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A Reinvenção dos Cinqüenta


Lições de Vida para as Mulheres na Segunda
Adolescência
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Suzanne Braun Levine

Escaneado, Formatado e Revisado Por:

Sumário

Lição Um – Cinqüenta são os novos cinqüenta


Lição Dois – Nada mudará se nada mudar
Lição Três – Não, não é uma palavra de quatro letras
Lição Quatro – Um ―círculo de confiança‖ é imperativo
Lição Cinco – Toda crise cria um ―novo normal‖
Lição Seis – Faça para si mesma, o que tem feito para os
outros
Lição Sete – A velhice não é uma doença
Lição Oito – Seu casamento pode ser bem-sucedido
Lição Nove – Você realmente sabe o que quer fazer com o
resto de sua vida
Lição Dez – Ambos é o novo um/ou
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Lição Um
Cinqüenta são os Novos Cinqüenta

Poderíamos não agir de acordo com nossa idade se não a


soubéssemos... Vivemos na bioquímica de nossos corpos, e
não nos anos; na interação entre essa bioquímica e seu maior
produto, – a mente humana -, e não em uma série de décadas
marcadas por movimentos de mudança periódicos.
- Dr. Sherwin B. Nuland, A Arte de Envelhecer

C inqüenta são os novos cinqüenta. Sessenta, apresso-me a


acrescentar, também são os novos sessenta, e setenta, os
novos setenta. E as mulheres que estão nos novos cinqüenta,
sessenta e setenta não desejariam estar em nenhuma outra
fase. Algumas pessoas acham que elas ―realizam‖ o processo
reinvenção quando aparentam uma ou duas décadas a menos:
―Entendo‖, dizem encorajadoramente. ―Cinqüenta são novos
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trinta‖! Como se a recompensa do que é claramente uma
grande mudança de mentalidade fosse uma nova perspectiva
de juventude. De modo algum é isso. Descobri que a maioria
das mulheres na Segunda Adolescência se sente muito feliz na
fase em que está – não quer voltar a nenhuma das fases ou
décadas anteriores. Embora todas nós gostaríamos de ser mais
fortes e saudáveis – e admiradas (ou, pelo menos, respeitadas)
pelo mundo em que vivemos -, poucas gostariam de ser
literalmente mais novas. ―O bom em envelhecer‖, disse a
mágica escritora Madeleine L‖Engle, que viveu até a casa dos
noventa, ―é que você não perde todas as outras idades que
teve‖. Chegamos a um ponto em que nossa vida finalmente
começa a fazer sentido.
Supõe-se que a juventude – ou, pelo menos, ser ―mais jovem‖
– é o ideal e que, se pudesse escolher, nenhuma mulher em
seu juízo perfeito renunciaria a ela. Descobri que o oposto é
verdadeiro. Muitas de nós rejeitam com grande satisfação essa
atitude mental de olhar para trás e se concentram (para
parafrasear a canção O Rei e Eu) nas ―coisas novas e
maravilhosas que estou aprendendo sobre mim – dia a dia‖. A
quantidade de coisas a aprender sobre nós mesmas é agora tão
vasta como quando éramos adolescentes. Muito sobre nossos
corpos, cérebros, relacionamentos e abordagem do mundo
está sendo revisto – por nós, para uma mudança. E, quanto
mais revisamos, mais descobrimos novos aspectos de nós e
que não somos quem éramos, quando mais jovens.
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O desafio dessa fase da vida não é, como sugerem alguns,
―superar o envelhecimento‖, mas passar a se conhecer nesse
novo contexto. Quem é essa pessoa que se ouve dizendo ―não
me importo mais com o que os outros pensam‖ e adora ouvir
isso? Quem está desistindo de usar saltos altos e cintos
simplesmente porque são desconfortáveis? Quem está
questionando a natureza de seus relacionamentos e o
significado de seu trabalho? Quem está pronta para algumas
experiências novas e totalmente inusitadas? Quem sabe que a
vida-e-morte não é uma metáfora, mas segue em frente?
Ser uma pessoa mais velha é quase irrelevante para essas
perguntas – exceto a última. Mas, se você der ouvidos à
sociedade em que vivemos, achará que tem de permanecer – e
parecer – jovem – para ser feliz. E nós compramos
(literalmente) essa mensagem, gastando milhões em
cosméticos, cirurgias, drogas e injeções para combater o
envelhecimento, e tornando um Best-seller um livro que
ensina How Not Look Old (Como não parecer velha). Até
mesmo Gloria Steinem, que insistiu tanto em reconhecer sua
idade (―Essa é a aparência dos quarenta‖! e dos cinqüenta,
sessenta e agora setenta), admitiu que tinha certa dificuldade
em lidar com o envelhecimento. ―Apesar de eu ter criticado
todas as atrizes, atletas e outras pessoas adoradoras da
juventude, incapazes de imaginar uma mudança futura –
algumas das quais até mesmo preferiram a morte ao
envelhecimento‖ -, escreveu ela em A Revolução Interior,
―estava caindo na mesma armadilha‖. Deparar-se com um
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câncer de mama – e sua mortalidade – a ajudou a confrontar
sua ―negação e oposição‖ e a começar a ficar atenta à sua vida
e adaptá-la às mudanças em seu corpo. Uma recompensa
inesperada dessa nova visão de mundo foi que ela – sempre
considerada de grande beleza – começou a se sentir livre do
―epípeto de bela‖. Se isso parece estranho, explica Gloria,
pense em trabalhar o máximo possível e depois descobrir que
tudo que conseguiu é atribuído à sua aparência.
A aclamada atriz Helen Mirren, com 62 anos, expressou um
sentimento parecido. Ser um objeto sexual é mortificante e
irritante, mas lhe dá poder – um terrível poder que você não
fez nada para merecer, um poder impotente, disse ela à
revista Moore. Acho que algumas mulheres jovens se
apaixonam por esse poder, e isso realmente as torna objetos.
Quando ele começa a desaparecer, é um incrível alívio.
Quanto à idade cronológica, Helen teve isto a dizer: Quando
você tem 16 anos, considera muito velho quem tem 28!
Quando chega aos 28, isso é fabuloso. Você pensa: e quanto
aos 42? Ugh! E então ter 42 anos é ótimo. Ao chegar a cada
idade, você obtém a compreensão e experiência de que
precisa para lidar com ela e apreciá-la.
Nossa discriminação internalizada contra pessoas idosas cria
um perigo desnecessário, mas claro e presente, de tirar o
máximo desse momento estimulante da vida. Estamos
seguindo em frente, mas não do modo como os estatísticos e
marqueteiros da juventude pensam. Entender que você não é
quem era, só é mais velha, liberta a imaginação e mobiliza
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seus recursos para lidar com a adversidade e aproveitar a
serendipidade. Dessa perspectiva, a mudança não é uma
inimiga, mas um potencial, uma força que você pode usar
para se livrar de velhas identidades e adotar novas, em um
processo que, com o correr do tempo, cria tantas
oportunidades quantas exclui.
As gerações que entraram na idade adulta nos anos 1960 e
1970 ainda estão se desenvolvendo. Desde que minha geração
entrou no mundo adulto, nós nos recusamos a seguir as
regras. Mudamos a moda feminina – até então alguns
restaurantes não permitiam a entrada de mulheres usando
calças compridas. Contestamos as categorias de emprego
tradicionais para as mulheres – quando os anúncios eram
separados por sexo. Assumimos o controle de nossa vida
econômica – é difícil acreditar que naqueles tempos uma
mulher casada tinha de obter a assinatura do marido para
conseguir um empréstimo bancário. Fizemo-nos ser ouvidas
na política, nos negócios e no lar. E nos desafiamos a ser as
melhores possíveis – apesar de um monte de conselhos de
especialistas para nos conformamos e sermos gratas pelo que
tínhamos. Radicais e conservadoras, ousadas e dóceis, nós – e
nossas contemporâneas mais jovens. – nos enchemos de
certeza de que podíamos mudar as regras. Com muita
confusão e luta, é isso que temos feito. Por esse motivo,
quando olhamos para a frente, cada década é tão nova quanto
foi até agora para cada uma de nós.
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A maior parte do que estamos fazendo, pensando e
explorando também é nova na história da experiência
feminina. Somos a primeira geração a chegar à menopausa
com uma expectativa de vida de mais um quarto de século,
com conhecimento para poder imaginar fazer algo com esse
tempo e o apoio de instituições e relacionamentos que
formamos Ao longo do caminho. Nossas mães e avós viam a
mudança de vida como o tempo em que suas vidas paravam
de mudar. A vida de muitas delas havia sido muito bloqueada
sem que tivessem sido consultadas a esse respeito; as
principais variáveis para uma mulher eram com quem ela iria
se casar, como o marido a trataria, quantos filhos conceberia e
quanta boa ou má sorte teria. Mas o movimento feminista
desafiou essa visão de mundo de muitos modos. Aprendemos,
com exemplos e experiências, que tínhamos algum controle
sobre nosso destino e que, como disse Gloria Steinem,
podíamos nos tornar os homens com quem queríamos nos
casar.
Drew Gilpin Faust, 59 anos, a primeira mulher reitora de
Harvard, é muito talentosa, mas também típica de seu tempo.
Ela cresceu na área rural da Virgínia da qual lembra como
uma comunidade de rígida segregação racial. Apesar de ter
sido criada para se casar com um homem rico, ela se rebelou
contra algumas das exigências (mas, acrescenta, não todas) de
um mundo em que os arranjos sociais eram tidos como certos
e considerados eternos. Bryn Mawr, uma universidade só para
mulheres que freqüentou nos anos 1960, reforçou suas
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convicções. A amiga Mary Maples Dunn, mais tarde reitora
da Smith, outra grande universidade só para mulheres,
acredita que as instituições voltadas para elas tendiam a dar a
essas jovens, grande consciência de si mesmas e incentivá-las
a desenvolver suas próprias idéias e se expressar
confiantemente em um mundo em que as mulheres ainda
eram cidadãs de segunda classe. Como com a maioria de nós
que obteve algum grau de autoridade e autoconfiança ao
longo dos anos, a vida de Faust não foi o que se supunha. Uma
das coisas que acho que caracteriza minha geração – seja
como for, caracteriza a mim e as outras de minha geração – é
que sempre me surpreendi com o que minha vida se tornou,
diz ela agora.
Sempre que levantamos os olhos, parece haver uma fronteira
diante de nós. Não sabemos de onde virá o próximo golpe ou
a próxima bênção; não sabemos como lidaremos com isso,
mas cada vez mais acreditamos que poderemos enfrentar o
que quer que surja. Para mim – e para meu espanto – um
golpe recente foi a importância de um determinado
aniversário.
Desde o realmente chocante essa é a aparência dos quarenta
de Gloria Steinem, tenho endossado totalmente a mensagem
dela: se pararmos de tentar esconder nossa idade cronológica,
liberaremos todas nós de cada referencial. Durante anos só
falei, até chegar a um aniversário que me forçou a agir.
Meu marido e um amigo querido organizaram a noite
exatamente como eu queria – embora tivessem preferido fazer
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algo um pouco mais elaborado. Atendendo ao meu pedido,
cada uma das dez pessoas convidadas trouxe um prato que
havia preparado, e nos sentamos ao redor da mesa de jantar
brindando aos chefs. Adorei a intimidade do grupo: minhas
duas amadas crianças, agora com idade suficiente para
oferecer suas perspectivas totalmente inesperadas de minha
vida em seus tributos. E meu marido, com quem finalmente
atingi um equilíbrio maravilhoso. (Quando recentemente
contei isso a alguém, ele me perguntou quanto tempo isso
havia demorado. Uns 37 anos, respondi). Havia três pessoas
amigas, de vinte ou mais anos. Mas também uma nova
amizade – ou assim espero – alguém que tenho a forte
sensação de que é muito especial e desejo conhecer melhor.
Algumas outras eu gostaria que pudessem estar lá, mas
estavam fora em aventuras sozinhas – como deveria ser.
Naquela noite, senti-me muito bem em relação à minha vida.
E quando passei o resto da semana do meu aniversário com
minha mãe, na época com noventa anos, soube quanto tempo
isso poderia durar. Minha mãe não parece ter um dia a mais
do que setenta anos (a idade em que começou a estudar para
seu Ph.D., que completou no início da casa dos oitenta,
enquanto trabalhava em tempo integral). Ela está ficando
esquecida agora, mas ainda anseia por ir a lugares e fazer
coisas. Na verdade, a perda de memória de curto prazo parece
tornar o mundo muito mais cheio de surpresas e maravilhas
para ela. Este não é um mau modelo de longevidade.
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Então por que desde esse aniversário, em situações em que no
passado revelaria voluntária e alegremente minha idade, me
vi confusa ou claramente mentindo?
Passei vários meses tentando descobrir o que temia. Não era a
morte – pelo menos, não ainda. Também não era parecer mais
velha – tinha me acostumado com isso. O que temia era o que
achava que minha idade significava para os outros, inclusive
para outras mulheres na Segunda Adolescência, mas uma
década (ou duas) mais jovens. Fiquei surpresa e satisfeita com
o modo como até mesmo mulheres no início da casa dos
quarenta reagiram ao meu livro Invente o resto de sua vida.
Em várias ocasiões, mulheres jovens, poderosas e comuns,
disseram-me que haviam comprado duas cópias do livro –
uma para elas mesmas e outra para as mães. Para elas mesmas
porque, embora estivessem tomando as decisões necessárias
nessa etapa da vida adulta, queriam dar uma olhada adiante,
quando poderiam reviver algumas das experiências que
precisavam ter agora. Para as mães, porque sua geração criara
entre elas laços de verdade e sabiam que suas mães
precisavam de um pouco de incentivo para continuar a
inventar o resto da vida delas. Não quero perder essa
camaradagem com tais mulheres. Detestaria ser rejeitada
como da geração mais velha e sair de suas telas de radar.
Penso especialmente nas leitoras da revista More, de onde sou
editora colaboradora. A revista é para mulheres com mais de
quarenta, que todas nós aceitamos como um modo de dizer
mais velhas, mas não velhas – da idade da minha mãe. Mas
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onde fica o ponto de transição? Temo que, quando as
mulheres mais velhas descobrirem minha idade, rejeitem
minhas idéias e meu entusiasmo por essa nova fase da vida
como irrelevantes para a delas. E parem de me ouvir – ou de
me dizer como isso é para elas.
Não quero ser identificada por minha idade cronológica.
Especialmente agora, que tenho muito a dizer sobre o
envelhecimento. Antes que se apressem a tirar conclusões,
quero que as pessoas saibam de algo sobre meu estado mental,
para entrarem em uma conversa comigo sobre as experiências
que partilhamos – Sim, sei o que ela quer dizer ou para mim é
assim... Quero ser vista por quem sou, antes de alguém
considerar minha idade.
É claro que é exatamente por isso que eu deveria admitir
minha idade – para ajudar a desmistificar o desligamento
arbitrário estabelecido pela Social Security Administration,
que eu também achava que separava um grupo do resto da
sociedade. Então aqui vou eu: adoro o ponto em que estou em
minha vida – todos os 65 anos dela até agora!
Contudo, há algumas diferenças entre antes – quando, com
cinqüenta anos, comecei a receber chamados para uma nova
fase da vida – e agora – 15 anos depois. E se pudéssemos
eliminar de nossa conversa o jogo de números, seríamos
capazes de falar sobre essas diferenças. A verdade é que, para
mim, sessenta não são cinqüenta. Não devido a marcos
estabelecidos, mas ao território no qual a mulher que viveu
esses anos percorreu durante esse tempo. O que posso dizer a
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uma mulher de 55 anos sobre minha jornada até aqui pode
ser-lhe útil não quando chegar aos 65, mas quando enfrentar
um desafio parecido com o que enfrentei. Embora haja
algumas constantes – principalmente desgaste psicológico – a
trajetória de cada mulher na Segunda Adolescência é única.
Algumas de nós entram na menopausa na casa dos quarenta;
outras têm filhos na mesma idade. Algumas acham seu
trabalho mais satisfatório com o passar do tempo e o maior
foco; outras ainda tentam renovar aspectos mais pessoais de
sua vida. Algumas saem de relacionamentos antigos; outras se
aprofundam neles. Algumas sentem ondas poderosas de
mudanças; outras mal sentem uma ondulação – ainda. Assim
como duas mulheres não experimentam uma determinada
idade cronológica do mesmo modo, todas as mulheres passam
constantemente por mudanças enquanto seguem em frente.
Todos os dias há afirmações novas do insight de que você não
é quem era, só é mais velha. Sim, você é mais velha
cronológica e fisiologicamente, porém mais jovem em termos
de tempo gasto superando quem era antes de começar a
descobrir algumas coisas.
Se eu for sincera sobre as diferenças que estou descobrindo ao
seguir em frente, espero que a verdade do que disse amplie a
conversa que estamos tendo – e não mude o tema. Então, em
cerca de uma década de minha jornada, se sessenta são os
novos sessenta, o que há de tão novo nisso?
Começo a ver muitos dos desafios que tenho enfrentado sob
uma nova luz.
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Começo a perceber que a pergunta sobre o que farei com o
resto de minha vida está se tornando menos desconcertante;
na verdade, se responde.
Começo a perceber que minha visão de mundo está se
tornando um pouco mais sóbria, como observou um amigo,
mas também menos temível.
Começo a perceber que nada jamais termina – até tudo
terminar.
Concordo com a poetisa e ensaísta Grace Paley que se
entrevistou em um ensaio intitulado Upstaging Time, que
escreveu quando estava na casa dos setenta. Você se importa
de ter de envelhecer? Perguntou o Entrevistador. Paley não
responde diretamente. Em vez disso, passa páginas
respondendo entusiasmadamente a perguntas relacionadas
com sua vida, amigos e trabalho. Finalmente, dá uma resposta
direta (você não esperaria nada menos de Paley): A propósito,
minha resposta para sua pergunta é: sinto-me ótima. Adoro
minha vida. É interessante todos os dias. Mas se isso
acontecer, me importarei.
O que realmente descrevo ao falar sobre as diferenças e
semelhanças entre onde estou e onde outras mulheres mais
jovens ou mais velhas estão é o surgimento da noção de
modelos horizontais – mulheres que estiveram lá, não
cronologicamente, mas emocional, física ou
experimentalmente. Uma mulher mais jovem que teve filhos
cedo pode ter muito a dizer sobre o ninho vazio; uma mais
velha de volta ao mercado de trabalho pode ter importantes
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insights da política empresarial. Uma sobrevivente de câncer
de qualquer idade pode nos ajudar a nos concentrarmos no
que realmente é importante. E todas nós podemos ter empatia
para com um ataque de tristeza com o-que-eu-estou-fazendo.
A função dos Modelos Horizontais é como a de um grupo de
mães em bancos contíguos em um playground – trocar
conselhos; queixar-se de cansaço, mudanças físicas e do modo
como o mundo as vê; combater as suspeitas uma das outras de
que estão ficando loucas – e contribuir para o aumento das
risadas. A idade cronológica de qualquer uma delas – ou dos
filhos que vigiam – é irrelevante. O laço é a experiência
comum e a sinceridade com que a partilham.
Nosso quadro de Modelos Horizontais aumenta a cada
minuto. Nos poucos anos desde que começamos s conversa
sobre a Segunda Adolescência, as primeiras mulheres a
atravessar essa fronteira acumularam insights, recursos e
história. Devido ao seu espírito, são modelos para quem as
segue. Devido à variabilidade de suas aventuras, são modelos
e conselheiras permanentes umas das outras.
A única coisa que não pode ser passada adiante é um padrão
de desafios que serve para todo mundo. À medida que mais
mulheres vão abrindo seus próprios caminhos no terreno
inexplorado da Segunda Adolescência, o próprio terreno
muda. O malabarismo de trabalho/relacionamentos nós
mesmas nunca paramos; mas o peso e a natureza das bolas que
tentamos manter no ar mudam. Muitas das questões
soberanas para as mulheres que entraram na casa dos
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cinqüenta, quando eu entrei – o temor de agüentar o tema do
envelhecimento, a escassez de imagens com que podíamos
nos identificar na propaganda, a ignorância médica sobre
nossos corpos – mudaram e são um pouco diferentes dos
desafios enfrentados pelas que cruzam essa fronteira hoje.
Além disso, os desafios e as áreas de tensão com que as
pioneiras se deparam ao seguir seu caminho não são o que
eram quando elas partiram. Você não só não está
envelhecendo como esperava (se tornando uma versão mais
velha de quem era), como o progresso evolutivo continua a
ocorrer, de modo que você não é quem era (quando começou
essa transição), só é mais velha.
Um dos modos pelos quais algumas mulheres medem sua
evolução não é contando os anos, mas olhando para onde suas
mães estavam com a mesma idade. Marge Clauser, poetisa e
escritora que vive na Flórida, escreveu comoventemente
sobre o legado de limitações que superou.

Minha mãe se considerava velha quando meu pai morreu, em


1959.
Um dia, voltei para casa da escola e a encontrei à mesa da
cozinha. Ela disse: Quero falar com você sobre se casar.
Meu primeiro pensamento foi que ela estava falando de si
mesma. Contudo, aquilo não fazia sentido. Demorei alguns
segundos para perceber que me via como a possível noiva. Eu
havia acabado de completar 16 anos, nunca tinha namorado
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ninguém a sério e queria ir para a universidade. Expressei
esses fatos.
A resposta de minha mãe foi: Bem, precisa de um homem
para cuidar de você porque no futuro não estarei por perto
para fazer isso.
Meu pai ficou doente durante anos antes de morrer, por isso
logo perguntei: Você está doente?
Ela disse: Não, estou velha. Ela só tinha 52 anos.
Então minha mãe disse que queria se certificar de que eu
sabia onde ela guardava alguns itens importantes. Mostrou-
me onde guardava uma apólice de seguro e outros papéis.
Depois me mostrou o vestido com que queria ser enterrada.
Era de renda cor-de-rosa e cinzenta sobre um forro de tafetá –
tão diferente de tudo que eu já a tinha visto usar que fiquei
sem fala.
Minha mãe colocou o vestido de volta no saco plástico com
fecho ecler. Lá ele ficou, mudando-se com ela para cinco
estados diferentes nos 26 anos seguintes, até ela morrer, com
78. Preparando seu funeral, tirei o vestido do fundo do seu
armário e abri o saco. O vestido imediatamente começou a se
desintegrar. Terminou como uma pulha de pó cor-de-rosa e
cinzento, parecendo cinzas.

Marge havia inicialmente seguido o conselho da mãe e se


casou muito jovem. Porém, quando enviuvou, aos 29 anos,
com dois filhos pequenos e nenhuma instrução, fez uma
escolha importante – não seguir mais o exemplo da mamãe.
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Ela não queria investir o resto da vida em um vestido de
renda que se desintegraria. Em vez disso, obteve os diplomas
de ensino secundário e universitário, casou-se de novo – dessa
vez, com o amor de minha vida, que tinha três filhos. Agora
Marge tem 15 netos. Ao longo dos anos, trabalhou como
administradora de serviços de saúde, dona de pousada,
comissária e membro do conselho da cidade antes de se tornar
escritora. Hoje, com a idade que sua mãe tinha quando se deu
por vencida, Marge pode dizer: Esse é o meu apogeu.
Minha mãe literalmente passou 25 anos querendo morrer, diz
Marge tristemente. A vida dela poderia e deveria ter sido
muito diferente. Então Marge homenageia os Modelos
Horizontais em sua vida que ajudam a confirmar sua visão de
mundo mais positiva. Conheci mulheres da minha idade e
mais velhas que tinham vidas animadas e interessantes, apesar
de problemas de saúde e financeiros. A diferença entre nossa
Segunda Adolescência e a da minha mãe é que permanecemos
o máximo possível ativas, sobretudo mentalmente. Nunca
paramos de aprender coisas, ouvir idéias e conhecer pessoas
novas.
À medida que mais de nós entram nessa nova fase da vida, há
literalmente mais mulheres partilhando essa experiência.
Mais de nós suficientemente à vontade com o que está
acontecendo para dizer umas às outras você não está só e
definitivamente não está maluca por aceitar a mudança. Mais
de nós para definir os novos cinqüenta, sessenta e setenta.
Para mudar, por meio do exemplo e ativismo, a imagem de
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mulheres como nós na sociedade. Pesquisas indicam que
estamos nos sentindo muito bem com o que está acontecendo.
Um estudo constatou que 46% das mulheres na casa dos
cinqüenta se sentem extremamente ou muito satisfeitas com
seu bem-estar geral; a percentagem aumentou para 50%
daquelas que estão na casa dos sessenta, e 66% na dos setenta.
A obsessão da mídia, da indústria farmacêutica, da
comunidade médica e do segmento da juventude pela ameaça
da menopausa freqüentemente suprime a mensagem positiva
de outras mulheres que passam por mudanças. As pessoas ao
redor – familiares, médicos, empregados – e as próprias
mulheres podem facilmente desprezar seu estado alterado
como o início da histeria hormonal. Não se engane; este é o
início de algo muito mais significativo.
O marco do início da Segunda adolescência é uma necessária,
mas perturbadora entrada no que chamo de Vácuo Fértil.
Como o início da menopausa, essa mudança profunda não
tem nada a ver com a idade cronológica. Pode coincidir com a
perda da fertilidade biológica e demorar tanto ou mais tempo
que uma gravidez, mas as semelhanças terminam aqui. O
Vácuo Fértil é um lugar de confusão em que a mulher na
meia-idade perambula sem um mapa até encontrar seu novo
eu. Durante sua permanência ali, ela se perderá mais de uma
vez e encontrará as versões modernas – e femininas – dos
dragões medievais que estaram os cavaleiros de outrora.
De todas as experiências que comparei com as de mulheres
que estão se desenvolvendo ao meu lado, o Vácuo Fértil é a
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mais universal. Todos o descrevem em termos parecidos. Não
sei se o que está acontecendo. Não consigo me organizar. Não
consigo encontrar uma saída. O que está demorando tanto?
Elas tentam desesperadamente encontrar a saída de um
desconcertante estado de desconhecimento e imaginam que a
chave está na resposta para a Pergunta (O que farei com o
resto de minha vida?). O problema é que, antes de qualquer
mulher poder chegar ao resto dela, tem que descobrir o que
quer dizer com minha vida.
Não admira que a típica permanência no Vácuo Fértil demore
tanto tempo e pareça tão loucamente imprevisível. Como o
rio proverbial, você não pode empurrar o Vácuo Fértil; este é
um processo orgânico que resiste às ferramentas que nos
serviram tão bem em outros pontos de nossa vida. A
princípio, presumimos que seremos capazes de realizar
multitarefas para sair dele – fazer uma lista, consultar
especialistas, nos encaixar no plano. Nem tanto. Em primeiro
lugar, realizar multitarefas é uma das capacidades que
diminuem com a idade. No entanto, o mais importante é que
os meses de dúvida, confusão e experimentação prejudicam a
eficiência e o estabelecimento de objetivos. Mulheres que os
vivenciam contam histórias de queda livre e eventos
aparentemente fortuitos – e centelhas de serendipidade: a
decisão impulsiva de tentar comer em um restaurante
sozinhas que leva a uma nova e orientadora amizade; o corso
noturno que desperta um novo interesse; o regime de
exercícios que cria novos objetivos, assim como novos
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músculos; a conversa ouvida por acaso que produz uma idéia.
No processo de nos movermos entre esses fragmentos de
experiência, perdemos o controle de nossa vida – se é que
algum dia realmente o tivemos. Nos sentimos desajeitadas e
confusas. É importante nos tratarmos com menos severidade,
o que não é fácil para mulheres que praticamente inventaram
a imperdoável lista de coisas a fazer e a agenda com todos os
padrões e práticas a seguir. Tudo será melhor se formos
menos impacientes e exigentes em relação ao nosso próprio
desempenho.
Quase todas as mulheres finalmente saem do Vácuo Fértil e o
superam. Esta é a primeira peça de sabedoria confirmada por
nossos Modelos Horizontais. Você só não acabará onde achou
que acabaria. Esta é a segunda. A promessa de seguir em
frente não é um plano de jogo claro para o resto da vida. É um
plano de viagem mais dinâmico e incompleto: a sensação
profunda de estar a caminho de saber o que é importante –
para você.

Em meu qüinquagésimo aniversário, três anos atrás, sabia que


as coisas estavam começando a ficar confusas para mim, mas
tudo era muito vago na época. Fiz um retiro de ioga com
minha melhor e mais velha amida e celebramos juntas o
marco de nossos aniversários, mas só assimilei aquilo muito
depois.
Nove meses atrás, decidi abandonar meu papel de executiva
poderosa. As pessoas acharam que eu estava maluca, mas sabia
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que precisava voltar a ter contato com o que realmente queria
fazer, embora não soubesse exatamente o que era. Tudo que
sabia era que não queria amais representar o papel que estava
representando. Queria minha liberdade pessoal e tempo, pelo
puro prazer de tê-lo.
Depois de nove meses sem fazer nada, voltado para a minha
carreira, concentrada em arrumar minha casa, realizar
pequenos projetos de decoração adiados durante anos, limpar
armários, fazer pequenas viagens ao exterior, almoçar com
minhas amigas pela primeira vez em muitos anos, cozinhar
um pouco e me divertir com meus filhos, subitamente soube
o que queria fazer. Renasci. Sei o que quero a seguir, e
realmente choquei a mim mesma e às pessoas ao meu redor.
Quero combinar tudo que adorava em minha duas carreiras
anteriores, manter os aspectos de que gosto, deixar de lado os
que não gosto e reunir tudo isso para meu culminante
Terceiro Ato.

Outros marcos quase tão comuns quanto o Vácuo Fértil


começam a surgir quando algumas de nós dão informações
sobre o caminho à frente. Se os Modelos Horizontais
pusessem legendas nos instantâneos fotográficos de suas
jornadas até agora, seriam estes:

Reajustando nosso Lugar no Mundo: Quando surgem as


paixões que determinam as escolhas pela frente, nossas
prioridades se tornam outras. À medida que avançamos, uma
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reconsideração de O que É Importante parece mudar as
coisas. Com crescente clareza sobre o que temos de fazer por
nós mesmas, descobrimos que nossos relacionamentos com os
outros precisam de certos ajustes. Em termos de ambição no
trabalho, produtividade e compromisso profissional, o futuro
parece diferente do outro lado do Vácuo Fértil.

Um Desejo de Relaxar e Fazer as Pazes: Quando os pedaços de


autoconhecimento e autodeterminação começaram a se
encaixar no lugar, somos inspiradas a nos livrar da velha
bagagem – inclusive de ressentimentos, desapontamentos,
expectativas extravagantes – e seguir em frente com o que
achamos que vale a pena manter.

Uma Sensação de Mestria: Usar nossos pontos fortes nos


permite ver o caminho para mudar e correr riscos. Com cada
risco corrido, nossa autoconfiança aumenta até percebermos
que criamos um registro de comportamentos e realizações:
podemos lidar com o que a vida nos apresenta – de bom ou
mau. A mensagem é: Sou responsável por mim mesma.

Um Despertar de Autenticidade: Durante toda a nossa vida,


representamos muitos papéis. Correspondemos a muitas
expectativas impostas. Assumimos muitas responsabilidades
que não sabíamos ao certo se poderíamos – ou queríamos –
assumir. Tivemos muitas dúvidas sobre nosso desempenho.
Agora os scripts estão dando lugar ao som da voz de cada
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mulher. E às palavras para dizer a verdade como elas as vêem.
O desafio e a ousadia que precipitam tantas mudanças nos
aproximam de quem queremos ser.

Esse desafio e ousadia são a fonte do comportamento favorito


de todo mundo: o Mau Comportamento. O repertório de
comportamentos honestos, afrontosos e totalmente travessos
que cada uma de nós adotou desde que fomos atingidas pelos
primeiros ventos de mudança é tão libertador que dei à
atitude mental por trás dele o nome de ―Os Cinqüenta do
Dane-se‖.

Como Modelos Horizontais, todas nós – mulheres adultas de


qualquer idade – damos poder umas às outras. Ao longo do
caminho, acumulamos Lições de Vida para o
Desenvolvimento, partilhando-as e celebrando aonde estão
nos levando. Você ouvirá falar de muitas delas neste livro.
Um exemplo disso é Deb. Ao contrário de Marge, cuja mãe
era um antimodelo. Deb passou a entender o que sua mãe
tinha em vista quando chegou ao mesmo ponto que ela. Um
ensaio que escreveu ao entrar na casa dos cinqüenta, dois anos
antes, reflete o humor, a ousadia e a honestidade que
caracterizam o processo de descoberta pelo qual estamos
passando:

Lembro-me de minha mãe me dizendo, em seu 45º.


Aniversário: As coisas melhoram quando você fica mais
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velha. Certo! Achei que ela estava maluca. Eu era uma jovem
presunçosa de 23 anos. Minha mãe estava apenas começando
sua dança da meia-idade e era famosa por suas variações de
humor. Costumava correr atrás das crianças pela casa com um
mata-moscas. Lembro-me de que lamentava por minha mãe e
achava que ela precisava dizer coisas desse tipo para se sentir
melhor, como um modo de se afirmar. Certamente não podia
acreditar nisso! Minha mãe tinha um ímã de geladeira que
dizia: sentindo-se atraente com mais de 40. Aquilo me dava
arrepios. Pelo amor de Deus, era a minha MÃE! E sabem de
uma coisa? Minha mãe morreu, mas o ímã dela tem um lugar
de honra em minha geladeira. E sabem do que mais? Passei
dos cinqüenta anos e me sinto atraente.
Não quero parecer, me sentir ou ser uma mulher de vinte,
trinta ou até mesmo quarenta anos! Um corpo firme e um
rosto jovem não valem as lutas que esses anos trazem; a
insegurança, as constantes comparações, a necessidade de se
enquadrar, de estar à altura, de ser tão boa quanto. Aceitarei
minha idade, todos os dias! Descobri que o que perco
externamente ganho internamente.
É claro que meus hormônios estão enlouquecidos, mas, em
vez de ver isso como uma experiência negativa, vejo-o como
uma oportunidade de ouvir o que meu corpo diz e corrigir o
que precisa ser corrigido. Eu me desintoxiquei. Parei de beber
e comecei a prestar atenção ao que ponho em meu corpo. Na
verdade, comecei a respeitá-lo.
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Fiz algumas mudanças importantes em minha vida. Parei de
pôr todos os meus ovos na cesta dos outros e comecei a pô-los
na minha própria. Descobri que tenho um espírito criativo e
iniciei muitos projetos que encheram minha vida de alegria e
prosperidade.
Apesar de toda a loucura, sinto-me bem. Feliz. Segura.
Totalmente o oposto da assustada garota de 13 anos que era
quando comecei a me encher de hormônios. Agora, do outro
lado do rio, sou dona do meu nariz. Tenho um forte
sentimento de fé, uma consciência de quem sou. Aceito as
coisas boas e ruins em mim. Esse é um bom ponto para se
estar.

A descrição de Deb de sua recém-descoberta fé repercute em


mim; ajuda a explicar por que, no meio de tanto
questionamento e aparente caos, encontro uma sensação de
paz – um imobilismo dentro do movimento. E por que sinto
tão fortemente que não importa quantos anos acumule, não
estou me afastando da experiência da Segunda Adolescência,
que partilho com outras mulheres em pontos cronológicos
diferentes de suas vidas. Nós temos muito em comum. Em
primeiro lugar, estamos aprendendo a florescer no paradoxo.
Embora continuemos a recriar padrões familiares (apesar de
nossos esforços para mudar alguns deles), também sentimos
que estamos superando velhos limites. Não só ansiamos por
estabelecer objetivos como nos sentimos mais vivas quando os
reconsideramos. Quanto mais somos levadas pela corrente,
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mais sentimos os pés no chão. Quando mais nos distanciamos
de quem éramos, mais nos aproximamos de quem somos.
A sensação de andar em círculos é um sintoma frustrante do
Vácuo Fértil, mas estes círculos parecem muito diferentes em
fases posteriores. Tornam-se espirais – círculos acrescidos de
mudanças. Os detalhes são diferentes para cada uma de nós
em todos os momentos ao longo do caminho, mas o ímpeto e
as constelações de experiências partilhadas criam um campo
magnético no qual podemos trocar conhecimentos e
incentivos. Quando olho de cima para o caminho que
percorri, vejo as tranqüilizadoras constantes reunidas ao
longo de meus 65 anos, assim como a amadurecedora
trajetória de meu novo eu. Minha visão é iluminada pelos
elétrons de energia das vidas e experiências de mulheres que
estão nesta nova galáxia comigo.

A Lição: Não importa quantas mensagens recebamos nos


instando a agir de acordo com nossa idade; o que precisamos
fazer é agir de acordo com nossa fase – seguir as sugestões
daquela voz incessante, curiosa, ousada e indefinida que
começa a falar mais alto à medida que saímos de nossa
primeira adolescência. Os aniversários – particularmente
aqueles pelos quais a sociedade nos avalia – servem para você
ganhar presentes, mas não para situar você em sua vida. Onde
quer que esteja agora, não estará aí por muito tempo e
também não será a mesma você por muito tempo. Mais velha
não explica a efervescência única do Vácuo Fértil, onde, não
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importa quantos anos esteja fazendo, sua jornada começa.
Embora essa seja sua própria viagem extraordinária, pode
contar com a companhia de outras mulheres.

Lição 2
Nada Mudará se Nada Mudar

A única coisa que torna a vida possível é a permanente e


intolerável incerteza – não saber o que vem depois
- Ursula K. Le Guin

A Segunda Adolescência tem tudo a ver com mudanças –


as que ocorrem conosco e as que produzimos. As
primeiras, sem as segundas, criam um miasma de
desapontamento. As segundas, se não incorporadas às
primeiras, são frustrantes e desencorajadoras.
Uma inquietude que cria um vago desejo de mudar está por
trás de grande parte de nossos comportamentos
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aparentemente casuais e imprevisíveis. Essa ânsia de trazer
novos elementos para nossa vida, combinada com um desejo
simultâneo de rever nosso estilo, desequilibra-nos durante
grande parte do tempo. Às vezes isso é como cair na toca do
coelho de Alice – você não sabe qual é a extremidade de cima.
A queda livre no Vácuo Fértil é divertida ou aterradora; os
postes indicadores que a ajudam a estabelecer seu curso ao
emergir são poucos e distantes um do outro, e não há quadros
de horário para nenhuma mudança que você fizer daqui para
a frente. O único imperativo da transição feminina das fases
definidas pela sociedade para a inédita e inexplorada próxima
fase é que cada uma de nós pode – não, deve – começar a
escrever seu próprio script. Cada pessoa é única. Não há
papéis. (Também não há cavaleiros brancos). Algumas pessoas
ardem de paixão por uma nova vida, e outras seguem em
frente, fazendo ajustes de percurso pequenos, mas muito
significativos. As mudanças ardem de paixão por uma nova
vida, e outras seguem em frente, fazendo ajustes de percurso
pequenos, mas muito significativos. As mudanças não
precisam ser dramáticas, como pular de pára-quedas de um
avião ou fugir com o instalador de TV a cabo, mas
provavelmente não parecerão menos importantes.
Pouco tempo atrás, eu me juntei a vinte mulheres de meia-
idade reunidas para refletir sobre a pergunta: O que farei com
o resto de minha vida? Alguém pediu que levantasse a mão
quem tinha um sonho ou uma paixão que ansiava por realizar.
Somente duas mãos se levantaram, e o resto de nós ficou
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olhando invejosamente. Como, nos perguntamos, poderíamos
seguir em frente se não conseguíamos identificar uma força
propulsora – como o desejo de escrever um romance, abrir
um negócio ou dar a volta ao mundo em um balão? Enquanto
sentíamos pena de nós mesmas, aquelas de nós sem nenhuma
grande paixão se ouviram, admitindo para vozes interiores,
que sussurravam faça isso, interesses mantidos em fogo
brando, que esquentam agora, quando nos permitimos
reconsiderar O que É Importante em nossa vida;
simplesmente não os tínhamos considerado como grandes
idéias. Impulsos menos tórridos são apenas uma fonte
diferente de orientação: uma luz-piloto. Uma chama que não
consome, mas também não queima, literalmente nos pilota
através das águas rasas e correntes dessa nova fase da vida.
Uma luz-piloto de qualquer intensidade é acesa descartando-
se o pensamento deveria/poderia. Ele inclui bagagem
acumulada, especialmente expectativas em relação a si
mesma, aos outros e de como sua vida deve ser. E se você
nunca foi de ficar ao ar livre? E se sempre foi chamada para
contar o tempo de reuniões? E se sempre manteve um ar
majestoso? E se trabalhou em um escritório todos os dias de
sua vida? Isso foi antes. Agora é agora. Quando a bagagem
desnecessária é eliminada. Agora é agora. Quando a bagagem
desnecessária é eliminada, torna-se muito mais fácil partir
rumo ao desconhecido.
Isso não é necessariamente uma recomendação literal.
Embora algumas mulheres possam mudar totalmente de vida
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- e continuar mudando – outras inicialmente só conseguem
lidar com pequenas mudanças. Voltar a estudar pode ser um
compromisso muito grande a assumir nesse momento; tente
trocar um programa de TV regular por palavras cruzadas
todas as noites. Abrir uma loja de artesanato pode ser
divertido, mas talvez por enquanto você só consiga lidar com
um par de agulhas de tricô à tarde em um armarinho com
outras mulheres no mesmo barco. Deixar um emprego que a
oprime pode ser um objetivo necessário, mas montar um
guarda-roupa para procurar outro pode prejudicar sua auto-
imagem e tornar uma mudança de vida um risco imaginável.
Além disso, mudar o metabolismo de seus dias não tem a ver
apenas com somar experiências; também pode envolver uma
saudável sacudidela para deixar para trás um
comprometimento de tempo, um envolvimento emocional ou
uma responsabilidade de longa data. A mudança pode até
mesmo ser algo de um dia só. Conheço uma mulher que
ousou se inscrever em uma corrida de motocicletas da Harley
para mulheres com mais de quarenta anos. Ela correu e
adorou. Mas diz que nunca faria isso de novo. Dirigir uma
motocicleta daquela única vez me libertou! Grande ou
pequena, para a frente ou para trás, qualquer tipo de mudança
mantém as correntes em movimento.
Para muitas mulheres que conheço é um grande alívio saber
que mesmo se todas elas estão fazendo isso de um
determinado modo, e se os artigos de revistas louvam esses
exemplos, se isso não parecer certo para você, não tem de
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fazê-lo. Muitas das sugestões mais freqüentes para seguir com
a vida exigem o que para você poderia significar jogar o bebê
fora com a água do banho; outras são simplesmente muito
amplas, custosas ou de alguma maneira inviáveis. Portanto,
para aquelas menos ousadas, eis algumas das Coisas que você
não tem de fazer (embora possa acabar querendo) para
encontrar sua luz-piloto:

Deixar seu emprego: muitas mulheres sentem uma


perda de motivação profissional à medida que se
aproximam da casa dos cinqüenta e acham que há algo
de errado com elas. Mas pode ser apenas que tenham
conseguido um trabalho que lhes convém ou que
estejam prontas para parar de subir a escada
profissional e se instalar em um platô de realização.
(Uma pesquisa recente descobriu que 59% das
mulheres acima de 55 anos estavam satisfeitas ou
extremamente satisfeitas com seus empregos, quase um
terço a mais do que as em qualquer um dos grupos mais
jovens).

