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(Disclaimer: sou leigo em tôdas as coisas do mundo.

)
Ainda negligenciada é a questão do quê que é arte, não a questão axiológica –
do quê que tem valôr artístico ou é degenerado – ou de onde vem ou para onde vai
a arte, mas a ingênua questão lógica: que tipo de ato é um drama, por exemplo.
Assim entendida, é questão que deveria necessàriamente aparecêr dentro da tradição
analítica na sua discussão do que é significado, porém não fiquei sabendo de uma
aparição tal. Claramente, a diferença é que o ato dramático (em certo sentido a sêr
esclarecido) não conta; que as falas são despidas da sua teleologia normal. É
fundamental que a platéia (pe-lo menos no caso exemplar) é sentada: é por-que o
drama é definido por uma suspensão do espaço semiótico ao redôr do palco; por-que
arte é como um experimento mental: algo que deve sêr entendido por tôdos como a
princípio falso, mas que por algum motivo é ainda interessante. Uma vêz respondida
direito essa questão, do que consiste essa diferença de significado, poderemos olhar
para o que sobra e nos perguntar para que serve – que é o que em geral quer-se
sabêr quando se pergunta quê que é arte.
A essência da diferença entre o significado artístico e o literal foi lindamente
apontada, no meio musical, por Bernstein em suas Norton lectures : é o que êle
chama de significado intrínseco vs. extrínseco. E essa diferença só poderia têr sido
descoberta primeiro sôbre a música dita “erudita”, pois que as peças dêsse tipo
parecem com histórias no sentido de que a energia que querem do ouvinte está no
intenso suspense que se constrói sôbre qual será a próxima nota, e a próxima … os
temas são como personagens, que percorrem os mais tortuosos dos caminhos e
repetidamente encontram-se uns com os outros de maneiras inesperadas, estas que
são verdadeiramente como piadas … O significado intrínseco é êsse que concerne às
escôlhas artísticas dêsses caminhos. É, portanto, claramente distinto (mêsmo que
eventualmente dependente) daquêle significado representativo, que faz correspondêr
elementos musicais com extramusicais, como por exemplo a têrça maior com alegria,
a têrça menor com tristêza … significado êste que é tôda a preocupação da música
popular – a atmosfera. A tristêza, por exemplo, é um sentimento imaginário – que
está registrado em fórmulas, códigos (em música, cinema), basta cutucar a teia dos
símbolos para invocá-la, não é necessário significar nada real.
(É claro que chorar tem certo aprazimento, e por isso, diz-se até que “desata”,
mas a tristêza já é o desatar de uma outra coisa, pois quando esta coisa advém-me,
quero tristêza e não alcanço.) A ideologia usa a música popular como um grande
arquivo, para armazenar (e controlar) sentimentos. É a mais maltratada das artes,
pois dela, é tido normal estar interessado só no prosaico da prosa, desprezar o
poético. É normal imaginar, sem razão, que o espírito é manifesto junto com certo
sentimento, que por isso diz-se “o sentimento de estar vivo”. Quem disse, que o
espírito é isso que faz “vivo”? O paradoxo do livre-arbítrio é que, pararmos a pensar
em que circunstâncias concretas efetivamente dizemo-nos livres, autênticos: é quando
agimos “naturalmente”, quando nos deixamos sêr soprados – mas isso é justo o
contrário de livre-arbítrio. E também é verdade o converso: que quando estamos
realmente livres, sentimo-nos sufocados.
A imagem é desenhada pe-lo movimento do têxto. O reconhecimento dessa
prioridade é o que caracteriza o pensamento mìnimamente responsável. Repito: quem
tenta retornar ao imaginário universo pré-linguístico, sinestético … consegue apenas
subjugar-se inteiramente à superfície de uma grande máquina inconsciente.
Até o drama também significa falsidade, exagêro: claro, por-que sêr “trágico”
só faz sentido sob a suposição de fé em uma platéia virtual, que não existe. Mêsmo
quando existe fìsicamente alguém nos ouvindo, não há comunicação – que não sêja
metonímica. Acho otimista demais sêr trágico. Por isso, identificar-se com memórias
ruins é confortável, por-que tristêza é mais branda que vergonha, ansiedade …
Quando o tempo pára – em um pôsto de gasolina de madrugada, ou quando
falta luz, ou depois do fim de um livro – aquêle sentimento paradoxal de nostalgia
por tempo nenhum: porém não é imaginário!, pe-lo contrário, é o único sentimento
que persiste. O imaginário é tentar culpá-lo em algum objeto (ou tempo) em
particular.
Porém, nada a fazêr com êsse sentimento, êle é paralizante.

Por outro lado, existem qualidades substanciais que parecem tornar qualquer
coisa artística, como rimas em um panflêto, por exemplo. Aquela forma de
significado que é isolada no drama, ou na galeria, parece transbordar sôbre o
significado normal. Ou melhor dizendo, algo de valôr “puramente estético” chama a
atenção para o valôr artístico. Coisas na naturêza também têm valôr estético, embora
certamente não tenham valôr artístico, a não sêr que enquadradas de algum jeito.
Identificamos, portanto, três tipos de significado: o representativo, o simbólico,
o trans-significado da rima – que é o da repetição cega, sem sentido; a única coisa
que sobra, depois que a platéia é reconhecida como inexistente.
Apenas êsse último tipo de arte talvêz possa nos salvar: ela começa com
representação, para depois dar autonomia aos signos, deixar que saiam das suas
órbitas, que suas fôrças desenvolvam-se e brinquem, espiralando em direção à
singularidade do real. Ela realiza em si uma “crítica imanente” das nossas
representações, até que sobra só um carôço irredutível, de energia inassimilável.
Um poema é como um conjunto de pedaços de coisas coloridas suspensos no
espaço que forma uma imagem quando visto de um ponto específico: porém, o
objetivo não é o que se vê, e sim onde é necessário estar para vê-lo. Coisa que, é
claro, não se pode escrevêr; que apenas pode sêr comunicada através de certo “não-
entendimento”. Assim a poesia é, ao menos potencialmente, a forma menos ambígua
de comunicação.
Uma história fantástica talvêz (essa é minha aposta) possa sêr metafórica de
maneira não-simbólica. Nenhum leitôr poderia entendê-la, porém mais tarde o leitôr
encontra-se em um evento concreto a que a história serve de metáfora. Mas o
evento, claramente, não era o significado da história. (O evento não esclarece a
história; nada tem a vêr com a intenção da história.) É antes o contrário: o evento
representa a história, e a história sòmente significava a si. Entendimento era
impossível justo por-que um nôvo significado estava sendo criado.
(Gosto de escrevêr por-que odeio a linguagem.)

Lucas Kenji Moori, Jan. 2018.