direito. No
nosso ponto de vista, essas perguntas devem ser estimula-
das nas pesquisas jurídicas.

Conclusão
93
JOTA
Mostramos, no texto, duas características que uma
possível ciência do Direito deve adotar para que seja re-
conhecida como ciência propriamente dita. São essas duas
características:
• Adotar a perspectiva de que não existe uma ciência
do Direito, distinta de qualquer outra ciência. Devemos re-
conhecer essa não-especificidade para que possamos nos
superar como campo.
• Foco em questões causais e na preparação meto-
dológica de pesquisadores jurídicos para enfrentar essas
questões.
Acreditamos que a adoção desses dois elementos
será responsável pelo desenvolvimento do Direito como
ciência e de seus pesquisadores.
Agradeço a Beatriz Kira, José Duarte Neto, Natalia
Pires e José de Jesus Filho pelos comentários.

Texto publicado em 22/08/2017

[1] Nobre, Marcos. “Apontamentos sobre a pesquisa em direito


no Brasil.” (2009). Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ds-
pace/handle/10438/2779>. Visto em: 15/08/2017.

[2] Pesquisadores no Brasil, em ciências sociais e economia, ain-


da se digladiam sobre o que deve predominar: o quantitativo ou quali-
tativo. Em nossa visão, esse assunto é superado, ambos são imprescin-
díveis para a pesquisa.

[3] No mesmo sentido, KING, Gary, KEOHANE, VERBA. De-

94 O futuro do Direito
signing Social Inquiry: scientific inference in Qualitative Resear-
ch. Princeton: 1994, p.9.

[4] Na ciência, há todo um campo hoje destinado a estudar o


que é causalidade e de que forma extrair causalidade, sobretudo quando
não podemos lidar com experimentos controlados. Por exemplo, Guido
imbens e Donald Rubin, “Causal Inference for Statistics, Social, and
Biomedical Studies: an Introduction”.

[5]  Este exemplo aparece no livro de PEARL, Judea, GLY-


MOUR, Madelyn, e JEWELL, Nicholas P. Causal Inference in Statisti-
cs: a primer. John Wiley and Sons LTD. 2016. P. 3-4.

95
JOTA
Para viabilizar mais adoções, deputado
propõe mudanças na destituição do po-
der familiar
Estudo empírico identificou que tentativas de citação
dos pais biológicos atrapalham adoção

Kalleo Coura, editor do JOTA

P or que há tantas crianças aguardando para ser ado-


tadas se há tantos casais na fila esperando a possibilidade
de ter um filho para amar? Há alguns anos, a Associação
Brasileira de Jurimetria (ABJ) foi contratada pelo Conse-
lho Nacional de Justiça (CNJ) para responder a essa per-
gunta.
Os advogados e estatísticos da ABJ, que trabalham
com o estudo empírico do Direito, chegaram a uma triste
conclusão: a Justiça demora quase um ano, em vão, ten-
tando citar os pais das crianças envolvidas em processos
de destituição familiar. Assim, quando finalmente estão
prontas para uma nova família, as crianças já estão numa

96 O futuro do Direito
idade em que poucos casais as querem.
Numa demonstração da importante contribuição que
a ciência pode dar à aplicação do Direito e à elaboração
de políticas públicas, a pesquisa em questão – Tempo dos
processos relacionados à adoção no Brasil: uma análise
sobre os impactos da atuação do Poder Judiciário –, coor-
denada pelo advogado Marcelo Guedes Nunes, da ABJ,
inspirou integralmente um projeto de lei que visa agilizar
os procedimentos relacionados à destituição do poder fa-
miliar e à adoção.

O problema
O estudo descobriu, por exemplo, que, na região Su-
deste do país, o tempo mediano de uma ação de destitui-
ção do poder familiar – que é aplicada em caso de abuso
de autoridade, abandono, maus-tratos e algumas outras
hipóteses – é superior a três anos. Em Brasília, o tempo
médio é de quase quatro anos.
Isso faz com que a idade de disponibilização de
crianças para adoção em processos relacionados com des-
tituição familiar apresente concentrações maiores nas fai-
xas de oito a onze anos, enquanto 92,8% das famílias que
pretendem adotar uma criança preferem uma idade má-
xima de até cinco anos. Ou seja, a demora da Justiça faz
com que as crianças fiquem anos esperando nos orfanatos
enquanto ultrapassam a faixa etária em que a adoção tem
mais chance de acontecer.
“Existe uma janela de oportunidade para adoção
97
JOTA
dessas crianças que é bastante limitada por causa da de-
mora do processo de destituição”, afirma Nunes. A pes-
quisa conseguiu identificar que a citação dos pais é uma
das fases que leva muito tempo injustificadamente e, con-
sequentemente, reduz as chances de uma criança ser ado-
tada.
O artigo 158, parágrafo 1º, do ECA, diz que: “a cita-
ção será pessoal, salvo se esgotados todos meios para sua
realização”. O esgotamento de “todos os meios” faz com
que o tempo médio de citação dos dois pais seja de 316
dias na cidade de São Paulo e de 338 dias no Sul do país.

A proposta de alteração legal


O deputado federal Augusto Coutinho (SD-PE) se
baseou nos resultados da pesquisa para propor o Projeto
de Lei 5.850/2016 e tentar corrigir esta distorção e agilizar
os processos de adoção. “Este talvez seja o primeiro pro-
jeto de lei que seja integralmente ancorado numa pesquisa
empírica. Trata-se de uma concepção nova e que deveria
ser generalizada”, afirma Nunes.
Segundo o texto do projeto, “o oficial de justiça de-
verá procurar o requerido em seu domicílio, residência ou
último local de permanência conhecido por, no mínimo,
três vezes.” Quando ele não for encontrado e a criança em
questão tiver idade preferencial para ser adotada e se en-
contrar em situação de abrigamento por mais de sessenta
dias, o juiz deverá determinar a citação por edital.
“O projeto pode efetivamente ajudar”, afirma o de-

98 O futuro do Direito
putado Augusto Coutinho, que tomou conhecimento do
estudo do CNJ por meio de um amigo advogado. “Muitas
vezes você tem pais que são drogados ou andarilhos. Se
não diminuirmos a burocracia para citá-los, vamos penali-
zar as crianças que ainda têm chances de serem adotadas.”

Prioridade
Outro ponto importante do projeto é que ele deixa a
cargo do CNJ o estabelecimento de um “limite etário de
adotabilidade”, a ser revisto a cada dois anos. Às crianças
que se enquadrem neste critério – que inicialmente será
até os cinco anos, segundo o texto do projeto – é asse-
gurada prioridade na tramitação dos processos para que a
chance de elas serem adotadas aumente.
O projeto foi apresentado no dia 14 de julho e atual-
mente se encontra na Comissão de Seguridade Social e
Família.

Texto publicado em 05/09/2016

99
JOTA
Carta a um jovem advogado especialista
em Direito Digital
O conhecimento da área passou a ser um requisito para
a própria carreira dos operadores do Direito

Patricia Peck Pinheiro, advogada especialista em Direito Digital,


formada pela Universidade de São Paulo e doutoranda em Direito In-
ternacional

S empre tive afinidade com tecnologia, fiz cursos de


COBOL e BASIC, e comecei a desenvolver projetos na
área ainda na adolescência. Já na Faculdade de Direito, eu
tinha um website chamado “Urbanóide” e minha fama no
escritório onde era estagiária era de ser “a advogada que
entende de tecnologia”, porque eu sabia programação de
software. Logo que me formei, em 1998, comecei a atuar
com Direito Digital. Naquele ano escrevi uma crônica
que ganhou o prêmio “Pau-Brasil de Literatura” da USP,
falando que no futuro as faculdades fechariam as portas,
pois todas as aulas seriam pela internet, via educação à
distância (EAD).

100 O futuro do Direito


Por causa do texto, do rótulo de “advogada que en-
tende de tecnologia”, e do contexto da época que era do
“bug do milênio”, comecei a ser procurada para falar so-
bre quebras de contratos de TI e outras questões legais
relativas à proteção de software e à criação de negócios na
internet, especialmente em lojas virtuais e sites de leilão,
que estavam em pleno auge. Com isso, para mim, acabou
sendo natural unir meus conhecimentos tecnológicos aos
jurídicos, o que se tornou um diferencial. Não era comum
achar um especialista que tivesse domínio das questões
legais e também conhecesse das questões técnicas. Então
acabei sendo, mesmo ainda muito jovem e recém-forma-
da, uma solução que o mercado procurava. Nascia ali uma
nova forma de oferta jurídica, a do “Direito Digital”.
Durante as palestras que dava nas empresas, muita
gente me pedia indicações de leitura. Meu último slide era
de dicas de leitura, todas em inglês. Esse continua sendo
um grande desafio do profissional do Direito Digital: co-
nhecimento da matéria. Os assuntos até hoje, com quase
20 anos de atuação na área, ainda são novos para muitas
pessoas e se renovam a cada dia, já que a tecnologia muda
e com ela o comportamento das pessoas e seus impactos
econômicos e sociais. É um volume de temas que vem au-
mentando desde os anos 90, principalmente com a criação
do www por Tim Berners-Lee, mas que quase não estão
presentes na grade curricular da graduação de Direito.
Algumas faculdades possuem uma ou outra matéria
do Direito Digital como optativa, mas em geral essa dis-
ciplina é tratada somente em especializações e cursos de
pós-graduação. Isto tem feito com que o aluno de Direito

101
JOTA
se forme muito em descompasso com a realidade da so-
ciedade para a qual ele terá que trazer soluções, respostas
jurídicas.
Quase todos os casos exigem conhecimento técnico
sobre como coletar provas eletrônicas, por isso, acredito
que essa matéria tinha que ser dada obrigatoriamente na
graduação, em uma aula de computação, com uso de ferra-
mentas de esteganografia, espelhamento, captura de ima-
gem, software hexagesimal, entre outras.
Outro detalhe importante, além de saber a matéria, é
manter uma atualização constante, já que estamos falando
de uma área em contínua evolução. O que presenciamos
é a revisitação dos institutos fundamentais do Direito re-
lacionados a diferentes temas, como a identidade, já que
as pessoas se relacionam por meio de interfaces e não
presencialmente, a soberania, afinal as fronteiras não são
mais geográficas, e testemunhas, que passaram a ser as
máquinas. É a transformação do Direito Tradicional para
o Direito Digital.
Às vezes não basta atualizar esses institutos, é preciso
mudar. Por exemplo, se uma pessoa copia seus dados sem
autorização, não é possível tipificar o ato como o furto, já
que na prática a pessoa levou, mas não subtraiu os dados
(não os tornou indisponíveis, conforme exige o artigo 155
do CP).
Mediante essas novas situações que acontecem no
ambiente digital, é necessário pensar em novos tipos de
crimes aos quais os cidadãos digitais estão sujeitos. Atual-
mente estão sendo rediscutidos institutos que são pilares

102 O futuro do Direito


do pensamento jurídico, como privacidade, liberdade de
expressão e a própria ética digital e a isso tem se chama-
do “digital rights”. Já há muitas obras a respeito disso em
inglês e espanhol. Por isso escrevi meu primeiro livro, Di-
reito Digital, que saiu em 2001 e se encontra na sexta edi-
ção, símbolo de como a área continua evoluindo.
Além da qualificação, outro desafio é a própria práti-
ca jurídica. Em 2004, quando decidi abrir meu escritório,
meus colegas me perguntavam se eu ia mesmo trabalhar
“só” com isso. Na época éramos dois: um estagiário e eu;
hoje somos 23 profissionais, sendo 15 advogados. Meus
primeiros clientes foram gerentes de TI – eu trabalhava
com questões de política de privacidade e segurança da in-
formação, também tinha clientes que precisavam de con-
tratos de hospedagem de site, de armazenagem de dados,
desenvolvimento de software. Inicialmente as funções gi-
ravam em torno de elaborar contratos de tecnologia. De-
pois vieram os profissionais de marketing, interessados
em fazer campanhas digitais, preocupados em proteger
a marca na web e buscando o amparo legal. Na sequên-
cia entrou o varejo: a princípio eram start-ups, pequenos
empreendedores que montavam lojas virtuais, mas então
comecei a ter os grandes clientes, empresas tradicionais
que queriam tomar proveito da Internet e iniciar o seu co-
mércio eletrônico.
Com a evolução das relações digitais, o Direito Digi-
tal acabou alcançando todas as práticas jurídicas. Qualquer
caso de relação civil, trabalhista ou criminal tem algum
aspecto envolvendo o digital, seja uma mensagem ofensi-
va ou ameaça, uma comprovação eletrônica de transações

103
JOTA
financeiras. Assim, o desafio é a escolha de qual melhor
modelo aplicar para casos que muitas vezes são inéditos. É
o novo pensar jurídico que exige do profissional conheci-
mento técnico, prático e especializado. Ou seja, a atuação
do advogado de Direito Digital passou a ser indispensável.
E para os operadores do Direito, o conhecimento do Direi-
to Digital passou a ser um requisito para a própria carreira.