Deixar seu parceiro: na verdade, estão ocorrendo


mudanças nos dois parceiros que podem tornar os
casais mais compatíveis agora do que nunca. Em
primeiro lugar, entre casais heterossexuais nossos
equilíbrios hormonais estão mudando na direção uns
dos outros – da testosterona, em particular. Em
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segundo, a idade traz certa maturidade para homens e
mulheres. Mas o melhor de tudo é que muitos homens
e mulheres se vêem tendo uma curiosidade renovada
em relação a si próprios e, ao reverem as escolhas que
fizeram, aos parceiros que achavam que conheciam tão
bem.

Deixar o país: a paixão mais comumente expressa é por


viajar. Mas muitas mulheres não querem realmente
deixar seus ninhos (recém-vazios); em vez disso,
querem forrá-los com experiências confortáveis e uma
intimidade recém-descoberta. Outras querem fazer
jornadas mais internas e espirituais. E outras ainda
acham que em suas comunidades há maravilhas e
possibilidades inexploradas – como, digamos, buscar
poder político.

Deixar de lado o bom-senso: aprender mergulho


subaquático, estudar chinês ou ir morar em uma tenda
nômade na África pode parecer a grande mudança de
que você precisa, mas também pode descobrir que ter
aulas de tango, compor uma árvore genealógica ou
planejar uma reunião de primos é o primeiro passo
para o resto de sua vida.

Deixar seu corpo: é claro que seria ótimo perder


aqueles dez quilos, e poderia parecer muito audacioso
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deixar os cabelos ficarem grisalhos ou fazer uma
cirurgia plástica. Por outro lado, isso poderia fazer você
sentir menos seu verdadeiro eu do que sente agora.
Somente você pode saber quem ele é. Talvez idas
regulares à pedicure ou um novo corte de cabelo sejam
toda a transformação de que precisa. Nossos corpos são
a linha de frente no confronto com o envelhecimento,
mas, quando o confronto estiver ficando horrível,
imagine quantas boas risadas deixaríamos de dar se
nossos corpos não fornecessem tanto material hilário.

Um problema comum é que nos derrotamos antes de


começarmos – substituindo velhas expectativas não realistas
por novas. Embora não haja nenhum programa para fazer
mudanças, continuamos a tentar reconhecer com perfeição o
momento em que a mudança está ocorrendo, ou estabelecer
um objetivo específico para quando deveria ocorrer.
Simplesmente exigimos muito de nós, desperdiçando energia
em um esforço para impor certeza à descoberta. E queremos
tudo isso imediatamente. É quase impossível aceitar a idéia de
que deixar o barco correr pode ser o único caminho para o
campo magnético em que os pedaços dessa confusa transição
se junta.
Somente as coisas ruins acontecem rápido [...] telefonemas à
noite, acidentes, conversas com médicos que trazem notícias
terríveis, escreve o psiquiatra Dr. Gordon Livingston em
Velho Muito Cedo, Sábio Muito Tarde. Na verdade, salienta
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ele, fora um gol no último segundo, uma herança inesperada,
ganhar na loteria ou uma visita de Deus, é difícil imaginar
boas notícias súbitas. Praticamente todos os processos que
produzem felicidade na vida levam tempo, em geral, muito:
aprender coisas novas, mudar velhos comportamentos, formar
relacionamentos satisfatórios, criar filhos. É por isso que a
paciência e a determinação estão entre as principais virtudes
da vida.
Muitas mulheres contam que passaram um ano ou mais à
deriva no Vácuo Fértil antes de começarem a ter uma
sensação de objetivo. Mas nesse momento descobriram algo
que não esperavam – que a verdadeira ação está em fazer a
jornada.
Eis um dos inúmeros relatos que ouvi de como é ver toda a
sua vida em movimento e o quão pouco úteis costumam ser os
planos mais bem traçados. Vários meses atrás, tomei a decisão
de deixar o emprego em tempo integral que tinha 22 anos e
trabalhar menos horas, contou-me Barb com uma mistura de
orgulho e apreensão. Sua reação a esse ato impulsivo – e
libertador – foi, tipicamente, confusa. Assim que a decisão foi
tomada eu me censurei, perguntando-me: O que no mundo
me fez decidir que eu não seria tão útil trabalhando meio
expediente quanto sou agora. Em vez de ter um emprego de
meio expediente, ela ficou sem emprego nenhum. Quando
seu plano não se concretizou, ela havia erguido a âncora de
sua vida e, apesar das águas frias, não ficou tão em pânico
quanto achou que ficaria; em vez disso, sentiu-se
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estranhamente feliz. Não sei o que farei – realmente preciso
trabalhar meio expediente para me manter, assim como para
continuar ativa na sociedade, mas aguardo ansiosamente essa
reestruturação e as novas aventuras a que levará.
Existe algo tão horrível quanto partir em uma viagem?
Escreve Anne Morrow Lindbergh em Presente do Mar, com
uma compreensão prática do quanto é difícil mergulhar no
desconhecido. Depois fica tudo bem, mas os últimos
momentos são de convulsão sísmica e uma sensação de que
você é um caracol sendo tirado de sua concha. Todos nós nos
sentimos como esse caracol em algum ponto de nossas viagens
atuais. No entanto, o mais importante é que a ação superou o
remoer de pensamentos – você simplesmente teve de fazer
alguma coisa! Não importa qual passo dá ou em que direção
segue, está a caminho – do que quer que seja.
O que realmente importa – e muito – é o insight
enganosamente simples de que nada mudará se nada mudar.
Esta frase mudou a vida de uma mulher viciada em jogo, que
estava quase tão perdida quanto todo mundo que conheço. Eu
definitivamente não conseguia ficar longe da droga, escreveu
Mary na segunda coleção de Marlo Thomas de momentos que
mudam a vida, The Right Words at the Right Time. Quando a
compulsão surgia, dominava-me totalmente. Eu podia estar
aspirando o pó do chão num minuto e, no minuto seguinte, o
desejo se tornava tão forte que eu deixava o aspirador bem
onde estava, ainda na tomada, entrava no carro e saía. Meus
dois filhos, de nove e 15 anos, choravam e me imploravam
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para ficar em casa, mas eu não conseguia. Ela freqüentou as
reuniões dos Jogadores Anônimos, mas não conseguia vencer
o vício. Então, escreveu Mary, em uma reunião, alguém a
olhou nos olhos e disse: Nada mudará se nada mudar. No
momento em que li essa frase, senti que tinha encontrado as
palavras para transmitir a importante mensagem que
mulheres como eu precisavam ouvir. E quando Mary admitiu
que demorou mais um ano para conseguir agir de acordo com
esta mensagem, tive certeza de que ela alcançaria qualquer
mulher perdida no Vácuo Fértil.
Outro modo de ver o poder da menor mudança é comparar
seus esforços para sair da concha com o que os cientistas
chamam de efeito borboleta – a teoria de que o bater de asas
de uma borboleta em qualquer lugar do mundo pode, como
disse um colaborador da Wikipedia, criar pequenas mudanças
na atmosfera capazes de provocar um tornado (ou impedir sua
formação).
Todas as mulheres com quem conversei já se viram em algum
ponto no modo caracol de Lindberght; os encontros muito
diversos com pontos de impasse comuns servem para uma
espécie de catálogo de Modelos Horizontais de modos de ver
qualquer versão de impasse que você esteja experimentando.
Combinei cada conselho com seu oposto para ressaltar que
não há um modo certo de se mover e muito menos algum dia
poderá haver um Guia para Mudança adequado para duas
mulheres, muito menos para todas.
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Medo
Todas nós temos demônios pessoais que aparecem no meio da
noite proferindo uma ladainha dos piores cenários. E se eu
não tiver dinheiro suficiente para me manter? E se essa dor
incômoda for algo realmente grave? E se eu não souber o que
fazer depois? O que há de errado comigoooooooooo!? Eles
podem acabar com nossa determinação ao acordarmos.

Diga aos seus demônios para calarem a boca. Tive uma


amiga que literalmente fazia isso – em voz alta! –
Sempre que acordava cheia de dúvidas e auto-piedade.
Outra mulher afasta essas vozes assustadoras com um
sarcástico, obrigada por me dizerem isso. Uma dura voz
de mãe pode vir a calhar assim.

Engaje apenas um demônio. As conversas que ocorrem


na noite escura da alma podem ser transformadoras.
Escolha apenas um dos medos que lhe causam suor frio.
E o faça desviar o olhar. Encontrar um novo consultor
financeiro para rever sua horrível situação, mudar os
remédios para uma doença crônica ou instituir um
almoço semanal com duas ou três mulheres animadas e
de cabeça aberta devem silenciar pelo menos uma das
vozes pessimistas. Nem que seja temporariamente.

Riscos
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Correr riscos é uma das alcunhas dessa fase; no entanto, como
tudo o mais, o risco significa coisas diferentes para mulheres
diferentes. Pense no impulso de ousar como um desejo de
explorar o caminho não percorrido.

Percorra-o! Siga esse caminho na Floresta Tropical.


Peça uma promoção. Faça um teste para uma peça.
Inicie seu próprio negócio. Busque poder político. Ou
simplesmente mude os móveis de lugar ou pinte as
paredes verdes sujas que a deprimem há anos.

Conserve seus recursos. Para você, o caminho não


percorrido – aquele cheio de trepadeiras ameaçadoras –
pode de fato ser pavimentado e nivelado. Na verdade, o
caminho à frente pode levar na direção oposta à que
você tem seguido. Ouse ser conservadora – por
exemplo, mude suas aplicações no mercado financeiro
para um planejamento a longo prazo; ou dê aos seus
joelhos um descanso de correr maratonas e pratique tai
chi; ou reduza suas setentas horas de trabalho semanais
e veja a serendipidade que penetra nessa vácuo.

Emprego
Uma das coisas que você não tem de fazer é deixar seu
emprego, mas talvez queira. Como saber?
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Imagine um novo emprego. A consultora profissional
Carole Hyatt, que é muito boa em ajudar as pessoas a
decolar profissionalmente, criou um exercício que acho
especialmente libertador. Ela pede às clientes que
relacionem todas as habilidades que têm, como fizeram
milhares de vezes antes. Então revoluciona tudo lhes
pedindo que risquem as habilidades que detestam. O
quê? Você quer dizer que não tenho de continuar
fazendo algo apenas porque sou boa nisso? Posso
procurar um emprego no qual só use as habilidades que
adoro? Isso é realmente ótimo.

Construa seu próprio porto seguro. Houve um tempo


em que eu ia me arrastando para o trabalho, porque
tudo em casa estava uma bagunça. Várias de minhas
colaboradoras estavam no mesmo barco. Decidimos
formar um clube de Graças a Deus É Segunda-feira para
afirmar o fato de que, pelo menos no escritório,
podíamos obter o reconhecimento de um trabalho bem
feito. Freqüentemente é mais fácil pensar em mudar de
emprego do que em mudar seu casamento, seu estilo de
vida ou a si mesma. Mas talvez seja o emprego que está
funcionando para você, por isso o mantenha – por
enquanto.

Planos
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Nosso primeiro recurso quando enfrentamos um desafio é
pegar um lápis e papel. Secretamente, acreditamos que uma
lista de coisas a fazer afastará o mau-olhado. Mas as próprias
listas podem ser fontes de desânimo e paralisação: Se nada na
lista de Coisas que Eu Sempre Quis Fazer me agrada, devo ser
uma lesma preguiçosa em uma pedra. Errado. Você só não é
mais a mesma pessoa que fez essa lista. Na verdade, o simples
ato de fazer uma lista pode paralisar você. A menos que a
reinvente.

Um plano-mestre: Concentre-se em um projeto que


realmente a empolgue – como, por exemplo, férias
exóticas ou um jardim novo – e trace um plano em sua
agenda para os próximos 12 meses: enviar pedidos de
catálogos na terceira quarta-feira de janeiro, definir
nosso itinerário/layout de flores no mesmo dia em
fevereiro, checar as tarifas aéreas/encomendar as
sementes em março, e assim por diante. Marque com
um V as coisas que forem sendo feitas para não perder o
pique.

Ausência de plano: Para aquelas de nós que tentam


controlar os eventos planejando-os, a inovação é deixar
as coisas acontecerem. Entre essas coisas, um evento
que poderia ter arruinado um plano cuidadosamente
traçado pode ser uma deliciosa surpresa. Quando o
pensamento metódico é bloqueado, o pensamento
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criativo vem à tona. Para lançar as bases dessa
abordagem descontraída, pratique cancelar pelo menos
um compromisso por semana, ver TV ao acaso
(disseram-me que o canal de culinária é a melhor coisa,
depois do LSD, para soltar a imaginação), exercitar-se
sem música, só verificar seus e-mail’s uma hora depois
do que de costume.

Falar Alto
Hoje em dia, uma das descobertas mais deliciosas e
fortalecedoras é o som de uma nova voz – a sua própria.
Estamos apenas começando a nos ouvir. (Eu não me importo
com o que os outros pensam é freqüentemente seguido da
explicação: Importo-me cada vez mais com o que eu penso). É
preciso um pouco de prática para reconhecer o timbre dessa
voz e a narrativa que está tomando forma.

Fale consigo mesma. Mesmo se você nunca manteve


um diário na adolescência, pode ficar viciada em
expressar os insights paranóicos e as queixas comuns
que tem vergonha de admitir para os outros, os
ressentimentos latentes, desapontamentos persistentes
e medos indizíveis que surgem em resposta à
importante pergunta: O que farei com o resto de minha
vida?O diário é um lugar para dizer a verdade nua e
crua – para si mesma. Colocá-la no papel, como salienta
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Julia Cameron em O Caminho do Artista, também nos
livra das coisas que complicam nossos dias.

Preste atenção ao mundo ao redor. Às vezes, um exame


minucioso do balancete da vida resulta em um retorno
inesperado. Manter um diário de gratidão é uma
espécie de contabilidade do copo cheio pela metade.
Todos os dias, você anota as coisas boas que lhe
aconteceram. Recentemente, ganhei uma com a
promessa de que me ajudaria a parar e prestar atenção
aos pequenos e grandes momentos no caminho da vida
que dão alegria. O pequeno e curioso livro de espiral
oferecia exemplos de entradas simples para iniciantes:
Eu o devolvi – e, sem perguntas, peguei meu dinheiro
de volta. Eu ouvi aquela canção e pela primeira vez isso
não me deixou triste. Na verdade, ela disse: Obrigada,
mãe. E após o longo inverno, senti o sol em meu rosto.

Remodelamento
Hábitos. Por que esta palavra sempre é combinada com maus?
Afinal de contas, os hábitos nos fazem chegar ao fim do dia,
mas também podem nos limitar. Como certa vez me disse
uma professora de ioga sobre uma posição que nunca parecia
certa: Os maus hábitos tornam você rígida. E quando a vida
lhe apresenta uma curva, você não consegue fazê-la tão bem.
Ser flexível se aplica a como avaliamos nossos hábitos.
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É assim que eu sou. Encontre uma falha que você
sempre quis corrigir – como rir muito alto, gesticular
ou não fazer a cama – e a reconsidere. Talvez isso esteja
funcionando para você agora. Ou não gastar tempo e
energia tentando corrigi-la, seja o que funciona. Então
pare de se desculpar e incorpore essa idiossincrasia – e
tente descobrir e exercitar algo que goste em si mesma.

Não quero mais ser essa pessoa. Talvez você esteja pronta para
se tornar organizada, aprender a modular a voz, relaxar, ser
mais séria e até mesmo emagrecer. Pode ser divertido se
tornar uma empresária do ramo de wok após uma vida inteira
comprando quentinhas de comida chinesa.

Os outros
Uma das maiores mudanças que vêm com a idade é a menor
prioridade que damos a ficar bem com os outros. Os
psicólogos acham que, em geral, nos tornamos menos
dependentes da segurança de fazer parte de um grupo — um
círculo social, uma organização profissional ou até mesmo
uma família. Por outro lado, há atividades que antes nos
orgulhávamos de realizar sozinhas — me vem à mente viajar
- e agora se tornam mais divertidas ou convenientes quando
temos companhia. Pode ser que você tenha se tornado mais
sociável em alguns aspectos e, em outros, mais reclusa.
Junte-se a um grupo. Talvez você disponha de mais
tempo agora que as crianças estão estudando em tempo
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integral, se divorciou ou parou de pintar os cabelos.
Mesmo se nunca fez parte de um grupo, veja a sensação
que isso produz. Matricule-se em um curso noturno.
Seja voluntária em uma campanha política. Faça aulas
de desenho.

Saia de um grupo. Talvez você tenha aceitado ser


secretária da Library Association ou se matriculado em
um curso de espanhol porque achou que "devia" fazer
isso. Agora percebe que seu tempo é precioso demais e
prefere — dá para acreditar? - ficar só. A poetisa
Marianne Moore escreveu: "A melhor cura para a
solidão é a solitude." Experimente-a.

Eu, eu, eu
Toda essa auto-descoberta exige mais tempo e atenção do que
estamos acostumadas a dedicar a nós mesmas. Isso terá de
mudar. A impaciente curiosidade que tanto nos perturba é
parte de uma necessidade crescente de separar quem estamos
nos tornando de quem temos sido. E um impulso para a
autenticidade. O destino, nas palavras atribuídas a Judy
Garland, é "ser sempre uma versão de primeira classe de si
mesmo, em vez de uma versão de segunda classe de outra
pessoa".

Torne-se "egoísta". Colocar-se em primeiro lugar


simplesmente significa colocar-se lado a lado com todas
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as outras pessoas. Uma mulher chama isso de "sair do
negócio de administração emocional". Reduza sua
sensibilidade a todas as variações de humor, sua
antecipação de todas as necessidades e seu desejo de
resolver todos os problemas das pessoas que ama e passe
algum tempo de qualidade com suas variações de
humor, suas necessidades e seus problemas.

Torne-se generosa. Se você tem feito grandes


malabarismos de trabalho/família, talvez tenha perdido
o contato com sua generosidade mais ampla. Pode estar
pronta para encontrar alegria em promover nos outros
o que está começando a conseguir em sua própria vida
— liberdade, autodescoberta, colaboração. Ser mentora
de um modo formal ou voluntariamente, ou
simplesmente prestar mais atenção aos jovens em sua
vida, são meios de você descobrir o que sabe sobre o
mundo - colocando-se em uma posição de passá-lo
adiante.

Tudo que esses pulos do gato para mudar podem fazer é tirar
seu caracol interior da concha. O resto, "não saber o que vem
depois", como disse Le Guin, é que "torna a vida possível".
Você não pode pressupor tudo sobre si mesma - nem agora
nem no futuro - baseada no que aconteceu antes. O que
importava antes não importa nada agora. O que era viável
pode não ser mais. Em algum ponto, a vida pode intervir e
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mudar tudo. Mas você será capaz de tirar de todas essas
reavaliações e reversões o que precisa para seguir em frente.
Maryl nunca imaginaria que um presente de aniversário
indesejado acabaria acendendo sua luz-piloto, o farol fraco
mas constante que a guiaria de "lá" para "cá". Ela era
consultora administrativa, e seu marido, Bill, executivo do
Peace Corps. Houve momentos em que viveram a meio
mundo de distância um do outro - especialmente quando o
filho, cronicamente doente, era pequeno -, com Maryl
permanecendo nos Estados Unidos, enquanto Bill fazia longas
viagens de pesquisa ao exterior. Agora eles vivem juntos em
uma das repúblicas da antiga União Soviética.

Desde muito jovem, eu adorava arte. Sempre ia a museus e


exposições - tinha paixão por Picasso. Não era uma artista,
mas a arte era algo que absolutamente adorava. Por outro
lado, não me interessava por fotografia. Bill sempre tirava
fotos da família e quando viajávamos. Aquilo era uma coisa
dele e estava bem assim.
Então, em um aniversário - deve ter sido quando fiz
cinquenta anos — Bill me deu um presente, que abri e, para a
minha surpresa, era uma câmera. Eu não podia acreditar,
porque era a última coisa no mundo que desejaria. Agradeci-
lhe, tirei fotos com um rolo de filme e coloquei a câmera de
lado. No meu aniversário do ano seguinte, ele me deu uma
câmera maior e melhor, e fiquei chocada! Agradeci-lhe; usei
outro rolo de filme, olhei para as fotos e nunca mais toquei na
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câmera. E no terceiro ano ele me deu aquela enorme - quero
dizer, achei que era enorme na época — e realmente
espetacular Nikon. Agradeci-lhe, mas não sabia o que fazer
com ela. Agora tinha três câmeras em meu armário e não
pretendia tocar em nenhuma delas.
Bem, agora tenho de avançar vários anos — para quando nos
mudamos de casa. Bill ia muito a trabalho para a África e
voltava com esculturas africanas fantásticas, mas, devido a
como era nossa casa na época, eu as havia posto no sótão.
Quando nos mudamos para a casa nova, pudemos exibir as
esculturas africanas, e, ao fazê-lo, percebi que não conseguia
me lembrar de onde era nenhuma delas. Então disse para Bill:
"Sabe de uma coisa? Meu projeto de inverno será tirar fotos
dessas esculturas, pôr os nomes de onde são e escrever algo
sobre elas. O que você acha?" Ele respondeu: "Uma ótima
ideia."
Então, peguei aquela câmera Nikon, levei-a para a sala vazia
da nova casa e fotografei a primeira escultura africana.
Segurei a câmera para tirar a foto e soube, pelo que pude ver
no visor, que não gostaria do resultado. Subi as escadas e disse
para Bill que achava que deveria ter uma lente macro para
essa câmera. Ele saiu e uma hora depois voltou com a lente.
Eu adorei e passei todo o inverno fotografando aquelas
esculturas africanas. Não adorei fotografar, mas adorei algo
naquilo, como se adorasse falar com você, mas não adorasse
telefone nem quisesse ser telefonista.
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No final daquele inverno, vi no Washington Post uma nota
sobre um Dia do Lírio-de-um-dia no jardim da American
Horticultural Society e pensei: Meu Deus, se posso ver tantos
detalhes nas esculturas africanas com a lente macro, aposto
que se a usar nas flores o resultado será fantástico. Sempre
adorei flores, de modo que aquilo foi muito natural para mim.
Telefonei para a AHS e perguntei se podia ir lá fotografar os
lírios-de-um-dia - nunca tinha ido àquele lugar. A mulher
que me atendeu disse: "Não só ficaríamos felizes em recebê-la
como estamos interessados em suas fotografias." Eu tinha
tirado 36 fotos daquelas esculturas africanas, e a mulher me
dizia que estavam interessados em minhas fotografias. O Dia
do Lírio-de-um-dia chegou e fui àquele jardim, onde havia
muitas variedades de lírios-de-um-dia, mais do que já vira até
então. Quer dizer, vi amarelos e cor de laranja na estrada, mas
aqueles tinham tons — eram tantas variedades! Então tirei as
fotos com muito cuidado.
Mais tarde, telefonei para a mulher, e ela falou: "Ah, eu me
lembro de você, sim; estamos muito ocupados agora, telefone-
me daqui a um mês." Voltei a ligar dali a um mês, e ela disse:
"Telefonarei para você." E então simplesmente me esqueci
daquilo, porque é o que todos nós dizemos quando não
queremos ser incomodados. Pasmem! Em novembro, ela me
telefonou e disse: "Gostaríamos de ver suas fotos do Dia do
Lírio-de-um-dia."
Levei meu projetor de slides e, mal cheguei, a mulher foi logo
dizendo: "Está havendo uma reunião importante e ninguém
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pode vir aqui ver as fotos além de mim. Você se importa se
fizermos isso na cozinha?" Tive de engolir meu orgulho, e
fomos para a cozinha. Apresentei o primeiro slide, depois o
segundo, e ela falou: "Espere um minuto." Saiu e voltou com o
diretor e vários membros do staff. Eles passaram as duas horas
seguintes vendo as fotos. Depois disseram que queriam
publicá-las em sua revista, vendê-las na loja, e blá-blá-blá.
Aquele foi o começo de minha fotografia.
Maryl passou a fazer várias exposições de seu trabalho, usou
novas tecnologias, abordou novos temas: "Quando nos
mudamos para o Egito, decidi explorar o que poderia fazer
com um computador. O resultado foi que consegui criar
imagens únicas, diferentes de todas as feitas no Egito, porque
pude criar carnadas, como as camadas de civilização, cultura e
religião que existem ali. Esse foi um grande passo para mim."
Também houve um veio emocional nessa história. A
princípio, a fotografia foi uma espécie de terapia, uma luz-
piloto na escuridão da tristeza dela. Acabou se tornando uma
habilidade e, sim, uma paixão. "Fiz as fotografias das
esculturas africanas em um inverno, logo depois que nosso
filho morreu", lembra-se Maryl com pesar. "Podia realizar
aquele projeto solitário em nossa casa, totalmente sozinha, e
era disso que precisava. Tirar fotos de flores com a lente
macro também foi um modo muito especial de me engajar em
algo novo, mas solitário, que estava constantemente
procurando. Eu tinha plena consciência do fato de que a
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beleza de minhas fotografias estava em nítido contraste com o
buraco negro que experimentava diariamente."
Toda mudança é um risco. No entanto, a alternativa para esse
tipo de risco não é a segurança, mas a oportunidade perdida.
O desafio de uma condição de incerteza e indefinição é deixar
de lado a mentalidade de planejamento que conhecemos tão
bem e simplesmente pisar no terreno novo com um passo
incerto de cada vez.

A LIÇÃO: Embora saibamos que queremos descobrir o que


faremos com o resto de nossa vida, tememos dar os primeiros
passos para o desconhecido e arriscar desestabilizar nosso
status quo. Nada que não envolva uma sacudidela diminuirá a
frustração e confusão e fará as coisas andarem. A boa notícia é
que qualquer ação - grande ou pequena, proativa ou reativa,
afirmadora ou negadora — fará algo acontecer. Extrapole.
Reduza. Adquira. Descarte. Dê. Receba. Comece com a ação
que lhe parecer mais promissora. Sempre poderá mudar de
ideia e, provavelmente, mudará. Mas, quando mudar, terá
começado a criar pique. Não importa o que mudamos
primeiro, nem mesmo se essa mudança fará qualquer
diferença a longo prazo. Tudo que faz você se mexer a ajuda a
chegar aonde precisa estar.
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LIÇÃO TRÊS
Não, não é uma palavra de quatro letras

Quando defendo a mim mesma e às minhas crenças, chamam-


me de cadela.
Quando defendo aqueles que amo, chamam-me de cadela.
Quando digo o que penso, tenho idéias próprias ou faço as
coisas à minha maneira, chamam-me de cadela.
Ser uma cadela significa não desistir do que está no meu
coração.
Significa viver minha vida do MEU modo.
Significa não deixar ninguém me pisar.
Quando me recuso a tolerar a injustiça e me oponho a ela, sou
definida como uma cadela.
... Sou franca, obstinada e determinada.
... E se isso me torna uma cadela, então eu sou.
Aceito o título e me orgulho dele.
- "Bitchology" (circulou na Internet)
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A daptando as palavras imortais do personagem de histórias


infantis Caco, o Sapo, não é fácil ser uma cadela.
Defender o poder - que é o que significa dizer "não" — é um
ato de suprema coragem para a maioria das mulheres. Muitas
de nós cresceram com medo dessa palavra, tanto a dita por
nós quanto para nós. As boas garotas deviam dizer "sim" —
exceto para o sexo, é claro. As pessoas que dizem "sim" são
apreciadas; cu queria ser apreciada. De igual modo, deduzia
que um "não" de uma pessoa significava que ela não gostava
de mim — não só de meu pedido ou minha opinião, mas de
mim por inteiro.
Devido a esses altos riscos, não admira que retrucar não fosse
um ato insignificante. (Não creio que os homens algum dia
entenderão isso em nós.) Uma rebelião irrefletida podia custar
caro. Sair da linha podia resultar em destruição emocional ou
humilhação; retaliação física era outra possibilidade que podia
ser imediata e até mesmo ameaçar a vida. As consequências
econômicas para uma mulher sem outra fonte de renda - além
do homem a quem respondia — eram uma ameaça sempre
presente. Ainda hoje, as estatísticas mostram que o medo de
receber um "não" impede as mulheres de pedirem aumento
com tanta frequência quanto os homens, reforçando, assim, a
histórica discrepância salarial.
E um truísmo que você não obtém o que quer se não o pedir,
mas estamos aprendendo que dizer "por favor" não é o único
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modo de obtê-lo. Muitas mulheres ficam surpresas ao
descobrir que uma resposta comum a um "não" é um perplexo
"nunca soube que você se sentia assim em relação a isso".
Para Madeline, o catalisador não foi seu próprio "não", mas o
de seu marido - à decisão dela de fazer pós-graduação:

Meu marido me informou de que não apoiaria meus esforços,


querendo dizer que não assinaria meu empréstimo, ou me
apoiaria de nenhum modo.
Eu quase "caí para trás" e pensei, tudo bem, este não é o
momento certo, esperarei até os garotos terminarem a
universidade.
Então aquilo aconteceu. Os "cinquenta do dane-se", embora
eu estivesse com 48 anos. Disse ao meu marido que não
precisava do apoio ou da assinatura dele; faria o que queria
por minha própria conta. ESSE NÃO É O MODO COMO
HAVIA OPERADO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS. Era a mãe que
ficava em casa com o marido cuidando das finanças. Sempre
tinha ficado satisfeita assim, mas não estava mais.
Fiz a matricula e pensei: "Não sei como terei tempo para isso
se trabalhar, e dinheiro se não trabalhar. Meu marido acha
que não é o momento certo, e é provável que briguemos
constantemente."
Fiz a pós-graduação. Ofereceram-me um trabalho de pesquisa
que custeava a mensalidade escolar. Obtive financiamento.
De repente meu marido mudou de ideia, quando viu que eu
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não mudaria. Novamente, eu nunca tinha feito algo tão
grande — ir contra a vontade dele.
Em algum ponto, temos de acreditar em nós mesmas.

Olhando para trás, para uma vida inteira de capitulação, não


admira que nos culpemos; essa é sempre a primeira linha de
recriminação. Sinto que aceitei o "não" como resposta muito
resignadamente e desisti muito fácil e frequentemente. Mas
agora, quando mulheres como eu começam a ter confiança e
ousadia - e independência econômica -, podemos reverter
esse padrão em nossa vida. Podemos, como Madeline,
recorrer à obstinação e irritabilidade que vêm com essa fase
da vida para resistir e nos defender. Uma amiga minha
descreveu orgulhosamente um incidente que a fez sentir que
finalmente — na casa dos setenta — havia feito a coisa certa.
Uma colega e amiga dela havia criticado seu trabalho pública
e perversamente. Algumas semanas depois, escreveu-lhe
sugerindo que almoçassem juntas, como se nada houvesse
acontecido. "Fico feliz em dizer", escreveu minha amiga de
volta, "que estou velha demais e saudável demais para dizer
sim."
Nossa "cadela" interior também nos ajuda a nos
concentrarmos naquilo pelo qual vale a pena lutar. Isso não é
sempre imediatamente claro. Grande parte do trabalho da
Segunda Adolescência envolve reduzir expectativas,
responsabilidades e até mesmo pessoas que não são mais
adequadas para chegarmos a uma compreensão essencial do
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que realmente importa. Tornando-nos "francas, obstinadas e
determinadas", desenvolvemos autoridade para rejeitar
prioridades obsoletas. Então podemos usar esta autoridade
para dizer sim a prioridades novas e significativas.
Tichrahn vê sua casa dos cinquenta como uma sinfonia de
enérgicos e fortalecedores "nãos":

Eu digo NÃO mais do que nunca. Não para meus filhos. Não
para a família que tenta invadir meu "tempo pessoal apenas
para mim". Paguei minhas dívidas para com os homens, me
casei, divorciei e criei dois ótimos filhos sozinha. De vez em
quando namoro, mas, quando os homens tentam me dizer
como, o que ou quando, especialmente em relação aos meus
filhos, ultrapassam a linha do comportamento aceitável.
Expresso meus pontos fortes e, se não voltam para o lado
deles da linha, vou embora.
... Após sete anos em um emprego no qual meu chefe era
verbalmente abusivo e desatencioso, eu disse não, não vou
fazer mais isso, e saí um mês atrás. Ter tempo para mim e
decidir um novo rumo... Descobrimos nossa voz.

Essa voz é um pouco esganiçada — ouvida pela última vez


com plena força na infância e emudecida na puberdade, como
mostrou a psicóloga Carol Gilligan. È a voz dos terríveis dois
anos e da tirânica adolescência. A voz que diz "eu quero" e
"eu não vou", cheia de autoridade. Um grande número de
mulheres precisa de muitas falsas largadas e muita prática
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para literalmente limpar a garganta das outras vozes mais
moduladas que a usurparam desde então; a voz da filha
rebelde, mas aduladora; a voz da mãe firme, mas afetuosa; a
voz da esposa responsável, mas sedutora; a voz da funcionária
competente, mas simpática; e, ao lidar com pais idosos, as
vozes da mãe e da filha revividas e combinadas. Do mesmo
modo que subir e descer escalas aquece a voz de um cantor de
ópera, dizer não cria convicção, ressonância e
frequentemente também intensidade. Imagine se Jackie
Kennedy Onassis, famosa por seu modo de falar murmurante,
tivesse descoberto cedo sua ausência de voz - poderia ter tido
tanto impacto na política quanto teve na moda.
O marido de Mary chama a nova voz dela de "a professora".
Na verdade, Mary é uma ex-administradora escolar que agora
dá aulas em uma universidade e presta consultoria sobre
mediação de conflitos. Porém, "a professora" só surgiu nos
últimos anos, quando ela estava no meio da casa dos
cinquenta. Mary se lembra de um incidente em particular que
a surpreendeu e impressionou:

Três anos antes de eu deixar o sistema escolar, deixei de


ensinar para me tornar diretora. Na escola para a qual fui
havia duas mães difíceis. Elas tinham a fama de perder a
cabeça e não conseguir se controlar quando estavam irritadas.
Uma em particular gritava com todo mundo e depois ia para a
sala dos pais tomar chá.
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Os professores estavam estressados e agiam como se pisassem
em ovos.
Um dia, quando ela estava fazendo isso, simplesmente a olhei
e disse para mim mesma que aquilo não era uma mediação,
não era uma arbitragem. Ela não deveria estar ali.
Lembro-me de que fiquei parada na porta da sala dos pais. Ela
estava lá com a filha - a tinha tirado da sala de aula e não a
deixava fazer as coisas que eu disse que precisava fazer.
Perguntei-lhe: "Sra. D., por que sua filha não está na sala ao
lado?" Ela respondeu: "Ela não vai a lugar nenhum, rá-rá-rá..."
Olhei para ela, e as palavras simplesmente escaparam de
minha boca: "Bem, então quero que a senhora saia deste
prédio imediatamente." Ela saiu. Depois disso, outros pais que
estavam sentados ali compraram biscoitos de chocolate para
mim.
A sra. D. voltou no dia seguinte como se nada tivesse
acontecido. E sua filha fez o que eu queria. Ela a recolocou
onde eu queria.
Senti-me muito bem com isso na época. Às vezes, penso que
patrões olham para uma pessoa que fez o que fiz em algum
momento de sua carreira ou na idade em que estou e pensam:
Talvez ela esteja chegando ao ponto em que deve se
aposentar. Você tem vontade de olhar para eles e dizer que
talvez seja apenas hora de defender um pouco mais o que faz
em vez de apenas se acomodar. O que fiz foi importante para
a escola, os professores e até mesmo para a filha dela.
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Naquele dia, eu me surpreendi. Dez anos atrás, teria
encontrado um modo de fazer algo diferente. Ficaria quieta,
iria embora e tentaria descobrir uma forma de conseguir o
que desejava.

