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Texto 14:
As diferentes formas de administração do processo de trabalho no
Capitalismo moderno

A acumulação primitiva do capital


A estrutura econômica da sociedade capitalista originou-se da acumulação primitiva do
capital ainda na estrutura econômica da sociedade feudal, anterior, portanto, à acumulação
capitalista, como resultado de “processos idílicos” (aventureiros), sobretudo violentos, de
obtenção de riquezas.
As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações
indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das
Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os
acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista. Esses processos
idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva. Logo segue a guerra comercial
entre as nações européias, tendo o mundo por palco. Inicia-se com a revolução dos Países
Baixos contra a Espanha, assume enormes dimensões com a guerra antijacobina da Inglaterra,
prossegue com a guerra do ópio contra a China etc.

Os diferentes meios propulsores da acumulação primitiva se repartem numa ordem mais ou


menos cronológica por diferentes países, principalmente Espanha, Portugal, Holanda, França
e Inglaterra. Na Inglaterra, nos fins do século XVII, são coordenados através de vários sistemas:
o colonial, o das dívidas públicas, o moderno regime tributário e o protecionismo. Esses
métodos se baseiam em parte na violência mais brutal, como é o caso do sistema colonial. Mas,
todos eles utilizavam o poder do estado, a força concentrada e organizada da sociedade para
ativar artificialmente o processo de transformação do modo feudal de produção no modo
capitalista, abreviando assim as etapas de transição. A força o parteiro de toda sociedade velha
que traz uma nova em suas entranhas. Ela mesma é uma potência econômica. (MARX, 1971, p.
868-869)

Max Weber também se refere aos processos de acumulação da riqueza anteriores ao


capitalismo moderno que caracterizaram as formas de capitalismo irracional. Dentre esses
processos,
[...] a ocupação e exploração de grandes regiões fora da Europa. As aquisições coloniais dos
Estados europeus deram lugar, em todos eles, a uma gigantesca acumulação de riquezas
dentro da Europa. O meio empregado para este acúmulo de riquezas foi o monopólio dos
produtos coloniais, as possibilidades de colocação nas colônias, isto é, o direito de transportar-
lhes as mercadorias, e, finalmente, as oportunidades de ganho que oferecia o transporte,
mesmo entre a metrópole e as colônias, tal como foram asseguradas pela Ata de Navegação
Inglesa, de 1651. Tal acumulação de riquezas ficou garantida, sem exceção, por todos os países,
mediante o exercício do poder, o que se revestiu de várias formas, isto é, o Estado tirava das
colônias lucros imediatos; administrando diretamente suas riquezas, ou cedendo-as a
determinadas sociedades, em troca de certos pagamentos. (WEBER, 1980, p. 136)
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Assim, se a acumulação primitiva do capital foi obtida mediante atividades aventureiras,


como, por exemplo, as grandes navegações que permitiram a colonização, e/ou sobretudo
mediante a violência cristalizada na escravidão e no extermínio dos povos indígenas, a
acumulação do capital nas sociedades modernas resulta tão-somente da eficácia e eficiência da
administração empresarial, isto é, da capacidade de explorar ao máximo, racionalmente, todos os
recursos e/ou meios e/ou fatores da produção. Resulta, portanto, da organização racional do
trabalho no interior das empresas, do cálculo econômico permanente e da análise racional,
probabilística em termos matemáticos, dos mercados nacionais e internacionais, frutos de
múltiplas determinações: econômicas, políticas, sociais, culturais, universais.
Neste capítulo, a atenção se volta para as implicações sociais e humanas do processo de
racionalização do interior das empresas, isto é, das diferentes formas de organização racional do
processo de trabalho que marcaram o século XX e determinaram, em grande parte, os mercados
de trabalho.