Texto publicado em 11/07/2017

104 O futuro do Direito


Inteligência Artificial como ferramenta
anticorrupção
Tecnologia pode ser o principal aliado da melhoria do
ambiente corporativo nacional

Paulo Castello, CEO da Fhinck e mestre em Gestão de Negócios pela


Georgetown University

N as delações dos executivos da Odebrecht, algu-


mas vezes aparece a percepção de que ninguém tinha claro
controle dos valores pagos pelo Departamento de Opera-
ções Estruturadas, responsável pelo pagamento dos valo-
res destinados a políticos. E esta percepção aparece apesar
de toda a engenharia de gestão que existia por trás deste
departamento, e que aparece nas notícias dos jornais.
O caso acima mostra como os controles existentes
hoje no meio corporativo, por mais avançados que sejam,
ainda não são eficazes ao monitorar o comportamento das
pessoas capazes de serem envolvidas em casos de corrup-
ção. Mesmo os melhores sistemas de gestão podem ser

105
JOTA
fraudados por interferência humana. Ou seja, para prote-
ger a empresa dessas interferências, é importante que exis-
tam mecanismos eficientes de monitoramento.
A Lei 12.846, aprovada e sancionada por causa das
manifestações de junho de 2013 e que estabelece os crité-
rios para o combate à corrupção no Brasil, insere como um
dos itens a serem levados em consideração na avaliação
das sanções de uma empresa investigada “a existência de
mecanismos e procedimentos internos de integridade, au-
ditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a apli-
cação efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito
da pessoa jurídica”. Ou seja, quanto mais eficazes forem
os mecanismos internos de compliance, melhores as con-
dições de uma empresa cooperar com as autoridades em
casos de suspeita de corrupção.
Atualmente, as melhores práticas de ética corporati-
va e compliance estão baseadas na denúncia interna. Aper-
feiçoam-se os canais, protege-se o anonimato do denun-
ciante, tudo para assegurar que a empresa possa identificar
uma conduta inadequada ou mesmo criminosa. Contudo,
mesmo com todas essas proteções o medo pode interferir
na decisão do colaborador de denunciar o próprio chefe.
Vimos isso diversas vezes na Lava Jato, em que funcioná-
rios cumpriram ordens ilegais e nunca denunciaram seus
líderes.
É aí que entra o papel da inteligência artificial. Por
meio de captura e monitoramento de dados, processados
em algoritmos de machine learning, é possível monitorar e
identificar padrões de comportamento que estejam fora dos
estabelecidos nos códigos de ética e conduta. Ferramentas

106 O futuro do Direito


de inteligência cognitiva podem ser fundamentais em
um processo interno de investigação, e assim diminuir a
dependência da denúncia interna.
Por exemplo, imagine que um profissional da área
financeira está passando informações privilegiadas da
empresa em que trabalha, uma SA, para o cunhado, que
opera no mercado de capitais. Com essas informações o
cunhado consegue especular com as ações da empresa, an-
tecipando-se, por exemplo, à divulgação de informações
trimestrais.
No contexto atual, seria necessário que a CVM con-
seguisse identificar uma operação financeira atípica para
deflagrar uma investigação, que exporia a SA em questão.
Ou então um colega teria que denunciá-lo internamente.
Ora, com ferramentas de inteligência artificial a empresa
conseguiria identificar a conduta criminosa do profissional
antes mesmo de seu cunhado conseguir fazer a primeira
especulação. Isto permitiria a tomada de medidas preven-
tivas imediatamente, sem esperar que o assunto chegasse
a CVM.
A tecnologia, portanto, pode ser o principal aliado
da melhoria do ambiente corporativo nacional. Ela não
apenas pode tornar a empresa mais competitiva, como
também pode torná-la melhor, mais ética e alinhada aos
padrões internacionais de compliance.

Texto publicado em 12/05/2017

107
JOTA
Faculdades de Direito oferecem discipli-
nas em inglês
Aulas em outro idioma aumentam internacionalização
dos alunos e ingresso no mercado de trabalho

Alexandre Leoratti, repórter do JOTA

A s disciplinas em inglês se tornaram uma tendên-


cia entre as principais faculdades de Direito do Brasil. Os
cursos da FGV-RJ, FGV-SP, USP, Mackenzie e PUC-SP
já apresentam em suas grades curriculares matérias reali-
zadas totalmente no idioma inglês. A maioria conta, ainda,
com a presença de alunos estrangeiros.
A Faculdade de Direito da Universidade Presbiteria-
na Mackenzie, em São Paulo, foi a última a fazer parte
deste grupo. Um projeto-piloto com a disciplina “Controle
de Constitucionalidade”, cujas aulas em inglês serão op-
tativas, será oferecido aos alunos a partir do segundo se-
mestre de 2017.
Para Maria Lage, coordenadora de Cooperação In-

108 O futuro do Direito


ternacional e Interinstitucional da universidade, a aula em
inglês é uma tendência mundial das universidades e tam-
bém uma maneira de trazer estudantes do exterior.
“É uma forma de internacionalizar a vida dos alunos.
Enviamos em média 500 estudantes por ano para outros
países. Entretanto, nem todos podem ir. Sendo assim, a
outra maneira de promover a internacionalização é trazer
do exterior quem quer estudar aqui”, disse.
O professor Pedro Buck será o responsável pela apli-
cação do módulo. Para ele, um dos principais aspectos da
aula é tirar o medo que os alunos brasileiros enfrentam
devido ao idioma. O módulo funcionará com o mesmo
conteúdo e dinâmica das outras aulas em português, com
trabalhos, provas e diálogos. “O propósito é ter um am-
biente acolhedor”, afirma.
Para os organizadores da disciplina, as aulas em in-
glês podem ajudar os alunos de Direito no ingresso do
mercado de trabalho do setor. “É sempre bem avaliado por
empresas a capacidade de dialogar com pessoas de origens
diferentes. Além disso, o aluno conseguirá se aprofundar
em temas e literatura em linguagem estrangeira”, afirmou
Maria Lage. Trata-se, segundo ela, de uma forma de prati-
car o inglês sem precisar pagar por um intercâmbio.

Alunos estrangeiros
A Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas do
Rio de Janeiro (FGV-RJ) oferece de quatro a sete disci-
plinas optativas em inglês por semestre. Para Eduardo
109
JOTA
Jordão, professor de Direito e coordenador de Relações
Internacionais da faculdade, as aulas representaram uma
estratégia de internacionalização da escola.
O coordenador afirma que há alunos brasileiros que
possuem maior rendimento em aulas em outro idioma.
“Vários alunos preferem ter aula em inglês. Eles conse-
guem se expressar melhor, se sentem mais à vontade”,
afirmou Jordão, acrescentando que muitos estudantes são
“mais tímidos” em aulas em português.
As disciplinas oferecidas em inglês variam a cada
semestre, entretanto as mais populares são mantidas por
alguns semestres. Eduardo Jordão cita o exemplo da ma-
téria de “Direito da Favela” que, segundo o professor, é a
que mais atrai alunos estrangeiros para as salas de aula.
“É uma curiosidade dos estrangeiros conhecer a realidade
brasileira. Eles acabam tendo dúvidas que para nós pare-
ciam coisas naturais”, disse.
Cada turma possui em média 20 alunos e é composta
por 10 estrangeiros. Para Jordão, a presença de alunos es-
trangeiros é importante para levar à sala de aula exemplos
de jurisdições estrangeiras. “Em uma aula sobre o contro-
le da violência causada pelo álcool, um aluno da Suécia
pode explicar como que o seu país controla o problema.
Assim, podemos conhecer como o Direito funciona em
cada país”, afirmou.

Mais debates
A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

110 O futuro do Direito


(PUC-SP) oferece aulas optativas para o nono e décimo
semestre sobre Arbitragem Internacional. Para Cláudio
Finkelstein, atual professor do módulo e um dos idea-
lizadores da ideia, há sete anos, as aulas são compostas
somente por alunos brasileiros. “Nos últimos quatro anos
não me lembro de ter recebido intercambistas. A disciplina
se tornou uma matéria para brasileiros”, disse.
Para Finkelstein, o motivo da falta de alunos estran-
geiros nas aulas em inglês é o fato que muitos acabam
optando por realizarem disciplinas em português para pra-
ticar o uso do idioma.
De acordo com o professor, o estilo de aula em inglês
adotado pela instituição faz com que o professor tenha um
papel mais passivo, permitindo aos estudantes um maior
espaço para discursos e exposição de ideias.
O professor também afirma que faz parte da aula a
discussão, sempre em inglês, de casos relacionados com
as matérias estudadas em sala de aula e as principais ma-
térias jornalísticas da semana.

Law Schools Global League


Com quatro disciplinas em inglês por semestre, cada
uma com duração de dois meses, a Escola de Direito da
Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) recebe,
em média, dez alunos estrangeiros para as aulas, que tam-
bém podem ser assistidas por alunos de outros cursos da
faculdade.

111
JOTA
A principal disciplina que é disponibilizada todos
os semestres para os alunos se chama “Sistema Legal no
Brasil”, com o objetivo de propiciar uma visão sobre o
sistema Judiciário nacional.
Para Maria Lúcia Pádua Lima, coordenadora de Re-
lações Internacionais da escola de Direito da FGV-SP, o
principal benefício das aulas é mostrar aos alunos brasi-
leiros a capacidade que eles possuem de debater com o
mesmo nível técnico de alunos estrangeiros. “Queremos
que os alunos se sintam em condições de argumentar com
colegas de outras partes do mundo”, afirmou.
Os alunos que desejam ter um contato mais profun-
do com o idioma inglês também podem participar da Law
Schools Global League, uma liga que possui a parceria
de 24 escolas de Direito do mundo, com o objetivo de de-
senvolver pesquisas em assuntos como: Grupo de Anticor-
rupção, Novas Tecnologias, Direitos Humanos e Business
Law.
A Law School possui uma liga de verão, que permite
que os alunos viajem para outras sedes para ajudarem na
realização de pesquisas e trabalhos acadêmicos. Segundo
Maria Lúcia, em média, de quatro a cinco alunos da FGV-
-SP participam do curso de verão anualmente. Um grupo
deles chegou a ser premiado por um trabalho sobre novas
metodologias do ensino jurídico.

