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Artigo

A Hidrogenação de Óleos e Gorduras e suas Aplicações


Industriais
Pinho, D. M. M.; Suarez, P. A. Z.*
Rev. Virtual Quim., 2013, 5 (1), 47-62. Data de publicação na Web: 9 de fevereiro de 2013
http://www.uff.br/rvq

The Chemistry of Hydrogenation of Oils and Fats and their Applicability


in Industry
Abstract: The industrial process of a large number of goods commercialized in Brazil
and in the World, such as fuels, foods, fine chemicals and polymers, involves at least
one hydrogenation step. By using hydrogenation the physical and chemical properties
of chemical compounds are modified, making possible their utilization in the
formulation of industrial products. In this article the hydrogenation reaction is
discussed in terms of its basic aspects as well as its applications in the oil-chemistry
industry.
Keywords: Hydrogenation; Oil; Fat.

Resumo
A fabricação de um número bastante elevado de produtos comerciais como, por
exemplo, combustíveis, alimentos, fármacos, polímeros, entre outros, envolve em pelo
menos uma das etapas do processo, a reação de hidrogenação. Nos produtos
hidrogenados as propriedades físicas e químicas são alteradas com relação aos
materiais de partida. Neste artigo é discutida a reação de hidrogenação, os seus
fundamentos básicos e suas principais aplicações na indústria oleoquímica.
Palavras-chave: Hidrogenação; Óleos; Gorduras.

* Universidade de Brasília, Laboratório de Materiais e Combustíveis, INCT-Catálise, Instituto de


Química, P. Box. 4478, CEP: 70919-970, Brasília-DF, Brasil.
psuarez@unb.br
DOI: 10.5935/1984-6835.20130006

Rev. Virtual Quim. |Vol 5| |No. 1| |47-62| 47


Volume 5, Número 1 Janeiro-Fevereiro 2013

Revista Virtual de Química


ISSN 1984-6835

A Hidrogenação de Óleos e Gorduras e suas Aplicações


Industriais
David M. M. Pinho, Paulo A. Z. Suarez*
Universidade de Brasília, Laboratório de Materiais e Combustíveis, INCT-Catálise, Instituto de
Química, P. Box. 4478, CEP: 70919-970, Brasília-DF, Brasil.
* psuarez@unb.br

Recebido em 6 de fevereiro de 2013. Aceito para publicação em 9 de fevereiro de 2013

1. O que é Hidrogenação?
2. Uso da hidrogenação na Indústria Alimentícia
3. Uso da Hidrogenação na Indústria de Combustíveis
4. Uso da Hidrogenação na Indústria Ricinoquímica
5. Conclusão

1. O que é Hidrogenação? o hidrogênio elementar (H2)1 e os hidretos


metálicos (por exemplo, o NaBH4).2 Na Figura
1 são mostradas reações de hidrogenação de
uma ligação dupla entre átomos de carbono
Hidrogenação é o processo químico de
(olefina) e de uma ligação dupla entre
eliminação de grupos funcionais insaturados
carbono e oxigênio (aldeído ou cetona).
pela adição de átomos de hidrogênio. As
principais fontes de hidrogênio utilizadas são

1
R R2 1
R R2
[CAT]
(a) C C H2 H C C H
3 4 3
R R R R4
H
O O
1. NaBH4 / MeOH
(b) C C
R R' R R'
2. H+, H2O H

Figura 1. Hidrogenação de grupos insaturados: (a) hidrogenação de uma ligação C=C


assistida por um catalisador (CAT), normalmente um composto de metal de transição; (b)
hidroge ação de u a ligação C=O (se R’ for u radical alquila ou arila o reagente é uma
cetona e o produto formado é um álcool secundário e se for um átomo de hidrogênio será um
aldeído produzindo um álcool primário)

