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1.

A HISTÓRIA DA _RTE * Concepção


Amália dos Santos, Bruno Moreschi
Colofão
Este panfleto foi impresso em offset
O projeto apresenta dados quantitativos e qualitativos sobre A HISTÓRIA DA ARTE e Gabriel Pereira sobre papel Alta Alvura 90g/m2.
2.443 artistas de 11 livros utilizados em cursos de graduação de Ernst H. Gombrich, LTC, 2000 Coordenação geral Tipografias utilizadas Akkurat
Artes Visuais no Brasil.* ARTE MODERNA Bruno Moreschi (Laurenz Brunner, 2004), Freight
Produção executiva Sans (Joshua Darden, 2004), Galaxie
Giulio C. Argan, Cosac Naify, 1992 bólide | ações pró-cultura Copernicus (Chester Jenkins e Kris

A HISTÓRIA DA1RTE A intenção é mensurar o cenário excludente da História da Arte


oficial estudada no país a partir do levantamento e do cruza-
ARTE CONTEMPORÂNEA: UMA HISTÓRIA CONCISA
Michael Archer, Martins Fontes, 2001
Marcela Amaral, Mônica Novaes
Esmanhotto e Laura Maringoni
Sowersby, 2009) e Replica Mono
(Norm, 2008). São Paulo, 2017.
Pesquisa e tabulação dos artistas Uma publicação de Menard Editions.

é2 a área3 das ciências4


mento de informações básicas das/dos artistas encontradas/ ARTE CONTEMPORÂNEA: UMA INTRODUÇÃO Gabriel Pereira Tiragem 15.000 exemplares.
encontrados. Com isso, espera-se que as interessadas e os in- Anne Cauquelin, Martins Fontes, 2005 Textos Distribuição Gratuita.
teressados no tema tenham um material de apoio para construir CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA HISTÓRIA DA ARTE Ananda Carvalho
humanas5 em que se6 outras leituras para a História ou mesmo uma transformação Heinrich Wölfflin, Martins Fontes, 2015
Design gráfico e edição
Guilherme Falcão
radical do campo. Mais informações e desdobramentos podem ESTILOS, ESCOLAS & MOVIMENTOS: Conversão de dados em cartografia
constrói7 uma8 narrativa9 ser encontrados no site do projeto: historiada-rte.org GUIA ENCICLOPÉDICO DA ARTE Pedro Vada, Guilherme Falcão e
Amália dos Santos
Amy Dempsey, Cosac Naify, 2005
sobre10 a criação11 de
Pesquisa de instituições
Distribuído gratuitamente na entrada de museus e centros GUIA DE HISTÓRIA DA ARTE para distribuição Apoio
culturais no Brasil e em outros países, este panfleto reúne as Giulio C. Argan e Maurizio Fagiolo, Editorial Estampa, 1994 Anna Carolina Gorski Boresztein

objetos e experiências12 principais informações encontradas na pesquisa. É também


uma forma de discutir o papel das instituições culturais que
INICIAÇÃO À HISTÓRIA DA ARTE
Horst W. Janson e Anthony F. Janson, Martins Fontes, 2009
Site
Guilherme Falcão e Bruno Moreschi
Consultoria do Site

realizados13, em sua são, assim como os livros pesquisados, responsáveis pelo


cenário restrito da História da Arte. O que diretores/diretoras e
TEORIAS DA ARTE MODERNA
Herschel B. Chipp, Martins Fontes, 1995
Capi Etheriel
Conselho editorial
Caroline Cotta de Mello Freitas, Realização

maioria14, por15 homens16 curadores/curadoras dos museus têm a dizer sobre o cenário
aqui apresentado? Que ações concretas estão sendo tomadas
TUDO SOBRE ARTE
Stephen Farthing, Sextante, 2010
Claudia Mattos Avolese e
Vera Lúcia Benedito

brancos17, europeus18, para que os acervos que coordenam deixem de ignorar as pro-
duções artísticas de mulheres, negras e negros, indígenas e não
HISTÓRIA DA CIDADE
Leonardo Benevolo, Perspectiva, 2009
A equipe deste projeto não
reconhece a legitimidade do

estadunidenses19 e europeus, por exemplo? —


10 autores; 2 autoras; 9 europeus e europeias;
governo atual.

Agradecimentos

pintores20 (alguns, Boa visita! 3 estadunidenses; brancos e brancas.


