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ROBERTO CAROOSO DE OLIVEIRA

Col~o de
l:r.-;OLCXiIA BRASILEIRA

Respom.abilidadc Científica da
-
D ivisão de A m r-:pologia do Museu N acional
URBANIZAÇAO
E TRIBALISMO
A INTEGRAÇÃO DOS 1NDIOS TER1:.NA
NUMA SOCIEDADE DE CLASSES
Bii UOTECA PÚBLICA MUNIOPAL
PAANCISCO ALVES CORR~
Aquisição: (C) r,.8)

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lNDICE

PREFACIO . .. .... . ...... ... . .. . . . ... ... .............. · · · · · 9

INTRODUÇÃO
Cap. I - A Antiga Sociedad~ T erêna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1. Estrutura Social e Organização Social . . . . . . . . . . . . . . 18
2. Estratificação Social e Estratificação f:tnica . . . . . . . . . . 20
3. Divisão Dua l . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
4. Endogamia das Metades e das Camadas . . . . . . . . . . . . . . 25
5. O Herói Guerreiro: o x una-xati . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
6. O Sistema de Parentesco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
7. A Exogamia de Grupo Local . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33

PRIMEIRA PARTE: A RESERVA JNDfGENA


Cap. li - A Cmuti111içãn das lfrservfl.f . . .. . .. . .. .. . . . .... . . .
1. Os C iclos de Povoa mento .. . . . ... . .. .. .. . .... . ... . .
2. A Proliferaçfio d as Rese rvas . .. .. . .. , . .... , . .... . . . .
3. A Populaçfi o das Rr~e rvas . .. . . . . . . . .. . • . .. . . . . . ...
4. Os Poslos Indígena, . . .. , . . . .. ... .. . , . , ....... .. . .
Cnp. Ili - A Or1tfl11/mç1ill t/11 '/'ml,111/111
1. O Trnhaltl() l:xlc;:rno · ··· •· ·· · ' ••· •·· •· · · •
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2. O Tl'nh11lho l nl c;: rnn f o I f
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'11p. IV - A Or111111l111rli11 ti,, / •'11111/1/11


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7
SEGUNDA PARTE: lNDIOS CITADINOS
VI _ A Jnsralaç,io dos Tedna 110 i\frio U rbano · · · · · · · · 125
127
C.'lp, 1. Os ,\grur:11rn.· ntos l\lif:rnntcs . · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
"' As l\lodnli,hdcs de l\ligr:iç:io .. . , ·, · · · · · · · · · · · · · · · ·
136
; : Análise do· Casos Ilustrativos . . . ·, · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
139
Cnp. VII _ A Rcorg1111i;:.açii<> do_ G_rupo Familiai . . , , · . , , .. .. . 153 PREFACIO
1. F:rn1íli:i e Grupo Domcsttco . .. . .... . · · · · · · · · · · · · · ·
154
161
:!. o l\l ntrimô nio . ...... · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
167
3. O Parentesco . .... · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
Cn . VIII - Acomodaçiio 1111111 Sistema de Classes . ... .. ... . , 178 A pesquisa da qual resultou esta _mono~rafia foi real!zada
p 1. Tr:ib:ilho e Pro f'1ssao
- . .. . .. . ... . . .. . .. .. ... .... .. . 178
em várias etapas distribuídas de modo 111term_1te~t~ cm penod~s
., J-bbitação e Estrati~icaç:io .. . ..... .... .. . . . . .... . . . 193
199
de campo e de gabinete. Somou dados soc10lo?cos e _c~n_?lo-
3. O Sistema de Valor Emergente . .... .. .. . . . .. .. . .. . , !!icos obtidos na execução de dois diferentes ProJetos, dmg1dos
pelo Autor em épocas distintas : o primeiro, publicado resumi-
CONCLUSÕES damente na R evista de Antropologia (R. C. de Oliveira, 1957),
Cnp. IX _ Co11 trib11iç,io a 11111a Teoria do Contato lnterét11ico 209 objetivava estudar o processo de assimilação dos Terêna, pro-
1 A Noçfo d:: Tribahmo ........ .. . . . . . . .. ... .... . 210 gramando para isso um s11rvcy cm tôdas as aldeias e Reservas
l. Grupo de Parentesco e Grupo de Referência . ..... . . 215 dêsses índios e uma permanência mais demorada na "comuni-
3. O Conri111m111 e a Di, otomi:i Fo /k-Urbano .. . . ....... . 218 dade indígena" que melhor satisfizesse nosso interêsse de
4. A Situação de Gru'.Ã> Minoritário .... . ... · · . · · · · · · ·· 221 reconstrução da cultura tribal tradicional; êssc programa de
investigação de campo foi iniciado em julho de .1955, esten-
231 dendo-se até novembro do mesmo ano, retomado em outubro
BIBLIOGRAFIA CITADA . .... . .. . .. . ... · .... · · · • · · · · · · · · ·
e novembro de 1957 e, fin almente, encerrado em julho e agôsto
de 1958, totalizando nove meses de observações diretas e
sistemáticas junto aos Terêna aldeados. N esta última etapa, o
Autor fêz-se acompanhar do Antropólogo Dalton Moreira de
Araújo, então do Museu Nacional, que, na qualidade de pes-
quisador-auxiliar, permitiu o desdobramento de nossa investi-
gação, incluindo, simultâneamente, o estudo dos Terêna
citadin~s: através .da observação direta e da aplicação de
fo~mulanos nas cidades de Campo Grande, Aquidauana e
~1randa; nessa e_tapa, o A~t_o r dividiu o seu tempo entre aquelas
cidades e a Aldeia Cachoemnha. Embora ainda alimentássemos
a idéia. de escrever uma monografia sôbre Cachoeirinha ou
Bookott, como a chamam em língua Txané, como uma tenta-
tiva de des~rever as condições de existência vigentes numa
Reserva Ind!gen__a, demos por concluído êsse primeiro Projeto
com a ubhcaçao de O Processo de Assimila ão dos Terêna
. e. de a).

8 9
na diversidade de suas situações? Evidentemente, isso não é o
o segund~ P~ojeto, elabor~do par~ dar conti~uid~de ~s mesmo que perguntar sôbre o ethos tribal - como poderiam
nossas observaçoes Junto aos Terena citadinos, e de CUJa s1tuaçao fazer os interessados nos fenômenos de Cultura e Personalidade;
bastante peculiar tinha emergido uma série de questões não- êsse esprit de corps, que muitos chamam de ethos, preferimos
abordadas por nós no trabalho anterior, objetivou estudar de diagnosticar como fenômeno de tribalismo, interessados que
um ponto de vista estruturalista êsse segmento da população ~stamos num processo, mais do que nos padrões culturais ou
Terêna em processo de urbanização, atendo-se à organização sicológicos de atualiza ão do ser Terêna. E é por isso que
dos grupos domésticos e familiais egressos do meio rural e ec1 imos estudar os T.~rêna aldeados e citadinos, rurais e
instalados nas cidades de Campo Grande e Aquidauana. :Êsse urbanos, como pontos extremos de um processo de mobilidade
Projeto teve sua divulgação num Boletim do Museu Nacional Aldeia-Cidade, a que denominamos p rbanização. A inserção
(n.0 19, 1961) sob o título "Grupo Doméstico, Família e definitiva e irreversível do conjunto da população Terêna na
Parentesco: Idéias para uma Pesquisa em Antropologia Social". estrutura sócio-econômica regional, demonstrada em trabalhos
À guisa de treinamento em pesquisa, participaram da coleta de anteriores (cf., principalmente, R. C. de Oliveira, 1960a),
dados durante os meses de junho, julho e agôsto de 1960, os constitui por si só um atestado da inadequação de perspectivas
pós-gradu3dos e então estagiários da Divisão de Antropologia menos dinâmicas e que não incluem no seu horizonte de obser-
do Museu Nacional, alunos do "Curso de Teoria e Pesquisa vação diferentes "estados" de um fenômeno, relacionados numa
em Antropologia Social" que naquele ano ministrávamos na- série (gradient ou continuum) determinada. Porém, haveríamos
quela Divisão, sob os auspícios do Instituto de Ciências Sociais de entender - como efetivamente acabamos por concluir ao
da Universidade do Brasil: Roque de Barros Laraia, Roberto fim de nosso estudo - que essa mobilidade, incluindo movi-
Augusto da Matta, Alcida Rita Ramos, Edson Soares Diniz, mento nos espaços físico e social, respectivamente com a
Onídia Benvenuti e Hortência Caminha. Todos realizaram com migração e com a acomodação num sistema de classes de tipo
o maior empenho, lealdade e eficiência os variados procedi-
urbano, implicava também a permanência da primitiva identi-
mentos de investigação, sobretudo as Histórias de Vida, as
Genealogias, os Estudos de Caso e as Entrevistas guiadas por dade étnica ou, em outras palavras, a manutenção da condição
roteiro. Com exceção da última aluna mencionada, os demais de membro do grupo tribal. Isso significa _integração sem
prepararam minuciosos relatórios temáticos sôbre o parentesco, +assimilação, tese essa levantada no mencionado trabalho (1960a)
o grupo doméstico e a família, nos quais expuseram organizada e agora demonstrada, acreditamos, através da análise dos meca-
e sistemàticamente as observações - contidas em seus Diários nismos sociais emergentes das condições do contato interétnico.
de Campo - e os dados apurados através das técnicas socio- Com exceção do primeiro capítulo, introdutório à mono-
gráficas referidas. Ocioso será dizer da utilidade dêsse trabalho grafia, os oito restantes são elaborações totalmente novas e
de equipe, que veio reduzir sobremaneira a nossa consulta ao inéditas de um material etno-sociológico parcialmente explorado
material bruto referente aos Terêna citadinos. em outras oportunidades, como o leitor poder{l deduzir do
A convicção, firmada progressivamente à medida que mais exame da bibliografia do Autor. A necessidade d e se dar uma
nos familiarizúvamos com a realidade Tcrêna, de que nem um idéia de A Antiga Sociedade Tcrêna, a fim de se avaliar melhor
estudo sôbre Cachoeirinha, nem outro sôbre os índios citadinos, o trajeto percorrido pelo Tcrêna moderno, convenceu-nos a
realizados separadamente, possibilitar-nos-ia compreender e republica;, com pequenas ~1o_dificações, um ensaio escrito alguns
explicar a situação cm que se encontravam os modernos anos atras (R. C._ de Ohvc,ra, 1959), quando procurúvamos
~crên:, levou-nos a imaginar uma monografia que considerasse entender os mecamsmos de solidariedade tribal increntes à estru-
simultanea mente os moradores cm Aldeias/ Reservas e os resi- tura social TcrCna. A solidariedade, co1110 o tema central do
dentes cm Cidades. Com tal monografia procuraríamos ~ns~i?, e cor~10 um dos temas nucleares d est,~ monogra{ia,
rcsp? ndcr à seguinte pcrgunta: qual o mecanismo e ue leva os JUSt1f1cou, ass1111 , a tra11sfor111açfío do primitivo trabalho cm
Tcrena_ _a _se ma~ l rcn~ cia
. .,:..--,.---rr--i- - -_,_--. r--.
1 c _rs1co < g,oamcntc u111f 1cal os
__ lntroduçfío da presente monografia. No capítulo li, A Ccmsti-

10 1l
urbana foram considerados no capítulo AVIII, Aco!nodaç~~ ~:~
Sistema de Classes, procurando entende-los). em tecramraºiterísticas.
tuição das Reservas, objetivamos fornecer uma visão histórica 'f' - · 1 com novas e pecu iares 't lo IX Con-
estratI 1caçao sacia ,
desde o desbravamento do Sul de Mato Grosso por segmentos Finalmente, como Conclusão, escrevemos , o _cap1 u co~forme
pastoris da sociedade nacional e de sua ocupação posterior por 'b . _ ma Teoria do Contato l nteretmco, que,
tn uzçao a u d d · terpretação
remanescentes das fôrças brasileiras utilizadas no conflito Brasil- o título indica, visou a integrar os r esu_Ita os ª m ·
Paraguai até o grande progresso alcançado na região com a do caso Terêna no corpo de conhecimentos, polem1zad~ e
construção da ferrovia Noroeste do Brasil. No mesmo capítulo, t m diferentes perspectivas
controvertido, no qua1 se d ef ron ª . - d
procurou-se avaliar a situação dos Terêna durante êsse período teóricas e metodoló 0 icas. Tentando fazer uma_ avahabçao as
em que passaram po_r momentos de quase total desorganização, . ~ 1 - entre índios e rancos,
conseguindo reorganizar-se cm Reservas, em conseqüência da principais teonas sobre as re açoes
minorias inferiorizadas e maiorias dominantes,. n~o pu?emos
criação do Serviço de Proteção aos Indios. O capítulo III,
intitulado A Organização do Trabalho, mostra como pela ativi- evitar de reduzi-las a um nível comum de cocre?cia recipr~ca
dade produtiva, interna e externamente, puderam os Terêna sempre que isso nos pareceu ser possível. Acreditamos, assim,
sobreviver nas condições de vida de Reserva e inter-relacionar-se haver conseguido encontrar uma explicação bastante geral p a ra
com a sociedade regional, impondo-se no mercado de trabalho a situação dos Terêna modernos, suscetível de ~er t~m?da como
como mão-de-obra adequada à faina agrícola e às tarefas uma contribuição a uma teoria do contato mteretmco.
extrativas. No capítulo iV, A Organização da Família, é
caracteriz.i.do o grupo doméstico como uma adaptação da Escrita para tese de doutoramento em Ciê~cias ~ociai_s_, e~ta
família tradicional ao nôvo ambiente de Reserva, e é analisado monografia foi apresentada à Faculdade de F1lo~ofia, C1enc1as
o matrimônio como a instituição estabelecedora dos vínculos e Letras da Universidade de São Paulo em agost~ de 1966,
intra e interfamiliais, responsável pela dinamização das estru- tendo sido aprovada depois de apresentada e def~nd1da perante
turas mais tradicionalistas do sistema social Terêna. O estudo a Comiss5o Examinadora composta dos Professores Florestan
de O Comportamento Político, realizado no capítulo V, pre-
Fernandes (Presidente), Herbert Baldus, Fernando Alte~f~l_der
tende examinar um dos s~ores da sociedade Terêna atual
'" menos organizado," como a luta pelo poder e o lugar do índio da Silva, Gcrard Lcbrun e Egon Schaden. A?. texto defm1t1~0,
na política regional; paralelamente, procurou-se explicar a agora editado, procuramos incorporar as cnttcas e sugestocs
questão da chefia tribal num sistema de transição entre o que nos pareceram pertinentes, o que torna aquêlcs mestres
antigo (o naati) e o nôvo (o "Capitão") chefe. Com êsse credores dos nossos mais sinceros agradecimentos. De um modo
capítulo, encerra-se a primeira parte da monografia, na qual especial, queremos exprimir nosso reconhecimento a Florestan
se tentou descrever e analisar a situação dos Terêna nas con- Fernandes por seu incentivo e pela minuciosa leitura do
dições de vida cm Reserva. manuscrito original, numa contribuição indiscutível ao aprimo-
Na segunda parte, iniciada pelo capítulo VI, ao qual ramento de um trabalho que elaboramos sob sua inspiração e
chamamos A Instalaçcío dos Terêna 110 M eio Urbano, foram no marco da Cadeira Sociologia I, da qual é o Professor Cate-
examinadas as conseqüências mais significativas da migração drútico. Porém, para que pudéssemos escrever esta monografia,
Aldeia-Cidade, principiando por seu estudo histórico-ecológico. foi-nos indispensável o patrocínio do Conselho de P esquisas da
Com o capítulo VII, A Reorganização do Grupo Familiai, Universidade Federal do Rio de Janeiro (antiga Universidade
p~ocurou-sc estender e aprJfundar a análise dessas conseqüên- do Brasil), com a concessão de gratificação de tempo integral
~1ª5. º?s_ grupos sociais ( a família e o grupo doméstico) e nas durante o ano de 1965. Também colaborou com nosso empre-
mst1tu1çoes (o mat nmomo· • · e o parentesco ) mais . estrateo1cas
, . da endimento o Centro Latino-Americano de Pesquisas cm
estrutura . social, em sua transpos1çao
. - para a epoca
, atualº e para Ciências Sociais, concorrendo com uma ajuda financeira suple-
um ambiente
res·ct· . ct·tad'mo. O quadro ocupacional, os padrões de mentar, destinada às diversas despesas necessárias à elaboração
t enc1a e a va ne . da de de a1ternativas
. abertas pela ordem do trabalho. A essas entidades agradecemos o apoio proporcio-

12 13
n:ido. ,\os c0lcgas da Divis;io de Antropologia do Museu
N:icion:il. p~squis:idorcs Lt:iz de Castro Faria, Yonnc de Freitas
Leite, Robalo Augusto da Matt:i. Roque de Barros Larnia e
Jtílio Cczar Mclalli nossa gratid;ío pelos elucidativos debates
que propiciaram cm tôrno dos diferentes t6picns da tese.
Estamos :1gr.ukcidos aos cstagi:'lrios da mesma Divisão, Maria
INTRODUÇÃO
Cl:lra Galuppo. Elo:1 Jacobina Rocha Pires e Wagner Neves da
Rocha pda revisão cuidados:i do texto datilografado com dedi-
c::iç:io por Ycda llorges e Eunice Monsorcs, tamb~m merece-
doras de nossos agradecimentos.
R.C.O.

Quinta da Boa Vista, setembro de 1966

Nota do Editor
Manteve-se neste trab1lho a ortografia dos nomes tribais
conforme ª. convenção inst:tuída pela 1.ª Reunjão Brasileira de
Antrop?log1a e de uso corrente entre os antropólogos brasilei-
ros, cu1as normas estão publica das na Revista de Antropologia,
vol. 2, n.0 2, dezembro de 1954, São Paulo.

14
CAPÍTULO l

A ANTIGA SOCIEDADE TERbNA

o tc~ n r,

ll l!U'COA
Neste capítulo introdutório limitar-nos-emos a apresentar
a estrutura da sociedade Terêna ao tempo do Chaco e como
ela sobreviveu às mudanças operadas na área de desbravamento
em que se achava instalada; ao mesmo tempo, tentaremos
apreender as matrizes de seu sistema social 1 ou, em outras
palavras, os elementos formais que lhe são inerentes. Construi-
remos, assim, o que se poderia chamar de um modêlo ideal
da estrutura social Terêna, baseados, naturalmente, em da dos
empíricos, quer naqueles obtidos em campo, quer naqueles
colhidos em fontes bibliográficas. 2 Os dados de campo foram
EL DC:IPS
f - (Ocho t ,rin~ _ coletados graças à técnica de forçar a "memória tribal", recor-
2 • Pouo, in,io
l
4
· Mo,,uo
• U"1 õo
rendo-se a informantes idosos, uma vez q ue a estrutura social
" - Lo l 1mo
6 - 8011011 01
tradicional não logrou sobreviver ao contato interétnico. Por
1 • f P• ? u•
8 • L , móo• Y.,d•
outro lado, a bibliografia disponível, anterior ao século XIX,
') • A l d e 11111 0
10. a, , ióo pràticamente não registra dados de valor etnológico : mesmo a
11-
t-
81,11, tí
''º"~'"º Ho,to obra clássica de Sánchez Labrador, escrita no século XVIII ...
trata unicamente dos índ;ns Gua ná o ~ ané, dos uais_QL_
J crêna constituem um subgru po,_sem, contudo, mencioná-los de
um modo específico. Castelnau, Taunay e J. Bach, seus princi-
pais cronistas, somente vão aparecer no século seguinte. Mas,
1

« · ...
DOUIUOOS

(1) Q...mIJJ;5:1ltJ,..!lc ~)tcma~ oclaL adotado corr~•pondc ao form ula do por T a l· r


cott l'àrt,on~, con,1, 1,ndo • . . numa pluralidade de a gente, individual~ Jntcr aalndo
um com o o utro numa 1ltu:iç~n q ue te n~a a,1 mcno, um a, pccto f flfco ou am-
bienta l, <.•• J é dcl1nld•l e mediado c111 t ermo, de um •htcma de &fmbolo, cultu-
r a lmc nlc curuturado, e par11IJ1ad," " ( l'n2: j-f,J .
(2/ A ~•'4: rc,pelt,) nr.n '4:r~ di:m:o h evoc ar a411I a1 pal:1vra1 de J~ vi-'itrau1• ·
"lkvt--M: '.; ' c::~n mente q0ç . {). q ue v;, l,)tf,a o, C: bllHJ,,i, de c, trutura w>,i.JJ é q u~
~• $'2 U.!Jl !WD , .9 JDQddv;;, c11Ja, pr,1p11c1b t10 forma" potlc m i.e r comparada~ 111•
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1!•,11 J , J,c: vf, Jr, 19$2 :2'.1-3<1) .

17
Todavia a noção de estrutura não esgotará a realidade
embora representem as melhores fontes etnográficas do século social. :e o que nos ensinam, notadamentc, os trabalhos de
passado, as informações que dão sôbre o sistema social Raymond Firth, que, já cm 1936, com sua obra hoje clássica,
então ,igentc são insignificantes. Contribuições dessa ordem só We, The Tikopia, até seus mais recentes artigos ( 1954, 1955),
começam_com o missionário protestante Alexander Rattray-Hay, mostrava a necessidade de se estudar como procedia o grupo
que connveu com os Tcrêna da aldeia do Bananal, de I 917 a social, quando, ao se tornar incapaz de atender aos requisitos
I 920, quando o grupo local cstarn bastante aculturado. 3 As estruturais, se via na contingência de apelar para alternativas. r•
pesquisas ~odernas de Kalcr\"o Oberg ~ Fe~nando Altenfelder Tomando-se como exemplo as relações entre o irmão-da-mãe
Silva, realizadas nessa mesma aldeia, em I 946, e os estudos e o filho-da-irmã, quando devidamente reguladas por um prin-
fragme?t:í!"ios de H ~rbert_ Baldus - a respeito de complexos cípio estrutural, pergunta-se: o que acontecerá na falta do
culturais como a m1tolog1a ou a hereditariedade de chefia _ irmão-da-mãe? (Cf. Firth, 1954: 12-13). Problemas concer-
são os únicos trabalhos, resultados de observação direta e nentes à herança, nominação, contrôle social etc., passam a
sistemática que antecederam às nossas investigações. surgir quando um dos têrmos da equação irmão-da-mãe/ filho-
da-irmã deixa de existir ou, na família estudada, nunca existiu.
O registro das respostas que o grupo acha nessa emergência e
I. Estrutura Social e Organização Social que passam, inclusive, a ser institu:.:ionalizadas cm certos casos,
tratando-se de grupos em transição, oferece tanto interésse ao
. A aparente contradição de caráter metodológico que po- pesquisador quanto aquelas respostas consideradas do tipo
dena resultar da formulação de nossos propósitos, quando se convencional. Para responder a essa ordem de problemas, é
coloca a questão de construção de mcxJelos ( que implica uma que o especialista passa a operar com o conceito de organização
abordagem atemporal), junta mente com o registro das mudanças social. O conceito de organização social "reconhece adaptação
por éle sofridas (quando se reintroduz a noção de tempo), fica de comportamento cm vista de determinados fins, contrôle de
superada diante do uso qu e passaremos a fazer dos conceitos meios cm circunstâncias variadas, que são determinadas por
de estrutura social e de organização social. Se o conceito de mudanças no ambiente externo ou por necessidade de resolver
estrutura indica um padrão de uniformidades altamente estáveis conflitos entre princípios estruturais" (Firth, 1955:2) . Com-
(Marion J. Levi, Jr., 1952:57-58), no conceito de estrutura social, parando finalmente ambos os conceitos, de estrutura social e
"as qualidades reconhecidas são primàriamentc as de persis- de organização so::ial, ~ esclarece: "Se estrutura implica
tência, continuidade, forma e penetrabilidade no campo social. 9rdcm, organização implica uma ação com vista à ordem -
Mas a continuidade é essencialmente uma qualidade de repe- embora não necessáriamente a mesma orUcm"- (íbidem).
tição. Há uma expectativa de igualdade (sameness}, dependendo A utilização conjugada dêsses conceitos nos mostra que a
de como se formula o conceito. Um conceito estrutural é aquêle abordagem estruturalista, embora se fixe nas uniformidades
que fornece uma linha fixa de comportamento social e que _· _ altamente estáveis que servem de embasamento para a cons-
representa a ordem que êle manifesta" (Firth, 1955:2). Usado trução de modelos, nem por isso deve deixar de incluir cm seu
como um conceito heurístico, estrutura social permitirá carac- escopo os aspectos dinâmicos dos sistemas sociais, quer aquêlcs
terizar o sistema social Terêna para fins taxonômicos ou, ainda, ditos anômicos, 4 quer aquêlcs pertinentes aos processos
para uma análise estrutural, com "alto grau de comparabilidade" "normais".'. , de mudança social, espedficamente aquêles refe-
(Cf. Nadei, 1957:125). ---- '
(4) Durkheim, .~m [!e la Divlslon d11 Travai/ Social, tratando da "Division
du travai/ anomlque (Livre III), observa que um dos procedimentos mais ade-
O conceilo de aculturação permite uma manipulação dupla: a) enquanto
(3) quados para dctermjnar com maior precisão as condições de existência do estado
pr~sso, quando assume um caráter mais explicativo; b) enquanto estado ou "de- normal de_ um fenomcno é o estudo d_e suas for!"as "desviadas" ou anômicas.
irtts of acculturation", quando passa a ser usado para fins mais descritivos como Ad~erte, amda, que essas formas patológicas determmam a quebra da solidariedade
no presente caso (Cf. Ralph Bcals, 1954 :627) . ' social.

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então, Iioados às tarefas aux1hares ou, me ' Taunay
. o· I d e oimentos de a utores como
a se Julgar pe os p ( I 949 . 24 7) o tratamento dado ao§_
rentes ao que se poderia chamar de arranjos sociais. f: o que
(1931 :21) ou ~astelnau ível. rcve'l a ndo r ela.5ões de prote-
se procurará mostrar neste capítulo com a análise do complexo
o kauti era o mais suave I oss_ ' P ara um povo a2ricultor como
matrimonial e de seu papel na trama de relações intra e inter-
tribais, com referência e~:,ecífica à solidariedade tribal (i. e., ção, mais do que d ~ exp ~ra~ao~1ente si!rnificavam muito ouco·
à integração do grupo). O exame que se fará do sistema social s Terêna os kaull econom1ca muito m ais uma fonte de
eode-se dizer que represcn,ta_vam te econó mico) não apenas
Terêna, como totalidade inclusiva, focalizará, assim, aquêles
fenômenos que poderíam0s chamar de "conformidade" e de
,. ( r·
• erest1g10QO i~1co_
e secundanamcn '
- . d de mas _Rrincipalmente nas re1a-
"des,,io" em r elação a uma dada estrutura social matriz. no seio da prop na comum a ha á-Guaikurú u vizi h s e
...õ es entre esta e os oru os M . cus " cativos" e sobre-
• . d ~ ·m ocupavam mais s ' -
aha os. r.ste~, s1 , d" . rementa d e sua p opu 1açao,
2. Estratificação Social e Estratificação Étnica tudo, viam neles uma ! 0
:ma ;~~rto e do infanticídio, bas-

Max Schmidt, estudando o processo de expansão dos povos


tão desgastada pelo habit_? /º
V

t . or à conquista espanhola
tante desenvolvido no p eno ler~~! e[~mbém praticassem o in~
• de língua Aruák, indica que a presença de "cativos" ou, sim- do Chaco. C~__4!1~_nto_ ?s . orções verificadas entre
plesmente, capturados de guerra, é um elemento constante em fanticídio, jamais ele atmgiu as pr0 p Kadiwé u Há indi-
, G ºk , notad~mente entre os .
suas comunidades. Assim, comenta êle: "seria interessante os Mbaya- uai uru <.1 • • d de Terêna corres-
· saber por que meios a sociedade aruaque soube obter para si, - d I oar dos kaull na soc1e a
caçoes_ e que o u_ . - etnicamente diferentes e, portanto,
na base da cultura do solo, a posição de senhor sôbre outra ~ondesse ao de estrand~e1~os,_ passíveis de - trOca, i . e., e
clasSe de população, que se sujeita a trabalhar para o interêsse • trª tados com certa ~s: ancia , e. tribal (Taunay, 1931 :21) ·
de seus amos, auxiliando-os na obtenção dos necessários meios entrarem como bcn_s V comcrct ( como "classe"' estavam
de produção. Para criar, nas condições atualmente existentes, Todavia, pode-se dizer qu_e os _au ,, e esta ossuía
uma camada étnica subalterna, as tribos aruaques deverão pre- integr~dos nade st rubtura _soe~~ J:J~v~~~'~m:o v!:u~~ domiJante e
encher duas condições. Deverão entrar cm relações com a mecanismos e a sorçao ~. o
população das tribos vizinhas e, em seguida, essas relações etnicamente diverso, como veremos adiante.. . .
devem ser dirigidas de maneira a resultarem numa condição de Examinando-se a estrutura social ~ er:ena, verif1c~-se que
dependên~ia" (1917, cap. III). Se não ocorreu precisamente . ·d·d em dois orupos d1stmtos e socialmente
0
ela estava d_1v1 1 ª - - . ·b I d -
isso entre os Terêna - ou entre os Guaná como um todo • b stos. 0 grupo dos cativos (ka11t1) e o grupo tn a Q
so repo · n ere'na f:steS por sua vez, SU !VI 1am-se e m
- - bd. ·d·
•por haverem recebido dos .?\,.1b
cazes de captura ( de indivíduos - -
.,__,a..,\""'a,'._-...G;;;..u::..:a::..:ic.kc;:
c.; u""r~
Xamakôko, Xikito, Guató
ú técnicas mais cfi- - .
minante, os !. '
dois ~utros g rupos: um, ~ dos chefes e suas parente as, eno-
1 d
etc.) - permaneceram êlcs fi éis a uma certa forma do organi- . ado naati e outro, o dos homens comuns ou o povo, deno-
1
_zação social que compreende a integração de prisioneiros de :~~ado walzerê-txané. O primeiro têrmo é de rivado ~a p~l~vra
guerra - e de seus descendentes - no grupo e o seu aproveita- ~ que quer dizer bon1, enquanto_ o s:,gund~. et1molo~ca-
mento como mão-de-obra servil. mente quer dizer gente ruim (~ l- gente , 1wahere \-_-
Os reflexos dessa situação de dependência na estrutura " ru1n1
· ") , ,n1as si·ºonifica, realmente ' gente comum. Como se ve,
social Terêna se fariam sentir pelo estabelecimento de relações
.
ocorreram duas formas de estratificaç~o: uma étmca e o~!@
• assimitricas entre êsse grupo Aruák e os kauti (neologismo · l1- de acôr<lo , aliás • com a teona • .de _Thurnwald (apud
t~ané criado para designar os " cativos" obt~na 0 uerra ou socia •
IbÍ<lus e Willems, 1939, verbete Estrat1f1caçao So~zal). O r~-
~ nas sorti?:is especialme-nte org:.rn~ para a captur~). Nem
ltado disso - conforme indica a figura I - f01 o aparec1-
sempre, e verdade, êsscs kawi podiam ser aproveitados nos tra- su . , . d
menta de uma estrutura tríplice e ass1mt:tnca, como uma as
balhos agrícolas, pois que muitos dêles vinham de tribos ades-
tradas somente nos mistercs da caça e da coleta. Ficavam, características do sistema social Terêna.

20 21
. _ . ,. 10 ~ em maloca apontando com um
?" ~ª
.-
pela mult1dao, ia ma b guete Organizava-se o re-
bastão o que dese1ava para o an . s xumonó a provoca r
Naati (" LINHA DE CLASSE") . fim dêste passavam o •
pasto co1etivo e, ao . ' . t' p assiva mente a todas as
os sukirikionó que ~evenam /es_is ir Depois de algum tempo,
J •..,. 1 ., ,
brincadeiras que aqueles lhes aziam. , d " jfüw" denominado
dava-se oportunidade à . r~~cão: a traves 1aâo e ..., os xumonó, de
mootó · em filas os sukm kwno, de um , A' a metade
. , 1 t tre si trocando socos um
Waherê outro, passavam a u ar_ e7 . , ulheres e crianças, natural-
contra outra, entrando rnc us1~e m es ectivos ru os de
ente circunscrevendo-se as utas aos r
idade e de sexo. , . . . ·s Ji oados ao
Essa caracterização sumana dos cenmomad1 º ,.,,Ia
pel das meta es na re5u -
(LINHA fiNICA) oheokoti servem para moS t rar ~ ~a r. nos indica que
mentação do comportamento mag1co-re 1~10sJ e r dades se-
Kauti a cada uma delas se atribuíam determ1~a as gua I '
• gundo as quais seus membros se devenam comportas. Dois
FIG, 1 sukirikionó esperava-se que f ossem
A
mos enquanto dos xumonó esperava-se que ossem
f
"JJJansos" cordatos
A "b e vos"
ra
ca -
,
~ocadores e violentos. :esses diferen!e.s comporta mentos
impressionaram tanto ao missionário evangehco Al_exa_nder Rat-
3. Divisão Dual tray-Hay que êle, piedosamente, identificava os pnm~iros c~mo
"bons" e os segundos como "ma_!.1~. Parece-nos mais provavel
Dividem-se ainda os Terêna ( excluídos, naturalmente, os á'"interpretação do Alte~felde~ Silva qu_e sugere representa_re~ os
• kauti), em metades n~:!o_s:ajiz-ªc!_a~ sukirikionó e xumonó, • segundos a juventud~L irreqmeta e bnncalh_oll~,. e os pnmeiros
tendo cada uma delas os mesmos direitos sociais, resultando a maturidade, séria e tranqüila (Altenfelder Silva, 1949:319).
assim serem simétricas suas relações. O processo de estratifi-
cação que determinou a estrutura tríplice e assimétrica acima f:sse mesmo missionário, que conviveu com os Terêna n_a
esboçada não teve lugar aqui, embora se possa reconhecer uma segunda década dêste século, diz o seguinte a respeito. da on-
diferenciação dos papéis desempenhados pelos indivíduos per- gem dessas metades: ''.Não fomos capa~es de descobn~ comq
tencentes a cada uma das metades, ao menos durante os ceri- se originaram as metades, embora suspeitemos que estep m . re-
moniais do oheokoti_. lacionadas de ai um modo aos irmãos bom e mau de sua mito-
~ " (Rattray-Hay, 1928: 109) . o Lmito rconta a história de 1
:Êsses cerimoniais começavam com rituais xamanistas e • Y llrikoyuvakái o herói civilizador, que tirou os Terêna do i,
!~_rr.:iinavam com práticas- profanas. 9 personagem central era Tun o a terra e lhes deu o fogo (tokeoré), bem como todos
o koixomuneti, ou o médico-feiticeiro, modernamente conheci-; os instrumentos necessários à sua sobrevivência em cima da
do, também, por "Padre". Por ocasião do aparecimento da terra. Quanto à sua origem, conta o mito - segundo uma
• constelação das sete estrêlas (as Plêiades), ou melhor, quando versão de Kalervo Oberg - que "No princípio Yurikoyuvakái
estas atingiam sua altura máxima no céu, por volta do mês era um só ser. :ele vivia com sua irmã Livéchechevéna. Quan-
~ realizavam-se festividades em homenagens aos mortos, do sua irmã plantou um pomar, Yurikoyuvakái roubou os
ao ~ esmo tempo que elas marcavam o j níciQ_ ç!o tempo @ frutos. Livéchechevéna então ficou muito zangada e cortou
colhei~. Aos rituais mágico-religiosos, seguia-se uma coleta Yurikoyuvakái em dois, e, posteriormente, das metades cresce-
~rimonial de alimentos dirioida pelo yanakalú um ~ ram gêmeos" (1949:42). Essa versão não sugeré nenhuma
X , e,- '
umono todo 12aramentado e masca.!:?,do, que, acompanhado superiÕridade de um gêmeo diante do outro. Entretanto, a ver-

22 23
., /

/ 1/

1
Endogamia das Metades e das Camadas
4.
são que colhemos revel.. que uma hipótese da preponde- O antigo sistema social Terêna não permiti_a__Q___lTlattimôniD
..-
rância de uma metade sôbre a outra - à medida que cada ·
• fora das camadas e fora das me~ades. . .U m naatr,· por e_xemplo~
uma delas corresponderia a cada gêmeo - não seria de todo só podia casar-se com umJ naatt ( ou vice-versa) e, as~1m 1:1es
absurda. De acôrdo com um velho informante Terêna, "Yuri-
mo, desde que esta pertencesse à mesma metade. Ass1~~ ~oss~
• koyuvakái tinha um irmão Taipuyukê, um pouco inferior a êle;
um dia começaram a cortar nuvem para matar a todos, porque êle um sukirikionó, apenas se casaria com uma sukmkwno.
não queriam que nós vivêssemos. Mas quanto mais cortavam, Isso ocorria também com os waherê-txané, como uma camada
tanto mais a nuvem crescia. Então os dois largaram de cortar, imediatamente inferior. Mas, enquanto êstes também estavam
porque se cansaram. E cada um tomou seu caminho". As divididos em metades, xumonó e sukirikio11ó, .QS k~111i - ~ -
versões obtidas por Herbert Baldus contam-nos que "Antiga- • compunham a camada mais baixa no sistema Tere?a - nª9
mente Orekajuvakái era um só e quando môço a sua mãe ficou apresentavam a mesma divisão, uma vez g__t:t_~ p-~tenc1~_!1?: a g!J:!_-
brava pois Orekajuvakái não queria ir junto com ela à roça, P.OS tribais de culturas diferentes, tendo por separa-los uma
foi à roça, tirou foice e cortou com ela Orekajuvakái em dois liríhá- étnica; -ê ~ não social, como vimos no parág!:_<!_fo_l. Sendo
pedaços. O pedaço da cintura para cima ficou gente, e a outra metades e camadas endogâmicas não cabe aqui falar de sua
metade gente também" (1950:218). Baldus indica ainda que
haveria outro mito de herói-civilizador Terêna, que corres- transmissão genealórica, )Ois, eertencendo pais e mães a um
ponderia a um personagem malicioso e nem sempre bem inten- mesmo g~ueo social, seus descendentes só poderiam acompa:-.
cionado, diferindo consideràvelmente da figura do Yurikoyuva- nhá-los ( ver figura II). Entretanto, com a mudança que sei
kái: seria o herói Pitanoé que é o equivalente do Taipuyukê, processou nas comunidades Terêna, resultando em casamento
de que nos falou o informante da aldeia Cachoeirinha. Parece entre membros de camadas e metades opostas, os filhos passa-

~w
~~
t.>.

-
que o mito por nós colhido concilia os dois personagens
Yurikoyuvakái e Taipuyukê ( ou Pitanoé), que seriam original-
mente um só e que, posteriormente, dividido cm dois, deram
ram a receber a camada e a metade por linha paterna até que,
tornando-se os grupos sociais agâmicos, institucionalizou-se a
• herança patrilinear.
i· vida a duas personalidades distintas e que corresponderiam às
A permanência, até hoje, da divisão de sociedade Terêna
~ : metades sukirikionó e xumonó. As outras versões obtidas por
\ I nós e por outros pesquisadores não são mais do que variações em metades, embora essas metades estejam em processo rápido
~ do tema que aqui estamos expondo. Quanto à superioridade de desaparecimento, deve-se à sua_função cerimonial, ao passo
'- de um sôbre outro, Altenfelder Silva vem em apoio dessa hipó- g_ue _as can;a~as, por não co~tarem, com formas - sequer
i tese, dizendo que, depois de Yurikoyuvakái ter sido cortado ao ntuais ou lud1cas - de atuaçao, ca1ram no esquecimento da
~ meio - "Da parte de cima cresceu um Yurikoyuvakái; da 11 · comunidade, excetuando-se, naturalmente, os velhos, sobretudo
~ • parte de baixo cresceu outro. Mas o primeiro era quem man- .~ ! { ! como veremos adiante. Apesar disso, quando o Terêna
~ dava" (1949: 349) . jovem ou adulto era argiiído s~bre a camada a que pertencia,
t.. Das conversas com os Terêna a impressão que fica ao procurava rememorar se seu pai era naati ou waherê (não en-
' etnólogo é de gue os sukirikionó são considerados ligeir~_!llente -~ contramos descendentes de ka11ti), demonstrando apoiar-se
super~ores aos xumonó, embora essa superioridade jamais s.e igualmente, em critérios patrilineares. _Apenas nos casos de ma:
, refletisse na conduta social. Provàvelmente essa diferença de trim~nios _intertribais ou interétnicos é que o filho ou a filh;
etho~ ~Ôm~nte teve lugar 12.Q;_ ~er"°i~oni~s -mágko:_re_ugi~Ol e ~g~1a a linha materna, evidentemente no caso do eai não ser
no_s JQ~s_profanos descritos linhas atrás, sem chegar, contudo, • Tere~a. Entenda-~e, entretanto, que essa última alte-r~ativa
a mflu,r na ~egulamentação da vida social. Nesta, o ~ que oc?rna quando o JOV~m ou a jovem Terêna continuava na al-
ª5• metades vieram a desempenhar, juntamente com as camadas, deia, s_end°:"l?e, por isso, conveniente identificar-se e ser pelo
" foi O de regular o matrimônio, como passaremos a ver. grupo 1dentif1cado como Terêna (Cf. R. C. de Oliveira, 1960 b).

24 25
aldeias, todavia, que apresentam índices ainda mais elevados,
reveladores de variação da intensidade com que atuam os fatô-
(e)
,,
,,---- .... , ',
,,
,,, ----- , ','
.....
r es deculturativos na população Terêna global.
Mas nos enganaríamos se tomássemos essas cifras como
conclusivas a respeito da persistência menos duradoura das
I
I '
\ s / \' camadas como formas reguladoras do matrimônio Terêna. Ao
I

:1 naati
\
1
,
u : naati
'
I
\! i> contrário, pois, embora esqu~cidas mais r:'tpidan~ente pelo con-
• I K X '\ ,' 1
+-}; junto da população, não o foram pelo reduzido gru_po_ que
1/ 0 realmente tinha interêssc na conti_!!uidac!e de_ sua _~ 1pe_!!_Q!:_I~_!!de
\
' ', .... ______ , ,,I
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1 U ''
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,,
' ~9_cial, _a saber, os próprios naat{. Um dos casos mais come~-
R ' , tados pelos Terêna, e que ilustra a vitalidade da estrutura t~1-
( o) 11---.1--' M ,___ ...._ ..._-_-_-_-_-_-__

,I /
,, -------
....
',\ K O
,
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''
plice e assimétrica, mostra que por volta de 19 l O uma famílta
waherê-txané pediu a mão de uma môça 11aati para que ela se
\ 1 N I, \
casasse com um de seus membros jovens, argumentando que
, \
O / I I ' ambos estavam bastante enamorados. A avó da môça (mãe da
I ' Q ' mãe) negou-se a dar o consentimento, alegando que o preten-
'1 waherê ,' f waherê ! dente não era um naati. Só acabou cedendo diante da pressão
'\ I' N.
O ''\ ' de sua própria família : seu genro (pai da môça ) instou junto
', .. ' ', ___ .," , ,' ' ' ,, ,,,
, II
à sua mulher para que pedisse à sua mãe (avó da môça) para
( b)
,, .,,,.----- ...... ... ,
----- que esta desse o consentimento, alegando que alimentar três
filhas era demasiado para êJe. Há certas parentelas naati, em
Cachocirinha, que continuam mantendo a endogamia de ca-

I
,, ' '\ mada, casando-se e ntre si, preferencialmente, e apenas tole-
rando o casamento de um dos seus membros com indivíduos
/
1 kaut i ': walierê-txané. Isso leva-nos a concluir que, enquanto a estru-
\ I tura dual e simétrica desapareceu completamente como elemen-
\ I
\ I to regulador do matrimônio, permanecendo apenas na m emóri:l
''
.., ____,,, , , do grupo como "regra cerimonial", a estrutura trí_Q__Hce e assi-
o métrica, apesar de pouco lembrada pelo grupo total, continua
a ter certa atuação, precária, é verdade, na regulamentação do
FIG. II matrimônio dos naati, como um grupo social inclusivo.
tsse esquema ilustra a atomização da estrutura social Tcrêna, determinada pela
endogamia das metades e das camadas: as linhas seccionais (a), (b) e (c) com-
panimentam a estrutura social cm cinco áreas onde o matrimônio ~ possível,
como indicam os círculos pontilhados. 5. O Herói Guerreiro: o xuna-xati

Se tomarmos como exemplo a situação de Cachoeirinha - A dinamização da estrutura tríplice é alcançada graças ao
a aldeia Terêna de características mais arcaicas (R. C. de Oli- • xuna-xati. A interpretação de Oberg (1948:284, 1949:28/ 9)
veira, 1958:2) - veremos que de um total de 208 casais e Altenfelder Silva ( 1949: 319), baseados, provàvelmente, em
78 (37,5%) sabiam a que metade p ertenciam, enquanto 130 Rattray-Hay (1928: 108/ 9), segundo a qual os l xwza-xatiJre-
(62,5 % ) nada nos souberam informar. Em relação às cama- presentariam uma "classe" social situada entr e os naati e os
das, então, o índice de desconhecimento era bem maior. Há walierê, parece-nos destituída det fundamento, uma -vez que

26 27
mdivíduo de um--ª--camadª- iJll.erior_podi~_prQ_c1:1ré!!.. uma ~oIQPa-
• oJJelr.a na camada imediatam~nt~ s~nor. Embora estrutural-
tanto os primeiros como os segundos e, ainda, os kauti pode- mente nadaimpedisseque um kauti/xuna-xati se c~sasse com
riam tornar-se um xuna-xati, desde que matassem um inimigo uma naati-seenó, parece que isso dificilmente ocorna em face
• na guerra. ;IJ~na_-_3_9ti era, em suma, o_rrijlt(!g_Q!,___Q_g_uerreiro ue da maior resistência à exogamia que os naati demons~r:avam,
~e ~ç_H<!Ç{I.YéL!!Q_ caf!l_RO de batalha matando um adversário. como grupo inclusivo. Os mesmos mecanismos que dificulta~
Contam os Terêna que, depois de matar o inimigo, o guerreiro vam _ ou quase impediam - a a~censão do k~uti/ xuna-xall
,p_u_!!ha o pé sô!;,re .9 _seu pçit~ _e_tQ_Ç_ava uma buzina, anunciando ao pôsto de "Chefe de Guerra" funcionavam aq~1 na manu!en-
seu feito. ao mesmo tempo que reclamava o título de xuna-xati. ção de sua endogamia de grupo. P~r': a soc1eda~e Terena~
Do grupo social formado pelos xuna-xati, i. e., dêsse ºIJ!PQ de como um todo era suficiente a adm1ssao dos kautt/xuna-xatl
"titulados", é._que_ cr._;;1..Dl...rrÇrutados os "Chefes de Guer~a" sem e seus filhos, homens, como membros da, trib9. Formalmente,
levar em conta sua origem social ou étnica - emborã 'fôsse quebravam com isso a linha étnica qu~ ate entao os ,~eparavam.
, I!!!Q (segundo nossos informantes) um kauti, tornado xuna-xati,
Mas nem assim a parentela dos cac1que,_5 ~u dos . _Chefes do
_ ç~~g_ar a se: "Chefe de Guerra". Precisaria ser excepcional
Povo", i. e., os naati, aceitava sem relutancia ad~,ti-los com_o
para competir com o poderoso grupo dos xuna-xati, Terêna de
membros de seu grupo inclusivo. Pode-se atestar isso pela di-
nascimento. Parece que a "chefia" ficava mesmo entre os xuna-
xati/naati e os xuna-xati/waherê, o que revela ser a linha étnica ferenciação de status e.xis~nte.s_ entre__o~ C_hefe d.e G..u.erra" e
menos permeável que a linha social na sociedade Terêna (Cf. 1
o "Chefe do Povo", sendo que o prestígio dos últimos era be111
figura III) . ,maior que o dos pi~~&~ (Altenfelder ~ilva, 1949: 319-32_0).
Quanto aos waherê/xuna-xati pode-se dizer que eram aceitos
normalmente pelo grupo dos naati como consortes de suas mu-
Naati lheres. 5 Para o naati a vantagem em tornar-se também xuna-
xati era poder pretender ser um dia_escolhido_"Chefe de Guer-
ra", pois gue para "Chefe do Povo" já possuía as condições de
• pascimento indispensáveis. Esclareça-se que num gru_po local .
Terêna havia somente um "Chefe do Povo" e um "Chefe de
Guerra".
Waherê
Com a dinamização da estrutura tríplice e assimétrica,
graças à ocorrência de mobilidade vertical, a sociedade Terêna
teve que encontrar meios de ajustar os filhos dos xuna-xati
(fôssem kauti ou waherê) na sua estrutura social total, i. e., não
apenas na estrutura tríplice como também na estrutura dual e
Kauti simétrica. Assim, o casamento de um kauti/xuna-xati com uma
waherê/xumonó, por exemplo, resultava em descendentes xuna-
l'IG. Ili 1, xati/xumonó, quando se tratava de filhos homens, e waherê-
seenó/xumonó, quando se tratava de filhas. Os filhos seguiam
. _ Na esfera ma~rim_onial, o papel de~empenhado pela insti- _a linha paterna, quanto ao título de m"ª-tador ( ou guerreiro l ~
tu1çao de xun~-xatt foi de suma 1mpo~tanc1a. Veio a guebrac a linha materna quanto à metade; as filhas herdavam sO~e~~
_uma endogamia de camada uc cm termos estruturais tendia
a ser abso uta. Os auti/xuna-xati passavam a ter direito de se
• c~sar com mulheres waherê (waherê-seenó), enquanto os wahe- (5) lnterJ?rctand<Me o matrimônio como uma ín.stítuíção de intercâmbio d
mulheres (Lév1-Strauss, 1949), o grupo dos naa/1 ficaria prejudicado pois d d e0
r re/xuna-xati podiam se casar com uma naati (naati-seenó). o m.ulh.eres aos wahul/xuna-xatl, e dí:lcs nada recebendo, teria de b ~car s ua:\
-- posas em outtos grupos locais. s-

28 29
dade T erêna uma sene de expectativas, partilhadas por tô das
de sua mãe os nomes da camada e da metade (Cf. fig. IV, a). as camadas da população. O status de heró i guerreiro p assava
Tratando-se de descendentes de um waherê/xuna-xati/ sukiri- a ser almejado igualmente p ela p opulação m asculina c m seu
kion6, por exemplo, casado com uma naati-seenó/ sukirikion6, conjunto, dando ao xuna-xati uma função alta me nte integradora
os filhos igualmente acompanhavam o pai, enquanto as filhas no grupo local, a través da correspondência e ajusta m ento d os
acompanhavam a mãe (Cf. fig. IV, b) . No primeiro caso, a papéis guerreiros e dos direitos sociais a dquiridos. P or outro
filiação tende a ser regulada pelo princípio de dupla descendên- lado, estimulando a eficiência e a bravura nos comba tes, a
cia e, no segundo, pelo de bilinearidade . sociedade Terêna preservava-se a si própria.
A descendência Terêna que, com exclusão do xuna-xati,
era bilateral por fôrça da endogamia de camada e de metade,
com sua introdução passou a ser alternativamente patrilinear e 6. O Sistema de Parentesco
matrilinear, de acôrdo com os exemplos examinados. __Algyps
aspectos, todavia, não conseguiram ficar muito claros. Um
Com ligeiras modificações - que não a feta m a sua estru-
dêles se refere à extensão do xuna-xati não apenas aos filhos
tura - a terminologia de parentesco T erê na p or nós r egistrada
verdadeiros de Ego masculino, m as a todos aquêles incluídos
corresponde às apresenta das por Oberg ( 1949) e Alte nfelder
no têrmo classificatório de djê-á, i. e., aos filhos homens dos
componentes masculinos de seu grupo de sibling. O desapare- Silva ( 1949). Podemos classificá-la como p ertencendo ao Jin.Q..
cimento da estrutura social estudada torna êsse problema pràti- "havaiano." , de acôrdo com Murdock ( 1951 : 64) , e a nalisá-la
tendo em vista o sistema de relações entre ca tegorias de p a ren-
camente insolúvel.
tesco significativas p ara a compreensão dos problemas centrais
(a) (b) aqui abordados. B assim que, exa mina ndo-se o sistema de
_parentesco, verificamos que fi ca veda do ao grupo o casamento
k/xxt. w./xm w.lxxtJsk n./sk s_onsangUíneo. Não é permitido o casamento e ntre primos,
sejam paralelos ou cruzados, nem o casamento entre tios e

à==0 & 0 sobrinhos (Cf. fig. V). Sc:ndo - os filTios-- (as) dos i r-n~ãosc
• .irmãs dos pais considerados irm_ãQs, ta mb~m as relações sexua is
entre êlcs passam a ser consideradas incestuosas. Po r a í se vê
qu~ a ~ocie~adc T erêna, dand~ ênfase à solida rieda de do grupo
de irmaos (as) - de conformidade com o princípio de unida de
d~ grupo_ do ;ribling ( Radcliffc-Il rown, 1952 : 64-67) - , r eduz
• ainda ,mais a are~ onde o matrimôni o é P.err1_1itido,j<!.JãQjj mitada
., face a endoga mia ~~~- m et~~lc.5__e _d~s_ ca mad~s. o ca sam ent~ 1
, ap_ar_e nt~men~e perr111t1do, ou talvez desejado, entre os filhos (as) \
dos 1rmaos (as ) do sexo oposto a ENo ( masculino o u f · · )
. 'f . )º 'd CtnllllllO ,
xxt./xm w. /v..m xxt.lsk. n./sk. ,. e.,. ague. es rnc 1v1, uos . classificados
·· ·sob , O te' rin o nevonge, ,
e. hoc,1-se dia nte. da
. enfasc dada pelos T eren· ~
,1 , l sol"d · d
1 an e a e d
FIG. IV do grupo de ~-,b/111~. Se algum dia ta l relação foi possível _
com o_ a term1~olog1a de parentesco pa rece indicar _ é uma
Enfim, a existência do xuna-xati, como mecanismo de questao
T . ~ ,que · nao se p ode tratar sem reco rrer ,a con·JCt uras. o's
ascensão social (através da ampliação do mercado matrimonial c_r_cna atu~1s, p~r e~cmplo, o negam termina nte mente. Nem
ou da integração ao grupo tribal dominante) bem como de mesmo a:- 1111tologia tnbal nos auxilia nesse se ntido , como o faz
elevação política ("Chefe de Guerra" ), criava 'na antiga soeic- cm r e) açao ao casamento entre cunhados.

30 31
sororato e o Ieü rato, sobretudo o primeiro, encontramos van os
casos, não só em Cacboeirinha, como em outras aldeias T erêna.
O certo é que o ipterésse sexual entre cunhados é tema mitoló-
~ , como passaremos a \'er no seguinte mito Te rêna, hoje
transform ado em mera lenda: '·Um , ·e]ho !!ostava da cunhada
dêle. (Estamos transcre,·eitdo as palaH as d o informante) . A
9
cunhada dêle fazia farinha, fazia xiripá (tanga feita de algodão) .
Morreu a cunhada e o \'elho. chamado \'iily, enterrou-a no
cemitério. Entã o o tatu foi mexer na cunhada dêle e então o
velho achou ruim. Aí, Viily mandou fazer uma tarimba ( um
estrado levantado acim a da sepultura) para esperar o ta tu." O
mito continua a relatar a façanha de Viily cuida ndo d o corpo
de sua cunhada, faland o com seu espírito (koipihapati), recor-
rendo a um velho k oixomuneti ( médi co-feiticeiro) para adquirir
podêres mágicos e, por fim , perdendo tais podêres porque ma n-
teve relações sexuais com uma mulher (o mito não escla rece
qual o seu parentesco com essa mulher). Sem entrar na análise
do mito, pois não é o caso aqui, basta-nos assinalar o ,lugar
da cunhada no mundo moral Terêna, como objeto d_e_jn_!cijss~
sexual e matrimonial.
FIG. V

(l)andi, (2) mong,tx6, (3) dii-á, (4) inzinl, (5) ne\'Ongi, (6) amor!, (7) za6,
t Por out~o la?o, a estrutura social Ter_ê~a não . admite a
~- forma Jk-poltandna fraternal. A forma adm1t1da, lcv1rato, i. e.,
(8) un6 , (9) wng6, (10) oong6, (11) onzu, ( 12) onzt'....Todos _?S termos enu-
merados. constantes do esquema de pa rentesco consanguineo, sao eleme ntares, ~ Gmento da viúva com o irmão do marido, ainda subsiste,
qua nto à ~ua estrutura lingüística, e de referê ncia. quanto ao 5;CU m? do de uso. podendo-se encontrar só em Cachoeirinha dois casos. O casa-
.t.sscs do is critérios é que nortea ram nosso leva ntame nto da terminologia de paren-
tesco. E ntretanto, há algumas discrepâ ncias se o co mpara rmos com os _pub!1cados
por Obcrg e Allenfclcler Silva: com relação ao tio Materno (9) e a tia. 1 atcrna
mento .poligínico de um homem com várias mulheres não-
( !O) êlcs prefe rem os têrmos descritivos ayo-ecn6 e 11101111.etxá-zaá, rcspecllv~me!:'te aparentadas entre sl pmce ter si.90 uma forn,a permitida dentro
irmão da mãe e irmã do pai (esclareça-se que ayo é o te rmo que designa irm_ao,
falando ego feminino ); enqua nto Obcrg prefere o tê rmo ayo-un6, _Altcníclde~ Silva da org_anização social tradicional, para tornar-se hoje uma forma
4'
•t/ liga aro ao vocativo /11/11 (titio). Sublinhe-se, ainda , _que os ,rmaos do pa i e ~s
irmãs da mãe são, respectiva mente, designados pelo te rmo vo~at1vo taatá (papa,)
proscn~_a. Entretanto, a forma comum é a monogâmica, acom-- -
1'1 • e muml (mamãe), juntamente com o pai e a m ~e ver dadc,_ros. O . s1, ~e ma ~ panhada de matrilocalidade e, modernamente, de bilocalidade e
parentesco também faz dis tinção entre irmão mais velho (e111od) e 1rmao mais
• môço (andl), fal ando ego masculino. ? neolocalidade. 7 (i)
:i tf-''
,4> Entre os parentes afins, o casamento preferenti~l . parece 7. A Exogamia de Grupo Local
/ ter sido aquêle entre um homem ou uma m~lher e o onJuge de
·,,1 sua falecida irmã ou irmão i. e., ocorrência de sor rato e de
' -1evirato. Essas relações, 'embora sem serem prefere~ci_ai_s, Reduzida a área da estrutura social Terêna onde o matri-
coexistiam com as formas de poliginia simples e de pohg1ma mônio é ~ossível, com a endogamia de metade ~ de camada, e
sororal. Algumas dessas formas até hoje persistem, apesar de com a umdade de grupo de sibling, relações essas acima ex:1mi-
serem em regra combatidas pela comunidade, notadamente um
caso, em Cachoeirinha, de poliginia sororal. 6 Já quanto ao . (7) Murdock (1957) cla~si_fi_ca os Terêna na categoria "uxo ribiloc nl /. e
bilocal depo is de ~m período m1c1al :ºm ou perto da parentela da mulher": ~ st~
problema . nós o d1s~u11rcmos no capuulo IV, particularmente nas p :ígs S9-90 A
f ma t;ilo,~?hdadc alud~da é uma . hipótese válida apenas para a "aniig~ soei êJ d ·
( 6) Além dêsse caso soubemos de outro na aldeia Brejão (Capitão Vitorio~), T_c rena ' com rclaçao aos T c rc na m ode rnos a análise será aprofund ada naes a ,e
êste de polit inia simples. ' Em ambos os casos os maridos e suas espôsas eram obJe- gmas 92-93. p ..-
tos de reprovação pela comunidade .
_/,d-~ ~~ -h"9; '-&,.k;ru/4 :::t ~ }"'/.~• ~ '?'"'//vt / ~
\\
([}, P 3/r-u,,.:4 1
-
32 d~a ~t!M't ~ll ~ i {~ ~ Y t'a/1t · V
, or ocasiã o da Guerra do Para u a i. Durante êsse tempo -
e o que a e e se seguiu, até a reorganização das a ldeias, j á em
nadas, tiveram os grupos locais Terê na de voltar-se para fora, princípios d êste século, assunto d e que tratarem os no próximo
• buscando mulheres onde existissem e com uem o casamento capítulo - os Terêna tiveram de sobreviver cm condi ões de
fôsse nCiOnado pelas r~spectivas comunidades. sso ocorria a extrema penúria, inclusive corno cativos nas fazendas d a região.
prin~ahn ente entre os naati, não apenas por ser uma camada O r esultado disso, pode-se verificar hoje, fÕ( o desaparecimento
mais ciosa da defesa ac sc,1s direitos de supremacia e prestígio, de contatos freqüentes e sistemáticos entre as comunida d es,
mas também pelo fato de ser minoritária, e contar, por êsse mo- agora distribuídas em R eservas Indígenas, com o conseqüente
tivo, com um mercado ma!rimonial menos extenso que o dos desinterêsse do Terêna por seu patrício de outra aldeia. Embora
:tl'aherê-t.rané. Por outro la d o, o casamento entre os naati dos não seja difícil a um indivíduo encontrar um parente em qual-
diversos grupos locais existentes resultava no fortal ecimento das quer das aldeias hoje existentes, êsse p a rentesco é tão distante
relações inten:::ruP.ai.~, contribuindo para uma unidade tribal que, e tão frouxo que n ã o o compele a estreita r s uas relações. O
de outro modo, dificilmente seria alcançada nas condições em T erêna continua a identificar-se com sua comunidade de origem,
[
que vivia a população T e rêna, em seu conjunto. como antigam ente se identificava com seu g rupo local, sua
\ :írias vêzes ouvimos de nossos informantes idosos e, camada e sua m eta de; continua também a tratar se us patrícios
sobretudo, do wlho " Capitão" Timóteo (falecido em 1958), de outras aldeias, como p ertencentes ao seu povo; m as a antiga
comentários saudosistas a respeito d e um tempo em que era trama d e r elações intercom ~nitá rias, de comércio d e bens e de
comum o casamento entre indi,·íduos d e aldeias d iferentes. troca d e mulheres desapareceu completamente, enfraquecendo
··..\ntü:zmente a gente visitava mais os noss_s,s patrícios de outras a solidariedade tribal, a ponto de as comunidades formarem,
aldeias... ··o p:,vo era mais unido··. " H oje já não se têm muitos ª elas m esmas, unidad es discretas e alheias ao destino das demais.
p:?.rentes por af'. :Ê e,i dente que outros fatôres, econômicos e
, politi:os. intervieram nessa mudança proclamada e lamentada ; ,t...·-w,.... ' c..v,~,-..,.J.' ,,_.,l õ õ""
l pelos velhos informantes. T odavia, fica-nos a idéia de que uma
po?ulaç20 d:.stribuída em vários grupos locais e sem nenhuma
chefi.a comum ou. em outras palanas, sem unidade política
sôm:>:1te 2.l:an::2\·a um ce rto estado de solidarieda de tribal
• 2.traYés co ÍJJte~=imbio de mulheres, sobretudo na camada dos
. naarí. ~essa c2m2da, onde regularmente não se seguia a norma
oatrilo:al, em ~ tratando de casamentos interco munitários, o
~ .:n trz.zlz a mulher pa ra sua aldeia, passando ela a per-
~ 2.0 seu yupo local. E ntre os waheré-txané, embora
o::o:rt'!>!; a e.r.oz,:mia d'! grupo local, ela era m enos freqüente
r.i."l w d~,ídú w rm:.ío: m:.--rcado matrimonial co m que contava
e:t¾:. c~mz& ( ampliado ainda graça"i am casamentos de
,,,aJv:ré/ ;;un.a-xatí cúm naatí-'feen6), mas tambfm pela rc"iisténcia
d:, í-r1e-m v,aheré-txané a saír de wa comunida de, dc í.r.ando

, w.r, ~ rent,,. e: amígr.r.s.


·1rufo índí:.1. q ue a unidade entre 0 1 grupm locais Tcréna

l tra ~b:.r.:;~a p<,r rntío da ~.<Jlída riedadc c.r.í, U:ntc entre o;; naatí,
;wmú grupo ín~lu~ívo que era . J\ prc~c nç a des:-ia cama da cm
\ tt~r,1 cn .:ldc,.,rncntl~, a pa r da c.r.og,,mía dé grupo local, pode-se
'd11.cr q ue era funçlo da w lídarícdadc trih,11. Cc,mprova-sc isso
pelo dc~mcirc,n;imcnu, cfa ~Mrutura sr,da l diante da díflpcrsão
• ,da pupulaç~o T cré na, face à _desartic ulação do~ t rupog_Jocaís
35
34
PRIMEIRA PARTE

A RESERVA INDIGENA
CAPÍTULO II

A CONSTITUIÇÃO DAS RESERVAS

A sociedade Terêna tradicional no modo pelo qual a


caracterizamos no capítulo anterior - i. e., tomando-a até <'
ponto onde permitiam os dados empíricos ou os registros hi~t
ricos disponíveis - revelou-se portadora de um ,.i , •

peculiar: a tendência à "introversão" dos grupc


compunham ( endogamia das camadas e das ir
pela análise do complexo matrimonial, teve '
uma nítida "extroversão", tanto de carát'
sensu, quanto político, lato sensu. A
consubstanciada nas alianças dos gn•
tudo, às trocas de espôsas naati ( e·
As mudanças de situação decor
de Mato Grosso acarretariam
social indígena, retificando-se
pontos e estimulando algur.s a
manter uma coesão tribal ela
capítulo, pretende-se descr
sociedade Terêna modem/
história que podem ser e'
gração à ordem nacionr
Indígenas alcançaria ur ·
ditória - finalidade·
apenas de uma peq•
b) a institucionaliz'
neamente, a autom}
relações intercomtif
• l
mtracomunitárias , i:
·. ~
e os Echoaladi, os Terêna teriam sofrido de modo bem violento
a conjunção com a sociedade nacional, a partir do momento em
1. Os Ciclos de Povoamento que foram envolvidos na luta contra os paraguaios. Até êsse
tempo, êles constituíam um grupo relativamente isolado, como
A história dos Terêna, ao menos em sua fase que pode- indicam algumas das principais crônicas de Taunay sôbre o
ríamos chamar moderna, é a história da ocupação brasileira no
episódio da guerra com o Paraguai. 4 Em seu isolamento,
Sul de Mato Grosso. Pouco depois da penetração dos grupos
Guaná em território brasileiro, cruzando o rio Paraguai para apenas rompido por contatos esporádicos com missionários
suas margens orientais, segmentos pastoris da sociedade nacional católicos, sua cultura teria sido pouco atingida, e suas experi-
começaram a se deslocar de nordeste para sudoeste, da zona do ências junto ao "branco" quase nulas, se considerarmos, natu-
"triângulo mineiro" em direção aos "campos da Vacaria". 1 o ralmente, as experiências de contato direto. O contato indireto
Esse deslocamento, que viria iniciar uma primeira tentativa de fica por conta do quadro de relações intertribais : suas relações
ocupação econômica do Sul mato-grossense, teve lugar por volta com subgrupos Guaná ou Guaikurú, cujos componentes vinham
de 1830, portanto decorrido menos de um século da imigração de um convívio sistemático com a população colonizadora, quer
Guaná. Em tempos anteriores, no comêço do século XVlll, as de origem portuguêsa, quer espanhola. Talvez por meio dêsses
incursões luso-brasileiras na região não passaram de empreen- grupos tribais, teriam os Terêna recebido os primeiros imple-
·mentos meramente desbravadores, realizados pelos bandei- mentos de origem ocidental, as primeiras notícias da existência
\tes, que, em sua busca de metais preciosos, não podiam do colonizador e, provàvelmente, as primeiras epidemias de
ocupação civilizadora. 2 Tal ocupação só come- doenças até então desconhecidas. Mas, o que nos parece óbvio,
e dar como resultado da expansão de uma nova é que a partir do conflita Brasil-Para uai a situa ão Terêna
'l pastoril, que estava baseada na necessidade alterou-se sensivelmente. ---
de novos pastos para os rebanhos. Mas a A fixação dos desmobilizados inicia um ciclo de colonização
nacional nos ermos mato-grossenses ainda que iria até a primeira década do século seguinte, quando a
... tunidade, devido à própria natureza da • Çomissão Rondon, por volta de 1904, percorreu a região meri-
~ âmica de sua frente pioneira, condi- dional . de Mato Grússo construindo as linhas_J~eg_@(ica1. s
iµebas e pela rarefação demográfica. esse ciclo corresponde ao surgimento de verdadeiras fazendas
\ ~ Guerra do Paraguai, depois de já com características "modernas", pois constituídas de pasto~
~ dos exércitos brasileiros acan- delimitados por .cêrcas de arame, indispensáveis à contenção dos
0
:ante êsse período, que medeia rebanhos nas glebas de seus proprietários. No ciclo anterior -
-oastoris e o fim do conflito desde as primeiras descidas de gado do "triângulo" até O início
· rem os Terêna, tanto quanto do conflito com o Paraguai - , o gado não se circunscrevia a
'o intensamente os efeitos do áreas. cercadas~ pois _os ~xtensos campos e o pequeno número
·; os Kinikinau, os Layâna de cnadores disso nao tinha~ nece~sidade. No ciclo seguinte,
\

face ao aume~to da populaçao regional e, conseqüentemente,


:227-228; para Indicações mab co~ o . apare?1!11en~o de novos fazendeiros, a disciplinação dos
1960, cap. IV, pas,lm. t~mtór~os foi mev1tável_. . ~esse ciclo, a mão-de-obra indígena
~ Ocsle, no anfiteatro Cerro- 0 1u-se me? ora~a defm1ttvamente na economia regional. Se
dabl, a provlocia teria, em antes' havia
· ·
servido
1
de produtora de bens agrico as p ara um \
·a dos para sua defesa, ji
1ue, e na limpeza do ter- co!11er~10 megu ar, organizado em têrmos de troca de produtos
\cs elementos eram com-
,s batalhões formados em pnmános com mercadorias - quase como um prolongamento
!lesmobiliuçlo. E a eles-
ara a fixaçio, nas terras
•. os m.isteres da auerra.
~1ávels arupos de anli&os (4) Cf. Al~redo D'Escragnole Taunay, 1948:268; 1931:269 .
k Sc>cln, 1941: 101) . (S) Cf. Missão Rondon, 1949, pa.uim .

