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RENATO ORTIZ CULTURA E MODERNIDADE A FRANCA NO SECULO XIX UNIOESTE Campus de Foz do Iguacu PIBLIOTECA editora brasiliense UNIGES: BIBLINYECA a7 pus de Foz do Iguacu| grad, 2 por meas mecdnicos ou outros quaisgue via do editor ISBN: 85-11-08072-4 Primeira edie eparacio de originais: Jan Revisao: Eduardo Keppler e Rosemary C. Machado Capa: Paulo Monteiro Dados nteracionsis de Cetalowaeto na Publicaedo (CIP) editora brasiliense s. E-mail: brasiliense Home page: wwweditorabr SUMARIO Introdugio Os Dois Séculos XIX Cultura e Mercado Luxo e Consumo Espago e Tempo . . Digressio Bibliogeafia 63 121 189 263 269 INTRODUCAO A primeira vista, pode parecer estrat telectual brasileiro tenha se interessado pela Franga do sé- culo XIX. Mas este livro, que trata de um objeto aparen- temente distante, nasceu de minhas preocupagées com a temética da modernidade. Em A Moderna Tradicéo Bra- sileira, procurei desenvolver uma reflexao sobre nossa con: digo perifériea, o que me fee deparar com um emaranhado de questées. Particularmente uma delas, 0 processo de mundializagéo da cultura, chamou-me a atengio. Estou convencido de que hoje, até mesmo para compreendermos as culeuras nacionais, devemos de uma certa forma nos des- alizar, procurando entender este world system a0 qual escamos integrados. Se durante muito tempo a histéria da identidade brasileira girou quase exclusivamente em toro de nosso “nacional-popular”, creio que a emergéncia de uma realidade “internacional-popular” configura uma nova etapa das sociedades mundiais. O nacional sé pode ser apreendido quando situado em relagio a este sistem: gente, Mas o que significa viver em uma época que requer uma concepgio de um espago ¢ de um tempo mundiais? Como entendé-la? © que um in- rane * xenaTo onTIE Foram essas inquieragées que me levaram a eleger a Franga como objeto de estudo. Eu queria compreender, sobrecudo no momento em que iniciamos uma discusséo sobre o pés-moderno, como esta modernidade, que sempre se apresentou como modelo para nds, havia se consolidado. Dai a necessidade de recuar até o século XIX. O que me interessava era conhecer como determinados fendmenos emergiam nos paises centrais. A pergunta levanta de ime- diato um elemento anterior: quais paises? No existiam muitos. Ou melhor, se colocarmos 0 problema em termos do XIX, sio poucas as nagées que poderiam ser conside- radas como “desenvolvidas” — Estados Unidos, Franga, Inglaterra, Alemanha. Neste sentido, minha escolha foi re lativamente arbitréria, Digo relativamente, pois a familia- ridade maior com a sociedade francesa inclinou-me nacu- ralmente para ela. Por outro lado, a Franga foi uma re feréncia cultural forte para as sociedades latino-americanas: no eram ainda os Estados Unidos que serviam de espelho para nosso “subdesenvolvimento”. Paris surgia como a ca pital do século XIX. Mas quero sublinhar essa arbitraric- dade inicial, na medida em que penso que nao escrevi ape- nas sobre a Franca. Certamente a sociedade frances: qualquer outra, possui uma especificidade prépria, mas os temas que privilegiei (cécnica, consumo, lazer, mercado cul- tural ec.) decorrem de transformagées mais amplas. Eles como expressam uma configuragio social, por certo ainda limi- tada neste periodo, que anuncia uma série de mudangas que se consolidarfo no século XX. A Franga representou para mim um momento dessa “civilizagao mundial”, que ensaiava seus primeiros passos. Modernidade localizada, res- trita a pattes da Europa ocidental, mas que em breve se imporia como referéncia obrigatéria em relagao & qual nos- sos reldgios nacionais deveriam ser ajustados. erxomucso) : Para finalizar este livro, realizei um conjunto de pes- 4quisas em diferentes bibliorecas brasileiras, e particularmen- te na Bibliotheque Historique de Ja Ville de Paris € na Bibliothéque Nationale. Contei para isso com 0 apoio do Centre de Recherche sur le Brésil Contémporain (Maison des Sciences de L'Homme), com uma bolsa de pesquisa do CNPq, modesta mas fundamental, e com um auxilio da Capes que propiciou-me a possibilidade de permanecer em Paris durante a primeira etapa da realizagio deste pro- jeto. A essas duas agéncias de fomento cultural eu since- ramente agradego. Quanto a segunda fase da pesquisa, fui no entanto obrigado a arcé-la com meus parcos recursos da vida universitiria, Alguns colegas e amigos tiveram a oportunidade de ler os manuscritos deste livro; a eles eu agradego a pacigncia e o interesse pelo tema. Menciono particularmente Katia Matoso que leu com atengio os ori- nais, discutindo-os longamente comigo. Mas no poderia deixar de fazer um agradecimento especial a Octavio anni, que no somente acompanhou a escrita deste texto, desde © primeiro capitulo, como também estimulou-me a rea lizé-o. Renato Ortiz Sao Paulo, 22 de abril de 1991. “Balaac parece ter menos observado a sociedade de sua época do ‘que contribuido pata formar uma. Este ou quele de seus petsonagens sto maiz verdadeiros em 1860 do que em 1835. A realidade enconcrow inca anos mais tarde @ terreno ultapassido de um salto por su ‘imaginagio Bourget ‘Os homens do Segundo Império quiseram ser homens de Bal Edouard Drumond. OS DOIS SECULOS XIX Os historiadores costumam se referir & existéncia de um “longo século XIX", duragéo que em princfpio se pro- longaria de 1789 até 1914. Porém, quando o observador se debruca sobre a extenséo deste tempo “longo”, aos pou- cos ele percebe que o perlode demarcado, longe de ser continuo, é marcado por rupturas ¢ descontinuidades. A propria Revoluco Industrial € um processo lento € cumu- lativo, mesmo na Inglaterra’, onde ocorre na sua forma mais radical; as transformagées pelas quais passam as so- ciedades européias nao se concretizam imediatamente, elas se distendem no tempo, estabelecendo algumas vezes uma continuidade com os parimetros do Antigo Regime, em ‘outras, rompendo com a tradicgo legada pelo passado. Uma discussio sobre cultura deve levar em consideragao este rit- mo histérico, pois ha ocasies em que certos problemas se colocam para uma parcela de pessoas, mas que nio pos- suem ainda uma abrangéncia ral para se imporem 3 so- ciedade como um todo. Por outro lado, os pontos de rup- ura, que dificilmente podem ser datados com precisio, implicam a precipitagio de elementos anteriores, dando agora & ordem sociocultural uma configurasio particular. nto desta pespectiva pode-e ditinguie no Creio que d século XIX dois momentos: um primeiro, que se da Revolugéo Francesa até sua metade; um outro, que se inicia com a aceleragio da propria Revolugio Industrial s diferengas que separam essas E importante marcarmos duas fases, pois elas constituem, por assim dizer, 0 quadro social em que a problemética cultural se manifesta Os estudos mostram que as medidas revolucionérias in- troduzidas na sociedade francesa sio fundamentais para 0 desenvolvimento do capitalismo: aboligio dos direitos feu- dais; fim do cariter inviolivel das corporagbes ¢ dos pri- consagtasiio da propriedade pri vilégios das manufac vada; interdigéo de qualquer associagio de empregados ou de patrées com o intuit de influir nos salétios (laisez~ FE dentro deste contexco que a Revolugio Industrial com a introdugéo de novas formas de energia (vapor), mecanizagio das Fabricas (sobretudo as industrias témteis), crescimento da indiistrin de construgio ¢ da me talurgia ¢ 0 advento das ferrovias. Esses acontecimentos, nivel da infra-estrutura econdmica, que se manifescam tém conseqiiéncias fundamentais na organizagao da socie- dade: criagio de grandes empresas industriais e comerciais, desenvolvimento do patronato, do assalariado burgués ¢ da classe operiria’, Paralelamente a eles, rem-se um movimen: to de imigragao rural, com a populagio concentrando-se cada vez mais nas cidades. Entectanto, se na Inglaterra este processo de mutacéo social € rapido, na Franga € lento ¢ se prolonga por varios anos. Ai, no ocorre um verdadciro take-off da economia, o que significa que até meados do século o pais se sustentava numa forma de produgio ba- sicamente agricola. Ainda em 1852, 44,7 por cento do pro- duto global das atividades econdmicas provinham da agri cultura, contra somente 20 por cento do setor industrial Em 1850, 52 por cento da populagio economicamente ati- va encontravam-se empregados na agricultura, 0 que evi- dencia a fragilidade do impulso industrial francés' Na verdade, 0 descompasso nio se limita & esfera eco- ndmica; cle tem implicagées sobre o nivel demogeifico. Em meados do século, somente um quarto da populacéo francesa vivia em cidades; como mostra Philippe Ariés, do final do século XVIII até 1851 a populagio urbana au- menta cerca de 3,5 milhdes de pessoas. Mas, se em 1800 cla constituia 20 por cento da populagio global, em 1851 ela atinge apenas 25 por cento’. A rigor, 0 peso da po- pulacio rural se faz sentir ainda no inicio do século XX. Enquanto na Inglaterra j4 em meados do século 0 mimero de citadinos supera 0 de habitantes que vivem no campo, na Franga, ainda em 1926, 0 conjunto de pessoas que po- voa a zona urbana é de 49 por cento. Entre 1789 ¢ 1914, em timeros absolutes, a populacéo rural permanece a mes- ma, algo em rorno de 23 milhdes de habitantes. Neste mesmo perlodo, a populagio global cresce relativamente pouco, pasando de 28 para 41 milhées de pessoas. Os franceses, que eram 15 por cento da populagso da Europa em 1789, sio somente 10 por cento em 1914. Se a taxa ‘de crescimento demogréfico entre 1800-1900 é de 11 por cento na Inglaterra, ela se limita a apenas 3,5 por cento na Frangat. A importincia de um contingente populacional de origem ¢ de permanéncia rural, associada a um certo malthusianismo, tem implicagées eruciais para a industria- lizagao francesa. Ha uma estreita correlagao entre essas va- riveis ¢ a lentidio pela qual se caracteriza a evolucéo in- dustrial na Franga. Os historiadores tém reiteradamente su- blinhado a especificidade do caso francés. A estabilizagio de uma parte consideravel da populagao na zona cural fez nigeacio para as cidades tenha sido menor do que na Inglaterra, com que a jcando uma concenttagio in- RENATO ORTIZ ferior do proletariado nas regides urbanas. Por outro lado, 0 malthusianismo tem consegiiéncias para a propria ex- pansio do sistema econémico: ele reprime a demanda, im- pedindo que se forme um mercado de dimensio anéloga 20 inglés (que evidentemente incluia seu grande império colonial), Nao obstante, apesar das diferengas que marcam 2 consolidagio da ordem industrial nesses dois patses, nio se deve cait num certo exagero que algumas vezes permeia a literatura sobre o assunto. Nao resta diivida de que, em comparagao a Inglaterra, hi um accaso relativo na conso- lidagéo da Revolucio Industrial na Franga. Porém, essa in- ipiéneia do industrilismo francés é sobretudo uma ca- racteristica do “primeiro século XIX”. A partir de 1870, a defasagem entre diversos pafses do continente europe (inclusive a Alemanha) tende a diminuir. Seria ingénuo imaginarmos a existéncia de uma sociedade francesa pouco industrializada no final do século. A constatagio de um {indice elevado da populacio rural, ainda no inicio do século XX, como um fator isolado, nao implica necessariamente na presenga de um Antigo Regime, David Landes observa que a mecanizaio dos diversos rabalhos e manufacuras rurais “paradoxalmente” aceleram a implantagio de uma sociedade industrial Na medida em que a Revolugio Industrial se encontra estreitamente associada & expansio das ferrovias (elas im pulsionam a indistria metalirgica € distribuem as merca dorias), temos na Franca, também sob este aspecto, um descompasso no tempo. As primeiras linhas (1830: Saint- Brienne/Andrézieux (21 quilémerros);, 1832: Saint-Erien ne/Lyon ($8 quilémetros); 1834: Andrézieux/Roanne (67 quilémetros); 1835: Epinal/canal de Bourgnone (27 qui- Jemetros) eram curtos troncos locais, com @ finalidade de escoar a produgéo das minas de carvo para os portos flu- viais. A ligagdo entre Saint-Etienne/Andrézicux utilizava de- lives, € a tragio era feita por cavalos. Somente um trecho da linha Saint-Etienne/Lyon operava com locomotivas a vapor’. Neste perfodo de pré-histéria das ferrovias fran- ansimonistas desempenharam um papel prepon- derante. Por meio de seu jornal, Le Globe, eles desenca- dearam uma campanha nacional a favor desta nova forma de transporte, elemento fundamental para a realizagio de seus sonhos industrialistas. Os sansimonistas agrupavam em seu meio engenheiros e financistas, ¢ uma de suas ambigdes cra incentivar a construsio das estradas de ferro. O em- preendimento dos irmaos Pereite € neste sentido exemplar. Ao projecarem a linha Paris/Saint-Germain (1837), eles abrem um campo de experimentagao técnica de onde saird tum conjunto de engenheiros que futuramente irs cumprit um papel-chave na criagao do sistema ferrovidrio, francés*, Todavia, a ligagio Paris/Saint-Germain (19 quilémecros) ‘fo possui um cariter comercial; trata-se de uma promogio politica, recnoldgica ¢ pedagégica. O que se pretende ¢ mostrar & nagio a viabilidade das novas conquistas tecno- logicas, abrindo caminho para utilizagdes posteriores. Um futuro ainda incerto, pois em 1835 a Franga possui so- mente 149 quilémetros de trilhos, quadro que em 1841 se encontra praticamente inalterado’. A utopia dos disci- pulos de Saint-Simon terd de esperar por alguns anos para se tornar realidade. Esta primeira fase do século se define pela dificuldade das comunicagées, 0 que limita a circu- lacao das mercadorias e das idéias Dizer que a Revolugio Industrial francesa é no seu primérdio, incipiente, nio significa entectanto negé-la. O historiador que, por exemplo, afirma: “até meados do sé- culo 0 trabalhador nio € um operitio de fibrica, mas so- bretudo artesio”, procurando ilustrar que o sistema fa- bril nao é ainda dominante neste perfodo, fundamenta seu comentério numa perspectiva mais ampla do processo de industrializasio, € tem freqiientemente como parimetro 0 que se passou na Inglaterra. Porém, este mesino historiador passa a sociedade sabe que as transformagées pelas 4 francesa, apesar da lentido que as caracterizam, io cumu- latvas e profundas. Qs homens da época também possufam uma clara consciéncia do movimento que os afastava do passado. E em Paris, durante o exflio, que Marx sofre 0 impacto decisivo para seu destino politico, a0 tomar con- tato com uma dimensio recente da vida econdmica ¢ social a classe proletiria. Em 1844 cle descobre ¢ se apaixona pela realidade deste mundo operirio, com suas organiza~ ges, suas porencialidades, suas lutas. Em seus primeitos artigos pata a Gazeta Renana, ele retrata de maneita ox: pressiva 0 ambiente que envolve 0 meio operirio: “Quando (os comunistas formam uma associagao, seus pr os artes meiros objetivos sio a educagio ¢ a propaganda. Mas, 0 ato de associar-se cria uma nova necessidade, necessidade da sociedade; 0 que era apresentado como um meio tor na-se um fim. Os resultados desse empreendimento pritico podem ser observados quando trabalhadores socialistas franceses se encontram. Fumar, comer, beber niio sto ape- nas meios para juntar as pessoas. O companheirismo, as distragdes associativas, que também visam a sociedade, suficientes para eles; a irmandade entte os homens nto € mero palavrdrio: ela torna-se realidade”. Poderfamos talvez argumentar que © testemunho de Marx ¢ parcial, afinal ele tem como pano de fundo uma Alemanha rural que se discanciava ainda mais do padrio inglés. Mas suas im- pressies sio sugestivas, pois, sem conhecer a Inglaterra (que Ihe serviré posteriormente como modelo do desenvolvi mento do capitalismo), elas revelam as mudangas que ocor rem no universo do trabalho. Na verdade, entre a Restau- racio ea inicio do Segundo Império, a sociedade francesa conhece uma mudansa radical na sua propria estruc Nao € por acaso que este € 0 periodo escolhido por Louis Chevalier para est de uma Paris superpovoada, sufocante ¢ miservel que ele recrata a existéncia das classes trabalhadoras. Sua descrigio possui no encanto um valor que transcende 0 quadro da vida parisiense; ela revela uma situagio semelhante &s con- digdes que imperam em varias cidades. O relat6rio de Vil lermé sobre a condigio fisica e moral dos operirios no ini- cio do século XIX evidencia um elemento ut trinseco A implantagio do sistema fabril; processo violento de transformacéo do modo de producéo de organizacio do trabalho, que Polanyi, numa expressio feliz, denominou as classes perigosas"'. E no interior de “moinho satinico™™. © florescimento da nova ordem econdmica pode ser captado de maneira viva através da discussio sobre as “duas Frangas", O tema emerge em 1822, quando o gedgraf italiano, Adrien Albi, estabelece uma diferenciagio espacial do territdrio francés. Com bas igo da instraga publica, ele distingue dois espagos geograficos: uma Eranga do Norte, que concentrava os cfetivos cscolarcs, ¢ outra situada ao Sul, carente de uma base educacional. A parte Norte comega a ser associada A imagem de um pats “escla- recido”, em contraposigio a uma Franga “obscura” que exjaria no Sul. Esta caracterizagio é no principio de na- curezn pedagégica, mas em 1826 0 bario Charles Dupin vincul; idéia de uma Franga “esclarecida” um clemento novo: a riqueza. Como observa Roger Chartier, “com Du- pit, © motivo das duas Frangas torna-se o fundamento de uma defesa vibrante que tine a exaltagio da manufacura ea celebracio das instituig6es parlamentares. O modelo de desenvolvimento encontra-se ao Norte, na Inglaterra e na Escécia, onde ocorre um equilibrio novo ¢ étimo entre as populagSes agricola e industrial”. O debate se desloca assim para o terreno da conveniéncia e das conseq da Revolucéo Industrial. Nele, os conservadores nao dei- xario de intervir; Bigot de Morogues (1832) e Villeneu- ve-Bargemon (1834) procuram refutar os argumentos de Dupin, mostrando que a industrializagio levaria necessa- riamente & desmoralizagio da populagao francesa. Inver- tendo 0 raciocinio anterior, e a linha que separa Norte € Sul, eles defendem 0 ponto de vista de que a felicidade ¢ a moralidade estariam mais bem preservadas no Sul, onde 2 ordem social seria mais estavel, as condig6es de trabalho menos arduas do que nas regides industrializadas ¢ os cti- mes ¢ suicidios ocorreriam com menor freqiiéncia. A te- mética das “duas Frangas” traduz um conflito ideolégico que agrupa os interlocutores em campos opostos: de um lado aqueles que se definem sem reservas pela generalizagao do progresso: do outro, os que pensam ser possivel a volta a um Antigo Regime idealizado. Mas ela revela também uma relativa indefiniséo diante dos fatos que se sucedem; é ainda possivel imaginar que a ordem industrial € néo somente nefasta, como em prinefpio poderia ser evitada. Jé em 1836, os cermos da discussio comegam a mudar. Quando Adolphe d’Angeville escreve seus Ensaios sobre a estavistica da populasdo francesa, utilizando pela primeira ver dados numéricos para todo © pais, este conservador agra- rista se dobra diante da inevitabilidade da civilizagio in- dustrial. Ao caracterizar a existéncia de uma Franga que hoje chamariamos de “desenvolvida” em contraposi¢ao a uma outra “subdesenvelvida”, cle precipita uma dicotomia que se torna clissica a partir de entio: a necessidade da vitéria de uma Franga “esclarccida” diante das forgas “obs- fo Dots steuL0e x 2 jo passado, Durante a Terceira Repiiblica, esta serd snta © pensamento po: a tonica de uma idcologia que alin licico € educacional republicano. Os historiadores eendem a concordar que, a partir de meados do século, o ritmo da histéria social se modifica O termo em si € impreciso — “meados do século” —, mas quando lemos sobre as diversas hist6rias espec (econémica, demogrifica, urbana, técnica) parece haver uma convergéncia no sentido de se localizar, dentro dos lis acelera ces dessa duragio, sendo uma ruptura, pelo menos uma o. Por exemplo, é entre 1853 ¢ 1870 que a cidade de Paris teansforma-se radicalmente, época em que se rea- lizam as grandes reformas urbanisticas do bario Haus: smann, procurando remover a populagao do antigo centro, empurrando as classes populares para os bairros periféricos, onde se instalam as empresas fabris. Tudo se passa como se as mudangas estrucurais da sociedade se refletissem no espaso urbano, que deve agora se discanciar das cidades vetustas do Antigo Regime, com suas ruas estreitas ¢ tor tuosas. Um novo modelo de modernidade urbanistica se impée, privilegiando as grandes vias, a circulasio dos trans- portes e dos homens, A reformulagio do espago urbano no se restringe, porém, a Paris; ela se estende a localidades variadas — Lyon, Marselha, Bordeaux. Marcel Roncayolo, analisando o crescimento € a re- organizacio das cidades, considera que 0 ano de 1851 inau- gura um verdadeiro “segundo século XIX”. Se até entio © crescimento urbano se restringia a Paris e as cidades in- dustriais do norte da Franca, tem-se agora uma intensi- ficagio do processo. A tabela abaixo é sugestiva (mil ha- bitantes)™: Papulagio (1851) Populagio (1911) 7 558 195 490 131 334 100 188 Nantes 96 it 8 1 76 317 69 126 a 266 61 120 56 49 46 15 Nexo 45 120 Le Havre » 163 Ni 7 143 No inicio do século, Paris era a tiniea cidade com uma populagio superior & 100 mil habicantes; em 1911 sto quinze os niicleos urbanos que atingem este patamar. Mas nfo séo somente as cidades que crescem; surge um novo 1911, os subtirbios tipo de aglomer: parisienses compéem 30 por cento das cidades com mais de 30 mil habitantes, 17 por cento das de 10 mil a 20 0 das de 5 mil a 10 fio: a perifetia, Ex habitantes, © somente 8 por ce | habitantes!