A divisão tecnológica do trabalho


A primeira expressão da racionalização do interior das empresas industriais foi a divisão do
processo de trabalho em operações especializadas atribuídas a diferentes trabalhadores, já no
século XVIII, conforme nos demonstrou Adam Smith em A Riqueza das Nações.
Um homem estica o arame, outro o retifica e um terceiro o corta; um quarto faz a ponta e um
quinto prepara o topo para receber a cabeça; a cabeça exige duas ou três operações distintas:
colocá-la é uma função peculiar, branquear os alfinetes é outra e até alinhá-los num papel é
uma coisa separada: e o importante na fabricação de um alfinete é deste modo dividido em
cerca de dezoito operações que, em algumas fábricas, são executadas por mãos diferentes,
embora em outras o mesmo homem às vezes execute duas ou três delas. (SMITH, 1937, p. 4-
5)

Os efeitos econômicos altamente positivos da divisão do trabalho, isto é, o aumento da


produtividade do trabalho, devem-se, segundo Adam Smith, a três diferentes circunstâncias:
Este grande aumento na quantidade de trabalho que, em consequência da divisão do trabalho,
o mesmo número de pessoas é capaz de executar, deve-se a três diferentes circunstâncias:
primeira, ao aumento da destreza de cada trabalhador individualmente; segunda, à economia
de tempo que em geral se perde passando de uma espécie de trabalho a outra; e, finalmente, à
invenção de grande número de máquinas que facilitam e abreviam o trabalho, e permitem que
um homem faça o trabalho de muitos. (SMITH, 1937, p. 7)

Ao longo do século XIX, a divisão do processo de trabalho acentuou-se e foi por Marx
denominada divisão tecnológica do trabalho por conformar-se às exigências da introdução de
novos instrumentais de trabalho, isto é, às exigências de um sistema de máquinas que, ao
desenvolver-se, propiciou uma total reorganização do interior da fábrica.
No entanto, até o final daquele século o trabalho industrial ainda era realizado por operários
profissionais, conhecedores da matéria-prima e de todas as etapas de sua transformação num
produto final. Seu conhecimento advinha da experiência vivida no chão da fábrica e lhes garantia
autonomia profissional. Dada a inexistência de uma programação da produção, predominava a
organização autônoma do trabalho do operário profissional ou qualificado, que Alain Touraine,
sociólogo francês, qualificou de Sistema Profissional ou Fase A do processo de organização e de
qualificação do trabalho. A qualificação do operário é, sobretudo, indicada por seu poder de
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comando e decisão sobre o próprio trabalho a partir do conhecimento da totalidade do processo


produtivo.
Esta independência, essa liberdade profissional do operário em relação à empresa que o
emprega é inseparável da unidade profissional das categorias operárias, num ofício
determinado, unidade fundada na sucessão hierarquizada de níveis de aprendizagem e
decisão. (TOURAINE, 1973, p. 449)

Nesta fase, a divisão tecnológica do trabalho, em estágio pouco avançado, preservava o


trabalho profissional altamente qualificado.

Taylorismo e fordismo
Porém, nas últimas décadas do século XIX, Frederick Taylor, engenheiro norte-americano,
desenvolveu um novo método de organização do processo de trabalho industrial, apresentado em
sua obra Princípios de Administração Científica, publicada em 1911, com a qual ficou conhecido
como o pai da administração científica, também denominada taylorismo, para aumentar o volume
de produção, a fim de atender à demanda crescente pela conquista de novos mercados e
“assegurar o máximo de prosperidade ao patrão e, ao mesmo tempo, o máximo de prosperidade
ao empregado.” (TAYLOR, 1966, p. 29), sendo esse o principal objetivo da administração.
O ponto de partida da obra de Taylor é a sua constatação de que o trabalhador é, por
princípio e definição, vadio, trabalhando muito menos do que é fisicamente capaz, tal como afirma
nessa passagem extravagante que, com certeza, a todos atordoa já pelo título “Vadiagem no
Trabalho”:
Os ingleses e americanos são os povos mais amigos dos esportes. Sempre que um americano
joga basquetebol ou um inglês joga cricket, pode-se dizer que eles se esforçam, por todos os
meios, para assegurar a vitória à sua equipe. Fazem tudo a seu alcance para conseguir o maior
número possível de pontos. O sentimento de grupo é tão forte que, se algum homem deixa de
dar tudo de que é capaz no jogo, é considerado traidor e tratado com desprezo pelos
companheiros.