41
0
impulso que tomou num quarto d~ século, de 1914 a 19i0, _
povoamento dessas regiões~ bastara º?sedrvar que ; h ~b~aªJ:C~
( ) ascendeu nesse p enodo, a mais e cem m1 -
do comércio intcrtribal vigente no Chaco - , agora sua vincula-
ção à ordem social e econômica regional passava a instituciona- 0 ~ -~ais do quíntuplo da popul ação estimada ; nt;s ~~ -~o;i5:~~~)~
da Estrada de Ferro" . (Fernando -de r·A zcvc o, 9 ~· . d
lizar-se de duas maneiras : como cativos, em posição simétrica
tal processo de povoamento, nao
·
icanam os
Tere na m en es
' .
aos escravos remanesce ntes ; ou como peões "livres", ainda De . 194 1 a 5 a Inspetoria
presos às fazendas por meio de "contas intermináve's", assu- de conseqüências, tanto assim que, em ' .
midas compulsoriamente com a "Casa", em suas relações de R eoioml ·se transferia de Bauru para C a mpo Grande ,-.- c.omd_o
trabalho. Quanto à primeira modalidade de engajamento à ·
um~sintoma · ·r·1ca do da a, rea na p o 11t1ca rn 1-
expressivo do s1gm
sociedade colonial, os depoimentos dos velhos T erêna são bas- genista nacional.
tante expressivos quando nos relatam os sofrimentos por que
passaram : "~o,pQ__q_ye___bugre era _que_nem_ Degro, tinha ~~
cachorro". Com relação à segunda modalidade, que se suce- 2. A Proliferação das Reservas
deria ao cativeiro indígena, o ~poim_çQto ___Qe Rond.2_n é claro
e preciso : "São comumente explorados pelos fazendeiros. -
Foi no início dêsse terceiro ciclo d e ocup~ção do Sul de
~ difícil~~9!1trar um _camarada Terêna que não deva ao seu_
atrão os cabelos da cabeça( .. . ) Nenhum 'camarada de Mato Grosso que as áreas ocupadas p elos T erena come~ararn
conta' poderá deixar o seu patrão sem que o nôvo senhor se a ser reservadas pelo Estado de M ato Grosso, a traves de
responsabilize para com êste pela sua dívida ou o indenize Decretos e Atos firmados p elos então Presidentes d e ~s.tad_o,
imediatamente. E, se tem a ousadia de fugir, corre quase sempre ou através de Resoluções expedidas pelas Cfimaras Mumc1~~1s.
o perigo de sofrer vexames, pancadas e não raras vêzes a morte, ~ primejras reservas datam de 19~j/_!_?_05, como ~~ns_eque ~-
em tudo figurando a polícia como co-participante de tais aten- cia imediata da ação de Ronc.Ion a frente da Com1ssao das
tados" (Missão R ondon, 1949: 83). A crescente-se que durante • Linhas Telegráficas. Nesse período foram criadas as R eservas
êsse período a maioria das aldeias T erêna estava de~g~ada, de Cachoeirinha, Bananal/lpegue e L a lima , tôdas n o a nti go
com as comunidades desorganizadas por efeito da invasão Município de Miranda, futuramente redividido em municípios
• paraguaia e a fu ga deseus com,eoOeOtes para as serras dà
menores. 6 As duas pri~r.eiras abrangeriam três aldeias d e
Bodoquena e do Maracaju. Terminado o c011flito, o retôrnõ
maciço das populãçõcs- inâ ígenas não se deu evidentemente formação antiga, 7 remontando à época das primeiras migra-
para suas aldeias de origem, pois que muitas delas tinham sido ções Terêna para o cerrado m ato-grossense : Cachocirinha,
• totalmente destruídas, queimadas pelo inimigo. A população Bananal e !pegue. A constituição das três como Reservas Indí-
dispersada vinculou-se ao trabalho nas fazendas que começavam genas resultaria de uma única decisão política, imposta, natural-
a se espalhar, quer nos vales e nos campos, quer nos altos das mente, pelo prestígio de Rondon. N um único docum ento,
mesmas serras para onde se haviam evadido. firmado pelo Presidente do Estado, foram reservadas uma á rea
Os primórdios do século XX iriam encontrar os Terêna de 7 200 hectares e outra de 3 200 h ectares; a m aior para as al-
nessa situação que os Relatórios da Comissão das Linhas Tele- deias Bananal e I pegue (aldeias contíguas), a m e nor p ara Cacho-
~áficas nos descrevem. 1:. nessa época que se inicia um terceiro
ciclo de ocupação da região e de colonização da população
F · Cnincide com a criação do Serviço de Proteção aos
• ndios (19 1O) , a que se seguiria a ligação Bauru-Pô,Uo
(6) A_ redivisão do Município de Miranda determinou uma separação entre
Reserva_s_ situadas anteriormente num mesmo _ m unicípio, como Bananal/ l peguc · e
Cachoem~~a, conforme Ato ~ 1_7. de 6 de m~10 de 1905, que instituiu as Re ervas.
lisperança, pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, concluída Tal red1v1sao mantc~e Çachocmnh~ no Munic1pio de Miranda, m as passou Bananal /
Jpcgue para o Municip10 de Aqu•dauana .
em. 19 14. Nesta data a NOB passava a permitir a ligação entre (7) A categoria de "alde ia antiga" fo i devidame nte conceituada por nós em
ª c1~ade de São Paulo e Pôrto Esperança, trazendo um desen- O Process'! de :Assimilação cios Te rê11a, cm seu capitulo Vl para O qual remete-
mos_ o leao_r; tal conceituação foi precedida na mesma ob'ra (cap. V) por um
volvimento excepcional pc1.ra a área por ela percorrida. Fer- capitulo emmen~emente descritivo e comparativo, razão pela qual nos dis pensamos
de retornar aqui ao assunto .
ilando de Azevedo comenta que "para se ter uma idéia do
43
42
. . - - - - - - - - - - - - - - - - - -- - - - -- - - -- -- -- - - - - -- -

K , Guaraní sua população majoritária,


nuou ten d o nos .ayoa- , d Reserva denominada
confinando os Terena numa area ª . d
eirinha. s Na mesma época, Rondon teria incentivado os Te- Jaguapiru. Verifico -se em Francisco_Hor_ta O . fen? me~o ª
1
rêna dispersos em fazendas da região do rio Miranda a localiza- ~egregacao [sé bem que csp~2t~nca) de ~~~~nTm~!:~s:~~bad~·
• rem-se na Reserva Lalima, de remanescentes Guaikurú, cujas r o·osa pois em sua tota 11 a e esses , o
terras ha,·iam sido doadas a êles pela monarquia. 9 Com uma ~:;;~das' do alto da serra de Maracaj~, id~nti_fi~~vam-se ~~~~
área de 3 600 hectares, Lalima não possuía densidade de popu- protestantes diante dos Kayoá-Gu~ram ~ ªJºr!tanamert~ na
lação capaz de assegurar a posse efetiva dessa área, razão ela Jicos En1 L- alima êsses dois fatores nao tiveram uºar
uai a localiza ão de famílias Terêna em suas terras seria da · - , T êna passaram
situação de Reserva, uma vez que nao so os er ' d t' _
maior relevância cstratégit::a parauma p olíticaindigcnista rcgio-· . . · · · d desfrutavam a mesma I en 1
nal. Veremos adiante que cm outros lugares como Alves de a constituir ma10na, como, ain a, , . A · Ji-
. - 1·g·osa que os Guaikurú: a de catohcos. s imp_
Barros, Nalique e São João - Postos Indígenas da Reserva dos f 1caçao re , , d ·t - es serao
Kadiwéu o mesmo expediente seria adotado como uma cações teóricas da comparação dessas uas si uaço .
• tentativa de povoar o ktTitório Mbayá com remanescentes examinadas noutro lugar dêste trabalh_o, q~a~do tratarmos mais
Guaná. detidamente da situação do contato rnteretmco. .
Até 1919, porém, Lalima não havia conseguido atrair um Essas duas Reservas, de composição étnica múltipla,
número significativo de indivíduos Terêna, a darmos crédito foram povoadas de índio~ Terêna mais ou men~s_ na _me~ma
ao Relatório Anual dêsse ano, feito pela Inspetoria de Mato :~poca em que outras eram criadas, como a de C_ap1tao V1ton~~·
Grosso para o Diretor do Serviço de Proteção aos fodios; a de Moreira/Passarinho e, alguns anos dep~>1s, a de Bunti.
somente em 1925, com a efetivação de um nôvo recenseamento, Foi assim que, cm 14 de dezembro de 1922, cnava-sc .ª Reserva
verificar-se-ia um excepcional aumento da população da Re- Capitão Vitorino, pelo D ecreto n. 0 • 611, do Presidente do.
serva que, em seis anos, dobrava de número, passando de 130 Estado, por iniciativa do Coronel Nicolau !3ueno Hort_a B a r-
para 261 habitantes (aumento êsse devido, ao que tudo indica, bosa, então inspetor do Serviço de Proteçao aos 1nd10s e1!1
à migração T erêna) . O acréscimo da população de Lalima, Mato Grosso. Abrangia essa Reser~a 2 8QO h~ct~r~s do ~um-
nesse período, coincide, aliás, com a instalação de numerosas cípio de _Nioague, que P.assavam assim ao P ~tr~mom.o Ind~ge~a.
famílias Terêna em Francisco Horta, Reserva de 1ndios Kayoá- O Decreto não fazia senãp reconhecer o d1re1to desses md,os
Guaraní, no Município de Dourados. Esta Reserva, que teve à _área que habitavam provà~clmentc desde . ~ns <lo. século
a posse de seus 3 600 hectares amparada pelo Decreto de n.0 passado, pois, já em 1.904, o t10 do atu~l ~ap1tao, - informa
401 , de 3 de setembro de 1917, firmado pelo Presidente do a crônica oral dos Terena, - de nome V,tonno mudava-se com
Estado de Mato Grosso, começou a receber migrantes Terêna sua família da aldeia Laranjal para o lugar chamado Drejão,
por volta de 1924/ 25, período em que foi fundado o seu Pôsto sítio em que se instalaria anos depois o Pôsto Indígena Capitão
Indígena. Ao contrário de Lalima, que viu seus tradicionais Vitorino: tanto Laranjal quanto Ilrejão estão hoje inseridos no
habitantes Guaikurú sup~rados em número pelos migrantes perímetro reservado pelo mencionado decreto. O Pôs to I ndí-
Terêna e demais remanescentes Guaná, Francisco Horta conti- gena da Reserva, fundado cm 1925, haveria de estimular o
afluxo de famílias T erêna para Capitão Vitorino, atraídas p ela
assistência que o S. J>. 1. prometi a ; só no ano de sua fundação,
~
i
C(8 !!_o seguinte o texto do Ato que instituiu as Rese rvas de Bananal / lpcgue
ac ocinnha : "Ato n. 0 217, de 6 de maio de 1904. Fic am reservadas duas
a Reserva haveria de receber 16 famílias de Terêna, vindas do
:-•as
Tde t terreno, devolutos, no Município de Miranda, para aldeamento d os fn-
l~ta~r na, ><:ndo uma de 7 200 hectares e o utra de 3 200 hectares, a prime ira
alto da serra. Nessa mesma época, por Resolução da Cftmara
e de Fra':'f!' tcrf"' ~o Coronel Ei-.tév;ã.o Al\'CS Corrêa, ao Non c e ao N ascente . Municipal de Miranda (n. 0 33, de 28 de dezembro de 1925),
foram de C~\C~ ·crrcira M cnd~s, ao Sul e ao Poente, e a Leste com terra'\ que
ln>pctoria R~ ª -º _ll atma . da_ J·o nscca" (cópia de documento, arquivados na 6.• cojlcedia-se aos índios Terêna moradores do lugar chamado
K10na1 do Serviço de Protcçiio ªº"' ! n<lios, cm C uiabá ) .
Dite~/,a : ; :, \ nd icaçiio <ncontra-.c c m relatórios interno• do S.P.I. envi ado, à
Moreira, suburbano ü cidade de ..MJran~a, uma área de terras
'11.a.biu.n, (o f ~.\pCluriai k cg_.1 ona1~; _num dê Jc, , enco ntramos a ~cguíntc in.dicação : com sua delimitação especificada nos têrmos do citado- d o:
vive-m cm : rr n 1 º' 1uaicuruà) a aldeia Lalima, d1.'ltantc 9 légua, de M iranda,
\ for am dcma,ca~n~. que(" lhe• _fo ram rcw:rvados pela mona rquia e q ue ainda n ão cumcnto. Es~ ~mitaç~es cnvolycm propriedades particulares,
os · ntlatório Anual, Mato Gros.o, 19 19) .

44 45

f
I guc on incumbia um de seus funcionários de visitas
S· P · ·• - ' . ora tentava msta
· 1ar ~m. P Ôsto ln 1 ena
cs orúdicas ü akh:aa
dos nomes de seus donos atualmente muitas numa área de posse precária. Tal ~rea, afarmava-se, compre-
C as Ja vcn I as ou desmembradas, razão pela -quãl SC t"õ rnã ~ndia 2 500 hect;t(Ç$ cuja dcmarcaçao - cm 1960 -. estava
muito difícil chegar a uma conclusão sôbre o seu quantum cm sendo ~c..::::st~u~d....:
ac:..:
da= p=e-1; própria municipalidade de AquadauaAna.
. d · d Câmara um
hectares ou se a mesma Resolução incluía, além de Moreira a
aldeia Passarinho, a ela contígua. Informações posterio;es
Acreditava o Prefeito po cr conseguir ª . _ V dto.
dando posse das terras aos índios Terêna de Limaf d. er ;•
colhidas em rel~tórios do Serviço de Proteção aos f ndios, indi~
contava entretanto, articular-se com a Inspetoria de -~ ,~os e
cam para Moreira 53 hectares, enquanto para Passarinho 118. Campo 'Grande (SPI-IR.5 ), a fim de levar a~ant~ sua I eia que
Somos levados a acreditar constituir a soma dêsses hectares viria se concretizada coroar anos de rcivind1caçoes de quantos,
o total da área concedida pela Câmara Municipal de Miranda ' ' · t 11 O incremento
em 1925, na qual se omitia, apenas, o nome de uma das aldeias. índios ou não, se empenham nesse mas er. . lo
A Reserva Buri_ti seria a última, nesta série de criação de de sua o ula ão deu-se em eríodo bem mais recente e,
Reservas, a ser instalada pelo Serviço de Proteção aos fndios. menos a partir da década dos 30, pois s_e em 1927_ possu~a
O D~creto de sua instituição remonta a ~ sob o número apenas 162 habitantes, em 1954 apresent~ria 246; por~m, mais
834, de 14 de novembro. Nesta data, Q Presidente do Estado do que Lalima e Francisco Horta - aldeias onde as difer~nç~s
concedia aos Terêna uma área de 2 000 hectares do então tribais estavam bem nítidas - , Limão y erde apres_e_Egi_r!a e
Mumcí 10 de Cam o Grande, ho 'e situada no Municí io de C
aracterístico uma multiplicidade de etmas,___~~wolvc ndºf Rªr~.:..
. , · · T - d sua re erencia
i rolandia, habitada desde 1920-22 por al 0 umas famílias guaios, peobrasile1ros_e..2.nd1~ : . A 3ust1 icaçao e dendo
Tu~pa, que disp~tavam cs_sas terras com_reman~sceôtesofãy~ neste capítulo encontra-se, ~o fat~ _de estarmos sur~reen
Xavante, para CUJO yesaloJamen!Q__poster!or _soncorreriam deci- uma das modalidades histonco-socia1s da transformaçao de ~1?ª
sjyJ m~e_. Parece qu~ ~sses Terêna teriam sido , usados por Aldeia em Reserva Indígena, com suas implicações na poht1ca
fazcnde1ros com o obJetl\'O de expulsar os Ofaye - índios indigenista regional.
coletores e caçadores - a fim de substituí-los como mão-de-
obra, seja para ser aplicada na lida do gado, sej.a para o trabalho TABELAI
nas pequenas lavouras que se formavam junto às sedes das
\l fozend:is. Se, crri 1913, nada havia no lu!rnr - como nos indica
o mapa feito nesta data por Curt Ninn;cndaju 1º - relatórios Reservas indígenas
Área
em
Data
do
hectares Decreto
do S. P. 1. assinalam, em 1923, uma população de 420 pessoas
em Buriti. antes, portanto, do decreto de sua criação. A CACHOEIRINHA
3 200 * 1904
situação de foto desta população indígena teria exigido êsse ato 8ANANAL-1PEGUE 7 200 ** 1904
legal como tambi m o exigiria a situação de aldeamento de 3 600 1905
LALIMA
Limão Verde, no Município de Aquid:iu:ina. 3 600 1917
FRANCISCO HORTA
2 800 1922
Ao tempo em que re:ilizávamos nossa pesquisa de ·campo, CAPITÃO VITORINO
1925
:MOREIRA-PASSARINHO 171
entre 19 55 a 1960. Limão Verde ainda permanecia uma aldeia 2000 1928
cuj1s terr~s se inscreYi:im n:i cate!!oria de devolutas. Ao coo- 8URITI
2 500 (?) ('?)
LH,ÜO VERDE
tririo cbs aldei:is mencionadas n; par:.ígrafo anterior, pràtica-
mente po\'oacbs ou repo,·oada.s na d~cada dos vinte, Limão (*) Foram demarcados 2 260 hectares.
\"erdi:. existente desde a ipoca da Guerra do Para!!uai, consti- ( ** ) Foram demarcados 6 337 hectares.
tuiu-~ num1 aldeia sup-:rvisionada. intermitentemente pelo
( li) Por m:tis que nos cm~nhi sscmos junto so S.P.I. no Rio de J aneiro,
1 •
~
Po.= ó::m::.:::..po do lrupctoc uuz Bueno Horta B:ut>osa, N imuend:iju
!~':l)
=
e:,;,,;~ ~ 1l~ ntos Tcrên:i, c::u:o::itnlI!do-sc o mesmo arqui,·ado
~;,xra <!a Scrn.o ó: Pro:~o a.os b dios .
l não c->nseguimos obter informações recentes sõbrc a situação jurídica das terras de
Limão Verde.

47
46
TAOELA II

3. A População das Reservas Recenseamentos/ Anos


Reservas Indígenas
1926 1954
As breves indicações demográficas dispersas nos parágrafos
anteriores podem ser completadas com algumas referências ao
conjunto da população aldeada. Sua população, recenseada CACHOEIRINHA 436 834
em 1954 pelo SPI, recistrou um total_çle_ 3_ 22Q_indivíduos. DANANAL/IPEGUE 1 330 1 060
Dêsse censo, excluímos Francisco Horta, uma vez que não se LALIMA 261 256
distinguiu na Reserva a população Terêna da Kayoá; nossa CAPITÃO VITORINO 178 202
estimativa não dá m a is de 200 indivíduos Terêna na Reserva MOREIRA 98 130
Francisco Horta. Faltaria, apenas, uma referência à população PASSARINHO 110 109
Tcrêna da Reserva dos ín.iios Kadiwéu, domiciliada junto ao DURITI 420 483
Pôsto Indígena São João, às m a rgens do rio Aquidavão e LIMÃO VERDE 162 246
próxima da serra da Bodoquena. Fora do Estado de Mato
Totais 2 995 3 220
Grosso, i. e., no Estado de São Paulo, há ainda a Reserva Curt
Nimuendaju (Araril'á) de índios Guaraní, com cêrca de uma
centena de indivíduos Terêna. Excluíram-se, igualmente, do
censo os Terêna dessas duas últimas Reservas, de remanescentes ríodos, só sendo separadas a p arti r de 1946, é poca e m que o
relatório anual dá 995 pessoas para Bananal e 384 para Ipegue,
Kadiwéu e Guaraní, con.c ta mbém deixou-se de considerar
num total de 1 379. E, aliás, a cifra mais alta atingida pela
censitàriamente o contingente Terêna levado pelo S. P. 1. às
dupla d e aldeias, situadas na m esma Reserva. D e 1946 p ara
aldeias Kaingáng de Vanuire e Jcatu ( esta última transfor- cá, parece haver-se iniciado um processo d e evasão da R es_erva,
mada, no passado, em "escola co~ onal" para índios da 5.ª sobretudo da aldeia Ba nanal, que m enos d e d ez anos depois
Inspectoria). portanto em 1954 - apresentava uma população de 617
A Tabela II ajudará o leitor a avaliar as flutuações da indivíduos contra 443 de Jpegue. Os relatórios do S. P. I.
população Terêna pelo menos durante três décadas, entre 1926 consultados indicam que já cm 1921 h averia uma tendência
e 1954. A primeira data ro; escolhida pelo único fato de se pos- mi ratória ara Cachoeirinha devida a dois motiy__os : prim eiro,_
suírem informações censitá.-ias sôbre o período que vai de 1923 pelo superpovoamento da R eserva; segundo, por motivos de 0
a 1927, graças aos relaté rios daqueles anos; tomou-se 1?26 o dem religiosa, uma vez que a penetrAÇ~_Q_ protcstante em
arbitràriamente, uma vez que dêsse ano se logrou con~egu1r_ o ananal 0 eradora de conflitos olítico-religiosos na comuníêlacle,
maior número de dados dc-;nográficos. O ano de 1954 e aquele mduziri~os "católicos:_n_sc_ cvadi rem da_ten sa situação resu :
em que se faria o primd ro recenseamento do Sul de Mato tante. 13 Essa explicação é consistente com os dados demo-
Grosso, cobrindo efctivam;::nte tôdas as aldeias. 12 gráficos de 1954, controlados por entrevistas por nós realizadas
Em razão do caráter fragmentário dos dados demográficos em 1955 cm Bananal, Ipegue e Cachoeirinha: verifica-se que
a evasão indicada pelos números, caso tenha-se dado no passado
de 1926, não pudemos separar as aldeias de Bananal e I pegue,
como o fizemos em relação a Passarinho e Moreira. Nesse ano, em direção a Cachoeirinha, moderna m ente se d eu em direção
a Jpegue, pois enquanto d e 1946 a 1954 a p opulação de Ba-
Bananal e Ipcguc aparecem indistintas nos relatórios dos pe-

(13) No Relatório Anual da lnspclori_a de Mato Grosso à D iretoria Geral


(12) Dez anos depois, cm 1964, 0 Conselho Nacional de Prot~ção aos fndios do S.!'.I., e~ 1921, lê-se: "Os índios continuam a aflui r (para a Reser va), mas
(C.N .P.1.) cmrrrcndcria um nmbicioso rcccn,camcnto (dcmo11rM1co, econômico. Jt1 cstao sc1~1 111do que o Dananal e o . l_1x:1111c nilo OJ poJcrão conte r po r muito tem-
1>si>tcncial etc.), cujos rc,uitados uinda c,1ão por ap;ucccr. Exclufmos f'rancl sco po; e se vao__ra~sando para Cnchocmnha. Informa o Sr. Hobcrto \Verncck ( Ins-
llorta do Quadro Ocmo~rMico (tabela li) pelo fato de não contarmos com dados petor da !teg1ao) que , essa afluência j: também devida no dcst,:Osto pela invasão do
que !l<'rmitiss~m a identificação da minoria Tcr~na, lnclulda na e,tat(stic:i global protcstanttsmo, ali:'ls limitada só no Bananal".
ela Rr>crva.

48 49
promissoras pistas do ponto d e vista· t conco.
' · D e qualquer
nanal caía em 37,9%, a de Ipegue, no mesmo período, aumen- forma a mortalidade dos Terêna, mais do que os procc;~os
tava em 15,3 % ; a justificacão das mud~nças,. nas ,palavra~ dos deso;ga~izatórios, é o maior atestado da inoperância da p_ohtica
próprios índios, era a de que não quenam viver no meio da ' ·
indigenista posta em pratica naquc la a'rea . Como ela e exc-
briga". O exame do quadro demográfico, entreta?to, revela cutada e em que níveis da vida tribal opera é o que veremos
um- aspecto da maior si_gnifi~ação capaz de nos onentar para
2 nos próximos parágrafos.
a avaliação da vcrdadcira s1tuaçao cm que se encontram os
Terêna, do ponto de vista do comportamento de sua população
aldeada. Vê-se que. cm cêrca de trinta anos SU_l\_ p_opu~çªp
ràticamente_ se m~rntcve a mesma. O aumento de 225 indiv1- 4. Os Postos Indígenas
duos, neste caso. é irrisório, e pode ficar por conta dos muitos
enganos que acreditamos haverem seus recenseadores cometido. Os Postos Indígenas, que se contam a mai_s de uma cen-
A ~alta frrtilid::1de d::1 mulher Terêna - que cm Cachoeirinha, tena em todo o território brasileiro, são as umdad_es d~ ba:e
por exemplÔ. 1- dc 772- filhos para 1 000 mulheres entre 15 a do Serviço de Proteção aos 1ndios no que tange a ?plicaçao
49 anos (R. C. de Oliveira. 1958 : 10) - acarretaria um ponde- da política indigenista nacional. Em regra, cada Posto está
r:\\'el crescimento vcgct::ttivo da população Terêna. se não localizado numa Reser;_Y.!,-i __l_Ddígcna. havendo Reservas no
tivesse como contrapartitb uma alta mortalidade a ceifar vidas cntâl1to 1 - @e_ pod.cm _conter Jnais de ,um ( COl~O O ~aso d§s
em tôd:is as cbsscs ctári:is da popubção. Infelizmente não Kadiwéu), emboruaja_ Postos tamb~m _ em _ arca ainda pao
possuímos dados quantitativos que propiciem percentuais, sus- reservadas p11r<L.Qli_ Índios_ nelas _ ~ituados. Entre os Terena,
cethcis de amparar essas conclusões. Temos de recorrer a há uma Reserva que possui dois Postos ( é o caso de Ih nanai/
avaliações impressionistas. como a de considerar válidas para o Jpegue, com os. PP.Ir. Taunay e Jpegue), outra que não possui
conjunto da população Terêna alcleada nossas observações sôbre nenhum (Passarinho/ Moreira); esta última é supervisionada
Cachoeirinha; da mesma maneira que estendemos para êsse pelo PJ. Cachoeirinha. Até recentemente, havia uma comuni-
conjunto o índice de fertilidade verificado naquela aldeia, a êle dade - como Limão Verde - cujas terras ainda não haviam
também estendemos o perfil demográfico de Cachoeirinha, com · sido reservadas, tendo, porém, um Pôsto Indígena, com fun-
seu amplo contingente infantil, particularmente nas duas pri- cionamento intermitente. As _atividades dos Postos, mais do
meiras classes etárias, de O_~ 4 _e d~ 5_ a ~ anos; _a progressi~~ 9 ue assistenciais, tendem a ser apenas protetoras entendendo-se
queda do contingc~te opul~C:i(_?nal nas class~s seguintes del!_<2_~~-
~a_ prote_ção COil]Q_SOn!_rôle das rela ões interétnicas; os >os-
a in.!_epsidade do _proc~ss0 depopulacional. 14 O ~stado de
tos constituem _media ões entre índios e brancos com ênfãse
Mato Grosso, com um índice de fertilidade (7_66 ~houa~
no policiamento dessas relações_. 1:.sse papel desempenhado
1 000 mulheres) pouco menor do que o dos Terêna, apresentou
pelos Postos Indígenas pode ser verificado, pràticame nte, em
ÍiÕ mcsmÕ período um crescimento vegetativo incomparàvel-
mcnte maior, o que pode sugerir discrepância nos índices de todo território do Brasil indígena, se bem que num menor
mortalidade das populações consideradas. A análise dem~á- número de situações j possível encontrar-se Postos Indígenas
fíca : <!_mpa.E_'!!iva do~ Terê!)~ e da sociedade regional n~o_nos atuando de forma a promover a economia e o bem-estar das
pode levar muito adiante pelo exclusivo motivo da prccanedad_e e,opulações sob sua sup_ervisão. Nesses casos, entretanto, diga-
dos dados de recenseamento, malgrado nos forneça as mais se de passagem. a tendência maior é a transformação dêsses
0 mesmos Po~tos cm emprêsas - ?ejam faze ndas,_ seringais, etc."
o, J Ver ~ pi1 ..,,-,iz 6':mo;:rH k a ao: Cach<xírinha no c~pítulo !iCl!Uíntc, tíg, VJ.
- i. e., umdades devotadc.1.s ao lucro econômico como se êssc
Ev.4~~~-. '-1-"' ,, P,-<.v.'WJ d o;:><J7~!moru,I ~;xmta<1<> não pode .cr ju~tílicado J'?f lucro por si só re~~~~~sse na promoção do bem-estar sociaC1s
rJ.IV.~.J..'.A t'- t:c1/ ;r,..r.,.; h~"f vr.:)(J , tr,;m'>'> n;, tt1:i·1r:.da p.n.e d!> Jívro, envolvem
~ , 1.-:::!.~ t: iü q ..--: ;r~1.u.!:'.l 2 r-:~~-r ~, f a.7.1;,-;~-.,, ru., cid~, , ou, ainda, em
<.rJ_.:• '1~ ...i:;t-; ;,., e...~~/' -' ~ -!,;.,;~:.:..i, (AJ'JHeffi 41;;.e-rn,;., p-..ra o u~balho {Labour
r,,a.,-,,,,,.), t ~..; , ~ ,~:.::J f:-~~"' '4;r.a.c, t:,;: óe:i;:ovo;,.r c1 ~.-:na.
( IS) lôI5e traço da política indígcnuta brasileira foi por nós caracterizado
como o que chamamos de ~ntalídade empresarial (cf. R. C. de Oliveira, 196S: 13l ) .
50
51
r du ão i uais aos que são pagos na regi~o ª. trabalhadores,
o 1 ;li~na~d;-sf claramente os direitos d: propnetános que os Te-
Ent:rt os Tcrfnn. se bem que a mcnt:tlid:idc cmprcs:ui:tt rê na têm - como coletividade - sobre suas terras . '
~cj:1 ('n:, ntr.idi~? dentre os funci~m:1~ios dos Postos, ela bmaLc; .d ~1· a qtie proc uramos dar ao leitor, neste paragra fo, é
C'C':t~;:ui 1 :1tu:il1.ur-sc l'm eI_11pn.-end1mcnt0s capazes de org:1- A l 1.: ' d"f · no terre no
a de que O Pôsto Jndí~ena .P.ouco se 1 erenc1~ . t
n:=:u • tr.1 llho n:1s Rcs,'n-:1s e dl' rnlim:tr os lucros lkscjados. ' • . "C d F . nela" com o mconvcmen~
econonuco de uma _ ~sa e aze '· '_ - -; · · · l - ara
Q.Ll\.~t-:s t.:-m limit:1d0 su:-i a ·:io c~·on0mica :l desenvolver de produzir, como tal, _m ~ito m enq~- Nao P?ssm cap~t~dup ão
s:u n~"ri:l n!_'(.x!u.;ão, n:io n d:1 c0munid:1dc indigcn:1 d:1 aplicar na lavoura ou cm qualquer outro tipo de P .ç ,·
Re-s;-~. Em outr..1s p1Ia,·r:1s. o En.:-:1 rrt·~9__dQ_ J~3sto~id~ •Não ' dispõe 'de pessoal q ua 11-r·1cado, uma vez . que
. ,os .funciona-
d: um~_r~x!u~o - seja fayour:i. pc.:-u:íri:i 0u extrativismo -
ro;ri::i JQ.LS~UL próprios inter~ss~s. _n:to :ios dos índio?; êstes rios nêle lotados não o foram por credencia_1s tecmcas, ;1!!
sii.:> ~r_!!t~d~s,_~ ·entu:umeme, p:ira trabalh:n em no que cha- unicame nte pela oportun!d~de de se ~o~segmr p essoal ~c P e-
.iruzn·-produ~:i2_ _d~ Pôsto", sendo p:1gos para isso. às vêzes de se sujeitar a salá rios mfunos e a rust1cas, quando nao Ap
em dinheiro, outras em mercadorias. Suas roças são erfeita- nosas condições de vida. Além do Encarregado, o • Posto
mente diferen::ild:is d:is do Pôsto, e del:ts só êks cuidam. O possui em seus quadros um professor (geralm~nte a e~posa ~o
~ênto. comumente -apresent:ido pelo Encarregado, de que próprio Enca rregado), i;:a.r..amenJ_~m _enf e rme_1ro e dçns , a . tres
os índios tr:ibalhando na roça do Pôsto aprenderão a traba- ( excepcionalmente mais) t rabalhadores __ braça1J. :Êstes ultimos
1,Q__ar n:is suas próprias roças é ingênuo, para não dizer ~ pcio- são. em re!!ra, recrutados d ~ntre os próprios índios. Com esse
so; porquanto as técnicas usadas numa são as mesmas apli- pessoal, e com a utilização eventua l d_e turm_as _?e trabalho . o r-
cadas na outra, e sempre caracterizadas pelo tradicionalismo. ganizadas com elemento~ da com_un!da_de md1~e1:a, . o P osto \\
E é totalmente absurda a afirmação de que o a rendizado se oscila entre um-ª-~CQ!}Omta de subs1sten_cia (subs1stencia da _fa=
-~' dê meramente pela imitação. Nesse sentido, poucos foram os • mília do Encarregado) e uma ec9_no1?_1~ __d~ m_ercado, O!_lc:!t": C? ~\
lucro é do Pôsto, não daqueles que o produzir~~- Por essa
índios que adotaram o .araru:, (de tração animal ou humana),
breve explanação, pode-se deduzir o quanto é precária a a tua-
a úni::a técnica "moderna" que o S.P.I. soube introduzir em
ção dos -Postos Indígenas na esfera da economia das Reservas.
duas ou três R eservas Terêna. O que existe de r eal é uma E se nos limitamos a examinar questões atinentes à esfera eco-
completa falta de assistência à producão indÍ!!:ena. A rigor, nômica - deixando de me ncionar, pelo m enos neste capítulo,
essa assistência se dá ex::lusivamente na distribuição de se- igual ineficiência na esfer~ escolar e na assistência à saúde -
mentes (sobretudo de arroz) ou na cessão de animais para a é porque vamos encontrar no terreno da produção e na ação
moagem da cana em engenhos dos Postos. Com relação ao correlata do S.P.I. as informações sociolõgicamente sigoüica-
trato do gado - o que fàcilmente poderia ser executado por tivas para o desenvolvimento do assunto escolhido. O traba- ··\
empregados dos Postos, que passariam a tratar de poucas reses lho indígena nas Reservas, e o papel desempenhado pelo Pôsto
2 mais, juntadas ao rebanho do S.P.I. - , isso também não Indígena :m sua organização, p or exemplo, é algo que precisa \
o::o:re. :!\fuitas \"ézes o que se dá é o contrário: o índio, cui- se; . exammado para pode~m~s compreender a • modalidade 1\
• dando de suas reses, re:ebe a incumbência de olhar pelas do bas1ca pela qual um grupo md1gena, como os T erena, se inte - ·,
Pós-.o. Finalmente, com relação ao extrativismo na á rea da gra na sociedade regional. Acreditamos, preliminarmente ha-
P~!rYa - atividade, aliás, que já está acabando em virtude ver descortinado ao leitor as possibilidades de ação do Pôsto
da e1.2.~tão das matas - . o Pósto forma as turmas de madei- nesse sentido para, º,:) próximo cap!tul?, fixarmo- n o s prefe-
~-~ _k::±ei.ros ou d; extratores de casca de angico e as rentemente na promoçao do trabalho md1gena independente da
-'.1! a n'nl¾,.~_co=n_p, ando sua pro u~ão o mesmo modo qUe
ação protetora.
'~~ u:n ~ z-~:::~ro 0:1 pequeno empreiteiro em terras . pã'r ti-
• ~ t i t. _Os _E::.z,e~ de -Postos agem, assim, como se õs' '
- ~ ~ f.oss~:n ~os de ma terra, pagando preços vis pela

52 53
sócio-cultural 1 O :sistema de relações emergent~, _ se b em
· , 1 ' nd1çoes ante-
q ue deva ser referido. sempre que passive ·
as co , .
torna a anahse o
d
riores ao seu aparecimento, nem por isso_ . - A
recesso de mudança um imperativo da rnvest1gaçao. ntes,
~abe-nos a tarefa de realizar a apreensão dos aspectos co?1pe-
titivos e conflitantes ou, em outras palavras, das contradiçoes
CAPÍTULO III inerentes ao sistema de relações de trabalho que . ª!ualmente
subsistem nas condições de Reserva. Essas contrad1çoes, tod~-
via nem sempre assumem a aparência conflitante ou competi-
A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ' ao contrario,
tiva; , · estao
- contl'd as no s1.
·stema, _onde permanecem
.
freqüentemente em estado latente. A irrupçao de a tnto~dentre
índios no âmbito da Reserva pode ser m elhor enten? 1 a . ~e
levarmos em conta essas contradições, que podem ser identifi-
cadas, preliminarmente, no plano da organização do trabalho.
A Reserva Indígena, na área Terêna, tem uma significação
definida na consciência regional: ela representa uma ~.§~rva
• natural de mão-de-obra. Natural porque é mão-de-obra em
1. O Trabalho Externo
seu estado "selvagem", suscetível de utilização nos níveis mais
rudimentares de trabalho. A focalização do trabalho indígena Ao contrário de populações indígenas que atingem índices
como um meio de compreensão da vida econômica <los Tcrêna relativamente altos de produção de bens agrícolas, ~orno os
aldcados parece-nos ser o modo mais adequado para se chegar Maias do México e da Guatem ala no cultivo do milho, por
a uma perspectiva integrada <la realidade Tcrêna, constituída exemplo. passível de comercialização exter~a, os Terêna. não
não apenas pelo componente indígena, mas também pelo com- contam com uma produção, sequer de fannha de manc.l1oca,
ponente nacional. O sincretismo cultural, apontado pelos es- que lhes permita ma nter um contato com a socicc.la~e regional
tudiosos do processo de aculturação, tem sua correspondência no nível da atividade comercial. Stavenhagen, refe rindo-se às
no sistema interativo subjacente, a ser tratado como uma tota- relações índios e ladin os, mostra que as m ais significat ivas são
lidade sincrética, a que já nos referimos noutro luga r (R. C. de as de tipo comercial: "O índio participa nessas relações como
Oliveira, 1962 : 85-90). Essa perspectiva foi a escolhida para produtor e consumidor; o ladino sempre é comerciante, o in-
empreendermos a um s6 tempo o estudo da dimensão econô- termedi{1rio, o credor. A maioria dos índios entra cm relações
mica, na qual se inserem os Terêna, e do conjunto da si- econômicas e sociais com os ladinos no nível da atividade co-
tuação intcrétnica que pretendemos analisar nos v{1rios níveis de
ocorrência. (1) O Dr. llertrand Hutchlnson (América Latina, :mo 7, n.0 3, 1964: 121-123)
No nível da organização do trabalho o primeiro problema numa critica feita no nosso ensaio O l mllo e o M,m,lo dos llrtmcoJ n11o co mpre-
endeu II distlnç11o que fi1.cmos entre uma abordagem que se distingue por focali-
que se impõe à reflexão não deve ser como o u porque mudou zar as rclaç,1es de oposição, as contradições entre o índio e o branco e o sistema
de sujeição e dominação, de outra abord agem, trad icional na ctno-sociologia ge-
o sistema econômico tradicional, mas como é possível subsistir n~ricam~nte dcn_ominada mudança social (.roc/11/ c/1m11;e ). Ainda que tai~ ab~rda-
~cns scJam d1s11ntns, nem por isso podem ser considerada~ antõnomas do mes mo
uma ordem comunitária - pois assim nos é dada a sociedade modo. que a fricção intcrétnica e a m u~ança sodal não são re alidade', totalmente
Terêna remanescente - quando integrada num sistema econô- d1ssoc1adas uma d:t outra : os processos increntes tanto a uma quanto a o utra área
apresentam ~I ara interdependência c_iuc_ s6. a aná_lisc pode lograr separar ; e, ainda,
mico regional de características nacionais. Não se trata aqui ~ conhecimento do pro_ccsso de fr1cçao mte rétmca deve contribuir de mo do inso-
fismável para o. conhecimento do processo de mudança social a quem tenha sele-
de acompanhar o processo de mudança como objetivo final da cionad~ _esse úlumo tema para investigação (e vice-ve rsa) . Para O Dr. ll utchinson
análise. e muito menos considerar a situação interétnica ( ou essa d1stm~ão é _equivoca, pois em sua opinião todos quantos tí!m estudado a mu-
dança social lena'!! também explicado aquêles fenômenos que classificamos como
de fricção interétnica) como um caso particular de mudança de frlc~ão lnterétmca. Sua opinião, a nosso ver, não encontra apoio na literatura
cspcclahzada.

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pode ser considerada sob um critério estatístico; significa antes
mercial, não no nível do trabalho assalariado. São justamente de tudo uma possibilidade que historicamente foi aberta aos
as relações comerciais as que ligam o mundo indígena com a índios de Cachoeirinha, e que teve o mérito de revelar as po-
região sócio-econômica a que está integrado, e com a sociedade tencialidades do trabalho ~xterno, i. e., fora da Reserva, no
regional. assim como com a economia mundial" (Rodolfo tocante à mobilidade espacial e social dos Terêna. A experiên-
Stawnhagen. 1963: 80). Comparando a situação dos Maias cia de uns poucos serviria, entretanto, para contaminar o~t:os
com a dos Terêna, vemos que êstes entram em relações com a mais, que tentariam participar de modalidades não-trad1_c~o-
sociedade regional no nível do trabalho, a rigor da venda de nais de trabalho, como são as de tipo industrial ( ou sem1-m-
su:i fôrça-de-trabalho, nem sempre realizada na modalidade dustrial), diferentes, poct'.rnto, das extrativas, agrícolas e
salarial; o diarista e a empreitada constituem as formas mais pecuárias a que estão habituados. Essas três últimas moda-
correntes: a primeira tende a ser requerida quando se trata de lidades de aplicação do trabalho indígena têm sua atualização
t:r:1b:ilho agrícola. sobretudo no preparo e nos cuidados dispen- tanto no âmbito da Reserva (se bem que de modo precário)
s:idos às pequenas roças de subsistência, das fazendas de quanto fora dela. Trataremos agora dessas modalidades com
cri:ição; a segunda, quando se trata de atividade extrativa de referência ao trabalho externo, para adiante, quando examinar-
toras de madeira, para a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil mos a produção da população aldeada, abordá-las com refe-
ou de casca de angico, para a obtenção do tanino para o trata- rência ao trabalho interno. i. e., aquêle efetivado em terras da
mento de couros nos curtumes regionais. O emprêgo do Terêna própria Reserva. Como recurso metodológico, impôsto pela
na faina do gado segue a modalidade freqüente em muitos lu- expressividade de um conjunto de dados (R. C. de Oliveira,
• gares do Brasil: a partilha da produção anual de bezerros. 1957: 179-180), a análise focalizará preponderantemente Ca-
A p:\rticipação dos Terêna aldeados no mercado de mão- choerinha, tomando as demais Reservas para referências com-
de-obra regional não se limita, entretanto, a essas três modali- parativas quando assim julgarmos indispensável. Importa,
dades mencionadas. O extrativismo, a agricultura e a pecuária todavia, sublinhar que o trabalho interno somente - como
- que em grau decrescente absorvem fôrça de trabalho indí- meio de sobrevivência familiai - é de pouca expressividade
gena - não chegam a incluir tôdas as alternativas oferecidas estatística, pois em 121 grupos domésticos apenas 9 vivem re-
pela economia regional. As pequenas emprêsas, geralmente gularmente de seu trabalho agrícola na área da Reserva, em
vizinhas às Reservas e localizadas nas cidades ou povoações, roças próprias, enquanto 10 outros grupos domésticos combi-
têm usado, segundo sua peculiaridade produtiva, o braç_o
nam ·o trabalho agrícola com o desempenho de atividades
Terêna. Duas emprêsas em Duque Estrada (povoação 111arg1-
nal à Ec;trada de Ferro Noroeste do Brasil), uma caieira e uma artesanais de vários tipos. :Ê.sses 19 grupos domésticos consti-
pedreira, ilustram bem essas alternativas para o Terêna de Ca- tuem assim apenas 17% do total mencionado e relativo à Re-
choeirinha, situada a oito quilômetros da Estação. Em regra, serva de Cachoeirinha.
os Terêna empregados nessas emprêsas acabam por se trans- As percentagens mais significativas distribuem-se em duas
ferir da Reserva para a povoação de Duque Estrada, on_de outras categorias: a dos que trabalham exclusivamente fora da
passam a residir, dando os primeiros passos para uma desvm- • Reserva, nas fazendas e sítios circunvizinhos, que correspondem
culação mais expressiva da vida de aldeia. Os representantes a 4_6'.%, e a dos '!.ue, possuindo roças próprias, compensam sua
mais extremados dêsse processo de desvinculação podem ser def1c1ente produçao pelo trabalho estacionai fora da Reserva
vistos nos índios citadinos - que estudaremos na segunda parte (ês~es últimos represe~tam 37 % ). A rigor, pode-se dizer que
dêste livro. Na época em que investigamos a situação dos • mais de 80% dos Tcrena da Reserva, tomada para investicração
habitantes de Cachoeirinha, não havia mais um só índio que, intensiva,. são dependentes do mercado de trabalho ex;erno.
morador na Reserva, trabalhasse em qualquer das emprêsas;
1:sses índices dão uma idéia de como é irrelevante estudar os
nelas trabalhavam ex-moradores da aldeia. E como a capaci-
dade empregadora dessas emprêsas é diminuta, a par do tra- Terêna, grupos com alto grau de integração econômica reoio-
balhador Terêna nela constituir minoria, essa alternativa não nal, sem a consideração expressa de sua situação de cont;to.

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as do pastoreio. A integração do -i:er_êna nas colôni~s ~e fa-
zenda, que hoje só acontece esporadicamente, 7onst1tui . uma
Tudo os in,1pele para fora. E se com Cachoeirinha podemos
• traduzir em percentuais ess~ .d! _eendência à economia ou, me- exigência do próprio sistema, seja êJe agrícola, seJa pastonl .
lhor diríamos, ao mercado ae trabalho regional, com outras Para a faina agrícola, o Terêna tende a sair definitiva-
Reservas Terêna podemos dizer o mesmo, sem cairmos em mente de sua aldeia de origem, instalando-se nas colônias da
distorções significativas. Algumas há, como a Reserva de Ba- fazenda e tentando, nelas, levar uma vida de agricultor sem
nanal (P. 1. Taunay), que mantêm uma média de 100 índios terra. Várias fazendas conseguiram êsse feito, ao longo da
mensalmente trabalhando fora da aldeia, segundo Altenfelder história dos Terêna, particularmente quando da desorganizaçã?
Silva (1949:313), o que representa um índice equivalente ao dos grupos locais em conseqüência da Guerra do Paraguai,
encontrado em Cachoeirinha, se tomássemos individualmente época em que elas receberam considerável contingente. Ilustra
não os grupos domésticos como unidade, mas o pessoal tra- isso um levantamento que realizamos, em fil7, com informan-
balhador. A população de Bananal, na época da pesquisa de • tes de Aldeinha, com referência ao número de famílias Terêna
Altenfelder, em 1946, orçava em 995 habitantes, enquanto a residentes nas fazendas do Município de _Aquidauana;
3
população de C:achoeirin~a, na época de nossa pesquisa, em
1955/ 1960, vanava em torno de 900 habitantes. A estimativa computamos 57 famílias, que representavam cêrca de ..fil. p es-
de Altenfelder, correspondendo com a nossa a respeito de Ca- soas, tomando-se o multiplicador 5 como expressão do número
choeirinha, dá maior consistência à generalização das conside- de indivíduos componentl?S de cada família . 4 Mas à m <:did-ª
rações acima para o universo Terêna, composto por aldeias que lhes eram gara_ntida~ terras,_a partir da __segunda década do
que guardam grande homogeneidade entre si com relação às • século, os Terêna tenderam a se fixar mais nas. Reservas. Con-
atividades econômicas de seus membros, por diferentes que tinuaram a mudar de Reservas, tangídos- pelo trabalho e pelas
possam ser as economias dos Postos Indígenas. 2 maiores facilidades que aparentemente determinadas aldeias
De tôdas as modalidades de aplicação da mão-de-obra ofereciam, face à proximidade que desfrutavam junto a cidades.
Terêna nas atividades do Sul de Mato Grosso, a extrativa é O esvaziamento de Lalima, distante de Miranda, o centro ur-
a que mais requer a sua participação. Provàvelmente porque bano mai,; próximo, a par do crescimento de Buriti, perto de
as técnicas de trabalho por ela exigidas são as mais rudimenta- Campo Grande, são bons exemplos dêsse processo. Mas de
res, pois se baseiam na destreza do braço e em poucos utensí- tôdas as outras razões que se possam encontrar para a mioração
lios como o machado e o machete - o primeiro usado na "interna" dos Terêna, com sua circulação de aldeia para ;Ideia,
emprêsa madeireira, o segundo para a extração das cascas de o tra_b alho, tem um~ significação especial, pois exprime sempre
angico. Por ser um trabalho ~2:rosseiro' os reo0 ionais não o exe- o baixo mvel de vida a que estão submetidos nas R eservas e
cutam, salvo se bem pagos; o que não ocorre, evidentemente, nas aldeias e seu desejo de melhores condições. Ouvimos de
uma vez que os empreendedores conseguem pagar pouco ao
Terêna considerado por todos perito na arte extrativa, sem- (3) Ei~ a relaçã~ _de fazendas e o número respectivo de famT1 . y F
pre disponível para êsse tipo de trabalho. Por outro lado, essa da do Negrao, 4 fam 11tas; li - Conceição 2· Ili _ Alvo d
6; V.- Ambrósio, 3; VI - Mongolinho •1 . 'vn _ S p r3 ªh, -
;. azcn-
ª• : VII - Taboca,
~ispo~ibilidade do Terêna pode ser explicada pelo fato da rela- Correia, 2; IX - Lcblon, 7· X _ Pi ui 3. XI · e ro, 1 • I - Leonel
Alegre, 6; Xlll - Bonito 15· XIV _q Chá~ar d- Ai:ihuma, 2; XII - Vargem
~iva liberdade que o extrativismo impõe a homens vinculados Frutuoso, 1; XVI - Gra~ja Chico Antônio a O Saltm, 1 ; XV -: Chácara do
recolhidas dos informantes Terêna reunidos 'e~· ~s presentes, d~nommações foram
a sua aldeia, de onde aceitam sair somente por períodos curtos, tiva - o que permitiu freqüentes corre ões nos !úupo numa umca entrevista cole-
informantes indicaram 15 outras nômates que t m;\~s. Além dessa~ famílias, os
sem se comprometerem - em sua maioria - com tarefas de zendas de Aqu1dauana. ' ra ª am de empreitada nas fa-
cumprimento mais prolongado, como são as da agricultura e ( 4) O índice 5 é aproximado· provàvelmente -
Terêna, considerando-se que a der:sidadc res"d fªº
1. reflete a "família média"
6175 (_R. C_: de Oliveira, 1958:9); porém deve~seent~ ; em Cachoeirinha é igual a
s1dcpc1al nao retrata de modo preciso a magnitude d~m"f~on}~ ~ue a d~nsidade rc-
Pôsto(2)Indígena
A especializaçao
- _econo!_lllca
• · na Reserva prende-se mais à economia do noçao que dela possuem os informantes um • m ia de acordo com a
dadcs produtivasdaque mu1t~s veze.s atua como uma emprêsa - do que às ativi- exie~sa, ao _passo que o índice de densidad! ve~ d que_ e les se referem à família
assunto ver nossa 6opuóaçao Terena aldeada. Para maiores informações sôbre o pnmmdo i'.lmcamente O grupo doméstico form Jesi encial na comunidade está ex-
• o ra Processo de Assimilação dos Terêna, págs. 102-104. tares ou compostas. ª 0 , em regra, por famílias elemcn-

58 59
nno n:1 gkha. pr~so i\ (krn1b:H!:t. da c:rn:1. pl:intio e replantio,
e limpeza do tcm:no. Nessa attvHbd '. conhece mos :1pcn:1s u~1
,,\m'" l~s..,::: ml~r:rntt·s a :: ·~llintt· l''.'-pr,·ss:h,: "aml:rnH'S l't'r
grupn tk Tl'r~na que :1 ela se _ckdica. Süo_os índios d:1 a~~k,_a
. ( rr.1 v.-r ~.- a f.'nt--· mdl1Ma". ~bs ,. 1.."rtç, t:unb,' m qll,' ,~sscs
mi.fr.rnt:::. tm su:, ~r:uuk m:1i,,rb. nú,, vivbm n:\S ahkias t,mk de Pass:1rinhn. suhurh:111:1 ;\ cidade de l\ l1r:111da. ': .r~.ox 1111_1-
n.,S,',.' f':\t\l S.'US :w{,s l', lll\lit,,s d ~ks. m•m llll'Sl\H' 1.)tll.k cks pr{1- tbdc d:1 :11lkia dos l'an:1\'iais d:1 "Usina S:111tn /\ntlllltO , c up
prt1.'S 11:1s,·~·r.u11. d..-stituid,,s :,ssim lk qu:1lqucr do m:lis si~ni- maquinaria de tr:111sfor111:11;:in d:t 111:1~ái:1-pri111a cm ;-í lco~l,
fi: :\t1'\' 1. ,m o ffllI ,, t,,,·al. .-\li:h,. :1 1.·. l,rrd:1ç:i,, entre s )füb- cachaç:1 e a1;Ílc:1r t·st:í locali1.:1da cm l\l1r:111tla: to rna a pop11l.1-
ri,"d.hl-- trit-.,1 l' ~upo k 1.::1l -:onstitui um asp;:ctn d,l probkma ç:io da Rescr\'a i\ lorl'ira-Passarinho u 111:1 força de trabalho
J.1 tlh.'1'iliJ:, i.- Tcrcna que J ·,·cr ·m,,s an:\lisar nos prôximos suscdívd de 11tiliza1;:io re!!ul:11' na e111presa. i\ fas c m lugar de
,:ipitul1. . . aproveitar n trabalhador indi!_.!cna na atidcl:ide industrial_ prô-
As :1tivid:1d ·s agrkobs cstacion:1is. como o caf,\ o arroz priamente dita, vinculandlH) :w prrn:csso de transfo nn:içao ela
r o milh ,. que p0d:riam rcccb1.·r contingentes de trabalhadores ca na. o faz n:t :1tividade dc corte. onde o índio não encontra
r, r p:riodos limit:idos (durante a 1.·olhl.'ita, por exemplo) . niio qualquer dificuld:Hlc de adaptaçiio. segt!ndo dcpL1imentoAde er~1-
.:10 de molde a requisitar m:lis bra _·os do que os quc normal- prcgados daquela usina. Isso quer dizer que o T cn.:na n:10
mrntt' disp0:m as fr:rndes fa zrndas. uma n.·z que as 1:wouras chc!!a a participar de um trabalho difrrente daquele :i que est:\
- :io menos na r,·t~iú,, l"1.'npad:1 pdos T crêna - tt'mkm a ser famili:1rizado, muitas v~zes cm sua própria aldci:1. A expecta-
de catt'fMi:t d0m~sti:a. presas s0mente iis lll'ccssidatks tk sub- tiva que alimentávamos. nas pri111ciras etapas da pesquisa, de
sistcncia do p1.·ssúal morador no local. As grandes fazcndas - encontrar trabalhadores indígenas intcgr:111tcs numa ordem de
pois é a elas que nos estamos referindo - tkdicam-se ii criação atividade de tipo fabri l, onde as relações de trabalho se dessem
de gado. e constituiri:tm as empresas mais capazes para absor- no nível industrial, não chegou a se concretizar aqui, e cm
ver maior qmntidatk de trabalhadl.lrcs. ,\ agricultura extensiva nenhuma das outras situações cm que a populaç:io Ter1:na, cm
dedicam-se mais as chamadas "colônias agrícolas". estaduais seu conjunto, pôde ser observada. Constata-se que as consc-
ou federais, implantadas pda iniciativa governamental com o qiiências da industrialização que podem ser verificadas na
fito de criar uma infra-estrutura agr:iria no Estado, c:ipaz de África Negra, por exemplo, ainda não podem ser observadas
atender ii demanda dc produtos agrícolas. sobretudo de cercais, no "Brasil Indígena", m esmo considerando-se grupos como os
para a população. Nessas colônias agrícolas o braço indígena Tcrêna, dotados de alto grau de integração à economia regional.
I! dispensável. ficando ao colono nacional ou est rangeiro (japo-
nês) o trabalho da terra. Excepcionalme nte, como no Muni-
f: surpreendente, no entanto, verificar q ue, da Reserva
mencionada, somente os moradores da aldeia Passarinho te-
cípio de Terênos, colônias cic imigrantes japon~scs t~m acolhido
jon~ns Terêna que oferecem seu trabalho, curiosos de conhecer nham sido recrutados para os canaviais da usina, enquanto de
um:1 gente parecida com a sua, mas com um nível de vida tão Moreira niio foi sequer um único indivíduo. D e uma população
alto; esta. pelo menos, é a explicação que alguns d~sses mi- de quarenta indivíduos masculinos, acima de 15 a nos, dezoito
grantes de Cachoeirinha nos deram, quando argüídos sôbrc os trabalham no citado cana via!, portanto 45 % do total de mão-
motivos que os levaram a procurar cmprêgo em colônias nipo- dc-obra dispon~vcl na aldc_ia Passarinho; apen:1s uma p essoa
brasikiras. Sendo assim, o trabalho estacionai, que exigiria o moradora na cidade de Miranda - fora de Passarinho, mas
recrutamento de grandes quantidades de trabalhadores por ligada a aldeia por laços de parentesco - trabalha no canavial
períodos curtos. não chega a atrair os Terêna, se é que a trai da "Usina Santo Antônio". As implicações dêsse fato na cons-
a população regional composta por lavradores sem terra. tituição de "grupos de ori'?ntação" 5 p ara o t rabalho deve ser
Para ampliar nossa informação sôbre o trabalho externo
dos Terêna residentes em Reservas, cabe uma referência a uma
(5) A _noção de gmpo de orientação est:1 contida nas conceitua õ•s de
atividade que, sôbrc ser agrícola, não pode ser considerada no de orlentaçao pessoal ou grupos de mobilização potencial fe itas ç " R gmpoJ
mesmo plano das até agora mencionadas. Trata-se do traba- F~_rth (1956 : 16_)! ~uma tentativa de destacar os mecanis~os cxtra~liliaT:m~n
~ue_ntemente v1c1~a1s, na constituição de grupos para a ação social u • . rc-
lho em canaviais, capaz de reter o trabalhador durante todo o hm1tadas a rclaçoes estruturalizadas. (Cf. R. e. de Oli\'eira, 196 1, pas~i,:;)_cstcJam

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1958, o~:vamos o:r. :2 co:i:n:2.;ão. e!~:? . _-a_ Ç2r2 r.ili C..!
,i:::.e ho:;:!:-"_s, qu-! fo:-aw l:!··~h pc.J ;::;::.~~ ~ OT~ fn.::=.~
:c....,si.5.=rili n.;::i .5e ::::ic,3.:, ~--;,::-..:Ul. J:.-:ll '""~ ~~ ::ios . !-.1::) 2 e.o m_a~i:í;:i:o C:! Aq_:1:~~::::z ff,:.z.=.. ..,:: Taboc.:>) ,_ _z. E:3 ê..!
~ e=::ik 25 : .r::1z.s d= c :-_::- ;;,~:z"~ co tr2b~o en-~o. t:ra!}z.LJ.z.:: m ~2. ~r~-z~o C..! e-~ e~ ==-=;:=~. ..\ ~ =-~==:·. ~~ e=
R ~ ·~ ::ie 2 ~:x.::::são d:! :::Je::J~ os b u:1::::::ru~fu::e e:: ~fo:-cira am]y..,_s zs , é-z...-"'5 e.o E::::z.rr.::_:,~.:> CJ ?.:·;:.) ~ -~:!-5! 1 (!3:i.=-::a
~ c::i !'~~ :_j:, ili ::no:::io;>o~;ão d o rn::-r.::zdo ce trabalbo
::s::i!".:.:i x!z - --::.:12512~ de Pzssa.ri!ll'lo. .-\ so]jd.3.riedac!e tri-
e.o lo:al ce trzbaTho f.! - i::o s-::; ~:::'.:, .;.,::_~'.). ?=·º x~.::·s - .:..O
de:S.:.On,1::-ci.mento e.o P 2tr20 qu:: i..-ia ;;-::J;;:-::;;:r 2 ü'?O-~ -c=:-.a
:izJ te::::i · s:::ia : .:-~::a::i;ão na so!ic:uried3de d:: --cruDo lo:.af'
indígena. E rjgju-se, nas di_:.~s O? CIT1Jru d2:ce-s, o p a;a:n::;::iw z.d:.a;)-
;,.:,:s z..s exi; b :iis desta tend::m a enfraqu~r ;q~::la. Êss;
f!:?é:::ie:>0 foj ev::iti:rn.2:nente obserYa do por nós a resp::ito dos '
tado de parte do combinado entre as pa..11.es, para aL~c.er às
Terê:ia. (!Uer na situ2.;ão d:: R eserva, q uer na de Cidade, e a necessidades e:.onômicas das famílias que p ermaneceriam na ,
éle , oltaremos nos próximos capítulos. aldeia.
Fu:almente. para completarmos a visã o geral de como se A terceira m odalidade a bra nge r elações n ã o-permea das
organiza o t rabalho externo d os Terêna r esidentes em Reservas, pela autoridade d o P ôsto, u ma w z q ue têm lugar graças à
de,·emos a::rescentar uma refe rência aos mecanismos de recru- iniciativa de m embros da própria c omunidade T eréna, q ue
tamento da mão-de-ob ra pelos patrões. Três m odalidades de assumem pap el de liderança na orga nização do tra b alho externo,
recrutamento parecem impor-se com maior freqüência. A pri- mediante o ~e_c rutam ento de m ão-d e-obra. ff o mamos, m a is uma f
meira, c m regra posta em operação por fazendeiros ou sitiantes vez, C achoemnha como ex empl o. O índio T omás, na c o ndição
• vizinhos à Reserva, funda-se nas relaçõ es de compa..9~ 0 esta- de capataz de uma turma d e lenha dor es, a ser viço d e um empre-
belecidas entre o patrão e o empregado, que asseguram - endedor r egional, chegou a r ecruta r no espaço d e u m ano - ,
para o patrão - a "lealdade" do empregado, sempre testada de julho de 1959 a agôsto d e 1960 - cê rca d e m eia cen tena
por sua disposição permanente a atender os apelos de seu com- de t~abalhador: s Terêna. Para se ter uma idéia d a capacid a d e
padre purutuya para a prestação d e serviços. Quanto à expec- de liderança desse capataz T crêna na aldeia d e C a cho eirinha
tativa do Tcrêna, com relação a o compa drio, resume-se na sua de onde:' _também é mora dor, pode-se dizer que êlc pràt icam e nt;
pusca de simetria social dia nte do "civilizado", pa ra integrá-lo monopolizou grande pa rte d a mão-de-obra comumente empre-
• formal e aparentemente cm sua parentela. Como tivemos oca- gada no !rabalho externo. T oma ndo-se o s grupos domésticos
sião de demonstrar cm outro luga r (R. C. de Oliveira, 1960 como umda des forn ecedoras de t raba lha do res, vemos que
a:133-136), o compadrio vem constituir também um dos fa- dentr? de um total de ncventa e duas dessas uni dad es ( que
tôres convergentes que age no processo de assimilação dos co~tnbuem com u~ ou mais membros no m erca do de tra balho '
Terêna. Por êsse mecanismo de recrutame nto, o número de indi- reg1o?al) 38 destmaram trabal ha dores à turma chefia d a p o r '
víduos atraídos para o tra!-:alho externo é inexpressivo, pois não Tomas, o 9ue represe~ta 41 ,3 % daquele total. P rocura mos
chega a uma dezena, ao menos cm Cachoeirinha - se a to- ver, outros~1m, se ha_vena cios de pa re ntesco ligando, de algum
mamos como base de análise. A segunda modalidade, que modo, o hd_er To~~s a os chefes das fa mílias e nvo lvid as, ou
varia muito de Reserva para Reserva, dependente que é do elas ~n~re si. Venf1ca~?s? entreta nto, que O pa re ntesco n ã o '
"estilo de governar" do funcionário do S. P. I., encarregado de conshtum nesse caso enterro de r ecrutame nto· · · fl A · \
administrar o Pôsto Indígena, envolve relações de tipo contra- deve ter tido a situação vicinal a se 1·u1oar pe'1amaal1toar fm ~: nc~a
· · h
d e v1zm ' "'' ' , requencia
tuais, legitimadas pela participação e concordância dessa auto- os trabalhando na mesma turma , · A ex·1s t eAncia
· d e toda
A
ridade federal na Reserva. f.sse tipo de contrato tem lugar 1
uma pa rente a no grupo recrutado por T o más (7 GD ,
quando um emissário do empregador vai à Reserva especial- h d f T M s so d a
e a m~ a am1 ia uchacho ) não pode ser considerad a uma
mente para procurar trabalhadores. ,iEm 1955, cm Cachoeirinha, excebç~o, uma , v~z que os sete grupos domésticos forma ~
pudemos surpreender a presença de um capataz da Fazenda tam em, um umco grupo vicina l A constitu· - d '
Palmeiras, do Município de Aquidauana, oferecendo trabalho v·c·nal e t · ' · rçao o 0 rupo
1 r_ ' s a sim, e que se funda - como ve remos n ~ .
para cinco homens, que deveriam ser utilizados na abertura de capitulo no pa t ..,.. · o proximo
- ren esco. .r::. certo, apenas, que o recrutamento
uma estrada nas terras de seu patrão. Na mesma Reserva, em
63
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tende a incidir sôbre o grupo primano, i. e., naquele grupo em dos Tongas - alguma influência na economia da população
que os contatos não só são pessoais, mas se dão num nível de aldead~, vista cm seu conjunto. Se é verdade que os Tangas e
intimidade, favorecido pela contigüidade espacial. O que se os Terena dependem para a sobrevivência de suas comunidades
pode dizer, em relação à Cachoeirinha, é que na sua área locais do trabalho externo, não é verdade que êstcs dependem
central -aquela cujas casas estão arruadas e que se diferencia como aquêlcs do trabalho nas cidades. O labour migration dos
dos chamados "bairros" ou "roças", espalhadas por tôda a Terêna ocorre nas áreas rurais, preferentemente nas viz inhanças
Rcser\'a 6 - reside o contingente de onde é formado, prefe- d~ ~eserva, ao q~~l não pode ser somado, por sua pouca inci-
rentemente se bem que não exclusivamente, o "grupo de mobili- d~nc1a e expressIVJdade, o trabalho na cidade rea lizado por
zação potencial" de que falamos linhas atrús. migrantes eventuais. Entre os Terêna , a mi(Tração cm direção
, .d ::,
Nessa dissertação sôbre o trabalho externo, deixamos de as c1 _ades assume outros aspectos, não tendo as vinculações
mencionar os empregos nas cidades não só porque são escassos, dos _migrantes com as aldeias (vinculações essas que geralmente
não constituindo pois um mercado permanente capaz de atrair pers1s_t~m) caráter econômico, i. e., a população a ldeada,
os Terêna aldeados cm número de algum modo expressivo, espec1f1camen~e a fam[lia do migrante, dêle não depende para
como também porque êles envolvem, geralmente, um tipo s~a manutençao, e mmto IT'enos a aldeia p a ra a sua sobrevivên-
específico de migração, que cabe, agora, distinguir. A migração cia. No lugar e no momento a dequados analisaremos o fenô-
que, até aqui, estivemos tratando, se relaciona com a saída da meno ~~ migração urbana, destacando a mig ração individual
Reserva de trabalhadores homens, freqüentemente sós, i. e., da fa~1hal. Mas tanto uma quanto a outra será m elhor com-
sem suas famílias, e por períodos curtos. 1:. o que os antropó- preendida se ap1:_esentarmos ao leitor o quadro interno da
logos africanistas chamam de migração para o trabalho ou R~serva em que tem lugar as relações sociais, políticas e econô-
/abour migratio11 e tendem a considerá-la - ao menos em alguns micas, destac_ando-se nessas últimas as formas de o rganização
casos - como um fator positivo para a continuidade da socie- do trabalho interno, que passaremos a examinar.
dade tribal (Velsen, 1963) , qua ndo se trata, naturalmente, de
grupos tribais que tiram o seu sustento quase que unicame?te
do trabalho externo. Se êste é o caso dos Tangas, da África 2. O Trabalho Interno
do Sul também é o dos Terêna, guardadas as proporções. O
segund~ tipo de migração, envolvendo grupos familiais, resulta
num orau bem mais alto de fixação dos Terêna em lugares . A pouca expressividade do trabalho interno para a eco-
fora la R eserva, sejam êles rurais (sítios ou fazendas),. sejam n~mt~ co1:n~nal, como foi r_e ferido no parágrafo precedente,
nao e_ suf1c1ente para desobrigarmo-nos de estudá-lo Se essa
urbanos. Este tipo de migração, que deve ~er correl~c10nado modahdade de trabalho não é (Teradora de d ·
com o fenômeno da urbanização, será exammado detidamente f ·d d T A , ::. ren a para a cole-
1v1 a e erena, ela o e para uma pequena minoria
na segunda parte dêste livro. A importância dos e_m~reg~s o seu labor exercido dentro dos limites da R que, com
ocasionais de indivíduos Terêna nas cidades prende-se as 1mph- Os recursos m · d. , . eserva conse(Tue
1spensave1s p ara a sua sob · A '· ::.
cações sociais no seio da comunidade aldeada, na medida em diss~, par~ um a~tropólogo, o complexo e~~~~~~ta. _Além
que os costumes e as idéias oriundas da vida urbana sempre restnnge somente a produção e à circulação d b o nao se
perturbam a vida na Reserva; mas não que êsses empre_g~s mas. en~olve f~nômenos sociais pràpriamente ~i ens escasso~,
tenham em qualquer hipótese - e nesse sentido, ao contrario exphcaçao a dunensão econômica é crucial Q to~, ~ra CUJa
Firth chama a atenção para O soci·az f · uan o aymond
econom1ca (Firth 1956)
A • •
· d ramework da orgarnzaçao
· -
(6) cr. R. C. de Oliveira, 1958. Nessa comunicação, escrita para a III Reu- ' , mais o que estabele
nião Brasileira de Antropologia (Recife 1958), pudemos mostrar que a Reserva
abrange os seguintes agrupamentos : a '"Aldeia" ~rõpriamcnte dita, formada por
mentação da Antropologia Econôm· Al . ~er uma funda-
nove quadras ou " quarteirões", alinhados três a trcs .~uma !lrande _área retangula~ indivisibilidade da Antropologia Soei~~\ e ed. es.ta. mostra_n~o a
onde se contam 51 ca.,as; mais os seguintes " b airros locahzados 1unto às roças,
Capão (18 casas ), Argola {23), Saipuri (5) , Va~_nte (4), Buritizal (6), além uma vez que a ordem social vista e m ts~1phnas ~dJetivas,
de 22 ranchos espalhados por tõda a Reserva cm s1t1os Isolados. uma totalidade, como aliás 1· á en~· lo anMtropologo sera sempre
' ' mava auss. Se o conceito
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deração suplementar e impressionista dêsses m esmos dados.
básico da economia é a dimensão da escassez (allocation of 1?ssa deficiência, por paradoxal que p areça, foi maior na inves-
scarcity), éle inclui também as alternativas suscetíveis de escolha tigação dos Terêna citadinos, pois deixo u-se de acrescentar o
que o indivíduo ou o grupo devem selecionar em situações item dieta nos formulários aplicados, con tando, o pesquisador,
determinadas; e, se a seleção das alternativas deve ser feita em compensar essa exclusão pelo acréscimo de outros itens (rcfe-
razão dos recursos disponíveis, deve também ser feita com vista r~ntes à habitação ) , como iluminação, água encanada, tipos de
às necessidades, desejos e valôres humanos não-configurados piso, de parede, de fôrro etc., os quais, por sua vez, eram total-
exclusivamente na ação econômica. Trata-se de considerar o mente destituídos de significação para os Terêna a ldeados·
, '
sistema de necessidades, ao qual se encontram associados porem, com relação a êstes últimos, cuidou o pesquisador de
valôres tais que só podem ser definidos em têrmos de relações observar o comportamento do grupo doméstico (face ao contato
sociais. Como diz Firth, "Escolhas, necessidades e suas impli- mais prolongado p ermitido ao etnólogo nas condições de vida
cações na ação envolvem relações pessoais e relações sociais" de aldeia), além de procurar informar-se sôbre a dieta familiai
(Firth, 1956:122-154). f.sse sistema de relações é que agora num número expressivo de grupos domésticos. Graças a êsse
nos cabe descrever, analisando-o através do trabalho, i. e., recurso - facultado pela observação direta - pôde-se com-
como êle é exercido nas condições de Reserva. D estarte, essas pensar a falta de dados quantificáveis nas Reservas, e cinco
considerações pareceriam supérfluas se não quiséssemos acen- dentre os nove grupos domésticos referidos mereceram "estudos
tuar os valôres sociais de que se impregnam os bens e os de caso".
serviços inerentes à situação dos Terêna aldeados em Reserva. . ~ aná_lise da situação econômica dos cinco grupos domés-
Um fato que preliminarmente nos chama a atenção é a ~1cos_ selecionados não se circunscreveu, expressamente, a o
flagrante diferença de nível de vida que se verifica entre o amb1to do grupo residencial, embora êste continuasse a ser
contingente indígena dedicado ao trabalho em terras próprias tomado como fulcro da investigação. Sobretudo em três casos
e o contingente maior, vinculado ao artesanato ou ao trabalho ampliou-se a análise com a consideração do grupo familiai'.
externo. A observação assistemática, conduzida sôbre o con- abrangendo com isso a família de orientação e a família de
junto das aldeias Terêna, comprova o que foi observado siste- procria_ç~o. 7 O uso da nnção de família extensa, que teria a
màticamente em Cachoeirinha, na aldeia tomada para investi- su_a ~hlidade pelo fato das famílias de orientação e de pro-
gação intensiva. Nesta aldeia, vimos que 9 dentre 111 grupos cnaçao ocuparem, em regra, residências contíguas, teve de ser
domésticos se dedicam ao trabalho em suas próprias roças, ab~n?o~ado uma ,v~z que se verificou constituir ca da uma das
dentro da Reserva, e alcançam, nltidamente, um nível de vida res1d_encias u;11~ umca unidade de consumo e de orga nização
mais elevado que seus patrícios, total ou parcialmente depen- da_ vida ~omestica. Temos, ~ . o caso do Olímpio Sebastião
dentes do mercado de trabalho regional. Os indicadores sele-
cionados foram - grosso modo - os mesmos que os utilizad~s ~~ p~1s_ .--=-_Manue.l _e Francisca _Sebastião - :7untamente
para avaliar o nível de vida dos Terêna citadinos: tipo de habi- co°:_ se~s. irmaos, a ele estão associados numa roça coletiv;-
tação e variedade de bens possuídos por seus moradores. d
(de !11and10ca
· - d
doce e, brava,
. ,
feijão miúdo, milho etc ., ) ,. a f am1;-
1.ia-
Acrescentem-se, apenas, as benfeitorias, como engenhos, ~ _procn<1.çao e O hmp10 e constituída por êle sua m Jh
• fºJh
t res ,. , u er e
1 os; sua fam1ha de orientação é formada por s · ·
pomares etc., indicadoras de um trabalho positivo, capaz ?e ·, . . . eus pais,
criar b ens de produção. Nesse sentido, os nove grupos dome~- Jª menc10na~os, mais sete _irmãos (quatro homens e três -
ticos destacam-se nitidamente dos demais: casas bem mais mulheres), alem de . uma menina adotiva · Apesar d e ca d a uma -
sólidas. maior quantidade de objetos domésticos e, ainda, ~ d as f amíl .ias constitmrem
,
unidades difcrentes de consumo, f or-
melhor qualidade da alimentação diária. A alimentação é aqui
considerada subsidiàriamente uma vez que não se contou com (7) Essas duas dimensões da família J
informações obtidas de modo uniforme, e o resultado foi a ~er - "famí!ia ~e orientação", onde o indivíd~ ementar foram ~en~min~das por War-
m~aos _e irmas; e .. família de reprodução" o u~a~cc, e se c_n a, mclumdo pai, m ãe,
obten-::ão de dados fragmentários. Pro:urou-se, assim, com- : mclu1 marido e mulher seus filhos e filhasq (Cf cl\!tabed lec1da pelo seu casamento
• · ·, ur ock, 1949: 13) .
pe~ essa deficiência da investigação de campo com a consi-
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- e de um tipo de trabalho tão diferente do corrente na aldeia
- que só sua insólita história d e vida pode explicar.. Nascid~
mam, Outrossim uma umca unidade de produção, sob a lide-
rança efetiva do' Olímpio, o mais velho d os filh. os e o m~LS · em Miranda há pouco mais de trinta anos, viveu n a cidade ~te
experimentado dêles todos nas rela~?es _com a populaçao a idade de 15 anos, desfrutando a condição de filho de propne-
recional. O trabalho do grupo fam1hal f 1cou'. assim, como tário, pois seu pai, um m estiço, possuía um ~equeno lote em
fu;ção da liderança de Olímpio que a todos estimulava para .º área suburbana. Por motivos que não consegmmos saber, seus
trabalho agrícola nas próprias terras da Reserva. Essa organi- pais se ser,araram e sua mãe, Erotilde, retornou a Cachoeirinha,
zação do trabalho durou até a migração do grl!_P_?•..=- a_mêla-s-otr onde residiam seus pais, amasiando-se com seu atual padrasto
liderança do Olímpio - para a aldeia de Bananal, em 1959, Luís Pereira. Aos 23 anos, Lúcio saiu da aldeia à procura
com a única exccçao de um dos 1rniaos que se casou em- de "melhor colocação", o que conseguiu trabalhando nas
Cachoeirinha e nela ficou residindo com sua mulher e um filho turmas de conservação da Estrada de Ferro Brasil-Bolívia.
pequeno, ficando com ~ responsabilidade de_ ~uidar doA lote e Chegou a ir até a cidade boliviana de Roboré. D oente, voltou
das benfeitorias construidas p elo grupo fam1hal em cerca de para Cachoeirinha, onde se amigou com uma môça da aldeia,
dez anos de vida na Reserva. Esçlareça-se que o velho Manuel com a qual teve dois filhos. D esde então não saiu mais da
Sebastião e seu filho Olímpio haviam moraao _ate I931_ em... aldeia para trabalhar. Formou a maior e melhor roça de tôda
Bànanal. de lá saindo para Buriti, de onde voltaram no~~IJ1~ a Reserva, chegando a empregar seus próprios pa trícios em sua
a- Bananal em 1934, de onde seguiram, finalmente, p_ara_Limji~ lavoura, pagando-os com mantimentos. Quando o conhecemos e
Verde. Alruns anos depois, contudo, abandonaram a aldeia e o entrevistamos em 1955, Lúcio dava a impressão de a lguém em
-se instalar~m em Cachoeirinha. O espírito de iniciativa do pleno progresso: vestido com roupas limpas e sem remendo,
Olímpio, cuja busca de melhores A condições para o trab_alho calçado e, sobretudo, revelando determinação em seus empre-
agrícola parece ter marcado todo esse comportamento_ migra- endimentos. Dizia que não poderia continuar em Cachoeirinha,
tório, foi forjado_ na luta q~e- empree~deu para sob_r~v1v_er nas porque a Reserva não oferecia condições para sua lavoura
diferentes comumdades patncias, que ele e sua familia tiveram progredir. E por condições entendia a falta de colaboração de
de adotar nos últimos trinta anos. Concorre, também, para seus patrícios que o tratavam com visível hostilidade, roubavam
essa modalidade, a _situa~~º r,:ligiosa do grupo familia,!: defini~a ,/ suas roças e cortavam suas reses. Tratavam-no como um
em têrmos de uma 1dent1f1caçao com os protestantes ( crentes )
0 " patrão", pois era alguém que se havia distinguido na comuni-
e que, em última análise, pode ser parcialmente responsável por
Jade indígena e cujo sucesso mais marcava a miserabilidade da
sensíveis mudanças no comportamento comunitário dos conver-
grande maioria de seus patrícios e vizinhos. O resultado foi
tidos. Contudo, não é ainda aqui que trataremos dêsse aspecto
sua saída da aldeia dois anos depois, em 1957, ano em que se
da conduta tribal, desde ql,e isso exigiria uma ~xposição a~alí-
decidiu mudar para o Pôsto Indígena "Icatu", no Estado de
tica do comportamento político-religioso dos Terena; no capitulo
São Paulo, povoado po'" remanescentes Kainoáno e por
V, quando examinarmos tal comportamento, estudaremos su~s . T
A b b
migrantes erena. Cabe escrever aqui que êstes últimos tinham
implicações na esfera econômica, particularmente com relaçao
sido atraídos pelo próprio SPI, que viu nêles a oportunidade
ao trabalho indígena.
de introdt•zir, entre aquêles índios coletores, técnicas aorícolas
Mas êsse mesmo espírito de iniciativa apresenta-se m~is 0

desenvolvido - se nos é permitido continuar a usar uma noçao de tra~al~o; as ~rimcir~s. ~igraçõ 7s,_ ocorridas em 1935, deram
lugar a 1r.stalaçao defin1ttva de mumeras famílias Terêna na
tão pouco precisa - no Terêna Lúcio Sousa, que pode repr~-
sentar um tipo extremo de uma série imaginária referente as Reserva de Icatu, face ao relativo sucesso econômico por elas
alcançado,
. numa área inserida num estado, bem ma ·is d escn-
modalidades de uma atividade empreendedora, corrente no
universo Terêna. Lúcio Sousa, que lidera um grupo familiai volv1do que o de Mato Grosso. f:ste fato mostra que a inserção
constituído de dois grupos domésticos (o seu próprio e o de da Reserva na_e_eonomia regional ~ de tal ordem que ela sempre
sua família de orientação), acumulou tal experiência de trabalho se pode beneficiar das zonas mais desenvolvidas da sociedade

