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ANTÓNIO DAMÁSIO

O LIVRO DA CONSCIÊNCIA

A Construção do Cérebro Consciente

Círculo leitores

Como é que o cérebro constrói a mente?

E como é que o cérebro torna essa mente consciente?

Qual a estrutura necessária ao cérebro humano e qual a forma como tem de funcionar para
que surjam mentes conscientes?

Há mais de trinta anos que o neurocientista António Damásio estuda a mente e o cérebro
humanos e é autor de vasta obra publicada em livros e artigos científicos. No entanto,
formulou o presente livro como um recomeço, quando a reflexão sobre descobertas
importantes da investigação, recentes e antigas, alterou profundamente o seu ponto de vista
em duas questões particulares: a origem e a natureza dos sentimentos, e os mecanismos por
detrás do eu. O Livro da Consciência constitui assim um debate sobre as noções actuais nestes
domínios, e uma proposta de novos mecanismos para a construção dos sentimentos e da
consciência.

O LIVRO DA CONSCIÊNCIA

A Construção do Cérebro Consciente

A cópia ilegal viola os direitos dos autores.

Os prejudicados somos todos nós

Autor: António Damásio

2010 by António Damásio

Tradução: Luís Oliveira Santos (João Quina Edições)

sobre desenho de Julião Sarmento preparado especialmente para este livro

Ilustração da capa © Julião Sarmento

Pré impressão: ARD-Cor

Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda., Unidade Industrial da Maia

1ª edição: Setembro de 2010

ISBN (Temas e Debates): 978-989-644-120-3


N.º de edição (Círculo de Leitores): 7577

Depósito legal: 315763/10

Reservados todos os direitos. Nos termos do código do Direito de Autor, é expressamente


proibida a reprodução total ou parcial desta obra por quaisquer meios, incluindo a fotocópia e
o tratamento informático, sem a autorização expressa dos titulares dos direitos.

Para a Hanna

Minha alma é uma orquestra oculta;

não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de
mim. Só me conheço como sinfonia.»

FERNANDO PESSOA

Livro do Desassossego

O que não consigo construir não consigo compreender.

RICHARD FEYNMAN

Sumário

NOTA DO AUTOR

PARTE 1

COMEÇAR DE NOVO. 17

1- DESPERTAR 19

Objetivos e justificações 22

Abordar o problema 23

O eu como testemunha 30

Para além de uma intuição enganadora 31

Uma perspetiva integrada 33

O quadro teórico das investigações 35

Antevisão das ideias principais 39

A vida e a mente consciente 48

2 - DA REGULAÇÃO DA VIDA
AO VALOR BIOLÓGICO 51

Quando a realidade mais parece ficção 51

Vontade natural 53

Continuar vivo 63

As origens da homeostase 65

Células, organismos multicelulares

e sistemas artificiais 67

Valor biológico 68

Valor biológico em organismos completos

O êxito dos nossos antepassados remotos 73

Desenvolver incentivos 76

Relacionar a homeostase, o valor e a consciência 79

PARTE II

O QUE HÁ NO CÉREBRO CAPAZ DE CRIAR A MENTE? 87

3 - FAZER MAPAS E FAZER IMAGENS 89

Mapas e imagens 89

Um corte por debaixo da superfície 92

Mapas e mentes 97

A neurologia da mente 100

Os começos da mente 105

Uma nota sobre os colículos superiores 112

Mais perto da criação da mente? 115

4 - O CORPO EM MENTE 119

A mente como tema 119

Mapear o corpo 123

Do corpo ao cérebro 127


Representar quantidades e idealizar qualidades 129

Sentimentos primordiais 132

Mapear estados corporais e simular estados corporais 133

A origem de uma ideia 137

Um cérebro que se preocupa com o corpo 139

5 - EMOÇÕES E SENTIMENTOS 141

Situar a emoção e o sentimento 141

Definir emoção e sentimento 142

Desencadear e executar emoções 145

O estranho caso de William James 148

Sentimentos de emoção 151

10

Como sentimos uma emoção? 155

A regulação das emoções e dos sentimentos 157

As variedades da emoção 158

Percorrendo a escala emocional 160

Um aparte sobre a admiração e a compaixão 162

6 - UMA ARQUITECTURA PARA A MEMÓRIA 167

Algures, de certo modo 167

A natureza dos registos de memória 170

Primeiro as disposições, depois os mapas 171

A memória em funcionamento 174

Um breve aparte sobre os tipos de memória 178

Uma possível solução para o problema 179

Zonas de convergência-divergência 181

Algo mais sobre as zonas de convergência-divergência 184


O modelo em funcionamento 188

O como e o onde da perceção e do recordar 192

PARTE III

ESTAR CONSCIENTE 197

7 - A CONSCIÊNCIA OBSERVADA 199

Definir consciência 199

Decompor a consciência 202

Remover o eu e manter a mente 206

Completar uma definição preliminar 210

Tipos de consciência 211

Consciência humana e não humana 215

Aquilo que a consciência não é 217

O inconsciente freudiano 222

8 - CONSTRUIR UMA MENTE CONSCIENTE 227

Uma hipótese de trabalho 227

Abordar o cérebro consciente 230

11

Antevendo a mente consciente 232

Os componentes de uma mente consciente 234

O proto eu 239

Mapas gerais da interoceção 239

Mapas gerais do organismo 245

Mapas das portadas sensoriais orientadas para o exterior 246

Construir o eu nuclear. 252

O eu nuclear 256

Uma viagem pelo cérebro durante a construção da consciência 260


9 O EU AUTOBIOGRÁFICO 263

Dar consciência à memória 263

Construir o eu autobiográfico 265

O problema da coordenação 266

Os coordenadores 268

Um possível papel para os córtices póstero mediais 272

Os córtices póstero mediais em ação 277

Outras considerações sobre os córtices póstero mediais 280

Uma nota final sobre as patologias da consciência 293

10 - JUNTARAS PEÇAS 299

À maneira de resumo 299

A neurologia da consciência 302

Um engarrafamento anatómico 309

Do trabalho conjunto dos sistemas de grande

escala ao trabalho dos neurónios individuais 311

Quando sentimos as nossas perceções 313

Qualia I 314

Qualia lI 317

Qualia e o eu 323

O que ainda falta fazer 324

12

PARTE IV

MUITO DEPOIS DA CONSCIÊNCIA 327

11- VIVER COM A CONSCIÊNCIA 329

E a consciência vingou 329

O eu e o problema do controlo 331


Um aparte sobre o inconsciente 336

Uma nota sobre o inconsciente genómico 342

A sensação de vontade consciente 344

Educar o inconsciente cognitivo 345

Cérebro e justiça 347

Natureza e cultura 349

E surge o eu na mente 354

As consequências de um eu capaz de refletir 356

APÊNDICE 365

Arquitetura cerebral. 365

Tijolo e argamassa 368

Algo mais sobre a arquitetura de grande escala 373

A importância da localização 378

Entre o cérebro e o mundo 380

A propósito da equivalência mente cérebro 383

NOTAS 387

AGRADECIMENTOS 417

ÍNDICE REMISSIVO 421

Nota do Autor

A tradução de termos científicos para as línguas latinas é um reconhecido problema,


especialmente difícil no que toca ao vocabulário da neurociência. A correspondência exata
para a palavra «self» não existe nessas línguas e por isso aprovo a escolha que o tradutor deste
livro fez quando usou «eu» sempre que escrevi «self» no original. Claro que «eu» corresponde
exatamente ao inglês «1» e sugere, por se tratar de um pronome, um processo pós-linguística
que a palavra «self» por si só não tem. Apesar disso, «eu» é bem preferível ao termo «si» com
que tentei, noutra ocasião, ultrapassar esta dificuldade. Por outro lado, «personhood» e
«identity» são fáceis de traduzir por «pessoalidade» e «identidade», sem qualquer perda de
precisão, e a palavra «experience», no papel de verbo, encontra uma tradução perfeita em
«experienciar», termo que o meu mestre Barahona Fernandes usava com grande acerto.
Pedi ao tradutor que não traduzisse certos termos técnicos que estão hoje internacionalizados,
tais como «on», «off», «[feedback», e «feedforward». As versões traduzidas são estranhas e
nada explicam a quem não saiba o que significam.

Quanto ao título do livro é da minha responsabilidade. Dado que traduzir Self Comes to Mind à
letra não poderia resultar, optei por O Livro da Consciência que se adapta bem ao tema do
volume e que rende homenagem a Fernando Pessoa, um dos grandes trabalhadores literários
da consciência, cujas palavras também são celebradas na epígrafe.

António Damásio, Los Angeles, Julho de 2010

PARTE I

Começar de novo

CAPITULO 1

Despertar

Quando acordei estávamos a descer. Tinha dormido o suficiente para não me aperceber dos
avisos sobre a aterragem e sobre as condições atmosféricas. Tinha perdido a noção de mim
próprio e do ambiente que me cercava. Tinha estado inconsciente. Na biologia humana há
poucas coisas aparentemente tão triviais como este bem a que chamamos consciência, a
fantástica capacidade de ter uma mente equipada com um dono, um protagonista da
existência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para
a ação. A consciência não é um mero estado de vigília. Quando acordei, há apenas dois
parágrafos, não olhei à minha volta distraidamente, apreendendo as imagens e os sons como
se a minha mente desperta não pertencesse a ninguém. Pelo contrário, soube, quase de
imediato, com pouca ou nenhuma hesitação, sem esforço, que se tratava de mim a bordo de
um avião, a minha identidade volante de regresso a Los Angeles com uma longa lista de coisas
a fazer antes do fim do dia, consciente de uma estranha combinação entre fadiga de voo

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e entusiasmo pelo que me esperava, curioso quanto à pista em que iríamos aterrar e atento às
variações na potência dos motores que nos aproximavam de terra. Sem qualquer dúvida, estar
vigilante era essencial a um tal estado, mas a vigília não era de rodo a sua característica
principal. E que característica principal era essa? O facto de os numerosos conteúdos exibidos
na minha mente, independentemente da sua nitidez ou ordem, estarem ligados a mim,
proprietário da minha mente, através de fios invisíveis que reuniam esses conteúdos na festa
em permanente movimento a que chamamos o eu. E, igualmente importante, o facto de a
ligação ser sentida. A experiência o eu ligado estava imbuída de sensação. Ter acordado levou
ao regresso da minha mente temporariamente perdida, mas agora comigo presente, tanto a
propriedade (a mente) como o proprietário (eu) em uníssono. O acordar permitiu-me
reemergir e inspecionar o meu domínio mental, a vasta projeção de um filme mágico, em
parte documentário, em parte ficção, a que também chamamos mente humana consciente.
Todos dispomos de livre acesso à consciência. Ela surge com tanta facilidade e abundância nas
nossas mentes que não hesitamos, nem nos sentimos apreensivos, quando permitimos que
seja desligada todas as noites, quando adormecemos, e deixamos que regresse de manhã,
quando o despertador toca, pelo menos trezentas e sessenta e cinco vezes por ano, sem
contar com as eventuais sestas. Contudo, poucos são os constituintes do nosso ser tão
espantosos, fundamentais e aparentemente misteriosos como a consciência. Sem ela, ou seja,
sem uma mente dotada de subjetividade, não poderíamos saber que existimos, e muito menos
quem somos e aquilo em que pensamos. Se a subjetividade não tivesse surgido, mesmo que
de forma muito modesta ao início, em seres vivos muito mais simples do que nós, a memória e
o raciocínio provavelmente não se teriam expandido de forma tão prodigiosa como se veio a
verificar, e o caminho evolutivo para a linguagem e para a elaborada versão humana da
consciência que agora detemos não teria sido aberto.

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A criatividade não se teria desenvolvido. Não teria havido música, nem pintura, nem literatura.
O amor nunca teria sido amor, apenas sexo. A amizade não passaria de uma mera vantagem
cooperativa. A dor nunca se teria tornado sofrimento, o que pensando bem não teria sido
mau, mas tratar-se-ia de vantagem equívoca, dado que o prazer nunca se viria a tornar em
alegria. Se a subjetividade não tivesse feito a sua entrada radical, não haveria conhecimento,
nem ninguém que se apercebesse disso e, consequentemente, não haveria uma história
daquilo que as criaturas fizeram ao longo dos tempos, não haveria cultura de todo.

Embora ainda não tenha apresentado uma definição funcional de consciência, espero não
deixar qualquer dúvida quanto ao que significa não ter consciência: na ausência da
consciência, a visão pessoal suspende-se; não temos conhecimento da nossa existência; e não
sabemos que existe mais alguma coisa. Se a consciência não se tivesse desenvolvido ao longo
da evolução, expandindo-se até à sua versão humana, a Humanidade que agora nos é familiar,
com todas as suas fragilidades e forças, também não se teria desenvolvido. É arrepiante
pensar que uma simples mudança de direção poderia representar a perda das alternativas
biológicas que nos tornam verdadeiramente humanos. Claro que, nesse caso, nunca teríamos
vindo a saber que nos faltava alguma coisa.

Olhamos para a consciência como coisa garantida porque é tão disponível, por ser tão simples
de usar, tão elegante nos seus aparecimentos e desaparecimentos diários. No entanto, todas
as pessoas, cientistas incluídos, ficam perplexas ao pensar em tal fenómeno. De que é feita a
consciência? Parece-me que terá de ser a mente com algumas peculiaridades, visto que não
podemos estar conscientes sem uma mente da qual podemos ter consciência. Mas de que é
feita a mente? Virá do ar, ou do corpo? As pessoas inteligentes dizem que vem do cérebro,

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que se encontra no cérebro, mas a resposta não é satisfatória. Como é que o cérebro foz a
mente?

Especialmente misterioso é o facto de ninguém ver a mente dos outros, consciente ou não.
Podemos observar-lhes o corpo e o que fazem, dizem ou escrevem, e podemos opinar com
algum conhecimento quanto àquilo em que estarão a pensar. No entanto, não podemos
observar-lhes a mente e apenas nós próprios somos capazes de observar a nossa, a partir do
interior, e através de uma janela bem estreita. As propriedades da mente, já para não falar da
mente consciente, apresentam-se de uma forma tão díspar daquelas da matéria viva visível,
que as pessoas atentas se interrogam sobre a forma como um processo a mente consciente
se funde com os outros processos as células vivas que se unem em aglomerados a que
chamamos tecidos.
Claro que dizer que a mente consciente é misteriosa, que o é, não é o mesmo que dizer que o
mistério é insolúvel. Não é o mesmo que dizer que nunca seremos capazes de entender como
um organismo vivo dotado de cérebro desenvolve uma mente consciente ou declarar que a
solução do problema se encontra fora do alcance do ser humano.'

Objetivos e justificações

Este livro aborda duas questões. Primeira: como é que o cérebro constrói uma mente?
Segunda: como é que o cérebro torna essa mente consciente? Tenho perfeita noção de que
abordar questões não é o mesmo que responder-lhes e que, no que respeita à mente
consciente, seria disparatado partir do princípio que é hoje possível obter uma resposta
definitiva. Além disso, apercebo-me de que o estudo da consciência se expandiu de tal
maneira que deixou de ser possível fazer-se justiça a todas as novas contribuições. Esse facto,
a par das questões da terminologia e da perspetiva, fazem com que

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o atual trabalho sobre a consciência se assemelhe a um passeio através de um campo minado.


Todavia, é razoável analisar as questões e usar os dados presentes, por mais incompletos e
provisórios que sejam, para elaborar uma conjetura testável e sonhar com o futuro. O objetivo
deste livro é refletir sobre essas conjeturas e discutir um corpo de hipóteses. O ponto central é
a estrutura necessária ao cérebro humano e a forma como tem de funcionar para que surjam
mentes conscientes.

Todos os livros devem ser escritos por uma boa razão e a razão para este foi começar de novo.
Há mais de trinta anos que estudo a mente e o cérebro humanos e já escrevi sobre a
consciência em artigos científicos e em livros.' Todavia, a reflexão sobre descobertas
relevantes em projetos de investigação, recentes e antigos, tem vindo a alterar
profundamente o meu ponto de vista em duas questões particulares: a origem e a natureza
dos sentimentos, e os mecanismos por trás da construção do eu. Este livro constitui uma
tentativa de debater noções atuais. Em grande medida, o livro é também sobre aquilo que
ainda não sabemos, mas gostaríamos muito de saber.

O resto do capítulo 1 situa o problema, explica a estrutura escolhida para o abordar e antevê
as principais ideias que irão surgir nos capítulos que se seguem. Alguns leitores poderão
pensar que esta longa apresentação retarda a leitura, mas prometo que também fará com que
o resto do livro se torne mais acessível.

Abordar o problema

Antes de tentarmos avançar para a questão de como o cérebro humano cria a mente
consciente, importa reconhecer dois legados importantes. Um deles consiste nas anteriores
tentativas de descobrir a base neural da consciência, com projetos que remontam a meados
do século xx. Numa série de estudos pioneiros levados a cabo na América do Norte e em Itália,
um pequeno grupo de

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investigadores isolou com uma notável pontaria um sector do cérebro que está hoje
inequivocamente ligado à criação da consciência o tronco cerebral identificando-o como
promotor essencial da consciência. À luz do que sabemos hoje, não admira que o relate destes
pioneiros Wilder Penfield, Herbert Jasper, Giuseppe Moruzzi e Horace Magoun estivesse
incompleto, e por vezes incorreto. Claro que nada menos do que louvor e admiração é devido
aos cientistas que intuíram o alvo correto e a ele se dirigiram com tanta precisão. Foi esse o
magnífico início da empresa para a qua vários de nós desejam hoje contribuir."3

Desse legado fazem também parte os estudos levados a cabe mais recentemente com
pacientes neurológicos cuja consciência foi comprometida por lesões cerebrais focais. O
trabalho de Fred Plum e Jerome Posner foi o ponto de partida4. Ao longo do tempo, este:
estudos, que complementam os dos pioneiros da investigação sobre a consciência, deram
origem a um poderoso conjunto de factos relacionados com as estruturas cerebrais que
podem ou não estar ligada: ao que faz com que a mente humana se torne consciente.
Podemos avançar a partir dessa base.