®, Este movimento de concentragio se inten sifica sobretudo a partir de 1906, momento em que as in- 4 , vestimenta) cedem hi as inddstrias de transformagio (auromdvel, avi, quimica) © corte de “meados do século” pode ser reencon no setor das comunicagdes; nfo € por acaso que se fala também em um “segundo momento da historia das fer rovias”. Uma das dificuldades na impla de ferro na Franga dizia respeito & indefiniczo sobre quem s de consumo (construga ago das estradas 5 deveria construi-las. Acé 1839, a iniciativa dos empreen- dimentos estava reservada ao capital privado, po: econdmica fez com que a maioria das companhias mal ti vyessem cumprido suas propostas. Em 1842, depois de uma polémica que colocou em choque diferentes grupos de in- teresse, o Estado e as empresas chegam a um acordo micuo. Caberia a0 primeito a aquisigao dos terrenos, a construgio dos canteiros ¢ das obras (incluindo as estagoes); as com- panhias competiria os trabalhos de superescrutura, forne: cimento de material e exploragio das linhas. Blabora-se as- sim em 1842 um mapa ferroviirio do territério francés Porém, as dificuldades financeiras ¢ os acontecimentos po- liticos de 1848 irto retardar a realizagio dos projetos. E somente no decorrer do S as grandes companhias de estrada de fe sundo Império que se Formam indo 0, mobi capital suficiente para consolidagio de uma rede nacional ferrovidria. Durante x Terceira Repiiblica, o sistema de transportes iri se expandir, comando praticamente a con figuragio que possui atualmente. Os dados por Levasseur sio esclarecedores! ‘Ano km explorados Vigjantes pikm Toneladas p/km milhoes) (millioes) 1369 16 938 4272 5908 1875 19746 4786 8.136 1890 33 550 7942 11759 1900 38 044 14.063 16557 1908 0239 16 034 206 Os niimeros dleixam distante a primeira fase da historia das ferrovias, se cm 1847 a quilometragem explorada era de 1832 quilémecros em 1908 eia atinge 40 239. Mas nao € somente a rede ferrovitria que cresce. A quantidade de pessoas e de mercadorias que nela transita indica 0 grau de mobilidade que particulatiza a sociedade francesa. En 1869 e 1908, o niimero de passageitos ¢ de produtos trans- portados por quilometro & quadruplicado. Em termos reais, isto significa que “se em 1871 havia 95,5 milh6es de via- jantes e mais ou menos 38 milhdes de toncladas transpor~ tadas, em 1908 havia 479 milhdes de viajantes ¢ 158 mi- thoes de toneladas transportadas"””. Volume que certamen- te confere & Franca um aspecto qualicativamente distinto do passado. Os analistas de demografia rural também sublinham, 1 passagem deste “meados do século”. Philippe Aris situa a primeira fase importante de éxodo rural entre 1850 ¢ 1860, perfodo em que a indiistria se difunde no campo ura comega a se transformar em um sentido ea agricu capitalistal®. Com 0 correr do tempo, essa tendéncia se acentua: a migragio atinge taxas elevadas em dois outros instantes, 1876 é 1881 ¢ 1896 e 1901. Pode-se ter uma idéia do impacto do deslocamento desta massa populacio- nal quando 01 ¢ 1831, o numero de individuos que deixam 0 campo & de 325 mil; sob a Monarquia cle cresce para 1 milhio, ¢ entre 1851 ¢ 1911 atinge 6 milhées de pessoas”. A populagio rural econo- nui drasticamente. Na verdade, o mo e sabe que, entre micamente ativa di vimento migratério segue o ritmo da industria; basta olhar mos 0 quadro do produto global das atividades econémicas para termos uma idéia disso™: Ano Agricultura 5 atividades _ 1852 447% 35,2% 1392 32,4% 32,4% 32,3% 1912 27,0% Os economistas apontam, no entanto, no interior deste proceso, dois momentos. Um primeiro, que se prolonga até 1880, se refere & implantacio da “Primeira Revolugao Industral”; em seguida terlamos uma “Segunda Revolugéo In- dustrial” — a industria descola da agricultura; no interior do setor industrial diminui a produsio de bens de consumo (téxti, alimentos etc.) em beneficio da produgio de equi- pamentos, des dades (gua, gas, olvimento das indistrias vinculadas 2s ci- ‘letricidade), da indtistria de metais (ligas) € producio de energia. Como observa Hobsbawm, no final do XIX'a economia “muda de marcha”, alcangando uma velocidade que prenuncia uma série de eventos que se ma- nifestario no século XX Ao situarem no final do século XIX uma Segunda Re- volugio Industrial, os economistas nos propéem um tipo de datacio, mais de caréter sociolégico do que propria mente histérico, que penso ser interessante explorar. Po- rém, antes de examiné-la, creio que seria importante lem- brar alguns elementos que a histéria da técnica nos pro porciona. H& um certo tempo, Lewis Munford jé havia estabelecido uma relagio entre técnica ¢ civilieagio; em principio, a cada formagio social especifica corresponderia um grau de desenvolvimento tecnolégico. Com base nesta idgia ele divide a histdria da tecnologia em trés grandes periodos. A fase cotécnica (1000-1750) se caracteriza por um sincretismo técnico, acumulando as descobertas pro- venientes das mais diversas culturas (roda hidréulica, us pelos egipcios; moinho de 4gua, conhecido pelos romanos; moinho de vento, provenience da Pérsia; papel, buissola ¢ pélvora, originarios da China) ¢ pela utilizagio da energia natural (gua, vento, tragio animal). A debilidade desta fase reside na impossibilidade de se produzir energia com re- gularidade. © homem engenhosamente emprega os recur- sos imediatamente disponiveis na natureza, Uma segunda etapa da progressio tecnolégica, que Lewis denomina de paleotécnica, coincide com a Revolugio Industrial; a ela segue-se uma terceira (neotécnica), que emerge no final do século XIX com a descoberta de novas formas de ener: gia. Sinteticamente, a histéria pode ser descrita nos seguin- a fase corécnica € um complexo de agua ¢ tes term madeira; a paleoc a neotécnica, um complexo de cletricidade e ligas de me- ‘l Nao pretendo discutir se a periodi ou nao ser generalizada para uma duragio tio longa (1000- 1750) s jo substancial tenha ocorrido neste lapso de tempo. Interessa-me a idéia de que no interior de um mesmo século. Re- ‘nica, um complexo de carvao e ferro; zagio proposta pode cm que nenhuma modifi existem dois mare ores tém sublinhado este centemente, alguns histori aspecto; Bertrand Gille, procurando romper cor téria da técnica que funda 0 mundo moderno exclusiva- mente sobre a Revoluso Industrial, realga a emergéncia de uma “Nova Revolugio Industrial", a partir de 1880, qualitativamente distinta da anterior. Sua nogao de “sis- tema t€cnico” é interessante. Gille considera que todas as técnicas sio, em graus diversos, dependentes uma: uma his- «ras; existe portanto entre elas uma relagio de cocréncia, € 0 conjunto dessas coeréncias encontra-se articulado numa estrucura, que ele chama de sistema téenico. Em principio tum sistema técnico s6 se torna vidvel quando obté certo equilibrio. A partir de um determinado limize esteu- um tural, ele nao consegue mais se expandir. Isso significa que 05 limites tecnoldgicos podem bloquear todo um sistema, criando desequilibrio e crises. Dentro desta perspectiva, de maneira andloga & proposta por Lewis, pode-se dizer que Industrial, que se fundamentava em formas energéticas como 0 vapor ¢ o gis natural, ¢ em materiais como o ferro, entra em 6 sistema técnico inaugurado pela Revol ctise, nfio mais conseguindo se expandir para além de limite estrutural. As cransformagées que ocorcem, com a descoberta de novas fontes de energia (cletricidade, petrs~ leo), com a produ: a (introdugio de novos con- versores: turbinas hidrdulicas, motor de explosio), com o advento de materiais como o ago € as ligas de metais, im- plicam numa mutagio técnica global. As vésperas da Pri- meira Guerra Mundial, este novo sistema técnico ¢ uma realidade. Mas qual o significado real de uma mudanga de sis- cma? Em termos puramente técnicos pode-se dizer que emos a partir de entéo o surgimento de uma verdadeira de ener nologia”, isto é, uma exposigio racional e sistemitica das operagdes técnicas (0 que pressup6e a criagio de escolas especializadas em cada camo do conhecimento). Até a Re- volugio Industrial, as téenicas evoluiram empiticamente nfo compartilhavam um terreno comum com a cigncia © exemplo tipico € a descoberta da miquina a vapor, cujo fancionamento s6 foi compreendido anos depois; as in- vengées eram realizadas por homens eminentemente pra- contavam com a presenga incisiva do conhe cimento cientifico. A bomba a vapor, ¢ posteriormente a maquina ¢ a locomotiva a vapor, nasceram para atender a necessidades empiricas: produzir ¢ transportar 0 carvéo das minas inglesas. O panorama é outro no final do XIX, ¢ A medida que enteamos no século XX, a técnica torna-se um prolongamento da ciéncia, A inddstria elécrica & uma conseqiiéncia direta das investigagdes cientificas; as inven- 10, motor elétrico ¢ ridio, normal criadores (Morse, de ges do telégrafo, din mente atributda 4 “genialidade” de seu: Siemens, Jacobi, Marconi), si na verdade aplicag6 principios desvendados por Hey, Faraday, Ocrste well, Hertz. Entretanto, um sistema té somente uma inve ico nao significa da relagio entre ciéncia e técnica Como observa Bertrand Gille, “o aucomével nao é somente 6 instrumento propriamente dito, com todos os seus com- ponentes, ndo somente 0 motor ¢ a carroceria, os maceriais apropriados do qual ele é feiso, os pneus, mas também a distribuiggo regular dos carburadores, a estrada construfda para cle. O progresso econémico passa necessariamente pe- lo progresso técnico; o progresso técnico s6 pode ser a pas- sagem de um sistema cécnico para outro sistema técnico®. Se os historiadores muitas vezes privi técnico e econémico, podemos argumentar que 0 advento de novas tecnologias implica também mudangas substan- ciais na esfera da cultura. O automédvel redimensiona o uuso do tempo pelas pessoas, que podem agora se deslocar fazer uso dos a uma velocidade maior sem mais ter fiacres ou de transportes coletivos como o trem ou a di ligéncia. A eletricidade propicia um padrio de conforto (clevadores, iluminagio das casas) desconhecido até entao Dentro dese contexto, a propria sociabilidade dos indi- viduos € reorganizada. Um exemplo é difusio do telefone. Utilizado pelos homens de negécio, ele & certamente um nento de trabalho, mas sua fungio extrapola o uni- verso das transacées comerciais. Ao colocar em contato as pessoas, ele modifica as nogies de proximidade e distancia. Um testemunho da época ilustra bem esse aspecto™ E dificil dizer em que ano foi instalado o telefone em casa Creio que foi mais ou menos em 1886. Creio que em grande parte meus pais fizeram este sacrificio ao espirita modern, para remediar a separ 'g0 de minha iema mais velha, que, depois de seu casamento com 0 marqués Luppe, habicava um belo hotel, solene ¢ criste, no final da rua Bar- ber-de-Jouy. Tinhamos pena dela. Aquilo parecia tio longe, ase no campo. A idéia de podermas conversar todas as manbis, sem se deslocar entre a rua Barbet-de-Jouy € a rua Botti pareceu tio sedutora, que nfo hesicamos mais, Enquanto meio de comunicagio entre privacidades, 0 novo instrumento é logo apropriado pelo imagindtio da Belle Epoque. Uma série de cartées-postais e pegas de teatro comesam a associé-lo & galanteria, “O telefone se impée como o instrumento dos apaixonados, e pouco a pouco as cartas de amor sio substituidas pelas palavras de amor, roubadas do tempo e do espago, mas permitidas pelo te- lefone. O telefone incroduz uma dimensio nova na histéria das sensibilidades"”. Mas até mesmo as hierarquias sutis gue imperavam no interior das casas comegam a ser que- bradas. Jacques Attali observa que painhas (sinos) nas casas era sinal de mudangas profundas na sociabilidade urbana do século XVIII. Os sinos respo' diam a uma nova demanda decorrente da especializagao fancional dos quartos da casa. Sebastien Mercier* chama a atencio para o hébito de as senhoras utilizé-los para ch mar as ctiadas: Os sinos eram instalados de forma que pu- dessem set acionados a distincia, embora s6 fossem ouvidos nas pegas onde se encontravam’*. O ree neste sentido como um intruso, pois sua campainha deve soar num espago comum sem que necessariamente signifique “chamar os criados". Por outro lado, a separago entre casa e teabalho, que pressupée uma especializagio entre as esfe- ras privada e publica, comega a se esvanecer. Pelo telefone © mundo dos negécios 20s poucos se aproxima das resi- “a instalagdo de cam- lefone déncias burguesas Quando Walter Benjamim compila informagées para sua obra inacabada, Paris no século XIX, cle se interessa por temas diversos como ferrovias, sistema de iluminaszo, construgées em ferro etc.. Benjamim percebe que a mo: dernidade encontra-se ancorada num substrato material, sem 0 qual ela néo poderia se expressar. Por isso, as “pas- tien Mercier escreve sobte Paris do final do século XVII a Renato sagens” ¢ 0s grands magasins Ihe retém tanto 2 atencio ‘A “passagem” dos Panoramas foi o primeiro lugar puiblico val : (1817); a Ville de aint-Denis a primeira loja a fazer uso de um clevador (1869); Le Printemps ¢ Au Bon Marché (1883) empregam juminacio de um grande espago f esse tipo de energia ser utilizado primeira usina elétrica parisiense seré inau- em Paris a iluminagio a g: a cletricidade para blico, mui larga ese: gurada em 1889). Se a arquitetura em ferro € vista como um sinal de modetnidade arquiteténica, nao se pode esque- cer que muitos anos antes da const da “torre dos 300 metros”, Eiffel crabalha juntamente com Boileau na refor- ma de Au Bon Marché (1874). Como bem observa Ber nard Martey, os magasins de nouveautés¢ 08 ra magasins so, técnica ¢ arquitetonicamente, um “lugar de moder- niidade”". A problemétiea da técnica possui uma impor ncia grande para a escola frankfurtiana, ¢ Marcuse no hesitaré em percebé-la como forma de denominacéo. Em Benjamin, esta posigfo é mais nuangada, mas certamente sua relevancia nao € menor técnica tem implicagoes de- finitivas, inclusive no dominio das artes, a propria idéia de original ¢ de copia sendo comprometida diante de se inio. Porém, se levarmos tealmente a sério a relagio técnica ¢ cultura, no terfamos de dizer que a um novo sistema técnico corresponderia uma nova civil Creio que neste ponto 0s precisar melhor 0 que entender por um “segundo século XIX". Nao se trata sim- plesmente de um prolongamento de “meados do século”. Sociologicamente, eu diria que raura, isto é a orga um outro patamar. Neste 1a descontinuidade se ins- cao da sociedade se desloca para sentido penso que existem duas modernidades. Uma primeita, Baudelaire a descreve com Revolugio Industrial itonia e vivacidade, que se associa — esteadas de ferro, iluminagio a gis, telégrafo, forografia Uma segunda, que tem como substrato um outro sistema técnico — automével, aviso, cletricidade, telecomunicasio (radio), cinema, Evidentemente, essas modernidades se re- cobrem durante o periodo que nos interessa, mas creio ser importante distingui-las, pois esse “segundo século XIX" anuncia aspectos que serio correntes no XX. Alguns autores tém apontado para este elemento de ruptura. Donald Lo: wwe, por exemplo, considera que é entre 1905 ¢ 1915 que uma cultura eletrénica (sincrénica e de mulkiperspectivas se sobrepée sobre uma culeura tipogeifica (diacrdnica ¢ li- near) fundamentada na escrita”", Henri Lefebvre pensa que em torno de 1905 as experiéncias que se da cigncia ¢ da estética (inicio do Cubismo) apontam para um outro tipo de modernidad Stephen Kern recua um pouco mais no tempo. Para cle, “entre [880 e 0 inicio da Primeira Guerra Mundial uma série de cransformagoes tecnoldgicas ¢ culturais criaram novos modos de pensar de experimentar 0 espago © 0 tempo. Inovagées tecnolé- gicas como telefone, celégrafo sem fio, raio X, cinema, bi- cicleca, automével, avido escabeleceram o alicerce material a esta reorientagio"™, Nao obstante, esses autores, para captar 0 movimento de descontinuidade, privilegiam as manifestagées de uma esfera erudita — ciéncia, filosofia, literatura, pineura. Minha intengao € voltar-me para um ando 0 tema da modernidade do Indo de uma cultura de mercado, do consumo e da em no mundo pi aspecto mais prosaico, reto racionalizagio da sociedade. Procurei anteriormente esbogar 0 contexto que envolve a sociedade global francesa; € necessitio agora voltar-me para as mudangas culturais que ocorrem no seu interior. Penso que um dos aspectos importantes desse processo dia respeito as manifestagdes populares legadas pelo Antigo Re- gime. Elemento de permanéncia, esta cultura tradicional, i 4 7 RENATO ONIC possuia desde o século XVI marca de uma Europa agricola, 4. Tra- tragos que Ihe conferiam um cariter individualizado tavase sobretudo de um universo voltado para o mundo igico € calcado na concepgio de um tempo ciclico, re- petindo entre os homens o caminhar das estagdes do ano. Por isso vérias das festas populares se recobrem do signi- ficado de um rito de passagem: carnaval (renascimento do ano cristio), fervilidade da terra (rituais de agricultura), mo- bilidade de um grupo de idade para outro (passagem da adolescéneia para 0 mundo adult). Esse dominio popular era fechado sobre si mesmo, impondo barreiras & difusio cultural; a comunidade ou a regio era a sua fronteira, Ro- bert Muchembled mostra que “além da comunidade rural e do espaco que cla controla — aldeia, culturas e pradaria caminhos e florestas — comesa uma zona de perigo cada vex mais impositiva, na qual a cooperagio no funciona mais". Esta predominancia do local em detrimento do universal nfo se manifestava somente junto aos enclaves rurais; as compotagdes, no seio da ordem citadina, assegu- ravam uma divisio multicelular, enfatizando o peso de cada corpo profissional, e ao mesmo tempo separando-os uns dos outros. Um sinal desse distanciamento pode ser en- contrado nas festas pattonais, celebragies que realimen vam os lagos de uma memeéria coletiva partilhada exclu- idade especifica. Nao se deve esque- sivamente por cada ati cet de que as classes populares urbanas, a0 contririo dos mercadores, autoridades e intelectuais, viviam enclausura das nas cidades, reproduzindo um localismo voltado para © interior de seus préprios muros. As manifestaées da cul- tura popular se assentavam ainda sobre uma solidariedade coletiva, pois as instivuigées rurais se singularizavam através das préticas comunitétias: propriedade comum (cerras, flo- restas, fornos para pio, prensas), servigos coletivos, reunides (05 bots sécutos aux » periddicas (festas priblicas, asscmbleias). Nas cidades, as ta- vernas, os cabarés ¢ os festejos religiosos reproduziam esse mesmo tipo de sociabilidade. Nao se deve imaginar que as manifestagGes da cultura popular tenham permanecido idénticas no decorrer dos anos. Entre 0 século XVI e o XVIII, uma série de fatores atuam conjuntamente, seja para sua manutengio ou mu- danca. Entre os historiadores, as opinides divergem quanto a intensidade dessas interferéncias. Man rou, por exemplo, a0 cstudar a literatura de cordel, pensa que desde o sew mento a imprensa ceve uma influéncia considerivel, € negativa, sobre o imagindrio popular’*, Natalie Davis to- ma posigio inversa, Ela acredita que “os primeitos 120 anos da imprensa na Franga, que wouxeram poucas mudangas 130 do que minou a vita- lid les, a organizacio po: pular era resistente para enfrencar a co regio ¢ a padronizagio vindas de cima””. Porém, as diividas se dirimem quando avangamos no tempo; ha u ior do pais, reforgou m: culcura do povos nas cid: suficientemen con- cordancia entre os autores, a0 se considerar que uma nup- cura se inseaura em meados do século XVI, ou o mais tardar no inicio do XVII. A Reforma ¢ a Contra-Reforma cons- tituiriam uma espécie de divisor de iguas, uma vex que redefinida segundo outros critérios. "Até a Reforma, 0 cacolicismo nao havia deixado de condenar seus desviantes, citaros e valdenses. Assim fa- zendo, de alguma forma a Igreja definia 0 sagrado. Mas 2 situagao do baixo clero era tal, antes do ano 1520, que inas paréquias rurais ¢ urbanas nenhurna fronteira clara exis- entze 0 profuno © 0 sagrado, Na realidade, tudo podia participar da segunda categoria, desde as ceriménias pascais até a fustigagio das imagens dos santos ou as refeigdes nos cemitérios. A Reforma ¢ a Contra-Reforma modificaram esse estado de coisas. © sagrado foi definido como uma ia nogio de sagrado % RENATO OnTIZ categoria & parte, nfo mais devendo manchar © prundo profano, A ortodoxia livresca catélica comecor cada na realidade”™*, Dentro dessa perspectiva, a hierocracia catélica e protestante passa a administrar um conjunto de regras e prescrigdes visando, senao a climinagio, pelo me- nos o controle das crengas populares. As igrejas atuam co- mo insténcias corretoras, procurando apagar os tragos con- siderados pelo clero como. pagios ou como sobrevivéncia de superstigbes religiosas. Paralelamente a agio dessas ins- a ser apli- tituigdes, o Estado iri também reforcar 0 movimento de disciplinarizagio das condutas. Inuimeras festas ¢ diverti- mentos populares, mas sobrerudo aqueles considerados co- mo explosivos, petigosos (carnaval, charivari, na Inglaterra os jogos de futebol) ¢ que, E.P. Thompson diria, mani- festam uma consciéncia pré-politica das classes populares, séo colocados sob vigilincia”. Apesar das restrigdes que o E: em que medida a cultura tradicional et declinio até o final do século XVIII? Creio que a tese de Keith Thomas sobre o fim da magia nos auxilia a esclarecer este ponto. Seu argumento principal consiste em apresentar 0 recuo das crengas mégicas ndo como decorréncia da di- fusio das conquistas tecnolégicas ou cientificas, que na mudanga ado igreja impoem, ea realmente cm época eram negligenciaveis, mas devido a ux de mentalidade. Na verdade, a magia teria perdido « antes que as solugées técnicas tivessem uma influéncia pri- tica mais abrangente. Dito de outra forma, men emanci- pated themselves from those magical belief wihous necesaril having devised any effective tecnology with wich to replace them. A interpretagio proposta sugere que renhia ocorrido SOs homens emanciparam-se das crengas migicas sem qu ventado qualquer tecnologia eetiva para substiculdas™. Keith Thoms, Re ligion and decline of magic, London, Garden City Press, 1971. p, 663: durante 0 Século das Luzes uma reforma intelectual que caminharia na diteso de um desencantamento das cons ciéncias. © Iuminismo, enquanto elemento promotor da racionalidade, seria a antitese da irracionalidade das praticas populares. Por isso na Inglaterra, a partir de 1736, no mais existem processos formais contra a feitigaria, pois os homens educados que controlavam a méquina judiciéria cia da propria matéria que estava sendo julgada. O ceticismo erescente impede, dessa forma, a formulacao juridica da ofensa; os casos de feiticaria deixam de ser considerados como crime, para serem tra- deixam de acreditar na subst tados como ilusdes derivadas da ignorincia do pov. Nao tenho diividas de que 0 movimento de racionalizagio da sociedade tem in as (embora isto necessariamente no leve a seu de- saparecimento). Mas nfo se pode perder de vista que no licagées sobre a objetividade das crengas existe um Huminismo das massas: quando Keith Thomas fnio da magia, ele esta se referindo & regressio da consciéncia magica de uma elite. Podemos dizer que este racionalismo € dominante, no sentido de que “faz” a histéria do mundo ocidental, mas ele é certamente mi- noritério ¢ inexpressivo diante do conjunto da populacio. fala no Isco significa, como pondera Paul Gerbod, que « cultura popular € ainda forte no inicio do século XIX; Maurice Agulhon podera inclusive retragar sua importincia até os eventos de 1848%, Penso que a temética do fim da cultura popular é