68 69
pequena parcela da produção. P orém, com a quebra da engre-
• 1 Lu'ci·o em 1955 J'á teve essa intuição, quando
naciona . , ' Ih nagem do engenho do Pôsto - e seu impossível consêrto, face
revelou ao pesquisador sua intenção de procurar me . or mer- à inexistência de verba, conforme explicava m os E nca rregados
cado para os produtos de _sua lavoura, ~legando _que o arroz, de Cachoeirinha - , os Teréna planta dor es d e ca na fi cara m
0 milho, 0 algodão e a farinha que vendia em Miranda ~l~~n- inteiramrnte dependentes do engenho dos C a nali, cuja e ngre-
çavam preços muito baixos, ,mui!º ~enores_ do que os o ti os nagem de madeira permitia sua p erfeita m a nutençã o p o r p a rte
por conhecidos seus, ta~bem. md1?s Terena, ~oradores no de seus proprietários. De pequenas p a rcela s das produções de
Estado dr São Paulo. Nao foi, p01s, com surpresa, que, em
seus patrícios, os _Canali passaram a cobrar parcela s cada vez
1958, não mais o encontramos em Cachoeirinha.
maiores, chegando a exigir até metade da produção. As recla -
Um terceiro caso, que desejamos destacar, é ilustrativo de
um trabalho coletivo organizado não mais em tôrno de um mações junto ao Pôsto Indígena, que se sucederam após as
líder, ou de uma pessoa providencial, como o Olímpio e o primeiras elevações de "preço", só não se transforma ram em
Lúcio mas em tôrno de um capital (um bem de raiz), como ações violentas contra os Canali, porque o número de grupos
um e~!!enho de cana. Em tôrno do engenho giram quatro familiais possuidores de canaviais era muito peque no, não
!!rupos · domésticos, num total de 16 pessoas. São os Canali: ascendendo talvez a uma dezena; assim, a comunida de de
; s irm:ios João e Otacílio, e os dois filhos dêste último. ~achoe~inha, como um todo, ficou um pouco marginalizada da
Todos chefes de família, com exceção do João, cuja esterilidade mstalaçao, na Reserva, de uma nova mentalidade de nítido teor
era tid:\ na aldeia como responsável por não haver êle retido capitalista.
nenhuma de suas quatro espôsas anteriores. f:le e seu irmão
0tacílio, homens sexagenários, haviam construído o engenho, Os ?~mais :asas analisados, o do koixonumeti Gonçalo e
graças aos seus conhecimentos de ca rpintaria; e, nos períodos o ~o Ams,~ J~se, sugerem outras questões à reflexão. O pri-
de entressafra, dedicavam-se à construção de mesas, cadeiras e ~eir~ ,~onst1tu1 um e~e~plo de uma tendência à "profissiona-
pequenos e rústicos móveis, para uso da parentela ou para ~ hzaçao de, uma at1V1dade especializada, que vem sendo
atender a encomendas. A utilização do engenho, no entanto, observada ha algum tem_Po entre os índios do Sul de Mato
não se circunscrevia à produção agrícola do grupo familiai dos Grosso. É a do curande1ro, que nessa reoião tem u f ·
P restío' . .:, m e e 11vo
Canali, pois esta - que já não era grande - foi diminuindo .:,IO e uma c 1ientela certa quer entre i'nd1·0s
. · N . ' , quer entre
até reduzir-se a quantidades inexpressivas, incapazes de manter reg JOnats. esse sentido Darcy Ribeiro s fala d , . d
xa - y· ' O prestt ºIO a
um engenho em operação contínua durante a safra de cana. E ma icença, uma vell-a índia Guaikurú de L · 1· .:,. :
essa redução progressiva dos canaviais dos Canali deve-se não mesmos cm 1955 r c1 1111a, nos
, . , ivemos a oportunidade de ., I
ao "desgaste do solo" - como pretendeu explicar o velho naquela aldeia, em preparativos para u . encontra- a
0tacílio - , mas ao "aluguel" do engenho a tantos quantos em G d d . . • , ma via em a Camp
0
ran e, on e ina dar "consultas" .:, < o
Cachoeirinha possuíam canaviais. :Êssc regime de aluguel, que • sociedade local. Na aldeia de Burif a membros da , mais --ª.lli!,
até recentemente inexistia na aldeia, foi impôsto em conse- ender o índio João Fioucir d 1 pudemos tambcm surpre-
qüência da inutilização do engenho do Pôsto Indígena, cujas jovem, já desfrutava pr~stígi~ o ~ue, 1apesar d~. relativamente
engrenagens d::: ferro mastigavam a cana de todo índio que ao deirismo; não era a · rcgio~a pela pratica de curan-
funcionário do SPI solicitasse; bastava ao índio encarregar-se,
r , ngor, um kozxomuneti
e 1entela entre sitiantes e fazend . d . . , mas tmha boa
.
éle próprio, da operação : laçar uma junta de bois ( do rebanho e1ros a v1zmhança, e entre seus
do próprio SPI), atrelá-la ao engenho e manejá-lo, indepen-
(8~ Entre os Guaikurú os xa ' -
dentemente de qualquer colaboração de empregados do Pôsto. os T;rcna, k o ixo1111111eti. R'be· mas sao denominados /d "
prest1g10 na comunidade m~it·~r\ c omenta q ue Vicença ape~ ie;a, enquanto entre
Ressalte-se que a maior parte dos índios se entregava a essa falecida irmã, também xam . 1 ri . a1 de Lalima, não ha'via c ar e . seu inco ntestável
tarefa,_ pois nada custaria de sua produção. Uns poucos, apenas, época (1946) em que aquê1~'· tit fam_a _ alcançava MirandaonseÃu1d_o s uplantar sua
de Laltma para "consul .. e n ogo v1sttou Lalima Vice e . qu1da uana. Se na
socornam-se do engenho dos Canali, pagando-lhes com uma até em Campo Grande tas • dez anos depois ela' já 1~ç_a ainda não havia saído
1950:61). • como pudemos pessoalmente e~ira seu no me co nhecid
ven 1car. (Cf O Ribc ' o
· · 1.ro,
70
71
pria Reserva, e urna m a ioria c.Jependcntc do traba lho externo,
como observamos cm Cachoeirinha, é também observável nas
, · patrícios na aldeia. Durante nossa estada cm Buriti,
propnos . d demais Reservas Tcrêna. 1laja visto que encont ramos cm C a -
ão tinha um ncobrasilciro moran o cm sua casa,
cm 1955 . Jo , . 11 pitão Vitorino o índio m ais rico de quantos índios " ricos"
sob seus cuidados "mcd1cos", e com a promessa de 1e p~gar
uatro mil cruzeiros ( na época um bo_n~ preço), caso f~sse pudemos encontrar no Sul de Mato Grosso. üstc, de nome
~urado. Pois bem, o Gonçalo de Cachocmnha começou a ficar • Gonçalo e homô nimo do koixo111u11cti de Cachocirinha , possuía
,cido na rer.ião a partir de 1954-55, quando deu suas até arado. carrêtas para transporte e jun tas c.Jc boi, além de
C O 1l11l - A N , . ,
primeiras consultas a elemento não-Tcrcna. essa cpoca tm rn uma residência excep ciona l. Como o Lücio e o Olímpio, m e n-
uma r.randc roça e nela trabalhava com afinco, colhendo boas cionados linhas a trás, o Gonçalo trazia gra nde experiência de
s:ifras- de milho, cana, feijão miúdo, morango e muita mandioca. convívio com regionais, tendo sic.Jo, inclus ive, chefe de uma
À partir de 1958, quando sua fama chegou às cidades de Mi- dezena de índios rebelados contra fazendeiros da serra do
randa e de Aquidauana , passou o Gonçalo a se ausentar Maracaju. Sua internação em Capitão V itorin o fo i voluntária,
freqüentemente da aldeia p~ra cumprir se_u mister de cura~~eiro, como complementação de uma fuga espetacular, a fim de es-
e quando estava na aldeia somente se dedicava ao curandemsmo, capa~ de capangas de alguns "Coronéis c.Je Sertão" por êlc
deixando por completo seu trabalho agrícola. Todo o grupo desafiados. Trouxe gado e algum dinheiro para a R ese rva e
doméstico passou a depender inteiramente de sua nova profissão. nela_ pôde reconstruir sua vida e chega r a líder da comunid~de
O índio Anísio José exemplifica bem um caso de herança. Terena do lugar. Em Lalima encontramos o mestiço Ministro
Seu pai, um mestiço, filho de pai também mestiço e de mãe cuja história é muito semelha nte a do G o nçalo e que che oou ~
Terêna, formou um rebanho de gado vacum, no tempo cm que ser, como. aquêle, líder de sua comunidade. 'Ambos, po~ seu
a menor densidade de população na Reserva e a pouca quan- p assad,? v~o!en_to, , torn~ram-se também responsáveis pela cha-
tidade de roçados permitiam a criação de res~s. Co'!1. a _sua mada pohc1a md1?ena - grupos criados pelo SPI e dos quais
morte sua mulher Isabel, índia T crêna, e seu filho Ams10 fica- trataremos no cap1tul~ V. _Seria o~ioso r elatar m ais casos que
ram ~om o rebanho e com as dificuldades de cuidá-lo. Isabel expressam a melhor s1tuaçao economica dos que tiram de seu
amasiou-se com um vaqueiro - o negro Jacinto Amorim - trabalho n~s Reservas o total de seu rendimento; seria acres-
e O tr011xe para a Reserva, e com sua ajuda continuou a tr~t~r centa~ mais umas tantas . hi~tórias d e vida _ natural mente
de seu rebanho. Anísio, embora dono virtual das reses, dcc1dm menos de uma dezena, pois " mdio rico" é exceção _ ,
deixá-las aos cuidados de seu " pa drasto" e entre~ou-se à f?r-
sem a r. .- . :-----=a~===::::;:=~~~ , pore m •
mp 1a_r nossa v1sao sobre o caráte r dessa minoria de e-
mação de extensos roçados, visando a obter co'? eles os meios quenos agncultores ,,e criadores, que bem se d estaca dos •I'ia-
necessários para viver na aldeia, sem a ne~ess~d~~e de traba- vra~ores sem terra. e p eões a que ta nto se assemelham os
lhar fora da Reserva . Teve para isso o capital m1c1al das res~s Jer~na,hem seu conJunto. Fora os ca sos de utilização adequa
que vendia para sua manutenção, enquan!º. esperava as pn- a _e eranças ( caso do Anísio José) ou de e A
0
' -

meiras colheitas. Talvez sejam, êle e o Luc10, os que melhor c?lativo de m aquinaria (caso do enoenho dos 6rebf. espe-
nível de vida desfrutam em tôda a comunidade, tendo-se a de~- am?ª· de profissionalização de curandciros (cas d ª~ª ~) ou,
tacar a residência do primeiro como a mais ampla e _ a mais netz G onçalo, de Cachoeirinha da n 'd· 1 V' 0 o 01xonm-
bem construída na aldeia. Um e outro, aliás, são considerados e do . curador de Buriti, Joã; Fig~ef;; ; ) ic~nça, de. Lalima,
0
em Cachoeirinha como verdadeiros " civilizados", granjeando exammados apresentam como d eno . d ' s demais casos
para si admiração e despeito. A ambivalência dos demais mo- . d' ' d mma o r comum o f t d
os m iv1 uos mencionados possuírem lar a ." . a o e
radores da Reserva mais se manifesta quando os vêem ..!]lQ.Ilta- # tato interétnico E - , g expenenc1a de con-
• dos em seus cavalos, bem arreados e nutridos, percorrendo as . " ' ,, d. sao esses os que sobressaem como
mais ncos entre todos. Mais be .. . os
ruas da aldeia, pois poucos são os Terêna que cavalgam em sistema m ercantil e monetário d m fa1:1ih anzados com 0
suas próprias montarias. alienígenas de trabalho com ma' i· opuf erila~d1 dmcorporar padrões
Deve-se acentuar que essa diferença de níveis de vida entre , . r ac 1 a e do q
trlClos, p ermanentes moradores de aldeias. ue seus p a -
uma minoria que subsiste graças ao trabalho interno, na pró-

72 73
os trabalhadores migrantes africanos os elementos dinamiza-
dores das economias tribais, ainda que sejam êles os maiores
Cabr ressaltar ainda o papel desempenhado por êsscs indi- perturbadores dos sistemas tradicionais de trabalho e os mais
' íduos que se distinguem por sua riqueza no seio da comuni- eficazes aoentes de mudança social. Essa mudança se faria sentir
dad~ Tcrêna aldeada cm Reservas. tles quebraram o equi- em outro; aspectos da conduta tribal, que nos capítulos se-
líbrio econômico incrente às comunidades, desde a época de guintes examinaremos. Antes, porém, devemos fazer uma re-
• reorganização das aldeias Terêna, em princípio dêste século.
ferência a uma modalidade de ocupação que não pode ser
o desequilíbrio existente no passado, ao tempo da aliança classificada como atividade produtiva, mas que nem por isso
Guaikurú-Guan:í, tinha su , razão de ser na própria assimetria
deixa de fazer parte da organização do trabalho interno.
das camadas, onde os naati despontavam como os mais prós-
peros em oposição aos waherê-txané. Mas essa estrutura, como Referimo-nos à atividade comercial levada a efeito, espe-
vimos, desagregou-se por completo, persistindo apenas uns cialmente, no âmbito da própria Reserva. No início dêste
poucos resquícios dela, ainda influindo na organização da con- capítulo mencionamos a peculiaridade da situação dos Terêna
duta tribal, particularmente na organização da família e no ao estabelecer as relações interétnicas no nível do trabalho
estilo do comportamento político. Contudo, o equilíbrio que (assalariado ou não) em lugar de estabelecê-las no nível da
se seguiu durante e depois da Guerra do Paraguai - equilíbrio atividade comercial, como é característico nas relações entre
• na miséria, seja dito - foi novamente desfeito, agora devido índios e ladinos no México e na Guatemala. Entretanto, da
ao relativo ennquec1mento de uns poucos. A quebra da cor- mesma forma que entre as populações Maias o trabalho assa-
relação entre camada (rank) e riqueza, de que fala Schapera lariado não é desconhecido, entre os Terêna a atividade co-
( 1947: 162-168), a propósito do Protetorado de Bechuanalân- mercial também não deixa de ter lugar; apenas é ela uma ati-
dia, na África do Sul, não é devido à migração para o trabalho vidade residual. É residual em dois sentidos: primeiro, em re-
(labour migration) como ocorre naquela colônia britânica, mas lação à venda do produto do trabalho (i. e., bens agrícolas ou
• ao trabalho interno, em empreendimentos próprios. Ao con- artesanais) junto à população regional, pois vimos que apenas
trário dos Bantos e dos Sarwa - populações aborígines daquele uma minoria ( em Cachoeirinha menos de uma dezena, e em
Protetorado - , os Terêna que trabalham fora da Reserva ja- outras Reservas nem isso) se beneficia da comercialização de
mais conseguem economizar o suficiente para investir em bens, sua produção, ao passo que a grande maioria fica afastada
corno gado ou maquinaria e, nem mesmo, conseguem qualquer dêsse tipo de atividade; segundo, no que se refere à variedade
poupança. f:sse contingente que migra sistemàticamente para e_à quantida?e _de proclu~ão comercializada, que podemos con-
o trabalho regional, como se demonstrou, não consegue sequer s~derar economicamente irrelevante, quer para O mercado re-
um ganho suficiente para sair da situação de penúria em que g10nal, quer para a comunidade Terêna. Acresce nte-se O fato
se encontra. O traço comum que se poderia apontar entre a de que ~ comercia!ização na área da Reserva se restringe a
população de Bechuanalândia e os Tcrêna de Reserva estaria, mer~adonas produz1?as pela sociedade nacional, vendidas nas
antes, na importância para ambos da canalização para os al- ~Ideias por c~mcrc1_anA tes i~d!genas nelas residentes. o que
deamentos dos padrões alienígenas de trabalho. Tanto num mteressa
. , examinar
. e esse ultimo sentido da c omercia· 1·1zaçao
-
caso quanto noutro, novas modalidades de trabalho são intro- ., po~s ~ na f_1gura do comerciante indígena, instalado em su~
duzidas. Se os velhos chefes Bantos ou Sarwa não conseguem propn~ aldeia, que poderemos estudar um dos aspectos me
incorporar padrões alienígenas e, com êlcs dinamizar os bens conhecido do contato interétnico e dos mais · ·r· . nos
- s1gm 1cativos para
herdados (gado, sobretudo), é precisamente porque não se a compreensao dos problemas de mudança.
beneficiaram de experiências só propiciadas pelo /abour mi- Na região Sul do Estado, as pequenas casas de , .
gration. Entre os Terêna, são exatamente aquêlcs indivíduos são chamadas "boliche"; nelas se vende de t;d d dcomerc1_0
mentos at' f 0, cs e manti-
que viveram largo período fora da Reserva ( e que não fazem e panos, erramentas e quinquilharias Pod _ a ·
parte do labour migration Terêna) os que se transformaram que essas casas, muitas vêzes situadas à beira d~ estraea!~ c~~~~
nos empreendedores e homens "ricos" da aldeia. São êstes e
75
74
Ao contrá rio do Tolíbio, cujo bol iche é extremamente
tituem o principal ponto de contato comercial entre os Terêna
rústico, pois é seu próprio ra ncho, com paredes. de paus_, co-
á e a população circunvizinha às Reservas. Desfrutam, assim
inegável prestígio junto à comunidade indígena, não sendo d; bertura de sapê e piso de terra batida, o Dommgos Miguel,
estranh:ir que, em algumas Reservas, a " profissão" de "boli- Terêna de Bananal, formou um ~ h c com tôdas as caracte-
cheiro·• se tenha mostrado atrativa. Mas isso, por si só, não e rísticas de uma casa comercial, como se pode ver por essa
seria responsá\·el pela instalação de pobres e rudimentares descrição de Altenfelder Silva : "Mora em casa ba rrcada , pin-
boliches n~s ~ld~ias. Houve, naturalmente, condições objetivas tada, com um prolongamento que estava sendo barreado n_a
como a ei:1stenc1a de. pessoas possuidoras de um capital míni- época em que o visitamos. A casa tem dois quarto~. U~~ dt-
mo, capaz de proporcionar a compra e a venda de mercadorias. visão da casa é ocupada pelo seu "boliche" e esta mobiliado
Dêsse IJ?Odo, em duas ald_c ias, Cachoeirinha e Bananal, pude- com um balcão de madeira, sôbre o qual descansa uma bala nça
mos registrar a presença desses pequenos comerciantes, e nunca de dois pratos, e prateleiras com a rtigos a serem vendidos; a
mais de um para cada aldeia, o que parece demonstrar a im- um canto empilham-se outros artigos. Miguel explicou - con-
possibilidade de ser lucrativo o boliche que tiver qualquer con- tinua Altenfelder - , desculpando-se pela " desarrumação" , que
corrente . estava montando a loja. Possuía uma experiência do negócio,
Em Cachoeirinha, o índio Gilberto Tolíbio resolveu um pois já tivera açougue cm 1932. Por morte da espôsa e de um
dia tornar-se bolicheiro. Tinha mulher e quatro filhos, e havia • filho, acabou o negócio. Agora pretende abandonar as demais
ganho. c~nto e .trin~a cruzeiros tirando casca de angico para atividades e dedicar-se exclusivamente ao comércio. No seu
empre1te1ros reg1ona1s. Isso ocorreu cm 1954, e Tolíbio decidiu boliche, Domingos Miguel vende arroz, mate, feijão, sal, que-
instalar seu pequeno comércio. No ano seguinte, já contava rosene, fósforos, cigarros, rapadura, caramelos e farinha d e
com um capital de giro de CrS 4 200, o que lhe permitia re- mandioca" (Altcnfclder Silva, 1949: 308-309 ) . ~
novar sema nal ou quinzenalmente o seu estoque das seguintes Como se verifica, seu comércio é bem mais desenvolvido
mercadorias : arroz (120 quilos), macarrão ( 60 quilos), mate do que o de seu patrício de Cachocirinha, pois Tolíbio jamais
(30 quilos), pão (120 pães), cigarro (5 pacotes de Continen- compra produtos de sua aldeia para revendê-los na pró pria
tal ou Ileverly), caramelos (uma lata grande, quinzenalmente); comunidade como faz Domingos. Limita-se a "importá-los",
de més cm més, compra fósforos (6 pacotes ), sabão ( 60 bar- enquanto o bolicheiro de Bananal "compra dos índios e de
ras), latas de sardinha (uma d úzia) ; cm dias de festa, sobretudo • TaunaY, para revender para os próprios índios ou para as fa-
bailes, compra guaraná e cervejinha Pingui. Altm dessas mer- zendas vizinhas, qua ndo recebe encomendas" (ibidem) . D ez
cadorias que dão uma id6ia súbre o qua nto a comunidade anos após essas visitas de Altenfeldcr, efetivac.las cm 1946 e
consome através de compras eventu ais, é comum encontrar-se 1947, iríamos encontrar êsse mesmo D omingos Miguel cm seu
sal, açúcar e gordura , cm qu antidade muito vari{tvel, propor- relativamente próspero negócio, alegremente d ecorado com um
cional à procura e ao ca pital disponível. Diga-se, contudo, que enorme lustre adornado de paptis multicores, numa im itação
o Teréna procura compra r prefere ntemente nas cidades, onde d~s casa~ de com6rcio regionais. Mas, ainc.la assim, Domingos
• a,; mercadorias i.ão mais baratas, adquirindo-as nas pequenas nao havia abantlonac.lo a sua lavoura cm Ilananal, pequena,
p<,voaçõcs ou na aldeia apenas cm último caso. Essa prcfc- mas capaz de suplementar sua economia dom1;stica.
réncia explica o pequeno movimento do com(;rCÍo do Tolíbío, • ~ntcs de encerrar êste capítulo, ainda uma consic.lcração a
ín-.talãdo numa Reserva de qu ac;e um milhar de pessoas. A cres- respeito e.lo trabalho na Reserva. Queremo-nos rcfe rir à di visfto
a
(..(;Otc-•.c, no que i,e refere economia do g,rupo dom 6stico de scx~al do _trabalho e sua implica~ão no nível _c.le vic.la da popu-
Tolíbic,, qu~ ht.c por mai11 que desejasse - e planejasse, con- laçao tomac.la como um todo. Ttvcmos ocasião <le c.lcmo nstrar
forme ~cu~ depoimentos - viver apenas de se u boliche, jamais noutro lugar (R. C. de Oliveira, 1958), e ainda com refe rência
• " . con'A.:gu,u; li<:mpre ma ntt··:c lieu roçado como sustentáculo d a à Cachoeirinha, que a tradicional uivisão c.lc trabalho e ntre
d 1tt,;,. famíli<tl.
homens e mulheres poderia ser aponta ua como parcialmente

76 77
Permitam-nos transcrever o que publicamos anteriormente
responsável pela pouca produtividade da lavoura indígena, por- quando analisamos essa mesma pirâmide: "O exame da pirâ-
quanto dela estavam afastadas as mulheres, que resumiam sua mide nos dá a entender o quão difícil é para essa população
atividade agrícola à colheita. A destocagem, o amanho da terra resolver o problema de sua própria subsistência. Não bastam
e o plantJo cabiam quase que exclusivamente aos homens, as dificuldades inerentes ao baixo nível tecnológico do grupo,
adultos e adolescentes. As mulheres, com exceções, colabora- que, em si mesmo, é de exígua produtividade; soma-se a isso
vam na manutenção da limpeza dos roçados. Considerando-se
um pequeno número de indivíduos, produtores, aos quais cabe
que os grupos Aruák sã.:) reconhecidos como grandes agri-
a tarefa de abastecer tôda a população. E note-se que êsse
cultores, onde as mulheres não estão dissociadas de sua
contingente realmente produtor é composto quase que exclu-
economia fundamental, cuidamos de investigar a razão dessa
sivamente por indivíduos do sexo masculino, pois, como se
peculiaridade Terêna. A hipótese que formulamos - e que
sabe, grande parte da população feminina de Cachoeirinha
nos parece bastante aceitável, se bem que de difícil comprova-
ainda segue a tradicional divisão de trabalho" (R. C. de
ção tace às mudanças ocorridas na estrutura social - é a de
Oliveira, ~1958: 10-11). Pois a população útil da comunidade
que o sistema das camadas, engendrado provàvelmente durante
o período chaquenho dos povos Guaná, criou certos padrões - tomando-se como tal as classes etárias de 20 a 49 anos -
de comportamento feminino que ainda não desapareceram por é bastante inexpressiva em relação ao todo. Veja-se a larga
completo. O velho "Capitão" Timóteo de Cachoeirinha, evo- base da pirâmide, denotando um número muito grande de
cando as estórias que sua mãe contava dos antigos, disse-nos crianças, e seu brusco afinamento. Acontece, porém, que essa
• que as mulheres !2EE,!.i jamais trabalhavam na lavoura, nem estrutura demográfica não tem efeito apenas para o trabalho
mesmo na colheita, limitando-se às atividades caseiras e à interno e agrícola, mas para o trabalho externo também, por-
fiação nos fusos ou à tecelagem nos teares manuais. Mesmo quanto o contingente envolvido no /abour migration é o mesmo,
nas atividades caseiras desfrutavam a colaboração dos kauti, dêle estando excluídas as mulheres. Estas, quando migram, o
homens ou mulheres, que as serviam como empregados. Essas fazem fora do sistema labour migration, pois tendem a se ins-
atividades eram muito semelhantes às desenvolvidas na socie- talar por largas temporadas nas residências citadinas, como
dade Guaikurú pelas mulhe· es em geral e, particularmente, por domésticas, ou em hotéis e pensões, como serviçais, ou, ainda,
aquelas membros das parentelas dos caciques. Como resultado mais raramente, como prostitutas. :Ê.sse tipo de migração,
• da simbiose Guaikurú-Gu.rná,. 9 parece ter havido uma incor- quase que não se observa em Cachoeirinha, mas é encontradiço
poração dos padrões de trabalho feminino inerentes àquele em Bananal, Ipegue c Limão Verde, como teremos a oportu-
grupo de língua Mbayá. f.sses padrões, se bem que retificados nidade de estudar na segunda parte <lêste livro.
pela "situação de classe" dos waheré-txané, também devem ter A contribuição do trabalho feminino que poderia ter lugar
exercido substancial influência na configuração do trabalho fe- na esfera artesanal, principalmente na manufatura de potes de
minino dessa camada da população, especialmente dedicada às barro, é irrisória: apenas duas ou três famílias - tomando-se
lides agrícolas. Esteja correta ou não essa interpretação, o fato ainda Cachoeirinha - dedicam-se à comercialização ele sua
é que a a1 ual divisão sexual do trabalho reduz de muito o con- cerâmica, que é vendida na estação ele Duque Estrada ou cm
tingente Terêna capaz de aplicar-se na lavoura. A situação de Miranda. , A arte oleira entre os Tcrêna ressente-se ela mesma
Cachoeirinha é, nesse sentido, ilustrativa dessa anomalia, agra- baixa pr~d~ti_vi~ade do ~rtesa~ato tri?al; n_ão está voltada para
vada pela estrutura demográfica da comunidade, cuja pirâmide a comerc1al1zaçao. Inclui-se a1 a ~unvcsana (Cachocirinha tem
populacional pode-se exa minar na Fig. VI, na página 85. • um ourives) e a cestaria, atividades estas reservadas aos ele-
mentos masculinos. Em algumas aldeias, como Bananal, Pas-
(9 J Cf. R. C. de Oliveira , 1960 a, caps. li e 111; no capitulo Ili o leitor sarinho e Moreira, ainda se vê a arte de trançado produzir aba-
rod<c, ~ le r uma vi,~o mais nunuciosa des,a divisão sexual do trabalho, com seus
r<llc:xo na m11olol(ia lnbal e suas correlações com outros 11rupos Aruák Chaque- nicos, que são vendidos aos regionais, notadamente a viajantes.
nhos, co mo os Txané ocidentais.

79
78
. - os qualquer artesanato, seja
Já em outras aldeias, nao vem 1 E Lalima Buriti
. . d trançado ou outro qua quer. m ' .
ole1ro\_scJa rc exemplo, não se faz cerâmica ,ª1?1ma, sob, a ~us-
e_ ~rcJ~O, po uc falta barro bom. O que ha e que as_ tecmcas CAPÍTULO IV
tif1caçao_ de _q desaparecendo especialmente nas aldeias reor-

gam~to; da divisão sexual do trabalho, como os das ~árbl~S


asp_e d s de cmprêoo da mão-de-obra tribal, no am ito a
mr
arte_s3;;~: ;~ºnaquelas de co~1posição étnica múltipla. i~ Estes
A ORGANIZAÇÃO DA FAMILIA
dRahda e ou fora dei~ têm seus reflexos na organização da fa-
eserva ' , · 'tul
mília Terêna, cujo exame efetuaremos no prox1mo cap1 o.
No capítulo introdutório, por meio da construção de um
modêlo da sociedade Terêna "ao tempo do Chaco", tentou-se
explicar (é essa a função precípua do modêlo) a estr~tura so-
cial tribal, em suas linhas mais amplas. Por esse motivo, se_ o
modêlo não chegou a explicitar as relações de trabalho entao
existentes na sociedade Terêna, também não chegaria a apre-
sentar e explicar todos os grupos e instituições sociais que or-
ganizavam no passado a vida tribal. A caracterização das ins-
tituições do parentesco e do matrimônio, por exemplo, foi feita,
então, com a expressa intenção de tornar inteligível a mecânica
do sistema social transposto no modêlo. Ora, sendo assim,
grupos sociais como a família, o grupo doméstico ou os grupos
cerimoniais, dentre outros, foram portanto apenas mencionados
(ou, nem isso, como o grupo doméstico), uma vez que a con-
sideração analítica dos mesmos não contribuiria de modo sig-
nificativo para a inteligência do modêlo. No presente capítulo,
ao contrário, as formas de organização social como o grupo
doméstico e a família surgem como as modalidades de intera-
ção social de particular relevância para o estudo do Terêna
moderno. O antigo sistema social desintegrou-se por completo,
esboroando-se sua estrutura nuclear ( estrutura simétrica e dual
sobreposta à estrutura . assimétrica e tríplice), da qual se no- ..
tam, hoj~ ~m dia,_ alguns t_raços que se im põem à observação
cm_ conc.l1ç,ocs muito cspec.:1ficas, algumas jú rcfcridas no pri-
meiro cap:, tulo, .outras que mencionaremos no decorrer dêste.
T:atar-se-a aqui - e cm conformidade com a distinção de
FJrth entre fenômenos de estrutura e fenômenos de organiza-
lJ',J Cf. IL C. de Oliveira, 19(,() a, ca))I. V e VI,
81
80
ção t - de modalidades organizatórias da vida social dos indicativas de que o _padrão familiai adotado era o da f.~mília •
Tcrêna inseridos cm novas condições de existência, pa rticular- extensa, o que é corroborado por Azara, segundo o qual_ sei:ve
mente naquelas condições que são inerentes à situação de ãcãsã para doze famílias" que _se acomodam em seu rntenor
Reserva. sem divisões ou paredes. 3 HoJe, nas Rcscr~a~, to~ando-se
por base Cachocrinha, 71,3 % dos grupos domest1cos sao ~o~s-
tituídos por famíli as elementares, sendo que cst~s, ~m m a wn~,
1. Os Grupos Domésticos são formadas por um casal e filh_os~ e uma mm~~ta por pais
ou mães e filhos solteiros. Constitu1dos por familias extensas
A antiga orga nização circular dos grupos residenciais, da não há mais d e 25,7 % de grupos domésticos, ne nhum, e?tr~-
qual ainda resta m algumas lembranças evocadas pelo têrmo tanto, composto por m ais de três casais e filhos, sen?o a m a ioria
Aktí/ea {argola> , ?orne de um dos '. ' bairros" da_ ald_eia, Cachoei- formada de dois casais : pai e mãe, filho e nora ou filh a e genro.
rinha, foi subst1tu1da, como em mmtas das aldeias md1genas do Um número menor de famílias extensas é do tipo fraternal ou
Brasil, por um nôvo tipo de organizaç~o inspirado no alinha- sororal. Já as residências habitadas por uma só p essoa não vão
mento residl!ncial observável nas p ovoações e cidades regionais. além de 2 9 %. :Êsses dados retrata m bem a muda nça operad a
Em muitas aldeias, essa muda nça . ocorreu como resultado de na organi;ação dos grupos domésticos T erêna, que poderiam
uma aculturação não-dirigida; noutras, foi induzida pela inter- subsistir com sua antiga organização cm fa mílias extensas: estas
ferência de ag§_!}cias assistenciais, secula res ou religiosas. No exigiram, p ara su a persi,!ência, mais do que ~randes cas~ s
caso dos Terêna, é válida essa segunda explicação, porquanto comunais, uma mais efetiva solidariedade tribal e mtensa coesao
o Serviço de Proteção aos fndios planejou meticulosamente a na organização do trabalho social, traços que nã o sobreviveriam
localização dos núcleos centrais das R eservas, com a constru- - como não sobreviveram - ao esfacelamento da a ntiga
ção da residência dos Encarregados dos Postos Indígenas, o estrutura social.
arruamento da aldeia e a construção de verdadeiros quarteirões, Cabe, aqui, um esclarecimento sôbre a adoção do conceito
com ranchos e quintais. Cach oeirinha, Bananal e I pegue obe- de grupo doméstico. Em nosso Projeto de p esquisas, que deu
decem perfeitamente a essas linhas urba nísticas, ao passo que margem às primeiras formulações desta monografia, já escre-
as demais aldeias, se bem que sigam o pa drão de casas alinha- víamos que os grupos domésticos "representam uma unidade
das, não adotam o _sistema de quadras e ruas impôsto p elo concreta das mais significativas, pois a brangem todo o g rupo
S.P.I. Nessas três aldeias o S.P.I. parece haver tentado a sua residencial, incluindo a fa mília ( elementar ou extensa) e os
experiência mais audaciosa no sentido de uma prática indige- agregados" ( R. C. de Oliveira, 196 1 : 6) ; e acrescentamos que,
nista consentânea com orientações protetoras, vigorantes na segundo Meycr Fortes, "em tôdas as socied ades humanas a
época ( e ainda hoje atuantes em certas esferas da administra- fábrica da reprodução social é o grupo doméstico" (M. Fortes,
ção), de trazer os índios à civilização p elos caminhos ingênuos 1958 :2). E, ainda, "Os pa drões residencia is são, em um certo
da homologia : dar um aspecto "civilizado" às aldeias seria por momento, a cristalização de um processo de d esenvolvimento
si só um passo importante para educar os Terêna em novas e
• . 1
progressistas pautas culturais. As grandes casas comunais, on-
varas de comprimento, e umas 8 de largura. O formato de sua arquitetura ~ uma
gas e de teto abobadado de que fala Sánchez Labrador, 2 são abóbada, sem pilares o u postes ao me io" (Labrador. 19 10:275-276). Os depoi-
mcn.tos de Castclnau, referentes_ a várias aldeias (Guaná, Laya na, Kinikináu e
Tercna)_. se confirmam a dcs~ nçao de. Labrador, relativa à arquitetura d a habitação
contradizem-no cm seu depoimento sobre o formato da aldeia sugerindo ass·
(1) A distinção ~ títil pois nos incita a observar e descrever os fenômenos haver o monge franciscano visto uma co munidade Guaná atípica e acult ura~°:!'.
dinâmicamente, aprcendendo-'.os cm suas várias modalidades de manifestação _(I. _e., Acr~scc. amda,, o fato de _Castclnau nos fornecer a . primeira descrição de uma
fenômenos en train de u faire), sem nos determos, como fizemos no pnmeiro ~Ideia do~ Te rcna, até entao pràucamente desconhecidos da crônica etnográfica ·
capitulo, no estudo da mudança social do ponto de vista dos mecanismos de cor- c~sc cronista descreve um aldeam~nto com uma centena de casas e habitado '
reção dos "desvios" verificados na estrutura social tradicional. cerca ae 1 500 pessoas. Escreve Caste lnau que suas "palhoça s formam um imep~r
O
(2) Sinchez Labrador descreve uma aldeia Guaná como sendo não-arredon- rancho coberto de fôl has de palmeiras e estão dispostas em círcul~s à volta nd •
dada, mas comprida e proporcionalmente larga; diz, em seguida, que "As casas uma grande praça central" (Castelnau, 1949:302 ). - ' e
~ disunguem cm sua construção das dos cristãos. Cada casa terá de 16 a 20 (3) Cf. Felix Azara, 1949:243. As "doze famílias" mencionadas referem
naturalmente, a igua l número de famílias conjugais, como assim pareceu ao croni;~:
82
83
uos tipos ou formas llc famflia" {M. Fmll·s, 1958:3). Mas HOMENS MULHERES
qual o v:1l11r hcuristicn. do ponto de vista lh an:ílise que po- + 95
tkmos l'n.·1mtrar para o uso d~sse cnnceitn no presente trahalho?
90-94
Uma socicd:1dc "cm transi\·:io" i:rn110 a '!\:rena. rnjas institui-
ções tradicionais sofrl•ra111 intensa dcscaractcri1.ação, teve de 85-89
se rcorf!a nizar cm novos moldes que não chc~aram a se institu- 80-84
cionalizar, pcrm:rneccndo no que se püdcria ~Itamar de "limbo" 75-79
social. SL· a focalização da Família nos incita a examinar sua 70-74
dupl~ di;nensiio - de G1~u1'.o Social e. de Instituição - , a
focal1~aç.10 _de Grupo Domesti co nos olmga a reter unicamente 65-69
sua d1mcnsao de Grupo Social que vem servir de ponte entre 60-64
o _q ~c Fortes_ ~hama de sistema interno (relações sociais, insti- 55-59
tu1ç?cs e at1v1~adcs) e o si.\·t c111a <'Xtcmo {campo jurídico- 50-54
polit1~~~; para esse Autor as transformações que sofre O Grupo 45-49
Domestico ( e que apresentam um caráter cíclico) são a um
s6 tempo urn "processo dentro do sistema interno e um movi-
40-44
mento . governado por suas relações com o campo externo" 35-39
(M. _fortes, 1958: 2). Não se trata, pois, de procurar fixar 30-34
pad_rocs cu}turais, mas, ao contrário, de surpreender o sistema 25-29
!
social crena en trai~ de se faire, i. e., organiza ndo-se pela 20-24
operaç_ao ~e seu equipamento cultural tradicional governado 15-19
pela s1tuaçao de ~cserva. Assim, as instituições sociais, rcgu-
lame~~doras da v1d_a tribal, serão vistas cm têrmos do grupo 10-14
domestico, como umdadc estratégica que é da atual conjuntura 5-9
Terêna. 0-4
I nicialmcntc vamos examinar a composição dos grupos
do'!1ésticos Tcrêna, com referência ao mimcro de gerações, não 14 12 10 8 6
mais procura ndo cotejar a antiga situação com a moderna. FIO. VI
Bas~ados cm dados obtidos cm Cachocirinha, verifica-se que
Pirâmide de dislribuição de !IC XO e idade na população de Cachocirinha.
o tipo de grupo doméstico mais freqüente na comunidade
aldcada é o composto po• duas gerações, perfazendo 51,8 %
{70 GD) de um total, em número absoluto, de 135 grupos 0 poder que desfrutavam no passado como indiscutíveis chefes
domésticos; vem a seguir o de três gerações, com 39,2 % (53 de família. A perda de poder deve-se, cm grande parte, à
GD); e, finalmente, o de uma e de quatro gerações, respecti- quebra da antiga correlação entre status e riqueza, como resul-
vamente com 5,1 % (7 GD) e 3,7 % (5 GD). As razões de tado da ação individual na vida econômica; a existência de um
ordem demográfica, indicativas da pequena percentagem de mercado de trabalho regional criou condições para a ampliação
ve~hos na comunidade - conforme pode-se ver p ela pirâmide da ação individual. 4 O .status a que nos referimos não se
(figura VI) - , somam-se as de ordem sociológica para circunscreve apenas à camada a que pertenceria o indivíduo
explicar a maior incidência de grupos domésticos do tipo de
duas gerações em relação aos de três. Não s6 os velhos estão
em pequeno número (e isto explica, especialmente, a irrelevante (4) :tssc fenômeno ocorreu cm lugares - como na África Negra - con-
forme nos mostra l. Schapera em seu trabalho, referido no capítulo anterior,
ocorrência de grupos de quatro gerações), como êles perderam Migrant Labour · and Tribal LI/e.

84 85
domésticos durante um p eríodo de três anos, entre 1957 a
(por exemplo, a dos naati), mas também ao status de chefe 1960, datas em que tivemos a oportunidade de recensear . sua
doméstico, i. e., de líder de uma família extensa, liderança essa população. :f:sse comportamento poderá ser mcl_h9 r a_vahado
que sempre cstêvc nas mãos dos mais velhos. A gerontocracia se o descrevermos em reb ção a processos de c1sao. , . <:··. as
parece ser um traço inerente à estrutura social Terêna; e, diante várias modalidades de desmembramento do grupo domestico.
das mudanças sociais operadas, não poderia ela deixar de ser A primeira constatação, assaz signific:itiv~, _é a de_ que, nesse
atingida cruamente. 5 Essa dinamização do comportamento curto período, 37 ,2 % dêsscs grupos domcst1cos estiveram sub-
individu1l, de que tivemos exemplo na análise anteriormente metidos a processos de cisão; cm números absolt~tos_. 48. dentre
f cita dos labour migrants, determinou maior mobilidade da 129 grupos do1m~sticos. 6 ~ai pcrcc~tagc1~1 . md1ca 1_~tensa
família elementar ; e esta é composta por duas gerações : pais e mobilidade no seio dessas umdadcs res1clenc1:us. I ~v~stl=,ando
filhos (as). as causas dos desmembramentos dêsscs grupos do mcst1cos, ~e-
Como aferir essa mobilidade? A existência do mercado rificamos que o matrimônio e o falecimento de um (ou mais)
de trabalho regional e a absorção da mão-de-obra Tcrêna de seus componentes entram, respectivamente! com _27 , l %_ e
sugerem significativa mobilidade espacial indígena com as 22 9 % sôbrc o conjunto clcss:1s causas. As tres scgu mtes sao:
conseqüências já indicadas de alteração na ordem social das a ;,,ioração individual ou conjugal de membros dêsscs grupos
R eservas. Ora, essa mobilidade, que também se manifesta no dom6sticos cDm 14,5 % ; a separação ("divórcio"), com 16,6% ;
meio interno da comunidade indígena, pode ser devida, cm finalmente,' o que chamamos " ncolocaliclaclc", i. e., a mer~ m~-
parte, à descaracterização da agricultura tradicional, à qual se dança de casa ( com a conseqüente alteração na orgamzaçao
vinculavam todos os componentes masculinos da família extensa doméstica da unidade residencial primitiva), com 18,7 % .
sob a liderança de seu chefe. Eram, então, roças realmente Analisemos cada uma dessas causas. A migração, a que
coletivas; não como as de hoje, que são coletivas apenas apa- cabe O menor percentual, refere-se espcc'ificamentc ft saída da
rentemente: as roças coletivas d as Reservas são, em regra, Reserva de um dos membros e à permanência dos demais, ou,
subdivididas cm setores - indistintos aos olhos de um obser- inversamente, à migração ela maioria de membros do grupo do-
vador alienígena - pertencentes a famílias conjugais, se bem méstico com a permanência, cm regra, de uma família ele men-
que o trabalho, cm certo sentido, possa ser considerado coletivo. tar (quando se trata ele um grupo doméstico do tipo família
Contam velhos informantes que nos tempos de seus avós o extensa) . Há, contudo, casos que fogem dessa regra, mas que,
trabalho "nas roças das famílias" era um só e p ermanente por serem raros, decidimos incluir nessa mesma categoria,
" mutirão". A desmoralização da família extensa como unidade desde que a migração seria ainda responsável pela cisão: tra-
de trabalho deu lugar ao fortalecimento das famílias conjugais ta-se de casos de desaparecimento total do grupo doméstico
que ganharam maior autonomia na ordem social tribal; e os pela agregação, dos membros restantes na R eserva, cm outros
modernos grupos domésticos passaram a apresentar aquelas grupos domésticos a êles relacionados por elos de parentesco.
características mais consentâneas com a nova situação, numa Os motivos d<1 migração estão circunscritos ao fator econômico,
nítida superação numérica das famílias extensas pelas famílias seja pela necessidade de procurar trabalho permanente fora
elementares. da Reserva, seja pela vontade de organizar a atividade produ-
Por outra parte, essa mobilidade é ainda - e sobretudo tiva do grupo familiai em lugares mais propícios, como a Re-
- conseqüência de uma certa anomalia social. Tomemos Ca- serva de Jcatu, no Estado de S. Paulo. E ssa última motivação
choeirinha e consideremos o comportamento de seus grupos é a mais freqüente nos casos de migração, uma vez que a sim-

(S) A importância do o nw (avô) no pre se nte é pràticamente nula, ainda ~ue (6) Do total de 136 recenseados em 1957, 7 grupos do mésticos migraram
no p~sado sua figura tenha tido grande expressão. bem atestada nas mmtas posteriormente pa ra outras Reservas, como l pei;ue, lcat u e _ São J oão,_ ou para
Ulórias - dos tempos antigos - relatadas pelos modernos Terêna; aliás, a flg~ra povoações como Duque E strada, tornando, assim, necessâna a rcduçao a 129
do velho de modo geral sobrevive hoje envôlta numa áurea de grande respeito grupos domésticos - que tomamos com o base para análise estatística.
he bem que não de obediência) através da extensão do vocativo lulu (tio) a
q uantu pc,soas idosas existam nas aldeias, sejam ou não parentes.
87
86
cônjuge. Casos há, ainda, relacionados com igual fenômeno de
p1es necessidade de trabalho em outros mercados
. . de · mão-de- agregação e que se referem à saída individual de pessoa;, _no-
obra tem sido satisfeita através do labour m1grat/on, l. e.: com tadamente de anciões que circulam entre os grupos domest1cos
saídas temporárias e por curto espaço de tempo da aldeia. de seus parentes, sejam irmãos, filhos ou netos .
A separação ou divórcio vem em segundo lugar como
O falecimento de um dos membros do grupo doméstico é
causa menos freqüente para o desmembram~nt~ dos grup~s
o quarto fator que, em grau crescente, contribui para a casu_ís-
domésticos na Reserva Cachoeirinha. A ma~ona dos ca~a_1s
tica do processo de cisã<.,. Dos onze casos registrados, 01to
separados tende a explicar o desenlace por motivos de adulteno
relacionam-se com o óbito do "chefe da casa", três com o de
de um dos cônjuges, geralmente do homem. Mas es~a- parece
ser uma racionalização da mulher, porquanto o adulteno mas- sua espôsa. Em alguns casos a morte de um dêles suced~u. ou
culino na aldeia é relativamente comum, sendo insignificante o antecedeu a de outros membros do mesmo grupo domestico,
número de separações por êsse motivo. A separação não tem principalmente o falecimento de filhos. Mas, em todos os gru-
sido de iniciativa da espôsa, mas do marido que a abandona pos domésticos cujos chefes pereceram, ocorreu a mudança do
(geralmente com filhos) para unir-se a outra mulher. Dos grupo, quer para outra residência, quer para fora da Reserva.
oito casos de separação computados como causa de desmem- Nos três grupos domésticos em que se deu a morte da espôsa
bramento do grupo doméstico, apenas dois fogem a essa clas- do "chefe da casa", êste continuou morando na residência
sificação. Um prende-se ao abandono de um marido por sua primitiva. f:sse fenômeno é da maior significação sociológica,
mulher que, acompanhada do filho do casal, saiu da Reserva pois comprova ser o "chefe doméstico" o elemento chave do
indo residir com uma de suas filhas do primeiro matrimônio grupo residencial, mesmo em se tratando de sociedades carac-
em Icatu. O outro caso é de natureza excepcional, pois envolve teristicamente bilaterais corno a Terêna. Além da mudança de
o até entfo único grupo doméstico formado por uma família lugar ou de residência, observou-se também nítido fraciona-
poligínica: trata-se do índio Otília Antônio que se uniu a duas mento em mais da metade dos grupos domésticos. Isto é, o
irmãs - e só não se uniu também a uma terceira por esta haver grupo doméstico subdividiu-se, tomando seus elementos (indivi-
se casado tão logo saiu da puberdade; mas a história da fa- dualmente ou em famílias elementares, quando o GD era com-
milia indica que Otílio chegou a ter vida sexual com sua
posto por família extensa) destinos diferentes: alguns saindo
cunhada, explicável em têrmos de relações jocosas; não advindo
filhos elas não passaram disso. Porém, com a segunda irmã, da aldeia e para lugares diversos, outros nela permanecendo.
Otflio veio a ter três filhos e com a primeira seis. Essa segunda Em suma, o falecimento, fenômeno biológico que é, veio aba-
irmã, após viver vários anos com Otília, abandonou-o para se lar, no plano social, a ordem doméstica de 22,9% dos GD
unir a outro Terêna, com o qual passou a viver fora da Re- submetidos à cisão.
serva, o que levou o grupo doméstico a se desagregar intei- Finalmente, entra o matrimônio com a maior cota de res-
ramente. A terceira irmã, com seu marido (ambos cunhados de ponsabilidade nesse processo de cisão. Dos treze casos compu-
Otília), passou a morar na residência do sogro; e Otílio, com t~dos, dez podem ser caracterizados como sendo de viriloca-
sua mulher - a primeira das irmãs - mudou-se finalmente ., hdade, apenas três de uxori 1ocalidade. 7 E:sse fato mais d
para Aquidauana, levando consigo todos os filhos. d eno tar pod er ou 1ºnfluencia da família do marido, indica que
A • o que
,
as
Vem a seguir a cisão por "neolocalidade", cujas aspas,
aplicadas ao têrmo, exprimem a imprecisão do conceito para
os fins desta análise. Em alguns casos, essa "neolocalidade" (7) Preferimos os têrmos virilocalidade e ·1 rd
localidade e matrilocalidade uma vez ue os ux_on _oca l ade em lugar de patri-
estaria refletindo o desejo dos cônjuges em viverem indepen- mais objetivamente os fenô~enos de cintigüida~nmei~~s e_x)ressam, a nosso ver
Terêna. Os prefixos virl e uxori deslocam a • f e reJ1 enc1a - observados entre oi
dentemente, do ponto de vista doméstico. Há casos, entretanto, geração dos_ noivos, ou, noutros têr~os deslo~~ a~e / çc_raçao as~endc~te para a
de reproduçao (recé~-organizada ) . Com'o nos a am,ha. de e:nentaçao para a
em que êsse desejo expressa apenas independência da família que existam regras fixas de localidade i modernos Teren_a nao se possa dizer
de o~ie~tação de um dos cônjuges, pois o casal sai de um grupo mesma família por gerações os enunci~d~e.' o mesmo mecanismo não persiste na
dade conceptual: uma mes~a família ro/m~~m pate~ e mater perdem sua objetivi-
domestico para se agregar em outro, no dos pais do outro manter sua filha e marido (genro)' na me~ patn °.cda}m~nte, por exemplo, pode
ma res1 enc1a, enquanto seu filho,

88 89
Nessa altura, impõe-se uma explicação de ca~áter meto:
ões de vida do jovem marido na família da mulher tendem
coodiç . , b dolóoico. Esclareça-se preliminarmente que as quantidades aqui
a ser as m:i.is desfavoráveis possíveis. Essa assertiva e corro o-
enun~iadas se referem a ocorrências que tiveram lugar no curto
r:ida pelas entrevistas colhidas den!re os rec~n~-<:asados,_ c~n~o,
aind:i. entre os noi\·os. em perspectivas de prox1mo matnmomo. período de três anos; daí a expressividade dos números. Con-
Além. do mais. se nos fixarmos na descrição do fenômeno que sidere-se ainda que nem tôdas as causas apontadas foram
' , d
nos é d:id:i pelos números, \·erificaremos que, dos dez casos de exclusivamente as responsáveis pelo desmembramento os gru-
\i.rilocalid:ide, somente três poderiam ser classificados como de pos domésticos; outros fatôres, naturalmente, concorreram P,ª~ª
p:itrilocalid:ide. i. e., de espôsa residindo na casa do pai do ma- o processo final de cisão. O que se procurou com e_ssa ~umana
rido; os restantes referem-se à agregação das espôsas em grupos análise da casuística do processo foi reter as motJvaçoes que
domésticos já constituídos, e, nesse caso, o grupo residencial é nos pareceram mais responsáveis pelas , s~nsíveis al~erações que
de tipo fraternal ou inexiste a figura do sogro; ou, então, o grupo tiveram luoar no seio dos grupos domestJcos. A rigor, tratou-
está por se constituir, e o caso pode ser classificado como de neo- se de siste~atizar causas manifestadas empiricamente. Tenha-
localidade ( contudo, a causa da cisão ainda é o matrimônio, não se em co!lta, enfim, que em alguns casos de cisão operara m
a procura ou a construção de uma nova residência). Quanto simultâneamente não um, mas dois ou três fatôres como o
à uxorilocalidade - expressão preferida em lugar de matriloca- matrimônio, o divórcio 0.1 o falecimento, sendo, entretanto,
lidade - , registraram-se três casos de significação diversa. Um possível ao pesquisador distinguir - como distinguiu - qual
dêles exprime a saída do homem e da mulher de seus grupos dêles teria sido a "causa eficiente" do desmembramento, graças
domésticos primitivos com a conseqüente agregação de ambos ao material qualitativo obtido através de entrevistas.
no GD do marido da irmã da mulher (espôsa), i. e., na casa
do cunhado do homem (marido) . Aliás, ainda nesse caso, o
matrimônio que parece ter decidido a cisão do GD não foi 2. O Matrimônio
propriamente o dêsse homem, mas o de sua mãe, viúva, que se
uniu a um purutuya trazendo-o para sua casa. Isso fêz que o Vistos os grupos domésticos em sua estrutura e analisados
rapaz, seu filho, até então o "chefe doméstico", deixasse a dinâmicamente em têrmos de seus meca nismos de cisão, cabe-
residência da mãe logo que se casou com sua jovem espôsa. nos tratar agora do processo de sua formação, no qual desta-
Outro caso é o do casamento de um rapaz, enteado do "chefe camos o matrimônio como o seu mecanismo básico. Entre-
doméstico", segundo marido de sua mãe, de cuja casa saiu para mentes, a uma conclusão já podemos chegar sôbrc a instabili-
Yiver na residência de seu sogro. O terceiro caso refere-se à dade dos grupos domésticos Terêna, apoiados que estamos nos
saída do homem para a casa ~de seu sogro, incorporando-se a percentuais observados em Cachoeirinha: os 37,2% dos GD
um grupo doméstico tipo família extensa, ao qual acabava de ~u~ s~freram cisã_o ent:~ 1957 e 1960 já seriam de per si
se integrar a espôsa de um rios filhos do "chefe doméstico"; êsse md1cat1vos dessa mstab1hdade, não fôssem encontrados ainda
caso representa um dos muitos em que o grupo doméstico é outros elementos comprobatórios nas quantida des relativas de
efetivamente liderado por seu "chefe", que tenta ampliá-lo sem- casamentos e de ~~vórcios. Em igual período, constatou-se que
pre que possível com a anexação de genros e noras. ocorreram 33 umoes contra 14 separações, o que vale dizer
pouco menos_de metade, pois para dois casamentos quase q
houve necessidade ·-de um divórcio! Acrescente-se , am· d a, que
ue
varão, dela sai, constituindo nova residência (neolocalidade) ou indo morar na dentre essas 33 umoes, quatro foram desfeitas durante
r'ª :;e sua mulher (uxorilocalidade ); esta última residência tanto poderá ser
º":'ª 3 por uma família extensa fraternal (dois irmãos com suas respectivas , d · . , . o mesmo
~ J ~u cororal (duas irmãs, com seus respectivos m~ridos) ou ainda pela peno o, z.e., quatro d1vorc1os de casais com menos de t A
. _ d res
matrg~s 1) a r::trer (que, por sua vez, poderá ter tido uma origem 'patrilo~al ou
a uma ª .·. à grad~ reconheçamos haver aspectos mais complexos com relação
anos, com
d exceçao. e um - onde o marido acab ara d e sepa-
P<UJi,n criuca adoç_a o dos consagrados t,.rmos patri ou matri (cf. Barnes, 1960: rar-se e sua ~ntJga_ 1:1ul?er poucos meses antes de seu nôvo
Ttri:.n/ cremos suficiente esta explicação com referência à especificidade do caso
casamento e novo d1vorc10 - , os três outros foram casos em

90 91

.1.
gressiva institucionalização da neolocalidade como sucedâneo
que os casais iniciavam sua vida conjugal junto ao grupo imediato daquele período inicial junto à parentela da mulher,
doméstico dos pais da mulher. Haverá alguma relação entre a de que fala Murdock.
• ~ri!ocalidadc e a !nstabilidadc matrimonial? Tudo indica que A família como instituição social, ainda desempenha entre
sim, como passaremos a expor. os Terêna mocÍernos e importantes papéis no processo matrim~-
Anteriormente, quando tratamos do matrimônio como um nial. Referimo-nos especialmente à Família de Orientação, CUJa
dos fatôrcs responsáveis pela cisão do grupo doméstico Terêna aceitação - tácita ou não - do genro ou da nora pc}os ~ogros
tivemos a oportunidade de nos referir às condições desfavorá~ resulta na formalização definitiva da nova união no amb1to da
• veis que o _jovem mar_ido :ncontra junto 'ao grupo doméstico comunidade. Na verdade, agora esta é muito mais simples se
de. sua esposa, cm CUJO sc10 vai residir. Tais condições, ex- a compararmos com o que tinha lugar no passado - desde
clumdo-sc aquelas concernentes a situações a nômicas ( embria- que tomemos como ponto de referência o q~ad!o que dê!c nos
guez _do sogro ou de cunhados, por exemplo), cingem-se à faz Altcnfeldcr Silva. Excluindo-se as vanaçocs que tinham
quantidade de !ra_balho que o jovem genro é levado a despender lugar no cerimonial do casamento (variações essas relacionadas
no grupo dom<:st1co d_c sua . mulher, como se estivesse pagando com a camada social a que pertenceriam os noivos), o meca-
o preço da noiva (brrde prrce), e provàvelmcnte o está. Mur- nismo social de formalização do matrimônio era um só: "1)
dock, no tombamento que fêz das culturas indígenas para 0 Combinacão prévia do casamento, matéria da alçada dos país
Hum_a~ Relation~ Area Files (G. P. Murdock, 1957:686), dos noiv~s; 2) cm ambos os casos o noivo é acompanhado até
class1_f1ca os Tcrena como sendo uxoribilocais, i. e., "bilocais a casa da noiva, onde vai ficar integrado na família da mulher;
depois de um período inicial com ou perto da parentela da 3) o tapêtc de piri ou !tituri parece simbolizar o nôvo casal,
mu~her" . . Essa classificação tende a exprimir a antiga organi- desde que o Terêna nascia, vivia e morria sôbrc um hituri; 4)
z_açao social, _mesmo p_orque Murdock utilizou fontes bibliográ- a colct1 de mopó, feita pelas famílias dos noivos, antes do ca-
ficas nas quais os Terena eram apresentados cm têrmos de sua samento, pode ser interpretada como o símbolo da nova aliança
cultura tradicional, reconstruída pelo etnólogo. Nessa organi- cooperativa; 5) o casamento era sancionado pelo pai da noiva" •
zação, a instituição do bride price é perfeitamente consistente, (Altcnfclder Silva, 1949 : 346) . Note-se a inexistência de qual-
quer mecanismo de sacramentação por qualquer ofici ante indí-
considerando-se o sistema social tribal. Contudo, ela guarda
gena, limitando-se o matrimônio a um tipo de contrato, apenas
estreita conexão com as form as mais modernas de organização, fortalecido por certas simbolizaçücs tendentes a consagrá-lo no
engendradas nas condições de Reserva. Nessas condições, a plano jurídico tribal: as "etapas" intermediárias (2), (3) e ( 4) .
uxorilocalidade dos primeiros tempos de casamento continua Modernamente, essas etapas desapareceram, ou quase, perma-
a pcrsi5ti r, contando-se como tais 17 uniões dentre 33 regis- necendo, apenas, um simulacro da segunda (2): subsiste a
tradas cm Cacho<.:irinha durante o triénio 1957-1960; apenas expectativa dos paic; da noiva cm ver o noivo ser trazido por
7 virilocl!is e 9 neolocais. Posteriormente a ésses primeiros seus próprios pais ( ou representantes ) para entrar na casa da
tempoo, cm regra após o nascimento do primeiro filho do casal, .noiva - e nela ficar, pelo menos duran~..-2_S_ .[lli_l_!lCÍ[1)StCm_pos -
hte é levado a con.\truir sua própria ca,;a, e a organizar seu de casados (o bride príce, a que nos referim os) . As etapas da
próprio grupo domé,tico; quando isso não ocorre, a tendl:ncia combinação do casamento ( 1) e do seu sancionamento (2)
é o c~tal .tgreg,;:ir-1>e ( quando já não está agregado) ao grupo continuam ainda a ser cumpridas, se bem que não o sejam
d~mfatico do cimjugc ma:>{;ulíno, formando o que já se deno- sempre, pois muitas uniões se efeti varam sem a atualização
rnin,Ju G/J Familia l ~xtema, pr,r sua vez minoritário na ordem désse padrão ideal. Mas essas uniões são consideradas excep-
wcí,d Tcrén.i. Vcrifi c:a-M:, com éo.,cs dado,, que a bilocalidade, cionais e, como tais, destoam na ordem moral da comunidade.
~ ~ ut ncr, fala Murdock, pode ser retificada com relação aos f:sses mecanismos, increntes ao matrimónio tradicional
f c:ren;, .stu-2iJ píi ra M:r entendida prepondcrn ntcmcntc como explicam muita coisa das uniões que têm lugar dentre os Teri
n~~o:alid;,_d-::, 1.<:eund~riamcntc como virilocalidadc. A sobrc- na modernos, de Reserva. E não foi por outra razão que nêle
\.'ÍVér~.:ia relativa do hride price tem, cm contrapartida, a pro-
93
92
nos detivemos mais pormenorizadamente no parágrafo anterior. O matrimônio Terêna, conforme foi caracterizado, não
• 1:.le explica. cm parte, o J!!s!J~O do Serviço de Proteção aos pode ser considerado, entretanto, a única moda lidade de união
tndios em incutir nos Tcrêna o hábito do casamento civil no vigente nas condições de Reserva. Há de se assinala r, também,
Pôsto, tendo no funcionário do SPI o seu oficiante. As famí- a ocorrência de amasiamcntos. em muitas maneiras semelhantes
lias estão acostumadas, pela tradição, a concertar entre si aos que têm lugar na sociedade regional. Caracteriza-os a
mesmas a união entre seus filhos ; e o que os regionais denomi- inexistência de contrato: os pais não são ouvidos e geralmente
nam amasiamento ( ao se referirem às uniões Terêna), nada são contrários à união. Muitas dessas un iões têm lugar por
mais é do que a sobrevivência do antigo casamento, se bem fuga da môça da casa dos pais; e nada nos indica que haja
que relativamente descaracterizado nas condições de Reserva. existido no passado a instituição dêsse tipo de casamento. f:
Por outra parte, o casamento no Pôsto não constitui ato jurí- verdade que a família (de um dos cônjuges ou ele ambos) acaba
dico suscetível de reconhecimento pelos regionais, porquanto por aceitar a união e a viver normalmente cm contato com o
não se traduz cm documento legal, passível de propiciar certas casal e sua prole, pràticamente selando juris domcsticus o aca-
vantagens: como o salário família ao trabalhador indígena, salamento. Importa sempre, para que isso ocorra, a existência
qu~ndo_ este passa a trabalhar na cidade ou em emprêsas de filhos (i. e., de netos), êstcs, sim, a verdadeira autcntificação
reg1ona1s. E sabemos o quanto representa para a comunidade do matrimônio. A indi vidualização dos grupos domésticos no
Terêna o trabalho fora da Reserva. A correção dêsse estado plano de suas atividades econômico-sociais, em conseqüência
de ~~isas, quando f cita, o _é através do casamento na Igreja das mudanças ocorridas na ordem social Terêna, determinou o
(catolica ou protestante), mais raramente em cartórios citadinos. esvaziamento do contrato, como uma figura jurídica capaz de
l:.sses casamentos apresentam a dificuldade de seu alto custo amparar o trabalho do grupo familiai, tendo por base as
direto e indireto, particularmente para a família da noiva: cust~ alianças matrimoniais. f:sse empobrecimento do contrato,
direto mais devido ao alto preço do vestido de noiva do que despojado de sua função principal ( no tocante à organização
à taxa cobrada pelas Igrejas (sobretudo quando a cerimônia é da vida comunitária), teria permitido fôssc progressivamente
realizada em Igrejas construídas nas próprias Reservas)· custo tolerado o amasiamento, cm seu sentido estrito. Alguns dêsses
indireto, em virtude da quantia que as famílias dos noiv~s des- amasiamentos são efetivados não por incompatibilidades entre
penderão na festa que se seguirá à cerimônia. Assim, mesmo noivos e futuros sogros ou cunhados, mas pelo caráter inccs-
os índios mais dotados de previsão em seu relacionamento com tu?so da união. Isso torna proibitivo o casamento entre primos,
a sociedade regional - que dêles exigirá documentos hábeis sepm paralelos ou cruzados, e entre tios/sobrinhos modalida-
- encontram a maior dificuldade para efetivar casamentos des a que já nos referimos no primeiro capítuld como in-
consagrados pelo Direito vigente na sociedade nacional. Os cestuosas:.. A saída para _êsses namorados espúrios não pode ser
demais, que constituem a grande maioria, persistem em casar-se outra_. Nao obstante, nao parece ser freqüente êsse tipo de
da mesma maneira que seus antepassados, qualquer que seja a amasiamento, uma vez que a _regulamentação do comporta-
denominação que essa união venha a receber dos regionais. m~~to sexual pelo ~arentcsco arnda atua de maneira bastante
Isso implica que o uso do têrmo amasiamento, se bem que ef1c1ente. i:_:alvcz ~eJa uma das áreas onde a muda nça social
corrente entre êles, não tem a mesma conotação dada na socie- n:ienos se fez sentir. O mesmo não ocorre, porém, quanto ao
dad~ regional. E não se deve surpreender o pesquisador ao sistema
. de. 1metades
N e de camadas na regulamentação do reo· olme
ouvir, nas oportunidades de entrevista, as declarações enfáticas matnmo111a . . em as ~ ctades xumo11ó e sukirikionó nem as
dos casais de que não são casados, mas amasiados; querem • camadas naati e wa~1ere •( o~ kauti des~p~r: ccram totalmente) ~· !
dizer, apenas, que não são "casados à maneira civilizada"; e podem te~ qualquer mfluencia na constitu1çao de casais unidos
e~sa. condição de "amasiados", como vimos, não exclui a exis- por amasiamento. Mas, se as metades não operam de modo
t:nc1a de contrato que, celebrado na esfera tribal, constitui, a algum na _atual ordem social Terêna, as camadas de quando
ngor, uma legítima formalização do matrimônio para os con- e?1 v~z ~mda se fazem presentes, provàvelmente como ra-
tratantes e para a comunidade indígena . c10nahzaçoes de certas famílias naati que procuram afastar