Embora não seja fácil para a maioria de nós encontrar


coragem para levantar a voz pela primeira vez, algumas
mulheres têm mais dificuldade em fazer isso. Abuso físico,
para citar o pior caso, é assustador o suficiente, mas defender-
se é muito mais assustador para uma mulher cuja autoestima
foi corroída por "nãos" vindo constantemente de todos os
lados. Até mesmo uma situação simples, como escolher uma
cor de tinta, pode ser assustadora para quem acatou a opinião
dos outros por muito tempo. Uma decisão natural, como
escolher um prato em um restaurante, pode confundir uma
mulher que - para usar o verbo preferido de Archie Bunker
para silenciar sua mulher, Edith - "calou" seu direito de
escolha.
Até mesmo para as mulheres menos vulneráveis, as reações
aos primeiros "nãos" desafiadores podem ser tão dramáticas
quanto tememos. As pessoas íntimas podem se sentir traídas -
"Essa não é você!" é uma acusação comum. "Deve ser a
menopausa" é uma humilhação frequente. Membros da
família podem ver algo pior: "Você se tornou tão egoísta!"
Outros podem revidar com força intimidadora - nem todos
estão tão acostumados a receber um não como resposta como
algumas de nós. Mas estamos preparadas. Temos mais
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recursos disponíveis do que jamais tivemos. Quando a gerente
do escritório que manteve a máquina funcionando nos
bastidores e acalmou ânimos exaltados e sentimentos feridos
durante décadas diz não para tudo isso, liberta-se. Mesmo se
não obtiver a promoção ou o aumento que merece e for
acusada de deslealdade, se sairá bem. Quando as mulheres que
representam os dois terços das que pedem o divórcio na meia-
idade enfrentam as desigualdades de poder em seus
casamentos, sabem que isso será difícil, mas também que o
conseguirão. E, se não souberem, seus Modelos Horizontais
lhes dirão. As mulheres que saíram de casamentos
insatisfatórios são algumas das mais energizadas com quem
falei.
É difícil criar coragem para dizer não para um relacionamento
destrutivo. Igualmente difícil é superar o choque da
descoberta em um relacionamento que parecia bom. A
incredulidade pode ser tão paralisante quanto o medo. Robin,
que tem 51 anos e um estúdio de design gráfico, casara-se
recentemente com o homem com quem estava envolvida há
25 anos. Tinha se mudado para o apartamento dele, mas
mantivera o seu - o que se revelou providencial. O "inverno
de descontentamento" de Robin começou com um e-mail
enviado por engano para o computador dela, e se prolongou
até finalmente ela dizer o não que lhe salvou a vida:

Eu descobri, por um e-mail em meu laptop, que ele havia


arrumado uma mulher - ou ela o arrumou. Foi uma daquelas
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coisas malucas: era uma garota de 29 anos, de Nebraska, que
em 48 horas lhe mandou um e-mail dizendo que não podia
viver sem ele. Ela é casada, ele é casado, e foi como se a pessoa
que eu conhecia, amava e adorava tivesse se voltado contra
mim e se transformado diante de meus olhos em um total
desconhecido.
Quando eu o confrontei, ele apenas disse: "Você não devia ver
meus e-mails." Em 24 horas, ela lhe enviou fotos, nua. Então
ele disse: "Robin, é apenas uma sala de bate-papo, você sabe
que eu olho essas coisas." Respondi: "O.k." E o que fiz e todos
acham tão estranho foi por um momento acreditar nisso e
pensar: "Ele não pode estar mentindo para mim." Depois:
"Espere um minuto, isso é loucura." Eu disse: "Se é isso que
você vai fazer e é o que está acontecendo, vá em frente e
quebre a cara; eu estou fora." Então chorei e pensei: "Não,
não, não, isso não é nada", e durante uns dois meses me
segurei e pensei que tudo ia passar. Mas só piorou e em
fevereiro — aquilo foi em novembro - eu não sabia o que
fazer e quanto do que ele dizia era verdade e quanto era
mentira. Nunca tinha lidado com nada parecido em minha
vida. Só contei para uma pessoa, minha tia Rita. Eu já vivera
tempo suficiente para saber que você não fala sobre esse tipo
de coisa quando não sabe o que fará, porque todo mundo dará
uma opinião. Sou muito influenciada pelas opiniões das
pessoas e realmente me importo com o que elas pensam. Não
queria ser a mulher que estava deixando aquele homem me
pisar, mentir para mim, e continuava com ele.
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Tinha meu próprio apartamento, mas mantinha contato com
ele e um dia ele apareceu e me lembro de ter-lhe dito: "Se
você estiver mentindo para mim e isso ainda estiver
acontecendo, acho que seria imperdoável." Ele me olhou e
disse: "Não estou mentindo." Então foi embora e pensei:
"Nunca mais quero falar com esse homem." Eu simplesmente
sabia. Entendo quando às vezes dizem em filmes que a pessoa
que você conhecia não existe mais. A pessoa que eu conhecia
não existia mais.

Relacionamentos tóxicos como o de Robin nos adoecem. O


sofrimento profundo e a frustração trazem um estresse
tremendo para o corpo. Níveis altos de Cortisol, o hormônio
do estresse, contribuem muito para a doença cardíaca, que é a
principal causa de morte de mulheres de todas as idades. Um
longo estudo inglês de 10 mil funcionárias públicas descobriu
que as que relataram níveis altos de estresse apresentavam um
risco 68% maior de problemas cardíacos do que suas colegas
menos estressadas. Os cientistas sociais definem uma situação
de emprego não saudável como uma combinação de muitas
exigências, pouco controle sobre o trabalho e apoio
inadequado de superiores e colegas. A mesma medida de
toxicidade - muita pressão, pouco controle e menos apoio - se
aplica à maioria dos relacionamentos. Nesse caso, dizer não
pode salvar sua vida.
Por outro lado, descobrir relacionamentos positivos,
ambientes de trabalho gratificantes e dizer sim para eles pode
literalmente nos manter saudáveis. O Mac Arthur Foundation
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Study of Aging in America descobriu (conforme relatado em
Harvard Women's Health Watch) que "um trabalho
[remunerado ou não] que desafia seu intelecto, exige que você
tome iniciativas, faça escolhas, e lhe dá confiança em sua
capacidade de lidar com várias situações pode manter sua
mente aguçada - tanto quanto os exercícios físicos mantêm
seu corpo em boa forma".
O estresse também pode ser autogerado, como todas nós
aprendemos com anos de correria, multitarefas e excesso de
compromissos. Uma mulher chamada Kate me escreveu
relatando uma versão atualizada do modo apressado que ela
considera "a pior coisa em ter nossa idade". É a "sensação de
que você tem de se apressar. Apressar-se a construir uma
família, cuidar de um marido, ganhar a vida, a solucionar
tudo antes de sua saúde falhar, a ser interessante e divertida
porque você se torna menos visível na estrutura de uma
sociedade mais jovem, a viajar porque o dinheiro não é muito
e você não sabe quanto tempo durará, a ficar bem consigo
mesma e com sua vida, a aprender as novas tecnologias de que
os jovens falam". Nossa capacidade de tornar as coisas difíceis
para nós mesmas e criar expectativas cada vez mais altas é
infinita - um hábito difícil de quebrar.
A raiva reprimida é uma forma ainda mais assustadora de
estresse internalizado. Em muitas situações, dizer "não" libera
um pouco dessa raiva e alivia a pressão. Mas outra das ironias
desse nosso estranho mundo novo é que, embora o desafio
seja assumir o controle de nossa vida, a raiva por trás disso
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pode fazer com que nos sintamos do modo oposto: fora de
controle. A raiva é um tema muito delicado para a maioria
das mulheres. Como explica a dra. Louann Brizendine, em
Como as mulheres pensam, "temos um relacionamento muito
menos direto com a raiva" do que os homens, tanto
psicológica quanto neurologicamente. Pressionar muito
alguém, exigir demais e aumentar o conflito são situações que,
durante a maior parte de nossa vida até agora, fizemos quase
tudo para evitar.
Na verdade, o cérebro feminino é projetado para a evitação de
conflitos. Tem um mecanismo composto de "uma série de
circuitos que sequestram a emoção e a ruminam, do mesmo
modo como uma vaca tem um estômago extra para ruminar o
alimento antes de ser digerido", explica a dra. Brizendine. A
menos que uma mulher seja levada além de seu limite —
então não haverá como conter sua resposta. Mas, na maioria
das vezes, uma mulher "evitará a raiva ou o confronto assim
como um homem evitará uma emoção", conclui ela
ironicamente.
Até agora. Um pouco de nossa recém-descoberta ferocidade
de fato se deve ao nosso novo perfil hormonal. Quando os
níveis de estrogênio caem, cai o nível de oxitocina, um
hormônio que evita conflitos. Ao mesmo tempo, a agressiva
testosterona se torna mais influente. Essa recalibração resulta
em um sistema de resposta mais equilibrado, mas também
deflagra uma nova realidade no cérebro feminino: uma visão
"implacável", como diz a dra. Brizendine. Ela descreve como
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essa transformação se manifestou em uma paciente chamada
Sylvia. Quando ela "chegou à menopausa, os filtros
desapareceram, sua irritabilidade aumentou e sua raiva não
foi mais dirigida àquele 'estômago' extra, para ser ruminada
antes de sair. Sua relação de testosterona com estrogênio
estava mudando, e seus caminhos da raiva se tornavam mais
parecidos com os de um homem. Os efeitos calmantes da
progesterona e da oxitocina também não estavam ali para
aplacar a raiva". "Esse novo coquetel cerebral", conclui ela
otimisticamente, "é um poderoso estímulo para o caminho
adiante."
Combinada com a energia liberada pelo controle de nossa
própria vida e o compromisso com o que é realmente
importante, nossa raiva é tão poderosa como temíamos que
fosse - mas também tão fortalecedora quanto precisamos que
seja. "A raiva da meia-idade é feroz", escreve Erica Jong em
Medo dos cinquenta.4 "Na casa dos vinte, com o sucesso e a
maternidade ainda à nossa frente, podíamos imaginar que
algo nos salvaria da segunda classe - realização, casamento ou
maternidade. Agora sabemos que nada pode nos salvar. Nós
temos de nos salvar." Como ocorre com muitas das mudanças
que estamos sofrendo e precipitando, quando o processo está
em andamento não é absolutamente claro onde as fichas vão
cair, mas estamos prontas.
Algumas dessas fichas são maravilhosas. Quanto mais falamos
francamente, mais isso pode ser divertido. Quando fui um
pouco mais fundo em meus "Cinquenta do Dane-se", me vi
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procurando oportunidades de abordar com pessoas de quem
discordo questões que me interessam muito - apenas para
provar para mim mesma que posso fazer isso. Provar que não
sou mais "boa". E, devo admitir, chocar as pessoas.
A própria expressão tem o valor de chocar - faz o que
descreve. Quando a uso, as mulheres ficam exultantes. Como
disse Peggy Northop, na época editora da revista More,
quando lhe falei que haviam sugerido que eu mudasse a
expressão para "os cinquenta irritáveis": "Nada exprime tão
bem o suspense e medo do que pode acontecer quando
vivemos de nosso próprio modo sem nos desculparmos - o
resultado lógico disso. Seremos demitidas ou pediremos
demissão? Nós nos tornaremos mulheres hostis e de língua
afiada, inadequadas para a política da empresa? Nossos
casamentos sobreviverão? 'Irritável' é muito suave para
descrever essa sensação!"
A sugestão dos "cinquenta irritáveis" confirma que ainda há
questões de comportamento "adequado" para as mulheres.
Especialmente para as adultas. Na cultura em geral, à medida
que nos tornamos mais "maduras", "adequado" parece ser
quase "invisível".
Em nossa batalha atual com papéis e regras, um dos
obstáculos menos enfatizados é a amarga mensagem de que
nosso último papel é a invisibilidade. Uma grande pesquisa da
American Association of Retired Persons (AARP), entre
mulheres acima de 45 anos, pediu-lhes que respondessem à
pergunta: "O que você experimentou pessoalmente devido à
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sua idade?" Elas apresentaram três áreas de tratamento
negativo:

Profissional (não contratação, ausência de promoção,


demissão)
De consumidor (ignoradas ou menosprezadas)
Social (excluídas ou desrespeitadas)

Apesar da reconhecida difusão da discriminação no local de


trabalho, o dobro das mulheres na pesquisa disse
experimentar invisibilidade social e como consumidoras.
Todas nós conhecemos o vendedor que aponta para o outro
lado da loja em vez de acompanhar você até a mercadoria, e o
maître que automaticamente senta as mulheres mais velhas
nos cantos mais distantes - e escuros — do restaurante. Acho
especialmente difícil aceitar que alguém mais jovem com
quem tento conversar procure a primeira oportunidade de ir
embora.
Quando nossa vida é mais notável, interessante e livre,
tendemos menos a ser invisíveis. A indústria do consumo está
despertando para nosso poder de compra e, ao mesmo tempo,
nossa voz se eleva contra o marketing insultante ou
irrelevante para nossa vida. A mídia está começando a dar
destaque a algumas mulheres mais velhas que, à força de
talento e beleza, assim como de poder, recusam-se a sair de
cena. Mulheres bem-sucedidas em todas as profissões estão
sendo reconhecidas, mesmo quando acumulam anos lado a
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lado com os homens. Mas cabe a nós, como a geração
pioneira, continuar a não aceitar ser preteridas sem
cerimônia.
A Red Hat Society, fundada em 1998, tornou-se uma rede
mundial de mulheres de mais de cinquenta anos que dizem
não para tudo isso com palavras e atos. Seus quase um milhão
de membros se orgulham de chocar; elas usam vistosos
chapéus vermelhos e saem em grupo em excursões e para
almoçar. "Gostamos de frequentar lugares públicos uma vez
por mês e deixar todos saberem que podemos nos vestir como
queremos e não ligamos para o que os outros pensam", diz a
fundadora, Sue Eilen Cooper, também conhecida como a
Rainha-Mãe Exaltada.
"Sempre fazemos cabeças se virarem em nossa direção", diz
uma alegre membro do grupo. "E óbvio que saímos para nos
divertir." A organização também tem uma missão louvável:
"Obter maior visibilidade para as mulheres em nossa faixa
etária e mudar o modo como somos vistas pela cultura atual."
Os membros da Red Hat também se referem a si mesmas
como "as senhoras quentes e picantes", em um esforço para
renomear a experiência de vida que celebram. Voltando aos
anos 1970, quando o que fazíamos era chamado de Women's
Lib, ficou claro que, para participarmos da discussão sobre o
que podíamos fazer, era essencial ganharmos controle sobre o
vocabulário aplicado a nós. Dizer não para o honroso srta. ou
sra., que definia uma mulher por seu estado civil, era um ato
de rebeldia. A princípio, o uso de Ms. foi ridicularizado como
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um título para uma "mulher metade homem". O termo
finalmente foi incorporado à linguagem como uma forma
aceita de se dirigir a qualquer mulher adulta. Essa simples,
mas poderosa mudança nos devolveu nossa privacidade e
aumentou nossa independência. Quando superarmos as
descrições relacionadas com a idade — velha, mais velha, a
mais velha -, precisaremos de uma definição comparável para
nossa coorte. Certamente poderemos encontrar uma melhor
do que geração nascida no pós-guerra, senhoras quentes e
picantes ou, na pior das hipóteses, coroa. Pessoalmente,
detesto idosa e anciã. A Transition Network organizou um
concurso para dar nome à nossa geração. O vencedor foi
REgeneration. Essa busca pelas palavras certas não tem a ver
com semântica, mas com auto-definição.
Quando construímos uma nova fase da vida com palavras -
ainda que indelicadas - e atos - ainda que "inadequados" -,
mudamos a conversa das mulheres. Quando uma mulher
anuncia sua assombrosa descoberta — "não ligo mais para o
que os outros pensam" —, o que realmente quer dizer —
como afirma a poetisa Robin Morgan — é: "Eu realmente me
importo com o que as pessoas pensam, mas me importo mais
com o que eu penso." Sempre que uma de nós exerce seu
direito de dizer não, cria o know-how e autoconhecimento
para dizer sim com convicção.
Para mim, a natureza protetora do não está se tornando mais
ampla com a prática. Meus "Cinquenta do Dane-se" estão
dando lugar a meus "Sessenta do Eu Disse". Não havia
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registrado essa mudança até a manhã que passei cancelando e
remarcando compromissos. Subitamente ocorreu-me que, ao
inventar o resto de minha vida, tinha parado de me sentir
compelida a aparecer onde era esperada, simplesmente
porque era esperada; estava aprendendo a me perguntar:
"Você quer e precisa fazer isso - sim ou não?"
Durante anos, alimentei a fantasia de poder cancelar um
almoço por mês. Quando alguém não podia comparecer a um
encontro, ficava grata; não me ocorria que eu podia me dar o
presente do tempo necessário para dedicar a outras
prioridades. Sempre compareci. Lembro-me de que certa vez
viajei uma hora para passar alguns minutos falando para
estudantes de jornalismo quando estava quase delirando de
febre. Em outra ocasião, fui fazer um exame no dia em que
havia recebido uma notícia realmente traumática - embora
conhecesse muitas mulheres que regularmente faltavam a
exames com a desculpa de que estavam com cólica! (A
propósito, fui reprovada.) Inúmeras vezes por semana me
prejudiquei (deixei de ir ao toalete feminino, adiei a
renovação da maquiagem, não parei para tomar fôlego) para
chegar — a tempo.
Basta! Agora aprecio a facilidade com que compromissos
podem ser desmarcados e pedidos negados sem que o planeta
saia de órbita. Isso não quer dizer que sou descuidada com
meus compromissos. Todas as pessoas com quem me importo
podem contar comigo - ainda mais agora que estou ficando
boa em priorizar meu tempo. Gosto dos momentos em que
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me ouço dizendo para mim mesma: "Não, acho que não posso
fazer isso." Fico especialmente satisfeita quando o verdadeiro
motivo é que não estou com vontade. Quem disse? Eu disse!
As decisões sobre comparecer assumiram um novo significado
para mim. Cada uma delas é um modo de dizer sim a estar
presente na minha própria vida e dizer não a corresponder à
expectativa dos outros. Percebo a mesma sensação de ar fresco
em um comentário de Mary Louise: "Quinze anos atrás (isso é
possível?), conheci e comecei a namorar um homem", escreve
ela, "e estamos namorando desde então!!! Não casamos,
estamos só namorando... 'Uma vez já foi suficiente', nós dois
dizemos, e tão certamente quanto os peixes nadam na água, se
nos casássemos, o casamento duraria uns três meses, se
tanto!!! Isso é algo que tem a ver com ter e controlar seu
próprio espaço e sua própria vida sem precisar dar satisfação a
ninguém."

Quando estava perto de completar cinquenta anos, Anne


entrou no que se revelou ser uma importante curva de
aprendizado de sim/não. Na época, estava em um feliz
terceiro casamento, divertindo-se com os enteados e muito
envolvida com a carreira na política progressista. "De 1968 a
1994", relembra, "foi como se eu sempre estivesse me
forçando... não conseguia descansar até descobrir como ajudar
a mudar a sociedade para pôr fim a todas as injustiças."
O problema era que independentemente do quanto suas
circunstâncias pareciam felizes ou ela parecia eficaz - e era -,
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não se sentia com o poder de dar as ordens em sua própria
vida. "Era como se estivesse esgotada", diz ela sobre esse
momento decisivo dez anos atrás. "Eu pensava: 'O.k., aprendi
o suficiente; coloquei-me em muitas situações, mas,
pessoalmente, minha vida se tornou muito limitada.'" Pouco a
pouco, Anne começou a fazer um balanço; deixou seu
trabalho político remunerado e dedicou-se a uma organização
ativista sem fins lucrativos. Mas isso não pareceu fazer
nenhuma diferença; ela ainda estava "se forçando" a cumprir
suas responsabilidades.
A crise chegou quando a doença crônica do sangue de seu
irmão piorou na mesma semana em que Anne planejava um
importante encontro de diretores. Quando recebeu a notícia,
ficou dividida entre estar presente no encontro e estar
presente para a família. Com o incentivo do marido, disse não
para o encontro e sim para o coração. Seu irmão morreu três
dias depois. Fazer essa escolha, que poderia parecer óbvia para
outra pessoa, foi um importante catalisador para Anne. "Há
uma fala em A morte do caixeiro-viajante", diz ela, "em que a
mulher de Willie Loman diz: 'Deve-se prestar atenção, deve-
se prestar atenção. Ficou claro para mim que há momentos na
vida em que você deve prestar atenção. Eu estava em outra
dimensão."
Ao chorar a morte do irmão, Anne contemplou sua própria
vida; percebeu que, apesar de todos os ajustes feitos nos
últimos anos, ela não havia realmente mudado suas
prioridades. Finalmente estava pronta para dizer alguns "sins"
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e "nãos" importantes. O elemento mais precioso em sua vida,
concluiu, era "esse homem adorável, brilhante, divertido e
esperto, em cuja companhia sinto-me ótima", os filhos dele e
os netos. "Esse casamento só fez melhorar, e não sei quando
vou morrer; não sei como ou quando ele vai morrer", reflete
Anne. "Mas, quando acumulo responsabilidades ou me fixo
em algo, fico muito preocupada e ausente para ele." Ela se fez
duas perguntas: "Por que não tiro proveito desse homem que
me ama e não quer nada além de mim?" e "O que estou
fazendo com esses diretores malucos que só se concentram
nessas coisas que consideram tão importantes?". Como diz
Anne, as respostas só se tornaram claras depois: "Eu me
permiti me pôr em primeiro lugar."
O primeiro movimento de sim/não foi se concentrar em seu
casamento e se afastar das exigências de seu trabalho,
deixando o quadro de diretores estressante e reduzindo as
horas que passava ao telefone em casa, fazendo
acompanhamentos relacionados com o trabalho. Ela se sentiu
bem com este sim para sua vida pessoal, mas, quanto mais
diminuía os excessos de sua vida profissional, mais claro
ficava que o componente do ativismo social não era
dispensável. Aquele foi outro sim definitivo! Juntamente com
seus relacionamentos importantes, aquela paixão era
autêntica. Com essa clareza, Anne começou a encontrar
modos de sincronizar suas prioridades. Ainda tenho minha
lista 'de coisas a fazer', mas tenho a sensação de que estou
livre, de que a coloquei lá e, se as pessoas a apreciarem, se der
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certo, e o resultado for o que espero, ótimo; mas não estou
mais tão preocupada com isso; não estou me esforçando tanto,
é apenas como se o que tiver de ser será..." O que mudou? "Eu
aprendi que preciso me renovar, me libertar."
Pude sentir o alívio na voz de Anne quando resumiu seu novo
ponto de vista, e imaginei um capítulo de mais comedimento
à sua frente. Este não foi de modo algum o modo como Anne
viu isso. Ela me contou que estava se juntando a outro quadro
de diretores, com alcance internacional, com um horário mais
exigente e uma missão mais intensa do que a de que se livrara
pouco tempo atrás. Tive dificuldade em ver a diferença entre
seu eu "pré-não" e seu eu "pós-não". Por que Anne estava se
recolocando no mesmo tipo de situação estressante que
prejudicara sua vida interior? Porque, explicou-me, havia
uma diferença em sua atitude. "Vou administrar meu uso de
mim mesma", disse. "Certificar-me de que perguntarei: Como
posso me divertir com isso? Do que posso participar e ainda
estar presente para meu marido e minhas próprias
necessidades? Terei de agir de um modo diferente. Esse é o
desafio."
Finalmente entendi que, embora os elementos objetivos na
vida de Anne não tivessem mudado tanto quanto os de muitas
mulheres que começam a dizer não, o modo como ela
percebia esses elementos e lidava com eles era tão radical
quanto ir dos trópicos para o pólo Norte. "O que aborrece as
pessoas não é o que acontece", escreveu o filósofo grego
Epicteto, "mas o que elas acham que isso significa." Anne não
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estava mais aborrecida com as pressões de seu trabalho,
porque havia rejeitado as exigências externas e autoimpostas.
Suas conexões emocionais estavam se desenvolvendo, porque
havia aceitado e festejado o fato de que era ali que estava seu
compromisso mais profundo. Suas prioridades estavam em
ordem.
As mulheres na Segunda Adolescência estão aprendendo os
usos de um bem colocado "não". Esse é outro dos recursos que
vêm à tona quando navegamos em águas novas. Para nós,
dizer "não" não tem a ver apenas com dar um basta para o
mundo; tem a ver com assertividade, afirmação e auto-
definição. Para Anne, o não havia se tornado sim como um
resultado de sua recalibração interna única e autêntica. Não
importa como isso parece visto de fora. Na verdade, essa é a
questão.
Criar uma vida própria, um não e um sim de cada vez, é o que
queremos dizer com o objetivo que ouço ser repetidamente
articulado: autenticidade. Queremos encontrar e seguir nosso
verdadeiro caminho. Queremos ser honestas e diretas com
nossos amigos. Queremos fazer nosso melhor trabalho no
mundo. Todos estes objetivos exigem a coragem das
convicções de cada mulher: o que ela rejeita e o que afirma.

A LIÇÃO: Dizer não é o passe para sua nova vida. Não é fácil
como pode parecer, mas, com cada afirmação de
independência, cada rejeição de exigências indesejadas e cada
ato de enfrentamento de insulto ou autoridade, você se
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fortalece. E começa a se divertir mais. Em alguns momentos,
pode ser dominada pela raiva ao perceber por quanto tempo
suportou coisas para as quais queria dizer não. Pode não
conseguir descobrir imediatamente o que quer fazer a seguir.
Mas, quando sua voz estiver forte o bastante, saberá que
quando diz sim realmente quer dizê-lo.

LIÇÃO QUATRO
Um "círculo de confiança " é imperativo

O tempo passa.
A vida acontece.
A distância separa.
As crianças crescem.
Os empregos vêm e vão.
O amor tem altos e baixos.
Os homens não fazem o que devem fazer.
Corações são partidos.
Pais morrem.
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Colegas esquecem favores.
Carreiras terminam.
MAS...
As irmãs estão ali, não importa o tempo ou a distância entre
vocês. Uma amiga nunca está mais distante do que o alcance
de uma necessidade.
- Circulou na Internet

D etesto as poesias piegas dos cartões da Hallmark. Quando


chegam ao meu e-mail, geralmente os deleto sem abrir.
O mesmo faz a maioria das minhas amigas – as mesmas que os
enviam para mim há anos, sempre com os dizeres: "Vale a
pena ler." Elas simplesmente não conseguem evitar. Quando
se trata de amigas íntimas, as mais duras de nós se tornam
sentimentais. Até mesmo minha filha, universitária, que
nunca repassa mensagens de inspiração, repassou a versão que
circulava entre suas colegas do grêmio estudantil. Cada
mulher que a repassou fez isso porque sentiu que, ao
contrário de outros temas de escrita floreada, a amizade entre
as mulheres é digna disso, e a mensagem no e-mail das
"irmãs" do Modelo Horizontal desconhecido é muito
importante:

Eu estava visitando minha mãe, sentada, tomando chá gelado,


quando ela disse: "Nunca se esqueça de suas amigas, porque
não importa quanto ame seu marido, ainda vai precisar delas.
Lembre-se de ir a lugares com elas de vez em quando, mesmo
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se você não quiser. E lembre-se de que as amigas incluem
irmãs, mães, filhas e avós, não apenas amigas - mulheres se
apoiando e relacionando é nossa dádiva e nossa
responsabilidade umas para com as outras."
Que estranho conselho, pensei (na época). Estava recém-
casada e não era uma garota que precisava das suas amigas.
Contudo, prestei atenção, permaneci em contato com minhas
amigas e encontrei novas ao longo do caminho. E, com o
passar dos anos, finalmente entendi que minha mãe
realmente sabia do que estava falando!

É raro uma filha admitir que a mãe tem razão, mas essa é
claramente uma Lição de Vida tão fundamental que é passada
de uma geração para outra com real convicção e urgência.
Minha filha ter pensado em repassar a afirmação da amizade
das mulheres é seu modo de me dizer que acredita nisso tanto
quanto sabe que acredito. Ela ficaria surpresa em descobrir
que nem sempre me senti assim.
O que minha filha tem como certo em relação à amizade, tive
de aprender mais tarde na vida. Ela nunca trataria um
compromisso social com uma amiga como um tapa-buraco até
surgir um programa melhor (preferivelmente com um
homem), como era o procedimento-padrão em minha época.
Frequentemente minha filha prefere a companhia das amigas
a outros programas. Elas têm desentendimentos e
desapontamentos que momentaneamente são o fim do
mundo, mas as melhores amigas não são rivais secretas
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indignas de confiança. Cresci temendo que fossem. Até
mesmo nossas brincadeiras no playground - pular corda,
amarelinha, pipie nos colocavam umas contra as outras, em
vez de exigir um trabalho de equipe. E o baixo risco dessas
brincadeiras reforçava uma atitude cultural em relação às
garotas competitivas: que sua falta de modéstia feminina
afastaria outras garotas, e seu interesse por atividades
masculinas afastaria os garotos. Nesse clima, qualquer desejo
de vencer era mantido em segredo. Passamos a ser
manipuladoras e usar truques, que incluíam trair umas às
outras para conseguir o que queríamos por meios mais
tortuosos do que simplesmente buscando-o. Tivemos de
desaprender tudo isso.
Minha geração passou a confiar nas amigas, quando estávamos
na casa dos vinte e trinta, e assumimos o risco de articular
experiências humilhantes, excludentes e intimidadoras.
Ficamos zangadas e depois começamos a agir e nos alegrar
com nossos triunfos na luta pela igualdade - no local de
trabalho, na política e no lar — juntas. Como jovens mães,
aprendemos a contar com o conselho daquelas que
exploravam a natureza da maternidade lado a lado conosco. E
agora que estamos envelhecendo, contamos mais do que
nunca com nossas amigas para atravessar essa confusa e
desafiadora fase da vida conosco, como um time.
Reconhecer a importância de nossas amizades é parte de uma
recalibração de O que É Importante para nós agora. Myrna,
uma das mulheres menos sentimentais e mais confiantes que
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conheço, recentemente admitiu que se sentiu perdida depois
da morte de uma amiga querida. "Nós deveríamos envelhecer
juntas", lamentou. Na verdade, envelhecer com amigas nos
fornece um contexto para nosso próprio envelhecimento. Ao
menos, além de parceiras de vida, nossas amigas íntimas são as
pessoas perto de quem queremos ficar "para o que der e vier,
na riqueza e na pobreza, na doença e na saúde". Talvez seja
por isso que, quando mulheres de minha idade falam sobre
um precioso "círculo de confiança", o fazem com admiração e
reverência. Talvez mandemos poesias sentimentais umas para
as outras para expressar esses sentimentos.
Ethel chegou a uma encruzilhada com suas amigas quando
estava no final da casa dos quarenta. Ela havia sido uma
acadêmica muito bem-sucedida, processara um colega
professor por assédio sexual e (coincidentemente?) perdera
seu posto. Tornou-se uma ativista política e começou seu
próprio negócio de consultoria. Viajar passou a ser um estilo
de vida para ela e, embora pudesse dizer o nome de muitas
amigas íntimas, não conseguia vê-las com a frequência de que
precisava. Isso começou a incomodá-la, especialmente quando
decidiu parar de procurar o homem certo e "seguir em
frente". Ethel se voltou "para dentro para descobrir o que era
importante para mim. Tive essa carreira bem-sucedida e
depois esse negócio, mas o que realmente queria fazer?
Queria restabelecer uma comunidade".
As amigas para as quais Ethel queria voltar não estavam
esperando por ela. "A comunidade que havia criado estava se
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modificando; minhas amigas, que foram solteiras por muito
tempo, começaram a se casar, e quem casa fica com o marido
por um tempo e depois reaparece. Algumas amigas tinham se
mudado. Então", admite, "me vi cada vez mais sozinha, o que
antes nunca tinha sido um problema para mim."
Ethel percebeu que tinha um trabalho de reconstrução a
fazer. "Quando eu era mais jovem, estava muito envolvida
comigo mesma; viajava bastante e presumia que todos
entenderiam minha ausência, e depois voltaria. Mas", ela
acabou descobrindo, "as pessoas simplesmente dizem: o
tempo passou, temos uma vida inteira aqui e claro que você
pode aparecer. Mas isso não é o mesmo que participar da vida
das pessoas. Portanto, parte disso foi realmente voltar para as
boas amigas e ter de lidar com a mágoa delas por eu ter
partido."
Uma consequência inesperada de renovar esses
relacionamentos foi se envolver com os filhos que entraram
em cena enquanto ela estava ausente. "As crianças exigem sua
presença", aprendeu Ethel. "Realmente não se importam com
o quanto você acha que foi ou é importante ou o que você fez
ontem, só se importam com: o que você está fazendo comigo
hoje? E estar presente não foi um dos meus pontos fortes. [...]
Adoro essas crianças; você brinca com elas e subitamente vê o
mundo de um novo modo. Elas realmente mudaram minha
vida." Mas, acrescenta, "eu tinha uma regra de três horas; era
a melhor companhia para brincar por três horas, e ponto
final".
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Ao trabalhar em suas antigas amizades, Ethel se conscientizou
de outros modos pelos quais as amigas eram importantes para
sua visão do resto de sua vida. "Eu precisava de algumas
amigas novas apenas para sentir que minha vida era nova.
Sabe como é, conhecer pessoas novas é um modo de se sentir
jovem; há um novo aprendizado e entusiasmo, e eu precisava
estar em um mundo um pouco diferente. Então fiz novas
amizades, e minhas novas amigas não eram tão bem-sucedidas
profissionalmente — suas vidas tinham mais a ver com suas
comunidades e amizades, e ir a jogos de basquete, jogos de
basquete feminino e piqueniques, e isso ajudou a equilibrar
um pouco minha vida."
A maioria das minhas amigas é do colégio (uma, que
reencontrei após trinta anos, foi minha melhor amiga na
terceira série), do trabalho (as quatro com quem janto todos
os meses desde 1989) ou mães (a querida e experiente mãe de
três que me garantiu que sim, eu podia esfregar um pouco de
uísque em gengivas sensíveis). Mas, quando mudamos nossa
vida, nossas necessidades mudam, e as amigas que podem ter
sido versadas em uma experiência não são tanto em outras.
Como elas também estão mudando suas vidas, nossos
interesses podem divergir.
Uma amiga, por sinal relativamente nova, admite que mudou
conscientemente todas as suas amizades importantes nos
últimos dez anos. Ela cultiva a amizade de mulheres cujo
trabalho admira e que parecem estar muito empenhadas em
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fazer as coisas acontecerem; elas a mantêm pronta para a
ação, que é como quer ficar pelo resto da vida.
Contudo, estou me tornando cada vez mais consciente de que
muitas mulheres não têm acesso suficiente umas às outras.
Em primeiro lugar, as oportunidades de fazer novas amizades
estão mais difíceis de surgir. Uma mulher que conheço, que
trabalha em casa, em uma nova comunidade viu uma outra
mulher em uma aula de ioga que parecia interessante. "Eu não
sabia como me aproximar dela", disse. "Era como convidar
alguém para um primeiro encontro." Uma série de incidentes
concentrou minha atenção na ânsia de muitas mulheres de se
relacionar com outras que estão no mesmo barco.
Em uma manhã de primavera, não muito tempo atrás, as
terapeutas Karen Van Alien, Ruth Neubauer e eu conduzimos
um workshop sobre a transição para a Segunda Adolescência.
Nós nos conhecemos em um centro comunitário nos
arredores de Washington, D.C., e rimos muito de nossa
aflição em comum, felizes com a descoberta de que nenhuma
de nós era a única — ou estava maluca-, apoiando-nos nas
difíceis decisões descritas para o grupo. Eu havia esperado que
esse tipo de ligação espontânea surgisse naquele ambiente,
mas o que não esperara foi mais preocupante. Fiquei surpresa
com o quanto daquilo com que essas mulheres estavam
lidando tinha a ver com como se sentiam isoladas, vivendo
em enclaves espalhados ao redor de uma cidade poderosa, e
como se sentiam rejeitadas no local de trabalho, onde todos
eram mais jovens e ambiciosos do que elas.
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O primeiro resultado concreto desse workshop foi o
compromisso que o grupo assumiu de participar regularmente
de um jantar do tipo em que cada pessoa leva um prato. "Foi
surpreendente para todas nós", escreveu-me Jeanne depois de
sua primeira reunião, "como retomamos facilmente nossa
conversa de 45 dias antes, quando todas nós nos sentamos
juntas naquele domingo. A conversa foi agradável e,
novamente para mim, tranquilizadora e fortalecedora. Depois
várias de nós mencionaram o fato de que tinham dúvidas
sobre se a conexão ainda existiria, mas definitivamente
existiu. E a comida estava deliciosa", acrescentou. Enquanto
elas seguem em frente, planejam ler livros e sair juntas, e
esperam, pouco a pouco, fortalecer umas às outras.
Outro evento que chamou minha atenção foi a resposta à
esplêndida campanha "pró-envelhecimento" da Dove, lançada
no início de 2007. Todas nós adoramos as imagens de
mulheres exuberantes, orgulhosas e totalmente belas,
fotografadas em sua gloriosa nudez desafiada pela gravidade.
Tenho certeza de que, como eu, muitas mulheres se
apressaram a comprar os produtos da Dove para apoiar a
empresa que nos apoiava. E muitas se apressaram a ir ao
website da Dove registrar sua alegria e gratidão. Uma vez lá,
essas mulheres não tinham vontade de ir embora - postavam
longas, apaixonadas e confessionais entradas sobre como se
sentiam em relação a seus corpos e a ser mulher em uma
cultura discriminatória contra pessoas idosas. Elas escreviam
como amigas. E escreviam como mulheres que não tinham
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amigas suficientes na vida real com quem partilhar a vida.
Duvido que o pessoal da Dove tivesse previsto que criaria uma
comunidade tão dinâmica e significativa.
O terceiro evento que expandiu minha consciência do
problema foi uma visita a uma prima que não vejo com muita
frequência. Tinha coisas muito bonitas a dizer sobre minha
escrita, mas discordava de minha entusiástica celebração de
um "círculo de confiança" na vida das mulheres. Disse-me que
sua experiência tinha sido diferente. Nunca havia confiado
nas mulheres e ainda não confia. "Na verdade, confio mais
nos homens", disse. Isso apesar do fato de seu primeiro
marido a ter traído durante muito tempo. A lição que
aprendeu com esse e outros desapontamentos na vida foi que
não se pode confiar em que as mulheres não tentarão roubar
seu homem e desejam seu bem. Ainda assim, minha prima
anseia por um círculo em que possa se sentir de um modo
diferente, mas seus esforços para encontrar um ainda não
deram resultado. Quando ela foi a uma reunião de um grupo
que tricota para um bazar de caridade, ficou desanimada com
o tom da conversa e não se surpreendeu ao descobrir que o
apelido do grupo era "stick and bitch". Minha prima ainda
está procurando um círculo mais acolhedor e generoso.
Outras mulheres com quem falei desde então tiveram
experiências parecidas. "Noto que minha tolerância para com
coisas sem valor ou fofocas praticamente acabou. Não ligo
para qual atriz está fazendo o que com quem...", disse-me uma
delas. "A medida que vou ficando mais velha", explica, "dou
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menos importância ao que as pessoas andam fazendo, a não
ser que me afete pessoalmente. Não me importa quanto
minhas colegas ganham ou os carros que dirigem. Passei a
pensar mais no quadro geral. Envolvi-me mais com certas
questões políticas. Fiz alguns cursos e li livros relacionados
com o budismo, e essa filosofia realmente parece fazer sentido
para mim." Mas ela ainda não encontrou um círculo de
amizades compatíveis.
Todas essas mulheres apreciariam o esquema que Gloria
Steinem imagina: uma rede de "reuniões sem liderança" ao
estilo do AA em todas as cidades, onde uma recém-chegada
ou alguém em busca de mais empatia na vida pudesse apenas
aparecer. O horário e os locais seriam publicados nos jornais
da região, e o sigilo das conversas seria inviolável.
Literalmente, um "círculo de confiança". Você poderia passar
por lá para uma dose de conversas femininas ou se tornar uma
frequentadora habitual. As reuniões dos Vigilantes do Peso
provavelmente são o mais perto disso a que chegamos até
agora.
Conversas sobre amizades insatisfatórias me fizeram reconsi-
derar minhas suposições. Andava escrevendo de uma
perspectiva que presumia que nossa geração havia superado
essa cautela em relação às outras mulheres. Além disso,
presumira que as leitoras entenderiam que nem toda mulher é
uma possível "irmã". Dei-me conta de que também tinha tido
algumas experiências desapontadoras. A "nova amiga" que
convidei para a festa de meu 65º. aniversário não apareceu
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nem deu notícias. E a dor de uma amizade rompida vinte anos
atrás ainda está presente. Minha amiga e seu marido
provavelmente foram nossos amigos mais íntimos. Passamos
fins de semana juntos, apesar de eles terem filhos e nós ainda
não. Minha amiga me ajudou a arranjar um emprego que
adorei, onde ela trabalhava. No final de tudo, fiquei em uma
posição em que tinha certa influência no salário dela e na
quantidade de reconhecimento que seu trabalho obtinha.
Porém, após alguns anos, devido a uma série de mal-
entendidos e algumas informações incompletas, minha amiga
passou a acreditar que eu não estava me preocupando com
ela. Uma discussão de proporções gigantescas nos deixou
marcadas e afastadas. Uma pena.
Então como encontrar oportunidades de se relacionar e fazer
boas escolhas de novas amizades? Estudos mostraram, por
exemplo, que um dos principais motivos de as mulheres
voltarem a estudar, além de o de desejarem expandir seus
horizontes ou se atualizarem, é conhecer outras mulheres.
Clubes de livros também são locais de reunião; com a escolha
de livros sobre experiências femininas, muitos parecem
funcionar como grupos modernos de conscientização.
Procurar velhas amigas que se perderam no tempo trouxe
recompensas surpreendentes para algumas mulheres. Ouço
histórias maravilhosas de aulas de alongamento que se
transformaram em grupos de apoio, clubes de investimento
que mudaram a vida de seus membros e - uma de minhas
favoritas - do que aconteceu quando 13 estranhas, todas na
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casa dos cinquenta, se reuniram para comprar um colar de
diamantes.
Li sobre Jewelia, como o colar foi carinhosamente chamado,
na revista People, alguns anos atrás. Parece que uma mulher
se apaixonou por ele e voltava sempre à joalheria para
experimentá-lo. Após várias dessas visitas, o dono da loja
sugeriu que reunisse um grupo para comprar o colar, e
acrescentou: "Abaixarei o preço, se minha mulher puder
participar do grupo." Então ela fez exatamente isso: reuniu
uma dúzia de mulheres que mal se conheciam, mas gostaram
da ousadia do esquema. O plano era que o colar trocaria de
mãos em uma reunião mensal. Só havia duas regras: a mulher
tinha de usá-lo pelo menos uma vez, quando fizesse amor, e
quem fosse a Paris o levaria consigo.
Bem, dá para imaginar o que aconteceu. Com o correr dos
anos, as mulheres passaram a se conhecer e apreciar sua
aventura extravagante, e as reuniões mensais se tornaram
mais valiosas do que o colar que trocava de mãos. O grupo
possibilitou à contadora cuja irmã acabara de morrer
"restabelecer sua conexão com a vida"; a auto-descrita
"motociclista" não podia acreditar que 13 mulheres
conseguiam "partilhar aquela jóia magnífica sem brigar por
causa dela"; um membro que estava se divorciando sentiu o
apoio do grupo "em um dos momentos mais difíceis de toda a
minha vida". E a mulher do tipo "mãe terra" levantava
"questões morais sobre Jewelia", mas apreciava a "cordialidade
das mulheres".
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Não podemos esperar ter mais de uma ou duas novas grandes
amigas. A intimidade é bastante sensível, e a química, muito
sutil. Obviamente, temos de ter experiências e interesses em
comum, e disposição para contar nossas histórias, mas o
ingrediente mais importante, o que cria uma confiança
preciosa entre nós, é como contamos nossas histórias. Como
ouvimos. Quando fazemos perguntas. Como cuidamos umas
das outras. Como rimos. É por isso que cada nova — e velha -
amiga é uma dádiva.
Outro texto anônimo que circula na Internet (diabéticas,
cuidem-se!) diz:
Amigas guardam seus filhos e segredos.
Amigas nem sempre lhe dizem que você está certa, mas
geralmente lhe dizem a verdade.
Amigas amam você mesmo se discordam de suas escolhas.
Amigas a ouvem quando você perde um emprego ou uma
amizade.
Amigas a ouvem quando seus filhos partem seu coração.
Amigas a ouvem quando a mente e o corpo de seus pais
falham.