O outro legado que deve ser reconhecido consiste numa longa tradição na formulação de
conceitos relacionados com a mente e a consciência. É uma história rica, tão longa e variada
como a própria história da filosofia. A partir da profusão de ideias que nos são oferecidas, elegi
o trabalho de William James como base do meu pensamento, embora isso não signifique uma
defesa absoluta das suas posições sobre a consciência e especialmente sobre o sentimento5.

O título deste livro, bem como as suas páginas iniciais, não deixam dúvidas quanto ao facto de
que privilegio o eu ao abordar a mente consciente. Acredito que a mente consciente surge
quando o eu é acrescentado a um processo mental básico. Quando o eu não ocorre no seio da
mente, essa mente não se torna consciente na verdadeira aceção da palavra, uma
circunstância com que se deparam os seres humanos cujo processo de construção do eu se
encontra suspenso

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durante o sono sem sonhos, durante a anestesia ou durante certas doenças cerebrais.

Todavia, não é assim tão simples definir o processo de identidade que considero indispensável
à consciência. É por isso que William James se revela tão essencial a este preâmbulo. James
escreveu com eloquência sobre a importância do eu e, no entanto, referiu também que, em
muitas ocasiões, a presença do eu é tão discreta que o conteúdo da mente domina a
consciência. Antes de prosseguirmos é necessário confrontar esta imprecisão e decidir quanto
às suas consequências. Existirá um eu, ou não? A existir um eu, estará presente sempre que
nos encontramos conscientes, ou não?

As respostas são inequívocas. Existe, com efeito, um eu, mas trata-se de um processo, não de
uma coisa, e esse processo encontra-se presente em todos os momentos em que se presume
que estejamos conscientes. Podemos apreciar o processo do eu a partir de dois pontos de
vista. Um é o ponto de vista de um observador que aprecia um objeto dinâmico o objeto
dinâmico constituído por certas operações da nossa mente, certos traços do comportamento e
uma certa história da nossa vida. O outro ponto de vista é o do eu enquanto «conhecedor», o
processo que concede um centro às nossas experiências e que acaba por nos permitir refletir
sobre essas mesmas experiências. A combinação dos dois pontos de vista dá origem à noção
dual do eu que é usada ao longo deste livro. Tal como veremos, as duas noções correspondem
a duas fases do desenvolvimento evolutivo da identidade, com o eu enquanto conhecedor a
ter origem no eu enquanto objeto. Na vida diária, cada uma destas noções corresponde a um
nível diferente de funcionamento da mente consciente, tendo o eu enquanto objeto um
âmbito mais simples do que o eu enquanto conhecedor.
Seja qual for o ponto de vista, o processo apresenta vários campos de ação e intensidades, e as
suas manifestações variam com a ocasião. O eu pode funcionar num registo mais subtil, «a
alusão

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meio adivinhada» da presença num organismo vivo6, ou num registo saliente que inclua a
personificação e a identidade do dono desse mente. Ora nos apercebemos, ora deixamos de
nos aperceber, mas sentimo-lo sempre: é a melhor maneira de descrever a situação.

James pensou no eu enquanto objeto como sendo a soma de tudo o que um indivíduo poderia
considerar seu «não só o corpo e os poderes psíquicos, mas também as roupas, a esposa e os
filhos, os antepassados e os amigos, a reputação e as obras, as terras e os cavalos, o iate e a
conta bancária»7 Esquecendo a incorreção política essa descrição é algo com que concordo. No
entanto, James também pensou em outra coisa com a qual ainda concordo mais: aquilo que
permite que a mente tenha conhecimento da existência de tais domínios e saiba que estes
pertencem ao seu proprietário mental corpo mente, passado e presente, e tudo o resto é o
facto de a perceção de qualquer desses aspetos e factos gerar emoções e sentimentos por sua
vez, os sentimentos permitem a separação entre os conteúdo: que pertencem ao eu e aqueles
que não lhe pertencem. Segundo a minha perspetiva, tais sentimentos servem de marcadores.
São os sinais baseados na emoção que designo como marcadores somáticos.8 Quando no fluxo
mental surgem conteúdos que dizem respeito ao eu, eles levam ao aparecimento de um
marcador que se junta ao fluxo mental na forma de uma imagem, justaposta à imagem que o
desencadeou. Estes sentimentos estabelecem uma distinção entre o eu e o não eu. São,
resumidamente, sentimentos de conhecimento. Veremos como a elaboração de uma mente
consciente depende, em várias fases, da formação de tais sentimentos. Quanto à minha
definição de eu material, o eu enquanto objeto, ela é a seguinte: um agrupamento dinâmico
de processos neurais integrados centrado na representação do corpo vivo que encontra
expressão num agrupamento dinâmico de processos mentais integrados.

O eu-enquanto-sujeito, enquanto conhecedor, é uma presença mais fugidia, muito menos


agregada em termos mentais ou biológicos do que o eu enquanto objeto, mais dispersa, em
geral dissol

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vida no fluxo de consciência, por vezes tão exasperantemente discreta que está e não está
presente. Não há dúvida de que o eu enquanto conhecedor é mais difícil de captar do que o
simples eu. Claro que isso não reduz a sua importância para a consciência. O eu enquanto
sujeito e conhecedor é não só uma presença real mas também um ponto de viragem na
evolução biológica. Podemos imaginar que o eu enquanto sujeito e conhecedor se encontra,
por assim dizer, por cima do eu enquanto objeto, como uma nova camada de processos
neurais que dá origem a mais uma camada de processos mentais. Não há uma verdadeira
dicotomia entre o eu enquanto objeto e o eu enquanto conhecedor. Assistimos, isso sim, a
uma continuidade e a uma progressão. O eu enquanto conhecedor tem a sua raiz no eu
enquanto objeto.

A consciência não se resume a imagens mentais. Terá, no mínimo, a ver com uma organização
de conteúdos mentais centrada no organismo que produz e motiva esses conteúdos. Porém, a
consciência, no sentido vivido pelo leitor e pelo autor sempre que o desejam, é mais do que
uma mente que se organiza sob a influência de um organismo vivo e ativo. É, isso sim, uma
mente capaz de ter noção da existência desse organismo vivo e ativo. É certo que o facto de o
cérebro ser capaz de criar padrões neurais que organizam as experiências vividas sob a forma
de imagens é parte importante do processo de estar consciente. Orientar essas imagens na
perspetiva do organismo é outra parte notável do processo. Mas isso não é o mesmo que
saber de forma automática e explícita que existem imagens dentro de mim, que são minhas e,
em termos correntes, acionáveis. É verdade que a simples presença de imagens organizadas
que se encadeiam numa corrente produz uma mente, mas a menos que se lhe acrescente um
novo processo, a mente permanece inconsciente. A essa mente inconsciente falta um eu. Para
que o cérebro se torne consciente, precisa de adquirir uma nova pro-

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priedade: a subjetividade e um traço da subjetividade que a define é o sentimento que


percorre as imagens que experimentamos de forma subjetiva. Para um tratamento
contemporâneo da importância da subjetividade na perspetiva da filosofia, ler John Searle.9

Em consonância com este conceito, o passo decisivo para o aparecimento da consciência não é
o fabrico de imagens e a criação básica da mente. O passo decisivo é tornar nossas essas
imagens, levá-las a pertencer aos seus devidos donos, os organismos singulares e
absolutamente circunscritos nos quais as imagens emergem. Na perspetiva da evolução e da
história da vida de um indivíduo, o conhecedor surgiu em passos ordenados o proto eu e os
seus sentimentos primordiais; o eu nuclear impulsionado pelas ações e, por fim, o eu
autobiográfico que incorpora dimensões sociais e espirituais. Claro que falamos de processos
dinâmicos, não de algo rígido, e os seus níveis sofrem flutuações constantes simples,
complexos, ou algures num ponto intermédio podendo ser ajustados prontamente de acordo
com as circunstâncias. Para que a mente se torne consciente, o conhecedor, seja qual for a
designação que lhe atribuamos eu, experienciador, protagonista tem a sua origem no cérebro.
Quando o cérebro consegue introduzir um conhecedor na mente, o resultado é a
subjetividade.

Caso o leitor se interrogue sobre a necessidade desta defesa do eu, permita-me que lhe
garanta que é justificável. Neste preciso momento, os neurocientistas cujo trabalho pretende
esclarecer a consciência defendem abordagens diferentes quanto ao eu, desde considerar o eu
um tópico indispensável para os trabalhos de pesquisa, à crença de que ainda não chegou a
altura de lidar com o sujeito (literalmente!).10 Uma vez que o trabalho associado a cada
abordagem continua a produzir ideias úteis, não é, por enquanto, necessário decidir qual a
abordagem que se virá a revelar mais satisfatória. Temos, no entanto, de reconhecer que os
resultados destas abordagens são diferentes.

Entretanto, é importante notar que estas duas atitudes dão continuidade a uma diferença de
interpretação que já separava William

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James de David Hume, algo geralmente ignorado nas discussões deste problema. James
pretendia garantir que as suas conceções de eu apresentavam uma base biológica firme: o seu
eu não seria confundido com uma entidade metafísica. Isso, no entanto, não o impediu de
reconhecer uma função de conhecimento para o eu, mesmo sendo essa função subtil e não
exuberante. Por outro lado, David Hume pulverizou o eu ao ponto de o eliminar. As passagens
que se seguem ilustram os conceitos de Hume: «Nunca sou capaz de me observar sem uma
perceção e não consigo observar nada além da perceção. E vai ainda mais longe: Quanto ao
resto da Humanidade, arrisco-me a afirmar que não passa de um aglomerado de perceções
diferentes, que se sucedem umas às outras com uma rapidez inconcebível, e que se encontram
num fluxo e movimento perpétuos.

Ao comentar a eliminação do eu por parte de Hume, William James foi levado a proferir uma
repreensão memorável e defender a existência do eu, destacando nele a estranha mistura de
«unidade e diversidade» e chamando a atenção para o «núcleo de uniformidade» que
percorre os ingredientes do eu.11

A base providenciada por William James foi modificada e aumentada por filósofos e
neurocientistas, vindo a incluir diferentes aspetos do eu.12 Claro que a importância do eu para
a edificação da mente consciente não ficou diminuída. Duvido que a base neural da mente
consciente possa ser esclarecida de forma abrangente sem que primeiro se torne
compreensível o eu enquanto objeto o eu material e o eu enquanto conhecedor.

Os trabalhos contemporâneos sobre filosofia da mente e psicologia alargaram o legado


concetual, enquanto que o extraordinário desenvolvimento da biologia geral, da biologia
evolutiva e da neuro ciência ampliou o legado neural, produziu uma vasta série de técnicas
para a investigação do cérebro e coligiu uma quantidade colossal de factos. Os indícios,
conjeturas e hipóteses apresentados neste livro baseiam-se em todos estes desenvolvimentos.

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O eu como testemunha

Ao longo de milhões de anos, inúmeras criaturas têm tido mentes ativas, mas apenas nos
casos em que se desenvolveu um eu capaz de agir como testemunha dessa mente é que a sua
existência foi reconhecida. Também só depois de essas mentes terem desenvolvido linguagem
e sobrevivido para contar a sua história é que a existência de mentes se tornou conhecida. O
eu como testemunha é o elemento adicional que revela a presença, em cada um de nós, dos
acontecimentos a que chamamos mentais. É necessário compreender a forma como esse
elemento adicional é criado.

Não pretendo que os conceitos de testemunha e de protagonista sejam simples metáforas


literárias. Espero que ajudem a ilustrar a vasta gama de papéis que o eu assume na mente.
Uma mente que não seja testemunhada por um eu protagonista não deixa de ser uma mente.
No entanto, uma vez que o eu é a nossa única forma natural de apreender a mente, estamos
inteiramente dependentes da presença, capacidade e limites do eu. Tendo em conta esta
dependência sistemática, torna-se extremamente difícil imaginar de forma independente a
natureza do processo mental, embora, a partir de uma perspetiva evolutiva, seja bem claro
que os processos mentais simples antecedem os processos do eu. O eu permite o vislumbre da
mente, mas produz uma visão enevoada. Os aspetos do eu que nos permitem formular
interpretações quanto à nossa existência e quanto ao Universo continuam a evoluir, com toda
a certeza ao nível cultural, e provavelmente também a nível biológico. Por exemplo, as
camadas superiores do eu estão ainda a ser modificadas pelas mais variadas interações sociais
e culturais, e pela acumulação de conhecimento científico sobre o funcionamento da mente e
do cérebro. Um século de cinema terá, certamente, tido um grande impacto no ser humano,
bem como o espetáculo das sociedades globalizadas, transmitido de forma instantânea pelos
meios de comunicação eletrónica. O impacto da revolução digital, por

31
seu lado, apenas começa a ser avaliado. Em resumo, a nossa única visão direta da mente
depende de uma parte dessa mesma mente, um processo individual que temos bons motivos
para crer não ser capaz de nos providenciar uma descrição abrangente e fidedigna daquilo que
está a acontecer.

À primeira vista, depois de reconhecer o eu como forma de acesso ao conhecimento, talvez


seja paradoxal, já para não dizer ingrato, pôr em causa a sua fidedignidade. No entanto, é
exatamente essa a situação. À parte a janela direta que o eu abre para os nossos prazeres e
sofrimentos, a informação que nos dá tem de ser posta em causa, especialmente quando essa
informação tem a ver com a própria natureza do eu. Contudo, foi também o eu que tornou
possível a razão e a observação científica, e a razão e a ciência, por seu lado, têm vindo a
corrigir as intuições enganadoras a que o eu por si só, nos pode levar.

Para além de uma intuição enganadora

Podemos dizer que as culturas e as civilizações não teriam surgido na ausência da consciência,
o que faz da consciência um desenvolvimento notável na evolução biológica. No entanto, a
natureza da consciência levanta sérios problemas a quem procura esclarecer a sua biologia. A
observação da consciência a partir da nossa posição atual, atentos e dotados de um eu, é
responsável por uma distorção compreensível mas perturbante dos estudos sobre a mente e a
consciência. Observada do alto, a mente adquire um estatuto especial, isolada do resto do
organismo à qual pertence. Vista de cima, a mente não só parece ser muito complexa, o que
certamente é o caso, como também parece um fenómeno de natureza diferente do dos
tecidos e funções biológicas do organismo que a alberga. Na prática, quando observamos o
nosso ser adotamos dois tipos de ótica: vemos a mente com olhos dirigidos para o interior;
vemos os tecidos

32

biológicos com olhos dirigidos para o exterior e, como se a diferença não fosse
suficientemente grande, servimo-nos de microscópios para aumentar a nossa visão. Dadas as
circunstâncias, não surpreende que a mente pareça ter uma natureza não física e que os seus
fenómenos pareçam pertencer a uma categoria distinta. O encararmos a mente como um
fenómeno não-físico, isolado da biologia que a cria e mantém, é responsável pela colocação da
mente fora das leis da física, uma discriminação à qual outros fenómenos cerebrais geralmente
não estão sujeitos. A manifestação mais marcante desse facto bizarro é a tentativa de ligar a
mente consciente a propriedades materiais ainda não descritas e, por exemplo, explica: a
consciência em termos de fenómenos quânticos. O raciocínio por trás deste conceito aparenta
ser o seguinte: a mente consciente parece misteriosa; como a física quântica continua
misteriosa, talvez os dois mistérios estejam associados.13

Dado o conhecimento incompleto que temos tanto da biologia como da física, é preciso usar
de cautela antes de rejeitar explicações alternativas. Afinal de contas, apesar do grande
sucesso da neurobiologia, o nosso entendimento do cérebro humano permanece incompleto.
Mesmo assim, permanece em aberto a possibilidade de explica: parcimoniosamente a mente e
a consciência, dentro dos limites da neurobiologia segundo os conceitos atuais. A possibilidade
não deverá ser abandonada, a menos que se esgotem os recursos técnicos e teóricos da
neurobiologia, uma perspetiva improvável.

A nossa intuição diz-nos que a efémera e volátil mente carece de extensão física. Penso que
essa intuição é falsa, e que deve ser atribuída às limitações do eu desarmado. Não vejo motivo
para que essa intuição mereça mais crédito do que anteriores intuições evidentes e poderosas,
como por exemplo a noção pré-coperniciana do que acontece com o Sol e com a Terra, ou
mesmo a noção de que a mente residia no coração. As coisas nem sempre são o que parecem.
A luz branca é a mistura das cores do arco-íris, embora isso não seja óbvia à vista desarmada.14

33

Uma perspetiva integrada

A maior parte dos avanços feitos até à data no que respeita aos aspetos neurobiológicos da
mente consciente baseou-se na combinação de três perspetivas: 1) a perspetiva de observação
direta da mente consciente individual, que é pessoal, privada e única; 2) a perspetiva
comportamental, que nos permite observar as ações reveladoras de outros, que, presumimos,
tenham também uma mente consciente; 3) e a perspetiva do cérebro, que nos permite
estudar certos aspetos da função cerebral em indivíduos em quem a consciência esteja
presente ou ausente. Infelizmente, os dados obtidos a partir destas três perspetivas, mesmo
quando alinhados de forma inteligente, não bastam para permitir uma transição harmónica
entre os três tipos de fenómeno introspetivos, inspeção na primeira pessoa; comportamentos
externos; e fenómenos cerebrais. Acima de tudo, parece haver um enorme desfasamento
entre os dados obtidos a partir de uma introspeção na primeira pessoa e os obtidos através do
estudo de fenómenos cerebrais. Como poderemos ultrapassar esse desfasamento?

É assim necessária uma quarta perspetiva, a qual exige uma alteração radical na forma de
encarar e de relatar a história das mentes conscientes. Em trabalhos anteriores aventei a ideia
de se transformar a regulação da vida no apoio e justificação do eu e da consciência, e essa
ideia sugeriu um rumo para esta nova perspetiva: a busca de antecedentes do eu e da
consciência no passado evolutivo.15 Assim, a quarta perspetiva baseia-se em factos da biologia
e da neurobiologia evolutivas. Exige que comecemos por tomar em consideração os primeiros
organismos vivos e que avancemos ao longo da história da evolução, até aos organismos
atuais. Exige que tenhamos em conta as modificações graduais do sistema nervoso e que as
associe- mos à emergência progressiva, respetivamente, do comportamento, da mente e do
eu. Exige ainda uma hipótese preliminar: que os acontecimentos mentais equivalem a certos
tipos de fenómeno cerebral.