espe- cifica a0 século XIX. Ela nfo se encontra inteiramente ex- plicitada nos eseritos dos romanticos, que pensam ser ainda possivel construir uma ponte em direcfo a0 passado. Os imios Grimm, na Alemanha, ao idealizarem a existéncia de uma poesia popular, acreditavam na sua materialidade, integrando-a ao discurso ideolégico sobre a questio po- "1 Renato ors bastaria uma postura simpatiea de inte- pular; para Jectualidade em relagio 20 povo, para que um tesouro escondido pudesse exprimir os anseios de uma culeura na. cional. Neste sentido, 0 passado nao é simples nostalgia, mas uma atualizacio presente, um reservatorio de Forgas para se edificar 0 futuro. Esta é a motivagio, que leva os foménticos a coletar “fidedignamente” as hist6rias contadas através da boca do povo; testemunhas do passado, elas en- cerram em seu enunciado uma esperanga de fururo. O mo vimento folelorisca, que surge anos depois, apesar de sua principalmente idealizagio das riquezas da “alma popular”, nos paises centrais como Inglaterra ¢ Franga, perde este trago especifico. AAs transformagées & passa a sociedade induzem ao desaparecimento de toda uma cultura tradicional; a prépria ideia de sociabilidade coleviva entra em crise. Um exemplo, as assembléias de jovens que informalmente agrupavam os homens de uma aldcia. “M: vistas pelo padre ¢ pela comunidade de habitantes, cada vvez mais limitadas & preparagio da quermesse anual, essas assembléias de jovens, em certas regides, nto deixaram de nbrigo de uma cultura especifica, expres- mas vezes curais pelas quais desenvolver 0 sando-se nas dangas e nas priticas ritualisticas contestatarias (charivari}), praticas existentes por um longo tempo, apesar das proibigGes cclesiésticas, Esta sociabilidade de juventude perdeu sua importincia, durante a primeira metade do século XIX com a intensificagio das migragoes sazonais, depois 0 éxodo rural, com a atragio crescente exercida pelos novos modelos culturais difundidos pelas ci dades ¢ com a desagregacéo da antiga homogeneidade re- lativa a classe de idade, provocada pela acentungao dos con- trastes sociais!”, O mesmo pode ser dito em relagdo as fescas puiblicas. Durante o século XVIII contava-se em Paris pelo menos 32 festas por ano (nao incluindo os domingos) ‘m Marselha, um dia em cada dez havia procissio. O go- verno revolucionétio, ¢ © processo de secularizacéo que se acelera a partir de entio, ird reverter esce quadro de picdade religiosa, precipitando 0 fim desta sociabilidade festiva”. Diante da progressio dos acontecimentos, os folcloris- tas devem rever a inclinagio romantica que thes animava. Escrevendo bem mais tarde, Gaidoz dirt que “a Franca foi o ultimo pais da Europa a abordar 0 estudo ¢ a pu- blicagZo das pocsias populares"®, cles se agrupam em torno de revistas especializadas como Mélusine (1878), Revista das Tradigées Populares (1886) ¢ A Tradigao (1887). Porém, a conceituasao “cientifica” (¢ nao mais politica ou estética como outrora) do folclore enquanto “sobrevivéncia da tra digio nas sociedades modernas” aleera a maneira de eles se relacionarem com a cultura popular’. Os folcloristas iam on museus de tradigdes populares com o intuivo de "os resquiicios de uma época primeva. Mas, assim fazendo, eles se contentam em mirar “a beleza do morto”#4, pois seu objeto de estudo ¢ o passado em vias de extingg (1878), ja dizia que “as reliquias de um pensamento pri- mitivo estavam morrendo na Europa”; ¢ Colchiara, quan- do far 0 elogio do iano Pitre, reconhece 0 mesmo estado de coisas: “compilando seus dados, Pitre ti- nha um énico objetivo: procurar pela histéria do folelore onde ninguém havia procurado. Era necessirio salvar na Sictlia uma heranga que estava desaparecendo: a heranga do pov". Um testemunho pungente, que revela a nos- talgia da tradigao perdida, é 0 de Sebillot; escrevendo jé * ited parte do Bata, tanto na Revolo quanto na Trea Re- pailica, uma tentativa de se apropriar deste espirito festiva da populacio Bir ccied dean ai me Te ro no século XX, ele rememora a idade de ouro das pesquisas folcléricas, momento em que “os pesquisadores puderam explorar e recolher tesouro maravilhoso da alma popular, interrogando as pessoas que contavam o que clas haviam aprendido das gerasées passadas, As tradigSes ancestrais , algumas depois eram perpetuadas ¢ transmitidas oralmen de milhares de anos, junto aos camponeses, que ai ham vivido isolados do resto do mundo, habitando, de condado, século em século, a mesma aldeia ou 0 me Blas estavam inscritas na meméria fiel, como um disco vir- gem; nenhuma outra leicura cinha podido transformé-la Elas ainda estavam intatas, precisas, vivas. Depois — cons- tatemos sem deplorar — veio a escola obrigatéria, os des locamentos ficeis, 2 diminuigio da fé religiosa © seu co- rolirio: © ceticismo em elagio as numerosas crengas po yulares”* penUma reflexdo sobre as culturas tadicionais pode ser empreendida sob varios angulos, mas existe uin aspecto que toe patere imporaniz niblinhat: 2 eunstiuipd do Esualn francés, Nio me refiro tanto 20 Estado na sua acepgio de maquina politico-administrativa, insticuigio que detém 0 monopélio da violéncia sobre um territério detezminado. Entendida desta maneira, a origém do Estado francés é antiga; a atistocracia assegurava com mio forte o Estado classico. Suas fronteiras estavam garantidas. Interessa-me chamar atengio para a formagio da nagio francesa, en. tendendo por este conceito um espago integrado a um po- ler central, mas articulando, como diria Mauss, uma “uni dade mental ¢ cultural dos habitantes que conscientemente aderem 4s leis do Estado", Neste caso, no ¢ a violéncia fou a cocrséo administrativa do poder real que importa A constituiggo da nacio requer a emergéncia de uma cons ciéncia que solde os franceses no interior de um mesmo 08 Bois sé KI ” territdrio. Neste sentido, a consolidagio de uma meméria coletiva nacional & um produto recente da Histéria. O pri- meiro desafio que o Estado-nacio enfrenta diz. respeito a sua unidade lingtilstca; a realizagio de sua organic implica uma luta sistemética contra os dialetos regionais. Ora, até a Revolusio, este processo de unificacio da lingua nfo se havia completado. Pierre Bourdieu entende 0 con flico encre a intelligentsia revolucionétia ¢ os idiomas locais no apenas como ruidos de comunicagao (os éditos revo- luciondrios deveriam em principio ser compreendidos por todos)”, Trata-se na verdade de um desencontro de escru- tur iam através de cédigos lingiifsticos diferences. E necesséria a imposigio de uma lingua legt fraturado pela existéncia de culturas “parciais. No entanto, como mostra Eugen Webere, até meados do século XIX a Franga era “uma profusio de linguas”; “de acordo com os dados oficiais, em 1863, 8381 das 37610 comunas nfo falavam francés: cerca de um quarto da populagio do pals. © Ministério da Inscrugio Publica descobriu que 448 328 escolares, com idade entre 7 ¢ 13 anos, nao fa- favam francés, outros 1 490 269 falavam e entendiam mas niio conseguiam escrevé-lo, sugerindo assim um alcance in- diferenciado da lingua. Resumindo, o francés era uma ira para um ntimero considerdvel de france- ses, O Estado deve portanto tomar medidas decisivas para promover a integracéo nacional: a escola ¢ a instituigéo que sintetiza este esforgo, Ao tornar obrigatério o ensino primério e difundir o sistema educacional em todo o pai 0 brago do Estado consegue chegar ao mais longinquo rin- Gao. Mas a escola no é somente um elemento de padro- nizagio lingiiistica. Ela ensina, sobrecudo a0 camponés, “maneiras, moralidade, alfabetizagéo, um conhecimento da s mentais diversas, que se exp na sobre as falas locais; 0 “todo” encontrava-se gua estrai « RenaTo ORNL ¢ institucionais nga e um sentido das estruturas legais ba i ". Colocado em transcendem o limite da comunidade’ do centto, iluminando o lado “obscuro” desta Franca pré- moderna. Com a reforma do ensino, sobrecuda a partir de 1880, 0 imperativo de levar os ideais da Republica 3s ‘0 camponés se transforma ne, Amedida g icional cede lu aldeias se a em francés, sua cultura trad auma cultura nacional Quando Jean Jacques Darmond estuda o refluxo da literatura de corde! entre 1852 ¢ 1870, ele aponta para periodo conhece: a pe do interior; 0 baratea- de uma im: alguns aspectos modais que este newrasio Ties liviatias as aldacden mento das edig6es populares; 0 surgimento ma im prensa de massa; 2 melhoria do servico ferrovisro ligando © campo A cidade. Sua conclusio ¢ sugestiva, Esta literatura tradicional, “superada pelos transportes ripidos e pelas tro- tas aceleradas que eles permitem, desprezada por urn nii- mero crescente de leitores que a escola priméria havia tor- nado permedveis & cultura popular citadina, nio | mais 0 seu tempo. Seu desaparecimento, por ter sido pre- varado por um conjunto de causas conjunturais, era antes aerasis nada wm faro de civlizagio™®. Mas 0 que earac- teriza esta “cultura popular citadina”? Maurice Crubellier dird que ele nao é “nem o folclore nem a moral da escola” trata-se de um universo cultural que se afasta da tradigéo ¢ da cultura consagrada pelas instituigées legitimas (escola muscus, saldes de arte etc.). Uma cultura “méd manifesta nos folhetins, noticias diversas, moda, publ dade, cinema e se assenta em outros critérios de producio « de difusio. O mercado é o espaco de sua expressio. Neste sentido, ela rompe com 0 localismo das tradigoes popu: as barreiras que existem entre capital ¢ provincia, ou ¢ no. fisgava ia”, que regidcs diferentes, cedem lugar a um nivelamento cultural, que no somente manifesta o resultado de uma vontade de ser na propria idéia polities, mas encontra sua raz de mercado. Esta cultura “m (nacional, e como veremos, internacional), articula-se assim 20 processo de modernizacao da sociedade: sua evolugao encontra-se associada a0 compasso do desenvolvimento franc © exemplo da imprensa ¢ da edigio sio ilustrativos, seu crescimento se faz a0 longo do século associado a di- versos fatores; um deles, 0 aumento do publico leieor, li- ga-se direcamente ao progresso da alfabetizacio. Se no sé- culo XVIII 0 ntimero de pessoas alfabetizadas é de 30 por cento (o que em si nao ¢ negligencidvel), em 1860 cle passa para 60 por cento, ¢ em 1890 atinge 90 por cento. A populagio das escolas primérias aumenta de 1939 milhées de alunos em 1832 para 5526 milhées em 1886. Pode-se ter uma idéia deste formidivel avango dos efetivos escolares quando se compara esses niimeros com a populaséo total em idade escolar. Das criangas entre 5 ¢ 15 anos, cm 1850, 47,5 por cento freqiientam a escola; em 1867, temos 70,4 por cento; ¢ em 1896, 93,5 por cento™. A partir da Ter- ccira Republica, a politica educacional torna-se mais agres- siva; com a expansio do ensino secundétio, uma segunda escolarizagio se consolida. No final do século praticamente todo francés é um Ieitor em potencial Ao lado deste movimento, temos um xescente no prego dos impressos. Em 1795 0 valor da assinatura anual de um jornal equivalia a seiscencas horas de trabalho de um trabalhador rural ndo qualificado; em 1851 esta relagao cai para 210 horas, ¢ em 1910 para 73 horas. Dentro dessas condigdes, a indiiseria tipografica € redimensionada; basta olharmos as © ntimero de livros pul reamento gens dos jornais € icado: a RENATO onTHZ Tiragem Jomais da Capital | N° Ticulos Publicados no Pais (didrios) 1803 36 000 1815 3357 1836 69263 1847 5530 846 144 438 1860 11905 1870 1.070 000 1865 14 195 1980 1.947 000 1885 12342 1910 4.937 000 1913 14 460 No caso da edicéo existem alguns pontos de flucuacio Martin Lyons observa que “a produgio total baixa brus- camente durante os periodos de crises econémicas: 1827, 1830, 0 ano da Revolucéo e da epidemia de cdlera, 1846 © 1847, com © marasmo que antecede a Revolugio de 1848, A producto decresce para depois i des no Se indo Império, atingindo entio 12 mil titulos por ano, aetbilzandorse entre 13 mil ¢ 14 mil culos até o final do século XIX". A indiisteia editorial oscila portanto no enzretanto de osci- ritmo da economia francesa. Tra lagGes conjunturais; nos interessa. re terior sobre os cortes estruturais que 05 economistas ¢ os historiadores da técnica se referiam, Em que medida eles ajuscam ou limitam 05 meios sobre os quais o impresso mar a discusséo an. se sustenta? Em comparacio ao Antigo Regime, tanto a imprensa quanto a edigio conhecem no inicio do XIX um cresci- mento real, Antes de 1810 a Franga publicava em média mil obras por ano; sob a Restauragéo, a produgio anual varia entre 3 mil e 7 mil ticulos**, Também a tiragem dos jornais aumenta”: Cinco Maiores Jomnais 1810 1840 Gazette de France 5150 | Sidele 33 366 Journal du Soir 4060 | Journal des Débats 10 583 Courrier du Commerce 3350 | La Prese 10 106 Journal dix Commerce 3000 | Consttusionnel 5946 ‘Le Publicste 2750 | Ge etre de France 5.165 Um conjunto de varidveis torna esta expansio possivel. identemente, as inovag6es técnicas impulsionam 0 pro- cesso de fabricago; a prensa Stanhope (1795), introduzida na Franga em 1814, vem substituir a antiga prensa de ma- neira que, com poucas modificagées, permanecia quase idéntica & dos tempos de Gutcemberg. Em 1811, Koenig inventa sua prensa rotativa, que acoplada & energia a vapor substitui a forga humana; a tiragem tecnicamente possivel, que era de 150 folhas (retro-verso) em 1795, passa para mil folhas por hora, Introduzida na Franga em 1823, ela acelera a produtividade dos jornais que passam a competir com os ditios ingleses. Em 1825, Le Constitutionnel possui 16 mil assinantes, o Journal des Débats, 15 mil, contra 10 mil do Times 8 mil do Herald Tribune®. Ao lado dessas aquisig6es de natureza técnica existem outras. Surge du- rante a Restauragio © gabinete de leitura, local onde se alugam livros ¢ jornais. O puiblico leitor tem agora a opor- tunidade de tomar contato com 0 mundo da escrita por tum preco bem abaixo das assinaturas dos periddicos ou do valor dos livros no mercado. No ramo editorial apa- recem também mudangas significativas. Em Paris, 0 nd- meto de livrarias que era de 373 em 1815 passa para 943 em 1845, crescimento superior a0 da propria populasio da cidade; por ourro lado, a introdugio da venda por “co- missio” ird possibilita a difusio dos livros de forma mais S!, Pode-se ter uma idéia dessas transformagées quan. do se analisa papel da publicidade, A pritica entre os editores ra de anunciar seus livros nos catslogos enviados 208 s. O leitor fazia sua escolha através do. re- lacionamento pessoal reunia as informages sobre o Ieque de ops O catél © aumento do puiblico leva os editores a anunciarem seus mo livreiro, tinico elemento que dlisponiveis go era a mediagio entre 0 ato de compra e venda, fiveos nos periédicos; eles passam a se dirigir as pessoas sem mais ter de utilizar um intermedidrio. "A partir de ci um prOcess0 S€ entio, as condigées do mercado inver cular: 0 piiblico sem a solicita ele deve, po por outro, reconhecer ¢ encontrar sem dificuldade o liveo dade rorna-se o meio através do qual a comunicagio se instaura, mas ela indica também ges de mercado mudam radicalmente a re go entre editorlautor ¢ piblico; o que ¢ oferecido a0 decidir diretamente suas compras, sséria da parte do livreiro varejista 10 ne nado diretament santo, por um lado ser info gue procura”®, A. publi que as cc Jettor deve ser facilmente reconhecido, cipificado, favore cendo o florescimento de uma literatura popular, “indus trial”, dira Sainte-Beuve. Nao € por acaso que © perfodo vé surgir uma série de livros com caracteristicas em quest fortemente “populares”. Basta folhearmos as listas de best sellers da época pata encontrarmos os romances de aventura de Walter Scote (/vanhoé, Roy Rey), de Defoe (Aventuras de Robinson Crasoé); 05 escritos romanticos de Victor Hu- go (Notre Dame de Paris); 2 lireracura sentimental de Bue gine Sue (O judew errante, Os mistérias de Paris) No entanto, é necessirio ter fe 0 crescimento faz dentro de limites precisos da imprensa € da edigio A cyolugio dos titulos publicados no periodo é a seguinte: 1820: 4 881; 1828: 7616; 1847: 5 330. Como observa Orecchioni, “contrariamente ao que se poderia supor 0 de- senvolvimento da instrusao pi ca e sobrecudo 0 5 ogresso a indiiseria do livro, o ntimero de citulos ados entre 1814 € das técnicas ligad: 48 ndo aumenta de modo con- cl nem de maneira regulae"®. © quadro dos rom: ce ponto de vista ces publicados reforga “Tiragem Média Romances Romances Novos 090 1830 245 312 1831 280 1095 1832 290 1829 1460 1838, 385 1833 1010 1346/48, 245 Se ¢ verdade que 0 romantismo usufrui das novas con digdes existentes, somos obrigados a admicir que sua po- cadoligica se defronta com fronceiras bas- Il dentemente os best-sellers existem (entre tencialida 1846 e 1850 plares de Os erés mosqucteiros), porém a tiragem 1 publicados algo em torno de 24 mil exem- dia dos romances & pequena ¢ 0 ruimero de langamentos no mer- cado mais ou menos estavel. © mesmo pode ser dito em relagio & imprensa, Percebe-se um fendmeno de estabili- zacio das tiragens semelhante a0 que se nora na industria editorial®: Cinco Maiores Jornais 1852 863 Constitusionnel 42.611 Sidele 51.000 Sie 20937 Patvie 21.000 Pres 20.000 Pari 18 902 i 18 675 «6 RENATO ORTIZ Um dos farores que certamente dificulta a expansio dos jornais € 0 fato de eles serem vendidos por assinacuras, encarecendo o seu prego. Mas o aumento do piblico leitor encontra-se também pressionado pelo papel ambiguo dos gabinetes de leitura, Frangoise Parent-Lardeur mostra como esses espagos nio eram exclusivamence dedicados 8 leivura; seus donos se voltavam para a edigio ¢ venda de livros, Os gabineces de leituta faziam na verdade parte do circuito de produgao e de difusio do livro. Se, por um lado, eles ma leitura, por outro freavam 0 progresso da edi favored gio. O pequeno monopélio que seus proprietirios di nham, de difundir 0 produto junto ao consumidor, Fazia com que eles tivessem pouco interesse em ver baixar 0 seu prego. Um estudo de Gilles Feyel sobre a difusio dos jornais patisienses na Franga de 1832 aponta os obsticulos que 2 imprensa enfrentava”. A distribuigio se fazia pelo correio, (© que de imediato colocava um problema: no inicio da Monarquia de Julho, boa parce das comunas rurais néo tinham sequer um estabelecimento postal. As centrais, que congregavam 0 niicleo dos servicos, eram poucas, o que fez com que se desenvolvesse em varias localidades os rérios de distribuig assim, 0 resultado nfo era encoa posto de populaczo de 52.979 pessoas), considerado como grande, atendia somente a 18 por cento das comunidades ¢ 20 por cento da populacéo do departamento. Feyel procura ainda estimar a velocidade desta difusto. Os transportes disponiveis na época, as malas-postais, certamente os mais cptores, Mesmo * dirigidos pelos re dor. Um exemplo, 0 autres (formado por 75 comunidades ¢ uma velozes, eram de dois tipos: os que transportavam junto com 0 correio txés a locidade de 14 quilémetros por hora; as malas-estafetas, iajan ygindo uma ve~ atro passageiros, ati que além das carcas carregavam até dois 1s pots sfcutos xix e yelocidade méxima de 17 quilémetros por hora. Tragan- do-se um citculo a partir de Paris, temos 0 seguinte quadro: até 250 quilémetros, 0 correio chegava no dia seguinte; 400, demorava dois dias; depois de 400 quilémetros 0 tempo de espera era superior a quatro dias. Trata-se evi dentemente de um célculo ideal. Os assinantes que viviam nas regies montanhosas (Macigo Central, Pireneus, Alpes) tinham de s ra uma espera maior. O resultado da pesquisa de nteressante, ele mostra que a Taxa nacional de penetragio dos jornais parisienses & de 1,57 digtios por mil habicantes. Ela varia entre um maximo de 3,65 na regio do Rhéne e um minimo de 0,61 em Ariege. Ou seja, a imprensa de fato nfo possuia nenhuma implan- tagio nacional. Roger Chartier considera que o “antigo regime tipo 8 terin durado até 1830. Tomada ao pé da letra, a observagi dificagées substanciais se fazem durante a Restauragao. Ela encerra no entanto uma boa dose de veracidade. A primeira merade do século XIX é um momiento de transig gregando elementos novos ao lado de uma heranga do pas sado. Nao ha dividas de que a industria editorial cresce. © niimero de operitios do setor era de 1 698 pessoas em 1764, passando para 12 238 em 1848, mas a mecanizagio do processo de fabricagao do livro atinge uma minoria de empresas, Ainda em 1861, para os ntes havia somente 117 ma- quinas a vapor, uma maquina, em i Porém, 44 departamentos, 60 por cento do total, no pos- pode parecer excessiva, afinal algumas mo: 10, con- 74 deparcamentos da Franga, nos 684 ateligs exis a, para seis atel nenhuma maquina a vapor. Creio que Frédéric ao retomar a idéia de limite estrucural de um sis- a técnico, apreende de maneira interessante a questo, que estamos discurindo”. Realmente, a estrutura do ramo editorial contém alguns pontos de estrangulamento. Pri- Barbie meiro, a difusio € preciria, 0 que explica a baixa cirag dos livros franceses; cla depende dos meios de co ‘, principalmente de uma rede ferrovidria que incipiente. O exemplo das livrarias de estagfo € sug Desde 1852 a Editora Hachette vinha explorando uma rede de livrarins junto as estagbes de trem. Com a finalidade de tornar as viagens “menos monétonas”, Louis Hachette a “literatura de estradas de ferro” facil digestio. inaugura na Franga oferecendo aos passag Porém como observa Jean Mistler, os negs “O inicio da empresa foi dificil: em 1861, existentes, oito somente possuiam wma feciam ros uma leitura de para deslanch das 162 bibliorec renda que ultrapassava 30 francos, uanto qui mais ou menos 4 francos por dia, 22 menos de 3 francos, € 37 menos de 2 francos. Blas seriam absoluramente inex ploriveis nio fosse a maioria dos gerentes mulheres ou vi vas dos funcionarios da rede, esta ocupagio representando para elas um modesto complemento de suas pei sald grificas contava com a necessidade de se ter um local apro- s de scus maridos’”, Segundo, a mecanizagio das priado para isso, e demandava um investimento importa te. Ora, a maioria dos editores-livreiros eram pequenos em- presétios com pouca capacidade financeira. A tecnologia dispontvel se encontrava assim bloqueada. Poderiamos dizer jue ela inclusive preci Semple 2 utilizagio das prensas & reagio de Marinoni, in- roduzidas pela primeira no Le Prese em 1847, permitiam tuma tiragem de 16 mil jornais por hora. Porém, esta po: tencialidade récnica esbarrava nas limitagées de uma compo anual que } produco. Para manter a cadéncia industrial c ita a crise deste sistema técnico. Por a uir o ritmo d: siggo nao mais conseguia se; necessirio que nosas técnicas interviessem no processo, proble: resolvido somente com a invencio do linotipo. A entrada no “segundo século XI norama, Um primeito ponto a ser observado: a ia que sera modifica este pa- lizagio das atividades editoriais. Até entio, as profissbes de impressor, editor € liveeiro eram mais ou menos superpos- tas, Os propriettrios dos a esas trés dimensOes uma outra: a leituca. Uma livearia tradicional mobilizava pequenas somas de capital para pro- duzir e comercializar um livro. Essa confusio de papéis comeca a ser reformulada a partir das exigéncias do mer- cado. Surgem assim as grandes usinas do livro — Paul Dupont, em Paris; Manne, em Tours; Creté, em Corbeil —, cuja finalidade ¢ basicamente imprimie”. Também na rea da imprensa a especializagio das fungées ganha ter reno. Como observam Louis Charlet ¢ Robert Lang, “no fim do ainda proprietiria de seu material grafico. Havia para isso vrias razées, primeiro a existéncia de uma licenga de im pressor, criada sob o Primeiro Império ¢ suprimida somente em 1870, constitufa obsticulo para a de uma geafica pata jornais; por outro lado, a importincia do jornal, ¢ em conseqiiéncia o material necessirio para imprimi-lo, nio ica especializada. Os jornais eram clientes das gréficas cuja exploragio se fazia comple- tamente separada deles"”’. As inovagées vécnicas, criando maquinas impressoras especificas para jornais, impdem uma segmentagio no interior da prdpria atividade de impressio. Paralelamente, a conjuncio editorlliveciro iri se cindir. A sabinetes de leitura acrescentavam indo Império, a maioria dos jornais aio era justificava a criago de uma g cdiggo, ao se tornar um empreendimento lucrativo e in- dusteial, faz com que 0 edicor se especialize na compra dos manuscrites © no processamento dos livros; cabe as livrarias somente a disttibuigio do produro”. Algumas grandes casas editoriais, como Hachette, Garnier, Calmat Lévy, Charpentier, possuem pontos-de-venda, mas isto é um elemento secundario dentro da perspectiva global de seus célculos empresariais. Ocorre ainda uma segmentacio do mercado, Dalloxe ocupando-se da tea juridica, Ballitre de medicina, Hachette do liveo escolar © comércio do livco configura assim um potente ramo de maiores re industrial, requerendo para isso a aplicagi cursos. E facil perceber 0 crescimento da rentabilidade do setor. A Editora Hachette tinha em 1860 um volume de negécios avaliado em torno de 4,5 milhdes de francos; em 878 ele sobe para 18 milhdes, para em 1913 atingic 0 patamar de 58 milhées de francos?