Múltiplas habilidades
Para Alberto do Amaral Júnior, professor de Direito

112 O futuro do Direito


Internacional da Faculdade de Direito da Universidade de
São Paulo (USP) e responsável por ministrar aulas em in-
glês na instituição, o principal diferencial das disciplinas
em outro idioma é o método de múltiplas habilidades a
que os alunos são expostos.
“Eles aprendem a expressão escrita e oral, trabalho
em conjunto, habilidade de elaboração de artigos e peças
processuais, além do vocabulário típico da litigação inter-
nacional”, afirma.
As aulas, em turmas de 30 alunos, são baseadas em
leituras e debates sobre textos em inglês e discussões so-
bre casos especiais. Estas aulas costumam receber alunos
de outros cursos, como engenharia, administração e eco-
nomia.

Texto publicado em 28/07/2017

113
JOTA
Terceira Parte

Empreendedorismo
____________________________

114 O futuro do Direito


Mercado jurídico saturado? Empreen-
der pode ser a solução
Luís Viviani, repórter do JOTA

D e uma conversa entre o advogado Flávio Ribei-


ro, que então atuava na área societária e fazia doutorado
na USP, e o estudante Pedro Delfino, de 24 anos, surgiu a
ideia da criação de uma ferramenta que automatiza a ela-
boração de documentos por meio de questionários.
“O Flávio me relatou a percepção dele de que, de-
pois de aprender a lógica dos documentos societários, 70 a
80% do tempo que ele gastava na criação dos documentos
era em atividades burocráticas, como adaptar uma cláu-
sula que já tinha utilizado em uma operação similar ou
consertar formatação”, conta Delfino.
Surgia ali o NetLex, uma startup jurídica que gera
automaticamente e de forma inteligente documentos-pa-
drões, reduzindo custos tanto para empresas quanto para
escritórios de advocacia. No caso de um grande escritório,
115
JOTA
por exemplo, o ganho de produtividade cresceu 68%.
Delfino ainda está nos bancos da graduação – de
duas aliás: Direito e Matemática Aplicada –, mas já fez
algo que os mais de 850 mil estudantes de Direito precisa-
rão considerar: empreender.
O Brasil possui, hoje, 1.033.948 advogados registra-
dos na OAB, o que significa que a cada mil brasileiros,
cinco são advogados – isso sem contar juízes, promotores,
defensores públicos e outros operadores do Direito.
Com o ingresso de mais de 850 mil novos bacharéis
no mercado nos próximos cinco anos, as perspectivas não
são muito otimistas – para dizer o mínimo. Uma das saí-
das para o estrangulamento e supersaturação do mercado
passa pela inovação, criatividade, e – por que não? – a
abertura do próprio negócio.
“Diante do mercado atual e da perspectiva do que
este mercado vai trazer nos próximos anos, o aluno tem
duas opções: pode ser advogado, que daqui um tempo vai
ser demitido porque sua função vai ser substituída por um
software; ou pode ele mesmo ser o fundador da empresa
que fundou esse software”, afirma Ivar A. Hartmann, pes-
quisador e professor da FGV Direito Rio.
O diferencial de um profissional da área do Direito
há cerca de 10, 15 anos era considerado o conhecimento de
administração, gestão, contabilidade, matemática financei-
ra. Hoje, entretanto, aponta Hartmann, o mais importante,
e o que vai garantir uma carreira de mais oportunidades,
é o conhecimento de tecnologia e, consequentemente, de

116 O futuro do Direito


programação. Hartmann é, ele próprio, um empreendedor.
Ele é o criador da Publyx, ferramenta que conecta autores
a periódicos acadêmicos.
Nesse cenário, a relação da tecnologia com o uni-
verso jurídico torna-se indispensável. Tanto é assim que
o Brasil já está vivenciando um crescimento das lawte-
chs ou legaltechs, startups cujo serviço mescla aspectos
do Direito e da tecnologia.
A existência de mais de 100 milhões de processos
tramitando na Justiça, ou seja, quase um processo para
cada duas pessoas do país, e a conhecida morosidade do
Judiciário, evidenciam como mudanças propiciadas pela
tecnologia e pela inovação são necessárias.
A busca por acordos online sem a necessidade de
passar pelo Judiciário, a automatização da elaboração de
petições, o aumento de coleta de informações do Poder
Judiciário, o auxílio na pesquisa de conteúdo jurispruden-
cial e o cálculo de probabilidades de ganho e perda já são
aspectos explorados pelas lawtechs nacionais.
Segundo professores e advogados ouvidos
pelo JOTA, não há dúvida de que o futuro das profissões
da área do Direito irá necessariamente passar pela tecno-
logia e até pelo conhecimento de programação. Ainda as-
sim, uma grande dificuldade é que, por ser uma área muito
conservadora, as inovações tendem a ser vistas com des-
confiança pelos players do mercado jurídico.
O conservadorismo do mercado de advocacia aliado
à proibição da “mercantilização da profissão” apontado no

117
JOTA
Código de Ética da OAB, além do fato de as faculdades
de Direito não prepararem o estudante para o mercado,
ou seja, a formação obsoleta dos bacharéis, são dois dos
“obstáculos” para as alterações que, mais cedo ou mais
tarde, vão acabar acontecendo no ambiente legal.

Falta de investidores, formação acadêmica obso-


leta e conservadorismo
Para empreender, a “hora certa”, segundo o profes-
sor Hartmann, é sempre o “agora”. “O risco é inerente à
busca pela inovação. Se fosse risco zero, todos fariam”,
provoca Hartmann, que é responsável pela disciplina ele-
tiva “Programação para Advogados”, com foco em tecno-
logia e startups.
O risco, além de ser financeiro, pode significar às ve-
zes até abrir mão do atual emprego para se dedicar à ideia.
“Creio que a máxima do mercado de que ‘quanto maior o
risco, maior o retorno’ também vale para o segmento do
empreendedorismo”, aponta o advogado Erik Fontenele
Nybø, autor do livro “Direito das Startups” e coordena-
dor do curso de formação executiva focado em startups no
INSPER.
No mercado jurídico, contudo, os riscos provavel-
mente são ainda maiores pela falta investimentos e incen-
tivos na área e pelo conservadorismo e consequente reti-
cência em relação a mudanças.

118 O futuro do Direito


Falta de investidores
De acordo com Erik Nybø, que também é gerente
jurídico global da Easy Taxi, a principal barreira para ob-
tenção de capital é o desconhecimento sobre quem pode
fornecê-lo, como funciona o mercado, das habilidades bá-
sicas para captar investimentos ou dos fundamentos ne-
cessários para convencer um investidor.
“Hoje, o capital pode ser obtido com o que o mer-
cado cunhou de 3Fs (friends, family and fools, ou seja,
amigos, família e loucos), investidores-anjo, fundos de
investimento, plataformas de crowfunding ou equitycrow-
dfunding, instrumentos de dívida ou com intermediadores
especializados em localizar investidores para projetos”,
explica Nybø.
Ele aponta para o fato de que em outros países, como
nos Estados Unidos, a presença de lawtechs há mais tempo
e em maior escala se deve, em grande parte, à menor
restritividade das normas tanto em relação ao mercado
jurídico, quanto de tecnologia.
“Em uma análise geral, o mercado norte-americano é
muito mais liberal, permitindo que iniciativas inovadoras
surjam com maior facilidade e em maior escala”, aponta.
De acordo com Bruno Feigelson, advogado e criador
da startup Semprocesso, uma plataforma que visa propi-
ciar acordos pela internet, o Brasil realmente ainda não
é um dos melhores países para conseguir financiamento
principalmente pela taxa de juros alta, que incentiva “mui-
ta gente a ser rentista, e preferir deixar dinheiro parado a

119
JOTA
investir”.
“Aqui, ainda está começando a se formar essa figu-
ra do investidor-anjo. Não temos muitos cases de investi-
mento profundo”, lamenta. O investidor-anjo é aquele que
faz investimentos com seu próprio capital nas startups.
Recentemente, a Lei Complementar n. 155/16 buscou
regulamentar o sistema de Investimento Anjo. Em coluna
do JOTA, Luiz Gustavo Garrido, fundador e Diretor Jurí-
dico da Associação Gaúcha de Startups, analisou se a lei,
por si só, é capaz de gerar segurança jurídica ao investi-
dor-anjo, no sentido de que seu patrimônio não será res-
ponsabilizado por eventuais débitos da empresa investida.
Ainda se trata de um tema não muito maduro no país.
“Hoje, o Brasil é o país com o Judiciário mais caro
do mundo em termos proporcionais ao PIB. É um gasto
social, e precisa reduzir isso para gerar valor”, diz. O que
acontece, segundo ele, é que os fundos têm olhado para as
ineficiências brasileiras, e, por não conhecerem o mercado
jurídico, que é muito particular, não possuem a confiança
necessária.

Formação obsoleta
Além de se preocupar com o futuro e com a satura-
ção do mercado, os 850 mil estudantes de Direito também
precisam se preocupar com o presente. Segundo profes-
sores ouvidos pela reportagem, além da enorme quanti-
dade de futuros profissionais, o maior problema reside na
própria formação dos estudantes, que, na maior parte dos

120 O futuro do Direito


casos, tem acesso a um ensino pífio.
Segundo Ricardo Paixão, professor na Faculdade de
Direito da UnB, a cultura das faculdades não auxilia para
se ter uma visão diferenciada. “A formação tradicional in-
capacita os formandos para ter flexibilidade no mercado”,
diz.
Em texto no JOTA, Paixão explica a ideia do curso
experimental de Direito e Empreendedorismo que ele le-
ciona na UnB. “Montamos um curso estruturado em dois
eixos: teórico, onde são apresentados estudos de casos de
empresas que estão inovando o mercado jurídico (escritó-
rios de advocacia, grandes empresas, startups) e prático,
onde os alunos são desafiados a elaborar um projeto de um
negócio jurídico inovador (uma legaltech).”
O professor da FGV Rio Ivar Hartmann segue o
mesmo raciocínio. “Nossa grande preocupação é que edu-
cação que a FGV Direito dá não seja obsoleta daqui a 10
anos”, diz.

Mercado conservador
Outra dificuldade a ser superada por futuros em-
preendedores é o conservadorismo da área jurídica. A
profissão ainda é vista como “algo sagrado”, o que leva o
Código de Ética da OAB a não admitir a “mercantilização
do trabalho”, por exemplo.
Para Ivar Hartmann, há um forte ranço contra a prá-
tica livre da profissão. “A advocacia é um mercado e tem

121
JOTA
que ser tratado como tal. Temos muitas regulações que
restringem a profissão. As pessoas não deveriam ter medo
nem pedir autorização para empreender.”
Segundo o professor da FGV Direito Rio, a regula-
ção do mercado vai “piorar um pouco antes de melhorar”,
já que, no final das contas, não é possível lutar contra a
inovação. “Os novos serviços jurídicos já sofrem ataques
regulatórios, via tribunais. Existem decisões que proibi-
ram serviços jurídicos baseados na lógica de que trabalho
do advogado é sagrado. Então tem ainda esse período em
que vai se tentar salvar de certa forma ou proteger o mer-
cado tradicional frente às inovações”, aposta.
Um exemplo recente disso foi quando a OAB-RJ
entrou com uma ação contra o site queroprocessar.com.
“Se a Ordem passar a entender inovação disruptiva como
impedimento ao exercício da profissão, há o risco de, em
algum tempo, se unir aos sindicatos de taxistas que pro-
testam contra o Uber”, escreveram Ricardo Paixão e dois
coautores num artigo sobre o caso.
“Existe uma reação de autodefesa que grupos de
interesse que controlam o mercado tradicional vão fazer
para se proteger, via lobby, via litígio, pelo judiciário. Mas
isso é inevitável, quando tem essa disrupção, há aqueles
que estão do lado atrasado e vão tentar se proteger”, critica
Ivar Hartmann.
Muitos advogados acreditam que a tecnologia toma-
rá conta do trabalho desenvolvido por eles e, por isso, fica-
rão desempregados. No entanto, para Nybø, a tecnologia
deveria ser vista como uma aliada, uma ferramenta para a

122 O futuro do Direito


democratização dos serviços jurídicos e uma alternativa
de carreira.
“Creio que muitas inovações no mercado de advo-
cacia são barradas por causa de regras impostas pela enti-
dade que regula a classe. Diversas iniciativas inovadoras
podem ser sufocadas pelo simples argumento de que es-
tão ‘mercantilizando a profissão’. Muitos escritórios têm
práticas que seriam reprováveis pela entidade da classe,
porém acabam conseguindo se esquivar”, critica.
“Exemplos são aquelas empresas que prestam servi-
ços jurídicos a preços mais baixos, advocacias que anun-
ciam serviços imobiliários de corretagem, propaganda de
serviços advocatícios fora do padrão permitido, pessoas
gritando ‘vem processar o patrão’ em pleno dia na Praça
da Sé, dentre outros exemplos muito mais absurdos e que
são de conhecimento geral”, continua.