Contudo, o trabalhador vem ao serviço, no dia seguinte, e em vez de empregar todo o seu
esforço para produzir a maior soma possível de trabalho, quase sempre procura fazer menos
do que pode realmente – e produz muito menos do que é capaz; na maior parte dos casos, não
mais do que um terço ou metade dum dia de trabalho, é eficientemente preenchido. E, de fato,
se ele se interessasse por produzir maior quantidade, seria perseguido por seus companheiros
de oficina, com mais veemência, do que se tivesse revelado um traidor no jogo. Trabalhar
menos, isto é, trabalhar deliberadamente devagar, de modo a evitar a realização de toda a
tarefa diária, fazer cera, [...] é o que está generalizado nas indústrias e, principalmente, em
grande escala, nas empresas de construção. (TAYLOR, 1966, p. 32)

Essa citação inicial é bastante esclarecedora da intenção única de Taylor que é a de


encontrar resposta à pergunta fundamental tanto para o capitalista quanto para o seu preposto:
como fazer o trabalhador trabalhar mais? A resposta é o taylorismo!
Ao criar e atribuir à gerência as funções de planejamento e controle do trabalho, com o
estudo de tempos e movimentos para a eficaz realização das tarefas inerentes aos diferentes
postos de trabalho; seleção e treinamento do pessoal; fixação do volume de produção a ser obtido
de cada um dos trabalhadores; elaboração de programas de incentivo em dinheiro ao trabalhador,
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Taylor fez surgir uma nova estrutura administrativa com fundamento na idéia de tarefa e deu
início à chamada Fase B ou Sistema Técnico de organização do trabalho.
A idéia da tarefa é, quiçá, o mais importante elemento na administração científica. O trabalho
de cada operário é completamente planejado pela direção, pelo menos, com um dia de
antecedência e cada homem recebe, na maioria dos casos, instruções escritas completas que
minudenciam a tarefa de que é encarregado e também os meios usados para realizá-la. [...] Na
tarefa é especificado o que deve ser feito e também como fazê-lo, além do tempo exato
concebido para a execução. (TAYLOR, 1966, p. 51)

Partindo do princípio da divisão tecnológica do trabalho e da especialização do operário,


Taylor estabeleceu cargos e funções, definindo o conteúdo e o modo de execução das tarefas de
cada um e suas inter-relações com às dos demais, sob a supervisão da gerência. Iniciava-se, assim,
o processo de total dissociação entre a concepção do projeto do resultado e do processo de
trabalho e o trabalho de execução do projeto, isto é, dissociação entre trabalho intelectual e
trabalho manual. O operário tornou-se um mero executor de tarefas previamente prescritas.
A Fase B ou Sistema Técnico é marcada, portanto, pela centralização da organização e do
controle da produção que permite e aprofunda a fragmentação e a especialização das atividades
industriais, fazendo surgir o operário especializado ou semiqualificado, simples condutor de
máquinas e executor de tarefas preestabelecidas, embora não elimine o trabalho qualificado,
concentrado nas oficinas de manutenção e ferramentarias, onde passaria a constituir redutos
sempre ameaçados do antigo sistema de trabalho.
Os operários especializados estão sujeitos à organização centralizada do trabalho. Já não
representam um potencial profissional suscetível de utilizações diversas. Definidos pelo posto
de trabalho e, em grande parte, intermutáveis, a sua especialização não é análoga à dos
operários das manufaturas, cuja habilidade, mesmo reduzida à execução de trabalhos
parcelares, continuava a ser o princípio definitivo. (TOURAINE, 1973, p. 454)

Assim, não mais havia necessidade de “homens extraordinários”, com exceção dos membros
da gerência. As práticas de seleção e treinamento visavam apenas conhecer as aptidões dos
candidatos a um emprego e treinar os selecionados de acordo com o método planejado. “A seleção,
então, não consistiu em achar homens extraordinários, mas simplesmente em escolher entre
homens comuns os pouco especialmente apropriados para o tipo de trabalho em vista” (TAYLOR,
1966, p. 76). Daí deriva o princípio da escolha do homem certo para o trabalho certo, cujas
qualidades deveriam ser a força física e/ou a rapidez de percepção e reação na inspeção de
qualquer objeto, mas de todas, sem exceção, a qualidade essencial deveria ser a capacidade para
a obediência estrita.
Sem dúvida, o taylorismo permitiu aumentar consideravelmente a produtividade do
trabalho, reduziu os custos de produção e os preços das mercadorias e, sobretudo, permitiu
aumentar consideravelmente os lucros dos capitalistas, “assegurando ao máximo a prosperidade
do patrão”. Mas, e quanto à prosperidade do empregado? A “prosperidade do empregado”,
acreditava Taylor, estaria assim assegurada:
Na tarefa, é especificado o que deve ser feito e também como fazê-lo, além do tempo exato
concebido para a execução. E, quando o trabalhador consegue realizar a tarefa determinada,
dentro do tempo-limite especificado, recebe aumento de 30 a 100% do seu salário habitual.
(TAYLOR, 1966, p. 51)
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A nova organização do trabalho, caracterizada pela centralização e controle da produção