34

É claro que a atividade mental é provocada pelos fenómenos cerebrais que a antecedem, mas
em certos estádios do processo os fenómenos mentais correspondem a certos estados de
circuitos cerebrais. Por outras palavras, alguns padrões neurais são também imagens mentais.
Quando outros padrões neurais também dão origem a um processo de eu suficientemente
rico, as imagens podem tornar-se conhecidas. No entanto, se não for criado um «sujeito», as
imagens continuam a existir, mesmo que ninguém, interior ou exterior ao organismo, saiba da
sua existência. A subjetividade não é essencial para a existência de estados mentais, é apenas
essencial para que venham a ser conhecidos a nível privado.

Em resumo, a quarta perspetiva pede-nos que, em simultâneo, edifiquemos uma visão do


passado, com a ajuda dos factos disponíveis, e que invoquemos, a partir do interior,
literalmente uma imagem imaginada de um cérebro que contém uma mente consciente.
Trata-se de uma perspetiva conjetural, hipotética. Existem factos que sustentam este
imaginário, mas estou a descrever aproximações teóricas e não explicações completas. Poderá
ser tentador considerar a equivalência hipotética entre os fenómenos mentais e certos
fenómenos cerebrais como sendo uma redução grosseira do complexo ao simples. No entanto,
essa seria uma impressão falsa, uma vez que, pelo contrário, os fenómenos neurobiológicos
são extremamente complexos, são tudo menos simples. As reduções explanatórias aqui
sugeridas não são do complexo para o simples, mas sim do extremamente complexo para o
ligeiramente menos complicado. Embora este livro não trate da biologia dos organismos
simples, os factos aos quais aludo no capítulo 2 deixam bem claro que a vida das células tem
lugar em universos extraordinariamente complexos que, em muitos aspetos, se assemelham, a
nível formal, ao nosso elaborado universo humano. O mundo e o comportamento de um
organismo unicelular como o Paramecium são maravilhosos de contemplar, e estão bem mais
próximos do nosso do que pode parecer à primeira vista.

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É igualmente tentador interpretar a equivalência proposta como sinal de menosprezo pelo


papel da cultura na criação da mente, ou como uma minimização do papel do esforço
individual na modelação da mente. Tal como virá a tornar-se claro, nada pode estar mais
distante da minha formulação. Graças à quarta perspetiva, posso agora reformular algumas
das declarações enunciadas mais atrás de uma forma que tenha em conta os factos da biologia
evolutiva e que inclua o cérebro: há milhões de anos que inúmeras criaturas têm mentes ativas
no cérebro mas a consciência só teve início, em rigor, depois de esse cérebro ter desenvolvido
um protagonista com a capacidade de testemunhar, e só depois de esse cérebro ter
desenvolvido linguagem é que se tornou amplamente conhecido que as mentes de facto
existem. A testemunha é o elemento adicional que revela a presença de fenómenos cerebrais
implícitos a que chamamos mentais. Entender a forma como o cérebro produz esse elemento
adicional, o protagonista que transportamos connosco e ao qual chamamos o eu, é um
objetivo importante da neurobiologia da consciência.

O quadro teórico das investigações

Antes de esboçar o quadro teórico que guiou a organização deste livro terei de apresentar
alguns factos básicos. Os organismos criam mentes a partir da atividade de células especiais,
conhecidas como neurónios. Os neurónios partilham a maioria das características de outras
células do nosso corpo e contudo, o seu funcionamento é distinto. São sensíveis às alterações
que acontecem em seu redor, são excitáveis (uma propriedade interessante que partilham
com as células musculares). Graças a uma extensão fibrosa, conhecida como axónio, e à
extremidade do axónio, conhecida como sinapse, os neurónios podem enviar sinais a outras
células outros neurónios, células musculares por vezes muito distantes. Os neu

36

rónios concentram-se, acima de tudo, num sistema nervoso central (conhecido


abreviadamente como cérebro), mas enviam sinais ao corpo do organismo, bem como ao
mundo exterior, e recebem sinais de ambos. O número de neurónios em cada cérebro humano
é da ordem dos milhares de milhões, e os contactos sinápticos que os neurónios estabelecem
entre si chegam aos triliões. Os neurónios organizam-se em pequenos circuitos microscópicos,
cuja combinação forma circuitos cada vez maiores, os quais por sua vez formam redes, ou
sistemas. Para ler um pouco mais sobre neurónios e organização cerebral, ver o apêndice.

A mente surge quando a atividade de pequenos circuitos se organiza em grandes redes,


capazes de criar padrões neurais. Estes padrões representam objetos e acontecimentos
situados fora do cérebro, tanto no corpo como no mundo exterior, mas certos padrões
representam igualmente o processamento de outros padrões por parte do cérebro. O termo
mapa pode ser aplicado a todos esses padrões representativos, alguns simples e toscos, outros
muito refinados, alguns concretos e outros abstratos. Em resumo, o cérebro mapeia o mundo
em seu redor, bem como o seu próprio funcionamento. Esses mapas são experienciados como
imagens na nossa mente, e o termo imagem refere-se não só às imagens de tipo visual mas
também a imagens com origem em qualquer sentido, sejam elas auditivas, viscerais, ou
tácteis, por exemplo.

Concentremo-nos agora no quadro teórico propriamente dito. Será talvez um pouco deslocado
usar o termo teoria para descrever as propostas sobre como o cérebro produz um fenómeno
específico. A menos que se trabalhe numa escala suficientemente grande, a maior parte das
teorias não passam de hipóteses. Este livro, no entanto, propõe mais do que isso, uma vez que
se articulam vários

37

componentes hipotéticos para diferentes aspetos dos fenómenos que irei abordar. Aquilo que
pretendemos explicar é demasiado complexo para que o tentemos abordar com uma única
hipótese e não pode ser justificado por um único mecanismo. Escolhi, por isso mesmo, a
expressão «quadro teórico» para me referir ao trabalho desenvolvido.

Para que se justifique este título pomposo, os conceitos apresentados nos capítulos que se
seguem terão de cumprir certos objetivos. Uma vez que pretendemos entender a forma como
o cérebro torna a mente consciente, e uma vez que é manifestamente impossível lidar com
todos os níveis de funcionamento cerebral ao compor uma explicação, o quadro teórico
deverá especificar o nível a que se aplica a explicação. Trata-se do nível de sistemas em grande
escala, o nível em que as regiões cerebrais macroscópicas compostas por circuitos neurais
interagem com outras regiões semelhantes e formam sistemas. Necessariamente, esses
sistemas são macroscópicos, mas a anatomia microscópica subjacente é conhecida em parte,
tal como o são as regras gerais de funcionamento dos neurónios que os compõem. O nível de
sistemas de grande escala presta-se à investigação através de várias técnicas, tanto recentes
como mais antigas. Nelas se incluem a versão moderna do método das lesões (que se baseia
no estudo de pacientes neurológicos com lesões focais cerebrais, investigadas através de
neurovisualização estrutural e de técnicas cognitivas e neuropsicológicas experimentais); a
neurovisualização funcional (baseada na ressonância magnética, tomografia de emissão de
positrões, magnetoencefalografia e em outras técnicas electrofisiológicas) registo
neurofisiológico direto da atividade neural no contexto de tratamentos neurocirúrgicos; e
estimulação magnética transcraniana.

O quadro teórico terá de interligar os fenómenos comportamentais, mentais e cerebrais.


Neste segundo objetivo, o quadro teórico aproxima o comportamento, a mente e o cérebro e,
uma vez que se baseia na biologia evolutiva, garante um contexto histórico

38

à consciência, um posicionamento especialmente adequado aos organismos que têm vindo a


registar transformações evolutivas através da seleção natural. Além disso, a maturação dos
circuitos neurais em cada cérebro é também vista como estando sujeita a pressões de seleção,
impostas pela atividade dos organismos e pelos processos de aprendizagem. Os repertórios
dos circuitos neurais, inicialmente providenciados pelo genoma, são alterados em
conformidade.16 O quadro teórico indica o posicionamento de regiões envolvidas na criação da
mente, a uma escala cerebral, e propõe a forma como certas regiões cerebrais podem
trabalhar em conjunto para produzir o eu. Sugere como uma arquitetura cerebral onde se
verifica a convergência e a divergência de circuitos neurais desempenha um papel na
coordenação de imagens e é essencial para a construção do eu e de outros aspetos da função
cognitiva, nomeadamente a memória, a imaginação e a criatividade.

O quadro teórico precisa de decompor o fenómeno da consciência em componentes


favoráveis à pesquisa neurocientífica. O resultado da decomposição oferece-nos dois domínios
investigáveis: os processos mentais e os processos do eu. Decompõe ainda o processo do eu
em subtipos. Esta separação garante duas vantagens: a pressuposição e a investigação da
consciência em espécies que apresentem a possibilidade de ter processos do eu, mesmo que
menos elaborados; e a criação de uma ponte entre os níveis mais elevados do eu e o espaço
sociocultural em que os seres humanos se movimentam. Outro objetivo: o quadro teórico terá
de abordar a questão de como os macrofenómenos do sistema são criados a partir de
microfenómenos. Neste caso, a estrutura apresenta como hipótese a equivalência dos estados
mentais a certos estados de atividade cerebral regional. O quadro teórico parte do princípio de
que quando certos níveis de intensidade e de frequência de atividade neural ocorrem em
pequenos circuitos neurais, quando alguns destes circuitos são ativados sincronamente, e
quando se registam certas condições de conectividade da rede, o resultado é uma «mente
com sentimentos». Por outras

39

palavras, como resultado da dimensão e complexidade crescentes das redes neurais, verifica-
se uma expansão escalonada da «cognição» e do «sentimento», do micronível para o
macronível, através das diversas hierarquias. Podemos encontrar na fisiologia do movimento
um modelo desta evolução para uma mente com sentimento. A contração de uma única célula
muscular microscópica é um fenómeno insignificante, ao passo que a contração simultânea de
um grande número de células musculares produz um movimento visível.

Antevisão das ideias principais

De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de
que o corpo é o alicerce da mente consciente. Sabemos que os aspetos mais estáveis da
função corporal estão representados no cérebro, na forma de mapas, contribuindo assim com
imagens para a mente. Esta é a base para a hipótese de que as estruturas cerebrais que
produzem o mapeamento do corpo, e de que imagens mentais do corpo aí produzidas,
constituem um instrumento que prefigura a existência do eu: o proto eu. De notar que estas
estruturas básicas para o mapeamento do corpo e para a produção de imagens se situam
abaixo do nível do córtex cerebral, numa região conhecida como tronco cerebral. Trata-se de
uma parte antiga do cérebro, partilhada com muitas outras espécies.

Outra ideia central baseia-se no facto comprovado, mas habitualmente ignorado, de que as
estruturas cerebrais do proto eu não se limitam a ter a ver com o corpo. Estão isso sim, literal
e inextrincavelmente ligadas ao corpo. Especificamente, estão ligadas às partes do corpo que
bombardeiam de modo contínuo o cérebro com os seus sinais, sendo bombardeadas em
resposta e criando assim um arco ressonante. Este arco é perpétuo, sen-

40
do apenas interrompido por doenças cerebrais ou pela morte. O corpo e o cérebro
estabelecem uma união. Como resultado desta arquitetura, as estruturas do proto eu têm uma
relação privilegiada e direta com o corpo. As imagens que criam, relacionadas com o corpo,
são concebidas em circunstâncias diferentes de outras imagens cerebrais, por exemplo das
visuais ou auditivas. Tendo em conta estes factos, o corpo será preferencialmente concebido
como a pedra onde se ergue o proto eu, ao passo que o proto eu é o eixo em torno do qual
gira a mente consciente.

Neste cenário, avento a hipótese de que o produto principal e mais elementar do proto eu são
os sentimentos primordiais, que ocorrem espontânea e continuamente sempre que estamos
acordados. Eles garantem a experiência direta do nosso corpo vivo, sem palavras, sem adornos
e sem qualquer outra ligação que não seja a própria existência. Estes sentimentos primordiais
refletem o estado atual do corpo ao longo de diversas escalas, como por exemplo a escala que
vai do prazer à dor, e têm origem ao nível do tronco cerebral, e não do córtex cerebral. Todos
os sentimentos de emoção são variações dos sentimentos primordiais.17

Na arquitetura funcional aqui esquematizada, a dor e o prazer são fenómenos corporais. Mas
esses fenómenos são também mapeados num cérebro que nunca se encontra separado do seu
corpo. Os sentimentos primordiais são um tipo especial de imagem gerado graças a esta
interação obrigatória corpo-cérebro, às características do circuito que permitem a interação e
a certas propriedades dos neurónios. Avento a hipótese de que, além de deter uma relação
única com o corpo, a maquinaria do tronco cerebral responsável pela criação das imagens a
que chamamos sentimentos consegue misturar sinais do corpo, criando assim estados
complexos com as novas e especiais propriedades que reconhecemos no sentimento, e não
apenas simples e servis mapas

41

do corpo. A razão por que as imagens que não são sentimentos acabam também por ser
sentidas prende-se ao facto de, normalmente, todas essas outras imagens serem
acompanhadas por sentimentos.

Tudo isto implica que a ideia de que existe uma fronteira rígida entre o corpo e o cérebro é
problemática. A minha formulação sugere também uma abordagem potencialmente útil de um
problema vexante: como e porquê os estados mentais parecem sempre conter alguma forma
de sentimento.

O cérebro não começa a edificar a mente consciente ao nível do córtex cerebral, mas sim ao
nível do tronco cerebral. Os sentimentos primordiais não só são as primeiras imagens geradas
pelo cérebro, como também manifestações instantâneas de consciência. São o alicerce que o
proto eu prepara para a construção de níveis mais complexos do eu. Estas ideias estão em
conflito direto com os pontos de vista tradicionais sobre a consciência, embora Jaak Panksepp
(citado anteriormente) tenha defendido uma posição comparável, bem como Rodolfo Llinás.
No entanto, a mente consciente, tal como a conhecemos, é algo completamente diferente da
mente consciente que surge no tronco cerebral, e esta é uma ideia sobre a qual todas as opi
niões podem convergir. Os córtices cerebrais dotam o processo de criação da mente de uma
profusão de imagens que, tal como Hamlet poderia dizer, vão bem mais além do que tudo o
que o pobre Horácio jamais poderia sonhar, no céu ou na terra. A mente consciente tem início
quando o eu entra na mente, quando o cérebro mistura um processo de eu ao resto da men
te, de forma modesta ao início, mas mais tarde com imenso vigor. O eu edifica-se em passos
distintos, baseados no proto eu. O primeiro passo é a criação de sentimentos primordiais, os
sentimentos elementares da existência que surgem espontaneamente a partir do proto eu.
Segue-se o eu nuclear. Este tem a ver

42

com a ação, especificamente com as relações entre o organismo e o objeto. O eu nuclear


desenvolve-se numa sequência de imagens que descrevem um objeto a interagir com o prato-
eu e a modificá-lo, incluindo os seus sentimentos primordiais. Por fim, temos o eu
autobiográfico. O eu é aí definido em termos de conhecimento biográfico ligado ao passado,
bem como ao futuro antecipado. As imagens múltiplas cuja totalidade define uma biografia
geram impulsos de eu nuclear, sendo que o seu conjunto constitui um eu autobiográfico.

Até certo ponto, o proto eu, com os seus sentimentos primordiais, e o eu nuclear constituem
um «eu material». O eu autobiográfico, cujo âmbito mais vasto abrange todos os aspetos da
pessoa social de um indivíduo, constituem um «eu social» e um «eu espiritual». Podemos
observar estes aspetos do eu na nossa própria mente ou estudar os seus efeitos no compor-
tamento dos outros. Contudo, para além disso, o eu nuclear e o eu autobiográfico na nossa
mente criam um conhecedor, ou seja, dotam-nos a mente de outra variedade de
subjetividade. A consciência humana normal corresponde a um processo mental onde operam
todos estes níveis do eu, que conferem a um número restrito de conteúdos mentais uma
ligação momentânea com um pulso do eu nuclear.

O eu e a consciência não acontecem numa só área, região ou centro do cérebro, quer se trate
do eu nuclear ou do eu autobiográfico. A mente consciente resulta da articulação fluida entre
vários locais do cérebro. Entre as estruturas cerebrais principais encarregadas da
implementação dos passos funcionais necessários contam-se sectores específicos do tronco
cerebral superior, um conjunto de núcleos de uma região conhecida como tálamo, e regiões
específicas mas disseminadas do córtex cerebral. O derradeiro produto da consciência ocorre a
partir desses inúmeros locais cerebrais funcionando ao mesmo tempo. Não ocorre

43

num local único, e assim se assemelha à execução de uma peça sinfónica, que não resulta do
trabalho de um único músico, nem de uma só secção de uma orquestra. O mais estranho, no
que toca aos aspetos superiores da consciência é a ausência óbvia de um maestro antes do
início da performance, embora, à medida que tal performance se vai desenrolando, surja de
facto um chefe de orquestra. Para todos os efeitos, temos agora um maestro a orientar a
orquestra, embora tenha sido o desempenho a criar o maestro o eu e não o contrário. O
maestro é uma construção dos sentimentos e de um dispositivo de narrativa cerebral, embora
este facto não faça com que o maestro seja menos real. O maestro existe sem sombra de
dúvida na nossa mente e não há qualquer vantagem em tratá-lo como sendo uma ilusão.

A coordenação da qual a mente consciente depende é alcançada através de uma série de


meios. Começa discretamente, ao nível do eu nuclear, como um aglomerado espontâneo de
imagens que surgem uma após a outra num curto lapso de tempo, a imagem do objeto, por
um lado, e por outro a imagem do proto eu alterado pelo objeto. Neste nível básico não são
necessárias mais estruturas cerebrais para que surja um eu nuclear. A coordenação é natural,
assemelhando-se por vezes a um dueto musical, tocado pelo organismo e pelo objeto, outras
vezes a uma atuação de um grupo de música de câmara, mas sempre com bons resultados e
sem qualquer maestro. No entanto, quando os conteúdos processados pela mente são mais
numerosos, a coordenação requer outros meios. Nesse caso, uma série de regiões dos córtices
cerebrais bem como do tálamo e tronco cerebral desempenham um papel essencial.