Quem não se adaptar está perdido


Um robô desenvolvido pela Universidade de Toron-
to, no Canadá, é a maior prova de que o Direito não tem
como se desvencilhar mais da tecnologia. O robô Ross é,
segundo a IBM, capaz de peneirar mais de um bilhão de
documentos de texto em um segundo e retornar a passa-
gem exata que o usuário precisa. Por isso, já cumpre fun-
ções em grandes escritórios de advocacia norte-america-
nos.
“Ross e todos os demais programas que estão che-
gando às bancas jurídicas não serão uma ameaça, serão
123
JOTA
um baita auxílio aos advogados que, na essência da pro-
fissão, efetivamente advogam. Ameaçados estarão – ou já
estão – os profissionais que se reduzem ao “recorta e cola”
de uma rápida pesquisa em qualquer programa de com-
putador, com a única preocupação de atualizá-lo às suas
novas versões”, escreve o advogado e sócio-fundador da
BGR Advogados Fabio da Rocha Gentile sobre o assunto.
É a mesma linha de raciocínio de Erik Nybø, para
quem as inovações visam lidar com as ineficiências
existentes no mercado atual. Para o profissional, não faz
sentido para uma startup buscar competir com escritórios
ou com advogados estabelecidos. Até porque estas
empresas nascentes não tem o conhecimento ou recursos
necessários para estabelecer uma competição com estes
profissionais.
“Muitas vezes, as startups acabam criando produ-
tos e serviços para auxiliar advogados ou democratizar o
acesso a informações jurídicas ou o próprio acesso a ad-
vogados”, explica.
Bruno Feigelson argumenta que quem não se adap-
tar, não terá vez no mercado. “Vivemos uma era de ampla
conexão na qual as pessoas querem comunicação rápida,
feedback rápido. O caminho natural é de absorção dessas
novas tecnologias”.

Novas carreiras
O professor Ivar Hartmann, da FGV Direito Rio, lis-
ta duas atividades em especial que considera inovadoras:

124 O futuro do Direito


Atividade de análise de documentos jurídicos. Há
pouco tempo a alternativa era pagar para um advogado
analisar milhares de páginas de documentos jurídicos.
Hoje o papel cabe aos softwares, que já estão no mercado
e poupam milhões de reais nas empresas.
Produção de documentos jurídicos. Lidar com con-
tratos é uma atividade essencial para advogados e, atual-
mente, isso já pode ser resolvido com a ajuda de softwares
que montam documentos de maneira mecanizada.

Startups do Direito
A Associação Brasileira de Startups tem atualmente,
em seu banco de dados, 4.217 empresas cadastradas. São
Paulo é o estado com maior número: ao todo, são 1.319
empreendimentos inovadores na região. Minas Gerais,
com 365 startups, e Rio de Janeiro, com 342, aparecem
na sequência. Além disso, segundo a base de dados da
ABStartups, há atualmente 20 startups na área do Direito
e que prestam serviços jurídicos.
Mas existem mais startups jurídicas no mercado. No
início do mês foi criada a Associação Brasileira de Law-
techs e Legaltechs (AB2L), que conta com o JOTA como
um dos fundadores e que já possui mais de 35 membros.

Acordo Fechado
Formado em Direito, Marcelo Goldman, de 31 anos,
faz pós-graduação na FGV na área de administração de
125
JOTA
empresa. Ele diz que, desde pequeno, sempre queria ser
o “mais justo possível e lutar pelas coisas certas”. A ideia
de empreender veio na faculdade (FGV), numa disciplina
que envolvia a programação.
“Trabalhava num escritório junto com dois amigos e
via diversas necessidades lá. Percebemos que uma solução
tecnológica traria mais eficiência e resultados com menor
custo a trabalhos que eram efetuados por advogados, esta-
giários ou pela própria equipe administrativa”, conta.
Assim nasceu uma plataforma online de concilia-
ção e mediação que visa o diálogo entre consumidores e
empresas. “O objetivo era diminuir o tempo de vida útil
dos processos nos tribunais, tendo em vista que acordos
na internet podem durar horas, enquanto a espera por uma
audiência de conciliação pode durar cerca de 6 meses”.
A Acordo Fechado tenta acelerar e potencializar o
fechamento de acordos de uma forma intuitiva e com menos
custo. Além disso, Goldman diz que o site pode contribuir
para uma mudança comportamental para diminuir o
número de litígios. A taxa de sucesso de acordos fechados
é maior que 80% e a expectativa é que a empresa termine
o ano com um faturamento de R$ 1 milhão.
Em 2015, Goldman submeteu o projeto junto à Es-
paço Nave de Estácio e venceu o case do ano como melhor
aceleradora do Brasil, após concorrer com mais de 150
startups num período de 5 meses.
“Hoje, já tem mais de dez mil processos na platafor-
ma. Já fechamos mais de quatro mil acordos. Trabalhamos

126 O futuro do Direito


em parceria com algumas empresas e escritórios”, conta.

Sem Processo
De acordo com Bruno Feigelson, de 31 anos, o ob-
jetivo da Sem Processo é evitar a judicialização. Em vez
de protocolar na Justiça a inicial de um processo, quem
procura o site dará um prazo de dez dias úteis para a
manifestação da empresa. Uma vez manifestado o interesse
num acordo, abre-se novo prazo de dez dias úteis para que
haja a negociação.
“Quando você tem um problema e passa para o ad-
vogado, em geral ele não vai nem tentar conversar com a
empresa”, aponta. Desse modo, com a tecnologia, os con-
flitos envolvendo consumo podem ser resolvidos de forma
mais rápida e menos custosa.
Pode-se resumir o processo em 5 passos: o advoga-
do protocola a inicial no Sem Processo; a plataforma a
encaminha para a empresa; o departamento jurídico, en-
tão, analisa a possibilidade de acordo; advogado e depar-
tamento jurídico negociam e, por fim, o acordo é realizado
de forma rápida e direta.
Segundo Feigelson, desde julho do ano passado,
mais de 250 empresas já foram notificadas pela platafor-
ma. “Temos sido muito bem-sucedidos. Criamos um novo
módulo que, além de o advogado buscar a empresa, a pró-
pria empresa, antes de ter audiência, pode entrar na plata-
forma e convidar o advogado para negociar. Isso tem sido
bem-sucedido também, e tem reduzido bastante o conten-
127
JOTA
cioso empresarial”, explica.
No momento, a Sem Processo, que encontra-se em
fase de expansão, tem parcerias com mais de 50 empresas
de diferentes segmentos.

NetLex
Cursando uma dupla graduação na Fundação Getú-
lio Vargas do Rio de Janeiro em Direito (FGV DIREITO
RIO) e Matemática Aplicada (EMAp), Pedro Delfino, de
24 anos, é um dos fundadores do NetLex, startup que au-
xilia escritórios e empresas de médio e grande porte a oti-
mizar o processo de criação e gestão de documentos.
Desde o final de 2015, ele não participa mais das
operações da empresa e no início deste ano decidiu ven-
der suas cotas. Delfino conta que a ideia surgiu em 2013,
quando participava de um projeto de alunos e ex-alunos da
Faculdade de Direito da UFMG. O objetivo era criar um
fundo para financiar projetos extracurriculares dos alunos.
“Na época, eu era da equipe responsável por desen-
volver o site desse projeto, juntamente com o Flávio Ri-
beiro, que era advogado de societário e fazia doutorado na
USP. Nessas conversas, o Flávio me relatou a percepção
de que, depois que aprender a lógica dos documentos so-
cietários, 70% a 80% do tempo que ele gastava na cria-
ção dos documentos era em atividades burocráticas, como
adaptar uma cláusula que já tinha utilizado em uma opera-
ção similar ou consertar formatação”, conta.

128 O futuro do Direito


Resumindo, o que realmente exigia inteligência ju-
rídica era o que gastava menos horas de trabalho. Eles,
então, passaram a desenvolver uma ferramenta que auto-
matiza a elaboração de documentos por meio de questio-
nários.
“O desenvolvimento seguiu um fluxo diferente do
que geralmente é feito pelas startups. Em vez de produ-
zirmos um MVP [produto minimamente viável] e depois
o sofisticarmos, nós pesquisamos o estado da arte do que
existia no mundo sobre automação documental e falamos:
vamos fazer melhor. Isso, claro, trouxe vantagens e des-
vantagens. A grande dificuldade foi que ficamos cerca de
um ano e meio desenvolvendo o produto, fase em que ti-
vemos que buscar financiamentos para podermos sobrevi-
ver”, explica.
De acordo com Delfino, a plataforma permite que
os clientes automatizem seus próprios documentos, como
contratos e peças processuais, de forma a produzi-los por
meio de um questionário intuitivo, com ganho de agilida-
de, controle e qualidade.
“A tecnologia do NetLex permite a criação de do-
cumentos extremamente personalizados, no exato padrão
empregado pelo escritório ou empresa. O NetLex também
possui diversas funcionalidades, tais como a possibilida-
de de automatizar cálculos, utilizar os dados gravados em
outros sistemas e visualizar o documento sendo gerado na
medida em que o questionário é respondido”, explica.
Delfino concorda que o mercado jurídico está em
grande transformação e cita o autor Richard Susskind, que
129
JOTA
aponta três “vetores” de mudança que estão ocorrendo no
mundo inteiro. O primeiro vetor de mudança é o avanço
da tecnologia. O segundo é a pressão no mercado jurídi-
co por serviços mais rápidos, mais baratos e com melhor
padrão de qualidade. O último vetor é uma tendência de
desregulamentação.
“No Brasil, a gente observa isso nas discussões so-
bre a extinção da prova da OAB, de permitir a entrada de
escritórios estrangeiros no mercado nacional ou de reduzir
a barreira regulatória para atuar no mercado jurídico, por
exemplo, com a regularização da figura do ‘paralegal’”,
afirma.
Para o futuro, sua aposta é que irão surgir outras Le-
galTech startups no Brasil que seriam cópias de empresas
estrangeiras, sobretudo americanas, “para surfar na onda
dessas tendências”.
“O Brasil tem, em geral, um mercado muito inefi-
ciente. O mercado jurídico ainda tem a característica de
ser mais doméstico e menos global, sendo mais ineficiente
que a média. No Brasil, você consegue ganhar algum di-
nheiro vendendo tecnologia que surgiu nos EUA no início
da década passada. Setores ineficientes e estruturados sob
uma regulação frágil têm grande vocação para serem ‘dis-
ruptados’. Não existe nada mais ineficiente e ridículo do
que a indústria dos cartórios no Brasil”, afirma.

