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Instituto de Letras

Departamento de Teoria Literária e Literaturas


Bacharelado em Letras/Francês
Monografia em Literatura

CINTHIA FARIA ABREU DE LIMA


07/31269

A PENA DE MORTE EM VICTOR HUGO


Uma análise da obra O Último Dia de um condenado

MENÇÃO SS

PROFA. DRA. JUNIA REGINA DE FARIA BARRETO

Brasília- DF
1º/2011
CINTHIA FARIA ABREU DE LIMA

A PENA DE MORTE EM VICTOR HUGO Ŕ


Uma análise da obra O Último dia de um condenado

Monografia apresentada ao Departamento de


Teoria Literária e Literaturas como requisito
obrigatório para aprovação no curso de
Monografia em Literatura.

Orientadora: Professora Doutora Junia Regina


de Faria Barreto

Brasília-DF
1º/2011
CINTHIA FARIA ABREU DE LIMA

A PENA DE MORTE EM VICTOR HUGO Ŕ


Uma análise da obra O Último dia de um condenado

Monografia apresentada ao Departamento de


Teoria Literária e Literaturas como requisito
obrigatório para aprovação no curso de
Monografia em Literatura da Universidade de
Brasília

Brasília, DF ____ de julho de 2011.

Banca Examinadora:

____________________________________
Prof. Dr.ª Junia Regina de Faria Barreto – orientadora (TEL/UnB)

____________________________________
Prof. Dr. Marcos Moreira da Silva (LET/UnB)

____________________________________
Prof. Ms. Deborah Silva Santos (FCI/UnB)
AGRADECIMENTOS

É a primeira vez que tenho a oportunidade de escrever agradecimentos em


um trabalho acadêmico, no entanto, não conseguirei expressar a real gratidão a
todos aqueles que se envolveram nesta pesquisa. Infelizmente, terei que me limitar
ao nome das pessoas mais próximas.
Em primeiro lugar, agradeço ao Departamento de Teoria Literária e Literatura
da Universidade de Brasília pelo oferecimento do curso que teve como resultado
esta monografia.
À minha orientadora, Junia Regina de Faria Barreto, pelos comentários e
enriquecimento do trabalho, pelo apoio e encorajamento em todas as fases do
processo, além de ter me apresentado O Último Dia de um condenado.
Agradeço aos professores Marcos Moreira da Silva e Deborah Silva Santos
pela delicadeza de terem se dedicado à leitura e avaliação do presente trabalho.
Especialmente à minha mãe, Coeli, para quem eu jamais conseguirei
agradecer da maneira devida todo o amor e dedicação que tenho recebido a minha
vida inteira.
Ao meu pai, Mauro Faria, por ser o meu maior exemplo e inspiração, e ao
meu irmão, que se esforça para ser meu exemplo.
Aos meus amigos sempre presentes: Bruno, Edna Beatriz, Fernanda de
Fátima, Pedro Branco, Thais Mallon e Renato Roll.

.
E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos,
o planeta acaba rachando.
Antoine de Saint-Exupéry
RESUMO

Esta monografia tem como objeto a obra O Último Dia de um condenado


escrita por Victor Hugo e publicada em 1829. A pesquisa pretende discutir o
tratamento dado à pena de morte no romance, as implicações que acarretam a
prática da execução, bem como os esforços do autor ao longo de sua vida pela
abolição da pena capital.
O estudo se inicia pela contextualização história da pena de morte a partir da
Revolução Francesa com o advento e banalização da guilhotina no país. O trabalho
pretende ainda identificar as contribuições de Victor Hugo para o fim da execução
penal no direito francês e no mundo, sublinhando a contemporaneidade do tema.

Palavras-chave: pena de morte, Victor Hugo, O Último Dia de um condenado,


literatura, guilhotina.
RÉSUMÉ

Cette monographie a comme objet l‟œuvre Le Dernier Jour d‟un condamné,


écrite par Victor Hugo et publiée en 1829. La recherche vise à discuter le traitement
donné à la peine de mort dans le roman, les implications de la pratique de
l‟exécution, ainsi que les efforts de l‟auteur pendant toute sa vie pour l‟abolition de la
peine capitale.
L‟étude commence par la contextualisation historique de la peine de mort dès
la Révolution française avec l‟avènement et la banalisation de la guillotine dans le
pays. Le travail vise également à identifier les contributions de Victor Hugo pour la fin
de l‟exécution dans le droit français et dans le monde, en soulignant la
contemporanéité du thème.

Mots-clés : peine de mort, Victor Hugo Le Dernier Jour d‟un condamné, littérature,
guillotine.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................... 10

CAPÍTULO 1 Ŕ SOBRE A PENA DE MORTE ................................................ 13


1.1 – Revolução Francesa e guilhotina .................................................. 14
1.2 – A pena de morte em debate ......................................................... 22
1.3 – Hugo e a pena de morte ............................................................... 24

CAPÍTULO 2 Ŕ O ROMANCE E A PENA DE MORTE ................................... 29


2.1 – Gênese ......................................................................................... 29
2.2 – O texto .......................................................................................... 34
2.2.1 – O crime e o condenado .................................................. 35
2.2.2 – O jargão .......................................................................... 39
2.2.3 – O cárcere ........................................................................ 43
2.2.4 – A execução ..................................................................... 47

CAPÍTULO 3 Ŕ A PENA DE MORTE APÓS O ROMANCE ........................... 50


3.1 – Intervenções de Victor Hugo ........................................................ 50
3.2 – Influências no século XIX ............................................................. 58
3.3 – A abolição no século XX .............................................................. 59
3.4 – Uma luta do século XXI ................................................................ 63

CONCLUSÃO .................................................................................................. 69

LISTA DE ILUSTRAÇÕES .............................................................................. 72

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................... 77

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS .................................................................... 79


Figura 1
9
INTRODUÇÃO

O Último Dia de um condenado é tido como uma obra de grande


importância para o debate em torno dos Direitos Humanos. O romance marca o
início dos protestos de Victor Hugo contra a pena de morte, que se apresentam ao
longo da vida e da produção do autor.
Esta pesquisa pretende mostrar o debate sobre a pena de morte, analisando
o discurso do escritor contra a pena capital dentro do romance. Além disso, tem por
objetivo abordar as contribuições da obra para a abolição da execução penal, as
intervenções hugoanas em processos de condenados à morte e a própria atualidade
do tema, ainda visto no sistema jurídico de diversos países. Para tal, o romance foi
analisado a partir de diferentes perspectivas: a crítica literária sobre o autor e a obra,
a historiográfica e a jurídica, no que concerne os Direitos Humanos.
Para analisar a obra e identificar a importância do tema da pena de morte na
época de sua publicação até a contemporaneidade, é preciso percorrer o próprio
caminho histórico da execução, na França marcada pela guilhotina. O capítulo 1 é
então o início dessa cronologia que será traçada a partir da Revolução Francesa até
a vulgarização da decapitação penal na no século XIX. Com a popularização to
tema, a pena de morte se fará presente na literatura da época. As experiências
pessoais de Hugo com a guilhotina, sobretudo na infância do autor, também são
apresentadas.
O segundo capítulo tem por objetivo fazer uma análise da pena de morte
dentro da obra, abordar a gênese do texto, bem como sua recepção à época.
Pretende-se mostrar que outras obras poderiam ter servido de base para a própria
reflexão do autor, como os diários de criminosos que eram publicados nos jornais do
século XIX. Elementos fundamentais da constituição do texto também são discutidos
como: o condenado, o crime, o jargão dos detentos, o cárcere e a execução.
O capítulo 3 concentra-se nas contribuições de O Último Dia de um
condenado e da própria atuação de Victor Hugo para a intensificação do debate.
Apresenta ainda a contribuição da obra para a abolição da pena de morte em 1981,
citada no discurso de Robert Badinter, então ministro da Justiça na França. Trata
também da supressão da pena que ainda não foi vista em diversas partes do
mundo. A partir do índice de execuções mostrado em dados reunidos pela

10
organização Anistia Internacional, insiste na contemporaneidade do tema, bem como
na importância do debate buscado pelo escritor.

11
Figura 2

12
CAPÍTULO 1 Ŕ SOBRE A PENA DE MORTE

A pena de morte era uma prática antiga na França. Desde o feudalismo


medieval do ancien régime até pouco antes do início do século XXI, a execução
penal esteve presente no direito francês sob as mais diversas formas. Entretanto, foi
a partir da Revolução Francesa que se adquiriu o status de espetáculo excêntrico e
popular. Ainda que fosse regada por modernas ideias iluministas, esse início da
Idade Moderna também foi marcado pelo uso excessivo da guilhotina.
Ao longo do século XIX, o suplício do condenado excitava o público de tal
maneira que romances e diários de prisioneiros entraram em cena. Causando
verdadeiro frenesi, o uso da guilhotina continuou sendo um fato público até o dia 17
de junho de 1939, ano da execução de Eugène Weidmann:

Em dezembro de 1937, prendeu-se perto de Paris um assassino chamado


Eugène Weidmann, que seria acusado de ter matado seis pessoas. Após
um processo particularmente sensacional, Weidmann foi julgado culpado
em abril de 1939 e devia sofrer a pena capital em 17 de junho de 1939. Na
realidade anunciou-se na rádio e na imprensa a data de sua execução, de
maneira que naquela manhã uma multidão considerável havia se reunido
em frente à prisão de Versalhes, onde a guilhotina havia sido erguida. O
comportamento repugnante desses espectadores, relatado fortemente em
fotografias na imprensa do dia seguinte (e relatado especialmente por
Michel Tournier em O Rei dos Álamos), foi tamanho que no dia 26 de junho
de 1939 decretou-se que as execuções capitais não aconteceriam mais em
público. A decapitação de Weidmann consistiu, portanto, na última ocasião
em que o condenado à morte pôde, no caso em questão, “desejar que
houvesse muitos espectadores no dia de [sua] execução e que eles [o]
acolhessem com gritos de raiva”, como o disse Meursault no final de O
1
Estrangeiro.

Desde então, outras pessoas foram guilhotinadas no interior de prisões


francesas.2 Ainda que não houvesse a comprovação de qualquer relação entre a

1
Tradução nossa. No original: « En décembre 1937, on arrêtait près de Paris un assassin nommé
Eugène Weidmann, que l'on allait accuser d'avoir tué six personnes. Après un procès
particuliièrement sensationnel, Weidmann fut jugé coupable en avril 1939 et devait subir la peine
capitale le 17 juin 1939. En fait on avait annoncé à la radio et dans la presse la date de son exécution,
de sorte que ce matin-là une foule considérable s'était rassemblée devant la prison de Versailles où la
guillotine avati été dressée. Le comportement répugnant de ces spectateurs, rapporté avec force
photographies dans la presse du lendemain (et raconté notamment depuis par Michel Tournier dans
Le Roi des aulnes), fut tel que le 26 juin 1939 on décréta que les exécutions capitales ne se
dérouleraient plus en public. La décapitation de Weidmann constitue donc la dernière occasion où le
condamné à mort pût, le cas échéant, 'souhaiter qu'il y ait beaucoup de spectateurs le jour de [son]
exécution et qu'ils [l'] accueillent avec des cris de haines', comme le dit Meursault à la fin de
L'Etranger. » (WALKER, 1994, p.27)
2
Os três últimos executados foram Christian Ranucci, em julho de 1976, por sequestrar e matar uma
menina de 8 anos, Jérôme Carrein, no dia 23 de junho de 1977, também pelo sequestro e
13
pena de morte e a redução da criminalidade violenta, somente na Assembleia
Nacional de 17 de setembro de 1981 que François Mitterrand e seu ministro da
Justiça, Robert Badinter, extinguiram a guilhotina e a pena de morte no país.
Um dos argumentos usados por Badinter foi a luta de Victor Hugo contra esse
tipo de pena. Por conta das várias e significativas experiências do escritor com o
espetáculo da guilhotina, a máquina chegou a se tornar tema de seu terceiro
romance O Último Dia de um condenado. Defendendo a interdição da pena de
morte para todos independente do crime cometido, Victor Hugo se engajou por um
caminho de inquietude que o obrigava a permanecer sempre em alerta. Para
analisar esse percurso que envolveu a pesquisa, experiências pessoais e o próprio
amadurecimento do autor, é preciso traçar um breve histórico da guilhotina, desde
sua aparição na Revolução Francesa até o seu uso indiscriminado em romances e
espetáculos.

1.1. A Revolução Francesa e o surgimento da guilhotina

No final do século XVIII, a burguesia francesa enterra de uma vez por todas a
estrutura feudal tradicional do ancien régime. Não sendo produto de circunstâncias
fortuitas, mas de um longo processo de reformas políticas e sociais, tornou-se
símbolo da liberdade, marco de inauguração da Idade Moderna e um dos períodos
mais violentos da história. O país de aproximadamente vinte e seis milhões de
habitantes, subdivididos entre a nobreza, o clero e o enorme terceiro estado, não era
capaz de manter o status quo social de até então.
Dessa forma, a burguesia economicamente poderosa lidera a insurgência da
população faminta, esperançosa pela ruptura com a política absolutista. Nesse
chamado Século das Luzes, o país não se satisfazia mais com o poder incontestável
do rei, os caros luxos presenteados à nobreza e ao clero, e os altos impostos. Tais
privilégios e desigualdades tornaram-se insuportáveis para o terceiro estado.
O fracasso da Assembleia dos Estados Gerais em maio de 1789, combinado
com os golpes de força que Louis XVI insistia em dar, como a marcha de tropas

assassinato de uma criança de 8 anos e Hamida Djandoubi. O tunisiano de 31 anos, condenado à


morte pela tortura e assassinato premeditados de uma jovem, foi o último condenado à morte
decapitado na França antes da abolição da pena, quatro anos mais tarde.
14
militares contra a população parisiense no mês seguinte, agravaram ainda mais a
situação. No final de junho, a burguesia propõe e instala a Assembleia Nacional,
posteriormente Constituinte, contra a vontade soberana. Já reunindo armas e ideias
para dar início a um conflito histórico, a Declaração dos direitos do homem e do
cidadão é publicada, formalizando um convite da burguesia à insurreição.
No dia 14 de julho, temos o grande marco da Revolução: o povo armado toma
a Bastilha. Uma semana depois, o intendente-geral Joseph François Foullon3 foi
enforcado e decapitado, após sofrer a chamada promenade expiatoire, ou
caminhada expiatória. Tal passagem consistia na empalação da cabeça do
condenado na ponta de um poste e posterior exposição ao longo das ruas da capital.
Em seguida, após a Revolução Francesa, a nobreza emigrará ou será
laminada. Para a história, esse momento representa a adoção da violência pela
humanidade. É verdade que o ancien regime também se ocupava de executar um
condenado pelos processos mais bárbaros e variados, como os listados pelo
professor de medicina legal Alexandre Lacassagne:

A ordem de 1670, em vigor até a Revolução Francesa, prescrevia uma


repressão terrível. A pena de morte era aplicada em 115 casos.
Acompanhada de torturas e suplícios, como a decapitação, o patíbulo, a
4
roda, o fogo, o desmembramento ; penas acessórias poderiam ser
5
aplicadas [...], [como] o flagelo, a marca, o jugo, as mutilações.

Alguns desses métodos de punição continuaram fazendo parte do arsenal


judiciário, figurando no Código Penal até a metade do século XIX. Penas aflitivas e
mais antigas, por exemplo, permaneceram inscritas no Código Penal na seção da
amputação e da marca. A amputação foi estabelecida em 1810 contra os crimes de
parricídio e atentado contra a vida e a pessoa do soberano. Esse último foi

3
Joseph François Foullon, também conhecido como Foulon de Doué, foi seigneur de Doué e foi uma
das primeiras vítimas da Revolução Francesa, no dia 22 de julho de 1789. Foi ainda nomeado
administrador de finanças pelo rei Louis XVI, sob viva irritação e impopularidade.
4
Todos os métodos descritos são formas de suplício aplicadas aos condenados à morte. A fogueira
consistia na queima do condenado com madeira e outros combustíveis, uma tortura abundantemente
usada na Inquisição. A roda consistia em prender o condenado a uma roda horizontal e fazê-lo ver
seus membros serem quebrados pelo carrasco. E o desmembramento era a separação simultânea
dos quatro membros do tronco humano.
5
Tradução nossa. No original : « L'ordonnance de 1670, en vigueur jusqu'à la Révolution française,
prescrivait une répression terrible. La peine de mort était appliquée dans 115 cas. On l'accompagnait
5
de tortures et de supplices, tels la décapitation, la potence, la roue, le feu, l'écartèlement ; des peines
accessoires pouvaient être appliquées, ainsi la question, le fouet, la marque, le carcan, les
mutilations. » (LACASSAGNE, 1908, p.131)
15
suprimido pela lei de 28 de abril de 1832, assim como a marca, que consistia em
aplicar um ferro incandescente sobre a face, a bochecha ou as mãos do condenado.
Entretanto, é justamente com os insurgentes de 1789 que se questiona essa
desigualdade até mesmo na hora da morte, variando de acordo com o patamar
social do condenado. Dessa forma, é contra esta injustiça que Joseph Ignace
Guillotin, deputado na Assembleia Constituinte, propõe reação, com o apoio de
Mirabeau, no dia 1º de outubro do ano revolucionário. O Doutor Guillotin, como se
tornou conhecido, falou dos suplícios e das inomináveis dores que provocavam. Em
seguida, o deputado requereu a decapitação através de um aparelho mecânico, de
maneira que esse seria o único suplício a ser adotado, em nome da igualdade.
Outro médico, Antoine Louis, colocou em prática a construção da máquina
inspirada por outras mais antigas.

Um instrumento desse gênero chamado de maiden, [que] funcionou na


Escócia, na metade do século XVIII, segundo relata Andreno em sua obra:
As punições e os suplícios na Inglaterra. Na Itália, em Genova, havia a
mannaya, aparelho um pouco semelhante; em Nuremberg, em um afresco
que remonta, ao que parece, à 1521, vê-se um instrumento parecido com a
guilhotina. Em suas Reflexões sobre o suplício da guilhotina (1795), Sédillot
indica uma máquina análoga chamada doloire a qual teria sido usada na
6
região do Midi da França.

Portanto, vê-se que a ideia original da máquina não foi de Guillotin, pois ele
não fez parte da idealização e da construção da máquina. Mas a história lhe fez uma
espécie de homenagem de qualquer modo.
É preciso destacar que foi a partir da Revolução que a prisão tornou um local
de detenção penal. Sob a influência dos pensadores iluministas, particularmente de
Beccaria, houve a Declaração dos direitos do homem e do cidadão (1789) para
enunciar que “a lei não poderá estabelecer penas além das estritamente e
evidentemente necessárias” 7, o que resulta na supressão dos suplícios. Pode-se
considerar a obra de Beccaria, Dos Delitos e das penas, publicada em 1764, como

6
Tradução nossa, grifo do autor. No original : « Un instrument de ce genre appelé la maiden, avait
fonctionné en Ecosse, au milieu du XVIIIe siècle, selon le rapporte Andreno, dans son livre: Les
châtiments et les supplices en Angleterre. En Italie, à Gênes, il y avait eu la mannaya, appareil à peu
près semblable; à Nuremberg, dans une fresque qui remonte, paraît-il, à 1521, on voit un instrument
ressemblant à la guillotine. Dans ses Réflexions sur le supplice de la guillotine (1795), Sédillot indique
une machine analogue appelée doloire et dont on aurait fait usage dans le Midi de la France. »
(LACASSAGNE, 1908, p.126)
7
Tradução nossa. No original : « la loi ne peut établir que les peines strictement et évidemment
nécessaires. » (DÉCLARATION des droits de l‟homme et du citoyen, 1789)
16
o início da discussão sobre a pena de morte. O autor defendeu a abolição da pena
capital, argumentando que a execução não passava de um espetáculo de crueldade,
além de encorajar outros criminosos:

A pena de morte torna-se um espetáculo para a maioria e um objeto misto


de compaixão e desdém para alguns; ambos esses sentimentos ocupam
mais que o espírito dos espectadores do que o terror salutar que a lei
pretende inspirar. [...] A pena de morte tampouco é útil pelo exemplo de
atrocidade que oferece aos homens. Se as paixões ou a necessidade de
guerra ensinaram a derramar o sangue humano, as leis moderadas da
conduta dos homens não deveriam fortalecer esse exemplo de ferocidade,
tanto mais funesto quanto mais a morte legal é ministrada com metódico
formalismo. Parece-me absurdo que as leis que são a expressão da
vontade pública, que abominam e punem o homicídio, o cometam elas
mesmas e que, para dissuadir o cidadão do assassínio, ordenem um
8
assassínio público.

O jurista ainda defendeu a educação como a melhor forma de prevenção das


contravenções penais.