pela gerência, tornou-se a forma predominante de administração do processo produtivo até as
últimas décadas do século XX, porque o taylorismo foi aperfeiçoado por Henry Ford I, o pai da
indústria automobilística, com a introdução, em 1914, de uma inovação tecnológica: a esteira
automática de produção ou sistema automático de transporte de peças e ferramentas para
intensificar ainda mais o ritmo de trabalho, agora totalmente controlado pela gerência, que pode
imprimir, com um simples apertar de botão, o ritmo que quiser ao trabalho de todos.
O fordismo caracteriza o que poderíamos chamar de socialização da proposta de Taylor, pois,
enquanto este procurava administrar a forma de execução de cada trabalho individual, o
fordismo realiza isso de forma coletiva, ou seja, a administração pelo capital da forma de
execução das tarefas individuais se dá de uma forma coletiva, pela via da esteira. (MORAES
NETO, 1988, p. 36)

Ford, diferentemente de Taylor, considerava o trabalhador não apenas um produtor de


mercadorias, mas também um consumidor. Por isso, aumentou os salários de seus trabalhadores
e instituiu a jornada de trabalho de oito horas como incentivo ao consumo, além de distribuir
alguns benefícios, como restaurantes, transporte, hospital e assistência social, por ter
compreendido que a produção padronizada em massa, graças à nova organização do processo de
trabalho inaugurada em suas fábricas com a construção da linha de montagem com esteira rolante
– esteira de produção – requeria consumo de massa. Compreendeu também que o “fordismo” seria
adotado nos mais diferentes setores da atividade econômica, inclusive nos escritórios, onde a
esteira de produção era movida pelo “oice boy interno”, e poderia ser responsável pelo
surgimento da sociedade de consumo de massa. Isso de fato aconteceu devido à adoção, na década
de 1930, de políticas intervencionistas de Estado, isto é, de políticas de proteção às economias
nacionais, de proteção do emprego, de regulamentação das relações de trabalho, de
fortalecimento dos sindicatos, que garantiram a elevação dos salários e o consumo em massa.
No entanto, é duvidosa a pretensão de Taylor, extensiva ao fordismo, de considerar essa
forma de administração do processo de trabalho de “científica”. Trata-se muito mais de justificar
a intensificação do trabalho pela ciência do que propriamente demonstrar o caráter
verdadeiramente científico dessa organização do trabalho, pois, como ressalta Salm (1990, p. 64)
“[...] a Ergonomia – estudo dos tempos e movimentos – não pode ser vista como algo objetivo, mas
sujeito a negociações e compromissos”, o que nos permite afirmar que o taylorismo/fordismo se
fundamenta no conhecimento empírico, mas não propriamente científico, dos efeitos positivos da
disciplina e obediência rígida às normas da empresa, racionalmente elaboradas, para o aumento
da produtividade do trabalho. Além disso, considere-se que o ingresso de parcelas importantes da
classe operária ao consumo de bens industrializados, graças ao aumento dos salários e/ou ao
salário por rendimento e ao barateamento das mercadorias devido ao aumento da produtividade
do trabalho, foi uma razão suficiente para justificar a submissão – não muito passiva, é verdade –
a essa nova forma de administração do trabalho.
A análise crítica do taylorismo/fordismo nos remete à questão do conflito de classes nas
sociedades capitalistas e ao problema fundamental com o qual se defronta o capitalista e, nos dias
de hoje, o administrador que o representa: como obter a colaboração do trabalhador e fazê-lo
trabalhar mais e melhor? Em princípio, ninguém quer trabalhar para enriquecer o outro em troca
apenas de um emprego de cujo salário extrai o estritamente necessário para a sua sobrevivência.
Taylorismo e fordismo foram as respostas encontradas pelo capital, ao longo do século XX, para
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enfrentar esse problema, mas os trabalhadores sempre reagiram, e sempre reagem, às condições
impostas, organizando-se politicamente em sindicatos e em movimentos sociais reivindicatórios
de diferentes naturezas, muitos deles bem-sucedidos, que lhes garantiram alguma melhoria nas
condições de trabalho e de vida. Conciliar interesses divergentes é o desafio maior a ser
confrontado pelo capital, pelo administrador, pelos governos estabelecidos e pelos próprios
trabalhadores, num esforço conjunto para a promoção do desenvolvimento e redução da
desigualdade social.