O ótimo livro de Tim Madigan, I'm Proud of You: My Friend-


ship with Fred Rogers, capta as dádivas únicas do sr. Rogers
da TV, um homem que, sozinho, formava um círculo de
confiança. Quando conheci Fred Rogers, na década de 1980,
fiquei maravilhada como as crianças se amontoavam perto
dele onde quer que fosse; frequentemente eram seguidas pelas
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mães, que traziam no rosto a mesma expressão suave que as
crianças. Perguntei-lhe sobre essas mães, e ele me disse que,
repetidamente, algumas delas lhe sussurravam que viam o
programa com os filhos, porque o mantra de Fred — "Gosto
de você como você é" - oferecia-lhes a aceitação simples e
amigável de que precisavam. Rogers entendia o anseio
universal por terna legitimação. Uma carta que escreveu para
Madigan fala sobre seu prazer ao descobrir "a palavra sul-
africana ubuntu, que significa 'eu sou porque nós somos'".
"Isso não é lindo?", perguntou ele. "Minha identidade é tal
que inclui você. Eu seria uma pessoa muito diferente sem
você."
Dadas todas as evidências da natureza protetora da amizade, é
alarmante ouvir que os americanos parecem estar
caminhando para círculos de amizades cada vez menores. A
American Sociological Review relatou uma "redução notável"
no tamanho da "rede essencial de confidentes" das pessoas.
Em 1985, o americano típico tinha três amigos íntimos; em
2004, dois. E os sem nenhum amigo íntimo pularam de 10%
para 25%. Provavelmente essas estatísticas se devem a muitas
variáveis, inclusive aumento das horas de trabalho e
diminuição do tempo para se relacionar com os outros,
distância geográfica, longas viagens para o trabalho e
tecnologia - nós nos ligamos a máquinas com mais freqüência
do que a amigos. Tais estatísticas certamente se aplicam mais
aos homens do que às mulheres; a extrema sensação de
isolamento e desespero relatada pelos homens em nossa faixa
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etária está se tornando um grande problema de saúde. Mas a
mensagem geral desse estudo é que não só temos o direito de
cultivar nossas amizades como também precisamos aceitar
que pode ser mais difícil do que nunca formar novas.
Eis como alguns dos Modelos Horizontais com quem
conversei, estão experimentando a amizade no contexto da
mudança em suas vidas:

MARGE: Como é seu círculo de confiança? É formado por


mulheres com os mesmos interesses seus? Talvez você tenha
círculos de confiança interligados. Por exemplo, estou
formando um círculo de mulheres escritoras. Tenho outro em
que todas vivem em minha comunidade. Algumas estão nos
dois círculos, por isso eles se interligam. O círculo de
escritoras vem se formando (pouco a pouco) nos últimos três
anos. Nem todas as mulheres que "sempre quiseram escrever"
estão prontas para estar nele. Quando você mostra o que
escreve, abre sua alma e compartilha sua visão. Para o círculo
ser um lugar seguro para compartilhar em um nível tão
íntimo, todas as pessoas precisam ter generosidade de espírito
e ser fidedignas.

CAROLE: Frequentemente as amizades são interrompidas


porque as pessoas seguem caminhos de vida diferentes em
diversos momentos; contudo, estas mesmas amizades
recomeçam do ponto em que pararam quando os caminhos da
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vida voltam a se cruzar. Essa é uma virada nos
acontecimentos, inspiradora e surpreendente em nossa vida.

KATE: Deixei de achar que seria o tipo de mulher casada com


segurança na vida e a me ver como o tipo totalmente
desconhecido de mulher solteira que deixa as coisas
acontecerem. O homem com quem fui casada durante 28 anos
me disse que não estava tendo uma "crise de meia-idade", mas
uma "CONSCIÊNCIA da meia-idade". Bem, esta consciência
tinha um nome: Vicki. A velha história... uma nova vida...
para mim. Isso me fez iniciar um caminho para uma
consciência nova e diferente... de mim mesma como pessoa,
mulher solteira, mãe divorciada com filhos adultos que
questionam e censuram - para decidir o que realmente
significa reinventar a vida.
Comecei a namorar, entrei em um relacionamento sério que
durou quatro anos, segui minha intuição e o rompi. Estou
com 55 e é hora de respirar profunda e totalmente... e
aprender afazer isso em meu dia a dia.
Uma das coisas difíceis para mim é que, embora tenha um
círculo de amizades maravilhoso e dedicado, todas as minhas
amigas são casadas. Na minha idade é difícil encontrar
mulheres solteiras que estão em um momento irreverente da
vida. Há TANTO a fazer... e do que rir... e ter uma atitude de
"dane-se" em um dia e disposição de seguir o caminho
tradicional no outro.
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AUDREY: Nesse ponto, começa a próxima fase da rica
tapeçaria da vida. Perdemos muitos de nossos familiares e
amigos nos últimos anos, e cada vez que um amigo morre,
muitas das lembranças de nossa própria vida morrem com ele.
Acho que essa parte do luto corrói sua própria identidade...
também tem um forte efeito oposto. Você diz para si mesma:
ainda estou viva e não devo desperdiçar esta vida - o que dá
uma sensação boa.

MARY: Procuro mulheres por diferentes motivos. Costumava


ter amigas do trabalho, mas só éramos amigas porque
tínhamos um laço profissional comum. Não as vejo mais. Não
mantenho contato com nenhuma de minhas amigas da
infância ou colegas de quarto na universidade. Tenho uma
amiga que gosto de encontrar porque ela desafia meu modo
de pensar sobre livros, política e o mundo em geral, o que
minha amiga mais íntima não faz. Tenho três jovens amigas
que vejo de dois em dois meses, quando falamos sobre o que
está acontecendo no mundo como um todo e no mundo
profissional delas. Às vezes, sinto-me como se fosse mãe
dessas amigas e, em outras ocasiões, mentora. Outro grupo de
educadoras aposentadas, que se consideram minhas amigas,
me convida para almoçar com um grupo de professoras. Eu as
conheço, mas realmente não quero gastar tempo com esse
grupo. Isso me faz pensar no que farei como uma velha
senhora com poucas amizades e talvez sozinha por ter sido
tão seletiva em relação a com quem passo meu tempo agora.
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Não posso acreditar que deveria fazer mais amizades para
evitar a solidão na velhice — mas realmente isso passa pela
minha cabeça.

MAREE: SOM muito introvertida e pouco propensa a fazer


grandes revelações em um nível mais profundo, exceto a uma
amiga MUITO especial. Minha amiga MUITO especial
morreu um ano e meio atrás e sinto uma falta enorme dela.
Era uma pessoa surpreendente, a quem podia dizer tudo -
minha alma gêmea. Por isso, agora escrevo muito em meu
diário e busco a sabedoria dela onde quer que esteja.
Em um nível acima desse LUGAR PROFUNDO, tenho meia
dúzia de grandes amigas com quem compartilho muitas
coisas. Os critérios para essas amizades incluem:
- participação e revelação mútua;
- uma base de valores comuns (éticos, políticos e outros
menores);
- as mulheres também estarem em uma jornada e conscientes
disso;
- estarem razoavelmente intactas do ponto de vista
psicológico -descobri que é muito desgastante ter de apoiar
pessoas que não se dispõem a buscar apoio profissional
quando precisam - isso pode ser egoísta, mas é sincero.

Realmente é sincero, e uma boa lista de verificação, como


descobri.
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Maree, Audrey e as outras confirmam instintivamente o que
os cientistas afirmam — que a amizade faz bem para o corpo e
a alma. A amizade entre as mulheres é um dos temas mais
dinâmicos no campo do comportamento dos sexos. Melissa
Healy, repórter do Los Angeles Times, captou o espírito desse
relacionamento e reuniu estudos que desmistificam muitos
aspectos de sua química:

As mulheres são guardiãs de segredos, reforçadoras da


confiança umas das outras e co-conspiradoras nas aventuras
da vida. Por meio de risos, lágrimas e uma corrente
inesgotável de conversas, mantêm-se bem e se aperfeiçoam.
Através das espécies e em todas as culturas humanas, as
fêmeas têm se agrupado para proteção e apoio mútuos. Elas se
arrumam, tomam conta de filhos que não são seus, cuidam
umas das outras na doença e se engajam no tipo de
sociabilidade sem objetivo que costumava confundir os
antropólogos do sexo masculino.
Mas o poder da amizade está começando a se revelar para a
ciência. Para as mulheres, a amizade não é só regras. Protege.
Ameniza as dificuldades das transições da vida, abaixa a
pressão sanguínea, aumenta a imunidade e promove a cura.
Pode ajudar a explicar um dos mistérios mais antigos da
ciência: por que as mulheres tipicamente apresentam taxas
mais baixas de doença cardíaca e uma expectativa de vida
maior do que os homens?
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Shelley E. Taylor, uma neurocientista social da Universidade
da Califórnia, em Los Angeles, estudou como homens e
mulheres lidam com uma das agressões mais persistentes da
vida — o estresse — e por que as mulheres se saem melhor
em grupos. Antes se pensava que todos os humanos reagiam
às ameaças externas com uma descarga de adrenalina, o que
era aceito como a reação de luta ou fuga. Mas em um dia
particularmente estressante em seu laboratório, Taylor e suas
colegas notaram algo muito interessante: os homens
estressados entravam raivosamente em suas salas e batiam
portas, enquanto as mulheres saíam de suas salas e tomavam
café juntas. Esse insight anedótico levou à pesquisa que
concluiu que, quando ameaçadas, as mulheres têm um
instinto de "proteção e amizade"; se reúnem e tentam resolver
o problema e aliviar a tensão. A natureza das mulheres de
reduzir o estresse umas das outras é uma explicação possível
para o fato de elas viverem mais do que os homens.
Outros estudos examinaram o mecanismo hormonal por trás
do fator calmante. Acontece que, quando as mulheres estão
trabalhando juntas, ou simplesmente desfrutando da
companhia umas das outras, a oxitocina é liberada.
Frequentemente chamada de "hormônio do carinho", a
oxitocina é mais comumente associada à amamentação.
Porém, explica Taylor, "Nós a chamamos de um 'termostato
social' que indica o quanto os apoios sociais (das mulheres)
são bons." Quando a leitura do termostato é muito baixa, as
mulheres tendem a procurar outras. Ao fazerem isso, os níveis
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de oxitocina voltam a subir e, com essa exposição prolongada,
há um distinto efeito "calmante e confortador". Por esse
motivo, o estresse tende menos a causar o tipo de dano
fisiológico que pode levar a doenças crônicas, como doença
cardíaca e desordens metabólicas. Ao mesmo tempo, níveis
altos de oxitocina e redes de apoio social confiáveis parecem
melhorar o sistema imunológico. "Nós não vemos o mesmo
mecanismo nos homens", acrescenta Taylor.
A pesquisa de Healy descobriu vários estudos que sugerem
que "a rede maior de amizades e apoio que as mulheres
tendem a ter também pode proteger contra os efeitos da
demência". Um estudo sueco concluiu que o risco de
desenvolver demência era mais baixo em homens e mulheres
que mantinham uma grande variedade de contatos
satisfatórios com amigos e parentes. "Os pesquisadores
inferiram que o exercício mental de se ocupar de muitos
relacionamentos mantinha mais aguçado o cérebro das
pessoas com redes sociais mais ricas."
Finalmente, Healy apresentou provas de algo de que
suspeitamos o tempo todo - quando tudo está dando errado,
um homem não pode "melhorá-lo" como uma mulher. Não
estamos inventando isso. "Pesquisadores alemães descobriram
que, ao receber uma tarefa estressante - nesse caso, preparar
um discurso para ser apresentado em público -, os homens
que tiveram a companhia de suas parceiras durante o período
de preparação apresentaram níveis de estresse muito mais
baixos do que os sem nenhum apoio. Nas mulheres, a história
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foi outra. Naquelas que tiveram a companhia de seus
parceiros, os hormônios do estresse aumentaram."
Sei por experiência própria com minha rede de mulheres e
meu marido bem-intencionado, mas propenso a assumir o
controle, que partilhar um problema produz vibrações muito
diferentes. As mulheres se mobilizam ao redor de uma
mensagem tranquilizadora de podemos-trabalhar-juntas-
nisso. A primeira reação de meu marido costuma ser um
defensivo "O que você espera que eu faça em relação a isso?".
Quando eu lhe garanto que não espero que seja um super-
herói, que só quero seu conselho, ele relaxa um pouco, apenas
para tentar ajudar, interrogando-me sobre as escolhas e
decisões que criaram a crise. Ele pensa que está chegando à
raiz do problema; eu me sinto julgada.
"O apoio dos homens a uma amiga ou parceira tende a
assumir a forma de conselho", diz a neurocientista Taylor. "O
apoio das mulheres frequentemente vem em formas mais
vagas de encorajamento, legitimação e aceitação. Isso, por sua
vez, pode permitir a uma mulher encontrar sua própria
solução para um problema, com menos pressão para
corresponder às expectativas de seu conselheiro. Esse insight
pode explicar por que um homem casado tende a viver mais
do que um solteiro - devido ao companheirismo de sua
mulher. Contudo, uma mulher casada não fica tão bem, caso
não tenha também um círculo de amizades."
As amigas e coautoras de This Is Not the Life I Ordered
apresentam um bom modo de pensar sobre a natureza
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fortalecedora da intimidade das mulheres. "Muitos pensam na
coragem... como uma jornada solitária. Acreditamos que a
jornada da coragem é realizada melhor com amigas que,
literal e figurativamente, nos 'encorajam'."
Eis uma história de como uma amizade se desenvolveu. O fato
de parecer quase uma história de amor salienta a combinação
de medo e anseio que acompanha o risco e as recompensas de
se abrir para uma nova pessoa - seja uma amiga ou um
amante.
Annie tem 53 anos "e meio". É casada pela segunda vez e,
embora o casamento "não seja físico (por escolha minha), está
o.k. Nós nos damos bem". Ela tem uma filha adolescente que
adora e um crescente interesse em uma escola alternativa de
psicologia chamada Reiki, uma técnica japonesa para redução
do estresse, relaxamento e cura por meio do aumento e
direcionamento da "energia da força vital".

Nunca tive muitas amigas, porque me mudei várias vezes na


vida. Porém, nos últimos três anos, tenho sentido uma
necessidade imensa, quase dolorosamente profunda, de
estabelecer uma conexão com mulheres. Ouço-as
conversando sobre pessoas que conhecem e fico perplexa com
como podem se lembrar de coisas que fizeram há muito
tempo. Perdi repetidamente minhas amizades da infância, até
parar de fazê-las. Isso tornou difícil fazer novas, é o mínimo
que se pode dizer. Então como esta começou? Com um
mirtilo. Sim, um mirtilo. Foi no caixa de uma loja local, no
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último verão, quando os mirtilos estavam na estação e com
um preço razoável. A mulher no caixa disse que nunca tinha
comido um, e dei um para ela. Ela o pôs de lado, mas eu lhe
disse que se esqueceria dele se não o comesse logo. Então ela o
comeu e também gostou.
Depois disso, quando eu passava pelo caixa de Angela, nós
conversávamos. Um dia, ela me perguntou se havia sido eu
que lhe dera o mirtilo. Quando respondi que sim, rimos e
assim começaram conversas com um pouco mais de
envolvimento do que apenas "oi, como vai". Dissemos nossos
nomes e fornecemos informações mais pessoais. Angela me
contou sobre uma experiência extracorpórea que teve anos
atrás, e o impacto que isso lhe causou. Eu falei sobre Reiki e
uma das coisas sobre as quais estava lendo, e Angela
demonstrou muito interesse. Passei a lhe falar sobre ideias e
ela me dava sua opinião.
Recentemente, fui procurada por uma pessoa que queria que
eu ensinasse Reiki como um presente de 40a aniversário para
alguém que eu havia conhecido em um workshop. Estava
interessada em fazer um novo treinamento e achei que
ganharia dinheiro para pagar por ele ensinando Reiki. Contei
tudo para Angela, que ficou tão animada quanto eu.
Tudo se arrastou; ausentei-me por uma semana, depois houve
férias escolares, fui treinadora de minha filha no
Departamento de Psicologia e Nutrição para a Eondon
Marathon, e esta mãe orgulhosa a viu na TV!... Contei tudo
para Angela, que tem uma filha alguns meses mais velha do
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que a minha, e o laço se tornou mais forte. Então, em maio,
Angela me perguntou se eu poderia lhe explicar mais sobre
Reike e combinamos de passar um dia juntas. Acho que foi
quando deixamos de ser duas mulheres com muito do que
falar e nos tornamos realmente boas amigas. Após o almoço,
nos sentamos na cozinha dela e conversamos um pouco; então
Angela sugeriu que tomássemos uma xícara de chá e nos
instalássemos em cadeiras mais confortáveis. Quando
passamos pela sala de estar, olhei para o relógio e eram
16:30!!!! O tempo havia voado!!
Contamos nossas histórias, rimos, exploramos e descobrimos
que realmente gostávamos muito uma da outra. Como eu,
Angela tivera poucas amigas na vida. Está com 61 anos,
embora não aparente! Vive com a filha após seu divórcio,
pedido por ela (aquelas estatísticas de novo!). Seu desejo de
desenvolver sua vida espiritual em grande parte não fora
atendido até agora. Então, quando uma ideia minha de abrir
um curso de Reiki começou a se formar, ganhou asas e voou,
Angela estava bem ali ao meu lado. Não sei ao certo o que nos
levou de um ponto para outro, mas aconteceu no espaço de
tempo das cinco horas que passamos juntas conversando
naquele dia...

Os primeiros passos hesitantes da amizade envolvem um


delicado equilíbrio de riscos e recompensas. Não admira que
temamos o compromisso e, ao mesmo tempo, ansiemos por
ele. Isso exige coragem - e encorajamento. Até mesmo as
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amizades estabelecidas se beneficiam com a maior atenção
que tendemos a lhes dar agora. Estamos criando conexões
mais profundas. Em primeiro lugar, somos cada vez mais
atraídas pelas "grandes questões" e as mais profundas.
Simplesmente não embromamos. E não perdemos tempo com
babados sociais. Os Cinquenta do Dane-se nos livram da
ansiedade em relação a, por um lado, parecer ridículas e, por
outro, nos enquadrarmos. "Importa menos se os outros
concordam comigo do que aquilo que escolho", escreve a
escritora e professora havaiana Yvonne Mokihana Calizar, no
ensaio intitulado "Nana I Ke Ku... Looking to the Source".
Como finalmente estamos tão empenhadas em fazer nossas
próprias escolhas, realmente significa algo o fato de
chamarmos nossas amigas mais íntimas de nossa "família
escolhida".

A LIÇÃO: A amizade é sine qua non para tudo que irá


funcionar para nós ao explorarmos o resto de nossa vida. As
velhas amigas nos alicerçam, conectam nosso passado com
nosso futuro e nos dizem a verdade. As novas amigas
expandem nossos horizontes e nos desafiam a ser autênticas
desde o início em um relacionamento. O companheirismo de
mulheres que pensam como nós nos dá coragem, reduz o
estresse e é o melhor ambiente que existe para a solução de
problemas. E as risadas que damos juntas é, como todas nós
sabemos, o elixir da vida.
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LIÇÃO CINCO
Toda crise cria um "novo normal"

A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo


outros planos.
- John Lennon
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medida que vamos avançando na vida, os grandes
À desastres - doença, demissão, perda de um parceiro ou
amigo, ter de se mudar — ocorrem com mais frequência. "A
morte se tornou onipresente como uma vespa preguiçosa",
disse uma mulher. "Nos últimos três anos, perdi minha
melhor amiga, meu marido e meu sobrinho, e agora estou
vendo minha querida e doce mãe dar seus últimos passos. As
causas de morte são incontroláveis - ataque cardíaco aos 48
anos, acidente de carro, câncer de ovário. O pesar",
acrescenta, "é medo, puro e simples."
Com o passar do tempo, as coisas realmente "parecem mais
sombrias", como diz minha amiga Maddy. "Sim", nos ouvimos
dizer com crescente frequência, "mas pense na alternativa." A
perda e a crise são parte do quadro, mas também o são lidar
com a situação, improvisar e recalibrar. Aceitar o que é
preciso e acumular recursos para mudar o que tem de ser
mudado são atributos necessários da Segunda Adolescência.
"Avançar gradual mas constantemente", como diz Maddy, em
vez de "seguir em frente", que não lhe parece bastante
proativo.
Dottie foi literalmente arrancada de suas raízes justamente
quando estava ficando pronta para cuidar delas. Mas avançou
gradual e constantemente:

Quando meu marido perdeu o emprego, logo após termos


ficado com o ninho vazio, senti-me totalmente perdida.
Durante algum tempo, tinha ansiado por arrumar a casa e me
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dedicar ao meu hobby, fazer colchas. Em vez disso, foram
dois anos de envio de currículos para todo o país - ninguém
parecia querer contratar um diretor financeiro de mais de
cinquenta anos. Ele finalmente recebeu uma proposta de
trabalho em Boston, uma cidade a qual eu nunca havia ido.
Mas vendemos nossa casa e nos mudamos para lá. Demoramos
a fazer amizades e quando, após um ano, ele foi demitido do
novo emprego, nos sentimos realmente perdidos. Outro ano
de currículos depois, meu marido recebeu uma proposta de
trabalho, desta vez no Canadá. Eu simplesmente não consegui
decidir a me mudar de novo, por isso concordamos em que
ele aceitaria o emprego e viria nos fins de semana. Isso me
deixou por minha própria conta.
Um dia, quando estava na loja de tecidos, conheci outra
mulher que faz colchas. Ela me convidou a se juntar ao seu
"mutirão de produção de colchas". Em uma reunião logo
depois disso, uma das mulheres contou que seu sobrinho
havia visitado um orfanato na África onde as crianças não
tinham brinquedos. Tivemos a ideia de fazer bonecas com os
retalhos de nossas colchas e enviá-las para o orfanato. As
crianças ficaram tão gratas e eram tão carentes que logo
estávamos vendendo as colchas que fizemos para conseguir
dinheiro para elas. A próxima coisa que sabíamos que
teríamos de fazer era tornar nosso grupo uma organização
sem fins lucrativos — algo sobre o que nenhuma de nós sabia
nada na época, mas sabemos agora! No último verão, uma de
nós fez uma viagem à África para visitar "nosso" orfanato.
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Quem teria imaginado que todos esses eventos fortuitos
levariam a uma aventura dessas? E, sim, meu marido ainda
tem o emprego no Canadá.

June foi abalroada pelo câncer quando pretendia dedicar o


tempo a fazer planos para o resto de sua vida. Em vez disso,
descobriu o resto de sua vida. Para ela, o agente da auto-
descoberta foi o canal de culinária:

Eu me aposentei do Exército depois de vinte anos de serviço e


esperava descansar um pouco. Não seria assim. E logo recebi o
diagnóstico de câncer de mama e se seguiram meses e meses
de preocupação e tratamento. Quando estava me
recuperando, tive de ficar na cama por semanas. Para me
distrair de minhas preocupações, comecei a assistir ao canal
de culinária. Nunca havia cozinhado, mas realmente adorei os
programas. Pensei: "Talvez deva entrar para um curso de
culinária." E logo que fiquei bem o bastante, me matriculei.
Adorei! Mas só descobri do que realmente gostava no último
período - escultura no gelo! Sou realmente boa nisso.
Coloquei um anúncio no jornal e obtive encomendas
suficientes para me fazer entrar nesse negócio. Não posso
acreditar que isso está acontecendo!

A superação é como um departamento de achados e perdidos.


As perdas de Dottie e June não são incomuns; encontrar
modos de reorganizar a vida para lidar com elas requer
engenhosidade. Não apenas uma vez, mas repetidamente. A
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escritora Alix Kates Shulman convive com o desafio de
estabelecer um "novo normal" todos os dias.
Quando Alix casou de novo, vinte anos atrás, foi sua última
história de amor da meia-idade. Em uma reunião da escola
secundária, reencontrou Scott, que havia sido um astro do
futebol quando ela, era líder de torcida. Agora Scott era
executivo financeiro, e ela, escritora e mãe, quase divorciada,
de 52 anos. Eles foram muito felizes juntos, mais ainda depois
que Scott se aposentou e se tornou um escultor importante.
Então, uma noite, quando eles estavam em sua casa de férias
no Maine, Scott se levantou para beber água e caiu do loft
onde dormiam. Bateu com a cabeça e sofreu dano cerebral.
Com o passar do tempo e a terapia física, Scott se recuperou o
suficiente para comunicar sua afeição, mas continuou
precisando de cuidados constantes e encorajamento. Alix se
dedicou a este trabalho com o mesmo ardor com que Scott se
dedicara a cortejá-la. Em seu livro To Love What Is, ela
descreve as frustrações e os reveses, assim como a admiração
de se adaptar e até mesmo encontrar alegria em seus dias
juntos. Seu "novo normal" é a soma de pequenos triunfos e
grandes desapontamentos. Quando Scott não conseguia andar,
isso se tornou "normal" por algum tempo; então ele
conseguiu, mas se perdia e precisava de supervisão constante -
e isso se tornou normal. Quando Alix percebeu que nunca
poderia contar novamente com Scott — doce e amoroso como
ele é - como um parceiro igual, isso também se tornou
normal. Ela reconstruiu sua vida de modo a incluir trabalho,
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amizades e distrações. E avançou gradual, mas
constantemente, lembrando-se com prazer dos bons tempos e
lidando com os ruins. Isso foi "muito melhor do que a
alternativa".
O nome do jogo é improvisação. Felizmente, estamos cada vez
mais bem preparadas para ele; em primeiro lugar, está mais
claro para nós no que devemos concentrar nossas energias -
No que É Importante — e com o que não vale à pena "suar";
estamos cada vez mais adeptas de mobilizar esses esforços
com autoridade. Podemos lidar com a perda porque estamos
nos familiarizando com a confusa bênção — talvez
melancólica, mas também libertadora — de deixar para lá.
Deixamos para lá nossos filhos e nos encontramos. Deixamos
para lá alguns padrões físicos e nos tornamos mais
confortáveis em nossa própria pele. Algumas de nós deixam
para lá grandes ambições, enquanto outras deixam para lá as
hesitações que as impedem de realizar suas ambições.
Deixamos para lá antigos castelos no ar e coisas materiais.
Todas as listas de coisas a fazer que escrevemos incluem
limpar armários e, embora raramente o façamos, esta fantasia
expressa um desejo muito real de nos livrarmos das coisas
velhas e abrir espaço para algo novo.
O "novo" que acumulamos nos torna mais fortes para
enfrentarmos situações com as quais nunca imaginamos que
iríamos nos deparar. Por exemplo, nossa emergente rebeldia
diz não para as pessoas que nos impedem de obter um
resultado importante e nos dá coragem em situações que
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sabemos instintivamente que precisam ser enfrentadas. Nesse
processo, estamos ficando à vontade correndo riscos, e mais
capazes do que nunca de aguentar críticas. Também estamos
cada vez mais confiantes de que podemos recomeçar e
transformar o copo meio vazio em copo meio cheio. Os
antropólogos que documentam o poder das mulheres na pós-
menopausa em várias culturas o chamam de "mestria".
Se isso soa como a Mãe Coragem, uma mulher muito forte,
corajosa e otimista, é apenas porque estou descrevendo um
bom dia. Todas nós conhecemos os maus dias: os dias em que
ficamos totalmente desconcertadas com uma constrangedora
confusão, damos um jeito nas costas ou apertamos a tecla
errada e o computador trava justamente quando estávamos
terminando um relatório. Mesmo nos bons dias, muitas de
nós ouvem pequenas vozes que desfiam uma ladainha de
horríveis possibilidades que podem estar à frente — até
mesmo nos próximos cinco minutos.
Conheço essa voz sinistra como o Sapo Embaixo. Uma criação
do romancista John Irving, em O mundo segundo Garp, foi o
resultado de um equívoco de uma criança chamada Walt. A
família de Walt passava muito tempo na praia, e seus pais o
lembravam constantemente de tomar cuidado com a
contracorrente submarina. Um dia, eles o veem olhando
atentamente para o mar.

"O que está procurando, bobinho?", perguntou-lhe Duncan.


"Estou tentando ver o Sapo Embaixo", respondeu Walt.
"O quê?", disse Garp.
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"O Sapo Embaixo", disse Walt. "Estou tentando vê-lo. É muito
grande?"
Garp, Helen e Duncan prenderam a respiração; perceberam
que, durante aqueles anos todos, Walt temera um sapo
gigante escondido lá fora, esperando para pegá-lo e arrastá-lo
para o mar. O terrível Sapo Embaixo...

Esse viscoso, vago e ameaçador Sapo Embaixo me acorda à


noite, sopra seu hálito frio em meu coração quando o telefone
toca, ri sarcasticamente quando me pego admitindo que me
sinto - ouso dizer isso? Não! - feliz. "Xô... xô... xô", costumava
dizer minha sogra para afastar o mau-olhado.
Em minha agenda pessoal de "deixar para lá", distanciar-me
um pouco dele é uma prioridade. Digo a mim mesma que
permitir à ansiedade se instalar livremente é uma perda de
tempo. Como ensinou Fritz Perls, criador da terapia
gestáltica, isso é um ensaio para o futuro que, como todas nós
sabemos, nunca vem na forma que ensaiamos. Também
lembro a mim mesma que provavelmente conseguirei lidar
com o que surgir, que quase certamente não será o que eu
temia, assim como lidei com o que já surgiu. Não há futuro na
antecipação do pior.
Temer o pior envolve uma expectativa igualmente irreal do
melhor. Deixar isso para lá exige coragem. Carly Simon,
entrevistada em seu 61º aniversário, disse: "Antes eu tinha
ansiedade, agora tenho depressão." Ela é famosa por seus
ataques de medo do palco (apropriadamente chamado de
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ansiedade de performance), um medo de não corresponder às
expectativas. Agora que a ansiedade se foi e as expectativas
também se foram, ela parece estar tentando preencher o lugar
onde o pior e o melhor estiveram. Germaine Greer escreve
sobre esse próximo passo em The Change: "Quando perdemos
nossa sensação de agravo, tudo, inclusive a dor física, se torna
mais fácil de suportar. [...] Quando deixamos de achar que a
felicidade não é algo a que temos direito, ou para a qual
estamos programadas, começamos a entender que não há
virtude na infelicidade. Então podemos começar a buscar o
heroísmo da verdadeira alegria."
O único lugar com reais possibilidades, enfatiza Perls, é o
presente. Comecei a afastar o Sapo Embaixo agitando uma
caneca de café com a inscrição: "Cada dia é uma dádiva. E por
isso que o chamam de presente."
Minha amiga Maddy chegou à mesma conclusão com mais do
que sua cota de experiência em primeira mão do novo
normal. Sempre poderia haver "um penhasco com uma borda
solta" onde estaria prestes a pisar, reconhece Maddy, mas
prossegue assim mesmo. Não porque seja corajosa, insiste ela,
mas porque considera a alternativa. "Imagino que o que
acontece seja meu destino, e é melhor tirar o melhor proveito
dele." Seu destino até agora incluiu o suicídio da mãe, sua
própria mastectomia, um divórcio amargo, a morte de um
irmão e agora a luta de seu marido contra o câncer de
próstata. Ela se lembra de um momento de clareza vinte anos
atrás, quando estava sendo levada de maca para fazer uma
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biópsia de mama: meio grogue devido à anestesia, balbuciava
insistentemente: "Deus, não permita que seja câncer." Então
se lembra de ter reconsiderado sua oração porque, como diz
ela, sempre pragmática: "Deus já sabia se era câncer." Assim,
reformulou o pedido: "Deus, dê-me forças para lidar com
isso."
E ela lidou. Na época e depois. Como sua amiga, fui parte de
uma de suas estratégias de sobrevivência mais eficazes:
administrar a própria assistência. Por exemplo, quando
Maddy fez a mastectomia, destinou uma tarefa a todos de seu
círculo mais íntimo: alguém para organizar um rodízio
semanal de fornecedores de jantar enquanto estava acamada;
alguém para atender telefonemas bem-intencionados; alguém
- fui eu - para levá-la ao hospital na noite antes da cirurgia;
alguém para buscá-la no hospital. Foi uma experiência na
qual, todos saíram ganhando. Ela foi cuidada do modo como
queria, e todos nós tivemos o prazer de ser úteis. Também
recebemos outra dádiva: seu grande bom-senso na
distribuição de papéis refletiu o quanto nos conhecia e
apreciava.
A psiquiatra Sarah S. Auchincloss, que aconselha pessoas com
doenças que ameaçam a vida, descobriu que um dos desafios
mais difíceis para uma mulher que precisa de ajuda é pedi-la.
"Um desafio ainda maior é 'aceitá-la', seja porque a pediu ou
porque a pessoa descobriu sozinha do que ela precisava."
Sarah diz às suas pacientes: "Você realmente precisa tentar
tolerar que lhe retribuam; seu papel é aceitar isso."
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Robin, cuja vida foi virada de cabeça para baixo por aquele
perverso e-mail, teve de vencer a relutância em partilhar seus
problemas e aceitar o apoio que lhe foi oferecido. Quando fez
isso, uma terapeuta e seus amigos — e os amigos dele — a
ajudaram a superar as sequelas do rompimento:

Eu realmente pensava: "Tenho meus amigos, meu próprio


modo de raciocinar e pensar, e não preciso de terapia." Mas o
estranho é que um dia estava com uma cliente, uma moça
obstinada e muito engraçada, e recebi um telefonema dele, e
fui muito lacônica. Desliguei o telefone e ela me perguntou:
"O que está acontecendo?" Então olhou para mim. "Sabe de
uma coisa? Não vou lhe fazer mais nenhuma pergunta. Vou
lhe mandar três nomes por e-mail", disse. "Fui a mais
psicanalistas do que qualquer pessoa no mundo e estou lhe
dizendo que, se precisar de alguém para conversar, deve
procurar o primeiro nome da lista." Procurei a psicanalista. E
ela foi maravilhosa; aquilo foi surpreendente e agora de fato
acredito nos benefícios da terapia. Sei que você pode falar
com pessoas íntimas, mas não é o mesmo que falar com
alguém que não conhece.
Tive esses pequenos anjos, que apareceram justamente
quando eu precisava deles. Meu amigo Robert é um deles. É
gay, do Meio-Oeste. Sei que isso parece uma generalização,
mas você sabe como as pessoas do Meio-Oeste são
pragmáticas. Um dia eu estava angustiada e Robert olhou para
mim e disse: "Ok, você vai se torturar para torturá-lo? Isso
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parece um plano." Depois acrescentou: "Quero lhe dizer que
ou você vai lá pegar suas coisas ou sabe o que vai acontecer?
Ela vai empacotá-las e tirá-las de lá." Então outra grande
amiga minha, Carol, disse: "Entre em contato com ele, diga-
lhe que quer ter acesso ao local e pegar suas coisas." E ela foi
de carro até lá com meu cunhado, com 12 caixas grandes, e
tiraram minhas coisas.
Depois disso, um a um os amigos dele me procuraram e recebi
mais convites do que podia aceitar. Desenvolvi
relacionamentos melhores com todos eles do que teria
desenvolvido se estivesse com meu marido. Isso foi ótimo,
porque você sabe como é difícil. Deixou-me feliz — e muito
sociável. Eu me sentia tão triste e por baixo que não podia
acreditar no quanto era bom ter tantas companhias.
Antes eu pensava que as pessoas tiram vantagens de quem
tem uma boa natureza. Acho que de certo modo me sentia um
pouco envergonhada de sempre fazer coisas para os outros.
Desde muito pequena, tinha meu pai e minha irmã mais
velha, e minha mãe dizia: "Não os deixe ficar lhe dando
ordens o tempo todo." Mas as pessoas me procuram por causa
disso. [...] Sabe como é, você faz coisas para elas quando são
suas amigas e sabe - ou acha - que farão para você. Espera
nunca ter de testar isso, mas tantas pessoas me procuraram
que agora não me importo com o que me dizem sobre fazer
coisas para os outros; é assim: "E isso que fazemos." E disso
que se trata a vida.
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Há um obstáculo irônico para receber a ajuda de que você
precisa. A dra. Auchincloss descobriu que muitas mulheres
treinaram "tão bem seus entes queridos mais próximos para
esperar que cuidassem deles que, quando a própria mulher
adoece, fica cercada apenas de pessoas chocadas que não têm
uma pista do que fazer para começar a cuidar dela".
Repetidamente, a dra. Auchincloss ouviu dessas mulheres
salvas pelo mesmo recurso que Maddy mobilizou tão bem, as
amizades dedicadas: "A mulher é trazida da quimioterapia por
seu bem-intencionado marido, vizinho ou quem quer que seja
para a casa onde ninguém fez o jantar naquela noite e não há
nenhuma comida. A mulher não pode cozinhar e está
tentando descobrir o que eles farão quando a campainha da
porta toca e é a amiga que soube que ela estaria em casa, eles
precisariam comer e trouxe o jantar."
No final, Maddy insiste: "Ainda tenho mais sorte do que a
maioria das pessoas. Tenho uma família, meus netos e
instrução, e conheço gente que pode me ajudar. Tenho uma
vida interessante e meu jardim." Seu contentamento reflete
uma fé duramente conquistada em seus recursos interiores e
nas bênçãos de sua vida, uma fé em sua capacidade de cuidar
de si mesma, proteger-se e se divertir. Isso costumava ser
chamado de "autoconfiança". É a atitude que supera a
circunstância.
Bernadette também a tem. Chama-a de intencionalidade.
Durante trinta anos, trabalhou como higienista dental para
sustentar a si mesma e ao filho, depois que o marido decidiu
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que "a vida de casado não era tudo que deveria ser". Quando
ele foi embora, Bernadette ficou arrasada e não contou a
ninguém o que havia acontecido. "Como o Príncipe
Encantado pode deixar Cinderela?", perguntava-se. Então
abriu os olhos. "Eu sabia que a bolha iria estourar e realmente
seria melhor enfrentar o problema", diz. Quando o filho foi
para a universidade, 15 anos mais tarde, ela estava com 48
anos e pronta para seguir a própria vida. Mas "a vida
aconteceu". Apenas um ano depois, o pai, de 91 anos, levou
um tombo.