Finalmente, o meio mais seguro, porém mais difícil, para prevenir os delitos
é aperfeiçoar a educação, assunto demasiado vasto que excede os limites
que me impus. Ouso também dizer que ele está muito intimamente ligado à
natureza do governo, razão para que seja sempre um campo estéril, só
cultivado aqui e acolá por alguns poucos sábios, até nos mais remotos
séculos da felicidade pública. Um grande homem, que ilumina a
humanidade de que o persegue, mostrou em detalhe quais sejam as
principais máximas da educação realmente útil aos homens, a saber:
preterir uma estéril multidão de objetos em favor de uma escolha precisa
deles; substituir os originais às cópias nos fenômenos tanto morais como
físicos que o acaso ou a indústria apresentam aos espíritos novos, dos
jovens; conduzir esses jovens à virtude pelo fácil caminho do sentimento e
desviá-los do mal pela via infalível da necessidade e do inconveniente, e
não pela via duvidosa do comando, que só obtém uma momentânea e
9
simulada obediência. (BECCARIA, 2005, p.136-137)

8
BECCARIA, 2005, 97-100. No original: “La pena di morte diviene uno spettacolo per la maggior
parte e un oggetto di compassione mista di sdegno per alcuni; ambidue questi sentimenti occupano
piú l'animo degli spettatori che non il salutare terrore che la legge pretende inspirare. Ma nelle pene
moderate e continue il sentimento dominante è l'ultimo perché è il solo. Il limite che fissar dovrebbe il
legislatore al rigore delle pene sembra consistere nel sentimento di compassione, quando comincia a
prevalere su di ogni altro nell'animo degli spettatori d'un supplicio piú fatto per essi che per il reo.
[...]Non è utile la pena di morte per l'esempio di atrocità che dà agli uomini. Se le passioni o la
necessità della guerra hanno insegnato a spargere il sangue umano, le leggi moderatrici della
condotta degli uomini non dovrebbono aumentare il fiero esempio, tanto piú funesto quanto la morte
legale è data con istudio e con formalità. Parmi un assurdo che le leggi, che sono l'espressione della
pubblica volontà, che detestano e puniscono l'omicidio, ne commettono uno esse medesime, e, per
allontanare i cittadini dall'assassinio, ordinino un pubblico assassinio. » (BECCARIA, 1828, p.62-69)
9
No original: “Finalmente il piú sicuro ma piú difficil mezzo di prevenire i delitti si è di perfezionare
l'educazione, oggetto troppo vasto e che eccede i confini che mi sono prescritto, oggetto, oso anche
dirlo, che tiene troppo intrinsecamente alla natura del governo perché non sia sempre fino ai piú
remoti secoli della pubblica felicità un campo sterile, e solo coltivato qua e là da pochi saggi. Un
grand'uomo, che illumina l'umanità che lo perseguita, ha fatto vedere in dettaglio quali sieno le
17
O uso da educação como ferramenta de prevenção das contravenções penais
é um argumento que será retomado por Victor Hugo em uma das suas ações contra
a pena de morte. As teses de Beccaria conheceram o sucesso na Europa iluminista
e intensificaram o debate na França. É nessa época que os princípios fundamentais
dos direitos humanos foram estabelecidos. Certos efeitos da Declaração dos
direitos do homem e do cidadão (1789) puderam ser vistos um ano após sua
publicação, como a instauração dos júris de acusação e de julgamento no direito
francês.
Nesse sentido, o Código de 1791 fixou que todas as penas de morte
possíveis de serem aplicadas estariam dispostas no seu primeiro artigo:

Das condenações.
Título Primeiro.
Das Penas em geral.
Art. 1º. as penas que serão pronunciadas contra os acusados declarados
culpados pelo júri são a pena de morte, as correntes, a reclusão na casa de
força, a cela solitária, a detenção, a deportação, a degradação civil, o jugo.
10

O citado artigo ainda previu, pela primeira vez, a privação de liberdade como
pena, uma vez que a liberdade tornou-se um bem do qual a opinião pública havia
tomado consciência. No entanto, as prisões da época foram marcadas por grande
confusão entre os locais de encarceramento. Ou seja, as fortalezas, ou ainda aquilo
que Éliane Lucas chama de “„casas de força‟, „hospitais gerais‟, „depósitos de
mendicância‟ recolhiam todo tipo de indesejáveis: ladrões, devedores, vagabundos,

principali massime di educazione veramente utile agli uomini, cioè consistere meno in una sterile
moltitudine di oggetti che nella scelta e precisione di essi, nel sostituire gli originali alle copie nei
fenomeni sí morali che fisici che il caso o l'industria presenta ai novelli animi dei giovani, nello
spingere alla virtú per la facile strada del sentimento, e nel deviarli dal male per la infallibile della
necessità e dell'inconveniente, e non colla incerta del comando, che non ottiene che una simulata e
momentanea ubbidienza.” (BECCARIA, 1828, p.167)
10
Tradução nossa. No original:
« Des Condamnations.
Titre Premier.
Des Peines en général.
Art. 1ᵉͬ . les peines qui seront prononcées contre les accusés trouvés coupables par le juré sont la
peine de mort, les fers, la réclusion dans la maison de force, la gêne, la détention, la déportation, la
dégradation civique, le carcan. » (CODE Penal, 1791, p.4)
A pena das correntes, instituída sob a Revolução, consistia em prender os pés do condenado a uma
pesada bola de ferro. Essa sanção infame era muito comum em condenados que ainda eram
obrigados a prestar serviços comunitários, como a mineração o a drenagem de pântanos. Outra pena
aflitiva chamava-se jugo, uma pena particularmente dura na qual o condenado teria seus pulsos e
pescoço presos a um pedaço de madeira, de maneira que fosse imobilizado e exposto ao público.

18
11
prostitutas e libertinos, sarnentos ou alienados.” Nesse sentido, mesmo com o
surgimento da prisão como meio de detenção penal, a guilhotina continuará sendo a
pena preferida do governo. Somente sob o Império que os locais de confinamento se
especializam com centrais que agrupam os criminosos julgados, ainda que poucas
prisões fossem instaladas de fato.
O Código Penal de 1791 adotou o artigo 4, dispondo que todo condenado a
morte terá a cabeça laminada. Assim, a primeira guilhotina construída pela
Revolução já era muito eficaz. Certo senhor Schmidt12, um construtor de pianos,
conhecido como um homem inventivo, foi o artista responsável por construir a
máquina destinada a executar. Ele a vendeu pelo preço de quarenta louis no dia 22
de setembro de 1791. Apenas três dias foram necessários para testar a máquina. No
dia 25 de setembro de 1792, após vários ensaios em cadáveres, Nicolas Pelletier,
um ladrão, tornou-se a primeira pessoa guilhotinada na França, e a place de Grève
torna-se o maior palco de execuções no país. Há autores que chegam a supor que a
rapidez da execução da guilhotina teria contribuído com a violência sem precedentes
praticada pela Revolução:

Nós podemos nos perguntar com razão se a rapidez do funcionamento da


máquina posta em uso não contribuiu com o aumento do número de
execuções: em outubro de 1792, os 21 Girondinos foram decapitados em
trinta e um minutos e, mais tarde, houve uma série de 62 vítimas em
13
quarenta e cinco minutos.

Como bem ilustra a citação acima, a pena de morte era tão comum que tal
época foi considerada o início do Terror no longo período de violências da França,
do qual o país fará grandes esforços para recompor-se ao longo dos dois séculos
seguintes. E é preciso ver que, ainda hoje, segundo autores contemporâneos, como
o historiador Jean-Clément Martin (2011), os números não fazem jus à realidade da
época. A violência contra as mulheres, por exemplo, resta imensamente

11
Tradução nossa. No original: « „maisons de force‟, „hôpitaux généraux‟, „dépôts de mendicité‟
retenaient toutes sortes d‟indésirables : voleurs, débiteurs, vagabons, prostituées et libertins, galeux
ou aliénés. » (LUCAS, 2004, p.27)
12
Jean-Tobie Schimdt, nascido em Estrasburgo, era um mecânico localmente conhecido como
criativo inventor.
13
Tradução nossa. No original: « On peut se demander avec raison si la rapidité de fonctionnement
de la machine mise en usage n‟a pas contribué à augmenter le nombre des exécutions : en octobre
1792, les 21 Girondins furent décapités en trente et une minutes et, plus tard, il y eut une série de 62
victimes en quarante-cinq minutes. » (LACASSAGNE, 1908, p.133)
19
desconhecida por conta da real falta de atenção dada ao tema na maioria das
pesquisas.
Outro marco revolucionário foi a decapitação de Louis XVI no dia 21 de
janeiro de 1793, momento em que o país fará um verdadeiro desafio à Europa
monarquista. A data coincide com o início de um conflito inevitável com a Inglaterra,
devido a ocupação da Antuérpia e, em parte, pelo choque causado pelos
insurgentes. Naquele momento, um conflito com a marinha mais poderosa do mundo
não seria nada além de um erro gravíssimo cometido pelos revolucionários. Em sua
obra historiográfica, Jacques Bainville (1924) afirma que a extrema confusão
daquele período nos mostra como os revolucionários tomavam decisões
circunstanciais, a exemplo do início de uma guerra sem sequer possuir um governo
estável.
De fato, o governo era instável, mas o Terror era a única opção para os
franceses, ainda que com as finanças cada vez mais desastrosas por culpa das
enormes despesas militares. As incoerências políticas continuam mesmo após a
queda de Robespierre, momento em que o país pôde respirar um pouco.
Recuperamos as palavras de Bainville para ilustrar a fragilidade do Estado:

Enfim o jacobinismo estava longe de estar morto. Durante cinco anos, a


Revolução ocupou-se de manter igual distância da monarquia e do
terrorismo, sem alcançar outra coisa que não fosse sustentar a desordem e
14
preparar o governo autoritário que sairia dela para conservá-la.

Por conta disso, tivemos o reforço de uma crise na qual a luta contra a
monarquia não empossou um governo de sucesso, além de uma guerra sem os
meios necessários para ser realizada. De qualquer maneira, e sempre sob o
fantasma da crise, a guilhotina foi utilizada até mesmo contra aqueles que se
esforçaram para instituí-la.
No momento de ascensão do poder napoleônico, a França passou por um
período o qual Bainville (1924) chamou de Terreur sèche, ou terror seco, com penas
menos cruéis, no qual o cadafalso foi substituído pela deportação e pela prisão.

14
Tradução nossa. No texto original : « Enfin le jacobinisme était loin d'être mort. Pendant cinq
années, la Révolution fut occupée à se tenir à égale distance du royalisme et du terrorisme, sans
réussir à autre chose qu‟à entretenir le désordre et à préparer le gouvernement autoritaire qui sortirait
d‟elle pour la conserver. » (BAINVILLE, 1924, p.201)
20
Entretanto, também é importante precisar que essa estabilização sob o governo de
Napoleão foi seguido por uma nova requisição à execução.
O Terror tomou a sociedade para perdurar durante o século seguinte,
atingindo até mesmo as artes. A criminalidade fazia parte da imprensa, sendo
praticamente configurada como um objeto de consumo (BARRETO, 2011, p.36). No
século XIX, Victor Hugo irá advertir seus leitores no prefácio da obra O Último Dia
de um condenado: “em tempos de revolução, tenham cuidado com a primeira
cabeça que cai. Ela abre o apetite do povo” (HUGO, 2010, p.165).
Em 1824, Louis XVIII provou sua severidade ao recusar a graça para quatro
sargentos de La Rochelle. Pouco depois, em 1825, Charles X adotou a lei do
15
sacrilégio “que prevê a morte por profanação de vasos contendo hóstias” . É
verdade que em 1824 algumas circunstâncias atenuantes foram introduzidas no
direito francês, uma vez que o código antigo, de 1791, dispunha de apenas duas
opções: a absolvição ou a guilhotina.
Já em 1831, vê-se outro avanço: a abolição da pena de morte para crimes
políticos. No entanto, as razões pelas quais os parlamentares franceses aprovaram
tal lei foram suficientes para retirar-lhes qualquer mérito advindo da ação. Victor
Hugo explica o caso no Prefácio escrito em 1832 para seu romance O Último Dia
de um condenado:

Quatro homens da sociedade, quatro homens sérios, de bem, desses


homens que podíamos ter encontrado em algum salão, e com quem
teríamos trocado algumas palavras educadas; quatro desses homens –
explico – tinham tentado, nas altas esferas políticas, um desses golpes
ousados que Bacon chama de crimes e Maquiavel de empreendimentos.
Ora, crime ou empreendimento, a lei, brutal para todos, pune isso com a
morte. E os quatro infelizes estavam ali, prisioneiros, cativos da lei,
guardados por trezentas insígnias tricolores sob as belas ogivas de
Vincennes. O que fazer e como fazer? Hão de convir que é impossível
enviá-los à Grève, numa carroça, ignobilmente atados com cordas
grosseiras, lado a lado com esse funcionário que é melhor nem nomear,
quatro homens como eu e você, quatro homens públicos! Se ao menos
houvesse uma guilhotina de mogno!
Pois bem! Basta abolir a pena de morte!
E isto posto, a Câmara se põe ao trabalho. [...]
Ora! É exatamente disso que se trata! Não é por sua causa, povo, que nós
abolimos a pena de morte, mas por nossa causa, deputados que podemos
nos tornar ministros. Nós não querermos que o instrumento de Guillotin
morda as altas classes. Nós acabaremos com ele. Tanto melhor se isso

15
Tradução nossa. No original: « qui envisage la mort pour profanation des vases contenant des
hosties. » (LUCAS, 2004, p.24)
21
serve para todos, mas nós pensamos é em nós mesmos. (HUGO, UDC,
16
2010, p.163,4)

Uma norma dotada de tamanha hipocrisia, votada apenas para salvar a


cabeça de quatro ministros, não poderia ser recebida com bons olhos pelo público.
Ainda assim, novas suavizações jurídicas foram vistas nos anos seguintes. Nesse
sentido, Éliane Lucas (2004) afirma que “o abrandamento será, sobretudo, sensível
17
a partir de 1832, no qual a modulação das penas será generalizada.” É neste
contexto que surge a primeira publicação de O Último Dia de um condenado, em
1829.

1.2. A pena de morte em debate

É sob a Restauração18 que o romance de Victor Hugo foi escrito, um período


político no qual podem ser constatados esforços parlamentares para romper com os
modelos anteriores e desenvolver um novo sistema judiciário. Houve até mesmo
certas modificações, como a limitação da arbitrariedade dos juízes, a abolição do
procedimento inquisitorial e a tortura. Entretanto, também se trata de uma época de
retomada de um grande número de execuções.

16
As duas edições do romance de Victor Hugo utilizadas nesta pesquisa, o original e a tradução em
português, foram publicadas em 2010. Para as referências usaremos as siglas DJC para o original
francês e UDC para a tradução em português. No original: « Quatre hommes du monde, quatre
hommes comme il faut, de ces hommes qu'on a pu rencontrer dans un salon, et avec qui peut-être on
a échangé quelques paroles polies ; quatre de ces hommes, dis-je, avaient tenté, dans les hautes
régions politiques, un de ces coups hardis que Bacon appelle crimes, et que Machiavel appelle
entreprises. Or, crime ou entreprise, la loi, brutale pour tous, punit cela de mort. Et les quatre
malheureux étaient là, prisonniers, captifs de la loi, gardés par trois cents cocardes tricolores sous les
belles ogives de Vincennes. Que faire et comment faire ? Vous comprenez qu'il est impossible
d'envoyer à la Grève, dans une charrette, ignoblement liés avec de grosses cordes, dos à dos avec ce
fonctionnaire qu'il ne faut pas seulement nommer, quatre hommes comme vous et moi , quatre
hommes du monde ? Encore s'il y avait une guillotine en acajou !
Hé ! il n'y a qu'à abolir la peine de mort !
Et là-dessus, la Chambre se met en besogne. [...]
Bah ! c'est bien de cela qu'il s'agit ! Ce n'est pas à cause de vous, peuple, que nous abolissons la
peine de mort, mais à cause de nous, députés qui pouvons être ministres. Nous ne voulons pas que
la mécanique de Guillotin morde les hautes classes. Nous la brisons. Tant mieux si cela arrange tout
le monde, mais nous n'avons songé qu'à nous. » (HUGO, DJC, 2010, p.21-22, grifo do autor)
17
Tradução nossa. No original: « l‟adoucissement sera surtout sensible à partir de 1832, où la
modulation des peines sera généralisée. » (LUCAS, 2004, p.24)
18
Chama-se Restauração o período no qual a França retornou ao regime monárquico, compreendido
entre a queda do Primeiro Império, em 6 de abril de 1814, e a Revolução de 1830, em 29 de julho do
mesmo ano. Louis XVIII e Charles X, irmãos de Louis XVI, ocuparam o trono e exerceram um
governo limitado pela Carta de 1814.
22
De qualquer forma, certas inovações da Revolução foram conservadas, como
o direito de ter um advogado de defesa, ainda que em tribunais de exceção, a
fixação definitiva das leis penais e o julgamento confiado ao júri. Os crimes mais
graves continuaram sendo punidos com a morte ou com trabalhos forçados pela
perpetuidade.
Na Restauração, período de grande agitação política e social, o debate sobre
a pena de morte era responsável por perturbar os meios intelectuais. Contribuindo
para a popularidade do tema, destacam-se várias publicações sobre a matéria na
época. O jornal La Gazette des tribunaux, por exemplo, relatava processos,
publicava histórias de condenados e propagava novas teorias sobre o direito penal.
Em 1828, o jurista progressista Charles Lucas (apud LUCAS, 2004) recuperou
o debate parlamentar sobre a execução. No século XIX o interesse literário sobre o
crime cresceu, especialmente durante a Restauração e após a publicação de
histórias a respeito de

escroques e criminosos, como Vidocq ou Lacenaire, que fizeram grande


estardalhaço na sociedade da época, alcançando o patamar de
celebridades por seus atos audaciosos. Esses aventureiros, que ainda hoje
ocupam o imaginário popular francês, inscreveram-se também no
patrimônio literário da época, pois redigiram suas próprias Memórias
forjando-se, assim, um destino romanesco. Nessa mesma trajetória, outras
publicações surgiram como as Mémoires d’un forban philosophe, texto
anônimo de 1829, ou trechos de diários de condenados a morte publicados
em revistas da época,2 o que ratificava e suscitava ainda mais o interesse
do público pelo crime e o criminoso.
No século 19 o crime se torna familiar às populações e o uso do cadafalso e
da guilhotina se encontra banalizado. As execuções haviam se
transformado em espetáculos públicos e o crime, pelas mãos da imprensa,
praticamente se configurava como objeto de consumação. (BARRETO,
2011, p.35-36)

No século XIX havia uma literatura popular contaminada pelo roman noir, com
obras caracterizadas pelo exagero do horrível e do terrível. O desenvolvimento
dessa nova estética se deu a partir do século XVIII, produzindo futuramente uma
literatura na qual o real e os crimes se ocupavam do imaginário romântico:

Na primeira parte do 19, o gosto da época associa a figura masculina ao


amante fatal e cruel, tornando o crime de amor parte integrante de muitos
textos, como em algumas novelas de Prosper Merimée, entre muitos outros.
A literatura e o real interpenetravam-se, transformando-se em signo de força
do crime, em suas diferentes formas, sobre o imaginário romântico.
(BARRETO, 2011, pg. 36)

23
1.3. Hugo e a pena de morte

Além do contexto histórico e literário da época, ainda é preciso destacar neste


estudo as experiências que Victor Hugo teve com a morte ao longo de sua vida.
Essa relação do autor com a pena capital inicia-se na tenra idade, com dolorosas
lembranças de infância que o poeta carregará consigo por toda a vida: “aos nove
anos, ele foi perturbado pelas visões macabras das represálias francesas na
Espanha; um ano mais tarde, ele soube que o general Lahorie, seu padrinho
19
(amante de sua mãe), seria executado por razões políticas.” Os tormentos dessas
recordações do autor com a perseguiram-no a cada vez que ele se reencontrou com
a guilhotina. Sobre a prematura experiência de Victor Hugo com a morte, Didier
Sevreau (2009) afirma que

[...] [o autor] foi confrontado muito cedo com a morte, e a morte violenta.
Nas estradas da Itália, onde guerreavam os exércitos de Napoleão 1º, ele
acompanha sua mãe que partira para juntar-se a seu marido: “Eles
passavam congelados de terror, perto de cabeças cortadas, já secas ou
ainda sangrando, de braços e de mãos pregadas a outras árvores,
espantalhos horríveis que diziam aos matadores de grandes estradas: Eis o
que vocês serão!” Hugo tem então seis anos. Quando em 1811 e 1812, ele
permanecerá na Espanha, ele ainda poderá observar as atrocidades da
20
guerra entre os espanhóis e o exército francês de ocupação.

Sobre esses momentos na juventude do poeta, a biografia intitulada Victor


Hugo raconté par um témoin de sa vie (1873), escrita por sua esposa Adèle Hugo,
revela frequentes encontros do autor com a pena de morte. No capítulo dedicado ao
tema, Adèle relata a primeira vez que o escritor encarou de fato a pena de morte:

O senhor Victor Hugo se encontrava, em 1820, no caminho de Louvel indo


para o cadafalso. O assassino do duque de Berry não havia nada que
despertasse simpatia, era um homem gordo e corpulento, com um nariz
cartilaginoso sobre lábios finos, e olhos de um azul vidrado. O autor da ode
sobre a Morte do duque de Berry o odiava com todo o seu ultra-

19
Tradução nossa. No original: « à neuf ans, il avait été bouleversé par les visions macabres des
représailles françaises en Espagne ; un an plus tard, il apprit que le général Lahorie, son parrain
(amant de sa mère), allait être exécuté pour raison politique. » (LUCAS, 2004, p.14)
20
Tradução nossa. No original : « [...] [l‟auteur] a été très tôt confronté à la mort, et à la mort violente.
Sur les routes d‟Italie où guerroient les armées de Napoléon Ier, il accompagne sa mère partie
rejoindre son mari : „Ils passaient glacés de terreur, près de têtes coupées, déjà desséchées ou
saignant encore, de bras et de mains cloués à d‟autres arbres, affreux épouvantails qui disaient aux
tueurs de grandes routes : Voilà ce que vou serez !‟ Hugo a alors six ans. Quand en 1811 et 1812, il
séjournera en Espagne, il pourra encore observer les atrocités de la guerre entre les Espagnols et
l‟armée française d‟occupation. » (SEVREAU, 2009, p.89)
24
monarquismo de infância. E, no entanto, ao ver aquele homem que estava
vivo e com boa saúde e que seria morto, ele não pôde se impedir de
lastimar, e ele sentiu seu ódio pelo assassino transformar-se em pena pelo
paciente. Ele refletiu, e pela primeira vez encarou a pena de morte de
frente, ficou surpreso que a sociedade fez ao culpado, e de sangue frio, e
sem perigo, precisamente a mesma coisa pela qual ela o punia, e teve a
21
ideia de fazer um livro contra a guilhotina .