Dicas para quem quer empreender


Confira algumas dicas do que fazer e do que não fa-

130 O futuro do Direito


zer para quem pensa em empreender:

O que fazer
Aprender a programar. É o item número um da lista.
“É preciso pensar que nos próximos anos programar será
essencial. Se não for você, será outro”, diz Ivar A. Hart-
mann, pesquisador e professor da FGV Direito Rio.
Identificar e estudar os serviços jurídicos que mais
crescem. “Como desempenhar um papel para fazer algo
novo acontecer ou fazer uma empresa que se associe às
mudanças desse sistema atual”, afirma Hartmann.
Atuar em algo que realmente goste: “A pessoa vai
viver aquilo dia e noite, diferentemente de um emprego
comum em que a atividade geralmente cessa após o térmi-
no do horário comercial”, aponta o advogado Erik Fonte-
nele Nybø, coordenador do curso de formação executiva
focado em startups no INSPER.
Seja versátil: “Ou você se adapta ou morre. Os gran-
des escritórios já estão pensando nas formas de tecnolo-
gia, os médios ainda estão alheios. A AGU, por exemplo,
já fez um programa piloto de automatização sobre INSS,
com peticionamento sem a presença humana. Já está acon-
tecendo uma transformação, e isso já é o presente, o futuro
só será mais intenso”, conta Bruno Feigelson, advogado e
criador da startup Semprocesso.
Leia: “Uma sugestão é Paul Graham, que entende
muito de startups. Há vários ensaios escritos desde a déca-

131
JOTA
da de 90 e disponibilizados gratuitamente. Paul Graham é
o filósofo preferido dos hackers, e criou a Y Combinator
– melhor aceleradora de startups do mundo –, a plataforma
Hacker News e é um ótimo programador – ele contribuiu,
por exemplo, para a construção de algoritmos que usam
probabilidade para filtrar spam em e-mails”, sugere o em-
preendedor Pedro Delfino.

O que não fazer


Concurso: “Se você quer empreender, não desperdi-
ce dois, quatro, dez anos estudando para concurso. Você
se prepara para fazer provas que não refletem de maneira
alguma a realidade do mercado. É um desperdício de tem-
po e capital humano”, diz Hartmann.
Não depositar todas as esperanças nas maneiras tra-
dicionais de se praticar o Direito, porque essas carreiras
estão mudando. “O que faz um advogado hoje e o que ele
fará daqui 10 anos será muito diferente”, pontua Feigel-
son.
Não pensar apenas em dinheiro: “É necessário per-
sistência e não basta que as chances de ganho financeiro
sejam o único motivacional. Existem outras coisas que
vêm junto com a postura empreendedora, como satisfação
pessoal, networking, possibilidade de negócios, dentre ou-
tros”, afirma Nybø.
Não acreditar em qualquer “empreendedor”: “É pre-
ciso tomar cuidado ao ler e ouvir sobre empreendedoris-
mo. Existe muita literatura ruim, muitos charlatões e en-

132 O futuro do Direito


ganadores nesse meio. A própria comunidade criou um
termo para uma espécie de charlatão: os empreendedores
de palco. Normalmente, são pessoas que nunca empreen-
deram de verdade e ganham cobrando de outras pessoas
para ensinar a como empreender”, diz Delfino.

Texto publicado em 20/06/2017

133
JOTA
Inovação Digital – cases do futuro do
Direito
Laura Diniz, editora do JOTA

Alexandre Leoratti, repórter do JOTA

O s departamentos jurídicos das grandes empresas


estão passando por uma dupla transformação. A primeira,
de postura, consiste em deixar de ser apenas um centro de
gastos e um limitador de contratos para se tornar um setor
estratégico e parceiro dos outros departamentos para via-
bilizar negócios. A segunda, tecnológica, em grande parte
viabilizada pela primeira, manifesta-se pela automatiza-
ção de serviços antes feitos manualmente, pela gestão ba-
seada em dados e não apenas em experiência, pela atuação
jurisdicional lastreada em evidências empíricas e não mais
pelo vale-tudo-doutrinário que há tanto tempo se vê.
Já são diversos os cases de repaginação de
departamentos jurídicos, de surgimento e ampliação de
empresas big data ligadas ao Direito, as legal startups, e

134 O futuro do Direito


do uso, pelo mercado jurídico, de ferramentas de busi-
ness intelligence  e inteligência artificial de gigantes da
tecnologia, como IBM, Google e Microsoft. Conhecer
esses cases é ter a oportunidade de mergulhar no, cada vez
mais presente, futuro da advocacia.
O tema chegou também aos grandes escritórios, que
têm o desafio de se atualizar para continuar relevantes e
necessários às empresas. Na última reunião do Centro de
Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa), em abril, o
presidente da entidade, Carlos José Santos da Silva, mais
conhecido como Cajé, contou que o tema do anuário da
instituição em 2017 é “Inteligência artificial na advoca-
cia – Oportunidades e desafios”. Até o final do ano, cada
comitê do Cesa – societário, tributário, ética…– elaborará
um artigo sobre o tema, para compor uma publicação pa-
norâmica a ser lançada em dezembro.
Na referida reunião, o advogado Alexandre Athe-
niense relatou que, dos 100 milhões processos ativos hoje
no Judiciário brasileiro, 15% são digitais. Nos próximos
anos, segundo ele, esse porcentual vai saltar para 40%.
“Se o jurista se recusar a aceitar o computador, que for-
mula um novo modo de pensar, o mundo, que certamen-
te não dispensará a máquina, dispensará o jurista. Será o
fim do Estado de Direito e a democracia se transformará
facilmente em tecnocracia”, disse o autor italiano Renato
Borruso, em seu livro Computer e Diritto, publicado em
1989, conforme citação de Atheniense.
A rápida transição da profissão para o universo digi-
tal causa apreensão na categoria em relação ao mercado de
trabalho, já tão saturado e cujos profissionais se formam
135
JOTA
a partir de grades curriculares, na maioria dos casos, de-
satualizadas em gerações. “Precisamos criar talentos para
lidar com a informação desapegada do papel. Isso também
vai exigir uma mudança no modelo de negócio da advoca-
cia”, ressaltou Atheniense.
O advogado Alexandre Zavaglia, coordenador do
IDP em São Paulo e criador de um curso de especialização
em big data voltado para o universo jurídico, ponderou que
a tecnologia afetará postos de trabalho de profissionais que
atuam em tarefas repetitivas, mas destacou que diversas
outras áreas de autuação surgirão para os advogados.
“Além disso, há um componente da estratégia profissional
que nunca poderá ser substituído por robôs”, afirmou.
Entre as novas áreas de atuação jurisdicional, ele
destacou duas: direito aplicado às novas relações surgidas
a partir da tecnologia (consumidor, penal, trabalhista, civil
e responsabilidade civil) e direitos fundamentais (priva-
cidade, imagem e informação). Entre as novas frentes de
trabalho, Zavaglia citou automação e inteligência artifi-
cial, saneamento e certificação de base de dados. Outros
serviços possíveis estão no campo da jurimetria, gestão de
riscos e predição de resultados.
“A ciência de dados é um campo vasto para os advo-
gados porque são os profissionais da área que sabem fazer
as perguntas – os robôs só respondem. O profissional pre-
cisa mudar”, avaliou o professor. O best seller israelense
Yuval Noah Harari, autor de Sapiens e Homo Deus, disse
em palestra recente que não se sustenta mais o modelo de
educação em que o ser humano estuda vinte e poucos anos
e fica apto para o mercado de trabalho. Os profissionais

136 O futuro do Direito


que não se reinventarem e adquirirem novas habilidades
ao longo da vida terão pouco espaço.
A relação do cliente individual com o advogado tam-
bém tende a mudar. Com a disseminação de análises sobre
as jurisprudências consolidadas e o avanço de sites que
oferecem petições prontas aos interessados, o ato de litigar
também pode ser reconfigurado. No curto prazo, os crité-
rios de escolha do advogado também podem sofrer altera-
ção, quando a indicação pessoal der espaço, por exemplo,
à avaliação das métricas de sucesso de cada profissional.

A transição já começou
Um grande banco brasileiro resolveu investir pesa-
do em tecnologia para automatizar seus fluxos internos e
planejar estrategicamente o encaminhamento de centenas
de milhares de processos em estoque. Atualmente, robôs
varrem o site dos tribunais procurando novas ações e o
andamento dos casos já em tramitação. No caso de um
processo novo, uma vez identificado movimento, os dados
são automaticamente transpostos para campos específicos
no software de gestão de processos do departamento. Um
outro software de inteligência artificial, que trabalha com
reconhecimento de linguagem, lê o documento para identi-
ficar o tipo de ação, o pedido e os valores. Em seguida, faz
um cruzamento com as estatísticas daquele tipo de ação,
naquela cidade, naquele valor e aponta se faz mais sentido
oferecer um acordo ou contestar. Um advogado avalia a
sugestão do computador e, se concorda, por exemplo, em
contestar, o sistema já oferece uma peça pronta para revi-

137
JOTA
são, que é encaminhada para o correspondente.
Com o peticionamento eletrônico crescente, em pou-
co tempo as empresas poderão atuar até a fase da contes-
tação com robôs, na maior parte dos casos. Os escritórios
correspondentes poderão ser substituídos por audien-
cistas, que chegarão ao fórum com um briefing gerado
automaticamente pelo sistema. No futuro, quem sabe,
audiencistas internos de cada companhia se revezarão
em subsequentes audiências online sem levantar de suas
cadeiras.
Empresas e escritórios já têm à sua disposição ser-
viços – ainda caros e de entrega demorada – para mapear
a jurisprudência sobre um determinado assunto em todo o
país, com uma granularidade que vai do tribunal estadual
ou regional a uma vara específica de determinada comarca.
Departamentos jurídicos usam tecnologia semelhante em
seus próprios estoques para analisar quais bancas, contra-
tadas por eles, têm as maiores taxas de vitória, por assunto
ou região. No passado, uma empresa podia deixar os escri-
tórios experimentarem livremente com teses diferentes em
comarcas diversas para tratar de casos iguais e ver o que
emplacava melhor. Atualmente, a prática não é mais tão
recomendável, especialmente em contencioso de massa,
pela força que o novo Código de Processo Civil atribuiu
aos precedentes – que, aliás, devem ser monitorados.
O JOTA lança, com esta reportagem, um selo para
divulgação de cases relacionados à transformação da ati-
vidade em decorrência do avanço tecnológico. Vamos
contar histórias de departamentos jurídicos, escritórios,
novas empresas, gigantes da tecnologia, novos produ-

138 O futuro do Direito


tos, áreas de trabalho e perfis profissionais – sempre com
a tag inovação digital. Sugestões são bem-vindas (escre-
va para laura.diniz@jota.info) e serão avaliadas, jornalis-
ticamente, pelos editores do JOTA.
Conheça abaixo os dois primeiros cases da série.