Meu pai havia se tornado senil e, ao cair, teve fraturas em


tantos locais que acabamos internando-o e nunca saiu do
hospital. Mas ele caiu no mesmo dia em que diagnosticaram o
câncer de minha mãe, de 91 anos. Por isso, decidi trancar
meu apartamento e voltar para a casa de meus pais, a fim de
cuidar de minha mãe e ajudá-la a ir e vir do hospital para ver
meu pai. Então, na manhã do 62º. aniversário do casamento
deles, em junho, meu pai faleceu, e isso foi na semana antes
de minha mãe começar a quimioterapia.
Naquele ponto, já tinha largado meu emprego e decidido
apenas deixar meu apartamento, porque meu filho viria para
casa no verão e, como um adulto jovem, poderia não querer
passar todo o tempo na casa dos avós. Fiquei com minha mãe.
Nós a levamos para as sessões de quimioterapia e fizemos tudo
que pudemos, mas é claro que ela não iria se recuperar. Tinha
câncer na bexiga e no rim. Certamente estava mais
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confortável tendo a mim para cuidar dela do que um de meus
irmãos para ajudá-la a entrar e sair da cadeira sanitária.
Então, na semana antes do 92° aniversário de minha mãe, em
janeiro de 2003, ela começou a receber todos aqueles cartões
que, obviamente, eram de aniversário. Eu lhe disse: "Mãe,
você recebeu um cartão, quer abri-lo?" E ela respondeu: "Não,
sempre guardo meus cartões para a manhã de meu
aniversário. Então me sento, leio-os e tomo o café da manhã."
Eu disse: "Bem, é isso que faremos." Na manhã de seu
aniversário, levei-lhe os cartões, nos sentamos na cama e os
abrimos. Minha mãe olhava para o envelope e dizia: "Ah, este
é da tia Marie, vai ser cheio de flores, fitas e tudo." E, no
próximo, dizia: "Este é de Peggy, e terá pequenos personagens
de desenho animado." Só de olhar para a letra ela sabia de
quem era o cartão e como seria; minha mãe era muito
divertida. Li todos os cartões e minha mãe quis para o café da
manhã uma torrada de centeio com um pouco de manteiga e
uma xícara de café. Desci, fiz o café, passei manteiga na
torrada, subi de novo e minha mãe tinha morrido dormindo.
E sabe de uma coisa? Houve muita simetria. Ela se casou e
enviuvou no mesmo dia, e nasceu e morreu no mesmo dia.

Quando chegou o momento de lidar com a casa da família,


um dos irmãos de Bernadette insistiu em que ela continuasse
lá, dizendo que sua mãe desejaria que voltasse para o antigo
bairro. A proposta agradou a Bernadette, mas aceitá-la
significava arranjar um novo emprego. Um dia, ela foi
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procurar uma manicure no centro comercial local e viu o
consultório de um dentista no andar de cima. Subiu e
perguntou se ele precisava de uma higienista. O dentista não
podia acreditar - sua atual funcionária tinha acabado de lhe
dizer que não queria mais trabalhar nos fins de semana.
Assim, Bernadette arranjou um emprego. "Toda a minha
vida", disse, "saí e o que precisava estava bem na minha
frente; gosto de chamar isso de uma vida de
intencionalidade."
Ela trabalhava à noite no consultório do dentista e passava
várias tardes por semana sendo baby-sitter do bebê de uma
sobrinha. Tinha uma vida boa. Então aconteceram duas
coisas: a sobrinha de cujo bebê cuidava ficou grávida de
trigêmeos e quis contratá-la para tomar conta deles; e o irmão
anunciou, para a tristeza dela, que precisava da casa de volta
para seu enteado. O que pareceu ser um surpreendente golpe
de sorte produziu uma oferta de outra casa na mesma rua a
um preço ótimo, mas a boa sorte não foi tão casual quanto
uma pessoa com mais auto-piedade poderia imaginar.
Um componente importante da intencionalidade de
Bernadette é seu próprio investimento instintivo na "lei do
retorno". A casa pertencia a uma vizinha, Mary, que havia
sido muito gentil com o pai dela quando ele estava nas
últimas fases da doença de Alzheimer e outros vizinhos o
evitavam devido ao seu comportamento inadequado. Depois
que o marido de Mary morreu, Bernadette retribuiu a
gentileza. "Nas sextas-feiras eu pegava Mary e duas amigas
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íntimas dela e as levava ao cabeleireiro, ao supermercado e
para almoçar fora." Mary se preparava para ir para um lar da
terceira idade na mesma época em que Bernadette estava
sendo expulsa de sua casa. Mary ofereceu a dela a Bernadette.
"Eu poderia me arranjar se conseguisse o dinheiro" - muito
menos do que o valor de mercado da propriedade. Mesmo
assim, foram precisos alguns empréstimos de longo prazo e a
cooperação de um irmão que assinou junto com ela a
hipoteca, mas desta vez, quando Bernadette "saiu", foi para
uma nova casa e um novo emprego: babá de trigêmeos. "Eu
faço o que faço nos fins de semana e, durante a semana, sou a
tia Bern e babá."
Entrelaçadas em toda essa saga há amigas de infância que
ainda estão próximas, vizinhos e até mesmo o ex-marido e um
antigo namorado de Bernadette com quem ela tem um
"relacionamento de amor/ódio. Eu o adoro, mas há coisas nele
que não consigo suportar. Não vou dizer que nos falamos
todos os dias, mas certamente nos falamos todas as semanas".
E há a atitude de Bernadette. "Realmente acredito que, se
você assumir um papel de vítima, é isso que será. Em mais de
trinta anos de higiene dental, você conhece muitas pessoas e
vê muito da natureza humana, e é aquela história: se estivesse
na sala com dez pessoas e todas pusessem os problemas delas
em uma pilha, você provavelmente pegaria o seu de novo."
"Sabe de uma coisa?", acrescenta ela, "Você tem de examinar a
situação e reduzir suas perdas."
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Quando as coisas dão errado, o papel de vítima é uma
armadilha. Culpar-se é outra. A dra. Auchincloss considera
importante "superar o desejo de uma mulher de
autodestruição tentando consertar coisas, e o de transformar
tudo sobre ela em crítica". Isso é particularmente verdadeiro
para aquelas que enfrentam duas das perdas mais comuns e
indesejadas da Segunda Adolescência: o divórcio - como no
caso de Robin — e a perda do emprego.
Ser demitida pode ser um desafio particularmente difícil
porque às vezes a situação é muito injusta, a angústia, muito
desnecessária, e as consequências econômicas, muito
catastróficas. Devido à política do local de trabalho, as
funcionárias mais velhas são dispensadas, assim como as
últimas contratadas são as primeiras a serem demitidas e as
que desejam um horário mais flexível em uma semana de
trabalho mais humana frequentemente são consideradas
agitadoras. Eis como um Modelo Horizontal criou um "novo
normal" satisfatório a partir desse golpe em particular:

Fiquei desempregada pela primeira vez em minha vida aos 53


anos. O que doeu ainda mais foi meu currículo e minha carta
de apresentação me levarem a várias entrevistas e depois
perceber que ninguém parecia querer contratar uma pessoa
tão "experiente" quanto eu. (Uma vez, depois de ir a uma
entrevista, foi posto um anúncio em um jornal local para o
mesmo emprego, só que agora procuravam alguém com cinco
a dez anos de experiência — não meus mais de vinte.) Um
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ano depois, tive a sorte de finalmente encontrar outro
emprego, por meio de uma agência, para um trabalho
temporário, e, no final, fui contratada por uma escola para
uma posição bem baixa. Tenho férias não remuneradas no
verão, mas consigo manter o seguro por uma pequena taxa
mensal. Então decidi aceitar essa nova situação (embora não
por escolha minha) como minha vida "reinventada" para
aproveitar a liberdade nos verões; comecei a pintar aquarelas
e fazer colchas, e curtas viagens à costa do Maine.

Para muitas mulheres divorciadas, a ansiedade em relação ao


emprego surge quando elas estão mais vulneráveis.
Reconstruir a vida frequentemente exige encontrar um
emprego ou outro que pague melhor muito rapidamente, ter
de se mudar de cidade ou todas estas coisas. Uma nota de
outro Modelo Horizontal faz isso parecer fácil, mas demorou
anos para ela finalmente ver a luz no fim do túnel; mas,
quando a viu, não era, como uma mulher em uma situação
parecida temia que fosse, "outro trem vindo em minha
direção".

Três anos atrás, perdi meu emprego em Nova York e passei


por um divórcio, por isso vendi minha casa em um
condomínio e me mudei para a Filadélfia sem conhecer
ninguém lá - só juntei meu gato e minhas coisas e fui embora.
Fiquei sem trabalhar por mais de um ano, e foi realmente
difícil por algum tempo, mas não lamentei minha decisão de
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ir; precisava descansar de lidar com um abusador emocional
(meu ex-marido) e da amargura de perder um emprego em
uma empresa na qual trabalhei por 14 anos.
Agora minha filha adulta vive em Nova York com o marido (e
eles estão esperando meu primeiro neto, o que é
FANTÁSTICO!). Mas ninguém depende mais
financeiramente de mim - bem, a não ser o gato.
Agora estou namorando um homem 14 anos mais novo do
que eu que me faz rir todos os dias, e estou realmente
pensando em me casar com ele, algo que achei que nunca
faria de novo...

Quando a doença surge, o novo normal de ser uma paciente


não se parece nada com o antigo normal. E tampouco o
relacionamento da paciente consigo mesma. O analista
junguiano Jean Shinoda Bolen chama o câncer de "a doença
da sabedoria", porque sua gravidade combinada com o
progresso relativamente lento força a vítima a avaliar a vida.
O câncer de mama da poetisa Audre Lorde, em última análise,
tirou o melhor dela (Audre morreu em 1992), mas, antes
disso, encontrou sabedoria em sua luta para recalibrar seu
relacionamento com a vida, a morte e o medo. No início do
tratamento, ela escreveu em The Câncer Journals: "Não estou
me sentindo muito esperançosa ultimamente em relação à
individualidade ou qualquer outra coisa. Lido com os
movimentos externos de cada dia enquanto a dor me
preenche como uma bolsa de pus, e cada toque ameaça
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romper a esticada membrana que o impede de vazar e
envenenar toda a minha existência. Ás vezes, o desespero
varre minha consciência como ventos em uma paisagem lunar
árida."
Dezoito meses depois, ela obteve uma nova perspectiva. "Às
vezes, o medo me paralisa como outra malignidade, tirando
energia, poder e atenção de meu trabalho. Um frio se torna
sinistro; uma tosse, câncer de pulmão; uma mancha roxa,
leucemia. Estes medos ficam mais poderosos quando não lhes
é dada voz, e logo a seguir vem a fúria quando não consigo
afastá-los. Estou aprendendo a viver além do medo, vivendo
através dele, e, no processo, aprendendo a transformar a fúria
com minhas próprias limitações em uma energia mais
criativa. Percebo que se esperar até não mais ter medo de agir,
escrever, falar e ser, enviarei mensagens em uma tábua Ouija,
queixas crípticas do outro lado. Quando ouso ser poderosa,
usar minha força a serviço de minha visão, torna-se menos
importante se estou ou não sem medo."
A consciência de Lorde mudou de "O que há de errado
comigo?" para "O que ainda está certo?". Em uma crise, a
sobrevivência emocional depende de estabelecer um novo
normal todos os dias. "Isso não é uma transformação total",
observa a dra. Auchincloss, "mas a metabolização daquilo pelo
qual alguém passou, a avaliação do dano, a descoberta do que
é mais importante, que inclui deixar muitas coisas para lá - as
perfeições que não são mais atingíveis e os erros cometidos ao
longo do caminho. As pessoas melhoram simplesmente não
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ficando obcecadas com tudo isso porque realmente percebem:
'Tenho algo especial aqui', 'Estou por perto, não em
tratamento. Usarei minha energia melhor.'"
A sabedoria que vem do engajamento atento com a
adversidade é difícil de conquistar e preciosa. Os quatro
Modelos Horizontais que escreveram This Is Not the Life I
Ordered consideram tão importante preservar a consciência
daquilo de que você é capaz que recomendam manter um
contato em tempo real consigo mesma enquanto prossegue.
Quando as coisas estiverem mal e você estiver perdendo esta
consciência, sugerem que escreva cartas para pessoas
importantes em sua vida. "Diga-lhes pelo que está passando,
como está se sentindo, o que tem feito para tentar lidar com
isso. Então feche as cartas. Não as envie ainda. Depois que
você for bem-sucedida nessa transição, releia as cartas.
Escreva o fim da história e partilhe as lições aprendidas. Nesse
ponto, decida se quer partilhar sua jornada com as pessoas
especiais para quem escreveu."
A dra. Auchincloss destaca um mecanismo de superação
crucial que merece ser celebrado: "Realmente estou
começando a me perguntar se é possível os seres humanos
serem programados para fazer piadas em situações ruins. Há
algum modo de os especialistas em primatas nos esclarecerem
a esse respeito? Todos nós percebemos que isso muda a
situação fazendo com que você a veja de uma perspectiva com
a qual pode lidar. Acho que o humor negro é uma dádiva de
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Deus — realmente um recurso inestimável na maioria das
adversidades."
Acho que nosso carma hoje em dia é explorar mais
profundamente do que nunca os dois lados de deixar para lá.
Em um lado, há a eliminação do excesso de lixo emocional: o
abandono de causas perdidas, a redução de expectativas e a
aceitação das perdas que o tempo traz. No outro, há o deixar
para lá que nos permite ir além dessas perdas. Por exemplo, a
redução das expectativas deixa a imaginação livre para novos
experimentos. Superar os momentos difíceis permite-nos
conhecer nossos pontos fortes e fracos e focar no que
realmente é importante ao seguirmos em frente.

A LIÇÃO: Todos os encontros com a adversidade deixam você


muito longe do lugar para onde ia. Mas lidar com o
inesperado também traz auto-descoberta, poder e uma
consciência profunda de O que E Importante. Cada "novo
normal" oferece novas oportunidades de um primeiro passo
na direção do próximo. Elas incluem oportunidades de pedir
— e aceitar — ajuda. Pondo um pé na frente do outro dessa
maneira, você ganhará impulso para prosseguir.
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LIÇÃO SEIS
Faça para si mesma o que tem feito para os outros

No caso improvável de oxigênio ser necessário, coloque sua


própria máscara sobre seu nariz e boca antes de ajudar os
outros.
- Instruções de companhia aérea

A autodescoberta pode parecer egoísmo que, para muitas


pessoas, é algo do que se envergonhar. Por esse motivo,
recuamos. Além disso, a sublevação que acompanha um novo
comportamento pode assustar aqueles que amamos, com
quem trabalhamos e que contam conosco, e essas pessoas
podem reagir de modos inesperados que solapam nossos
esforços. E a experiência da "geração sanduíche" - as
crescentes necessidades de pais que achávamos que tínhamos
superado e as ressurgentes necessidades de filhos que
achávamos que tinham nos superado - podem se opor aos
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esforços de uma mulher em benefício dela mesma. Contudo,
incontáveis mulheres que entram no voo turbulento que é a
reinvenção estão descobrindo que, colocando suas próprias
máscaras de oxigênio primeiro, são capazes de traçar uma
trajetória pessoal através da longitude de seu próprio bem-
estar e da latitude das outras pessoas importantes em suas
vidas.
Ava, que acabou de completar cinquenta anos, teve muito
contra o que lutar antes de o amargo colapso de seu
casamento deixá-la quebrada financeiramente e arrasada
emocionalmente, seis anos atrás. Ela tem três filhos, um deles
autista. Durante dez anos, deixou de lado sua carreira de
advogada para cuidar dele e aumentar a consciência das
crianças autistas. Por fim, criou uma escola para elas, que seu
filho frequentou até fazer 18 anos e ir para um internato.
Quando tudo degringolou, Ava prosseguiu e, ao lidar com as
crises em sua vida, também fez escolhas que, como agora
percebe, a apoiaram pessoalmente. "Eu de fato cuidei de
mim", diz, "em termos de buscar as coisas que faziam com que
me sentisse bem em relação a mim mesma."

O principal motivo de eu voltar a trabalhar foi financeiro,


mas também tive de decidir se queria que minha vida girasse
em torno do autismo ou construir algo para mim mesma. Foi
difícil voltar afazer parte da força de trabalho. Isso pareceu
devastador. Mas realmente não tinha outra escolha. Em
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última análise, foi a melhor coisa que fiz, uma das coisas que
me mantiveram sã e funcionando.
Isso me permitiu focar em mim mesma e aumentar minha
autoconfiança. Eu estava contribuindo para a sociedade, mas
também desenvolvendo minhas habilidades intelectuais,
minha capacidade de me apoiar. Tinha feito muito em meu
mundo do autismo, mas não explorado meu lado intelectual
ou financeiro.
Quanto aos relacionamentos com homens, mergulhei de
cabeça. Foi outra coisa que envolveu autoconfiança, sentir
que havia pessoas interessadas em mim. Tive o cuidado de
escolher homens que não fossem exigentes, mas estivessem lá
para apoio, companheirismo e diversão.
Correr foi outra coisa que fez com que eu me sentisse bem em
relação a mim mesma. Tinha sido corredora - corri a
maratona em 1986 —, mas nem sempre em um nível tão alto.
Depois do divórcio, comecei a correr mais - cerca de cinco
dias por semana. Corria em parte porque isso fazia com que
eu me sentisse bem fisicamente, mas também porque os
momentos em que corria eram os únicos em que podia estar
só. Geralmente corro sozinha ouvindo música por uma hora,
sem ninguém me incomodar. Quando você está correndo, é
capaz de bloquear o mundo. Eu penso, ouço música e é como
se me colocasse em outro lugar. Tenho a capacidade de
correr, longas distâncias, então apenas sigo em frente. Isso me
dá uma sensação de serenidade — talvez sejam as endorfinas,
mas, seja o que for, é um de meus verdadeiros salvadores.
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Finalmente cheguei a um ponto em minha vida em que
realmente sinto que as coisas estão fazendo sentido. Fiquei
assoberbada por um longo tempo, embora ache que estava
funcionando em um nível muito alto. Sinto-me bem em
relação a onde estou agora. Estou melhor fora do casamento
do que estava dentro. Estou muito satisfeita com o modo
como meus filhos estão se saindo. Muito satisfeita com minha
profissão. Sinto-me bem fisicamente. E aprecio a capacidade,
nesta fase de minha vida, de começar novos relacionamentos
nos termos que quero. Só percebi isso muito recentemente -
talvez seja a pessoa com quem estou. Uma parte boa de se
divorciar é que você tem a oportunidade de se conhecer
melhor — não é apenas parte de um time, é mais sua própria
pessoa. E ser mais forte como pessoa contribui para um
relacionamento muito melhor, mais maduro e sem bagagem.
É maravilhoso.
Então, sim, acho que tenho cuidado de mim mesma.

Muitas mulheres precisam de um toque de despertar antes de


chegarem ao ponto em que Ava começou e se decompor em
suas próprias vidas, consciente ou, como insiste Ava em seu
caso, inconscientemente. Minha história favorita sobre
excesso altruísta é o desastre do piolho de Michealene. Ela
conta sua história em This Is Not the Life I Ordered; começa
com "o temido bilhete cor-de-rosa que meus três irmãos mais
novos trouxeram da escola. É o bilhete que faz qualquer mãe
estremecer: os piolhos haviam chegado à sala de aula". Seus
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filhos não escaparam. Durante uma semana, ela lavou todos
os lençóis diariamente, tratou dos filhos e verificou se o
marido e até mesmo o cachorro estavam com piolhos.
Quando o flagelo passou, estava exausta e ansiava pelo
acampamento no fim de semana que a família planejara. Mas
ele não seria repousante. "Durante nosso segundo dia na mata,
comecei a me sentir mal. Também descobri caroços doloridos
atrás de meus ouvidos e axilas", relembra. Quando começou a
ficar febril, decidiu que era hora de ir para a sala de
emergência. Esperando ali, pensou em "25 doenças terríveis
que simplesmente sabia que tinha. Pensei em meus filhos e
meu marido. Como se sairiam sem mim?".
Quando o médico da emergência a chamou de lado para lhe
dar seu diagnóstico, ela ficou petrificada. "Minhas suspeitas se
confirmaram", começou ele ameaçadoramente. "Você tem um
dos piores casos de piolho que já vi em 25 anos." Seus
sintomas eram uma reação alérgica às mordidas. Uma luz se
acendeu em seu cérebro. "Verifiquei se todos na casa - até
mesmo o cachorro - estavam com piolhos, mas não verifiquei
nenhuma vez se eu estava." Michealene aprendera uma Lição
de Vida crucial: "Meu erro foi criar uma lista de coisas a fazer
que não me incluía!"
Se realmente quisermos fazer para nós mesmas o que temos
feito para os outros, teremos de nos contrapor a esse tipo de
negligência. Nosso remédio é um regime de bem colocados
"não agora" e "não mais". "Não agora" reajusta o controle do
tempo interpessoal. Uma interrupção afirma a necessidade
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que alguém tem de algo - mesmo se for apenas uma resposta -
acima da necessidade da pessoa que está fazendo outra coisa.
Os bebês interrompem todas as nossas atividades, inclusive
nosso sono, com suas necessidades, mas em muitas famílias
essas exigências se tornam arraigadas. E a pessoa que as
satisfaz geralmente é a mesma. Não posso me esquecer da
descrição de Mary Catherine Bateson, em Composing a Life,
do momento em que ela subitamente percebe que, durante
todo o seu casamento de vinte anos, sempre que seu marido a
havia interrompido, deixara de lado o livro - pensamento ou
tarefa - no qual estava engajada e lhe dera atenção; enquanto
que, quando ele estava absorto em algo, ela aceitava
totalmente seu "não agora". Resgatar nosso tempo, nossa
concentração e nossa privacidade é um primeiro passo na
direção de fazer para nós mesmas.
Resgatar nossas prioridades é mais difícil. É aí que entra "não
mais". E óbvio que sempre haverá responsabilidades que
estaremos dispostas a assumir de cuidar dos outros, e coisas
generosas que desejaremos fazer para aqueles que estimamos,
mas isso ainda deixa muitas pequenas incumbências, funções
administrativas e favores de que poderíamos nos livrar. Eles
ficam no caminho de crescentes deveres de manutenção,
grandes prazeres e organização geral de que precisamos para
cuidar de nós mesmas e tirar vantagem dessa importante
transição em nossa vida. Quantas vezes, dia após dia, adiei
algo simples, como lavar meus cabelos, porque surgiram
necessidades familiares que me afastaram de minha lista de
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coisas a fazer? Tenho uma amiga, uma inveterada criadora
desse tipo de lista, que está tentando quebrar esse hábito
começando sua lista diária com um item para ela mesma.
Mesmo se já tem em mente vários itens para os outros, não
alivia a pressão anotando-os enquanto não anota esse.
Pretende continuar a fazer isso até aprender a fazer algo por
ela mesma todos os dias sem precisar desse estímulo.
Acho que isso vai demorar. Os velhos hábitos se mantêm. Um
dia desses, quase abri mão de um livro que estava gostando de
ler no metrô (em um dia em que usei o metrô várias vezes),
porque meu marido falou que poderia chegar cedo e poderia
ter algum tempo para começar a lê-lo. Não deixei o livro para
ele e, além disso, percebi que não havia me pedido para
deixar; aquela ideia era minha. Não mais.
Outro modo pelo qual podemos fazer para nós mesmas é nos
colocando lá fora. Agindo. Chamando atenção para nossas
realizações e capacidades. Somos mestres em imbuir outra
pessoa do que é preciso para se sobressair; conseguimos essas
credenciais no trabalho ou no relacionamento em que éramos
líderes de torcida e treinadoras, demonstrando muita
confiança e atiçando o fogo de correr riscos. O exemplo
clássico é a mulher que passa toda a sua vida trabalhando
como voluntária em campanhas políticas - bate em portas,
discute veementemente as posições políticas de seu candidato,
trabalha a noite inteira em impressos de campanha, incentiva
a equipe, apesar de más notícias ou probabilidades
desfavoráveis. Mas quando o candidato segue em frente ou
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desiste, ela algum dia se apresenta como candidata? Não pode
se imaginar solicitando dinheiro para ela mesma, discutindo
suas próprias ideias ou pedindo à equipe que a ajude a vencer;
isso "não é seu estilo". Para a maioria de nós, é quase
inconcebível buscar o poder em benefício próprio.
Mas, com um pouco de estímulo e muito do que a
antropóloga Margaret Mead chamava de "euforia pós-
menopausa", as mulheres estão se tornando mais assertivas,
algumas até mesmo as candidatas para quem teriam
trabalhado. Uma massa crítica de mulheres - embora elas não
cheguem nem a 50% - ocupa cargos estaduais e nacionais
elevados, e essas prefeitas, governadoras, congressistas e
senadoras estão se tornando Modelos Horizontais e mentoras
de mulheres que levantam fundos para obras de caridade
locais, são delegadas de conselhos escolares e agitadoras da
comunidade. Essa é uma batalha difícil, segundo Kathleen
Sebelius, governadora do Kansas. "Quando você pede às
pessoas que se apresentem para um desafio", disse ela à revista
More, "Os sujeitos que são burros como uma porta levantam
as mãos e dizem: 'Eu. Eu estou pronto.'" Já as mulheres
pensam: "Quando eu fizer os próximos três cursos de
contabilidade, estarei pronta.'"
Várias organizações, inclusive a Emily's List e White House
Project, foram criadas especificamente para treinar mulheres
nos princípios básicos de articular posições fortes e pedir
dinheiro e votos. Logo descobriram que também têm de
desentocar essas mulheres. Uma organização, o Women's
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Campaign Forum (WCF), fez um esforço de recrutamento
baseado na ideia de que todas as mulheres disseram em algum
ponto sobre outras: "Ela deveria estar governando esta
cidade." Qualquer uma pode citar essa mulher ou ela própria -
no website da organização. Quando o WCF entra em contato
com as candidatas, examina-as minuciosamente e incentiva as
melhores a concorrerem a um cargo apropriado.
Quando você combina as inovações que as mulheres na
Segunda Adolescência estão fazendo para si mesmas - falando
a verdade para o poder, aceitando novos desafios e assumindo
a postura de independência e autoridade de Os Cinquenta do
Dane-se - com a experiência do mundo, o know-how e a
confiança que acumularam até agora, tem uma poderosa
receita de uma boa candidata. Ou CEO. Ou produtora de
cinema. Ou magnata da construção.
Ou anjo do bairro. Uma rua não pavimentada pôs Lois em
ação. "Nossa rua não era pavimentada desde a década de 1980,
embora houvessem sido feitas muitas promessas", diz ela. Lois
decidiu lidar com o problema do modo como fazia em seu tra-
balho no escritório: "A responsabilidade acaba em mim. Então
um dia eu disse: 'Estou farta disso’. Colhi 35 assinaturas de
meus vizinhos. Fui como o anjo deles. Levei uma amostra da
rua para o prefeito — cascalho e pedras, porque essa era
minha prova. Disse: 'Eis uma petição. Queremos que a rua
seja pavimentada’. Ele disse: 'Você não tinha de passar por
tudo isso.' Observei: 'Em primeiro lugar, gosto do exercício.
Em segundo, encontrei vizinhos que não conhecia. E, em
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terceiro, há mais força nos números’. Agora minha rua será
pavimentada. Se eu apenas ficasse sentada reclamando, como
as outras pessoas, nada teria sido feito."
Os esforços para voltarmos às nossas próprias telas de radar
podem ser estimulados - mais uma vez - pelos ajustes
hormonais que estão ocorrendo. É como se a natureza
estivesse do nosso lado, empurrando-nos gentilmente do lado
de fora (o posto de enfermagem metafórico) para o palco dos
acontecimentos.
Com a menopausa, "os ovários param de produzir os
hormônios que estimulam os circuitos de comunicação e
emoção, o impulso de servir e cuidar e a ânsia de evitar
conflitos a todo custo", explica a dra. Brizendine. "Os circuitos
ainda estão ali, mas o combustível que aciona o altamente
sensível motor Maseratti para rastrear emoções começou a
acabar, e essa escassez causa uma grande mudança em como a
mulher percebe sua realidade... Ela não está obtendo a
recompensa da calmante oxitocina por servir e cuidar dos
filhos pequenos, por isso tende menos a estar atenta às
necessidades pessoais dos outros."
Para muitas de nós, é justamente nesse ponto - quando
reduzimos a marcha de nosso motor de cuidar e nos
concentramos em nossas prioridades - que nossos pais idosos
apresentam um número cada vez maior de necessidades
pessoais e uma irritação crescente conosco, suas filhas, que
tentamos (com certo ressentimento) satisfazê-los. A socióloga
e psicóloga Lillian Rubin escreve sobre a dinâmica familiar há
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quatro décadas. Agora, com 83 anos, acabou de vender sua
primeira pintura e escreveu seu 12a livro, Uncharted
Territory: Living the New Longevity, cuja premissa é
"Envelhecer é uma droga!". Parte dessa droga, argumenta ela,
são as necessidades de cuidados intergeracionais, situações
comuns em que algumas pessoas da idade dela cuidam de seus
cônjuges - o marido da própria Lillian tem Alzheimer - e/ou
são cuidadas por seus filhos.
Ela é particularmente perspicaz em relação à crise dolorosa e
comum de avaliar a competência dos pais. Os filhos "acham
que veem mais claramente a linha [entre a competência e
perdê-la, entre viver por conta própria e assistido]" e "forçam
os pais a uma decisão, na maioria das vezes por amorosa
preocupação, mas também porque precisam de algum alívio
da preocupação e do fardo", escreve ela. Mas os pais resistem.
"Resistem o máximo que podem, em geral não porque não
confiem nos filhos e nos motivos deles, embora em alguns
casos, sem dúvida, não confiem, mas porque a cada passo de
seu declínio lutam mais tenazmente para se agarrar ao que
restou. Sua consciência de si mesmos e seu amor-próprio
exigem isso." É egoísmo tomar a decisão pragmática aqui?
Cuidar dos outros pode diminuir nossa capacidade de fazer
algo para nós mesmas financeira e emocionalmente. Uma
pesquisa recente relatou que a despesa média anual dos 36
milhões de americanos que cuidam de um parente ou cônjuge
idoso é de 5.500 dólares, o dobro de estimativas anteriores e
mais do que a mesma família gasta com assistência médica e
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diversão, juntas. Essa despesa chega a 8.728 dólares quando
supermercado, custos médicos desembolsados e transporte são
computados. De onde vêm esses dólares? Empréstimos, férias
não tiradas, ignorar a própria assistência médica e poupança
de aposentadoria. E de onde vem o tempo - de 23 horas por
semana, entre as famílias de renda mais alta, a 41 entre as que
não podem pagar por serviços? Trabalho que produz renda,
cuidados pessoais, como se exercitar ou comer de maneira
mais saudável, tempo particular e outros relacionamentos.
Não é preciso dizer que a grande maioria das pessoas que
doam seu tempo são mulheres (na verdade, um dos principais
determinantes que levam os pais a passar seus últimos anos
em casa em vez de em uma instituição é ter filhas e noras). Se
você conhece alguma dessas mulheres, ajude-a a se livrar da
culpa ou da suposição desesperada de que pode fazer tudo
sozinha e está sendo "egoísta" apenas por pensar em alívio. Se
você é uma delas, encontre um grupo (há muitos recursos on-
line) ou uma pessoa a quem possa admitir seus "maus"
pensamentos e seu esgotamento emocional; peça ajuda e
depois deixe sua comunidade ajudá-la a colocar sua máscara
de oxigênio.
Cuidar além do ponto até onde nossos hormônios nos prepa-
raram para ir e à custa de nossa recém-descoberta
independência cria um dilema infernal. Como, nos
perguntamos desesperadas, podemos fazer para nós mesmas
nessa situação opressiva? Também nos fazemos outra
pergunta, que pode responder à primeira - como podemos
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evitar repetir essa situação quando chegar a nossa vez? "Não
quero terminar assim", dizemos do lamentável declínio. "Não
quero ser um fardo para meus filhos." O que exatamente
queremos dizer? Eu costumava pensar que estávamos testando
a noção de ter a saída nas próprias mãos. Em parte pode ser,
mas, em termos daquilo para o qual podemos nos preparar
agora, também significa desejarmos ser capazes de tomar
decisões mais eficazmente do que nossos pais quando chegar a
nossa vez.
Visto desse modo, um componente importante de fazer para
nós mesmas tem de ser dar às nossas necessidades futuras
tanta atenção quanto as pessoas que conhecemos dão às
necessidades daqueles de quem cuidam. Os detalhes da
manutenção diária e os sumidouros da burocracia também
acabarão dizendo respeito a nós. Eis a versão de amor severo
do que está em jogo: a renovação emocional que provém de se
nutrir com seus recursos interiores foi feita, mas, se você não
tratar da necessidade igualmente urgente de assumir o
controle de sua vida no mundo, desperdiçará tempo. Esta
urgência se aplica ainda mais às mulheres que ainda estão
conquistando igualdade e ganhando poder do que àquelas
com menos tempo e recursos com que trabalhar. Contudo, é
difícil obter a atenção delas. Ava, que era tão boa em cuidar
de sua vida emocional e profissional, não queria ouvir falar
em planejar para o futuro. "A aposentadoria e as realidades à
frente parecem distantes para mim", disse ela, "e não algo em
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que estou pensando ou sobre o qual desejo particularmente
ler."
Os esforços exigidos são pessoais, mas também comunitários
e, em última análise, políticos. Em uma palestra recente sobre
aposentadoria, foi perguntado às pessoas extasiadas na plateia
se elas tinham uma vaga ideia das realidades práticas à frente.
Como sempre, a resposta está em mais perguntas:

Onde você quer viver? E como quer viver - só ou com


outras pessoas (amigos, familiares, contemporâneos
com um modo de pensar parecido com o seu)? E como
essa situação se compara com sua situação atual?

Por quanto tempo planeja trabalhar? Você sabe se tem


escolha? Deseja mudar o tipo de trabalho que faz? Se
deseja, precisará de treinamento? Ou, caso queira abrir
um negócio, quanto tempo demorará para desenvolvê-
lo?
Quanto dinheiro precisará administrar? Você sabe
como calcular isso? Se não souber, sabe onde procurar
ajuda? E de que fontes esse "cheque de pagamento"
virá? Se você não tem um pé-de-meia adequado, o que
pode fazer daqui para a frente?
Você tem redes de segurança? Que tipo de assistência
(seguro, consultores confiáveis, equipe médica, grupo
de apoio) forneceu para si mesma?
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Você tornou seus desejos conhecidos? Que tipo de
assistência ou suporte quer fornecer para seus
dependentes? Que providências tomou para garantir
que suas diretrizes médicas serão conhecidas?

Como suas respostas mudariam se sua situação mudasse


de ser uma parceira para ficar só - ou vice-versa?