94 95
determinados pretendentes de seus filhos com a alegação de que interétnica dentro da R eserva . Em Cacltoeirinha assi na la mo'!
os mesmos são "gente ruim", são waherê-txané. Mas as uniões dois casos, sendo que num déles o sogro do purutuya nos
que daí surgem acabam por serem contraída~ com o c?nsenti- procurou especialmente para intercedermos junto ao En carre-
rncnto dos pais, como no exemplo que mencionamos amda no gado do Pôsto para permitir que seu genro p udesse vir residi r
primeiro capítulo. na aldeia com sua filha e criança. Em tódas as R eser vas
A modalidade mais freqüente de amasiamento parece ser encontramos êsse estado de espírito na administração, resul-
aquela que envolve indivíduos Terêna e não-Terêna, sejam êstes tante, a nosso ver, de três fatôres : 1 ) falta de contrôle que
• recion:tis. rnesticos ou índios Kinikináu, L ayano, Guaikurú o Pôsto tem sôbre o elemento alienígena, mesmo qua ndo êste
et;.). Sio as uri'iões ioterétnicas e iotertribais. O que não quer se radica na Reserva; 2) reação da comunidade indígena,
diz.er qu~ ess:i.s uniões em sua maioria estejam classificadas no determinada pela maior capacidade empreendedora do aliení-
ro! d.)5 am:i.si:i.rnentos. pois é bom esclarecer que o arnasia- gena - que logo passa a ocupar áreas cada vez m aiores de
me:n0 como f rrn:i. de união não deve representar mais de 1 / 3 ~ult_ivo ou de criação, em detrimento dos indígenas; 3) obedi-
do t til cbs uniões interétnicas, a tornarmos por base as aldeias encia ao estatuto de defesa das terras indígenas, quando se
de úchoeirinha. Ipegue e Bananal, nas quais realizamos inqué- verifica ser o matrimônio um mero recurso para burlar êsse
ritos nesse S;!ntido. .J?
casamento civil ou religioso constitu~· estatuto.
aqui um instrumento "de integração social - no âmbito da Re- Mas se a terra serve de motivação - ainda que eventual
serva - não desprezível. Serve de apoio às pretensões do - para o matrimônio interétnico, para o matrimônio Terêna
cônjuge não-Terêna (geralmente o homem) de permanece ou intert~ibal ela não tem êsse papel. lndios agricultores, dêles
dentro da Resen·a com a aprovação do Pôsto Indígena. 8 se poderia esperar um comportamento diante da terra seme-
certificado de casamento se transforma, na prática, num do lhante aos dos Nuer, índic-s pastôres, diante de seus rebanhos.
cumento de "naturalização" indígena, gerador de direitos (pelo A verdade é que entre os Terêna, nem a terra tematiza a Cultura
menos é essa a expectativa dos cônjuges não-Terêna) tais corno nem_ p~l~riza, ~ Soci_edade. Se bem que ela esteja impressa no
o de residência e, mesmo, o de propriedade do "lote" do patnmomo m1t1co tnbal ( o mito de origem é um mito telúrico)
cônjuge na Reserva. ,f:ste tipo de casamento nem sempre con- r e, n~ passa?º•, _tenha engendrado rituais propiciatórios ( de
segue êxito quanto às pretensões do cônjuge "civilizado": na \ colheitas e cl1m~ttcos), na ~ituação de R eserva ela _ enquanto
Reserva de Buriti, por exemplo, observamos uma~dessas t~nta- valor - assumm proporçoes bem diversas. Preliminarmente
tivas, frustrada pela ação do Encarregad_o do Posto I nd1~ena l cessou de ser algo escasso, i. e., há terra para a população da~
que não permitiu a permanência do mando na Reserva; este, Res~rvas, como haveria, ainda, para o restante da população
logo após seu casamento, procurou o funcionário do SPI para \ T~rena fora das R eservas, aldeada ou não. Nesse último caso
exigir o "lote" a que "tinha direito". A incidência de casos cv1dent~mente, sob a condição de que fôssem racionalizadas ~
se~elhantes nas outras R eservas levou o Chefe da 5.ª Inspetoria moderm_zadas_ as formas de exploração agrícola. Essas terras
a fazer uma recom endação, segundo a qual deveriam os Enc!r- das _qu'.HS estao de posse - e nos referimos expressamente aos
re2.ados dos Postos Indígenas verificar as verdadeiras intençoes Tere?a de Reserva - são garantidas pelo G ovêrn f d 1
1 t , . o e era,
d;s noivos, para não pe;mitir uniões (legais ou não) que obje- ' prodvafvc mden etcomo o_bu~1co fruto positivo de sua colonização:
tivassem usufruir os alegados " direitos". Alguns Encarregados, ' a e esa as erras tn ais Ora se suas terras e t- ' ·
d · ' ' s ao prattca-
como o de Francisco H; rt -1 ao tempo da pesquisa, levaram ao md ente assegura_ a~, pelo menos na atual conjuntura, 0 sentido
extremo essa recomendação, não tolerando qualquer união e sua apropnaçao pode mudar · pois ~ t t ( ,
co um em vá · ' - ra ª como e ? ,
m r· nos grup~s tribais) de lutar por sêü território.
E ssa Iuta 1cou como coisa do passado tendo a h t •
(g ) O mzt.rimõnio in~rétnico comum e nvolve mulher Terêna e home~- "cívíli· d . , 1s o n a regis-
~ ". c1omo pelo qual falamo,; nõSC p ar~i;raf~ !>Õbre ésse t ipo_. de . uniao. A_~ tra o o seu paulatino. confinamento em pequenas áreas. A
rul,e, q :.,c se poderiam ap-:ese nta r como j usuflcaçao da '!lª'ºr frequc nc1a de matn
r:-.ê.<:>01 i;(r.ncm-pMnauya / mulr~r-Teréna !>Õbre homem-Tcrcna/ mulher-purutuya, pren- possebdessas tel~~as,lna, situação de Reserva, transformou-as então
G«:He a que~t~ de , rarw, preconceito r acia l etc., por n~ d iscutidos noutra obra, num em ava 1ave somente em têrmos econo' mi·cos , nao - mais ·
O Proauo tú AJJlmilaçifo dos Tuina, e spccHicamentc nas páginas 133-134.

96 97
de um "papel assinado" (foi essa sua expressão) que estaria
políticos. E nesse sentido, há de se distinguir estar ela na arquivado no Pôsto: êsse documento dizia do desejo de seu
cate!:ori:i de bem de comumo e não na de bem de inversão - pai de que "sua propriedade" (foi o têrmo que usou) passasse
com'õ fabm os economistas. A terra Terêna - vimos isso no para sua filha. Procurou-se o documento e êste não foi encon-
c:ipítulo :rntcrior - não gera renda; preponderantemente ela trado. Excluindo a veracidade ou não de sua existência, o
serve p:ir:1 sôbre si se instalarem moradias ou ranchos, no certo é que surgiu um caso de herança numa comunidade
dizer dos Terêna. Quanto aos lotes utilizados para roças, não indígena e cuja solução foi encaminhada em têrmos jurídicos
têm êles necessidade de ser de grandes proporções, nem se estranhos à cultura tribal. Entretanto, não soubemos de outro
ampliam progressivamente à medida que as culturas tendem a caso com essas características. Parece que a transmissão de
se expandir, como seria de se esperar (salvo raras exceções, . bens imóveis ocorre normalmente obedecendo à linha de filiação •
como as que foram mencionadas ao tratarmos do trabalho _virilinear, i. e., o pai (ou a mãe, na falta daquele) combina com
daquela minoria relativamente empreendedora na área da os filhos homens o aproveitamento da "propriedade", legando-a
Reserva). a um só (preferentemente ao mais velho) ou subdividindo-a.
Essas considerações f citas acima são pertinentes, porquanto Como se verifica, não se trata de mecanismos sociais estrutu-
explicam a inexpressiva significação da terra na órbita do rados, mas organizatórios. Quanto aos pertences de uso pessoal
matrimônio intra e intertribal. Quer dizer que a aliança entre do morto, são êles _enterrados ou colocados sob a sepultura, •
famílias, assegurada pelo matrimônio, não se consuma com o seguindo regra tradicional entre os grupos chaquenhos. 10
objetivo do uso da terra. E se isso afeta o seu valor, não o Na comunidade Terêna a motivação do matrimônio pode
tira totalmente. Sempre há o caso dos lotes com benfeitorias ser, em linhas gerais, equacionada numa tríplice dimensão:
(a roça é uma dehs), cu.no há também os lotes residenciais a) regularidade da vida sexual e "amor romântico"; b) pressão
em áreas consideradas " importantes" para os Terêna de algumas da família de orientação; e) status social. Comecemos pelo
Reservas, notadamente daquelas mais urbanizadas, como Ba- primeiro motivo. Para os jovens, recém-saídos da adolescência,
nanal , Cachoeirinha e Ipegue. 9 Nestas, os lotes situados nos a regularidade sexual não poderia ser alcançada senão no matri-
quarteirões do núcleo central da aldeia, i. e., nas áreas arruadas, mônio; sua vida sexual é praticada de maneira furtiva desde
são disputados com algum empenho, sobretudo pelos descen- os jogos eróticos da puberdade até as aventuras da adole~cência.
dentes dos seus "donos" ou usuários nêles domiciliados. Um O cerrado, denso em muitas partes da Reserva, faculta o com-
caso bem característico observado em Cachoerinha ilustra êsse portamento sexual do jovem Tcrêna. Mas a oportunidade de
fenômeno - que podemos considerar da maior significação conquista diminui progressivamente à medida que êsse jovem
para as questões jurídicas tribais, referentes à herança e à pro- (home~n 9u_ mull~cr) entra na id~dc casadoira. A môça aguarda
priedade. Veio ao Pôsto Indígena uma mulher Terêna, aleijada o matnmon10 e sobre ela o controle de sua família de orientação
(sem um pé), reclamar diante do funcionário do SPI os seus a~~enta, torn?ndo perigosa u~1a atividade sexual mesmo espo-
direitos sôbre o lote de terra (mais as benfeitorias, como o rad1cn e furtiva; ela se ded1oa ao namôro e nêle toma a
rancho e a roça) deixado por seu falecido pai para seu usufruto; iniciativa, podendo-se dizer que o pêso de sua vontade na
alegava que seu irmão assim não entendia os seus direitos, escolha do parceiro é tão grande quanto a do homem ao
permanecendo no lote, habitando o rancho e cultivando a roça. contrário das expect~tivas decorrentes dos mores regionais'. Já
Como ambos tinham famílias (ela, viúva, com filhos; êle, com os adolescentes Terena encaminham sua vida sexual para as
espôsa e filho), não havia lugar na casa e a roça não da~a viúvas ou separadas, com as quais acreditam poder aprender
para sustentar a todos. Baseava sua reivindicação na existência
. (10) Cf. Métraux, 1946 :331. Neste ensaio, Métraux mostr ·
tribos chaquenhas, a propriedade de uma ou de outra a_ como em v:ínas
(9) A nlorização dos lotes centrais das aldeias prende-se a processos urba- destino d~ seu falecido dono. Sublinha a queima da rcsidê~~~~c'Jª· acompanha o
nísticos incipientes que nelas têm lugar, estimulad_os seja por mecanismos ~cultu- I traço ma1S comum; entre os Terêna modernos êssc costume sob~cv1!~rt~ar~º~~o to
rauvos (influência das cidades) seja por mccamsmos engendrados pelo sistema pfotrquadnto_ o custo (e~ mão-de-obra ou em material) de uma nova rcsidcncia é :nc,
ccolól\ico interno. conformando ~ aldeia às novas necessidades de convívio comu· a or ecmvo na coniuntura atual. \
nuário. Procuramos demonstrar isso cm outro trabalho, "Aspectos Demográficos e
Ecológ1cos de uma Comunidade Terêna", Boletim do Museu Nacional, n.0 18.
99
98
conforme procurou explicar. Maior prestígio ainda desfrutam
·t "coi·sas da vida" como costumam comentar entre si, as japonêsas, que nas colônias agrícolas da região revelaf:1 sua
mm as • ' · T · d
aos nsos, cn
· · 1 suas
• rodas de conversa livre e Jocosa. dais · ro as intensa predisposição ao trabalho; sua figura corre no~ amb1e~t:s
se formam nas noites de luar, quando cm grupos e Jovens masculinos da aldeia como espôsa id~al: bonita ( cup fenottp1a
entre dez a dezoito anos, sentam-se nas largas e gramadas ruas a torna semelhante às Tcrêna) e grande auxiliar do homem no
da aldeia contando anedotas, fazendo mexericos e falando de trabalho. Alguns tentaram êssc casamento, aproveitando-s~ de
seus programas amorosos. Para o etnólogo, admitido nesse~ sua permanência naquelas colônias. contratados para c?lheitas.
grupos. essas oportunidades foram ~e g~ande v!lo~, fa~e. a Porém a nos basearmos cm duas histórias de caso registradas,
quantidade e à variedade de informa~oes atmente_s ~ vida ludic_a encont~aram dificuldades intransponíveis dada a endogamia
da comunidade. Pudemos saber, assim, que a virgindade femi- vigente nas comunidades nipônicas; um dos entrevistados, lamen-
nina é condição secundária no matrimônio e, quando surge, tando "sua falta de sorte", comentou ser mais fácil casar com
parece ser devida a influências alienígenas, tomando de emprés- uma purutuya do que com uma japonêsa. Em suma, os jovens
timo padrões regionais; a fidelidade ao namorado ou ao cônjuge Terêna notadamentc aquêles que conhecem o "regulamento"
é requerida, se bem que a infidelidade ou o adultério sejam
relativamente tolerados para ambos os sexos, não havendo
d
(i. e., etiquêta citadina), alimentam uma ponta de discrimi-
nação contra as môças casadoiras da comunidade, perceptível
punições institucionalizadas nem homicídios por êsse motivo; em muitas ocasiões, como nas festas e nas brincadeiras; seus
a reincidência no adultério, ou apenas a sua descoberta, tende preconceitos, insuflados por seus espíritos impressionados com
a resultar na separação dos cônjuges, com raras brigas domés- o "mundo dos brancos", ainda que não fôsscm suficientemente
ticas. Em geral, o adolescente masculino não fala de casamento, capazes de os antagonizar definitivamente com suas cônjuges
mas uns contam namoros e projetos matrimoniais de outros, patrícias, contribuem para alertar os pais nesse sentido. Daí
dando a perceber ao pesquisador o empenho de muitos, se não os inúmeros reclamos dos mais velhos em relação aos mais
de todos, em "ter mulher". moços, chamando-os de "gente sem juízo", "gente que tem
1:.sse empenho em possuir uma companheira encontra ~iVÕ vergonha de ser bugre", "gente que só quer viver em cidade"
estímulo cm sua família de orientação. Logo que as meninas etc.
saem da puberdade são orientadas para imprimir aos namoros O status social na comunidade é, também, um estímulo
uma direção voltada para o compromisso, enquanto os h?mens, poderoso que lança o jovem ao matrimônio. Aliás, êste é um
tão logo saem da adolescência, são persuadidos pelos pais a se componente comum cm tôdas as sociedades conhecidas: não há
fixarem na aldeia, casando-se. O labour migration, de que sociedades que estimulem o celibato, excepcionalmente o tole-
falamos anteriormente, contribui para atrair os jovens para fora ram. Portanto isso não singulariza os Tcrêna, como não chegam
da Reserva revelando-lhes um mundo nôvo, interessante, de a singularizá-los também os impulsos ao matrimônio mencio-
'
rica vida recreativa, sobretudo quando acontece - e no mais
.
nados acima. O que desejamos explicitar é como certas estru-
das vézes acontece - passarem por cidades, co"?Aº ~amp_o turas universais se atualizam cm determinados grupos humanos
'\Grande ou Aquidauana. Os pais sabem, por expenenc1a pr~- graças à manipulação organizatória de elementos históricos ;
pria, que seu filho pode querer migrar, definitivamente, ~ao estruturais. l:. mais fácil admitir uma mulher solteira na comu-
mais para " ganhar a vida" fora da aldeia, mas para viver a vida idadc do que um homem; aquela se agrega mais fàcilmente
..lá fora". A ameaça de casamento com uma purutuya ou com o grupo doméstico de seu pai ou de seu irmão ou cunhado·
,uma japonésa, tornando mais definitivo êsse afastamento, acaba
1por fortalecer a decisão da família em casar seus filhos cedo, º. homem, a~aba por ser compelido a morar só. Em Cachoci~
mha, as umcas quatro pessoas a viverem sozinhas eram homens
/ dentro da comunidade. Conversando com um Terêna sôbre o . epa~a~os ou viúvos, mas nenhum solteiro. Os homens nessa~
1 Y.!u casamento, já realizado, soube que se não fôssem seus pais
n/d~çoes, agregados a outros g_rupos_ domésticos, eram anciões,
aconselhá-lo a se casar com uma patrícia (por quem, aliás,
valido~ para gan__har sua subs1stenc1a. A condição de casado
nutria real afeição), ter-se-ia casado com uma purutuya, ~ ara o Jovem Terena representa o seu diploma de maturidade,
porque afinal de contas "as civilizadas sabem receber melhor",
101
100
sol1·d·r·
1 1ca da ~om o nascimento do primeiro ,filho
. ou filha. Nessa
h f"
situação passa, então, a desejar ter sua propna c_asa e a ~ ~ 1~r
um mutirão familiai para construí-la. Começa a1 a constltmçao
de seu poder de li~erar; ao me?os, suas. pos~1"b"l"d
1 1 a des nesse
sentido são postas a prova, mais para s1, ev1dentement_e, do CAPÍTULO V
que para a comunidade. Num dêsses mutirões, um Jovem
marido conseguiu agrupar em tôrno de si parte de sua parentela
e muitos amigos. O seu prestígio, todavia, era devido ao futebol,
O COMPORTAMENTO POL1TICO
• bom jogador que era, mas a condição única de futebolista -
sionificativa para o grupo dos jovens - não lhe iria facultar no
futuro o desempenho de papéis políticos na comunidade, bem
como sua aceitação pelo grupo dos velhos, tema de que trata-
remos no próximo capítulo. Cabe por ora concluir que a Neste capítulo tentar-se-á descrever o comportamento
associação entre o statlls e o matrimônio apresenta real consis- político dos Terêna aldeados em Reservas. Diferentemente do
tência no interior da comunidade Terêna nas Reservas, podendo que foi realizado nos dois capítulos anteriores, nos quais se
ser considerada de certo modo um pré-requisito de honorabili- estudou a organização do trabalho e da família, não se estudará
dade e um componente indispensável da conduta política. aqui nenhum comportamento organizado, salvo no que ta nge
a determinadas áreas, organizadas, todavia, de fora, i. e., pela
intervenção de um poder alienígena, não emanado da comuni-
dade tribal. ,Não há um Govêrno Terêna, nem ao menos de
coaJizão, como é comum existir cm sociedades colonizadas da
África ou da Ásia, onde os colonizadores, a fim de melhor
alcançarem seus objetivos de exploração econômica, associam-
se ao poder local, aliando-se às elites nativas ou impondo seus
prepostos, obedecendo, porém, ao sistema político vigente. Os
Terêna viram desagregar-se seu sistema político par;lelamente
à ocupação de suas terras e à perda de sua autonomia: a
situação de Reserva constitui o resultado de seu reagrupamento
após lon~o período de dispersão (índios de Buriti, Cap. Vito-
rino'. Lahma ~ F. Horta) ou de sua libertação, cm suas próprias
aldeias, depois de haverem sido transformados em cativos de
fazendeiros vizinhos ~índios de Cachoeirinha, Ipegue ou Ba-
nanal). Quando surgm a "proteção federar', recobrou-se-lhes
part~ de _suas terra~, mas nã_o se lhes devolveu sua antiga auto-
n~m1a tribal. A r!gor, a, dimensão política dos Terêna atuais
J nao apresenta aquele carater de sistema, capaz de classificá-b
\.} :" por exem~lo, como o fizeram Meyer Fortes e E vans Pritch:1rd
J
~ em_ relaçao a ~ma repre~entativa amostra de sociedades
~ ~-~nca_!l.é!?J ~m tipos de sistemas políticos definidos. Na
amostra africana, sera mteressante evocar, dois tipos foram
encontrados: um, caracterizado pela centralização do poder,

103
102
e de outro grupo tribal. Através dos " Grandes Capitães" ou
, ·na adn11ºnistrativa instituições jurídicas, diferenças de "Capitão" Mbayá e de :'.eus equivalentes Guaná ( os naati),
P.ela m1qm · il, ,,.;0 s e status' como função da d"1stn"b mçao· - de
nqueza pnv e5, . d d dA t acertavam-se as formas de reciprocidade tribal, como a defesa
Poder e' au ton"dade, podendo-se dizer que as soc1e a es es"de dêstes por aquêles em troca do fornecimento de produtos ag:í-
· · tº 0 possuem Govêrno· outro como a contrapartl a colas. É irrelevante discutir-se aqui se os Guaná eram ou nao
pnrnelío 1p ' ' , · d
daquele' Onde nenhuma daquelas. caractenst1cas pu eram "A Al
ser
povos conquistados pelos Mbayá ou se em lugar da conquista
contradas. Comentam os menc10nados autores que que es
havia simplesmente uma aliança Mbayá-Guaná ( com a hegemo-
en
que acham. que se deve .definir um . Estado
_ pela. presença
. de
nia do primeiro). 2 Isso não acrescenta nada à evidência da
instituições governamentais cons1~erarao o pnme1~? grupo
Estados primitivos e o segundo sociedades sem Estado (Fortes associação pela cúpula, por meio do contrato matrimonial. 3
Através dêsse expediente se instituicionalizava a autoridade,
& E. Pritchard, 1950:5).
podendo-se dizer que se estabelecia um Govêrno centralizado
com traços de um Estado primitivo.
1. Do naati ao "Capitão" Havia, naturalmente, mecanismos institucionalizados ade-
quados para promover a ascensão de indivíduos naati à chefia
Pode-se aceitar, mesmo à base de informações fragmen- tribal. Conseguimos levantar nesse sentido uma genealogia que
tárias obtidas bibliogràficamente ou pela pesquisa de campo, sugere êsse mecanismo. Trata-se da genealogia do " Ca pitão"
que o tradicional sistema político Terêna estaria mais próximo Vitorino, da Reserva Capitão Vitorino (conhecida também por
do primeiro tipo do que do segundo. Vimos no capítulo intro- Brejão), nome, aliás, adotado pelo Serviço de Proteção aos
dutório que a sociedade Terêna era estratificada em camadas, lndios para nominar o Pôsto Indígena, em reconhecimento da
separadas por barreiras sociais e étnicas. Grosso modo, havia expressão política dessa verdadeira linhagem dos Vitorino.
diferenciação de prestígio social e de riqueza entre as camadas Entretanto o atual "Capitão" Vitorino não é um descendente
naati e waherê, como havia ainda nítida preponderância de patrilinear do primeiro "Capitão", o naati Joaquim Vitorino
ambas sôbre os kauti, diferenciados também etnicamente dos da Silva, pai de sua mãe. O segundo "Capitão" foi Evaristo
Terêna-Guaná. A manipul .ição do poder tribal nas mãos dos Vitorino, segundo irmão de sua mãe. O terceiro foi João
naati e sua concentração em algumas linhagens, a exemplo do J~sé _\'itorin?, terceiro irmão de sua mãe. O quarto foi Sílvio
que teve lugar entre os Mbayá-Guaikurú, não é uma hipótese V1tormo, pnmo cruzado matrilateral de nosso informante 0
sem fundamento. Alguns autores, como Steward e Faron, suge- "Capitão" Francisco Vitorino da Silva, o quinto desta sé~ie.
rem que os Guaná e os Mbayá, conjuntamente, chegaram a Esclareça-se que o quarto "Capitão" era filho do primeiro irmão
• constituir um regime de cacicado (chiefdoms) de muitos modos ~a m~e, que a~enas não se tornou "Capitão" por haver mor-
semelhantes aos instituídos nos Andes, América Central, Vene- ndo amda em vida do _primeiro "Capitão", seu pai e avô materno
zuela e Antilhas, todos êlcs fundados na produção de excedentes d?_ a~~al.: Segund~ amda o nosso informante, 0 quarto " Ca-
agrícolas. 1 Sabemos que a união simbiótica dos povos Guaná p1t~o nao tendo filhos, seu herdeiro de direito seria atualmente
, com os Mbayá-Guaikurú ~e dava pela cúpula, i. e., graças ao o filho do segundo "Capitão"· êste entretanto
d ·d d - Ad ' , , por ser menor
matrimônio entre membros das parentelas dos chefes de um f i
e 1 a e, nao po e ocupar a chefia. Perguntando ao nosso infor-

'/1 (1) Noutro trabalho (R. C. de Oliveira, 1960a, caps. II e III) discutimos

1
l 3 J. - - - -
.f S (2) Essa discussão foi feita noutro lu (R

f
, extensamente o sistema de interação tribal que os Mbayá-Guaikurú e os Gu~ná onde era necessário estabelecer a verdad . gar · C. de Oliveira, 1960a cap II)
• estabeleceram entre si, classificando essas relações de simbióticas ( de acôrdo, aliás, , (3) Alguns trechos de Sánchez Lab eira natureza
_ . da. simb iose G uai'k'uru-Guaná.
, . •
com Herbert Baldus, 1945 :24). Naquela oportunidade tentávamos estudar os r.;: ~tté ~nde pude indagar sôbre a origemr~tfe s :u li~~tr~tivo~ disso. Escreve êle que
mecanismos. sociais dessa simbiose, separando, mais do que englobando num único e es e amam a tôda nação tudo vai base d ire110 sobre os Niyo/o/as como
'1Stema social, os Mbayá e os Guaná. O contrário disso fizeram Steward & Faron • ~u conquist~s pretendam domínio .. . " (L;b~ dno parentesco, sem que pelas' a rmas
(1959, passim, especialmente págs. 420-423) em seus esforços para classificarem o Al_g~ns caciques ou capitães Eyguaye uis s a or, 1910, II :266). Comenta ainda.
que_ chamam de cl1w/doms da América do Sul. Ver, também, o sentido 2 de cap1tas guanás" (Labrador, 1910, I :26~) . e casaram a seu modo com cacicas o~
cacicado em Baldus & Willems, 1939:37.

104 105
idade relativa dos desccnde'ltes, com prioridade dos mai_s velhos;
filhos dos filhos (homens) têm prioridade sôbre os f1!h_o~ das
mante, quinto e atual "Capitão", quem seria seu substituto, filhas ( obedecendo-se sempre, secundàri_amente,_ ao cnt~no de
respondeu que seria seu filho. O diagrama da fig. VII sinte-
idade relativa)· 2) transmissão da chefia em ltnha ho_n,z~nt~l,
tiza, gràficamente, o que acabamos de expor.
através do grupo de sibling, também obedecen?o. ao cnt~no e
idade relativa; os irmãos consangüíneos têm pnondad~ ~obre os
1! irmãos classificatórios ( obedecendo sempre, secundariamente,
ao critério de idade relativa). . .
Vamos transpor a genealogia e':1 pauta p~ra ~ te~~~ºJ~i~~
de pan~ntesco Terêna. Na sucessa~. d? pnme 1:o . P _
22 para O segundo, verificou-se, a obed1~nc1a do pn:ne1ro m~c~
nismo ou da l.ª regra por nos enunciada; a rel~~ao su~essona
foi de um zaá ao seu djê-a; foi, entretanto, ao d1e-a mais velho
4! <menor } a quem coube a chefia. (Contou nosso informante que º. se-
gundo "Capitão" teve um irmão mais velho qu~ fal eceu ainda
em vida do pai, o primeiro " Capitão";, caso nao falcce:se -
disse-nos - seria êle o sucessor). J a para a _suce~sao ?º
segundo "Capitão", o mecanismo pôs~? e~ oper~çao foi _aquele
6! (?) constante da 2.ª reora i. e., a obed1enc1a da linha horizontal
(colateralidade): te~d~ êsse segund~ "Ca~itã<~_" ape_nas ~m
FIO. Vil filho ainda criança, seu sucessor foi seu Jrmao mais m~ço
(andi, na terminologia Terêna); êste irmão, portanto o _terceiro
A análise da linhagem dos Vitorino permite-nos esboçar "Capitão", tratava o seu irmão mais ve)ho _pelo vocat1v? res-
um modêlo do processo de transmissão de chefia na sociedade peitoso de enjovi, categoria de idad: r~lati~a merente ao s1stem_a
Terêna. Naturalmente que nossas considerações têm aqui de parentesco tribal. Sem descendencia dlfe~a e ..sem. c_ol~terats
caráter meramente hipotético, por duas razões : primeira, por- (membros de seu grupo de si/Jling), o terceiro Capit~o teve
que se trata de uma única genealogia; segunda, porque envolve por sucessor o seu filho classificatório (seu djê-a), precisamente
uma sucessão de chefia que teve lugar num período recente 0 filho de seu falecido irmão, primeiro herdeiro, mas morto
(há menos de um século), quando a estrutura social tradicional ainda em vida do pai, o primeiro " Capitão". O quarto " Ca-
já estava em desagregação. Mas é a única genealogia de que pitão", sem filhos, teve por herdeiro o seu irrr~ã~ classif~catório
dispomos e os mecanismos de sucessão por ela revelados são (seu enjovi), o mais velho de seu grupo de s1bling; o ~ilho do
consistentes com a teoria geral das sociedades de organização segundo "Capitão" - conforme pode-se ver pelo diagrama
social de tipo "havaiano" . Ademais, as regras de sucessão genealógico - continuava menor de idade, rapaz de menos de
• hereditária de chefia apresentadas por Baldus, se bem que vinte anos que era na época da sucessão. Quando entrevistamos
algumas delas coincidam com os nossos dados, infelizmente não o atual "Capitão" ( 1955), êle já contava 30 anos de chefia~
nos puderam servir de base, uma vez que Baldus não forneceu um longo período, comparado com os curtos períodos de mando
os dados empíricos sôbre os quais construiu sua interpre- dos terceiro e quarto "Capitães".
tação. 4 Partindo, então, ,Je nossa análise, chegamos a esta-
belecer os seguintes mecanismos, numerados de acôrdo com o Entretanto nem sempre a sucessão do chefe era realizada
grau de prioridade na sucessão : 1) transmissão da chefia em de conformidade a regras fixas ou de acôrdo com mecanismos
• linha vertical, através da filiação e obedecendo ao critério de estruturados. A linha sucessória muitas vêzes sofria alterações
diante de eventualidades, tais como a inadaptabilidade pessoal
A~4) _Cf. Hcr~rt Baldus, 1937:76-77. Seu artigo deixa entrever que a técnica
uu.... fo, a da entrevista não-controlada por genealogia, valendo-se o etnólogo
apenas d,1 capac1daule informativa (e evocativa) de um velho "Capitio". 107
106
ao cargo _por p~rt,: d? s~cessor de direito. A própria sucessão mulheres e de perder a chefia ao tenta_r a quinta .• A pol,igamia
do atua~ ~ ap1tao . V1tormo está colocada nesses têrmos. Entre não-sororal era pouco freqüente na sociedade T erena e some~~e
seus dois f1l~os, disse-nos que o escolhido será O mais môço um homem de grande prestígio poderia organiz~r u_ma familia
porque o mais velho - as palavras são suas _ "não tem · , com várias espôsas. Pelo menos essa foi a cxphcaçao que nos
· " T b, 1UIZO
p erfeito . am t!m a su~·, ssão do " Capitão" de Cachoeirinha deu o "Capitão" Timóteo, como in!ormante ~êssc caso de seu
teve de obedecer o arranJos oroanizatórios. R efiro-me a' antecessor, "Capitão" Vitorino. Eis o depoimento de n?sso
tªº .
- d "C · - ,, T" , 0

º. a~itaod ?~otco e, antes dêle, do "Capitão" Vitorino


om~m~o ~s, a m rng~~ 9ue até hoje se mantém no pode;
ascen-
informante: "O 'Capitão' Vitorino inventou de bcb_er e tJ~ha
quatro mulheres e queria mais uma mulher. (? P?I da moça
evf!'l _re1aod. C,oq ue1:1?s, m1cialmente, a sucessão do "Capitão" não queria dar a filha. Daí o fin ado 'Capitão' V1tonno m andou
_1tormo e ~c11ocmnha como o primeiro exemplo de que o José Polidoro ( o " Capitão" lança mão de seus parentes -
dispomos para Il~strar a ~esmoralização da instituição tribal da RCO) bater no velho, enquanto ficava cm casa. . . O seu
herança de chefia. A lmhaoem que O antecedeu f · d Werneck (Encarregado do Pôsto Indígena . - RCO)_ ~andou
0
"Capitão" Polidoro, cuja suc~ssão parece t er tido lu~~r a buscar o 'Capitão' Vitorino que estava bebado e dma . na da
ambiente eivado de conflitos entre membros da , .º num saber. Aí o Coronel Horta Barbosa (Chefe da lnspcton a
1e1a. i: sse pnme1ro
· . p . propna paren-
_olidoro teria sido morto por feitiçaria RCO) m;ndou êle embora. t lc pediu, e deixara.m êlc ficar na
(segu~do algu_mas versoes _col~idas na aldeia) por seu sucessor roça, doente, tuberculoso, até morrer. Q~~ndo_ ~I~, m~rre~, eu
Benedito Pohdoro, seu irmao classificatór1·0
B d. p 1·d ·
o "C ·1- "
ap1 ao
já era 'Capitão'." Com a destituição do Cap1tao_ V1tonno e
~~e _1to o 1 o_ro era também k oixomuneti, conhecido como a nomeação do "Capitão" Timóteo, encerrar-se-ia de vez ~
fe1t!ce1ro e temido por suas bruxa rias, que O caracterizavam poder de uma antiga parentela naati e o grupo l_ocal de Bookotz
11:a1s do que suas curas; por êsse motivo, e apesar de haver - como se chama o núcleo fundador da comunidade d e Cacho-
sido ~01:1eado "Capitão" por Rondon, em 1904, foi assassinado eirinha - entraria num nôvo ciclo p olítico: 1) a "situação de
por md1os de Bananal, e~1 . pl~na estrada, que vingavam um camada" cessaria de ser um requisito à chefia, pois o nôvo
~arente morto p~r suas fe1tiçanas. Terminou aí o mando da "Capitão" era um waherê; 2) os tradicionais m_eca.~ismos de
linhagem do~ Pohdoro, embora existissem filhos classificatórios ascensão, inerentes ao processo de herança de chefia, Jª bastante
do m~rto e_ filhos_ ver?adeiros do p~i~eiro "Capitão" , sendo que desmoralizados quando da sucessão anterior, deixavam defini-
tivamente de operar; 3) intervenção clara do Pôsto Indígena,
um de~es vive_ ate_ hoJe em Cachoemnha, o naati José Polidoro.
sem mais procurar escamotear as regras da sucessão, como era
Mas nao te:mmana o poder da parentela dos Polidoro, uma vez
habitual desde a constituição das R eservas.
q~e . entre eles e ?. nô~o. "Capitão" havia um pa rentesco por Nessa intervenção, o S. P. I. parece haver tentado inter-
af1mda?e ou class1f1catono que, infelizmente, não foi possível pretar o processo sucessório tendo por base informações frag-
determmar.
mentárias e discutíveis sôbre a cultura tribal. Criou-se, assim, o
. A ascensão do "Capitão" Vitorino é um tema controver- Conselho da aldeia, composto pelos anciões e seus mais a ntigos
tido na aldeia. As versões variam. Umas mostram-no um • moradores, mcumbido de escolher ou eleger o sucessor do
aut~ntico lí_der indígena; outras, um preposto do Inspetor de "Capitão" Vitorino. Foram ignorados quaisquer mecanismos
ln~ios da epoca. A verdade é que sua ascensão foi d evida a que se fundassem no parentesco ou no sistema de camadas,
fa~ores outr~s que aquêles normalmente vigentes na ordem certos que estavam os funcionários do S. P . I. d a existência de
tnbal. Fcndmdo-se as versões mais verazes teríamos no "Ca- uma gerontocracia Terêna, absoluta no sistema político
~i~o" Vitorino ?e Cachoeirinha uma figura' política cujo pres- tribal. 5 Por outro lado, deve-se reconhecer, a instituição do
tigio na comunidade teria sido sàbiamente aproveitado pelo
S. P. 1., que ~he conferiu um título e um relativo poder, capaz (5) Os dados não nos autorizam a afirmar a institucionalização do poder,
de transforma-lo num eficiente colaborador da ação federal na nem mesmo do prestigio, dos velhos através de um colegiado - ainda que de
indivíduos naatl semelhante a um " conselho" e vigente na antiga estrutura social.
R eserva. O prestígio dêsse Terêna era indiscutível sobretudo ~ de se crer que os velhos naatl desfrutassem um relativo poder e ponderável
prestigio, porque dessa camada eram recrutados os chefes.
se considerarmos como índice disso o fato de pos~uir quatro
109
108
Faustino Salvador, um migrante de Lalima, filho de pai Layano
conselho indígena vem-se constituindo num recurso usado pelo
e mãe Terêna e koixomuneti de pequeno prestígio, se bem que
S. P. I. em relação a outras tribos do território brasileiro,
tente afirmar-;e poHticamente na comunidad~ jogand~ com seu
sempre que sente ser o conselho um instrumento legal adequado
poder mágico-religioso: final~1~ente , . o terceiro candidato. e o
para sua ação protetora. Contudo, não é sempre que êsse
conselho subsiste, depois de criado. Em Cachoeirinha - como preferido da comunidade, Em1h? Polid?ro _- m~mbro..da l~n~a,~
gem dos Polidoro e marido da filha da irma do fmado _ Cap1tao
nas demais aldeias Terêna onde êle chegou a ser instituído -
Timóteo. Enquanto os dois primei:os ca~d_idat?s nao conta1!1
sua duração foi fugaz. Com a morte do "Capitão" Timóteo,
com a simpatia das parentelas mais trad:,cio~a!s .~e _Cachoet-
ocorrida em 1958, a comunidade de Cachoeirinha não con-
rinha (o primeiro antipatizado por_ ser_ po~1c1al v10~cnto e
seguiu chegar a um acôrdo sôbre a sucessão. Os remanescentes
por ser filho de um dos koixomunefl mais odiado em todas as
~o c_o~s~lho _qu~ ~a~iam elegido o falecido Timóteo para aldeias Tcrêna · o seoundo por ser considerado gente de fora,
Cap1tao (seis md1v1duos, dos dez que o compunham) não '
e, nesse sentido, só b apoiado
'
pelos mor~dorcs d~ "b . " de
. ~1:ro
fora1!1 sequer_ convocad~s pelo Encarregado do Pôsto para,
Cachoeirinha, denominado Capão, habitado maJontanamcnte
reumdos, deliberarem sobre a sucessão. Em 1960 iríamos
por egressos de Lalima), o último tem a seu favo~ ,se~ pessoa
assim, encontrar a comun:dade em plena crise de autoridad; de grande influência na comunidade por seu equihb~10_ emo-
tribal; e pudemos surpreender, então, uma luta surda em seu cional e bom senso nas decisões, além de ser por direito -
interior, voltada para reinstaurar, ao menos simbolicamente o considerando os mecanismos sucessórios tradicionais - o her-
poder tribal. ' deiro da chefia, direito êste escamoteado no passado pelo S .. P · I.
e, ao que tudo indica, direito que continuará a ser desrespeitado
pela autoridade alienígena, efetivamente no poder.
2. A Luta pelo Poder
Em Francisco Horta, Reserva multitribal, os Kayoá-
Guaraní e os Terêna possuíam até 1958, aproximadamente,
O esvaziamento da autoridade tribal, como fato corrente um "Capitão" para cada comunidade tr_ibal: ~s. Kayoá
em tôdas as Reservas Terêna, teria de deslocar a tônica política : tinham um os Terêna outro. Nesse ano, devido a d1f1culdadcs
de um comportamento relativamente regulado por instituições administrativas internas, o Encarregado do Pôsto decidiu fôsse
!ribais para um comportamento livre de peias institucionais, eleito apenas um "Capitão". ~ealizada a eleição, a vitória _de
imprevisto e, em muitos casos, aventureiro. Alteravam-se, um (infelizmente não conseguimos saber qual o vencedor, m-
assim, as linhas de ação política cm proveito da autoridade formados que fomos dêsse fato quando estávamos em Buriti)
alienígena, representada localmente pelo Encarregado do Pôsto. teria naturalmente de levar a um desequilíbrio na política inter-
tste não precisaria mais buscar apoio naquelas parentelas tra- na da Reserva, inclusive com reflexos na população regional
dicionalmente ocupantes da chefia, nem mesmo em pessoas de de Dourados. O candidato e cx-"Capitão" perdedor foi, ao
comprovada liderança no seio da comunidade, como fôra, no que parece, amparado pela opinião pública citadina, cujo jor-
caso de Cachoeirinha, o "Capitão" Timóteo, talvez o último nal empreendeu uma campanha contra o Encarregado do
lider Teréna autêntico, in-.-estido na chefia pelo Serviço de Pôsto, levando-o a licenciar-se do cargo até "as coisas se acer-
Proteção aos lndios. A nova conjuntura, desmoralizando a tarem" - como nos declarou o Encarregado de Buriti, nosso
chefia tribal, facultava ao Encarregado inclusive não reconhecê- informante. Na prática, Francisco Horta ficou sem "Capitão",
la, como soem ser atualmente as situações de Cachoeirinha, porquanto o seu Encarregado, pressionado pela campanha,
Fr~nc!sco Horta, Lalima e, caminhando para isso, Buriti. A acabou por não reconhecer o resultado da eleição.
pnme1ra não tem " Capitão", mas a luta pelo poder está acesa, Entretanto êsses acon:rcimentos não iriam servir de exem-
envolvendo algumas das personalidades indígenas mais influ- plo ao mencionado Encarregado de Buriti, que tencionava fazer
entes da comunidade: o Ciríaco Júlio, "Tenente" da "polícia igual eleição em sua Reserva, explicando que assim o desejava
• indígena" (grupo inventado pelo S. P. 1. para apoio ao Encarre- porque três "Capitães" eram demais para uma população tão

--
gado e para policiamento dos bailes realizados na Reserva); o

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111
desempenha no seio da comunid:ide indígena. Pode-se dizer
reduzida. Realmente, cm têrmos aritméticos, isso é verdade; que tôdas as Reservas possuem sua " polícia indígena". ~ o •
mas, sociol0!!icam~nte, poder-se-ia dizer qu~ cada "Capitão" recrutamento de seus membros é sempre feito segundo o cnté-
represent:iva um ~grupamento diferente,. locahz~~o c!n :frca ele rio de confiança pessoal que êstcs venham a desfrutar junto ao
identificação precisa na Reserva. Havia Bunt1 propriamente "Tenente" e ao Encarregado do Pôsto. Em algumas aldeias,
dito, como o núcleo mais antigo <la comunidade e onde se lo- como Cachocirinha, o "Tenente" está cm nítida oposição ao
calizava o Pôsto Indígena; havia o lugar chamado Córrego cio

...
Meio, com um "Capitão" nomeado pelo Encarregado, após
destituir o anterior por êstc haver brigado na comunidade (o
"Capitão" e, por êsse motivo, tende a organizar seus homens
à base de fidelidade pessoal, muitas vêzcs servindo-se de a_d-
vcrsários políticos do "Capitão" ou de seus inimigos pcsso_a1s ;
.
nôvo "Capitão'' era filho classificatório do antigo) ; Água Azul basta para tanto que os membros dessa "polícia" não se1am
é o nome da terceira concentração populacional na Reserva e vetados pelo Encarregado. Nessa aldeia pude obvervar o cons-
tem de característico ser composta por famílias protestantes, trangimento de dois índios convidados pelo '.'Tenente" para
Jidcrad:is por seu "Capitão", Benedito Reginaldo, homem de comporem sua "polícia", uma vez que eram amigos também do
oitenta anos de idade. Tramava-se, cm 1958, a liquidação des- "Capitão". Mas o maior obstáculo ao recrutamento de mem-
sa chefia tríplice, com a centralização da autoridade numa só bros para a "polícia indígena" é o receio dos recrutados em
pessoa (ao que parece, no "Capitão" Figueiredo, do núcleo se verem antipatizados pela comunidade e nela ganharem ini-
mais antigo), capaz de ser melhor manipulada pelo verdadeiro migos inevitáveis : as grandes ini__mJ_~a~cs, que pcrdura'!!__gCr<!_l-
poder na Reserva, o do Encarregado do Pôsto. mente por muito tempo, Cfccõrrem das intcrvcn õcs da "polícia" •
Em Lalima, outra Reserva multitribal, a situação é bem ilõs6ãilcs realizados na Reserva. A tarefa de impor a ordem,
diferente das descritas acima. Não possui "Capitão". O ho- entre grupos de pessoas tocadas pela bebida, é conseguida, via
mem de maior prestígio na comunidade, conhecido por Minis- de regra, por meio de surras tremendas dadas cm quantos_Qer-
tro, é um neobrasileiro ( de ascendência indígena distante e turbam a festa. Porém, afora essa atuação, a "polícia indígena"
indeterminada), ex-pistoleiro de um fazendeiro do Sul de Mato raramente chega a ser manipulada pelo "Tenente" para fins de
Grosso, e morador da aldeia há quase trinta anos. Sua capa- política interna, ou para a solução de seus problemas pessoais,
cidade empresarial - a que nos referimos no capítulo III - , pois não encontraria apoio na comunidade ; e quando isso acon-
a par de sua vigorosa personalidade, tornou-o líder da comu- tece há sempre a ameaça de punição por parte do Encarregado.
nidade indígena. Foi nomeado, pelo Encarregado do Pôsto, :Êste, sim, é o virtual chefe dêsse grupo coercitivo e disciplina-
"Tenente" da "Policia Indígena", fato êsse que - segundo dor: serve-se da "polícia indígena" para mandar buscar em seus
nossos informantes - tem assegurado a Lalima um longo pe- ranchos índios contraventores e para prendê-los em cadeias
ríodo de tranqüilidade interna. Ao que parece, ninguém lhe r~diment~r~s junto ~o próprio Pôsto, ou para dêles exigir ser-
disputa a li derança e, não sendo índio, Ministro não pode efeti- viços pumt1vos ou, amda, com a finalidade de ressarcir a vítima
vamente reivi ndicar a chefia ostensiva da aldeia, o que coloca e ~~a família; essa última modalidade é a que apresenta a maior
o Encarre{!ado numa cômoda situação de verdadeiro fazendeiro, utilidade para a população, uma vez que vai além do m ero cor-
possuidor -de eficiente capataz. Como se pode verificar, o sis- retivo disciplinar, transformando-o num instrumento relativa-
tema adotado pelo ll.J. para melhor administrar as Reservas mente eficiente para a manutenção da família da vítima· 0
Indígenas pou:o difere dos re!times autoritários implantados ?gress?r quase sempre inutiliza por algum tempo o outro,
e nas crandes fazendas do interior do PalS, caracterizados pelo 1mped!ndo-o de sustentar sua família; o S.P.I., então, transfere
grantk pocb de um .,patrão" , apoiado numa fôrça policial por p~ra ele essa tarefa durante o período que se fizer necessário.
é~,e orgznizzda e mantida. As difcrenças seriam de pormenor, Fmalme~te, .ª " policia indígena" cuida de impedir a livre ação
mas estruturalmente o sistema seria o mesmo. do~ region~1s que procuram participar das festas na aldeia,
Se o p-2pel da " policia indígena" na esfera da administra- bailes ou Jogos esportivos, freqüentemente com objetivos de
çio da R..~··Tva di5pensa maiores considerações, dada a clareza perturbar a ordem na Reserva. Houve época, em Bananal e em
6 ~ funções, o mesmo não se pode dizer do papel que ela
113
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Jpegue, aldeias possuidoras das políc~as mais b~m organizadas, and the Gospel, nos quais retrata, a seu mod_o, o conpito entre
em que ti\·eram lugar numerosos desses conflitos, levando a a missão e o Serviço de Proteção aos fnd10s, e da ~l~m~s
pior os regionais. Sua ação, contudo, restringia-se unicamente informacões de caráter etnográfico. A instalação do m1s~10na-
à Resern. jamais transcendendo seus limites. rio na R eserva resultou numa verdadeira cisã~ da co1.1;um~a_d~;
.-\ luta pelo poder n em sempre envolve participantes iso- sobretudo a partir do momento da conversao do C~p1t~o
lados. des\·inculados de grupos ou " partidos", buscando indivi- Marcolino Wollily ao credo evangélico. Marcoli?o havia sido
dualmente a chefia da comunidade. Na análise de Cachoeirinha nomeado " Capitão", em 19 15, pelo S.P.I., por nele rec?,nhecer
\imos. por exemplo, que dois dos candidatos a "Capitão" o líder da comunidade e seu permanente defensor co_n tra
(E mílio Polidoro e F austino SalYador) representavam grupos as exioências dos fazendeiros vizinhos" (Altenfelder S ilva,
diferentes da população, enquanto o terceiro (Ciríaco Júlio) 1949:i'"'ss). A situação que em 1955/ 58 encontr~r_nos em Bu-
era o que se poderia ch:1m ar um " li\'re-atirador'' . Mas nas riti com o antagonismo entre protestantes e catohcos e entre
aldei:is <fü·idid:1s em grupos religiosos diferentes. cada um dêsses pr~testantes e a - administração do Pôsto Indígena, teve lu~ar
grupos ac:ib:1n por ter em seu próprio líder o candidato natu- quarenta anos antes em Bananal e em prop~rç_õ es __mmto
ral à chefia. E. em tõd:is as aldei:is onde o proselitismo evan- maiores. R esultou, inicialmente, na expulsão do nuss1on:m o d~s
gHico ak:inçou algum êxito. isso ocorreu. Buriti é um bom terras da R eserva, cm 1920, com sua mudança p:ira as proxi-
exemplo. como t:imbém o é Francisco H orta, tendo esta a midades. "Como :i luta continuasse :iinda no mês de maio de
peculi:irid:ide de ser uma aldei:i multitrib:il e constituírem os 1920 - conta Rattray-Hay - o Presidente d a Câmara d e
Terên:i uma unid:ide religiosa. protestante. Em Limão Verde Aquidauana, um fazendeirc rico, que deu ao 1.S.A.M.U. o terre-
parece que a situação é equi\'aknte, como nos indicam as frag- no no qual as c:isas da missão fo ram construídas, bem fora da
mentiri:is informaçõl!s obtidas atraYés de seu Encam:gado-iti- Reserva de lndios. mando u tdegr:ima ao Diretor do S.P.T. no
nerante ( Limão Verde não possub até 1960 um fu n~ionário Rio pedindo-lhe que tomasse medidas para parar a perseguição
federal residente) e de m oradores por nós encontrados ao acaso que cst:í sendo frita contra os mission:írios" .6 Os atritos SI!
em outras aldeias ou cm cidades. Em Passarinho e !\foreira, succder:im :ité a saída definitiva da 1111:rn:ionad a missão da :írca
embora sej:im tradicionalmente aldeias diferentes. torno u-se Tcrc:na. Por c:ssc tl'mpo. contudo. a luta j:í csta\'a t ransferida
improdYd um:i futur a unificação e ntre ambas - o que seria para os pr6prios membros da comu11id:1dc imlígcna. Os cren-
desej~h·d ao S.P.I.. pelo fato de se localizarem numa únii.:a tes, liLkrados por l\ tar~·nlino. co111p11scra111 um grupo inovador
R eserYa : a com·ersão da população de 1\ h:,reira cm protestantes coeso, sc1:í pda crític-:1· sistcm:ítka i\ :nlminist raçiio do l"\',sto.
ou .. crentes .. criou tal orde m de ant:u.!onis111os Cl)lll os nwratlo- • seja pela atitlllk cni-reti,·a com rclaçiio aos seus pa trícins. e n-
res de Passarinho qlll'. l'nquanto 0ks- persistire111. será imprati- sinamlo-lhcs a n:io hd,cr cacha1;:1. a tlji, ~l_:111c;ar e a freqik11t:1r
c:hd qualquer plano dcsSl' teor. E nL tôdas l'Ssas aldeias, os os cultos. Era lk se esperar que a reaçfü, dos Tcrcna kkntifi-
.. gru pos rdi~i,,sos C.2.!_1stituíra 111 Ycrd;~kirqs _..p ~1rtid,,s p1.,l it k\1s··, cados rn11111 c:11(1lkns ( ilk11tifil·:1,;:"io cquivakntc a 11;11,-crcntc)
o que 1ws pcrm1tc trat :Ír -seus í l'SpcctiYos nm1p11rta111en!l,s 111ais teria de sl.'r apniada pd,, E ncarrq!:nk, d1, \\'\s(l,, qm: se sentia
numa esfera (ll'litica d1.1 que religiosa. r-.1:ts c111 n1.·nhu111a lidas :1t:1cad1, 1.' p1.·r111a111.· 111,·111l'11te des1.·1msiliL·r:nl1.1 pda Clllllllnhl:Hk
os gru pos rcligi1,sl'S 1.·sti\·cra111 t:io m:1reados po r a111bi1;(1cs p1.:,li- pwtL·st:int L'. Afinal de c1.111tas. 1,s ncn!L's n:1111. a sc11 11w1k,. os
ticas CUlfü' c111 Han:1n:1I e l'III sua ahki:1 viz inha. lpl'gue. • rcvnluci1111:hi0 · Ja al_dci :t: i11s111'1ad11s pd1, 111issiun:'1ril1. ddcn-
O c 1s1, lk Ba11:111al. ~1.1bn:t111.h1. cxkc 11111:1 an:í li~c 111:iis di:1111 11111:1 n11tn1.ktcrn1i11açfl11 que ::-i~niíkav:1 lihl'nl:Hk li ·11ltn·
l~ctida. Sua hist(,ria l; a mais n11li!:'.:t no ;1uc t1111re au prnsdi- li rir1.11·. sit~nifkarn lihcnl:idc de a,:h1 d u 111issl1l11:'1r lÕ ~nlfll 1.h;
1tsm1, cvanf_~lil-o. ,\ pl·11dr:11;fl u pr,1tl·sta11tc Ileu-se a partir lle
• !.Y.!.1, qu:111d1, a /11/1111d Sc111tlt ,,1111ain1 Mi.,·.,·i111111n· l/11i1111 se
msi;i11,11 11.1 aldeia . trn,hi 11 frn1l c 11 111issh111;'1ri11 i11)'.l~·s ,\kxalllkr
Hn~t:nt l lay_11uc, 111:iis tunk. vida n pulil knr Lk1l ~:- sôlirc
1' l c1rnu . .\c,/11ts 11111/ S11rn,i:c.\' e '1'111' /111li1111.~ o/ S1111tl1 A 111crlrn

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retirar os filhos da escola do Pôsto ou retirá-los_ da escol~ ~a
Reserva. :esse fato, parece-nos, é que era inadmissível para o Missão dependendo do "partido político" dos pais . . ~ ~er ª e
Encarregado, pois via no missionário um desdobramento de é que ~ auto-identificação religiosa nesses Te~ê_na, ~,v~d,dos, e7
autoridade na Reserva . grupos antagônicos, tem um componente pohttco md1sfarçave '
Cinco anos depois, em 1925, missionários norte-america- como acreditamos haver demonstrado.
nos da Soutlz American lndian Mission retomaram as atividades,
estabelecendo-se na própria aldeia e conservando a antiga sede
da missão na povoação de Taunay. 7 O rctôrno da atividade 3. O Terêna na Política Regional
missionária alienígena serviria para acirrar mais ainda o conflito
entre a chefia tribal e o Pôsto Indígena, e concorreu para A participação dos Terêna na política regional é p__ropor-
aumentar a instabilidade social no âmbito da comunidade
cional à proximidade que suas aldeias gua~~am em relaça.o ~o~
indíccna. "Em 1933 - escreve Altenfclder - Marcolino Wol-
centros urbanos. estes são os centros poltttcos po~ ~x~clenc,a ·
lily foi prêso e destituído do pôsto de capitão da aldeia, sob a
nêles estão a justiça eleitoral, as câmaras m~nic1pais e os
acusação de fomentar uma revolta contra o S.P.I. Tentou-se
políticos; raro é O fazendeiro ou líder rural que nao_ possua um_a
• um sistema de triunvirato, onde se faziam representar três cor- residência na cidade, seja ela Campo Grande, Aqu1dauan~, Mi-
rentes dominantes na aldeia: os protestantes, os !lão-protestan- randa, Dourados ou Nioaquc. B nas cidades que se a~t1culam
tcs (ou católicos) e o S. P. I. Mas o sistema não se demonstrou os planos de arregimentação do eleitorado, no qual se rncluem
operante, e um ano depois Marcolino foi restabelecido na chefia
os Tcrêna. ~)-! _.Pi!PCI polític~ pr~ticamcntc . c~mcça _e . a~aba 0
dos índios'' (Altcnfcldcr Silva, 1949:285). Marcolino perma- como eleitor, scn! _slcsfrutaL Jª!ll<l.!L , cond1çao;;- de_ elcg~ l.
neceria na chefia até 1946, quando novos atritos o levaram a Mesmo nessa categoria unilateral de eleitor, o '!'~rena de Rese~-
abandonar a aldeia e a se retirar para o lugar que viria a ser va nunca se constitui cm clientela a ser beneficiada por admi-
mais tarde União. 8 A tensão entre os grupos político-reli- nistrações interessadas cm contcmplú-lo com melhoramentos. ou
giosos continuaria, como também persistiria o antagonismo serviços, quer melhoramentos cm suas Reservas (alg~mas vezes
entre os crentes e o Pôsto Indígena. Em 1955 e 1957 pudemos o Encarregado do Pôsto solicitou tratores à Prefeitura para
observar algumas situações e reconstruir outras, tôdas bastante construção de açudes), quer serviços na cidade, sobretudo ser-
expressivas dessa conjuntura política. Verificamos que o com- viços médico-sanitários, capazes de atendê-lo quando vai à ci-
portamento do Terêna, fôssc êle crente ou católico, via de regra dade em busca do que no Pôsto Indígena não logrou conseguir.
obedecia a compulsões de caráter essencialmente político, ape- O Terêna é procurado às vésperas de eleições, e sua arregi-
nas racionalizadas em têrmos religiosos. Vimos indivíduos ( e mentação não é muito diferente do que ocorre em colônias de
muitas vêzes famílias inteiras) mudarem de "crença" imediata- fazendas: são enviados caminhões para transporte e são dados
mente após uma briga ou uma discussão com o líder de seu vales para serem descontados no comércio urbano, em casas
grupo, como meio de demonstrar seu não-reconhecimento de ligadas ao partido político arregimentador. Apenas aquelas
uma liderança até então aceita e seguida: mudar de crença aldeias, como Passarinho e Moreira, chegam a participar mais
significaria expressamente mudar de partido. Essa atitude intensamente da política, uma vez que são comunidades pràti-
muitas vêzes era levada às últimas conseqüências, como a de camente urbanas, dada a contigüidade com a cidade; União e
Aldeinha ( desta falaremos extensamente na segunda parte dêste
(7) A lnland South American Missionary Union era uma entidade anglo- livro), aldeias não-localizadas em Reservas, mas situadas muito
nonc-amcricana que teve uma existência muito curta, de menos de dez anos. próximas (União) ou mesmo dentro (Aldeinha) de cidades,
Cindida cm dois grupos, tomou as seguintes denominações: New Testament Gospel
Un_lon, congregando o grupo inglês; e Sout/i American Indian Mission, represeo- também chegam a viver de forma mais plena o clima político
!tie~a.do grupo cone-americano - q ue prosseguiu DO proselitismo religioso dos
que precede as eleições. Embora não pud~ssemos observar,
(8) Os Wollily venderam seu gado e compraram um lote de 73 hectares, contam-nos que a comunidade Terêna da Reserva de Francisco
onde fund_aram, meses depois, cm 1947, a Escola Evangfüca União, passando
~ :omutuir o Primeiro grupo protestante indígena com autonomia diante do Horta também fica tôda alvoroçada durante o período pré-elei-
· · 1. e da Missão oonc-amcricaoa. (Cf. R. C. de Oliveira, 1960a:78-80).