Impactos do taylorismo/fordismo sobre o trabalhador


Não há dúvida de que o taylorismo/fordismo permitiu a melhoria das condições de vida
para a parcela da classe operária assalariada das grandes corporações, dando-lhe acesso ao
consumo de bens industrializados, além de ter gerado milhares de empregos nos EUA e ter sido
responsável, em grande parte, pelo seu extraordinário crescimento econômico, que fez do país
uma potência mundial. Mas, a que preço? O imortal Charles Chaplin, no filme, também imortal,
Tempos Modernos, produziu a representação artística mais ilustrativa do trabalho infernal das
fábricas fordistas e a transformação do trabalhador num autômato desvairado, infeliz.
Não faltaram razões para isso já que o taylorismo/fordismo provocou:
:: A desprofissionalização da grande massa de trabalhadores, agora trabalhadores especializados na
execução de uma ou mais tarefas simplificadas, repetitivas e insignificantes, pensadas pela
gerência científica, inclusive nos gestos e movimentos necessários para realizá-las bem e
rapidamente.
:: A desprofissionalização, isto é, a especialização, conduz inexoravelmente à perda da noção de
totalidade do processo de produção e compromete a capacidade de compreensão do significado
do próprio trabalho, sendo causa de profunda insatisfação e profundo sentimento de frustração
por impossibilitar a realização das potencialidades intelectuais e a satisfação das necessidades de
autoestima e auto realização, raiz da tendência ao absenteísmo, desperdício de material,
negligência, acidentes de trabalho, turnover (rodízio de pessoal), alcoolismo, drogas, stress, LER
(lesão por esforço repetitivo), fadiga constante etc. e da resistência às condições impostas através
de movimentos sindicais, alguns marcados por extrema violência.
:: A desprofissionalização significa a monopolização do saber operário pela gerência científica cujo
programa, nas palavras de Benjamin Coriat,
:: [...] se define pela análise do obstáculo que vence: trata-se nada menos que de expropriar aos
trabalhadores seu saber [...] não se trata somente de expropriar aos trabalhadores seu saber,
senão também de confiscar este saber recolhido e sistematizado – em benefício exclusivo do
capital. [...] o que aqui se instaura maciçamente é a separação entre trabalho de concepção e de
execução, um dos momentos-chave da separação entre trabalho manual e intelectual. (CORIAT,
1976, p. 94).
:: A monopolização do saber pela gerência científica reduz o poder de barganha da classe
trabalhadora, cujos movimentos de resistência, sindicais, tornaram-se movimentos
reivindicatórios por melhorias nas condições de trabalho, aumentos salariais e estabilidade no
emprego e não mais movimentos visando à reapropriação dos instrumentos de trabalho, de
orientação revolucionária, portanto, que os caracterizou ao longo do século XIX.
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:: A profunda insatisfação com as condições de trabalho é causa da evasão no lazer em suas mais
variadas formas – desde o simples passatempo diante da televisão até os esportes agressivos e
jogos de azar – como necessidade visceral de preencher o vazio da alma e combater o tédio
provocado pelo trabalho massacrante porque insignificante, desinteressante, repetitivo, alienado
e alienante, submisso, disciplinado e humilhante.
Tudo aquilo de que se viram privados no trabalho – iniciativa, responsabilidade, realização –
os trabalhadores buscam reconquistar no lazer. Constatou-se, durante os últimos dez anos,
uma fantástica proliferação de “manias”, de passatempos (art and craft hobbies), às quais se
acrescentam todas as espécies de lazeres ativos, fotografia, cerâmica, eletrônica, rádio etc.,
todas as categorias daquilo que Erich Fromm, por seu lado, opondo-se aos serviços “aperta-
botão” das máquinas automáticas, chama de “do it yourself activities” (atividades “faça você
mesmo”). Bell acrescenta, que se ajusta plenamente às interpretações que, antes, déramos
desses fatos: a América viu multiplicar-se o “amador” numa escala até então desconhecida. E
se nisso há, em si, um bem, ele foi obtido a um preço muito elevado: o da satisfação no trabalho.
(FRIEDMANN, 1972, p. 159)