Entretanto, essa não foi a única experiência do autor com a pena capital. Mais
tarde, o poeta esteve na Place de Grève acompanhado de um amigo e viu o suplício
de um parricida chamado Pierre Martin. Adèle Hugo descreve a chocante cena:

[...] a multidão era tão espessa que se tornou difícil avançar. Os senhores
Victor Hugo e Jules Lefèvre puderam, entretanto, alcançar a praça. As
casas transbordavam de gente. Os inquilinos tinham convidado seus
amigos para a festa; via-se mesas cobertas de frutas e vinhos; [...] jovens
mulheres vinham se debruçar no apoio das janelas, copo na mão e rindo às
gargalhadas, fazendo trejeitos para os jovens. Mas logo a faceirice cessou
por um prazer mais vivo: a charrete chegava. [...] O senhor Victor Hugo via
a guilhotina de perfil; para ele não era mais que um poste vermelho. Um
grande local guardado pela tropa isolava o cadafalso: a charrete lá entrou.
Jean Martin desceu, sustentado por ajudantes, depois, sempre apoiado por
eles, subiu a escada. O capelão subiu depois dele, em seguida o escrivão,
que leu o julgamento em voz alta. Então, o carrasco ergueu o véu negro, fez
aparecer um jovem rosto abatido e confuso, tomou a mão direita do
condenado, prendeu-a ao poste com uma corrente, tomado não pôde olhar
mais, virou a cabeça, e não voltou a si até que o Ah! da multidão lhe disse
22
que o infeliz cessara de sofrer.

O fato marcou tanto o escritor, que ele chegou a descrever uma cena
semelhante no capítulo XLVIII de O Último Dia de um condenado:

21
Tradução nossa. No original: « M. Victor Hugo s'était trouvé, en 1820, sur le passage de Louvel
allant à l'échafaud. L'assassin du duc de Berry n'avait rien qui éveillât la sympathie; il était gros et
trapu, avait un nez cartilagineux sur des lèvres minces, et des yeux d'un bleu vitreux. L'auteur de l'ode
sur la Mort du duc de Berry le haïsait de tout son ultra-royalisme d'enfant. Et cependant, à voir cet
homme qui était vivant et bien portant et qu'on allait tuer, il n'avait pu s'empêcher de le plaindre, et il
avait senti sa haine pour l'assassin se changer en pitié pour le patient. Il avait réfléchi, avait pour la
première fois regardé la peine de mort en face, s'était étonné que la société fit au coupable, et de
sangfroid, et sans danger, précisément la même chose dont elle le punissait, et avai eu l'idée de faire
un livre contre la guillotine. » (HUGO, 1873, p.165)
22
Tradução nossa. No original: « [...] la foule était si épaisse qu'il devint difficile d'avancer. MM. Victor
Hugo et Jules Lefèvre purent cependant gagner la place. Les maisons regorgeaient de monde. Les
locataires avaient invité leurs amis à la fête; on voyait des tables couvertes de fruits et de vins; [...] de
jeunes femmes venaient s'accouder à l'appui des croisées, verre en main et riant aux éclats, ou
minaudant avec des jeunes gens. Mais bientôt la coquetterie cessa pour un plaisir plus vif: la charrette
arrivait. [...]M. Victor Hugo voyait la guillotine de profil; ce n'était pour lui qu'un poteau rouge. Un large
emplacement gardé par la troupe isolait l'échafaud: la charrette y entra. Jean Martin descendit,
soutenu par les aides, puis, toujours supporté par eux, il gravit l'échelle. L'aumônier monta après lui,
puis le greffier, qui lut le jugement à haute voix. Alors le bourreau leva le voile noir, fit apparaître un
jeune visage effaré et hagard, prit la main droite du condamné, l'attacha au poteau avec une chaîne,
saisit ne put pas en regarder davantage, il détourna la tête, et ne redevint maître de lui que lorsque le
Ha! de la foule lui dit que le malheureux cessait de soufrir. » (HUGO, 1873, p.166,7)
25
Todas aquelas vozes, todas aquelas cabeças nas janelas, nas portas, nas
grades das lojas, nos postes: aqueles espectadores ávidos e cruéis; aquela
multidão em que todos me conheciam e eu não conhecia ninguém; aquela
rua pavimentada e murada de rostos humanos... Sentia-me embriagado,
estúpido, insano. É algo insuportável o peso de tantos olhares apoiados. [...]
De repente a série de lojas que ocupavam meus olhos interrompeu-se na
esquina da praça; a voz da multidão tornou-se mais forte, mais clamorosa,
mais alegre ainda; a carroça parou subitamente, e eu quase caí de rosto
23
nas tábuas. O padre me segurou. “Coragem”, murmurou. (HUGO, UDC,
2010, p.148-149)

Outro fato marcante foi a execução de Ulbach24 em 1827, o que é afirmado


pelo próprio autor no Prefácio da obra. Na época, o condenado desejava que suas
memórias fossem publicadas e o pedido foi concedido pelo jornal La Gazette des
tribunaux, gerando um verdadeiro choque para o público e para o escritor.
Ademais, também é importante destacar que Victor Hugo não foi sensibilizado
apenas pelas condenações que o acompanharam ao longo da vida. Os detalhes que
rodeavam a execução em si o revoltavam. A biografia escrita por Adèle Hugo relata
que o poeta indignou-se após descobrir a forma como a lâmina da guilhotina era
afiada com graxa, tornando-a ainda mais letal.

O senhor Victor Hugo reviu a guilhotina um dia em que ele atravessava, por
volta das duas horas a praça do Hôtel de ville. O carrasco repetia a
representação de si; a lâmina não corria bem; ele lubrificou as ranhuras, e
então testou novamente. Desta vez, ficou contente. Este homem, que se
apressava a matar um outro, que fazia isso em plena luz do dia, em público,
conversando com os curiosos, enquanto um infeliz homem desesperado se
debatia na sua prisão louco de raiva ou se deixava ligar com a inércia e
estupefação do terror, foi para o senhor Victor Hugo uma figura hedionda, e
a repetição da coisa lhe pareceu tão odiosa que a coisa em si. Ele se pôs a
escrever o Último dia de um condenado na manhã seguinte e o concluiu em
25
três semanas.

23
No original: « Toutes ces voix, toutes ces têtes aux fenêtres, aux portes, aux grilles des boutiques,
aux branches des lanternes ; ces spectateurs aides et cruels ; cette foule où tous me connaissent et
où je ne connais personne ; cette route pavée et murée de visages humains... J‟étais ivre, stupide,
insensé. C‟est une chose insupportable que le poids de tant de regards appuyés sur vous. [...] Tout à
coup la série des boutiques qui occupait mes yeux s‟est coupée à l‟angle d‟une place ; la voix de la
foule est devenue plus vaste, plus glapissante, plus joyeuse encore ; la charrette s‟est arrêtée
subitement, et j‟ai failli tomber la face sur les planches. Le prête m‟a soutenu. – Courage ! a-t-il
murmuré. » (HUGO, DJC, 2010, p.148-149)
24
Honoré Ulbach tornou-se famoso após protagonizar o trágico assassinato de Aimée Millot na
França. Após ser proibido de namorar a jovem garota de 19 anos, Ulbach acertou-a com cinco
facadas dentre as quais três foram mortais. Para maior choque da época, a cena aconteceu na
presença de uma criança que acompanhava Millot. Arrependido, Ulbach se entregou à polícia, foi
condenado à morte e guilhotinado no dia 10 de setembro de 1827.
25
Tradução nossa. No original : « M. Victor Hugo revit la guillotine un jour qu'il traversait, vers deux
heures la place de l'Hôtel de ville. Le bourreau répétait la représentation du soi; le couperet n'allait pas
bien; il graissa les rainures, et puis il essaya encore. Cette fois il fut content. Cet homme, qui
s'apprêtait à en tuer un autre, qui faisait cela en plein jour, en public, en causant avec les curieux,
pendant qu'un malheureux homme désespéré se débattait dans sa prison fou de rage ou se laissait
26
Esse fato também foi destacado pelo próprio autor no capítulo XXVIII de O
Último Dia de um condenado, no qual Victor Hugo descreve a guilhotina sendo
testada. Nesse mesmo trecho, ainda há a presença de uma mulher acompanhada
de uma criança, um amálgama de todas as experiências do autor adulto e de suas
lembranças de infância:

Estava passando um dia pela praça de Grève, de carro, às onze horas da


manhã. De repente o carro parou.
Havia uma multidão na praça. Encostei a cabeça na janela. Um mundaréu
abarrotava a Grève e o cais, e mulheres, homens, crianças estavam de pé
nos parapeitos. Por cima das cabeças, podia-se ver uma espécie de estrado
de madeira vermelha onde três homens montavam algo.
Um condenado seria executado naquele mesmo dia, e estavam montando a
máquina.
Desviei a cabeça antes de vê-la. Perto do carro havia uma mulher dizendo a
uma criança:
- Ei, veja! A lâmina não está deslizando bem, eles vão lubrificar a ranhura
com um pedaço de vela.
É provavelmente nesse estágio que eles se encontram hoje. Onze horas
acabam de soar. Eles estão sem dúvida lubrificando a ranhura.
26
Ah! Desta vez, infeliz, não desviarei a cabeça. (HUGO, UDC, 2010, p.105)

Após a contextualização das relações de Hugo com a pena capital, é possível


compreender que O Último Dia de um condenado não se trata de uma obra de
circunstância, mas a consequência de todo um caminho de maturação afetiva, social
e intelectual que o autor percorreu para emprestar a seu personagem suas próprias
inquietações e questionamentos.

lier avec l'inertie et l'hébétement de la terreur, fut pour M. Victor Hugo une figure hideuse, et la
répétition de la chose lui parut aussi odieuse que la chose même. Il se mit le lendemain même à
écrire le Dernier jour d'un condamné et l'acheva en trois semaines. » (HUGO, 1873, p.168)
26
No original : « Je passais sur la place de Grève, en voiture, un jour, vers onze heures du matin.
Tout à coup la voiture s‟arrêta. Il y avait foule sur la place. Je mis la tête à la portière. Une populace
encombrait la Grève et le quai, et des femmes, des hommes, des enfants étaient debout sur le
parapet. Au-dessus des têtes, on voyait une espèce d‟estrade en bois rouge que trois hommes
échafaudaient. Un condamné devait être exécuté le jour même, et l‟on bâtissait la machine. Je
détournai la tête avant d‟avoir vu. A côté de la voiture, il y avait une femme qui disait à un enfant : -
Tiens, regarde ! Le couteau coule mal, ils vont graisser la rainure avec un bout de chandelle. C‟est
probablement là qu‟ils en sont aujourd‟hui. Onze heures viennent de sonner. Ils graissent sans doute
la rainure. » (HUGO, DJC, 2010, p.117)
27
Figura 3
28
CAPÍTULO 2 Ŕ O ÚLTIMO DIA DE UM CONDENADO

Ao longo de toda a sua vida, Victor Hugo experimentou uma relação de


proximidade com a pena capital. O autor viveu a condenação de seu padrasto, viu a
decapitação de Ulbach e ainda assistiu a literatura adotar um gosto pelo horrível,
sempre acompanhada de uma grande repercussão pública.
Nesse conjunto de fatos que contribuíram com a criação de O Último Dia de
um condenado, a vida de Victor Hugo foi perturbada por outro acontecimento
terrível: a morte súbita de seu pai em 1828. É um mal-estar pelo qual o autor passa
pouco antes de dar início à escrita da obra, e que reaviva suas lembranças e
questionamentos sobre a morte. A respeito da transformação que o escritor sofre,
pode-se afirmar que

ao emprestar ao seu condenado parcelas dele mesmo, Hugo se põe com e


através seu personagem frente à morte. Pela escrita, ele se analisa, ele faz
um balanço dele mesmo, ele reflete sobre o que é a existência, sobre o que
27
é sua existência submetida a um termo desconhecido e fatal.

Dessa forma, o ano de 1828 foi um ano atormentado e fecundo ao mesmo


tempo, marcado pela passagem do homem e do escritor à vida adulta. É o ano em
que o autor produz Les Orientales, concebe a ideia de Notre-Dame de Paris e, ao
fim dele, conclui seu terceiro romance, O Último Dia de um condenado.

2.1. Gênese

O romance foi concebido em apenas algumas semanas, através de uma


redação veloz, como se houvesse urgência na publicação da obra. A data de início
de produção do primeiro capítulo, o dia 14 de outubro de 1828, coincide com a
publicação de um artigo de Charles Lucas sobre o sistema penal no Jornal des
débats. Posteriormente, já em dezembro, durante três semanas, o escritor se dedica
ao romance

27
Tradução nossa. No original: « En prêtant à son condamné des parcelles de lui-même, Hugo se
place avec et à travers son personnage devant la mort. Par l‟écriture, il s‟analyse, il fait le point sur lui-
même, il réfléchit sur ce qu‟est l‟existence, sur ce qu‟est son existence soumise à l‟échéance inconnue
et fatale. » (SEVREAU, 2009, p.89)
29
[...] seguindo a ordem cronológica do diário do condenado. Ele descreveu o
trabalho forçado de acorrentados (XIII, XIV) a partir de suas visitas à Bicêtre
em 1826, 1827 e 1828 e a exposição do condenado (XLVIII) a partir da
28
lembrança da execução de Martin.

Ou seja, para escrever esta obra, Victor Hugo inspirou-se nos relatos de
criminosos, usando, por exemplo, o argot29 presente nas Mémoires de Vidocq. Este
último serviu de inspiração para a jovem menina que canta no capítulo XIV do
romance:

A apresentação mais documentada concerne o jargão apresentado no


capítulo V, retomado em uma longa canção no capítulo XVI e amplamente
empregado na história do friauche do capítulo XXIII. O autor descobriu esta
língua nas Memórias atribuídas à Vidocq. Com certeza aqui, por trás do
personagem, se projeta claramente Victor Hugo seduzido pelas „palavras
bizarras‟ de um „pitoresco assustador‟. [...] Assim, Victor Hugo é certamente
30
o primeiro a ter introduzido o argot na literatura [...].

Victor Hugo chegou a acrescentar um fac-símile da canção manuscrita em


argot. Essa atitude fez parte de sua estratégia para enganar o leitor ingênuo,
fazendo-o crer que a obra se tratava de um verdadeiro diário de memórias de um
condenado. Contudo, ele também sugeriu em um pequeno prefácio do romance que
se tratava da obra de um sonhador.
A redação do romance foi rápida, acabou no Natal de 1828. Entretanto, pouco
antes da sua publicação, o autor adicionou o capítulo XV sobre o Rei e, em fevereiro
de 1829, o romance foi publicado sob o anonimato. A opção de Victor Hugo pelo
anonimato não foi causada apenas por uma vontade de iludir o leitor. Politicamente,
a obra se trata de uma implacável acusação contra a pena de morte e contra outras
28
Tradução nossa. No original: « [...] en suivant l‟ordre chronologique du journal du condamné. Il
décrivit le ferrement et la chaîne des forçats (XIII, XIV) d‟après ses visites à Bicêtre en 1826, 1827 e
1828 et l‟exposition du condamné (XLVIII) à partir du souvenir de l‟exécution de Martin. » (LUCAS,
2004, p.15)
29
Inicialmente usada com o sentido de “corporação de ladrões”, a palavra argot passou a designar
um vocabulário secreto, reservado para pessoas que tenham sido iniciadas em grupos, desde ladrões
de bolsas a trabalhadores ou estudantes. Entendido como um conjunto de termos insólitos e
vulgares, o argot tornou-se conhecido através de autores como Lacenaire ou Vidocq. Este último,
policial em uma colônia penal, assinou Mémoires e Voleurs, inspirando romancistas do século XIX,
dentre eles Hugo. Atualmente, o argot tem sido usado com o significado de língua familiar, as gírias,
ou de um meio fechado, como o jargão militar por exemplo. (GUILBER ; LAGANE; NIOBEY, 1971,
p.234-238)
30
Tradução nossa. No original: « L‟exposé le plus documenté concerne l‟argot présenté au chapitre V,
repris dans une longue chanson au chapitre XVI et employé largement dans le récit du friauche du
chapitre XXIII. L‟auteur a découvert cette langue dans les Mémoires attribués à Vidocq. Bien sûr ici,
derrière le personnage, se profile nettement Victor Hugo séduit par les „mots bizarres‟ d‟un
„pittoresque effrayant „. [...] Ainsi, Victor Hugo est certainement le premier à avoir fait entrer l‟argot en
littérature [...]. » (LUCAS, 2004, p.66-67)
30
convicções monarquistas, pilares da política penal de Charles X, cujo governo
multiplicou as execuções.
A obra ainda surgiu em um momento no qual a crítica não aprovava nem a
defesa de um condenado, nem a defesa da abolição da pena de morte através de
um romance. Nesse sentido, O Último Dia de um condenado funcionou como
gatilho para um grande escândalo, ainda que sempre acompanhado pelo sucesso.

Escrito em pouco tempo no final de 1828, ele [o romance] conheceu


rapidamente um grande sucesso público porque pouco mais de três
semanas após sua publicação nos primeiros meses de 1829, ele já era
objeto de uma terceira edição; mas ele se vê atacado por um crítica pouco
31
habituada a tal tema e sobretudo à tal perspectiva.

Outro exemplo das emoções que Victor Hugo causava no público da época
pode ser visto em carta endereçada ao escritor pelo poeta romântico e amigo, Alfred
de Vigny.:

Eu vou de você a você, do alto ao baixo, do baixo ao alto, das Orientais ao


Condenado, do Hôtel de Ville à torre de Babel, é você por toda parte,
sempre você, sempre a cor luminosa, sempre a emoção profunda, sempre a
32
expressão verdadeira plenamente satisfatória, a própria poesia.

A crítica recebida pelo romance ao tempo da publicação foi muito agressiva.


Por conta disso, para responder a todos, Victor Hugo preparou para a terceira
edição uma espécie de prefácio em forma de diálogo, intitulado Uma comédia a
propósito de uma tragédia. Esse pequeno prefácio se trata de um texto irônico no
qual o autor defende sua obra através de uma conversa em um salão parisiense. É
uma pequena peça na qual um Cavaleiro, um Poeta Elegíaco, um Filósofo, um
Senhor Gordo, um Senhor Magro e outras figuras debatem O Último Dia de um
condenado.
Nesse prefácio, Hugo deu à palavra a todos que o criticavam, retomando seus
argumentos. Na verdade, essa foi uma forma de desacreditar tais vozes, uma vez

31
Tradução nossa. No original: « Rédigé en peu de temps à la fin de 1828, il a connu rapidement un
grand succès public puisqu'un peu plus de trois semaines après sa publication dans les premiers mois
de 1829, il fait déjà l'objet d'une troisième édition; mais il se voit assailli par une critique peu habituée
à un tel sujet et surtout à une telle perspective. » (BOZON, 2000, p.9)
32
Tradução nossa. No original : « Je vais de vous à vous, du haut en bas, du bas en haut, des
Orientales au Condamné, de L‟Hôtel de Ville à la tour de Babel, c‟est partout vous, toujours vous,
toujours la couleur éclatante, toujours l‟émotion profonde, toujours l‟expression vraie pleinement
satisfaisante, la poésie même. » (VIGNY apud LUCAS, 2004, p.15)
31
que a simples repetição das críticas foi suficiente para que caíssem por conta
própria, pelo

tanto que são estúpidas. Nos dizeres de uns, O Último Dia de um


condenado é um “livro abominável” porque sua leitura “perturba as
consciências” e que ela impede de dormir... Nos dizeres de outros, não
sendo nem juiz nem magistrado, Hugo não era competente para escrever
sobre um tal tema... Como se precisasse ser jurista para militar contra a
33
pena de morte!

Victor Hugo faz dos personagens do prefácio uma caricatura de todas as


críticas que recebeu e refuta seus argumentos. Para o Filósofo, por exemplo, não
há, na obra, qualquer apelo à razão ou à demonstração rigorosa, mas apenas um
conjunto de emoções e reações individuais que, pela falta de método científico,
deveriam ser desconsideradas. Mas essa particularidade era justamente o que o
autor buscava, fazer o leitor olhar as experiências do condenado através de seus
próprios olhos e corpo.
Cada personagem prima pela falta de consistência em seus argumentos.
Além destes argumentos

Já ridículos em si, suas afrontas tornam-se ainda mais se considera-se os


personagens que as formulam. Cada um deles possui de fato um defeito
que desacredita suas proposições antecipadamente. Ergaste julga o “livro
abominável”, mas ele confessa que não o leu! O “Cavaleiro” está mais
preocupado com “belas festas, versos bonitos” que com destino dos
infelizes. O “Senhor Gordo” aparece satisfeito de si mesmo. O “Senhor
Magro” sabe apenas repetir: “O mau gosto!, sem outra forma de julgamento.
O “Filósofo”, em princípio ligado com as coisas do espírito, se preocupa em
saber se ele jantará esta noite. Quanto ao poeta elegíaco, é um admirador
incondicional e grotesco da poesia da Idade Média.
Assim se clarifica o título, de aparência paradoxal. A “tragédia” remete ao
tema do livro: a pena de morte, seu horror e sua desumanidade. A
“comédia” é uma palavra de duplo sentido, que designa ao mesmo tempo a
34
forma teatral do texto e o comportamento ridículo dos personagens.