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toral, participando interessadamente na política de Dourados. ação reivindicatória junto aos podêres estadual e municipa_l, ao
mesmo tempo que se cre d 1tam . · d o que os de Reserva Junto
mais .
~sse é o quadro geral; contudo, devemos fazer algumas
distinções. aos candidatos a postos eletivos, uma vez que podem ser mais
Em primeiro lugar, devemos considerar, com·parativamen- bem " trabalhados" pelos p artidos políticos.
te, os Terêna de Reserva e os Terêna aldeados em terras Em Seºoundo luo-ar
:::, '
nessa série de distinções que estamos
· com-
próprias. Há entre êles ligeiras diferenças, mas de relevante fazendo com relação ao quadro geral cm que se insere O • • •
significação sociológica: se os primeiros são excluídos das "van- , · d T •
portamento poht1co o erena, ca e con 1 b s·derar o papel
. 1mb1-
1<:gens" ~e ser eleitor ou do direito de ser eleito, os segundos dor desempenhado pelo Serviço de Proteção aos f nd1os no
~ao o sao,_ ao J?~nos na mesma proporção. Aldeinha, poste- tocante à participação indígena na política regio~al_. O S.P.I.
nor~1~nte _as ele1çoes de 1?5~ 1..,_te~e ~ nstruída sua_escola _eela decidiu - ou cm nome da Diretoria Central dec1d1u a Inspe-
• muruc1pahd~_de,_ co_11!9 rctnbu1çao_ do_ Prefeito__ Salusteo Areas, toria Regional de Campo Grande - que os índ ios estava~
do, PSP, eleito ,por_p~g ucna marg~II1 _de votos gue_foram atri- proibidos de votar, face à sua condição de m_enor pcrant~ a L ei.
bwd~s aos Te~e~a, ahs~ados_ em sua campanha. E União teve Essa decisão estaria fundamentada nas scgumtes alegaçocs: 1 )
seu hder, Patnc10 Wolhly, filho do falecido Marcolino candi- intromissão intolerável dos partidos po_líticos na vid~ _?~S. R?e-
da!~ a vere~dor do Município de Miranda, pela União' Demo- servas, com perigo de tumultuar o sistema comumtano, -)
crat1ca Nac10nal; seu prestígio entre os índios de Moreira e participação excessiva de alguns Encarregados de Postos na po-
e?~e a população . rural ~pequenos sitiantes e colonos) circun- lítica partidária, aliciando eleitores "de cabresto" para ;':us
vmnha a sua aldeia, advmdo da atuação da Escola Evanoélica candidatos, e expondo o S.P.I. a um possível desgaste p oht1co
Indígena_~~ União, 9 torn?u-o um bom candidato, com gran- na região. Ora, essas alegações - se bem que aparentemente
des possibilidades de colher votos também entre os citadinos sensatas do ponto de vista de uma tática adotada pelo órgão
~embros ?ª co?lunidade protestante de Miranda; esta comu~ protetor - deixavam de considerar o aspecto principa l do
rudad~ tena assim seu candidato, ainda que índio. Soubemos problema da participação indígena na sociedade nacional, qual
~ostenor~1ente q~e. tal candidatura não vingou, havendo O refe- seja o de proporcionar a integração das populações tribais na
ndo Terena ~es1stido de sr candidatar. 10 Contudo, isso não ordem nacional por todos os meios, inclusive através da polí-
esc~nde o ma10r grau de participação na política regional dos tica, desde que a participação se dê livremente. Em outras
Tere_na das chamadas aldeias independentes; por não terem 0 palavras, tratar-se-ia de considerar o estatuto protetor como um
Serv1ç_o de Proteção aos fndios como mediação entre êles e instrumento de social eng111eering, devotado a facilitar essa in-
a sociedade nacional, são naturalmente mais efetivos em sua tegração e não a coibi-Ia. A participação política dos T erêna,
partidária que fôsse, deveria ser considerada em têrmos de um
"risco calculado", próprio do jôgo d emocrático - no qual já
(9) Tran,c_rev1:_mos aqui, _à guisa de informação, o seguinte trecho de O Pro- poderiam os índios (que o desejassem) ser adestrados, a inda
cesso de Amm1/açao dos Terena: "Contou-nos o filho do líder principal Patrício
l üy ou Wollily ( ... ) que a 20 de novembro daquele a no ( 194<>) as f;mílias se que essa democracia ::1Jo se configurasse em tôda a
~>t alaram ,n~que!as terras e l_á fundaram, meses depois, em 1947, a "Escola Evan-
l";;,c~ Un,ao ·. Em 1948, o informante foi estudar no ' Instituto Bíblico Eduardo sua plenitude (como pudemos verificar com a observação d e
Y • em Mrnas Gerais, onde permaneceu quatro anos, três dos quais em curso práticas políticas p aternalistas inerentes à ação dos partidos).
regal.ular Eparla formar-se cvangé_llco e um ano dedicado a um curso de professor
rur !>C arect:u-no~, com vis1vcl s~t i:)fação que f · · · .. · · Essas reflexões ganham maior consistência quando considera-
naquele Instituto None-Amcric· d , . .. , • p _0 1 _o primeiro md10 _a 1r estudar
T , . ano a " 1issao resbueriana - e que a ele se segmu
~u;ropro;,~~t~ ~f~n~t~e lJC~~:~ ~r, a hOJC r,:u crdhor C_Olaborador na eSCO(a da aldeia. mos ~s e_fei:os desastrosos da 1:1encionada decisão junto à po-
para índios ela servia mas tambt~co a, csenvolvia-~e a aldeia, pois não apenas pulaçao md1ge~a. Ao serem mforn~ados dessa proibição, os
Com a con,u-ução do' segundo pre·d · para ª populaçao ncobrasilc1ra circunvizinha.
. 10 esco 1ar em 1951 ·d d Encarregados hveram de recolher titulos de eleitor em suas
contar com dcpcndencia, ,utic1emes para m anier u ' a com~m a e passou a
mercado de -,Juno, para a ·facola Evan éü .. ~ cur.o primano completo. O
leu.is, filha, de pequeno, siliantcs ·crent~s' e~ Umao . abra~ge as crianças neobras1- aldeias (só em Cachoeirinha, 39 eleitores), muitas vêzes valen-
hcos), o, Te rona de M oreira formada quase como ª~"m sao chamados o s evangé- do-se de a~eaças àqueles que teimavam em não atender. Os
bt:n como as crianças da' própria aldc . qU e_xc us1vamente por 'crentes' ( • .. )
com chca de dez famíüas e corresponden:: . ruao, ~o tempo de nossa visita q_u e se ma_nhveram na posse de seus títulos, e seguiram para a
(IO) Cf. R. C. de Oliveira, 1960a:l37-~~;:er:ota (~a;,~" ~:i~~/ 8 79
• ), cidade a fim de votar, foram pràticamente caçados pelo Encar-

118 119
alistamento de quantos alfabetizados ou sem!;alfa?~ti~,ª';-'?
regado: vimos o Encarregado de Cachoeirinha percorrer as existiam na R eserva; em C achoeirinha, vimos o Cap1t~o -
ruas de Miranda à procura de índios eleitores para obrigá-los móteo constituir-se no cabo eleitoral de um líder udems,ta _de
a obedecer a "ordem da Inspetoria"; não só interveio no com- Miranda, fazendeiro vizinho à R eserva,, en: pr~fado~ _d~.s mdios
portamento político dos Terêna de Cachoeirinha, mas também e contumaz doador de brindes ao propno Cap1t:io .' como
no dos de Passarinho, Moreira e Lalima, que votavam naquela m eio de tê-lo ao seu la do nas ma is d iversas circu~sta ncias .. N_o
cidade; livres de fiscalização estiveram somente os de União, caso de Cachoeirinha, para compensar a n eutralidade partld~:
considerados índios independentes da proteção oficial. Nessa •
ria do Encarregado, opos-se ao " C ap1·1-ao" Tº1_~óteo o . " Tenente
ocasião pudemos constatar a unânime reação dêsses Terêna da "polícia indígena", Ciríaco, tentando aliciar eleitores para
eleitores contra o que sentiam constituir uma violenta discrimi- o PSD, partido que se opunha à situação, e~~arnada p ela UDN.
nação, mais grave e dolowsa pelo fato de quem a executava ser Já em Bananal ocorria o confronto - ahas, permanente -
exatamente aquela instituição que deveria defendê-los de quais- entre as duas tradicionais lideranças : a do Encarregado e a
quer discriminações, mas que, paradoxalmente, tomava uma dos crentes, transposto agora para a política . ~egional. ,l?m
atitude contrária, de muitas maneiras semelhante à adotada Lalima finalmente observamos uma intensa atividade pohtica
habitualmente, pela população regional : a de sempre fazê-lo~ de seu' Encarregad~, sem, entretanto, encontrar op?siçã_o junto
sentirem-se gente diferente e inferior, classificada p elo epíteto aos poucos eleitores da comunidade Ter~na-Gua1kuru local;
de "bugre". Por outro lado, soubemos que em Aquidauana os êstes, incluindo o líder mestiço Ministro, aceitavam p lena_mente a
Terêna de Aldeinha e de Limão Verde não foram incomodados liderança paternalista do a dministrador federal. Essas d1fen~~tes
por funcioná rios do S.P.I.: os da primeira por pertencerem à situações internas das R eservas, determinadas por uma vanavel
" cateiwria de "índios independentes"; os da segunda por sua participação na política externa regional, indic~m que a _co?-
condição, eventual, de índios semi-assistidos, face à situação duta dos Terêna na política nacional gu arda estreita depende nc1a
peculiar de Limão Verde, na época uma aldeia com Pôsto (de da eficácia dos partidos na sua dupla ação : de alicia r servidores
funcionamento precário) e em terras d evolutas. do S. P . I. e com seu apoio (ou, pelo menos, com sua neutra-
O terceiro aspecto a ser considerado, diferenciador do lidade) alistar o maior número de índios. Todavia, como já
quadro político, prende-se ao grau variável de atuação político- escrevemos uma vez, é através da atuação dos partidos políticos
partidária dos Encarregados dos Postos e dos capitães indíge- que os Terêna são levados a se aperceberem da existência de
nas em suas comunidades. Ambos procuram aliciar eleitores uma estrutura mais ampla, nacional, que os incita a se mani-
para seus candidatos, valendo-se do prestígio que desfrutam em festarem por meio de vote., 11 se b em que o façam sem qual- 7
diferentes órbitas de ação : o Encarregado, apoiando-se em sua quer consciência étnica _ou_ de_ cla~~ - questão de que trata-
autoridade de tipo paternalista; o "Capitão", numa autoridade remos nos próximos capítulos.
emanada bàsicamente d e sua posição de chefe de parentela
(restrita, assim, à sua parentela) e, secundà riamente, na de líder
da comunidade gJobal. E ssa última liderança, entretanto, está
sempre ameaçada p or seus competidores na ordem tribal e pelo
poder efeti\·o do Encarregado do Pósto. Quando nas R eservas
há uma concordbncia de opinião entre todos aquéles que des-
írutzm o poder de infl uir no comportamento político de seus
moradores, ou, ainda, quando ésses mesmos líderes não partici-
pam da pclíti;a regional (incluindo o Encarregado), verifica-se,
e~, a:entuzrlo ôlheamento dos T eréna da política regional e
~9:ial. E:n Cãpítio Vitorino notamos éssc alheamento, ao
J:~~Y.l q ·~ em Buriti surpr~rukmos uma ativa participação p o- (11) Cf. R. C. de OUveíra, 1960a:133-139.
1:.:;.:r->-p.:.rtitlúía de V-U En:arregado pâ1tícamente forçando o
121
121}
SEGUNDA PARTE

1NDIOS CITADINOS
CAPÍTULO VI

A INSTALAÇÃO DOS TERhNA


NO MEIO URBANO

Não há Terêna adulto que não tenha, de um modo ou de


outro, alguma experiência relacionada com a vida urbana. Ou
por passagem pelas cidades da região proporcionada pelo /abour
\
migration, ou por viagens de uma aldeia a outra em busca de
novas moradas de caráter permanente, ou, ainda, se bem que
em menor número, por excursões recreativas e esportivas, o
índio participa naquelas pautas culturais. mais atraentes da vida
citadina. Essas diferentes modalidades de contato com a cidade
conduz o Terêna aldcado a acolher, gradativa e progressiva-
mente, um expressivo número d e idéias. capaz de reorientá-lo
na situação interétnica e, de um modo muito particular, na
situação de vida comunit{\ria na Reserva. As breves permanên-
cias nas cidades ou o simples trânsito por elas são suficientes
para revelar ao Terêna aldeado um nôvo mundo, particular-
mente atraente aos jovens. ansiosos por aventuras que a vida
de Reserva e o ambiente regional circunvizinho não lhes podem
proporcionar. As id~ias que da cidade t razcll\ para a aldeia
são tôdas orientadas nesse sentido e marcadas pnr um prestigio
só atribuído às coisas superiores e dcsej:iveis: l! freqiicnte
ouvir-se ..entre os j_ov~1~s altleados a cx!m:ssãn "apremlcr o rcgu- ._
lamento , como s1gmf1camlo a lll'1.:css1dade que sente o Tcr~na
de saber as regras llc bna conduta SlKial correntes no meio
urbano e. eredenciad_as a ensiná-los a c111110 se cnmpnrtar cm
suas ahktas. A parllr til, momcntn cll\ que as maior1.·s cilbdes
da regi;io - Campn Grande e Aquitbuana - começaram a se
i111.·orpl>rar nn anclllitárin imligcna lh)S T er~l\t\ nldcmhis, pmk-s ,
dii.er qull se iniciou vcnl;Hkirnlllrntc. o pwccsso de su:, atrnçi\o
i'ls árcns urhanus. Em nmbas as cid,Hks. o Tcrêm, - hlH\\cm

\25
não transcende o plano das atividades temporá rias (geralmente
ou mulher - sentiu-se \'iver peb primeira vez numa " aldeb sazonais) e próprias p::ira o ga?l10 ~e dinheiro. a ser g~sto em
de p.trutllYa ..; numa "aldeia' ' em q ue o ritmo d:i \'ida cr:i tot:il- razão da vida de R eserva, a m,graçao para a cidade, sobre ser
mente din·rso d:iqueI ~ a que esta,·a acostum:ido na R eser\'a familiai, representa uma sepa ração radical c~tr~ . a velha e a
n:is F:t.Zend.is ou nos po,·oados regio nais : mo,·imento de c:u ro~ nova vida. Entreta nto, essa separação não significa _uma d.cs-
em Dmpo Gnnde. de gente cm .-\quidauana. com fo o ti11 n em vioculação da comunidade de origem, onde o T cre na deL,:a
,·olt1 do jardim. ilumina ão e cinemas cm ambas as cid~ des parentes e, freqüentemente, o seu lote de terra, guarda? º . e
e mfr.:-io. loj:is sorti das com su:is ,·istos:is \'itrinas e a zona d~ respeitado por seus patrícios . . Pelo meno~ enqua nto OID? 1º
meretri.:-io. fon te de p eculiar enca nt:imento para o contin!!ente migrante não possui seu próprio lote na cidade - co ~ o e 0
m:isculino. As '·c:is:is de vidro'' - como nos disse cert; vez caso dos de Aldeinha, sítio T erêna suburbano de Aqmdaua na
um ,·clho T erêna, impressionado com vidraças e vitrinas _ - , suas relações com a aldeia persistirão a ponto de man_ter
compunh:im na imaginação indígena uma paisagem citadina certa periodicidade nas visitas q ue a elas, fazem .. _O ~ otlvo
impregnada de t:il ma ravilhoso que p oucos índios seriam capazes alegado seoundo inúmeros depoimentos, e a vcnf1caçao do
de eludir. estado ~m q°ue se encontram o lote e suas benfeitorias, _q uando,
Ncst1 segunda parte, tentaremos examinar a situação dos eventualmente, estas sobrevivem à migração. A s d1fere nt~s
modalidades de migração e a diversificada instalação no meio
T crêna citadinos, que migraram para as cid:ides de Ca mpo
urbano é o que passaremos a descrever e analisa r, concent rand~-
Grande e de Aquida uana e nelas se fi xaram como mo radores
nos, espedficamente, nos Tcréna de Campo G rande : ~e Aqu,-
permanentes ou de prol ong:ida residê ncia. A s histó ri as de vida
dauana, por serem êlcs os índios citadinos P? r cxcclcncta, dado •
Jc,·ant:idas nos revela ra m que o estado de espírito que precede o caráter indiscutlvelmente urbano dessas ci dades que se des-
a migração é o de um:i mudança definitiva , não só implicando tacam de outras como Miranda ou Nioaquc, meros ent repostos
um deslocamento csp:icial. mas. sobretudo, social : a inte nção urba nos e acanhadas sedes municipais, que pouco diferem dos
do índio que sai de sua aldeia é " mudar tk vida" - a sua e a povoados do Sul de Mato Grosso.
d ' ~cus fam iliares - . não p ode ndo admitir ( pelo menos itkal-
mc ntc) o rctúrn o iis condiçlk'S ck l.'Xi st~ncia increntes i'I Reserva .
O qu:idro de rcfrr~nci:i que tem l.'111 1111.' nll~ n;io é muito diferente 1. Os A grupamentos Migrantes
d.iquek q ue l.'xpuscmos no padgrafo :interior: acredita me-
Ih r:ir rfrti,·a ntt·ntc- dl.' \'ida ; e. quando i: um chefe de famíl ia Em 1960, registramos cm Campo Gra nde e Aquida uana
m muitl)S filh s c m idade cscobr. c ri'.: encontrar na cidade uma população de 4 18 indivíduos, claramente vinculados a
as escola~ q ue n;i o e nco ntrou junto ao Posto Indígena , bastante grupos domésticos identificados como T c rêna; desta cifra, 14
d,•smorali1ad:1s na cons i~ncia trib:11; acredita. ainda, obter na pessoas são regionais (brasileiros ou paraguaios ) , ligados às
cidade a assist~ncia m~dica que inexisk na Rcser\'a ; e cst;'1 famílias indígenas por laços de afinidade. A localização dessas
certo de encontra r. nas condições de \'ida urbana . trabalho mais famílias foi feita graças à rêdc de relações tribais existente, por
bem remunerado p:ira si e empregos para seus filhos que não intermédio da qual pudemos entrar cm contato com pr;:1tica-
"estraguem o corpo" , i. e., que os mantenham afastados dos mcnte a totalidade dos T crêna citadinos. A forma por que se
serviços bra ais. Nesse sentido, p odi.:mos dizer que há um fêz o recenseamento dessa população já constitui u ma primeira
gradiem entre o tra balho da roça e de derrubada de madeira indicação da perma nê ncia dos cios tribais num meio urbano:
até as o:upações citadinas - que vã o do gari ao môço de escri- pode-se dizer, sem exagêro, que êsscs T crê na migrantes co nhe-
tório, sendo q ue esta última é a que desfruta maior prestígio cem-se uns aos outros, mesmo residindo em bairros m uito
entre os T erêna. Parakl..lmente à busca de ocupações social afastados (como os de Campo G rande) e sendo originários dos
e económic::imente mais lucrativas, surge o ideal de da r uma mais diversos lugares, entre aldeias ou fazendas. Com urna
profissão aos filhos, profissão esta , c m regra, caractedsticamcnte equipe de seis auxiliares de pesquisa pudemos leva nta r em dois
urbana. Como não imagina r o índio ser sua migração definitiva?
Ao contrá rio do labour migratio11, em que o trabalho externo 127

126
trabalhavam em hotéis, pensões ou c:i·:is p:irti.:ulares. dedi':3dJs
meses os dados aqui analisados. Em 1958, com apenas um - homens ou mulheres - a s.:-r,·iços domEsticos; outras, :imd:i.
pesquisador auxiliar, realizamos nosso primeiro censo dos em número d e quatro. ,·ivi:im como prostitutas em bo~dEis na
Tetina citadinos, sem. e ntretanto. efetu:umos entrevistas quali-
zona do meretrício. Compcns:id:is :is difrrenças. reg:i~tramos
t:iti,·as. saho com uns p oucos indivíduos ao acaso. Comparando
para a população indígcn:i de C:impo Gr:in_de e Aqwd:iuan:i
o censo de 1958 - cujas cifras foram publicadas noutro tra-
399 indivíduos, em 195 8, contr:i os 41 8. registrados em 1960.
b:i1ho ( R. C. de Oliveira. 1960a: 89, 120-22) - com o realizado
já mencionados e tomados, p:ir:i fins descritirns. como a popu-
em 1960. wrifi~~mos haYer uma ligeira discrepância . cxplic:ível,
p:irte. pd:i mob1ltd:tdc da população, e. parte, pela mdhoria das lação tot:il urb:uuz:ida.
t~cni~as de rccensc:rn:e_n!o ( no c:ts? de Aquidau:rna) ou p ela O grosso da popubção T erên:i urbanizada é constituído de
adoçao de no_,·os cntcn os de registro (no c:iso de Campo indiYídu"ós migrantes e de cit:idinos de primeira geração: em
Grande). Assim. no censo de 1958 :is cifras encontr:id:is em números absolutos temos 206 migrantes contra 194 indivíd uos
Aquid:iuan:i (178 indiYíduos) for:im comp:irativamcnte mais nascidos no lugar ( com relação a 18 pessoas nilo se computou
b~ix:is que as encontr_:idas . na m esma cidade cm 1960, a saber, origem). Di:sses 194 , menos de 10% eram de segunda gaação.
3.,0 pessoas; for:1111 mclmd:is no total, em ambos os censos Os dados históricos. lcya ntados nas cntre,·istas. indicam que o
Aldeinha (211 indi,·íduos em 1958; 232, cm 1960) e as área~ movimento migr:itório para as cidades começou na d~c:i.da dos
0
m:iis urbanas de Gu:inandi e Bur:ico (67, cm 1958; 98, cm vinte, sendo intensificado depois de 1930. Presumimos ~e os
1960). Ess:is diferenças se explicam pelo fato de havermos principai~ n!~tivos da i_1_1_t~n~ificação dc~sas migraçôes oram os
cont:ido para o segundo reccnse:unento com uma equipe de confITtos religiosos (para a PºP.!~l~ io d e Ban:rn~l e I pegue). e "
entrevistadores, além de j~1 possuirmos nomes e endereços uma epidemia "de fcbre·~,_ registrada c~ 33. n:i. a!d~i:i._ 4~
obtidos no recenseamento anterior, o que nos facilitou a proora- Buriti. Vimos no capítulo anterior o carater d csagrcg:i.dor das
mação do trabalho e a identificação dos Tcrêna ; pràticame~tc, lutas político-religiosas na R eserva llanana l-Tpeguc, iniciadas
tivemos apenas d e completar os dados então colhidos e retificá- depois de 1920, logo após a instalação da missão protestante:
los cm alguns pontos. Contudo, com referência à população a partir cio momento cm que algumas pessoas d:i. comunidade
Terêna de Campo Grande, a discrepâ ncia constatada foi inversa: "descobriram" as cidades, i. e., a possibilidade de residirem cm
121 pessoas cm 1958 contra 88 cm 1960. Duas razões encon- Aquidauana ou cm Campo Grande, a migração passou a ter
tramos para isso: a primeira pode ser a existência de uma lugar com certa regularidade, aumentando seu flux o d ep ois d e
flutuação perma nente nessa população indígena, cuja causa será 1930. As explicações que êsscs migrantes davam aos e ntrevis-
examinada neste capítul o; a segunda, menos significativa, tadores, qua ndo argüí<los sôbrc os moti vos que os te riam levado
envolve a mudança de critério, i. e., deixamos d e computar, a deixar suas aldeias, estava m tôdas relacio nadas com os con-
nesse segundo recenseamento, os indivíduos isolados, aquêlcs flitos por êlcs vividos. E considerando-se que foram essas três
não-integrados cm grupos domésticos definidos como Tcrêna. aldeias. as, que, cm n:aior número,_ contribuíram para o povoa-
A ênfase que dáva mos à pesquisa cm 1960, conforme projeto mento !nd1gcna das cidades, com cerca de 80 % sôbrc os TcrC:na
que então publicamos (R. C. de Oliveira, 196 1), estava na que migraram de aldeias, podemos a trib uir a êsscs eventos a
descrição e análise dos grupos domésticos, correlacionando-os ma!or importância relativa na intensificação do processo migra-
com as instituições d a família e do parentesco. Isso levou-nos a tón o. A tabela 111 caracteriza cm têrmos ·numfaieos
co~centrar as entrevistas e as histó rias de caso apenas nessas
umdades sociais, e a nos contentar com os dados obtidos dois .f. demográfico e ecológico <los Tcrêna cita dinos. . p o r e· 1°
quadro e,
ven 1camos quatro diferentes úrcas cm que se conce ntram ~
anos ,ª~tes com relação a essas p essoas desvincul adas de grupos ' c1· b · d , esses
m 10~ ~r a niza os _ou cm proc?sso de urbanização: são e las,
dom~st1:,o~ citadinos indígenas: a lgumas pessoas, ainda que Aldeinha, Guanand1 e Buraco,_ todas cm Ayui<laua na , e Campo
auto-identificadas como Teréna estavam inteoradas cm grupos
e')mt'bti:;os
- . tipi<::.am!!nte purutuya, ( ,,cralmente O'mulheres casadas Grande, tomada cm se u conjunto . Examinaremos cada uma
O'.l - Ã" t; '
dessas á reas cm separado, proc urando historiar s ua formação.
.:.m~W!u.i.~ co:n r egionais ); outras, vivendo sós na cidade,

129
123
Iniciemos por Campo Grande, a cidade mai~ descnvolv~da
do Estado de Mato Grosso e possuidora da ma10r populaçao,
,-l o
*..,...,. *'° *..,.· * *..; *
o o
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o
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M
o
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com 64.477 habitantes, ~~gundo o censo de l 960 ( IBGE!.
...<
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Nessa cidade, os migrantes Tcrêna se distribuíra'!l cm t~cs
bairros principais: Amambaí, Tavcirópolis e ':1~a Jardim
Paulista, ocupando-as de modo disperso, ao contrario ~o que
- '° - '° - -..,.
M r- 00 00
o
°' M

1
teve lugar em Aquidauana, onde se concentraram tamb:n:1 e_m
três áreas, transformando-as, porém, cm três grupos v1crna1s.
A pesquisa revelou que, malgrado a distânc!a cntr~ o~ grupos
11.l
o
z *-..,.· * * *'° * *
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M
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o domésticos, as relações entre êles são mantidas e rnd1c_am -
~
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o como veremos adiante - um grau bastante expressivo de
coesão social. A única ,írea em Campo Grande que sugere, às
u o
M °' \O
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N

1
00
00 vêzes, constituir um "grupo de vizinhança" é Taveirópolis, cujas
residências Terêna guardam entre si distâncias pequenas, afas-
tadas, quando muito, um ou dois quarteirões; essa proximidade
Q
z * * * *r-:
o
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relativa proporciona, naturalmente, contato mais freqü ente entre
seus membros. Mas tomados os 88 indivíduos Tcrêna inseridos
z< ô

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o cm 15 grupos domésticos instalados na cidade em 1960, verifi-
camos - através das histórias de caso dêsses grupos - que a
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1
N
V)
origem da migração se deve à atração que sôbre suas parentelas
exerceram indivíduos isolados. Dentre êsscs, os que primeiro
chegaram a Campo Grande foram mulheres, as irmãs Juliana e
ou *..,. °'* * *ri *
o o oV)
1
o
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o Carolina, como empregadas domésticas. A vinda de ambas para
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o a cidade ocorreu por volta de 1920, cm diferentes oportunidades
e com diferen tes patrões. Apenas dez anos depois, começariam
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a chegar outros elementos do grupo fami liai : um sobrinho
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1mp~rtan!c papel !1ª comunidade Terêna citadina cm formação),
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cons~1t~1r ~m Camp~ Grande, subdividindo-se cm t rês grupos
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domesttcos . o de J uliana (que separada de um Tcrêna, uniu-se
1 a u?1 p11rut11ya, passando a criar os filhos de ambos os maridos ·
.., c~vmvand~ do segundo, após haver com êlc casado no civil ~
"'e dele ~ambem h~~cr-sc separado, herdou sua pensão de gari da
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· Mu111c1pal ), o de Carolina' (a 111'as·iada
, co m u n1 ne"ro
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o ~ regional, tratador de cavalos com o qual n=-10 t fº ll ':'
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:í ,-) " d d · . ' · ' eve 1 10s, cU1da
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, · e •ois sobrinhos de seu marido) ., 'an1bos os "rupos d o-
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mtcr~tmcas' · O terc ciro grupo omesttco ao,
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qual se acha integrado atualmente o Tcrêna Gomes , e' fo rma
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13 1
130
filhos, da primeira e da segunda uniao: êsses filhos (E~ias,
por. sua irmã (Maria. Almeida) , o marido desta (segundo Jacinto e Elisa) constituiriam, p osteriormente, s~us re~pccttvos
man_do, por_quc o antcn?r, ~ que havia migrado, faleceu), um grupos domésticos, aos quais se somariam ma is. dois, o de
sobrinho (filho de um mnao) e uma filha adotiva. A rigor Cirilo ( sobrinho, filho de u ma irmã de Elias e Jac111to) e .º de
êssc grupo doméstico, graças às atividades de k oixomuneti d~ Maria na (neta de Amélia, filha de E lisa, sobrinha ~e Eh~s e
G omes. tornou-se centro de referência da comunidade Tcrêna Jacinto) . Além dêsses cinco grupos domésticos, senam ª '~~a
~nstalada c~1 Camp~ Gran~c. Outra migração que se seguiu formados O de José Felício, cunhado de Jacinto, e o d ~ Porf!na
as de Carolina ~ ~ul1ana foi a de Maria Cecê, vinda a Campo (comadre de Elias), a única pessoa com a qual não foi possi~el
Gr~n_dc na cond1~ao de empregada doméstica, depois de haver traçar um parentesco real, afim ou consangüíneo; esta guar~a ~1a,
rcs1d1do em Aqu1dauana na casa de um tio (Antônio Lily). entretanto, cios de pa rentesco artificial com ? ~r_upo de s1b/mg
Logo que chegou a Campo Grande - conta Maria Cecê _ de Elias, caracterizados por sua extrema ef1cac~a. Bss~s sete
procurou cnc~ntrar na f~ira algum parente ou patrício; lá grupos domésticos, polarizados p elo sibli11g Eltas, J_acmto e
c~controu Juliana _que ? aJudou cm todos os sentidos como se Elisa continuavam mantendo relações com os outros dois grupos
fosse sua _0011~6 (tia), termo com o qual passou então a tratá-la. domésticos de Buraco: o de Antônio Lily, pioneiro, e o de
Pode-se 1_nfcn: dessa_s primeiras migrações que elas tiveram Cirilo Lily, seu enteado e por êlc reconhecido, legalmente, como
lugar dev1~0. a pecuharid~d e do mercado de trabalho para 0 filho (razão de seu sobrenome Lily). Nessa área, que _b e?1
grupo femmmo : o emprego d e doméstica verdadeiramente parece uma favela, estão construídas nove casas, em sua m a1ona
constituía-se na época na única ocupação im;!!inável ao Terêna '. de tábuas de caixotes, latas, zinco e poucas com telhas; apenas
e a êsse r~speito p ode1:1os caracterizar essas n"i'igrações pioneira~ uma é feita de tijolos. Sem enern.ia elétrica e sem esgôto e á!!ua
corno fenornenos relacionados com o labour migration, assunto encanada, Buraco é servido por um p equeno rio - có rrego
ª. que voltaremos adiante, quando tratarmos do quadro ocupa- João Dias - , onde banhos são tomados, são lavadas as roupas
c1onal. e de onde é tirada tôda a água para cozinha r e beber. Dura nte
A migração para Aquidau a na, cidade de 11 997 habitantes as chuvas, as casas dos sete grupos domésticos, estreitament e
(em 1960, IBGE) , apresenta aspectos diversos, segundo a área vinculados ao mencionado sibling, ficam p a rcialmente inun-
urbana ou suburbana em que se concentrou a população Terêna. dadas, exigindo, não raras vêzes, o abandono d a residência
\'amos caracterizar, p reliminarmente, as duas á reas urbanas - durante o transbordamerto do córrego. Entre os grupos
que são Buraco e Guanaodi - para, em seguida, caracterizar- residenciais T erêna de Aquidauana, Buraco é o que okrece as
, mos Aldeinha, a maior concentracão de indi,·íduos Terêna fora piores condições materiais de existência, se b em que seja o lugar
~ R eservas. Principiando por Buraco, vemos que os seus mais próximo do centro da cidade, logo atrás do convento dos
46 habltantes formam uma única parentela distribuída em nove padres norte-americanos redentoristas, que se localiza na extre-
~;>os domésticos. O indi,íduo cha,·e da m igração parece t er midade da maior praça de Aquidauana e onde se acha ta mbém
S!do .º índio Antônio L ily ou Wollily, um dos filhos do já a Prefeitura Municipal.
merr:io:iado ~f.ar::olino Wollily, antigo " Capitão" d e Bananal e Guanandi é um bairro d e Aquidauana, localizado entre o
fu2tlador da p~quena aJdeia União, em Miranda. Com mulher centro da cidade e o aeroporto, dentro de seus limites urbanos.
e ~is enteados, António saiu da aldeia B ananal em 1938, por Fica no prolongamento de duas ruas que cortam a cida de em
moti\·o ~e cL-"Sa\'ença com o E ncarregado do Pósto; segundo direção Leste-Oeste, coincidindo o início do b airro com o fim
zl~?u o E ncarregado perseguia os crentes". Em 1919-20 do calçamento de ambas. Não há rêde de esgotos, nem supri-
serv~u o E:-ército, em Campo Grande, retornando depois à mento de água; a energia elétrica que b eneficia o b airro nã o
~!de-ia ; P_?r ISSO, quando procurou trasladar-se para Aquidauana, chega às casas dos Terêna. 1:.stes, em número de 52 indivíduos,
Ja ~suia al~rna experiência de cidade, renovada sempre que ocupam nove casas, três das quais - correspondentes aos
podia por meto de passeios a Campo Grande ou Aquida uana. grupos domésticos pioneiros - situam-se na m elhor área, pró-
Ao mesmo tempo, ou logo d epois, mudou-se também para xima ao único hospital da cidade e m ais chega da ao centro
Campo Grande sua irmã, Amélia, marido (segundo cspóso) e
133
132
urbano. Os restantes, ocupando a periferia do bairro, em ruas cclino. seu patrício de Tpcguc. As histórias dessas migrações
cobertas por vegetação, a indicar pouco trânsito, vivem numa pioneiras - algumas delas examinadas na última parte dêstc
área bem superior cm salubridade àquela habitada pelos mora- capítulo - ilustram de modo variado a formação de Duraco,
dores de Buraco: suas casas, porém. delas pouco se diferenciam. Guanandi e Campo Grande.
A semelhança dos moradores de Buraco, os de Guan:rndi cons- Quanto a Aldcinha, sua situação c.: particularmente diversa.
tituem, pràtieamcnte, . um único grupo de parentesco; pelo • Nasceu da mi 'ra ão de uma família fraternal, formada pelos
menos tendem a fu~c1onar como tal: cinco grupos domésticos, trmaos Grcg rio ( Neco), e ast1ão e JosiS, filhos da falecida
aparentados entre s1 por cios de consangi.iinidade e afinidade Umbclina Jorge que viu ainda menina eclodir a guerra do
rdacionam-se com dois outros ( duas famílias fraternais) atravé~ Paraguai. Depois do conflito com o Paraguai, a parentela de
de um terceiro grupo doméstico (da índia Leocádia) de carac- Umbclina reagrupou-se na Fazenda Conceição; por volta de
terísticas singulares, pois trata-se de uma casa de prostituição, 1920, foi atraída pelo SPI para a Reserva de l3uriti, onde os
se bem. que _velada. uma vez que não está registrada na polícia. três irmãos residiram atiS 1933, ano cm que foram para Aqui-
Lcodd1a afirma ser parente do José Pio, um dos mais desta- dauana, fugindo a uma epidemia que grassava na aldeia. Foi
cados membros da parentela maior, bem como do índio Cláudio nesse ano que êsses irmãos fundaram /\ldeinha, em ..io hectares
Dias. um dos membros de uma das famílias fraternais; tal de terra comprados ao "Coronel" Clü - um fa ze ndeiro mestiço
parentesco não está demonstrado cm diagrama, o que sugere da região - por "um conto e oitocentos mil-r~is" , conse~uidos
ser êlc remoto. mesmo que seja verdadeiro. Mas isso indica, com a venda de reses e cavalos que haviam trazido de l3uriti.
não obstante, pertencerem José Pio e Cláudio Dias ao grupo Conta o Neco, um dos entrevistados, que o objetivo dos irmãos
de_ orienta~ã~ pessoal de Leoddia e de sua filha S., de 21 anos, não era ficar cm Aquidauana, pois desejavam instalar-se cm
CUJO comerc10 sexual sustenta o grupo doméstico, constituído Dananal, mas cm Aquidauana foram persuadidos a permanecer
por mais três crianças, filhas de S., e ainda seu irmão Milton, na cidade por sua irmã, Fclicina, que nela já vivia com seu
de 17 anos. A nona residência é de Teodoro Pedro, também marido. Foi Fclicina quem deu a idiSia da compra de um
aparentado com o JosiS Pio e com o Laudelino Dias (irmão de terreno, quando perguntou aos irmãos : "por que a gente não
Cláudio Dias), conforme declarou, sem no entanto conseguir compra um pedaço de terra por aqui"? Ncco já conhecia
demonstrar seu parentesco. A rigor, pode-se considerar que a Aqmdauana, porque aí havia residido dos 18 aos 22 anos
aparente unidade dêsscs Terêna de Guanandi deve-se mais à traball1:1ndo na :rcfcitura , como servidor braçal; nessa époc~
origem de grupo local - pois são todos de l pegue - do que a sua mae, ~mbch~a tambcm m~:av~ na cidade com seu pa-
efetivos laços de parentesco. No caso de Buraco tem-se a drasto, Joao Jose. Essas cxpcnenc1as anteriores dão sentido
acrescentar às relações de parentesco real uma origem comum ao que pudemos constatar com referência ao grande discerni-
de grupo local, uma vez que todo o grupo migrante é natural mento revela~o por Neco cm reorganizar sua vida na cidade:
de Bananal. fundo~ Aldemha, chamou seus parentes e cm seouida ao
assumir o papel de líder religioso protestante atraiu gr~nde
Finalmente, cabe dizer que a migração dos Terêna de nú_mero de Tcrêna "crentes". Conseguiu co;gregar em Al-
Guanandi tem sua figura chave no índio Marcelino, filho da d~mha 232 pessoas, or~anizadas em 32 grupos domésticos.
irmã de José Pio. Marcelino veio a Aquidauana, trazido por Vmte e um de seus habitantes podem ser considerados funda-
sua família, para se curar de um distúrbio mental. "Papai ficou dor~s_; sendo que ~eze~sete dêjes fa~em parte da parentela da
l~u_co, queria matar a finada minha mãe", disse sua filha Qui- familia fraternal . _ pioneira. Desses ultimas , nove par1·iram d a
tena, atual responsável pelo grupo doméstico pioneiro. Isso f azen d a e.once1çao com destino a Buriti e , desta, ,alde·ia, seguiram
·
ocorreu em 1930. Curado, Marcelino foi para Limão Verde, para Aqmdauana, encerrando o seu ciclo miorato' · .
. o no, os outros
~as ~eus fi~hos permaneceram na cidade. A segunda migração 01to . elementos foram acrescentados ao oorup o p1onc1ro
· ·
• . . por
pi?neira foi a de Jovita, mãe da mencionada Leoc,1dia, que matnmomo ou nascimento. Os indivíduos resta t :-
migrou com sua filha cm busca de trabalho cm Aquidauana; d · · . , n es, n.io-apa-
renta os micialmente, tornaram-se parentes afins durante os
ao chegarem na cidade, ficaram hospedadas na casa do Mar-
135
134
manter sua unidade tribal, permanecendo com a lto _gra~ de
:?::~ ç:!.! s.! 5-.~...:."Zin à funda;:ão de A l? einha, contr~indo coesão interna, ap oiada nos cios de p arentesco e e m viva ,~en-
, ....:.....;.- : ::-c:3 c:re=i~:-as da familia dom.mante. Depois de tidade com os grupos locais. Désses 170 migrantes T e~ena,
C----~- 3
193.3 z:} i9.!JJ ::zo b::>uYe rrugz~o para A ld em, . ha, a pesar: d o 44,70% são originários de al deias ( tipo A C) , d e o n d_c sa1ram
~ '"·:.;,-
F· "'"·:-,,...,.... ...... ~ re::;:050 de :Se.::o que, pou:o a pou::-0, assumia a para tentar nova vida nas cidades e p ara os quais ?s. ham_es ~
E:!~;:z de::in co grJpo. D uran~ esse penodo,_ o au?1ent,o
--i.. - • ,

parentesco com os indivíduos pioneiros foram d ec1s1~os a m i-


ru P.:,?:ili;z.:, de,·eu-5e ao Sâ!U cres::JIDento \·egetat1Yo. ~ ~ de- gração fami liai. Os que migraram de fazendas (tipo FC),
caru de ] 950 é que A ldeinha acolh e novos moradores, epoca diretamente para as cidades, p erfazem 25,29 % désse tota l_, vin-
esu que coincide com a atuação da missão eYangélica norte- do assim em segundo lugar, no tocante às migrações dm:tas.
americana, cuja pal avra de ordem parece ter sido a de chamar No que se refere às migr c:.ções indiretas, expressas p elos tipos
!!ente º º "ª para a comunidade, o que foi feito às custas do FAC e AFC, respecti va mente com 11,77 % e 8,82¼, vem os
prestigio pessoal de Neco e de sua família. que os índios nelas en volvi dos tém com o característica básica
o fato de haverem residido em m ais de dois lugares, sendo que
muitos dos classificados no tipo FAC m oraram cm trés o u ma is
2. As Modalidades de Migração lugares antes de se instalarem na cidade; sobretudo os m ais
idosos que chegaram a nascer e a viver os primeiros anos de
Caracterizada sucintamente a diversificada instalação dos sua infância em aldeias, transferindo-se para fazenda s - onde
Terêna no meio urbano, cabe-nos mencionar os caminhos que constituíram famílias - , retornando novamente para a a ldeia
percorreram até chegarem à cidade. Tentar-se-á classificá-los (a sua original ou outra) e, finalmente, dela migrando para a
em quatro tipos, i. e., quatro diferentes modalidades de mi- cidade. Como mostram os percentuais, os Terêna chegados à
gração. A primeira delas, que indicaremos pela sigla AC, cidade por via direta estão cm ampla maioria, comparados com
refere-se à migração direta da Aldeia para a Cidade; a segunda, aquêles que migraram por via indireta. f:stes, naturalmente,
indicada pela sigla AFC, diz respeito a migração daqueles índi?s revelam uma experiência muito mais rica, por ser bastante di-
que, nascidos em Aldeia, dela migraram para Fazenda e, depois, versificada, o que se pode comprovar com a análise de suas
para Cidade; a terceira modalidade, que identificaremos com a respectivas biografias.
sigla FAC, envolve aquêle contingente indígena nascido em Correlacionadas essas quatro modalidades de migração
Fazenda, de onde migrou para Aldeia e dela para Cidade; como com os agrupam:nt~s T~rên~, temos o seguinte quadro (ver
quarta e última modalidade, ocorre a migração direta de i:azenda tabela IV): os md1os c1tadmos de Campo Grande somam
para Cidade, que indicaremos com a sigla FC. Correlac10nadas c?~º já foi dito, 88 indivíduos; 66,66 % dos quais estão elas~
essas modalidades com os diversos agrupamentos ou concen- sif1cados ~a categoria AC, i.e., migraram diretamente da aldeia
trações de migrantes Terêna no meio urbano, poderemos _com- p~ra a_ c1d~de; 24,24% estão na categoria FC, i.e., também
pletar sua caracterização iniciada nos parágrafos anteriores. m1graçao dtreta, ma~ da faz~nda para a cidade; em terceiro e
Dentre os 418 indivíduos que compõem a população total em quarto lugar estao as migrações indiretas, perfazendo am-
urbanizada, 170 não nas:::eram em cidades, uma vez que 103 bas menos de _10 % . P_or: serem populações muito pequenas
são naturais de aldeias e 67 de fazendas , mas 91,4 % dos Te- para comparaçoes estatJshcas, deixamos de considerar aq ·
neste confronto, os Terêna de Guanandi e de Bu ( ui,
réna citadinos incluem êsses migrantes e seus descendentes ou tingente d B raco o con-
cónjuges. Essas cifras e êsses percentuais nos levam a reco- .. e . uraco, por exemplo, está em sua totalidade elas
nhecer na população indígena citadina a sua condição primor- ~.if1cado no tipo f\C), limitando-nos apenas a antepor aos índº -
dial de população " nova" no meio urbano: malgrado a inexis- altamente urbamzados" de Grupo Grande os m b l~s
zados de Aldeinha, Aquidauana. Vemos que Alden_osh ur am-
téncia de óbices institucionais, tribais, atinentes ao matrimônio senta cert0 ºJ'b · em a apre-
interétnico, a população aqui estudada integrou em seus grupos • eqm I no entre os três tipos (AC FAC AFC)
familiais menos de 9 % de indivíduos não-identificados como ,. caractenzando-se não obstante por . ' ' ,
- - -- - ' , possmr uma população de
Teréna. Soube ainda, como veremos nos capítulos seguintes,
137
136
O método b:'lsicamente co111preensivo da Antropologia (pelo
menos é assim que o entendemos) exige, para sua manipulaç_ã,o
migrantes m:ijorit:1ri:1111ente proveniente de fazenda e por via interpretativa, outros dadm;. qua li tativos, su~cetív~is de pcr~11t1r
.. direi:\ (FC - ,W,96% ) . N:io sed. entn.:tanto, a origem da ao pesqu isador a apreensão de certas . par~1culanda~lcs,, dos }e-
popul:1~·/i"o cm seu conjunto, 011 p:1rccl:1d:11lle11t.e, que ir:'t infl uir nômenos sociais investigados. As "l11st6nas de vida. e de
de form:i decisiva no colllport:1111ento indígena nas condições caso", bem como as "a11Lohiografias", conslilucm tfrnrc.as das
de vida urh:111a; as llloclaliclades de migração aqui discri111i11atlas
mais frutíferas e que h:'t d~cadas vêm servi ndo aos soc16l~lgos
têm sobretudo um va lor hist<>rico e nos auxiliam a tlcs- com essa mesma finalidade: romper a aridez e o esquematismo
crcvcr, ccol6gica e clcmogri\ficamcntc, os agrupamentos Tcréna
das forn1ula<_;ões eslalíslicas. Nu111 trabalho como éstc, em qt~e
citadinos. Tais dados, acreditamos, se constituirão cm valioso
são investigadas entidades ctno-sociolf,g_icas bastante _l1eterog<.:-
sub.~ídio para a compreensão dos capítulos posteriores. Cabem
ncas, i.e., muito distantes daquela relati va ho111ogencidad<.: c n-
P?rém, al~umas consh.lc~açiics cornplcmentares, ainda a respeite;
contradiça cm grupos tribais niio-inscridos e111 sistc!nas c..lc
desse quadro comparativo. Oucn:mo-nos referir a certas dis-
conjunção ínlcrcultural, o pesquisador te111 de recorrer as cx~e-
torções estatísticas ( inevit~veis cm trabalhos désse teor) como
aq uela cncontr;.ida cm AIJeinha, especificamente cm relação riências e ao arsenal mctodol6gico da Etnologia <.: da Sociologia.
Isso pôsto, podemos passar a expor alguns casos de migração,
à moc.falidade de migração Aldeia-Fazenda-Cidade (AFC), que
através dos quais sempre se poderá surpreender comportamen-
aparece com J 6,k7 ';I,, , percentagem bastante alta se a cotejar-
tos singulares de indi víduos 'J'crêna, colltic.Jos nos meca nismos
mos com a completa inexi~téncia dessa modalidade cm Buraco
dêsse processo impessoal, e até certo pon to irreversível, que
e Guananc.Ji, e sua imignificantc oc.:orréncia (3,04 %) cm Cam-
po Grí.lnc.lc; isso se deve i1 migração de uma família extensa de é o e.la migração para a cidade. i
23 pe!.soas - número que dcscquilibraria qualquer quadro
c.J cmo~rá~ico sustentado por populações tão pouco cxpressivas, 3. Análise de Casos Ilustrativos
quantitativamente fal ando, como o são os contingentcs tribais
no Brasil. O primeiro caso que selecionamos para ilustrar o compor-
Mas a maior limitação de um quadro de distribuição esta- tamento migrat6rio Terêna se caractcriza por sua extrema sin-
tística é o seu pé! pel pouco cscl,.ircccdor no que diz respeito à gularic.Jac.Je: trata-se da hist6ri a do índio Luciano, residente cm
vida cm 1,i e.las populações ínvcstiga c.J as, particularmente ao Campo Grande e, atualmente, funci onário do Serviço de Pro-
comportamento humano: éstc se desvanece no momento cm teção aos fndios. Vamos apresentá-la tal como élc nos relatou
que é fixado cm categorias como as qu e acima estabelecemos. cm J 958, procurando reter o seu estilo autobiográfico e algu-
mas c.Je suas fras~s ou térmos, que vão no texto entre aspas.
TAll CLA iv Naquele ano? _Luciano nos serviu c.J c guia na cidade ele Campo
Grande. auxiliando-nos a localizar a maioria dos Tcréna então
'll l'f'-111 A(,.Ul'AMl!l'<l0~
recenseados; cm 1960, retomou se u trabalho de pri ncipal in-
forma?te, colaborando com tóc.Ja a equipe durante o período de
CAMPO
entrevistas com o agrupamento Tcrêna daquela cidade .
AUJP,1/O14 BUlACO (;UAIIA!<IDI CKAHVE

AC 21 ,Y.1% 100,00% 85,72% 66,66%


, (dl) dPouq~dí,!im_os forai:n os casos de retõrno definitivo à aldeia de ~• " ·
FC "1J,96% - 7,14% 24,24% perio_ o e re11 cnc1a na c1darlc. M esmo ne,
md1V1<lual
. . (no rnt.ximo
. , de ca.5ah de velhos )!>C:Spera
, rmar·os·necen
ca~do~. oo retôrno
r-~ ""' u~
""'po f sem?fe·11• •
a:ru ~ em
foi
AFC 16,87% - - 3,04% sua maioria, na cidade; a regra é: al;(un.r ancí&, v 11
e adulto~ ficam nas cidade,. Es~a regra impon.ari a ª;:'
d
0
r ª
Ide o- -
úu, t odos _o , JOHru
fod10 Eha.5 de Aquidauana se ,ua proclamada . .~ a.5 n uma cxce~ao: a do
.PAC 21J,4i % - 7,14% 6,06% che~asse algum dia a ser ' efetivada ( cf a C'l< "!~º•":?. em abandonar a cidade
capnulo). · posiçao "" seu ca50 no fim dêr..e

l f/Jlfl'h Jr.lJµ)% I W,00"1b 100,00%


139
138
Auto-Biografia de Luciano (Campo Grande) terceiro professor foi Roberto dos_ Santos WTern:ck,d~u~i!i:;n~t
ósa cnsmava aos crena ·
Jnspetor que, co_m ~ua csp ' d . t , até a "gripe cspa-
Com os dois pnmeir~s cu cstu c1 a e . 191 8 , O cssoas. Em
~asci na Fazenda Proteção, no Município de Aquidauana.
nhola" que matou, so cm Bananal, mais ? e 30P!talozzi hoje
Com a idz~ de 4 anos fui para a aldeia de Bananal. O dia de 1919 estive cm Campo Grande, no Jnst1tuto , 1921
meu n~ mento foi 31 de outubro de 1903. Fiquei, pois, em D . Bosco. ;--;esse Instituto, estudei dois anos, q~a~_d? c~mplet~
Bananal, de l 907 a 1930, quando, com 27 anos de idade, fui
com 18 anos de idade, deixei a csco~a com o pnm_~nocomecei a
para Aquidauana. Casei-me a primeira vez, no civil, cm Aqui-
dauana em 1923, com 20 anos, com uma T eréna chamada (4 anos). Apesar da não-aprovaçao de. meut p~~lhar na Es-
Jnácia. Tive um casal de filhos e com ela vivi até 1929, por- estudar o código Morse, esperando com isso ra. insistiu para
trada de Ferro t-:oroeste do Brasil. Mas meu pad1 E 1(122
tanto durante 6 anos, até que ela morreu "com doença de
fílrado". Meus filhos ficaram com minha sogra: o menino - que cu deixasse, e aca be1· d e1xan
· do mesmo . o cstu - o.,.. r,. m 7Ga-'
comecei a trabalhar na Comissão de L~~h_as fcl~gra 1_..,as. ,. so-
hÕje com 31 anos - está casado e vive em Bananal, com seus nhava-se na época quatro mil réis de diana; cunoso e qu..,
dois filh os que eu não conheço ainda; a menina nasceu em 16 ''24 nós os Teréna fomos receber os nossos
mente em 17 , · ' . d Aldeia de
de outubro de 1925, estando hoje com 33 anos. Ela amasiou- salários atrasados. . . Até 1930 fiquei moran ° na . a
se com um "civiJizado", Sebastião, com quem teve uma filha, Bananal, trabalhando na lavoura e_ chan? ~cª nd º• chcgu:~
hoje com 16 anos e que ainda está cm companhia da mãe, 25
traba lhar como motorista na povoaçao · ,
de I a un_ay, cntlrhe
· · f traba ar cm
largada pelo marido. A estória é esta: o Sebastião deixou a 1928. Em fevereiro de 1930, Jª vwvo, . ui . . sse
minha filha em Aquidauana, no tempo cm que eu estava cm Aquidauana como ajudante de mestre-padeiro. Fiquei . nc
Araribá (aldeia Guaraní em São Paulo); depois de algum tem- oficio dois meses, quando fui convidado pelo Coronel N1_colau
po, minha filha foi pa ra Santos, em São Paulo, levando minha Horta Barbosa _ nessa época Chefe da N_os_sa Ii:ispetona -
neta. "Ela era muito curiosa. . . foi para conhecer". Desde para trabalhar no S.P.I. Fui lotado cm Aranba~ hoJe P. I. <;urt
1948 que não tenho notícias dela. Antes, trocávamos muitas Nimuendaju, no Estado de São Paulo, na funçao d_e motorista,
cartas e fotografias. Soube então, que ela trabalhava em Santos onde fiquei nove anos. Passei a viver naquela aldeia com uma
como doméstica. índia Guaraní, isto em 1932; mas ~ão me ?ci ?em com ela p~r
Estava viúvo e vivendo cm Aquidauana, quando reencontrei o causa de minha sogra: a velha nao quen~ ficar em A~anba,
desejava "andar" . . . ir ao norte do Parana, pa~a ~ aldeia. La-
Coronel Nicolau Horta Barbosa, já meu conhecido desde 1922,
ranjinha, habitada por índios Guaraní e Kamgan~: Mmha
ao tempo das Linhas Telegráficas, onde trabalhei como copeiro mulher acabou acompanhando a mãe e levando meu filho. ~m
do então Capitão Tibúrcio Cavalcanti. Nas Linhas Telegráficas março de 1939, fui para Aquidauana,_ onde moravam meus tio~,
trabalhavam mais de 200 " patrícios" . Joaquim Lulu e Susana da Costa P!º• nas margens A do ~qm~
Até o ano de 1907, os índios (Terêna) ficaram como dauana; antes, êles moravam na aldeia !pegue._ Com eles fique~
• "cativeiros". A vida era muito difícil para nós. O próprio tra- poucos dias, pois aluguei casa no centro da cidade onde morei
balho na Comissão era muito cansativo, mas lá não éramos dois anos.
"cativeiros". A Linha Telegráfica de Cuiabá a Aquidauana, Nessa época eu estava licenciado do S.P .I., só reassumindo em
começada em Cuiabá em 1909, terminou em 1910; mas em 1941, quando fui para Aquidauana. Nesse ano a sede de S.ª
1922 começou a ser feita a linha telegráfica Campo Grande- Inspetoria, até então em Bauru, foi localizada em Campo
Ponta Porã, terminando no mesmo ano, depois de cobrir tre- Grande. Nesta cidade casei-me, pela segunda vez, com uma
zentos quilómetros. Foi nela que eu trabalhei. mestiça Terêna-purutuya, "com quem fiz cinco filhos", dois dos
Meu estudo começou com um professor, seu Honório, chamado quais faleceram. Com minha espôsa, viúva também de um
à aldeia de Bananal - onde eu morava - pelo próprio Terêna, vieram três filhos, sendo um dêles recém-nascido que
Capitão. Em 1915 tinha o S.P.I. o seu primeiro professor : reconheci como meu.
Otávio Gonçalves de Magalhães. Eu estudei com os dois. O
141
140
to unn nova e nc.1 · , pcrspcctiva da socic- f
seu comportamen - ~ · . I· êssc indivíduo possa cons 1-
N . tclllpo cm que trabalhei cm Ararib(i, como mo~orista, e~tava tladc, ainda que cm re!açalo .11· e .1 . .t ·" como nos demonstra
C\~ substirnindll um "patricio'' - motoris!a efetivo - licen- tu ir-se numa " per.s<in·1li1.hl · · e. <ivcrgcn~ e ' :- deve ser cons1- .
ciado por doença. Com sua volta, p:1sst:1_ a trabalhar como " 1 2 I uc1·1no por1.:111, n.1 0 .1
Florcstan l•crnam cs. ~ '. ' . cnos se o consH e-
·\~ampciro". Naqudc tt' mpo n:"10 havia :11nda nenhum casa} 1' hck d1vcrge11tc, pc1o Ili · · .
dcr:1do uma pcrsn11;1 ll, . . l·1(l , Ten: 11"1 citadina: vivesse
Tc~na. S0111cnte qn l 9J2, 11:1 l'pm:a de meu casamento, e r:1rmos en1 re1,H;,m
.• :- CO lll ' l
• •
con lllllll • r.;
• t:-
' ,,
. ·ri-1 êle 11 111 1narg1-

que chcg:1ra111 oito famfl(as patrícias ~razidas ydo S.P.l. para êle numa aldeia talva. o ~osse; ou. 1.:11
, id ·r· 1ssc111os conw ,1
.w,: lsctú~h ·1 co111unid:1dl!
' '
"d\'ili1:1r" os Guar:lllL Em 1935, o S.P.l. deixou de fornecer n:11" se t:1111 1ic111
• instru111cnh1s 1.k trabalho, utensílios domésticos e até comida, . , 1cons ·1s c : ..
c1chdcs· . ·t· ·f· icis nesse últi1110 caso,
es ,11 .111 . , ..
TerC·na const 1t UH a 11 · · · ·• · . . I • i ndígc na) cm rl!-
por falta d.- rab:!· Foram, cnt,io, os índios obrignlil>s a traba- considerando o indivíduo (ou a co11111!m1'.11l1.: M·1s se bc111 que
Jh:1r para pl1d.-r ,·1,·t'r: . . . . 1 1 1 ·tn1n e nacw11.1 . . .. .
laçãn :'\ spc1cdac e nca , ui · . · .. :- nos scj'l l.'Spccia l111cntl!
Meus di\'nti1rn:ntl1s sao 11111110 poucos. Vou 11111110 ao cmema, o conceito de "hcllllClll 111arf 1na 1 11.10 .. . l··r. css·1 rcfen:ncia
apenas quando passam fihllt'S "de surpn:sa" (filmes de Tarzan, ' l' 1' dcseJ"IIIHlS c111pn .cnL 1.: • ' . '
útil para a ana ise q1 e_ . • . . l ·snrt·1rnH1s dP problema,
c:iç:idas. f:m,,·stc). \'ou an cin:n umas quatro v~zcs ao ano.
l\ksnll, n:1 "pra,a". p:1ssd1.1 rar:1111cnte. Durante as minhas fé- l1rcliminar vai-nos· servir · t t,
para nos ll~l· ._ .'.. l 1·,,··1·111() ,ç ·111c11as
·s·1s re ex.oi..:s · " · V •

enqu_ant_n foco pn_m:1.p:~ -~ 1.:. n_osj.'. · ntc t:;l ve~. mais oportunidade
rias fico l!l'.r:tlm,·ntt· cm casa "arrum:rnJo alguma coisinha". um md1víduo q111.: ll:Vc " su.i 11.: N:- 0 !Js-
.1. • .· - ,..io de contato. ,to
\ nu à i~r~·ja ( catlili1.·a) duas v~zcs ao ano, cm maio, no mês que qualquer outro erl·na na s1111 .1,. . . . , > êlc
de 1\1:lri:1. Para faL.-r nimpanhia aos meus patrícios protestan- tantc su·1 vida e sobretudo. seu dcpo1me11to (1._ i . , com< .
tes. frcqiknt,,. :'ts Yá.cs. o culto, cm Bananal, quando passo •. , ·... ~~ "su:1 • vida") não o distinguem r:1d1calment~ dos
pwpuo c t ·nt •gnç·10 li '\
por J;i. Niio fa1,·l1 muitas visitas "porque não tenho assuntll": dem·1 is 1ntrícios inseridos no processo comum l 1..! 1 l'.I • : •
visito m,·u 1.·oncunhad0, p111'11t11ya, bem como meu irm:io que soci~clad~ rcgio11;1l. Cumpriu êlc o circuito qul.! gr:\IH l.! numcr_o
trabalha na Estrada de Ferro. Ml.'smo aos domingos e sábados, ·clos Terêna migrant es cu mpnram, · pllí P··ut,cs,· percorrendo
. . , . ci-,.
pcrman.~ço comumcnte em casa, enquanto os meus "patrícios'' dadcs como Aquidau:1na e Campo Grande; Rescrv:1s d1st.rntcs
que vêm das fazendas e ch:ícaras próximas vão ao cinema, como as localizadas 110 Estado de S:fo Paulo, povoadas por
passeiam na "praça" e na Avenida Cândido Mariano; êlcs vêm índios de tribos diferentes; chegou a detuar ~un casa mento
no sábado e voltam no domingo à tarde ou na segunda pela intcrtribal, com uma Guaraní cm Ararib:1; e _colunou a gr;~n~lc
manhã. meta do Tcrêna moderno obtendo um emprego no qu:1.l t~ao
Os meus "patrícios" apreciam o meu trabalho no S.P.I. :Êssc se estraga o corpo", pois hoje é servente, efetivo do serviço
meu cmprêgo não me cria dificuldades com êlcs, porque cu público federal. . .
explico o que é o S.P.l., mostrando o quanto êlc nos defende. Pode-se alegar que Luciano se manteve hgado à comum-
Acho que os protestantes falam mais mal do S.P.I. do que os dade Terêna citadina por fôrça de seu dever de funcionário do
católicos, porque àqueles "custo mais a convencer . . . " . Serviço de Proteção aos lndios. Mas êsse argumento cairb por
terra se considerarmos que outros Terêna, com histórias seme-
lhantes e que chegaram a ocupar postos, como o de datilógrafo
Análise
(na Petrobrás), telegrafista (na Noroeste do Brasil) etc., con-
tinuaram a identificar-se como Terêna e a conviver com seus
A vida de Luciano não pode ser considerada típica, mes- patrícios. A assimilação à sociedade regional e o consequente
mo entre os Terêna urbanizados. Não é indispensável, entre- • corte com a comunidade tribal é o resultado de outros mcca-
tanto, que as "histórias de vida" sejam típicas para poderem
ser utilizadas pelo pesquisador em sua tentativa de compreender
uma dada realidade social. Os indivíduos considerados atípicos (2) Cf. Florcstan Fernandes e Ranzia Gattás, 1960. Essas "personalidades
divergentes" são, muitas vêzes, extremamente sensiveis, podendo fornecer ao
pod~m constituir também uma importante "abordagem" dessa entrevistador valiosas observações sõbre o seu meio ambiente.
realidade, uma vez que se nos oferece - através da análise de
143
142
. _ . dos porque eu havia en-
por P ersegu1çao dos antigos emprega ,
· · N- acho que
3 trado numa categoria melhor do que a ma10na. ao
nismos, aliás, por nós já referidos em obra anterior. A con-
'd , dio· acho mesmo
dição de funcionário do S.P.I. confere a nosso entrevistado uma a P erseguição tenha ocorn o porque eu sou m , ,
· d " E e por
posição particular no seio da comunidade tribal, onde é aceito, que "o que vale é o desenvolvimento a pessoa. ·. · _
mas onde, não obstante, é cercado de certa desconfiança, cor- isso que eu acabei vivendo na cidade: "para dar rnstruçao aos
porificada em antagonismos que surgem somente naquelas si- meus filhos". ld · d índios
tuações consideradas conflitantes entre o S.P.I. e a comunidade Em trinta e poucos eu fui para J catu, essa a e!a . e . d .
01
tribal. Nessas oportunidades, Luciano não escapa de ser toma- Kainoáng que existe no Estado de São Pa ulo ; la fiquei ~
do por seus patrícios como um homem "do Serviço". Todavia,
0 • r
anos retornando dep01s para pegue.
Fº · na Reserva ate
1quei •
essas situações conflitantes dificilmente têm lugar nas cidades 1939, quando, em setembro, vim para Aquidauana, para esse
- onde vive e trabalha nosso informante - , só emergindo na mesmo luoar onde estou até hoje .
situação de Reserva. Naquele t~mpo havia outras famílias Terê na mora,n_d o no Gua-
Como descrevemos na Primeira Parte desta monoorafia: nandi _ neste bairro em que moro - , todos catohcos e to~~s
fôsse Luciano um funcionário graduado da administraçã~ des- de Ipegue. Muitos de meus patrício~ de Jpegue e m eus ex-vizi-
sas Reservas, provàvelmente encontraria as maiores dificuldades nhos daqui, de Guanandi, estão hoJ~ ~?1 Campo Grande. ~a-
para o convívio tribal e, certamente, tenderia a atualizar o tipo rece que nenhum dêles retornou def101ttvamente para ª, aldeia,
do "homem marginal" de que fala Stonequist.4 Como desem- porque lá "a gente fracassa muito: não há t:abal?o e ha pouco
penha suas funções, meramente auxiliares, no meio urbano, recurso". O mato é bom para roça, mas da muita formiga na
onde os Terêna citadinos pràticamente não são considerados fôlha e muito tatu na mandioca. (Laudelino passa a falar de
índios, pois não recebem qualquer assistência por parte da Ins- seu filho primogênito.) . . .
petoria Regional, Luciano não vive permanentemente em estado Em Aquidauana fiz o meu menino, filho de mmha pnmeira
de tensão, resignando-se apenas a ouvir esporàdicamente la- mulher entrar na Escola Paroquial (Redentorista), onde cursou
mentações e reclamos dos patrícios mais reivindicativos, que até o S.º ano. f,Je estudou datilografia com as Irmãs, saindo
lhe perguntam: " por que o S.PJ. não ajuda a gente"? diplomado em quatro meses. Tinha 16 anos naq_uela época e,
embora com primário completo e o curso de datilografia, teve
de trabalhar como aprendiz de pintor; com o dinheiro ganho
Autobiografia de Laudelino Pedro Dias (Aquidauana) nesse emprêgo, pôde pagar um professor particular, um oficial
do exército, para se preparar para o curso de sargento no
Pedro Dias era o nome de meu finado avô. Laudelino foi o Realengo. Estudou uns dias no Realengo, quando, então, a
nome dado por meu padrinho, para não confundir com o do escola foi transferida para Três Corações, no Estado de Minas
meu avô. Meu apelido em língua (txané) é Nati. Fui batizado Gerais. Lá fêz o curso em seis meses. Até essa época êle me
na Igreja de Miranda pelo meu padrinho Silvério Prêto - que escrevia sempre. Como 3. 0 Sargento veio para Campo Grande.
era um homem prêto, civilizado - , amigo da família e em- Depois não tive mais notícia dêle. Soube por patrícios que
pregado na fazenda Cutape. Nasci cm 1905, em Miranda. êle se casou com uma purutuya.
Estive na fazenda Cutape, mudando-me depois, ainda criança,
para Ipegue. Análise
Em 1924, durante a revolução, alistei-me como voluntário.
Fiquei _no ~xército até 1929, morando em Aquidauana, ano em
. Esta _segunda autobi?grafia, bem mais reduzida que a pri-
que de, baixa e fui trabalhar na Estrada de Ferro Noroeste do
~eira, pois noss_o entrevistado era m enos prolixo do que Lu-
Brasil, como "limpador". Não fiquei muito tempo, pois saí
ciano, ilustra, nao obstante, um caso típico de migração para
a cidade. Podemos dividi-la em duas partes: a primeira, a
<3> cr. R. C. de Oliveira 1960a, capítulos VII e VIII .
( 4) Stoncqui.st, 1948. '
145
144
or um casamento in_ter-
autobiogcifiC3 propriamente dita, representa a mobilidade de sociedade naciona,1 compleme ntados P d 1
étnico (requisito à assirnila~ão),s_ e ao seu completo es ,ga-
wudelino e as principais (principais para êle) fases de sua
vida; a segunda, em que nos informa sôbre seu filho, ao que rnento de sua família de onentaçao.
tudo indica sua principal preocupação e objeto de particular
nostalgia. Iniciemos pela primeira parte. De modo sucinto Migrantes Pioneiros
podemos dizer que o típico de sua migração se prende às suas
repetidas passagens por Aquidauana antes de nela se radicar
definitivamente. Em declaração registrada em formulário, Lau- 1.º Caso (Campo Grande)
delino afirmou sua decisão em jamais voltar à aldeia para
morar; p~demos verificar que nem mesmo para passear ( e, As vicissitudes pelas quais passou Juliana, uma das_ pri-
nesse sentido, ao contrário de seus patrícios do Guanandi) êle meiras Terêna a se instalar em Campo Grande e ne:sa c,da~e
vai à aldeia: sua atual espôsa e filhos é que vão periodicamente reorganizar seu grupo familiai, propõem-nos a questao d~ _mi-
a Ipegue. Mas isso não faz de Laudelino urna personalidade gração para a cidade em têrmos do co~1porta?1ento fem1runo,
divergente na, c~rnunid~d~ Terêna citadina; revela-o apenas, em complementação às inf~rrnaç~es ob,t1d~s sob~e o processo
como um dos 10d1os mais mtegrados ao meio urbano; e veremos migratório fornecidas pela b10grafia do 10d1~ !-~c1ano -
a_d~ant~ (ver cap; _YIII) 7omo isso é coerente com a sua par- Nasceu Juliana na fazenda Guabira, no Mu01c1p10 de Dourados,
tJc1paçao na pobt1ca nac10nal, constituindo-se num dos raros filha de pais Terêna moradores em colônia~ de_ fazend~s- Se_u
casos de índio identificado com um partido político ( o PTB) pai morreu quando ela tinha dez anos e sua Jrma, Carolina, seis
vinculado às classes trabalhadoras. O percurso cumprido por meses. Três outros irmãos trabalhavam em fazendas, onde
I:audelino entre a aldeia e a cidade, incluindo uma permanên- residiam.
c~a fugaz em Icatu (fato não muito bem explicado pelo entre- Com o falecimento do pai, foi com sua mãe e irmã para Bana-
vistado, podendo existir aí um crime qualquer, por êle cometido nal, casando-se nessa aldeia um ano depois. Aos vinte e um
e punido pelo SPI com sua segregação num Pôsto Indíoena anos separou-se de seu marido, depois de viver pouco tempo
correcional), é consistente com seu papel de personagem-chave em Corumbá, "numa pequena propriedade" comprada por sua
na migração: como salientamos no início dêste capítulo é mãe que residia com o casal; a razão do divórcio - conforme
através dessas viagens à cidade, com permanências limitadas, procurou-nos explicar - foi a venda da propriedade pelo
que o modo de vida urbano vai penetrando nas Reservas e es- marido, sem consultar Juliana nem sua mãe. Separada, foi para
timulando a migração. Cachocirinha, acompanhada de sua mãe e seus três filhos;
A segunda parte da biografia de Laudelino mostra seu nessa aldeia foi amparada por seu tio materno, Cândido, que
filho, por êle orientado nos primeiros anos da adolescência, a lhe construiu um rancho. Morou em Cachoeirinha com sua
tentar uma ocupação urbana, condizente com a sua situação mãe e seus filhos até o falecimento do primogênito, com cinco
de alfabetizado, sendo conhecedor de técnicas tão valiosas para anos de idade. Encontrando dificuldades para sobreviver na
uma sociedade urbana e moderna corno a datilografia. Contudo Reserva, além de desgostosa pela morte do filho, aceitou o
o jovem Terêna deve ter encontrado dificuldades bastante convite de outro irmão de sua mãe, Justino, na época "Capitão"
~ande_s para achar emprêgo de escritório, provàvelmente por da aldeia Passarinho, que lhe prometeu construir uma casa e
nao ~1spo: de contatos na sociedade local capazes de reco-
mendá-lo as poucas firmas existentes há vinte anos atrás, época . (_5) _Cf. _R .. C. de Oliveira, _1962a, págs. 124/25. Distinguindo assimilação (ou
em que o rapaz vivia em Aquidauana (em 1939, tinha êle 10 /adm1za€ao) 10d1v1dual de ass1m1laçao (ladiniz;ação) de grupo, com referência a
populaçoes gualte'!'~ltecas, Adam~ _comenta que a separação do individuo do grupo
anos). Um "bugre sem recomendação" - como nos disse cer- parece ser a cond,çao ou o rcqu1s1to para a sua ladiniz:ación. (Cf. Richard Adams
1~56:60 ss. ). Se be'!' _que_ o conceito de /adi~lz:ação não tenha exata correspan:
ta vez u~a comerciante da cidade - "não merece confiança". denc1a com. o de ass1m1laç_ao (conforme _o definimos na aludida obra, página 111),
, Seu engaJamento ao exército, com sua promoção a sargento, o comentãno. de Adams, sobre as cond,çoes em que ocorre a /adiniz:ação parece-nos
bastante consistente com o processo de assimilação estudado entre os T~rêna.
forneceu-lhe os pré-requisitos necessários à sua assimilação à
147
146
mestiço, de 37 anos, operário de construção; Luís t~abalha como
melhorar sua vida; não cumprindo o prometido, Justino acabou
pintor e na época da pesquisa rea lizava seu serviço nu_ma _f~-
brigando com sua sobrinha (e com sua irmã), resultando na · , · de Campo Grande·, Benedito é cscnturano
mudança de Juliana, sua mãe e seus dois filhos para a aldeia zen da d o mu111cip10 .
da Pctrobás, tem curso ginasial até o 3. 0 ano e, cm 1960, ~avia
vizinha de Moreira, um ano depois de haverem todos se mu-
sido enviado pela companhia a /\raçatuba. Quando seu~ fil hos
dado, esperançosos, para Passarinho. Embora residisse cm
ainda eram crianças, Julia na prO{:urou convencer. Clcciano a
Moreira, onde plantava um pouco de ma ndioca e de batata, mudar de cmprêgo, saindo e.la Noroeste e.lo Brasil on~c. s~u
trabalhava corno lavadeira numa casa de comércio na pequena . era baixo. ,
saláno e suas contmuas mu d a nças de rcsidcncia
, .
cidade de Miranda. Em Moreira morreu sua filha, e a pouca ' · · ' os par·t a organ·1zação domestica.
acarretavam senos prc1u1z , .
produção de sua roça ( "os bugrcs que bebiam pinga roubavam · · assim
· um cmprc·go de gari na Prefeitura
Cleciano conseguiu _
tudo . . . ") fêz que Julia na aceitasse a sugestão de seu patrão de Campo Grande. Essa mudança de crnprêgo parece que nao
cm Miranda, indo, assim, para Campo Grande, onde deveria rcsultou cm nenhuma melhora para o grupo fam T i _ia I· A pcrma-
empregar-se corno doméstica. Comenta Juliana que "é triste nência cm Campo Grande resultaria num c.lcsa1~starncnto do
quando a gente não tem um homem pa ra governar a gente"; e casal levando Clcciano a arranjar outra companheira e a a ba n-
acrescenta: "mas onde cu vou tem sempre um estranho que me dona~ Juliana e filh os, após vinte anos de vida cm ~omurn;
guia, nunca nenhum patrão abusou de mim". Chegou em simultâncnrncntc Clcciano começou a beber e a embriagar-se
Campo Grande cm 1920, apenas com sua filhinha Rita, a mais constantemente. Posteriormente, falecia Clcciano, o que levou
nova, com quatro anos de idade. Sua irmã Carolina haveria Juliana a reivindicar seu pecúlio, corno sua cspôsa lcgíti~a. O
de seguir seus passos poucos meses depois. Nessa cidade co- dinheiro do pecúlio auxiliou a construção de s_ua casa, toda de
nheceu uma senhora que a levou para trabalhar cm sua fazenda, tijolos, construída pouco a pouco por ~eus filhos: a casa de
no município de Campo Grande. Afirma que gostava da Juliana, pode-se dizer, é a melhor moradia de quantas pudemos
fazenda, onde os patrões a tratavam bem. Nessa fazenda co- visitar entre os Terêna citadinos.
nheceu Cleciano Rocha, um purutuya com quem passou a viver,
a conselho de terceiros. Cleciano começou a trabalhar na
Noroeste do Brasil alguns meses depois de unir-se com Juliana. 2.° Caso (Aquidauana)
Após um ano de vida cm comum, decidiram casar-se no reli-
gioso, regularizando a situação do casal que a essa altura já O segundo caso que desejamos expor refere-se a um dos
estava vinculado às turmas de conservação da Estrada, junto filhos de uma Terêna migrante, nascido de seu segundo casa-
das quais eram obrigados a residir de conformidade com o tra- mento (com um purutuya); trata-se de Elias, filho do per-
balho de Cleciano. Três meses depois de casada no religioso, nambucano Santana e da Terêna Amélia, ambos falecidos. ~sse
foi buscar sua mãe em Bananal (para onde havia ido depois da caso foi o escolhido a fim de proporcionar ao leitor uma idéia
saída de Juliana de Moreira), que passou a acompanhar o casal de uma situação de integração no meio urbano, sem, no entanto,
para onde Cleciano tivesse de se deslocar. Conta Julia na que inculcar um desejo de fixação na cidade, comum entre os cita-
sua mãe aprovou seu casamento e que gostou muito de Cleciano; dinos de segunda geração (particularmente quando nascidos na
êste haveria de aprender o txané de modo razoável, o bastante cidade).
para lhe permitir entender seus parentes afins Terêna. Com Quando Amélia se amasiou com Santana já possuía três filhos,
êsse segundo marido teve mais seis filhos, metade dos quais todos casados. Com Santana teve mais quatro, sendo um dêles
morreu : dois por doença e um por suicídio (aos 23 anos); Elias, o mais nôvo. Quando Elias tinha 1O anos, seu pai
sobreviveram Júlia, Luís e Benedito, todos pertencentes ao atual morreu, tendo sua mãe falecido três anos depois. Antes de
grupo doméstico de Juliana e respectivamente com as idades falecer, sua mãe lavava roupa "para fora" e tinha grande fre-
de 25, 23 e 22 anos (cm 1960). Júlia trabalha como lavadeira guesia cm Aquidauana. Elias acostumou-se a ir periodicamente
( cm sua própria casa) e é amasiada, pela segunda vez, com um
149
148
Análise dos Casos
a Bananal, onde seus pais mantinham urna pequena roça; pôde,
·m manter relações permanentes com seus parentes aldeados. Os dois casos selecionados constituem uma complemen-
assi , .d EI" . .
Mesmo depois de seus pais haverem faleci _o, ias contmu~_r:,a tação das biografias apresentadas e d~s _situações . d_es~ritas n~s
a visitar seus parentes e a cultivar mandioca brava e fc11ao parágrafos anteriores. Com a descnçao das v1c1ss!tudes e
miúdo na roça da Reserva.
Além de trabalhar como pedreiro, Elias há mais de quinze anos
Juliana tivemos uma visão ?º ~apel da mulher Tere:1': neJ~:
processo de migração Aldeia-Cidade. Com a expos1çao_
é porteiro do cinema de Aquidauana. E foi nessa condição que esforços de Elias em sair da cidade para trabalhar na aldeia de
conheceu sua mulher, Delfina, uma Terêna de Bananal. Esta sua mãe, malgrado sua ocupação essencialmente u~bana, 1:u-
morava em Bananal na casa de um tio paterno, desde a morte demos tratar de uma questão até aqui não-proposta a reflexao,
de sua mãe ( quando Delfina contava 14 anos de idade) . Com qual seja a do "retôrno da família migra~te" através d,e _um
0 falecimento de seu pai, Delfina, que na época contava 22 descendente não-assimilado à sociedade nacional. Neste ultimo
anos, saiu da aldeia com destino a Aquidauana, acompanhando caso, o surpreendente é o fato dêste indivíduo (Elia~) s~r
uma sua patrícia que trabalhava como doméstica nessa cidade. nascido na cidade, filho de pai nacional, e, não obstante, 1dent1-
Essa amiga arranjou-lhe um emprêgo de cozinheira e passadeira ficar-se inteiramente com a família materna, indígena; poder-
numa casa particular. Trabalhou três anos nesse emprêgo, se-ia dizer que Elias incorporou a tradição agrícola do povo de
passando depois a residir com Elias. A princípio o casal morou sua mãe graças à sua socialização como Terêna, visitante p erma-
com Jacinto, um dos irmãos de Elias; mas Delfina, alegando nente, que sempre foi, da aldeia de seus antepassados ma ternos :
que sua cunhada ( mulher de Jacinto) "fazia muita briga", em Bananal sonha Elias viver uma vida de trabalho tranqüilo
induziu Elias a construir seu próprio "barraco", na vizinhança no cultivo de sua roça, à qual, nas atuais circunstâncias, pouca
do de Jacinto, no lugar chamado Buraco. Tiveram apenas uma atenção pode dar. f: o anseio de quem, nunca tendo experiência
filha, Glorinha, nascida, em 1948, em Aquidauana e, em 1960, de vida permanente em aldeias, permite-se ignorar as limita das
aluna do segundo ano primário da Escola Modêlo Antônio oportunidades oferecidas pela Reserva, não da ndo ouvidos à
Correia na mesma cidade. H á cêrca de quatro anos veio urna maioria dos Terêna migrantes, entre os quais se inclui sua pró-
Teréna de Bananal hospedar-se na casa de Elisa, irmã de Elias pria mulher. Nesse sentido, o caso Elias é excepcional, ao
e sua vizinha: a mulher ofereceu a filhinha, Lurdes, para Delfina contrário do de Juliana, que encarna o comum da mulher
criar, explicando que a menina atrapalhava sua vida, irnpe- Terêna migrante. Mas tanto um quanto outro oferecem-nos
dindera de conseguir bons empregos na cidade. Delfina e Elias novas perspectivas de compreensão do processo migratório.
concordaram em adotar a cria nça que, na época, tinha poucos Aos casos de Juliana e de Elias, bem como às bioorafias
meses de vida. de Luciano e de Laudelino, poderíamos ter acrescentado ~utros
Elias declarou possuir um terreno, comprado por dez mil cru- mais: o de Gregório e seus irmãos, migrantes pioneiros em
zeiros, a prestações de duzentos cruzeiros mensais, que êle ~ldeinha; da índia Quitéria de Guanandi, cuja mudança para a
guarda para sua filha Glorinba. O terreno da casa em que mora cidade em busca_ de t;a_tamento médico para seu pai estimularia
com sua família é da Prefeitura; não é um terreno suscetível de u.m~ co~rente . m1~atona de I pegue para Aquidauana; de An-
negócio, por causa das enchentes periódicas do córrego João tomo L1ly, pnme1ro morador do lugar chamado Buraco e um
Dias. Delfina nos informou que o prefeito lhes arranja moradia d_os _personag~ns mais controvertidos da comunidade T erêna
durante as cheias, e nela ficam morando até as águas baixarem citadina, e CUJa. casa abrigou grande número de mi orantes de
e poderem retornar à sua casa em Buraco. Pudemos observar Bananal, . garantmdo-lhes o apoio inicial de que ne~essitavam
uma divergéncia entre o casal : Elias deseja residir definitiva- har~ se ~~stala~~1!1 na cidade. Concluímos que êsses casos já
mente em Bananal, ao passo que Delfina nem quer ouvir falar ~v:am s1 o su 1c1entemente delineados ao leitor durante a des-
nisso, chegando a ameaçar separar-se a fim de assegurar a cnçao dos agrupamentos mi~r~ntes, embora os tivéssemos apre-
permanência de suas filhas, verdadeira e adotiva, num lugar sentado de forma fragmenta na. Mas as experiências colhidas
onde há escolas e recursos.
151
150
Out ros no processo mi!!ratório tendem a se repetir
Por uns e por ue seria monótono estarmos ~
a transcrever
t
de tal. mo d O q d nest e
· ni· n ero de casos constantes de nossas ca erne as
texto ma10r 1 1 ' ' , f li 1 . , 1
de campo. L"nl·'ntamos
' " ~ ' 'apenas - .e essa· e uma, ad. 1a Gasttmave
_ nao - h.,,,ermos
.. conse!!uido
~
a b1o!!rafia
~
do m d10 omes,
· to
· · koiromuneti T erêna de Campo Gra n e e nugran CAPÍTULO VII
preStJ!!IOSO · • · " f. e
· ~ naquela cidade : dadas as suas caracten sttcas pro 1s-
p1one1ro . . . · d
· ·s" comuns aliás aos demais korxomunetr menc10na os na
s10na1 '
· e·ra p:utc

dêste livro, Gomes não se f1xava em nen mm
1
pnm 1 , A • d A REORGANIZAÇÃO DO GRUPO FAMILIAL
lugar, se bem que th:esse, como :1:onto de r~ erencia a casa _e
sua irmã Maria Almeida, a qual Jª nos refenmos. As oportum-
dades de entrevistas com Gomes surgiram em momentos em que
0 mesmo estava em situação "de trabalho" ou quando o tempo
disponível do pesquisador era exíguo. Estam?s certo_, no en- A reorganização do grupo familia! nas condições d~ vi~a
A

tanto, de que, a despeito desta fa!ta, con~egm~os deixar bem urbana não se deu como se poderia imaginar, em consequencia
marcado o lugar do k oixomunet, na m1graçao para Campo de uma desorganiz;ção resultante do proce~so_ migratório . . !ªm:
Grande e su 0 erir o papel que viria a desempenhar no compor- bém a desorganização familiai não constitum um requ1S1to a
tamento da ~omunidade Terêna citadina. migração, pois, em regra, tal migração caracterizou-se pela
deslocação da Reserva para a cidade de famílias relativamente
organizadas em têrmos dos padrões vigentes nas a ldeias. A
0
rande maioria dos T erêna migrantes veio à cidade "em família",
; apenas uma minoria, vinda à cidade por migração individual,
chegou a estabelecer-se no meio urbano e nêle constituir família.
Uns e outros, ainda que trouxessem para as á reas urbanas o
mesmo padrão de organização e de comporta mento familia} que
atualizavam na vida de R eserva, tiveram de adaptar-se às novas
condições de existência, reorganizando o "sistema fam iliai" em
sintonia com as solicitações e as limitações do ambiente cita-
dino. As diferenças que vamos encontrar entre Campo Gra nde
e Aldeinha, considerando-se o modo de organização de seus
respectivos grupos familiais, revelam-nos que e nquanto essa
guarda estreita simetria com as R eservas ( espec1ficamente com
Cachoeirinha), aquela mostra outra configuração, bem mais
consistente com as condições de adaptabilidade ao meio urbano.
Gr,os~o modo,. po~er-se-ia dizer que ,:\ldeinha ( como a sua
propna denommaçao sugere) _é a Aldeia/ Reserva na Cida de : •
do pont~ de ~ist~ da organização dos grupos fãriiiliais, prà tica-
mente nao ha diferenças significativas entre o que se observa
e?1 relação a êsses índios suburbanos e a os da R eserva Cachoei-
nn~a, por exemplo. Ap~sar de cêrca de metade de sua popu-
laçao trabalhadora perfilhar ocupações urbanas e de p ouco
menos de 60% de seus moradores serem alfabetizados, Aldeinha