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De um ponto de vista termodinâmico, a serem compatíveis às simetrias dos orbitais


reação de hidrogenação utilizando H2 do hidrogênio molecular e do orbital  do
mostrada na Figura 1a é extremamente grupo insaturado. Para que a reação ocorra é
favorável, uma vez que tanto a Energia Livre necessária uma alta energia de ativação. No
de Gibbs (G) quanto a Constante de caso dos hidretos metálicos, como estes são
Equilíbrio (p) nos indicam uma reação bases de Lewis muito fortes, o par de
espontânea e fortemente deslocada no elétrons do hidrogênio liga-se ao carbono do
sentido dos produtos. Por exemplo, a reação grupo insaturado através de um ataque
do eteno com hidrogênio molecular para nucleofílico (Figura 2b). Nas reações de
formação do etano (Figura 2a) possui um G hidrogenação com hidrogênio molecular o
= - 101 kJ mol-1 e p = 5,16 x 1017 atm-1. No catalisador é geralmente um composto de
entanto, o uso de hidrogênio molecular exige metal de transição, que ao reagir com o H2
sempre o uso de catalisadores, porque, gera hidreto (Figura 2a), que se adiciona ao
apesar de a reação ser favorecida, sem a sua grupo insaturado.1Tanto os hidretos quanto o
presença a hidrogenação somente ocorre em grupo insaturado, no caso exemplificado na
condições muito drásticas de temperatura e Figura 2a uma olefina, permanecem
pressão. Esta aparente contradição é o coordenados ao centro metálico.
resultado da cinética da reação, por não

(b)

(a)
Figura 2. Mecanismos de hidrogenação: (a) reação catalítica utilizando hidrogênio molecular;
(b) reação estequiométrica usando hidretos

O uso da hidrogenação é largamente obtenção de intermediários quirais para a


difundido nas indústrias de combustíveis, síntese de fármacos3; produção de borracha
alimentícias, farmacêuticas, de materiais nitrílica hidrogenada que funciona como selo
poliméricos, entre outras. Nestas indústrias, nas garrafas PET e que impedem a perda do
encontramos processos que utilizam a gás dos refrigerantes.
hidrogenação com os mais diversos fins,
Uma das classificações de óleos e
como por exemplo: estabilização de
gorduras é: saturados, insaturados e poli-
combustíveis; aumento do ponto de fusão de
insaturados. No caso dos ácidos graxos
materiais graxos e produção de margarinas;
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saturados não há ligações duplas, enquanto físicas e químicas dos óleos e gorduras pela
nas cadeias insaturadas e poli-insaturadas, hidrogenação das ligações duplas presentes
ocorre, respectivamente, a presença de uma nas cadeias dos óleos e gorduras. No
ou mais ligações duplas.4 A presença de entanto, deve-se ter clareza que a
ligações duplas interfere de forma drástica na modificação no número de ligações duplas irá
força das interações do tipo van Der Walls, o alterar o conjunto das propriedades físicas e
que irá influenciar as propriedades físicas e químicas do material graxo e não uma de
químicas dos óleos e gorduras, como forma isolada. Por exemplo, a Figura 3
viscosidade, densidade e temperatura de compara duas propriedades em função do
fusão.4 Por outro lado, as ligações duplas número de insaturações do material: a
conferem ao material graxo reatividade fluidez (viscosidade) e a estabilidade
frente a diversos agentes químicos. Esta oxidativa. Enquanto que um alto grau de
reatividade pode ser tanto benéfica, pois saturação das cadeias (gorduras) aumenta a
permite a obtenção de uma série de interação das moléculas e dificulta a fluidez
produtos químicos como polímeros ou do material, ele diminui a sua suscetibilidade
epóxidos, quanto prejudicial, uma vez que à oxidação. Já para materiais com alto grau
diminui a estabilidade química frente ao de insaturação (óleos), a baixa interação
oxigênio molecular, reduzindo o tempo de entre as cadeias aumenta a fluidez, mas
armazenamento do material antes do seu diminui a sua estabilidade oxidativa.
consumo, o que determina o seu prazo de
Neste artigo, serão discutidos alguns
validade para comercialização.5 Deve-se
processos em que a hidrogenação é utilizada
salientar que a reatividade de um óleo ou
na indústria oleoquímica para a produção de
gordura frente ao oxigênio é favorecida pelo
alimentos ou produtos não alimentícios com
aumento no número de ligações duplas.6
características diferenciadas.
Assim, pode-se modular as propriedades