33
Tradução nossa. No original : « tant elles sont stupides. Aux dires des uns, Le Dernier Jour d‟un
condamné est un „livre abominable‟ parce que sa lecture „trouble les consciences‟ et qu‟elle empêche
de dormir... Aux dires des autres, n‟étant ni juge ni magistrat, Hugo n‟était pas compétent pour écrire
sur un tel sujet... Comme s‟il fallait être juriste pour militer contre la peine de mort ! » (SEVREAU,
2009, p.91)
34
Tradução nossa. No original : « Déjà dérisoires par eux-mêmes, ces griefs le deviennent encore
davantage si l‟on tient compte des personnages qui les formulent. Chacun d‟eux possède en effet un
travers qui discrédite par avance ses propos. Ergaste juge le „livre abominable‟, mais il avoue qu‟il ne
l‟a pas lu ! (92) „Le Chevalier‟ est plus préoccupé de „belles fêtes, de jolis vers‟ que du sort des
malheureux. Le „Gros Monsieur‟ paraît content de lui. Le „Monsieur maigre‟ ne sait que répéter : „Le
mauvais goût‟, sans autre forme de procès. Le „Philosophe‟, en principe attaché aux choses de
l‟esprit, s‟inquiète de savoir s‟il dînera ce soir. Quant au poèt élégiaque, c‟est un admirateur
inconditionnel et grotesque de la poésie du Moyen Âge. Ainsi s‟éclaire le titre, d‟apparence
32
Em 1832, após a revolução de 1830 e a queda de Charles X, o escritor vem a
público novamente para acrescentar um violento Prefácio ao texto e lançar a obra
sob sua própria assinatura. Nele, Victor Hugo propõe verdadeira reflexão sobre a
pena de morte, além de mostrar ao público seus argumentos contra a execução,
constituindo um momento muito significativo para a história de defesa dos direitos
humanos.
Neste Prefácio, que Hugo finaliza em 15 de março de 1832, é considerado um
posfácio por alguns autores, o autor toma a palavra para teorizar seu
posicionamento sobre a pena de morte. Em uma espécie de manifesto político, Hugo
não se pronuncia a respeito do valor literário do romance:

O Prefácio publicado em 31 de março de 1832 é na realidade um posfácio.


Ele é composto de duas partes, escritas em momentos diferentes: um texto,
Fragmentos sobre a pena de morte, (parte 2) concebido um pouco antes, na
sequência do pleito que fecha o relato de Claude Gueux (segundo romance
sobre a execução capital, publicado em 1834) que ele faz preceder, por
ocasião da quinta edição do Último Dia de um condenado, de quatro
35
páginas concernindo especialmente o romance (parte 1).

O escritor é enfático ao afirmar que o objetivo da obra é litigar em nome de


todos os acusados e condenados à morte. Victor Hugo ainda explicita a gênese do
romance, cuja ideia veio do espetáculo da decapitação, da place de Grève, e não do
plágio de outros diários de condenados, como alguns críticos da época o acusaram.
Novamente o poeta toma para si os argumentos daqueles que são favoráveis
à pena de morte, e através de um implacável encadeamento lógico e eloquência,
refuta a todos eles para apresentar suas próprias razões para se posicionar contrário
a ele. Hugo leva o leitor a crer que a pena capital não é nem necessária, nem
dissuasiva, não passando de um erro judiciário e de uma sentença de infâmia
perpétua à família do condenado.
O escritor compara a pena de morte à própria tortura e ainda critica a abolição
da pena capital para crimes políticos de 1831. Para o poeta, a pura e simples

paradoxale. La „tragédie‟ renvoie au sujet du livre : la peine de mort, son horreur et son inhumanité. La
„comédie‟ est un mot à double sens, qui désigne à la fois la forme théâtrale du texte et le
comportement ridicule des personnages.» (SEVREAU, 2009, p.91-92)
35
Tradução nossa. No original : « La Préface publiée le 31 mars 1832 est en réalité une postface. Elle
est composée de deux parties, écrites à des moments différents : un texte, Fragments sur la peine de
mort, (partie 2) conçu un peu auparavant, dans la foulée du plaidoyer qui clôt récit de Claude Gueux
(deuxième roman sur l‟exécution capitale, publié en 1834) qu‟il fait précéder, à l‟occasion de la
cinquième édition du Dernier Jour d’un condamné, de quatre pages concernant plus particulièrement
le roman (partie 1). » (LUCAS, 2004, p.17)
33
sentença à guilhotina deveria ser excluída do Direito Penal francês, não apenas os
casos que iriam favorecer quatro ministros criminosos.
O Prefácio de 1832 contém múltiplas frases interrogativas e exclamativas,
contribuindo para criar a sensação de que um discurso estaria sendo proferido ao
leitor. Victor Hugo ainda lança um desafio para os juízes da época, afirmando uma
dúvida que por si só parece suficiente para criar crises de consciência nos
magistrados:

Os senhores não veem que suas execuções públicas estão sendo feitas
furtivamente? Não veem que estão se escondendo? Que têm medo e
vergonha de sua própria obra? Que balbuciam ridiculamente o deus discite
justitiam moniti? Que, no fundo, os senhores estão abalados, interditados,
inquietos, incertos de estarem com a razão, assolados pela dúvida geral,
cortando cabeças por hábito e sem saber muito bem o que estão fazendo?
Não sentem no fundo de seus corações que os senhores pelo menos
perderam o sentimento moral e social da missão de sangue que seus
predecessores, os velhos parlamentares, cumpriam com a consciência tão
tranquila? De noite, os senhores não reviram mais do que eles a cabeça no
travesseiro? [...] os senhores, em seu íntimo, não têm muita certeza de não
36
serem assassinos! (HUGO, UDC, 2010, p.176-177)

Desta feita, o manifesto a favor da abolição da pena de morte em forma de


Prefácio consolida o romance entre as obras de teor político. No entanto, para a
literatura, representa o início do gênero do monólogo interior, no qual Victor Hugo
entrega suas próprias experiências e traumas ao condenado, como se fosse preciso,
no momento de gênese da obra, se libertar através da escrita e da criação.

2.2. O texto

O Último Dia de um condenado é uma obra na qual todos os elementos


textuais presentes contribuem com a caracterização de uma tragédia e um

36
No original : « Ne voyez-vous donc pas que vos exécutions publiques se font en tapinois ? Ne
voyez-vous donc pas que vous vous cachez ? Que vous avez peur et honte de votre oeuvre ? Que
vous balbutiez ridiculement votre discite justitiam moniti ? Qu'au fond vous êtes ébranlés, interdits,
inquiets, peu certains d'avoir raison, gagnés par le doute général, coupant des têtes par routine et
sans trop savoir ce que vous faites ? Ne sentez-vous pas au fond du coeur que vous avez tout au
moins perdu le sentiment moral et social de la mission de sang que vos prédécesseurs, les vieux
parlementaires, accomplissaient avec une conscience si tranquille ? La nuit, ne retournez-vous pas
plus souvent qu'eux la tête sur votre oreiller ? [...] vous, dans votre for intérieur, vous n'êtes pas bien
sûrs de ne pas être des assassins ! » (HUGO, DJC, 2010, p.34-35)
34
manifesto. O condenado, desconhecido para o leitor assim como seu crime,
atravessa um processo no qual sua consciência torna-se incerta até para ele próprio:

Oh! Será mesmo verdade que morrerei antes do fim deste dia? Será
verdade que sou eu? Esse ruído surdo de gritos que ouço lá fora, essa
massa de gente alegre que já se apressa no cais, esses gendarmes que se
preparam em suas casernas, esse padre de batina preta, esse outro homem
37
de mãos vermelhas, são todos para mim! Sou eu que vou morrer! (HUGO,
UDC, 2010, p.103)

Além do personagem, o local onde o enredo se desenrola também merece


análise. A prisão, o encarceramento constante nos últimos momentos do
condenado, o sufoca a ponto de impossibilitar qualquer dignidade. No entanto, a
única escapatória para o protagonista é a própria morte.
Essa última representa o terceiro elemento de destaque no presente estudo.
A execução é o objetivo final do romance, a última parada de todo o trajeto do
condenado. Através dela Victor Hugo realizará seu protesto contra o uso da
guilhotina:

Se O Último Dia é incontestavelmente uma acusação contra a pena de


morte, ela ultrapassa o status de protesto, tão vigorosa que é. É também
uma obra literária inteiramente à parte porque cria mais do que descreve um
mundo nas fronteiras do imaginário. Daí vem a forte impressão que ela
38
produz sobre todo leitor, mesmo após a abolição da pena de morte.

2.2.1. O crime e o condenado

Para defender a extinção da guilhotina e da pena de morte de forma mais


ampla possível em seu romance, Victor Hugo retirou do condenado qualquer
característica que pudesse individualizá-lo. Ele explica em seu Prefácio:

37
No original: « Oh ! est-il bien vrai que je vais mourir avant la fin du jour ? Est-il bien vrai que c'est
moi ? Ce bruit sourd de cris que j'entends au-dehors, ce flot de peuple joyeux qui déjà se hâte sur les
quais, ces gendarmes qui s'apprêtent dans leurs casernes, ce prêtre en robe noire, cet autre homme
aux mains rouges, c'est pour moi ! C'est moi qui vais mourir ! » (HUGO, DJC, 2010, p.116)
38
Tradução nossa. No original : « Si Le Dernier Jour est incontestablement un réquisitoire contre la
peine de mort, il dépasse le satut de la protestation, si vigoureuse soit-elle. Il est aussi une œuvre
littéraire à part entière parce qu‟il crée plus qu‟il ne décrit un monde aux frontières de l‟imaginaire. De
là vient la forte impression qu‟il produit sur tout lecteur, même depuis l‟abolition de la peine de mort. »
(SEVREAU, 2009, p.78-79)
35
Ele [o autor] declara, portanto, e repete, e insiste, em nome de todos os
acusados possíveis, inocentes ou culpados, diante de todas as cortes, todas
as audiências, todos os júris, todas as justiças. Este livro é dirigido a
qualquer um que julgue. E para que a defesa fosse tão ampla quanto a
causa, ele teve – e é por isso que O Último Dia de um condenado foi assim
escrito – de extrair de todas as partes de sua matéria o contingente, o
acidental, o particular, o especial, o relativo, o modificável, o episódico, a
anedota, o acontecido, o nome próprio, e se limitar (se é que isso é se
limitar) a defender a causa de um condenado qualquer, executado num dia
39
qualquer, por um crime qualquer. (HUGO, UDC, 2010, p.158-159)

Constata-se que essa reivindicação genérica é o próprio objetivo do escritor


em seu romance. Hugo legitima a liberdade em nome de todos os condenados,
sejam eles culpados ou não. O anonimato do protagonista permanece ao longo de
todo o romance.
A respeito da sua história, pode-se afirmar que o condenado de fato cometeu
um crime a partir de suas próprias palavras no capítulo XI:

Por uma ideia, por um sonho, por uma abstração, essa terrível realidade
que chamamos de guilhotina! E eu que me queixava, eu, miserável, que
cometi um verdadeiro crime, que derramei sangue!
Não irei adiante na minha pesquisa. Acabo de ver, rabiscada em branco no
canto da parede, uma imagem aterrorizante a figura do cadafalso que, neste
40
exato instante, ergue-se talvez para mim. (HUGO, UDC, 2010, p.56)

A ausência de identidade do condenado torna-se explícita também no capítulo


XLVII do romance. É o momento em que o condenado irá contar sua história de
vida. No entanto, ao invés de memórias de infância ou o relato de seu crime, o leitor
encontra uma suposta nota do editor:

Nota do editor - Ainda não conseguimos encontrar as folhas que se


prendiam a esta. Talvez, como as que seguem parecer indicar, o

39
No original : « Il le déclare donc, et il le répète, il occupe, au nom de tous les accusés possibles,
innocents ou coupables, devant toutes les cours, tous les prétoires, tous les jurys, toutes les justices.
Ce livre est adressé à quiconque juge. Et pour que le plaidoyer soit aussi vaste que la cause, il a dû,
et c'est pour cela que Le Dernier Jour d'un Condamné est ainsi fait, élaguer de toutes parts dans son
sujet le contingent, l'accident, le particulier, le spécial, le relatif, le modifiable, l'épisode, l'anecdote,
l'événement, le nom propre, et se borner (si c'est là se borner) à plaider la cause d'un condamné
quelconque, exécuté un jour quelconque, pour un crime quelconque. » (HUGO, 2010, p. 16-17)
40
No original: « Pour une idée, pour une rêverie, pour une abstraction, cette horrible réalité qu'on
appelle la guillotine ! Et moi qui me plaignais, moi, misérable qui ai commis un véritable crime, qui ai
versé du sang ! Je n'irai pas plus loin dans ma recherche. - Je viens de voir, crayonnée en blanc au
coin du mur, une image épouvantable, la figure de cet échafaud qui, à l'heure qu'il est, se dresse peut-
être pour moi. » (HUGO, DJC, 2010, p.78)
36
condenado não teve tempo de escrevê-las. Já era tarde quando essa ideia
41
surgiu para ele. (HUGO, UDC, 2010, p.142)

Não é possível identificar o condenado, mesmo que sua caracterização


parecesse especialmente importante para o público leitor do século XIX. Dessa
forma, resta ao leitor atentar aos pequenos indícios sobre a personalidade do
condenado espalhados ao longo do texto e compor sua identidade.
Nessas suposições, alguns chamaram a atenção para um trecho da fala do
condenado no capítulo XII:

[...] e então me pareceu que a masmorra estava repleta de homens,


homens estranhos que levavam suas cabeças na mão esquerda,
carregando-as pela boca, pois não tinham cabelos. Todos me mostravam o
42
punho, à exceção do parricida. (HUGO, UDC, 2010, p.58)

Acreditou-se que o crime do condenado poderia se tratar de um parricídio, por


conta do detalhe evidenciado por Victor Hugo. No entanto, Éliane Lucas lembra que,
no século XIX, os parricidas chegavam à place de Grève com os rostos cobertos.
Somente no momento em que iriam sofrer o suplício é que o carrasco os exibia para
a multidão.
Outro indício sobre a identidade do condenado é observado no capítulo
XXXIII. Nas memórias esparsas da infância, é possível notar que não se tratava de
um homem bruto, mas quem sabe, de um poeta. Suas memórias evocam doçura a
galanteios:

Eu me revejo criança, um colegial risonho e solto, brincando, correndo,


gritando com meus irmãos na grande alameda verde daquele jardim
selvagem onde resvalaram meus primeiros anos, antigo convento de
religiosas que a sombria abóbada do Val-de-Grâce domina com sua cabeça
de chumbo.
E então, quatro anos mais tarde, eis-me de volta mais uma vez, ainda
criança, mas já sonhador e apaixonado. Há uma jovem no jardim solitário.
A pequena espanhola, com seus grandes olhos e seus longos cabelos, sua
pele morena e dourada, seus lábios vermelhos e suas faces rosadas, a
andaluza de quatorze anos, Pepa.
[...]
Eu tinha o paraíso no coração.

41
No original : « Note de l'éditeur – On n'a pu encore retrouver les feuillets qui se rattachaient à celui-
ci. Peut-être, comme ceux qui suivent semblent l'indiquer, le condamné n'a-t-il pas eu le temps de les
écrire. Il était tard quand cette pensée lui est venue. » (HUGO, DJC, 2010, p.142)
42
No original : « et puis il m'a paru que le cachot était plein d'hommes, d'hommes étranges qui
portaient leur tête dans leur main gauche, et la portaient par la bouche, parce qu'il n'y avait pas de
chevelure. Tous me montraient le poing, excepté le parricide. » (HUGO, DJC, 2010, p.80)
37
Foi uma tarde da qual me lembrarei a vida inteira.
43
A vida inteira! (HUGO, UDC, 2010, p.116-118)

Essas memórias de infância do condenado são indícios não só da educação


que recebeu, mas se assemelham com diversas referências à própria infância de
Victor Hugo. Alguns chegaram a acreditar que se tratava de uma obra
autobiográfica, na qual a figura feminina seria formada pelo encontro de elementos
de Adèle Hugo com os de uma adolescente espanhola por quem Victor Hugo foi
apaixonado aos nove anos de idade.
Sob um ponto de vista estritamente linguístico, Emile Bozon ainda observa a
importância do pronome que representa a primeira pessoa do singular,

definido da seguinte maneira por Emile Benveniste: “je refere-se ao ato de


discurso individual no qual é pronunciado, e ele designa o locutor. É um
termo que só pode ser identificado em uma instância de discurso e que não
tenha referência além da atual.” [...] Mas em O Último Dia de um
condenado, o “je” não tem qualquer referente próprio, em nenhum momento
qualquer indicação concernente ao nome do personagem que diz “je” nos é
dado. [...] e o caráter do protagonista nos é gradualmente revelado graças
aos “indícios”, indícios que são evidentemente inerentes à técnica utilizada
44
por Hugo.

Esse anonimato, muitas vezes questionado, fazia parte do projeto inicial de


Victor Hugo. O objetivo era justamente conceder o absoluto anonimato ao
protagonista. Bozon ainda cita Barthes para afirmar que

para o autor, o “je ainda é forma mais fiel do anonimato” e que “o direito à
terceira pessoa se conquista, à medida que a existência se torna destino e o
solilóquio Roman”. Na verdade para ele, o “je”, por seu caráter “menos

43
No original : « Je me revois enfant, écolier rieur et frais, jouant, courant, criant avec mes frères
dans la grande allée verte de ce jardin sauvage où ont coulé mes premières années, ancien enclos de
religieuses que domine de sa tête de plomb le sombre dôme du Val-de-Grâce. Et puis, quatre ans
plus tard, m'y voilà encore, toujours enfant, mais déjà rêveur et passionné. Il y a une jeune fille dans le
solitaire jardin. La petite Espagnole, avec ses grands yeux et ses grands cheveux, sa peau brune et
dorée, ses lèvres rouges et ses joues roses, l'Andalouse de quatorze ans, Pepa. [...] J'avais le paradis
dans le coeur. C'est une soirée que je me rappellerai toute ma vie. Toute ma vie ! » (HUGO, DJC,
2010, p. 126-127)
44
Tradução nossa. No original : « [...] défini de la manière suivante par Émile Benveniste: "je se réfère
à l'acte de discours individuel où il est prononcé, et il en désigne le locuteur. C'est un termi qui ne peut
être identifié que dans une instance de discours et qui n'a de référence qu'actuelle." [...] Or dans Le
Dernier Jour d'un condamné, le "je" n'a aucun référent propre, à aucun moment une quelconque
indication concernant le nom du personnage qui di "je" ne nous est donée. [...] et la caractère du
protagoniste nous est peu à peu dévoilé grâce aux "indices", indices qui sont bien évidemment
inhérents à la technique utilisée par Hugo. » (BOZON, 2000, p.42)
38
ambíguo”, é consequentemente “menos romanesco”; o “je” seria utilizado
45
em casos extremos.

Victor Hugo foi pragmático em sua forma de alcançar o anonimato do


condenado. E conseguiu defender o tipo médio que era guilhotinado na época: um
condenado, na maioria das vezes, homem, pai de família e religioso, apesar da
pouca prática dos ritos:
A obscuridade e a dúvida provocadas permanecem do início ao final do
texto. Para que o leitor viva a angústia do condenado, é necessário que se
apague a realidade do crime. O apagamento do passado faz com que se
avive, ainda mais, a intensidade do momento presente: “Condenado à
morte”, esta é a frase que abre o texto e que determina seu ritmo. Mas o
crime que levará o criminoso à guilhotina permanecerá desconhecido, o que
engana e decepciona as expectativas e a curiosidade quase insana do
público voyeur. Hugo lhe recusa a violência esperada, que é presença
cativa e elemento constitutivo do gênero à época: dar ao leitor o prazer de
sensações fortes, revelando-lhe o horror do qual o homem é capaz, mas, ao
mesmo tempo, tranquilizando e deculpabilizando o leitor, ao dar a essa
curiosidade pelo mal, o álibi da autenticidade e da informação. (BARRETO,
2011, p.43, grifo da autora)

2.2.2. O argot

Conforme citado anteriormente, um fac-símile de um manuscrito foi uma das


formas que Victor Hugo encontrou para convencer o leitor da época de que se
tratavam das verdadeiras memórias de um condenado. No capítulo XVI, o
condenado escuta a doce voz de uma jovem cantando uma música lamentável, cuja
letra é marcada pelo argot dos criminosos:

Foi na rua dos Cheiros


Onde fui abrochado,
Malorado,
Por três jovens brejeiros,
Lirlonfa malurete,
Que me ataram o rabo,
Lirlonfa malorado.
[...]
Que me ataram o rabo,
Malorado.
Eles me puseram o grilho,
Lirlonfa malurete,

45
Tradução nossa. No original : « [...] pour un auteur, le "je est encore la forme la plus fidèle de
l'anonymat" et que "le droit à la troisième personne se conquiert, au fur et à mesure que l'existence
devient destin et le soliloque Roman". En effet pour lui, le "je", de par son caractère "moins ambigu",
est par conséquent "moins romanesque"; le "je" serait utilisé dans des cas extrêmes. » (BOZON,
2000, p.44)
39
Grande Deduro se veio,
Lirlonfa malorado.
Passou pelo meu trilho
Lirlonfa malurete,
Um larápio do bairro,
Lirlonfa malorado.