A construção de uma mente capaz de englobar o passado que já vivemos e o futuro que
antecipamos, bem como a vida de outros indivíduos que conhecemos, sem falar na capacidade
de reflexão, assemelha-se à execução de uma sinfonia de proporções mahlerianas. No
entanto, o mais assombroso, tal como já referido, é

44

o facto de a partitura e do maestro apenas se tornarem realidade à medida que a vida se


desenrola. Os coordenadores não são míticos homúnculos, sapientes e encarregados de
interpretar os acontecimentos que transparecem na mente. Os coordenadores não estão a
orientar a performance. Mas os coordenadores auxiliam a construção de um extraordinário
universo mediático e colocam um protagonista no centro desse universo.

A grandiosa peça sinfónica que é a consciência engloba as contribuições fundamentais do


tronco cerebral, eternamente ligado ao corpo, e a vastíssima imagética criada graças à
colaboração entre o córtex cerebral e as estruturas subcorticais, todas unidas de forma
harmoniosa, propulsionadas para o futuro, num movimento contínuo que apenas pode ser
interrompido pelo sono pela anestesia, pela função cerebral ou pela morte.

Não há no cérebro um mecanismo único que explique a consciência, um único dispositivo,


região ou truque, tal como uma sinfonia não pode ser tocada por um único músico nem por
um pequeno grupo. São necessários muitos. A contribuição de cada um é valiosa. Apenas o
grupo pode produzir o resultado que procuramos explicar.

Gerir e proteger a vida de forma eficiente são duas proezas reconhecíveis da consciência: os
pacientes neurológicos cuja consciência esteja comprometida não são capazes de gerir a vida
com independência, mesmo quando as funções vitais básicas operar normalmente. No
entanto, os mecanismos para a gestão e par a manutenção da vida não são uma novidade na
evolução biológica, nem dependem necessariamente da consciência. Tais mecanismos já
existem em células isoladas e estão codificados no seu genoma. Encontram-se também
largamente replicados em antigos e humildes circuitos neurais sem mente e sem consciência,
marcam uma presença muito forte no cérebro humano. Veremos que gerir e proteger a vida é
a premissa fundamental do valor

45

biológico. O valor biológico influenciou a evolução das estruturas cerebrais e influencia, em


qualquer cérebro, a grande maioria das operações cerebrais. Manifesta-se de forma tão
simples como na libertação de moléculas químicas ligadas à recompensa e ao castigo, ou de
forma tão elaborada como as nossas emoções sociais e o raciocínio sofisticado. O valor
biológico guia naturalmente e dá cor, por assim dizer, a quase tudo o que acontece no interior
do nosso cérebro consciente. O valor biológico tem o estatuto de um princípio.

A mente consciente emerge na história da regulação da vida. A regulação da vida, um processo


dinâmico conhecido como homeostase, tem início em criaturas vivas unicelulares, tal como
uma célula bacteriana ou uma simples ameba, que não têm cérebro mas são capazes de um
feroz e eficiente comportamento adaptativo. O processo vai evoluindo nos indivíduos cujo
comportamento é gerido por um cérebro simples, como no caso dos vermes, e prossegue a
sua marcha em indivíduos cujo cérebro gera não só comportamento mas também uma mente,
de que são exemplos insetos e peixes. Estou disposto a acreditar que sempre que o cérebro
começa a gerar sentimentos primordiais e isso poderá acontecer bastante cedo na história
evolutiva os organismos tornam-se sencientes numa forma primitiva. A partir desse momento,
poderá vir a desenvolver-se um processo de eu organizado que se acrescenta à mente,
garantindo assim o início de mentes conscientes mais complexas. Os répteis, por exemplo,
merecem esta distinção, as aves ainda mais, e para os mamíferos não há qualquer dúvida.

A maioria das espécies cujo cérebro dá origem a um eu fá-lo a um nível nuclear. Os humanos
possuem tanto um eu nuclear como um eu autobiográfico. Há uma série de mamíferos que
provavelmente também têm ambos, como os lobos, os nossos primos símios, os mamíferos
marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie especial chamada cão
doméstico.

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A marcha do progresso da mente não termina com o aparecimento do eu. Ao longo da


evolução dos mamíferos, e especialmente dos primatas, as mentes tornaram-se cada vez mais
complexas, a memória e o raciocínio desenvolveram-se notavelmente e os processos do eu
alargaram o seu âmbito. O eu nuclear permanece, mas vai sendo gradualmente envolvido pelo
eu autobiográfico, cuja natureza neural e mental é muito distinta do eu nuclear. Tornamo-nos
capazes de usar uma parte do funcionamento da nossa mente para monitorizar o funciona-
mento de outras partes. Armada com estruturas de eu tão complexas e apoiada por uma
capacidade ainda maior de memória, raciocínio e linguagem, a mente consciente dos seres
humanos cria os instrumentos da cultura e abre caminho a novas formas de homeostase ao
nível da sociedade. A homeostase, dando um salto extraordinário, alarga-se ao espaço
sociocultural. Os sistemas judiciais, as organizações económicas e políticas, a arte, a medicina e
a tecnologia são exemplos dos novos dispositivos de regulação.

A notável redução da violência, a par do aumento de tolerância que se tornou tão aparente
nos últimos séculos, não teria ocorrido sem a homeostase sociocultural. Também não teríamos
assistido à transição gradual do poder coercivo para o poder da persuasão, que caracteriza os
sistemas sociais e políticos avançados, pese embora o seu fracasso parcial. A investigação da
homeostase sociocultural pode ser auxiliada pela psicologia e pela neurociência, mas o espaço
nativo dos seus fenómenos é cultural. Será lícito descrever quem estuda as decisões do
Supremo Tribunal dos EUA, as deliberações do Congresso dos EUA ou as operações das
instituições financeiras como estando a estudar, indiretamente, os caprichos da homeostase
sociocultural. Tanto a homeostase básica, orientada de forma não consciente, como a
homeostase sociocultural, criada e orientada por mentes conscientes refletivas, atuam como
curadoras do valor

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biológico. As variedades básica e sociocultural da homeostase estão separadas por milhares de


milhões de anos de evolução, e no entanto promovem o mesmo objetivo a sobrevivência de
organismos vivos embora em nichos ecológicos distintos. No caso da homeostase
sociocultural, esse objetivo expande-se, englobando a procura deliberada do bem-estar.
Escusado será dizer que a forma como o cérebro humano gere a vida necessita de ambas as
variedades de homeostase numa interação contínua. Todavia, ao passo que a variedade básica
da homeostase se trata de uma herança estabelecida, transmitida por todos os genomas, a
variedade sociocultural é um processo em desenvolvimento relativamente frágil, responsável
por grande parte dos dramas, loucuras e esperanças humanas. A interação entre estes dois
tipos de homeostase não se limita a cada indivíduo. Há cada vez mais provas convincentes de
que os desenvolvimentos culturais ao longo de gerações sucessivas levam a alterações no
genoma.

Observar a mente consciente à luz da evolução, desde as formas de vida simples até
organismos complexos e hipercomplexos como o nosso, permite «naturalizar» a mente e
mostrar que ela é o resultado de um aumento progressivo de complexidade dentro do
expressivo idioma biológico.

Podemos encarar a consciência humana e as funções que ela tornou possível - linguagem,
memória expandida, raciocínio, criatividade, todo o edifício cultural - como as curadoras do
valor dentro dos nossos seres tão ricos em mente, consciência e capacidade de interação
social. Podemos também imaginar um longo cordão umbilical que une a mente consciente,
ainda mal separada das suas origens e para sempre dependente delas aos reguladores
profundos, elementares e sem consciência, do princípio de valor. A história da consciência não
pode ser contada de forma convencional. A consciência surgiu devido ao valor biológico,
enquanto contribuidora para uma gestão mais eficiente do valor. Mas

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a consciência não inventou o valor biológico, nem o processo de valorização. Na mente


humana, a consciência viria a revelar o valor biológico e permitiu o desenvolvimento de novas
formas e meios de o gerir.

A vida e a mente consciente

Não censuraria um leitor que me perguntasse se vale a pena dedicar um livro à questão de
como o cérebro cria a mente consciente. Pelo contrário, é sensato querer saber se explicar o
trabalho do cérebro por trás da mente e do eu tem algum significado prático, para além da
satisfação da nossa curiosidade sobre a natureza humana. Fará mesmo alguma diferença no
nosso dia-a-dia? Por diversas razões, de maior ou menor importância, creio que sim.

Entender as circunstâncias em que as mentes conscientes surgiram na história da vida e, mais


especificamente, a forma como se desenvolveram na história humana, permite-nos
determinar, talvez de uma forma mais judiciosa do que nunca, a qualidade do conhecimento e
das informações que essas mentes conscientes nos proporcionam. Poderemos confiar nesse
conhecimento? Serão as informações fidedignas? Qual a vantagem de compreender os
mecanismos por trás da mente que nos aconselha? Ao explicar os mecanismos neurais que nos
trazem as mentes conscientes, torna-se óbvio que o nosso eu nem sempre é fiável e que nem
sempre controla todas as nossas decisões. Todavia, os factos também nos permitem rejeitar a
falsa impressão de que a nossa capacidade de deliberar de forma consciente é um mito.
Explicar os processos mentais, conscientes e não-conscientes, aumenta a possibilidade de
fortificar o nosso poder de deliberação. O eu abre caminho à deliberação e à aventura da
ciência, duas ferramentas específicas com as quais podemos contrariar a orientação
enganadora do eu isolado.

49

Chegará uma altura em que a questão da responsabilidade humana, tanto em termos morais
gerais como em questões de justiça e da respetiva aplicação, terá em conta a ciência da
consciência, que se tem vindo a acumular. Talvez esse momento já tenha chegado. Armados
com a deliberação refletiva e com ferramentas científicas, uma compreensão da construção
neural da mente consciente também acrescenta uma dimensão útil à tarefa de investigar o
desenvolvimento e formação das culturas, o derradeiro resultado das coletividades de mentes
conscientes. À medida que os seres humanos debatem os perigos ou benefícios de tendências
culturais e de desenvolvimentos tais como a revolução digital, talvez seja útil ter algum
conhecimento sobre a forma como o nosso cérebro maleável cria a consciência. Por exemplo,
será que a crescente globalização da consciência humana trazida pela revolução digital vai
manter os objetivos e os princípios da homeostase básica, à semelhança do que acontece com
a atual homeostase sociocultural? Ou será que, para melhor ou pior, se irá separar do seu
cordão umbilical evolutívo?18

Dar um pendor natural à mente consciente e plantá-la firme- mente no cérebro não minimiza
o papel da cultura na formação dos seres humanos, não reduz a dignidade humana e não
representa o fim do mistério e da perplexidade. As culturas nascem e evoluem a partir do
esforço coletivo dos cérebros humanos, ao longo de muitas gerações, e algumas culturas
chegam mesmo a desaparecer nesse processo. As culturas requerem cérebros que já tenham
sido modelados por efeitos culturais anteriores. Não está em causa o significado das culturas
para a criação da mente humana moderna. A dignidade dessa mente humana também não fica
diminuída ao ser associada à maravilhosa complexidade e beleza que encontramos no interior
das células e dos tecidos vivos. Pelo contrário, a associação do que nos torna humanos à
biologia é uma fonte infindável de espanto e de respeito por tudo o que é humano.
Finalmente, firmar a mente num cenário natural poderá solucionar um mistério, mas isso
apenas servirá para revelar outros mistérios que aguardam pacientemente pela sua vez.

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Colocar a construção das mentes conscientes na história da biologia e da cultura abre caminho
para a reconciliação entre o humanismo tradicional e a ciência moderna, pelo que quando a
neurociência explora a experiência humana nos estranhos mundos da fisiologia cerebral e da
genética, a dignidade humana não só é mantida, como é também reafirmada.

Segundo as palavras memoráveis de F. Scott Fitzgerald, «Quem inventou a consciência


cometeu um grande pecado». Entendo o que o terá levado a dizê-lo, mas uma tal condenação
constitui apenas metade da história. É uma condenação adequada aos momentos em que nos
sentimos desencorajados com as imperfeições da natureza que a mente consciente tão
abertamente revela. A outra metade da história deveria ser ocupada com o louvor a tal
invenção, aquela que permite todas as criações e descobertas e que nos deixa trocar a perda e
a dor pela alegria e pela celebração. O aparecimento da consciência abriu caminho para uma
vida que vale a pena viver. Entender a forma como ela surge apenas pode servir para reforçar
esse valor.19 Será que saber como o cérebro funciona é importante para a forma como
vivemos a nossa vida? Sem qualquer dúvida, em especial se, para além de saber quem somos
presentemente, nos preocuparmos com o que poderemos vir a ser.

CAPíTULO2

Da regulação da vida ao valor biológico. Quando a realidade mais parece ficção

Mark Twain considerava que a grande diferença entre a ficção e a realidade era o facto de a
ficção requerer credibilidade. A realidade podia dar-se ao luxo de ser implausível, mas não a
ficção. A narrativa sobre a mente e a consciência que aqui apresento não se coaduna assim
com as exigências da ficção. Na verdade, e contraintuitiva. Perturba a narrativa humana
tradicional. Nega repetidamente ideias solidamente estabelecidas e tradicionalmente bem
aceites. Mas nada disso faz com que o relato que se segue seja menos verosímil. O conceito de
que atrás da mente consciente se ocultam processos mentais inconscientes não é novo. Essa
ideia viu a luz do dia há mais de um século, altura em que o público a recebeu com alguma
surpresa, mas hoje tornou-se banal. O que é bem menos banal, em-

52

bora seja bem conhecido, é o facto de muito antes de os seres vivos terem mentes, eles
exibirem comportamentos eficientes e adaptativos que, para todos os efeitos, se assemelham
aos que se observam nas criaturas conscientes. É evidente que esses comportamentos não
eram causados por uma mente, e muito menos pela consciência. Em resumo, não só os
processos conscientes e não conscientes coexistem, como, além disso, há processos não
conscientes que são relevantes para a manutenção da vida e que existem sem parceiros
conscientes.

A evolução brindou-nos com diferentes tipos de cérebro, no que diz respeito à mente e à
consciência. Temos o tipo de cérebro que produz comportamento mas que parece não ter
mente nem consciência, como, por exemplo, o sistema nervoso do Aplysia californica, o
caracol marinho que se tornou popular no laboratório do neurobiólogo Eric Kandel. Existe o
tipo de cérebro que produz toda uma vasta gama de fenómenos comportamento, mente e
consciência de que o cérebro humano é, claro está, o principal exemplo. Há ainda um terceiro
tipo de cérebro que produz claramente comportamento, é provável que dê origem a uma
mente, mas em que o grau de consciência é problemático. É o caso dos insetos.

No entanto, as surpresas não se ficam pela noção de que na ausência de mente e de


consciência, o cérebro pode produzir comportamentos respeitáveis. Existem seres vivos sem
qualquer cérebro, até mesmo seres unicelulares, que exibem também um comportamento
aparentemente inteligente e objetivo. Esse é também um facto subestimado.

Não há dúvida de que podemos obter conhecimentos úteis sobre a forma como o cérebro
humano produz mentes conscientes ao entender os cérebros mais simples que não dão
origem nem a mente, nem a consciência. Todavia, à medida que nos dedicamos a essa análise
retrospetiva, torna-se óbvio que para explicar a ascensão de cérebros tão antigos é necessário
recuar ainda mais, até ao mundo das mais simples formas de vida, desprovidas tanto de
consciência como de mente e de cérebro. Com efeito, se quisermos encontrar uma justificação
para as mentes conscientes, temos de nos aproximar dos co-

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meços da vida. Aí chegados, deparam-se-nos mais uma vez conceitos que são não só
surpreendentes, como também enfraquecem as ideias tradicionais no que respeita à
contribuição do cérebro, da mente e da consciência para a gestão da vida.

Vontade natural

Precisamos, mais uma vez, de uma fábula. Há muito, muito tempo, a vida fez a sua aparição na
longa história da evolução. Tudo isto se passou há 3,8 mil milhões de anos, quando surgiu o
antepassado de todos os futuros organismos. Cerca de dois mil milhões de anos mais tarde,
numa altura em que colónias de bactérias individuais mais deveriam parecer donas da terra,
foi a vez de surgirem organismos unicelulares equipados com um núcleo. As bactérias eram
também organismos vivos unicelulares, mas o seu ADN não se agrupara ainda num núcleo. Os
seres unicelulares dotados de núcleo estavam num degrau mais alto. Tecnicamente trata-se de
células eucarióticas, que pertencem a um grande grupo de organismos, os protozoários. No
amanhecer da vida, essas células foram dos primeiros organismos verdadeiramente
independentes. Podiam sobreviver individualmente, sem parcerias simbióticas. Esses
organismos unicelulares simples ainda hoje se encontram entre nós. A ameba é um bom
exemplo, tal como o é o maravilhoso paramécio.'

Um organismo unicelular possui uma estrutura corporal (um citoesqueleto), dentro da qual se
encontra um núcleo (o centro de comando que alberga o ADN da célula) e um citoplasma
(onde tem lugar a transformação de combustível em energia, controlada por organitos como
as mitocôndrias). Os corpos definem-se pela pele que os reveste e a célula apresenta-a
também, uma fronteira entre o seu interior e o mundo exterior. Chama-se membrana celular.

Em muitos aspetos, um organismo uni celular é a antevisão daquilo que um organismo singular
como o nosso veio a ser. Pode-

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mos vê-lo como uma espécie de abstração, uma caricatura daquilo que somos. O citoesqueleto
é a estrutura do corpo, tal como o é o esqueleto ósseo em todos nós. O citoplasma
corresponde ao interior do corpo, com todos os seus órgãos. O núcleo é o equivalente do
cérebro. A membrana celular equivale à pele. Algumas destas células chegam a apresentar o
equivalente a membros, cílios, cujos movimentos concertados lhes permitem nadar.