Total de 4.405 páginas pesquisadas.
Aarhus Universitet, Instituto de
Artes da Unicamp, Alodie Larson,
Armando Maduro, Caio Paraguassu,
gênios21)...22 * 11 livros (não 10) para evidenciar que a pesquisa pode continuar com
Eduardo Costa, Fernanda Pessoa,
Fernanda Pitta, Giselle Beiguelman,
outras publicações. A inclusão de História da Cidade é uma tentativa de Goethe Institut, Iara Schiavinatto,
ampliar o estudo em áreas afins – neste caso, a arquitetura. Jaime Lauriano, Juliana Biscalquin,
Leonardo Foletto, Mariana Nacif
Mendes, Mayra Koketsu, Nathalia
Lavigne, Sylvia Furegatti, Paula
Alzugaray, Thays Viana Ishikawa.
historiada-rte.org

16. homens 17. brancos 20. e pintores 2. é PALAVRAS MAIS ENCONTRADAS


Nos livros, a data de nascimento de artistas varia entre 2655 17.1. 20.1. NOS 11 LIVROS PESQUISADOS*
2.443 ARTISTAS
a.C. e 1974. De nascimento de artistas mulheres varia entre

arte (10.010)
1593 e 1971 – com apenas quatro nascidas antes do século XIX:
1.566 PINTORES (64,1%) OUTROS (35,9%)
Artemisia Gentileschi (1593-1652); Judith Leyster (1600-1660);
Angelica Kauffmann (1741-1807) e Louise-Élisabeth Vigée Le

é(7.565)
Brun (1755-1842).

1.458 HOMENS (93,1%)


22
ser(3.950)
QUANDO CITADA EM INICIAÇÃO À
HISTÓRIA DA ARTE (JANSON), ELA É
ARTISTAS
CHAMADA DE “BELA MULHER”, ASSIM COMO
OS RETRATOS ROCOCÓS QUE PINTAVA.
NEGRAS E NEGROS (0,9%)
DAS QUAIS
2 108 MULHERES (6,9%)
p.(3.723)*
ARTISTAS
MULHERES
NEGRAS
20.2. “Por causa da educação recebida, de sua posição no contexto da
família, das expectativas sociais a que estavam sujeitos e dos papéis são(3.708)
2.222 HOMENS (90,9%) (0,08%) que aprendiam a representar como naturalmente seus, havia
poucas probabilidades de que meninos e meninas conseguissem
ele (3.369)
17.2. Relato de Ananda Carvalho, curadora e integrante do projeto: alcançar a maturidade com oportunidades iguais de desenvolver
pintura (3.024)
“Conversei com Vera Lúcia Benedito (professora, doutora em uma identidade como ‘artistas’. Mesmo se estivessem na situação forma (2.679)
215 sociologia, do conselho deste projeto, mulher, descendente
da diáspora africana, como prefere se definir) sobre os dados
incomum de terem sido educados de maneira pouco convencional (a
ponto de transgredir os estereótipos de gênero tradicionais), depara-
era (2.613)
obra (2.612)
MULHERES encontrados nesta pesquisa. Ela ressalta que essa problemá- riam com um mundo artístico e uma sociedade institucionalmente
(8,8%) tica ‘é muito mais profunda que o discurso’ e demanda pensar estruturada em termos de gênero.” (Gênero e Representação, de
artista (2.594)
6 SEM na vivência cotidiana. ‘Temos de descolonizar a nossa mente. Tamar Garb, em Modernidade e Modernismo: a Pintura Francesa no nova (2.555)
INFORMAÇÃO Temos de sair da formatação de ver o mundo pelos olhos que os Século XIX , Cosac Naify, 1998, p. 230 e 231). ver (2.370)
outros nos olham e conhecer nossa riqueza cultural’, afirma. Vera
amplia as discussões deste projeto para a sociedade como
século (2.240)
um todo: 54% da população brasileira é afrodescendente e a fig. (2.189)*
presença de uma classe média negra brasileira tem sido con-
*(EXCLUINDO ARTIGOS, ADVÉRBIOS E PREPOSIÇÕES)
siderável há mais de 70 anos. Entretanto,‘a visibilidade negra p. = abreviação de página / fig. = abreviação de figura
(quando aparece) ocorre apenas no espaço do lúdico (a música, o
esporte etc.)’. Diante desse cenário, além de indagar sobre a
presença dos artistas visuais, ela adiciona: ‘Onde estão as/os
médicas/médicos, engenheiras/engenheiros, biólogas/biólogos, e
bibliotecárias/bibliotecários negras/negros por exemplo?’”.