153
152
poucas fll\)dific:1çUes ~ofreu n? nível da organização fam jlia.l.; e su~ere o C'()l/fi111111111 A ldci:l-Ci úade que lhe é subjacente: c m
• a .famflia clcllll'lltar. sim >ks. ,. e .• sem _agregados. que na Re- pcre~ntuais, a fa mília elementar cn1 Ca111po Granúc corresponde
sen·a e 111:lJlmt:ma. a )rangem o mais de ::?/ 3 dos grupos fami- a cêrca de 111ctadc da que rcgistra nws e111 Aldcinha. na pro-
liais - confl,rn1e se registrou cm Cachoeirinha. a Reserva porção de 33,3 % x 62.5 % ; c111 contrapartida. a família extensa
tom:1da como rl'fen:ncia - t:Hnbém o é e m Altkinha quase cm /\ldeinha não const itui mais de 9.3 % , enqua nto c m Campo
que na mcsm:1 pwporçào (7 J,6% cm Cachol'irinha ; 78, 1% cm Grande ela abran!.!e 26,6 % dos grupos dorm:sticos registrados.
Ald,·inh:i): :w passo que cm C ampo Grande o inverso ocorre: Mas o dado mai; sintom:ítico parece-nos ser o aumento d e
J/ 3 de famílias elementares si mpks (33.3 % ) contra 2/ 3 de agregados nos grupos domJsticos organizados nas condições
familias ckmentares com agregados ( 40 % ) e extensas efetivas de vida urbana. como soem ser aquelas encontradas
(::?6.(i Ç"i- ) . Mais do que a farníli:l extensa. o agregado - como cm Campo Grande. Nessa cidade 40 % dos grupos d o mJ s ticos
c:itegoria sociológica - I.! que marca o síndrome da urbanização, possuem agregados, sendo que cm A ldcinha apenas 15,6%
como tenta remos demonstrar. Por essa razão, ao estudarmos dêlcs os incluem. Acentue-se que a presença de a gregados entre
neste capítulo as mudanças operadas no nível da organização êsses agrupamentos de migrantes parece indicar que o proces~o
familiai, vamos dispensar-nos de comparar sistemàticamente os de urbanização é rcspo ns:ívcl pela emc rg~ncia de uma catcgona
dados pertinentes "à noYa situação'' - na qual se incluem as pràticamente despercebida nas condições de vida de Reserva.
áreas de Aldcinha, Guanandi, Buraco e Campo Grande - com Aldeinha, projeção que é da Reserva, pouco transfigurada em
aquêles referentes à situação de Reserva ou "à velha situação". seus grupos familiais pela migração, registra quase o mesmo
O processo de mudança social será mais adequadamente estu- índice de agregados que aquêle observado em Cachocirinha.
dado atra,·és da consideração analítico-descritiva dos diversos Mas é com a inserção definitiva dos Terê na na área urba na
agrupamentos de migra ntes instalados naquelas áreas que classi- propriamente dita, na cidade de Campo Grande, que os grupos
ficamos, de modo específico, como citadinas. O muito que domésticos vão sofrer radical alteração. 1
permanece da " velha situação" em Aldeinha e o pouco que
dela se nota em Campo Grande permitem-nos colocar em TABELA V
segundo plano nossas referências aos dados e índices registrados
na Reserva (Cachoeirinha), uma vez que esta pode ser consi- Grupos domésticos ALDEINHA BUllACO GUANANDI
CAM PO
TOTAL
derada bem representada no agrupamento de Aldeinha, pois GRANDE

seus padrões residenciais e de organização doméstica muito se


Família elementar 20 5 5 5 35
assemelham aos de Cachoeirinha, como tivemos a oportunidade
de indicar. Famí!ia conjugal 2 3
Família extensa 3 4 8
Família e/ agre-
gados
1. Família e Grupo Doméstico 5 2 4 6 17
Grupos especiais 2
2
O primeiro sintoma da transformação que haveria de
Totais 32 9 9
operar na estrutura dos grupos familiais pode ser apontado na 15 65
mudança de configuração dos grupos domésticos. Estes passa-
ram a ter na família extensa e, sobretudo, na família elementar
{1} As quantidades registradas cm Gua d' B
acrescida de agregados a forma de organização mais comum; zona p~ôpriamente urbana de Aquidauana _ n~n I e em ~rac_o .- . portanto na
enquanto em Aldeinha a família elementar desempenha uma proporcionar qualquer percentual expressivo da ãâ· l_?Or_ de~a1s ms1_gnü1cantes para
som~dos ambos os agrupamentos e definidos commam1ca 'º· contmuum: contudo ,
" função muito semelhante àquela cumprida nas condições de v_erif1ca-sc que se_i~ grupos domésticos dentre os I d~z~:a d~nica população_ urbana,
t1tutdos por fam11tas com agregados I e 33 J o/c d . Aqu1dauana sao cons-
Reserva, em Campo Grande vemos indícios de um nítido forta- p~pulação num ponto intermediário 'd~ c;ntl •11 0 t~t~lcCtotal, situando-se essa
minho entre Aldcinha com 15 6 01 e Ca n umd eia- idade ou a meio ca-
lecimento da família extensa. A tabela V mostra êsse fenômeno • • 'º • mpo 0 ran e, com 40%.

154 155
classüicatórios) , netos e sobrinhos, desde que guardem q~an-
E-dr;.'\·::t-~ contudo. que não se pretende demonstrar to a Ego ( o chefe do grupo doméstico) relações defíru ~ s
es...--.:is ~ :er..!ÇX~ n:i configur:1.;ão d s grupos domésticos cit:idinos
como de dependência ( económica ou autoritá~ia); a ca~egona
n~.1:1te r,•.:urs., est!ltist:i.: . P:in um sociólo~o. h:ibitu:ido aos
de a2re2ado inclui, assim, no caso dos Terena urbamzados.
C:!n~:$ n:;;:?:r.'IS.. :i t!lb.:-b :i.:ima par.'.'.:.'.'ria - irrdeYante m:is
indiYídu;s que se ligam às famílias migrantes por laços de
~-;1 .:.!e :i est.n-is.ti.:a n:io é :1p.:n:1s uma ti.:ni.:a des.:riti\·a, é
c:i r:~f,.~..) in!erp~tati,·o por mei do qual apreend.! a re3.li- parentesco.
t:!:de e :l ;-er.etr.1 muit:is ,·..~.:-.s pda , ia dedutiYa. Para nós,
TABELA VI
-.."'<.~:-e-:l:es ....-.:11 , que d issem s n apítulo anterior a propósito
c..i ç::.i:::i:°1.:..!.;.b . -.s inJ_i.;Q a que chegamos desempenham um
p..,~~ c..,i.:;i:ne::H.:- des.:riti,· "'· como d:ido.s compkmentaus, mas Netos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
r:en f'."=- i:, .., destituid,-.s d;:- si~ifi.:a.;fio para o correto equacio- Sobrinhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
r:~:.::::,, J .., r:-...'~.em.1: inJi.:JJn tendfo.:i3s e prenun.:i::un c:inc- s
lm1:ios
ce.:r:S:i.-.is de u.,1 fefü:,m.:-no que a an:ilise de casos concretos,
..:.?~::J.:j,-.s qu.ilit:.1ti,--an1;:-ntl:'.'. dewr-.í por fim compreender. Sogros 3
•-\s.sir:1 s.e:1 .,. sem atribuir às referidas cifras outro sentido que Progenitores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
re3Jme:1te p;_-,,_--.suem. d.'.',·l:'.'mm explicitar a significaç5.o dos dife-
rentes tipvs de ~püs domisticos constantes da tabela \ . Tot:il . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40

fa:.:e-:;ão frita à chsse do que denominamos "grupos


t:Spn:-iais.. (um morador solit5rio numa casa e um ancião e seu
neto noutr:i casa, ambas em Aldeinha). as demais classes foram Entre êsses 40 agregados, há os que migraram recentemente
construidas tendo em Yista a composição familiai existente no e, devido a dificuldades em encontrar resid~ncias, tiveram de
grupo doméstico: considerou-se família elementar aquela for- se anexar a grupos domésticos já organizados na cidade; e há
também os que, por scnilidadic! ou puerilidade. são incapazes
e mada por um casal e seus filhos solteiros; família conjugal,
de se manter isolados. Em percentuais êsscs agregados apre-
quando formada apenas por um casal, sem filhos ; famíli a ex- sentam a seguinte distribuição pelos agrupamentos migrantes:
tensa. quando estão associadas duas ou mais famílias elemen- 5,60% cm Aldeinha, 9,62% cm Guanandi, 13,04% em Buraco
tares (para efeito analítico é quando se pode distinguir entre e 18, 18 % em Campo Grande, o que é perfeitamente consistente
as elementares uma que poderemos chamar de família nuclear, com o co11tinlllln Aldeia-Cidade aludido linha atrás. O alto
como aquela que gera as demais;2 numa família extensa, com- índice de agregados cm Campo Grande sugere que é nesta cidade
posta por famílias elementares fraternais, evidentemente não há que os !11igrantcs Terêna encontram os maiores obstáculos para
família nuclear); família-com-agregados é um conceito residual, nela se mstalarem de modo semelhante ao que estão acostumados
pois inclui todos os grupos domésticos que não se enquadram na aldeia. E se os elos de parentesco parecem ser indispensáveis
em nenhuma das classes acima descritas; importa acrescentar para sustentar a migração cm quaisquer dos agrupamentos
que a amplitude do conceito e o uso um pouco abusivo do considerados, as maiores facilidades para essa mobilidade variam
têrmo agregado não acarretam maiores prejuízos à investigação, de acôrdo com a posição ocupada pelo agrupamento no conti-
uma vez que o mesmo critério foi aplicado em todos os agrupa- nuun; _Aldeia:Cid~dei em Aldeinha, como vimos, os grupos
mentos migrantes considerados. A adoção dêsse critério implica domesttcos nao so sao formados em sua maioria por famílias
estender a noção de agregado a categorias de parentesco con- elementares, como também coincidem com grupos residenciais
sangüíneo e afim, como pai, mãe, sogros, irmãos (reais ou i. e., cada um possuindo sua própria residência; j á em Camp~
~rande nem sempre se dá essa justaposição do grupo doméstico
sobre o grupo residencial, pois há casos em que, habitando uma
• (2) O exemplo típico ele famíUa nuclear, gera dora de outra(s), t a que en-
Ye lve ~ do. espôsa, f ilho e no ra o u filha e genro; a diferença de gerações marca
a 1e;araçao entre d uas família. elementares, a primeira delas considerada nucle ar.
157
156
mesma casa, dois casais podem guardar total separação em do cônjuge), quer para a aceitação de novos membros na
suas respectivas vidas econômica e social, mesmo que estejam unidade residencial ( é o caso dos agregados), quer, ainda, para
unidos por laços familiais como os que unem a família de a incorporação de parentes afins ou consangüíneos no grupo
orientação ~o~ a de reprodução_; isso é sintoma de que o pro- familiai por meio da adoção. Essa última modalidade assume,
blema hab1tac10nal se agrava a medida que se caminha no nas condições de vida urbana, uma significação tôda especial:
continuum Aldeia-Cidade. a adoção se caracteriza pelo reconhecimento jurídico, i. e., pelo
Mas o processo de agregação deve ser examinado também registro em cartório de sobrinhos ou enteados como filhos
como uma ~as modalidades de ampliação do grupo doméstico, legítimos, aos quais o pai adotivo empresta o nome. f:sse
como o nascimento, a adoção e o matrimônio. Cada uma dessas fenômeno tem sua explicação na necessidade de legalizar situa-
modalidades, de per si, contribui com um determinado percen- ções que nas condições de vida na Reserva poucas possibilidades
~ual_ sôbre o total dos 297 indivíduos considerados parcial ou teriam de aflorar. São os casos em que a adoção representa
mte1~a~ente dependentes dos 54 casais líderes dos grupos um acréscimo no salário-família dos pais adotivos, ou quando
domeshcos ou das 13 pessoas que por divórcio ou viuvez chefiam significa a obtenção de documentos formais para os filh os
suas respectivas famílias (são 121 indivíduos que, somados aos adotivos, indispensáveis à sua sobrevivência na ordem nacional.
297, perfazem a população migrante de 418 pessoas). O nas- A figura do adotivo distingue-se da do agregado tout court
cimento constitui a modalidade que com mais freqüência atua (pois a adoção pode ser vista como um caso particular de
• 1agregação) pelo fato de incorporar o indivíduo à família que
na ampliação do grupo doméstico, como se pode ver pela
tabela VII; êsse percentual, entretanto, não retrata o crescimento
j o adotou, enquanto o agregado propriamente dito é incorporado
, apenas ao grupo doméstico. J\ adoção, legalizada pela sociedade
vegetativo dos grupos domésticos depois de sua instalação no nacional, parece ser uma característica a marcar o processo de
meio urbano, uma vez que muitos dos filhos dos casais e das urbanização. Do total dos grupos domésticos citadinos, 13,84%
pessoas líderes nasceram antes da migração, portanto saíram recorrem à adoção para solucionarem problemas concretos
de seus lugares de origem junto com seus pais; mas se pode propostos pela sociedade envolvente. Sôbre o matrimônio,
afirmar, grosso modo, que apenas cêrca de 1/ 3 dêsses 197 falaremos adiante.
É importante observar que o recrutamento de novos
TABELA VII membros para os grupos domésticos citadinos obedece a certos
imperativos ditados pelas possibilidades de convivência ine-
Nascimento ..... 197 66,33% rentes à ordem residencial. Ainda que seja tolerada uma certa
variação na composição dos grupos domésticos, como se viu
Agregação ..... . 40 13,47% na comparação da Reserva com a Cidade, não se poderia dizer
Matrimônio .. . .. 51 17,17% o mesmo com referência à di mensão dêsscs grupos, tomados
como unidades residenciais. Parece haver um limite máximo
Adoção ...... ... 9 3,03% com re.lação ~l _s~a magnitud~: se ~em que não se possa dizer
que haJa um m11111no: as fam1has migrantes, cm geral, cheoaram
Total ........ 297 100,00% às cidades como reduzidas famílias elementares· nessas ~ondi-
ções, instalaram-se no nôvo ambiente e nêlc ampli,aram o número
de seu~ , mcmb~os segundo as várias modalidades de recruta-
indivíduos está nessas condições, sendo que o restante já nasceu ~ento. Jª ~xammadas. Mas na organização dos grupos domés-
na cidade. Já as demais modalidades constituem, sobretudo, ticos citadinos, essas famílias elementares devem ter-se orientado
técnicas de recrutamento de novos membros para o grupo para o padrão . residencial vigente nas condições de vida de
doméstico: são controladas de modo mais eficaz pelo grupo Reserva: º. ~oteJamento entre os índices residenciais r egistra dos
doméstico, pois sempre dependem do "chefe de família", quer em Caehoemnha (6,75 %) e na Cidade (6,43 % ) pa rece indicar
para a permissão do matrimônio ( com a conseqüente anexação
159
158
a existência dêsse limite. 3 E é sintomático, nesse sentido, o de dois anos, foi de 18,6% , sendo pràticamente nulo o índice
que nos disse um Terêna de Campo Grande quando ponderou: de divórcio (em números absolutos, houve apenas uma sepa-
"na aldeia ou aqui na cidade nunca dá certo morar muita gente ração). A teoria de Oscar Lewis sôbrc as famílias Tepo~tec~s,
junta". Estas considerações são tanto mais importantes quando migradas para a Cidade do México, parece encontrar apltc~çao
se verifica que a manutenção de um mesmo padrão numérico no caso Terêna, guardadas as peculiaridades das respectivas
(ou limite) não impediu que ocorresse sensível alteração na situações.
composição do grupo familiai: a prioridade da família elementar,
observada na Reserva, foi substituída pela prioridade da família
extensa, ou com agregados, nas condições de vida citadina. 2. O Matrimônio
Tal fato, em si mesmo, constitui a marca de um momento de
transição. Essa transição, entretanto, se interfere nos tipos ou A análise em separado do matrimônio, feita no capítulo
nas formas de família, por outro lado não a leva à desorgani- IV e retomada neste, nada mais é do que a tentativa de elucidar
zação. Ao contrário, parece que a estabilidade familiai alcança problemas de reorganização da vida social e de reorientação a
índice mais alto nas condições de vida urbana.4 É o que valôres no plano do sistema familiai. f: no sistema familiai que
nos induz à comparação entre índices de cisão de grupos domés- se articulam os grupos sociais menos inclusivos (a família e
ticos, obtidos em Cachoeirinha e entre a população Terêna o grupo doméstico) e é no interior dos mesmos que germinam
citadina; apesar de os dados censitários corresponderem a os valôres mais contraditórios. Quer na situação de Reserva,
períodos de duração diferente - três anos cm Cachoeirinha quer na de Cidade, o choque de gerações traduz diferentes
(1957-1960) e dois anos em Campo Grande-Aquidauana graus de incorporação da cultura alienígena e diferentes modos
(1958-1960) - , servem para os nossos propósitos de aquilatar de exploração das possibilidades sociais, abertas p elo contato
certas tendências à desorganização social e à reorientação dos interétnico. Se o trabalho individual proporciona a indepen-
valôres. No espaço de três anos, Cachoeirinha apresentou um dência relativa do jovem Terêna de sua família de orientação,
índice de 37,2 % de cisão em seus grupos domésticos, sendo pondo em crise o sistema de valor vigente, a procura e a
obtenção de espôsa pràticamentc cristaliza essa independência,
que 16.6% das cisões foram devidas ao divórcio, como tivemos
pois confirma a individualidade do jovem na escolha do cônjuge,
a-oportunidade de discutir anteriormente no capítulo IV; já escolha essa que passa a se orientar pela situação de contato.
entre os índios citadinos o índice de cisão, referente ao espaço Na Cidade, ~ais do q~e na Rese_rva, ~ na escolha de cônjuge
e de ocupaçao que o Jovem Terena ve-se colocado diante de
(3) A peculiaridade da migração e as condições de vida urbana, embora não
alternativas em que os costumes tribais pouco podem auxiliá-lo
cheguem a modificar radicalmente o padrão dos grupos domésticos, acarretam al- na de~isão. No próximo capítulo examinaremos O quadro
gumas modificações como a da maior freqüência de famílias com duas gerações
(51,8% em Cachoeirinha, para 64,6% na Cidade); a de três gerações já surge ocupac10nal e suas implicações na inserção dos Terêna na
numa freqüência bem menor (39,2% cm Cachoeirinha, para 26,1% na Cidade);
enquanto as famílias de uma geração (Cachoeirinha 5,1 %, Cidade 6,1 % ) e de sociedade nacional; agora, analisemos o matrimônio.
quatro gerações (Cachoeirinha, 3,7% , Cidade 3,07%) ocorrem com igual freqüência.
Essa tentativa de atualização de um padrão residencial num ambiente tão diferente • Nun:i t~tal de 80 uniões registradas entre a população
e diversificado como o urbano não exclui o bala,,ceamento de um conjunto de
fatôres, como a renda, ou as possibilidades efetivas de acomodação. Com referên- Tere~a c1tadma,_ 43,7% correspondem a casamentos intratribais
cia à Africa, Little faz as seguintes considerações, que bem se aplicam ao caso
Terêna: "Os migrantes vêm à procura de emprêgo, muitas vêzes sozinhos. Quan-
(Terena x Terena), 37_,}% a uniões interétnicas (Terêna x
do trazem suas famílias, estas consistem em geral de uma espôsa, filhos e talvez purutuya) e 1~,7%, a umoes entre mestiços e intertribais (rema-
um ou mais dependentes. f:stes fatôrcs, juntamente com a capacidade de pagar
aluguel e a disponibilidade de acomodações, são os principais determinantes do nescentes Gua1kuru Guaraní etc ) o qu
tamanho do grupo residencial. A renda média é baixa" (Kenneth Little, 1960:94).
.
de mtegraçao - ' · · e vem marcar o orau
na ordem nacional é o alt 0 ,m d'ice d e umoes
~-
<4 > A propósito dos Tepoztecos (México), Oscar Lewis faz igual observação . , ·
quando os. estuda como migrantes na Cidade do México: "Encontramos muito mteretmcas; • mas vale acentuar que 2/3 d essas umoes ·- -
sao de
pou_ca evidencia de desorganização familiai na cidade. Não houve casos de mães
hi fth_os abandonados entre as nossas 69 famílias estudadas, nem houve tampouco mulher Terena com homem purutuya E - ,
st i:,tas de_ separações e divórcios salvo cm umas tantas famílias. As famílias se nf' - . , . ssa proporçao e a
manteJ° unidas; de fato há alguma evidência de que a unidade familiai aumenta co irmaçao antmetica das dificuldades que os homens Terêna
na ci ade, face às dificuldades da vida citadina" (0. Lewis, 1957 :239).

161
160
êsse, foram por nós encontrados, todos indicativos dessa reori-
encontram na escolha de conJuges não-indígenas. Porém os entação no sistema de valor tribal. Como mostramos noutra
percentuais atingiriam maior expressividade se considerássemos
oportunidade,5 é através do matrimônio interétnico que a
somente as uniões efetivadas nas condições de vida citadina, o população indígena dá seus passos mais firmes na estrada da
i . e., pós-migração. Nesse caso, 45 % podem ser classifica-
das como interétnicas. Duas razões podem ser evocadas para assimilação.
explicar êsse fenômeno . . A primeira delas refere-se às dificul- A legalização do matrimônio assume na Cidade uma im-
dades encontradas pelo elemento masculino para conseguir portância que não tinha na Reserva, como se viu no capítulo IV.
um rendimento capaz de sustentar mulher e filhos que fatal- Nas condições de vida na Reserva a regulamentação das uniões
mente surgirão. Esclareça-se, nesse sentido, que os Terêna prà- por instituições alienígenas (a Igreja e o Pôsto) tinha luga r mais
ticamente não recorrem a técnicas anticoncepcionais e abor- por imposições destas do que pela procura voluntária e interes-
tivas; ao contrário, parecem estar bastante familiarizados com sada dos cônjuges. A populaçüo migrante, instalada nas zonas
drogas estimuladoras da fertilidade feminina. O índice de sol- urbanas e suburbanas de Campo Grande e Aquidauana, tinha,
teiros masculinos na população citadina (incluindo Aldeinha) ao contrário, outras necessidades objetivas, como a de adaptar-
é ligeiramente superior ao encontrado nas condições de vida de se aos requisitos legais da sociedade nacional. Tomando-se
Resen ·a (Cachoeirinha = 29,45 % ; citadinos = 32,40% ). E comparativamente as populações da Cidade e da Rese rva ( dados
se considerássemos somente os citadinos propriamente ditos, de Cachoeirinha) ,6 conforme tabela. VIII, verifica mos que
com a exclusão dos moradores de Aldeinha, êsse índice subiria, de 35,2 % , relativamente ao índice de casados na Reserva,
porquanto às dificuldades de sahírio se somariam as de moradia: sobe-se a 45,2% na Cidade. o que ve m cm apoio do que temos
em Campo Grande e cm Guanan di uma forte justificação do dito a propósito dessa tendência do índio a valorizar as insti-
celibato está nos aluguéis altos; em Buraco, na falta de espaço tuições alienígenas quando instalados no meio urb:1110 e subur-
útil para novas construções (também dispendiosas em si bano. Os Terêna de /\ldcinha. tanto quanto os de Ca mpo
mesmas) nas :í reas alagadiças da Prefeitura local.· A segunda Grande e os das áreas urbanas de /\quidauana. estão, parlicubr-
razão deve ser procurada na reorientação da conduta matrimo- mcnte os jovens, voltados para o uni ve rso citadino e em relação
nial feminina, que passa a ver no cônjuge não-indígena a sua a êlc redefin em seu sistema de valor. Em conexão cnm issn,
possibilid:iclc de " melh orar de vid:i" (melhoria financeira, me- registra-se uma di111in11 i1.;:io dn índice de amasiados (de 2 1),.5 %
lhoria rl·sidenci:il), quando não pressente uma port:i aberta para na Reserva, p:issa-st.: a 20,:l % na Cidadt.:), d:1 mes111a m:1neira
a sociedade envolvente: possuir um marido que oriente a que - devidn a razões j:'1 ex postas l'lll par:'1gr:1íos ant~·rinres -
família no "regulamento dos brancos" parece ser um ideal cada cresce r,a Cidadc o índice de cdihatn {dt.: 2:l,0% na Reserva
vez mais partilhado pela jovem Tcrêna e, em muitos casos, por para 24,7 % na Cidade). E com rela~·:1o ao di vt'ircio, que po-
seus próprios pais. Alguns apresentam pitorescas radonaliza-
çõcs, como a do índio Emílio Paulo, nascido em /\quidauana
e rcsiLh:ntc cm /\ldcinha. quando entn.:vistado si)hre sua expec-
tativa cm relação :\O cas:11nento de seus filhos: ''/\ gent e pro-
cura ver se êks ( os filhos) casam com civilizaifõ, para não
csparralllar a raça, para ir refinando a ra~·a. Tem que ir pro-
curando um meio de evoluc;i'ío cada vez mais civilizado": c
concl ui : "Eu sou de origem 'l'cr~na, ni'í o posso nq.:ar a ntinha
raça, mas procuro, cada vez 111:tis, 11111 md o ,k civili:1.:11;: o".
Eniílio Paulo tem 11111a situ:1<;il o cco11fü11ica rdativan1c11tc hoa:
arrencluu 11111a carpint aria e pn;ti:11dc co111pr6-la ; t ·111 tr~s c111pn.:-
r,adu~. sendo doi11 Tcréna e 11111 11111·11111y ,1. Outros caso11, co1110

162
dcria !-er tom:1do como sintoma de d esorganização social, vemos sua terceira ou qu:1rta umao (sendo que os 7 % restantes ficam
que O pc-rcrntual d e indivíduos divorciados permanece o mesmo, por conta dos não-computados) . üsses percentu:1is ga nham cm
expressividade quando passamos a conside rar como aberrante,
;. e .. 4.5 t;é na Rcsrrva e na Cidade.7
nos têrmos do rn11ti111111111 /o/k-urbano de Redfidd, o fato da
Cidade ainda não se constituir 1111111:1 a!.!,~ncia de dcsorganizaçfio
TAHELA Vlll
social. Vimos que Oscar Lewis. em- sua pesquisa sôbrc os
Tepoztccos citadinos ( d. nota 4). aprese nta conclusões que
R~·scr\'a Ci,l:ld~ rcjdtam catas implicaç0cs d,1 rnm:cito /o/.L. -urbano. ponder:rntlo
que "a urb:rniz:H;:io n:'ío ~ um pnKcsso s imples. unit:hio, univer-
N:,. Hrutc,s ':ó N:• llruti.'S (''
.o saltncntc si mil:tr, mas que assunw formas e significados dife-
rentes, que lkpcndem d:1s rnndi,;0cs histôricas. econômicas,
&,tt~iros 111 23,0 51 24,7 sociais e culturais prevakccnh:s". E acrescenta: "/\s gene ra-
lizações a respeito da urbaniz:11;fio devem levar cm conta essas
Cnsados 171 35,2 92 45.2 condições".~ .Em scgund,1 lugar, devemos cllnsidaar que a
Amasb,fos 144 29.5 42 20,J instabilidade matrimonial na Reserva nfio ~ ah!o incrente à c ul-
tura Ter~na. visto que l'Sta já se encontrava extremamente
Separados ~2 4,5 10 4,5 modificada desde princípins do sfrulo. quando a população
Viüvos 3R 7,7 11 5,2 aborígine sofria todo o impactn da colllniz:u;:fo do Sul do Mato
Grosso. 11:í de se distinguir dois níveis tcmpnrais que, por sua
Totais 488 99,9 206 99,9 vez, compreendem diferentes planos socinlógicos: o primeiro
nível temporal corresponde ao qnc conve ncionan11,s chamar de
"linha b:'1sica··9 da cultura TcrGna, e cujll plano sociológico
está caracterizado no motlGlo tia estrutura social que construímos
Retomando a questão da desorganização social, e de como no prime iro capítulo; o segundo nível já corresponde ao período
pode ser ela avaliada através da análise do matrimônio, devemos "moderno", i. e., à situação atual dos remanescentes Terêna.
chamar a atenção para os seguintes aspectos do problema. Em que compreende dois planos sociológicos distintos: o do sistema
primeiro lugar, há de se considerar que na Reserva q~ase .~/3 de relações tribais e interétnicas vigentes na /\Ideia, particular-
das p essoas casadas ou amasia~as já tiver~m _u~rn ou mais_ ~moes. mente nas condições de vida de Reserva, e o sistema d e relações
Ao passo que na Cidade o numero de rnd1v1d~os class1f1cados tribais e interétnicas vigentes no meio urbano, nas condições de
como vivendo sua primeira união ascende a mais de 60%_ entre vida nas cidades de Campo Grande e de Aquidauana.10
as mulheres e a pouco menos de 70 % para os homens; vivendo
sua segunda união, temos 20% entre os homens e 30% entre
. (8) ~r. _Oscnr Lewis, op. c/1., p6g. 224. Voltaremos a discutir no capítulo
as mulheres; pouco mais de 3 % , entre ambos os sexos, vivem final as implicações da teoria fo/k-urbano na pesquisa Tcrena, quando procura-
remos demonstrar que a vahd_;'.ldc de ~l1tumas de suas mais cnf6ticas afirmações
deve ser examinada com relaçao a sociedades de fo/k que como um todo sofrem
o proccss_o de mud_anç~ e!" d!rcçã_o à urbanizaç_ão, sem. cuntudo, constitulrem-se
(7) A i:sse respeito, contudo, ca~ uma explicação: o índice de <JJ;~r~~~~~! cm a~rupamcntos ~montãnos, m~:ndos . nu~a sociedade maior, con10 os Tcpoztccos
ou separados exprime como os demais, um corte temporal na sociedad • . d" í na Cidade do México ou os Tercna cuad,nos do Brasil.
que, no momento em que se realizou o recenseamento, o ntado civil_ . os_ m :;'e; . (9) Adot~mos a noção de /inira básica_ de ac_?rdo com Piddington (Ralph Pid-
d oos de ambos os sexos acima de IS anos apresentava um . certo perfil, na1 q _ dmgton, 1957 .653-654), scgur'!do o . qual esse termo sub, titui co m vantagem 0
diur - pelo menos os índices referentes às cinco categorias da tabel~ V 11 . ponto zero proposto por Mahnow,k1 (Dronislaw Malinowski, 1947:27-40).
que na Aldeia e na Cidade haja um mesmo número (relativo) de divórcios: havia, ( 10) O fato de . os Tcrêna de Aldeinha residirem cm zona suburbana e
isto •im um mesmo número (relativo) de divorciados. Em outra~ palavras, 0 formarem uma comunid_adc _ semclha_ntc cm v_ários aspecto~ com as comunidades
q ue foi ·dito a respeito da instabilidade matrimonial na_ Reserva_. maior do que a aldcadas das zon~s rurais nao exchu que a vida que levam esteja voltada, b:lsica-
encontrada "ª Cidade, não está cm contradição c::om esses índices que aca~am~~ • mente, para a Ctdad~ - que os emprega (cm sua grande maioria), propicia-lhes
de apresentar; o q ue oco rre nas condições de vida da Reserva, onde. _o nume desf~utar alguns _serviços urbanos (como os médico-sanitários) e ainda lhes pro-
de divótcios é maior. é a extrema facilidade em se efcuv_ar novas uniocs, pouco porciona em muitos aspectos uma vida recreativa citadina.
~m?() ricando sem pirceiro O jovem ou a jovem ~1vorc1ada. rare':c-nos que é
is1,0 que distin gue , de um modo mais radical, a con1untura matnmomal numa ou
r.ocu.i arca.
165
164
Finalmente, caberia acrescentar, em terceiro lugar, que as con- nidade indígena e a sociedade regional, entre a ordem tribal e
dições de existência de grupo étnico minoritário marca de modo a ordem nacional; só uma reorientação no sistema de valor
inequfroco a situação dos Terêna citadinos, influindo no estabe- dos migrantes Terêna poderia fazê-los agir dessa forma, conti-
lecimento de mecanismos de interdependência individual e nuando a ter em Moreno a pessoa mais prestigiada da pequena
familiai, orientados pela noção do nós tribal. A reorientação comunidade de Buraco.
de seu sistema de valor não minimiza o papel dêsses meca-
nismos mantenedores da solidariedade tribal, porquanto tal
reorientação não tem efeito imediato, mas atua a longo têrmo, 3. O Parentesco
atingindo as gerações seguintes de forma às vêzes coincidente
com os mecanismos de assimilação, quando termina por afetar A instituição do parentesco, como um sistema orientador
a solidariedade tribal. A rigor, o enfraquecimento da solidarie- do comportamento individual e familia!, deixou de ser analisado
dade tribal é função da assimilação e não da reorientação de no capítulo IV, quando tratamos da família Terêna na realidade
um sistema de valor - que, em si mesma, vem constituir d~ _Reserva, pel~ . única razão de projetarmos analisá-lo aqui,
apenas um dos requisitos à assimilação. utilizando-nos basicamente dos dados colhidos entre os índios
Um caso de desajustamento social observado em Aqui- citadinos. A investigação etnológica efetivada cm Cachoeirinha,
dauana, e que teve lugar no nível matrimonial, pode servir com referência ao sistema de parentesco, não colimou resultados
também de ilustração do fenômeno de reorientação do sistema qu~ contradit~ssem os obtidos em Aldeinha, se bem que nesta
de valor na comunidade Terêna citadina. Trata-se do casal ultima comumdade suburbana a Aquidauana o material socio-
Moreno e Porfíria, esta, Terêna, aquêle, um cidadão negro de lógico obtido fôsse muito mais abundante. Mas sobretudo o
Aquidauana. Porfíria veio para a cidade com cinco irmãos mais que nos fê~ de~i~ir a êsse respeito foi o fato' de poder;1os
comp~rar sistematicamente os dados de Aldeinha com os dos
novos. Logo após a migração, conheceu Moreno com quem
demais agrupamentos migrantes de Aquidauana e Campo
passou a viver maritalmente, na mesma casa em que residia
Grande. Não obstante, sempre que no curso dessa análise
com seus irmãos. Algum tempo depois descobriu que sua irmã
depararmo~ com dife_r~nças significativas entre o parentesco na
havia sido engravidada por Moreno, fato que, descoberto, Reserva (v1z. Cacho 7mnha) e na Cidade (incluindo Aldeinha)
levou-a a romper com seu companheiro, no que foi apoiada procuraremos aponta-las e explicá-las no presente capítulo. '
por todo o grupo vicinal. Não obstante, continuou mantendo
Valendo-nos_ da técnica genealógica de investigação, pro-
relações com sua irmã, até que esta deu à luz uma criança curamos ~aractenzar o parentesco Tcrêna nos diversos agrupa-
natimorta. Depois disso, gradativamente, Moreno começou a ment?s. migra~tes. Colhemos genealogias em 64 dos 65 oru os
freqüentar a casa de sua ex-companheira e a merecer desta, de
seus parentes e do grupo vicinal tôda a consideração a que no
domesticas
:- . , entretanto, de aband onar a1º0 umas
existentes, tendo p
por n;o apresentarem ? ngor exigido pela análise, razã; pela
passado fazia jus. Continuou a ser considerado uma "pessoa 1
de conhecimento", dado a sua vivacidade no trato com as i~;upa:::0 tª~/~~uzias para 53, assim distribuídas pelos
G d' · 1 ampo Grande, 25 cm Aldcinha 7 em
pessoas, graças à qual granjeou grande número de amigos entre
índios e civilizados. Para o Terêna citadino, isso representa um
capital de grande valor. Por várias vêzes, Moreno abriu as
portas da cidade a parentes da mulher e a seu vizinhos, tendo,
:i;:t~~i~:3fi~~:::~~m!/i~~~t";:~~;~~U~J:mc ª:~:::~:~
1956: 37-38) entcnd com Raymo~d Ftrlll (Raymond Firth,
' . emas por amplitude o número total d -
inclusi\'e, conseguido de um médico e do delegado de Polícia parentes reconhecidos pelo informante ( E 10). .' e
um atestado de invalidez para um de seus cunhados, aleijado, o núEmero de gerações ascendentes e d;sc;n~~~t~sro;~td1da1e,
p:ira que o mesmo pud~sse viver de esmolas sem ser incomo- por go na enumeração de seus ·uen - . - - ança as
o número horizontal d pc tes, por extcnsao bteral,
cbdo pelas autoridades municipais. Com a reintegração de
~1oreno no grupo familiai de Porfíri:l - do qual se afastou reconhece. o grau de : 0 ~~::~~!n(ue em cada geração Ego
0 que uma pessoa tem de
por pouco tempo - ficou assegurada uma ponte entre a comu-
167
166
TABELA IX
seus parentes vai permitir-nos avaliar a influência que a rêde
de parentesco exerce sôbre ela. "Êsse conhecimento, por sua (Buraco)
Campo Grande Guanandi Aldeinha
vez, pode ser examinado em dois planos: o dos parentes reco-
nhecidos e o dos parentes nominados; da existência dos pri-
Reconhecidos 686 433 1648 ( 1067)
meiros. Ego tem apenas notícia, ao passo que, com relação aos
segundos, Ego é _capaz de indicar seus respectivos nomes, o que Nominados 544 345 1527 ( 366)
vem revelar maior grau de conhecimento sôbre o círculo de
parentes. Diferenças
Definido o procedimento metodológico adotado, pudemos percentuais 79,3% 79,6% 91,3 % (34,3 % )
verificar, com relação à amplitude do parentesco, existir uma
ligeira - mas nem por isso menos significativa - gradação
nas médias encontradas em cada agrupamento. A média de que se caminha em direção à vida de aldeia. A população de
parentes reconhecidos decresce de Aldeinha para Campo Gran- Campo Grande e a de Guanand~, ambas demonstrando pràti-
de, na seguinte proporção: Aldeinha, 65; Guanandi, 62; Bu- camente o mesmo grau de conhecimento com respeito a nomes
raco, 59; Campo Grande, 55. A diferença entre Aldeinha e expr:ssa°? de maneira clara o caráter urbano de sua situaçã~
Campo Grande, pontos extremos que são do continuum Aldeia- ( carater esse que também está presente em Buraco, apesar do
• cidade j:í mencionado, atinge a expressiva cifra de 10, i. e., pe~centual encontrado), cm oposição à população de Aldcinha
dez indivíduos a mais reconhecidos pelos informantes de CUJO ~ra~ d_e convivência tribal mais a aproxima das condiçõe~
Aldeinha. "Êsse gradient ganhará consistência se desdobrarmos de ex1stencia de _Re~erva. Para a Reserva poder-se-ia consi-
o conhecimento que o indivíduo tem de seus parentes em dois derar como . pa~rao ideal de nominação a cifra de I 00 % ; e
planos distintos, como mencionamos linhas atrás: o plano dos noss~ c_xpcnen_c1a e?'1 Cachoeirinha permite dizer que êsse
parentes reconhecidos e o plano dos nominados. A tabela padrao ideal nao esta longe de ser alcançado: não apenas seus
IX nos revela que o continuum foi mantido, apesar da posição ~doradores po_d em nominar a totalidade dos parentes reconhe-
relativa nêlc ocupada por Buraco; tal fato encontra sua expli- ci os
tal c ·como ainda. muitos
f dêlcs conseguem
· - e comprovamos
01sa com o m ormante Tomús - indicar todos os mora-
cação na existência cm Buraco de um informante excepcional
11 dores da Reserva e nominú-los cm grande número .
- dêsscs que Firth descreveu como "parente pivô" - , ca-
paz de reconhecer m ais de 200 parentes ( o número médio Quanto à profundidade de parentesco, i. e., do conheci-
de reconh eci mento cm Buraco ~ 59!), ainda que nomine menos mcnt? de yare~tcs _relacionado com gerações, os dados a êsse
da metade. Um informante dêssc tipo, numa comunidade pe- ~~~~e1~~ nao sao tao ex pressivos quanto os constantes da ta-
C'd I • Nn_o que se refere ao mencionado gradic11t Aldeia-
quena. tende a prejudicar qualquer estatística, e é por essa
razão que Buraco está incluído na tabela, entre parênteses. As Gt .ª't ·;º obsta_nle, comparadas as populaçf>es de Campo
r,rnc e e__ e e A_ltlemha, vemos que foi nesta última ue se
demais difrrell(,;as percen tuais são consistentes com o conti- obteve- m.uor numero de gene·ilogi·1s . . pon<.1entes q·1 seis
.
( • • · , corrcs
11111m1 . re\'cb ndo que c m Aldcinha foram no minados, entre os geraçocs contam1o com a de F~o) isto -. 1(í()/. • •
n:conlu:cit!os. 91.3 % . ao passo que 110 o utro extremo está gias de c· ' ' ·· l:,
1
'º ; as gcncalo-
'~ mco e quatro geraçf,es totalizam a mcsnn cifn de
Campo Grande, com 79,3%. O convívio mais intenso dos 40¼). ~anipo Grande divide suas genealogias cm du··,s 1 , .
Tcr~na no srio das p:uentcl:1s é o rcspons:'1vel por essa ordem genealogias dç quatro gerações (55 %0 ) 1 . •. e ass:s.
45 '¼ ) :- · e e e cmco gençoes
de conl11:cimcnto. pro~rcssivamcntc maior na proporção cm ( o , n.10 rcg1stramlo nçnhuma de seis E 111 G ,·. .
nos c11co11t · · ·· · unnam I va-
l . r,ir entre sete gcnc·1logia , 1, . t ti
( 11 l ••[m 1n11itM \I,>< i:rut" ' S rrsi<knd~I~ r stmlnJ o~ hd o que so rodo 1kno-
de. sd~ ge~:1çf>es, enquanto cm 'nur.~io, c~.1~x~n~\~'lPJt~.• ~::ua
1nuur 1''1T111cs-rh ô, J'Urt" ntc, que ul,'.rm r011H> ,-.,nt<,s 110 nrtlculnçllo nn cstruturn Gr.rnd1.:, nao encontramos nenhuma dessa clnss~. O rçd~zi~~
~ r .1n-ntr,-'\J relo ,;c- u 1111.-rf ,,r e: o::,>nhn·lm,·ntl> do rrimtrirnç-'<:s ~1·nr111"1,1k11s. .8sscs
r -'ll'tntn -rh ô 1,'.Uttt\1~111 111 ..11 · fk,s dr c,,m·x,\rs i:c-ncnl,\11k t1s c m s ua~ ~t1tx-ç11s d" quo
qual~ucr ~utr~ l'<"s,1,:a. e cm n ,n,-c4ll,·ndu Cvn1111 cap:11cs 1lc fornc:l-cr multn Jnfor·
ro2\l-, q u4nJ<1 , ur~l.t :a un"">siJ~J.:·· (Rn)•m,mJ l'lrlh, 1956 :39). 169

168
número de genealogias colhidas cm Guanandi e em Buraco, a
par da pouca idade (média de 30 anos) dos informantes, levou-
nos a não considerar seus respectivos agrupamentos para efeito
de análise comparativa; a existência de genealogias de apenas
três gerações, tanto num quanto noutro agrupamento (i. e., a
de Ego, uma ascendente e uma descendente), revela informan-
tes jovens (sem netos) e socializados na cidade, afastados das
famílias de seus pais_ (não reconhecem avós). Todavia, consi-
derando as genealogias cm sua totalidade, independentemente
do agrupamento citadino, verificamos que raramente elas ul-
trapassam as segundas gerações, ascendentes e descendentes.
Isso se deve a alguns fatôrcs, como a desagregação do sistema
social tradicional ( desagregado mesmo nas Reservas) a que
se soma uma nítida redução dos grupos de parentesco nas
condições de existência na cidade. Por outro lado, a herança,
como instituição social alienígena, tem diminuta importância
na vida de uma população radicalmente pobre, sendo poucos
os indivíduos proprietários de bens suscetíveis de transmissão
aos seus descendentes.
A análise da variação numérica de parentes reconhecidos
horizontalmente cm cada uma das gerações - i. e., a extensão
lateral - permitirá conhecer a significação dessas gerações na
rêde de parentesco. Revela-nos que o maior número de pa-
rentes lembrados pelos informantes teve lugar na geração de
Ego e na primeira descendente; menor número é lembrado com
relação à primeira ascendente, dentro da qual os informantes
restringem seu conhecimento aos pais e irmãos (ãs) dos pais
(tios e tias matrilaterais e patrilaterais); na segunda geração
ascendente, por sua vez, Ego reconhecerá, pràticamente, ape-
nas os avós de ambos os sexos. Quanto ao reconhecimento em
linha descendente, sua significação é contingencial, mais do 2
que com relação às gerações ascendentes: i. e., dependem da
existência de descendentes ( o informante jovem não os terá,
por exemplo), mais do que de seu reconhecimento. Essa é a
razão de não numerarmos os descendentes da segunda geração
no diagrama da fig. VIII. Por outro lado, é da maior signifi-
cação o número de vêzes que o tio materno e os primos ma-
trilaterais cruzados (i. e., o eungó e seus filhos) são identifica-
IO
dos nas genealogias obtidas: o eungó é evocado 26 vêzes, o
que dá uma idéia da importância dessa categoria no sistema de
parentesco Terêna, mesmo depois de substancialmente trans-
formado por efeito do contato interétnico; é lembrado mais
171
170
vêzes do que o tio paterno (o irmão do pai) que vale como e "neto" também são com certa freqüência aplicados, cm
o outro pai (poi-zaá) de Ego, e quase duas vêzes mais que a coerência, aliás, com o sistema de parentesco tradicional que
oongó, a tia paterna que só é lembrada 15 vêzes em 53 abranoe os irmãos ( ãs) e netos classificatórios. A introdução
genealogias. O sistema tradicional talvez não justificasse essa do tê~mo "primo" do vernáculo português, para designar
ênfase, fato que infelizmente o material disponível não nos siblings - filh os dos irmãos (ãs) dos pais - pode ser con-
permite avaliar. Podemos dizer, porém, que já nas condições siderada uma conseqüência do contato interétnico, csp~cial-
de vida ~a. Reserva, o lado materno do parentesco aparece mente do convívio urba no: os índios citadinos usam o termo
corno mais 1~1portante que o lado paterno, fenômeno êste que "primo" com enorme flexibilidade, seja para designar parentes,
pode ser explicado pelo maior convívio dos indivíduos com seus seja para designar patrícios, numa clara justaposição _do~ elos
parentes matrilaterais - o que é consistente com o alto grau de parentesco sôbre os elos tribais. O princípio de semondade,
de instabilidade matrimonial observado na Reserva onde os por outro lado, chega a se fazer sentir nas relações entre
di~órcios resultam ~a permanência da prole, em regra, com a "primos", numa projeção do cri tério de idade relativa inerente
rnae ou com os avos maternos. Embora o índice de divórcio ao sistema de parentesco tradicional, particularmente na . regu-
s: ja mais reduzido nas ~ondições de vida urbana, não quer
A lamentação das relações entre siblings; observamos uma Jovem
dizer que esse mesmo fenomeno não tenha tido a sua influência Terêna chamar de "prima" e de "tia", respectivamente, a duas
no quadro de reconhecimento de parentes: temos de levar em irmãs classificatórias, apenas uma mais velha dez anos que a
conta que a maioria dos informantes vivem nas aldeias ou delas outra. Nestas como em outras situações constatamos a ten-
migram com pais divorciados ou casados pela sewnda ou ter- dência de, "renovando" sua terminologia, reorientar o sistema
ceira vez. Além disso, outros informantes há que° são filhos de de parentesco de modo a facilitar a vida comunitária na cidade.
uniões interétnicas - quase sempre mãe Terêna e pai purutuya A introdução de têrmos alienígenas e de novas noções de pa-
- , o que os confina a viver juntos dos parentes da mãe, uma rentesco vem compensar o esvazia mento do sistema tradicional
vez que o pai é sempre um indivíduo desligado de seu grupo ocorrido nas condições de Reserva e de colônias de fazenda.
de parentesco. Essa parece ser a razão pela qual os avós Mas a ampliação da rêde de parentesco não se dá apenas
maternos, os tios e os primos matrilaterais são mais vêzes iden- pela extensão de têrmos como os de tio, sobrinho, neto, ou com
tificados do que os demais, com índices estatísticos bastante a incorporação do têrmo e da noção de primo. Dá-se, também,
expressivos. graças à adoção da instituição do compadrio, tomada de em-
• A caracterização do parentesco Terêna, feita nos parágra- préstimo à sociedade regional. ' Ü artificialismo é aqui institu-
fos anteriores, circunscreveu-se à consideração de relações ine- cionalizado e as relações sociais inerentes ao sistema de com-
rentes à constelação familiai, especialmente àquelas relações padrio são sacramentadas: in sacro, são consagradas pelo ritual
que têm lugar no âmbito do parentesco até terceiro grau (pa- católico as r elações entre padrinho e afilhado; in more, o
rentes primários, secundários e terciá rios). D evemos mostrar, são as relações entre compadres. Estas, mais do que aque-
agora, como um sistema de parentesco, que tradicionalmente las, desfrutam inegável importância no universo social d os Terê-
vem operando com uma terminologia de primos de tipo "havaia- na modernos. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que a "antítese
no" (mesmo têrmo p ara os siblings, apenas com distinção de significativa . . . não é entre parentesco ritual e real, mas
sexo) e a\'Uncular de tipo "fusão bifurcada" (mesmo têrmo entre contrôle social pessoal e contrôle social impessoal". 12 O
para irmãos ( ãs) do mesmo sexo dos pais), tende a se esten- parentesco artificial ( ou ritual) , institucionalizado pelo com-
der sôbre a parentela (parentes distantes ) ou, ainda, sôbre padrio, abre novas perspectivas de atuação do home m sôbre
indi\iduos não-aparentados. Essa extensão se dá, igualmente,
nas condições de R eserva e nas de Cidade. Em ambos os lu-
(12) Cf. Benjamin D. Paul. Ritual Klnship (Ms.), citado por Jrwin Press
g:ires, pudemos observar o uso freqüente do vocativo lulu (tio 1963:475, do qual .se lêº. ~g1_1inte : " ~ vinculo se rompe na medida cm que au:
me~nam OJ controle~ sociais rmpessoais, embora onde seja forte contribua para
materno) no tratamento d e p essoas idosas, masculinas, apesar a mtegraçao da sociedade., ," (ibide m ).
de inexistência de parentesco demonstrável. Os têrmos "irmão"
173
172
· me.mtrcs d.l so.:ied.lde com os q u:iis d~ej:i rehcion:u- do qu:idro de p1rentes.::o s:io intn / intertribais. conqu:mto outro
S.! ektiv3 ~ põilU\~ente. :S:i pr.itica, constitui um:i pro- tanto dess:ts rd:içõ.:-s s:io interétni.:'.Js: i . e.. cêrca de 15 ':ó do
jeçj o do ~po de onenta-,ào p esso:tl no mvd do p:uemesto. tot:tl d s comp:idres for3m rccrutad s nJ so::-iedJde region11.
E n:io e por outra razão que vemos o omp:idrio ser a dot:ido Em C:impo G rand.:-. w rific:1-se outn proporção: e.i:ceç:io d s
em ta.nus rn.:i_e?.id es indígenas quantas foram colonizada s por 30c;é recrutJ dos no seio d o p róprio grupo étni.:-o. o r~stJnte o
segmentos wtohcos d:i s ocieda de nacional ( ou colonial) e tra- foi dentre os brJsikiros re~ion:iis ( 35 'e-) e dentre 3 p o pubç5o
zidas ao con,i ,·io int_eránico. M as qua is os fatores que concor- imigrante p3r:igu:iia ( 35 r--;) d.:imiciliad:i n3 cidade. :\fa s. ~m
rem - cru grau va n a do - para o estabelecimento de r elações muitos cJsos a contigüidJdc esp3ci3l está inti mJmente 3ssoc13-
de compadr10? Enume remos três, que nos parecem m ais im- da à etni:i, ' sendo ;,esmo difícil sep:trá-b aind3 q ue :i n:tli-
p ortantes: o p arentesco propria mente dito (real) , a etnia e a ticamente. l:. o caso de Campo Grande: 3qui :i contigüida de
contigüidade ~spac~al. . O parentesco parece ser o fator que esp:icial desempenha importante p3pel 03 orient:içã o dos T erêna
exerce menor mfluenc1a no recrutamento de compadres, preci- no sentido de ampli:ir seu sistem:i de relações pa r:i for:i do seu
samente porque o compadrio, mais do que fortalecer os elos de grupo trib:il; todos os compadres p3raguJios. por exemplo,
parentesco (real), visa a ampliar as relações p ara fora do faziam parte do mesmo grupo vicin:il. E ssa mesma contigü idJde
pode ser apontada como rcsponsá\'d pelo recrutamento da
quadro de consangünidade e de afinidade, incorporando, con-
maior parte dos compadres, T erên:i ou não. nos :igrup:imcntos
tudo, o mesmo sistema de direitos e obrigações (regulamenta-
de Guanandi e Buraco (poder-se-ia acrescentar. tamb~m, o
dos pelo parentesco). D ecorre disso que apenas 25 '1o do total
caso de Aldcinha - a rigor um único grupo vicinal ). O q ue
dos compadres são p a rentes entre si, o que indica que os Te-
parece evidente é a tendência dos migrantes Terên:i cm rocur:ir
rêna preferiram estabelecer novos elos em lugar de fortalecer relacionar-se através o com adrio rcfcrentemente conL 0
os antigos, já firmados pelo parentesco. Em Aldeinha, tomada ã que es indiv1duos que, moradores cm suas vizinhanças, seja m
separadamente, nota-se um equilíbrio entre compa dres aparen- de etnia diferente. Essa tendência a p:ircce à medid:i q ue se
tados (49 % ) e não-aparentados (51 % ). A razã o dêsse equi- caminha no co 11ti111111m A ldeia-Cidade, precisamente qua ndo os
líbrio está nas condições peculiares desta comunidade subur- migrantes são expostos às condições adversas inerentes ao meio
bana de Aquidauana: constituída , pràticamente, por uma gran- citadino e quando mais se configura a sua situaçã o de gru po
de parentela, difícil seria recrutar compadres fora dela. Já no minoritário. E m Cam po Grande, Gua na ndi e Buraco, o fort a-
que se refere aos agrupamentos propriam ente citadinos, locali- lecimento dos cios tribais se dá automàticamcntc graças ao in-
zados num espaço urbano, dá-se uma inversão do processo d e tenso relacionamento dos gru pos famil iais entre si ( estejam ou
r ecrutamento: em Guana ndi são p arentes ap enas 19 % dos com- não ligados por parentesco) , num apoio recíproco ma nifesta do
padres, 15 % em Campo Grande e em Buraco não h á compa- desde os primeiros momentos da migração : a condição de
dres parentes. A diferença entre Aldeinha e os demais agrupa- grupo minoritário, de per si, fortalece e sustenta a teia de rela-
mentos citadinos está, ainda , no fato de se verificar no primeiro ções tribais. O compadrio, na forma pela qual tem luoar entre
agrupamento o abandono progressivo do compadrio como me- os T_erêna citadi~os em _grau muito mais elevado do b que e m
Alde1_nh~, face a _relativa . segregação daquele agrupamento,
canismo de integração social ( é esta, efetivamente, sua função),
~onst_1tui um n~e~amsmo de integração na sociedade envolvente,
em conseqüência da conversão evangélica, que não adota a
mclumdo bras1le1ros e paraguaios, particularmente aquêles si-
figura do padrinho. 13
tuados na mesma área residencial. Fogem a esta re"ra os
Pan a compreensão dos Terêna em sua luta para sobrevi- " ~o,mpadres de q~al_idade", como podemos chamar àqueles in-
verem no meio urbano, o fator étnico parece-nos ser estratégico. d1v1duos - bras1le1ros em sua totalidade - possuidores d e
Em Aldeinha, Yemos que 50% das relações de compadrio fora sta~us de _c~asse média e média alta, procurados p elos T erêna
mais amb1c1osos e atilados, com o fito de utilizá-los como p er-
sonagens-chave para seus propósitos de melhor " se desenvol-
0 3) As ~n.~ s rnm no,·as cm Aldeinha não possuem padrinhos. A recente
• : ; : de seus . mora_d«?res é q ue 1tm sido a r~ ponsáYc l pelo esvaziamento do
, cooo 1:ISUtUJç.o capaz de o perar no n 1Ycl da intcaraç,ão soci3l.
175
174
para o jovem Terêna aldeado e engajado no /abour migration,
vr:rem·· (como dizem) na \'ida citadina. Os dêsscs status dis-
para o Terêna citadino ela é indispcns:íYd. n~tadamente qu~ndo
tinguem-$1:" dos dl:"mais compadres brasileiros pelo fato de
sua ocupação é de categoria urbana. !'_ matnc~la de seus filhos
n·sidirem fora da vizinhança dos Ter~na. geralmente nos me-
cm escolas tamb~m depende de rcqu1s1tos legais. quer nas Re-
lhores t,aim)s ck Aquidauana ou c~1mpo Grande: cm regra, • ·
servas ( onde o rc!!istro no Posto I nd1gena e· su f1c1en
· · t e.,
) . quer
slio _ntu:tis_ 0u antif,'S. p:1t_r1.x·s. o que nos kva a concluir qu; os nas cscol~s rurais -ou urbanas, particularmente nessa~ ultimas.
Teren:1 nu~nntes S." mdm:un a s,· ajustar numa ordem urban:1
Os nomes Txanc5 que, atualmente. apenas os vdhos ~u:da P<:_S-
e d: dass ·s: r,-,:om:n i-1 à :unpliação do parentesco por meio suem e os utiliz:un simult:'incamcntc com os nomes cnsta~s, nao
d,.1 rom pa inCl. c~mo um rt·.:-ursCl d." t:n\'Ol\'imrnto d.:- pessoas locraram sobreviwr ao empenho do colonizador cm batizar os
cfas chs.:-,·s su~nl.'1rt·s d:1 pl,pubç:io citndina. T;rêna com ··nome de gente .. : os mission:írios cm su~ c::itc~ucse
• A inJ.1 em C'l'n-:.x:io 1.'l)m l' e.x:un::- do parentesco feito neste infundiram o p:ulrão de nominar os Tercn;\ na pia batismal
~r1tul1., d ..'\'..'m '-S ~1111:! rt·frn:nc'i:l :ws me.:-anismos de 1wmina- com nomes de s::intos; hoje. Yemos os Tcrcna ::ildc::idos procura-
.1 ~ • o q~-· tud,, 1mh..-a h'm:11.lt'S de t."mpr~~stimo :\ so.:-it."d:tdt rem o Encarregado do Posto par::t se inform::irem do nome do
~~ _n:11 • 1mp.:r.rnt..· s n:1s situ:1-.· 0cs d~· Rescn·:1 e de Cid:1de. O "santo do dia··- para d:i-lo ::io seu filho. Com? j} foi indic:1do,
p,.1dr-Jõ_ o.hs::-n~1do . cm :1mhas as s.itual_;'0::-s segue uma tendcncia pode-se dizer que !d duas fontes de nomes cnst::os: ::t folhm~1a
e 1:1tromm1.:-~1: o p:u forn.:-.:-e ú nome par:1 seus filhos homens ou ou o almanaque, com nomes de santos: e ~ p:1dnnho, purutll)O,
mulheres. Tal nome. comumente. teria sido adotado dt um cujo nome geralmente t adot:1do pe)o. :1filh::i~o.. Ja_ entre os
p:1drinho pun1111_rn por êk mesmo ou por um de seus ascen- citadinos. é rc!!ra o próprio grupo v1c111:1l ( nao 111d1gena) ou
dentes. Muitas ,·êzes. o que se toma por sobrenome é, a rigor, os p:1drinhos fÕrncccrem os nomes, cristão.s ª?otad~s. O grau
u_m pren~me, como se pode \'er pelo seguinte exemplo: Zaca- de integração na ordem urbana desses c1t:1dmos e o '!ue se
rias Sobrinho (pai) ~ Lcoddia Zacarias (filha); no caso de procurará avaliar no próximo capítulo, destacando, particular-
mães "solteiras··. c5 freqüente reverter a linha da adoção patro- mente, sua inserção num sistema de classes.
nímica para matronímica: Matilde (mãe) ~ Josc5 Matilde
(filho). A adaptação do prenome como sobrenome obedece
ainda a outros arranjos, mais elaborados como o de transmitir
um nome ( 1.ª geração) transformado cm sobrenome (2.ª ge-
r_ação) e pôsto em gênero diferente (3.ª geração); exemplo:
Angelo (l.ª geração ) ~ Justiniano Ângelo (2.ª gcr.) ~ Inês
Ângela (3.ª gcr.), i. e., o nome Ângelo passou de avô para
neta, indo de prenome para sobrenome, de uma forma mas-
culina para outra fcminina. f.sses recursos de que lançam mão
os Teréna servem para fornecer os elementos indispensáveis à
integraçãc, dos indivíduos numa ordem jurídica determinada:
a ordem nacional. O registro dos nomes nos cartórios, nas
Igrejas ou nos Postos Indígenas confere legalidade aos seus
po~re5. Mais do que nas R eservas - onde o sobrenome
serve prin::ipalmente como técrúca de identificação da família
C! orl!:mz.çw dos indi víduos - , é nas Cidades que a posse de
c :11 ..c=i:::1! e:= família " tem a sua maior significação: através
• cb rtsll::o fr,il rol15e~ ~ o T eréna uma certidão de idade,
g;--~ á q:lal pod ·rf regularizar sua situação d~ cidadão e pre-
0

~~ ~ C1'.> êocu::n!nbi ne,c....<>ss.írios à sua sobrevivéncia na nova


o::!..."':::l.. ~ a ~"1.!1ra d! trabalho, por exemplo, tem seu valor 177

176
TABELA X

AGRUPAMENTOS MIGRANTES
OCUPAÇÕES
Afdeinha
Campo Grande Buraco Guanandi
Jlomens
Escriturário
CAPÍTULO VIII Militar
Servente de Escritório 5
2
Gari 1
Porteiro de Cinema 2
ACOMODAÇÃO NUM SISTEMA DE CLASSES Ferroviário 1
1 2 2
Pedreiro 5 1 2
Servente de Pedreiro 2 1
Motorista 1
Zelador 1
Operário 4•
1
Deixamos para tratar neste capítulo daqueles fenômenos Encerador 1 ••
que mais foram afetados pelo processo de urbanização, tais Barbeiro 2 19
Lavrador 3
como o trabalho e sua organização num sistema de ocupações Lenhador 1
totalmente nôvo, o problema habitacional surgido com a insta- Serrador 2
lação nas áreas urbanas e o sistema de estratificação a que está Carpinteiro 1
Carroceiro 2
associado, e, finalmente, o sistema de valor resultante des- Ajud. de Caminhão
sas novas experiências a que se submeteram êsses migrantes Charqueador 10
indígenas. Experiências essencialmente citadinas engendraram Changa •** 2
3
Pintor
os mais diversifi ca dos comportamentos, consoantes com a or- Aprendiz de Mecânico 1
dem urbana cm que se inseriram e com o sistema de classes a Faxineiro 1
Entregador • • • • 1
que ti veram de se integra r. A exemplo do que foi feito cm Boiadeiro
capítulo-; anteriores, pro:.:edcr-sc--á à comparação entre os agru- Empreiteiro de Obra1
pamcntm migrantes, devidamente orienta da pelo continuum Sapateiro 1
Totaii; (22) ( 13) ( 8) (53)
Aldci11-üdad~, já cvidc:ndado pela análi<ic de outros setores da
condut.1 do T crén<1 mc,dcrno. Simultúncamcntc, tentar-se-á dis- MuiItere.,
cernir a~ mc,dalid<1dcs mai '> síg.nificativa'i dc interação social Operária 1
,,b-:~rvailit:-., nu M:ntido de prupon.:íonar ao c&tudiosu uma ima- Empregada Do méstica 5 3 4
C urandeira 1
gun vh•a do ·1 créna atual, cm &ua fi.r. ação citadina e cm seu 1
!'arteira
cmpcnh,J ~ lut.1r por mt:!horcs condições de cxisténcia. Lavadei ra 3 5 4 4
Cozinheira de Hotel 2
Crn>turci ra 1 2
Pa~\adcira 2
l. Trabalho e Profissão Proíc,\Ôra Municipal
J>rcn,títuta • • • • • 1
A an~fu.e do q uadro ocupacional da população Teréna em (1 otai~) ( 16) ( 6) ( 9) ( li)
p::-0"...l.:l:..U d!: orêr,rn~w foi realizada em dois diferentes níveis TOTAIS GERAIS 38 19 17 64
e!! tI.:.!Z::i~ dos dados: no nível d~ sua quantificação e no
• Sargento Apo!.Cntado; um do, ope r, riot t apo!,Cntado pelo IAPI , p / acidente.
r.i-.cl I!.! 1:!á í:1t~rpr~ qualitativa. Para a primeira moda- • • Dono ele Barbearia.
l~.:!~ e!! ...~ r Y.:, cuidou~ d!: a valiar preliminarmente o signi- • •• Ocupaç1io braçal, rural, !>em caracterí, t ica.s de emprego.
•••• Entregador de encomendas (C. Grande); de marmitas (Ald.).
f~6 <L½.~ dados, em térmos de sua representatividade. Es- •• • •• Por não estarem integradas na comunidade Tcrêna citadina. não fotam
computadas as q uatro prostituiu Terêna da zona do mcrctrlcio.