Os componentes separados de uma célula eucariótica uniram-se graças à colaboração entre


criaturas individuais mais simples, nomeadamente bactérias que abdicaram da sua
independência para fazer parte de um novo coletivo mais conveniente. Um certo tipo de
bactéria deu origem às mitocôndrias; outro tipo, como as espiroquetas, ajudou, com o
citoesqueleto e os cílios, os organismos que gostavam de nadar,2 A grande maravilha é o facto
de o nosso organismo multicelular ser estruturado de acordo com esta mesma estratégia,
agregando milhares de milhões de células para constituir tecidos, unindo diferentes tipos de
tecido para compor órgãos e ligando diferentes órgãos para formar sistemas. Entre os vários
tipos de tecidos contam-se os epitélios da pele, das mucosas de revestimento e das glândulas
endócrinas; «o tecido muscular», o tecido nervoso ou neural, e o tecido conjuntivo que os une
a todos. Os possíveis exemplos de órgãos são óbvios, desde o coração e os intestinos ao
cérebro. Exemplos de sistemas incluem o conjunto formado pelo coração, sangue e vasos
sanguíneos (o sistema circulatório), o sistema imunitário e o sistema nervoso. Em resultado
desta tendência colaborativa, o nosso organismo é a combinação extremamente diferenciada
de triliões de células de variadíssimos tipos, onde se inclui, claro está, um tipo especial de
células chamadas neurónios, o mais distinto constituinte do cérebro. Mais adiante voltaremos
a falar dos neurónios e do cérebro. A grande diferença entre as células que se encontram nos
organismos multicelulares (ou metazoários) e as células dos organismos unicelulares é que, ao
passo que as células isoladas têm de se bastar a si próprias, as células que constituem o nosso
organismo vivem em

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sociedades extremamente diversas e complexas. Muitas das tarefas que as células dos
organismos unicelulares têm de desempenhar sozinhas são atribuídas a tipos especializados de
células nos organismos multicelulares. No entanto, a organização geral é comparável à
atribuição distinta de papéis funcionais que cada célula individual incorpora na sua própria
estrutura. Os organismos multicelulares são compostos por múltiplos organismos unicelulares
organizados de forma colaborativa, algo que teve origem na combinação de organismos
individuais ainda mais reduzidos. A economia de um organismo multicelular apresenta
inúmeros sectores e as células que compõem cada um desses sectores colaboram entre si. Se
tudo isto parece familiar e leva o leitor a pensar nas sociedades humanas, tem toda a razão. As
semelhanças são espantosas.

A regência do sistema de um organismo multicelular é extremamente descentralizada, embora


apresente centros de liderança com poderes avançados de análise e decisão, como, por
exemplo, o sistema endócrino e, claro está, o cérebro. Mesmo assim, com raras exceções,
todas as células dos organismos multicelulares, incluindo o nosso, têm os mesmos
componentes de um organismo unicelular: membrana, citoesqueleto, citoplasma e núcleo (os
glóbulos vermelhos, cuja breve vida de cento e vinte dias é dedicada ao transporte de
hemoglobina, são a exceção, pois não possuem um núcleo). Além disso, todas essas células
apresentam um ciclo de vida semelhante nascimento, desenvolvimento, envelhecimento,
morte ao de um organismo complexo. A vida de um organismo humano é composta por
multitudes de vidas simultâneas e bem articuladas.

Por mais simples que tivessem sido e continuem a ser, as células isoladas tinham o que parecia
ser uma determinação decisiva e inabalável em permanecer vivas enquanto os genes no
interior do seu núcleo microscópico assim o ordenassem. A regência da sua vida incluía uma
insistência obstinada em existir e prevalecer até que alguns dos genes do núcleo
suspendessem essa vontade de viver e permitissem que a célula morresse.

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Sei que é difícil imaginar que os conceitos de «desejo» e «vontade» possam ser aplicáveis a
uma célula única e isolada. Como podem estas atitudes e intenções, que normalmente
associamos à mente humana consciente e que intuímos serem o resultado do funcionamento
do grande cérebro humano, estar presentes a um nível tão básico? Mas o facto é que estão,
seja qual for o nome que queiramos atribuir a essas características do comportamento da
célula.

Privada de conhecimento consciente, privada de acesso aos dispositivos de deliberação


bizantinos presentes no nosso cérebro, a célula isolada revela uma atitude: quer viver por
inteiro o tempo que lhe foi geneticamente atribuído. Por estranho que pareça, torna-se óbvio
que esse querer, e tudo o que é necessário para o implementar, precedem o conhecimento
explícito e a deliberação quanto às condições de vida, uma vez que a célula claramente não os
possui. O núcleo e o citoplasma interagem e levam a cabo cálculos complexos destinados a
manter a célula viva. Lidam com os problemas que a cada instante surgem a um ser vivo e
adaptam a célula à situação, de forma a sobreviver. Reorganizam a posição e a distribuição das
moléculas no seu interior, dependendo das condições ambientais, e alteram a forma dos
subcomponentes, tais como os microtúbulos, numa exibição de precisão espantosa. Reagem a
condições negativas e também às condições favoráveis. Como é óbvio, os componentes que
levam a cabo essas adaptações foram colocados na sua posição pelo material genético da
célula, de quem recebem ordens.

É comum considerarmos erradamente o nosso grande cérebro e a nossa mente consciente


como os promotores das atitudes, intenções e estratégias por trás da nossa sofisticada gestão
de vida. E porque não haveria de ser assim? Trata-se de uma forma razoável e parcimoniosa de
conceber a história de tal progresso quando a observamos do topo da pirâmide e nas nossas
circunstâncias presentes. Contudo, a verdade é que a mente consciente se limitou a tornar o
conhecimento da gestão básica da vida conhecível. Tal como veremos, as contribuições
decisivas da mente consciente para

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a evolução vêm a ser introduzidas a um nível muito superior. Têm a ver com tomadas de
decisão deliberativas e com criações culturais. Não estou, de todo, a menosprezar a
importância desse nível elevado de gestão da vida. Com efeito, uma das principais ideias deste
livro defende que a mente consciente humana deu um novo rumo à evolução precisamente
por nos dotar de opções, por tornar possível uma regulação sociocultural relativamente
flexível, bem para além da organização social complexa que os insetos, por exemplo, exibem
de forma tão espetacular.3 Estou, isso sim, a inverter a sequência narrativa do relato
tradicional sobre a consciência, fazendo com que o conhecimento oculto da gestão da vida
preceda a experiência consciente de tal conhecimento. Estou igualmente a dizer que esse
conhecimento oculto é bastante sofisticado e não deve ser tomado como primitivo. A sua
complexidade é enorme e a inteligência nele implícita é espantosa.

Não estou a menosprezar a consciência, mas estou, garantidamente, a acentuar a importância


da gestão não-consciente da vida e a sugerir que ela constitui o esquema-base para as atitudes
e intenções das mentes conscientes.

Cada célula no nosso corpo apresenta o tipo de atitude não consciente que acabei de
descrever. Será que o nosso desejo consciente de viver, tão humano, a nossa vontade de
prevalecer, teve início numa agregação silenciosa dos desejos rudimentares de todas as células
do nosso corpo, uma voz coletiva libertada num canto de afirmação?

O conceito de um grande coletivo de vontades expressas através de uma única voz não é mero
devaneio poético e está ligado à realidade dos nossos organismos, onde existe deveras essa
voz única, sob a forma do eu num cérebro consciente. Mas como transferir as vontades
desprovidas de cérebro e de mente das células isoladas

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e dos seus coletivos, para o eu da mente consciente que tem origem no cérebro? Para que tal
aconteça é necessário introduzir um ator radical na nossa narrativa: a célula nervosa, ou
neurónio.

Segundo nos é dado a perceber, os neurónios são células únicas, de um tipo distinto de
qualquer outra célula presente no corpo, diferente mesmo de outros tipos de células
cerebrais, como as células da glia. O que faz com que os neurónios sejam tão diferentes e
especiais? Afinal de contas, não serão igualmente dotados de um corpo celular, equipado com
núcleo, citoplasma e membrana? Não disporão internamente as moléculas como as outras
células do corpo? Não se adaptarão ao ambiente como as restantes células? Sim, com efeito,
tudo isso é verdade. Os neurónios são células corporais e, no entanto, também são especiais.

Para explicar o motivo que torna os neurónios especiais teremos de ter em consideração uma
diferença funcional e uma diferença estratégica. A diferença funcional essencial tem a ver com
a capacidade do neurónio de produzir sinais eletroquímicos, capazes de alterar o estado de
outras células. Não foram os neurónios que inventaram os sinais elétricos. Estes também
podem ser produzidos, por exemplo, por organismos unicelulares como os paramécios, que os
usam para controlar o seu comportamento. Todavia, os neurónios utilizam esses sinais para
influenciar outras células, nomeadamente outros neurónios, células endócrinas (que segregam
moléculas químicas) e células musculares. A alteração do estado de outras células é a fonte da
atividade que constitui e regula o comportamento, e isso acaba também por contribuir para a
criação da mente. Os neurónios são capazes de realizar este feito porque produzem e
propagam uma corrente elétrica ao longo de uma componente semelhante a um tubo,
conhecida como axónio. Por vezes, a transmissão percorre distâncias visíveis a olho nu, tal
como quando os sinais se deslocam vários centímetros ao longo dos axónios, desde o nosso
córtex motor até ao tronco cerebral, ou da espinal medula até à extremidade de um membro.
Quando

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a corrente elétrica chega à ponta do axónio, a sinapse, ela provoca a libertação de uma
molécula química, um neurotransmissor, que por sua vez atua sobre a célula seguinte, em
cadeia. Quando essa célula é uma fibra muscular, ocorre movimento.4

O motivo pelo qual os neurónios fazem tudo isto já não é um mistério. Tal como em outras
células corporais, existem cargas elétricas no interior e no exterior da membrana neuronal.
Essas cargas devem-se à concentração de iões, como sódio ou potássio, em ambos os lados da
membrana. No entanto, os neurónios aproveitam-se da capacidade de criar grandes diferenças
de carga entre o interior e o exterior o estado de polarização. Quando esta diferença se reduz
de forma acentuada em determinado ponto da célula, a membrana despolariza-se localmente
e essa despolarização percorre o axónio como se fosse uma onda. Trata-se do impulso elétrico.
Quando os neurónios se despolarizam, dizemos que estão «ligados», ou «on», ou a «disparar».
Enfim, os neurónios são células como as outras, mas podem enviar sinais influentes para
outras células, modificando assim o que estas fazem.

Esta diferença funcional é responsável por uma diferença estratégica importante: os neurónios
existem para benefício de todas as outras células do corpo. Os neurónios não são essenciais
para os processos básicos da vida, tal como o demonstram cabalmente todos os seres vivos
que não têm quaisquer neurónios. No entanto, seres complexos multicelulares, os neurónios
apoiam o corpo multicelular na gestão da vida. É esse o objetivo dos neurónios e o objetivo do
cérebro que eles constituem. Todos os espantosos feitos dos cérebros que tanto
reverenciamos, desde as maravilhas da criatividade aos nobres píncaros da espiritualidade,
parecem ter surgido graças a essa determinação de gerir a vida dentro do corpo em que
habitam.

Mesmo no caso de cérebros modestos, compostos por redes de neurónios dispostos em


gânglios, os neurónios apoiam outras células do corpo. Fazem-no recebendo sinais das células
corporais e promovendo a libertação de moléculas químicas (como no caso

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de uma hormona segregada por uma célula endócrina, que chega às células corporais e altera
a sua função), ou dando origem a movimentos (como quando os neurónios excitam as fibras
musculares e as fazem contrair-se). Todavia, nos cérebros elaborados das criaturas complexas,
as redes de neurónios imitam a estrutura das partes do corpo às quais pertencem. Acabam por
representar o estado do corpo, mapeando literalmente o corpo para o qual trabalham e
constituindo uma espécie de substituto virtual do corpo, um duplo neural. De notar que ao
longo da vida permanecem sempre ligados ao corpo que imitam. Tal como veremos, imitar o
corpo e permanecer ligado a ele servem bem a função de gestão.

Em resumo, os neurónios referem-se ao corpo, e esta «referência», este incansável apontar


para o corpo, é a característica que define toda a história dos neurónios, dos circuitos neurais
e dos cérebros. Creio que esta referência seja o motivo graças ao qual a vontade oculta de
viver presente nas células do nosso corpo se pôde transformar numa vontade consciente e
dotada de mente. As vontades celulares ocultas viriam a ser imitadas pelos circuitos cerebrais.
Curiosamente, o facto de os neurónios e o cérebro se referirem ao corpo também sugere a
forma como o mundo exterior viria a ser cartografado no cérebro e na mente. Tal como
explicarei na parte II, quando o cérebro mapeia o mundo exterior, fá-lo graças à mediação do
corpo. Quando o corpo interage com o ambiente que o rodeia, esta interação provoca
alterações nos órgãos sensoriais do corpo, como os olhos, os ouvidos e a pele. O cérebro, por
sua vez, mapeia essas alterações e desse modo, indiretamente, o mundo exterior ao corpo
adquire forma e representação no interior do cérebro.

Para concluir este louvor à particularidade e glória dos neurónios, permitam-me que teça um
breve comentário acerca da sua origem e os torne um pouco mais modestos. A nível evolutivo,
os neurónios terão provavelmente surgido de células eucarióticas que alteravam
habitualmente a sua forma e produziam extensões semelhantes a tubos a partir do seu corpo
enquanto se deslocavam, e com

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as quais apreciavam o ambiente, absorviam alimento e tratavam da sua vida. Os


pseudomembros de uma ameba servem para nos dar uma ideia desse processo. Essas
extensões tubulares, criadas no momento através da reorganização interna de microtúbulos,
desagregam-se assim que a célula conclui a ação. No entanto, quando essas extensões
temporárias assumem um carácter permanente, tornam-se nos componentes semelhantes a
tubos que caracterizam os neurónios: os axónios e os dendritos. Este congelar de tubos
transitórios em talos permanentes, deu lugar a um aglomerado estável de cablagens e
antenas, ideal para emitir e receber sinais.5

Porque será importante ter isto em consideração? Mesmo sendo verdade que o
funcionamento dos neurónios é muito característico e abriu caminho aos comportamentos
complexos e à mente, a grande afinidade dos neurónios com outras células corporais é
igualmente verdadeira. Se nos limitarmos a encarar os neurónios, e os cérebros que eles
compõem, como elementos radicalmente diferentes sem ter em conta a sua origem comum,
corremos o risco de separar o cérebro e o corpo mais do que é aceitável. Imagino que boa
parte do espanto quanto à forma como os sentimentos podem surgir no cérebro se deva à
subestimação da profunda comunidade entre corpo e cérebro.

É necessário estabelecer mais uma distinção entre os neurónios e outras células do corpo.
Tanto quanto sabemos, os neurónios não se reproduzem, ou seja, não se dividem. Também
não se regeneram, pelo menos de modo significativo. Praticamente todas as restantes células
corporais o fazem, embora haja exceções, como sejam as células do cristalino dos nossos olhos
e fibras musculares como as do coração. A razão por que não seria uma boa ideia dividir essas
células é óbvia. Se as células do cristalino se dividissem, a transparência seria provavelmente
afetada durante
62

o processo. Se as células cardíacas se dividissem, mesmo que essa divisão se verificasse num
único sector de cada vez, algo como a remodelação cuidadosa e planeada de uma casa, o
trabalho do coração ficaria seriamente comprometido, à semelhança do que acontece quando
um enfarte do miocárdio inutiliza um sector do coração e desequilibra a coordenação entre as
câmaras. E quanto ao cérebro? Embora não disponhamos de um entendimento completo
quanto à forma como os circuitos neurais mantêm a memória, a divisão dos neurónios iria
provavelmente afetar os registos de toda uma vida de experiências que são gravados, através
da aprendizagem, em padrões específicos de neurónios em circuitos complexos. Pelo mesmo
motivo, iria também afetar o conhecimento sofisticado que o nosso genoma inculca no
cérebro para que possa coordenar as nossas operações vitais. A divisão dos neurónios poderia
significar o fim da regulação da vida específica da espécie, e possivelmente não permitiria o
desenvolvimento da individualidade comportamental e mental, e ainda menos o
desenvolvimento do eu, da identidade e da personalidade. Este cenário macabro é confirmado
pelas consequências das lesões em certos circuitos neurais, provocados por acidentes
vasculares cerebrais, ou pela doença de Alzheimer.

Quanto à divisão da maioria das restantes células do nosso corpo, é importante frisar que ela
se verifica de um modo extremamente ordenado, para não comprometer a arquitetura dos
variados órgãos e a estrutura geral do organismo. Há um Bauplan que é preciso seguir. Ao
longo da vida executamos uma restauração contínua e não uma remodelação na verdadeira
aceção do termo. Não, não derrubamos paredes na casa que é o nosso corpo, não construímos
uma cozinha nova, nem criamos anexos. A restauração é muito discreta e meticulosa. Durante
grande parte da nossa vida, a substituição das células é feita de um modo tão perfeito que até
a nossa aparência se mantém a mesma. Todavia, quando observamos os efeitos do
envelhecimento na aparência

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externa do nosso organismo, ou no funcionamento dos nossos sistemas internos,


apercebemo-nos de que as substituições se vão tornando gradualmente menos perfeitas. As
coisas deixam de estar exatamente no mesmo sítio. O rosto envelhece, os músculos
enfraquecem, a gravidade exerce os seus efeitos, os órgãos podem não funcionar tão bem. É
então que deve entrar em campo um bom cirurgião plástico e um brilhante internista.

Continuar vivo

Do que precisa uma célula para se manter viva? Muito simplesmente, precisa de uma boa
economia doméstica e de boas relações externas, que é o mesmo que dizer uma boa gestão
dos inúmeros problemas que estar vivo acarreta. A vida, tanto num organismo unicelular como
nas criaturas com triliões de células, exige a transformação de nutrientes adequados em
energia e isso, por sua vez, requer a capacidade de resolução de vários problemas: encontrar
os produtos energéticos, introduzi-los no corpo, convertê-los na unidade universal de energia
conhecida como ATP, eliminar os detritos e usar a energia para tudo aquilo de que o corpo
precisa para prosseguir a rotina de encontrar o material cerro, absorvê-lo, e tudo o mais que é
necessário. Procurar nutrição, consumi-la, digeri-la, e permitir que isso dê energia a um corpo,
são essas as questões essenciais para a humilde célula.