18. europeus ARTISTAS MULHERES (NASCIDAS 1593—1971)


19. estadunidenses Artemisia Gentileschi, Judith Leyster, Angelica Kauffmann, Louise-
Élisabeth Vigée Le Brun, Julia Margaret Cameron, Rosa Bonheur,
Henriette Browne, Harriet Hosmer, Berthe Morisot, Maria Zambaco,
Mary Cassatt, Sarah Bernhardt, Marie Spartali Stillman, Anna Boch,
Gertrude Käsebier, Marianne von Werefkin, Margaret Macdonald
Mackintosh, Nadezhda Udaltsova, Käthe Kollwitz, Frances
Macdonald, Valentine de Saint-Point, Paula Modersohn-Becker,
Katherine Dreier, Gabriele Munter, Elisabeth Epstein, Eileen Gray,
Vanessa Bell, Natalia Goncharova, Aleksandra Ekster, Madge Gill,
Imogen Cunningham, Marie Laurencin, Helen Saunders, Sonia
Terk Delaunay, Emmy Hennings, Olga Rozanova, Tarsila do Amaral,
Georgia O’Keeffe, Sophie Taeuber-Arp, Vera Mukhina, Suzanne
Duchamp, Hannah Höch, Liubov Popova, Elsa Schiaparelli, Valentine
Hugo, Marie Marevna Vorobieff, Vera Ermolaeva, Marianne Brandt,
Madame Yevonde, Varvara Stepanova, Aino Marsio Aalto, Dorothea
Lange, Antonietta Raphael, Gunta Stölzl, Tamara de Lempicka,
Louise Nevelson, Betty Parsons, Barbara Hepworth, Charlotte
Perriand, Margaret Bourke-White, Germaine Richier, Eileen Agar,
Dorothy Norman, Frida Kahlo, Mary Martin, Leonor Fini, Maria
Helena Vieira da Silva, Nina Leen, Dorothea Tanning, Jacqueline
Lamba, Emily Kame Kngwarreye, Louise Bourgeois, Lee Krasner,
Agnes Martin, Ray Eames, M. C. Richards, Leonora Carrington, Anne
Truitt, Mougouch Fielding, Miriam Schapiro, Diane Arbus, Beverly
PAÍSES COM MAIS ARTISTAS Pepper, May Stevens, Elaine Sturtevant, Nancy Spero, Gae Aulenti,
CITADAS/ CITADOS Helen Frankenthaler, Alison Smithson, Jo Baer, Yayoi Kusama,
(NASCIMENTO) Jay DeFeo, Niki de Saint-Phalle, Marisol Escobar, Magdalena
Abakanowicz, Lee Bontecou, Audrey Flack, Marisa Merz, Bridget
476 ITÁLIA
Riley, Charlotte Moorman, Alison Knowles, Mary Frank, Yoko Ono,
399 ESTADOS UNIDOS
Mary Beth Edelson, Viola Frey, Yvonne Rainer, Hilla Becher, Jeanne-
338 FRANÇA
Claude Christo, Eleanor Antin, Paula Rego, Ree Morton, Joan Jonas,
225 ALEMANHA
Georgie Cheesman, Nancy Holt, Monica Sjöö, Carolee Schneemann,
100 HOLANDA
Judy Chicago, Mierle Laderman Ukeles, Gina Pane, Barbara Chase-
39 ESPANHA
Riboud, Nancy Graves, Hannah Wilke, Elizabeth Murray, Valie Export,
30- OUTROS
Susan Hiller, Joanne Leonard, Steina Vasulka, Mary Kelly, Hanne
Darboven, Jackie Winsor, Jennifer Bartlett, Lynda Benglis, Jann
Haworth, Annette Messager, Ulrike Rosenbach, Martha Rosler,
Harmony Hammond, Mary Miss, Candida Höfer, Barbara Kruger,
Susan Rothenberg, Rose Finn-Kelcey, Dara Birnbaum, Alice Aycock,
Marina Abramovic, Judy Pfaff, Magdalena Jerelová, Susana Solano,
Nalini Malani, Tina Girouard, Laurie Anderson, Louise Lawler, Martha
Wilson, Sherrie Levine, Adrian Piper, Alison Wilding, Tina Keane, Isa
Genzken, Judith Barry, Jenny Holzer, Zaha Hadid, Barbara Bloom,
Mona Hatoum, Rosemarie Trockel, Nan Goldin, Penny Siopis, Sophie
PAÍSES COM NENHUMA/ NENHUM Calle, Helen Chadwick, Cindy Sherman, Sue Williams, Joan Mitchell,
ARTISTA CITADA/ CITADO Karen Kilimnik, Shirazeh Houshiary, Ann Hamilton, Cady Noland,
NOS LIVROS Cristina Iglesias, Cornelia Parker, Katharina Fritsch, Kimsooja,
Jessica Diamond, Shirin Neshat, Doris Salcedo, Maya Ying Lin, Lisa
Milroy, Jane Alexander, Lorna Simpson, Zoe Leonard, Sylvie Fleury,
Bethan Huws, Sarah Lucas, Anya Gallacio, Gillian Wearing, Rachel
Whiteread, Tracey Emin, Betsabeé Romero, Karen Finley, Andrea
Fraser, Angela Bulloch, Mariko Mori, Vladimir Cybil Charlier, Christine
Hill, Sigalit Landau, Alex Bag, Jenny Saville.