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Fluidez

Óleos Gorduras

Poli-insaturado Mono-insaturado Saturado

Óleos Gorduras

Estabilidade Oxidativa
Figura 3. Influencia das ligações duplas nas propriedades físicas e químicas de óleos e
gorduras: enquanto cadeias saturadas (gorduras) favorecem a estabilidade oxidativa,
comprometem a fluidez do material graxo, sendo exatamente o contrário para as cadeias poli-
insaturadas (óleos)

2. Uso da hidrogenação na continue líquido a temperatura ambiente. Já


para a produção de gorduras vegetais
Indústria Alimentícia hidrogenadas, muito usadas para confecção
de tortas e bolos, a hidrogenação é realizada
de forma quase completa. O processo
A hidrogenação é muito utilizada pela industrial de hidrogenação de óleos e
indústria alimentícia para aumentar o prazo gorduras é realizado utilizando um
de validade de óleos ou para produzir as catalisador de níquel finamente dividido,
gorduras vegetais hidrogenadas. A diferença obtido a partir da redução de complexos do
entre os dois processos é o grau de metal com hidrogênio molecular, usualmente
hidrogenação. Para estabilizar óleos, a suportado em sílica.5 O processo, que utiliza
hidrogenação é feita de forma parcial, óleo refinado e branqueado, ocorre a
mantendo um determinado grau de temperaturas entre 150 e 220 ºC e 15 atm de
insaturação no produto final, de forma a que hidrogênio, conforme fluxograma
sua fluidez não seja comprometida e ele apresentado na Figura 4.

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H2 / óleo
Ni(HCOO)2.H2O (Nio)finamente dividido
150 oC

Óleo refinado Envase


Filtro

Hidrogenação
Nio

Figura 4. Processo de hidrogenação de óleos refinados utilizando catalisadores de níquel

Outro produto preparado a partir de passou a substituir o sebo na formulação das


gorduras vegetais hidrogenadas é a margarinas. É interessante salientar que essa
margarina, surgida na França do século XIX, substituição ocorreu tanto por questões
durante o Império de Napoleão III. Em um econômicas quanto por ser a gordura vegetal
período de forte crise econômica, Napoleão hidrogenada considerada à época mais
III ofereceu um prêmio a quem descobrisse saudável que o sebo bovino, devido à
um substituto para a manteiga de origem ausência de colesterol. Assim, a partir da
animal que fosse mais acessível segunda metade do Século XX, o processo de
financeiramente à classe mais pobre e aos fabricação de margarina se consolidou como
militares do exército. O químico Hippolyte a emulsificação de uma fase aquosa (leite, sal
Mège-Mouriès fez vários testes até descobrir e conservantes) e uma oleosa (gordura
a margarina ao emulsificar sebo bovino com vegetal hidrogenada).8 Na Figura 5 pode-se
leite. O sucesso foi tão grande que, mesmo observar um recipiente com óleo de soja e
após a crise financeira, a margarina tornou-se outro com margarina obtida a partir de óleo
mais popular que a manteiga.7 Com o de soja.
desenvolvimento do processo de
hidrogenação de óleos na primeira metade
do Século XX, a gordura vegetal hidrogenada

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Figura 5. Óleo comestível e margarina obtida a partir do processamento de óleo de soja. Foto
Paulo Suarez