Dados em tempo real


O Magazine Luiza, um dos maiores varejistas do
Brasil, decidiu abraçar a transformação digital. Todos os
departamentos da empresa estão se reestruturando para
aproveitar o que a tecnologia tem de melhor e, assim, se-
rem mais produtivos e eficientes. “Para acompanhar o mo-
vimento da companhia, buscamos colocar o departamento
jurídico em um patamar em que tenhamos uma área digital
com informações em tempo real”, afirma José Aparecido
dos Santos, diretor jurídico da empresa.
O departamento já contava com um sistema de acom-
panhamento de processos, mas dependia muito do Excel
para fazer relatórios sob demanda para questões específi-
cas. Na véspera das reuniões do board, por exemplo, um
integrante da equipe de Santos levava horas preparando o
material que o chefe apresentaria. Quando alguma questão
nova surgia no encontro, o diretor só tinha a experiência e
a memória como aliados.
O cenário mudou há cerca de três meses, quando co-
meçou a rodar nos computadores da companhia o siste-
ma desenvolvido pela startup Legal Insights, dos sócios
Marcos Speca e Eudis Lanconi. O software, disponível
139
JOTA
na nuvem para toda a equipe de Santos, funciona como
um  dashboard dinâmico do departamento – um bonito,
rápido e simplicíssimo de manusear dashboard. As aná-
lises são geradas a partir do banco de dados da própria
empresa, contido no software de gerenciamento de pro-
cessos. Hoje, Santos não prepara mais relatórios para as
reuniões. Checa os dados em tempo real e não fica mais
sem resposta para perguntas inesperadas.
Na tela inicial do programa, vê-se a quantidade de
processos, filtros por tipo de ação e região e análise de
risco para provisionamento (possível, provável, remoto).
Com poucos cliques, o usuário pode comparar a taxa de
sucesso para causas tributárias de dois escritórios de ci-
dades vizinhas. Se um vai bem melhor que o outro, fica
para o gestor a prerrogativa de dispensar um e ampliar o
contrato do outro. O usuário pode também, repita-se, com
facilidade, ver se um juiz decide as causas da empresa de
formas diferentes quando um ou outro escritório atua, por
exemplo. Isso, é claro, sem falar que se pode medir as te-
ses que mais emplacam e onde.
A Legal Insights tem menos de um ano de vida e
ainda está em processo de aceleração, dentro do Cam-
pus do Google. Os planos são ambiciosos – querem ter
mais dados de jurisprudência para oferecer aos clientes
um comparativo de seu desempenho – e a estratégia de
posicionamento é interessante. A empresa não concorre
com os softwares que toda companhia já tem para tratar
os processos, apenas se pluga neles para analisar os dados.
Ao fazer isso, o preço do serviço é inferior e a entrega de
resultados é rápida em comparação com algumas outras

140 O futuro do Direito


empresas do setor.
Segundo o diretor, apesar do pouco tempo de uso, a
ferramenta já ajudou o departamento a fazer um orçamen-
to mais assertivo e a definir as metas dos profissionais. No
futuro, a expectativa é que ela ajude a reduzir os custos do
setor.
O software também já proporciona ao departamento
mais dados para cooperar com outras áreas da companhia.
“Se o diretor de operações de lojas quer saber sobre as re-
clamações trabalhistas com as lojas da grande São Paulo,
nós passamos os detalhes na hora”, diz Santos. Se o jurídi-
co notar um aumento repentino de processos iguais, pode
atuar de forma mais ágil, em parceria com outro departa-
mento, para solucionar o problema que está originando as
ações.
Além disso, a ferramenta tem ajudado a companhia
a atuar em direção a um objetivo que lhe é caro: a desju-
dicialização. Para dar apoio ao jurídico, a Magazine Luiza
criou uma área de fidelização de clientes, com uma equipe
de doze pessoas, que conversa diretamente com os con-
sumidores e busca formas alternativas de resolução dos
conflitos. Com dados nas mãos, as decisões para optar por
acordos têm sido mais precisas. “Nós não queremos en-
contrar o cliente no fórum, mas nas nossas lojas”, diz Ri-
cardo Querino de Souza, gerente do departamento.

Advogado em um clique
Rogério Fontes de Resende, de 30 anos, é um advo-
141
JOTA
gado de uma família de advogados. Começou a carreira
trabalhando no negócio com o pai, que atendia sindicatos.
Resolvia pilhas e mais pilhas de casos com teses repetiti-
vas até que se cansou. Preparou, então, uma petição mo-
delo para cada tipo de caso e deu uma agilidade inédita
ao negócio familiar. Com a maquininha de preencher a
papelada funcionando, enfadou-se também com a labuta
de conseguir junto aos clientes os documentos para juntar
às peças. “Ah, seria tudo mais fácil se todo mundo me en-
viasse pelo celular”, pensou. Eureca. Era janeiro de 2017.
Resende deu adeus ao escritório do pai e se embre-
nhou no mundo do empreendedorismo. Conseguiu um in-
vestidor e montou o JusTap, aplicativo de contratação de
advogados em poucos cliques. Funciona assim: o usuário
tem um problema e entra no aplicativo para pesquisar se
cabe ação. O time de Resende incluiu no cardápio teses
com jurisprudência reconhecida em, ao menos, quatro tri-
bunais, para casos de Direito do Consumidor e alguns de
Direito Civil (em matérias bastante relacionadas ao dia
a dia das pessoas). Se o ocorrido rende ação, o sistema
diz para o usuário quais documentos ele precisa juntar na
inicial. Por exemplo, se houve extravio de bagagem, o
sistema aconselha o usuário a fotografar com o celular o
comprovante do despacho das malas, o bilhete aéreo e o
painel do aeroporto que comprova a chegada do avião. Em
seguida, ele faz upload de tudo para o aplicativo.
A sequência é uma tela com nomes de advogados da
mesma cidade do usuário, disponíveis para entrar com a
ação. O cidadão pode escolher o profissional por preço do
trabalho ou por nota, elaborada com base nas avaliações

142 O futuro do Direito


de outros usuários. Uma vez escolhido o advogado, todo
o material é enviado para ele pelo próprio sistema. Nesse
momento, um timer começa a funcionar e, se o profissio-
nal demorar a responder, pode ser mal avaliado. Caso o
profissional aceite o trabalho, eles só precisam se encon-
trar para assinar a procuração – ou o cliente pode mandar o
documento via motoboy. “Todo o processo de contratação
dura menos de cinco minutos. É como ter um advogado a
seu lado”, diz Resende. Quando o profissional protocola a
inicial, cadastra o número no aplicativo, para que o cliente
possa checar e garantir que o trabalho foi feito.
Disponível nas lojas digitais desde fevereiro, o sof-
tware já teve mais de 5.300 downloads. Cerca de 400 ad-
vogados estão cadastrados, nas capitais São Paulo, Rio de
Janeiro e Brasília. Para abrir seu escritório no JusTap, cada
um deles mandou número da OAB (que a equipe certifi-
ca), cópia do RG e do CPF, um comprovante de residên-
cia e dados bancários. Três advogados foram efetivamente
contratados. Para cada negócio fechado, a JusTap recebe
R$ 150 – e 1% do valor vai para a administradora de car-
tão de crédito.
A maior parte do público tem entre 20 e 35 anos e
pertence às classes A e B. “São pessoas que conhecem ad-
vogados, mas não querem pedir favor ou tem preguiça da
burocracia de contratar um advogado”, afirma o empresá-
rio. Os advogados, segundo Resende, têm perfil parecido.
Perguntado sobre o potencial de o aplicativo estimu-
lar a judicialização, a despeito da saturação do Judiciário
e de todos os esforços das instituições em prol das formas
alternativas de resolução de conflito, o empresário tem
143
JOTA
a resposta na ponta da língua: “Se uma empresa age em
desacordo com a jurisprudência consolidada, tem que ser
punida para aprender a respeitar o cidadão.”.
Entre os planos para o futuro próximo, está o desen-
volvimento da área trabalhista do aplicativo.

Texto publicado em 27/05/2017

144 O futuro do Direito


Advogados não serão substituídos pela
tecnologia
Em evento de lançamento da AB2L, debatedores apon-
taram lawtechs como aliadas dos escritórios

Kalleo Coura, editor do JOTA

A tecnologia aplicada ao Direito é um caminho


sem volta e quem ignorar isto será atropelado pela nova
realidade. Por outro lado, o papel interpretativo desempe-
nhado por advogados e outros operadores do Direito não
será substituído por máquinas ou robôs.
Em linhas gerais, essas foram algumas das conclu-
sões a que chegaram os debatedores do evento “Direito na
Tecnologia e Tecnologia no Direito”, realizado no Insper,
com um auditório lotado. O evento também marcou o lan-
çamento da Associação Brasileira de lawtechs e legalte-
chs (AB2L), da qual o JOTA é um dos fundadores.
Participaram da primeira mesa, “Direito na Tecno-
logia”, o advogado Erik Fontenele Nybø, gerente Jurídi-
145
JOTA
co Global da Easy Taxi, Flávio Franco, diretor jurídico da
Netshoes, e os advogados Renato Opice Blum e Álvaro
Uliani.
Opice Blum trouxe dados alarmantes sobre a tecno-
logia. Segundo o advogado, metade das atividades huma-
nas em geral poderiam ser substituídas por máquinas e,
em 2029, 70% delas já terão sido trocadas por robôs e sof-
twares. “As atividades exatas, não tem jeito, serão substi-
tuídas, inclusive as atividades repetitivas da área jurídica.
Porém, nossa área será uma das menos afetadas”, afirma
Opice Blum. “A utilização do big data legal é importante,
mas a interpretação vai ficar com advogados e chief com-
pliance officers.”
Flávio Franco, da Netshoes, concorda com a análise.
“Enquanto o advogado for visto como um facilitador de
negócios, não vai faltar oportunidade para a gente. Agora,
quando nos transformamos em carimbadores, é hora de
nos preocuparmos”, diz.
Álvaro Uliani, sócio do Pinheiro Neto Advogados,
contou o que o escritório busca em termos de tecnologia para
aprimorar o trabalho dos advogados, como ferramentas que
auxiliem na análise e filtragem de inúmeros documentos
de fusões e aquisições e o levantamento de informações
sobre precedentes judiciais.
“Todo escritório tem um grande repositório de mi-
nutas de contratos e precedentes, mas uma vez arquiva-
do recebe um número no rodapé e é muito difícil de re-
cuperá-los de uma forma útil. Depende da lembrança de
alguém”, conta o advogado. “Imaginamos que, com uma

146 O futuro do Direito


ferramenta que faça isso de forma rápida, teremos muito
a ganhar”, diz.

Tecnologia no Direito
A segunda mesa foi composta por Bruno Feigelson,
criador da startup Sem Processo, Rafael Heringer, do Ju-
rídico Certo, Gabriel Senra, da Linte, e Matheus Bombig,
da Invenis.
Segundo os debatedores, ainda há um certo ranço em
escritórios em relação à tecnologia. “Hoje você não entra
num banco em que o diretor não saiba o que é uma FinTe-
ch. No Direito ainda não é bem assim”, afirmou.
Gabriel Senra, da Linte, complementa: “há uma ne-
cessidade de mudança de ação e de postura em relação
às  lawtechs. Do lado dos escritórios, o principal entra-
ve é o mindset na contratação. O advogado espera algo
personalizado, integrado.”
O fato de o sistema judiciário brasileiro ter dados em
imenso volume, mas muito desestruturados, na visão de
Senra, é uma imensa oportunidade para quem deseja em-
preender. Para os interessados nesta intersecção do Direito
e Tecnologia, Senra também recomendou que assistissem
à conferência da Universidade de Stanford intitulada “The
State of Art of Legal Technology”.
Para Rafael Heringer, as lawtechs e legalte-
chs podem aprimorar o trabalho do advogado, que por
desempenhar uma função essencial para a Justiça, não

147
JOTA
irá acabar nunca. Uma de suas preocupações, contudo,
é em relação à regulação. “É um retrocesso olhar para o
setor e querer regular tudo. Não é possível imaginar que o
advogado não possa estar na internet recebendo clientes.
Todo mundo está no Google”, diz Heringer, cuja startup se
propõe a conectar advogados correspondentes a escritórios
e clientes.