>. Os edicores sio, agora, sobretudo homens de negécio, ¢ devem sc insesir dentro do espectro mais geral das estratégias politicas ¢ financeiras do empresariado francés. A aproximasao entre capital ¢ mundo editorial também sc manifesta na imprensa. Desde 05 anos 60 os financistas comegam a comprar varios jornais para a defesa de scus interesses: “Moriés possui Le Cons- tinutionnel e Le Pays, isto & dois dos és jornais impe- rialistas. Os Rothshild passam a sustentar o Le Journal des Deébats; La Patrie é ligada aos meios de negécios, para néo dizer 2 especulagio””*, Mas no se trata simplesmente de uma relacio que se estabelece no nivel ideolégico; pata ser vel: rentével, um jornal requer um investimento considers capital € edigéo sio doravante pares de uma mesma en- grenagem. A melhoria © a extensio dos servigos ferroviirios per- mitird ainda uma distribuigéo mais répida dos impressos. Pode-se ter uma idéia deste movimento analisando-se a yenda de livros ¢ jornais nas livrarias das estagées (total em francos)” ‘Ano Livros Jorais 1853 (65 536F 16 440F 1860 487 4678 172.625F 1865 572 4467 688 329F 1886 1345 000F 4 400 000F 1900 1494 000F 5.736 000F Os ntimeros certamente indicam a lucratividade da Ha chette, que neste perfodo detém 0 monopélio dos pon tos-de-venda nas estacées. Mas eles mostram também uma difusio da leitura, sublinhando a importancia que os gran- des espagos piiblicos colocam a disposicéo da indtistria € do consumo (publicidade € distribuidores de balas cho- colates). © ano de 1865 marca uma virada importante A partir desta data a venda dos jornais é superior 4 dos liveos, Dado que aponta para a penetragéo de uma im- prensa de massa que surge com a criago da petite pres’, didrios voltados para reportagens sobre crimes, noticias, fo Ihetins etc. Em 1866 fe Petit Journal tira 280 mil exem- places, La Petite Presse, 96 mil, © Le Petit Moniteur, 149 mil, Esses nimeros s6 iio aumentar até o final do século. Em 1908, Le Petit Journal tem uma edigio de 875 mil exemplates e Le Perit Parisien, de 1 325 milh6es. Nao se trata porém de periddicos que se limitam a falar para a regio parisiense; distribuidos nacionalmente, as empresas comesam a ter seus proprios servigos de distribuicéo (0 que é facilitado com a aparicio do aucomével), eles atingem 6 tertitério francés como um todo, revertendo 0 quadro visto anteriormente. Um exemplo: Le Petit Parisien” ‘Ano Exemplares Vendidos Exemplares Vendidos, em Paris ho interior 1879 17 428 6140 1886 65399 65317 1390 125 986 158 205 1900 266 339 418 213 i910 313 642 811.029 A petite prese ceccheu este nome devido 20 formato redusido de seus jornais. Sendo wma imprensa nao politica, beneficiava-ce de condigbes p Ciculares. Nio sofia censura e utliava os meios de transporte sem pagat 1 tasar de correio. De fato, 0 Império privilegia abertamente este tipo Ue imprensa em detrimento de um jomnalismo politico. meiro, a difusio € preciria, 0 que explica a baixa ciragem ses; ela depende dos meios de comuni- dos livros frans cagio, principalmente de uma rede ferroviiria q nda tivo. incipiente. O exemplo das livrarias de estagio é sug Desde 1852.a Editora Hachecte vinha explorando uma rede de livrarias junto as estagées de trem. Com a finalidade s “menos monétonas”, Louis Hacherte de ferro” uma “literatura de estad iros uma leitura de ficil digestao: inaugu oferecendo 205 pas negécios clemoram a foi dificil: em 186 e possisam urn n Mistler, Porém con para deslanchar. "O inicio da empres das 162 bibliotecas existentes, oito somer apassava 30 francos, enquanto quinze faziam mais ot menos 4 € 37 menos de 2 francos. El plordveis nao fosse a maioria dos gerentes mulhe vas dos funciondrios da rede, esta ocupagio representando para elas um modesto complemento de suas pensdes ou Segundo, a mecanizigio das ncos por dia, 22 menos de 3 francos, ceriam absolutamente inex: saldtios de scus maridos grificas contava com a necessidade de se ter um local apro: priado para isso, ¢ demandava um investimento importan te. Ora, a maioria dos editores-livreiros eram pequenos em cira. A tecnologia presérios com pouca capacidade finan disponivel se encontrava assim bloqueada. Poderiamos dizer sistema técnico, Por que ela inclusive precipita a crise des exemplo, a utilizagio das prensas & reagio de Marinoni, in- troduzidas pela primeita no La Prese em 1847, permitiam uma tiragem de 16 mil jornais por hora. Porém, esta po cencialidade técnica esbarrava nas limitagées de uma compo- nao mais conseguia seguir 0 ritmo da industrial era necessiio que 0, problema que seré sigio manual que } producio, Para manter a nossas técnicas interviessem no proce: resolvido somente com a invengio do linotipo. A entrada no “segundo século XIX” modifica este pa- norama, Um primeito ponto a ser observado: a raciona- lizagio das atividades editoriais. Até enti, as profissées de impressor, editor ¢ livreiro cram mais ou menos superpos- tas. Os proprietirios dos gabinetes de leitura acrescentavam a essas trés dimensdes uma outra: a leitura. Uma livraria tradicional mobilizava pequenas somas de capital para pro- duzi ar um livro. Essa confusio de papéis comega a ser reformulada a partir das exigéncias do mer- cado. Surgem assim as grandes usinas do liveo — Paul Dupont, cin Paris; Manne, em Tours; Creté, em Corbeil —, cuja finalidade é basicamente imprimir”, Também na a da imprensa a especializagéo das fungées ganha ter: reno. Como observam Louis Charlet e Robert Lang, “no fim do Segundo Império, a maioria dos jornais nao era ainda propriecéria de seu material gréfico. Havia para isso vitias razbes, primeizo a existéncia de uma licenga de im- 2 sob o Primeiro Império e suprimida somente em 1870, constitufa obstéculo para a criagio de uma grafica pressor, cria para jornais; por outro lado, a importincia do jornal, ¢ essirio para imprimi-lo, ndo justificava a criagio de uma grafica especializada. Os jornais cram clientes das gréficas cuja exploragao se fazia comple- As inovagées técnicas, criando miquinas impressoras especificas para jornais, impéem uma segmentacio no interior da prépria atividade de impressio. Paralelamente, a conjungio editor/livreiro iri se cindir. A cin conseqiiéncia 0 material n tamente separada dele: edigio, a0 se cornar um empreendimento lucrativo © in- dustrial, faz com que o editor se especialize na compra dos manuscritos e no processamento dos livros; cabe is livrarias somente a distribuigio do produto”. Algumas grandes casas editoriais, como Hachette, Garnier, Calman. Lévy, Charpentier, possuem pontos-de-venda, mas isto é um elemento. secun seus célculos empresariais. Ocorre ainda uma segmentagio do mercado, Dalloze ocupando-se da drea juridica, Balligre de medicina, Hachette do liveo escolar. rio dentro da perspectiva global de © comércio do livro configura assim um potente ramo industrial, requerendo para isso a aplicasio de maiores re cursos. & fécil perceber o crescimento da rentabilidade do setor, A Editora Hachette tinha em 1860 um volume de negécios avaliado em torno de 4,5 milhdes de francos; em 878 ele sobe para 18 milhdes, para em 1913 atingir o patamar de 58 milhées de francos’S. Os editores do, agora, sobretudo homens de negécio, e devem se inserir dentro do espectro mais geral das esteatégias politicas e financeiras do empresariado francés. A aproximagao entre capital © mundo editorial cambém se manifesta na imprensa. Desde 60s anos 60 0s financistas comecam a comprar virios jornais para a defesa de seus interesses: “Morits possui Le Cons- Htutionnel e L jomais impe rialistas. Os Rothshild passam a sustentar 0 Le Journal des Débats, La Patri € ligada aos meios de negocios, para nao dizer & especulagéo"”®. Mas no sc trata simplesmente de uma relagio que se estabelece no nivel ideolégico; para ser Pays, isco é, dois dos rentével, um jornal requer um investimento considerdvel; capital ¢ edicdo séo doravante partes de uma mesma en- grenagem. ‘A mclhoria ¢ a extensio dos servicos ferrovisrios per- mitird ainda uma distribuigio mais répida dos impressos. Pode-se ter uma idéia deste movimento analisando-se venda de livros ¢ jornais nas livrarias das estagies (total ‘em francos)”?: Livros _fornais 65 536F 16 440F 7 467F 172. 625F 572 446F 688 329F 1345 000F 4 400 OOF 1 494 0001 Os nitmeros certamente indicam a lucratividade da Ha- chette, que neste perfodo detém 0 monopélio dos pon- tos-de-venda nas estagdes. Mas eles mostram também uma difusio da leicura, sublinhando a importincia que os gran- des espagos piiblicas colocam & disposigio da indiistria ¢ do consumo (publicidade e distribuidores de balas cho- colates). © ano de 1865 marca uma virada importante. A partir desta data a venda dos jornais é superior 4 dos livros. Dado que aponta para a penetraggo de uma im- prensa de massa que surge com a criagio da petite pres, didrios volrados para reportagens sobre crimes, noticias, fo thetins etc. Em 1866 le Perit Journal tira 280 mil exem- plares, La Petite Presse, 96 mil, ¢ Le Petit Moniteur, 149 mil, Esses nmeros s6 irio aumentar até 0 final do século. Em 1908, Le Petit Journal tem uma edigzo de 875 mil exemplares e Le Petit Parisien, de 1325 milhées. Nao se trata porém de periédicos que se limitam a falar para a regio pacisiense; discribuidos nacionalmente, as empresas comecam a ter seus préprios servigos de disttibuigi0 (0 que é facilitado com a aparigio do automével), eles atingem © tertitétio francés como um todo, revertendo 0 quadro visto anteriormente. Um exemplo: Le Perit Parisien ‘Ano Exemplares Vendidos Exemplares Ven ___em Patis no interior 1879 17 428 6140 1886 65317 1890 158 205, 1900 418 213 1910 313 642 811029 A petite prese recebeu este nome do a formato redurido de eu benefcavae de condigies par Calves, No soia cena eudlzava ot meiot de transporte se papa ws mas de corn. De Kim, o Inpho prvlega sherteenis ene to de imprene em detinenes det orale, pic, jornais, Sendo uma imprensa nio polit wa RENATO OKLA O perfodo entre 1880 € 1914 tem muitas vezes sido Epoque, A denominagao cm maginado como uma Belle si é sugestiva, Cunhada jé no século XX, quando a Franga conhece uma crise econémica ¢ enfrenta as lembrangas re- centes da Primeira Grande Guerra, ela encerra uma co- notacio nostilgica, algo como um passado durco perdido para sempre. A Belle Epogue seria 0 reflux de uma época, seus excessos expressariam o fim de uma civilizagso. Em- bora o termo nio existisse, muitos de scus contemporineos partilhavam esta sensagéo de desconforto; cles certamente nao entendiam, como os que vieram depois, que estavam vivendo uma idade de ouro; pelo contririo, a énfase co- locada na situacio de crise thes impedia antecipar tal pers- pectiva. Porém, a idéia de declinio thes era comum. Dur- Ikheim acreditava sinceramente que a sociedade francesa passava por uma profunda crise moral, ¢ em toda a sua obra sociolégica cle busca responder 2 esta questio. A der- rota da Franca diante da Alemanha, a Comuna de Paris, a divisio de trabalho nas indiistrias, © conflito entre em presariado ¢ classe operdria eram para ele indicios sélidos de que a sociedade se desintegrava em seu nticleo. As an- tigas formas de solidariedade tinham no entanto ruido, areligido nao mais possuia a forca'de aproximar os homens, Por isto esta sociedade “doente” (com suas anomias que comecavam a extrapolar as “taxas normais” de tolerdncia — suicidios, crimes, divércios) s6 poderia se reencontar se uma nova moralidade florescesse. A problematica da crise da sociedade francesa € ampla, ¢ no interessa apenas a0 socidlogo; dela participam politicos ¢ literatos das diversas tendéncias. Embora a decadéncia tenha sido uma preocu- pago que anima sobretudo as idéias do campo conser- vyador, cabe lembrar que ela penetra inclusive junto a li- teratura de “esquerda”. Zola, durante 0 caso Dreyfus, nio deixa de denunciar que o anti-semitismo presente seria um ots s€cuL08 Hix a retorno a intolerincia da Idade Média, sugerindo uma aproximagao da histéria, recorrente entre os pensadores de- as. Para esses, no havia diividas, a degenerescéncia da Franga era um fato palpavel ¢ irreversivel. Descenso que se articulava no plano mais genético com a decadéncia do mundo ocidental e da civilizagio industrial, destruidora dos valores tradicionais, distance da natureza, portadora de pe- Ao tratarmos este perfodo como uma segunda moder- fie nalista da histéria. Ngo pretendo negar 0 “declinio” da nidade, estamos de alguma forma invertendo esta vis Franga como nagéo, 0 que prefico entender como uma mu danga de sua posi¢ao de poder no contexto das sociedades européias (Inglaterra, Alemanha) ¢ americana (Estados Uni- dos}; mas creio que se pode divisar a Belle Epoque com outtos olhos. Afinal, este € 0 momento em que a Franca toma-se uma sociedade moderna. Perfodo no qual se con- solida uma imprensa de massa, uma literatura popular, ¢ emerge uma cultura de entretenimento que se consubstan- nos cafés-concertos, no show business. O atégrafo inaugura com ele uma nova estética, que, cia no cinem a partir de 1908, se expressa nos fil nes de Fantomas, Nick Carter, os melodramas folhetinescos, ¢ claro, as peliculas americanas que comegam a invadir o mercado francés. Ou- ros temas surgem ainda neste final de século,/‘conforto”, turismo", “informagio"; aos poucos eles se constituem em clementos-chaves da prépria organizacio cultural e material da sociedade. Nao seria a decantada alegria ¢ despreo pagio dessa ¢poca um sinal de que a ética, em relagio a0 balho © a vida, comega a se transformar? Certamente nio seria correto imaginarmos na Franga a exis uma cultura de massa ou de uma industria cultural nesse periodo. As ncia de angas apontadas, com excegio talvez. da leitura, se confinavam a alguns grupos sociais, excluindo uma maioria de “consumidores” potenciais, os operiti € camponeses. Entretanto, em linguagem gramsciana, eu diria, esta modernidade € concreta mas nao se impée ainda como hegeménica. Neste sentido, a Belle Epoque nao € um refluxo, ela porta os germes de civilizagio, ela € 0 seu inicio e contém as esperar irdo explodir nos tempos “pés-modernos” € as decepdes que NOTAS 1. Ver 0 livro de Maxime Berg, La era de lar manuficturas. Barcelona, Ed. Critica, 1987, que nuanga 2s incerpretagbes teleologicas sobre a Re- volugio Industrial, mestrando que a0 lado do avango tecnoldgico ¢ eco. rnémico subsistem, até 0 inicio da século, as formas tradicionais da indistria inglesa 2. Ver Ronda Cameron, Francia y deraralle econdmico de la Europa: 1880- 1914, Madri, Tecnos, 1961; David Landes, The unbound promereus: Tec- inn western Europe from 1750 nological change and industrial developn to the prevent, Cambridge, 1969. 3, Adeline Daumard, "A evolugio das estrururas socais na Franga na época ‘da industiliaagao" in Hierarguia e rigueza na scitdade burguese, SP, Pers- pectiva, 1985. 4, Consular Henri Morsel, “Les grands rythmes économiques du XIX siecle” in Yves Lequin (org) Hisore des Prangais XIKe-XXe ste, Pais, Arrsand Colin, 1983; para uma comparagio com a Inglaterra, ver Carlo Cipolla, Hitiriaecondsnica de la poblacibn mundial, Barcelona, Ed. Critica, 1983, ¢ Eric Hobsbawm Ar revoluges burguesas, RJ, Pax e Tera 5. Philippe Acits, Hiseore dei populations francaise, Pais, Seuil, 1971, p. Maurice Garden, “De I'Ancien Régime au XXe sitele: une vision ca walidze” La mesure du malthusianisme fiangas” in Histoire des Prangais, op. cit. Uma comparacio entre o crescimento populacional na Prana € na Inglaterra pode ser enconttada em Philippe Ariés, “Populations anglaise ce frangsise du XVIlle au Xe sile” in Histoire der populations rang op. cit Jean Falize, “L’Epopée du Rail” in Louis Armand (org.) Histoire des Ghemins de Fer en France, Patis, PUB, 1963, 6 8, Os sansimoniseas tém uma atuagio importante na organizagio do sistema ferroviiio, Em 1842 Enfantin coordena os trabalhos de fusto das diferentes compas ida de ferro, estdbelecendo um modelo que servis para ‘ede nacional. Ver Sebastien Charléty, Histria 1969. ava formagio de um: del Sansimoniems, Mai, Alianza © 9, Consular E. Levasseur, Histoire di Rousseau é4., 1912, p. 295, 10, Mare in David Mctellan, Karl Mar: his ife and thought, Londres, Granada Publishing, 1981, p. 87. 11. Louis Chevalier, Laborisuses et Clases Dengerewies a? Franc, Pais, Archut dant ta Premitre Moitié du XiXe Site, Pars, Hachette, 1984 12. Villeemé, Tableau de (Etat Physique ct Moral des Ouriers dans kx Fabriques de Coton, de Laine ot Sete, Paris, Jules Renonard, 1840: Karl fe ransformajae, R), Ed. Campus, 1980. 19. Roger Charger, “Les deux Fea aphie", Cabie a Hiaairs, Tome 23, 1978. Ver também 14. Dados in Marcel Roneayola, “Logiques Urbaines” in Maurice Agulhon (org) Histoire de la France Urbail Tge industriel, Pacis, Sei 1983, p. 94 15. Idem, p. 48. 1G, Dados in Levasseut, op. cit, p. 396 17. Idem p. 390 18, Philippe Arigs, “L'éxode rural” in. Mizove des popula 19. Dados in Ronakl Hubsher, "Le paysan et la sociéeé englobante” in Histoire des Franti Op» Cy 102. 20. Henty Moreel op. cit. p. 468 21, Eric Holsbawm, A era dos finpérios, RJ. Pax e Tera, 1988, 22. Lewis Munto ny Madi, Alianaa Ed., 1987. Sobe 4 historia da técnica consular ainda T.-K Detry © TLWilliams, Historia de lx tecnologia (vol, |e co, Siglo XX 23, Bervtand Gille, Hisoive des tecnignes, Pais, Gallimacd, 1978. 1s Lequit,"Leachévemente de Teena y evilisa fe etic © mito do inventor "sé", aticu lando-o carn © conlecimento técnica ¢ ciencifico da época, ¢ os interes Chadeau, “Poids des fliéres ance jusqu 1908", socioculturelles et nacre de invention: aézoplane en LAnnde Socelegiqne, vol. 36, 1986 25. B. Gille op. cit, p. 796-7. 26. Depoimento da condesss Jean de Page “Comment jai vu 1900" in Le téliphone & la Belle Epoque, Bruxclis, Ed, Libtos-Sciences, 1976. 27. Cathérine Bertho e Patrice A.Carsé, "Le téphone ou la communi cation domestique: 1877-1914 in C.Beho (org) Hicoire des Télécom munications en France, Toulouse, Eres. 1984, pp. 82-83. 28, Jacques Aral e Y, Stourdze, “The birth ofthe telephone and economic Crisis: the slow death of monologue in French society” ia I. de Sola Pool, The social impact of telephone, Cambridge, MIT Press, 197, p. 104 29. Ver Walter Benjamim, Parigé capital de! XIX secolo, Tutimm, Einaudi, 1986. 30. Bernard Marvey, Ler Grands magarin, Patsy Libr. Picatd, 1979. 31. Donald Lowe, History of Bourgeois perception, Chicago, University of Chicaga Press, 1982. © autor retoma ox argumentos desenvolvidos por McLuhan 32. Henri Lefebvre, Inirodusio & modernidadt Ry, Paz e Terra, 1969, 918, Cambridge 33. Stephen Keen, The culture of Harvard University Press, 1963, p. 1 34, Pata uma andlise histériea da cultura popular coneultar Robert Mu- chembled, Culture populaire et culture des lite, Pais, Flammation, 1978, «Peter Burque, Popular in early modern Europe, N.Y., Harper Torchbaaks, 1978. 35. Muc 36, RMandrou, De a culture Blew, Paris, Ed. Stock, 1964 37. Nathalie Davies, “Printing and the People” in Society and culture in curly modern France, Stanford, Stanford Universcy Press, 1975, 209, 39. Ver, por exeinpl, F.P- Thompson, “Rough Musi le cars anh ‘and space 18 bled, idem, 38. Muchembled, op. ci Annales: économies,socigeés et civilisations, margo-abril 1972 40, Ver Paul Gerbod L-Eurape culrurlle et religieve de 1815 Patis, PUB, 1977; Mautice Agulhon, “Le probleme de ls culture populaire imme, 229, 1975, +s formes de soviabilité en Prance en France autour de 1848", Rom 41, Btiénne Frangois, Rolf du miliew du XVIII siele mmaderne et contemporiine tome XOOKY, julho-setembro 1987, pp. 461-2. 42, H.Gsidor, E. Rolland, Malusine, tomo 1, n21, 1878, p. 1 4, Sabre 9 eneato de catura popela no século XIX, particulrmente “Cultura Popular: romiaticos radungao em Cigncias au milieu du XIX sitcle”, Revue d'Histoire De étude de poésie populate en France’ 4 concepgia folelorista, ver Renato: Ort ¢ folelorisias”, Textos 3, Programa de Pés PUCSSP, 1985. ui uma expressio de Michel de Cercau, in Le culture au ppluriel Pacis, Ch. Bourgeois, 1980. 45. Andrew Lang, Custom and myth, Londres, Longmas Green Ca, 1893, p13. 