No entanto, nas últimas décadas o uso da mais estáveis.9 Para entender melhor este
hidrogenação para se produzir gorduras fato, na Figura 6 são mostradas as energias
vegetais na indústria de alimentos tem sido envolvidas na hidrogenação de cis-2-buteno e
cada vez mais questionada. O problema trans-2-buteno para produzir butano. Fica
associado à hidrogenação é que nas claro que o isômero cis possui 5 kJ/mol de
condições de reação, ocorre a reação paralela energia a mais que o trans, pois essa é a
de isomerização de ligações duplas, ou seja, diferença entre as energias liberadas pelos
parte dos isômeros cis é convertida em dois isômeros quando estes são convertidos
isômeros trans. Esta reação acontece porque em butano.
termodinamicamente os isômeros trans são

H H
H C HH C H H2/Pt 
H = -120 kJ/mol

H
H
H C
H2/Pt 
H = -115 kJ/mol
H
C
H H

Figura 6. Diferenças de energia entre os isômeros cis- e trans-2-buteno

Na Figura 7 é mostrado o mecanismo superfície do catalisador são formados dois


envolvido na isomerização de uma olefina hidretos que permanecem coordenados
utilizando um catalisador heterogêneo, como juntamente com olefinas (estrutura (a) da
o níquel metálico usado na indústria Figura 7). A seguir ocorre uma reação de um
oleoquímica. Após a reação do hidrogênio na hidreto com a olefina, formando um radical

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alquila, que permanece coordenado na novamente a olefina (estrutura (c) da Figura


superfície (estrutura (a) da Figura 7). Nesse 7). Note que a configuração da olefina que
complexo alquila não existe impedimento será formada irá depender se ocorreu ou não
rotacional, pois todas são ligações simples, a rotação do complexo alquila, que pode
ocorrendo uma rotação que leva a estrutura levar a formação do intermediário
mais estável (Figura 7(a)). No próximo passo termodinamicamente mais estável; ou (ii) o
existe uma competição entre duas possíveis complexo alquila reage com um segundo
reações: (i) o complexo alquila se decompõe, hidreto formando o composto saturado.5
eliminando um hidreto e formando

H H
C C
RCH2 CH2R
H H (a)

H
C CH2R
RCH2 C
H H H
H CH2R
H C C
C CH2R
H H RCH2 H RCH2
C H H
(c) H (b) (d)

Figura 7. Mecanismo de hidrogenação e de isomerização de olefinas (formação do isômero


trans)