178
clareça-se, poréD?, que estamos falando de representatividade, TAB ELA XI
em vista do conJunto da população Terêna migrante. Temos, População A tiva
assim, que dentre um total de 418 migrantes 138 indivíduos
constituem o seu contingente ativo, i. e., 33% da população Sexo Classes de Idade
TOTAL
global dispersa n?s quatro agrup~mentos em estudo: Campo GEIUL
Grande, Guanandt, Buraco e Aldemha. A tabela X nos instrui ..,. ..,. ..,. ..,. "'
~ ~ ~ "'
~ "' "' J; "'"'t
'7 o"' "'"'"? ~ ~
sôbre êsse quadro ocupacional, cruzando as ocupações com os é o o .., ..,. "'..,. o,e,
"'
"' "'
,e,
~ M "'
M
"' "'
mencionados agrupamentos, e respeitando a divisão sexual de
trabalho. :Êsse quadro, entretanto, foi feito com um intuito 0 Masc. 2 19 14 11 8 7 8 7 6 - 6 6 94

2 4 1 2 41
mais descritivo possível, sem a preocupação de estabelecer cate- Fem. 7 9 6 5 2 2 1

gorias ocupa~ionais mais inclusivas; procurou-se, com isso,


8 6 135 •
mostrar ao leitor ? extenso e diversificado campo ocupacional TOTAIS 9 28 20 16 10 9 9 9 10 1

coberto pelos Terena em sua progressiva integração na ordem


(•) D o is indivíduos do sexo masculino e um d_? feminino_ não tiveram ; u:
urban~ e numa so~i~dade de classes. Alguns indivíduos, porém, idade computada, razão pela qual o total da populaçao auva nao corresponde
poderiam ser class1f1cados em duas ou mais categorias, mas se cifra de 138, constante da tabela X.

~~otou o. critério de cl~ssificá-los naquela categoria que, a


JUJZO do mformante, mais contribuiria para o seu orçamento Entrementes cabe-nos informar sôbre a distribuição dessas
doméstico. Por outro lado, há ainda a esclarecer que nem todos ocupações p~las categorias mencionadas. Considerando-_se c_omo
os indivíduos ativos computados (138) são de etnia Terêna. ocupações rurais a de lavrador, lenhador, serrador~ _bozade1ro e
Pertencem à etnia, "puros" ou mestiços, 124 indivíduos, i. e., a que convencionamos denominar de changa, venf1camos que
aproximadamente 90%, sendo que o restante é formado por aproximadamente 29% da população ativa Terêna podem ser
elementos purutuya, paraguaios etc. caracterizados como ainda estando vinculados a um trabalho
Essa população ativa ainda pode ser caracterizada em rural. O restante - incluindo tôda a população ativa feminina
conexão com as classes etárias que a compõe, conforme pode- - encontra-se indubitàvelmente prêso a atividades de um modo
mos ver pelo exame da tabela XI. Por ela, verificamos que a ou de outro ligadas ao meio urbano. Nas análises seguintes,
população feminina ativa equivale a pouco menos da metade referentes aos respectivos agrupamentos migrantes, poderemos
da população masculina correspondente, e que as categorias de avaliar melhor o significado do quadro ocupacional com relação
idade que assumem a maior responsabilidade para a manuten- aos processos de urbanização e de integração na sociedade de
classes que estamos examinando.
ção dos grupos domésticos são as de 15-19, 20-24, 25-29, para
a população masculina; e 10-14, 15-19, 20-24 e 25-29 para a
população feminina. A importância econômica da primeira 1) Aldeinha
classe etária feminina ( 10-14) fica por conta da ocupação de
empregada doméstica exercida na cidade. Consistentemente com a idéia diretriz que nos proporciona
Faltaria distinguir, grosso modo, aquelas ocupações que o continuum folk-urbano, a organização do trabalho em Al-
poderíamos classificar de urbanas daquelas classificadas como deinha vem confirmar sua situação num dos pontos extremos
rurais. Tal separação, em duas amplas categorias, permitirá dêsse gradient entre a Aldeia e a Cidade: no ponto que a torna
avaliar o grau de urbanização do contingente migrante Terêna mais distante do meio urbano e mais próximo das condições
visto em seu conjunto. O caráter daquelas ocupações, cuja de vida inerentes à Reserva - comparada Aldeinha com os
classificação em rural ou urba na esteja mais sujeita à contro- demais agrupamentos migrantes. Vemos assim que êsse agrupa-
vérsia, será melhor esclarecido quando tratarmos, ainda neste mento (já classificado por nós de rurbano) possui pouco mais •
capítulo, de cada um dos agrupamentos migrantes de per si.
181
180
, 1 dedicado exclusivamente ao
da metade de sua população ativa en?aj~d': em atividades de tenha seu principal responsav; . E os que se empregam
características rurais: 33 pessoas d1stnbmdas entre quatro trabalho agrícola em roçasdprop;~~\grícolas de regionais tam-
ocup:içõ~s, a saber, lenhador, lavrador, serra~or e chan~a,: as como diaristas em empreen ,men o familiai sozinhos, sem o
bém não looram sustentar seu ~rup . lhos· mais do que
31 pcsso:is restantes, incluindo o total do contmgente femmmo, :, A u de filhos mais ve , .
distribuíd:is em dezesseis diferentes ocupações de características apoio efetivo da esposa_ o vaziamento do status dos m ais •
nas Reservas em Aldemha o es d
urbanas. Vale dizer que a concentração de cêrca da metade dos ' de forma acentua a.
trabalhadores de Aldeinha numas poucas ocupações rurais tem velhos parece ter 1ugar ' de Aldeinha
. pítulo VI as terras ,
sua contrapartida na dispersão da outra metade - aproximada- Mas, como vimos no ca 'd d ' Umas poucas famihas •
mente falando - num número quatro vêzes maior de ocupações não pertencem a tôda a comum
, ªsão as proprietárias e o do
e. d t
urbanas. Analisemos as condições peculiares em que tem lugar _ as famílias fundad?ras e qu~ ·a constituir uma diferença
a organização do trabalho em Aldeinha. o terreno. Nesse sentido, o que poRen pelas conseqüências
Aldeinha e as eservas, d
fundamenta 1 entre . - d trabalho interno ( on e
• Nos quarenta hectares de Aldeinha, os Terêna nela domi- que poderiam medrar ~a orga;izr~o ºa posse de terras garan-
ciliados trouxeram as mesmas formas de organização do trabalho os índios, em sua t~tahdade, ~s ~u am virtude do alto grau de
agrícola que vigoravam nas condições de existência nas Reservas. tidas pelo SPI), nao se const1tu1," emt_ s" e "no ias" campo- "
Isso resultou numa rentabilidade da terra ainda menor do que · t tre os an 1ºº
solidariedfille ex1sten e en r d . dade tem sua explicação
aquela alcançada nas Reservas, face à diferença de densidade nentes da comunidade. Essa so"1 anes" membros e no modo
demográfica entre uma e outra situação: tomando-se Cachoei- na forma de recrutamento de novo . . da migração
rinha como exemplo, temos 0,2 pessoas por hectare, contra elo ual se aglutinaram os elementos p1one1ros .
5,8 por hectare em Aldeinha. 1 Por isso, comparada com a ppara ~ cidade conforme descrevemos no capítulo acima me~-
'
cionado. '
Ao contrano, . das R escrvas, on de seus moradores n ao
Reserva, Aldeinha possui uma área bem menor para seus ro-
çados; não há, assim, um grande espaço destinado ao plantio formam um grupo unívoco, pollticamente falando, ne~ mcs~o
continuo, uma vez que as p equenas roças ficam entremeadas uma única parentela, cm Aldcinha o que se obs~~va e_ a exis- º
às casas toscamente construídas. Também não existe trabalho tência de uma única parentela, sem dissensões pohttc~s mternas.
coletivo, entendendo-se como tal a conjugação de esforços numa Essa situação peculiar de Aldcinha torna comp~ecns1vcl o fato
de não se verificar na comunidade nenhuma d1~p~ta de terra,
emprêsa agrícola comum. Por sua baixa produtividade, não
nem mesmo qualquer forma de exploração fundiana , por parte
se pode dizer que haja um só grupo doméstico que baseie sua
do peque:no grupo de proprietários legais, disputas essas q_u e
economia exclusivamente na produção de sua roça. D entre as
já foram observadas nas própr~as, ~escrvas, apesar ~a p_ropne-
33 pessoas vinculadas ao labor agrícola, apenas 19 dedicam-se dadc _ como figura legal e 1und1ca - nela ser mcx1stente.
ao plantio cm roças próprias; as demais trabalham fora de Os Terêna proprictúrios em Alcleinha abrem mão da posse dos
Aldcinha, empregando-se como diaristas (changa) cm sítios ou terrenos e de seu usufruto exclusivo, cm benefício daqueles
fazendas da região. Ocorre que ~1 modalidade agrícola de tra- patrícios e parentes atraídos ao convívio comunal.
balho se acham vinculados quase sempre os mais velhos, geral- E ntretanto, a comparação mais significativa deve ser feita
mente aquelas pessoas menos adestradas nas ocupações urbanas. entre as condições internas de trabalho e as externas, que pode
A significação sociológica di sto está na transferência definitiva desfrutar o Tcrêna lavrador. O índio de /\ldeinha que lavra
para os mais jovens - os mais preparados para as novas con- "sua" terra, dela tira uma produção que nf10 partilha com
dições de existência - das maiores responsabilidades econô- ninguém, salvo com sua própria família de reprodução e/ou
micas do grupo domGstico: não há nenhum grupo doméstico que de orientação - de acôrdo com a constituição de seu grupo
doméstico. Se dela não retira o máximo que ela produzir, isso
( 1) A, M:y,uínu:1 Reserva• apresentam os índices: Dananal/Taunay, 0,1; Lali-
ma, 0,7; Cap. Vitorino, 0,7; Moreira/Passarinho, 1,3; Durltl, 2,4. 183

182
fica por conta da "rusticidade" de suas técnicas agrícolas. Mas remuneração e bastante instável, uma vez que depende das
êsse índio não está prêso a contratos de têrça ou de m eia; nem flutuações do mercado. Nas Reservas, a changa represe~ta a
mesmo a salários ínfimos que auferiria se estivesse vinculado quase totalidade do trabalho externo, tendo sido caractenzad~
a fazendas regionais. Com relação a essa atividade produtiva, como /abour migration (Cf. cap . III) . Em Aldeinha ela pos~Ul
a ordem jurídica vigente na sociedade nacional é inoperante mesmo sionificado inclusive no caráter rural dessa ocupaçao.
0
em Aldeinha : as terras são "doadas" ( verbalmente) ou cedidas O que defi~e o ch; ngueador é sua não-fixação em nenhuma
por empréstimo aos novos moradores em condições que escapam das atividades que realiza, seja na de extrator de c~sca de
ao sistema jurídico da sociedade envolvente. Uma vez obtido angico, lavrador sem terra, boiadeiro etc. O que conta e º, fato
• o lote, o Terêna recém-_chegado pode construir sua casa ( o que de poder vincular-se a qualquer uma delas_ por curtos penodos
faz g~ralmcnt~ com a aJuda da parentela) .e iniciar o plantio de de tempo, de conformidade com a con1un_t\lf~ do mercado
mand10ea, n!J!ho, cana-de-açúcar, feijão miúdo e de algumas regional e suas necessidades pessoa!s ou fa~11ha1s. Na clzanga,
árvores frut1feras, como laranjeiras, limoeiros e mamoeiros como nas outras ocupações rurais mencionadas _(lc~hador,
organizando, assim, sua roça e seu pequeno pomar. A distri~ lavrador "independente" e serrador) , acham-se distnbu1das ~3
b~iç_ão dos lotes é dita~a qu:1se que exclusivamÇJ)!e_ pcl.1 insti- pessoas de Aldeinha, pouco mais d_a. metade da populaçao
• tu1çao do p:1rentcsco, nao havendo na transação nenhum inte- trabalhadora da comunidade. As at1V1dades das 31 pessoas
rêsse lucrativo, no sentido corrente na sociedade regional. Nas restantes devem ser agora consideradas.
condições de vida comunit:hia, o interêsse está pôsto na troca Trnt:i-se de examinar as ocupações urbanas que essa
parecia dos Tcrêna de Aldcinha vem dcscmpcnh:rndo ? nas qu:1is
de. s~r~iços. cm outras palavras, no benefício social que o pro-
as novns gerações da co1111mid:11k tcndcr:10 prl)grcss1vamcntc a
pnet:\rlo rc:il pode ohta com a cessão de parte ck su:is terras n se engnjar, como procm:1n·11n,s 1k111onstrar. Dentre essas ocupa-
p:urnte-s próxi mos 011 distantc's. l'Ml' III, o motivo b:hico dessa0
ções clC's tac:111H,l1 as Sl'!!,llinll's: sl·rvi,ns li~:uh1s à limpeza pi1-
~r~~~-' -~ r t'lll.'()()lr!\lh) n:1 prl'()l.' 11 ):;·ilo lh,s -1,mprkt:l riQs hlic:1 (garis), nli\'id:11ks lk pn1d11,;im lip d:1s :'1 l'11nstnu;:"to civil
d, ~\ld ·inh:1. sobr,·11~ ~ l!H~ N,·1.·o - o mnior proprktârio (op..-n\rios). Em 11Ú111l· r1,s 11w11ns sig11ifk:1tiv11s ,1,·,1rrc111, ta m-
f C' Ili t'r llh'llllÍl'Slc' l11, )-!fllp11 - l'III l()\'ll:lr d,•ti\':tlllt'IIIC OS h,{111. Sl'rvil;ns ligados II tr:1nsp11rll', st•n ·i,os d1111n' stin,s l' 11tivi-
q11:1r('\\l:I ht'1't:m·s d •_ r\ hl~i.nha _l'lllll- 11,'SSllHS U~- SlÜl- l'llÍlfi:l11Çl1 dn1ks vihias (1.·011n1 serr:1d,1r. krn1vi;üi,1 ,. l':t rpinteirn) . Ex11-
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1,r.1s.1k1r,1s :1~r,·ssi,\1s _l'III sw1~ rrns, N,·~s,· ~-·n1id0, n ,·.xi~ i- si~111ri,·111iv11 (~nris ,1 111wnhh1s dl.' c,,11s1t·11,i\ 1,). v1.·rifknt1HlS qu
t ~·1:1_,l.is R1·s(·n·:1s, sistc-111i'ltk:1 n1c11l~' n111~aç,\uns _1,~'L .Vl1i11hos. ns T,·r(~nn 11dns ,·11g11jn(h1s t:1111hl' l11 n1\ ,1 p11ss11c111 111:1i,1r iukstrn-
scrvt'-lhcs de- Mi~111:11;!l,1. · 111,·11111 qu ,,s s1·11s p:1trkh1s vi111.· 11li11h1s i\s ntividad,:s rnrnls -11,
Um d,,s fc-11(1111~·111,s p t'l'U li:1rt's, ohsav:h-ds nns rn111llçi'll's tipn c·/,1111.i;,1. , S11hli1~lw-s,\ 1wssl· s1.•111ld,1, q11,• ,,s 111wnirh1s ,k
li~ l'Xis1f 11: i:1 dns 'l'C'n:11:1 l' lll ~-·rnt. e :11, q11:1t p 1111s rekri111os c·nnstrn,t\o 1.·1~11_1 1'l·~·.1strnd,1s ,•111 ,\hki11h:1 st 11 np,·11:1s snvcntcs
d1vrrs:1,; wus 1111 l'Orr,·r dl?sll· trnh:llh11, , 11 tip,, de 11tlvid:1llo d11 p,•drd l'll. l l 1111111 ~sll's q11:111ln 11s ~~:1 ris 111\n l'St i\n mk str:Hh,s
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cspci:1f11.'.a111c111c 1) 1.·111111111ld:1dc de t\ldd11h11. Dentre os l'11.·111c11tns tlmp, 1.,1 p11hli1 li S, \\ Sl'l'\llll1H'l'S d11 l'rd l'ltlll'II hll.'.:11 l ' Sl'II tr:1\rnlh,1
Sl' l',' Sllllll' l'lll \lll l'l'l'l' IIS l'll:I S l' l\' lllllVl'l' il tl;,,.11; ilS Sl,.'l'\'l'l11 'S li
l)uc a c:1rnl.'.tal111111, p11dc111-sc IIJH1111:1r os sc1•,11l11tcs : nllvldadc
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• tdr,1

JIM
de obr:1s p:1rcccm ser as (micas a requererem trcin~ 1~rofission:il, que as mulheres de Aldcinha não inseridas nessas relações
sendo os dois carpinteiros. o motorista e o empre1te1ro pessoas estejam excluídas de qualquer atividade produtiva. Do mesmo
Mhcis cm su:1s respectivas ativid:1des e respeitados como bons n;ocl~ que as mulheres das Reservas, elas colabora~ ~os
profissionais. d!spondo ?~ trabalho p~nnan~n~c. M_a~ 2..,.P!'Ofissão empreendimentos agrícolas da família e e1~1 sua :ºtina domcSllca~
ue aufere m:11or n..· st1g10 cm Allk111ha e. 111dub1tavclmente 1 a Nesse sentido os 19 lavradores de J\ldcmha tem cm suas mu
• de pro cssora primária, exercida 1~or ~1111a jovem . Ter'3na, que lheres (tanto' quanto cm seus filh os menores ) permanentes
freqüentou :1penas ak o l .0 a no g111as1al cm Aqmdauana; com
a criação d:1 Escola de Aldeinha. foi nomeada profcssôra do
auxiliares no trabalho da roça. Bssc caráter dependente. ?º
trabalho da mulher, quando exercido dentro <lo gru~o .famil ~'ll
Est:1do. graças ;) interferência de seu padrinho p11rut11ya, um ou do grupo domi.:stico, esclarece-nos sôbrc a sua nao-mclusao
político do PSD. O prestígio dessa profissão advé m de ser ela cm categorias ocupacionais de natureza rural, confo rm~ se
c.'\'.crcida por :1lgu~m da comunidade. uma vez que o cargo de verifica 1;a tabela XII: o seu trabalho nos roçados ( de Aldemha
professor pl'rtcncc gcr:1lmcntc a "ci\'ilizados". :f: uma profissão ou mesmo fora dela) soma-se ao trabalho do marido e dêlc fica
uc simboliza ara os Tcr~na o ndximo de ada tabilidade à dependente. Nesse caso, quem estabelece relaçõ_cs no nível do
• so.:-1ed:1de cnvol\'entc e tu o o que isso implica: progresso o "trabalho assalariado'' é sempre o homem, CUJO trabalho ou
povo rumo a novas condições de vida, proporcionadas pela
produção fica regulamentado cm contrato. É por êsse motivo
,i d:1 urb:in:i, e ascensão social no sistema de estratificação
que aquelas ocupações femininas, classificadas como urbanas,
regional.~
representam. prov?wclmcnte, o primeiro estágio de um processo
A e..'tist~nci:i do contingente f erninino de Aldeinh:i, tornado de singularização da mulher como ser pro dutfro em têrmos da
clobalmente. denot:i a ocorr~ncia de urna ligeira valorização do situação de contrato e, portanto, cm têrmos de uma economia
tnbal.ho externo d:i mulher. comparado com a situação de mercantil e monetária.5
R e ~IYJ. Se bem que êsse trabalho tenha menor expressão em
..\ldeinh:i do que nos agrupamentos citadinos estudados, êle
re,·eh u.m:i pr gressi,·a independ~ncia da ati,·idade femin~na em II) Buraco e Guanandi
re.h .;fo ?! masculina. considerada a mulher como fonte srngular
de renda. Qu::rndo dizemos que onze mulheres '·trabalham" em Os agrupamentos Terêna da área urbana de Aquid:rnana,
..\ldeinh:i. queremos dizer que essa quantidade (insignificante se conhecidos por Guanandi e Buraco, revelam grande simetria, e
com::,:irad.1 com o tot:ll de mulheres de mais de dez anos na é por êsse motivo que os examinaremos conjuntamente. P or
co:n~aicbde ) exprime somente o número de mulheres que estarem situados dentro da cidade, os T erêna de Buraco e de
desempenh:im o:upações rendál'eis e. singulares: como em~re- Guanandi não podem desempenhar atividades agrícolas em seus
!!2.d:is domésti~s. lavadeiras. costureiras ou como professora, próprios terrenos, a exemplo do que faz em seus patrícios de
;125 esu bele::em · relações econômi::o-sociais com a população Aldeinha. Como já se descreveu no capítulo VI, as condições
regional - e de um modo particular com a popula_ção _u r~~na habitacionais dêsses migrantes muito se parecem com as que
- no nível do "trabalho assalariado" .4 O que nao significa
têm lugar nas "favelas" citadinas; a pobreza das casas soma-se
à pequena dimensão dos terrenos, o que impede a prática de
(3) E!etiTa..--:icr:+..e a profissão de pro!essôra não .-ale para os Terên!1 pela_ ren- uma lavoura, mesmo que seja de subsistência. Não obstante
ú ~ pode ç,-o;,orcio::ar, m.as pelo Jra .tiu q ue confere a q uem exerce esse mt5ter.
fu:a ~.o ,':IC. e::i 1%0, o ,·encioeoto da pc=a em c3:usa era de CrS 2 365, bem alguns dêsses índios - poucos, é verdade - exercem atividade;
é2:.1.0 elo sa:ir,o óe ferTO•iário ( ha,; a dois em Aldeinha), no valor de dez a
u-eze d cnu,:iros r.a =ma época.

'1%3 :!iO, =
1 ~ > Esu.::ios iaa=:do trabalho OJ~alariado no ~nticlo dado por Stavenha~en
ex;,r=ar:6> um nh·cl de relações o posto ~ da atividade coin:r1;1al.
Enz r . ~ f°IC.0'.1 c!.2.ra no c.apítulo li 1, q uando _exanunamos a organ1~çao do
_(5) A si!1gularizaçã.o da mulher tem muito em comum com a singularização
do JOVeD? Tere na, ,raças à sua progru si,·a_ _au~onomia em rd ;ição aos CUli TC!!,
(~':5 pau ou parentes) como uma conscquencia cio labour m iiration anui53 cfo no 05
u ~ i::.a:s Re<.ervu. A1ora. c;uunos opondo o n 1vel cio uabalho assalanado ao capitulo Ili.
=
~•el t!n . trdt:liu:; OJsoâa do , dependente, i.e.. como aquela ati>·idadc produtiva q ue
se 1:=z,s'.anz.a c m virtude <lc e.ão a uferir renda, da não-autonomia do uabalho
e ~ • ~ e~ c:as rei~ contratuais .
187
186
rur.,i~ c-t' :tt." l:\\'r:td,"r ( th'li:-. ,·m Gu:,n:rndi) ou de boi:lckiro homens t~m de procurar ,,utras o up:i,0t·s que lhes permitam
(um. dll nur:h.'i.'I • se.ia na quafüfadc ck cmprt·g:ui,"s em fozcnda!- sohrcYiwr. Coloi.:ad(, n:1s c:H11:1d:1s sod.1is mais b:li:'rns. ond •
C'U :-iti,,, ,'it\'ttn\"izfoth,s. s1.·j:\ n!l d,· pbnt:idor imkp,·mknte. cm í.'Xl'rcc ns pwfüsúl'S 111;.•nos qualific:ubs. o Tcrênn só logrn
Lindo \ \·nl:. ,,tll.t,· um lh"s l:wra,torc·:: lk Gu:\1\:\1\di possui lote. subsistir frnç:1s a u111:1 wrs:1tilid:uk rh.'upa i,,nal c~ trcm:1.
As "·up.1\,x·:: m:tj,"rit:iria::. m:1s('ulin:1s t' frminin:,s. s:io ns cio E xistc:m :1k11m:1s l)..:t1p:11.;ú,:::. ,kst·111p:nh:1d:1s pür indidúuos
tir-' url'\111 '· C'\'lll ~rnndc l'Ofü't'ntrnçúo d· im\i\'iduos nas d • m:1srnlinos. qu; l·,,nstitut·m indiSl'llti,·d t\,ntl' tk prcst~gio no
r-,·~ri,x~ t: r ,,nstru,úo ( p;.-,ir ·ir,":- t.' s,·rwntt' :: de pedreiro) sl'in d:1 cot1111nid:uk Tt·r~n:1 111igr:1ntt·. S:i1, :1s de pl rtl·1ro (d·
r3r3 0$ h,)m:n::, e na:: lk l:wnckir;1s t· t·mpr,·~:id:1s dl"lllt~sticns ciiw111:1). 1d:1d,,r (lk gin:1si1)) t' ,k b.nb.-irl,: a primdrn foi
p..trn :ts nmlh: n·s - ,' 'll'-' s p, l ·d akrir p:l:l kiturn da rt'!!istr:1d:1 t'lll Hur:11.·n. :is du:1s lilti111:1s t'lll (,n.,n:rn li. C,rnsid ·-
uti<-b X . Qmrnt" n t·st:1:: últimas l~·up:w,,.-s. qu 'f\~tll()S suhli- ... t'l';m,s. dt· pt·r si. l'S ,,,:np:rntt'S 1k 1.·:1d:1 u111.1 ,kss:1:: (':\tt'~(1ri:1s.
n~:ir um;\ ~nifi;,-~1tiY;\ lif, r-·11,·:1 i.'ntr..· :1 d, l:w:nkirn t' n li• O p1irt,:ir1,. 1r:1b:1lh:111d,, 111, tini--1, 1..·inc111:1 d:1 ,·id:hk. gn1:1 d'
U,)m~!i.-:1: !\ r rimdr.\ ~·~tr.h'tl'rit:h'-l' r,,r k\'i\r q111.'I\I :\ l':\t'f('C !) um gr:illlk pr,·stii:i,1, t'lll r:11:i1' d:1:: f:1cilid.11ks que prl,pi..:i:1 :\
k-$tn,\"\h-..·r um ~1.' mp,'rl:Hn..' nh, 1,:,::t:\l\tt \'mpr ·,·mk.for. \'\)lt:uto p:lt'l'lllt'S l' p:11ri.-i11s St'IIS, pa 111itinth1-lht'S - frt·qik ntelllt'l\ll' -
entr:1r n:1 s:ll:1 ,k p1't1ji..-.;:111 ~r:1111it:1t11en!l'. :rn m,·sn11, tellllh' que
}X'tm:rn:.nt,...nwnt(' p,m, :1 p11.,..:11rn 1.k t\\WOS frt':!llt's,·s. lh,is "trn-
,·1,nst·g11,· ,·st:1bdt·.-t·r rd:11;lit·s 1.'1)t11 hr:1sikirn:: de difrr ·ntcs
oolh:\ s.:-m p:ltr:io". 1:n·:uH.1,, cm ú~rregos (eonm ('IH Burnco e c:1111:1d:1s s,,.-i:1is. O b:1ix,, s:11:hfo que pcn.:d1e fk :1 1.·,, mpem :Hhl
cm Ah..kinh:\) nu c m c:1cimh:1s ( (úllll) cm Gu:rn:\lllli) ; :1 segumb, pd,1 st,1111s que s11:1 ,1.:up:1,:in .:1,nft-re. P:1i d· dc,is fillh,s. supr •
,i ncukrnd,) jú,·ens cmpn.·gad:ls :\s rcsidcnei:ls burguesas de s11:1 ddi,·i~n,:i:1 s:1l:1ri:1l ,·1.1111 o di.:scm1wnho. si11111lt:11K'l', d:1 pro-
Aquid:rn:ltl:\, torn:1-as m:\is sensíveis ao regime de vida citadina fissfío de pi..·dri..·irn; 11:h1 ,,bst:rntc. argiiido pdn entrc,·istador a
e, de um modo especial, aos privilc..<gios de classe - dos quais respeito de sua ,1cup:1ç:i1.1 ou pr11fiss:in. ddillt·-se c1mH, {h)rlciro.
chegam :l partici p:n cm grau expressivo (conforme a casa cm i. <'., pcl:1 de t11:1i,)r prl'Stígio. Pnsi,:·10 equi,·:1kntc. :1pcn:1s num
que trabalham ) a ponto de elegerem, não raro, sua patroa cm nível menor de :1spir:1ç:fo, 15 :1 do zd:Hhlr do gin:ísin estadual :
alter ego, como pudemos sentir por alguns depoimentos. embora sua ocupaç:io 11:io lhe d~ a mcsm:1 penctraç:io na
No que diz respeito ;)s ocupações masculinas, poucas são comunidade indígena - como a d-: port-:iro de cinem;1 - , ela
aquelas que proporcionam uma retribuição pecuniária que possa amplia ig~almcntc seu círculo de rdaçües intcrt:tnicas, graças
ser considerada suficiente - fato que examinaremos adiante ao convívio que desfruta com professôres e alunos 110 exe rcício
de suas funções. Paralclament-:, satisfaz-se com seu trabalho
( cap. VJIJ , item 2). Por essa razão, os Terêna estão sempre . - -
cm cup exc~uçao ~1ao sofre desgaste físico, pois limpar salas,
,
em perspectiva de "pegar biscates" , exercendo simultâneamente lustrar móveis e cuidar da conservação do edifício afiguram-sc-
várias das ocupações urbanas constantes da mencionada tabela lh~ tarefas bem mais suaves do que as comumentc c;ccutadas
X (além de outras nela não-registradas): assim, temos um por seus patrícios. Pois, como já foi mencionado noutro lu <>ar
indivíduo que se define como pedreiro, mas que trabalha tam- o "estng·u
. , , . o corp o" no t ra ba li10 conslltu1 · · uma preocupação ~- '
bGm como faxineiro, encerador ou guarda de obra, dando a muito arraigada entre os Tcrêna; e s6 0 fato de se trabalhar
essas o::upações sempre um caráter de "expediente". Além na sombra, :amo o~orrc com o zelador, é suficiente para tornar
dessa razão - salário deficiente - podemos acrescentar outra, essa ,º~up?çaoddebscJad~. Porém a ocupação que confere maior
aplicável particularmente às atividades ligadas à construção prest1g10 e a e arbe1ro, particularmente pelo fato do T A

em causa scr t·am bcm ' o propnctario· , de uma pequena barb crena . .
cíviJ; como Aquidauana não é um grande núcleo urbano e o
volume de construções é bastante variável, há períodos em que onde trabalha com um auxiliar J'Jurutuya se d cana,
h1.stona
, · d . . • ,
e vida mdica que êlc soube aproveitar mu·ito b ·
u emprega o Sua
falta trabalho aos operários de construção, que formam um · • · · , . cm sua
v1venc1a mterctmca, principalmente sua experiência de membro
conti~~n~ fluido de mão-de-obra por sua natureza pouco
~p--..ciahzada. Quando diminui a atividade de construção, os
189
188
da Fôrça Expedicionária Brasileira na Itália. :Ês~e T:rêna tem
tanta consciência de seu status que em certas s1tuaçoes chega III) Campo Grande
a repudiar sua ~tnia, quando se~te_ que a condi~ão ~e índi_o
poderá discrimina-lo cm sua prof1ssao ou como c1dadao aqu1- As ocupações descmpcnh_adas pelos Tcrêna _de. ~~~~~
Grande indicam que é nessa cidade que ~ P':pulaçao rn1 fota!
dauanense.
domiciliada alcança maior grau de urbamzaçao. De un
.O exame comparativo da situação ocupacional dêsses de 38 pessoas cn!!ajadas cm atividades remuneradas, 36 c;~r-
a!!rupamcntos migrantes, urbanos (Buraco e Guanandi) e cem funções urbanas,- '
e somente 2 , f unçoes
- rura1·s . A análise
s;burbanos (Aldeinha), vem confirmar a dinâmica do processo conjunta dessa popul_ação revela, p~r ~cu turno, uma gra ndi~
de urbanização nos têrmos do continuum Aldeia-Cidade. A diversificação ocupac10nal em relaçao a observad~ cm Aqu
diferenciação das ocupações em rurais e urbanas revela, como dauana incluindo suas áreas urbana e suburbana, ,. e., Burac_o,
vimos, um expressivo aumento das atividades urbanas, que Guana~di e Aldeinha. Nas atividades classificadas como rurais,
passam a atrair definitivamente a mão-de-obra Terêna. Mas a incluem-se somente dois indivíduos, ambos dedicados à changa;
diferença mais significativa parece estar no incremento do trabalham como diaristas em fazendas próximas, o que lhes
contingente feminino ligado a atividades remuneradas (e permit-e ter residência permanente na cidade, para onde retor_nam
urbanas). A simples visualização da tabela X nos convence todo fim de semana. São indivíduos que não conseguiram
disso: se em Aldeinha a proporção entre trabalhadores mascu- adaptar-se às atividades citadinas, depois de haverem tentado
linos e femininos é de 11 mulheres para 53 homens, em Buraco serviços como os de engraxate ou de copeiro _de bar, sem !ogra-
a proporção passa a ser de 6 mulheres para 13 homens, sendo rem êxito. Para êsses indivíd uos, cncontrad1ços em quaisquer
que em Guanandi a proporção é, surpreendentemente, de 8 dos agrupamentos migrantes, a ida para a cidade pode ser
homens para 9 mulheres. Enquanto em Aldeinha o número de considerada decepcionante. Suas histórias de vida revelam terem
mulheres integradas no mercado de trabalho não representa êles acreditado que bastaria residir na cidade para conseguir
mais de 1/ 5 da mão-de-obra masculina, em Buraco ela repre- empregos bem remunerados. E o que viram, se não foi exata-
senta quase 1/2, e, em Guanandi, elas se igualam, chegando mente o contrário, foi algo muito diferente do que imaginavam
mesmo a mão-de-obra feminina a superar a masculina em uma no tempo em que moravam nas Reservas. Encontraram tanta
dificuldade na obtenção de empregos compensadores que muitos
pessoa. E se somarmos as respectivas populações de Buraco e
dêles tiveram de se engajar em qualquer atividade, aceitando
Guanandi, tomando-as globalmente como a população Terêna
salários irrisórios e, muitas vêzes, más condições de trabalho.
trabalhadora de Aquidauana, verificaremos a proporção de 15
Dentre as barreiras que dificultam a obtenção de melhores
mulheres para 21 homens, pràticamente a mesma que encontra- empregos, pode-se destacar a socialização inadequada ao
mos em Campo Grande, i. e., 16 mulheres para 22 homens, ambiente citadino. O meio urbano, mais do que o rural, exige
conforme a mencionada tabela X. Indubitàvelmente entre os do indivíduo uma plena participação cm determinadas pautas
índios citadinos stricto sensu, a saber os de Buraco/ Guanandi de conhecimento, inerentes à vida citadina, tais como a posse
e Campo Grande, evidencia-se uma clara tendência à incorpo- de uma tecnologia menos rudimentar (consubstanciada num
ração da mulher num regime de trabalho remunerado, em vários preparo profissional), uma alfabetização completa e eficaz (e
aspectos diferente do regime existente nas Reservas e mesmo não a mera habilidade cm assinar o nome) ou, ainda, uma
em Aldeinha. Pela integração progressiva da mulher no mercado certa familiaridade com o sistema jurídico-kgal, como elemento
de trabalho regional, os Terêna migrantes estão demonstrando normativo de seu comportamento na sociedade nacional. Assim
. - , . '
grande flexibilidade em sua adaptação à ordem urbana e pare- pois, sa? ranssm~os os casos de efetiva profissionalização ( 0
cem caminhar para uma proletarização cada vez mais nítida. que equ1va!e ~ dize~, ocupações bem remuneradas), permane-
cendo os md1os migrantes atados a modalidades braçais de

191
190
. d · Terêoa. ,;-m
~lm :(QNBl m hilid:ide ,upa- n:itureu d:1 situa a ur :ina d:í a r r\!:l oiz:l ·ã
:; es ~11~ o:'3 tiwr.un im.ime. -s e.m- d. ão -'Ol que se - . m ose-
roralid de': as n 1- .... 1 3 ,; da citadin:i.
~
"'i"\-;'•.,,.:r,(3S i(
,
s-= .... •
...,,_,.,
~u
m- m.lls ,--:ui:1d1S atividatks após sua famili31. seu desprep1r~ cult~r:t d - e de fins n5,istentes. e.
qüênci3 da fa\t3 de mei s 3, ~~ifi a .:i de sua f · rça de rra-
, ,._;i,J,l

~~- ~ J'fil'2" 3 :&d..-., -seja ~ 3 Aquid3ll1D3 u Campo Gran~e.


ainda p3rticul3rm ~nte, a m_a q a.rá!!r3f p['<.-'Cedente.
\ fas é em C:impo Grande que vamos encontr.u a maior ' ·a' nos refcnm s no p -
,·aria~ de ocupações exercidas pdo mesmo indivíduo ao longo balho - a que l
de sua \ida na cidade. :Êsse f enõmeno pode ser melhor enten-
dido pela consideração da maior amplitude do mercado de
2. Habitação e Estratificação
trabalho local, numa cidade da dimensão de Campo Grande. . p simda-
acional. der'{am s pr .
Para uma população trabalhadora de 38 pessoas, encontramos d
Na análise do qua ro, o~u P . - de e3da categ na de
23 categorias ocupacionais (dentre as quais apenas uma pode . os mve1s sa anais 1 . . a
mente de mencionar - . nesse sentido: pnme1r .
ser classificada como rural) . Comparada com a de Aldeinha, atividade. Duas razoes pesaram º Z que cobrem s . mente
verifica-se que para uma população trabalhadora de 64 indiví- natureza fragmentária dos dados, uma vccr urais não se conseguiu
duos, 20 são as categorias ocupacionais ( das quais 4 são rurais); b enquanto para as '
as atividades ur anas, f . das· seoundo. porque. n:i
a população trabalhadora de Aquidauana-Cidade, i. e., de senão estimativas das rendas au en 'tivo o sistemático desses
.. ºd d d um exame compara d
Buraco/ Guanandi, apresenta uma proporção intermediária, a imposs1b1h a e e . , considerar _ grosso m o · o
saber, 36 indivíduos para 14 ocupações ( das quais apenas 2 são níveis, pareceu-n~s- mais prof1~uoao nível de vida da população
rurais) . Um cálculo aproximado do número de categorias - os níveis salana1s com relaçao dendo o salário o u a
. um todo comprecn
ocupacionais das populações em causa indica as seguintes pro- migrante, vista como . ' dalidades de adaptação d o
porções : para Campo Grande, as categorias ocupacionais renda em função das d1ferent~ mo A v·1riável que se mostrou
representam aproximadamente 6/10, a saber, 6 ocupações para Terêna no meio urba no ou rut ª~º· do nível de vida alcançado
10 indivíduos; para Aquidauana-Cidade, temos cêrca de 4/ 10, mais signi~ca~iva par~ a ~va r~ª~ndubitàvelmente, a habitação
em decorrencia da nugraçao m, . A uali-
i. e., 4 ocupações para 1O indivíduos; enquanto para Aldeinha .dade da casa localização e seu uso efetivo. q
- qua11 ' · , l d ·d mas ta m -
a proporção é igual a 3/ 10, i. e., 3 ocupações para 10 indiví- dade habitacional não suger7 apenas o m_ve e vi a, de u rba-
duos.6 Essas proporções são consistentes com o gradient bém - e é o que mais nos interessa avaliar - o grau -.
inerente ao continuum Aldeia-Cidade a que temos feito referên- nização da família migrante. Todavia, não se qu:r com _1~so
cia. A maior amplitude do mercado de trabalho nos centros reduzir O fenômeno da u~banização a uma entid~d e 7 fisi~
"mais urbanizados" é, apenas, parcialmente responsável pela ins- chamada cidade (Louis W1rth, 1949 :62 1) . A hab1taça<:> _
como estamos considerando - é antes d~ tudo uma m~d,aça~
tabilidade ocupacional do trabalhador Terêna: é responsável so-
entre O índio e O nôvo meio em que se mstalou .. P~r isso_ el,1
mente pelo fato de saber êle que conta com outras oportunidades é sintoma do " modo de vida" adotado, ou,_ como indica Wirth,
de encaminhar sua vida ou de vender sua fôrça de trabalho. Ao da própria urbanização como modo de vida. . _ . .
contrário da situação em Reserva, onde o índio muda de patrão, Nesse sentido, há uma correlação bastante sigmficat1va que
na Cidade êle pode mudar de tipo de atividade e com maior infelizmente não foi possível quantificar - entre a renda e o
facilidade do que tem o seu patrício aldeado em mudar de tipo de habitação.7 Verificou-se, efetivame nte, que as cate-
patrão. Tal instabilidade deve ser creditada, a nosso ver, à
(7) Não foi possível saber o ganho pessoal, c m dinheiro, de todos C?S indi-
víduos Te rêna trabalhadores ; isso só foi possível c_om _os assal_anados. ind1vlduos .
nal <6 ) <!"
na consideração do trabalho feminino, que essa diversificação ocupacio- como O proprietário da barbearia, forneceram csumauvas muito vagas para per-
P<>de~á . ampa G rande ganha maior signifícação. Tomando a
remes compa(ar os q uatro agrupamentos mi grantes; verificará
tabela X, o leitor
que para 8 dife-
mitirem um tratamento cstatistico comparativo.
0

Guanan~T'e"o4n as ocupadonais cm Campo Grande, têm-se 2 cm Buraco, 4 cm


e cm Aldc1nha . 193

192
1r:1t1sfrrir para I pq:1tt'. 11111tl.1111hHic p.,r:, l:í l'Olll 11111 pt'qu~n,1
!'.1.'ti.,s ,,,111\1,i,111:1is 111:lis b,111 situad.1s 11u1n:1 '\•s1.·al:1 snl:,ri:11" r:1 pirnl, a ·11111111:111,1 11:1 h11cml.1 ~r:11;:1~ :I P si~tl·111:1 de par_ritha
11.~I\I Sl.'IIS 1',lll'·llll('S 11~11f111i11d,, Ili ·lhl'l\'S 1.·:1s:1s. l:st:h1 111.'SSi' C:IS\l d.1 lll'lllh1,·:10 di: horrrns. N:1 lh'sl· n ·:1 1.: hq :1111 :1 ta d11~1.: nt.,
1, d.w,1 d, t'.11l•,ali:1 d,· .-\q11id.1u:111.1. 1.1 r.1·,.,.it11rd11'c1 d.1 1\·twh:,s n'Sl'S l' dncn 1111 sl'is Tl'r1'11:1 lr:1hall1.11Hl11 snh s11:1s onkns, c1'.~
1.k (.'.1111p,• t, r.111d,· (' 11 mil1111r 1.11111-\.·111 d,· l ',1111p11 (ir:1111k. N:'h1 seu rd1:111hll. "N:iP l'Xisle 11111r,, r:1 11111 111l'l h11r thi que o f ,ld~,
s,, , 1, ·111 ·111 ,·.,~.1s " d, 111ah·li:1I" (i. I' .. d,: tij,11,,s. tdh:1s 1.• ,·11111 - dissl' Sinuill. q11:111d11 c111revisla1h1. ~l:1s. l't·r1:11m·111e. _nao
~1_.,.,,,llh,,). ,'\'llh' s11.1s 11,,,,-.,di:,s 1.11'1-r ·.:t·m n,11f,,r11., ii-:11:1I n,, pensarn assim 1.·111 195-L Fasl'inad,1 pd:~ cidadi:. :1crec_li1ou
1.\.•n11u,1.·nt, 'fü 111tr.1d,, n;1s ,·l.1ss ·s u11.-di.1s d.1 1.·id:11k. l\1r,' 111 p,,da m11d:1r seu tipo lk vida e prop11rnona r :i seu · filh os
'l'"'
t t i'\'\\.' :11•,11.1s 1.1 d,,1\\1 d, l'<1rl1 ,:1ri:I I''' h.· s,·r 1.·,,11sid1.·r:1d1.) 11 llp1wt1111id:llks de prn,!r,·ssn que j:1111:iis ti:ri:1111 cm I pegue.
uni,\, r-.·.:-1,'fü;\, ·I p,h, 1'·' lr:i,, d~· \'11.l.1 q11~ su:1 ,·:isa Sllfere. Para Vi:11lk11 st·u i.:ado e e1.1111pn1u l'm C:1111Jhl Grande uma ca ·:1 e ~m
::'I ~"1.1 in::t:11.1\:h, 1.hlS d,111:lis 1.·,,lh.·,,rr1.· 11111 fall)r qul.' 11:·10 cst~,-'-' bolich~-. pag:;ndll pelo ponln dl.'sle 1'dtimo a i_mpllrt:incia d,e oito
rr,~~nt.- n(, 1.·:1:;,, d,, l1;1rb,irn: t\.,i :1 cülab1.1r:1,:io dos demais mil cruzeiros (quantia cxprcssi\·:t para a q )Oca). Porem os
ckm, nh, d.1 famíli:1 r1.·si1.k11,:i:1l qu • atuou como um grupo prejuízns que vieram. cm lugar dos lucrns espcr:1dos, d mons-
t'\ rp,,r;1ti,·,,. H lfü'n.:iün~lllll'S linh:1s :l!r:ís o ciso d~ssl.' prnpril.'- traram que o salto dado por Sim:io do mundo rural p~u a o
t:iri,, de barb,ari:1. de nome Di,rni:.;k,. l.'X-intc!!r:int c da FEB urbano foi muito nwior do que 1.'lc poderia prever: uma complct:i
como t:1mbt.im nos referimos :10 cscrit udrio d:1 Petrobrás a~ desproporção entre os fins escolh idos e os meios dis~o!1íveis.
tr.lt:irmos. no capítulo \'I. do caso de Juliana, migrante pioneira Simão, no entanto, não admitiu seu dcspn.:paro p:ira JS at1v1d:ides
de Campo Grande. Ambos os casos, embora diferentes nas de ncgoci:!•1te citadino. preferindo atribuir ao ponto - que clas-
formas de promoção do progresso familiai, são simétricos nos sifico~ de mau - a responsabilidade de seu insucesso. "Fiquei
resultados que alcançaram, isto é, no sucesso de sua migração. enouiçado - disse êle - e acabei com o boliche. Vendi a casa
Ao p:isso que o terceiro caso, o do militar, resultou, como po; duzentos e cinqüenta mil cruzeiros para paga r as dívidas·•.
\'eremos, num:i migração frustrad:i, sob vários aspectos. Soubemos que um advogado da cidade cuidou e.los negócios do
Simão e o orientou na venda de sua residência. Sôbre a hones-
--Trata-se da migração da família Vargas. Seu chefe, o velho
tidade dêsse intermediário, nada podemos dizer; apenas, que
Simão, nasceu numa das fazendas (Fazenda Cutape) que, no
Sim;io perdeu pr:\tieamente tudo e vive hoje ( 1960) numa casa
passado, congregou maior número de índios Terêna, a se julgar
alugada, pagando CrS 1.200 mensais, e graças à colaboração de
pela quantidade de indivíduos recenseados que nela declararam seus filhos, notaclamente o militar, cabo do Exi:rcito, solteiro,
haver nascido. Filho de pai paraguaio e mãe Terêna, Simão que põe seu sôldo à disposição do pai. Sua residência, exterior
pertence àquela categoria de índio que melhores condições e interiormente, em nada difere de uma casa pequena burguesa
desfrutou no sentido de adestrar-se, no processo de sua socia- de Campo Grande: apesar de ser de madeira, é bem pintada,
lização. pan o con\'Í\'io intcrétnico. Seu p:ii faleceu quando ampla, com quatro cômodos ( dois quartos, sala e cozinha;
êle aind:i era criança. fato que concorreu para a sua integração instalação sanitária fora do corpo da casa) , ence rada e mobiliada
definitiva na órbit:i familia) de sua mãe, nascida em Jpegue. com m6veis de segu nda, mas bem cuidados, onde se inclui uma
A ~rman~ncia de Simão por longo tempo na colônia da velha vitrola. Embora a casa não esteja ligada ;1 n:de elétrica
F:i.zencb Cutape propiciou-lhe l:lrga experiênc.ia na lid:i do - uma wz que o bairro parece ser bem nôvo - conta com
gado. dot:mdo-o de um espírito empreendedor. ambicioso, que :igua encanada. Atualmente seu grande desejo é ri:torn:ir a
lhe \'aku - após sua transferência para Ipcgue - o desenvol- Jpcguc, Ol~de afirma ainda ter sua "prnprkdaJe" guarJada por
\'imento de urna cxpressi\'a criaç;io de g:ido bovino na Reserva. uma sobrinha (11e1·011~c1) e onde tentaria retornar à vilb de
Es~ mudança p:ira a aldeia den.:u-se ao seu casamento com criador.
uma Ter~n:i do lugar, por êle escolhida (como fêz questão de Os três casos mcncionaJos envolvem (mlio · Tcr0na 1.·m
frisar) depois de conhecê-la em suas periódicas visitas a I pegue. processo de assimilação. Com exceção de Jutiana e Jc Sim:\o.
Os primeiros meses dêsse casamento vivt:u n:i Fazenda, junto
de sua mãe e irmãs; com o falecimento de sua mãe, decidiu-se 195

194
ambos possuidores de forte consc1encia étnica, os filhos (as)
.• . 't · (
filhos de uniões 1Dteretmcas. e
o:
no fortalecimento _da c~ns_c1enc1~ e ~~~ .
tribal) de indivíduos
ão é Reserva, as
Jm a n d m ser conside-
de ambos, tanto quanto o barbeiro Dionísio, reagem contra a . - f os seus mora ores o e
identificação como índios e não querem nem ouvir falar em re- cond1çoes . ue o erece ª · m terra ou •
a 12e a qual proporc10na
tornar às aldeias de origem (incluímos, aqui, os próprios filhos radas equivalentes, n(l . orm O d . ferroviários casados
·moradia a patrícios migrantes. s o1s a~ famílias
de Simão). Seu comportamento na cidade também é consistente com mulheres Terêna ligadas por parentesco COf!1 u em
com essa reação, pois nenhum dos grupos familiais mantém . t, . do Juoar foram integrados à comumdade o '
relações comunitárias na cidade. Representam, assim, um propne anas º , · 1· d
outras palavras, foram pràticamente tnba iza os. . , .
fenômeno típico de destribalização. 8 A quebra dos elos tribais, Um sistema de estratificação, elab_o_r~do impr~ssJm~t~':!=
mantidos precàriamente por Juliana e por Simão - à
mente, mostraria êsses cinco _gru~os fam1!1a1ds (~1:~1sh ; como
base de manifestações estritamente pessoais não-sancionadas o Grande, um de Guanand1 e esses d?1~ _e e1_n a •
por seus familiares - , parece ser uma função do processo de pertencentes à camada superior da pir~m1de socia! ~eren~.
estratificação social que, nesses casos, tem lugar simultânea- Logo abaixo, viriam aquelas famílias c~JOS _respon~ave1~ esti-
mente com a urbanização. Comparados com a grande massa vessem incluídos nas categorias ocupac1ona1_s segu1Dte~ · ~er-
de casos em que os elos tribais foram mantidos e, muitas vêzes vente de escntono. , · (func10nano
· ., · d O SPI) ' p1Dtor
. '
carpmteiro,

fortalecidos, êles nos ensinam que urbanização por si só não pedreiro e sapateiro, cujos salários ou venc1~e~t?s o~c11_am
é responsável pela destribalização. No momento em que esta entre sete a nove mil cruzeiros mensais (func10nano pubh~o,
Cr$ 8 500; pintor, Cr$ 9 000; carpint7iro, Cr~ 7 _5~0; pe_dre1r_o
urbanização se soma à integração em classes mais bem favore-
e sapateiro, Cr$ 7 000). As residências dos md1v1duos rnsen-
cidas, i. e., cujo nível de vida a elas inerente esteja bem acima dos nessas categorias coincidem em ser - em sua _q~ase _tota-
do nivel desfrutado por seus patrícios citadinos, é que - ao lidade _ construídas de tijolos, cobertas de telha, d1stmgumdo-
que tudo indica - terá lugar a destribalização e os indivíduos se das das famílias classificadas nas camadas inferiores, mora-
poderão ser, finalmente, assimilados.9 Poderiam estar nessas doras de casas muito mais rústicas. Nestas última~ _c?ma das
condições de perda progressiva da consciência étnica mais dois encontram-se as famílias de mais baixo poder aqu1s1t1vo: as
outros grupos familiais, cujos chefes desempenham a ocupação ocupações de seus responsáveis estão dist:ibuídas. numa esca_la
de ferroviário, uma das mais bem remuneradas do universo salarial que varia entre três e cinco mil cruzeiros mcns_a1s.
Terêna (em 1960, um ganhava CrS 13 000, outro Cr$ 10 400 Numa tal escala, as ocupações podem ser colocadas na seguinte
ordem crescente de gratificação : zelador (CrS 2 500) , servente
mensais); mas o fato de residirem em Aldeinha, em algumas das de pedreiro ( Cr$ 3 200 a Cr$ 3 400), gari ( C rS 3 800) e
poucas casas "de material" do lugar, vinculou-os de tal forma motorista (Cr$ 5 000). As ocupações femininas, geralmente
à vida comunitária que jamais lhes passou pela cabeça negar linhas auxiliares das masculinas nos orçame ntos domésticos, são
sua condição de Terêna. O mais significativo, porém, é a as que pior remuneram o trabalho, como podemos avaliar pelas
identificação dêsses ferroviários, mestiços, com a comunidade cifras seguintes: doméstica ( Cr$ l 000), lavadeira ( C rS 1 600,
Terêna - o que vem corroborar uma de nossas hipóteses as que trabalham di àriamcntc; Cr$ 600, as que trabalham dcs-
desenvolvidas noutros trabalhos ( sobretudo, cf. 1960 (b), cont1nuamcntc ), passadeira (Cr$ l 500), costureira (de CrS
passim), segundo a qual a situação de Reserva 6 determinante 2 000 a Cr$ 4 000, conforme sua qualificação profissional) e
profcssôra (Cr$ 2 365, a rigor, vcnl.:imento de auxiliar de en-
sino no Estado). Quanto ao nível de renda daquelas atividades
( 8) No livro ,õbre o processo de a,simllaçioo (R. C . de Oliveira, 19(i0a) nr.o classificadas como rurais, sua média (: d~ Cr$ 3 000 - tirada
lo11amo1 fo rm ular corrcta mcnlc ê~lc p rnhlcrna. ra,;ão pela qual c la,s iíicu mos gro s-
klramcn1c . os Tc rên a chad, nos e ,,. de Fa , cnda (mo rado res cm colô nias ) n a cu• à base de estimativas referentes às categorias de lavrador e
tc~on a ún,ca de dcstrib rili,ados . Volt a re mos uo a ssunto no caphulo final .
chanJ;a. Destas, como vimos, as mulh~res estão excluídas pelas
vrrt~('I) Com. rc l;,ç5o a f-sst· c~ti,du de asslmllaçno, deve-se levar cm co ntn II nd·
de nela de 0 1a...,, ( 195 k :32) de que "a pessoa nsslmlladn pum é urna concepção razões já expostas na primeira parte dC:stc capítulo.
li° \'"° Ideal, form u<Ja pela cx1ni polaçno de "º"º nmt/111111111 (.<tKrr11ll<it1 ~ ~ mnr-
,:_na._ - <lc~-.c,i:rc~a<lo~ ~usslmil ado (Gla,cr, IJfJ. d/ ., P~ll- 33)] nté se u cxlrc·
nc?i·,.m!! radrun,..-n1c cnw nira da t rn))lrlcan,cntc . .. " (Cr. R. C. de Ollvclrn 19(10 (a), 197
-~ "" ro apé n.oo 172 e 19(,). '