Um larápio do bairro.
Malorado.
- Vá dizer a minha nhora,
Lirlonfa malurete,
Que estou engaiolado,
Lirlonfa malorado.
Minha nhora tá fula,
Lirlonfa malurete,
M‟diz: que tu me jura?
Lirlonfa malorado.

M‟diz: que tu me jura?


Malorado.
- Fiz suar um carvalho,
Lirlonfa malurete,
Enluvei seu cascalho,
Lirlonfa malorado,
Seu cascalho e sua hora,
Lirlonfa malurete,
E as fivelas do calçado,
Lirlonfa malorado.

E as fivelas do calçado,
Malorado.
A nhora vai pra Versalhes,
Lirlonfa malurete,
Aos pés de sua majestade,
Lirlonfa malorado.
E lhe solta um lero,
Lirlonfa malurete,
Pra me fazer desgaiolar,
Liflonfa malorado.

Pra me fazer desgaiolar,


Malorado.
- Ah! Se eu sou desgaiolado.
Lirlonfa malurete,
Minha nhora eu nobilito,
Lirlonfa malorado,
Lhe faei usar peruca,
Lirlonfa malurete,
E o sapato galochado,
Lirlonfa malorado.

E o sapato galochado,
Malorado.
Mas o grão dabo se zanga,
Lirlonfa malurete,
Dix: - por meu reinado,
Lirlonfa malorado,
Lhe farei dançar a dança,
Lirlonfa malurete,
Onde não tem soalho,
40
Lirlonfa malorado. (HUGO, UDC, 2010, p.75-77)

A presença do argot nesse e em outros trechos de O Último Dia de um


condenado é uma das originalidades linguísticas do romance. Cumpre observar que
não há dificuldade para compreensão da música, uma vez que o próprio autor se
incumbe de explicar a letra em seguida:

Não ouvi, e não teria conseguido ouvir, mais do que isso. O sentido meio
entendido meio encoberto dessa horrível queixa, a luta do salteador contra
o gueto, o ladrão que ele encontra e despacha para sua mulher, a
mensagem medonha: assassinei um homem e fui preso, fiz suar um
carvalho e estou engaiolado; a mulher que corre até Versalhes com uma
petição de graça, e a Majestade que fica indignada e ameaça o culpado de
lhe fazer dançar a dança onde não tem soalho; e tudo isso cantando com a
melodia mais doce e pela mais meiga voz que jamais embalou o ouvido
humano!... Fiquei atormentado, gelado, abatido. [...]
Ah! Como é infame uma prisão! Há nela um veneno que macula tudo. Tudo
é conspurcado, até mesmo a canção de uma menina de quinze anos Se
encontrarmos um pássaro, haverá lama em suas asas; se colhemos uma
46
bela flor e a aspiramos: ela fede. (HUGO, UDC, 2010, p.77-78)

As explicações dadas logo após a letra da música mostram que não é o argot
em si que deve ser considerado, mas o efeito que ele produz. Victor Hugo queria
reforçar para o leitor o horror vivido pelos penitenciários e condenados à morte. As
palavras bizarras e sórdidas exaltam o aspecto barato e insalubre da prisão.
A letra da música cantada pela jovem é chocante, e mostra a história de um
criminoso através de um vocabulário vulgar: “assassinei um homem e fui preso, fiz
suar um carvalho e estou engaiolado” (HUGO, UDC, 2010, p.77). O condenado e o
leitor observam o contraste entre a desfiguração das palavras e a pureza da voz de
uma jovem.
Outro momento marcado pelo argot é visto no capítulo XXIII, no qual o
condenado é transferido de Bicêtre para a Conciergerie. No Palácio da Justiça, ele
encontra um friauche que lhe conta sua história de roubos, condenação ao trabalho
forçado, reincidência e fuga, que lhe transformou em um assassino de grandes

46
No original: « Je n'en ai pas entendu et n'aurais pu en entendre davantage. Le sens à demi compris
et à demi caché de cette horrible complainte, cette lutte du brigand avec le guet, ce voleur qu'il
rencontre et qu'il dépêche à sa femme, cet épouvantable message : J'ai assassiné un homme et je
suis arrêté, j'ai fait suer un chêne et je suis enfourraillé ; cette femme qui court à Versailles avec un
placet, et cette Majesté qui s'indigne et menace le coupable de lui faire danser la danse où il n'y a pas
de plancher et tout cela chanté sur l'air le plus doux et par la plus douce voix qui ait jamais endormi
l'oreille humaine !... J'en suis resté navré, glacé, anéanti. [...]
Ah ! qu'une prison est quelque chose d'infâme ! Il y a un venin qui y salit tout. Tout s'y flétrit, même la
chanson d'une fille de quinze ans ! Vous y trouvez un oiseau, il a de la boue sur son aile ; vous y
cueillez une jolie fleur, vous la respirez : elle pue. » (HUGO, DJC, 2010, p.93-95)
41
estradas. No entanto, foi pego mais uma vez, tornou-se um condenado à morte
como o protagonista.
Essa pequena narração recorre ao uso do jargão dos criminosos, meio social
que o friauche frequenta desde a infância. As palavras usadas são tão bizarras e
rudimentares quanto o próprio personagem que fala. Em certos momentos, seu
relato chega a ser incompreensível para aqueles que não estão familiarizados com
as expressões:

Eis a minha história. Sou filho de um bom cafumango; é pena que Charlot
tenha se dado ao trabalho de dar o nó na gravata dele. Era quando a forca
reinava, pela graça de Deus. [...] Com nove anos, comecei a me servir das
minhas conchas; de vez em quando eu esvaziava um escarafunchador,
desfiava uma pele. Com dez anos já era um cantante. Então fiz minhas
amizades. Com dezessete era um gatuno. Esvaziava uma maloca,
despregava uma chave. Me pegaram. Já tinha idade; me enviaram para
47
remar numa marina. (HUGO, UDC, 2010, p.95-96)

As palavras desconhecidas estão marcadas por Victor Hugo no texto e são


retomadas em notas explicativas. Mais uma vez, o destaque deve ser dado ao que
está por trás do argot. O relato vulgar é um forte protesto social:

O testemunho do « friauche » é uma denúncia do trabalho forçado e de


suas práticas. Ele é ainda mais forte porque se apoia em fatos irrecusáveis,
friamente expostos. [...] As condições de vida são apavorantes. A
alimentação se reduz a água e pão velho. As humilhações e os maus-tratos
são frequentes: o friauche é tosquiado e espancado. O trabalho é longo é
exaustivo, sem qualquer descanso, a não ser por breves noites passadas
48
estando deitado sobre “uma prancha.”

Além das condições inumanas de trabalho pelas quais os forçados são


obrigados a passar, Victor Hugo ainda critica a falta de reinserção social após a
saída da prisão. Ainda que o condenado consiga cumprir sua pena e queira romper
com seu passado criminoso, é obrigado a apresentar um documento constando seu

47
No original: « voilà mon histoire à moi. Je suis fils d‟un bon peigre ; c‟est dommage que Charlot ait
pris de la peine un jour de lui attacher sa cravate. C‟était quand régnait la potence, par la grâce de
Dieu. [...] A neuf ans, j‟ai commencé à me servir de mes louches, de temps en temps je vidais une
fouillouse, je filais un pelure ; à dix ans, j‟étais un marlou. Puis j‟ai fait des connaissances ; à diz-setp,
j‟étais un grinche. Je forçais une boutanche, je faussais une tournant. On m‟a pris. J‟avais l‟âge, on
m‟a envoyé ramer dans la petite marine. » (HUGO, DJC, 2010, p.109-110)
48
Tradução nossa. No original : « Le témoignage du „friauche‟ est une dénonciation du bagne et de
ses pratiques. Elle est d‟autant plus forte qu‟elle s‟appuie sur des faits irrécusables, froidement
exposés. [...] Les conditions de vie sont effroyables. La nourriture se réduit à de l‟eau et du mauvais
pain. Les humiliations et les mouvais traitements sont fréquents : le friauche est « tondu » et battu. Le
travail est long et épuisant, sans aucun repos, sinon de brèves nuits passées en étant couché sur „une
planche‟. » (SEVREAU, 2009, p.114)
42
histórico carcerário. Se reincidente, traz a marca no próprio corpo. Dessa forma,
mesmo liberado e com suas dívidas socialmente pagas, a exclusão permanecerá
por toda sua vida. Diante da impossibilidade de encontrar um trabalho, o crime se
torna novamente um modo de sobrevivência, como ainda ocorre nos dias de hoje.

2.2.3. O cárcere

O tratamento do espaço no romance surpreende o leitor à primeira vista.


Apesar da expectativa de uma narrativa encarcerada, uma vez que todo o enredo se
desenrola dentro de uma prisão, Victor Hugo não a constrói sempre da mesma
maneira. O cárcere torna-se uma variação daquilo que se passa nos espaços
interiores do condenado.
Pode-se dividir o lugar da narrativa em duas categorias: o espaço carcerário e
o espaço das memórias. É certo que o primeiro compõe-se principalmente dos locais
necessários para traçar o caminho do condenado desde o Palais de Justice até a
place de Grève, local da execução. Já o segundo, notadamente marcado pela
infância e juventude do protagonista, evoca espaços abertos, como a alameda verde
de um jardim selvagem ou o campo, nos arredores de Paris.
No espaço de tempo entre a sentença e a guilhotina, o condenado passa por
três cárceres diferentes. Inicialmente, é enclausurado em um calabouço de Bicêtre
(capítulos I ao XXI). Toda a narrativa se desenvolve entre as paredes de sua célula,
ainda que, momentaneamente, o condenado vá para uma sala reservada, para que
possa ver o espetáculo dos forçados (capítulo XIII), ou passe uma noite na
enfermaria, no capítulo seguinte.
Posteriormente, a narrativa se transfere para a Conciergerie (capítulos XXII
ao XLVII), onde o condenado deverá aguardar até sua execução. Por um pequeno
momento, durante sua transferência, o condenado se vê em espaço aberto, apenas
o suficiente para se sentir bem:

– A sentença será executada hoje na praça da Grève – acrescentou ao


terminar, sem erguer os olhos do papel timbrado. – Partiremos ás sete e
meia em ponto para a Conciergerie. Caro senhor, terá a extrema gentileza
de seguir-me? [...]
Eis-me transferido, como consta nos autos.
Mas vale a pena contar a viagem.
43
Sete e meia soavam quando o oficial de justiça se apresentou novamente à
entrada da minha cela.
– Senhor – disse-me –, estou à sua espera.
Desgraçado de mim! Ele e outros! [...]
Ao sair do cárcere, o diretor tomou afetuosamente minha mão e reforçou
minha escolta com mais quatro veteranos.
Em frente à porta da enfermaria, um velho moribundo gritou para mim: “Até
mais ver!”
Chegamos ao pátio. Respirei; isso me fez bem.
Não caminhamos muito tempo ao ar livre. Um carro com cavalos de posta
atrelados estava estacionado no primeiro pátio; era o mesmo carro que me
trouxera: uma espécie de cabriolé oblongo, dividido em duas seções por
uma grade transversal de malha de ferro tão espessa que parecia tricotada.
As duas seções têm cada qual uma porta, uma na frente e a outra atrás da
caleche. Tudo ali era tão sujo, tão escuro, tão poeirento que em
comparação a um carro funerário para pobres parece uma carruagem
episcopal.
Antes de me sepultar nesse túmulo sobre rodas, lancei um olhar ao pátio,
um desses olhares desesperados frente aos quais tem-se a impressão de
49
que as muralhas vão desmoronar. (HUGO, UDC, 2010, p.86-87)

Os três locais pelos quais o condenado passa, assim como seus meios de
transporte de um local ao outro, o cabriolé ou a charrete, são espaços
enclausurados, pesados, escuros, encobertos por malhas de metal. Cada um
desses locais fechados constitui uma etapa a mais na marcha até a morte que o
condenado deverá fazer. São espaços marcados pelo tempo da execução.
O cárcere contribui para a construção do clima dramático e fúnebre presente
na obra. Até mesmo a pouca paisagem que pode ser vista através das grades e
janelas de cada um dos três locais percorridos produzem um sentimento de mal-
estar:

49
No original : « - L'arrêt sera exécuté aujourd'hui en place de Grève, a-t-il ajouté quand il a eu
terminé, sans lever les yeux de dessus son papier timbré. Nous partons à sept heures et demie
précises pour la Conciergerie. Mon cher monsieur aurez-vous l'extrême bonté de me suivre ? [...]
Me voici transféré, comme dit le procès-verbal.
Mais le voyage vaut la peine d'être conté.
Sept heures et demie sonnaient lorsque l'huissier s'est présenté de nouveau au seuil de mon cachot. -
Monsieur m'a-t-il dit, je vous attends. - Hélas ! lui et d'autres ! [...]
Au sortir de la geôle, le directeur m'a pris affectueusement la main, et a renforcé mon escorte de
quatre vétérans.
Devant la porte de l'infirmerie, un vieillard moribond m'a crié : Au revoir !
Nous sommes arrivés dans la cour. J'ai respiré ; cela m'a fait du bien.
Nous n'avons pas marché longtemps à l'air. Une voiture attelée de chevaux de poste stationnait dans
la première cour ; c'est la même voiture qui m'avait amené ; une espèce de cabriolet oblong, divisé en
deux sections par une grille transversale de fil de fer si épaisse qu'on la dirait tricotée. Les deux
sections ont chacune une porte, l'une devant, l'autre derrière la carriole. Le tout si sale, si noir si
poudreux, que le corbillard des pauvres est un carrosse du sacre en comparaison.
Avant de m'ensevelir dans cette tombe à deux roues, j'ai jeté un regard dans la cour, un de ces
regards désespérés devant lesquels il semble que les murs devraient crouler. » (HUGO, DJC, 2010,
p.100-101)
44
A janela dava para um pátio quadrado bastante vasto, em torno do qual se
erguia dos quatro lados, como ua muralha, um grande edifício de pedra de
cantaria com seis andares. Nada parecia aos olhos mais degradado, mais
nu, mais miserável do que essa quádrupla fachada perfurada de uma
infinidade de janelas gradeadas às quais se mantinham colados, de alto a
baixo, uma multidão de rostos magros e lívidos, comprimidos uns sobre os
outros, como as pedras de um muro, e todos por assim dizer enquadrados
50
pelo cruzamento das barras de ferro. (HUGO, UDC, 2010, p.61)

No trecho acima, o condenado estava em uma sala da prisão que não seu
calabouço, prestes a observar os forçados. Neste outro exemplo, observa o Hôtel de
Ville da Conciergerie:

O edifício da prefeitura é uma construção sinistra.


Com seu telhado agudo e escarpado, sua torre bizarra, seu grande relógio,
seus andares margeados de colunas, suas milhares de gelosias, suas
escadarias gastas pelo uso, seus dois arcos à direita e à esquerda, ele está
lá, frente a frente com a Grève; sombrio, lúgubre, a fachada toda puída de
51
velhice e tão escuro, que continua negro à luz do sol. (HUGO, UDC,
2010, p.124)

Paris inspira certo terror fúnebre no condenado. Até mesmo a Notre-Dame faz
parte desse universo de abandono e vertigem:

De repente o gigantesco sino tangeu, uma vibração profunda atravessou o


ar e fez oscilar a pesada torre. O assoalho saltava sobre as vigas. O barulho
quase me fez cair; cambaleei, pronto para despencar, para escorregar pelas
cornijas inclinadas de ardósia. Horrorizado, deitei-me nas pranchas do chão,
apertando-as fortemente com os dois braços, sem palavras, sem ar, com
aquele formidável tangido nos ouvidos, e sob os olhos, o precipício, aquela
praça profunda onde se cruzavam tantos passantes tranquilos e invejados.
Pois bem, tenho a sensação de ainda estar na torre dos sinos. Sinto ao
mesmo tempo uma vertigem e um desfalecimento. Parece haver um barulho
de sino agitando as cavidades de meu cérebro; e à minha volta só percebo
essa vida plana e tranquila que abandonei, e na qual os outros homens

50
No original : « La fenêtre donnait sur une cour carrée assez vaste, et autour de laquelle s'élevait
des quatre côtés, comme une muraille, un grand bâtiment de pierre de taille à six étages. Rien de plus
dégradé, de plus nu, de plus misérable à l'oeil que cette quadruple façade percée d'une multitude de
fenêtres grillées auxquelles se tenaient collés, du bas en haut, une foule de visages maigres et
blêmes, pressés les uns au-dessus des autres, comme les pierres d'un mur et tous pour ainsi dire
encadrés dans les entre-croisements des barreaux de fer. C'étaient les prisonniers, spectateurs de la
cérémonie en attendant leur jour d'être acteurs. On eût dit des âmes en peine aux soupiraux du
purgatoire qui donnent sur l'enfer. » (HUGO, DJC, 2010, p.82)
51
No original : « L'Hôtel de Ville est un édifice sinistre. Avec son toit aigu et roide, son clocheton
bizarre, son grand cadran blanc, ses étages à petites colonnes, ses mille croisées, ses escaliers usés
par les pas, ses deux arches à droite et à gauche, il est là, de plain-pied avec la Grève ; sombre,
lugubre, la face toute rongée de vieillesse, et si noir qu'il est noir au soleil.
Les jours d'exécution, il vomit des gendarmes de toutes ses portes, et regarde le condamné avec
toutes ses fenêtres.
Et le soir, son cadran, qui a marqué l'heure, reste lumineux sur sa façade ténébreuse. » (HUGO, DJC,
2010, p.130)
45
52
ainda seguem, de longe e através das fissuras de um abismo. (HUGO,
UDC, 2010, p.122-123)

Pode-se constatar que todos os locais vividos pelo condenado, desde o


momento em que recebe sua sentença, remetem à morte. Ao seu redor, apenas a
lembrança do fim próximo, as muralhas de pedra, o cabriolé, um verdadeiro caixão
sobre rodas, e as marcas deixadas por cada condenado nas paredes da masmorra.
Ao ouvir sua condenação à guilhotina, o protagonista já é transportado ao túmulo:

– Condenado à morte! – disse a multidão. E, enquanto me levavam, todo


esse povo se precipitou atrás de mim com o estrondo de um edifício que
desmorona. Eu apenas caminhava, embriagado e estupefato. Uma
revolução acabava de se fazer em mim. Até a sentença de morte, eu me
sentira respirando, palpitando, vivendo no mesmo espaço que os outros
homens, agora, eu distinguia claramente uma espécie de divisória entre
mim e o mundo. Nada me aparecia mais sob o mesmo aspecto que
anteriormente. Aquelas amplas janelas iluminadas, aquele belo sol, aquele
céu puro, aquela delicada flor, tudo ficou branco e pálido, da cor de uma
mortalha. Aqueles homens, aquelas mulheres, aquelas crianças que se
53
prensavam à minha passagem, eu via neles ares de fantasmas. (HUGO,
UDC, 2010, p.40)

A morte isola o protagonista do mundo. O sentimento de abandono


acompanha o choque da sentença fatal. Sem se ver amparado por um amigo, uma
companheira ou um advogado, resta ao condenado passar seus dias apenas com as
memórias da pequena Marie. Sua filha é a única pessoa da família que vai até a
prisão para vê-lo. No entanto, seu amor paternal sequer é reconhecido ou sentido. O
condenado passa a ser estrangeiro em um mundo de vivos.

52
No original : « Tout à coup l'énorme cloche tinta, une vibration profonde remua l'air, fit osciller la
lourde tour. Le plancher sautait sur les poutres. Le bruit faillit me renverser ; je chancelai, prêt à
tomber, prêt à glisser sur les auvents d'ardoises en pente. De terreur je me couchai sur les planches,
les serrant étroitement de mes deux bras, sans parole, sans haleine, avec ce formidable tintement
dans les oreilles, et sous les yeux ce précipice, cette place profonde où se croisaient tant de passants
paisibles et enviés.
Eh bien ! il me semble que je suis encore dans la tour du bourdon. C'est tout ensemble un
étourdissement et un éblouissement. Il y a comme un bruit de cloche qui ébranle les cavités de mon
cerveau ; et autour de moi je n'aperçois plus cette vie plane et tranquille que j'ai quittée, et où les
autres hommes cheminent encore, que de loin et à travers les crevasses d'un abîme. » (HUGO, DJC,
2010, p.129-130)
53
No original : « - Condamné à mort ! dit la foule ; et, tandis qu'on m'emmenait, tout ce peuple se rua
sur mes pas avec le fracas d'un édifice qui se démolit. Moi, je marchais, ivre et stupéfait. Une
révolution venait de se faire en moi. Jusqu'à l'arrêt de mort, je m'étais senti respirer, palpiter vivre
dans le même milieu que les autres hommes ; maintenant je distinguais clairement comme une clôture
entre le monde et moi. Rien ne m'apparaissait plus sous le même aspect qu'auparavant. Ces larges
fenêtres lumineuses, ce beau soleil, ce ciel pur cette jolie fleur, tout cela était blanc et pâle, de la
couleur d'un linceul. Ces hommes, ces femmes, ces enfants qui se pressaient sur mon passage, je
leur trouvais des airs de fantômes. » (HUGO, DJC, 2010, p.67)
46
2.2.4. A execução

O último momento de vida do condenado é marcado por um pico dramático


no enredo. Como a narração poderá cessar a qualquer instante, o tempo passa a ter
o ritmo de uma contagem regressiva, minuto a minuto até a guilhotina. A tragédia da
cena é acrescida dos urros da multidão, contribuindo para a construção de um
ambiente insuportável para o condenado e para o leitor. Qualquer esperança de
salvação que possa ter sido criada anteriormente deve ser abandonada no momento
em que o condenado percebe o carrasco.