Pode ser difícil projetar seu estilo de vida futuro, e talvez seja
preciso um pouco de esforço e desconforto para obter a
competência de que precisa para ser realista em relação a isso.
Por exemplo, a simples pergunta sobre onde viverá gera uma
infinidade de duras verdades. Em primeiro lugar, é razoável
presumir que mais cedo ou mais tarde cada uma de nós terá
de planejar uma nova situação de vida para si mesma. A
probabilidade estatística é a de que, independentemente de se
vivemos sós ou não agora, metade de nós enviuvará ou se
divorciará por volta dos cinquenta anos, e a maioria das
mulheres acabará passando por isso.
Se formos forçadas a pensar nessa possibilidade, o modelo das
Golden Girls - um grupo de mulheres afins que fazem
companhia umas às outras, se apóiam, dividem tarefas e riem
muito - será uma das fantasias favoritas. Mas a realidade de tal
arranjo é muito mais complicada. Se as mulheres quiserem
que isso funcione, terão de fazer um acordo de
compartilhamento de vida que, entre muitas outras
obrigações contratuais, antecipe o que farão se uma delas ficar
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cronicamente doertte, perder sua renda ou quiser vender sua
cota.
Contudo, ir dando um jeito à medida que as coisas acontecem
é um padrão típico - e precário. Pat, de 72 anos, fez isso
funcionar — até agora. "Aprendi a aceitar ajuda dos amigos",
diz ela. "Somos um grupo de umas 18 pessoas, a maioria
mulheres, mas também alguns homens, que se ajudam. Antes
eu enfrentava as situações do modo difícil. Por exemplo, se
acordasse de manhã e o carro não ligasse, ia a pé para o
trabalho. Não faço mais isso. Telefono para alguém. Ou, se
alguém tem um problema, telefona para mim. Temos um
sistema de apoio mútuo. E nós aprendemos seguindo em
frente."
O que para Pat é um exercício de improvisação, para
Charlotte Frank é um desafio que precisa de um plano de
jogo. As cores vibrantes que ela costuma usar refletem sua
visão alegre do mundo. Charlotte é uma organizadora nata,
que lida com as transições da vida desejando criar e partilhar
recursos. Fez isso durante toda a sua Segunda Adolescência.
Depois de se aposentar de seu cargo executivo, foi co-
fundadora da TheTransition Network (TTN), "a primeira
comunidade de troca de recursos e apoio para mulheres com
habilidades, energia e competência que queriam continuar a
usar estas habilidades em novos contextos". Nos dez anos
seguintes, ela usou suas próprias habilidades, energia e
competência para transformar a TTN em uma organização de
âmbito nacional. Na mesma década, seguiu com sua própria
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vida e está passando por um novo tipo de transição: da
independência para o apoio.
Recentemente Charlotte, que mora sozinha e não tem filhos,
teve uma doença de curta duração durante a qual precisou de
ajuda de amigas e vizinhas. Esta experiência a inspirou a
descobrir como era aquilo para outras mulheres em sua
situação. Surgiram alguns temas claros e recorrentes. "Elas
achavam que pedir ajuda era muito pessoal e uma obrigação
imposta aos outros", diz Charlotte. "E admitiram que oferecer
ajuda também não era necessariamente fácil." Para tirar
proveito da evidente disposição de ajudar e satisfazer a
ocasional necessidade de ajuda, era preciso um plano para
mobilizar os recursos da comunidade nos momentos de crise.
Charlotte tratou de traçar um programa-piloto para engajar a
The Transition Network na ajuda a membros com problemas
de saúde e também para transformar seu prédio de
apartamentos, na cidade de Nova York, em uma "comunidade
vertical de assistência".
Como um pacto entre as participantes do programa, Charlotte
escolheu o modelo de banco de horas — "horas dedicadas a
servir serão acumuladas e trocadas por horas de assistência" -,
isso havia funcionado em várias outras comunidades. Para
fazer suas vizinhas aproveitarem ao máximo os recursos
disponíveis, ela está desenvolvendo diretrizes para usar
organizações, como o Visiting Nurse Service, e descobrir
outras menos conhecidas que podem ter um papel nisso. Uma
que ela descobriu fornece treinamento de resposta a
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emergências para funcionários de prédios, frequentemente as
primeiras pessoas a serem chamadas. E Charlotte está se
tornando uma especialista nos programas que estão sendo
criados para apoiar o assim chamado movimento de
envelhecimento na comunidade.
Seu objetivo, diz ela, é "demonstrar que as comunidades
informais são uma parte essencial do sistema de prestação de
cuidados de saúde. Que lugar melhor para começar do que as
organizações a que as pessoas pertencem e os lugares em que
vivem?". Especificamente, o programa-piloto "testará modos
de engajar a administração, desenvolver uma base de dados de
contatos de emergência, determinar e lidar com questões de
responsabilidade e organizar pessoas residentes de modo a
que realmente se vejam como vizinhas" e como "uma unidade
de serviços". O objetivo é ter um plano a ser posto em prática
assim que for necessário. O plano antecipa problemas típicos,
como levar uma pessoa a uma consulta médica ou ao
supermercado, ou ajudar alguém a lidar com uma pia cheia de
pratos ou um grave problema de encanamento. Todos os
participantes saberão o que se espera que façam e o que
podem esperar da comunidade.
O que uma determinada mulher pensa sobre "aposentadoria"
é uma questão determinante, mesmo antes de o cálculo
financeiro entrar em jogo. Isso afeta as decisões sobre onde
viveremos e apresenta uma série totalmente nova de
necessidades emocionais. O trabalho tem um papel tão
importante na vida da maioria das mulheres que a opção de
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abrir mão dele envolve um arsenal de padrões de toda uma
vida e afirmações pessoais, assim como esperanças e medos.
Como salientam Jeri Sedlar e Rick Miners, em seu livro Don't
Retire, REWIRE! É importante "saber o que você está
deixando para trás, quando se aposenta, e depois descobrir
como substituí-lo no futuro". Para muitas pessoas, o aspecto
mais importante de trabalhar, fora o dinheiro, é a
comunidade. Se o trabalho contribui muito para nossa
identidade, temos de encontrar modos de a aposentadoria
fazer o mesmo.
Para muitas pessoas, isso significa se aposentar, mas arranjar
outro trabalho. A boa notícia para nós, no mercado de
trabalho, é que, devido à crescente fuga de cérebros, há cada
vez mais oportunidades para pessoas que têm habilidades
(geralmente "habilidades interpessoais" — nossa especialidade
— para a prestação de serviços) ou estão dispostas a se reciclar
profissionalmente. Horário de trabalho flexível está se
tornando uma opção mais realista. Em grande parte devido à
dificuldade de repor o suficiente de sua renda, a percentagem
de pessoas acima de 55 anos na força de trabalho aumentou de
18% em 1986 para 29% em 2006. Muitas estão reinventando
suas vidas profissionais. Recentemente li sobre um casal que
deixou suas posições de vendas de alta pressão e fez
reciclagem profissional como motoristas de caminhão.
Não importa que modelos e sonhos somos capazes de articular
e até mesmo planejar, a simples verdade é que todas as
Estradas de Tijolos Amarelos precisam ter um sinal de parada
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ao lado de um banco. E o quadro financeiro para as mulheres
mais velhas não é bom. Quase um terço das solteiras acima de
65 anos são classificadas como pobres, e isso não é totalmente
culpa delas. "A realidade da vida das mulheres torna quase
impossível economizarem adequadamente para a
aposentadoria", diz Laurie Young, diretora executiva da Older
Women's League (OWL). "Não é porque estejam fazendo algo
errado." Ela acrescenta: "O sistema está realmente colocado
contra elas." Para citar apenas duas estatísticas: embora
tendamos a viver sete a nove anos a mais do que os homens,
não costumamos ter um plano de pensão. Para cada ano em
que deixamos a força de trabalho para cuidar de filhos ou pais,
são precisos cinco anos para compensar a diferença em nossa
aposentadoria e planos de pensão.
Para piorar ainda mais as coisas, a maioria das mulheres chega
à Segunda Adolescência com algum tipo de preocupação
financeira. As duas mais comuns são a convicção básica de
que ela simplesmente não consegue entender a matemática
(porque é uma garota) e a síndrome da mendiga, um pesadelo
recorrente em que não importa o quanto trabalhe ela
acordará um dia sentada no meio-fio com nada além de
algumas posses em sacolas de compras ao seu lado. Essas
preocupações e quase todas as outras que ouvi revelam uma
suposição em comum: de que o destino financeiro da mulher
está fora do controle dela, nas mãos de alguma versão do
príncipe encantado ou do próprio destino. Uma mulher, que
estava se saindo bastante bem até estourar o limite de seu car-
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tão de crédito para pagar uma cirurgia dentária inesperada,
em 1999, tinha uma fantasia singular: "Rezava para que,
quando o novo milênio chegasse, todas as informações do
cartão de crédito fossem apagadas." Reverter esse paradigma
de impotência é uma das exigências mais difíceis para
inventar o resto de nossa vida.
Lois, por exemplo, que teve autoconfiança para mobilizar a
vizinhança para pavimentar a rua, hesita em realizar seu
sonho maior e possivelmente lucrativo. "O que eu realmente
gostaria de fazer é abrir meu próprio centro de cuidados
diurnos para animais. Mas é preciso muito dinheiro. Você
tem de ter seguro. Eu precisaria de apoio, o que é difícil de
conseguir. Todos têm um sonho. É por isso que jogo na
loteria."
Depois de escrever sete livros sobre o tema, a guru das
finanças pessoais Suze Orman achou que sabia tudo sobre
dinheiro e como as pessoas lidam com ele. Então ficou
chocada ao descobrir que as mulheres que conhecia, muitas
das quais eram executivas bem-sucedidas que administravam
grandes orçamentos para suas empresas, ficavam, como Lois,
secretamente angustiadas com a perspectiva de administrar as
próprias finanças. E ficavam angustiadas de um modo
feminino muito específico. Em seu oitavo livro - apenas para
mulheres —, Orman se tornou uma voz apaixonada por fazer
para si mesma. "Creio que o problema básico é universal:
quando se trata de tomar decisões financeiras, você renuncia
ao seu próprio poder, a agir em seu melhor interesse. Isso não
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é uma questão de inteligência; você definitivamente tem o
que precisa para entender o que deve fazer." Então o que é?
"Você simplesmente não consegue cuidar de si mesma
financeiramente, especialmente se isso compete com cuidar
daqueles que ama." É óbvio que pode ver a Lição de Vida
surgindo. Você deve, insiste Orman, deixar de "fazer para
todos antes de fazer para si mesma".
Minha amiga Angela realmente chegou ao fundo do poço
alguns anos atrás. Seu "grande erro financeiro foi auto-engano
e falso orgulho. Eu fingia saber mais do que sabia, porque não
queria parecer 'estúpida'". O que acabou com ela, admite
Angela, "foi deixar meu coração governar minha cabeça":

Eu estava envolvida com um homem que ganhava muito


dinheiro e era muito generoso comigo. Presumi que sempre o
teria como minha "rede de segurança", se as coisas realmente
começassem a dar errado. Na verdade, tínhamos investido em
varias coisas juntos, que deram muito certo. O que nunca
planejei ou imaginei foi que ele acabaria falido e preso por má
conduta financeira - e que sua queda em desgraça me
arrastaria junto.
Não só ele perdeu o dinheiro que investimos juntos como,
durante sua queda, tentei ajudá-lo, lhe emprestando uma
grande soma, porque realmente acreditava que conseguiria se
levantar e recuperar suas perdas. Nada disso aconteceu.
Quantas vezes, ao crescer, ouvi mulheres sábias dizerem:
"Não misture amor com dinheiro"? Sempre segui essa regra
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até ficar completamente apaixonada. E, desde então, tenho
me recriminado.

Olhando para trás, ela se junta ao coro de mulheres que


desejariam ter se dado ao trabalho de buscar bons conselhos
financeiros:
Embora eu tivesse economizado o que considerava uma boa
quantia, nunca realmente incluí os tempos difíceis em meu
planejamento financeiro. Nunca planejei gastar uma enorme
soma em assistência em casa 24 horas por dia para minha
mãe, durante seu último ano de vida. Nunca pensei que
poderia perder meu emprego - e perdi. Nunca pensei que
encontraria obstáculos quando tivesse de procurar outro - e
encontrei. Tudo isso — as ações de empresas de alta tecno-
logia, o homem, minha mãe, a perda de meu emprego -
aconteceu quase ao mesmo tempo e fiquei atordoada
emocionalmente. Agora percebo que mesmo então, se tivesse
tido presença de espírito para buscar conselhos financeiros,
poderia ter evitado o desastre. Mas não fiz isso.

Uma pesquisa da AARP descobriu que a maioria das mulheres


não sabia ao certo se suas finanças sobreviveriam a qualquer
uma das dificuldades de Angela, quanto mais ao resto de suas
vidas. Algumas achavam que, independentemente do quão
bem tivessem planejado, poderiam "durar mais que seu
dinheiro". As nascidas no pós-guerra, em particular, não
tinham certeza de sua capacidade de sair do buraco do cartão
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de crédito no qual sabiam que estavam; outras respondentes
tinham uma leve esperança de que "as coisas darão certo".
Obviamente, cada uma de nós - e estou falando o mais alto
que posso para mim mesma e Ava — precisa se sentar com
um livro, consultor, contador ou amigo experiente e examinar
os números, as apólices de seguros, os benefícios da
aposentadoria, os planos de saúde e os cartões de crédito.
Essa não é uma conversa fácil de se ter com um especialista, e
é ainda mais difícil tê-la com um membro da família. Jackie,
outra co-autora de This Is Not the Life I Ordered, lembra-se
vividamente de suas tentativas de conversar com o marido
sobre o seguro de vida dele.

Eu vivia insistindo em que o renovasse. Meu marido me dizia


que estava ocupado demais para fazer o exame físico exigido.
Ele se cansou de me ouvir falar naquilo e gritou: "Jackie! Está
planejando me matar? É por isso que está insistindo tanto no
seguro?" Parei de tocar naquele assunto. Três meses depois,
ele morreu, me deixando grávida e com um filho de cinco
anos. Tive menos de 45 dias para desocupar a casa de nossos
sonhos em Chateau Drive - uma casa que não podia mais
pagar. Jackie passou por anos difíceis e agora usa sua história
para galvanizar outras mulheres para quem não é tarde
demais. "Hoje reproduzo em minha mente aquela conversa
sobre o seguro de vida... Gostaria de ter dito: "Steve, essa
situação não tem a ver comigo. Tem a ver com nossos filhos e
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a qualidade de vida deles se algo acontecer a você. Não estou
sendo mórbida. Estou sendo responsável financeiramente."

Responsável é a palavra operante aqui. Fazer para si mesma


não "tem a ver comigo"; tem a ver com assumir
responsabilidades práticas e emocionais pelo resto da vida.
Sim, isso inclui controlar o talão de cheques e cuidar da
saúde, mas também remediar o passado, rever padrões de vida
e reagir do melhor modo possível ao que o dia traz. Não faz
muito tempo, ouvi o Dalai-Lama descrever os princípios do
budismo e tive um insight especialmente oportuno: "Você é
seu próprio refúgio. Seu próprio mestre." Se negligenciarmos
qualquer uma dessas capacidades, teremos pouco para dar a
nós mesmas — e aos outros. As mulheres que têm ambas -
estão se nutrindo com seus próprios recursos e revelando sua
própria mestria - descobrem que esse processo, na verdade, as
leva para fora de si mesmas. Quanto mais ricas e poderosas se
sentirem, mais poderão ser eficazes no mundo e engajadas em
tornar as coisas melhores para os outros. A generosidade, não
o egoísmo, é o impulso de um eu bem cuidado.

A LIÇÃO: Cuidar de si mesma não tem nada a ver com


egoísmo e tem tudo a ver com sobrevivência. Não tem a ver
com submissão aos desejos, mas com assumir a
responsabilidade por sua vida prática e emocional. Para fazer
seu jardim florescer, você precisa nutrir suas raízes, podar
sabiamente para fortalecer o caule e colher os frutos com
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cuidado. Também precisa estar pronta para se proteger, não
só proteger os outros, quando o tempo ficar ruim.

LIÇÃO SETE
A velhice não é uma doença

"Minha melhor amiga me contou que, quando se desculpou


com uma amiga escocesa por ter se esquecido de algo, dizendo
que havia tido um 'momento de senilidade', a amiga lhe disse:
'Isso não é mais chamado assim. É chamado de CRAFT’. 'O
que é CRAFT’? Perguntou minha amiga.
A escocesa respondeu: 'Can't remember a fucking thing’.

O k, tenho algo em que vocês não vão acreditar, anunciei


para as amigas com quem janto uma vez por mês. Todas
elas se inclinaram para a frente. "Olhos secos", disse. Em
nosso relatório contínuo dos "desafios" que nossos corpos
apresentam (em parte, suspeito, para nos certificarmos de que
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a última enfermidade é "normal"), revelei algo extraordinário.
Ao procurar nas prateleiras da farmácia por lubrificante para
lentes de contato, vi toda uma série de produtos "para olhos
secos devido ao envelhecimento". Quem sabia disso?
Enquanto víamos nossas cinturas desaparecerem e os pescoços
se encherem de dobras, nossos olhos estavam secando! Todos
os dias, de todos os modos, nossos corpos confirmam a
sabedoria da mulher anônima que disse: "Não se leve muito a
sério; ninguém mais leva!"
As ironias são muitas. Justamente quando estamos ficando
mais ousadas emocional e psicologicamente, algumas de nós
precisam ser mais cuidadosas fisicamente, segurar em
corrimões, não correr para pegar o ônibus, trocar a esteira
ergométrica por um aparelho elíptico. Justamente quando
estamos nos tornando mais confortáveis com quem somos
interiormente, sinais exteriores desconcertantes do
envelhecimento podem tornar nossa aparência irreconhecível
e solapar nossa autoconfiança.
Por outro lado, nosso cérebro, nossa vida sexual, a consciência
que temos de nosso lugar no mundo, apesar da diminuição de
nossa aptidão e ímpeto, refletem um revigorante aumento de
uma sensação de mestria. Simplesmente somos melhores do
que nunca em viver.
O truque, segundo o dr. Sherwin Nuland, é "jogar apenas com
seus pontos fortes". O conselho dele se aplica além dos limites
do corpo físico. "Alguns desses pontos fortes, mais
significativos, podem não ser nem um pouco menores do que
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um dia foram. As últimas décadas de vida se tornam o tempo
para suas capacidades encontrarem um foco direto, e assim
aumentar a força de seu valor concentrado."
A "euforia pós-menopausa" que Mead identificou - o grande
prazer de novos horizontes, a auto-expressão desinibida e o
entusiasmo geral - também são parte de nosso perfil de
energia. Estamos esquentando de mais de um modo. (Há uma
camiseta maravilhosa com o slogan: "Isso não é uma onda de
calor! É uma explosão de energia!") A mensagem de que você
não é quem era, só é mais velha se aplica de dois modos
importantes quando se trata do corpo. Em primeiro lugar, seu
corpo não está simplesmente caindo aos pedaços - só está mais
velho; seu corpo está se reagrupando e seu relacionamento
com ele está se tornando mais focado e de apoio mútuo.
Muitas mulheres até mesmo descobrem que, como um
resultado do despertar do respeito por seu corpo e bem-estar,
estão em melhor forma do que jamais estiveram. Ao mesmo
tempo, você se torna consciente de novas dimensões de seu
ser físico. Os prazeres sensuais e os desafios atléticos
importantes agora são diferentes dos que tinham grande
importância, quando você era quem era, em fases anteriores
de sua vida.
Continuo a encontrar mulheres que descobriram a alegria de
dançar salsa ou a possibilidade de férias fazendo caminhadas
ou praticando ciclismo. Outras, como Ava, correm com mais
foco do que no passado. Também conheço mulheres para
quem as mudanças físicas têm um efeito propagador em seu
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estilo de vida. Para Tichrahn, que vê sua Segunda
Adolescência como uma jornada espiritual, "adaptar-se às
mudanças que a gravidade traz e mudar a rotina de exercícios
é importante para permanecer sintonizada com sua voz
interior". As novas rotinas dela são amigas da gravidade e
espiritualmente energizantes. "Gosto de caminhar na mata,
sempre descobrindo novas energias em novos lugares
secretos, o que me ajuda a permanecer conectada com a terra
e as vozes interiores da criatividade. Também ando de
bicicleta no parque. O vento em meus cabelos e a liberdade
de pedalar deixam a criança em mim fluir e reafirmam o
lúdico como guia."
Mary está tendo um pouco mais de dificuldade em descobrir
sua realidade, "amiga da gravidade", para substituir sua
fantasia atlética. "Tenho em mente essa ideia de que antes da
puberdade era atlética e do tipo amante do ar livre. Na vida
adulta, ansiei por recuperar essa sensação, mas parece que há
um pouco de interferência do lado esquerdo de meu cérebro.
Ele diz: 'Fique em casa, veja TV ou passe um tempo no
computador’. Alguém certa vez me disse que preciso fincar os
pés no chão e ficar mais frequentemente atenta à sensação
que isso produz. Sinceramente, estou tentando fazer isso,
agora que estou quase aposentada, mas há um ponto
indistinto no cérebro que evita a atividade física sempre que
pode."
A velhice não é uma doença, portanto cuidar do corpo não
tem a ver com se recuperar de colapsos, mas com aumentar e
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manter aqueles pontos fortes de que o dr. Nuland fala.
Também tem a ver com desenvolver habilidades de
comunicação melhores com seu eu corpóreo, captando as
mensagens que a ajudarão a concentrar sua atenção no que é
necessário.
Sabemos algo sobre manutenção devido ao esforço que
dedicamos o tempo todo a cuidados menores com nossa
aparência. Estamos muito familiarizadas com a escalada da
manutenção cosmética — apenas aparar os cabelos ou mudar
de corte, usar condicionador e finalmente tingi-los. Ou com
cuidados com a pele - de molhar e limpar, depois hidratar e
hidratar profundamente, fazer peeling e assim por diante. A
medida que os anos vão passando, essa manutenção se torna
mais intensa, consome mais tempo e - no que diz respeito ao
meu grupo à mesa de jantar - frequentemente fica mais
absurda. (Uma amiga afro-americana salienta que, pelo menos
de uma coisa, está dispensada. Quando comentei sobre sua
pele lisa, ela respondeu: "Todos sabem que os negros não
ficam com rugas.")
O outro tipo cada vez mais crucial de manutenção consome
ainda mais tempo e é mais caro. Inclui o check-up regular "só
para saber como estão as coisas" e acompanhamentos: uma
ma-mografia, uma colonoscopia e um exame completo de um
dermatologista. (Recentemente um exame desses revelou um
melano-ma na sola dos pés de uma amiga.)
A ideia de manutenção ativa — ou cuidadosa - ficou clara
para mim no final de uma dessas consultas. O dermatologista
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examinava meu couro cabeludo como um lêmure carinhoso,
quando criei coragem para lhe perguntar sobre experimentar
Rogaine, o tratamento contra calvície, para meus cabelos que
começavam a rarear. Realmente esperava que ele confirmasse
o que amigas bem-intencionadas me diziam - "Não sei do que
você está falando" - em vez de o que eu via, embora em um
espelho de aumento. Ou, se ele confirmasse minha
observação, que dissesse que conhecia alguma versão para uso
médico que devolveria aos meus cabelos sua antiga glória. A
resposta do dermatologista não foi nenhuma destas. "Claro",
disse ele. "Experimente Rogaine. Mesmo se seus cabelos não
voltarem a crescer muito, isso evitará que fiquem piores."
"Mas", choraminguei, "ouvi dizer que é preciso usá-lo pelo
resto da vida." "Certo", disse ele. "Isso se chama manutenção."
Com essa conversa, minha compreensão do que meu corpo
exigia de mim mudou. Embora estivesse tentando me livrar
de responsabilidades, esta era uma que teria de assumir. Um
estilo de vida saudável não é suficiente. Permanecer bem
exige vigilância e muita atenção para evitar que as coisas se
deteriorem mais ou mais rápido. Manutenção cuidadosa.
Como diz o dr. Andrew Weil, a ideia de "envelhecer
graciosamente" não tem a ver com dedicar grande quantidade
de energia preciosa - nossa "euforia" - a lutar contra o
processo, mas com deixar "a natureza seguir seu curso e, ao
mesmo tempo, fazer todo o possível para adiar as doenças
relacionadas com a idade".
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Se há um mantra que se aplica a quase todos os desafios da
Segunda Adolescência, de lidar com nossos entes queridos e
reinventar nossa vida a cuidar da saúde, é a Oração da
Serenidade: "Concedei-me, Senhor, a Serenidade necessária
para aceitar as coisas que não posso modificar, Coragem para
modificar aquelas que posso, e Sabedoria para distinguir umas
das outras." Perceber a diferença entre as inevitabilidades
relacionadas com a idade e as condições que exigem atenção é
uma habilidade que precisamos aperfeiçoar persistente e
continuamente. Por exemplo, embora seja comum os cabelos
rarearem, pontos de calvície podem ser um sinal de doença
autoimune. De igual modo, embora seja difícil evitar uma
barriga saliente, o ganho de peso pode aumentar o risco de
doença cardíaca e diabetes. Espere amarelamento dos dentes,
mas gengivas vermelhas são um sinal de gengivite. E por aí
vai.
"Embora a idade não traga necessariamente sabedoria, o en-
velhecimento a exige", escreveu o bom dr. Nuland. "Em
estágios anteriores da vida, as coisas tendem a se resolver
sozinhas. Não requerem a atenção constante e prudência de
que precisamos para lidar com nossas décadas posteriores."
Uma combinação comum entre aquilo que se deve aceitar e
aquilo com que se deve lidar pode levar uma mulher cuja
libido parece estar desaparecendo a concluir que sua vida
sexual terminou. Mas problemas de tireóide, depressão,
diabetes, medicação (inclusive, ironicamente, antidepressivos)
tendem igualmente a ser a causa tratável disso. Um exemplo
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particularmente prático da importância de perceber a
diferença foi citado por uma médica com quem conversei:
"Você fala sobre as coisas que queremos mudar ou apenas
temos de aceitar", começou ela, "mas realmente quero que
saiba que a incontinência urinária não é uma delas. Na
verdade, deixei minha carreira de 18 anos como ginecologista
comum para me tornar especialista em uma nova área da
ginecologia, chamada uroginecologia, que trata especialmente
disso." Ela é uma das muitas médicas que estão encontrando
satisfação pessoal e profissional cuidando de mulheres como
elas mesmas. "Adoro trabalhar - e estar - com mulheres da
minha idade", explica com um sorriso.
A Oração da Serenidade omite um detalhe crucial de sabedo-
ria: os benefícios para a vida de rir com amigas. Uma paródia
da Oração da Serenidade compensa esta falha. Chamada de
Oração da Senilidade, diz o seguinte: "Concedei-me, Senhor,
a senilidade para esquecer as pessoas de quem nunca gostei
mesmo, a sorte de estar perto daquelas de quem gosto e a
visão para distinguir umas das outras."
Enquanto cada uma de nós faz os ajustes necessários para o
que está acontecendo com o corpo, ele está em um modo de
manutenção dinâmico. Faz seus próprios ajustes para superar
algumas das limitações que a idade traz. O cérebro, por
exemplo, desenvolve uma infinidade de sistemas à prova de
falhas para compensar a diminuição do ritmo de trabalho na
linha de frente.
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As mulheres são especialmente bem-dotadas nessa área;
durante toda a nossa vida, nossos cérebros apresentam muito
mais comunicação entre os hemisférios do que o cérebro dos
homens, e muito mais áreas cerebrais estão envolvidas em
funções-padrão; uma falha relacionada com a idade ou um
enfraquecimento em uma área são compensados pelos bem
estabelecidos sistemas auxiliares. Como frequentemente
hesito em começar a expor um ponto de vista muito
interessante em uma conversa, porque não consigo encontrar
uma palavra-chave em minha mente, meu estudo favorito do
fenômeno da compensação é sobre vocabulário. Descobri que,
embora realmente não encontremos palavras quando falamos,
também usamos muito mais palavras do que usávamos
quando éramos mais jovens. Ou seja, o cérebro compensa uma
palavra perdida com todo um dicionário de sinônimos que se
tornam disponíveis quando falamos.
Em um ensaio chamado "Song to Sensuality", Maya Angelou
identifica outra reconfiguração de input físico, uma nova
dimensão de prazer que é muito especial e profunda.
"Cheguei à idade fascinante em que posso admitir que a
sensualidade me satisfaz tanto quanto a sexualidade, e às
vezes mais", escreve ela. "Embora olhares maliciosos e sorrisos
lascivos possam querer dizer o contrário, a sensualidade não
leva necessariamente ao sexo, e tampouco deve ser um
substituto para o sexo. A sensualidade é sua própria
recompensa. [...] gosto de vestidos vermelho-tomate de verão
e da cor do mogno bem encerado. Adoro o verde-escuro das
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florestas tropicais e o amarelo vivo de uma tigela de limões.
Deixe minha visão ansiosa repousar no preto profundo de
uma noite sem estrelas e no branco intenso do linho novo.
[...]"
A mensagem aqui é que estamos fisiologicamente em um
circuito de espera confiável de bem-estar que, se
cuidadosamente mantido, nos sustentará até realmente
ficarmos doentes. Para citar apenas um exemplo: embora a
doença cardíaca seja a principal ameaça para as mulheres que
envelhecem, o coração não está parando de funcionar. "As
características mais notáveis da resposta do sistema
cardiovascular ao envelhecimento são as duas [...] que
partilha com todos os outros órgãos e tecidos do corpo",
escreve o dr. Nuland. "Sua extrema variabilidade de uma
pessoa para outra e sua contínua competência para fazer seu
trabalho perfeitamente em condições normais, mesmo
quando não pode mais lidar tão eficazmente com desafios
maiores."
Mas como saber se a "contínua competência" está sendo
ameaçada? Aprender a ler as mensagens que o coração, para
ficar com este exemplo, envia exige aquela importante
capacidade de "perceber a diferença", em parte porque só
estamos começando a entender como o corpo feminino "fala"
(no passado, a maioria dos estudos de doenças era apenas
masculino). E como passamos muito tempo falando
duramente com nossos eus com uma aparência menos
perfeita, não nos acostumamos a ouvir. Os sintomas de ataque
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cardíaco em mulheres são extremamente sutis, facilmente
ignorados por uma mulher ocupada e desconsiderados por seu
médico. Muitas mulheres deixam sinais de aviso, como um
vago mal-estar ou dor nas costas, persistirem por tempo
demais por medo de parecerem bobas ou incomodar o
ocupado médico.
Oferecendo-se como um Modelo Horizontal, uma mulher
estava tão ansiosa por transmitir sua mensagem que encheu
seu universo de e-mails com a história de como seu corpo
comunicou o "ataque cardíaco". No caso dela, os sintomas não
foram tão sutis como costumam ser, mas tampouco o aperto
no peito que vemos nos filmes. O relato desta mulher também
apresenta alguns indicadores da situação de estar totalmente
só quando isso acontece, que todas nós tememos.

Em uma noite fria, sentada e bem aquecida com meu gato


ronronando no colo, lia uma história interessante que uma
amiga me enviara e pensava: "Aah, isto é que é vida, ficar bem
quentinha e aconchegada em minha poltrona reclinável com
os pés para cima."
Um minuto depois, senti aquela horrível sensação de
indigestão, como quando você está com pressa, dá uma
mordida em um sanduíche e toma um gole de água, e esse
pedaço de sanduíche parece uma bola de golfe que desce
muito desconfortável e lentamente pelo seu esôfago. Você
percebe que não devia tê-lo engolido tão rápido e precisava
mastigá-lo melhor, e então bebe um copo de água para
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apressar sua descida para o estômago. Essa foi minha sensação
inicial — o único problema é que eu não tinha comido nada
desde as cinco horas da tarde. Depois que essa sensação
passou, a próxima foi a de pequenos apertos que pareciam
subir pela ESPINHA DORSAL (minha percepção tardia é a de
que provavelmente foram espasmos da aorta), ganhando
velocidade até chegarem embaixo do esterno. Esse processo
fascinante continuou até a garganta e se irradiou pelos
maxilares. ARRÁ! ENTÃO parei de tentar descobrir o que era
— todos nós já lemos sobre dor nos maxilares ser um dos
sinais de infarto do miocárdio, não é?
Disse em voz alta para mim mesma e o gato: "Meu Deus, acho
que estou tendo um ataque cardíaco!" Abaixei o apoio para os
pés, tirei o gato do colo, comecei a dar um passo e caí no
chão. Pensei: "Se isto é um ataque cardíaco, eu não deveria
estar caminhando para a sala ao lado onde está o telefone ou
para nenhum outro lugar... mas, se não fizer isso, ninguém
saberá que preciso de ajuda, e se esperar, talvez logo não possa
mais me levantar." Eu me ergui, apoiando-me nos braços da
cadeira, caminhei lentamente para a sala ao lado e liguei para
os paramédicos. Disse à telefonista que achava que estava
tendo um ataque cardíaco devido à pressão crescente embaixo
de meu esterno que se irradiava para os maxilares. Ela disse
que enviaria os paramédicos imediatamente, perguntou se eu
estava perto da porta da frente e, caso estivesse, pediu-me que
a destrancasse e me deitasse no chão onde eles pudessem me
ver quando entrassem. Então me deitei no chão, conforme as
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instruções, e perdi a consciência. Não me lembro de os
paramédicos entrarem, me examinarem, me colocarem na
maca ou na ambulância, ou de tê-los ouvido telefonando para
o setor de emergência a caminho do hospital. Mas acordei
brevemente quando chegamos e vi que o cardiologista já
estava ali com sua roupa e touca azul, ajudando os
paramédicos a tirar minha maca da ambulância... perdi a
consciência de novo e só voltei a mim quando o cardiologista
e seu assistente já haviam inserido o pequeno balão de
angiografia em minha artéria femural até a aorta e o coração,
onde instalaram dois stents lado a lado, para manter aberta
minha artéria coronária direita.

Continuando a falar de coração, Joanne teve um ataque


cardíaco de um tipo totalmente diferente. Seu corpo tentava
lhe dizer algo vital, mas ela demorou um pouco para fazer a
conexão entre ele e sua alma.

No ano passado, aventurei-me de novo no mundo do namoro


(!). Quando o relacionamento era emocionalmente saudável,
eu ficava fisicamente bem. Contudo, em dois relacionamentos
diferentes, meu corpo adoeceu quando o relacionamento
ficou doente.
Durante o primeiro relacionamento, tive mononucleose (!) e
também acordei com uma disfunção do nervo radial que
resultou em semanas de terapia. Quando o relacionamento
terminou, senti-me mais forte fisicamente.
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Meu segundo relacionamento durou cerca de seis semanas. A
ironia é que a semana de seu fim (que foi um fim rápido, sem
lamentações, embora eu ainda estivesse envolvida) foi a
mesma em que fui ao médico e fiquei sabendo que tinha uma
infecção interna.
Portanto, minha lição é prestar atenção ao meu corpo ao
pensar em me envolver de novo - meu corpo parece saber o
que escolho não reconhecer.

Outra mulher tornou-se especialista na arte de associar os


sintomas físicos ao seu estado de espírito. "Quando, por
exemplo, tenho uma infecção no trato urinário", explica ela,
"sei que estou nervosa com alguma coisa, e tenho de descobrir
o que é."
O papel de eu-te-avisei que o corpo de Joanne representou
em seu despertar para as más escolhas tem aplicações e
implicações mais amplas do que a maioria de nós reconhece.
Nunca é demais nos lembrarmos de que o estresse - o grito do
corpo por alívio das pressões da vida — nos desequilibra. O
estresse também torna mais difícil prestar atenção ao que
nossos corpos estão nos dizendo; interrompe e desencoraja a
manutenção cuidadosa e, em última análise, nos adoece.
Adoecer pode ser um último recurso para escapar do estresse.
"A maior vantagem da doença é que ela fornece alívio da
responsabilidade", escreve o dr. Gordon Livingston. "De todos
os fardos da vida, sermos responsáveis por nós mesmos e
aqueles de quem cuidamos pode ser o mais pesado. As pessoas
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suportam rotinas idiotas, empregos que detestam e
relacionamentos insatisfatórios, tudo para corresponder às
suas expectativas em relação a si mesmas. Quando nenhum
outro alívio está disponível, alguma forma de doença ou
incapacidade é um dos poucos modos socialmente aceitos de
se livrar do peso da responsabilidade, nem que seja apenas por
algum tempo."
Um dos benefícios da Segunda Adolescência é uma visão de
mundo que alivia o estresse; um desejo e uma crescente
capacidade de não levar muito a sério, coisas pouco
importantes. "Deixe para lá", dizemos. E respiramos
profundamente. Respirar é uma metáfora perfeita para o
equilíbrio que tem tudo a ver com a manutenção cuidadosa. É
uma atividade fisiológica única em que o movimento de cada
respiração capta o equilíbrio entre a mente e o corpo, entre
deixar para lá e assimilar; é a função que reflete melhor a
capacidade do corpo de receber instruções da mente
consciente e, ao mesmo tempo, se regular. A respiração
profunda também é um dos melhores antídotos para muitas
das nossas aflições.
Um fator contribuinte para o bem-estar, que é raramente
pesquisado, pode ser, a despeito do pensamento convencional,
o bom sexo. Ouvi muito sobre sexo neste estranho mundo
novo da Segunda Adolescência. As respostas podem ser
classificadas em três categorias gerais: "Quem precisa disso?",
"Onde consigo isso?" e "Por que demorou tanto?" (Talvez esta
seja a versão da próxima fase da pergunta proposta por nós em
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uma chamada de capa memorável na revista Ms. nos anos
1970: "Como Está sua Vida Sexual? Melhor/Pior/Não me
lembro.")
As primeiras duas categorias são óbvias. Da terceira - "Por que
demorou tanto?" - precisamos falar. Há inúmeros Modelos
Horizontais que me contaram que, para sua surpresa, o sexo
não só se tornou melhor como também muito diferente para
elas na época da menopausa. Para algumas, saber que a
gravidez não é mais uma opção — ou um risco — é tão
libertador que elas se sentem mais relaxadas e capazes de se
concentrar em seu prazer. Outras dizem que seus Cinquenta
do Dane-se assumiram uma forma de expressão literal. Muitas
mulheres estão prontas para se lançar em experimentações
sexuais e auto-expressão. Outras ainda me falaram sobre suas
descobertas do "sexo casual" ou "sexo por sexo" - o tipo de
sexo que menosprezávamos nos homens.
Uma médica que trabalha principalmente com mulheres na
pós-menopausa insiste, o que outros médicos raramente
fazem, em perguntar a suas pacientes sobre a satisfação sexual
delas. Descobriu que, quando aborda este tema em um
ambiente seguro e relaxado, as mulheres fazem muitas
perguntas sobre como tirar o máximo proveito das respostas
sexuais mutantes de seus corpos. Para aquelas que se sentem
inibidas, admite: "Frequentemente recomendo maconha." Ela
também discute lubrificantes vaginais e masturbação, assim
como testosterona (para aumentar o desejo) e terapia de
reposição de estrogênio (TER), em relação à qual todas nós
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ainda temos muitas dúvidas. Conheço mulheres que pararam
de repor hormônios por causa dos novos relatórios e se viram
desesperadas para voltar a usá-los, e outras felizes em estar
"limpas". Várias ginecologistas me disseram que fazem TER
porque as questões da qualidade de vida superam os riscos
estatísticos. E conheço médicos que meneiam a cabeça
criticamente à simples menção da palavra estrogênio. Agora
há a comunidade totalmente nova do hormônio bioidêntico
competindo por nossa atenção. No que diz respeito a este,
parece ser cada mulher por si.
Em direção ao sul, um filme muito elogiado de 2006,
pretendeu explorar essa inesperada exuberância sexual.
Apresenta três mulheres brancas maduras que vão a um resort
no Haiti no qual, mulheres como elas se envolvem com
negros jovens e bonitos que frequentam a praia, dando-lhes
dinheiro e presentes e lhes dedicando cega admiração em
troca de sexo quente. A impressionante Charlotte Rampling
faz o papel de uma professora de Wellesley que aprecia esse
jogo há anos, até que uma rival chega ao resort e o ciúme a
leva a querer um relacionamento com o favorito dela. Neste
ponto, a ênfase do filme muda do tema novo de celebrar a
luxúria das mulheres de meia-idade para o clichê da
rivalidade feminina. A experiência sexual alegre, libertadora e
fortalecedora de que as personagens falam parece deplorável.
A mensagem é que não importa o quanto as mulheres tentem
não competir pelos homens, apreciar o sexo simples e
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delicioso e pensem que são liberadas, a necessidade de possuir
o amado ou vencer uma rival acabará prevalecendo.
Recebi a mensagem exatamente oposta de mulheres que têm
sexo com homens ou mulheres, com quem não há nenhum
outro lugar para ir além de para a cama. O ciúme e a
possessividade são temas velhos e batidos, a serem abordados
se necessário for, mas o que realmente interessa é o s-e-x-o.
Para elas, ter idade suficiente para saber o que querem e
serem capazes de sair e obtê-lo é tão novo e excitante que
apresenta uma série interminável de deliciosas possibilidades.
Como continuo a constatar, as mulheres estão descobrindo
que conhecer o próprio corpo não tem a ver apenas com dores
e sofrimentos.
Contudo, há uma mensagem que muitas de nós não estão
recebendo. As revistas com que contamos para orientação não
a transmitem, e não as estamos recebendo em nossas
conversas umas com as outras: As mulheres acima de
cinquenta anos correm um risco crescente de HIV. A taxa de
transmissão heterossexual dobrou nos últimos dez anos, e
mulheres como nós, não estão sendo testadas.
Nancy Cosentino, uma mulher elegante no início da casa dos
sessenta, tornou-se uma especialista nesse tema por meio da
seqüência de circunstâncias mais inimagináveis. Vários anos
atrás, a filha dela, Regan Hofmann, descobriu que era HIV
positiva, o resultado de um malfadado relacionamento com
um homem totalmente respeitável com quem, diz ela, "hoje
namoraria sem hesitar". Foi angustiante para Regan contar
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para os pais que seria HIV positiva pelo resto da vida, mas
finalmente fez isso. Para Nancy, foi difícil aceitar a notícia e,
como para a filha, também muito difícil dá-la aos familiares e
amigos. Eles foram compreensivos com o fato de sua filha
estar muito doente, mas não tinham nenhum ponto de
referência para a doença. Aquele tema era um tabu que não
tinha lugar no mundo deles. Nos anos seguintes, Nancy
aprendeu muito sobre HIV e a ignorância de mulheres como
ela mesma. O que começou como uma catástrofe deu à mãe e
à filha uma missão partilhada e um laço de devoção e respeito
mútuo. Regan é agora editora da POZ, a revista para homens
e mulheres HIV positivos, e Nancy dedica seu tempo a alertar
outras mulheres "respeitáveis" sobre o real perigo de não se
protegerem contra o vírus.
Para nossa geração, sexo seguro significava controle de
natalidade, primeiramente feito com diafragma (lembram-se
disso?) e depois com a pílula; as camisinhas eram o que os
rapazes guardavam nas carteiras para oportunidades no banco
de trás do carro. Na época em que surgiu a AIDS, muitas de
nós estavam em relacionamentos estáveis com formas
habituais de controle de natalidade e não tiveram nenhuma
chance de usar camisinha. Quando entramos na menopausa,
presumimos que, como não podíamos engravidar, não
precisávamos "usar alguma coisa". Aquelas de nós que se
divorciaram ou enviuvaram têm dificuldades suficientes para
voltar à vida social e se dar ao trabalho de aprender a usar
camisinha, quanto mais perguntar a um homem se ele é HIV
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positivo. Segundo um artigo na POZ, "Até mesmo as
mulheres de 35 a 54 anos tendiam muito menos a perguntar
sobre a história sexual e de uso de drogas de seus parceiros do
que as mulheres de 20 a 34 anos".
Esse é um comportamento muito arriscado. A menopausa
causa secura nas paredes vaginais, que podem ser lesionadas
durante o ato sexual, facilitando a entrada do vírus no corpo
da mulher. Uma nova vida sexual com novos parceiros cria
oportunidades múltiplas de infecção. O Viagra aumentou o
pool de candidatos com um passado - do garanhão de meia-
idade ao Lothario1 da comunidade de aposentados, tão
comum que é conhecido como o Romeu do Condomínio.
Como muitas de nós, Nancy nunca tinha discutido sexo,
muito menos sexo seguro ou infecção por HIV com seu
médico - apenas 38% das mulheres com mais de cinquenta
anos fizeram isso, segundo um estudo recente. As mulheres
da nossa idade tendem a ter médicos mais jovens do que elas,
que podem ficar tão constrangidos discutindo sexo com
alguém que poderia ser sua mãe quanto nós ficamos ao
tocarmos no assunto com eles. Mesmo se acreditam que
alguém com mais de cinquenta anos realmente faz sexo,
muitos médicos estão tão mal informados sobre o que está
acontecendo quanto suas pacientes. (Eles não sabem, por
exemplo, que 65% das pessoas em comunidades de
aposentados afirmam fazer sexo regularmente, apesar da

1
Personagem sedutor e libertino da peça The Fair Penitent, de Nicholas Rowe, dramaturgo, poeta e
escritor inglês. (N. da T.)
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proporção desequilibrada de homens/ mulheres.) Teremos de
ter essa conversa entre nós mesmas.
Até agora, ninguém quantificou os benefícios para a saúde da
troca de informações médicas entre amigas confiáveis e
Modelos Horizontais. Quando alguém que conheço tem uma
pergunta ou um problema, esse círculo de conselheiras se
mobiliza rapidamente e com frequência se amplia para incluir
amigas de amigas que estiveram no mesmo barco - mulheres
com seis graus de separação, preparadas para partilhar com
uma total estranha suas experiências sobre opções de
tratamento, qualidade de hospitais e técnicas para lidar com
drenos pós-mastectomia. Reunimos habilidades de executivas
para nos ajudarmos a enfrentar os tormentos de lidar com
empresas seguradoras. Acompanhamos umas às outras a
consultas médicas cruciais e fazemos anotações, monitoramos
cuidados hospitalares, organizamos grupos de amigas em
visitas a serviços de enfermaria e não recuamos à visão de
uma cabeça careca ou incisão de mastectomia.
"Os pacientes acabarão sendo os administradores das próprias
informações sobre saúde", disse o dr. John D. Halamka, da
Harvard Medicai School, ao New York Times. "No futuro, os
cuidados de saúde serão um processo mais colaborativo entre
pacientes e médicos", acrescentou. Neste momento, o oposto é
verdadeiro. Tipicamente a consulta médica é mais como um
encontro sexual rápido do que um relacionamento profundo e
significativo. Pior ainda, algumas das doenças que acometem
mais as mulheres na pós-menopausa — diabetes, doença
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cardíaca, esclerose múltipla - exigem consultas com vários
especialistas, que raramente comparam suas anotações. Isso
significa que cabe à paciente ficar de olho nos medicamentos
que está tomando e se certificar de que cada médico
considerará possíveis complicações de novos. (Ainda não
descobri um médico que não me olhe com desdém quando
relaciono os suplementos que tomo, mas estão sendo
desenvolvidos websites que nos permitirão verificar sozinhas
interações medicamentosas.) A mulher pode se ver
carregando raios X de uma parte da cidade a outra apenas
para se certificar de que não terão de ser repetidos. E sempre
há a preocupação de que, com tantos especialistas
examinando uma parte particular do corpo, um sintoma ou
distúrbio em um órgão não pesquisado possa passar
despercebido.
Marge se preocupa com aquelas de nós "criadas para não
questionar o médico/deus - um absurdo que precisa ser
apagado imediatamente de nossa consciência coletiva!". Ela
aprendeu sobre os perigos de nossa fé cega, vários anos atrás,
quando sua mãe, de 63 anos, sofreu um ataque cardíaco.
"Depois que ela recebeu alta do hospital, eu telefonava para
ver como estava passando. Não importava a que hora do dia
eu telefonava, meu pai dizia que ela estava dormindo",
relembra Marge. "No terceiro dia, perguntei: 'Pai, mamãe está
saindo da cama’? 'Ah, sim', respondeu ele. 'Ela se levanta de
manhã, toma chá com torradas e suas pílulas, e volta para a
cama. Eu a acordo na hora do almoço. Ela diz que não está
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com fome, mas se levanta e toma um pouco de sopa e suas
pílulas, e volta para a cama. Acontece o mesmo no jantar.
Descobriram que, devido a um erro na receita, ela estava
tomando uma pílula para dormir quatro vezes por dia em
lugar de apenas uma vez. "Cada uma de nós tem de ser a
advogada do próprio corpo", insiste Marge. "Não só
precisamos conhecer nosso corpo, como também saber e
entender os medicamentos que tomamos."
Todas nós nos beneficiaríamos com uma médica como Eileen
Hoffman, a quem considero uma Modelo Horizontal para a
própria profissão. No livro Our Health, Our Lives, Hoffman
descreve seu trabalho como um amálgama de "medicina,
ginecologia, psicologia, nutrição, prescrição de exercícios,
aconselhamento e instrução". Sua orientação centrada na
mulher "leva em conta 'sexo', que se refere à biologia única
das mulheres, e 'gênero', que se refere à experiência única das
mulheres na sociedade". Essa abordagem da pessoa inteira
deveria ser o objetivo de toda "colaboração" entre paciente e
médico.
"Não há nada de errado em estar doente, desde que você não
se sinta doente", é a conclusão do dr. George Vaillant, de
Harvard, que analisou todos os grandes estudos longitudinais
procurando "indicadores" para Aging Well (o título de seu
livro). Ele ficou surpreso em descobrir que "a boa saúde física
objetiva era menos importante para o bom envelhecimento
do que a boa saúde subjetiva". A autora, de 93 anos, de Shut
up and Livel é um pouco menos poética em sua versão da
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mesma mensagem: "Quando duas pessoas idosas se
encontram, sempre há aquele recital de órgãos. 'Como está
sua bexiga? Meu estômago está me incomodando...'
Quero mudar esse cenário. Em vez disso, vamos dizer:
'Quantos quilômetros você caminhou hoje? Sua bicicleta está
em boa forma?...' Como diz Maya Angelou: 'Posso ter
incômodos, mas não tenho de ser um!'" Parece irônico que,
tendo passado a maior parte de nossa vida usando e abusando
de nosso corpo, nos vejamos fazendo tudo o que podemos
para manter e valorizar os surrados restos desse ingrato abuso.
Por outro lado, o respeito tardio que começamos a
demonstrar por nossos robustos eus físicos corresponde à
reconsiderada e geralmente atualizada avaliação do resto de
nossos recursos interiores. Talvez pela primeira vez na vida os
dois aspectos da existência estejam se harmonizando.