Os isômeros trans raramente são colesterol total, gerando, principalmente,


produzidos na natureza, havendo poucos doenças coronárias.10 De fato, a gordura
exemplos de substâncias naturais como o trans aumenta os níveis da lipoproteína de
ácido -oleosteárico presente no óleo de baixa densidade (LDL-c), chamada
tungue4 ou gordura trans produzida durante popularmente de colesterol ruim. Parte da
o processo de bio-hidrogenação em LDL-c é metabolizada no fígado e utilizada
ruminantes. No entanto, a maior fonte de para a construção de membranas celulares,
gordura trans são os alimentos mas o excesso de colesterol no sangue
industrializados, principalmente se existe dificulta a captação dessa lipoproteína pela
uma etapa do processo que envolve célula, então ela oxida e se deposita nas
hidrogenação. As restrições que se tem feito paredes do sistema circulatório, dando
em relação à gordura trans decorrem dos origem a doenças cardiovasculares. Estudos
problemas de saúde que vem sendo mostraram que um aumento de 20 % na
associado ao seu consumo, principalmente às ingestão de gordura trans acarreta um
doenças cardiovasculares. Inicialmente, deve- aumento de 1 na razão LDL-c/HDL-c, o que
se considerar que as gorduras trans são eleva os riscos de doenças cardiovasculares
absorvidas no organismo de forma igual à cis, em 53 %.11
mas não tem papel algum como ácido graxo Devido aos problemas de saúde descritos
essencial no organismo. Depois de ingerida, a anteriormente, cada vez mais se tem uma
gordura trans tem efeito preocupação com a ingestão de alimentos
hipocolesterolêmico, uma vez que eleva o
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ricos em gordura trans, o que levou a ANVISA saturada dos insaturados por diferença na
a tornar obrigatória a divulgação dos teores temperatura de fusão. Este processo físico
dessa gordura nos rótulos de alimentos a consiste em diminuir lentamente a
partir de 2003 (Resolução ANVISA RDC- 360 temperatura em um trocador de calor (Figura
de 2003). Como resposta do mercado, hoje é 8a) para que ocorra a cristalização dos
possível encontrar gorduras vegetais ou triacilglicerídeos que apresentam pontos de
margarinas com baixíssimos teores de fusão mais elevados (os mais saturados).12
gordura trans nas prateleiras dos Após essa cristalização parcial é obtida uma
supermercados. O processo de hidrogenação mistura graxa heterogênea, separando-se a
cada vez mais está sendo substituído por fase sólida da líquida por centrifugação
tecnologias alternativas, principalmente (Figura 8c). São obtidas duas frações, uma
aquelas que envolvem a cristalização líquida, conhecida como oleína, e outra
fracionada, com a qual se obtém gorduras pastosa, a qual é filtrada (geralmente em um
com alto grau de saturados, ou a filtro prensa como o apresentado na Figura
interesterificação, muito utilizada para se 8d) para isolar mais oleína e uma fração
obter gorduras com um menor grau de sólida, conhecida por estearina. Esse
saturados. processo pode ser feito com o óleo puro ou
com a adição de um solvente, quase sempre
O processo de cristalização fracionada de
hexano, antes da entrada no trocador de
um óleo (Figura 8), também citado na
calor. Quando é usado hexano, é necessária
literatura como winterização (anglicismo de
uma etapa posterior para remover este
winterization), consiste em separar os
solvente da oleína.12
triacilglicerídeos com maior característica

Óleo

(c)

Óleo ou gordura

Óleo
(d)
(b)
(a)
Gordura
Figura 8. Esquema do processo de cristalização fracionada (winterização): (a) trocador de
calor; (b) bomba; (c) centrífuga; e (d) filtro prensa

Já a interesterificação (Figura 9) consiste ocorre a troca de ácidos graxos entre os


em reagir uma gordura saturada com um triacilglicerídeos. Os triacilglicerídeos obtidos
óleo insaturado, como o óleo de soja, na no final do processo possuem uma
presença de metóxido de sódio (NaOCH3). A composição química similar à obtida com a
gordura saturada pode ser obtida de uma hidrogenação parcial com a vantagem de não
fonte natural, como o sebo ou a gordura de ocorrer isomerização. O grau final de
dendê, ou de um óleo, o qual foi totalmente saturação da gordura obtida neste processo é
hidrogenado ou que passou pelo processo de regulado pela composição da mistura
cristalização fracionada. Durante a reação inicial.13

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O
H
C
O O C H

C
O C H
O
C
O C H
O H O
H H
C C
O O C H O O C H
C C
O C H O C H
O O
C C
O C H O C H
H H

Catalisador

O O
H H
C C
O O C H O O C H

C C
O C H O C H
O O
C C
O C H O C H
H O H
H
C
O O C H
C
O C H
O
C
O C H
H

Figura 9. Processo de interesterificação

3. Uso da Hidrogenação na oxigenados indesejáveis. Estes compostos


alteram a cor, a viscosidade, a densidade e a
Indústria de Combustíveis acidez do combustível, levando também à
formação de depósitos nos tanques de
armazenamento. Por outro lado, a
Tradicionalmente a indústria de hidrogenação é, também, utilizada pela
combustíveis utiliza a hidrogenação como indústria do petróleo para a remoção de
forma de estabilizar as diferentes misturas de heteroátomos, como enxofre, nitrogênio e
hidrocarbonetos derivadas do petróleo.14 oxigênio, de compostos presentes no
Assim como nos óleos e gorduras, a presença petróleo.14 Na Figura 10 são mostradas
de ligações duplas aumenta a reatividade dos algumas reações de hidrogenação usadas na
hidrocarbonetos frente ao oxigênio do ar indústria do petróleo para eliminar
levando a formação de compostos compostos insaturados e heteroátomos.