46, G.Cochiara, “The teaching of Pisre", Journal of Folklore t vol. XI, ad 1-2, 1975, p. 12 * menary oxrie 47. P.Sébllot, Le folklore de le Bretagne, Pais, Payot, 1950, p. 11 48. Marcel Mauss, "La Nation” in Ociore (tomo 3). Paris, Minuit, 1969, p. 584 49. Ver Pierre Bourdieu, Ce gui parler veut dir, Pats, Fayard, 1983, 50. Eugen Weber, Peacente into Frenchmen, Stanford, Stanford University Press, 1982, p. 67. SI. EWeber op. cit. p. 5. Sobre o memo assunto consultar Maurice Agulhon, Le République au Village, Pats, Plon, 1970 52. J -Darmond, Le colpartage de librairie en France sous le second empire Paris, Plon, 1972, p. 128. 53. Ver M.Crubellie, Histaire eultwrelle de la France: X02 Colin, 1974. 54, Frangois Furet ¢ Jacques Ozout, Lire et Eerire (vol. 1), Patis, Minuit 1977, p. 276. 55. Dados in Pierre Albert, “La Presse Prangaise de 1871 a 1940" in His: tite Générale de la preve (toro It1), Pati, PUF, 1972, p. 141 56. Para a imprensa, dados in P.Albere, G.Feyel, .F-Picatd “Documents pour I'Histoire de la Presse Nationale aux XIXe et XXe Siteles’, Pass Ed. CNRS, 1980; para os livras, Theodore Zeldin, Maire des passions feangaiver: 1846-1945 (vol), Pats, Seuil, 1981, p. 9. 57. Martin Lyons, Le triomphe d livre: une histoire so agique de la lecture dans la France du: Xie sitele, Pati, Promodisy 1987, p. 13. 58. David Bellos, “La conjoncture de la production” in RChartier € H_J.Mattin (org) Hizaire de | modi, 1982, p. 553. 59. Dadot in “Documents pour 'histoite de la presse.” op. ci G0. Sobre as informagées técnicas consultar Louis Charler e Robert Lang, "Lévolution des techniques des origines & nos jours” (Como 1) ¢ “L’ volution des techniques de 1820 & 1865" (tomo II) in C-Bellanger alt (otg) Histoire générale de la prese francaise, Paris, PUR, 1969. G1. Sobre a evolugio deste mercado de livres e sua influéncia sobre os escricores rominticos ver James Smith Allen, Popular Franch Romanticism: authors, readers, and books in the 190h Century. N. York, Syracuse Univessiy Press, 1981 62. Fréderic Barbier, “L’économie éditorile” in Histoire de Fédition gai (Vol. 2) op. cit, p. $66. 63. P.Orecchioni, “Le marché du livre” traire de ta France (vorno 7), Patsy Ed 64. Dac 65 66. Frangoise Parent-Lardeur, Ler eabinets de le in P. Abrahm (org) Histoire lite sociales, 1976, p. 119. in Orecehioni op. cit. ¢ David Bellos op. cit. 1105 in “Documents pour I'Histoire de la Presse” op. ci. re, Paris, Payot, 1982, bs wus senueus xox ” 67. Giles Fey, "La difwion atonal des quaiiens pastes en 1832", Revue dHistote Moderne t Contemporaine, tome XXXIV, anco-mat 987 &, Rhee, “LAr sosbil 198 &. FBatbiet, “Les imprimeus” in Hite de Lion fame (ome UD, op ci p. 74. ee 70. FBabir, “Lindusiliaon des ecligue ide 71 Jean Mises, La bare Hache d 182 5 Barber, "Les Imprimeu” op. ct 7B. L Char « Rang "Léon es techni in Histoire gént i Régime yp graphique: 1éflexions sur quelques s: économie, socidtés et civilisations, a9 2, mar- & nos jours, Pats, le 1865 & 1945 le de lt prewe.. (camo IID) op. cit 74. Sobre as novas condigées da edigho consultar J.Y-Mollier, Michael et Calmann-Lévy on ta naiviance d 1984; e sobrewudo, Paris, Fayaed, 1988, 75. Dados in Jean Mister, op. cits p. 82 © p. 192. 76, Piotte Guiral, “La Presse de 1848 4 1871" in Histoire géucrale de la prese...(come I!) op. cit pp. 255-256. Dados in Jean Mister op. cit 78. Ver Prancine Amaury, Hire du plu grand quetidien de la Ile Ré- we: le Pett Parisien, Paris, PUP, 1972. ‘dition moderne, Paris, Calmann-Lévy, Argent ot les Levees histoire du capitaliome dédition, “A multiplcagio dos Keiores & a ‘multiplicagio dos pies. O dia em que o Cristo fencontrou este simbolo, ele vislumbrou a imprensa.” Vieror Huge. ‘0 algodio é todo ilha, 0 Fingimento, a imiagio, a aparincia das coisas boas, Tudo ¢ algodio, Tudo é bacste: 0 governe como as camisas Nestor Roquepl Pintae © que para a Iva, um pita o2 mbveis — subdivisdes a0 infinite, vé — um pintor para 0 sol, un Baudelaire. CULTURA E MERCADO Desde a época classica, as artes comhece dades curopéias uma relativa autonomia. A id demia, “local de encontro de pessoas voltadas para as artes liberais", revela um certo grau da especializagio das pro- fissoes. Ainda no XVII 2 fundacéo da Academia Francesa e da Academia Real de Pintura e Escultura, inau- gura todo um processo de criagio de instituigdes similares ovincias. Isto implica algumas mudangas considerd- veis. Os pintores, que pertenciam as corporagées, a0 in- tegearem esses espagos re antigas ordens profissionais; suas atividades passam assim 4 ser definidas em termos de uma comperéncia mais i tclectual do que propriamente mecdnica ou manual. A pil tura ea escultura séo compreendidas como artes liberais € se destacam do comércio e do artesanato. A academia congrega um conjunto de especialiscas que agora detém © monopélio da formagio ¢ da selesao dos tal possui ainda uma outta fungio, a de reconhecimento pro- fissional; 0 artista, para ser legitimado enquanto tal, deve pertencer a seus quadros. No entanto, como observa Na- ntes, devem se distanciar de suas os. Ela thalie Heinich, a reorganizagao da pintura nao se faz nunca eee segundo critérios estéticos', no existe, da parte de quem realiza uma obra, nenhuma reivindicagao de uma pratica pictural especificas dito de ourra forma, a idéia de “artista” enquanto criador encontra-se ainda incompleta. A auso- nomia do campo das artes plisticas é, porranto, precitia Ela encontra barrciras de ordens objetiva ¢ subjetiva para se constituir enquanto dominio estético particular. Pode-se dizer o mesmo dos homens de leteas. As instituigies aca- démicas preconizam um primeiro momento de auronomi- zagio do universo das letras; porém, no podemos nos esquecer de que na verdade elas eram controladas pelo me- cenato, poder extra-literitio. Alain Viala diré que 0s escri- tores da idade clissica viviam uma situag pois escreviam sem necessariamente possuir so’, Sua consagragio € neste sentido * administrada pelas instancias que escapam a0 controle do ambigua liberdade para is onfiscada”, sendo meio licerévio ‘A Sociologia tem reiteradamente apontado par dangas introduzidas no campo estético durante 0 século XIX. A prépria idéia de arte enquanto criago subjeciva é fruto dese momento de 1 conceito definitivamente se separa do significado de crafi dimens4o que ainda Ihe conferia um aspecto de trabalho manual. A arte € agora coneebida como uma “realidade superior”, € 0 artista comesa a se perceber como um pro- dutor independente, dotado de um génio criador’. A fonte da criatividade reside portanto na idiossincrasia daquele que interpreta o real, O individuo, na sua integridade, € quem orienta o olhar estético, e no mais a rorina das inscincias Jintico tem um papel im- as mu rganizagio da sociedade, O tradicionais (0 movimento roi portante na difusio dessa concepgdo individualizante). Dentro desse contexto, a arte € pensada como uma lin- guagem especifica; para existir ela deve transcender a rea- lidade, integrando-a a0 universo comunicativo particular 08 artistas. O exemplo da literatura é interessante. Sartre nos mos- tra que durante os séculos XVII ¢ XVIII a escrita encon- trava-se submetida a fortes exiggncias de ordem externa. O eseritor possula na verdade dois serem trilhados. Ou se conformava as imposigées de uma aristocracia que o sustentava materialmente, ou tomava pat- ninhos possiveis a tido pela nova classe ascendente, a burguesia, Nos dois ca- sos, a influéncia ideoldgica era determinante, a literatura encontrava tor burgués, um iluminista, acreditava escrever para um homem universal, abstrato, mas sua ilusio serd abalada com © advenco da Revolusio. A burguesia, como classe social que aos poucos se apropria do poder, passa a exigir de a servigo de uma ou de outra classe. O escri- seus literatos um posicionamento a seu favor. O artista deve nao mais escrever para um homem abstrato, mas orientado pelos ir xsalismo anterior, que era negatividade, combate a uma cultura aristocrat afirmar plenamente sua autonomia, encerrar-se numa re- publica das letras, Em cermos sartrianos pode: se durante o século XVIII a escrita possuia uma fungio politica, no XIX ela torna-se a-ideolégica. Esse movimento de distanciamento do mundo faz com q afiste das demandas politicas, transformando-se numa tituigao. Isto significa, no entanto, que a partir desse mo- nto 0 escritor comesa a escrever para um puiblico de iniciados, ou, como nos diz Sartre, “o artista sé aceira ser lido por outros artistas". Os critérios televantes para a resses particulares de sua classe de origem. O uni- , se restringe. Resta a0 escritor, pai nos dizer: a literatura s apreciagao de uma obra passam a ser determinados pelos pares. © campo da cultura erudita funcionaria assim como uma arena fechada, no interior da qual as regras de le- gitimidade estética estariam claramente definidas iL RENATO ORTIZ Acontece, porém, que 0 processo de autonomiz: artes € contemporineo ao florescimento de uma cult ‘ado, Se Flaubere pode ser visto por Sartre como se pode esquecer de que este ¢ também o instante cm que 6 folhetim se consagra como lireratura comercial. A bur- guesia permite, para usarmos uma imagem de Adomo, que 2 arte se consolide como uin locus de liberdade, mas em contraposigio propria légica de mercado que funda a sociedade capitalista. Horkheimer ja observava que a arte autonamia que ni adquire nas sociedades modernas ui desfrutava anteriormente®, Porém, este movimento € con- comitante ao triunfo do utilitarismo burgués, a sua razio jluminista. Arte auténoma e mercado sac elementos his- toricamente simuleineos ¢ antagénicos. Como entender a relagio entre esses termos? Esta discussio nos interessa na medida em que, histo- ricamente, pela primeira vez, exprimem-se 08 conflitos en tre cultura erudita e cultura popular de mercado, Tema permanente no debate sobre a cultura de massa. Penso que. fuma das formas para compreendermos melhor esta pro- blemitica, € recorrermos a alguns conccitos cunhados por Pierre Bourdieu®, Ele distingue entre uma “esfera de bens restritos” e utra de “bens ampliados”, sugerindo uma abor- dagem interessante das questées que me inquietam. Para Bourdieu, o campo erudito tende a estabelecer suas normas de legitimidade, e se destina a um piiblico de produtores de bens culturais que também produzem para seus pares O campo da “indéstria cultural” encontra-se no pélo opos- t0. Ele obedece a lei da concorréncia, visando a conquista do maior mercado possvel, ¢ dirige seus produtos fun- damentalmente aos nao produtores de bens culeurais. Exis- tiria portanro uma organizacio ¢ uma Idgiea imanences 3 CULTURA E MERCADO ° cada um desses universos. Creio porém que a sociologia da cultura, sobretudo quando se debruga sobre 0 século XIX, tem pr Gostaria de inv giado o entendimento da esfera erudita ter essa perspectiva e tomar como objeto de estudo a relagio entre cultura e mercado; para isso, con- siderarei dois exemplos: 0 folhetim e a fotografia Quando 0 Estado francés adquire a invengao de Da- guerre (1839), divulgando-a para a “humanidade”, a pro- dusio de imagens torna-se uma realidade. © daguerrestipo possufa, no entanto, varios inconvenientes. Era pesado (50 quilos), custava caro (entre 300 © 400 francos), a placa, sensibilizada pelo vapor, tinha de ser prepatada na hora, € 0 tempo de exposig io do objeto girava em torno de meia hora (uma verdadcira cimara de tortura para o paciente que a cla se submetia). Havin ainda ums outta limitagéo: cle nao fornecia cépias. Entre 1839 ¢ 1841, uma de aperfeigoamentos técnicos sio realizados, diminuindo o pe so do aparelho, seu prego, melhorando inclusive 0 apro- veitamento ético das lentes. A descoberta de novas subs- ti s aceleradoras tornam as placas mais sensiveis & luz, reduzindo o tempo de expo: (embora sem a da atingie 4 instantaneidade): treze minutos em 1840, vinte a qua- renta segundos em 1842, «és segundos em 1855. Progresso que incentiva a criagao de ateliés, que desde 1841 comegam a proliferar em Paris. Em 1842 sa0 produzidos na cidade cerca de 1800 rettatos; alguns anos mais tarde (1849), so. sy) conseguem fazer 3 mil retratos por ano. “Por mais artesanais que seja em felagio a desenvolvimento posterior permitido pelo procedimento negativo-positivo, essas quantidades diferen- ciam a fotografia das artes do desenho, situando-a em um quadro pré-induscrial”, mente dois fordgrafos (Vaillat ¢ Den se transformar cadicalmente Este pequeno mercado i com o advento da fotografia. Um dos graves problemas da daguerreotipia era que ela nio se adequava as exigéncias de uma economia industrial. As primeiras imagens pos- sufam talvez uma unicidade auritica, mas isto limitava a aplicagio do procedimento técnico. A invengto da “foto- grafia” (Talbot — Inglaterra) desde 1841 potencialmente anunciava a superaggo deste quadro. Técnica distinta da daguerreotipia, ela possibilitava a fabricagao de cépias, alé de fornecé-las em papel ¢ no em placas, baratcando procedimento ¢ tornando 0 transporte mais fécil. Porém, a qualidade da imagem obtida era inferior ao processo de Daguerre. Vérias tentativas sio feitas para contornar esse impasse, mas elas s6 iro vingar bem mais tarde. E somente a partir de 1851 que se tem um avango substancial da fotografia: datam dessa época a reconversio dos estidios donam o d profissionais, que progressivamente ab: redtipo a seu favor Nao é dificil perceber como 0 mereado de retratos au- menta sensivelmente. Em 1848 existiam em Paris 56 fo- tégrafos, realizando um volume de negécios de 346 500 francos. Em 1860 cles si0 207, mobilizando um montante de 6 547 410 francos?. Mercado que se desenvolve sobre- tudo com a introdugio dos cartoes de visicas, diminuindo © preco das fotos consideravelmente. Um retrato tinico, que custava em torno de 50 a 100 francos, cai para 20 francos, as vinte cépias; em 1862, eles estio mais baratos; 05 cartes de visita custam 0,70 francos 0 cento. Mas a reorganizagio dos ateliés ndo € meramente técnica, a ri- queza dos novos estddios revela que a fotografia torna-se um empreendimento lucrative. Nadar, por exemplo, deixa seu pequeno espaco na rua Saint-Lazare ¢ constrdi no Bou- levard des Capucines, centro da vida burguesa, um palicio de cristal, Utilizando a técnica de Joseph Paxton, ele con- cretiza na Franga a expressio de uma arquitetura em ferro ¢ vidro, procurando tirar 0 melhor partido na capragio da luz solar. Disdeti constréi também um “templo da fo- tografia”. Um luxo fantéstico ornamenta sua decoragzo in- terna, “Na entrada, uma vasta pega decorada no estilo re- nascentista serve de vestibulo, Nas paredes, madeiras de velhos carvalhos enquadram as placas de mérmore com 0 nome dos clientes mais eélebres do forégrafo. Uma biblio- teca ocupa este lugar, notavel pela qualidade de seus pai- ;culpidos com as figuras alegéricas da Abundancia, da Indiiscria e das Cigncias das Artes. Para chegar & sala de pose, o cliente acravessa em seguida o grande salio. Al slo somente grinaldas e astrigalos; a seda e o bronze bri- tham, iluminados por cerca de cem velas fincadas nos pin- gentes dos candelabros de cristal”, Fausto que acompanha © éxito comercial, pois Disderi emprega oitenta operdrios ¢ realiza um volume de negécios de 1,5 milhio de francos. © panorama descrito por Meyer ¢ Pierson em 1862 € revelador. Eles dizem: “Na Franca, a focografia € hoje uma industria; alguns ateliés ocupam um ntimero extenso de pessoas e incomparavelmente mais bem remunerados do que as grandes manufaturas. Artistas ¢ trabalhadores néo -specializados af en balho assegurado; erata-se do progresso cal como manda a civilizagio moderna”. Nao se trata porém de um diag ndstico que se restringe & “industria” do retrato. Em 1851, Blanquart-Evrard abre sua “Grafica Fotogréfica” em Lille, urilizando a focografia na reprodugio de gravuras”®. As po: tencialidades da nova técnica faz ainda com que ela seja absorvida por diversos setores, urbanistico, cientifico, in- dustrial, ¢ inclusive o Estado ira empregé-la fartamente nos presidios e na documentagio de suas conquisas coloniais. Dentro desse contexto a fotografia se profissionaliza. Em 1854 ¢ criada a Sociedade Francesa de Fotografia, subs- ontram uma fonte de lucro e um tra vituindo a antiga Sociedade Heliogrifica que editava a re vista Lumiére. Em 1862 € fundado 0 Balcio Internacional de Fotografia, cujo objetivo é racionalizar 0 comércio das fotos entze diversos paises. "=O olleim nasce de um artfcio politico, Sob © Di rex6rio ¢ © Consulado, a severidade da’ censura impunha 208 jornais um controle rigido da opiniao. Isto levou o Journal des Débats a criar, no todd de suas paginas, um local no qual toda discussio politica esta ee publicadas noticias sobre a literatura e 0 teatro. No entanto, na Franca, 0 habito de se publicar obras originais nos érgios de imprensa ¢ introduzido tardiamente. Pritica corrente na Alemanha ¢ na Inglaterra, & somente em 1829, com a criagio da Revue de Parise da Revue des Deux Mon- des, que 0s escritores comegam a publicar seus contos em revistas. Em 1833, cles chegam aos jornais, ocupando 0 expo deliitado pelo fohetm'® Mas é neces espera jor mais alguns anos para que a imprensa venha se in ‘asser pela publicagdo de erabalhos mais longos. Em 1836. Le Sicle langa Lazarillo de Tormes (tradugio do espanhol), Patrona Calil, de Alphonse Royer, ¢ La Presse, A solteirona, de Balzac. A idéia de se publicar romances em pedacos se consagra. © surgimento do romance-folhetim se insere dentro reriormente (expansio do do contexto que esbogamos a piblico leitor, eransformagées tecnoldgicas eve.) mas ele se vincula também ao modo de difusio dos jornais. Sua existéncia pressupde uma tiragem tazoivel, sem 0 que a idéia de literatura popular corna-se inexeqiiivel. Par © papel da publicidade foi fundamental. Na Franga, ¢ 0 Antigo Regime, existia uma separagio entre jomais ¢ fo- thas de amincio. A fusio desses dois tipos de imprenss se fard somente no final da Restauragso. Marcel Galliot observa que a legislagao francesa de 1829 aumenta o im: posto sobre os jornais, levando seus proprietitios a buscar outras formulas para cobrir as despesas. Descobre-se assim a dupla vantagem da publicidade, estimulo aos negécios ¢ pao cotidiano dos jornais'*, Emile Mermet descreve esta mudanga de maneica interessante. “Em 1824, 08 antincios eram sempre colocados no meio do texto, seja no corpo mesmo do jornal, seja apés 0 folhetim. Cinco anos mais tarde, em 1829, nds encontramos os atincios feitos re- gularmente na quarta pagina, com titulos em caixa alta € subtitulos em caixa baixa. Eles sio separados uns dos outros por tiras, No final da quarta pagina, em pequenos caractetes, encontram-se os antincios & inglesa”'5, Nao obs- tante, apesar dessa racionalizagio do espaco jornalistico, 0 recurso as vantagens publicitérias se fazia de maneita espo- ridica, Caberd 4 Emile Girardin a concepgao do antincio enquanto receita regular € normal dos jornais; invertendo a logica anterior, cle propde que os antincios sustentem financeiramente os difrios. Esta inovagio comercial, que a Presse, se estende capidamente para coda a imprensa. Em 1838, La Presse recolhe. 151 mil francos por ano em publicidade; Le Constisutionnel, 172505 fran- cos. Pode-se ter uma idéia da importincia desses ntimeros quando se analisa o balango de Le Siécle em 1840. A receita proveniente das assinaturas é de 170 mil francos. As des- pesas gerais chegam 4 244 mil francos; o déficit ¢ coberto pela arrecadagio com a publicidade (180 mil francos)" A publicidade equilibra os da assinatura caia de 80 p: que repereute imedia possuia 3 500 assinances em 1836, pass se inicia com tos; eht permite que © prego a 40 francos por ano. Estratégia mente junto ao piiblico: La Presse ido para 13 600 alguns meses depois de Girardin adotar sua nova comercial. Nao seria corzeto estabelecer uma rel diata entre romance-folhetim € publicidade. No inicio, a imprensa nao se servia sistematicamente desse tipo de sub- ula cerfigio para a conquista do leitor. Porém, & medida que o folhetim torna-se um best-seller, os proprictatios dos jor- nais comesam a disputar no mercado os escritores que con- seguem uma comunicagio mais fécil com 0 piblico. O resultado € encorajador: em 1844 a tiragem de Le Cons- titutionnel passa de 3.600 para 25 mil exemplares, gracas, 20 Judeu errante de Bugene Sue. Os criticos da época nao deixam de perceber o fendmeno. Alfred Nettement afirma: “No antigo estado das coisas um jornal era sustentado por aqueles de que ele exprimia as conviccées politicas. No novo estado das coisas um jornal vive do antincio. Para fazer um jornal de 40 ou 48 francos, era preciso muitos antincios; para se ter muitos aniincios era preciso muitos assinantes; para se ter muitos assinantes era preciso uma isca que se dirigisse 20 mesmo tempo a todas as opiniSes, substiruindo-se o interesse politico pelo interesse por cu- riosidades gerais. Assim, partindo-se do jornal a 40 francos, € passando-se pelo antincio, chegou-se fatalmente 20 “ro- mance-folhetim””, A coexisténcia de uma esfera de bens restritos ¢ outta de bens ampliados coloca de imediato um conflito. © cam- po da producio erudica diance da extensio de uma culcura de mercado, € de sua penetracio junto as diferentes classes ¢ camadas sociais, encontra-se de alguma forma tensionada por esta concorréncia, Penso que Bourdieu tem razio quan- do associa o estudo da consagrasio artistica 4 consagra religiosa. Retomando a sociologia da religido de Weber cle percebe como a discussio sobre a arte guarda tragos andlogos ao debate que opée ortodoxia ¢ heresia dentro do universo religioso. As academias, as universidades, os saldes, as revistas constituem assim instancias de consagra- Go das obras artisticas, da mesma forma que a Igreja, os rituais os sacramentos, conferem aos objetos profanos uma sobredeterminacio de natureza sagrada. Porém, € necessirio CULTURA € Mexcabo entender que a tensio entre as diversas instincias de con- sagragio no se manifesta exclusivamente no interior de tum tinico campo cultural. A lura concorrencial néo se re- du2 as estratégias distintivas de uma arte de vanguarda ou tradicional, ou, se tivermos em mente 0 exemplo das re- ligies, entre a doxa ¢ a heterodoxia. O contraste entre a cultura erudita © a cultura de mercado pode também set apreendido como relagao de poder. Creio que no caso do folhetim © da fotografia esta relagio se expressa sob duas configuragSes: uma, de carder propriamente politico, outta, que tem como fulero o monopélio da definigzo do objeto artistico. Comecemos pelo primeiro aspecto. Barbey d'Aurevilly dizia que a “democracia do retrato — brutal ¢ mentirosa —, esta arte de quatro tostées locada & disposigio da in de bar nncia vaidosa d mento ¢ de bugigangas”™, havia aniquilado as