A LIÇÃO: A mensagem de que você não é quem era, só é


mais velha tem uma ressonância particular quando se trata de
seu corpo. È preciso reconhecer e administrar as mudanças
que o envelhecimento inevitavelmente traz, mas também
respeitar e apoiar as adaptações positivas que o corpo faz a
essas mudanças. Além disso, é cada vez mais importante
aprender a captar os sinais de perigo do corpo e da alma. A
manutenção cuidadosa tem a ver com as cansativas rotinas
necessárias para manter todos os sistemas funcionando;
também tem a ver com trabalhar com e ocasionalmente
contra a comunidade médica e fazer perguntas sobre o que
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quer que esteja acontecendo com seu corpo até obter as
respostas de que precisa.
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LIÇÃO OITO
Seu casamento pode ser bem-sucedido

Um bom casamento aos cinquenta anos antevia


envelhecimento positivo aos oitenta. Mas,
surpreendentemente, níveis de colesterol baixos aos
cinquenta anos não.
- dr. George E. Vaillant

D e todas as renegociações de relacionamentos que


ocorrem em nossa vida, a mais tensa e frágil é a
inevitável recalibração de um casamento duradouro. Ao
contrário dos ajustes entre pais e filhos que estão vivendo a
própria vida, ou das amizades que satisfazem ou não
necessidades mutantes, um relacionamento duradouro está
bem ali, na linha de frente de nossos esforços para nos
redefinirmos. Cada papel escrito para as mulheres é
representado, inclusive o superabrangente da educadora-
chefe. O relacionamento com um marido incorpora nossa
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sexualidade, nossa compreensão da feminilidade, nosso poder
doméstico e, no caso de um casamento de longa data, as
definições parecem esculpidas em pedra. Como lidamos com
conflitos, exploração, envelhecimento e intimidade são
ingredientes do caldo cozinhado em fogo brando de um
casamento duradouro que está sendo revisto.
E claro que toda mudança que ocorre nesse mais íntimo dos
relacionamentos é apenas uma versão extragrande de nossos
esforços para redefinir a intimidade com pessoas muito
próximas: pais, filhos, amigos e irmãos. Muitas das dores
crescentes - a necessidade de conhecer um ao outro de novo e
acreditar no respeito pela independência e pelo espaço
pessoal, e o desejo de autenticidade de ambas as partes — se
aplicam em geral. As mulheres que estabelecem novos
relacionamentos nessa fase frequentemente se sentem gratas,
como Ava, por estarem renegociando esses elementos depois
de terem primeiro trabalhado neles sozinhas.
Se um casamento duradouro está envolvido, o caldo
emocional cozinha em fogo brando com prioridade máxima.
Quando as mulheres olham para seu casamento, talvez pela
primeira vez em anos, as circunstâncias dos parceiros estão
mudando. Em alguns casos, eles sonham em diminuir o ritmo
justamente quando elas estão com renovada energia
profissional. Ou eles procuram aconchego doméstico
justamente quando elas querem ver o mundo. Muitas
mulheres não estão preparadas para lidar com o fato de que,
em vez de passar menos tempo com o marido, é provável que
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passem mais tempo. Para início de conversa, na verdade
muitas delas perderam de vista o que sabiam sobre o marido.
Onde, no tumulto de reinventar o resto da vida, ele se
encaixa?
Como explicou uma mulher que conheci na festa de sessenta
anos de uma amiga em comum: "Um dia, estou cheia de idéias
sobre como quero passar o resto de minha vida, e no outro
estou cheia de dúvidas. Uma coisa eu sei: farei algumas
grandes mudanças - posso sentir isso." Então ela disse depois
de uma pausa: "Mas não sei o que isso fará com meu
casamento."
Cada casamento é misterioso ao seu próprio modo. Todas nós
já ouvimos falar em casais que pareciam se apoiar e amar de
um modo invejável somente para explodir em amargas
recriminações. Da mesma maneira, conhecemos casais
estranhos - a mulher inteligente, bonita e bem-sucedida e o
homem namorador e fracassado ou o marido charmoso,
gregário e alto-astral e a mulher amarga e antissocial.
Presumimos que um suporta o outro, mas, como tudo é um
mistério, é igualmente possível que o oposto seja verdadeiro.
Ou pode haver algo muito precioso no relacionamento -
segredos partilhados, bom sexo, confiança (mesmo em meio à
traição) - que torna todo o resto secundário. Quando Hillary
Clinton escreveu na autobiografia, sobre a dinâmica de seu
relacionamento com Bill, que eles "iniciaram uma conversa"
em 1971 que ainda estava ocorrendo, ela desmistificou, para a
minha satisfação, esse casamento duradouro em particular.
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A maioria das mulheres em um casamento duradouro de vez
em quando se pergunta o que está fazendo nele. E quando a
mulher chega a esta fase, acaba se perguntando se as
mudanças que faz em si mesma trarão problemas ao
casamento. "Meu marido se casou com uma mulher muito
diferente da que sou hoje", observa. O que realmente ela quer
dizer é: "Se estou me tornando uma mulher diferente, o que
estou fazendo casada com o mesmo homem?" Uma nova
perspectiva de vida significa ter de romper um casamento de
vinte ou trinta anos? Às vezes, sim. Algumas mulheres fazem
isso - para fugir de conflitos constantes, falta de afeto, abuso
emocional ou físico e simplesmente vazio. Para outras,
mudanças na própria vida podem energizar e transformar
casamentos que não conseguem mais manter, porém sem os
quais não querem viver.
Para muitas mulheres, o primeiro desafio é iniciar a conversa.
Não sabemos ao certo o quanto queremos que nosso marido
saiba que estamos revendo pragmaticamente o casamento e
desejando seriamente fazer mudanças. Também nos
perguntamos sobre o tom. Como qualquer conversa no
intervalo para o café comprova, falamos sobre nosso marido
de um modo diferente de como falamos com eles. Às vezes,
simplesmente não conseguimos obter a atenção deles. "Eu
queria conversar com meu marido sobre minha maior
inquietação", disse ironicamente uma mulher, "mas ele estava
dormindo no sofá." Mesmo quando os parceiros estão
totalmente despertos, algumas mulheres podem se ressentir
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de mais uma vez terem de cuidar da "relação" — justamente
em um momento em que estão ansiosas, como disse uma
delas, "por sair do negócio de administração emocional" e se
concentrar em si mesmas.
Os casais que superaram esses obstáculos e criaram um
contrato emocional diferente contam uma nova história de
amor - sobre exigências e exercício de paciência,
autodescoberta no espaço familiar, antigas verdades e novas
agendas, e encontram alegria no caminho seguido. Eis cinco
versões muito diferentes dessa história de amor.
Lucy, uma assistente social, foi casada durante 28 anos com
um diretor de escola de ensino médio; eles vivem no Meio-
Oeste americano e têm dois filhos, agora na casa dos vinte.
Alguns anos atrás, Lucy foi moderadora de grupos de
discussão em um programa para casais divorciados
determinado por um tribunal. Ela disse que viu "boas pessoas"
que se tornaram infelizes no casamento e deixaram de se
manifestar até seus "corações ficarem endurecidos e elas se
afastarem umas das outras". A experiência a levou a insistir
em que ela e o marido fizessem um novo voto de casamento:
"Você não ficará infeliz por muito tempo sem me dizer." Eles
frequentemente se referiam a este compromisso, e isso os
ajudava a resolver conflitos.
Até cerca de dois anos atrás. Com as mudanças da meia-idade
se acelerando, Lucy começou a fazer comentários sutis, como:
"Puxa, precisamos começar a fazer mais coisas juntos" e
"Puxa, as crianças estão saindo de casa e...". Ela não obteve
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muita reação. "Então mudei de estratégia. Disse para mim
mesma: 'Ele é um administrador, um homem brilhante. Eu
sou uma mulher educada que organiza coisas. Vamos tratar
disso como um negócio.'"
Primeiro, Lucy apresentou uma avaliação básica: "Nós temos
duas filhas que estão se preparando para sair de casa, e muitos
anos pela frente. Ainda temos um compromisso e queremos
ficar juntos. Mas estamos entediados." O marido concordou
que também não estava se sentindo bem em relação às coisas
e se sentia "esgotado". Então Lucy desafiou os dois a darem o
passo que qualquer equipe empresarial inteligente daria:
"escrever uma declaração de missão" para a segunda metade
de seu casamento.
"O ponto de partida foi dizer: 'Ainda temos muito em comum.
Trabalhamos duro, pusemos as crianças em primeiro lugar e
agora é a nossa vez'", explicou Lucy. Eles concluíram que seu
objetivo era "celebrar e aumentar sua satisfação um com o
outro". Quando se tornaram mais específicos, constataram
que a lista de coisas a celebrar incluía aquelas que não faziam
juntos. Ele queria mais tempo para jogar golfe com os amigos,
e ela mais tempo com suas amigas. Lucy ficou impressionada
com a pesquisa que revelou que pessoas saudáveis não só
comem bem e se exercitam, como também têm um forte
apoio social. Percebeu que a agenda cheia os impedira de
fazer muitas coisas com os amigos. "Por isso, em nossa nova
lista, colocamos os nomes de alguns casais que queríamos
conhecer melhor", disse ela.
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E havia outro elemento na mistura que Lucy queria ajustar:
trabalho. Enquanto o marido ansiava por se aposentar e
cozinhar (e até mesmo fazer o serviço doméstico), ela se
tornava mais envolvida com seu trabalho. Antes Lucy se
preocupava com a possibilidade de o marido se sentir
ameaçado por sua carreira, mas nessa nova fase do casamento
um equilíbrio revisto parecia confortável. "Vou ter de assumir
a responsabilidade — e o seguro de saúde", disse ao marido.
"Tudo bem, porque sou solidária." Mas ela queria mudar as
regras nos momentos em que seu trabalho a levasse para
conferências distantes. "Não queria mais ir sozinha", disse a
ele.
Quando Lucy e eu conversamos, ela e o marido tinham
acabado de voltar de uma conferência na Inglaterra, e ela
estava exultante. Ele já a havia acompanhado em eventos
desse tipo, mas, nessas ocasiões, relembra, "eu sentia que
precisava cuidar dele. Dessa vez saí de uma sessão e meu
marido estava se encontrando com pessoas. E quando eu
estava pronta para fazer minha apresentação, ergui os olhos e
ele estava em pé à porta com rosas!".
Lauren teve menos boa vontade em que se basear do que
Lucy, apesar de uma arrancada feliz e igualitária em seu
casamento. Ela e o marido, ambos advogados, tinham
partilhado o trabalho, de modo que puderam fazer coisas
juntos. No entanto, quando nasceram os dois filhos, Lauren
diminuiu o ritmo de trabalho, eles voltaram a ter papéis mais
tradicionais e o casamento começou a se encher de
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ressentimentos. "As coisas foram de mal a pior", relembra
Lauren. Em vez de se relacionar com ela e os filhos, o marido
"entrou no modo provedor", tornando-se viciado em trabalho
e preparo físico.
Lauren persistiu; achava que as crianças precisavam de ambos
os pais, mesmo se o marido estava tão pouco presente que
equivalia a "um quarto de uma pessoa". Havia momentos em
que eles recuperavam a velha energia. "Sempre que saíamos
de férias, realmente nos divertíamos. Em certo nível, de fato o
amo, e ele me ama. Embora eu tivesse sofrido por ele não
apreciar quem realmente sou, tive muito de Ah, você é tão
bonita, tão gentil, uma mulher surpreendente'." E o sexo era
bom. "Realmente ótimo!", mesmo nos momentos difíceis.
Fazer cinquenta anos foi o divisor de águas para Lauren. Ela
disse que sempre havia sido "muito assertiva
profissionalmente e bem-sucedida". Mas descobriu que estava
cansada de se esforçar e queria usar um pouco dessa coragem
em novos objetivos. "Vou abrir mais espaço para mim
mesma", decidiu. Também queria o marido "mais presente em
sua vida". Como Lauren pensava nas mudanças que queria
fazer em seu "terceiro ato", o primeiro impulso foi o bem
conhecido "precisamos conversar". De férias, durante o jantar,
tentou tocar no assunto. Mas o marido se sentiu ameaçado,
conta ela, "achando que o que eu realmente estava dizendo
era 'lamento estar casada com uma pessoa como você'". Em
um determinado ponto, ele entrou em pânico e sugeriu
renovarem seus votos de casamento originais. Está brincando?
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Disse Lauren para si mesma. "Não até que façamos funcionar
algo como 93 votos novos."
A fim de se distanciar um pouco, Lauren viajou para o Peru
com um grupo de mulheres. Era a primeira vez que viajava
por duas semanas sem sua família. Foi a Machu Pichu e
participou de um retiro espiritual na selva. "Por acaso", disse,
como que para explicar por que uma advogada racional faria
algo tão hippie, "resolvi fazer um tratamento com cristais.
Eles lançam luz através de seus chacras. Fiquei deitada em
uma sala, com os olhos vendados, ouvindo uma
fantasmagórica música peruana. Não tinha a menor ideia do
que iria acontecer, mas depois de cerca de meia hora ouvi
uma voz dizendo: 'Não morra antes de se tornar a pessoa
destinada a ser.'"
De onde quer que tenham vindo essas palavras, foram a
mensagem que Lauren precisava ouvir. "Eu fiquei mais à
vontade dizendo: 'Não vou mais seguir esse velho padrão.'"
Sua própria calma a surpreendeu e lhe deu coragem para
"observar meu marido se angustiar" ao vê-la à uma nova luz.
Em vez de se concentrar em mudar o marido ou o casamento,
Lauren começou a seguir os novos impulsos que surgiam em
seu íntimo. Muitos deles tinham a ver com dizer não. Ela
passou a se manifestar em momentos em que costumava
sofrer em silêncio, chamando a atenção do marido para
comportamentos que antes não questionava. Para a sua
surpresa, descobriu que quando se manifestava não sentia
tanta raiva, e o tom de seu casamento começou a mudar.
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"Meu marido ficou totalmente chocado. Não se considerava
uma pessoa tão rigorosa e achava que eu tinha me
manifestado o tempo todo", disse ela. Lauren percebeu que o
que achava que era raiva frequentemente era medo. "Querido,
não vou deixar você", falava para o marido. "Só estou
tentando dizer o que quero."
Apesar dessas palavras tranquilizadoras, Lauren afirma que
está realizando sua própria jornada e não vai recuar. "Estou
tentando ser educada e ao mesmo tempo dizer: 'Sim. É assim
que me sinto.' É uma situação estranha." E o sexo ainda é
ótimo.
Maryl — que conhecemos antes, quando ela descobriu sua
paixão por fotografia - e Bill se casaram em 1961, no final da
corrida por casamentos tradicionais. "Bill era um estudante de
Ph.D, e eu tinha um emprego em tempo integral para nos
sustentar", diz ela. "E eu tinha de fazer todas as compras,
cozinhar, limpar, lavar e passar. Naquele tempo, não havia
poliéster e eu passava lençóis - dá para acreditar? A meia-
noite!" Logo veio a agitação dos anos 60: "Todas as suposições
das pessoas sobre sua vida foram contestadas", relembra. "E
muita gente estava se divorciando." Mulheres que ela
conhecia "explodiam porque não conseguiam mais suportar
algumas coisas e simplesmente pediam o divórcio". Maryl
também não suportava, mas não queria se divorciar.
O que Maryl queria era "um alto nível de honestidade e
confiança, e examinar o casamento" em uma base regular.
Então teve a ideia de fazer, a cada cinco anos, "uma avaliação
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de nosso casamento". Logo antes do quinto aniversário, eles
dedicavam um tempo a se preparar para a avaliação pensando
em suas queixas e preocupações — "se o casamento estava ou
não funcionando e exatamente como deveria ser para
funcionar para nós dois". Então eles "se reuniam e
conversavam" e na época de seu real aniversário tinham
restabelecido vínculos.
Ela e Bill repetiram esse processo religiosamente durante os
últimos 45 anos. Os problemas que surgiram foram
"relacionados com nossa vida social e sexo, e questões de
saúde e financeiras - os mesmos problemas que
provavelmente todo mundo tem", diz Maryl. Eles
mantiveram seu rumo, até mesmo quando tiveram de lidar
com a doença crônica do filho e as exigências do trabalho —
particularmente o de Bill no Peace Corps —, que de vez em
quando os forçava a viver, separados. Olhando para trás, as
separações, na verdade, fortaleceram o casamento. "Tínhamos
nossas vidas individuais e ainda assim sentíamos que nosso
casamento estava totalmente intacto", diz ela. "E adorávamos
estar juntos quando podíamos."
Não é que eles guardassem seus problemas durante cinco
anos; conversavam o tempo todo. Mas a tradição os forçava a
ver o quadro geral a longo prazo. "Realmente somos bons
comunicadores", insiste Maryl. "Eu nunca pensaria em
guardar coisas em meu íntimo. Mas é muito mais fácil se você
faz esse acordo antecipadamente, e ele não está relacionado
com nenhuma crise. Isso evita muitas emoções negativas,
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porque é algo com o qual concordamos e sabemos por que
estamos fazendo - porque realmente nos amamos e queremos
ficar juntos. Mas" - e este é o comentário que se destaca - "não
sabemos ao certo se podemos."
O divórcio esteve "em pauta" em todas as reuniões e, em
alguns momentos, Maryl achou que poderia ser a melhor
opção para ela. Mas eles elaboraram as coisas e, na última
avaliação dos cinco anos, Maryl percebeu que não estava mais
em pauta. Velhos ressentimentos desapareceram e surgiram
muitos novos planos. Eles superaram o passado e se
concentraram em como seria sua vida quando não estivessem
trabalhando como antes. "Essa foi a primeira vez em que
realmente mudamos o formato", relembra Maryl. "Em vez de
avaliar tudo e dizer o que gostaríamos de ter mudado,
dissemos como gostaríamos que fossem os cinco anos
seguintes. Isso foi muito positivo, maravilhoso e satisfatório
para nós dois."
Susan e o marido, Alex, descobriram que ficavam muito
tempo juntos e não se comunicavam o suficiente. Eles não
têm filhos, mas tinham o trabalho. Logo após se casarem, em
1985, começaram a escrever juntos e produziram dois livros
muito pesquisados e bem vistos sobre dinastias da mídia. No
início do casamento, usando uma frase que Susan e Alex certa
vez utilizaram para descrever outro casal, eles "não estavam
apenas casados, mas grudados", disse Susan. Depois de 15
anos, os estresses do casamento chegaram a um ponto
culminante e eles começaram a ir na direção do divorcio.
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Como escreveu Susan: "Fizemos tanta terapia e
aconselhamento matrimonial que estávamos praticamente
cercados de terapeutas. Mas não parecíamos chegar a nenhum
lugar. Trabalhar juntos havia nos tornado competidores e
combatentes inimigos. Contudo, nunca explodíamos, nunca
gritávamos, nunca nos atacávamos verbalmente. Em vez
disso, mantínhamos uma calma superficial e sofríamos em
silêncio."
Susan permaneceu no apartamento de Nova York, e Alex se
mudou para Boston; eles deram início a uma nova vida. Mas,
mesmo enquanto se esforçavam para recomeçar, ambos se
tornaram conscientes do amor e da história que ainda estava
ali, apesar de toda a claustrofobia. Agora estão novamente
juntos, há quase dois anos, e veem a separação como uma
espécie de período sabático conjugal.
O tempo longe um do outro abriu a caixa em que eles haviam
se aprisionado, cheia de rótulos e suposições que acumularam
um sobre o outro. "Sabe como é, 'você é sempre rude com
meus pais' ou 'você nunca leva em conta meu ponto de vista'.
Aquelas recitações de 'sempre' e 'nunca' negam toda a vida e o
crescimento que tivemos nos últimos vinte anos", diz Susan.
Principalmente porque não tinham filhos para fazer
exigências e desviar a atenção deles um do outro, quando se
uniram novamente precisaram tomar um cuidado especial
para abrir espaço no casamento para respirarem. Como Susan
vê agora, "podemos preparar o jantar juntos, mas não
trabalhar juntos".
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O ar puro também lhes deu novas perspectivas das duas
pessoas envolvidas. "Percebi que eu não era a única pessoa
cujas necessidades não estavam sendo satisfeitas", conclui
Susan. "Que em um casamento há o outro, com desejos,
esperanças e sonhos tão valiosos quanto os seus. É parte de
seu trabalho fazer os dele se realizarem, e parte do trabalho
dele fazer os seus se realizarem.
Nós entendemos a importância de sermos sinceros em relação
ao que pensamos ou sentimos. Em alguns casamentos, sempre
há um ogro. Mas não no nosso. Éramos simplesmente
educados demais um com o outro. Droga!"
Eve não tinha nenhum problema de ser educada demais ou
não levantar a voz. Nunca teve. Durante seus 22 anos de
casamento com Simon, sempre reclamou em voz alta do
quanto ele era desorganizado e esquecido, e de como sempre
se atrasava. É um segundo casamento para ambos, e eles têm
filhos adultos do casamento anterior.
Contudo, recentemente as reclamações pararam - por motivos
que Eve apenas começou a analisar. Cerca de um ano atrás,
ela deixou o cargo de executiva no qual estava imersa e abriu
uma empresa de consultoria em casa. Queria mais tempo para
escrever e se dedicar à observação de pássaros. Mas, em vez
de apreciar sanhaços-escarlate, ela se viu apreciando o
marido. "Mudar minha vida profissional significava que eu
não estava mais alimentando tantas bocas emocionalmente.
Antes, grande parte de mim era sugada por outras pessoas.
Tive de canalizar minha generosidade, minha flexibilidade
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limitada", diz Eve. Isso a ajudou a ver o copo cheio pela
metade, em vez de vazio pela metade. "As melhores
qualidades de meu marido têm mais espaço para florescer
quando não fico no pé dele o tempo todo", explica. "Para usar
uma expressão russa, não fico mais em cima da alma dele.
Então ele pode ser mais generoso, mais espontâneo e até
mesmo se lembrar de coisas - porque os riscos não são mais
tão altos."
Isso é mais visível quando eles viajam, o que ambos adoram
fazer, embora de modo muito diferente. Seus estilos ainda são
conflitantes: ele quer improvisar, ela quer um plano
estratégico. No entanto, descobriram como lidar com isso.
"Reconhecemos que vou querer saber antes o que faremos em
um determinado momento todos os dias", diz Eve. "E ele não.
Mas descobrimos que parece ser suficiente para mim saber
qual é a programação e depois deixar isso para lá. Posso dizer:
Ok. Não vamos dar aquele passeio de barco que planejamos;
em vez disso, vamos visitar aquele bazar'."
Eve está relaxando o suficiente para apreciar a capacidade de
Simon de descobrir por acaso experiências originais e
extraordinárias. "Ele é capaz de falar com qualquer pessoa —
e fala", diz ela. "As vezes, fico irritada, sentada por perto
batendo com os pés no chão, mas então me lembro de quantas
coisas maravilhosas resultaram disso. Até mesmo aprendi a
lançá-lo como um míssil guiado. Acabamos ouvindo falar em
coisas e indo a lugares aonde não iríamos se tivéssemos
cumprido minha programação."
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Então o que mudou? "Estou muito menos ansiosa. Vejo as
coisas de um modo diferente. Quando Simon me irrita, posso
- às vezes, nem sempre - dizer para mim mesma: 'Ele é
assim'", observa Eve. Isso não significa resignação, insiste ela.
Ao contrário, Eve sente que superou sua irritação com
pequenas coisas. Agora aprecia as coisas importantes.
Como ocorre com muitas das mudanças pelas quais estamos
passando, a natureza pode ter um papel nessas acomodações.
A aceitação de Eve do comportamento laissez-faire de Simon
pode ser reforçada, segundo alguns estudos, por mudanças
neurológicas, que tornam algumas mulheres menos propensas
a multitarefas ou capazes de realizá-las. Hoje em dia, Eve não
corre impacientemente na frente de Simon para fazer tudo; às
vezes, é ela que "só pode fazer uma coisa de cada vez".
Quando perdemos um pouco de nossa mania de controlar, nós
- como Eve - aprendemos a apreciar coisas em nossa vida que
antes achávamos que levavam à paralisia.
A nova mistura hormonal, que estimula as mulheres tanto a
se manifestarem quanto a deixar para lá, está sendo útil em
alguns casamentos. Quando o nível de estrogênio no corpo
diminui, a testosterona que sempre esteve ali é, como dizem
os cientistas, "desmascarada", incentivando-nos a correr
riscos. Nos homens, a quantidade de testosterona no corpo
desde a puberdade diminui, tornando muitos deles menos
combativos e alguns, como o marido de Lucy, mais propensos
ao recolhimento. E como se homens e mulheres
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experimentassem uma convergência hormonal que revela
novas esferas de compatibilidade.
É claro que as pesquisas sobre cérebro e envelhecimento
ainda estão longe de ser conclusivas, e algumas sugerem
mudanças que poderiam ser menos bem-vindas. Mas a
necessidade crucial de criar espaço entre os parceiros - em
termos de atividades, demandas emocionais e dependência -
pode ser acentuada pelo surgimento de um desejo de quietude
e introspecção, complementando a tendência à irritação que
estimula as mudanças que fazemos. Uma zona de conforto
particular nos dá espaço para crescer, demonstrar nossa
capacidade de fazer coisas, recuar e rever nossa perspectiva.
Como todas as mulheres aqui descobriram, as mudanças - no
casamento, assim como em toda a Segunda Adolescência —
ocorrem de dentro para fora. Quando as mulheres mudaram
suas prioridades, o casamento começou a evoluir.
Em prova do que digo, no decorrer da renegociação de novos
termos afetivos com seus maridos, as mulheres passaram a ter
uma nova perspectiva de si mesmas e deles. Quando Lauren
voltou do Peru, tomou três decisões: "Expressar-se, viver em
seu próprio ritmo e experimentar gratidão." Elas atestam o
próprio bem-estar e também a natureza de um casamento que
continua a ser protetor. Os casamentos duradouros têm a ver
com a intimidade de uma história em comum e as alegrias de
embarcar junto em uma jornada de auto-descoberta e
reinvenção. O que torna esses companheiros dedicados
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notáveis é que, mesmo se um dia viajaram sempre no mesmo
barco ou na mesma direção, não fazem mais isso.

A LIÇÃO: Renegociar um casamento duradouro é apenas


uma parte da recalibração que estamos fazendo; se eu estou
mudando, nos perguntamos, isso significa que tenho de
mudar meu marido? A resposta será influenciada por várias
correntes de auto-descoberta em nossa vida: o poder de dizer
não e sim, o surgimento de novas paixões e prioridades, a
vontade de se livrar da velha bagagem e uma apreciação do
copo cheio pela metade. Uma história partilhada e boa
vontade fornecerão a base para a renovação do conhecimento
e a auto-descoberta mútuas. Ou não.

LIÇÃO NOVE
Você realmente sabe o que quer fazer com o resto de
sua vida
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Eu não sou alguém que "foi", mas alguém que "será".
- Lauren Bacall
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D esde que começam a falar, as crianças são bombardeadas


com a pergunta: "O que você vai ser quando crescer?"
Geralmente elas têm uma resposta pronta que dão sem
entusiasmo: "Bombeiro." "Inventor." "Bailarina." "Girafa."
Quando estão na universidade, a pergunta se torna
simplesmente: "O que você quer ser?" Dessa vez, as respostas
são firmes, relacionadas com a carreira e carregadas de
ansiedade. À medida que vão avançando na vida adulta, a
pergunta se torna mais curta e aberta: "O que você quer?" As
respostas se tornam mais longas: "Dirigir uma empresa e
correr uma maratona." "Ganhar muito dinheiro." "Casar e ter
filhos." "Ser eleito para o Congresso." "Emagrecer." Mas
continuam voltadas para o futuro.
Quando estamos à beira do Vácuo Fértil, contemplando a
próxima fase da vida, é natural voltarmos à velha pergunta em
ainda outra permutação: "O que quero fazer com o resto de
minha vida?" Esperamos que haja uma resposta que siga o
padrão de esperanças e sonhos enumerados: "Participar de um
safari e ver girafas." "Aprender a usar a nova tecnologia."
"Arranjar um emprego." "Aposentar-me." "Permanecer
saudável." "Tudo na lista de coisas que sempre quis, mas
nunca tive tempo de fazer." Contudo, dessa vez há uma
diferença: a resposta não é voltada para o futuro.
O Vácuo Fértil tem a ver com o esforço para nos guiarmos por
essa mudança de perspectiva. Cair e flutuar sem peso no
Vácuo, sem saber ao certo onde é a parte de cima e a de baixo,
nos desprende do passado e do futuro. Embora o passado
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esteja sempre presente, fica mais para trás. Da mesma
maneira, o futuro fica mais distante e dá lugar aos desafios e
às descobertas do presente. O que é passa a ser infinitamente
mais interessante do que pode ser, especialmente quando é
cada vez mais provável que aquilo que virá não será bem-
vindo. Quando você finalmente sente que tem controle sobre
o resto de sua vida, torna-se plena de admiração por onde
está, sem saber especificamente para onde vai.
Jennie é reconhecidamente um pouco mais plena e realizada
do que a maioria de nós, mas em seu entusiasmo com a vida é
um ótimo Modelo Horizontal:

Tive meu próprio negócio por 18 anos. Outras aventuras nos


últimos trinta anos incluem apresentar um talk-show na TV, ter
e operar um negócio de windsurfe, cruzar os Andes a pé até
Machu Picchu, passear de helicóptero nas montanhas Bugaboo
no Canadá, fazer rafting nas corredeiras do Grand Canyon e
um safari na África do Sul. Não poderia realizar algumas
dessas coisas agora e fico feliz por terem sido parte de minha
história quando mais jovem. Tenho cinco netos adoráveis, um
marido maravilhoso de quarenta anos, três filhos e três noras e
há muito mais que quero fazer!!!!!

Maree está no meio do processo de tornar claras algumas


prioridades atuais. Depois de reduzir sua jornada de trabalho
para três dias por semana, teve tempo para "pensar sobre
alguns conceitos" que, significativamente, explica no tempo
presente:
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Generatividade é um deles — fazer o bem para outras pessoas
além de meu clã estendido.
Risco e Desafio são outros - estou seguindo ativamente todos
os tipos de pressentimentos, oportunidades de emprego e
coisas assim, sendo realmente filosófica e ao mesmo tempo
seguindo mais minha intuição. Não estou erguendo obstáculos
como: "Não poderia sair e deixar meu marido por três meses."
Ele realmente tem apoiado algumas possibilidades que me
afastariam do lar. Uma que parece possível é dirigir uma
escola, em uma parte remota do Oeste da Austrália, durante
um período letivo. A escola tem muitos indígenas entre os
alunos e membros da equipe. Apesar de mais de trinta anos de
experiência em educação, isso seria totalmente novo para
mim e estou animada e esperando que dê certo. Por quê?
Porque quero expandir minhas próprias fronteiras pessoais e
desafios, e ao mesmo tempo ajudar.
Aprendendo. Estou explorando a música - vocal e piano, e
adorando. Nunca tive essa oportunidade. Também estou
fazendo cursos de redação criativa e culinária italiana, além
de praticar ciclismo.

Quando esses dois Modelos Horizontais descrevem a


estrutura de suas vidas emergentes, fica claro que suas
respostas não são sobre o que do resto de suas vidas, mas sobre
como. Isso é tanto a lição quanto a dádiva da estada no Vácuo
Fértil. A Jornada. O Processo. A Qualidade de Vida. Estes
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termos vagos ganham vitalidade com o tempo. Nós os
personalizamos.
Refletir mais sobre como queremos viver nos força a
intensificar a investigação de quem somos. É como se nos
concentrássemos em um traço de caráter essencial ou perfil
que nos acompanhará até o fim. A ênfase muda da preparação
para a ação de "Se eu não sou quem era, só sou mais velha"
para o existencial "Então quem sou?". Em que realmente
acredito? O que quero dizer? Quais são os padrões que sigo
(quando ninguém está olhando)? A jornada pela Segunda
Adolescência se torna uma busca por autenticidade.
Essa busca motiva grande parte do comportamento que
achamos tão desconcertante — e estimulante. Todas as ações
e experimentações chocantes, o descarte e questionamento,
são modos de experimentar verdades diferentes sobre nós
mesmas. Sim, estamos procurando virtudes ocultas, mas
também prontas para reconhecer impulsos mais misteriosos.
Mais de uma mulher me disse travessamente que quer viver
segundo a máxima de Mae West: "Se eu sou forçada a
escolher entre dois males, prefiro aquele que ainda não
experimentei."
Essa ousadia é duramente conquistada por mulheres que
corresponderam por muito tempo a expectativas e papéis que
lhes foram impostos. O psicólogo James Hillman fala sobre
liberar o caráter - o que você faz quando está só - da
personalidade - os traços que desenvolveu para lidar com a
sociedade, motivo pelo qual pode demorar um pouco para
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ficar realmente a sós com seu eu autêntico; há muitos intrusos
mascarados no caminho.
A síndrome do impostor é um deles - uma autoimagem
cruelmente crítica que deprecia as experiências que
aumentam a confiança. É a certeza secreta de que não importa
o quanto você seja eficaz profissionalmente, o quão bem
oriente seus filhos, o quanto pareça bom, não é você quem
está alcançando estes sucessos, mas uma atriz que engana a
todos que pensam bem de você. No íntimo, você se sente uma
fraude: "Eles não sabem que, se me perguntarem sobre X em
vez de Y naquela reunião, farei papel de boba." "Realmente
não tenho a menor idéia do que estou fazendo como mãe." "Se
eles vissem o que consegui esconder, perceberiam que sou
gorda e feia."
Uma forma anterior da síndrome do impostor é a Ansiedade
Matemática. Essa aflição das garotas da escola secundária foi
identificada pela socióloga Sheila Tobias quando muitas de
nós éramos aquelas garotas. Boas alunas de matemática
menosprezavam suas respostas corretas como um "acaso feliz"
ou "palpite certo"; elas não tinham certeza de que
conseguiriam acertar a resposta da próxima vez - daí a
ansiedade. Não importava o quanto suas notas fossem
constantes e apreciassem os jogos mentais, muitas garotas —
inclusive eu - desistiam da matemática, convencidas de que
mais cedo ou mais tarde ficaria claro que não sabiam o que
estavam fazendo.
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Valerie Young construiu uma carreira ajudando mulheres
adultas a se livrarem da síndrome do impostor. Há pouco
tempo, quando fazia pós-graduação, leu um estudo de 1978
que, apesar de ser de décadas atrás, identificava sentimentos
que achava que só ela possuía. "The Impostor Phenomenon
Among High Achieving Women", de Pauline Clance e
Suzanne Imes, concentrava-se na situação de mulheres bem-
sucedidas profissionalmente como Young, mas a descrição se
aplica muito mais amplamente. Young conta que as
pesquisadoras descobriram que "muitas de suas clientes
pareciam incapazes de internalizar suas conquistas. Provas
externas de inteligência e capacidade na forma de excelência
acadêmica, diplomas, reconhecimento, promoções e coisas
desse tipo eram rotineiramente desprezadas. Em vez disso, o
sucesso era atribuído a contatos, sorte, estar no lugar certo na
hora certa, perseverança, personalidade ou 'enganar' os outros
fazendo-os pensar que elas eram inteligentes e mais capazes
do que 'sabiam' que eram. Em vez de lhes dar confiança, cada
novo avanço e desafio subsequente só servia para intensificar
o medo onipresente" de serem descobertas.
Não queremos mais ter medo de ser descobertas. Ocorre
justamente o oposto. A busca por autenticidade é um esforço
para descobrirmos quem está sob as expectativas, os papéis e
as falsas fachadas; mais do que isso, estamos cada vez mais
confiantes no valor que descobrimos em nós mesmas.
"Embora o Vácuo Fértil tenha sido um lugar muito assustador
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para se estar", escreve Tichrahn, "sinto-me muito poderosa
com essa nova energia."
"Estou renovada e reenergizada não para fazer ou conseguir
mais, porém para ser mais... mais de meu eu autêntico",
anuncia Marylou. Seu relato de como está fazendo isso
oferece uma análise especialmente reveladora do processo de
autoconhecimento:

Meus relacionamentos, inclusive comigo mesma, mudaram.