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H2/MoS2
(a)

H2/MoS2
(b)

O
H2/MoS2
(c) R1 H + R2 H + CH4 + 2H2O
R1 OR2

(d) R H2/MoS2
OH R H + H 2O

O
(e) H2/MoS2
R H + CH4 + 2H2O
R OH

(f) R H2/MoS2
SH R H + H 2S

H2/MoS2 H2/MoS2
(g) + H 2S
S S

H2/MoS2
(e) N N CH4 + C2H6 + NH3
H

Figura 10. Reações de hidrogenação realizadas na indústria do petróleo para produzir


combustíveis: (a) desaromatização; (b) eliminação de olefinas; eliminação de oxigênio de
ésteres (c), alcoóis (d) e ácidos carboxílicos (e); dessulfurização de mercaptanas (f) e tiofeno e
tioéter (g); e (e) desnitrogenação de aminas

Um exemplo de uso da hidrogenação em cadeias longas levando a formação de


uma refinaria é o processo conhecido como compostos leves na faixa de destilação do
hidrotratamento (HDT), onde as diversas diesel. Na Figura 11 é mostrado um esquema
frações oriundas dos processos de destilação do processo HDT. A mistura de correntes
atmosférica (DA), craqueamento catalítico oriundas do DA, FCC e COQUE é aquecida em
(FCC) e coqueificação retardada (COQUE) são um forno tubular (Figura 11a) e, após mistura
tratadas para a obtenção de uma mistura de com H2, passa por um leito fixo do catalisador
hidrocarbonetos com as especificações MoS2 (Figura 11c). Depois de retirada do H2
desejadas para o diesel. Na realidade, o HDT remanescente, o produto é destilado em uma
é uma mistura de processos que ocorrem torre de pratos (Figura 11d), onde são
simultaneamente, como à hidrogenação de separados os produtos leves dos pesados. A
compostos olefínicos e aromáticos, a fração pesada é aquecida e misturada com H2
dessulfurização (HDS), a desoxigenação para passar novamente por um leito fixo do
(HDO) e a desnitrogenação (HDN). Durante o catalisador MoS2 (Figura 11c), que é
processo também ocorre o craqueamento de redestilada.15,16

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Hidrogênio Hidrocarbonetos muito leves

Corrente de (b)
Hidrocarbonetos leves
hidrocarboneto
(a)

(d)

Hidrocarbonetos pesados
(c) (c)

(a)
Hidrogênio

Figura 11. Processo de hidrotratamento (HDT) de correntes obtidas no refino do petróleo


para produção de diesel: (a) fornos para aquecimento da corrente; (b) separador de
hidrogênio; (c) leito fixo do catalisador MoS2; (d) torre de destilação de pratos