coisas grandiosas do passado. Ao multiplicar as imagens, a fotografia tetia se tornado presa da multidio, dessacra lizando a aura do artista ¢ nivelando indiferenciadamente 0s individuos. O julgamento de Baudelaire ¢ similar. Sobre 0 Salo de 1859 ele escreve: “Nesses dias deploriveis, uma nova indtistria se produziu, que nao contribuiu pouco para confirmar a tolice da multidio e para artuinar 0 que restava de divino no espirito francés. Claro, esta mulkidio idélatra postulava um ideal digno dela e apropriado a sua nacureza um século Assim, a indiistria que nos daria um resultado idéntico & natureza seria a arte absoluta. Um Deus vingador atendeu & silica dessa multido. Daguerre foi seu messias. Ele dis- se: ‘como a fotografia nos dé garantias desejiveis de exa- escritor democrata deve ter visto nisso um meio barato para difundir entre 0 pove © desgosto pela historia e pela pintura, cometendo assim um duplo sacrilégio € insulrando a0 mesmo tempo a pin- ura ea arte sublime do comediante””? tidio, a arte € a fotografia’. Alg Poderiamos pensar que as observagées de Barbey d’Au- revilly e de Baudel exclusivamente do dan- dismo que professavam. De fato, a0 promover a vaidade, a frivolidade, o singular, 0 imprevisto, 0 dandismo se afasta dos valores democriticos. Nao dizia Barbey d’Aurevilly que © progresso havia transformado os homens numa raga de “piolhentos”, ao incentivar 0 espirito igualitario entre eles?” Mas basta olharmos ao redor para percebermos que esse a de autores. As ire decorrem tipo de apreciacio € comum a uma ga criticas de Sainte-Beuve ao folhetim caminham na mesma diregio, sua apreciagio do passado literstio francés ¢ sin- tomitica: “Este campo livre, que até agora formava a honra da Franca, 0 que foi feito dele? Sem duivida, sua condigao de ser comum e aberto a todos, em cada época deixou-o 0 acaso dos espiritos, Diferentes formas de mau gos- , de escolas barulhentas po saram. Em uma palavra, este campo esteve sempre infestado presa to, de modas heterécli pas por bandos; mas nunca cle chegou a ser invadido, explo- rado, reclam meroso, tio disparate e quase organizado como vemos ho- je... E preciso resignar-se aos habitos novos, & invaséo pela democracia literéria como pelo advento de todas as outras democracias. Cada vez menos escrever ¢ imprimir seré um ido como justa posse, por um bando tio nu- traco de distinggo, Com nossos modos eleitorais, indus- tials, todo mundo uma vex na vida tera sua pigina, seu discurso, seu prospecto, sua celebragio, seré autor. Dai a se faz re, “M: clita", s0 termos que qualificam ¥ como nticleo o tema da invas 6s argumentos que justificam a vulgarizagio das artes atra ves da fotografia, retoma esta questio. “Com a civilizagio, em todos os lugares penetra esta lepra das artes, esta de- cadéncia infalivel que se chama o Barateamento, Propria am folhetim sé existe um passo gosto”, “arte de quatro costes”, “moda heterd- na discussio que tem Paul Périer, a0 refurar cuuruna & MERCADO mente ou impropriamente dito, nfo ha mais limites, mais visas, mais obstéculos & entrada na carrcita das artes; por- tanto, no h4 mais fronteiras contra a invasio pelas me- dioctidades, contra a troca de influéncia deletéria entre 0 comprador ¢ 0 comprado, corrupgio geral e profunda do gosto piblico"™, A criatividade artistica estaria assim pres- sionada pela mediocridade das massas. Dai a importancia dos limites. A descri¢io que Gustave Claudin faz dos bu- levares de Paris revela essa conscigncia ameagada, que vé ruir dian cram os parisienses calejados que ocupavam os bulevares e Ihes davam todo o prestigio, Por infelicidade, 0 ano de 1848 € os anos que se seguem trouxeram 0 que peso a imar de a invasio dos Barbaros. Eles vie- idos por Acila, que, & medida que foram consteuidas, colocaram Paris a quatro, seis ou dez horas das cidades que, sob o regime das diligéncias ¢ das seges de posta, encontravam-se sepa- radas por longas jornadas de marcha”. Q ano de 1848 nfo € fortuito; ele marca profundamente a sociedade fran- cesa. Muitos 0 consideram como tim momento em que dc si os muros de suas pretrogativas. “Eu repito, permissio para cl fam, no cond nas pelas estradas de ferro © pals, 20 se democratizar, se degrada. A barbirie no se limita 20 mau gosto literdrio ou 4 banaliaagio das imagens; da floresce junco as aglomeragées, pulula nas ruas, nos trens, expressando a mobilidade de uma multidio que se encontrava durante séculos confinada a fronteiras ¢ desconfortiveis. E interessante observar como também nna Inglaterra a tematica da mob se repbe em termos and logos. Matthew Arnold, ao dividir a saciedade inglesa em trés classes (bérbaros, filisteus), reserva o termo “popula- cho” para a classe opersria, que comega a sair de seu gueto € ocupar os lugares antes exclusivos de outros grupos so- ciais*. A movimentagio das classes populares € percebida como um risco a uma hicrarquia socialmente instituida 4 eee nee ee ee ttt ttt er A tematica da muleidéo € uma preocupagio constante dos homens do século XIX. Gabriel Tarde iré integri-la como um assunto obrigatério de suas reflexdes sociologicas, Aré mesmo Durkheim, que se afasta da teoria da imicagio de Tarde, confere aos fendmenos de multidso um destaque, na compreensio dos fatos sociais. Sua interpretagio do nas entre 05 povos primitivos é um exemplo cimento da telig disso. A religi@o setia 0 produto da exacerbagto dos se mogeneidade timentos quando as pessoas se perdem na dos gestos coletivos. O debate sobre a multidéo encerra certamente uma polissemia de conteddos®. Um deles € a oposicio entre racionalidade e irracionalidade. O indivi- duo, imerso na massa, perderia sua identidade, sendo tra- gado pela consciéncia coletiva de um ser ¢ 0 domina. Por isso os psicélogos, preconceituosos ¢ n Séginos, irio associar 0 estudo do comportamenta nas gra des aglomeragdes, aos modos femininos ¢ a0 alcoolismo por si s6, capaz Para eles, 0 trago de irracionalidade seria jectos tio dispares da vida social. As mulheres de agrup: iam regidos pelos mesmos impulsos emo- os alcodlatras cionais dos homens em multidio. Na verdade, 0 cema 1e- flete todo um processo de reorganizagio da sociedde fran. cesa. A Revolucio ¢ a industrializagio colocam em cena novos arores saciais, ¢ em particular uma classe operiria. Um enfrentamento entre capital e trabalho, imposigdes direitos tém entao lugar. A classe dirigente ind desta forma perceber a presenga € as reivindicagbes dos trabalhadores como uma ameaca latente: potencialidade que se efetiva por meio das greves, das barricadas c, a partir de 1848, do voto. © preconceito contra a mulkidio expressa um conflico politico, nio € por acaso que Le Bon vai associd-la 20s inconvenientes do sufrégio universal Mas © que me parece caracteristico deste debate, pelo menos no inicio do século, sio os arguments profunda- mente etnoctntrices que ele aciona. A multidéo & menos © locus da irracionalidade (como para Le Bon e Tarde, jé no final do século) do que propriamente um espago de barbitie. Este classe trabalhadora e classe perigosa. O mundo do trabalho € visto como um dominio indiferenciado, uma fonte de ica, a condensagio de valores “selvagens” — violéncia, promiscuidade, vulgaridade, A idcologia domi- nante imaginava os trabalhadores como uma raga A parte, ago emerge claramente da vinculagio entre corrupgio at degenerada, distance dos ideais da civilizagao ocidental. Daf © receio do contigio ¢ a necessidade de se erguer fronteiras seguras contra este perigo iminente. A imagem que Ortega y Gasset utiliza para descrever o fenémeno da multidéo ilustra bem este raciocinio. Para ele, até uma data recente da Histéria da humanidade, as pessoas viviam confinadas & seus lugares especificos: a cidide do interior, 0 campo, aaldeia. A multidio emerge quando as frontei se dissolvem. O significado da “rebeliio das massas” € jus- errit tamente o de ocupasio, plas camadas subalternas, dos lu- gates tradicionalmente preenchidos por uma elite culeural e politica. A multidio, 20 se rebelar contra seu destino, isto & sua subalternidade, desequilibraria um estado de harmonia” secular. A metifora espacial é a meu ver, su- gestiva, ¢ capta a desconfianga dos conservadores em relagio auma cultura ampliada. A democracia, literéria, ou do re imuleinea aos modos democriticos; o que significa que a idéia d: recusa & rato, invasio pela mediocridade € correlata a uma generalizasio dos dircitos politicos. O pensamento conservador percebe a consolidagio da sociedade industrial como uma ameaga, ¢ a especificidade da arte, nesse 250, 10 ideolégica Os privilégios de alguns devem ser mantidos no interior reincerpreta em cermos escéticos uma d de um citculo fechado, da mesma forma que as regras ar- tisticas sio imanentes 20 universo modal das artes. A nogio eee SS de autonomia é, no campo da politica, homéloga a defesa dos inceresses de uma elite que em principio exclui o “po- pulacho” © a “canalha” do seu horizomte, ‘A discussio sobre 0 folhecim e a fotog tuma ourra questio: a da moralidade. A anilise que Sain- fia coloca ainda te-Beuve faz dos novos tempos ¢ reveladora. “Sem diivida, sob a Restauragio eserevia-se muito ¢ de todas as maneiras, ‘Ao lado de verdadcitos monumentos, produzia-se uma ins, sobretudo quantidade de obras mais au menos sect ¥ politicas ¢ hist6ricas. A imaginagto sé se encontrava des- perta entre os talentos da elite. A eseriros de circunstincia ¢ de combate, uma idéia moral, uma aparéneia de patriotismo, uma bandeira conferia uma espécie de nobreza, recobrindo aos olhos do piblico, dos juantidade de outros autores ¢ dos compiladores um motivo mais secrevo. De- pois da Restauragio, no momento em que ela desaba, a maior parte dessas idéias morais ¢ politicas sao subitamente abatidas; a bandeira cessou de flutuar sobre a carga de obras, gue cla honrava ¢ cobria, como se diz agora, a mer- cadoria”™®, A passagem nos lembra a interpretagio de Sar- tre, quando mostra que durante a Restauragio 0 ato de escrever & concebido como improdutivo em relagao 20 uti- Jitarismo burgués (por isso Sainte-Beuve se insurge concra a idéia de propricdade literdria). Mas ela sublinha sobre- tudo o eclipse de uma ordem intelectual ¢ moral. Os con- servadores possuem uma visio idilica do passado ¢ insis em que tentemente buscam contrasti-lo com os tempo vivem. Alfred Netcement ndo hesita em dizer: “Certamente ‘© Império tinha suas misérias ¢ suas sombras, ¢ sob 0 re- gime imperial a liberdade chorava to alto nossos direitos perdidos, que podiamos ouvi-la perfilar sua presenga no tumuleo da gloria, Entretanto, de um ponto de vista, esta época foi grande; a sede pelo lucro no tinha ainda secado as almas; 0 caminho do sacrificio « do devotamento nio tinha sido abandonado, e eram nobres os coragies, que batiam tio forte ¢ tio depressa, quando o raio da estrela da honra vinha tocd-los"”, © presente se desvenda assim como uma degradagio, um descenso. Involugo que os autores entendem como sendo de natureza politica e cultural, contaminando por sua vez 0 mundo das letras. Dentro deste contexto, 0 fo- thetim surge como um agente perturbador: a literatura po- pular setia uma fonte “corruptora” das idéias morais que deixam de ser hegeménicas. Ao valorizar temas como a beleza da feitira, a prostituicio, a probidade dos pobres, © romance estaria se afastando do culto do belo, mergu- thando na “imundicie” da sociedade. Segundo Cuvillier Fleury, a literatura moderna seria um espelho deformado, “quadro mentiroso das corrupcées, misérias ¢ disformidades de nosso pais, caluniando igualmente os poderosos ¢ os modestos, os ricos e os pobres; corrompendo uns & forsa de mostré-los corrompidos, os outros 4 forca de mostré-los resignados na baixeza, semeando, com a mesma cal, © desprezo € 0 cemor, a revolta ea degeadacio”™, Criticas que se dirigiam sobretudo a folhetins do tipo Os mistérios de Paris, que se voltam para a descrigio da vida das camadas pobres parisienses, enfocando questdes como 0 alcoolismo, 2 prostituigio, o crime etc. Ideologia que se consubstancia nna Lei Riancey* (1851), cujo objetivo é eliminar “o sutil veneno de uma literatura desmoralizadora”, o folhetim. Mas o que representa a outea face da moeda? Se os conservadores se conformam a defesa de seus interesses eli- tistas, 0 que dizem os partidirios da “democratizagio da cultura”? Novamente o tema da moralidade ird aproximd- +A Lei Ria ava o ancey taxava com um impo: folhetins, Isco levou a imprensa a se afast Tteétio xcra todo jornal que publicasse por algum cempo deste géneto los ¢ op6-los. Quando Leon Laborde redige o relatério da comissio francesa que participa da Exposigao Universal de Londres, cle observa: “Nas suas novas condigées de exten so ilimitada, 0 ponto de partida da arte modema encon- tra-se na renovagao da sociedade pela revolugio de 1789 O reconhecimento dos princfpios democraticos trouxe com cle a igualdade de todos os estamentos, de todas as coisas. A instrugio, difundida amplamente, ¢ as ciéncias, tornadas acessiveis a todos, faziam pressencir a chegada préxima das como 0 acompanhamento obrigatério © natural da me que educagao (e responde a seus opositores). Obje vou criar pret leréveis os operirios, j4 predispostos a se acredicarem su- periores a sua verdadeira capacidade: isto & 0 mais profundo dos erros. Nada inspira mais a modéstia do que o saber, nada fard manter em seguranga o operirio na fibrica, nada © tard de volta ao trabalho manual, que ele executa como um mestte, do que o conhecimento das obras de arte que Ihes mostrardo a beleza que ele deve renunciar a esperar A ignorincia no isolamento cria ilusoes para 0 amor-pré: prio; a instrugio, em contato com as grandes produgses de arte, recoloca os talentos em seu devido lugar”. Por tanto, a educacéo e a arte devem cumprir um papel estr tégico junto as classes populares. Elas agiriam como amor- tecedotas dos conflitos, diminuindo a tensio social a niveis compativeis com a ordem estabelecida. Esta é a tonica da justificativa que Disderi apresenta sobre as razdes da pre- senga da fotografia na Exposicio Universal de 1855. Para ele, “a exposigio exerce sobre a classe opericia uma agio moralizadora, da qual todos devemos nos regozijar, pois © operitio vai ao palicio da industria buscar nogdes titeis Bes, exaltar 0 amor-préprio, tornar into 20 amor pelo crabalho. Para as obras de arte, a usilidade € evidente. Sua popularizagio, desenvolvendo o sentimento € 0 amor a0 belo, nio estimularia uma emulagio reco- (eee divel? Vendo 0 progresso realizado pela arte ¢ pela industria, 0 operitio e 0 artista procurario copiar, atingir, ultrapassar a perfeigao dos modelos que tém sob os olhos. Sim, existe para o patrdo e para o operdtio uma unidade moral, uma utilidade material: existe o crescimento certo da populacio e a facilidade da venda”®. Patrées e empre gados se encontrariam assim irmanados pelos mesmos ide- ais estéticos ¢ produtivistas Conservadores e progressiscas percebem a existéncia de uma crise moral. Porém, eles irio avalié-la em direcées opostas. Os primeiros tomam partido pelo passado, ¢ a auséncia de moralidade s6 pode ser compreendida enquan- to degenerescéncia. A burguesia entende que & necessitio construir uma sociedade com base em outros pardmetios Diante dos conflitos de classe, a questo social surge como um obsticulo para seu projeto de hegemonia. A demo- cxacia, identificada a esfera de bens ampliados, Ihe permite ajustar os talentos, remetendo-os ao seu devido lugar. As exposiges universais cumprem um papel fundamental para a realizagio desse programa politico. Em 1867, toda uma segio & dedicada aos “objetos especialmente expostos com vista a melhorar a condigio fisica ¢ moral da populacio” (material de ensino para as criangas; biblioecas para a fa- mnilia, as comunas, € as corporagées; vestimentas populares; insceumentos ¢ procedimentos de trabalho dos opersrios exc.}", Durante 0 governo de Luis Napoleio, as exposigSes universais se transformam em locais permanentes de edu- casio das classes populares”, Esta valorizacio populista do mundo do trabalho esconde uma vontade disciplinadora que busca enquadrar as classes perigosas dentro de padroes seguros para o desenvolvimento industrial. No entanto, essa atitude revela uma diferenga importante em relacio 20 comportamento tradicionalmente conservador (seja ele de uma parte da burguesia, ou da aristocracia). Contrariamen- te 20 isolamento dos “birbaros" preconizado por esses se tores, a ideologia do progresso prescreve uma ago para integeé-los no também entendiam que os setores populates esta sionados 2 costumes “atrasados” ¢ “anacronicos s epidemias desta cultura “barbara nterior da nova ordem social. Os higienistas n apri- nas cles deslocam o problem: para um diagnéstico que "medicaliza" a sociedade — 0 que thes permit 1a. O higienismo € uma tworia que apreende a realidade endémica das doengas ¢ uma ideo- logia que permite ao corpo medical elaborar tod pet, r sobre Ihoria dos hospitais, en de saide (6 ca de esgotos exc.). Tema que se traduz inclusi abert Os mistérios de Paris, Anne Marie ‘Thiése most neira arguta, como a conversio de Eugéne Sue ao “soci lismo” encobre na verdade esta mudanga de mentalidade Seu romance coloca em andamento personagens ¢ situagSes ra, de m: nas quais 0 autor abandona a velha perspectiva conserva- dora por uma concep a que substitul a re- pressio pela cura, o julgamento ideoldgico pelo discurso Gientifico®, As classes perigosas deixam de ser encaradas do ponto de vista etnocéntrico, os bérbaros contra a so- progress ciedade civilizada, para serem pensados de acorda com os patimetros médicos, Uma outra oposicio ¢ instituida, a divisio entre populagio si ¢ populaggo contaminada. Dis curso que se sustenta sobre a existéncia de um corpo de terapeutas indispensiveis para prevenir as crises e as situa- a ordem que esti ges violencas, Sue € 0 cirurgiao de un sendo construfda conflito entre 0 campo da produgao erudita € 0 de bens ampliados se reveste também de uma din tistica Na medida em que esses dois universo: por ldgicas diferentes, um antagonism * manifesta. Aqui, o regidos interpretado em linguagem estética, ¢ nao mais politica Uma das erfticas que Sainte-Beuve faz & literatura industrial € que ela “chegou a suprimir a ct ica € a ocupar o seu lugar quase que sem contradigdes, como se cla s6 existis- se”, Haveria por assim dizer um fenémeno de usurpagio. Por isso seu: artigo termina de maneira incisiva: “Que esta literatura industrial exista, mas que ela entre no seu leito, € 0 aprofunde com lentidao: ele tende naturalmente a se alargar. Para concluir: duas literacuras cocxistem em pto- porgdes desiguais ¢ coexistiro, cada vez mais, misturadas como o bem © 0 mal neste mundo, confundidas até o dia do julgamento final: fagamos avangar e amadurecer este julgamenco separando a boa literatura e limirando a outra com firmeza”®, Sintomaticamente, a apreciagio de Bau- delaire sobre a fotografia ¢ idéntica, Também sua conclu- dio, que combate “a invasio da arte pela fotografia”, coloca em termos andlogos: “Se for permitido a forogratia suprir a arte em algumas de suas fung6es, em pouco tempo ela 2 terd suplantada ou corompida, gragas a alianca natural que ela encontraré na tolice da multidio. E preciso por- tanto que ela se confine a seu verdadeiro dever, que & de ser a serva das ciéncias © das artes, uma serva humilde, como a gréfica ¢ a estenogeafia, que nao criam nem suprem a literatura. Que ela enriquesa rapidamente 0 album do viajante ¢ Ihe devolva a seus olhos a preciso que sua me- méria nio alcanga, que ela orne a biblioteca do naturalisca, exagerando os animais microscépicos, fortifique com al- gumas informagdes as hipéteses do astrénomo... Mas, se Ihe for permitido usurpar o dominio do impalpavel ¢ do imaginario, daquilo que é valido para o homem somente porque nele ele deposita sua alma, entio, infelizes de nés”™ Existe nesses depoimentos uma certa resignacio. Nem Baudelaire, nem Sainte-Beuve tém a intengio real de eli- minar a fotografia ou a literatura comercial. Eles que essas manifestagdes culturais fazem parte do espirito “ 1ENATO OKT de uma época, nao caberia pois imaginar crradicé-las. Todo csforgo se concentra na construgio de obsticulos que go- antam a existéncia de um espaco tragado pelos artistas Como gesgrafos, cles desenham os limites territoriais do universo estético que se encontram pressionados pela con corténcia do mercado. A critica enquanto tal deve reinar, mas de acordo com seus proprios parimetros, ¢ no pau- ada pela fluider. da literatura comercial; a pintura pode certamente fazer uso da fotografia, desde que os mal en- tendidos sejam desfeitos. Nao dizia Ingres, representante do pensamento academico, que a fotografia havia invadido © “templo sagrado da arte"? O perigo nao é tanto a exis téncia de uma cultura de bens ampliados, mas a contrac tagio, a mescla dos critérios, © contégio do “bem” pelo “mal”. Esta preocupagao nio deixa de ter uma razto d Devido 3 legitimidade do discurso arcistico, ele € indife- renciadamente apropriado por aqueles que se situam “fora” do campo estético propriamente dito. Vejamos 0 exemplo da fotografia. Ernest Lacan costumava dividir os fotdgrafos em duas castas: 05 profissionais ¢ os artistas. Os primeiros acreditavam que sua pratica se confinava 4 reprodusao A- dedigna dos objetos, ¢ se contentavam em ser mestres de uma semelhanca garantida pelos procedimentos técnicos. Sua antitese seria 0 fordgrafo-artista, que, tendo dedicado sua vida a0 estudo da pintura, da arquitetura, da gravura, teria escolhido a fotografia como um outro meio qualquer de expressio”. A pritica forogréfica parcilharia assim um cerreno comum as belas-artes, afastando-se do trago indus- trialista que comprometeria seu estatuto artistico. E dentro deste grupo, 0s fordgrafos-artistas, que iremos encontrar tuma force defesa da fotografia enquanto arte, Os argumen- tos séo variados. Um deles, que ¢ recorrente, fiz apelo & genialidade do criador. Comparando a forografia & pintura, ser. eee Lacretelle dird: "Nés pensamos que o que faz a alma de um quadro no é 0 modelo que se copia ou a cor que se manifesta; 0 tema que 0 artista compée, a inspiragdo que the chega do belo pats dos sonhos, no qual somente © olhar dos mais ilustres penetrou, provém desta parcela prépria a seu sentimento, que © pintor arranca de sua in- dividualidade, Quando vimos que a fotografia era praticada por pintores eminentes, que escolheram entre as linhas da paisagem tragadas por Deus, como teriam escolhido entre as linhas ideais de seus sonhos, aplaudimos esta ciéneia ad- miravel”. A interpretago de Charles Bauchal € seme- thance. Para ele “a arte € sobretudo