ARTISTAS COM DATA DE NASCIMENTO NÃO ENCONTRADA


Olia Liálina, Carol Goodden, Jacki Apple, Bobby Baker, Jeannine
Guillou, Julia Heyward, Katarina Matiasek, Kate Walker, Monica
Narula, Rose English, Helen Harrison, Lucia Bartolini.

ARTISTAS NEGRAS E NEGROS (1882—1969)


Aina Onabolu, Norman Lewis, Ben Enwonwu, Jackson Hlungwani,
Frédéric Bruly Bouabré, Bruce Onobrakpeya, Uche Okeke,
Benjamin Patterson, David Koloane, Barbara Chase-Riboud,
William T. Williams, David Hammons, Chéri Samba, Andre Juste,
Fab Five Freddy, Lorna Simpson, Jean-Michel Basquiat, Zwelethu
Mthethwa, Dondi White, Romuald Hazoumè, Steve McQueen, Cool
Earl (data de nascimento não encontrada).

ARTISTAS BRASILEIRAS E BRASILEIROS (1886—1961)


Tarsila do Amaral, Candido Portinari, Oscar Niemeyer,
Almir Mavignier, Öyvind Fahlström, Abraham Palatnik, Helio Oiticica,
Cildo Meireles, Vik Muniz.
3. a área 4. das ciências 5. humanas 6. em que se
3.1. Em A História da Arte (Gombrich), Iniciação à História da “Para a nossa cultura, que se baseia na ciência e considera a história a 6.1. Em geral, os autores e as autoras dos livros pesquisados
Arte (Janson), e Tudo sobre Arte (Farthing), a narrativa é cons- ciência que estuda as ações humanas, o parâmetro do juízo é a história. utilizam duas estratégias para articulação do sujeito: sujeito
truída a partir da divisão binária “arte primitiva” e outra sem nome Uma obra é vista como obra de arte quando tem importância na história indeterminado (“sabe-se”, por exemplo) e algum tipo de sujeito
específico, mas que abrange a discussão de objetos e experiên- da arte e contribuiu para a formação e desenvolvimento de uma cultura genérico/amplo (“a história da arte”, “arte”, “campo”, “disciplina”,
cias da Grécia e da Roma Antiga, da Europa na Idade Média até artística. Enfim: o juízo que reconhece a qualidade artística de uma obra, “ciências humanas” etc.). Ambas as estratégias evidenciam a
os dias de hoje, dos Estados Unidos a partir do fim do século reconhece ao mesmo tempo a historicidade” (ARGAN e FAGIOLO, p. 19). construção de um discurso que parece naturalmente verdadeiro
XIX e de outros poucos povos. Nesses livros, “arte primitiva” inclui e impedem a identificação do autor ou da autora que o constrói.
criações tão diferentes como as dos pré-colombianos de 3.500 A estratégia é utilizada com frequência em Conceitos Funda-
a.C. e as dos aborígenes australianos de hoje. Exemplos de “arte mentais da História da Arte (Wölfflin):
primitiva” em Gombrich:
“A história da arte antiga trabalha com conceitos idênticos aos da história
Estranheza da arte moderna, e o fenômeno repete-se na Idade Média (...)” (WÖLF-
“Estranhos começos: povos pré-históricos Espaço Científico “São científicos os processos de catalogação das coi- FLIN, p. 12).
e primitivos; América Antiga” (Título do capítulo 1). sas de arte, e a catalogação científica é a primeira condição da sua conser-
vação (...) recolhendo dados preciosos para lhe estabelecer a autenticidade e “Sabe-se que um dos motivos preferidos pela pintura barroca consiste
Infância reconstruir-lhe a história” (ARGAN e FAGIOLO, p. 42). em intensificar o movimento em direção à profundidade (...)” (WÖLF-
“É como se crianças brincando de polícia e ladrão chegassem a FLIN, p. 282).
um ponto em que já nenhuma delas soubesse onde terminou a re-
presentação e começou a realidade. No caso das crianças, porém,
há sempre um mundo adulto à volta e pessoas que lhes dizem: 6.2. Quem são as pessoas que determinam o que é e o que não é a
‘Não façam tanto barulho’ ou ‘É hora de ir para a cama’. Quanto arte de seu tempo? Todo ano, a revista ArtReview publica o Power
ao homem primitivo, não existe outro mundo para estragar a 100, uma lista das figuras mais influentes da arte contemporâ-
ilusão, porque todos os membros da tribo participam nas danças nea. Apresentamos aqui os cinco primeiros escolhidos de 2016,
cerimoniais e nos ritos, imersos nos seus fantásticos jogos de utilizando a mesma prática de sujeito genérico encontrado nas
simulação” (GOMBRICH, p. 43). afirmações dos livros de História da Arte pesquisados:

3.2. “(...) [Em] 1989, o Centro Georges Pompidou de Paris abrigou a 1º Homem, branco, diretor artístico de duas importantes galerias
exposição Magiciens de la Terre. Contendo obras do mundo inteiro, Espaço Expositivo “O mundo exterior não deve entrar, de de arte em Londres.
ela objetivava mostrar um pouco da heterogeneidade da arte, e também modo que as janelas geralmente são lacradas. As paredes são 2º Homem, branco, diretor artístico da edição de 2017 de uma
responder às acusações de eurocentrismo reunindo arte ‘primitiva’ e a pintadas de branco. O teto torna-se a fonte de luz (...) Sem exposição que ocorre a cada cinco anos em Kassel.
nova arte do Ocidente. (...) O crítico americano Thomas McEvilley (...) sombras, branco, limpo, artificial – o recinto é consagrado à 3º Casal (mulher e homem), brancos, galeristas em Nova York,
escreveu: ‘(...) esta foi a primeira exposição importante a tentar (...) tecnologia da estética” (No Interior do Cubo Branco, de Brian Londres, Los Angeles, Zurique e Somerset.
descobrir uma forma pós-colonialista de exibir, no mesmo espaço, objetos O’Doherty, Martins Fontes, 2002, p. 4). 4º Homem, branco, galerista em Nova York, Londres e Hong Kong.
do Primeiro e do Terceiro Mundo’” (ARCHER, p. 216 a 218). 5º Homem e mulher, brancos, diretores de museu em Londres.