A razão por que os mecanismos de gestão da vida são tão cruciais prende-se com a sua
dificuldade. A vida é um estado precário, apenas possível quando se preenche um grande
número de requisitos no interior do corpo. Por exemplo, em organismos como o nosso, a
quantidade de oxigénio e de CO2 varia apenas dentro de determinados limites, o mesmo
acontecendo com a acidez do líquido onde os vários tipos de moléculas químicas viajam entre
células (o pH). O mesmo se aplica à temperatura, de cujas variações nos

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apercebemos quando temos febre ou, mais habitualmente, quando nos queixamos por estar
muito frio ou muito calor. Aplica-se igualmente à quantidade de nutrientes fundamentais em
circulação açúcares, gorduras, proteínas. Sentimos desconforto quando as variações se
afastam dos limites e ficamos agitados se deixamos passar muito tempo sem resolver a
situação. Estes estados mentais e comportamentos são sinais de que as regras férreas da
regulação da vida estão a ser violadas; são sinais vindos de níveis não-conscientes que pedem
à vida alerta e consciente uma solução razoável para uma situação que deixou de poder ser
resolvida pelos dispositivos automáticos e não conscientes.

Quando procedemos à medição de cada um desses parâmetros e lhes atribuímos um valor


descobrimos que o limite de variação normal é muito baixo. Por outras palavras, a vida exige
que uma série de parâmetros limites seja mantida a todo o custo em literalmente dezenas de
componentes do interior dinâmico do corpo. Todas as operações de gestão que referi acima
procurar fontes de energia, absorver e transformar os produtos energéticos, etc. visam manter
os parâmetros químicos do interior de um corpo o seu meio interno - dentro dos limites
mágicos compatíveis com a vida. Esse limite mágico é conhecido pelo termo homeostático e o
processo através do qual se alcança esse estado equilibrado é chamado homeostase. Estas
palavras não muito elegantes foram cunhadas no século XX pelo fisiólogo Walter Cannon.
Cannon expandiu as descobertas do biólogo francês do século XIX Claude Bernard, que
cunhara o termo mais agradável «milieu intérieur» (meio interior), a sopa química onde a luta
pela vida decorre sem interrupções mas longe da nossa vista. Infelizmente, embora o essencial
sobre a regulação da vida - o processo de homeostase seja conhecido há mais de um século e
aplicado diariamente na biologia e medicina gerais, o seu significado mais profundo em termos
de neurobiologia e psicologia não foi ainda devidamente apreciado.6

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As origens da homeostase

Como foi a homeostase introduzida nos organismos complexos? Como adquiriram as células
isoladas a sua estrutura de regulação da vida? Para abordar tal questão é preciso seguir uma
técnica de engenharia inversa, o que nunca é simples seguir, pois passámos a maior parte da
nossa história científica a pensar segundo uma perspetiva de organismos complexos e não
segundo a perspetiva das moléculas e dos genes a partir dos quais esses organismos se
iniciaram.

O facto de a homeostase ter começado inconscientemente, ao nível dos organismos sem


consciência, mente ou cérebro, levanta a questão de onde e como a intenção homeostática
surgiu na história da vida. Essa questão leva-nos dos organismos uni celulares aos genes e daí
às moléculas simples, ainda mais simples do que o ADN e o ARN. Talvez a intenção
homeostática surja desses níveis simples e esteja mesmo relacionada com os processos físicos
básicos que regem a interação entre moléculas diferentes, como por exemplo a força com que
duas moléculas se atraem ou repelem, ou a forma como se combinam entre si de modo
construtivo ou destrutivo. As moléculas repelem-se ou atraem-se, reúnem-se e interagem de
forma explosiva, ou então recusam-se a fazê-lo.

No que diz respeito aos organismos, torna-se aparente que as redes de genes resultantes da
seleção natural foram responsáveis por os dotarem de capacidade homeostática. Somos
obrigados a interrogar-nos quanto ao tipo de conhecimento que as redes de genes possuíam
(e possuem) para serem capazes de transmitir tão sábias instruções aos organismos a que dão
origem. Onde se encontra a origem do valor quando vamos mais longe do que o nível dos
tecidos e das células, até ao nível dos genes? Talvez o necessário seja a ordenação específica
de informação genética. Isso significa que, ao nível das redes de genes, o valor original
consistiria numa ordenação da expressão dos genes, que resultaria na construção de
organismos «homeostaticamente competentes».

66

Todavia, as respostas mais profundas têm de ser procuradas em níveis ainda mais simples.
Decorrem importantes debates quanto ao modo como o processo de seleção natural
influenciou a forma de produzir os cérebros humanos de que atualmente desfrutamos. Por
exemplo, discute-se atualmente se a seleção natural trabalhou ao nível dos genes, de
organismos completos, de grupos de indivíduos, ou em todos esses níveis. No entanto, na
perspetiva dos genes, e para que os genes sobrevivessem ao longo de sucessivas gerações, as
redes de genes tiveram de criar organismos perecíveis mas bem-sucedidos que servissem de
veículo para a sobrevivência desses mesmos genes. E para que os organismos se
comportassem com tal êxito, os genes terão de ter orientado a edificação desses organismos
através de instruções críticas.

Boa parte dessas instruções deverá ter consistido na criação de dispositivos capazes de levar a
cabo uma eficiente regulação da vida. Esses novos dispositivos ficaram encarregues da
distribuição de recompensas, da aplicação de castigos e da previsão de situações que o
organismo poderia vir a ter de enfrentar. Em resumo, as instruções genéticas levaram à criação
de dispositivos capazes de executar aquilo que, em organismos complexos como nós, viria a
florescer sob a forma de emoções, no sentido mais amplo do termo. O primeiro esboço desses
dispositivos surgiu inicialmente em organismos sem cérebro, mente ou consciência - os
organismos unicelulares que abordámos anteriormente, mas os dispositivos reguladores
alcançaram a sua maior complexidade em organismos possuidores dessas três características:
cérebro, mente e consciência.7

Será a homeostase quanto baste para garantir a sobrevivência? Não exatamente, pois tentar
corrigir os desequilíbrios homeostáticos depois do seu início é arriscado e pouco eficaz. A
evolução lidou com esse problema introduzindo dispositivos que permitem aos organismos
antecipar desequilíbrios e os motivem a explorar ambientes propícios à descoberta de
soluções.

67

Células, organismos multicelulares e sistemas artificiais

As células e os organismos multicelulares partilham várias características com os sistemas


artificiais que a engenharia pode produzir. A atividade tanto dos organismos vivos como dos
sistemas artificiais cumpre um objetivo, exibe processos essenciais a essa atividade, e executa
esses processos com componentes anatómicas distintas que realizam diversas subtarefas. A
semelhança é muito sugestiva e está por trás das metáforas recíprocas com que descrevemos
tanto os seres vivos como as máquinas. Referimo-nos ao coração como sendo uma bomba,
descrevemos a circulação sanguínea como uma canalização, referimo-nos à ação dos membros
como alavancas, etc. De forma semelhante, quando pensamos numa operação indispensável
de uma máquina complexa chamamos-lhe o «coração» da máquina, e referimo-nos aos
dispositivos de controlo dessa mesma máquina como sendo o seu «cérebro». As máquinas
com um funcionamento imprevisível são chamadas «temperamentais». Este modo de pensar,
que pode ser muito esclarece dor, é também responsável pelo conceito não muito útil de que
o cérebro é um computador digital, e que a mente é algo que se assemelha a software que
nele pode ser lido. Claro que o grande problema destas metáforas advém do facto de se
ignorar a diferença fundamental entre os componentes materiais dos organismos vivos e os
dos mecanismos artificiais. A minha argumentação quanto a esse ponto baseia-se na
comparação de uma maravilha moderna do design aeronáutico o Boeing 777 com qualquer
exemplo de um organismo vivo, seja ele pequeno ou grande. É fácil identificar uma série de
semelhanças: centros de comando sob a forma de computadores na cabina de pilotagem;
canais de fluxo de informação para esses computadores, que regulam os canais de feedback
dos periféricos; uma espécie de metabolismo, presente no facto de os motores se
alimentarem de combustível

68

e transformarem energia. No entanto, persiste uma diferença fundamental: qualquer


organismo vivo está naturalmente equipado com regras e dispositivos homeostáticos globais;
no caso de avaria! o corpo do organismo vivo perece; ainda mais importante, todos 01
componentes do corpo do organismo vivo, especificamente todas as suas células, são, em si
próprios, organismos vivos, equipados naturalmente com as suas regras e dispositivos
homeostáticos, sujeitos ao mesmo risco de deterioração em caso de avaria. Não há nada de
comparável na estrutura do admirável 777, desde a fuselagem de liga metálica até aos
materiais que compõem os quilómetro de cablagem e de tubagens hidráulicas. A
«homeostase» avançada do 777, partilhada entre a sua bateria de inteligentes computadores
de bordo e os dois pilotos necessários para fazer voar o aparelho! tem como objetivo
preservar toda a estrutura, e não os micro e macro subcomponentes físicos.

Valor biológico

Segundo me parece, a permanente manutenção de parâmetros químicos corporais


compatíveis com uma vida saudável é o que de mais essencial possui qualquer ser vivo, algo
que se aplica de igual modo tanto a uma ameba como a um ser humano. Tudo o resto deriva
desta condição, um facto verdadeiramente essencial.

É altura de abordar o conceito de valor biológico e reconhece a sua presença ubíqua no


pensamento moderno acerca do cérebro e da mente. Todos temos alguma noção do
significado do termo valor, ou talvez mesmo várias noções, mas não necessariamente a noção
de valor biológico? Porque atribuímos um valor a virtualmente tudo o que nos rodeia
alimento, habitações, ouro, jóias, pinturas ações, serviços, até mesmo outras pessoas? Porque
passamos tanto tempo a calcular ganhos e perdas em relação a esses artigos? Porque terão
esses artigos um preço? Para quê esta valorização incessante E quais os critérios com que
calculamos esse valor? À primeira vista

69
talvez pareça que estas perguntas não têm cabimento numa conversa acerca do cérebro, da
mente e da consciência. Todavia, têm perfeito cabimento. Tal como veremos, o conceito de
valor é essencial para o nosso entendimento da evolução do cérebro, do desenvolvimento
cerebral e da atividade cerebral que ocorre a cada momento.

Das perguntas postas atrás, apenas aquela que se refere ao problema do preço de um artigo
tem uma resposta relativamente objetiva e direta. Dada a sua elevada procura, ou a sua
raridade relativa, os artigos indispensáveis ou difíceis de obter têm um custo mais elevado.
Mas qual a vantagem do preço? Uma vez que não é possível haver o suficiente de tudo para
que todos o tenham, o preço é uma forma de gerir o evidente desfasamento entre o que está
disponível e a sua procura. O preço introduz restrições e cria uma certa ordem no acesso aos
artigos. A questão do preço também nos obriga a ter em conta a razão por que não há o
suficiente de tudo para todos. Numa primeira abordagem, uma das razões prende-se com a
distribuição irregular das necessidades. Certos artigos são muito necessários, outros são-no
menos e outros não o são de todo. Só quando introduzimos o conceito de necessidade é que
chegamos, por fim, ao aspeto capital do valor biológico: o problema do indivíduo vivo que se
esforça por manter a vida e as necessidades imperiosas que advêm desse esforço. No entanto,
a razão pela qual atribuímos valor, ou a métrica de que nos servimos, exigem que se reconheça
o problema da manutenção da vida e das necessidades a ela subjacentes. No que diz respeito
aos seres humanos, a manutenção da vida é apenas uma parte de um problema mais vasto,
mas é aceitável que se comece pela sobrevivência.

Até à data, a neurociência abordou estas questões através de um atalho curioso. Ela
identificou várias moléculas químicas relacionadas, de algum modo, com os estados de
recompensa ou punição e assim, indiretamente, associadas ao valor. Algumas das moléculas
mais conhecidas serão familiares a muitos leitores: dopamina, norepinefrina, serotonina,
cortisol, oxitocina, vasopressina.

70

A neurociência também identificou uma série de núcleos cerebrais que fabricam essas
moléculas e as distribuem a outras partes do cérebro e do corpo (os núcleos cerebrais são
aglomerados de neurónios, localizados abaixo do córtex cerebral, em regiões como o tronco
cerebral, o hipotálamo e o prosencéfalo basal, não devem ser confundidos com os núcleos do
interior das células eucarióticas, que são simples bolsas onde está alojada a maior pane do
ADN da célula).8

A complicada mecânica neural das moléculas de «valor» é um tópico importante para a


neurociência, que muitos investigadores tentam elucidar. Entre as questões a que terão de
responder incluem-se o que leva os núcleos a libertar essas moléculas, em que ponto do
cérebro e do corpo são libertadas e o que se consegue com a sua libertação. No entanto, as
discussões sobre todos esses novos e fascinantes factos não são capazes de responder a uma
pergunta bem mais fundamental: onde se situa o motor dos sistemas de valor, qual a origem
biológica do valor? Por outras palavras, onde se encontra o ímpeto desta maquinaria
bizantina? Porque teve início? Porque veio a ficar assim?

Não há dúvida de que as moléculas populares e os seus núcleos de origem formam uma parte
importante da maquinaria do valor, mas não dão a resposta às questões colocadas acima. O
valor está indelevelmente associado à necessidade, e esta associada à vida. Também acredito
que a valorização que atribuímos nas atividades sociais e culturais do dia-a-dia tem uma
ligação direta ou indireta aos processos de regulação da vida, descritos pelo termo
homeostase. Essa ligação explica o motivo pelo qual os circuitos cerebrais humanos se têm
dedicado com tanto fervor à previsão e deteção de perdas e ganhos, já para não falar da
promoção dos ganhos ou do receio das perdas. Por outras palavras, a ligação explica a
obsessão humana com a atribuição de valor.

O valor está ligado direta ou indiretamente à sobrevivência. No caso dos seres humanos em
especial, o valor também está

71

relacionado com a qualidade dessa sobrevivência expressa sob a forma de bem-estar. O


conceito de sobrevivência e, por extensão, o conceito de valor biológico pode ser aplicado a
várias entidades biológicas, desde moléculas e genes a organismos completos. Irei, em
primeiro lugar, considerar a perspetiva do organismo completo.

Valor biológico em organismos completos

De uma forma muito crua, o expoente máximo do valor para todos os organismos consiste na
sobrevivência saudável até uma idade compatível com a reprodução. A seleção natural
aperfeiçoou os mecanismos da homeostase para que essa meta fosse alcançada. Assim sendo,
manter o estado fisiológico dos tecidos no interior de um organismo vivo, dentro dos
parâmetros homeostáticos ideais, e a origem mais profunda do valor e da valorização
biológicos. Isso aplica-se de igual forma aos organismos multicelulares e àqueles cujo «tecido»
vivo se limita a uma célula.

Embora os parâmetros homeostáticos ideais não sejam absolutos e variem de acordo com o
contexto em que um organismo está situado, acontece que perto dos limites homeostáticos a
viabilidade do tecido vivo reduz-se e o risco de doença e morte aumenta; e também
verdadeiro que, dentro de um determinado sector ideal da variação possível dos parâmetros,
os tecidos vivos prosperam e o seu funcionamento se torna mais eficiente e económico. O
funcionamento fora desse sector ideal, perto dos limites extremos, mesmo que por breves
períodos de tempo, é uma vantagem importante quando em condições desfavoráveis, mas,
não obstante, são preferíveis os estados vitais que funcionem dentro do sector mais eficiente.
Torna-se razoável concluir que a origem do valor do organismo está inscrita nas configurações
dos parâmetros fisiológicos. O valor biológico move-se ao longo de uma escala relativa à
eficácia vital do

72

estado físico. De certa forma, o valor biológico é o outro lado de uma moeda que se chama
eficiência fisiológica.

A minha hipótese é de que os objetos e os processos com que nos confrontamos na nossa vida
diária adquirem o seu «valor» de- vido à ligação a este valor original do organismo selecionado
naturalmente. Os valores que os seres humanos atribuem aos objetos e às atividades mantêm
alguma relação, por mais indireta ou remota que ela seja, com as seguintes condições: em
primeiro lugar com a manutenção geral do tecido vivo dentro dos limites homeostáticos
adequados ao contexto em que ele se encontra; em segundo lugar, condições necessárias para
que a homeostase funcione no sector que permite o bem-estar relativo ao contexto em que o
organismo se encontra.
Assim sendo, para os organismos completos, a origem do valor é o estado fisiológico do tecido
vivo dentro de limites homeostáticos em que a sobrevivência é possível. A representação
contínua de parâmetros químicos no cérebro permite que os dispositivos cerebrais não
conscientes detetem e avaliem os afastamentos dos limites homeostáticos, servindo assim de
sensores no que respeita aos níveis de necessidade interna. A medida do afastamento dos
limites homeostáticos permite, por sua vez, que outros dispositivos cerebrais desencadeiem
ações corretivas, e até mesmo que promovam o incentivo ou a dissuasão de correções,
dependendo da urgência da resposta. O simples registo desses procedimentos constitui a base
para a previsão de condições futuras.

Nos cérebros capazes de representar os estados internos sob a forma de mapas, e que
disponham de mente e de consciência, os parâmetros associados aos limites homeostáticos
correspondem, a um nível consciente, às experiências de dor e de prazer. Consequentemente,
nos cérebros capazes de produzir linguagem, essas experiên-

73

cias podem receber etiquetas linguísticas específicos e ser designadas pelos seus nomes
prazer, bem-estar, desconforto, dor.

Se procurarmos o significado do termo valor num dicionário convencional, encontraremos algo


como o seguinte: o que vale uma pessoa ou coisa; merecimento; importância, meio de troca;
quantidade de algo que pode ser trocado por outra coisa; qualidade de algo que o torna
apetecível ou útil; utilidade; custo; preço. Tal como podemos ver, o valor biológico é a raiz de
todos esses significados.

O êxito dos nossos antepassados remotos

o que fez com que organismos cuja utilidade principal era transportar genes e lhes servir de
veículo conseguissem um tamanho êxito? O que abriu caminho a seres complexos como nós?
Ao que parece, o ingrediente essencial para a nossa entrada em cena foi algo que nós e alguns
outros animais possuímos, e as plantas não: movimento. As plantas podem exibir tropismos;
algumas podem virar-se para o sol ou para a sombra, ou desviar-se deles; e algumas, como a
dioneia carnívora, podem mesmo capturar insetos distraídos; no entanto, não há planta capaz
de se desenraizar e ir procurar um ambiente mais favorável noutra parte do jardim. É o
jardineiro que lho terá de proporcionar. A tragédia das plantas, embora elas não o saibam, é
que as suas células espartilhadas pela celulose nunca foram capazes de alterar a sua forma o
suficiente para se tornarem neurónios. As plantas não têm neurónios e, na ausência destes,
não têm e nunca terão mente.