196
De m:ineira ger:tl aquebs ocupações exercidas em ~ampo
Grande trnd,·m a rr munerar melhor o trabalho. ~s~o e tanto
wrd:ideiro p:u a as masculinas quanto p~ra as fem1t11nas. Ess~
remuneração dikrenciacla segue. . apro.xnnaclan~ente. o c~nt1-
nuwn Akki.:i-Cidade. Vemos. assuu. a populaçao d A lei mha
sc-r. rm :-··u conjunto, a qu ~ percebe a micli:' mais ~aixa ele
SJ.liri, (a ·sn o se consitkrar 1) que nda residem dois frrro-
"~ári, . L A ui !.1U:m a-Cid.1 k ( i. r: .. Gu11un li e Burnro) vem a
_>;?uir~ e, fi.c:llr ,'r tt.". C:.nn ) Grat k - numa es..;-~ib sahnial
~--,.:uti. ". S.:' C'\)m .'Ü , i )u,t n ,,s ~ss" grncli ,n,, (çprçsenticto
1:'~ ~ - ~ tt:~ u.~:.i l..1,:,-'$ 0.,,1 ';:t. ·.::.-s...
. , m t'-S ti~, \S d~ m .r::\ fü,,
•d:·, ~::t:.'\."i- J.. ;\ 't~J~t~~ ,'i t ' (.\'tt~:°•/'.;C/4 " ! - :'\"'tfü) S, t'' t~ \' . . ._
i:::.1.:'.s.:: ~-;~ :,; tJ..':-,.."W. ~ u_ ~~~ t,'11, Att
u:-:.tm,'.:- ,;-_,, l , ,·.uth-..+~
J:$. --::-,..~ ~·........J..., ' ... ,, ..~,.:~
"t.. . ..1. . ~ ~$.. ,' ..t~$; t\'~~;t~ ,, ~t~ ,,.~:::i ·f.:, ~~:ctn:!
..,..,.t--.S:.-~
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.,._~''-, , ..... ""'~"" :-',........
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"" ""~' ..,_.,, .., :- "-.., :- 1.: l :,.,. .. -
... .... ";:_
,11.~ ...~, ~ 'tWi!J'l~d ./J:- ,\ ~"l::-r~...,'<l lS\.·n·, ~.;;.:- ,t, l, ~ \,n Üb°U;\~, ~r,
,',~"-<~~1:~
~~~';. .. , l:' ::-~:.~~ ~ s)s, k ·-·m,-m.., ~ij,,1,, bJr,fü,) :m t\~

n.nFL-\ ~n
~1:'ltcri:11 \k
l 1n1d:'l,1-':S M:'lt·tti:'ll } h1lll':'ll
(.\,n~t 1\1._-;i,,

Aldci nh:i
-- -- ---9, 1()%
90.90 %
nur:icM C,11:in:'lnJi 111 , 11 3S,S9%
C':lillf')<) G r:indc 5,55 % 94,45%

Enqu:into cm Alikinha 111ais de ')0% d:1s 111or:1di;1s s:i1l


construí<l:1s com 111atcri;1 l n:1tural, ao ;1lc:111c.:c da c,m11111i,l:1tk,
in t:ibda que c~t :'t n11111 a :írca pníx ima :1 m:11 :1g:1is 1>11 c.:crradüs,
cm Ca mpo Cir:iudc :1pc11:1s pouco n1:1is dc 5'¼1 d,1s rcsid~m:ias
é que i.i'io c.:omtruída ,; <:1H11 éssc tipo de 111:itcria l. Cirnscqllcn-
temcntc, a cqu:11;r.o ~e iu vcrtc 110 i..: 111prégn de 111:itcri:11 de co11s-
truç5o: quase ') 5';4, de rcsidé11ci:1s e111 C:1111po (ir:111dc c 111cnos
de 10 % de mor;1di;1 'i de igual tipo c111 Aldci11lia. 1(111 Aq11id:111a-
na-CidiJdc li:t u,11 :1 ~i,:11ific.: ativa prepo11dcrf111da dc casas edifi-
cada, w rn materia l 11:itur,rl , o que ve111 corroborar nossa afir-
,,,açã_o ~ irricíal, 11otada 111cnl c :t prnp611ito de lluraco, 11(11>rc as
c~n<l 1<;1Jc\ de favc ladw, crtr que lie c11co1Jlra u 111:iioria dCsscs
n1Je,é.tntc~ Tcréna .
199
198
e de Guanandi prende-se ao alto índice de indivíduos cuja con- mem, uma vez que registra 45 ,34% de analfabctcn contra
dição de alfabetizado ou de analfabeto não pôde ser computada apenas 29,27% referentes ao contin 6cnte ma,culíno de anal-
nos formulários utilizados (para Buraco, 22,86% e para G ua- fabetos. êc;scs p crcentuél i'i moc;tra m que, mc,mo na, condiçõe,
nandi 27,9IS'é de indivíduos não-computados).10 de urbanização, pcr~i'ítc a ma ior integração do h omem na w-
cícda de envolvente ( rura l o u urba na) cm comparação com a
TABELA XIII da mulher, mais marginalizada dé:ssc proccs,;;o - como bem
ilustra de forma extrema a s ituação olrn.:rvacla na'! Rcserva.1.
H omens % :\fulheres % %
Já pda leitura da w.bcla XJV - que não faz distinção de l!~O~
\ T otais
1 1 - a cvid&ncia a constata r é o menor índice de analfab.cti.1mo
cm Campo Grande compa rado com o rcgi~trado cm Alcleínha:
Allibetiz.ados 102 62,19 80 46,52 182 54,16 o percentual de 31 ,8 1 % encontrado cm Campo GrancJc
11

Analf.are.tos 48 29,27 78 45,34 126 37,50 sugere uma significa ti va correlação com o proc.:c'l'iO ele urbani-
zação, consistente com o umtinuum Aldeia-Cidade, a que temo5
!\ã~mputados 14 8,54 14 8,14 28 8,34 referido. Nesse sentido, élcrcdiw.mos que o percentual d~ anal-
fabetos cm Aldeinha ainda seria bem mai~! se s ua pop ulação •
Totais 164 100% 1 172 100% 1 336 100% não fósse constituída, ma 'oritàriamentc de ind· 'duo.s_pJ"o.tC.l:-
1 ~ - f. sabi o que os e vangélicos fundam seu comporta-
mento religioso na leitura sistemática da Bíblia e, por csc;a
razão, cuidam de alfabetizar todos quantos - inclusive índios
TABELA X IV - sejam convertidos ao seu credo. A escola de Aldci nha,
mencionada noutro lugar, é uma comprovação disso. O certo
Aldcinha Campo Grande é que a educação formal, alienígena, constitui algo bastante de-
1 1 sejado entre os índios migrantes. 12 Verifiquemos pelo exame
População % População %
mais minucioso de Aldeinha e de Campo Grande qual o com-
portamento de suas respectivas populações com relação a
êsse valor.
Alfabetizados 106 56,09 39 56,53
Em A ldeinha - com referência ao comportamento dife-
Analfabetos 83 43,91 22 31,8 1 rencial por sexos - 61,20% dos homens são alfabetizados,
enquanto as mulheres registram um percentual de 51,04% .
Não-computados - - 8 11,59
Comparada essa população com a de Campo Grande temos
u ma s}gnifi~ati~a a lteração nessas proporções: a po~ulação
Totais 189 100% 69 100%
1
mascu_l'?ª citadina alcança 72,72 % de a lfabetizados, sendo que
1
a feminina chega a 41,67 % . Por que essa diminuiçã o do índice
de alfabetização das mulheres cm Campo Grande quando é
À base dessas tabelas pode-se chegar a algumas evidên-
cias sôbre a alfabetização, tomada como um valor crescente
( 11) Mesmo que se considere alta a cifra de I t 59% de não-computados 1
na comunidade Terêna migrante. A tabela XIII nos mostra n~o chega, amda _que 'º!"ada _aos 31 .81 % (o que seria calcular por absurdo ' e 1!
nao se consideraria_ a ~1stnbu1ção de oito casos nas categorias de alfabctizádpo
que a mulher foi menos atraída a alfabetizar-se do que o ho- de analfab~to) a invalidar a constatação de se registrar cm Cam G do e
menor ind,ce de analfabetismo. · po ran e o
. ( 12) Tiv_cmos de recorrer à categoria ul/ub~tlzaçiio nos formulários a r d
a fim de estt_marmos o nível de educação (formal) proporcionada ao 1n~· ,ca os,

n:
te (!O) Quase que se poderia d izer o mesmo com relação a Campo Grande que
11 .S 9% de não-computados. Apesar dêsse percentual, suscetível de proporcio-
com/ma d margem de êrro considerável, decidimos arriscar - tentativamente -
sociedade nacional. Poder-se-ia dizer que estendemos pcrfu ctô 1 10 pela
referentes à alfabetização ao nlvcl de escolaridade dd Terén~ mÍ:C'::~:1et~, os dados

~ranão Campo G rande com Aldcinha para efeito de análise do processo de


Urba nizaç o. 201

200
fatôres, além do protestantismo, estão_ presentes ~a situai!~o d~~
precisamente nessa cidade (portanto nas condições de vida
urbana) que aumenta o grau de alfabetização ( da população
vista em seu conjunto)? A explicação pode ser encontrada no Terêna dessa comunidade suburbana, cabe 1cm rar o não in-
f cnômeno já mencionado do protestantismo em Aldeinha: nessa
economia local, que, por ser largamente (se . bem. que uma
. t ) agr1'cola recorre à mão-de-obra Juvenil como .
comunidade a mulher valoriza enormemente a alfabetização te1ramen e , d , · f:sse tipo
com lcmcntação do trabalho nas roças omcst~cas. va
pelo fato dela lhe servir em sua vida religiosa. Ao passo que de tfabalho familia!, comum nas condiçõ_es de vida de Reser a~
cm Campo Grande, onde a população Tcrêna é cm sua grande . d . sultar igualmente num esvaziamento da Escola n
maioria católica (ou sem religião), a mulher não recebe os tena e re , ' ' · d ( t d mente
duas últimas séries, prejudicando o aprcn~1za -o no a a
mesmos estímulos absorvidos pelo homem, que tem no mercado
de trabalho a grande razão de sua alfabetização. Por outro quando se sabe que nem sempre , ·
a alfabet1zaçao completa te!11
· , · ) Se bem que nao
lado, em Aldeinha, o homem soma dois motivos poderosos re- lugar nas duas primeiras sencs pnman~s ·
tenhamos dados estatísticos a êsse respeito, podemo-nos louv~r
lativos à sua alf abctização: o próprio mercado de trabalho re-
nas opiniões de professôres das Reservas de_ Bananal, Ca~hoe1-
gional e o seu comportamento religioso.
rinha, Jpegue, Capitão Vitorino e da comumdade de Aldemha ·
Essas considerações encontram apoio noutra ordem de
análise comparativa, a que incide sôbre as classes etárias cru- TABELA XV (Aldcinha)
zadas com a alfabetização. Pelas tabelas XV e XVI podemos
examinar os quadros respectivos de Aldeinha e de Campo Classes Etárias
Grande interessados mais cm suas diferenças do que em suas
semelhanças. A alta alfabetização nas três primeiras classes 15-24 25-34 35-44 45+
5-14
etárias de Campo Grande (tabela XVI), sobretudo na classe
67,74 % 78,57 % 47,36% 50 %
de 15-24 anos, revela uma população integrada num processo AI fabetizados 50,63 %
de urbanização, procurando prover-se de técnicas suscetíveis de 49,37 % 32,26% 2 1,43 % 52,64% 50%
Analfabetos
facilitar sua adaptação a um sistema ocupacional, onde as me-
lhores profissões não podem ser desempenhadas por analfabe-
tos; as classes etárias de 35 anos em diante assinalam uma queda
TABELA XVI (Campo Grande)
brusca na alfabetização, indicando migração recente dessa po-
pulação, composta de indivíduos maduros, pouco adaptáveis às Classes Etárias
novas condições urbanas de existência. Em Aldeinha, a relati-
vamente alta percentagem de alfabetizados nas classes de indi- 5-14 15-24 25-14 35-44 45+
víduos de mais de 35 anos - comparada com as das mesmas
Alfabetizados 71,42% 78,94% 70,00% 20,00% 31,25 %
classes de Campo Grande - leva-nos a interpretar o fenô-
meno como causado pela presença do protestantismo naquela Analfabetos 14,29% 10,53% 20,00% 80,00% 62,50%
comunidade. Ao contrário da população mais velha de Cam- Não-computados 14,29% 10,53% 10,00% 6,25 %
po Grande, a de Aldeinha soube encontrar na religião motiva-
ção bastante para procurar alfabetizar-se; ao mesmo tempo, por
constituir a conversão evangélica um fenômeno passível de A instrução para o Terêna significa duas coisas: alfabeti-
ocorrer com indivíduos que já ultrapassaram a puberdade ( con- zação, com o seu conseqüente credenciamento à pretensão de
fo:n:ie depoimento dos líderes religiosos de Aldeinha), a classe certas ocupações mais bem remuneradas e de melhor status; e
etana ~-14 registra um baixo índice de alfabetização relativa- iniciação sistemática no aprendizado do "regulamento" do mun-
m~nte a mesma classe de Campo Grande e às duas classes se- do dos brancos. Se os pais residentes em Aldeinha podem
guintes O 5-24 e 25-34) de Aldeinha. Naturalmente, outros
203
202
. b r para o migrante, jovem, ela
estimular seus filhos ao ingresso na escola, motivados pel_a fo3- do por tudo o que_ Aela_ sim o~~· êle não se libertará: os argu-
ação evangélica que ela duplamente promete (alfabehzaçao significa uma expenencia d;. q - Vargas saudosistas, ressoam
: leitura de textos bíblicos, pois a professôra é protestante), os mentas de velhos, co!11o imao É no , cultivo de valôres ur-
inconsisten~es, nos ouvidos m_o ~~~te Terêna se la nça na estrada
pais residentes em Campo Grande induzem seus filhos à fre-
qüência escolar, ?bjetiva,?do, f~ndamentalmente, proporci?nar-
lhes maior traque10 no novo me10 adotado. É comum ouvirem-
banas ~ ~hen!genas q~e
O

da ass1m1laçao. Porem, atore~


1
Ag t divergentes, 14 de várias or-
sistema de
dens dela podem afastá-los, rn~egrando-os num . . o que
se na cidade, frases como essas: "Quero que meu filho vá a ' , d f. fenomeno parece expnmtr
es;ola para não ficar atrasado como eu"; "Na escola se apren- valôres recem-adota os. sse 1·d d d valor" ou como
oderíamos chamar de "tempora 1 ª e O ' ' d
de a ficar matreiro, ninguém engana mais"; "Eu não volto mais PF. th d. da "conveniência" (whorthwllile11ess) de uma con uta.
para a Aldeia porque lá a escola não é boa, não ensina o re- ir iz, . . d "f en
Da mesma maneira que as geraçõ~s co,nd!cwna1;1 t er -
gulamento"; "Vim para a cidade para meus filhos poderem
temente o comportamento intratribal e rnte~etnico, elas te~d e~
viver num lugar adiantado, com escola que ensina . .. ". O cui- a engendrar diferentes orientações valorattvas com re laçao
dado com a prole, que é um valor básico para qualquer socie- vida citadina. Os jovens ficam impressionad~s com as ~erspec-
dade, 13 assume nesse contingente Terêna citadino caracterís- tivas de vida lúdica que a cidade proporc10na, enquanto os
ticas novas, quando passa a incluir a instrução escolar como adultos se fixam nas novas perspectivas de trabalho abertas pelo
parte désse processo de fazer que seus filhos sobrevivam na sistema ocupacional urbano. Nem uns nem ou!r~s ousa~ J?en-
sociedade nacional e desempenhem seu papel na continuidade sar na possibilidade de virem a perder s ua cond1çao d e c1tadrn~.
do grupo. Mesmo os de Aldcinha, um pouco à margem d o plano esp ec!-
A diferença de gerações entre pais e filhos, de modo geral, ficamcnte urba no, sentem que é na cidade que esta o seu d esti-
não deixa de condicionar difcrentes atitudes e idéias a respeito no· e para éle as novas gerac.;ões caminham consciente m ente,
da sociedade en volvente e da comunidade tribal. Nota-se no co:no se procurou mostrar cm capítulos prnccdentes.1 5 M as
jovem T eréna uma reação contra a "vida tribal", que conheceu poucos são aquélcs migrantes que ainda se intcrc'>~a m pela_ J?O-
lítica nacional (ou mesmo local) e apl!na'i um deles p a rt1c1pa
antes da mig;ação o u que ouviu contar d.e seus pa is ou avós. de um modo mais ati vo. A éll! já nos referimos no capítulo VJ,
Ern1 reação aumtnta progrc~sivamcnte, cm regra, â medida que quando anali,;amos i.ua história de vida (autobiografia d e
z, crí;mças e a,
ado lcsccntc'i e ntrevistados são m oradores de Laudclíno) . Dentre todos os Tcréna migrantes que conhece-
ire.:.J rmi-s urbanas; equivale a afirma r que o s reside ntes cm mos, ésse parece ser aquéle indivíduo (!Ue busca d e m o do m a is
Alddnha ~ão ~ m<1i5 conform<1doo à situação tribal. A s gera- consistente sua intcgra~ão na i.ocicdadc regional. E não é p o r
çíxi rmii; nuv,1~ b u11,~c1m, h, vézcs ob5cssivamcntc, assimilar-se acaso que Lauclclino é ta mbém o único Tcréna - não-evangé-
!'Já 1/Jcfod?ck n:gfr,n,1I, t1inda que seja cm SU<1!1 camadas mais lico - que pertence a uma associação religiosa (a Liga Cató-
tr,;j,:4l . Ülcgám, inclu\ ivc, a d esconhce<:r ostensivamente na lica de Aquída uana ), frc(!Ü<.: nta ndo suas reuniões m e nsais e
rua velh~ T erén,1, cuja orige m indígena ficara marcada por indo à missa a os domingos e dias santificados. R ealça sua
sua pc,stu r-1 e pur ~eus trajes simples; a velha Juliana, por cxern- conduta rel igiosa o fato de s ua participação não ter si do indu-
p!!>, recl.:rn-1va disw e ~ mpre que p odia ch<1mava a atenção do zida pelo grupo tribal, como é comum verificar-se entre os pro-
.. p--átrbo orgulhoso" em plena rua. A valorização excessiva de testantes que formam uma comunidade étnico-religiosa de
~:fo quanto representa a "civilização" parece caracterizar a
p ventade Teréna citadina. Se a cidade fascina o Teréna aldea- ( 14) Cf. R . C. de Oliveira, 1960( a), cap. VIII. N esse trabalho relacionam o,
fat~rc_s d}•ugtntu ~ comtrgtntu que, a nosso ver, m ais atuam no proc.e sso de
ass1m1laçao dos Tcrena .
_ ( 15) O p rogressivo engajamento das novas geraçõc~ de Aldeinha em ocupa.
e •.• º/'
~ f. :t.'-nioo J. l..e-Yy, Jr .. J~S2 : 17l-J lf2. A inda qoe haja uma dialética
- .,., • a .e~) e mek,1, a lnJtr~~ - do modo como a e~tamos considerando
çoes urbanas, tanto quanto a permanente
tJtucm um exemplo dessa orientação .
procura da cidade para recreação co0 s--
'
~u.r.:,o a!ir, =,-enoo 02 fi.-wW:aóe b~ica de cuidar da prole - bem pode ser
~~=ª·-
:=.e -~ :n ••m eme-rzei;:.e da atual i ítuaçã.o do Terêna miirante paní-
- - ., U-~..:io . •
205
204

crnnde p.xkr tk pl'rí-unsào: 11 vida religiosa de L.1uddino é o
n·sult.1 l t • uma d ~ is~i o motirnda por r:m.ks de outra ordem.
inesm, :uJmitindo-se sua compl ·1:1 conversão ao cat licismo. 16
l mportn nssin:113r a e mergc ncia de um nóvo sistema d· valor.
impregn:ido de fins até então estranhos nos Tcrêna aldcados,
m..::-mo os m:iis aculturados: da congruência desse sistema e de
su:i :idt·qua ão à situação do Terêna citadino, muito poderá
depender o sucesso de seu ajustamento na sociedade nacional. CO NC LUSõES
~as atuais condições de existência. a massa dos migrantes T e-
rêna não derrogou os elos tribais. continua ndo a se a poiar nêles
em sua adaptação ao meio urba no e em sua acomodação num
sistema de classes. Mas em última análise, o êxito do processo
de integração social dependerá sempre da estrutura sócio-eco-
nômica subjacente .

' ' A ~ : ;,:t· ~. r.-, u1/Aic.al r.Jc ~ t i um re-


x .a.-,i.e~ rd 1~
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7 ,- ::tl--'CC "' .:.:.e Q..> ;;: • 1r.ct.,~
C/.-• .. f,.: .r, de, P'l"'M • a um.ai
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~ .r,~ -"·· .,..,., ,., ...1a u V/. 1.16, « a ~=..:.w.te t::"n c1t nç-" c::.161:ca~
"~ •~n -.-. ,, --G ~~t.U ( ç .~.e... e, é a a r..iet,;;çlu ~ m u po de »-
vx....-~ "'..J~~;, ~ ,,,r-,---;. ,. ~.. 1/.A ~~ .

206
't\PÍTUI O IX.

CONT RIOUI ÇÃO A UMA T EORIA


DO CONTATO INTE R(ffNICO

Ao encerrarmos esta monografia, cabe-nos extrair al gumas


conclusões suscetíveis ele responder às questões centrais. _fo~r-
muJaclas ou deixadas implícitas no correr de nossa exposu;ao
sôbre a situação dos Terêna modernos. A primeira pe rgun to
que devemos fazer relaciona-se com a noção de tribalismo, aqui
emprcoada cm conexão com a de urbanização. E m o utras
palavr:s, o que significa, cm têrmos empíricos e analíticos. a
idéia diretriz dêste trabalho, segundo a qual se buscou apreen-
der a população Tcrêna cm sua dupla dimensão: 1 de índ ios
de Reserva e de índios de Cidade; cada dimensão gera diferen-
tes situações que cabe ao pesquisador descrever e analisar.
orientado pela " gresenca" da Cidade na A Ideia-R eserva, e pela ~
" ersistência" Aldeia na Cidade. A " presença" da C idade
na eserva deve ser entendida como a incorporação de costu-
mes e de valôres urbanos (i. e., observáveis na Cidade) ao es-
tilo de vida de Aldeia, alterando-o em poucos, mas significati-
vos, aspectos. Poder-se-ia dizer que é nas condições atuais da
Reserva que certos componentes urba nos começam a surgir.
ainda que de modo incipiente. A idéia da " persistência ' da
Aldeia na Cidade deve ser entendida como a manutenção dos

( 1) f'.odcr-se-ia dizer múltipla, ~aso t ivéssem_os examinado. com a profu ndi-


d_adc _dcsciad.~ e à luz de dad~s nao-fragmcntártos, os T c rê na t:lmbém em ua
s1tu_~çao de co lo n~s de faz.end~ e de ~ o rado res em aldeias independentes. co mo
Uniao. Com relaçao a esta útuma s1tuaçao. pudemos obte r uma visão mai apro-
ximada, graças ao _estu_do de ccuo de Aldcmha, cm vários aspectos ( mc no no que
se refere à urban1zaçao de seus morado res ) análoga à União: associa ão .inde-
pendente de ~u_s membros e autonomia de grupo local. Quanto às informa •
sôbre as ·:col_onias de fazenda". t ivem~s de nos contentar co m dad colh.Jd
por vias 1nd1íc tas. mediante a entrevista e as hi tórias de vida. A d
contudo, havermos conseguido distinguir bem as respectivas uu~õc cre
com segurança o que elas significam no co njunto da população Terê na . e av
JtT· 31

209
cios tribais nas condições de vida urban~, c~mforme fic~u de- sociedade alienígena. As mudanças sócio-cult urais q ue ess_a
monstrado no exame dos agrupament~s ~·t~dmos de A~ut~aua- população sofreu, como resultado de sua migração para a ci-
na e de Campo Grande. A essa pcrs1stencia de elos tribais ( e dade não devem ser estudadas - como não o foram - sob a
não necessàriamente como continuidade de vida tribal) pro- perspectiva da ~estribaliza :- , simplesmente por_q ~c ~ão t~ve
curamos caracterizar como um fenômeno de tribalismo e cujo lugar o que se poderia chamar de perda de pertmenc,a étmca. •
sentido, nem sempre exato, devemos agora precisar. ~ a conclusão a que chegam alguns estudiosos do pr?blem~. a
propósito de situações análogas observadas . n~ ~fnca: O
sentimento mais ou menos profundo de pertinenc1a étnica se
I. A Noção de Tribalismo manteve em certas regiões, cm certas situações. Os estudos re-
centes mostraram muito justamente que os processos de mu-
Uma teoria do tribalismo, que vem sendo elaborada com dança social nas sociedades africanas não podiam ser definid os
referência a situações observadas na África, fornece-nos algu- apenas pela linha da destribalização" ( P. Mercicr, 196 1: 64) .
mas perspectivas que podem ser bastante elucidativas de pro- Por êsse mesmo motivo, a noção " ortodoxa" ou vulga r de
cessos mais gerais, inerentes às mais variadas situações de con- destribalização vem sendo rejeitada pelos antropólogos sociai .
tato interétnico, entre as quais podemos incluir a dos Terêna William Watson, evocando considerações de Mcyer Fortes a
respeito, escreve: "Fortes condenou o uso da palavra 'destriba-
do Sul mato-grossense. O tribalismo deve ser entendido, assim,
lização', na análise sociológica, e chamou a atenção para o fato
como uma forma de expressão comum a oposições que podem de que é em geral utilizado valorativamente, como sinônimo de
ser de natureza diversa (Paul Mercier, 1961 : 63) . Não seria, palavras tais como 'patológico', 'desintegrado', 'desmoralizado',
contudo, mais do que uma das manifestações de certas parti- num sentido pejorativo ou depreciativo. De acôrdo com For-
cularidades do contato interétnico. Com relação ao caso Te- tes, o conceito de 'destribalização' surge de uma falsa compa-
rêna essa consideração de Paul Mercier a respeito dêsse fenô- ração entre as condições de vida dos africanos em certos locais
meno parece igualmente adequada: "Raramente o tribalismo é nas cidades e uma vida tribal hipotética, não-contaminada , ao
uma teoria que valoriza de modo absoluto o quadro étnico em passado" (W. Watson, 1958:4). 2 Nós mesmos incorremos
detrimento do quadro nacional. E mais freqüentemente um nesse "purismo" ao classificarmos, em nosso primeiro estudo
conjunto de reações de defesa. que pode desaparecer de modo dos Terêna (R. C. de Oliveira, 1960a ) - tantas vêzes citado
• bem rápido quando o mêdo da desigualdade diminui" (P. Mer- nesta monografia - , essa mesma população de miorantes na
cier, 1961 : 74 ) . Essa desigualdade, inerente aos sistemas de categoria de "destribalizados"; os índios citadinos e ; s vincula-
dominação e sujeição, característicos das relações entre índios dos às colô!3ias de fazenda constituíram, assi m, subcategorias
e brancos não desaparece com a migração para a cidade, quan- cJ_aquel~. mai~ g':ral. .~ as apesar do uso pouco adequado do
do o Terêna pràticamente sai de sua condição de tutelado e te~~ des~nbahzado , pelo menos em razão de nossos atuais
se liberta do contrôle do Pôsto Indígena. A desigualdade per- obJetlvos, tl~~mo~ o cu_idad? de não incorrer no que F ortes
ch_a_mou de Se_?t1do pejorativo ou depreciativo" uma vez q ue
manece na cidade, onde, malgrado a diminuição da distância
util~mos o t~r~o em .. seu_ se ntido puram ente descritivo" .3
cultural - tão nítida entre o índio de R eserva e a população
Assim n_?s expr:_1m1m':s : O termo destriba/izado designa aquela
regional rural ou urbana - , tende a transformar-se em desi- P?Pulaçao Terena nao-aldeada e que vive em fazendas e e
f!Ualdade de classe. Essa transformação, porém, é suficiente cidades. Embora destribalização possa referir-se a uma 'co:
• para atenuar "o conjunto de reações de defesa" e para permitir
m progressi"o esvaziamento da consciência tribal daqueles
(2J A cit.ição de Fones apud Watso f 1• ! ·
i:tdi id: os q e desCrutaram condições singulares de vida citadina estar,. em seu_ 1ex10, mais sint0nizado a:,~ ~ ~~~~ . ~lo fa to dlste último
também por lilCOrpor ar num irabalho modc P lle - uca aqui uatada._ como
(estzmo-nos referindo a uns poucos casos de integração em ní- (Cf. Me)~~ .~one1, 1938:60--{)I ). mo re xoes e,;cm.a 20 anos ante:1.
\·-~ de ... ~se média baixa", examinados ao capítulo anterior ). . (3 J N ao Quero enuar n um críúca do uso de
aplic.ados num sentido puramente descritivo•• ( ... F
· ·
t.a15 epttetos e nquan10 nio
~12.s a sa da população T erêna em urbanização não logrou "'"- ones, 193 :6 1) .
.as::x- ~ ~ aos primeiros degraus da escala social da
211
210
dição' ( ... ) , freqüentemente ela está indicando um 'processo', externo) e no comportamento pol,í,tico, pa~ticdularmen;:s:s° d~~~
desde que se considera uma dada população vivendo indepen- denomm . amos de "luta pelo poder . Polanza a por .
dentemente dos grupos locais, apesar de poder estar ligada a d1mensoe-s, a família organiza-se
. na ald eia· de maneira. a -se
. • . d das pela s1tuaçao
êles em certos aspectos : a rigor, sôbre essa população, o grupo ada tar às condições de ex1stencia engen ra
local ou a comunidade indígena não teria nenhum contrôle de keserva (perda de sua autonomia política) e pela presença
· t o-ração na estrutura
direto e um muito reduzido contrôle indireto" (R. C . de Oli- da sociedade nacional envo1vente ( sua in e::, . . , .
, . nõmica re!tional) . as famílias extensas maJontanas no
veira, 1960a: 19, nota de rodapé n.0 189) . R etificando, agora, soc10-eco .. ~ · ' , d d . - d Chaco para
parcialmente, essas considerações, podemos dizer que, se é assado isto é quando do peno o e m1graçao . o
~s marP~ns ori~ntais do rio Paraguai, são, gradah~amente, .~ubsà
verdadeira a ausência de contrôle do grupo local sôbre os 0
tituídas"°' por famílias elementares, dando um novo se~tJ-
Terêna citadinos (e poderíamos estender essa afirmação aos família em sua dimensão do grupo social regulador da_ at1v1dade
Terêna fixados em fazendas) , não é igualmente verdadeira a econômica. Não obstante, os elos tribais parecem nao ter, so-
ausência de contrôle ( direto e indireto) da comunidade indígena frido maior enfraquecimento, pelo menos a p~nto de destruire!11
citadina sôbre seus m embros. :E:sse aspecto, que indubitàvel- a consciência tribal. Esta, provàvelmente revigorada pela aç_ao
mente faz parte das características do tribalismo Terêna, po- protetora _ por nós apontada como um instr~men_to y eculti r
deria prestar-se a confusões interpretativas, se fôsse cotejado de discriminação - , jamais chegou a _neg?r a_ s1 propna, s~l .º
com o que escrevemos em diferentes ocasiões e inspirados em em poucos casos individuais de margmahzaç?o o~ de as~!"~;
problemas de ordem diversa. Se o processo de destribalização lação: se ocorreu a desfiguração ou a obhteraçao d? , ~
já foi acionado, como o foi também o de urbanização, nem por tribal" - o que provàvelmente acontece~, se n?s e _licito
isso podemos dizer que a condição dos Terêna citadinos seja a especular - durante o "cativeiro" e P~:
e~e1to . da d1s~ersao do
grupo nas fazendas da região, a consc1encia tnbal tena encon-
de destribalizados, nem mesmo a de urbanizados, caso tomemos
essas duas últimas noções em sua acepção de etapa definitiva trado condições de renascer ou de se fortalecer com . o reagru-
e final de um processo. Destribalização e urbanização, destri- pamento das famílias nas Reservas e com o ressurgimento de
balizados e urbanizados ( êste último têrmo freqüentemente alguns grupos locais.
empregado no texto) devem ser entendidos à luz dessas A afirmação de Glukman a respeito dos Mamb~e, da
reflexões. Rodésia do Norte, de que "O tribalismo ( . .. ) sobrev1v~ _nas
áreas rurais como um sistema operacional de relações pohticas
O uso da noção de tribalismo neste trabalho encontra sua e domésticas baseadas na terra (1958:XI) ", apresenta certa
justificativa na natureza da situação interétnica vigente nas similitude com o caso Terêna. Entendendo-se tribalismo como
cidades de Campo Grande e de Aquidauana, em suas áreas equivalente à coesão tribal ( qualquer que seja o seu grau), no •
urbanas e suburbanas. Alguns sociólogos africanistas (Mitchell, õivel das relações sociais, e à consciência tribal, no nível ideo-
1956; Epstein, 1958) têm feito distinção entre o que cha mam ~o, não se há de negar sua persistência na atual situação dos
de tribalismo urbano e tribalismo rural. Nas áreas rurais, os · erena: a conservação de suas terras - graças ao estatuto e{· é"'
elos tribais estão organizados num sistema de relações baseadas protetor - permitiu-lhes conservar também a identidade ,
na produção ou na autoridade política, fato que não ocorre nas
áreas urbanas onde a "filiação tribal é uma categoria primeira,
suscetível de definir o povo nas heterogêneas populações das
-étnica.4 Contudo, essa foi menos utilizada para a produção

(4) Igual observação foi fe ita por Watson a respeito da sit uação dos Mam-
cidades" (Gluckman, 1958 :XI) . A situação do Terêna mo- bwe: " . . . os vinculos tribais persistem. O fato de ser membro da tribo garante
ao individuo o direito de utilização da terra. pois o direito à terra é urna parte
derno, rural ou urbano, aldeado ou citadino, constitui uma inalicnivcl do stalus de um africano como membro de uma tribo: êssc direito se
funda na matriz de obrigações sociais que constitui uma sociedade tribal'' ( Watson.
comprovação empírica da consistência de uma distinção entre 1958:7-8) . Watson comenta ainda que a manutenção dêsses direitos garante ao
modalidades de migração efetuada à base de dados africanistas. aborígine seu retôrno ao grupo local. sempre que não fôr bem sucedido na mi-
gração (icum, pág. 8). Com relação ao Terêna, vemos na posse de seus lotes nas
A realidade das R eservas, descrita e a nalisada na Primeira Reservas o equivalente dessa situação.
Pane desta obra, corrobora a asserção de que os elos tribais se
fundam, duplamente, na organização do trabalho (interno e 213

212
econômica do que como a base territorial ( ou o setting) sôbre domésticos de igual densidade; mas, a nosso ver, essa revi~ali-
a qual pôde o grupo organizar-se nas formas descritas e anali- •
zação da família não é senão a 5!X ressão doméstica do gQ-
sadas nos capítulos precedentes, especialmente na Primeira
ramento dos elos tribais nas condições de vida urbana .
Parte desta monografia. Mesmo nas condições de vida urbana,
os Terêna migrantes tinham na posse de "lotes" nas aldeias a
segurança de sua pertinência tribal. Tais "lotes" constituíam, 2. Grupo de Parentesco e Grupo de Referência
a rigor, a simbolização dos elos tribais, corporificados na
"propriedade" da terra. E é significativo constatar que os Já foi dito de várias maneiras, no curso dos capítulos
Terêna suburbanos, i. e., os de Aldeinha, pràticamente dispen- precedentes, a ~ida citadina, em lu~ar de isol~; o ~n~ivídu~ ~
saram tal simbolização, exatamente por se sentirem em terras Terêna do seu grupo, levou-o a aglutmar-se em colct1~1~ -
• _Q[óprias (compradas ou "doadas", não importa), sôbre as ou agrupamentos tribais, ~uscando :,ontigüi~a_de hab1tac1onal
quais fundaram sua vida a/ociativa. Com mais freqüência (grupos vicinais) e operativas relaçoes soc1a1~. Ora, on~de,
do que seus patrícios citadinos cortaram sua vinculação senão na "comunidade indígena", poderiam os migrantes T erena
com as aldeias de origem sem, não obstante, enfraque- encontrar plena aceitação de suas pessoas e apoio, p~r :xe~plo,
cerem o que se poderia chamar de "coesão tribal", ou em seus objetivos ocupacionais na Cidade? A ex1stenc1a de
esvaziarem sua consciência tribal. Nossas análises revelaram elos tribais veio facilitar a acomodação dos migrantes, abrindo
isso ao correr da Segunda Parte dêste trabalho. Na Cidade ou caminho para sua integração na ordem urbana. Não é_ de se
na Reserva, os Terêna souberam resistir à destribalização, estranhar. por isso, que tenh·a havido um natural fortalecimento
apegando-se, em cada situação, àquele comportamento que dêsses elos. A revitalização da família extensa deve ser compre-
endida como decorrência do revigoramento dos elos tribais -
melhor lhes favorecesse em sua acomodação nas novas condi-
e não o contrário, ou seja, como um fortalecimento dos cios
ções de existência. Assim, na Reserva conseguiram reviver - familiais ou de parentesco em comparação com a situa__ção de •
se bem que noutro plano - os grupos domésticos e as relações Reserva.5 A resença de agregados nos gru os familiais cita-
familiais, bem como cuidaram de procurar participar do sistema dinos vem a favor a assertiva e ue, na Cida e a noçao
de poder ( vigente no interior da Reserva), desde que não mais e grupo etnico ou tribal sobrepõe-se, de certo modo, à de
poderiam pensar em gozar de autonomia política no regime grupo familiai ou de parentesco - fato ue na Reserva nãÕ
protetor (a autonomia da aldeia União, propriedade dos Wollily, se observou. As brigas entre famílias e as atitudes políticas ( e
é um exemplo de que a sobrevivência fora da órbita do S. P. I. política interna à Reserva), muitas vêzes divergentes, punham
é possível em condições muito peculiares e somente sustentada a descoberto uma variada gama de idiossincrasias e de interêsses
pela posse da terra). Na Cidade, souberam-se organizar em pessoais e familiais, cujo resultado mais imediato era a orien-
unidades residenciais diferentes daquelas oomumente encon- tação do comportamento para o " universo familiai" . Na Cidade,
tradas nas Reservas: como foi dito no capítulo V , os Terêna por paradoxal que pareça, a orientação do comportamento
citadinos passaram a ter na família extensa e, sobretudo, na tende a se dar com vistas ao " universo tribal", ou, melhor, para
a comunidade indígena local citadina, enquanto grupo minori-
família elementar acrescida de agregados a forma mais freqüente
de organização doméstica. Em certo sentido, poder-se-ia dizer
que houve um significativo incremento de coesão social, uma (5J A_ SC:guintc afirmação de Wnllerstcin de que ..Num quadro tradicio nal •
• rural, '!m ,.md1viduo i m~mbro antes de mais nada de uma familia, e depo is de
vez que o tipo de família elementar, progressivamente adotado uma _trtbo . (1. Wallcrstem. 1960 : 120) pode ser Invertida quando o indivíduo ~m
qucst.10 magra para C? meio urbano , o nde se a.~socia a Indivíduos do seu próprio
na Reserva, pràticamente perdia terreno para tipos de família grupo , ~tnaco. mas nao, nccess:\r,amcnte, de seu próprio grupo local. A lealdade
à fam1ha passa a ser uma função de lealdade tribal, ainda que .. em gra de •
com maior número de categorias de parentesco. A dificuldade no e~t~nto, as_ lealdades familiais e tribais se sustentam milluamcnte nele 1partc.
harmoruca.. ( lbukm). o rma
de encontrar residência pode ser apontada como uma das causas
de revitalização da família extensa ou de formação de grupos 215

214
tário urbano. A inegável imp~rtância dos elos familiais e de
parentesco no processo de migração, como pudemos descrever na análise do sistema de valor emergente ( cap. VIII, item 3)
no capítulo VI, parece ter diminuído no período pós-migratório, - pela sociedade regional, urbana, que atua sôbre êles como
cedendo lugar à crescente valorização - para o grupo migrante seu "grupo r eferência". O afastamento do grupo d e parentesco
_ dos elos tribais. O estabelecimento de elos de parentesco que alguém pode sofrer ao se deslocar de um lugar para outro,
artificial (mediante o compadrio) com membros da sociedade r.omo decorrência da migração, resulta num tipo muito espe-
regional. bem como o elevado índice de uniões intcrétnicas, cífico de perda de seu sistema de referência ou de padrões de
vem mostrar, por outro ]ado, que a instituição do parentesco - expectativa orientadores de seu comportamento. Ora, tal fato
e não o grupo de parentesco migrante - é que tem servido de não se dá com o conjunto dos Tcrêna migrantes: a migração
mecanismo ampliador da base local urbana, sôbrc a qual os feita "cm família", e esta, reorganizada nas condições de vida
Terêna egressos das a ldeias ou das fazendas poderiam lograr urbana, elimina uma ordem de frustração ou de relative depri-
meios de acomodação mais favoráveis: casar uma filha com um vation capaz de concorrer para o que se chamou de "out-group
purutuya ou tê-lo como compadre significa, como vimos, au- identification".
mentar suas possibilidades de integração na vida citadina. Mas Essa modalidade de identificação que não foi observa da
êsscs indivíduos aliciados na comunidade indígena por afinidade cm relação ao m encionado grupo de afi ns, nem cm relação à
ou por laços de parentesco artificial não representam outra coisa população regional tomada globalme nte, constitui um valioso
que pontes de acesso à sociedade nacional inclusiva, sem chc- subsídio ao estudo de assimilaç:ío dos Terêna na maneira pela
g:ircm a se constituir num grupo com o qual tendam os Tcrêna qual o realizamos no passado. ;\ inexistência de uma ide nti-
a se identificar (011t-gro11p idc11tificatio11). Ao contrário, todo ficação dêssc tipo afasta a probabilidade de os Tcrêna citadinos
ç_csfôrrn--110s Terêna é d e incluí-los na comunidade indígena, serem conduzidos, nas atuais com.lições de existência aos
• objctirn. aliás, que frcgiic_!ljcmente conseguem alcan ·ar. Pode- can_,inhos da ~1ssimilaçfío.K No processo de sua integra~ão à
sociedade nac1ona l, particularmente cm sua ordem urbana
se dizer que ~ssc contingente de afins, recrutados de ntre os 0 1' A A 1 .,
~ . . ercna tem ogrado manter cm níveis ainda operac iona is os
regionais, nem mesmo consegue determinar o qu e Berreman
d1re1tos e as obrigações ema nadas do pare ntesco, como também
chama de r cfrrc11cc group alimativ11.6 Apoiando-n os ainda
- e sobrcludo - conseguiram robustece,· -1..- i·ct-1,·,->e' S t ri·tnus: ·
n:i "lcori:i de grupo de rcferência", poderíamos evocar o con- • N • • •· • ,, , .,.,

a s~t'.1~çao. c1tad1na n:ío os isolou dos parentes. Os ~rupos


ceito d e rclntil'c drpriraticm 1 para explicar a peculiaridade da fam~li :11s 1111gra 1~tcs. se lo uvaran1 muitas vb.es do parentesco _
situaç:io dos Tcrêna citadinos, ti'ío integrados c m seu i11-gro1111, trad1c1011al ou 1nst1luído nas novas condi,·ücs de cv i'st" .·.
apesar de orientados significulivumcntc - como dc111onstra111os • • f f' " • ·' t.:IICI,\ -
p.ir,l
v/1 •• onna . ,iz:m.
. ·m os víiu.:ulos lrihais , illllis1.,•·11s-' , , . •1v···
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c11ua mlc rl'ln11:a 1111111 meio •1 d vcrsu
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(11\ li ~,•,· lc,tn,1!' rc11t.11,nl, ('1•1111, 11111 11,,1,1. t'1>11•l1111I 11111 l'f'/f'f'f'lft'f! 11m111• 11nm •ltc~ll a soc1cL aL e urba na e sc11 sistema d e dasscs s11hjacc11t~
,, l'\•11)11111,1 ,ln p,•1•ula,•n., Tr, ~''"· pn, tkulnrn,r ntl' "''"' rl'ln,n,, "'" hllll1•~ d1n,ll1111~ : OL ,º, o rnpílulo VIII, dcdicndn :'I rc11l'f,ani·1.:11;i\o dos ·ru .
' ' U:l•kA111r 111r P ,~•11,•r111, ,te 111111•,• ,Ir 1dr 1t'11\'l:1 (' " ~r1111ht1l' : ,111n11,h1 M 1HllmhJN
fan11lrnls, descreve 11 n·sultndo d /\ss ,1.,.,_ . . · . f lhlS
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\ !l\l 1h 11 \ 6')(\u•• 11'* ~1 1 \h~\la,1,, tllr\l• Jh'1lr 1,,._,, l'f\ '"' 1th' IHhl11, \1:1 J1p\'IC,tí\1I,, UIHt11 f.lH(l 1
~tn1'\H" ~ 1 1 1"'1. 11â, 1 ti.e" 11t,•u1lli\J11r 11, ,· p 11' ,,,. t11 n1h·,u,, h•1U1hl,11 r u, 111 ltl(' Ji llht~, 'f\trlli l'1>11shkrn~·ncs c:\lg~111 '"iiii'ii\ i·êfci·fi1éh li . ·' ' l l t,1. ~~s.\s
h•• Oqlh1•• l lH llll 1~111 11 , 11hln,I,, ,Ir , 1,, 1111111\IIAt ,1 """" l'i>illjlilllh('ii11, •1111' 11à,1
,.,,r i,., 11n,, '"' tkscnvolvhla pôt' l{cdfkld " S"ll" , 11' tco11a /ol~ .. urhano,
:-. • 111'~!'" ª°' ,1', &!lup,, ,tr '\"" rn t,,11, ,,,,_,•" · r ,Jllf'I A1J11rlA, 1'('111111,,,111 ~ · " ., st·gu l nrcs.
1 .~ 111 lflN 1<'111 An. 111r,4 : : .1 : \~). Nl'••I' ,·11"'· ,, lr11/\111r1111 11111, • «' ilhw n•,1 l'lllfi,1
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e, Klu, 111~0) ,

217
216
3. O ··conrimmm·· e a Dicotomia Folk-Urbano Embora Redfield exagere a utilização múltipla do conceito
/olk-urbano (Robert R edficld. 1953 ), nã~ se pode negar _ s~~
0

um:i , ·
t· Ju~!lr nqui para uma e,xposiçflo da tr orin /o /k-urbano,
que cln é por d r mnis onhecida dos especialistas.
·ent'ido altamente heurístico. Se nos deltvermos na noça
:. • - · • · d
°_
a re 1açao
contimmm. veremos que êle supoe a ex.1s!eoc1a e um ' ter
1x, ·m,'-.'- npenns e.." nminar cm que mcdidn os pressupostos da definida entre a sociedade de f olk e a sociedade urbao_a. ~o~
r ,ri.1 ri-.'ntnrnm nossas indagnções sobre a realidade Terêna. ( George M. Foster. 1953) chama essa re_lação de s1mb1ót1ca~
cm s.:· us multiplos aspecros. Pre liminarmente devemos dizer demonstrando que as sociedad~s de _Jolk nao ~odem ser ente~-
qu~ n:io se procurou nesrn mo nografia con eituar o que fôsse didas sem referencia expressa a sociedade nacional eo olven~c.
urb.ino e mo também não se pretende u tomar a sociedade apoiado nessa consideração. critica Redfield por sua _c onc~pç_ao
Terena. n:i forma pela qual ela se organizou na R eserva como da sociedade de Jolk como " isolada" e distante de influencias
.t atuaJiz..q ão de algo parecido com a sociedade de folk. Por urbanas. Para Foster. interessado m_ais em est~u_t_uras do ~ue
t~e motivo . tivemos sempre o cuidado de falar em relações em processos. ao contrário de R edf1eld na op1niao de l\f_mtz
C1dadc-Aldc1a e de descrever as condições de vida urbana e (Sidney Mintz. 1954) . aquelas noções tomadas como up s
as condições de vida de Reserva, sem nos atermos a conceituá- ideais. estereotipam a pesquisa de campo e o~s ure em algumas
las em têrmos de uma tipologia ideal, à maneira de Rcdfield. das características mais evidentes das so..iedadcs estudad:is
Não se b~scou, . assim nenhuma correspondência conceptual ( Foster. 1953) ; lembra, ainda. da necessidade ~e se estnb lecer
entre as d1cotom1as /o/k-urbano e Aldeia-Cidade. Nesse sen- uma distinção operativa entre cultura e soc1ednde. qu:ind
tido, adotou-se uma diretriz fundamentalmente empírica ex- aplicadas às unidades observadas, sl.!j:im de f olk. sej:1~1 urbanas .
cluindo-se qu~lqucr possibilidade de se perguntar o que é Aldeia Fazendo côro a essa crítica, Miner observa que o polo urb:ino
ou o que é Cidade. A descrição e a análise do comportamento do co111im111111 foi muito menos caracterizado na obra de R ed-
e das formas de organização dos Tcrêna nessas diferentes ficld pelo fato de não haver merecido o mesmo interesse d
situafões'. polares em virtude do próprio processo migratório que o dr folk ( Horace Mincr, 195-) ; mas re o nhece que
Alde1_a-Ç1dadc - e,. portanto, historicamente inteligível - , qualquer corpo de conhecimento teórico das C i~ncias S c inis
const1tu1ram o procedimento metodológico usado. Contudo não poderá utilizar o co11ti11uum, sempre que isso contribua p ~ua
poderíamos dizer que o conceito /o/k-urbano, como construção o entendimento de um processo.
1dea.l, não se constituiu num instrumento de trabalho extrema- Tais considerações feitas por colaboradores ou s ·guidorcs
mente útil em n~ssa investigação. Como noções antitéticas, de Redfield ajudam-nos a tirar da dicotomia /o/k-urbano o qu
folk e urbano estimularam nossa imaginação, abrindo-nos os ela possui de mais significativo para os propósit0s de nossa
olhos para uma série de fenômenos sócio-culturais dos mais invcsti 0 ação. A noção de co11timmm, na medida cm qul.! chama
signjfi cativos para a explicação do processo de mud~nça social a atenção do pesquisador para um processo social como o qu'
so[ndo pela sociedade Terêna, particularmente cm seus últimos envolve a migração Aldeia-C idade, distinguindo ainda, nesse
cinqüenta anos. A rigor, essas noções desempenharam pràtica- processo. gradações (a idéia de gradiefll), conco rrl.!u substan-
:71_en1: o mesmo papel que as de Gemeinschaft-Gesellschaft, de cialmente para tornar inteligíveis os mecanismos de adaptação
Tonmes, o u as de solidarité mécanique-solidarité organique, dos Terêna nas diversas etapas de seu p rocesso migrató rio. E
~ Durkheim, importantes à pesquisa enquanto noções difcrcn- é nesse nível que gostaríamos fôssc compreendido o uso do
eta_dora.s de estruturas e de funções polares, encontradiças no continuum neste trabalho. Ao mesmo tempo torna-se impo r-
omverso dos Teréna modernos. E foi nessas antinomias que tante advertir que por mais heurístico que seja o conceito do
~fi.eld se inspirou ao construir seu conceito /o/k-urbano, continuum f olk-urbano, não é sôbre êle que está construída
mdo a idéia de continuum - a nosso ver sua mais feliz nossa monografia: êle é menos estratégico para os nossos fins
~ 'lr. ição - como forma de relacionamento entre os dois do que o conceito de tribalismo, examinado parágrafos atrás.
E é por êsse motivo que não cuidamos de evocar aqui as
ter~os da_dicotomia, e que, para os fins déste trabalho, é a sua
noçao m.:tS íecunda.
219
218
. _ O 1
fzemos em relação
críticas maciças feitas por Lewis ( Oscar Lewis, 1951) a propó- estudar nas mesmas co nd1çoes ~0 1!1 que ,. e Terêna
sito da utilidade do conceito, limitando-nos a indicar ao leitor . ? Enoa1'ados em colomas de fazenda, ess .s
aos dema1s. o " , · rais" como
0 artigo de Miner (H. Miner, 1952), no qual rebate ou espe-
b deriam ser classificados como pro1etanos ru . '
cifica uma a uma as críticas feitas ; do mesmo modo, reportamos em poM_ tz cs·1ndney Mintz 1953) para caractenzar u"!~
su00 ere ãomvinculada ao que chama' de Planra_tion System , "fpo ,
1
0 leitor à obra de Redfield, The Primitive World and Its
Transformations ( 1953), onde o Autor recoloca uma série de ~f ~~ ª~em difercnte do definido por Redf1eld como foi\ fA_
1
1, ~ia sociedade tradicional Terena, do m~do p~lo qua .01
questões pouco claras em seus trabalhos anteriores como por prop 'd modêlo analisado no capitulo mtrodutóno,
exemplo, a distinção entre a cultura de folk e cultur~ camp~sina reconstrui a nO • . · f lk tratar-
mostrando o quanto esta última pode participar de caracterís~ não apresenta inteira consistencta com o tipo o , por d
se de um sistema estratificado _em camadas, e ~stru~ura d~
ticas. de cada um dos têrmos da dicotomia /o/k-urbano (R. para atender às necessidades cnadas por uma s1t_uaçao d
Redf1e]d, 1953:39 ss.). Isso nos ]eva a uma derradeira consi- con·unção intertribal. Estamos de acôrdo com Lewis quan o
deração. lembra que "Os têrmos folk, rural e urbano ~?ra!1gem: ~ada
Trata-se da aplicabilidade do conceito de folk à realidade um uma gama ampla de fenômenos com vanave1s mu~t1plas
Terêna. Não que a discussão da adequação do conceito deva qu~ devem~ser cuidadosamente escolhidos, ordenados, analtsa~os
envo~ver n~cessàriamente a noção de continuum, que - confor- e posslvelmente redefinidos, se vamos estabel_ecer rel~çoes
me fic?u d1:o -: desempenhou um papel definido e positivo em significativas e causais entre êles" ( Oscar Le~1s, 1953 .13 ~ ·
nossa mv_estigaçao. Porem acreditamos que o exame mais detido Estas considerações mostram o quanto estamos cientes da ~ebi:
do c~nce1to de f?lk, no modo pelo qual está expresso na obra de !idade do continuum /o/k-urbano quando o seu uso nao e
Redfield, podera trazer alguns esclarecimentos sôbre problemas cercado de cuidados tais como o de não reificar os têrmos da
mais gerais relacionados com o nosso estudo. Poderiam os dicotomia e o de utilizá-lo, heurlsticamcnte, como fonte de
1:erêna modernos, localizados em Reservas-Aldeias, ser classi- questões a serem respondidas pela pesquisa empírica.
ficados como membros de uma sociedade de / olk do mesmo
m,odo que_ se~s anc~strais, cujo sistema social foi fixado por
nos no pnme1ro capitulo e tomado como a "linha básica" da
4. A Situação de Grupo Minoritário
sociedade Terêna? Vimos a enorme diferença entre as formas
Poder-se-ia dizer que o estudo do "caso" Terêna haja tra-
de organização social inerentes ao sistema social tradicional e
zido alguma contribuição à teoria geral do contato interétnico?
as observadas nas atuais condições de vida de Reserva. Poder-
Difícil dizer, sobretudo se colocássemos como questão primeira
se-ia dizer que a sociedade indígena tradicional e a sociedade
a pergunta: existe essa teoria geral? Por mais estudado que
indígena moderna, como a descrevemos na Primeira Parte, tenha sido o contato interétnico, por sociólogos, etnólogos ou
apresentam diferenças muito mais expressivas e radicais do que
psicólogos sociais, êle ainda permanece um campo onde o
as que apresentam entre si os diversos segmentos da sociedade conhecimento é mais fragmentário e as posições teóricas e
Terêna atua], i. e., sua população a]deada (residente ou não metodológicas mais controvertidas. Não vamos aqui indagar
em Reservas) e os agrupamentos citadinos, descritos na Se- sôbre as causas dêsse estado de coisas, se bem que sejamos
gunda Parte da monografia. Essa constatação vem corroborar inclinados a admitir que talvez a razão principal esteja na falta
algumas c!as mais sofisticadas críticas que o conceito folk- de um entendimento sôbre o uso de conceitos e categorias entre
u'.bano _tem_ recebido, quando demonstram que os têrmos da os especialistas dedicados a êssc tema. Mas não se pode dizer
dicotomia nao conseguem conter tôdas as variações dos fenô- também que os conhecimentos parciais obtidos não se somem
menos observados. A considerar o continuum do ponto de vista de alguma forma, vindo a se constituir em esboços de teorias
~strutural, como desejaria Poster, teríamos de tomar os Terêna mais integradas sôbre certas modalidades de contato interét-
· . e ~eserva como um "tipo" intermediário entre os citadinos
msendos num sistema urbano, e os antigos, isolados do contato
221
com os brancos. E os Terêna de fazendas, que não pudemos

220
nico.9 Queremos mencionar, especificamente, a já expressiva
divisam certa hostílídad e racial. E é nas condições _d e
. urbano que êsse statu r tem o seu maior pvso
vl~ª
massa de informações, em grande parte sistematizadas, a res- vigen!es no meio , d. não conta pràtícamente com o
negattvo: na cidade o 1n 1? , . . ., (n11pel
peito da situação de minorias étnicas ( viz. nacionais e religiosas) . d S p J e a inex1.stenc1a de uma med1açao ,...-
apoio o · · ., ·d d · d' ena e a
em contextos interculturais. Os Terêna, com os demais grupos tad pela Reserva) entre a comum a e ln !g . . d
tribais do território brasileiro, podem ser, assim, classificados na rep~edsende ~acional torna a exteriorização de sua ident1da _e
categoria de minorias, de acôrdo com o conceito já consagrado soc1e a d t térmos da praxlS
étnica inteiramente contrapro ucen e e": - . 1 dos
na sociologia das " relações raciais" segundo o qual um grupo b 12 Mas se os descendentes Terena sao est1mu a _
qualquer ( étnico, nacional ou religioso) constitui uma minoria uaresªcnaam. otear sua etnia no meio "externo", paradoxal mente sao
. · · ... t " como
quando a sua origem ou as suas marcas "raciais" são invocadas 1 dos a fortalecer os elos tnba1s no me10 JO _erno- -
pela sociedade politicamente majoritária (pois minoria não é ~va _ como técnica de sobrevivência numa_ s1tuaçao adversa.
• um conceito estatístico) para discriminá-lo, segregá-lo ou per- 1~~~eQrarão dêsses Terêna citadinos num sistema ? e ~la_ss~s
segui-lo, alimentando a seu respeito a mais variada gama de -- · d Terêna de Reserva, dificultados pela inst1tmçao
- e nao os · 1 o as ao
E!'econcejtos.10 E não somos os primeiros a usar o conceito mediadoran _ só parece esta~ sendo poss1ve ="raç .
em relação a índios do Brasil; Wagley e Harris o fizeram em seu balanceamento de todos êsses fatores. ~x_ecutado ~?r m~ /°:ª
noria étnica em suas peculiares cond1çoes ~e ex1st~ nc1a.
estudo sôbre as minorias no Nôvo Mundo (Wagley e Harris,
ambivalência do Terêna em processo de 1?t.~~raçao numa
1958), apoiando-se, para o "caso" brasileiro, num relatório sociedade de classes fica por conta da a mb1gu1_d ade de s~a
que Da rcy Ribeiro preparou sob os auspícios da UNESCO. própria situação. A variabilidade de sua conduta e uma funçao
\'imos nos capítulos precedentes que a situação de Reserva do comportamento do ourro, i. e.: do purnruya .. Entre ~mbos
constitui uma modalidade de segregação dos índios residentes, surge a comunidade tribal reorgamzada e fortale cida na Cidade.
ao apartá-los da sociedade regional e submetê-los ao estatuto con;o elemento mediador do contato inta~tnico l'. ao_ qu~ t_u~o
protetor. com tôdas as conseqüências advindas de um trata- indica. como uma substituição altamente funcional da mst1~mçao
mento singular. A sua condição de m enor perante a Lei brasi- protetora: da proteção vinda "de fora". passam os Ta<!na a
leira t orna-os permanentemente dependentes nas formas des- uma forma de autoprotcção. como que "\'inda de Lkntro". _ A •
critas nesta monografia. Na sua situação de índio citadino, teia das relações cstabekcitbs ou rcstabekci~b ~ no tunbi_!O da
qu:mdo se afrotL~nm as relações com a instituição protetora, o comunidade indi~ena citadina passu. assim. :1 ser orientada m11~
Tl'rêna ainda tem a chance d e eludir a discrimin::1çüo e o pre- ,11vo sentido l.k7rib:lhsmo. conH) rcsufüülo l ~ _sit_!l:~ç:lo_de _!!li-
conceito, at~ o momento em que se va descoberto cm sua noria cm que se encontram os T \.'rênn. 14
concliç:io d e .. bui;r_e·• : a partir de então o seu status p::1ssa a ser
• o de ·'cidadão de segunda clnsse''. 11 Na pre, isão disto é que ( 11) sr", l't'ffril nmc.·nlc ...-,,n slstt'llh'S "~'"' t:-SS(\S \.·,,nsl,t<-n\..;,X•s !\~ \:,,nc\\1$,~ S n
os Terên:i citadinos, notadamcnte os de segunda geração, ft'S\'l'ih, ch,s tnt·~nnisuh,s li~ hkn1ifh.·n,1\,, c.'tnh,·n. o qn<' '-' hc~anh,s "'" '"'~s,,
t\rt h:.,,
" Thr R,>I<' l'f hull:m l'Mt< ln th,, l'r,,,,.. ,s ,,f Assl111ll,1t \,,n" \{'f. H. C. ,te Ollvd-
procuram escamotear sua etnia diante do branco, sempre que r:1, 1Yhll h) : ~ 1w,·<'ssl,t11,lc ,k " r r,,1,·,~,,.. ln,h,~ ,, """'' " rdvln,lk<tr ""' l,kntl•
ftl.".n~t\o t'tnk:\ 1\1.l 1\\1.\t\Wl\h' l"'I\\ que.~ C"l:\ é \"\\lS\:l t"ll\ ,h\vl,1,, ~ qH:uht, ,. {'1.,rl'1u, f1.,r,,
.i,1 11k111wc ,t:1 pr,>t<',~,, ,,fld11I (Sl'I), s1111 <'lllht ,,,1,s:1 11 Ih<' S<'f hK.:\m,ul.1, l' (111,,
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,tf<I m,,,t,111.J:\,1<1
(9) "Um:1 tt'ori:i ckntíficn é um:i tenlot/l'a p:irn uniflcor co nht'clmcntos cs- ,te lnh.·~ru~n", numa s,),·l~l.l:\dc ,I,• l.' h,ss~s ,l<l 11,,,, rur,,\. \'tu\" ..'<'..th.'~ qu~ ~s,~s Ttr~n:\
r s~os: poucns ,•hcs cl:1 se nrrcs.-nrn, de in ício. c0mo 11111 fxito rcrícito, e o sls- o os dr,111/111~.,· r(1wcscntam o~ t.h,ls St'"'-1\l'-"""'~ ,10 unrn n,~~tlH\ p,,,\u1:,,tt\, lnJ(w(ntt
tcm l, de urlicaçno de foto que clu ntls oferece é rcl:ulvo no estado 1,tcrnl dos co- quo m:,ts l\~ :\l_lll\ntnrnm ""' ,u,,~c~s,, ,te lnt,• t,1.nu;l\0 na s,,'-'l<",1,hlC n,\"'l\,unl .
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peclolmt'nlc , Oracy N<>r,:udra ( 1955) a prnp6,ilo du dlsthi\·i'.lo en tre preconceito d<l .l,1 ,11s,·rh11l1111,n,, .!0 seus mcmhn)s, dt.1111 n ,c1111l11lll ,tcfh1l,n,, ,k L,>(\..c e Stern :
;'ª;,ca e .rrcc<>n~ i10 de or/Jlrm, ulcntando parn u cnrnctcrlza\·iln do prccon~clto "lJm wrn11,1 ml11llrlttlrl,1, h11.lll\'<l11,l~11tc ,lc H1111t111ho ,111 ,·,,11,1lt11l,.;fi,1, ê, ""''"'· Ili<:•
tcri:a d" C'l •m;nnçno no mo J,, nuno ,,correm 11,1 1.lrn~II, com rcl11çn,1 uo nc í!rn: curnc- lhllf c11r11.-101'11.i1,h, como 1_1n1 11rnp,1 .,,,·tal, (\ljn ~,llkl111·lc,la,I~ é ,llllllm1l11\\J i\ h~•l-
• 0 fcnonwno corno preconceito de m arca - que parece ser do mesmo tipo c,11110nt0 pcl1.1 prcss~\I oxlcrno, '-1\ló " lllr,.;11 1.1 vive r " "' 1~1111<1:1 ,te \lf>,Jsl,.;~,;, 0 ,,,u• ·
Que o conuaiodo cm rclaçno ao lndio, cismo" (l ,oçkc e Stern, 19<1'2:41i5, " '"" ' Slrnp,,m o Yl1111cr, 01111., , 11., 11011. 19~) .
~r
que
~~~!,e1/! hituriçúcs de índio s d11 Fa:cmln 011 aldcodos f o ra 1l11 Uc.rcrl'f1.f devem
n i~radas como ..cndo variantes de um mesmo ~lstcma fnter tt nlco, urno vc;r.
quer Otem~uto protetor, obran11cndo, tc,~rlcamcntc, todo~ Quanto8 ti<l,sam c rn qunl· 223
los iempre provw~. •u~ ;,0ndí,5v de lndio, le va a populaçGo re11l1111a l u considerá-
como cld;,d;i.01 de i.c2uoda cla~:,c", tllo lv11O ldcnt1ílca111 ~ua etnia,

222
A situação de grupo minoritário em que se encontram os
Terêna. particularmente os citadinos, parece-nos ser o aspecto cava _ i. e., como teorias do tipo f olk-urbano indicavam -
principal que o analista ~leve considerar e~ vist_a seu valor ?e que êlcs não poderiam ter lugar. Bruncr, es_tud~ndo grupos
cstratérico para o entendimento do contato mtcrctrnco cm geral Taba Datak afetados pelo processo de urba nizaçao ª? n or~e
_ i. e., sempre que ocorram rclaçôcs de dominação-sujeição, da Sumatra, ' na Jndonésia, escreve ~uc "~ontrí:1riam_c nte a teoria
no sentido de llalandier (G. Balandicr, 1955) - e, de um tradicional [ refere-se, entre o~tras, a t~?~ia de Rcd_fi eld ( R~ O ) 1
modo rodo especial, quando processos de urbanização, modcr- verificamos que em muitas c1c.ladcs asiat1cas a socieda~c n:io se
nizaçiio e mesmo industrialização são irrompidos na sociedade torna secularizada, o indi víduo não se i~ola, a orga n1zaç~o de
mais rústica, cm dccom:ncia da conjunção intercultural. Pelo parentesco não se rompe, nem as _r~l~çf1es s'.' ~i~i~ no meio ur~
menos essa parece-nos ser uma hip6tese de trabalho de grande bano tornam-se impessoais, superficiais e utilitan as ( . .. ) .. C
fecundidade no esttH.lo de grupos "raciais" ( étnicos, nacionais evidente uue os conco111itantes sociais e.la tram içfi o entre a vida
ou religiosos) qu:111do nêles se pude r surpreender sua condição rural e a urbana não são os mesmos no Sudi.:~te da Ási_a e ~a
de minoria. Tal condição, a nosso ver, seria responsável pela sociedade ocidental, mas porque as coisas se pa~sa m assi m nao
não-emergência, por exemplo, da desorganização social ou do está inteiramente claro" ( Edward Bru m:r, J<J61 : 508 ) . !lruncr
chega a conclusões cm muitos ase ectos se~m:ll~antcs. as . que
esvazi:1111ento da instituição do parentesco como norma regula-
poderíamos apresentar com rclaçao aos ~crena citac.J_m os_.
dora da vida social quando o grupo cm questão sofre os efeitos Aponta cinco causas explicativas do que acrcd1!ª. ser peculia r a
dos processos acima mencionados. Poder-se-ia dizer, nessa conjunção intercultural estudada, e que sumariamente tcnt_a-
linha de raciocínio, que a teoria /o/k-urbano, deixando de con- remos reproduzir: l.ª) migração para a cidade com " se u sis-
siderar essa condição, como uma variável independente, não tema de aldeia razoàvclmcnte intacto" ; 2.ª ) constituindo-se
pôde prever o aparecimento de fenômenos que viriam infirmá-la. numa minoria cristã, numa sociedade predominantemente
Isso quer dizer que a irrupção daqueles processos de mudança islâmica, o que resultou na intensificação de "seus sentimentos
sócio-cultural em sociedades não despojadas de sua "inteireza" de solidariedade intragrupal"; 3. ª) manutenção de estreitos cios
e de sua autonomia de grupo societário encontraria explicações com seus parentes rurais, formando o que se poderia cha mar
bem mais consistentes na teoria f o/k-urbano do que nela encon- de "uma rêde de comunicações, um sistema socia l" ; 4.ª) a
tram os mesmos processos envolvendo minorias. E não foi por cidade em que residem é um centro urba no etnicamente hetero-
acaso que no estudo de minorias se logrou encontra r fenômenos gêneo, onde não se nota nenhuma predominâ ncia numérica ou
inexplicá,·eis em têrmos do contimmm folk-urbano. Fenômenos cultural dos grupo em contato, sendo que " não há nenhuma
administração colonial sobreposta munida de um programa de
como a ausência de desorganização social ( em grau expres-
mudança cultural dirigida e o poder para executá-lo, e nenhuma
sivo) , conforme demonstrou Lewis em relação aos T epoztecos cultura ou sociedade indonésia marcadamente nacional desen-
da Cidade do México (O. Lewis, 1957), ou a p ersistência da volveu-se até o presente. O s Batak urbanos não só carecem de
instituição do parentesco, como o demonstrou Barnett a propó- modelos alternativos de mudança, mas encontram em seu adat
sito dos cantoneses imigrados para os Estados Unidos (Milton [i. e., em rna organização social e cerimonial (RCO)] a b ase
Barnett, I 960) , 15 puderam ser observados quando tudo indi- única da ordem moral na sociedade"; 16 5.ª ) em razão das

(15) Bamcrt c onclui que " :-luma sit uaçã o de contato que não conduziu à munidadcs de origem francesa, respectivamente no Canadá e na Nova Inglate rra.
'assimillção' total. a orientação da vida econômica cantonês-americana tem ~id? Desprcs chega a demonstrar que o alegado caráter não-instrume ntal da o ri:aniz:ição
comuuu..a. canaliz.:i.ndo a a thida de segun do linhas q ue se aproximam da espec1alt- fam(lial numa estrutu_ra . industrial não proce de, provando a alt:i operosidade d:i
za?(l OC'.1paciooal étnica. Uma q uestão le vantada em outro lugar por Ralph Beals, fam1ha bilateral de 1m1grantes canadenses nos Estados Unidos. Para um a pro-
'O pare::uesco se red uzirá à insignificância na Cida de Chinesa?' (R. Beals, 1951 :9) fundamento_ do problema das relações entre sistemas de parentesco e ativid:idcs
r _res;::,o:;c!ic!a oe ste caso negaúYamentc. Pelo menos no q ue diz respeito às situa- mstru mcnia,s,. Yer_ J!ennett e Despres (1960) .
ç~s urbanas oo nc-americanas. a adaptação econômica chinesa tem sido acompa- • (16) A mex_,sten~,a de uma pre dominância ''.numérica e cultural" de um grupo
rna.:a per i:ma ad:~o pcr;istente a muitas normas de comportamento Kwangtug, sobre outro. n_a snuaçao de contato. confor~e afirma_ Bruner. não retira dos Batak
~ aéloe,:ic ii5 rclacio:-ia das ao parentesco" ( B. Barnett, 1960 :46). A propósito a sua_ cond,ça<? _pelo menos d<: gru_po c~1stao. m mont ãno, i. <'., a sua qualificação
. pare:::e;co_ ~smo cm ~ituaçôes de contato marca das por "reduzidas distân- d_e m i_noria ul1g1osa. As demais afu maçocs deste item marcam a sing 1 ·d d d
snuaçao dessa população asiãtica. u an a e a
aas cult::ra:.~. ,·emos que a urbanização ou a industrialização não o anulam,
cozo se l>Oderia imaginar tendo por b ase a teoria / o/k-urbano. Garigue (Philip
G ..n~. l956J e Oesprcs ( Leo Despres, 1958) mostra m isso com respeito a co-
225
224
condições de vida urbana na Indonésia de pós-guerra, deu-se
a intensificação da organização social e religiosa Batak e "do matricenter de que fala Hammel, uma vez que o h;>n_iem, e!110
sentido de identidade étnica Batak na cidade" ( cf. Bruner, seu a el de chefe de família ou de grupo domes!1co, na,
1961: 519-520). Desconhecemos se Bruner publicou uma cheg~u pa ser substituído, malgrado ~u_a posição tenha sido sens;=
·monografia sôbre a situação dos Batak, porque uma comparação velmente enfraquecida já nas cond1çoes de Reserva, se com!?
rarmos com a que ocupava no sistema _tradicional. Em terceiro
mais extensa e sistemática de seus dados com os colhidos por
lugar deve-se mencionar a manutençao de lotes na R eserva,
nós a respeito dos Terêna poderia ser altamente elucidativa dos
com; um mecanismo de conservação de vínculos ao grupo
"concomitantes sociais da urbanização" e de sua dependência
local e, conseqüentemente, como um sím~~lo - . concr~to ,';
"da ação r~cíproca de dois conjuntos de fatôres, a natureza da
cultura mt1va e as condições da urbanização" (Bruner, 1961:
seguro - de pertinência tribal ou de c,~ad~rna er~na , !
sempre que esta nece~sita~se ser evocad~ p~l~ md10 (seja diante
519). de seus patrícios, seja diante de func1on<1nos do SPI ou de
No plano em que desenvolvemos nossa dissertação sôbre outras autoridades). O respeito dêsses lotes nas Reservas, e o
os Terêna podemos apontar alguns fatôres que concorreram desejo, manifestado por uma grande mai~ria: _de conserv_a:los
para a persistência na Cidade de formas sociais enoendradas
0
a despeito da migração, bem como a penod1c1d~de de _v1s1~as
nas con~ições de cxis_tência na :Aldeia-Reserva. Em primeiro às aldeias, atestam o que Bruner chamou de ~omumc~twn
lugar, ha de se considerar a sl/uação de grupo minoritário, network" ou a existência de um único sistema social. Eqmvale
claramente marcada: sempre que manifestada sua etnia (ou a dizer c1ue os Terêna citadinos não constituem senão um
sua, c_ondiç~o de "bugre"), o que é muito freqüente, graças ao segmento,. urbãriizádo, de um,a única sociedade, submetida a •
fen~t1po aliado a um_ c?mportamento característico (postura, substanciais transforn1ações.::! Em quarto lugar, destacamos
vestimenta pobre e, prmc1palmente, modo de falar), as relações a possibilidade de participação em cerimoniais celcbrad_~s por
com o branco (ou o purutuya) tendem a assumir aspectos koixomuneti, quer nas aldeias, notadamente por ocas1ao do
oheokoti, quer na própria cidade (como em Campo Grande) nas
paternalistas ou agressivos, segundo o assunto em causa. Essa
práticas de curandeirismo de um koixvmuneti urbanizado. Se
situação está permanentemente a avivar sua identificação étnica
a ida à aldeia para assistir ao oheokoti concorre para revitalizar
e a ,. procurar, conseqüentemente, nos "seus iouais" nos seus
. b ' a "consciência tribal" e as relações com suas parentelas, as
patnc10s - como chamam aos membros de seu in-group - o
sessões xamanistas realizadas na cidade representam um
apoio social e psicológico de que necessitam. Em segundo lugar,
aspecto importante na vida social da comunidade indígena cita-
a migração em grupos familiais, ligados por vínculos de paren-
dina, servindo de mecanismo de estreitamento das relações
tesco e/ ou de localidade, não os privou de seu sistema de refe-
tribais no meio urbano. A vida religiosa propriamente dita dos
rência familiai e tribal, evitando-se o que se denominou de Terêna modernos, tanto da Reserva quanto da Cidade, trans-
re/ative deprivation e suas conseqüências na organização dos cende a cu!tura tribal (ainda que dela não se liberte totalmente),
agrupamf.'ntos citadinos. A reorganjzação da família em moldes orientando-se para um catolicismo e um protestantismo muitas
mais adaptados às novas e urbanas 17 condições de existência vêzes equívocos.
não resultou numa descentralização da liderança na ordem 1:.sse5 fatôres, que destacamos como os mais sionificativos
doméstica, do homem para a mulher, como pôde observar permitem-nos avaliar, com algum rigor, as conseci'üências d~
Hammel (Eugene A. Hammel, 1964) entre "favelados" pe- contato interétnico num determinado grupo tribal do Sul mato-
ru~nos como conseqüência de sua migração rural-urbana. A
ev1de?te valorização da mulher Terêna, ocorrida nas condições
\ 18) A unidade dos Terêna, na diversidade de suas situações ( de Rescrv d
de vida citadina, não foi suficiente para institucionalizar o :"'Ideia independente, de colônia de Fazenda. ou de Cidade), é O ue ª·
indicar qua_ndo falamos na sociedade Terêna. Nesse sentido r~· it se pretende
e
ociosas quaisquer ~iscussões sôbre a dicotomia Comunidade-Soci~dad: (o~ ~?"!º
dLc To 01es()J oMu S?bre o conceito de Sociedade. na moderna acepção n;c! ~;a~1~~
Aldeinha const·1tu1· uma ~1tuaçao
(1?)a Cam
oposto · - à J)arte_. como vimos,
· ocupando o extremo
1
evy, r. . anon Levy, J r., 1952), por exemplo.
uuímos na s/' 0 dGrapnde no contmuum Alde1a-C1dade, que perfunctõriamente cons-
gun a arte da monografia.
227
226
orossensr. Revelam-nos como uma população aborígine pode
;tingir os mais altos níveis do processo aculturativo, sem que
seus membros percam sua identificação étnica, conservando-se
índios - muitas vêzes e paradoxalmente - para poderem
sobre iver. A assimilação individual, numericamente inexpres-
siva considerando-se a população Terêna em seu conjunto, não
representa o caminho mais fácil nem o mais seguro para a sua
acomodação numa sociedade estratificada em classes, e na qual BIBLIOGRAFIA CITADA
não poderá ocupar senão os estratos mais baixos. Pelo menos
é o que a experiência tem demonstrado com relação à grande
massa dos Terêna rurais ou urbanos, cuja capacidade instru-
mental está aquém das solicitações da sociedade envolvente.
Mas a integração que êles lograram alcançar na sociedade
nacional afigura-se-nos cada vez mais irreversível, na propor-
ção em que se caminha no continuum Aldeia-Cidade. Os dois
têrmos dessa dicotomia e os processos sociais a êles subjacentes
- tais como o tribalismo e a urbanização - fornecem ao Te-
rêna moderno algumas alternativas nas modalidades de integra-
ção, sem lhes oferecer, contudo, qualquer possibilidade de
coexistência autônoma e independente em relação à sociedade
regional, ainda que fôsse nas condições artificiais de Reserva.

228
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~ s: n.:a si::l.;,les::i~te., no caso. de oz.is
1:::::l rTTO. :::l3S do p±:)erro li--TO d e UDa CO-
le,.;:ã.1 ç:ie se =o::ismti,-i c =a Bi:Jlio:eca de
L"T~,l...,f'..:i Br:=s:.Irfr,i
Há n uito te.:n;,o que se tomara e,i de.nte
o f--do de c;ue as pesquisas sôbre as sociodade.s
t:ibais não só ofere.:iam farto m aterial de
refletia aos cientistas sociais. independente-
me:i1e do campo de esP"'-'ialização. como co-
Joc.a,·arn em e,idén~ia um dos aspectos m ais
dramáticos da ação colonizadora interna. As
modificaçõe.s ocorridas em pouco mais de um
decênio não afetaram apenas os pesquisadores,
que se livraram de tôdas aquelas condições
de alheamento, tradicionalmente caracteriza-
doras do trabalho acadêmico, mas também
dos seus leitores, que além de muito mais
numerosos abandonaram por sua vez a atitude
neutra, de meros apreciadores de conhecimen-
tos, e passaram a encarar o saber como ins-
trumento de ação. Numa sociedade cheia de
perplexidades, em que os conflitos abertos
ganham ressonâncias prolongadas, não sur-
preende que uma temática outrora circunscrita
por um círculo limitado de estudiosos atinja
afinal a sua verdadeira dimensão, e se incor-
pore definitivamente ao conjunto de problemas
bras ileiros mais sérios, pela permanência e agra-
vamento no processo histórico do nosso desen-
volvimento sócio-econômico. Assim o proble-
ma do fndio, como o do Negro, não volta pro-
priamente ao debate das questões relativas à
formação da sociedade brasileira, do qual, por
fôrças de ideologias positiva~, de fato nunca
foi afastado. O que aco ntece é que éle sai
do plano hi~tórico, para colocar em evidência,
com u= crueza imprevi\ta, a realidade pre-
i.ente, a f~ atual do processo, os aspectos
rru.ib vivos das fórças que movem a nossa
vr.i~ no v.ntido de uma d~jada e pro-
Yhtl inv.v-i.çá') harmónica de Lodos os tieus
ekmenttx.
Ni. Jtíl, /i,,u:,,a de RIMW?,la JJra4fleíra, que
~,~ '.tmitituíd.. v .h a wperví~iQ e ,e~P')nsa,
r,i~í-!..~t lfM.Í.'. iit <!a l>ívi~w:1 de Antropofogia
t:~ U: li VI V u ,._ • ""' - - . -· - .
última data carimbada
-;:);~-------- do Museu Nncionnl, os jovens universitários,
- . - --- -.. ----- - --------1 nlunos dos Cursos de Histórin, de Ci~ncias
Sociais e de Geografia, encontrarão pela pri-
---- -- - -----1-- -- -- meira vez - e isto depois de trinta anos ele
funcionamento cfêsses cursos - uma bibliogrn·

------- -------------- fia fundamental, criteriosamente selecionada,


e de f6cil aquisição. Pela primeira vez os
estudiosos - por dever 011 por gôsto - do
- 1· • --- - - - ----t universo constituído pelas sociedades tribais,
tão diferente do nosso, mas com o qual nos
- ----- -----·- --------1 encontramos exi~tencialmente relacionados em
vários planos, deixarão de ser postulantes de
favores junto a instituições oficiais, até bem
pouco as únicas editõra, dêsse~ trabalhos.
) Com os livros da JJiblioteca de Etnolof(ía Ora-
.ri/eira cairão também duas outras barreirH

• J - a · da língua e a do poder aquisitivo em


dólar.
A coleção tem início num momento opor-
tuno e com uma obra cujo significado tran~-
cende o conteúdo, uma vez que ela oferece
uma "Contribuição a uma Teoria do Contato
lnterétnico". Segundo o próprio autor, ela
tem como objetivo "integrar os resultados da
interpretação do caso Terêna no corpo de
conhecimentos, polemizado e controvertido, no
qual se defrontam diferentes perspectivas teó-
ricas e metodológicas". A consciência nacio-
nal acaba de ser abalada pela revelação de
que entre a ideologia das relações com o índio
e a ação da agência governamental encarre-
·gada de assegurar o cumprimento dos seus
postulados produzira-se uma dissociação de
conseqüências trágicas. Uma das finalidades
da Biblioteca de Etnologia Brasileira será for-
necer os fundamentos científicos para a ela-
boração de uma política indigenista despida
de atributos emotivos, e colocar o problema
do conhecimento das sociedades tribais no
mesmo nível daqueles outros conhecimentos,
l EBITTIB3LLjl~:YTTIE~C:J.f:GPPiuiíi'Bq;L~IC-;;;AAãi"M;;-U; N-;:-1C~l;P
_:_:
A~L~ que por consenso geral são considerados como
os únicos instrumentos válidos para a tomada
ranc,sco Alves Correa l de decisões de afetar o destino das sociedades
humanas.

:
1
-- __ Aquidauana L. DE CASTRO FARIA

1----=---_-_-_-_-_-_-_-_
_-
~
ROBERTO CARDOSO DE ÜLIVEIRA

1 Licenciado em Filosofia pela Faculdade de


Filosofia, Ciências e Letras da Universidade
de São Paulo; Doutor em Ciências (Sociais)
1
.-
1
l
-
pela mesm~ Faculdade. Diretor da Divisão de
Antrop_?logia do ~useu Nacional (Universi-
dade _Federal do Rio de Janeiro). Chefe de
--------- ...
Pesqu!sa (bolsista) do Conselho Nacional de
Pesqmsas (CNPq) . Autor dos livros O Pro-
cesso ~/(, Assimi/aç<1o cios Terêrw (1960) e

- ----- O lridw ~ o M1m1Jo dos 1Jri111cos; 11 situari1o


do.f Tuk1111a do Alto Solim,,es ( \ 964).

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