7. constrói 8. uma 9. narrativa 10. sobre


7.1.“Nos capítulos que se seguem examinarei a história da arte, que 8.1. Mesmo com 16 edições (1950 a 1999), Gombrich jamais alte- 9.1. Comparação entre o sumário de um livro de História da Arte 10.1.
é a história da construção, da feitura de quadros e da realização de rou significativamente o texto principal de A História da Arte. Em geral e outro específico de arte contemporânea: 1.060 IMAGENS DOS 765 IMAGENS DOS LIVROS
estátuas” (GOMBRICH, p. 37). 1966, ele acrescenta uma seção final (“Uma História Sem-Fim”) LIVROS CONTÊM MULHERES CONTÊM HOMENS
sob a justificativa de “que a situação mudou radicalmente desde que A História da Arte (Gombrich) (44,3% ESTÃO NUAS OU (18,9% NUS OU SEMINUS –
a minha A História da Arte foi publicada pela primeira vez” (p. 638). Introdução – Estranhos começos – Arte para a eternidade – O grande SEMINUAS) DESSES, 48,2% JESUS)
É nesse acréscimo que ele finalmente cita Marcel Duchamp – despertar – O império do belo – Conquistadores do mundo – Bifurcação
“A mulher está presente enquanto imagem (...) passiva, disponí-
de forma negativa e avisando que espera “sinceramente não ter de caminhos – Olhando para o Oriente – A arte ocidental em fase de
vel, possível, impotente. O homem está ausente da imagem, mas o
contribuído para essa moda” (p. 601). Em um conjunto de notas assimilação – A Igreja militante – A Igreja triunfante – Cortesãos e bur-
que esta significa é sua fala, sua opinião e sua posição de domínio”
finais, também inclui um pequeno comentário genérico sobre gueses – A conquista da realidade – Tradição e inovação I – Tradição e
(Old Mistresses: Women, Art and Ideology, de Rozsika Parker e
novas abordagens na História da Arte. Esse texto (p. 643) ocupa inovação II – Realização da harmonia – Luz e cor – A propagação do
Griselda Pollock, I. B. Tauris, 2013, p. 116, tradução nossa).
duas linhas em tamanho menor que o texto original, conside- novo saber – Uma crise da arte – Visão e visões – O espelho da nature-
ra a discussão sobre o papel das mulheres na arte como algo za – Poder e glória I – Poder e glória II – A era da razão – A ruptura na
menor (“questões recentemente ventiladas”) e cita dois livros sobre o tradição – Revolução permanente – Em busca de novos padrões – Arte
assunto, sem mais detalhes. experimental – Uma história sem-fim.

8.2. “Se existe um conceito de arte absoluta, e esse conceito não se Arte Contemporânea: uma história concisa (Archer)
formula como norma a ser posta em prática, mas como um modo de ser Prefácio – O real e seus objetos – O campo expandido – Ideologia, identi-
do espírito humano, é possível apenas tender para este fim ideal, mesmo dade e diferença – Pós-modernismos – Assimilações – Conclusão.
sabendo que não será possível alcançá-lo, pois alcançando-o cessaria a
tensão e, portanto, a própria arte” (ARGAN, p. 11). 9.2. Nos livros pesquisados, há uma narrativa cronológica nas
trajetórias das e dos artistas que é frequentemente utilizada.
8.3.“O direito a figurar entre os sujeitos que fazem a história da Para que elas e eles pudessem ser capazes de experiências ar-
arte (...) depende, em grande parte, daqueles outros sujeitos res- tísticas mais radicais, tiveram de ter realizado antes obras mais
MAQUETE DO MONUMENTO À TERCEIRA
ponsáveis pela escrita da história, a saber, o historiador da arte, acadêmicas. É o caso de Picasso que, para Gombrich, só con-
INTERNACIONAL (1919), VLADIMIR TATLIN
o crítico, o museólogo e o curador (...)” (As Mulheres Artistas e os seguiu desenhar um galo cubista pois já havia desenhado uma FRINÉ DIANTE DO AREÓPAGO (C.1861),
(NUNCA DE FATO CONSTRUÍDO).
Silêncios da História, de Ana Paula Cavalcanti Simioni, Labrys - imagem tradicional de uma galinha e seus pintinhos (p. 26 e 27). JEAN-LÉON GÉRÔME.
Revista de Estudos Feministas, janeiro / junho 2007).
10.2.
7.2. “Desde a idade das cavernas, o homem (sic) glorificou-se a si
mesmo, endeusou-se e, com sua vaidade monstruosa, provocou catás- 5.516 IMAGENS (TOTAL DOS 11 LIVROS)
trofes humanas. A arte vem colaborando no falso desenvolvimento
do homem (...) As pirâmides, os templos, as catedrais, as pinturas
dos homens de gênio, tudo isso se transformou em belas múmias. (...) * É provável que esse seja um dos
objetos mais representados nas
564
O homem precisa ser curado de sua vaidade” (Trecho do manifesto imagens das publicações estudadas IMAGENS
Arte Abstrata, Arte Concreta, de Jean Arp, em CHIPP, p. 394). (inclui tronos, encostos ou similares). COM CADEIRAS*(10,2%)