Os organismos independentes, mesmo sem cérebro, também desenvolveram outro


ingrediente importante: a capacidade de sentir alterações das condições fisiológicas, no
interior do seu corpo e no seu meio ambiente. Isso é notório até mesmo nas bactérias, que
reagem à luz do Sol e a numerosas moléculas as bactérias numa placa de Petri reagem à
introdução de uma substância tóxica agrupando-se e afastando-se da ameaça. As células
eucarióticas também sentiam

74

o equivalente ao toque e à vibração. As alterações detetadas tanto no interior como no


ambiente circundante podiam levar ao movimento de um ponto para outro. Claro que para
reagir a determinada situação de modo eficaz, o equivalente do cérebro nos organismos uni
celulares teria igualmente de possuir um programa de resposta, um conjunto de regras
extremamente simples, de acordo com as quais se procede a uma «decisão de movimento»
quando estão reunidas determinadas condições.

Em suma, as características mínimas que esses organismos simples teriam de reunir para
serem bem-sucedidos e permitir que os seus genes transitassem para a geração seguinte
foram: sensação do interior e do exterior do organismo, um programa de resposta e
movimento. O cérebro evoluiu enquanto dispositivo capaz de melhorar a sensação, a decisão e
o movimento, e gerir essas características de forma cada vez mais eficaz e diferenciada.

O movimento viria a refinar-se graças ao desenvolvimento dos músculos estriados, o tipo de


músculo que usamos hoje em dia para andar e falar. Tal como veremos no capítulo 3, a
sensação do interior do organismo, aquilo a que agora chamamos interocepção, expandiu-se,
vindo a detetar um grande número de parâmetros (por exemplo, pH, temperatura, presença
ou ausência de inúmeras moléculas químicas, tensão das fibras musculares lisas). A
sensibilidade ao exterior viria a incluir olfato, paladar, tato e vibração, audição e visão,
conjunto esse que designamos exterocepção.

Para que o movimento e a sensibilidade garantam os melhores resultados, o programa de


resposta terá de se assemelhar a um plano empresarial abrangente que esquematize
implicitamente as condições da sua política de negócios. É exatamente nisso que consiste o
plano homeostático que encontramos em criaturas de todos os níveis de complexidade: um
aglomerado de diretrizes de funcionamento que terão de ser seguidas para que o organismo
concretize os seus objetivos. A essência dessas diretrizes é bastante simples: se certa condição
estiver presente, responda-se de uma certa maneira.

75

Quando analisamos o espetáculo da evolução, ficamos maravilhados com os seus muitos


feitos. Consideremos, por exemplo, o bem-sucedido desenvolvimento dos olhos, não só
aqueles que são semelhantes aos nossos, mas também os de outras variedades, que cumprem
a sua função através de meios ligeiramente diferentes. De igual modo surpreendente é a
maravilha da ecolocalização, a qual permite que espécies como os morcegos ou a coruja-das-
torres cacem em plena escuridão, guiadas por uma apurada localização do som no espaço
tridimensional. Pese embora todas estas maravilhas, será justo dizer que a evolução de um
programa de resposta capaz de manter os organismos num estado homeostático não é menos
espetacular.

O motivo subjacente à existência de um programa de resposta é o concretizar do objetivo


homeostático. No entanto, tal como sugeri anteriormente, mesmo com um objetivo definido
era necessário algo mais para que o programa de resposta fosse executado com eficácia. Para
que uma ação seja executada de forma expedita e correta terá de haver um incentivo para
que, em determinadas circunstâncias, certos tipos de reação sejam favorecidos relativamente
a outros. Porquê? Porque algumas circunstâncias dos tecidos vivos podem ser tão graves que
exijam uma correção urgente e decisiva, pelo que uma correção literalmente ofegante terá de
ser posta em marcha com rapidez. De forma semelhante, algumas oportunidades podem ser
tão conducentes à melhoria das condições do tecido vivo que as reações de apoio a essas
oportunidades têm de ser escolhidas e postas em ação rapidamente. É aqui que encontramos
as maquinações por trás do que viemos a aceitar, a partir do nosso ponto de vista humano,
como recompensa e castigo, os atores principais na cena da exploração motivada. De notar
que nenhuma destas operações requer uma mente, e muito menos uma mente consciente.
Não há um «sujeito» formal, dentro ou fora do organismo, que funcione

76

como «recompensador» ou como «punidor ». Contudo, as «recompensas» e os «castigos» são


aplicados, com base na estrutura dos programas de resposta. Toda a operação é tão cega e
«isenta de sujeito» como as redes de genes. A ausência de mente e de um eu é perfeitamente
compatível com uma «intenção» e um «propósito» espontâneos e implícitos. A «intenção»
básica deste plano imanente é manter uma certa estrutura ou corrigir um certo desequilíbrio,
mas um «propósito» maior pode ser vislumbrado a partir de tais intenções: sobreviver.

Assim sendo, sugiro que são necessários mecanismos de incentivo para uma orientação bem-
sucedida do comportamento, o que corresponde à execução bem-sucedida do plano
económico da célula. Sugiro também que os mecanismos de incentivo e a orientação não são o
resultado de uma deliberação consciente. Não partiram de um conhecimento explícito nem de
um eu deliberativo.

A orientação dos mecanismos de incentivo tornou-se gradualmente mais conhecida para


organismos conscientes como o nosso. A mente consciente limita-se a revelar aquilo que
desde há muito existe como mecanismo evolutivo de regulação da vida. Mas não foi a mente
consciente que criou esse mecanismo. Por outras palavras, a verdadeira história vira a nossa
intuição do avesso. A sequência histórica inverte-se.

Desenvolver incentivos

Como se desenvolveram os incentivos? Os incentivos tiveram início em organismos muito


simples mas são bastante evidentes em organismos cujo cérebro é capaz de avaliar o grau de
necessidade para determinada correção. Para que a avaliação ocorresse, o cérebro precisava
da representação a) do estado presente do tecido vivo, b) do estado desejado do tecido vivo
correspondente ao objetivo homeostático, e c) de uma comparação simples. Para isso foi
desenvolvido um

77

tipo de escala interna que indicava até que ponto estava o objetivo afastado do estado atual,
ao mesmo tempo que se adotavam moléculas químicas cuja presença acelerava determinadas
reações que permitissem a correção. Continuamos a sentir os estados do nosso organismo em
termos de uma escala como essa, algo que fazemos de modo inconsciente, embora as
consequências da medição que fazemos se tornem muito conscientes quando temos fome,
muita fome ou nenhuma fome.

Aquilo que viríamos a entender como sensações de dor ou prazer, de castigo ou recompensa,
corresponde diretamente aos estados integrados do tecido vivo no interior de um organismo,
que se sucedem nos processos naturais da gestão da vida. O mapeamento cerebral de estados
em que os parâmetros dos tecidos se afastam significativamente dos limites homeostáticos
numa direção não conducente à sobrevivência é sentido com qualidades a que viemos a
chamar dor e castigo. Da mesma forma, quando os tecidos funcionam na zona mais favorável
da escala homeostática, o mapeamento cerebral desses estados é sentido com qualidades a
que viríamos a chamar prazer e recompensa.
Os agentes envolvidos na orquestração destes estados dos tecidos são conhecidos como
hormonas e neuromoduladores, e têm uma presença muito forte em organismos unicelulares.
Sabemos como funcionam estas moléculas. Por exemplo, em organismos com cérebro, quando
um determinado tecido arrisca a sua saúde devido a um nível perigosamente baixo de
nutrientes, o cérebro deteta a alteração e avalia a necessidade e a urgência de correção dessa
alteração. isto acontece de forma não-consciente, mas em cérebros com mente e consciência,
o estado relacionado com esta informação poderá tornar-se consciente. Se, ou quando, tal
acontece, apercebemo-nos de uma sensação negativa que pode variar entre o desconforto e a
dor. É desencadeada uma cadeia corretora de reações, quer se tenha ou não consciência do
processo, tanto em termos químicos como neurais, auxiliadas por moléculas que aceleram o
processo. Todavia,

78

no caso dos cérebros conscientes, a consequência do processo molecular não acarreta


meramente a correção do desequilíbrio: verifica-se também a redução da experiência
negativa, como, por exemplo a dor, e surge a sensação de prazer/recompensa. Esta tem
origem em parte, no estado favorável à vida que o tecido poderá ter alcança do.
Eventualmente, a mera ação das moléculas de incentivo poder; deixar o organismo na
configuração funcional associada aos estados de prazer.

De igual modo importante foi o aparecimento de estrutura: cerebrais capazes de detetar a


chegada provável de «vantagens» ou «ameaças» ao organismo. Especificamente, além de
sentir as vantagens ou as ameaças propriamente ditas, o cérebro começou a servir-se de
indicadores para prever a sua chegada. Assinalariam a chegada de vantagens com a libertação
de uma molécula, como a dopamina e a oxitocina, ou a chegada de ameaças com a hormona
que induz o cortisol ou a prolactina. Essa libertação iria, por sua vez, otimiza o comportamento
necessário para obter ou evitar certos estímulos Da mesma forma, utilizariam moléculas para
assinalar um sinal falsa mente positivo (um erro de previsão) e agir em conformidade; iriam
diferenciar entre a chegada de algo esperado e a de algo inesperado através de diferentes
graus de ação neural e do nível de libertação de uma molécula como dopamina. O cérebro
também veio a servir-se do padrão de estímulos por exemplo, a repetição ou alternância para
prever o que poderia acontecer em seguida. Por exemplo o aparecimento de dois estímulos
próximos um do outro implicava a possibilidade de que um terceiro estímulo se seguisse.

O que foi conseguido com toda esta maquinaria? Em primeiro lugar, uma reação mais ou
menos urgente, dependendo das circunstâncias, ou por outras palavras, uma reação
diferenciada. Em segundo lugar, reações otimizadas pela previsão.

79

A estrutura homeostática e seus dispositivos associados de incentivo e previsão protegiam a


integridade do tecido vivo no interior de um organismo. Curiosamente, grande parte dessa
mesma maquinaria foi cooptada de modo a garantir que o organismo adotasse
comportamentos reprodutores favoráveis à transmissão dos genes. Exemplos disso mesmo
são a atração sexual, o desejo sexual e os rituais de acasalamento. Superficialmente, os
comportamentos associados à regulação da vida e à reprodução separaram-se mas o objetivo
mais profundo era o mesmo, não surpreendendo assim que a mecânica seja partilhada.

À medida que os organismos foram evoluindo, os programas subjacentes à homeostase


tornaram-se mais complexos, no que respeita às condições que desencadeavam a sua ação e à
gama de resultados. Esses programas mais complexos transformaram-se gradualmente
naquilo que agora conhecemos como drives, motivações e emoções (capítulo 5).

Em resumo, a homeostase precisa da ajuda dos drives e das motivações, algo fornecido em
abundância pelos cérebros complexos, ativados com a ajuda da antecipação e da previsão, e
utilizados na exploração do ambiente. Os seres humanos terão, certamente, o sistema
motivacional mais avançado, contando com uma curiosidade profunda, um apurado sentido
de exploração e sistemas de alerta sofisticados dirigidos às necessidades futuras, todos eles
destinados a manter-nos no bom caminho do melhor dos mundos.

Relacionar a homeostase, o valor e a consciência

Aquilo que viemos a designar como valioso, em termos de objetos ou de ações, está direta ou
indiretamente relacionado com a possibilidade de manutenção de limites homeostáticos no
interior dos organismos vivos. Além disso, sabemos que certos sectores e con-

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figurações dentro dos limites homeostáticos estão associados a uma regulação ótima da vida,
enquanto outros sectores e configurações dentro desses limites são menos eficientes e outros
ainda estão mais próximos da zona de perigo. Esta é a zona em que a doença e a morte se
podem instalar. Faz sentido que as vantagens e as ações que, de alguma forma, venham a
induzir uma regulação ótima da vida sejam consideradas mais valiosas.9

Já sabemos como os seres humanos diagnosticam o sector ótimo dentro dos limites
homeostáticos, sem que haja necessidade de proceder à análise química do sangue num
laboratório clínico. Esse diagnóstico não exige conhecimentos especiais, apenas necessita do
processo fundamental da consciência: os limites ótimos expressam-se na mente consciente
sob a forma de sentimentos agradáveis; os limites perigosos mostram-se como sentimentos
desagradáveis ou mesmo dolorosos.

Seremos capazes de imaginar um sistema de deteção mais transparente? O funcionamento


ótimo de um organismo, que tem como resultado um estado vital harmonioso, constitui a
essência dos nossos sentimentos de bem-estar e de prazer. É a base do estado ao qual, em
circunstâncias muito elaboradas, chamamos felicidade. Pelo contrário, os estados vitais
desorganizados, ineficazes e desarmoniosos, precursores da doença e do colapso do sistema,
constituem a essência dos sentimentos negativos, os quais, tal como Tolstoi observou de
forma tão sagaz, existem em maior variedade do que os positivos um sem-fim de dores e
sofrimentos, já para não falar de nojo, receios, raiva, tristeza, vergonha, culpa e desprezo.

Tal como veremos, o aspeto que define os nossos sentimentos emocionais é a análise
consciente dos estados corporais modificados pelas emoções, e é por esse motivo que os
sentimentos podem servir de barómetros da gestão da vida. Não surpreende que seja também
por isso que os sentimentos têm vindo a influenciar as sociedades, as culturas, e todas as suas
atividades e artefactos, desde que se tornaram conhecidos dos seres humanos. No entanto, e
tal como já vimos,

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muito antes da alvorada da consciência humana e do aparecimento dos sentimentos


conscientes, de facto, mesmo antes do aparecimento da mente enquanto tal, a configuração
dos parâmetros químicos já influenciava os comportamentos individuais em criaturas simples,
mesmo não havendo ainda um cérebro que representasse esses parâmetros. Muito
«sensatamente» os organismos sem mente dependiam de parâmetros químicos que lhes
guiassem as ações necessárias para a manutenção da vida. Esta orientação «cega» englobava
comportamentos consideravelmente elaborados. O crescimento de diferentes tipos de
bactérias numa colónia é orientado por tais parâmetros, podendo mesmo ser descrito em
termos sociais: as colónias de bactérias fazem com regularidade uma «avaliação do quórum»
dentro do seu grupo e travam literalmente batalhas para manter o território e os recursos.
Fazem-no mesmo no interior do nosso corpo, quando lutam por privilégios de espaço na nossa
garganta ou no intestino. Mas assim que surgiram sistemas nervosos simples, os com-
portamentos sociais tornaram-se ainda mais evidentes. Vejamos, por exemplo, o caso dos
nematóides, um nome delicado para um tipo de vermes cientificamente atraentes, cujos
comportamentos sociais são muito sofisticados.

O cérebro de um nematóide, como por exemplo o C. elegans, apresenta uns meros 302
neurónios, organizados numa cadeia de gânglios, uma situação nada invejável. Tal como
qualquer outra criatura viva, estes nematóides têm de se alimentar para sobreviver.
Dependendo da escassez ou da abundância de alimento e das ameaças ambientais, podem
alimentar-se de forma mais ou menos gregária. Se o alimento estiver disponível e o ambiente
calmo, alimentam-se sozinhos; se o alimento for escasso ou se detetarem uma ameaça no
ambiente, como, por exemplo, certos odores, avançam em grupo. Escusado será dizer que não
sabem exatamente o que estão a fazer, e muito menos porquê. Fazem o que fazem pois os
seus cérebros extraordinariamente simples, sem qualquer mente e ainda menos consciência,
se servem de sinais do ambiente para

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consultar o seu programa de resposta e iniciar um ou outro tipo de comportamento.

Imaginemos agora que descrevera o caso do C. elegans em abstrato, esquematizando as


condições e os comportamentos mas omitindo o facto de se tratar de vermes; e agora imagine
o leitor que lhe pedia que pensasse como um sociólogo e comentasse a situação. Creio que
teria detetado indícios de colaboração entre indivíduos e talvez chegasse mesmo a identificar
uma preocupação altruísta. Talvez até pensasse que eu estava a falar de criaturas complexas,
dos humanos primordiais, por exemplo. Quando li a descrição que faz Cornelia Bargmann
destas descobertas pensei em sindicatos e na segurança que os números trazem a esses
sindicatos.10 E, contudo, o C. elegans não passa de um verme.

Outra implicação de os estados homeostáticos ideais serem a mais valiosa posse de um


organismo vivo é o facto de a vantagem fundamental da consciência, a qualquer nível do
fenómeno, derivar da melhoria da regulação da vida em ambientes cada vez mais complexos.11

A sobrevivência em novos nichos ecológicos foi auxiliada por um cérebro suficientemente


complexo para criar a mente, um desenvolvimento que, tal como explico na parte II, se baseia
na criação de mapas e imagens. A partir do momento em que as mentes surgiram, mesmo que
ainda não estivessem imbuídas de consciência, a regulação vital automatizada foi otimizada. O
cérebro capaz de produzir imagens tinha à sua disposição mais pormenores sobre as condições
no interior e no exterior do organismo, podendo assim gerar reações mais diferenciadas e
eficazes do que um cérebro sem imagens. No entanto, quando as mentes das espécies não-
humanas se tornaram mentes conscientes, a regulação automatizada ganhou um aliado
poderoso, uma forma de concentrar o esforço de sobrevivência no eu que agora brotava no
organismo. Claro que nos seres

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humanos, à medida que a consciência evoluiu a par da memória e do raciocínio para permitir o
planeamento autónomo e o pensamento deliberativo, esse aliado tornou-se ainda mais
poderoso.

Espantosamente, a regulação vital ligada ao eu coexiste com a regulação vital auto matizada
que os seres conscientes herdaram do seu passado evolutivo. Isso é bem verdade nos seres
humanos. A maior parte da nossa atividade reguladora decorre de forma inconsciente, o que é
bom. Não seria vantajoso gerir o sistema endócrino ou o sistema imunitário conscientemente,
pois não saberíamos como controlar oscilações caóticas com rapidez suficiente. Na melhor das
hipóteses seria o equivalente a pilotar manualmente um avião a jacto moderno o que não é de
todo simples e exige que se domine todas as contingências e manobras necessárias para se
evitar a queda. Na pior das hipóteses seria como investir os fundos da Segurança Social na
bolsa de valores. Nem sequer seria aconselhável ter controlo absoluto sobre algo tão simples
como a respiração - poderia o leitor decidir atravessar o canal da Mancha a nado, por baixo de
água, sustendo a respiração e arriscando-se a morrer durante a travessia. Felizmente, os
nossos dispositivos homeostáticos automatizados nunca permitiriam tal tolice.