Texto publicado em 07/06/2017

148 O futuro do Direito


Empreendedorismo e Direito
Em 2015, 105 mil bacharéis entraram no mercado, o
equivalente à soma de engenheiros e arquitetos

Ricardo Fernandes Paixão, doutor em administração pela FEA USP,


MBA pelo INSEAD e professor na Faculdade de Direito da UnB

Henrique Araújo Costa, advogado, doutor em direito pela PUC SP e


professor na Faculdade de Direito da UnB

E m 2010 [1] o número de novos estudantes de Di-


reito nos EUA chegou ao ponto máximo de 52 mil. De lá
para cá os números caíram para 37 mil. Por que os nú-
meros estão caindo se firmas prestigiosas de Wall Street
como a Cravath Swaine & Moore aumentaram o salário
de associados de primeiro ano para espetaculares US$ 180
mil por ano (R$ 561.998 ou R$ 47 mil por mês), confor-
me lembrou, indignado, um dos leitores de nossa coluna
anterior?
A explicação, elaborada na coluna anterior, é uma
mudança estrutural no mercado de serviços jurídicos. Des-

149
JOTA
de a crise de 2008, as empresas cortaram custos, o que fez
com que o trabalho realizado por jovens advogados, como
pesquisas jurisprudenciais e elaboração de documentos
simples, fosse terceirizado para países como a Índia ou
mesmo automatizado.
O aumento na concorrência levou várias faculdades
a uma guerra criativa para atrair candidatos. Além de acei-
tar novos testes de entrada como o GRE, Harvard e outras
também oferecem a possibilidade de dupla titulação MBA
e Direito. Outras oferecem prática jurídica em grandes ci-
dades americanas e praticamente todas oferecem cursos
de empreendedorismo.
Uma busca no Google dos termos “law and entrepre-
neurship” produziu 87,5 milhões de resultados, sendo que
as primeiras páginas estão repletas de ofertas sobre Direito
e Empreendedorismo por universidades como Columbia,
Michigan, Pepperdine, UPen, Chicago e até Harvard.
No Brasil, a oferta de cursos de Direito e Empreen-
dedorismo é bem mais tímida, mas a necessidade é maior.
Com 853.211 estudantes em 1.172 cursos, Direito é a op-
ção de ensino superior mais popular do país. Em 2015,
105.324 novos bacharéis entraram no mercado, número
equivalente à soma de todos os engenheiros e arquitetos
formados naquele ano [2].
Buscando sanar essa lacuna criamos um curso ex-
perimental de Direito e Empreendedorismo na Faculdade
de Direito da UnB. A ementa (sempre em construção) da
disciplina pode ser encontrada no link abaixo [3].

150 O futuro do Direito


Montamos um curso estruturado em dois eixos: teó-
rico, onde são apresentados estudos de casos de empre-
sas que estão inovando o mercado jurídico (escritórios de
advocacia, grandes empresas, startups) e prático, onde os
alunos são desafiados a elaborar um projeto de um negó-
cio jurídico inovador (uma legaltech).
No eixo teórico discutiremos:
1-) A abordagem da Glaxo Smith Kline para compra
de serviços jurídicos [4]. A grande multinacional prati-
camente aboliu cobrança por hora trabalhada. A empre-
sa centralizou todas as compras de serviços jurídicos, usa
acordos alternativos de cobrança (alternative fee arrange-
ments) em 84% de seus projetos [5] e a quase totalidade
dos serviços jurídicos externos são adquiridos por meio
de um leilão reverso similar ao pregão eletrônico utilizado
pelo governo para adquirir produtos e serviços comuns.
2-) O caso do escritório americano Seyfarth Shaw
que adotou para seus processos internos a metodologia
Seis Sigma, uma técnica de padronização de processos
usualmente utilizada em manufatura e divulgada pelo ex-
-CEO da GE Jack Welsh [6]. Quando o Seyfarth começou
a utilizar padronização de processos em 2005 poucas em-
presas consideravam que essa abordagem funcionaria em
serviços complexos como os serviços jurídicos. A aborda-
gem teve tanto sucesso que o escritório criou uma consul-
toria própria para implementar a metodologia em clientes
externos [7].
3-) Após discutir sobre um grande consumidor de
serviços jurídicos e um grande fornecedor passamos aos
151
JOTA
novos entrantes. O primeiro deles é a Axiom Law, uma
firma americana de serviços jurídicos extremamente pecu-
liar [8]: tem investimentos de capital de risco na socieda-
de, tem estrutura societária corporativa, faz uso intensivo
de tecnologia, tem centros de prestação de serviços na Eu-
ropa e na Índia e cresce anualmente a 25%.
4-) O próximo entrante é a Riverview Law, uma fir-
ma britânica que surgiu de uma agência de recursos hu-
manos após a liberação do mercado jurídico britânico para
não advogados em 2007 [9]. De maneira similar à Axiom,
a Riverview faz uso intensivo de tecnologia para oferecer
serviços a preço fixo para seus clientes.
5-) Após tratar de duas empresas com forte viés tec-
nológico passamos à Paragon Legal [10], um novo entran-
te cuja característica diferencial não é tecnologia, proces-
so nem gestão, mas uma abordagem que leva em conta o
estilo de vida da advogada. Fundada em 2006 pela advo-
gada Mae O’Malley em San Francisco, a Paragon tem a
maioria de seus empregados composta por mulheres com
filhos. As inovações introduzidas por essa firma que aten-
de algumas das principais empresas de tecnologia do mun-
do, como Google e Oracle, é introduzir flexibilidade sem
comprometer a excelência.
No eixo prático do curso os alunos (não só de Direi-
to, mas também de Administração, Engenharia de Produ-
ção, Engenharia Mecânica, Engenharia de Computação e
Engenharia de Software) são desafiados, em grupos mul-
tidisciplinares, a elaborar um projeto de serviço jurídico
inovador (uma legaltech) até o estágio de MVP (minimum
viable product).

152 O futuro do Direito


Nas próximas colunas falaremos mais do curso e
deixamos aqui o apelo aos colegas professores que com-
partilhem sua experiência com cursos de empreendedoris-
mo jurídico. Temos muito interesse em dividir essas expe-
riências com os leitores da coluna.

Texto publicado em 07/04/2017

[1]  https://www.ft.com/content/4ddb437e-9ace-11e6-8f9b-70e-
3cabccfae

[2]  https://jota.info/carreira/brasil-o-pais-dos-bachareis-um-em-
-cada-dez-universitarios-estuda-direito-18102016

[3]  https://drive.google.com/file/d/0B5-y3zGawkIMREpGSU-
thWDVlMVE/view?usp=sharing

[4] GARDNER, Heidi K.; SILVERSTEIN, Silvia Hodges. Gla-


xoSmithKline: Sourcing Complex Professional Services. Harvard Bu-
siness School, 2016.

[5]  http://www.jdjournal.com/2016/12/16/glaxosmithkline-
-says-no-to-billable-hours/

[6] ROHRER, Lisa; DEHORATIUS, Nicole. SeyfarthLean:


Transforming Legal Service Delivery at Seyfarth Shaw. Harvard Law
School, 2015.

[7] http://slc.seyfarth.com

[8] CONSTANTINI, James. Axiom – Law Redefined: Innova-


tion in Legal Services.

[9] GARDNER, Heidi K.; SILVERSTEIN, Silvia Hodges. Ri-

153
JOTA
verview Law: Apllying Business Sense to the Legal Market. Harvard
Business School, 2014.

[10] SOULE, Sarah A.; CORRELL, Shelley J.; SCHIFRIN, De-


bra. Paragon Legal: A New Model. Harvard Business School/Stanford,
2012.

154 O futuro do Direito


Fundo de Investimento de Advogados
em lawtechs
4 cenários possíveis para o futuro do mercado jurídico
brasileiro

Bruno Feigelson, sócio do escritório Lima ≡ Feigelson Advogados,


CEO do Sem Processo e presidente da Associação Brasileira de lawte-
chs e legaltechs (AB2L)

N o dia 06 de junho de 2017, junto com aproxi-


madamente 1.000 indivíduos – em sua maioria membros
de grandes bancas e departamentos jurídicos das maiores
empresas do país –, no Insper, fundamos oficialmente uma
entidade que vai ter papel fundamental no futuro do mer-
cado jurídico brasileiro.
A AB2L – Associação Brasileira de lawtechs e le-
galtechs –, nasce congregando mais de 30 empresas
de tecnologias que ambicionam resolver problemas
relevantes do mercado jurídico. Na reunião interna
que precedeu o evento, ficou decidido que o ingresso
de advogados individuais, escritórios e empresas será
155
JOTA
fundamental para o melhor andamento da instituição. Em
breve, o site da AB2L apresentará informações a respeito
dos mecanismos de inscrições dos interessados.
Além disso, diante do grande número de aproxima-
ções feitas por advogados interessados em investir em tais
empresas, passamos a desenvolver uma nova iniciativa
muito relevante. Trata-se da construção de fundo de inves-
timento destinado exclusivamente ao setor das lawtechs.
O conceito é criar uma rede de profissionais bem coloca-
dos que além de contribuírem com relacionamento, conce-
dam combustível financeiro para que pequenas empresas
nascentes se tornem gigantes.
Só para ter uma dimensão do mercado, nos Esta-
dos Unidos, em 4 anos, o valor de investimento em law-
techs duplicou, e o número de deals triplicou. Assim,
somente em 2016, 67 deals foram concretizados e U$ 155
milhões investidos. Aproximadamente meio bilhão de
reais em apostas no futuro do mercado jurídico!
Diante disso, listo abaixo 4 cenários possíveis para o
futuro do mercado jurídico brasileiro, partindo da premis-
sa básica de que tal segmento será completamente alterado
por conta de plataformas tecnológicas nos próximos anos.
1º Cenário – Uso de tecnologia estrangeira (o pior
cenário).
Fundamento: O ecossistema de lawtechs brasileiro
não possui capacidade técnica e financeira para criar boas
empresas de tecnologia focadas no mercado jurídico.
Os mercados norte-americano e europeu evoluem

156 O futuro do Direito


rapidamente, o Brasil é visto como um mercado potencial
a ser explorado, sem chances para sobreviventes...
Futuro: Escritórios travam batalhas para impedir a
entrada das lawtechs estrangeiras não tendo muito sucesso.
Não acredito que seja possível criar a barreira normativa da
mesma forma que se fez em relação aos grandes escritórios
estrangeiros no passado. A tecnologia já demonstrou que
vence, mais cedo ou mais tarde, qualquer tipo de barreira
(vide: Napster e Spotify).
2º Cenário – As lawtechs crescem alheias ao mercado
existente (não acredito, diante do grande interesse de
grandes escritórios já demonstrado pelas lawtechs).
Fundamento: Escritórios e grandes profissionais do
mercado ficam alheios ao movimento crescente,  lawte-
chs se estruturam de forma independente com recursos
típicos de VCs, progressivamente comem mercados.
Futuro: Escritórios travam batalhas para impe-
dir a entrada das lawTechs nacionais não tendo muito
sucesso. Não acredito que seja possível criar a barreira da
mesma forma que taxistas não conseguiram barrar o Uber
(apesar dos advogados serem muito mais fortes, e terem a
capacidade de fazerem uma carnificina no mercado de law-
techs nacional). Se isso ocorrer, acredito que seguimos
novamente para o 1º Cenário. O espaço deixado no oceano
é ocupado por lawtechs estrangeiras. A tecnologia já
demonstrou que vence, mais cedo ou mais tarde, qualquer
tipo de barreira (vide: Napster e Spotify).
3º Cenário – Os escritórios compram suas lawte-