Assim, o século XX, tendo divorciado o trabalho do lazer, do prazer, da alegria da busca da
autoestima e da auto realização, transformando a experiência e a vivência do trabalho em castigo,
punição, expiação do pecado original, tal como o interpretaram as tradições religiosas do
Ocidente, ofereceu como compensação o alargamento do tempo livre para não só possibilitar a
reposição saudável da força de trabalho e o aumento do consumo da produção em massa, mas
também para possibilitar (muito embora essa não fosse a intenção) a reversão no e pelo lazer das
privações do desenvolvimento da individualidade no e pelo trabalho a que submeteu milhões de
trabalhadores.
Taylorismo/fordismo geraram uma massa de trabalhadores insatisfeitos, entediados,
frustrados, infelizes, alienados de si mesmos, de sua própria natureza, cujas potencialidades não
puderam se efetivar na realização de um trabalho arte-criação-ação inteligente e transfiguraram
o papel da Razão na História em racionalidade instrumental das grandes organizações racionais
do mundo moderno.
A organização racional é, assim, alienadora: os princípios orientadores da conduta e da
reflexão, e com o tempo também da emoção, não estão centralizados na consciência individual
do homem da Reforma, ou na razão independente do homem cartesiano. Os princípios
orientadores são, na verdade, alheios e em contradição a tudo o que se tem compreendido
historicamente como individualidade. Não será demais dizer que no desenvolvimento
extremo a possibilidade de razão que tem a maioria dos homens é destruída, à medida que a
racionalidade aumenta e sua localização, seu controle, passa do indivíduo para a organização
em grande escala. Há, então, racionalidade sem razão. Essa racionalidade não está de acordo
com a liberdade, sendo, antes, a sua destruidora. (MILLS, 1965, p. 185)

Taylorismo/fordismo universalizaram-se como forma predominante de organização do


processo de trabalho no pós-Segunda Guerra Mundial, em 1945, tendo sido um dos fatores
determinantes da rápida reconstrução da Europa Ocidental e do Japão, que, pouco mais tarde,
desenvolveu o toyotismo, inaugurando a Fase C ou Sistema Automático de Produção, por muitos
autores denominada produção flexível.
É preciso ressaltar, no entanto, que as consequências positivas, ao contrário das negativas,
da predominância do taylorismo/fordismo não se estenderam a toda classe trabalhadora e muito
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menos a todos os países. A África permanece um continente desconectado dos mercados


internacionais e a expectativa de vida de sua população abaixo dos 55 anos de idade. A América
Latina ainda se debate para extirpar os enormes bolsões de pobreza em todos os seus países, sem
contar a disparidade das condições de vida entre eles. A competição econômica entre países se
acirrou e os conflitos entre eles tornaram-se inevitáveis, inclusive os conflitos armados que não
deram trégua à humanidade um só dia do século XX e neste início do século XXI.
Considere-se também que não foi simples coincidência o aparecimento das diferentes
teorias de motivação para o trabalho1, a partir dos anos 1950, quando da universalização do
taylorismo/fordismo, e a contratação de psicólogos nas empresas. A simples denominação dessas
teorias – Teorias de Motivação para o Trabalho1 – já é razão suficiente para se dar conta da
dimensão das questões suscitadas pelas novas condições de trabalho que não atingiram apenas
os trabalhadores, mas também as empresas, obrigadas a enfrentar os problemas acima referidos
de alcoolismo, drogas, negligência, turnover etc., a rever os seus métodos de gestão e a atender
muitas das reivindicações dos trabalhadores, se quisessem obter a sua colaboração.
Compreende-se facilmente que, se naquelas condições trabalhar fosse uma atividade
agradável, não haveria necessidade de se pensar em aplicar técnicas de motivação dos
trabalhadores originadas de teorias de motivação para o trabalho!