O juiz e o carrasco saíram. Estou só. Só com dois gendarmes.


Oh! O horrível povo com seus urros de hiena! Quem sabe se não escaparei
dele? Se não serei salvo? Se a minha graça... É impossível que não me
deem a graça!
Ah! Miseráveis! Parece que estão subindo as escadas...
54
QUATRO HORAS. (HUGO, UDC, 2010, p.151)

Não há um final, mas um eclipse do que deveria ser a descrição da morte do


condenado. No entanto, a ausência de um fim não impede o leitor de conhecer a
sorte do protagonista. Sendo o único narrador do livro, deixando de existir a
narração, presume-se que ele também deixou de existir. Victor Hugo cumpria então
e de maneira chocante o seu objetivo:

Com a publicação do romance Le dernier jour d’um condamné, Hugo revela


como era necessário o debate sobre a pena de morte, através de uma
oposição entre a atrocidade do crime à barbárie do suplício, e que qualquer
tentativa de denunciar a pena capital sob o ângulo do juiz e/ou do carrasco
permaneceria insípida; ela necessitava passar pelo terror do supliciado. E
para que tal oposição chocasse e incomodasse ainda mais, Hugo constrói
um condenado qualquer, autor de um crime qualquer, apenas um miserável,
que, condenado, é um homem praticamente morto, implorando até os
últimos minutos pela graça da vida. (BARRETO, 2011, p.44)

O texto se interrompe brutalmente, com a mesma violência com a qual a


guilhotina tira a vida. De acordo com a sentença do condenado, sua execução
aconteceria às quatro horas, o que foi pontualmente cumprido. Apesar de ter

54
No original : « Le juge et le bourreau sont sortis. Je suis seul.
Seul avec deux gendarmes.
Oh ! l'horrible peuple avec ses cris d'hyène. – Qui sait si je ne lui échapperai pas ? si je ne serai pas
sauvé ? si ma grâce ?... Il est impossible qu'on ne me fasse pas grâce !
Ah ! les misérables ! il me semble qu'on monte l'escalier…
QUATRE HEURES. » (HUGO, DJC, 2010, p. 150)
47
implorado pela graça enquanto viveu, assim como o protagonista, o próprio texto foi
guilhotinado.

48
Figura 4

49
CAPÍTULO 3 Ŕ A PENA DE MORTE APÓS O ROMANCE

O Último Dia de um condenado não representou apenas um momento da


vida de Victor Hugo dedicado a defender direitos humanos, mas o início de uma
verdadeira luta contra a aplicação da pena capital na França. Desde a publicação do
romance em 1829 até o final de sua vida, o escritor foi um fiel defensor da abolição
da pena de morte, além de interventor em diversos processos, como intelectual e
home político
O romance é importante não só no contexto da obra hugoana, mas inspirou
outros autores diretamente, como Dostoïevski, Koestler ou Camus. O tema da pena
de morte reaparece em outras publicações do escritor. A prisão, o crime e a
condenação à morte estão em Claude Gueux, publicado em 6 de julho de 1834.
Esse novo protesto, entretanto, distingue-se por ser uma obra baseada em um
verdadeiro processo judicial.
O Último Dia de um condenado também serviu de inspiração para outras
obras literárias, como Memórias do subsolo (1864), de Fiodor Dostoïvski, O
Estrangeiro (1942) de Albert Camus ou Reflexões sobre a pena de morte (1958)
de Arthur Koestler em coautoria com Camus, ou para a consolidação do uso da gíria
na literatura, bem como do monólogo interior.
A pena de morte continuou a ser objeto de debate no século XX, com as
execuções de Buffet e Bontems, e depois a de Ranucci. Em 1981, contra a maioria
da opinião pública, o presidente François Mitterrand toma a iniciativa de votar o
projeto defendido por Robert Badinter na Assembleia nacional. E a França abole a
aplicação da pena capital e passa a fazer parte dos países europeus signatários da
Convenção europeia dos Direitos do Homem (1983).

3.1. Intervenções de Victor Hugo

O romance de 1829 integra o projeto de luta de Victor Hugo pela abolição da


pena de morte. Uma luta que continuou com a publicação de Claude Gueux, outros
textos e poemas. Sobre esta batalha travada pelo autor, Adèle Hugo afirma que

50
[o] senhor Victor Hugo não se limitou a este protesto contra a pena de
morte. Após trinta e três anos, ele jamais reencontrou sobre seu caminho
um cadafalso ou uma forca sem afirmar o princípio da inviolabilidade da vida
humana. Em 1832, ele acrescentou ao Último Dia de um condenado um
prefácio considerável que apropriava pelo raciocínio a questão que o livro
tenha tomado pela emoção e que defendia perante o espírito aquilo que
55
tenha defendido perante o coração. Em 1834, ele fazia Claude Gueux.

Claude Gueux foi publicado na Revista de Paris e o texto ressuscitou o


nome do condenado dois anos após sua execução. Claude Gueux foi um dos
primeiros condenados para quem Victor Hugo pediu a graça. Sua esposa
transcreveu uma nota que acompanhou o pedido:

O dito Gueux foi condenado à pena de morte por um crime ao qual o


56
tormento da fome o havia impulsionado. Sua afeição por seu pai
interessou, em seu favor, todos aqueles que se aproximavam dele.
Infelizmente, o caso chega ao fim, a corte de cassação e a chancelaria o
examinaram, e a sentença será executada se o rei não conceder uma
comutação da pena. O condenado espera a palavra que deve lhe dar a
morte ou a vida. A clemência de Sua Majestade, conhecida por todos, é
57
implorada pelo condenado e pelos próprios jurados.

Infelizmente, o apelo de Victor Hugo não foi suficiente para convencer o


conselho de ministros responsável pelo caso. Como resposta, Hugo obteve uma
carta informando-o de que a apelação não fora recebida a tempo. Dessa forma,
Claude Gueux perdeu sua vida no dia 1º de junho de 1834, às dez horas da manhã.
Na carta destinada ao poeta, é notável a intenção de fazer com que Victor Hugo
acreditasse que a pena de Claude Gueux havia sido humanizada:

Este infeliz sofreu bastante após seu julgamento, pelo receio do tipo de
morte que lhe seria destinado. Nós compartilhamos suas penas; isso o
deixou muito sensibilizado. Tivemos o consolo de vê-lo acolher com seus

55
Tradução nossa. No original : « M. Victor Hugo n‟est pas borné à cette protestation contre la peine
de mort. Depuis trente-trois ans, il n‟a jamais rencontré sur son chemin un échafaud ni un gibet sans
affirmer le principe de l‟inviolabilité de la vie humaine. En 1832, il ajoutait au Dernier jour d’un
condamné une préface considérable qui prenait par le raisonnement la question que le livre avait prise
par l‟émotion et qui plaidait devant l‟esprit ce qu‟il avait plaidé devant le cœur. En 1834, il faisait
Claude Gueux. » (HUGO, 1873, p.169)
56
Claude Gueux foi condenado a cinco anos de prisão em 1854 por ter roubado um pão. No entanto,
assassinou o guarda chefe da central de Clairvaux, prisão ainda existente na França, onde estava
detido. Graças a essa morte, foi condenado e decapitado no dia 1º de junho de 1832.
57
Tradução nossa. No original : « Le nommé Gueux a été condamné à la peine de mort pour un crime
auquel le tourment de la faim l‟avait poussé. Sa tendresse pour son père a intéressé en sa faveur tous
ceux qui l‟ont approché. Malheureusement l‟affaire est à sa fin, la cour de cassation et la chancellerie
l‟ont examinée, et le jugement va être exécuté si le roi n‟accorde pas une commutation de peine. Le
condamné attend le mot qui doit lui donner la mort ou la vie. La clémence de Sa Majesté, si
généralement connue, est implorée par le condamné et par les jurés mêmes. » (HUGO, 1873, p.170)
51
sentimentos cheios de fé do socorro da religião. Ele terminou sua jornada
com uma edificação e uma coragem que emocionaram as pessoas que
assistiram aos seus últimos momentos. Temos razões para acreditar que
está feliz, é o que hoje nos traz conforto e que, espero, também deve
contribuir para o vosso. Permita-me, senhor, que eu vos manifeste a minha
gratidão por vossa grande caridade a seu respeito. A mim, fizestes tanto
58
bem quanto a ele mesmo.

No entanto, para o autor, uma pena de morte humanizada não era mais que
ficção. A fim de continuar sua luta, Hugo decide dar a Claude Gueux o status de
símbolo contra a pena capital. Cumpre ressaltar que, assim como O Último Dia de
um condenado, o romance inspirado no executado também sofreu resistência do
público.
Claude Gueux também foi uma obra de importância para a época e para a
vida de Hugo. Sua história foi a primeira de uma série de intervenções diretas que o
autor fez em nome de condenados ao longo de sua vida. Por trás de Claude Gueux,
O Último Dia de um condenado e do Prefácio de 1829, o escritor retomou os
argumentos de Beccaria contra a pena de morte para considerá-la um verdadeiro
assassinato público sem qualquer valor moral:

[Claude Gueux] é uma obra mais polêmica que romanesca, escrita a partir
de um caso real submetido por filantropos ao escritor, que faz o papel de
porta bandeira da causa abolicionista. A argumentação que acompanha a
narrativa deste livro põe em evidência a responsabilidade da sociedade
que deve se empenhar para educar o povo: “Escolas para as crianças,
ateliês para os homens”, esta é a solução [...] Ele acrescenta – e é uma
novidade na sua reflexão sobre a penalidade – que é necessário difundir a
mensagem evangélica (“uma bíblia por abrigo”) para semear a esperança
59
em meio ao povo que sofre.

58
Tradução nossa. No original : « Ce malheureux a bien souffert depuis son jugement, par
l‟appréhension du genre de mort qui lui était destiné. Nous avons partagé ses peines ; il y a été très
sensible. Nous avons eu la consolation de lui voir accueillir avec des sentiments pleins de foi les
secours de la religion. Il a terminé sa carrière avec une édification et un courage qui ont ému les
personnes qui ont assisté à ses derniers moments. Nous avons lieu de croire qu‟il est heureux, c‟est
ce qui fait aujourd‟hui notre consolation et qui, je l‟espère, doit contribuer aussi à la vôtre. Permettez,
monsieur, que je vous manifeste ma gratitude pour votre grande charité à son égard. Vou m‟avez fait
autant de bien qu‟à lui-même. » (HUGO, 1873, p.172)
59
Tradução nossa. No original : « [Claude Gueux] est une œuvre plux polémique que romanesque,
écrite à partir d’un véritable cas soumis par des philantropes à l‟écrivain, qui fait figure de porte-
drapeau de la cause abolitionniste. Le plaidoyer qui suit le récit dans ce livre met l‟accent sur la
responsabilité de a société qui doit s‟employer à éduquer le peuple : « Des écoles pour les enfants,
des ateliers pour les hommes », telle est la solution [...] Il ajoute – et c‟est nouveau dans sa réflexion
sur la pénalité – qu‟il est nécessaire de répandre le message évangélique (« une bible par cabane »)
pour semer l‟espérance au sein du peuple qui souffre. » (LUCAS, 2004, p.10, grifo da autora)
52
Posteriormente, no dia 12 de maio de 1839, ao meio-dia de um domingo,
Hugo testemunhou a tentativa de insurreição liderada pelos revolucionários Barbès e
Blanqui. Este último teve sorte em conseguir se esconder na casa de amigos,
enquanto que o primeiro foi preso e julgado pela Corte de Paris. Adèle Hugo (1873)
relata que o autor acompanhou a sessão e se interessou muito pela jovialidade do
detento. No dia seguinte, Hugo soube que o jovem havia sido condenado à morte,
sem que houvesse qualquer apelação contra a Corte de Paris. Dessa forma, o
escritor não permitia que o suplício fosse realizado sem que houvesse um protesto,
ainda que em forma de um poema:

Victor Hugo deixou o par, foi ao teatro e subiu até a administração. O


contra-regra estava ausente, ele encontrou sobre sua mesa um papel mata-
borrão sobre o qual se exibiam caricaturas feitas com a pluma, sr. Nourrit
tinha um barril como ventre, a senhorita Falcon tinha fósforos como pernas,
e o sr. Levasseur estava vestido de portinhola, etc. Ele pegou no mata-
borrão uma folha de papel e escreveu estes quatro versos:
Por seu anjo que levanto voo como uma pomba!
Para esta criança real, doce e frágil caniço!
Graça mais uma vez! graça em nome do sepulcro!
60
Graça em nome do Berço!

Logo após escrever estes versos, Victor Hugo foi ao Palácio das Tulherias
para entregar a nota ao rei e pedir a graça de Barbés. No dia seguinte, a graça foi
concedida e o jovem não foi executado.
Outros condenados também receberam o apoio do escritor. Nos anos de
1846 e 1847, ele se pronunciou a favor dos senhores Joseph Henry e Lecomte, sem
que obtivesse sucesso. O primeiro, por quem Victor Hugo pediu a reclusão
temporária, foi condenado aos trabalhos forçados pelo resto de sua vida. Quanto ao
segundo, para quem a apelação do autor pedia a reclusão perpétua, foi condenado
à morte e executado.
Ainda que muitas graças pedidas por Hugo não fossem concedidas, as várias
execuções que o poeta teve de assistir ao longo de sua vida não foram suficientes
60
Tradução do texto original: « M. Victor Hugo quitta le pair, alla sur le théâtre et monta à la régie. Le
régisseur était absent, il trouva sur sa table un buvard sur lequel s‟étalaient des caricatures à la
plume, M. Nourrit ayant pour ventre un tonneau, mademoiselle Falcon avec des allumettes pour
jambes, M. Levasseur habillé en portière, etc. Il prit dans le buvard une feuille de papier et écrivit ces
quatres vers :
Par votre ange envolée ainsi qu’une colombe !
Par ce royal enfant, doux et frêle roseau !
Grâce encore une fois ! grace au nom de la tombe !
Grâce au nom du Berceau ! »
(HUGO, 1873, p.174, grifo da autora)
53
para que se conformasse com a guilhotina. Em 1848 um novo projeto reacendeu a
discussão na França: a abolição da pena de morte foi apresentada à assembleia
constituinte do país. Victor Hugo subiu à tribuna e pronunciou as palavras que foram
transcritas na biografia de sua esposa:

Lamento que esta questão, a primeira de todas talvez, chegue às vossas


deliberações quase que de improviso, e surpreenda os oradores menos
preparados. Quanto a mim, direi poucas palavras, mas que partirão do
sentimento de uma convicção profunda e antiga. [...] O século XVIII, - esta é
uma parte de sua glória, - aboliu a tortura; o século XIX abolirá a pena de
morte. [...] Aqueles que agiam sobre sua mente não foram, e eu lamento
profundamente, à altura de seu grande coração. Nós os impediremos de
executar essa ideia sublime. [...] Eu voto pela abolição pura, simples e
61
definitiva da pena de morte.

Em 1854, já no exílio em Jersey, Victor Hugo escreveu duas cartas


endereçadas aos habitantes da ilha britânica de Guernesey, após descobrir que um
homem ali seria enforcado. Este fato deu origem ao atualmente conhecido affaire
Tapner. O apelo do escritor deu aos habitantes da ilha coragem suficiente para
protestar a graça ao condenado. No entanto, mais uma vez os esforços contra a
pena capital não foram suficientes, e o pedido de anulação da sentença foi
recusada. No dia 10 de fevereiro de 1854, John-Charles Tapner perdeu sua vida. O
poeta expressa sua através de uma carta endereçada ao ministro de Interior
britânico, Lord Palmeston.
Cinco anos mais tarde, Victor Hugo busca meios para salvar a vida de um dos
mais famosos condenados à execução na história americana. Era o ativista John
Brown, um verdadeiro símbolo da luta contra a desigualdade racial nos Estados
Unidos, que se encontrava o corredor da morte. Nessa época, o poeta publica Uma
palavra sobre John Brown, artigo também publicado na biografia de Adèle Hugo:

Há escravos nos estados do sul, o que indigna, como o mais monstruoso


dos contrassensos, a consciência lógica e pura dos estados do norte. Estes
escravos, estes negros, um homem branco, um homem livre, John Brown
quis redimi-los. Claro, se a insurreição é um dever sagrado, é contra a
escravidão. John Brown quis começar sua obra de salvação pela libertação

61
Tradução nossa. No original: « Je regrette que cette question, la première de toutes peut-être,
arrive au milieu de vos délibérations presque à l‟improviste, et surprenne les orateurs non préparés.
Quant à moi, je dirai peu de mots, mais ils partiront du sentiment d‟une conviction profonde et
ancienne. [...] Le dix-huitième siècle, - c‟est là une partie de sa gloire, - a aboli la torture ; le dix-
neuvième abolira la peine de mort. [...] Ceux qui agissaient sur son esprit alors ne furent pas, je le
regrette profondément, à la hauteur de son grand cœur. On l‟empecha d‟exécuter cette idée sublime.
[...] Je vote l‟abolition pure, simple et définitive de la peine de mort. » (HUGO, 1873, p.179)
54
de escravos da Virgínia. [...] A escravidão produz a surdez da alma. John
Brown, abandonado, combateu; com um punhado de homens heroicos, ele
lutou; ele foi crivado de balas, seus dois filhos jovens, santos mártires,
caíram mortos ao seu lado, ele foi pego. [...] John Brown, pego, acaba de
ser julgado, com quatro dos seus, Stephens, Copp, Green e Coplands. [...]
John Brown, sobre uma cama de sangue, com seis feridas mal cicatrizadas,
um tiro no braço, um nos rins, dois no peito, dois na cabeça, mal ouvindo,
sangrando através de seu colchão, as sombras de seus dois filhos mortos
ao lado dele [...] John Brown, condenado, devia ser enforcado no dia 2 de
dezembro (hoje mesmo) [...] o carrasco de Brown não seria nem o
procurador Hunter, nem o juiz Parker, nem o governador Wyse, nem o
pequeno Estado da Virgínia; seria, estremecemos de pensar e de dizer, a
grande República Americana inteira. Quanto a mim, que não sou mais que
um átomo, mas que, como todos os homens, tenho em mim toda a
consciência humana, eu me ajoelho com lágrimas nos olhos frente à grande
bandeira estrelada do novo mundo, e eu suplico com mãos postas, com um
respeito profundo e filial, essa ilustre República Americana, irmã da
República Francesa, de anunciar a salvação da lei moral universal, de
salvar John Brown, de derrubar o ameaçador cadafalso do dia 16 de
dezembro, e de não permitir que sob seus olhos, e trêmulo eu adiciono
quase que por sua culpa, o primeiro fratricídio aconteça. Sim, a América o
sabe e o pensa, há algo mais assustador que Caim matando Abel, é
62
Washington matando Spartacus.

Mais uma vez, Victor Hugo viu diante de seus olhos a luz da humanidade se
eclipsar com a recusa da concessão de graça pelo Estado da Virgínia. John Brown
foi executado e passou a representar o a luta pela liberdade racial nos Estados
Unidos. Após sua morte, o poeta lhe prestou homenagens póstumas:

Em 1859, ele usa sua influência para tentar salvar John Brown na América:
este militante anti-escravocrata tinha armado Negros, visando um levante
que falhou; ele foi condenado e executado. Desenhos à tinta do artista,
intitulados “O Enforcado” guardaram o testemunho deste sombrio

62
Tradução nossa. No original: « Il y a des esclaves dans les états du sud, ce qui indigne, comme le
plus monstrueux des contre-sens, la conscience logique et pure des états du nord. Ces esclaves, ces
nègres, un homme blanc, un homme libre, John Brown, a voulu les délivrer. Certes, si l‟insurrection
est un devoir sacré, c‟est contre l‟esclavage. John Brown a voulu commencer l‟œuvre de salut par la
délivrance des esclaves de la Virginie. [...] L‟esclavage produit la surdité de l‟âme. John Brown,
abandonné, a combattu ; avec une poignée d‟hommes héroïques, il a lutté ; il a été criblé de balles,
ses deux jeunes fils, saints martyrs, sont tombés morts à ses côtés, il a été pris. [...] John Brown, pris,
vient d‟être jugé, avec quatre des siens, Stephens, Copp, Green et Coplands. [...] John Brown, sur un
lit de sangle, avec six blessures mal fermées, un coup de feu au bras, un aux reins, deux à la poitrine,
deux à la tête, entendant à peine, saignant à travers son matelas, les ombres de ses deux fils morts
près de lui [...] John Brown, condamné, devait être pendu le 2 décembre (aujourd‟hui même) [...] le
bourreau de Brown, ce ne serait ni l‟attorney Hunter, ni le juge Parker, ni le gouverneur Wyse, ni le
petit État de Virginie ; ce serait, on frissonne de le penser et de le dire, la grande République
Américaine tout entière. Quant à moi, qui ne suis qu‟un atome, mais qui, comme tous les hommes, ai
en moi toute la conscience humaine, je m‟agenouille avec larmes devant le grand drapeau étoilé du
nouveau monde, et je supplie à mains jointes, avec un respect profond et filial, cette illustre
République Américaine, sœur de la République Française, d‟aviser au salut de la loi morale
universelle, de sauver John Brown, de jeter bas le menaçant échafaud du 16 décembre, et de ne pas
permettre que sous ses yeux, et j‟ajoute en frémissant presque par sa faute, le premier fratricide soit
dépassé. Oui, que l‟Amérique le sache et y songe, il y a quelque chose de plus effrayant que Caïn
tuant Abel, c‟est Washington tuant Spartacus. » (HUGO, 1873, p.213-217)
55
episódio sombrio. A partir de então Victor Hugo é mundialmente
63
conhecido por seu engajamento abolicionista.