a liberdade de tomar a seu grado, segundo a inspiracio ou o sentimento, este ‘ou aquele caminho; pois bem, como outros ramos da arte a fotografia jd possui duas escolas bem distintas: a que se preocupa sobretudo com © conjunto e a que se apega & reproducio minuciosa dos detalhess a escola dos fantasistas © a escola dos realistas"™. Dentro dessa perspectiva, a arte ogtifica se institui pela imanéncia da alma insondével artista, O individuo, na sua solidio, senhor de uma Jiberdade infinica, opta por um caminho que se afasta dos canones de uma estética tradicional, simplesmente do pon- to de vista téenico. O mito do artista, demiurgo da cria assim que a “inspiragio” se concretize em subst os materiais relativamente indiferenciados. A tela de pin permite tura ou a placa do daguerreétipo seriam es secun dirios diante da forga da individualidade. Talvez uma das interpretagbes mais engenhosas da fo- tografia como arte seja a "teoria dos sactificios", de Gustave Le Gray. Preocupado em escapar 20 realismo do objeto que implicaria em relegar a pritica fotogréfica 20 nivel cépia, Le Gray preconiza a climinacio dos detalhes em fa- vor de uma visio de conjunto. Ao contrétio de Disderi que valorizava como qualidades de uma prova fotog: “a lareza”, “a pureza c a limpeza” das imagens, “os decalhes em preto”, ele inverte 0 problema. O fordgrafo-artista, “va- riando o angulo da tomada, 0 tempo da pose, pode va lorizar ou sactificar esta ou aquela parte, produzindo um efeito intenso de sombras ou de claros, ou um efeico de dogura ¢ de suavidade extrema; isto, copiando 0 mesmo sitio, o mesmo modelo”, Neste sentido, a semelhanga ndo €o real; ela setia uma interpretagio, como dizia Francis Wey, uma leitura “subordinada ao gosto, & moda, aos pre- conceitos de uma época, as idéias preconcebidas dos apre- ciadores da obra de arte". © objetivo da intervengio da cimara, na distribuigao da luz ou na supressio dos detalhes, seria de mutilar o real, apresentando-o como algo distante da cbpia, O fordgrafo-artista, agindo assim, estaria recu- perando uma técnica antiga jé utilizada por pintores come Ticiano, Rubens ¢ Van Dyck. Em seus retratos, esses mes- tres do passado teriam evitado representar as silhuetas dos objetos de maneira seca e formal, preferindo sombreé-los confundindo suas dimensées. A compreensio de Le Gray & certamente mais elaborada do que aquela que tinha como referéncia exclusivamente 0 mito do artista; ela no deixa poréim de ser uma busca dificil de legitimidade, O universo das artes plisticas € simultaneamente sua referencia tedrica e seu concorrente. Nao se pode esquecer que a forografia retira da érbita da pintura 0 monopélio de uma atividade que durante séculos esteve em suas mios: a produséo de retratos. O daguerreétipo iri converter os retratistas em fot6grafos ow transformé-los em herdeiros de um offcio em desaparecimento, No entanto, se 0 grupo “artistico” procura se diferen- ciar dos profissionais, 0 julgamento sobre a arte desconhece fronteiras (j4 ampliadas para o exterior da esfera eru- dita). Os forégrafos industriais se apropriam também dos valores estéticos para legitimar seus produtos. Disderi re- coma 0 discurso vago da genialidade do artista, reiterando que cabe a ele “arrumar 0 modelo, fixar 0 raio de luz que momentaneamente vem iluminar seu guagem fisionémica, a expressio do olhar, tima que algumas vezes revela as sen Meyer ¢ Pierson insistem sobre 0 mesmo ponto: uma cépia fiel ¢ ajeitada do cliché negativo seria quase sempre uma md prova. E preciso que o artista, apreciando seus defeitos e qualidades, apague alguns € realce outros Encio, sua inspiragio traduz-se inteiramente, ele se mostra pintor em toda a acep t0, captar a lin- confianga fn. agGes © os pensamen- tos’ da palavra, cle comunica sua alma, seu génio™®. “Confianga intima”, “linguagem da fi sionomia”, essa intengées ct sejo de apresentar o trabalho comercial em. termos artis ticos. Meyer ¢ Pierson cém uma consciéncia difusa do pro- blema, quando comparam 0 gosto do forsgrafo ao do clien: te. “Algumas veres, 0 gosto do madelo ¢ do artista néo 1 simplicidade, el rada; retirar da maquia- gem cercos detalhes de gosto duvidoso enquadrar a ima- 5 possuem no fundo o de- esto de acordo; este, gostaria de cia, naturalidade a uma pose exagi gem num fundo mais harmonioso do que o escolhido; é somente apés ter usado todo rato de que é capaz, para suprir com seus conselhos artisticos, que ele deve se decidic apinticlo da forma que ele o quer; enfim, aquele que paga € em Gltima instincia 0 juiz, infelizmente para a arte ¢ As pi para 0 retrato em que: ssBes comerciais in- validam os cuidados anteriores. A tensio entre fotografia ¢ a arte faz com que 0s te- presencantes da esfera erudita reajam a pretensio dos fo- (© io copistas e que arte nfo se restringe a imicagio. Denuncia-se assim, a servilidade do instru 6tica, fabricaria um pligio da natureza. Alphonse de Lamartine diré que fos. Os pintores dito que nto que, através de uma ast “9 fordgeafo nunca climinard 0 pintor: um é um homem, © outto é uma maquina™®. A criatividade se contraporia 4 fricza da maquina, como se a inspiragéo subjetiva fosse de alguma mancira deformada pelo processo mecinico de apreensio do real.* Na verdade, a fotografia é vista pelos accistas como que padecendo de uma enfermidade crénica: sua preciso. A forca de retratar os objetos na sua inteireza, cla ofuscaria a visio, impedindo que a imaginagio se manifeste dentro de um espago tio exiguo. Delacroix valoriza a “feliz im- poténcia dos olhos”, que incapazes de perceber os porme- hores, conseguitiam construir uma visio de conjunto que transcenderia a materialidade do que esti sendo observado, Nao se contentando em exprimir 0 Gnico, a arte abriria © horizonte para uw dizia Bonnardot, “ mento uma s6 pagina, jamais um livro completo". Esse entendimento € generalizado, Nadar relara em suas me métias 0 horror de Balzac diante das primeiras provas da- guerreotipicas. Sua teoria para invalidar 0 procedimento evidencia 0 estado de espirito de toda uma comunidade. Segundo ele, a natureza seria composta por uma série de espectros, camadas superpostas a0 infinito, particulares a cada objeto. A operacio fotogrifica consistria em retirar do objeto uma dessas peliculas infinitesimais; com uma des- vantagem, porém: 0 pedago captado teria a ilusio de se apresentar como uma versio tinica, reficada da realidade” a percepcio miiltipla das coisas. Como fotografia expée 20 olho © A percepgio instantinea e mecinica poderia talvez seduzir pela sua regularidade e perfeigao, mas ela implicaria na per- da absoluta do corpo apreendido * Argumento que ressurge nas discusses sobre “cultura de massa", quando se ope em termos de quentelfrio diversas com literatura x ridio (ou cinema), televisio 20 vivo x videoteipe widadelmecanicidade, auvidades A disputa sobre 0 estatuto artistico da fotografia no mente discursiva. Na Exposigio Universal de 1855 cla € exeluida do saléo das artes, tendo de se conformar com seus vizinhos inoportunos, os artefatos industriais. Exi- bida no Palécio das Indiistrias, ela se vé privada de uma oficial. A pressio dos fordgrafos-artistas faz com que ela consiga um lugar na exposigo de Belas-Artes de 1859, mas, como lembra Louis Figuier, no sem uma ponta de ironia: “a comissio concedeu um lugar & expo- sigio de fotografia, ao lado da exposisio de pintura € de gravura, 2 s com uma entrada diferent por assim di sob uma outra abébada"*, Detalhe nada insignificance, pois demonstra a fragilidade estérica que ronda o trabalho fotogrifico, Por outro lado, a forogratia softe 0 assédio dos wadares. Os editores de estampa percebem que esta denica de reprodugio de imagens, recentemente chegada 10 mercado, pode Ihes causar transtornos. | i enviada a0 imperador, solicitando-se a proibigio da repro- dugio das obras de gravura. Em principio, garantir-se-ia a “seriedade da arte” (isco é, 0 corporativismo dos grava- ss divulgadas p dores) das contr lo procedimento fo- cogrific. O conflito entre fronteiras pode set ainda apreendido através da contrové 5 ¢ os Tribunais. ia entre 05 fordgra Como nao existia na Franga nenhuma lei especifica sobre 2 fotografia, os retratos eram comercializados sem nenhuma regulamencagio especial, o que incentivava as contrafacées, A lei de 1793 proteg 1 propriedade dos bens artisticos, mas no beneficiava a fotografia, pois ainda pairava a di- vida juridica se ela deveria ou nio ser julgada como um n 1861, Meyer e Pierson entram na justiga contra um grupo de fordgrafos que havia pla giado seus retratos. O tribunal Ihes dé ganho de causa, 6 numa decisio surpreendente, de objeto dessa natureza. a fotografia é uma 4 F arte. A resposta dos artistas nao se faz tardar. Um manifesto € redigido nos seguintes termos: “Considerando que a fo- tografia se resume a uma série de operagies manusis, — ainda que essas operagées necessitem de um habito ma- nipulativo especifico —, nao se pode pretender que as pro- vas que dela resultam possam, em quaisquer circunstancias, ser assimiladas 3s obras que sio frutos da inceligéncia ¢ do estudo da arte: por esses motivos, os abaixo-assinados io que se possa fazer entre anifesto, em grande a reconhecer aos protestam contra toda assim! a fotografia e a arte”, Os autores do parte egressos da Academia, se recusan for6grafos um estatuto artistico. Tudo se passa como se 6 elemento mecinico, inerente a0 processo ForogrAfico, Ihe impedisse alcangar a legitimidade das artes plisticas. Na realidade, 0 que estd em causa nao é tanto a questio legal, a imitagdo € a comercializagio indevida das imagens. Sa0 as instincias consagradoras do campo erudito que se en- contram curto circuitadas. Os fordgrafos induscriais 3 ditavam que tinham conseguido uma vitéria decisiva; Me- yer e Pierson declaram com exagerado otimismo: “Aos olhos da jurisprudéncia, como aos dos artistas ¢ da opiniao publica, a fotografia ¢ uma are”, Mas eles se esquecem de que a legitimagio conferida provém de uma fonte expt ria, 0 aparelho juridico. Trata-se simplesmence de uma me- dida judicial. A conira-ofensiva dos artistas visa justamente preservar suas instituicdes especificas. Aceitar que a foto- grafia seja definida como arte significaria dobrar-se diance de uma autoridade externa ao campo, como no caso do antigo mecenato, Haveria assim uma ingeréncia sobre as normas que em principio deveriam emanar do consenso entre os pares, Até 0 momento consideramos a relagdo entre os uni- versos culturais enquanto um confflico entre legitimidades, (CULTURA & MERCADY ° Mas é bom lembrar que 0 campo artistico nao se contrapée a essas manifestagées exclusivamente nesses rermos. O ane tagonismo entre arte © sociedade nao se r discussio de interesses particulares de uma esfera que se autodefine segundo regras préprias. Mesmo que as suges- (Ges de Bourdieu sejam importantes, € necessitio ir além. na medida em que a idéia da “superioridade da arte” nao €meramente uma estra ade distingio, mas também um elemento de critica. Como insistem os pensadores da escola de Frankfurt, ao recusar 0 espago predeterminado pelas for ¢as produtivas, a arte abre perspectiva para uma contestacéo das forsas hist6ricas que propiciam sua existéncia e a0 mes- mo tempo a sufocam. As reflexes que os representantes desta esfera fazem sobre desenvolvimento de uma cultura de mercado possuem portanto um valor heuristico. Blas encerram uma recusa a0 industrialismo que se consolida no século XIX. Mais ainda, eu diria que a propria discussio sobre a legitimidade dos campos nao pode ser inteiramente compreendida fora desse movimento global da sociedade. Veremos que, apesar d tensdes, a relagio entre cultura erudica ¢ cultura de mercado € marcada pelo ritmo das duas modernidades que sublinhamos anteriormente Um dos tragos que catacteriza a esfera de pliados é a sua extensiv. Seu territério nao pode ser restrito. ens am- Isto se aplica tanto a forografia quanto ao folhetim. © ad- vento de uma literatura popular é simultineo & expansio do puiblico, e os novos géneros literdtios cém de alguma maneira de se adaprar as preferéncias de um leitor poten- cial. O escritor do século XVIII partilhava do mesmo gosto das pessoas para quem se dirigia; eles possufam uma edu- cagio. em comum. A tiragem pequena dos livros fuzin com que as obras girassem em toro de grupos que dispunham do mesmo capital cultural, das mesmas inclinagdes estéticas dos escritores. © desenvolvimento da edigio rompe este circulo. Os novos tempos separam 0 escritor de seu pil blico. Restam-the is divergentes: escre- ver para nfo ser lido (ou melhor, para seus pares) ou ajustar a escrita as expectativas do mercado. O romance-folhetim agora duas alternativ expressa esse ajustamento. A necessidade de se levar em sse de um néimero mais ) mais corresponde ao do consideragio a linguagem ¢ 0 in amplo de pesso: meio literério dominante. ‘A situaglo se repde no caso da forografia. O declinio da daguerreotipia corresponde a9 momento de expansio cujo gosto 1 de seu puiblico. Os primeiros clientes dos atcliés eram re- crutados entre os artistas ¢ os intelectuais. Nadar, quando escreve a histéria dos primeiros fordgrafos, capta bem este ambiente que os mistur descrever 0 atelié dos irmios Bisson, ele comenta entu- siasmado: “Era na verdade um local de encontro da elite intelectual de Paris: Gauthier, Saint-Victor, Janin, Go: Préault, Delacroix, Chasseriau, Nanteuil, Baudelaire, Pen- guilly, les Leleux"??. © elenco de nomes traz talvex. por procurasao um prestigio para a modalidade forogrifica. ‘Mas ele aponta também para a existéncia de uma clientela reduzida, que se contentava em usufruir a presenga aurdtica das cépias tinicas. André Rouillé tem raz quando afirma que 0 conflito sobre 0 estatuto artistico da forografia no € colocado nunca antes dos anos cingiienta®. Isto é quanto a reprodugio das imagens € percebida como u bem restrito, 0 antagonismo entre arte € forografia no se gente do mundo das artes. Ao cxplicita. Uma mudanga se impée com 0 desenvolvimento do mercado, Os fotdgrafos se véem obrigados a adaptar sua profissio ao gosto de um puiblico novo, a burguesia rica. A formacio dos grandes escidios marca esta passagem, Decorados com luxo, eles se preparam para receber uma lientela que se distancia da boémia parisiense. Evidente- mente, 0 sucesso da “indiistria” faz com que as priticas ‘CULTURA & MERCADO % artisticas e comerciais tornem-se cada vez mais dificeis de serem conciliadas. © tesemunho de Li 1 & exemplar; referindo-se a seus retratos, ele confesea nente, co: mo artista, nao gosto muito desse género de retratro; como. homem de negécios penso que € uma boa coisa. O puiblico fica encantado: o brilho de verniz € 0 aspecto ajeitado lem- bra-thes essas bonitas imagens que vemos nas caixas de bombons; essa analogia adula sua vaidade. Quanto a mim, desde que eu me satisfaga, tudo bem, nao sou um homem que contraria 0 gosto de seus clientes”. Uma conttadigéo se instaura no artista enquanto individuo e sua arte, que the escapa das mios. Dentro desse contexto, as criticas provenientes da esfera erudita ndo se revestem simplesmente de um significado def de fronteitas. Blas contém uma compreensio que apreende © fancionamento da prépria estrutura dessa esfera amplia da. A descrigéo que Nadar faz do atelié de Meyer ¢ Pierson € sugestiva: “Instalada no meio do bulevar, sua fibrica de retratos se restringia lucrativamente a uma s6 maneira ¢ 2.um formado tinico. Sem se ocupat com a disposigao das linhas, do ponto de vista mais favorivel a0 modelo, nem com a expresso do rosto ou com a luz para iluminar tudo i850, instalava-se o cliente num lugar invaridvel e obtinha-se sivo, exprimindo apenas 0 receio de uma confusio dele um cliché tinico, cinza, Apenas lavada, a prova passava 30 estabelecimento do pintor juramentado da casa, 0 qual comava notas sumérias, como para um passaporte: pele de origem, olhos azuis ou escutos, cabelos castanhos ou negros 2 coisa, paga de antemio, Ihe era entregue enquadrada mbrulhads em um envelope”®. OQ quadro evoca um automatismo ¢ uma racionalizagéo que hoje encontramos nos diversos ramos da indiistria cultural. A seriarizagao do processo de fabricagio dos retratos contéin inclusive um germe de divisio de trabalho: tomada, revelacio € retoque. Nio falta sequer um toque artistico para valorizar 0 pro duto final, pois as foros em preto-e-branco passavam ainda pelas maos de um “pintor” que corrigia as incongruéncias do original ‘As observagies de Sainte-Beuve sobre 0 folhetim en- cerram também um elemento da critica. Ele percebe que 6 novo género literdrio depende do processo de elaboraga0 ¢ da difusio dos jornais, A midia que lhe serve de suporte material impoe determinag6es estruturais que atingem a es- séncia do romance. “Os jornais se encompridam, os fo- Ihetins se distendem indefinidamente, a elasticidade das fra- ses se presta, e foram redobradas em vio as palaveas, a descrigdes supérfluas, a epitetos redundances: 0 estilo se estica em seus fios como os panos muito rensos. Existem autores que sé escrevem folhetim em didlogos, porque a cada palavra hii um intervalo ¢ ganha-se por linha” Alfred Nettement observa que o folhetim privilegia uma forma movimento de enredo. de nartar a histéria que acele “Multiplicar os incidentes, sacrificar a verossimilhanga 20 imprevisto, complicar a situagio incessantemente, exceto tos nds que nao se pode desatar, esbanjar nas jas, substituindo a caneta pelo pincel, para se pre- rapidamente uma tela maior. S40 essas as re- nS? Essas aprecia- ceitas dos escritores de comance-foll ges no revelim apenas 0 procedimento conservador des- cultural. A idéia de ses autores receita nos remete a0 processo de padronizagio da escrita: oestilo distendido, a necessidade em se prolongar a intriga, retendo por mais tempo a atengio do leitor. As criticas denotam 0 surgimento de uma estrutura narrativa que se a demanda do mercado cultural adapt fiblico enco (© ajustamento do escritor a0 tum outro elo desta cadeia; os interesses empresariais eco- némicos da imprensa. [sto pode scr apreendido da cor- e ainda CULTURA E MiteaDo ss respondéncia tensa entre os folhetinistas € os propricté dos jornais: ae Girardin (La Presse) a Balzac 30 de maio de 1837. © senhor compreende que para Le Prese € da maior importincia que um de seus romances aparega no mais tardar dia 25 de junho. Esperando pelas corregSes que voct faca, nao hé um minuto a perder... 31 de maio: agrad: sposta, S; 0: agradego sua resposta. Se pudéssemos comegar antes do 25 de junho, seria melhor... Sou obrigado a lem briclo de que La Presse se dirige a quinze mil assinantes, € que € nos sls gui ele enconrs, entre as mulheres, um maior nimero de leitores. Portanto, se 0 assunto ue nada exista que ‘ees que nada exista que possa ferir sua suscetibilidade ¢ pudor, isto seria uma ocasio para um imenso sucesso. George Sand a Veron (Le Constitutionnel Vocé me atige tremendamente, pedindo um romance um més antes do que comporta nossos compromissos reciproc: Trabalhar apeadarmente, sem toro tempo par t fee as pesquisas necessérias ¢ amadurecer 0 texto, é um grande inconveniente pata minha sade ¢ um grande perigo para © livre. O que posso Ihe prometer é de fazer 9 meu possivel Girardin a Dumas (no momento da Lei Riancey) Desejo que O anjo Pitou, no lugar de scis volumes, tenha somente meio volume, ¢ dex captuls em yer de cam. At ufos como quis, © com se wort nfo quer que eu 0 As determinasies externas crescem & medida que 0 gé- nero se consolida. O estudo de Lise Queffelec sobre La Presse mostra que, no inicio, 0 espago do folhetim acolhia criticas de arte, resenhas de livros, contos, noticias curtas O local abrigava ainda escritores diversos: Soulié, Dumas, Gauthier, Francis Wey, Sue. Por outro lado, os roman. 