Na última década, a preocupação em instalações já existentes nas refinarias de


utilizar matérias-primas renováveis para petróleo. Um exemplo é o processo HBIO
substituir o petróleo levou diversas empresas patenteado em 2005 pela Petrobras, que
a estudar óleos e gorduras como fonte de consiste na produção de n-parafinas,
combustíveis. Neste contexto, a adicionando até 20 % de óleos e gorduras na
hidrogenação, mais especificamente o HDO, corrente que entra no processo HDT.17 Nas
se apresentou como uma possibilidade para condições do HDT, os acilglicerídeos e ácidos
obtenção de hidrocarbonetos, uma vez que graxos reagem com o hidrogênio, conforme
este processo já é utilizado para a mostrado na Figura 12, para formar
desoxigenação de ésteres de ácidos hidrocarbonetos na faixa do diesel. Outras
carboxílicos e outros compostos oxigenados empresas, como a finlandesa NESTE Oil,
presentes no petróleo. A grande vantagem desenvolveram um processo para obtenção
do uso do HDO para tratar óleos e gorduras é de querosene de aviação a partir do HDO de
a alta similaridade nas reatividades químicas óleos e gorduras, combinado com uma etapa
dos compostos oxigenados presentes no de isomerização dos esqueletos carbônicos
petróleo e os ésteres oriundos de materiais das cadeias para produzir hidrocarbonetos
graxos, o que permite o uso direto das ramificados com pontos de fusão baixos.18

R C O CH2

O
H2
R C O CH

O MoS2
Alta temperatura CH4 H2O CO2 CO
R C O CH2

Figura 12. Reação de desoxigenação de óleos e gorduras na presença de MoS2


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A hidrogenação também foi proposta para do biodiesel de soja.18,19 Estes estudos


estabilizar o biodiesel de forma a minimizar mostraram que as cadeias poli-insaturadas
os problemas de degradação na presença de (18:2 e 18:3) são completamente convertidas
oxigênio do ar durante a estocagem. Em em compostos monoinsaturados (18:1cis e
países como o Brasil onde a maior parte da 18:1trans), antes que se inicie a formação do
matéria-prima para a produção de biodiesel é produto completamente hidrogenado (18:0),
constituída por óleos com alto grau de conforme mostrado na Figura 13. De fato, é
insaturação, inúmeros problemas gerados possível observar na Figura 15 que em 4 h,
pela degradação do biocombustível durante mesmo já havendo uma redução das cadeias
o transporte e estocagem vêm sendo poli-insaturadas a menos de 10 % da
relatados. No caso específico do Brasil, cerca composição, ainda não haviam sido formados
de 80 % da produção de biodiesel é feita com produtos de hidrogenação total de forma
óleo de soja, cuja composição é significativa, os quais permaneceram em
aproximadamente 55 % em ésteres do ácido teores inferiores a 10 %. Fica também claro
linoleico, 5 % do ácido linolênico e 25 % do na Figura 13 que em 4 h o biodiesel formado
ácido oleico. Devido a essa composição, o possui essencialmente cadeias
biodiesel de soja apresenta uma baixa monoinsaturadas. Ao se analisar a
estabilidade oxidativa, sendo relatado o seu estabilidade oxidativa pela técnica Rancimat
escurecimento e acidificação, além da foi observado que o tempo de indução
formação de borras. Uma solução apontada aumentou de 0,9 h (biodiesel de soja antes
por pesquisadores para resolver este da hidrogenação) para 28,6 h após a
problema é a hidrogenação.18,19 Neste caso, hidrogenação parcial. Por outro lado, foi
também deve-se evitar a hidrogenação total, verificado por análise térmica diferencial
a qual levaria a uma mistura de ésteres (DSC) que a hidrogenação parcial não
alquílicos de ácidos graxos com reduzida comprometeu as propriedades a frio da
fluidez a baixas temperaturas e alto ponto de mistura de ésteres, sendo determinado que
cristalização, o que comprometeria o seu uso após o processo o ponto de fusão aumentou
como biodiesel. Assim, para hidrogenar o em 4 ºC apenas, variando de -27,4 ºC para -23
biodiesel sem comprometer as suas ºC. Estes resultados mostram que é possível
propriedades a baixa temperatura, deve-se aumentar a estabilidade do biodiesel sem
realizar uma hidrogenação parcial. alterar as propriedades a frio dos materiais
graxos, o que pode ser uma alternativa para a
Um exemplo é o uso de nanopartículas de
indústria de biodiesel no Brasil.
paládio associadas com líquidos iônicos, que
constitui um sistema catalítico apontado
como eficiente para a hidrogenação parcial

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Composição do EMAG (%)


60
50
40 18:03
30 18:02

18:00
18:1t
20 18:01

18:01
18:02
18:03
10 18:1t
0 18:00
0 0.5 1 2 3 4 6 20 28.5 44.75 60.9
Tempo (h)

Figura 13. Estudo cinético da reação de hidrogenação na presença de solvente e catalisador.