157
JOTA
chs (acho que esse cenário pode existir inicialmente, mas
ele acaba por se tornar o 1º Cenário em pouco tempo).
Fundamento: Grandes bancas começam a comprar
a integralidade de lawtechs ou participações com grande
controle. As lawtechs passam a ser parte dos grandes
escritórios (teria que vencer uma barreira normativa
existente), e estes passam as defender suas lawtechs como
parte do time.
Futuro: A maior parte das lawtechs acaba sendo
replicada pelo número de escritórios disponíveis a entrar
na briga. Os mercados passam a ser limitados para as law-
techs. Empresas clientes de escritórios “concorrentes” são
bloqueadas. Apesar dos escritórios tentarem se adaptar
aos novos tempos, não possuem a agilidade e liberdade
de criação. Empreendedores de lawtechs que no momento
um foram seduzidos pela estrutura, recursos financeiros e
até bônus no ato de “venda” passam a ficar insatisfeitos.
Partem para outras e deixam as empresas sem liderança.
Não há carnificina, mas não há inovação. Mais uma vez,
se isso ocorrer, acredito que seguimos novamente para o
1º Cenário.
4º Cenário – Criação de um Fundo de Advogados fo-
cado em investir em lawtechs (aproveita-se a mentoria e a
rede de relacionamento dos grandes advogados atuais e se
mantém a liberdade de criação e expansão das lawtechs).
Fundamento: Os profissionais de escritórios e de-
partamentos jurídicos, mais antenados com as mudanças,
e com uma perspectiva mais colaborativa, acreditam em
uma nova instituição apta a contribuir com as lawtechs.

158 O futuro do Direito


Futuro: Há grande sinergia entre grandes profissio-
nais do mercado jurídico atual e empreendedores de law-
techs. Mentoria + Relacionamento + Recursos Financeiros
adequados + Boas ideias + Bons empreendedores = lawte-
chs brasileiras bem-sucedidas. O mercado brasileiro, diante
de suas particularidades, oportuniza o desenvolvimento de
grandes soluções tecnológicas. O mercado brasileiro passa
a ser pequeno para o Fundo e suas empresas, o Brasil passa
a ter a oportunidade de brigar em nível mundial. Acionistas
ricos e seguros no futuro tecnológico.

Texto publicado em 16/06/2017

159
JOTA
Inovação e a velha crise do ensino jurí-
dico
Rafael Bellem de Lima

Pesquisador do Insper, doutorando em Direito Público e Teoria do


Direito pela Universidade de Kiel (Alemanha) e pela Universidade de
São Paulo (USP), mestre em Direito do Estado e bacharel em Direito
pela USP

A discussão sobre a crise do ensino jurídico não


é nova. Embora as mudanças estruturais na sociedade –
cada vez mais funcionalmente diferenciada, horizontal e
complexa – e o desenvolvimento de novas tecnologias
sejam fenômenos relativamente recentes, as críticas ao
descompasso entre o que é ensinado nas faculdades e os
problemas enfrentados pelos profissionais do direito são
muito mais antigas.
Na aula inaugural dos cursos da Faculdade Nacio-
nal de Direito, em 1955, San Tiago Dantas defendeu a
necessidade de uma inversão metodológica para melhor
formar juristas para as tarefas da vida profissional. Ao in-

160 O futuro do Direito


vés de apresentar aos estudantes um conjunto de normas,
institutos e classificações sistemáticas, partindo da falsa
suposição de que quem os conhecesse conseguiria “com
seus próprios meios, com a lógica natural do seu espírito,
raciocinar em face das controvérsias” [1], o ensino jurídi-
co brasileiro deveria voltar o seu foco para o estudo das
controvérsias e dos conflitos de interesse em busca de so-
lução.
A distância entre a prática profissional e o conteúdo
ministrado nos cursos de Direito também foi duramente
criticada por Alfredo Lamy Filho. Ao traçar um panorama
do ensino jurídico no Brasil, em 1972, ele retratou “uma
grande procissão de queixas” [2], que unia, de um lado,
alunos desinteressados no aprendizado que não os prepa-
rava o desempenho da profissão e, do outro, professores
sem estímulo e obrigados a cumprir um currículo obriga-
tório excessivamente abrangente. O produto dessa equa-
ção era desalentador:
“Como resultado, alguns estudantes procuram, desde
logo, nos escritórios de advocacia o contato com a realida-
de forense que lhes possa trazer uma compreensão do Di-
reito, e um adestramento profissional que não encontram
nos bancos escolares, sacrifício do tempo que deveriam
dedicar ao estudo; outros se desinteressam da carreira, e
buscam caminhos diferentes; e a grande maioria passiva,
queixosa e ressentida, segue sem estímulo a marcha do
currículo tradicionalmente consagrado, assistindo às au-
las-doutas em busca de frequência ou pela satisfação de
ouvir alguns professores mais brilhantes – reservando-se
para o estudo apressado, às vésperas de provas ou exame,

161
JOTA
através de apostilas deficientes ou poucos livros didáti-
cos.” [3].
Após quase meio século, a descrição acima mantém
a atualidade. Com raras e honrosas exceções, a maioria
dos cursos jurídicos brasileiros é marcada por uma forte
pretensão enciclopédica. Por meio de disciplinas dedica-
das quase exclusivamente à apresentação de institutos ju-
rídicos, conceitos dogmáticos e um sem número de dispo-
sitivos normativos, programas curriculares praticamente
idênticos aparentam perseguir a meta inatingível de, em
cinco anos, exaurir toda a matéria regulada pelo Direito.
Se na década de 70, Lamy Filho já considerava “impossí-
vel, hoje, pretender-se transmitir tudo em todos os ramos
do Direito a todos os alunos” [4], uma empreitada deste
tipo mostra-se ainda mais impraticável nos dias de hoje,
marcados pela globalização, crescente especialização e hi-
per-regulação.
Atualmente, contudo, a situação parece ser ainda
mais grave. Aos já numerosos semestres de direito consti-
tucional, civil, penal, comercial, administrativo, tributário,
processo civil, processo penal e direito do trabalho, soma-
ram-se disciplinas de direito internacional, previdenciário,
ambiental, eleitoral, financeiro e econômico. Em alguns
currículos há espaço, ainda, para cursos obrigatórios de
direito municipal, urbanístico, biodireito, direito do con-
sumidor, direitos da criança e do adolescentes e direitos
difusos. Isso sem falar nas disciplinas voltadas a outras
áreas do conhecimento, como sociologia, economia, con-
tabilidade ou teoria política, que geralmente integram os
primeiros anos do curso e, sem a devida integração com

162 O futuro do Direito


problemas jurídicos, acabam sendo percebidas como pou-
co importantes pelos alunos. As matrizes curriculares são
gigantescas, com alunos chegando a cursar obrigatoria-
mente até dez disciplinas por semestre, na maior parte das
vezes, em concomitância com o estágio ou outra atividade
profissional.
O problema, por óbvio, não está na incorporação de
novos temas e conteúdos à grade obrigatória das faculda-
des de Direito, mas na lógica subjacente a estes proces-
sos de atualização. Em geral, as novas matérias replicam
a estrutura das disciplinas tradicionais: ocupam-se funda-
mentalmente da análise de atos normativos e da exposição
pouco crítica de posições doutrinárias, construções dog-
máticas e, mais recentemente, de algumas orientações ju-
risprudenciais. Embora discussões e projetos de reformas
curriculares sejam recorrentes, a distância entre o que é
ensinado nas faculdades de direito, a prática profissional e,
sobretudo, o que é necessário para solucionar as importan-
tes questões que o Direito regula é cada vez maior.
Num momento em que se discute intensamente o fu-
turo do Direito em face de mudanças sociais e inovações
tecnológicas, é importante ter em mente que a simples
incorporação de novas disciplinas aos currículos – como
Direito Digital, Direito das Startups, ou Direito da Inteli-
gência Artificial – pouco contribuirá para tornar o ensino
jurídico brasileiro mais atual. Embora propostas em mea-
dos do século passado, as quatro ideias centrais de San
Tiago Dantas e Alfredo Lamy Filho mostram-se muito
mais valiosas para este importante propósito do que o ten-
tador impulso de criar “novos ramos do Direito”. São elas:

163
JOTA
- Ensino voltado para o raciocínio jurídico, com ên-
fase no exame e solução de controvérsias, e não no estudo
expositivo de conceitos, doutrina e atos normativos.
- Substituição de parte da carga horária dedicada
às aulas expositivas por atividades que demandem maior
preparação prévia e estimulem o engajamento dos alunos.
- Abandono da pretensão enciclopédica dos currícu-
los, que deveriam cuidar dos pontos fundamentais, sem a
preocupação de exaurir toda matéria.
- Possibilidade de especialização conforme a voca-
ção e o interesse dos alunos.
Esses princípios estão em consonância com os pro-
gramas das universidades estrangeiras mais reconhecidas
e com métodos de aprendizagem experimental e aprendi-
zagem baseada em problemas, que têm orientado as prin-
cipais inovações no ensino jurídico. Foi com base na ideia
de que advogados não estudam Direito para dar palestras
aos clientes sobre os seus direitos, que a Universidade
Harvard, por exemplo, passou a exigir que seus alunos de
primeiro ano participassem de uma oficina de resolução
de problemas, voltada a “sensibilizar os estudantes para
o amplo conjunto de ferramentas existentes para ajudar
clientes a solucionar os seus problemas de forma ética e
bem-sucedida.” [5].
A agenda não é simples, sobretudo diante da quanti-
dade gigantesca de cursos jurídicos no país e dos interes-
ses que levaram à sua profusão exponencial nas últimas
décadas. É inegável, contudo, que as ideias já cinquente-

164 O futuro do Direito


nárias de San Tiago Dantas e Alfredo Lamy Filho ainda
se mostram extremamente pertinentes, atuais e necessá-
rias para a discussão sobre o futuro do ensino do jurídico
no Brasil. Iniciativas corajosas e bem-sucedidas têm sido
observadas nas últimas décadas, seja por meio de discipli-
nas regulares, atividades de extensão e grupos de pesquisa
em cursos já tradicionais e estabelecidos, como também
no desenvolvimento de novos projetos ambiciosos e com-
pletamente direcionados à transformação do ensino jurídi-
co – e aqui a menção às Escolas de Direito da Fundação
Getúlio Vargas no Rio e em São Paulo é obrigatória. Os
esforços são louváveis e necessários, mas ainda esparsos
diante da triste realidade do ensino jurídico no país. Há
espaço e demanda para muito mais.

Texto inédito para este eBook

[1] San Tiago Dantas, “A educação jurídica e a crise brasileira”,


Revista Forense, 1955, p. 453.

[2] Alfredo Lamy Filho, “A Crise do Ensino Jurídico e a Expe-


riência do CEPED”. Cadernos FGV Direito Rio, p. 4.

[3] Alfredo Lamy Filho, “A Crise do Ensino Jurídico e a Expe-


riência do CEPED”. Cadernos FGV Direito Rio, p. 4.

[4] Alfredo Lamy Filho, “A Crise do Ensino Jurídico e a Expe-


riência do CEPED”. Cadernos FGV Direito Rio, p. 9.

[5] Joseph William Singer & Todd D. Rakoff, “Problem Solving


for First-Year Law Students”, Elon Law Review, 2015, p. 421.

165
JOTA