Importo-me mais, porém me apego menos. Assim, sou mais
tolerante e menos julgadora, porque dei um passo para trás e,
ao fazer isso, ampliei meu circulo de ligações. Sempre fui uma
pessoa super-extrovertida, focada no exterior e cheia de
energia. Agora, após quatro cirurgias em oito anos, que me
forçaram a ficar parada por um tempo para me recuperar,
aprendi a me voltar para dentro. Quanto mais me aceito, com
todos os meus defeitos, menos dependo de pessoas e
atividades para dar sentido à minha vida - e fico mais
satisfeita.
Tornei-me o que um dia teria chamado de uma lesma
egocêntrica, me importando muito com coisas que talvez não
sejam realmente importantes no quadro geral - como gastar
400 dólares plantando petúnias Purple Wave para agradar aos
meus olhos, aos de meu marido e aos de todos que passam por
nossa casa. Antes teria sentido culpa por não ter enviado esses
400 dólares para a Women for a Women International ou
The Heifer Project... Meus dias de sair rapidamente para
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ajudar clientes, aumentar as opções de serviços da
comunidade ou levantar fundos para causas justas estão em
um hiato. E eu me sinto bem com isso.
Não é que não me preocupe mais com essas causas ou não
tenha energia para lidar com elas. Tenho. Não é que tenha
parado de me importar com questões de saúde mental, bem-
estar da comunidade, dar poderes às mulheres para
alcançarem a estabilidade financeira ou alimentar órfãos da
AIDS. Eu me importo. Mas também me importo com respirar
cada momento, avaliando minhas muitas bênçãos, entre elas
recuperar a saúde, ter um relacionamento carinhoso e
apaixonado com o amor de minha vida, ser uma boa vizinha e
estar desperta. Desperta para a experiência maravilhosa que a
vida é apesar da guerra, da pobreza, da doença, da perda e do
sofrimento.
Agora me importo tanto comigo mesma quanto com os
outros. Como diria Victoria Beckham: "Isso é o principal!"
Não estou zangada, desiludida, determinada a fazer mudanças
ou corrigir erros. Estou feliz assim. Sou uma mulher de 61
anos, adaptando-se ao processo de envelhecimento, que adora
a família e os amigos, satisfaz com pequenos gestos, e talvez
não notados, as necessidades dos outros e está contente e
encantada com Como a Vida É.

Deixar para lá, como Marylou deixou - a ilusão de que é


possível controlar os acontecimentos da vida, a suspeita
desmoralizante de que os outros têm ou fazem melhor, de que
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"você" é predefinida -, elimina falsas exigências que nos
mantêm longe de nosso eu "com todos os seus defeitos".
Quando encaramos nossos defeitos, geralmente eles não
parecem tão grandes. Um e-mail recentemente em circulação
resume a exuberância da auto-descoberta livre de
julgamentos. Intitulado "Happy IVGLDSW Day
(International Very Good Looking, Damn Smart Woman's
Day),2 incentiva todas as VGLDSWs a prosseguirem. "Se você
não puder ser um bom exemplo — então terá de ser apenas
um horrível aviso." Simplesmente é tempo de se libertar.
Também é tempo de libertar os outros. Ou pelo menos
libertar nossa psique das transgressões e crueldades deles.
Provavelmente você nunca saberá por que fulano se virou
contra você trinta anos atrás ou disse aquela coisa horrível. E
daí? Maria guardou uma raiva justificada desde que a irmã
mais velha "pressionou" as outras duas irmãs para que saíssem
dos imóveis do pai. Quando essa irmã recebeu o diagnóstico
de uma doença degenerativa, disse Maria, "não experimentei
nenhuma empatia em relação a ela. Senti que aquilo era
carma e segui com minha vida. No meu coração, era como
uma doce vingança". Vinte anos se passaram e seu filho ia se
casar. A terceira irmã foi ao casamento e inteirou Maria dos
últimos acontecimentos. A irmã ofensora "estava muito mal,
totalmente inválida, os filhos haviam se afastado dela e
tornara-se muito amarga. Minha irmã mais nova voaria ao seu
encontro (depois do casamento) e me perguntou se havia algo
2
Feliz Dia Internacional [das Mulheres Lindas e Muito Inteligentes]. (N. da T.)
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que eu quisesse lhe dizer. A primeira coisa que saiu de minha
boca foi: 'Diga-lhe que aqui se faz, aqui se paga'." O tom
cáustico da própria voz pegou Maria de surpresa. "No instante
em que me ouvi, me envergonhei do que dissera. Então voltei
atrás e lhe entreguei algumas lembrancinhas do casamento,
fotos de meus filhos e do meu neto bebê e uma rosa do centro
de mesa para ser prensada. Disse: 'Dê isso a ela e diga-lhe que
lamento que esteja tão doente e não possa juntar-se a nós
nessa festa, que ela está em meus pensamentos e nas minhas
orações.' Comecei a chorar e senti que um grande peso era
tirado de mim."
O dr. Paul Brand, cirurgião especialista em mãos, tem uma
visão única do mal que faz guardar ressentimentos. "Às vezes
sou chamado para operar alguém que processou a pessoa
responsável por seu ferimento. Notei que muitos dos
pacientes envolvidos nesses processos demoram bem mais
para se curar", escreve ele. "A raiva e o desejo de punir quem
os feriu parece aumentar a dor", acrescenta, "e pode até
mesmo interferir no mecanismo de cura do corpo."
A alegria que vem com as pazes que você faz com quem é e
com o que aconteceu pode literalmente lhe subir à cabeça.
Trocar o falso orgulho e o pensamento de "deveria-iria-
poderia" por autêntica inventividade revela novas esferas de
auto-descoberta. Primeiramente, com o passar da síndrome
do impostor, o medo de parecer boba dá lugar a um prazer em
ser boba — jogar jogos bobos com os netos, tentar dançar
vendo filmes de tango, procurar oportunidades totalmente
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incomuns, criar relacionamentos "inapropriados". E tudo isso,
na verdade, é bom para você. As seis condições do dr. Vaillant
para envelhecer bem incluem: "Aprender a brincar e criar... e
aprender a ganhar amigos mais novos à medida que vamos
perdendo os mais antigos dá mais prazer à vida do que a renda
da aposentadoria."
O mesmo ocorre com a falta de jeito para tentar recuperar a
capacidade de aprendizado e a humilhação de "se sentir
estúpida" em face de um novo campo de conhecimento. O dr.
Andrew Weil descreve uma paciente que estava prestes a
desistir de seus esforços para dominar o computador. "Tente
pensar nos tipos de aprendizado que criam essa grande
frustração em você", aconselhou-a. "Depois simplesmente se
empenhe neles. Você não tem de ser bem-sucedida; é o
esforço que aumenta a plasticidade e flexibilidade do
cérebro."
A improvisação sem objetivo - anteriormente conhecida
como perda de tempo — pode, inesperadamente, levar ao
exato oposto: uma oportunidade de realização. Carole Carson
aposentou-se de uma carreira empresarial bem-sucedida, com
55 anos, e se viu face a face com "o fato" de que "sempre seria
gorda". Ela mede 1,55m e na época pesava 82,5 quilos. Como
não tinha nada melhor para fazer, decidiu tentar emagrecer
pela última vez. Concluiu que o motivo pelo qual todas as
dietas que havia tentado falharam era que sempre as fazia em
segredo; se os outros observassem seu progresso, talvez
pudesse realmente seguir a dieta à risca.
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Então Carole encontrou algumas companheiras de jogo.
Arranjou um preparador físico e escreveu para o jornal local
oferecendo-se para relatar em suas páginas seus esforços para
entrar em boa forma. Logo estava emagrecendo e ouvia das
pessoas que se sentiam gratas por descobrir que não estavam
sós. Finalmente, ela ajudou a organizar uma "fusão" em seu
condado na Califórnia: mil pessoas foram divididas em
pequenas equipes que competiam pela maior perda de peso
em dois meses. Juntas perderam quase 3.500 quilos. Desde
então organizou mais dessas fusões, escreveu um livro e
trabalha mais do que antes de se aposentar. "Mas agora", diz,
"estou fazendo o que realmente quero fazer." Hoje em dia, ela
ainda não tem nada melhor para fazer, mas desta vez é porque
não pode imaginar nada melhor para estar fazendo.
Minha realizadora favorita é Eva Birath, uma sueca de 51
anos, cuja vida virou de cabeça para baixo quando foi
demitida do emprego de alto nível e salário como executiva
de marketing. Eva teve de vender a casa e o carro e ficou
totalmente perdida em relação ao que faria a seguir. Para
passar o tempo, começou a frequentar a academia de ginástica
local. Lá um dos treinadores comentou que ela tinha o tipo
físico de uma fisiculturista. Ainda sem nada melhor para
fazer, Eva se inscreveu em um programa de treinamento para
torneios. Após meses de um duro regime, começou a vencer
competições. Ao deixar para lá a vida antiga, sua vida atual
começou a se encher de fisiculturismo e de uma paixão havia
muito esquecida por pintura, que rapidamente se tornou uma
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fonte de renda. "A parte mais difícil" sobre seu novo estilo de
vida, diz Eva agora, "é a atitude das pessoas. Você sabe aquele
seu círculo de amizades? Subitamente deixei de ser convidada
para festas. Creio que me achavam estranha. Mas", acrescenta,
com o brado familiar da Segunda Adolescência, "eu não ligo!"
Se nos concentrarmos no como de nossas vidas quebra velhos
tabus de comportamento e nos livra de bagagem emocional,
também amplia nossas possíveis conexões, nosso "círculo de
ligações", como diz Marylou. Companheiros de estudo de
todas as idades. Colegas em um novo emprego ou novos e
interessantes colaboradores no antigo. Sócios em um novo
negócio. Agitadores políticos com idéias afins. Primos
distantes identificados por uma árvore genealógica. Amigos
do passado reencontrados. Ao mesmo tempo, abrem-se novas
fronteiras de intimidade intergeracional. Netos proporcionam
alegria e devoção imprevista a muitas mulheres. Às vezes,
uma nora se torna uma alma gêmea. Gerry, que criou três
filhos, está formando um laço maravilhoso — algo entre mãe
e amiga - com a mulher de um de seus filhos. "Nós nos
falamos quase todos os dias", diz ela. "E não sobre meu filho.
Falamos sobre nossa vida."

Se estou caminhando para o trabalho, lhe telefono, se ela está


dirigindo para casa, me telefona, apenas para conversar.
Temos um ótimo relacionamento. Quero dizer que está claro
para mim que ela é de outra geração, mas não me dou conta
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disso, é apenas interessante. Falamos muito sobre as crianças
porque ambas estamos muito envolvidas com elas.
Ela me telefona quando está farta do meu filho e diz: "Você é
a única pessoa a quem posso dizer isso." Eu ouço e consigo me
sentir solidária. "Sei que ele é assim mesmo", penso. Não fico
particularmente aborrecida ou na defensiva, e então ela sente
que pode me contar essas coisas, porque não serei desleal a
ele.
Falamos sobre casamento. Tenho anos de experiência; então,
quando na última primavera ela e meu filho estavam
brigando muito, tive uma percepção disso. De como é lidar
com marido e filhos e não se esquecer do modo como os
maridos reagem quando você está totalmente absorta nos
filhos... esse tipo de coisa. Entendo bem essa situação. Eu lhe
disse: "Vocês precisam sair e ter sexo."
Ocorre o mesmo com amigas quando você sente mais
afinidade com uma delas e descobre que pode falar
livremente, sem ter de pensar no que vai dizer. Uma das
melhores - e mais perturbadoras - qualidades dela é que
qualquer que seja seu humor, lhe dirá, e isso a torna muito
segura, porque não se contém.

Gerry admite que provavelmente não estaria disponível para


esse tipo de intimidade em um ponto anterior de sua vida.
"Pelo que me conheço, teria sido mais fechada e cautelosa."
Patrícia, que está com 66 anos e não tem filhos, descobriu a
satisfação de ser mentora de alguns dos jovens que encontra
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em seu trabalho filantrópico. "Acho que ser mentora é
realmente prestar atenção ao potencial dos jovens", diz, "e
ajudá-los a expressar seus próprios desejos e conhecimentos, e
falar sobre valores que animam a vida e o trabalho." Esses
novos relacionamentos são seu modo de se conectar com seu
próprio passado - e o futuro dos jovens.

O desafio de ser mentora não é se sentar e dizer "tenho


experiência" ou "quando eu tinha a sua idade", mas realmente
encorajar seus insights e ajudá-los a agir de acordo com eles,
talvez baseados em minha experiência. Para dar um exemplo
não profissional, se alguém está decidindo se deve ou não se
casar, e percebo muita ambivalência, digo: "Bem, você sabe
que realmente não precisa ter pressa." E então conto uma
história pessoal, sobre como eu estava viajando com o homem
que se tornou meu segundo marido e percebi que havia algo
de muito errado em nosso relacionamento e não deveríamos
nos casar, mas me casei porque fiquei sem jeito de cancelar a
festa. A moral da história é: siga seus instintos. Às vezes sou
neutra: "Descobri que é muito útil obter ajuda profissional.
Tive uma experiência muito bem-sucedida com a
psicoterapia."
Faço perguntas. "O que você pensa sobre isto e aquilo?"
"Tenho a impressão de que as pessoas de sua geração não estão
preocupadas com preferências sexuais ou com a cor da pele.
Isso é verdade?" Eu poderia dizer: "Tenho muita dificuldade
em entender música de hip-hop. O que significa? Ouviu dizer
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que é misógino?" Esta ê uma pergunta que fiz ao jovem afro-
americano que trabalha para mim. Ele começou a falar sobre
o que significam o hip-hop e o rap. Acho que concordou que
a música de hip-hop era misógina. Mas então falou sobre as
pessoas aprisionadas pela cultura e tivemos uma longa
conversa. Isso nos levou a conversas mais amplas e sérias
sobre política, delegação de poderes e como lidar com
problemas raciais e sociais.
Como sou a chefe, acho útil manter uma certa distância
profissional no local de trabalho. É uma questão de
estabelecer limites. Por exemplo, se uma jovem funcionária
quisesse ter um relacionamento pessoal comigo, eu poderia
me desapontar. E lembro-me, por exemplo, de uma mulher
bem próxima que trabalhava para mim - uma aluna do curso
noturno de direito —, que, em minha opinião, sucumbiu ao
fascínio do setor privado e agora trabalha para uma empresa.
Ela realmente não tem o tipo de interesse que achei que
tinha. Outra jovem me superou e foi se ocupar de outras
coisas. Ela é engajada e tem um novo emprego. Não houve
ressentimentos. Também superei alguns de meus mentores.
Acho que essa é a ordem natural das coisas.
Vivi os anos 1960. Começamos com muito idealismo, muita fé
em nossa capacidade de melhorar o mundo de vários modos,
fosse em relação às mulheres ou ao meio ambiente, à pobreza,
à política progressista ou qualquer coisa. O que vejo agora são
muitos jovens no final da casa dos vinte e início da casa dos
trinta que também sentem isso; há uma chama que relaciono
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com as lembranças do início de minha vida adulta. Acho
importante mantê-la acesa.
Para Ethel, que se esforçou tanto para reconstruir seu círculo
de amizades, o novo relacionamento foi um que a maioria das
mulheres teve anos atrás. Durante toda a sua vida muito bem-
sucedida e antes cheia de amigos, ela teve uma história de
relacionamentos românticos fracassados. Resignou-se com o
"fato" de que as cicatrizes de crescer em uma família
profundamente problemática sempre a impediriam de formar
um relacionamento amoroso. Então quando, no final da casa
dos quarenta, sentiu a necessidade de avaliar sua vida,
concentrou-se em tudo o mais - no modo como seu trabalho
havia dominado sua vida e em uma estranha solidão. Fez
terapia, reconsiderou suas prioridades e começou a recalibrar
sua vida - em outras palavras, mergulhou no Vácuo Fértil.
Dois anos depois, sentia-se muito melhor em relação a si
mesma. Estava gostando de seu trabalho político e
reencontrava antigas amigas. Estas amigas começaram a fazer
o que as amigas fazem (pelo menos as casadas): tentar
apresentá-la a homens. Um dia, Susan telefonou com um
convite. Ethel conta que não facilitou as coisas para a amiga:

"O Yom Kippur está chegando. Quero que você vá à sinagoga


comigo", disse Susan. E eu respondi: "Não vou à sinagoga, mas
se for, irei à sinagoga de gays e lésbicas com minha amiga
Andy." Então Susan me chamou para ir com ela no próximo
feriado judaico. Eu lhe disse: "Susan, se você quiser me ver,
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vamos almoçar ou jantar. Por que está me convidando para
essas coisas religiosas nas quais sabe que não estou
interessada, e, pior ainda, que não nos permitem conversar?"
Ela respondeu: "Ok, o motivo pelo qual a convidei para ir à
sinagoga é que há alguém que quero que conheça." "Susan,
não faço isso", eu disse. Ela perguntou: "O que quer dizer com
'não faço isso'?" Respondi: "Não namoro. Não vou a encontros
arranjados, você conhece a minha vida, sabe como é. Estou
feliz assim e não quero ficar confusa. Se disser sim, vou ficar
nervosa, hiper-ventilar." Mas Susan nunca aceita um não
como resposta. Além disso, observou: "Ele é viúvo, acabou de
voltar ao mercado de relacionamentos depois de vinte anos
sem namorar; não está atrás de casamento, é bonito,
extremamente inteligente, adora as mulheres e é só um
brunch. Eu disse: "E só um brunch para você!"

Não admira que Ethel tivesse cancelado o primeiro encontro,


mas, devido à persistência de Susan, aceitou um segundo
convite.

Desde o primeiro momento que o vi, senti como se o


conhecesse durante toda a minha vida. Ele era um mensch."
Mas nunca pensei que aquilo seria romântico; tenho muitos
amigos íntimos e achei que ele seria apenas mais um. Então
tivemos um segundo encontro, no qual fui à casa dele e
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assistimos aos resultados do caucus de Iowa.3 Em nosso
terceiro encontro, tivemos uma conversa durante o jantar que
foi inacreditavelmente sincera e íntima, e simplesmente me
apaixonei. Não me preocupei com nenhuma das coisas com
que você se preocupa quando não namora há muito tempo -
intimidade sexual, ser atraente. Quer dizer, foi como se meu
corpo simplesmente assumisse o comando. Eu me senti muito
à vontade e livre com ele. Tinha 53 anos, e ele 55, e isso
significa trazer muita bagagem. Mas ele me fez sentir que
realmente sabia quem eu era — não houve aquilo de "ah, meu
Deus, quando ele descobrir sobre mim". E eu realmente sabia
quem ele era.

Ser amada por seu eu autêntico lançou uma nova luz sobre o
resto da vida de Ethel. Ela deixou para trás as velhas feridas
emocionais e os outros relacionamentos amorosos. Perto de
seu 55º. aniversário, viu-se dominada pela gratidão por sua
"família escolhida" e quis mais do que tudo "celebrar a vida".
"Tive quatro festas de aniversário. Uma em Nova York, com
cerca de cinquenta convidados, uma em Washington, com 25,
uma em Chicago, com 14, e uma em San Francisco, com oito.
Em todas elas, agradeci a cada pessoa com um exemplo
específico — quis que soubessem que realmente fizeram
diferença em minha vida."

3
Palavra de origem indígena que define um sistema de reuniões políticas para escolher delegados e
definir os candidatos que eles apoiarão. (N. da T.)
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Como o casamento também lhe trouxe independência
financeira, Ethel pôde voltar a concentrar suas habilidades
profissionais - e sua gratidão - no que quer fazer com o resto
de sua vida. Ela sempre foi ativa em movimentos de justiça
social e acreditou em pessoas criativas. Agora oferece
consultoria gratuita para projetos sem fins lucrativos e de
financiamento inovadores. Embora as controvérsias políticas
sobre a Social Security incluam a afirmação de que a metade
mais velha da população é uma ameaça aos programas de
benefícios sociais, a verdade é que mulheres como Ethel estão
descobrindo que um dos impulsos mais fortes para sairmos de
nossas jornadas internas é a generosidade. Embora poucas de
nós possam se dar ao luxo de retribuir com um grande
cheque, muitas mulheres estão descobrindo outros modos de
partilhar a plenitude que estão sentindo. Nosso potencial
coletivo está começando a criar novas opções.
O Peace Corps está nos recrutando. E estamos nos alistando
em números recordes; as pessoas com mais de cinquenta anos
representam quase 10% dos 7.750 voluntários.
A comunidade de ensino superior está prestando atenção em
nós. A socióloga Rosabeth Moss Kanter e alguns colegas da
Harvard Business School propuseram um programa
totalmente novo — School for Advanced Institutional
Leadership (SAIL) -, destinado a usar e aperfeiçoar as
habilidades das pessoas com mais de cinquenta anos que
"querem mudar o mundo".
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Programas inovadores, como o Civic Ventures, oferecem uma
vasta gama de oportunidades gratificantes de trabalho
remunerado ou não e com salário reduzido. "O objetivo
agora", escreve seu fundador, Mare Freedman, em The
Encore Society, "é parar de subir a escada e começar a fazer
uma diferença, trocar dinheiro por significado, ter a liberdade
para trabalhar nas coisas mais importantes."
A crise nos serviços de saúde está produzindo organizações,
especialistas em legislação e ativistas que lidam com o
problema como se fosse deles. Muitos têm experiência pessoal
em tudo, de políticas governamentais destrutivas (leis fiscais
que penalizam em vez de apoiar os serviços de saúde) à falta
de redes de segurança para quem está a postos 24 horas, sete
dias por semana. (WomanSage, um grupo da Costa Oeste,
levanta fundos para enviar cuidadoras sobrecarregadas em um
cruzeiro de uma semana - com serviço de enfermagem em
tempo integral para o paciente que ficou em casa.)
Enquanto nossa geração de mulheres continua a abrir
negócios em uma velocidade de tirar o fôlego, é notável
quantos deles surgem de experiências de vida. De cem
empresas selecionadas para microcrédito do Count Me In for
Women's Economic Independence, seis foram fundadas por
sobreviventes de câncer de mama que queriam ajudar outras
mulheres a lidar com a doença ou problemas com que se
deparavam. "As mulheres são naturalmente profissionais de
marketing", observa Nancy Gibbs, da revista Time, "até
mesmo de seus piores medos. O instinto delas, quando têm
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problemas, é falar sobre eles com outras mulheres. Assim,
quando superam a crise, estão prontas para se tornar
administradoras de crises."
Para aquelas que veem o que precisa ser feito e anseiam por
fazer uma diferença, a falecida Anita Roddick, a fundadora da
The Body Shop que se tornou ativista ambiental na
maturidade, disse o seguinte: "Se você achar que é pequena
demais para ter um impacto, tente ir para a cama com um
mosquito."
Nossos Modelos Horizontais estão vivendo o resto da vida de
um modo que certamente não teriam imaginado quando se
perguntaram pela primeira vez o que queriam fazer. Quando
o que se torna como, as perguntas se juntam às respostas. O
que importa é a qualidade de um dia, um relacionamento ou
uma obra de arte. E o que é ainda mais importante, cada
mulher estabelece padrões para essas experiências, a partir
dos momentos acumulados de verdade pessoal. Para mim, o
resultado é uma declaração de objetivo: quero ser o eu mais
autêntico possível. Quero fazer o melhor que puder por
aqueles que amo e não espero mais deles. Quero celebrar a
dádiva do presente. Com autenticidade e gratidão. Com
curiosidade e mestria. Com coragem e generosidade. Com
humor e empatia. E sem levar as coisas muito a sério.

A LIÇÃO: Para todas nós, o resto da vida é agora. O que


fazemos com o que é se tornará mais desafiador ao
avançarmos na Segunda Adolescência. Como vivemos cada
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dia, com quem formamos relacionamentos e que contribuição
daremos para o mundo trarão satisfação. Estas escolhas são
motivadas pela busca permanente por autenticidade revelada
na pergunta: "Quem sou quando ninguém está olhando?"

LIÇÃO DEZ
Ambos é o novo um/ou

A velha mulher nunca é totalmente quem pensa ser, porque


também sempre é quem já foi - embora nunca seja a mulher
que os outros acreditavam que conheciam.
- Robin Morgan, "The New OldWoman"

P ara a minha geração de mulheres, a vida até agora foi


marcada por responsabilidades, objetivos e mensagens
que frequentemente pareciam forças irreconciliáveis: trabalho
e família. Independência e dependência. Gordura e magreza.
Força e acomodação. Amor e sucesso. Agora uma nova física
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está surgindo, embora a natureza de um passo para a frente e
um para trás de nossos dias possa obscurecer a mudança.
Quando examino o terreno confuso e indomado da Segunda
Adolescência, a improvável palavra equilíbrio vem à minha
mente. Vejo mulheres em circunstâncias infinitamente
diversas experimentando algo que nos escapou até agora,
apesar de nossos esforços desesperados para representar
múltiplos papéis: uma sensação precária mas real de
equilíbrio. Quem teria imaginado que apesar de toda a
perturbação e das falsas largadas - todos os conflitos e
contradições - nesta etapa da vida alcançaríamos um platô de
reconciliação e síntese?
Como qualquer pessoa, estou surpresa de ter chegado a um
lugar de paz e contentamento. Ao escrever este livro, na
verdade buscava uma dinâmica diferente: a mais vasta gama
de insights e experiências que poderia oferecer, não importa o
quanto fossem incomuns, e a renovação da confiança que a
existência de tantas abordagens contraditórias traria. Meu
ponto de vista era que não há um caminho certo a seguir na
Segunda Adolescência, e tampouco uma resposta certa para
um determinado momento na vida de uma mulher. A
inconsistência, tentei dizer, é a natureza da aventura.
Revendo estas páginas, surpreendo-me com o quão
frequentemente me deparei com um "paradoxo", uma
"ironia", um "por outro lado" em meus esforços para ordenar
as forças da boa/má mudança, de se voltar para fora/dentro,
dar/receber, resistir/deixar para lá, aterrissar/decolar e se
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sentir nova/velha. Cada Lição de Vida contém pelo menos
um.

Sim, você é mais velha cronológica e fisiologicamente, porém


mais jovem em termos de tempo gasto, superando quem era
antes de começar a descobrir algumas coisas.
Mas outra das ironias desse nosso estranho mundo novo é
que, embora o desafio seja assumir o controle de nossa vida, a
raiva por trás disso pode fazer com que nos sintamos do modo
oposto: fora de controle.
Justamente quando estamos ficando mais ousadas emocional e
psicologicamente, algumas de nós precisam ser mais
cuidadosas fisicamente, segurar em corrimões, não correr para
pegar o ônibus, trocar a esteira ergométrica por um aparelho
elíptico. Justamente quando estamos nos tornando mais
confortáveis com quem somos interiormente, sinais exteriores
desconcertantes do envelhecimento podem tornar nossa
aparência irreconhecível e solapar nossa autoconfiança.
A improvisação sem objetivo — anteriormente conhecida
como perda de tempo — pode, inesperadamente, levar ao
exato oposto: uma oportunidade de realização em seus
próprios termos autênticos.
Em um lado há a eliminação do excesso de lixo emocional: o
abandono de causas perdidas, a redução de expectativas e a
aceitação das perdas que o tempo traz. No outro há o deixar
para lá que nos permite ir além dessas perdas. Por exemplo, a
redução das expectativas deixa a imaginação livre para novos
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experimentos. Superar os momentos difíceis permite-nos
conhecer nossos pontos fortes e fracos e focar no que
realmente é importante ao seguirmos em frente.
Embora continuemos a recriar padrões familiares (apesar de
nossos esforços para mudar alguns deles), também sentimos
que estamos superando velhos limites. Não só ansiamos por
estabelecer objetivos como nos sentimos mais vivas quando os
reconsideramos. Quanto mais somos levadas pela corrente,
mais sentimos os pés no chão. Quanto mais nos distanciamos
de quem éramos, mais nos aproximamos de quem somos.

Agora, ao rever essas dicotomias e ironias, percebo que,


mesmo quando as estava enumerando, elas nunca foram
discordantes, mas, em vez disso, estabeleceram um ritmo
próprio. Alto e baixo, tentativa e erro, poupar e desperdiçar.
Uma gangorra não é um modelo filosófico muito elegante,
mas serve aqui, especialmente se você considerar seu fulcro: o
centro aterrado que sustenta os altos e baixos sem perda de
equilíbrio. Visto desse ponto fixo, os fatores contraditórios em
nossa vida atual parecem compensar uns aos outros. Você
sobe e desce, mas permanece sentada.
O novo paradigma é um exercício de ambos/e. Mover-se para
cima e para a frente, nesse sistema, tem menos a ver com
fazer escolhas ou progresso do que chegar a acordos, reduzir
conflitos e gerar impulso. "A sabedoria tem um objetivo",
escreve o dr. Nuland, "e este objetivo é a ação. Isso significa
que a ação às vezes deve ser realizada com o total
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conhecimento de que as decisões podem não ter um resultado
perfeito, porque agir sem informações completas é a condição
usual em que a sabedoria precisa ser aplicada." As
informações que cada uma de nós tem em um determinado
momento são, no mínimo, incompletas - e, como vimos,
frequentemente contraditórias —, mas a energia, a ousadia e a
resiliência com que começamos a contar guia nossos saltos de
um "novo normal" para o próximo. Deb está saboreando seu
momento:

A coragem vem com a idade. Eu não teria sido capaz de fazer


algumas das coisas que faço agora, nem mesmo na casa dos
quarenta. Coragem e um tipo de fé e aceitação que, mesmo se
as coisas não dão certo, fico feliz em fazê-las. Redescobri o
riso e a brincadeira de quando era criança. Entro no bosque
efalo com as árvores. O bosque se tornou minha igreja sem
paredes, e minha espiritualidade está florescendo. Caminho,
medito e me volto para dentro, passando a me conhecer em
todos os níveis. Como uma cebola, retiro as camadas de mim
mesma e a cada ano que passa tenho menos medo das novas
camadas. Estou aprendendo que meus medos não me matarão;
em vez disso, quando enfrentados, desaparecem e me sinto
forte. Continuo seguindo em frente...
Neste ponto de minha vida, estou enfrentando meus medos e
curando feridas. Sei que nada é perfeito e não me esforço mais
para realizar objetivos e expectativas irreais. Aprendi a dizer
não e a não me submeter à vontade de ninguém. Agora confio
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em meus instintos, estabeleço meus limites e me afasto de
pessoas, lugares e coisas funestas ou prejudiciais.
Essa aceitação é libertadora. [...] Também é um alívio saber o
que quero e ter iniciativa para buscá-lo. Poucas coisas me
refreiam hoje em dia. O medo é substituído por fé em mim
mesma.

Se o Vácuo Fértil é onde somos lançadas por novos e


perturbadores impulsos, nessa nova fase da Segunda
Adolescência começamos a consolidar o conhecimento, os
insights e o know-how - a sabedoria - que salvamos desse
sofrido percurso. Dizer não e Os Cinquenta do Dane-se nos
ensinam a não temer conflitos... ou muitas outras coisas. A
autoconfiança leva à mestria, e a autenticidade, à
generosidade de espírito. Cada vez mais somos capazes de
encarar as contradições e os conflitos, encontrar prazer no
absurdo e aceitar as pessoas (inclusive nós mesmas) como são.
Em consequência disso, e apesar das crises que enfrentamos
nessa fase da vida, não somos lançadas tão longe quanto
éramos, por acontecimentos muito menores, no passado.
Entre os psicólogos, fisiologistas e filósofos que estudam o
envelhecimento, a maturidade se tornou um termo técnico
para o platô de equanimidade da meia-idade. (Na verdade, a
palavra tem o sentido de "totalmente desenvolvido",
"plenitude" e "profundidade", assim como simplesmente
"despreocupação".) A capacidade de se erguer e seguir em
frente, deixar para lá, aceitar as coisas como são e apreciá-las,
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fazer mudanças e aguentar as consequências, ser flexível -
essa resiliência diária também traz suas compensações a longo
prazo. "Lidar bem com crises e adversidades na vida poderia
não só ser a marca dos indivíduos sábios", observa a psicóloga
Monika Ardelt, "como também um dos caminhos para a
sabedoria." Para muitas de nós, pela primeira vez a palavra
sabedoria não é um ideal distante ou um folheto de
propaganda ridículo, mas uma qualidade da mente a procurar
em nós mesmas.
De certo modo, ela já está ali, nas milagrosas adaptações que
nosso corpo faz ao tempo e às circunstâncias. Descobertas
científicas de forças fisiológicas compensadoras nos lembram
da capacidade exemplar do corpo de tirar o máximo proveito
das mudanças. Neurocientistas apresentam novos exemplos
todos os dias. Quando envelhecemos, nosso cérebro, que
sempre distribuiu tarefas através de mais massa cinzenta do
que o cérebro dos homens, apela para uma gama ainda mais
ampla de locais para lidar com nossas necessidades. Por isso,
escreve o dr. Gene D. Cohen, o "crescente uso de ambos os
lados do cérebro para os processos cognitivos —
envolvimento cerebral bilateral - pode favorecer uma
perspectiva mais equilibrada da vida, que se baseia tanto em
nossos poderes lógicos e analíticos como em nossas
capacidades não verbais e intuitivas. [...] Segundo uma
pesquisa (Berkeley Institute of Personality and Social
Research), comparadas com mulheres mais jovens, as de
meia-idade tinham uma sensação mais forte de identidade
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pessoal, melhor autoconsciência em ambientes sociais, mais
confiança, mais controle sobre os acontecimentos da vida e
maior produtividade".
Uma "perspectiva equilibrada" também se revela em nosso
perfil emocional. Com a idade, explica a psicóloga Laura
Carstensen, "tendemos mais a experimentar emoções mistas,
felicidade e ao mesmo tempo um toque de tristeza. Ter
emoções mistas ajuda a regular melhor os estados emocionais
do que os extremos da emoção" - este é o modo maduro. Essa
sensibilidade a emoções instáveis, motivos e experiências de
vida explica por que trocamos um modo bom/mau,
certo/errado de formar opinião sobre as pessoas por uma
avaliação mais solidária de suas falhas. Na ausência de tais
padrões de julgamento, descobrimos novos modos de apreciar
amizades e a família.
Quando fomos lançadas pela primeira vez na confusão do
Vácuo Fértil, tememos a possibilidade de estarmos loucas, de
sermos preguiçosas ou egoístas; agora que fomos mais longe,
começa a parecer que, ao contrário, podemos estar saudáveis,
ser ricas (espiritualmente) e sábias. O pensamento e/ou nos
serviu bem em um passado em que tínhamos muitas escolhas,
e nossa vida exigia tomadas de decisão em uma fração de
segundo. Agora as escolhas são em menor quantidade e
menos nítidas. Os resultados são menos previsíveis. Não
admira que às vezes nos vejamos paralisadas, contemplando
uma série de escolhas erradas, ou lamentando a ausência total
de escolhas. No entanto, quanto mais convivemos com a
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impermanência — "após celebrar as núpcias de nossos filhos",
disse-me uma mulher em um relatório do status de sua vida,
"é difícil observar a desintegração dos casamentos deles" -,
mais vemos a gratidão substituir a perplexidade.
Certamente é nesse ponto que estou. Ao iniciar essa jornada, e
durante grande parte do tempo até agora, senti-me uma figura
um tanto incongruente. Quando fiz cinquenta anos, estava
casada havia 25, mas os filhos que tive tarde na vida ainda
frequentavam o ensino fundamental. Em reuniões de pais e
mestres, me vi sentada em uma miniatura de cadeira pedindo
conselhos a uma mulher com metade da minha idade, mas
velha o suficiente para ser mãe de meus filhos. Eu também
estava fora de sincronia com os outros pais. Eles eram cheios
de energia e ambições em relação aos filhos, enquanto eu era
mais laissez-faire. "Você sabe, realmente não importa para
qual escola secundária ou universidade eles irão", dizia-lhes,
baseada em minha longa experiência no mundo. Não é
preciso dizer que não recebi mais muitos convites para tomar
café. Quando meus filhos chegaram à adolescência, eu estava
na segunda adolescência da menopausa — isso contribuiu
para alguns momentos desestabilizantes. Quando três de
quatro membros de uma família estão questionando tudo,
contestando todos e surfando em poderosas ondas hormonais,
as férias podem ser, no mínimo, um desafio.
Quando comecei a me sentir ansiosa em relação a onde estava
me dirigindo, perguntei-me o que ou quem - certamente, não
eu - seria responsável por meu futuro. Era como se não me
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encaixasse ali e tampouco em minha própria vida. Então,
perto dos sessenta anos, achei que minha carreira havia
terminado. Após mais de trinta anos de muito trabalho
estimulante na área de jornalismo, pediram-me para "deixar"
(isso ressoa em meus ouvidos até hoje) meu cargo de editora-
chefe de uma importante revista. Embora eu tivesse me
recuperado o bastante para escrever um livro sobre a
paternidade moderna, àquela altura estava bem dentro do
Vácuo Fértil. Escrevi Invente o resto de sua vida para tentar
descobrir o que se passava comigo. Falar com os outros - e
comigo mesma — sobre o que estava nos acontecendo e ouvir
mulheres tão perdidas quanto eu foi muito útil. Ao encontrar
as palavras e os pensamentos necessários para esclarecer nossa
situação, saí do Vácuo Fértil.
Comecei este livro com uma consciência muito maior de meu
eu. O mundo ao redor parecia mais administrável, e me sentia
mais à vontade em minha vida. Não mais obcecada com a
pergunta "O que quero fazer com o resto de minha vida?",
estava seguindo com ela. Enquanto me maravilhava com
minha recém-descoberta equanimidade, surgiu a noção das
Lições de Vida. Comecei a apreciar o quanto eu e as mulheres
que havia acompanhado aprendemos. Sobre nós mesmas, mas
também sobre a nova fase da vida que estamos, como gosto de
dizer, "definindo e vivenciando-a".
Examinando as lições que identifiquei - até agora -, vejo que
aprendi melhor umas do que outras. Ainda tenho muito dever
de casa a fazer. Por exemplo, tornei-me realmente boa em
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dizer não, e esta foi a mudança mais galvanizadora para mim.
Acho que contribuiu para a recalibração gratificante que
ocorreu em meu casamento. A mudança propriamente dita se
tornou menos assustadora; experimentei mais serendipidade e
bons resultados do que jamais havia imaginado ser possível
quando tentava desesperadamente manter tudo sob controle.
E, é claro, meu compromisso com minhas amigas se tornou
mais profundo do que nunca.
Fiz menos progresso em meus esforços para exorcizar o Sapo
Embaixo e substituir o pavor por uma prudência mais madura
em relação ao "novo normal" que uma crise futura trará. Às
vezes me esqueço de fazer para mim mesma e,
frequentemente, não me lembro de apreciar as forças
saudáveis dentro de meu corpo, que se avoluma, e meu rosto,
que desaba. Contudo, de modo geral minha vida está fazendo
sentido. Não como um balanço de vantagens e desvantagens,
mas como um todo rico e dinâmico. Com bons e maus dias e -
mais estranhos para uma rainha do drama como eu — dias
que são um pouco de ambos.
Agora o milagre é como nosso modo e/ou de ver o mundo está
se transformando em um modo ambos/e. A Lição de Vida que
o processo de amadurecimento traz é que essa corrente não
precisa ser desestabilizadora. Pelo contrário, o fluxo e refluxo
de nossos dias pode produzir uma sensação de paz e
contentamento, ternura pelo mundo e plenitude em nós
mesmas. Nesse momento, o copo pode estar ao mesmo tempo
cheio pela metade e vazio pela metade. E isso é bom. A boa e
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a má mudança são compatíveis porque a mudança está onde a
ação está. Resistir e deixar para lá é o ritmo do crescimento.
Sim e não são as senhas para a autenticidade. O presente é se
sentir jovem e velha ao mesmo tempo. Mais importante do
que as opções são as alegrias que encontramos no amálgama
de fragmentos de experiências, nos prazeres dos encontros
humanos, nas satisfações da eficiência pessoal e na resiliência
de nossos próprios espíritos que inventa uma vida para cada
uma de nós.

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