Gráfico obtido a partir de dados retirados de Souza et al.19

4. Uso da Hidrogenação na que corresponde a aproximadamente 88 %


do óleo de mamona,4 tem uma hidroxila no
Indústria Ricinoquímica carbono 12, que lhe confere uma alta
viscosidade.4 Uma das principais
transformações que ocorre na ricinoquímica
A indústria ricinoquímica, setor da é justamente a hidrogenação do ácido
oleoquímica onde o principal insumo é o óleo ricinoleico, conforme mostrado na Figura 14,
de rícino (também conhecido como óleo de que gera um ácido graxo saturado com ponto
mamona) é um importante setor responsável de fusão de 86 ºC e alta estabilidade
por mais de 200 produtos comercializados no oxidativa.20
mercado internacional. O ácido ricinoleico,

OH O

OH

H2

OH
OH

Figura 14. Hidrogenação do ácido ricinoleico

A reatividade e as propriedades físico- polímeros, os grupos hidroxila e ácido


químicas do óleo de mamona ou do ácido carboxílico permitem a obtenção de
ricinoleico hidrogenados permite o uso dos poliésteres e poliuretanas que apresentam
mesmos como insumos para a fabricação de uma ampla aplicação como adesivos,
diversos produtos, como macromoléculas espumas e polímeros. A cera de mamona é
(resinas e polímeros), ceras, graxas, capaz de substituir parcialmente a cera de
lubrificantes e sabões.21 Na indústria de Carnaúba22 na fabricação de vários produtos,

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Pinho, D. M. M.; Suarez, P. A. Z.

como revestimentos, emulsificantes e papel Referências Bibliográficas


carbono. Finalmente, a alta viscosidade e
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1
graxos ou óleo hidrogenados são ideais para Parshall, G. W.; Ittel, S. D.; Homogeneous
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Rev. Nutr. 2004, 17, 3. [CrossRef]
como importante ferramenta da indústria 12
Cunha, D. C.; Crexi, V. T.; Pinto, L. A. A.
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renováveis para produtos derivados do Ciênc. Tecnol. Aliment. 2009, 29, 207.
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Neiva, J.; Conheça o Petróleo e outras
Os autores agradecem às diferentes fontes de energia, 4a. ed., Ao Livro Técnico:
agências que financiam as pesquisas do Rio de Janeiro, 1983.
Grupo de Pesquisas Rede de Estudos em 16
Wypych F. Quim. Nova 2002, 25, 83.
Oleoquímica (CNPq, FINEP, FAPEAL, FAPDF), [CrossRef]
ao INCT-CATÁLISE e em especial à CAPES 17
Notícia do portal BiodieselBr sobre
(PROCAD 2005, Projeto nº 0023051; e lançamento do processo HBIO pela
PROCAD NF 2009, Projeto nº 735/2010) que PETROBRAS. Disponível em:
permitiram a mobilidade de alunos e <http://www.biodieselbr.com/destaques/20
professores das equipes. Os autores 06/h-bio-novo-diesel-petrobras.htm>.
agradecem também ao CNPq e CAPES pelas Acessado em: 20 novembro 2012.
bolsas de pesquisa concedidas aos 18
Carvalho, M. S.; Lacerda, R. A.; Leão, J. P.
pesquisadores e alunos de graduação e pós- B.; Scholten, J. D.; Neto, B. A. D.; Suarez, P. A.
graduação. Z. Catal. Sci. Technol. 2011, 1, 480. [CrossRef]

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