O reconhecimento cada vez maior do autor chegou a ajudá-lo nas diversas


condenações pelas quais interviu.
Ao longo de sua vida, bem como em toda sua obra, Victor Hugo não
abandonou o tema da pena de morte:

[...] seu teatro e seus romances oferecem numerosas cenas de julgamento


e de execução, bem como personagens de trabalhadores forçados e
carrascos. Em todas as suas grandes obras, Punições , As
Contemplações, Os Miseráveis, Noventa e três, A Lenda dos séculos -
aparece a sombria silhueta da guilhotina e se fazem escutar os pedidos
64
de graça e o protesto contra a desumanidade da punição.

Esta guerra de Hugo contra a pena capital não se deu somente por uma
questão pessoal, mas se tratava ainda de denunciar o sistema penal e a injustiça da
estrutura social de seu tempo. O escritor deixava claro seu posicionamento em
relação à pena de morte, como o fez em resposta após o convite para presenciar a
inauguração de uma estátua de Beccaria:

Uma comissão foi nomeada na Itália para levantar um monumento a


Beccaria. Victor Hugo foi convidado a fazer parte dessa comissão.
Hauteville-House, 4 de março de 1865.

Eu aceito e agradeço.
Eu estarei orgulhoso de ver meu nome entre os eminentes nomes dos
membros da comissão do monumento à Beccaria.
O país onde se estabelecer tal monumento é feliz e abençoado, pois, na
presença da estátua de Beccaria, a pena de morte não é mais possível.
Eu felicito a Itália.
Levantar a estátua de Beccaria é abolir o cadafalso.
Se, uma vez que ela estiver lá, o cadafalso saísse da terra, a estátua
entraria de volta nela.
65
Victor Hugo.

63
Tradução nossa. No original: « En 1859, il use son influence pour tenter sauver John Brown en
Amérique : ce militant anti-esclavagiste avait armé des Noirs, en vue d‟un soulèvement qui avait
échoué ; il est condamné et exécuté. Des dessins à l’encre de l’artiste, intitulés « Le Pendu »
gardent témoignage de ce sombre épisode. Désormais Victor Hugo est mondialement connu pour
son engagement abolitionniste. » (LUCAS, 2004, p.10, grifo nosso)
64
Tradução nossa. No original: « [...] son théâtre et ses romans offrent de nombreuses scènes de
jugement et d‟exécution ainsi que des personnages de forçats et de bourreaux. Dans toutes ses
œuvres majeures Ŕ Châtiments, Les Contemplations, Les Misérables, Quatre-vignt-treize, La
Légende des siècles Ŕ se profile la sombre silhoette de la guillotine et se font entendre les
demandes de grâce et la protestation contre l‟inhumanité du châtiment. » (LUCAS, 2004, p.11, grifo
nosso)
65
Tradução nossa. No original: « Une commission est nommé en Italie pour élever un monument à
Beccaria. Victor Hugo est invité à faire partie de cette commission.
56
Em 1882, já com 80 anos de idade, Victor Hugo ainda pleiteava o fim da pena
de morte. Em dezembro daquele ano, endereçou duas cartas ao imperador
austríaco François-Joseph pedindo a graça para Oberdank. O estudante, acusado
de ser desertor e regicida, foi condenado após ter lançado duas bombas em
atentado ao mesmo soberano. O imperador da Áustria escapou do ataque, mas
duas outras pessoas foram vítimas fatais.

GRAÇA PARA O ESTUDANTE OBERDANK


DEZEMBRO DE 1882

[Oberdank foi condenado à morte por ter lançado duas bombas na abertura
da exposição de Trieste. Trecho do Rappel de 15 de dezembro:]

Victor Hugo acaba de enviar ao imperador da Áustria a seguinte carta:

Eu recebi em dois dias de universidades e academias da Itália onze


notícias. Todas pedem a vida de um condenado.
O imperador da Áustria tem nesse momento uma graça a fazer.
Que ele assine essa graça e isso será grande.

Victor Hugo.
12 de dezembro de 1882.

[Trecho do Rappel de 23 de dezembro de 1882:]

Sobre novos convites mais e mais pressionadores, o autor de O Último Dia


de um condenado enviava ontem de manhã esta segunda carta:

Ao imperador da Áustria

A pena de morte é abolida para todo homem civilizado.


A pena de morte (com todas suas dependências) será apagada dos códigos
do século vinte. Seria belo praticar, desde o presente, a lei do futuro.

Victor Hugo.
66
21 de dezembro de 1882.

Hauteville-House, 4 mars 1865.

J'accepte et je remercie.
Je serai fier de voir mon nom parmi les noms éminents des membres de la commission du monument
à Beccaria.
Le pays où se dressera un tel monument est heureux et béni, car, en présence de la statue de
Beccaria, le peine de mort n'est plus possible.
Je félicite l'Italie.
Élever la statue de Beccaria, c'est abolir l'échafaud.
Si, une fois qu'elle sera là, l'échafaud sortait de terre, la statue y rentrerait.
Victor Hugo » (HUGO, 2002, p.317)
66
Tradução nossa. No original: « GRACE POUR L'ÉTUDIANT OBERDANK
DÉCEMBRE 1882

[Oberdank est condamné à mort pour avoir lancé des bombes lors de l'ouverture de l'exposition de
Trieste. Extrait du Rappel du 15 décembre:]

57
Infelizmente, essa última tentativa de conseguir a graça para um condenado
foi frustrada. No momento em que a segunda carta partia, chegou a Paris a notícia
de que a sentença do conselho de guerra havia sido executada. Oderbank morreu
enforcado no dia 20 de dezembro daquele ano.

3.2. Influências no século XIX

Entusiastas da abolição da pena de morte viram o século XIX com


esperanças. Especialmente os românticos adotaram as novas ideias libertárias. No
entanto, o combate protagonizado por uma elite intelectual não encontrava adesão
popular suficiente.
Os protestos de Victor Hugo encontravam refúgio em outros artistas que,
assim como ele, condenavam a pena de morte. Seu manifesto apresentado no
Prefácio do romance O Último Dia de um condenado de 1832 resumiam as
aspirações idealistas de outros escritores politicamente engajados naquele século:

Assim Victor Hugo, sendo o mais envolvido, encontra-se com outros artistas
românticos para condenar a pena de morte: o homem de letras Ballanche, o
pensador cristão liberal, Lamennais ([que lançou um] artigo no seu
jornal L’Avenir em junho de 1831) assim como o poeta Lamartine ([que

Victor Hugo vient d'adresser à l'empereur d'Autriche la lettre suivante:

J'ai reçu en deux jours des universités et académies d'Italie onze dépêches. Toutes demandent la vie
d'un condamné.
L'empereur d'Autriche a en ce moment une grâce à fair.
Qu'il signe cette grace et ce sera grand.

Victor Hugo.
12 décembre 1882.

[Extrait du Rappel du 23 décembre 1882:]

Sur de nouvelles invitations de plus en plus pressantes, l'auteur du Dernier Jour d'un condamné
envoyait hier matin cette seconde lettre:

A l'empereur d'Autriche

La peine de mort est abolie pour tout homme civilisé.


La peine de mort (avec toutes ses dépendances) sera effacée des codes du vingtième siècle. Il serait
beau de pratiquer, dès à présent, la loi de l'avenir.

Victor Hugo.
21 décembré 1882. » (HUGO, 2002, p.1072)
58
publicou as obras] Ode contre la peine de mort e La Politique rationnelle, de
67
1831).

Já no final do século, o debate ganhou força com as ideias de Auguste


Comte. O filósofo francês ofereceu novos meios de estudo dos fenômenos sociais
que, posteriormente, foram aplicados em escolas positivistas de criminologia.
Baseado em Cesare Lombroso, médico italiano, o novo debate via “o criminoso
68
determinado pela sua anatomia, fisiologia e psicologia.” Portanto, a partir do
surgimento de um criminoso incurável, patológico, a pena de morte nada mais seria
que um método de extermínio irracional da sociedade. Essa tese irá persistir até o
século seguinte.

3.3. A abolição no século XX

No início do século XX, o debate abolicionista continua exclusivamente no


âmbito de intelectuais, juristas e políticos. Os argumentos ainda eram os mesmos,
não havendo maior acolhimento popular. Na França, a recém-criada Liga dos
Direitos do Homem reforçou o combate antecipadamente, buscando a abolição no
ano de 1906. Apesar dos esforços parlamentares, após a formulação de um
referendo pelo jornal Le Petit Parisien e a consulta a júris populares, viu-se que a
maioria da população ainda era contrária à extinção da pena.
Posteriormente, os horrores da Primeira e Segunda Guerra mundiais
presenciados pela população europeia não permitiram uma nova consulta à
sociedade. A Itália foi um dos melhores exemplos da situação conflituosa em que o
continente se encontrava, tendo abolido a pena de morte em 1889, aplicou-a
novamente sob a ditadura de Mussolini. Em um primeiro momento, permitida apenas
para crimes políticos em 1925, foi sancionada para o direito comum em 1930. Após
a queda do regime, as execuções no país foram suspensas até a confirmação de
sua nova extinção, em 1947.

67
Tradução nossa. No original : « Ainsi Victor Hugo, tout en étant le plus impliqué, se retrouve avec
d‟autres artistes romantiques pour condamnér la peine de mort : l‟homme des lettres Ballanche, le
penseur chrétien libéral, Lamennais (article dans son journal L‟Avenir en juin 1831) ainsi que le poète
Lamartine (Ode contre la peine de mort et La Politique rationnelle, 1831). » (LUCAS, 2004, p.31)
68
Tradução nossa. No original: « le criminel est déterminé par son anatomie, sa physiologie et sa
psychologie. » (LUCAS, 2004, p.33)
59
Em 1948, a tendência humanitária se fortalece no direito internacional com a
proclamação da Declaração universal dos direitos humanos. Ainda que não
tenha sido expressa, a abolição da pena de morte se mostra como uma sugestão:

Artigo III
Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. [...]
Artigo V
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel,
desumano ou degradante. (DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS
HUMANOS, 1948)

A questão passa a ser objeto de debates maiores no interior da sociedade. Na


mesma década, em 1947, Albert Camus publica O Estrangeiro e aborda o assunto.
No enredo da obra, o empregado de um escritório na Algéria, Meursault, é
condenado à guilhotina pelo assassinato de um árabe. A referência a Victor Hugo é
visível:

Para escrever O Estrangeiro, Camus manifestamente lembrou-se de sua


leitura de O Último Dia de um condenado. Certos episódios, como aquele
da visita do capelão, são idênticos nos dois livros. O desprendimento como
o qual Meursault assiste a seu julgamento, com se tratasse daquele de uma
outra pessoa, lembra a surpresa incrédula do personagem hugoano.
Redigido em um estilo e com um objetivo bem diferentes, O Estrangeiro
certamente não é uma reescrita de O Último Dia de um condenado. Mas
mostra a importância do tema do condenado à morte, tanto, aliás, na
69
literatura como no cinema.

Nas últimas décadas do século XX, o tema popularizou-se definitivamente na


França e no mundo. Diversos casos de execuções penais foram explorados pela
mídia, acrescentando público ao debate sobre a pena de morte. O caso dos
criminosos Claude Buffet e Roger Bontems70 foi acompanhado pelos noticiários
franceses da época. Os dois foram condenados e guilhotinados em 1972, ainda que
69
Tradução nossa. No original: « Pour écrire L’Étranger, Camus s‟est manifestement souvenu de sa
lecture du Dernier Jour d’un condamné. Certains épisodes, comme celui de la visite de l‟aumônier,
sont identiques dans les deux livres. Le détachement avec lequel Meursault assiste à son procès,
comme s‟il s‟agissait de celui d‟un autre, rappelle l‟étonnement incrédule du personnage hugolien.
Rédigé dans un style et dans un but très différents, L’Étranger n‟est certes pas une réecriture du
Dernier Jour d’un condamné. Mais il montre l‟importance du thème du condamné à mort – tant,
d‟ailleurs, dans la littérature qu‟au cinéma. » (SEVREAU, 2009, p.98)
70
Claude Buffet e Roger Bontems se conheceram na prisão central de Clairvaux, na região da
Champanha-Ardenas, em 1971. Em uma tentativa de fuga, os dois mantiveram três reféns na
enfermaria do presídio: o guarda Guy Girardot, a enfermeira Nicole Comte, mãe de dois filhos, e um
detento enfermeiro. Armados com facas, as ameaças dos dois criminosos foram acompanhadas ao
longo do dia 21 de setembro pelos canais televisivos do país. Na madrugada do dia 22, a polícia
conseguiu neutralizar Buffet e Bontems, entretanto, os dois últimos reféns não escaparam com vida,
pois tiveram suas gargantas cortadas.
60
Roger Bontems não tenha sido considerado culpado por morte alguma, mas apenas
cúmplice.
Robert Badinter, um dos advogados de Bontems, relatou o processo em
1973, na obra L’Exécution. No romance inspirado pela tragédia, o futuro ministro da
Justiça francês relatou o ódio com que os criminosos eram vistos publicamente:

Eu sabia que eles tinham chegado ao Palácio. Um longo clamor “À morte!”


havia se elevado na rua, à passagem dos na passagem dos prisioneiros
gradeados em regime celular, que tinham a aparência de carros funerários
para pobres. Era a eles que se esperava, como se espera que o touro lidere
na arena. Mas não era a impaciência, ou o nervosismo alegre das grandes
corridas que animava o público. O ódio e o medo teciam ao redor dessa
71
caixa vazia uma rede com malhas invisíveis.

Os dois foram executados no dia 28 de novembro de 1972.


Posteriormente houve a execução do assassino tunisiano Ali Ben Yanes, em
1973, na qual o governo se esforçou para realizar de maneira discreta, às 4 horas da
manhã do dia 12 de maio.
No ano seguinte, o assassinato de uma menina de 8 anos e a tentativa de
homicídio de sua mãe, grávida de 8 meses, chocaram novamente o país, ocupando
os noticiários. A culpa foi imputada a Christian Ranucci, apesar das diversas falhas
processuais que foram apontadas por seus advogados. Um pulôver vermelho
encontrado próximo ao seu carro foi considerado prova cabal do crime, ainda que
não fosse do mesmo tamanho do acusado. A suspeita de um erro judiciário não foi
suficiente para que o condenado fosse beneficiado da clemência do júri ou da graça
presidencial, e sua cabeça foi laminada em julho de 1976.
A polêmica sobre sua inocência inspirou o escritor Gilles Perrault a escrever
Le Pullover rouge, em 1978. O livro foi transformado em filme por Michel Drach no
ano seguinte, vulgarizando o debate sobre a pena de morte. Grupos religiosos na
França passaram a se posicionar expressamente a favor da abolição da pena capital
e, ainda que a maior parte da opinião pública se mantivesse contra, François
Miterrand tomou a iniciativa de propor o a supressão da pena. Em 1981, Robert

71
Tradução nossa. No original: « Je savais qu‟ils étaient arrivés au Palais. Une longue clameur « A
mort ! » s‟était élevée dans la rue, au passage des fourgons cellulaires grillagés, qui avaient l‟aspect
de corbillard pour pauvres. C‟était eux que l‟on attendait, comme on attend que le taureau débouche
dans l‟arène. Mais ce n‟était pas l‟impatience, ou l‟énervement joyeux des grandes courses qui
animait le public. La haine et la peur tissaient autour de ce box vide un filet aux mailles invisibles. »
(BADINTER, 2009, p.83)
61
Badinter, então ministro da Justiça, proferiu o discurso que marcaria o dia 17 de
setembro, relembrando ainda os três últimos guilhotinados do país:

Christian Ranucci: eu não teria cuidado de insistir, há muitas interrogações


que se elevam à sua pessoa, e apenas essas interrogações são suficientes,
para toda consciência ligada à justiça, para condenar a pena de morte.
Jérôme Carrein: débil, ébrio, que cometeu um crime atroz, mas que tomou
pela mão diante de toda a cidade a garota que iria matar alguns instantes
mais tarde, mostrando assim que ele ignorava a força que iria levá-lo [...]
Por fim, Djandoubi, que era perneta e que, qualquer que seja o horror – e o
termo não é muito forte – de seus crimes, apresentava todos os sinais de
um desequilíbrio e que foi levado ao cadafalso depois de ter retirado sua
72
prótese.

Em seu discurso, Robert Badinter recuperou os argumentos lançados por


Victor Hugo no Prefácio de 1832 do romance O Último Dia de um condenado,
afirmando que a pena de morte, além de perversa, é desprovida de quaisquer
efeitos sobre a sociedade:

Na verdade, a questão da pena de morte é simples para quem quer analisá-


la com lucidez. Ela não surge em termos de dissuasão, nem mesmo de
técnica repressiva, mas em termos de escolha política ou de escolha moral.
Já o disse, mas repito com prazer visto o grande silêncio anterior: o único
resultado para o qual foram conduzidas todas as pesquisas acompanhadas
por criminologistas é a constatação de ausência de ligação entre a pena de
morte e a evolução da criminalidade sangrenta. Os crimes mais terríveis,
aqueles que mais capturam a sensibilidade pública – e é compreensível –
aqueles chamados hediondos são cometidos por homens que na maioria
das vezes são levados por um impulso de violencia e de morte que livra as
defesas da razão. Neste instante de loucura, neste instante de paixão
mortal, a evocação da pena, que seja de morte ou que seja perpétua, não
73
encontra lugar no homem que mata.

72
Tradução nossa. No original: « Christian Ranucci : je n'aurais garde d'insister, il y a trop
d'interrogations qui se lèvent à son sujet, et ces seules interrogations suffisent, pour toute conscience
éprise de justice, à condamner la peine de mort. Jérôme Carrein : débile, ivrogne, qui a commis un
crime atroce, mais qui avait pris par la main devant tout le village la petite fille qu'il allait tuer quelques
instants plus tard, montrant par là même qu'il ignorait la force qui allait l'emporter. [...] Enfin,
Djandoubi, qui était unijambiste et qui, quelle que soit l'horreur - et le terme n'est pas trop fort - de ses
crimes, présentait tous les signes d'un déséquilibre et qu'on a emporté sur l'échafaud après lui avoir
enlevé sa prothèse. » (BADINTER, 1981)
73
Tradução nossa. No original: « En vérité, la question de la peine de mort est simple pour qui veut
l'analyser avec lucidité. Elle ne se pose pas en termes de dissuasion, ni même de technique
répressive, mais en termes de choix politique ou de choix moral. Je l'ai déjà dit, mais je le répète
volontiers au regard du grand silence antérieur : le seul résultat auquel ont conduit toutes les
recherches menées par les criminologues est la constatation de l'absence de lien entre la peine de
mort et l'évolution de la criminalité sanglante. Les crimes les plus terribles, ceux qui saisissent le plus
la sensibilité publique - et on le comprend - ceux qu'on appelle les crimes atroces sont commis le plus
souvent par des hommes emportés par une pulsion de violence et de mort qui abolit jusqu'aux
défenses de la raison. A cet instant de folie, à cet instant de passion meurtrière, l'évocation de la
peine, qu'elle soit de mort ou qu'elle soit perpétuelle, ne trouve pas sa place chez l'homme qui tue. »
(BADINTER, 1981)
62
Por fim, o ministro evocou o próprio nome de Victor Hugo, reconhecendo a
contribuição do poeta no longo caminho percorrido para que se chegasse à abolição
da pena de morte:

Acontece que a França terá sido, apesar de tantos esforços corajosos, um


dos últimos países, quase o último – e abaixo a voz para dizê-lo – na
Europa Ocidental, na qual foi tão frequentemente o foco e o polo (vírgula) a
abolir a pena de morte. Por que esse atraso? Eis a primeira pergunta a nós.
Não é culpa do gênio nacional. É da França, é deste recinto, geralmente,
que se levantaram as maiores vozes, aquelas que ressoaram o mais alto e
o mais longe da consciência humana, aquelas que sustentaram, com a
maior eloquência, a causa da abolição. Você lembrou de Hugo, com
muitíssima razão, Senhor Forni, eu acrescentaria, entre os escritores,
Camus. Como, nesse recinto, não pensar ainda em Gambetta, em
Clemenceau e sobretudo no grande Jaurès? Todos se levantaram. Todos
sustentaram a causa da abolição. Então por que o silêncio persistiu e por
74
que não a abolimos?

3.4. Uma luta do século XXI

A pena de morte foi abolida na França, mas não no mundo. Diversas


associações em defesa dos Direitos Humanos abraçaram ainda a causa, além da
própria Organização das Nações Unidas. No século XXI, o foco volta-se para os
Estados Unidos da América, o maior país do Ocidente a resistir à abolição.

Em dezembro de 1998, o Papa João Paulo II denuncia solenemente a pena


de morte como inútil e cruel. No entanto, a situação de diversos estados dos
Estados Unidos permanece preocupante, não somente porque as
execuções são numerosas e podem concernir menores de idade no
momento dos fatos (o que acontece apenas em poucos países), mas ainda
75
porque elas tocam os negros de maneira maciçamente discriminatória.