11. a criação 12. de objetos e experiências 13. realizados 14. em sua maioria
Os dados sobre a maioria das e dos artistas neste projeto foram Nos livros, a História da Arte não é a história dos objetos e das Não é a forma do objeto que define o que é considerado arte 14.1. De um total de 2.443 artistas, obtivemos dados completos
buscados no Benezit Dictionary of Artists e no Grove Art Online, experiências artísticas, é a história de suas fotografias. chamada de “primitiva” pelos autores dos livros pesquisados. Se de 2.402. A margem de erro das porcentagens é de 0,34%.
ambos da plataforma Oxford Art Online. Todas as e todos os comparadas a partir de suas silhuetas, a arte “primitiva” não é
artistas ali são classificadas e classificados a partir de, no diferente da chamada arte contemporânea: 14.2. A metodologia e o resultado da pesquisa, que está em for-
mínimo, uma técnica. Mas há espaços para variações. De acordo mato de tabelas (uma para cada livro e uma com os dados soma-
com Alodie Larson, editora do site, não há um vocabulário dos), estão disponibilizados no site do projeto historiada-rte.org
controlado na enciclopédia; os verbetes são escritos por e podem ser utilizados livremente por qualquer pessoa. Todos
pesquisadoras e pesquisadores especialistas; e toda nova os dados foram revisados no mínimo uma vez. Uma de nossas
publicação é revisada. Feitas essas ressalvas, as e os artistas principais inquietações foram as categorias gênero e raça. Sem
dos livros pesquisados criam: a possibilidade de contar com a autoidentificação das e dos
artistas, como defini-los? Optamos por contabilizar e indicar nas
tabelas de dados somente negras e negros e mulheres em geral.
Pintura – 1.566 (64,10%) / Desenho – 680 (27,83%) / Escultura
Existe o interesse da equipe em pensar formas de continuar essa
– 655 (26,81%) / Gravura – 473 (19,36%) / Arquitetura – 388
pesquisa indicando também outros grupos, como os indígenas,
(15,88%) / Aquarela – 327 (13,39%) / Ilustração – 228 (9,33%)
eventualmente citados nesses livros.
/ Instalação – 178 (7,29%) / Design – 168 (6,88%) / Fotografia
– 165 (6,75%) / Mídias mistas – 143 (5,85%) / Litografia – 134
14.3.
(5,49%) / Colagem – 122 (4,99%) / Filme/Vídeo – 94 (3,85%) /
ARTISTAS SEM NENHUMA INFORMAÇÃO ENCONTRADA:
Performance – 90 (3,68%) / Design decorativo – 68 (2,78%) /
Gariani, Georg Pener, Liev lúdin, Ustad Sahibdin,
Assemblagem – 62 (2,54%) / Afresco – 42 (1,72%) / Multimídia:
Wendy Foster e Xsi Xsu.
41 (1,68%) / Cerâmica – 32 (1,31%) / Environmental – 28 (1,15%)
/ Pôster – 23 (0,94%) / Fotomontagem – 22 (0,90%) / Barro –
17 (0,70%) / Conceitual – 16 (0,65%) / Caricatura – 14 (0,57%)
/ Joalheria – 14 (0,57%) / Miniatura – 14 (0,57%) / Livro – 13
(0,53%) / Iluminuras – 9 (0,37%) / Graffiti – 8 (0,33%) / Vidro
– 8 (0,33%) / Intervenção – 7 (0,29%) / Medalha – 7 (0,29%)
/ Monotipia – 7 (0,29%) / Têxtil – 6 (0,25%) / Happenings – 5
FOTOGRAFIA EM PRETO E BRANCO DE OBRA
(0,20%) / Mosaicos – 5 (0,20%) / Action – 4 (0,16%) / Cenografia –
DE PIET MONDRIAN NO LIVRO HISTÓRIA DA
4 (0,16%) / Pedra – 4 (0,16%) / Body – 2 (0,08%) / Processual – 1
CIDADE (BENEVOLO)
(0,04%) / Tapeçaria – 1 (0,04%)

15. por 21. alguns, gênios 22. ...