Os Anos dourados
A maioria dos seres humanos atua como os historiadores: só em retrospecto reconhece a
natureza de suas experiências. Durante os anos 1950, sobretudo nos países “desenvolvidos”
cada vez mais prósperos, muita gente sabia que os tempos tinham de fato melhorado,
especialmente se suas lembranças alcançavam os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial.
Um primeiro-ministro conservador britânico disputou e venceu uma eleição geral em 1959
com o slogan “Você nunca esteve tão bem”, uma afirmação sem dúvida correta. Contudo, só
depois que passou o grande boom, nos perturbadores anos 1970, à espera dos traumáticos
1980, os observadores – sobretudo, para início de conversa, os economistas – começaram a
perceber que o mundo, em particular o mundo do capitalismo desenvolvido, passara por uma
fase excepcional de sua história; talvez uma fase única. Buscaram nomes para descrevê-la: “os
trinta anos gloriosos” dos franceses (les trente glorieuses), a Era de Ouro de um quarto de
século dos anglo-americanos. O dourado fulgiu com mais brilho contra o pano de fundo baço
e escuro das posteriores Décadas de Crise. (HOBSBAWM, 1995, p. 253)

Esse é o parágrafo inicial das mais de 100 páginas da parte II do livro de Eric Hobsbawm, A
Era dos Extremos, dedicada exclusivamente a apresentar e analisar as expressões materiais e não-
materiais da prosperidade sem precedentes que se estendeu do período imediato ao pós-Segunda
Guerra Mundial, em 1945 a 1973, e atingiu não só a Europa e o Japão, mas também alguns países
da América Latina, ra-zão pela qual o título dessa parte do livro é A Era de Ouro, também
denominada por diferentes autores de Os Anos Dourados, Os Anos Gloriosos, As Décadas de Ouro.
No Brasil, esse momento da história ficou popularmente conhecido como Os Anos Dourados
que, entre nós, tiveram curtíssima duração, pois foram interrompidos pelos Anos de Chumbo da
ditadura mili-tar. Os Anos Dourados, no Brasil, se iniciaram no governo de Juscelino Kubitschek