74
Tradução nossa. No original: « Il se trouve que la France aura été, en dépit de tant d'efforts
courageux, l'un des derniers pays, presque le dernier - et je baisse la voix pour le dire - en Europe
occidentale, dont elle a été si souvent le foyer et le pôle, à abolir la peine de mort.
Pourquoi ce retard ? Voilà la première question qui se pose à nous.
Ce n'est pas la faute du génie national. C'est de France, c'est de cette enceinte, souvent, que se sont
levées les plus grandes voix, celles qui ont résonné le plus haut et le plus loin dans la conscience
humaine, celles qui ont soutenu, avec le plus d'éloquence, la cause de l'abolition. Vous avez, fort
justement, monsieur Forni, rappelé Hugo, j'y ajouterai, parmi les écrivains, Camus. Comment, dans
cette enceinte, ne pas penser aussi à Gambetta, à Clemenceau et surtout au grand Jaurès ? Tous se
sont levés. Tous ont soutenu la cause de l'abolition. Alors pourquoi le silence a-t-il persisté et pourquoi
n'avons-nous pas aboli ? » (BADINTER, 1981)
75
Tradução nossa. No original : « En décembre 1998, le Pape Jean-Paul II dénonce solennellement
la peine de mort comme inutile et cruelle. Cependant la situation de plusieurs états des États-Unis
reste préoccupante, non seulement parce que les exécutions sont nombreuses et peuvent concerner
des personnes mineures au moment des faits (ce qui n‟est possible que dans de très rares pays),
63
Um exemplo recente das polêmicas execuções americanas aconteceu em
2005, sob as lentes da imprensa internacional. Stanley Williams, conhecido como
Tookie, foi executado com uma injeção letal aos 51 anos em San Quentin, na
Califórnia, no dia 13 de dezembro daquele ano. Sua história tornou-se emblemática,
acusado de quatro assassinatos em 1979, quando era membro de uma gangue.
Mais tarde, o acusado tornou-se símbolo da paz e contra a pena de morte.
Durante os 24 anos em que esteve preso, Stanley Williams renunciou a
violência e escreveu obras para dissuadir jovens de entrar em gangues. Seus livros
lhe renderam inclusive uma indicação para o Prêmio Nobel da Paz em 2001, e seu
trabalho de combate às gangues americanas foi elogiado mundialmente.
Todos os seus recursos legais haviam sido negados e os dois tribunais da
Califórnia, além do Supremo Tribunal americano, recusaram-se a intervir no caso. A
única esperança de liberdade era a comutação da pena capital pela prisão perpétua,
determinada pelo governador do estado, Arnold Schwarzenegger, que não
concordava com a graça:

Após estudar as evidências, pesquisar a história, escutar os argumentos e


pesar as profundas consequências, não pude achar justificação para a
clemência. [...] Stanley Williams insiste que é inocente e que não iria nem
deveria se desculpar ou buscar expiação pelos quatro assassinatos desse
caso. Sem desculpas ou expiação por esses assassinatos brutais, não pode
existir redenção. Não há motivos para duvidar da decisão do júri ou levantar
significativas dúvidas. (SCHWARZENEGGER nega perdão a condenado à
morte, 2005)

A execução de Stanley Williams reacendeu o debate sobre a inutilidade da


pena de morte. Nesse caso, além da ausência de exemplo a ser dado pelo
assassinato público, se tratava de uma personalidade que exercia reconhecido
trabalho social há mais de duas décadas.
A cada ano uma proporção inquietante de erros judiciais, torturas e
execuções penais assola o mundo. A luta que Victor Hugo empreendeu por toda
uma vida permanece um dos principais temas a ser debatidos no século XXI.
Organizações a favor dos Direitos Humanos tornam-se fundamentais para tornar
público abusos penais cada vez mais frequentes. O Informe 2011 da Anistia

mais encore parce qu‟elles touchent les Noirs de façon massivement discriminatoire. » (LUCAS,
2004, p.35)
64
Internacional mostra números preocupantes, permitindo precisar dados sobre a
aplicação da pena de morte em todo o mundo:

Quarenta e seis prisioneiros – 45 homens e uma mulher – foram executados


nos Estados Unidos no ano de 2010. Quarenta e quatro deles foram mortos
por injeção letal, um foi eletrocutado e um foi morto por pelotão de
fuzilamento. Com essas mortes, sobe para 1.234 o número total de
execuções levadas a cabo desde que a Suprema Corte suspendeu a
moratória da pena de morte em 1976.
David Powel foi executado no dia 15 de junho no Texas, mais de três
décadas após ter cometido seu crime, apesar das evidências contundentes
de que ele estava recuperado. David passou mais da metade de sua vida
no corredor da morte.
Holly Wood foi executado no dia 9 de setembro no estado do Alabama. Na
ocasião do julgamento, seu advogado, inexperiente, não apresentou ao júri
qualquer evidência dos significativos transtornos mentais de seu cliente.
Brandon Rhode foi executado no dia 27 de setembro no estado da Georgia,
seis dias depois de ter cortado os pulsos e o pescoço com uma lâmina.
Depois de quase ter morrido, ele conseguiu se recuperar, para logo ser
morto, com uma injeção letal, por um crime que ele havia cometido aos 18
anos de idade.
Em outubro, Anthony Graves foi posto em liberdade no Texas, 16 anos após
ter sido sentenciado à morte. Em 2006, um tribunal federal havia
determinado que se realizasse um novo julgamento. Porém, em outubro de
2010, as acusações contra ele foram rejeitadas, pois a promotoria não
encontrou quaisquer provas confiáveis que pudessem relacioná-lo ao crime
cometido em 1992. Ele se tornou a 138º pessoa, desde 1973, a ser libertada
do corredor da morte dos Estados Unidos com base em sua inocência.
(ANISTIA INTERNACIONAL, 2011, p.142)

Na França, ainda que a pena de morte tenha sido abolida há três décadas, os
dados da organização ainda mostram execuções promovidas por entidades policiais.
A violência excessiva é normalmente empregada contra estrangeiros:

Em março, o juiz que investigava a morte de Abou Bakari Tandia, que


morreu em janeiro de 2005 por lesões sofridas sob custódia policial,
interrogou três médicos forenses [...]. Os médicos concluíram que houve
uma briga entre Abou Bakari Tandia e os policiais envolvidos em sua
detenção, o que levanta mais dúvidas sobre a declaração dos policiais de
que os ferimentos foram causados pela própria vítima ao se atirar contra as
paredes da cela. [...]Em 12 de novembro de 2009, quatro policiais
prenderam Mohamed Boukrourou, depois de uma discussão na farmácia de
seu bairro. Eles o algemaram e mandaram que ele os acompanhasse.
Testemunhas disseram que, quando ele se recusou, os policiais o
arrastaram para fora do local e o jogaram dentro da viatura, onde foi
chutado e espancado. Menos de duas horas depois, ele estava morto. Seus
familiares informaram que, quando viram o corpo, o rosto estava coberto de
hematomas, seu lábio estava cortado e a bochecha rebentada. Dois
relatórios forenses, um realizado por solicitação do promotor de justiça, em
novembro de 2009, e um segundo por solicitação da família, em junho de
2010, indicaram lesões em seu corpo que poderiam ter sido causadas por
socos e declararam como provável causa da morte uma insuficiência
cardíaca. (ANISITA INTERNACIONAL, 2011, p.143)

65
No Irã, o informe da organização revela surpreendentes 252 execuções
penais. Os métodos usados ainda chocam pela crueldade e tortura excessivas, além
dos próprios condenados, dentre eles, menores responsáveis por crimes de menor
potencial ofensivo:

As autoridades admitiram ter executado 252 pessoas, dentre as quais cinco


mulheres e um menor infrator. Informações confiáveis referiam a pelo
menos outras 470 execuções que não teriam sido admitidas oficialmente, a
maioria na penitenciária de Vakilabad, em Mashhad. Pelo menos 143
menores infratores continuavam no corredor da morte. É provável que os
números reais sejam ainda mais altos, uma vez que as autoridades
restringiram a divulgação de informações sobre a pena de morte. Sentenças
de morte foram impostas em casos de contrabando de drogas, roubo à mão
armada, homicídio, espionagem, violência política e infrações de natureza
sexual. As autoridades utilizaram a imposição da pena capital e as
execuções como armas políticas. [...] Em maio, quatro indivíduos curdos,
condenados por suposta ligação com grupos oposicionistas curdos, foram
executados. Não houve registro de apedrejamentos (lapidação). Entretanto,
pelo menos 15 prisioneiras, na maioria mulheres, ainda corriam risco de
serem executadas dessa forma.
Sakineh Mohammadi Ashtiani, uma mulher cuja sentença de morte por
apedrejamento, proferida em 2006, estava sendo reapreciada,
despertou a atenção mundial quando aparentemente estava prestes a
ser executada. As pessoas que se mobilizaram para defendê-la foram
presas ou intimidadas.
Em dezembro, foi publicada uma emenda à lei antinarcóticos, estendendo a
aplicação da pena de morte aos delitos envolvendo drogas sintéticas.
(ANISTIA INTERNACIONAL, 2011, p.160, grifo nosso)

No Brasil, a pena de morte é constitucionalmente permitida apenas em caso


de guerra. Entretanto, diversos abusos são vistos, de maneira que configurem
verdadeiras execuções em algumas vezes. No país, “a tortura foi [...] praticada no
momento da prisão, nas celas policiais, nas penitenciárias e no sistema de detenção
juvenil”, outro exemplo de abuso aconteceu em abril de 2010, quando “um motoboy
foi torturado até a morte dentro de um prédio da Polícia Militar em São Paulo”, sendo
“chutado repetidamente no rosto e espancado com cassetetes e correntes por um
grupo de doze policiais”. (ANISTIA INTERNACIONAL, 2011, p.114)
Por fim, na China os dados oficiais sobre tortura e pena de morte não são
divulgados, mas há indícios de que são números alarmantes:

A tortura e outros maus-tratos continuaram endêmicos em locais de


detenção. A Anistia Internacional recebeu denúncias de mortes sob
custódia, algumas em consequência de tortura, numa variedade de
instituições públicas, como prisões e centros de detenção policiais. Em
julho, novos regulamentos foram adotados para reforçar as proibições ao
uso de provas orais ilegais, como confissões forçadas, em processos

66
criminais. No entanto, o Código de Processo Penal chinês ainda não foi
emendado para proibir explicitamente que
confissões obtidas mediante tortura ou maus-tratos sejam usadas como
prova em tribunais. [...] As estatísticas sobre pena de morte e execuções
permaneceram sigilosas. Porém, as evidências publicamente disponíveis
levam a crer que a China continua usando a pena de morte de maneira
extensiva, com milhares de pessoas sendo executadas após julgamentos
injustos. Houve diversos casos de pessoas inocentes que foram
sentenciadas à morte ou executadas, o que levou a intensos debates da
opinião pública, aumentando a pressão para que as autoridades enfrentem
essa situação. (ANISTIA Internacional, 2011, p.121)

É preciso crer que a luta de Victor Hugo será enriquecida por sucessivas
vitórias no século XXI. Enquanto os governos soberanos insistirem em atos
desprovidos de qualquer respeito aos direitos humanos, haverá ideais e pensadores
determinados a desafiar os abusos de poder. O engajamento por quase um século
do poeta francês contribuiu para manter vivo o combate à pena de morte, esteja ela
institucionalizada ou não. Agora cabe ao futuro se comprometer a um dia suprimir
definitivamente a pena capital, permitindo que “o ar de nossa civilização por si só
[acabe] em algum momento com a pena de morte” 76 (HUGO, 2010, UDC, p.179).

76
No original: « L‟air seul de notre civilisation doit dans un temps donné user la peine de mort »
(HUGO, 2010, DJC, p.37)
67
Figura 5
68
CONCLUSÃO

Victor Hugo foi um dos escritores mais reconhecidos de seu tempo. Sua obra
se destacou por apresentar uma produção em diferentes campos do conhecimento e
das artes; além de ampla atuação política. Dentre suas obras, destacamos o
romance O Último Dia de um condenado tanto pelo valor literário quanto político.
Essa publicação de 1829 tem como tema principal uma das principais lutas às quais
se dedicou o autor ao longo de sua vida: a abolição da pena de morte.
A contextualização da guilhotina como espetáculo público, fato comum à
época de Hugo evidenciou as experiências traumatizantes do autor com a pena
capital. A vivência de Hugo com a morte, imposta pela barbárie da guilhotina,
transformou-se em fonte de indignação, mas também de inspiração para a criação
da obra.
A gênese do romance foi o ponto de partida para que o texto pudesse ser
descortinado e analisado. Como o objetivo era identificar a presença de um discurso
a favor da abolição da pena de morte na própria obra, certos elementos da narrativa
tiveram que ser detalhados.
A ausência de identidade do condenado e de seu crime, por exemplo, nos
leva a pensar que Victor Hugo pretendia defender todo e qualquer homem que fosse
obrigado a subir o cadafalso da morte. A condenação à pena capital é contestada no
romance, independente da estirpe do criminoso ou do teor d o crime cometido.
O uso do argot, dessa gíria que, neste caso introduz o vocabulário popular de
um grupo marginal, é marcado especialmente pela letra de uma música transcrita
pelo condenado. Tal uso também pode ser compreendido como um protesto de
Victor Hugo. Poderia indicar uma forma de ressaltar a inumanidade do sistema
judiciário, da prisão e da atribuição de penas e suplício. O vocabulário dos
condenados revelaria o universo hediondo da população de excluídos e
condenados.
Outro elemento narrativo essencial é o cárcere, sempre envolvendo e
sufocando o condenado. Victor Hugo usa esse enclausuramento para evidenciar o
ambiente fúnebre que se forma a partir do momento em que o homem é condenado
à pena de morte, isolando-o dos outros homens. De maneira acachapante, é como

69
se a própria morte já acontecesse na condenação. Com a sentença, o homem já se
põe em seu próprio caixão, deixando de fazer parte da sociedade para sempre.
E então, depois de um curto, mas interminável período de reclusão e
sofrimento, o condenado é executado. O nervosismo crescente da narrativa é
brutalmente guilhotinado, assim como o próprio texto que, pontualmente às quatros
horas, chega ao fim.
O Último Dia de um condenado mostrou-se como obra de relevante
importância não só literária, mas também política. Para a literatura, reivindicou o uso
do argot na arte e lançou o monólogo interior como forma de narrativa, produzindo
um discurso não pronunciado do protagonista, marcado pelo fluxo de consciência e
motivações introspectivas. Autores como Dostoievski e Camus foram inspirados pela
história do condenado hugoano, seja na maneira como construiriam sua narrativa
posteriormente, seja pelo tema da pena capital.
Politicamente, o romance fomentou o debate sobre a pena de morte,
contribuindo para a popularização do tema. Nesse sentido, a contribuição de Victor
Hugo foi tão relevante, que o autor e seus argumentos foram citados, quase dois
séculos depois, no momento em que a França suprimia a execução de seu Código
Penal.
Entretanto, se o século XX marcou a abolição da pena de morte no país de
Victor Hugo, a França, o século XXI precisa se esforçar para alcançar sua total
supressão. Infelizmente os números de executados ao redor do mundo continuam
sendo chocantes, como revela o relatório elaborado pela Anistia Internacional
afirma. Apenas no ano de 2010, mais de 200 pessoas foram oficialmente
executadas no Irã, por exemplo.
Esta pesquisa não tem aqui o seu encerramento definitivo. A partir dos
resultados atingidos, pode-se observar a importância e a influência de Hugo para a
abolição da pena capital na França. Entretanto, a influência do autor em outros
processos de supressão da pena de morte, bem como a presença do tema em sua
produção ulterior podem ser exploradas em pesquisas futuras. O debate sobre a
execução penal é atual e ainda se faz necessário.

70
Figura 6
71
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 - Victor Hugo em 1829, gravado por Devéria, s.l., 1829. Gravura. Fonte:
LASTER, Anaud. Victor Hugo. Paris: Pierre Belfond, 1984.

Figura 2 – A primeira guilhotina, s.l., 1792. Desenho sobre papel. Fonte:


LACASSAGNE, Alexandre. Peine de mort et criminalité. Paris: A. Maloine, Éditeur,
1908.

Figura 3 – Victor Hugo aos trinta e cinco anos, por Louis Boulanger, s.l., 1837.
Gravura. Fonte: LASTER, Anaud. Victor Hugo. Paris: Pierre Belfond, 1984.

Figura 4 – “Justitia”, por Victor Hugo, s.l., 1857. Caneta, pincel, tinta, lápis grafite,
carvão e guache sobre papel. Fonte: <http://expositions.bnf.fr/hugo/
grands/011bis.htm>, Acesso: 05 jul. 2011.

Figura 5 – “ Le Pendu”, por Victor Hugo, Hauteville-House, Guernesey, 1854. Lápis


grafite, pena, pincel e tinta sobre superfície crotosa. Fonte : BARRETO, Junia.
Literatura e história: crime e pena capital no século 19. Revista Aletria, Minas
Gerais, v. 20, n. 3, p. 35-46, set./dez. 2010.

Figura 6 – “Carnet oblong”, por Victor Hugo, s.l., 1856. Desenho em papel bege.
Fonte: <http://expositions.bnf.fr/hugo/grands/146_03.htm>, Acesso: 05 jul. 2011.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

OBRAS DE VICTOR HUGO E BIOGRAFIA


HUGO, Adèle. Victor Hugo raconté par un témoin de sa vie. Paris: Librairie
Internationale, 1873.
HUGO, Victor. Le Dernier Jour d’un condamné. 25. ed. Paris : Euronumérique,
2010.
______. O Último Dia de um condenado. 3. ed. Tradução de Joana Canêdo. São
Paulo : Estação Liberdade, 2010.
______. Œuvres complètes : Politique. Paris : Bouquins, 2002.

ESTUDOS CRÍTICOS
BARRETO, Junia. Literatura e história: crime e pena capital no século 19. Revista
Aletria, Minas Gerais, v. 20, n. 3, p. 35-46, set./dez. 2010.
BOZON, Emilie. L'expression du Moi dans Le dernier jour d'un condamné de
Victor Hugo. 2000. 133 f. Dissertação (Mestrado) - Université de Bourgogne,
Bourgogne. Disponível em <http://www.manuscrit.com>. Acesso em: 12 abr. 2011.
LUCAS, Éliane. Étude sur le Dernier Jour d’un condamné. Paris : Ellipses, 2004.
SEVREAU, Didier. Profil d’une œuvre : Le Dernier Jour d’un condamné. Paris :
Hatier, 2009.
WALKER, David H. Albert Camus: Les Extremes et l'equilibre. Amsterdã: Editions
Rodopi, 1994.

SOBRE PENA DE MORTE E DIREITOS HUMANOS


ANISTIA INTERNACIONAL. Informe 2011: O estado dos direitos humanos no
mundo. [S.l.:s.n.], 2011.
BADINTER, Robert. L’Exécution. 18. ed. Paris: Grasset, 2009.
BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. São Paulo : Martins Fontes, 2005.
______. Dei delitti e delle pene. Paris : Bobée e Hingray, 1828.
LACASSAGNE, Alexandre. Peine de mort et criminalité. Paris: A. Maloine, Éditeur,
1908.

73
SOBRE A HISTÓRIA DA FRANÇA
AULARD, François-Alphonse. Histoire politique de la Révolution française. Paris:
Librairie Amand Colin, 1901.
MARTIN, Jean-Clément. La Révolution française. Paris : Le Cavalier Bleu, 2008.
MATHIEZ, Albert. La Révolution française. Vol.1. Paris: Librairie Armand Colin.
1922.

DICIONÁRIOS
GUILBER, Louis; LAGANE, René; NIOBEY, Georges. Grand Larousse de la
langue française. Paris: Librairie Larousse, 1971.
ROBERT, Paul et al. Le Robert micro. Paris : Le Robert, 2008.

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS
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nationale. 1981. Disponível em : < http://www.ladocumentationfrancaise.fr
/dossiers/abolition-peine-mort/badinter.shtml>. Acesso em 26 jun. 2011.
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Paulo, 13 dez. 2005. Mundo. Disponível em: <
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u90473.shtml>. Acesso em: 26 jun.
2011.
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<http://portal.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm>. Acesso
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<http://www.assemblee-nationale.fr/histoire/dudh/1789.asp>. Acesso em 19 jun.
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<http://www.un.org/fr/documents/udhr/>. Acesso em 26 jun. 2011.
IL y a 30 ans, avait lieu la dernière exécution. Le Nouvel Observateur, 10 set. 2007.
Actualité. Disponível em: http://tempsreel.nouvelobs.com/actualite/
societe/20070910.OBS4158/il-y-a-30-ans-avait-lieula-derniere-execution.html>.
Acesso em: 25 jun. 2011.

74
MARTIN, Jean-Clément. Massacres, tueries, exécutions et meurtres de masse
pendant la Révolution, quelles grilles d‟analyse? Revista La Révolution française,
p. 1-10, fev. 2011. Disponível em : http://lrf.revues.org/index201.htmlbainville.
Acesso em 07 jun. 2011.
SCHWARZENEGGER nega perdão a condenado à morte. BBC Brasil, [S.l], 13 dez.
2005. Disponível em: < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/
story/2005/12/051213_schwarzeneggerrc.shtml>. Acesso em: 26 jun. 2011.

75