6 sanato on, ces-folhetins eram indistintamente publicados no “Folhe- tim” ou nas “Variedades”, pagina que acolhia uma diver- sidade de noticias. © sucesso leva no entanto a uma espe- calizagéo das fungées: 0 “Folhetim” torna-se preferenci mente 0 suporte material das histrias em pedacos. Esea mudanga pode ser apreendida quando se compara a pu- blicagéo dos romances e “contos longos” aos “contos cur ms 10s’ de romances € Node “contos contos longos curtos” slodo 1836/37 BE 39V 1837/38 OF 53V 1838/39 36 F 6ov 1839/40 92 1840/41 153F 1841/42 187 F 1842/43 304 F 1843/44 195 F 1844/45 227 F 1845/46 241F 1846/47 223 F 1847/48 202F Portanto, a partir de 1839, j4 ndo mais se publicam romances-folhetins nas paginas de “Varicdades"; a forma romance se identifica a sua midia “Folhecim”. Mas 0 qua- dro nos permite perceber ainda um processo de seriarizagio da escrita: os contos curtos cedem lugar as historias seriadas. Este movimento € paralelo a0 aumento dos capitulos. Em 842/43, 0 mimero de cextos publicades ¢ superior ao pe- tiodo de 1847/48; isto se deve ao fato de que os folhetins ‘CULTURA E MERCADO ” eram curtos ¢ tinham um tamanho médio de seis capitulos. Porém, desde 1841 jé se pode observar, com 0 avango que faz na técnica de decupagem, que eles se alongam. Soulié publica As quatro irmas (Le Journal des Débati) com 27 capitulos; Alexandre Dumas, O cavaleiro de Armenchal (Le Siécld, com 47 capitulos; Eugene Sue, Matilde (La Presse), com 89 capitulos. No final da década de 40 os contos curtos j4 no mais encontram lugar no rodapé; eles so suplantados pelos romances que retém 0 folego do leitor. Este movimento é concomitante A cristalizagio de uma ma Paris (1842/43), O jude errante © Os trés mosqueteiras (1844), O conde de Monte Cristo (1845) consagra um tipo de escrita que se torna hegeménica. Género popular que 6s eriticos definem como: relato feito na terceita pessoa, idealizacao do herdi contra uma sociedade imperfeita, mul- tiplicagao das intrigas vinculadas ao heréi, unidade essencial do romance. Esses condicionantes impdem limires precisos A expressio da criatividade dos autores. Eles devem saber cortar o texto, terminar 0 capitulo em suspense, ¢, se tém ‘etéria especifica. A publicagzo de Os mistérios de a pretensio de se tornarem um éxito “popular”, adequar © cnredo ao padrio estabelecido. Imposigio que nao € fa- cilmence assimilada por todos. O teste Sand ilustra este aspecto: “Joana foi o primeiro romance que compus para © mundo de publicagées em folhetim. Modo que exige uma arte particular, mas que nao me sen tindo & vontade, nao procurci adquirir. Foi em 1844, quan- do 0 velho Constitutionnel se rejuvenesceu, passando para © grande formato. Alexandre Dumas e Eugene Sue pos- sufam entio, da mani um capitulo em uma peripécia interessante, que deveria, sem cessar, reter o félego do leitor & espera da curiosidade € da inquietacao. Essa nao era 0 talento de Balzac, ¢ menos © meu", Na verdade, Balzac possufa inimeros problemas wunho de George a-mais clevada, a arte de acabar para adequar sua esti tal engrenagem. Sua een de montar um texto era anacrbnica (do ponto de vista da im prensa, é claro) pois cle escrevia um capitulo inteiro para somente depois corté-lo para publica Hi um paralelo entre as carreiras de Nadar e Blas revelam as contradigdes que 0s produtores culturais deve enfrentar no interior de uma empresa. Nadar era articulista, caricaturista e tinha estudado pintura, Seu pri meiro atelié congregava conhecidos intelectuais da bei um esctitor proeminente antes das de Balzac dear scien ou impene, Arbo ex di ficuldades em converter suas habilidades em técnicas vol- tadas para uma esfera de bens ampliados. O itinerdrio de Balzac como folhetinista ¢ repleto de tensdes. Em 1839, Site sqguainte dle ierrette & recusado pelo Le Siécle, € no ano seguinte aaa cal da Revista Pa- ramente 3 ctia se dedica quase que i 10 da R risiense A tentativa fracassa, com conseqiténcias financeiras desasross. Balzac retora 20 flheim, «rem consciéncia Je que sua opsio requer algumas conceswes, Escrevendo a iirige ee diz: “meus tivais sio Molitre, Walter Scott, Lesage e Voltaire, e néo este Paul de Kock* em cetim e¢ lantejoulas, Mas meu tesouro, trata-se de pagar cento ce vinte mil francos de dividas, de ter seu lugar ¢ uma vi ccente, 0 que para um homem como eu, com quarenta nada a este Luls de ouro triunfador (referéncia & Sue), per- mita-me deplorar que Ihe paguem 10 mil francos pelos seus volumes, enquanto cu ebtenho com os meus apenas 3 mil. Quero dar dois golpes a0 mesmo tempo, enquanto literato, sendo em grande estilo, interessante e verdadciro, * Paul de Kock foi um escritor de romances sentimentais muito populares ra époea. Dizia-se da literatura que se assemelhava a seus escritos, “é um Paul de Kock CULTURA © MERCADO » se eut canalizar para mim esta firia francesa que se dirige a Os Mixtérios de Paris, como & polca e as gracas de Deus, poderei encontrar 100 mil francos pelos dez volumes de Conas da vide Militar — cerei pao". Mas seus projetos nio prosperam. Com a transferéncia de Dumas para Le Journal des Débars, ele acredita que pode reerguer-se como uum esctitor de sucesso. Balzac oferece Os camponeses 20 La Presse, mas sua histéria tem pouco interesse, © € in- terrompida cedendo lugar a A rainha Margot, de Dumas. Nadar também tem problemas em n se relacionar com © mercado forogrifico. Escrevendo bem mais tarde a seu filho, confessa: “Com exce¢io dos anos do inicio, desen- volvi logo pela minha profissio uma indiferenca que nao tardou em se transformar em aversio, depois em horror” Ele pereebe que o movimento de comercializacio o afasta do mundo artistico; Disderi simboliza para ele o deslize da arte em dizesio a indtstria. “Veio entdo um golpe de- cisivo, © aparecimento de Disderi, e do cartio de visita que por alguns 20 francos fornecia uma duizia de retratos, enquanto antes pagava-se 50 ou 100 francos por um s6, Foi a ruina, era preciso se submeter, seguir 0 movimento ou se retirar"®’, Sua escolha seré no entanto distinta da de Balzac. Nadar assimila o espitito comercial, embora 0 diga a contragosto, e a construsao de scus esttidios de luxo marcam uma virada na sua earreita de retratista Mas estaria realmente completo 0 quadro que esbo- gamos ant jormente? O conflito entre esferas culturais se manifesta com que intensidade? Para responder ds pergun- '35, exeio que € necessirio introduzir neste momento o rit- mo da histéria social, com isto conseguitemos matizar al- gumas quest6es ¢ levantar outeas que julgo oportunas. Se é verdade que a evolusio do folhetim e da fotografia apon- fam para um movimento de distinggo de critica, nao OE eee eee eee eee eee eee eee Cee eee arr 10 RenaTo onTiZ se pode deixar de entender que existe também uma in- terpenetragio das esferas de bens restritos ¢ a de bens am- pliados Gistle Freund mostra que a primeira geracio de fo- tégrafos parisienses sai, em boa medida, da boémia: “Pin ores que nao tinham conseguido fazer um nome, literatos que se viravam mais ou menos escrevendo artigos de oca- sifo, miniaturistas e gravadores que a nova invengio privava de um ganha-pio, enfim todas as espécies de talentos mé- dios e pequenos”, Ela discingue ainda nesse grupo duas camadas. Uma superior, formada por pessoas do meio ar- tico, que gozavam de um prestigio social, tinham in- fluéncia junto a opiniao publica e se originavam de familias da grande burguesia. Outra “proletarizada”, que provinha da pequena burguesia da provincia, do artesanato das gran- des cidades ou da burguesia decadente. Os que se incli- naram para a fotografia pertenciam a esta iltima camada A observacio de Freund é interessante, e se abre para duas linhas de interprecagio. A primeira, que realca a deslegi- timagio da profissio fotografica em relagfo as artes. Como intor dizia a voz corrente na época: 0 fordgrafo ¢ um fracassado, Mas € possivel também dizer que, apesar das diferencas, fordgrafos ¢ artistas partilhavam um mesmo uni- verso: a bohime. Este meio, por se situar 4 margem da sociedade, alimentava-se de valores prépi & individualidade, © reptidio as instituigdes artisticas cca- dicionais (as academias), a recusa em participar de uma cultura popular de mercado®. Nele, 0 dandismo de Bau- delaire adquire 0 sentido de afirmagio da diferenga num mundo que se unifermiza. Q mundo boémio dominance (com todas suas ambigtiidades) a0 se contrapor a elite, 20 privilegiar uma conduta desviante, possui inclusive uma co: notacs , como o culto politica “a esquerda”. Os boémios participam das anifestagées de 1848 © muitos deles se envolvem com a Comuna, Interessa-me porém sublinhar que a boémia encetra uma visio de mundo: a valorizagio da arte ¢ a recusa dos ideais burgueses. Por isso, Nadar péde reunir em seu primeiro atelié a “elite intelectual da velha Paris” Seu ethos lhe permitia estabelecer uma ponte até mesmo com estratos artisticos nfo propriamente boémios, pois também nesses meios vigorava um inconformismo em re- lagio a0 processo de mercantilizagio da sociedade. Neste sentido, eu diria que Delacroix ¢ Baudelaire, que sio seus freqiientadores, e depois se insurgem contra a fotografia, encontram chez Nadar, 0 prolongamento de algumas de suas inquietagdes com a vida. Pode-se dizer que Le Gray foi um pintor sem talento, mas isso no nos faz esquecer que tenha sido aluno de Pare Picot, que se inseria dentro de uma tradigio de David, Gerird ¢ Girodet. Como varios outros pintores na época, Le Gray, por causa de suas pesquisas sobre as cores fun- damentais, se interessava pela quimica. Foi este 0 caminho que 0 levou a forografia. Ele possula um capital cultural artistico que procurava aplicar em um outro setor. Neste sentido, sua teoria do sacrificio ndo é meramente uma ideo- logia de legitimaséo da pritica forogréfica, a menos que entendamos ideologia como falsa consciéncia. Bla é uma wwelitanchauung que prescreve uma ética distinta dos fo- tégrafos industriais. O caso de Nadar ¢ Le Gray mostra que, no inicio, as esferas de bens restritos e ampliados, apesar do anta gonismo, se tocam, havendo passagens entre esses com: partimentos, Penso que a forga da polémica sobre 0 esta- cut ai Porque as fronteiras so dilufdas, os artistas sentem a ne- cessidade de precisé-las melhor. Lido sob esta dtica, 0 con- flito aponta uma relativa confusio entre os limites terti- toriais de espagos diferentes. Os fotdgrafos-artistas podem reivindicar o valor de suas obras porque participam, mesmo ico da fotografia revela justamente este aspecto. sendo excluidos, do mesmo horizonte estético que seus ad- versitios céimplices. ‘Algo semelhante ocorre com o folhetim, Apesar de Sainte-Beuve escrever a “literatura industrial” em 1839, sua critica nao ¢ indiferenciada. Seu artigo sobre Eugéne Sue, que aparece um ano depois, ¢ elogioso, ¢ nele 0 compara a Cooper ¢ Walter Scott, Na realidade, a relagio entre literatura ¢ imprensa ndo se expressa somente como an tagonismo, ela é também de complementaridade. Balzac, Lamartine, Gautier, Karr, Dumas, Scribe, Soulic, Sue sio literatos que escrevern nos jornais. Em 1844, La Presse pu- blica no “Folhetim” o seguinte “Programa Literirio”®’ Quando inteoduzimos a titeracura na impre onde somente a critica tinha direito de encrar, quiseros fazer de nosso “Folhetim” 0 lugar de encontro dos grandes ta lentos de nossa época Vituperaram primeiro contra a introdugio do folhetim, O folhetim exclusivamente eritico tinha se enfeudade na antiga imprensa, a andlise seca, parcial e aborrecida dis obras de imaginagio ¢ de ciéncia. Os folhetins eram lidos por um pequeno niimero de leitores. Por outto lado, as obras de hhossos bons escritores dificilmente se publi tas, que se acreditavam ser uma autoridade despética sobre a diresao dos calentos e dos editores, que cobravam um prego muito elevado pelos exemplares consumides somente pelos gabinetes de leivura Nés prestamos servigo aos escricores. Nés thes asseguramos um modo de publicasio certo ¢ regular. A um 36 tempo convocamos em torno deles 10 mil leitores. Para os que gritam contra o declinio da literatura, respon- demos que as obras de Lamartine ¢ de Chateaubriand nio foram escritas para o Folhetim, foram somente nele publi- cadas” (Seguem 05 nomes dos colaboradores do jornal) Certamente 0 discurso apresentado ¢ demagégico; ele encobre uma opera¢io comercial lucrativa. Ao contratar um gtupo de intelectuais de renome, La Presse legitima suas atividades jornalisticas. Porém, isto sé € possivel, ¢ con- vincente, na medida em que uma comunicagao existe entre © jornal e 0 mundo literirio, Habermas, quando analisa © declinio da esfera publica litersria, coloca uma questi que nos interessa diretamente nessa discussio®. Para ele, a esfera publica teria sido aniquilada na medida em que © préprio publico se cinde. De um lado existiria uma mi- notia de especialistas, de outro uma massa de consumidores que receberm a cultura intermediada pelas grandes empre- sas. A raaio piblica estaria nesse caso impossibilitada de se manifestar, pois cada especialista, além de se encontrar separado de um publico mais amplo, seria ineapaz de se comunicar com outro especialista, ambos possuindo uma linguagem distante e intraduzivel entre si. Creio que a des- ctiggo de Habermas € conceitualmente correta; nfo resta diivida de que uma clivagem entre aqueles que produzem € 08 que consomem se instaura. Néo obstante, durante esta primeira modernidade, 0 processo de especializagio da mi norla a que Habermas se refere é ainda incipiente. A se- o entre ser escritor e ser jornalista ¢ incompleta. Al- Nettement ¢ Sainte-Beuve sio criticos literirios, mas muitos dos scus textos aparecem primeiro em jornal para somente depois serem compilados em livros. Francis Wey é exitico de arte, jornalisca e escritor. O dicionério das pro- fissbes de 1851 ainda define jornalista como um homem de letras; Litté assinala 0 vocabulo somente em 1863, 0 que significa que do ponto de vista semantico a profi comega a existir a partir de meados do século. Como ob- serva Marc Martin, “o corpo de jornalistas, pelo menos até os primeiros anos da Terceira Reptblica, nao tinha ne nhuma consisténcia. Na verdade, no se pode falar na exis- téncia de um corpo, mas num agregado inconsistence de autores e de redatores”®. A esfera publica liceriria se mis- ura assim a esfera publica politica. A cisio definitiva se fard mais tarde, quando o jornalismo politico cede lugar a um jornalismo de informaséo. HA razSes para que isto ocorra, Na realidade, esta cul- ura de mercado possui uma extensio relativamente pe- 0, quena; claro, ja néo se trata mais de um publico reste no sentido entendido pela cultura erudita, mas, como vi- mos, existem obstéculos para o seu crescimento, © folhetim esté longe de set um género “popular”, se compreendermos © conceito do ponto de vista sociolégico: sua penetrasio junto &s classes populares”. Seu circuito de difusio faz com que os leitores sejam recrutados nas classes média e su: peior. Somente aqueles que conseguem pagar 75 francos por um romance em dez volumes ou 40 francos pela as- sinatura de um jornal podem consumi-lo. Os leitores que escrevem a Eugtne Sue durante a publicagio de Or mistérios de Paris sio oriundos dessas camadas ¢ preten- dem transmitir ao escritor suas idéias sobre 2 reforma da sociedade As mesmas restrigdes se apli € um instcumento de delimita puiblico particular; ele € 0 teatro que propicia uma mise- en-scene dos modos burgueses. As fotos devem enquadrar am a fotografia. O estiidio social voltado para um os homens ¢ as mulheres 20 lado das cortinas, das mesas de centro, das colunas, das estatuetas clissicas, enfim um conjunto de sinais que atestam 0 pertencimento de classe de quem esté sendo retratado. Durance o Segundo Império, 9 retrato obedece a um verdadeiro ritual, no qual 0 fo- tégrafo busca traduzir socialmente a semelhanga fisica moral das pessoas”. Os acess6rios se revestem de um valor cessencial; eles remetem 0 individuos a um universo estético de uma classe social. Walter Benjamim dizia que “essas imagens nasceram em lugates onde o cliente via na foto- grafia uma técnica nova, mas onde os fotégrafos viam no cliente um representante da classe ascendente, com uma aura que se aninhava até nas dobras da sobrecasaca ou nos nds das gravatas””, Aura que lembra os pintores famengos, cujos retratos haviam captado no passado a preeminéncia dos negociantes holandeses no periodo de pujanca do ca- pitalismo mercantil. Mas essa dimensio especifica implica num fechamento. Todo ritual pressupée um conjunto de regras, privilegiando aqueles que participam de seu espaco sagrado, em contraposigao aos que permanecem fora dele. Uma exclusio se impée, e se manifesta até mesmo sob (0 aspecto imagético. André Rouillé mostra que até 1870 a fotogr e mesmo quando 0 operirio & fotografado nos atcliés, seu ia pouco se interessou pelo mundo do trabalho; corpo deve ser ressemantizado segundo os critérios de uma estética dominance. Marginalizagao que repousa evidente- mente sobre critérios econémicos, pois um retrato custa 25 francos em 1862, para uma populagio que ganha por dia 3,58 francos (construgio), 2,50 francos (minas), 1,82 francos (agricultura) O panorama ser outro com a consolidagéo da ordem industrial, A introducdo da iluminacio, a gés ou elétrica, libera a forografia de sua dependéncia em relagao & luz solar. A invengio do brometo gelatinoso de prata revolu- ciona o proceso forogrifico. A técnica do colédio timido, que havia permitido a passagem da daguerreotipia para a fotografia, continha ainda alguns elementos artesanais. As placas deviam ser preparadas ¢ utilizadas imediatamente, uum pouco antes de se fotografar 0 objeto. As de brometo gelatinoso de prata tém agora a vantag nufaturadas, podendo ser estocadas ¢ transportadas, Surgem entio as grandes fibricas produtoras, que as comercializam no mercado. As facilidades sio certamente maiores, mas em de serem ma- isso implica uma racionalizagéo das atividades. Como ob- serva Jean Sagne, “antes do aparecimento do brometo ge- latinos de prata, 0 fordgrafo controlava 0 conjunto da cadeia de producio da imagem, da preparagio da placa apresentagio da prova. A partir de entao, uma etapa do proceso Ihe escapa””®, Do ponto de vista econémico, isto significa uma simplificagio dos estiidios, uma ver que parte do investimento inicial torna-se obsoleto com o surgimento dos novos procedimentos técnicos. O mercado passa a ser explorado por um mimero maior de profissionais, Em 1891 existem na Franga cerca de mil ateliés, ocupando mais de 500 mil pessoas ¢ movimentando um volume de negécios de 30 milhées de francos. ‘A separagio entre tomada ¢ revelacio, precipita a fo- tografia na era moderna, 20 liberi-la também do. profis- sionalismo dos fotdgrafos. Um amador pode utilizé-la sem maiores problemas, sobretudo porque ele agora dispoe das méaquinas autométicas — (“Aperte 0 botéo, nés faremos 0 resto” dizia a publicidade da Kodak). Na Exposigio Uni- versal de 1889 surgem os primeitos aparelhos autométicos acionados por moedas. Neste m comecam a ser instaladas nas ruas de Paris. A mecanizagio dispensa 0 proprio operador. A popularizagio € automa: tizagio da fotografia iri incidir sobre seu préprio status cultural. Os ateliés, ao se tornarem menores, jd nao mais se apdiam na demanda de uma clientela burguesa. Eles perdem com isso a aura que lhes envolvia anteriormente, a fotografia configurando-se como uma “arte média” dis- tante de suas pretensées anteriores. No final do século, os impressionistas irdo utilizd-la como técnica de suporte, sem se preocupar com seu status artistico. Ou, como dizem os historiadores da arte, a fotografia por fim acabou li- berando a pintura da natureza, permitindo-lhe escapar & sedutora imposigio do real mo ano, essas méquinas Jean Bory observa que o romance-felhetim ceflui com a Repiiblica de 1848. “Soulié esté morto; Sand nas suas terras, em seus currais; Dumas arruinado, embora Le Siécle tenha terminado 0 Visconde de Bragelone no comego de 1850, ¢ La Presse se prepara para publicar O anjo Pitow Enfim, Balzac desaparece em 18 de agosto. Morte que ad- quire um valor de simbolo: é 0 fim do romantismo e de um certo romance... Era o enterro do folhetim. Esta li- teratura tinha feito o seu tempo. A nova geracio nutria em relagio aos mais velhos uma desconfianga que se agrava com 0 fiasco de 1848. A confianga desmesurada que Balzac, Hugo, Sand, Dumas ¢ Sue manifestaram pela imaginasio, esta cegueira, 0 romance no quer mais. Quer-se ver claro, nomear 0 que se vé; jé nio mais se concorrencia o estado civil, ele € vigiado, Sthendal vai ser descoberto. Chega Flau- bert", No entanto, o autor se esquece de dizer que € esta morte que propicia ao folhetim sua consagracéo como li- teratura secundaria. Ao contrapor Soulié, Sand, Dumas, Balzac, Sue a Flaubert, traga-se uma linha diviséria defi- nitiva entre uma escrita erudita e outra popular e comercial A literatura volta-se para si mesma ¢, 20 se constituir ple- namente como um campo auténomo, a interpenetragio das esferas que ocorria anteriormente torna-se menos plausivel. O préprio jornal, veiculo do género folhetinesco, se afasta dos homens de letras. O advento de uma imprensa de mas- sa, 0 nascimento das folhas populares (Le Petit Journal, Le Petit Parisien), a importincia conferida & informacio, fax com que o jornalismo politico ceda lugar a um tipo de escrita que se adapta a0 nivel socioculcural de uma clien- tela mais ampla. As rubricas de divertimento, informagées gerais, reporcagens se multiplicam, o que significa que um especialista deve dar conta delas. Um crftico, escrevendo em 1889, capta bem essas mudangas: “A imprensa era an- | tigamente um instrumento polémico, um meio imediaro, cdmodo, de se espalhar idéias e de difundir doutrinas. A (0, a noticia exata ou inexata, cada vex. mais coma consideravelmente espaco nas colunas dos jornais, ¢ 0 estilo inforr telegréfico tende a substituir aquele dos antigos mestres”” A veracidade da escrita € analisada segundo as informagies que veicula; até mesmo sua inverdade se calcula em termos objetivos. Uma noticia ¢ falsa quando os fatos que contém sio crréncos. A exatidio da narrativa, 0 estilo telegrifico ou, em linguagem jornalistica, a reportagem requer um tra- tamento textual diverso da argumentacio politica ou lite- riria, O jornalismo enquanto profissio se confirmna, afas- ando-se do mundo literério que o havia nutrido. O tes- temunho de Emile Zola, ja no final do século, € sugestivo: “A informagio transformou o jornalismo, matou os grandes artigos, marou a critica, dando cada vez mais lugar aos despachos, as grandes noticias € processos verbais, as re portagens, as entrevistas. Se a literatura € uma recreagio das letras, um divertimento reservado a uma classe, a im- prensa esté matando a literatura. Mas ela traz uma outra niimero de coisa, difunde a leitura, conclama um maior homens @ inteligéncia da arte. A que fSrmula ela chegara? Eu ignoro. Simplesmente constato que, se assistimos 3 ago- nia da literatura de uma elite, & porque a literatura de nos- ». Zola acredita nas sas democracias modernas vai nasc democtacias, mas seu depoimento, que deposita uma espe- ranga no futuro, revela sua perplexidade em relagao ao pre- sente, Curiosamence, ele inverte a proposigao de Bory, nao € 0 folhetim-imprensa que morte, mas a literatura. Fale- cimento que mais uma vez nos remete & rupcura entre esfe- ras culeurais distintas; pois se as paginas da imprensa se especializam, ¢ demandam agora de seus artifices uma nica particular de linguagem, os escritores migram para as revistas especializadas, os livros com pequenas tiragens, as academias ¢ os salées literdrios. A fronteira se encontra de- finitivamente implantada.* As conseqiiéncias desse distanciamento so importantes A primeira geragio de folhetinistas era formada por escri- cores que haviam exercido anteriormente seu talento junto a0 meio literdrio. Sue foi escritor de romances maritimos. Soulié, Balzac, Dumas, possuiam uma experiéncia roma: nesca antes de escreverem em jornais; no inicio, eles pu- blicavam em partes os romances que concebiam como li- vros. A nova geragio — Gaboriau, Ponson du Terrail, Xa- vier de Montépin, Pierre Zaccone — no possufa nenhum contato com 0 mundo erudito. Eles se formam € se in- tegram sem contradig6es, no interior de um ambiente li- terério que ja se encontra estabelecido. Diferentemente de seus antecessores, eles nfo mais adaptam a escrita a uma imposi¢io externa; os novos folhetinistas assimilam. essas exigencias como algo natural, um dado objetivo que en- volve suas aspiragées. Trata-se de escritores que escrevem para o mercado, que a partir do Segundo Império se ex- pande, atingindo as classes populares urbanas ¢ rurais. A configuragio desta forma popular ¢ comercial escapa do Ambito do campo erudito; por isso seus autores sero con- siderados como “menores"””. Os sinais de distanciamento entte as esferas culturais sio miltiplos. Podemos apreen- dé-los, por exemplo, através das publicidades que os jornais faziam dos folhetins”: +A ance como “institwigSo” se auronomiza plenamente apenas no final do século XIX. Por isso Peter Burger pode analisr o advento das van- uatdas uristicas como um elemento histérico, As vanguardss, 20 criticar #8 propny conceigo de “instiicio”, #6 podem existir quando a autonomia do campo é integral, Neste caso, € possvel propor a reincegragio da estética (que sc encontra separada do mundo) a vida. Ver Burger, Teoria de las, vanguardas, Madti, Ed, Peninsula, 1990.