1
As teorias da motivação foram elaboradas por Maslow (1970); Herzberg, Mausner e Snyderman (1959); Mumford
(1970); Wroom (1964); Argyris (1973); Myers (1964).
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(Os Anos JK) em 1956, que, no seu programa de governo, o conhecido Plano de Metas, prometia
“cinqüenta anos de desenvolvimento em cinco”, dinamizando a economia brasileira com a
construção de Brasília e a entrada do capital estrangeiro para a produção de bens duráveis. Em
1957, Juscelino inaugurou a pedra fundamental da Volkswagem do Brasil, inaugurando, ao mesmo
tempo, outra fase da industrialização nacional: a industrialização de bens duráveis com capital
estrangeiro. A construção de Brasília e os investimentos estrangeiros no país geraram milhares
de empregos e transformaram o ABC paulista (Santo André, São Bernardo e São Caetano) no pólo
industrial de ponta da América Latina, com tecnologia estrangeira e administração fordista do
processo de trabalho.
Porém, os Anos Dourados no Brasil chegaram ao im com a Revolução de 1964 que
interrompeu o processo político democrático, pois, de acordo com todos os autores dessa época,
a Era de Ouro significou um momento marcado não só pelo crescimento e desenvolvimento
econômicos, mas também pela democratização das instituições políticas e sociais.
Por isso, havia muitas razões para justificar as denominações desse período de 30 anos do século
XX e para preencher as 100 páginas da parte II do livro de Hobsbawm. São elas:
:: Altíssimo crescimento econômico;
A economia mundial crescia a uma taxa explosiva. Na década de 1960, era claro que jamais
houvera algo assim. A produção mundial de manufaturas quadruplicou entre o início da década
de 1950 e o início da década de 1970, e, o que é ainda mais impressionante, o comércio mundial
de produtos manufaturados aumentou dez vezes [...].
A produção agrícola mundial também disparou, embora não espetacularmente. E o fez não tanto
(como muitas vezes no passado) com cultivo de novas terras, mas elevando sua produtividade.
(HOBSBAWM, 1995, p. 275).
:: Pleno emprego, pois a média de desemprego na Europa Ocidental estacionou em 1,5% e em 1,3%
no Japão.
:: Elevação dos salários, graças ao aumento da oferta de empregos e graças ao fortalecimento dos
sindicatos, cujo poder de barganha também aumentou; acrescente-se a isso a distribuição de
benefícios sociais, tais como educação fundamental, assistência médica e hospitalar, seguro-
desemprego etc. que também contribuíram para aumentar o poder aquisitivo dos assalariados.
:: Desenvolvimento científico e tecnológico que permitiu inundar os mercados de novos produtos a
preços populares: televisão, discos de vinil, rádios portáteis transistorizados, relógios digitais,
calculadoras de bolso a bateria e depois a energia solar, e produtos de uso industrial e comercial:
motor a jato, transistor, energia nuclear etc. (HOBSBAWM, 1995, p. 261).
:: Multinacionalização do capital, isto é, transferência do capital de grandes corporações para o
Leste Asiático e a América Latina à procura de mão-de-obra barata e politicamente desorganizada,
dando origem a uma nova divisão internacional do trabalho ao permitir a industrialização de bens
duráveis (eletrodomésticos, automóveis, tratores etc.) em países até então produtores e
exportadores de bens primários – commodities – e produtores de bens industrializados de
consumo (produtos alimentícios, de higiene pessoal, tecidos, sapatos etc.).
:: A economia mundial tornou-se internacional, com a criação de instituições internacionais, como
o Banco Mundial (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) e o Fundo
Monetário Internacional (FMI) – para a promoção do investimento internacional, manutenção da
150

estabilidade do câmbio “desde os Acordos de Bretton Woods de 1944, o dólar americano passou
a ser papel-moeda reserva internacional em substituição ao padrão ouro da moeda”, além de
tratar de balanças de pagamento (HOBSBAWM, 1995, p. 269).
:: Os Estados Nacionais adotaram políticas intervencionistas na economia, subsidiando,
sustentando, supervisionando, planejando e também administrando indústrias de toda natureza
e construindo a infraestrutura necessária para o seu desenvolvimento, ao mesmo tempo em que
adotaram políticas da socialdemocracia com a universalização de benefícios e programas sociais
graças ao grande volume de impostos arrecadados, fazendo nascer os Estados de Bem-Estar
(Welfare States).
:: Mudanças culturais profundas em todas as esferas da vida, ressaltando-se as que atingiram a
música, com Elvis Presley e as bandas dos Beatles e Rolling Stones; a família e os relacionamentos
entre os sexos, com a pílula anticoncepcional e a instituição do divórcio em muitos países; a
universalização do blue jeans que revolucionou a moda; os movimentos feministas e a liberação
feminina; os movimentos antirracistas etc.
No entanto, a prosperidade dos Anos Dourados foi desigual e a pobreza em muitos países
da África, da América Latina e da Ásia continuou a atingir milhões e milhões de pessoas, apesar do
crescimento econômico também dessas regiões. Por quê? Um parêntese deve ser aqui aberto para
apontar as causas do fraco desenvolvimento econômico e social da América Latina e, em especial,
do Brasil, mesmo durante o curto período dos Anos Dourados.
Os Anos Dourados chegam ao fim na década de 1970, quando começa a se configurar uma
crise de consumo com o acirramento da competição internacional. Para enfrentar a crise, procede-
se a uma total reestruturação da economia mundial que, inevitavelmente, provoca uma total
reestruturação das empresas e dos mercados de trabalho. Por isso, para compreender a nova
forma de administração do processo de trabalho, em consolidação também no Brasil, será preciso
compreender as razões da crise e a reorganização da economia mundial, com suas consequências
sobre o mundo empresarial e dos mercados de trabalho.

Fragmento do livro “Sociologia do trabalho”, de Noêmia Lazzareschi (2009), páginas 41-50.

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