15.1. “(...) classificações e os limites são fluidos e nem sempre observa- 21.1. Dos 11 livros, 4 consideram a existência de gênios na 22.1. A HISTÓRIA DA _RTE é um projeto que tem forte influência
dos ou gerados pelos próprios artistas. Embora muitos deles tenham História da Arte: A História da Arte (Gombrich); Iniciação à das novas leituras para a História da Arte – como as de Arthur
formado grupos ou formulado manifestos, algumas das designações História da Arte (Janson); História da Cidade (Benevolo) e Arte Danto, Hans Belting, Didi-Huberman, estudos pós-coloniais etc.
mais familiares, empregadas atualmente, se devem inicialmente a Moderna (Argan) – este último sempre utilizando o termo entre publicadas desde os anos 1980 e que vêm ganhando espaço nas
críticos, curadores, colecionadores ou patrocinadores. Impressionismo aspas e com ressalvas. No total, 15 artistas (todos homens) universidades brasileiras nas últimas décadas. Considerando
e fauvismo foram rótulos aplicados por críticos sarcásticos. Vários gru- são citados como gênios – 10 deles do século XIV e XVI e 7 que essas discussões se restringem a poucos grupos, em geral
pos, como Os Vinte e o Salão da Rosa-Cruz, eram sociedades dedicadas italianos: Michelangelo (1475-1564, Itália); Masaccio (1401- no âmbito acadêmico de cursos de pós-graduação, este proje-
à realização de exposições. Pós-impressionismo se refere mais a um 1428, Itália); Rafael Santi (1483-1520, Itália); Leonardo da Vinci to procura oferecer dados para que elas também ocorram em
período do que a um estilo, vídeo é uma mídia e Bauhaus, uma institui- (1452-1519, Itália); Rembrandt van Rijn (1606-1669, Holanda); públicos mais amplos.
ção educativa” (DEMPSEY, prefácio). Auguste Rodin (1840-1917, França); Pablo Picasso (1881-
1973, Espanha); Giotto di Bondone (1266-1337, Itália); Andrea 22.2. Em Arte Moderna (Argan), há uma seção final com 90
15.2. “(…) há de fato um ‘sistema’ da arte: o produtor, o comprador – Mantegna (1431-1506, Itália); Hugo van der Goes (1440-1482, artistas do século XX. Todos homens, com exceção de Sonia
colecionador ou aficionado – passando pelos críticos, publicitários, cura- Bélgica); Matthias Grünewald (1445-1528, Alemanha); Ticiano Delaunay Terk e Natalia Goncharova. A biografia da última é in-
dores, conservadores, as instituições, os museus (...) etc.” (CAUQUELIN, Vecellio (1480-1576, Itália); Pieter Bruegel (1525-1569, Bélgi- teiramente construída a partir de ações que realizou ao lado de
2005, p. 14 e 15). ca); Francisco Goya (1746-1828, Espanha) e Frank Lloyd Wright seu companheiro, Michel Larionov. Em sua biografia há a data
(1867-1959, Estados Unidos). que o conheceu – o mesmo não ocorre na biografia de Larionov.
15.3. Entre as poucas imagens que ilustram Teorias da Arte
Moderna (Chipp), um número significativo é de assinaturas dos 21.2. Segundo os livros, eles são... 22.3. “É possível uma estética ou uma teoria de arte que não se insiram
artistas ali discutidos como se elas fossem tão importantes numa teoria de valores? É possível uma ciência estética que não seja PEIXE GRANDE COME PEIXE PEQUENO (1557),
do que as imagens dos próprios trabalhos de arte. O dicionário Homens história da arte?” (ARGAN e FAGIOLO, p. 40). PIETER VAN DER HEYDEN.
consultado para a obtenção de dados para este projeto, o Oxford “... o ‘gênio’, seja lá o que for, torna-se uma reserva exclusivamente
Art Online, também possui esse mesmo fetiche – ali é possível masculina” (ARCHER, p. 125). 22.4. “A história da arte só começa a fazer sentido quando vemos por
encontrar 11.132 assinaturas de artistas. que não o é” (GOMBRICH, trecho final da edição de 1966, p. 618).
Falsamente rebeldes
“... assumem o ar de iniciados, gênios inspirados e rebeldes, mas
geralmente estão prontos a fazer todas as concessões” (ARGAN, p. 208).

Sine quibus non


“Não há como explicar a existência do gênio. É preferível apreciá-lo”
(GOMBRICH, p. 287).

21.3. “A ênfase sobre a obra-prima é principalmente uma ideia de cole-


cionador e tem pouca relação com um movimento artístico.” (O Projeto
Federal de Arte, 1936, de Holger Cahill, em CHIPP, p. 477 e 478).