A consciência melhorou a adaptabilidade e permitiu que os beneficiários criassem novas


soluções para os problemas da vida e da sobrevivência, praticamente em qualquer ambiente
concebível, em qualquer ponto da terra, no ar e no espaço, debaixo de água, em desertos e
nas montanhas. Não só evoluímos para nos adaptar a um grande número de nichos ecológicos,
como também podemos aprender a adaptar-nos a muitos mais. Nunca desenvolvemos asas ou
guelras mas inventámos máquinas com asas ou que nos podem transportar até à estratosfera,
que cruzam os oceanos ou que navegam vinte mil léguas no fundo dos mares. Inventámos as
condições materiais para viver onde desejamos. A ameba não o pode fazer, nem o verme, o
peixe, a rã, o pássaro, o esquilo, o gato e o cão, nem sequer os nossos inteligentes primos, os
chimpanzés.

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Quando OS cérebros humanos começaram a desenvolver mentes humanas conscientes, as


regras do jogo alteraram-se de forma radical. Passámos de uma regulação simples concentrada
na sobrevivência do organismo para uma regulação pouco a pouco mais deliberada, baseada
numa mente equipada com identidade e personalidade, e agora buscando ativamente não só a
mera sobrevivência, como também certos níveis de bem-estar. Foi um grande salto, pese
embora estar assente, segundo nos é dado a ver, em continuidades biológicas.

Se o cérebro prevaleceu na evolução por oferecer uma regulação vital mais ampla, os sistemas
cerebrais que levaram à mente consciente prevaleceram por oferecer uma mais vasta
possibilidade de adaptação e de sobrevivência, a par do tipo de regulação capaz de manter e
expandir o bem-estar.

Em resumo, os organismos uni celulares com um núcleo têm uma vontade de viver alheia a
mentes e consciências, e gerem a vida adequadamente durante o tempo que certos genes lho
permitam. Os cérebros expandiram as possibilidades de gestão vital mesmo quando ainda não
produziam mentes, e muito menos consciência. Por esse motivo, também eles vingaram.
Quando as mentes e a consciência entraram no jogo, as possibilidades de regulação
expandiram-se ainda mais e abriram caminho ao tipo de gestão que ocorre não só no interior
de um organismo, mas que também se aplica a coleções de organismos, nas sociedades. A
consciência permitiu que os seres humanos repetissem o leitmotiv da regulação vital através
de uma série de instrumentos culturais: trocas económicas, crenças religiosas, convenções
sociais e regras éticas, leis, artes, ciência, tecnologia. Mas, ao fim e ao cabo, a intenção de
sobrevivência da célula eucariótica e a intenção de sobrevivência implícita na consciência
humana são uma e a mesma.

Por trás do edifício imperfeito mas admirável que as culturas e as civilizações nos construíram,
a regulação vital continua a ser a questão básica que enfrentamos. Igualmente importante, a
motivação subjacente à maioria dos empreendimentos nas culturas e civiliza-

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ções humanas assenta nessa precisa questão e na necessidade de gerir o comportamento dos
seres humanos que se dedicam a essa mesma questão. A regulação vital está na base de muita
coisa que precisa de explicação na biologia em geral e na Humanidade em particular: a
existência de cérebros; a existência de dor, prazer, emoções e sentimentos; comportamentos
sociais; religiões; as economias e os seus mercados e instituições financeiras; comportamentos
morais; leis e justiça; política; arte, tecnologia e ciência. Uma lista muito modesta, como o
leitor pode apreciar.

Dito de outro modo, a vida e as condições que dela fazem parte integrante a ânsia irresistível
de sobreviver e a questão complica- da de gerir a sobrevivência num organismo, tenha ele uma
célula ou triliôes foram a causa primeira da emergência e evolução dos cérebros, os mais
complexos dispositivos de gestão criados pela evolução, bem como a base de tudo o que se
seguiu ao desenvolvimentos de cérebros ainda mais complexos, no interior de corpos cada vez
mais elaborados, que vivem em ambientes cada vez mais complexos.

Quando observamos quase todos os aspetos das funções cerebrais através do filtro desta ideia
que os cérebros existem para gerir a vida no interior do corpo , os mistérios e as
excentricidades de algumas das categorias tradicionais da psicologia emoção, perceção,
memória, linguagem, inteligência e consciência tornam-se menos bizarros e muito menos
misteriosos. Na verdade, desenvolvem uma razoabilidade transparente, uma lógica inevitável
e cativante. Tendo em conta a tarefa que tem de ser executada, como poderia ser de outra
maneira, parecem essas funções perguntar.

PARTE II

O que há no cérebro capaz de criar a mente?

CAPITULO 3

Fazer mapas e fazer imagens

Mapas e imagens

Embora a gestão da vida seja, inquestionavelmente, a função principal do cérebro humano,


não é de todo a sua característica mais distintiva. Como vimos, não é necessário um sistema
nervoso para gerir a vida, e muito menos um cérebro biologicamente evoluído. Os modestos
organismos unicelulares cuidam muito bem de si próprios.

A característica mais distinta dos cérebros como aquele de que dispomos é a extraordinária
capacidade de criar mapas. O mapeamento é essencial para uma gestão sofisticada.
Mapeamento e gestão da vida andam de mãos dadas. Quando o cérebro cria mapas, informa-
se a si próprio. A informação contida nos mapas pode ser usada de forma não-consciente para
orientar de modo eficaz o comportamento motor, uma consequência bastante desejável,
tendo em conta que a sobrevivência depende da ação correta. No entanto, quando o cé-

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rebro produz mapas, está também a criar imagens, a principal moeda corrente da nossa
mente. Em última análise, a consciência permite-nos apreender os mapas como imagens e
permite-nos manipular essas imagens e aplicar-lhes o raciocínio.

Os mapas são construídos quando interagimos com objetos, como, por exemplo, uma pessoa,
uma máquina, um local, do exterior do cérebro em direção ao seu interior. Considero da maior
importância o termo interação. Recorda-nos que a produção de mapas, essencial, como é
referido acima, para o refinar de ações, ocorre frequentemente num contexto de ação. Ação e
mapas, movimentos e mente fazem parte de um ciclo interminável, um conceito captado de
forma sugestiva por Rodolfo Llinás quando atribui o nascimento da mente ao controlo do
cérebro sobre o movimento organizado.1

Também se constroem mapas quando recordamos objetos, a partir dos bancos de memória no
interior do nosso cérebro. A criação de mapas nunca pára, nem mesmo durante o sono, tal
como os sonhos bem demonstram. O cérebro humano mapeia todos os objetos que se
encontram no seu exterior, qualquer ação que tenha lugar no seu exterior e todas as relações
assumidas por objetos e ações, no tempo e no espaço, tanto reciprocamente como com a nave
mãe conhecida como organismo, proprietário exclusivo do corpo, do cérebro e da mente. O
cérebro humano é um cartógrafo nato e a cartografia teve início com o mapeamento do corpo
dentro do qual se encontra.

O cérebro humano é um imitador de primeira água. Tudo o que se encontra no exterior do


cérebro o corpo em si, claro está, desde a pele às entranhas, bem como o mundo em seu
redor, homem, mulher e criança, cães, gatos e lugares, calor e frio, texturas macias e ásperas,
sons altos e baixos, o doce mel e o salgado peixe é imitado no interior das redes cerebrais. Por
outras palavras, o cérebro tem a capacidade de representar aspetos da estrutura de coisas e
acontecimentos não cerebrais, onde se incluem as ações levadas a cabo pelo nosso organismo
e pelos seus componentes, tais como membros, órgãos do

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aparelho fonador, e assim por diante. A forma como o mapeamento acontece ao certo não é
simples de explicar. Não se trata de uma mera cópia, uma transferência passiva do exterior do
cérebro para o seu interior. A montagem levada a cabo pelos sentidos envolve uma
contribuição ativa do interior do cérebro, disponibilizada desde o início do desenvolvimento,
tendo há muito sido descartado o conceito do cérebro como uma tábua rasa,2 Tal como
referido anteriormente, a montagem tem em geral lugar num contexto de movimento.
Uma breve nota sobre terminologia: costumava ser bastante rígido quanto à utilização do
termo imagem apenas como sinónimo de um padrão ou imagem mental, e do termo padrão
neural ou mapa para me referir a um padrão de atividade no cérebro, distinguindo-o da
mente. Pretendia com isso reconhecer que a mente, que vejo como emergindo da atividade do
tecido cerebral, merece uma descrição própria devido à natureza privada da sua experiência, e
não por essa experiência privada ser exatamente o fenómeno que pretendemos explicar;
quanto à descrição dos fenómenos neurais com o seu vocabulário próprio, isso fazia parte da
tentativa de compreender o papel desses fenómenos no processo mental. Ao manter níveis se-
parados de descrição, não sugeria de todo a existência de substâncias separadas, uma mental
e a outra biológica. Não sou um dualista da substância, como Descartes o era, ou nos fazia crer
que fosse, ao afirmar que o corpo tinha extensão física mas a mente não, sendo os dois feitos
de substâncias diferentes. Limitava-me a empregar um dualismo de aspeto e a discutir a forma
como as coisas parecem ser, no plano experiencial. Claro que era exatamente o mesmo que
fazia o meu amigo Espinosa, o lídimo defensor do monismo, o oposto do dualismo.

Mas para quê complicar as coisas, para mim e para o leitor, usando termos distintos para me
referir a duas coisas que no fundo consi-

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dero equivalentes? Ao longo deste livro emprego os termos imagem mapa e padrão neural
quase em alternância. Por vezes esbato também deliberadamente a distinção entre mente e
cérebro, para sublinha o fato de essa distinção, embora válida, poder encobrir aquilo que
tentamos explicar.

Um corte por debaixo da superfície

Imagine que tem um cérebro na mão e que observa a superfície córtex cerebral. Imagine
também que pega numa faca afiada que faz cortes paralelos à superfície, a uma profundidade
de dois ou três milímetros, e que extrai uma camada fina de cérebro. Depois d fixar e de tingir
os neurónios com um químico próprio, pode colocar o preparado numa lâmina de vidro e levá-
la ao microscópio. E cada camada cortical que examinar vai descobrir uma estrutura que mais
parece uma folha de papel com duas dimensões e um padrão quadriculado impresso na sua
superfície. Os principais elemento na folha são neurónios, dispostos horizontalmente. Pode
imaginar algo semelhante à planta de Manhattan, mas terá de excluir a Broadway, pois não há
grandes linhas oblíquas nas folhas corticais. Irá aperceber-se de imediato que a disposição é a
ideal para a representação topográfica de objetos e ações.

Ao olhar para um corte de córtex cerebral é fácil perceber porque razão os mapas mais
pormenorizados que o cérebro produz provêm daqui, embora outras partes do cérebro
também sejam capazes de os produzir, com uma resolução inferior. Ao contemplar um corte
de córtex cerebral percebemos igualmente por que razão o conceito de mapas cerebrais não é
uma metáfora exagerada. É possível esboçar padrões na folha e, se semicerrarmos os olhos e
dermos asas à imaginação, somos capazes de entrever o tipo de pergaminho sobre o qual o
Infante D. Henrique provavelmente se debruçou ao planear as viagens dos seus capitães. Uma
grande diferença,

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e claro, consiste no facto de as linhas num mapa cerebral não serem desenhadas à pena ou a
lápis; são, isso sim, o resultado da atividade momentânea de alguns neurónios e da inatividade
de outros. Quando certos neurónios estão «ligados», numa determinada distribuição espacial,
«desenha-se» uma linha, reta ou curva, grossa ou fina, um padrão distinto do fundo criado
pelos neurónios que estão «desligados». Outra grande diferença: a camada cortical que maior
importância tem na produção de imagens está colocada entre outras camadas, em cima e em
baixo; cada elemento neuronal de cada uma dessas camadas faz igualmente parte de uma
composição vertical, nomeadamente de uma coluna. Cada coluna contém centenas de
neurónios. As colunas trazem informação para o córtex cerebral (a informação que chega de
outras zonas do cérebro, e de sondas sensoriais periféricas, como os olhos, e do corpo). As
colunas também servem de origem a informação com destino a essas mesmas fomes e
realizam diversas integrações e modulações dos sinais que são tratados localmente.

Os mapas cerebrais não são estáticos como os da cartografia clássica. São voláteis, mudando
constantemente de forma a refletir as alterações que têm lugar nos neurónios que os
alimentam, os quais por sua vez refletem as mudanças no interior do nosso corpo e no mundo
que nos rodeia. As alterações nos mapas cerebrais também refletem o facto de nós próprios
nos encontrarmos em movimento constante. Aproximamo-nos ou afastamo-nos dos objetos;
podemos tocar num e depois noutro; podemos saborear um vinho mas depois o sabor
desaparece; escutamos uma música mas depois ela acaba; o nosso próprio corpo altera-se
com emoções diferentes, a que se seguem diversos sentimentos. Todo o espetáculo posto à
disposição do cérebro se modifica constantemente, de forma espontânea ou sob o controlo
das nossas atividades. Os correspondentes mapas cerebrais mudam em consonância.

Uma analogia para aquilo que se desenrola no cérebro relativamente a um mapa visual pode-
se encontrar no tipo de imagem que

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vemos nos painéis publicitários eletrónicos, onde o padrão é desenhado pelos elementos
luminosos ativos ou inativos (lâmpadas ou díodos emissores de luz). A analogia dos mapas
eletrónicos é plenamente adequada, já que o conteúdo exibido nesses painéis pode ser
alterado com rapidez graças à simples redistribuição dos elementos ativos e inativos. Cada
distribuição de atividades constitui um padrão temporal. Diferentes distribuições de atividade
na mesma zona do córtex visual podem representar uma cruz, ou um quadrado, ou um rosto,
em sequência ou mesmo em sobreposição, Os mapas podem ser desenhados, redesenhados e
sobrepostos com muita rapidez, com velocidade relâmpago.

O mesmo tipo de «desenho» tem igualmente lugar num posto avançado do cérebro: a retina.
Também ela dispõe de uma folha quadriculada pronta a receber mapas. Quando as partículas
de luz conhecidas como fotões incidem na retina com a distribuição particular que
corresponde a um padrão específico, os neurónios ativados por esse padrão um círculo, por
exemplo, ou uma cruz constituem um mapa neural transitório. Irão formar-se mapas
adicionais, baseados no mapa original da retina, em níveis subsequentes do sistema nervoso.
Isto acontece porque a atividade em cada ponto do mapa da retina é transmitida ao longo de
uma cadeia que culmina nos córtices visuais primários, mantendo as relações geométricas
presentes na retina, uma propriedade conhecida como retinotopia.

Embora os córtices cerebrais sejam excelentes na criação de mapas pormenorizados, algumas


estruturas abaixo do córtex cerebral também conseguem criar mapas, embora menos
refinados. Entre elas contam-se os corpos geniculados, os colículos, o núcleo do trato solitário
e o núcleo parabraquial. Os corpos geniculados funcionam, respetivamente, nos processos
visuais e auditivos. Também eles apresentam uma estrutura em camadas, ideal para
representações topográficas. O colículo superior é um importante criador de mapas visuais,
tendo mesmo a capacidade de relacionar esses mapas visuais com mapas auditivos e com
mapas baseados no corpo. O colículo ín-

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ferior funciona no processamento auditivo. A atividade do colículo superior poderá ser a


precursora dos processos mentais e do eu que mais tarde se expandiram nos córtices
cerebrais. Quanto ao núcleo do trato solitário e ao núcleo parabraquial, são os primeiros
fornecedores de mapas corporais completos ao sistema nervoso central. A atividade nesses
mapas, como vamos ver, corresponde aos sentimentos primordiais

O mapeamento é aplicado não só a padrões visuais como a todos os tipos de padrões


sensoriais em cuja criação o cérebro se encontra envolvido. Por exemplo, o mapeamento do
som tem início naquilo que no ouvido equivale à retina: a cóclea, situada no nosso ouvido
interno, uma de cada lado. A cóclea recebe os estímulos mecânicos resultantes da vibração da
membrana timpânica e de um pequeno conjunto de ossos. Na cóclea, as células ciliares são o
equivalente aos neurónios retinianos. No topo de uma célula ciliar um tufo de pêlo (os cílios)
move-se segundo a energia sonora, provocando uma corrente elétrica que é captada pelo
axónio terminal de um neurónio localizado no gânglio coclear. Este neurónio envia mensagens
ao cérebro através de seis estações, distintas e separadas, que formam uma cadeia: o núcleo
coclear, o núcleo olivar superior, o núcleo do lemnisco lateral, o colículo inferior, o núcleo
geniculado medial e, finalmente, o córtex auditivo primário. Este, em termos de hierarquia, é
comparável ao córtex visual primário. O córtex auditivo constitui o início de mais uma cadeia
de sinalização, desta vez no interior do córtex cerebral.

Os primeiros mapas auditivos formam-se na cóclea, tal como os primeiros mapas visuais se
formam na retina. Como se chega aos mapas sonoros? A cóclea é uma rampa em espiral de
forma cónica. Assemelha-se à casca de um caracol, tal como o sugere a raiz latina da palavra
cóclea. Se já esteve no Museu Guggenheim, em Nova Iorque, poderá visualizar facilmente o
que se passa no interior da

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cóclea. Basta imaginar que os círculos se estreitam à medida que vai subindo e que a forma
geral do edifício é a de um cone apontando para cima. A rampa por onde caminha contorna o
eixo vertical do cone, tal como acontece na cóclea. No interior da rampa em espiral, as células
ciliares apresentam uma ordenação precisa, determinada pelas frequências sonoras às quais
conseguem reagir. As células ciliares que reagem às frequências mais elevadas situam-se na
base da cóclea, o que significa que à medida que subimos na rampa, as restantes frequências
sucedem-se por ordem descendente, até se alcançar o vértice da cóclea, ponto onde as células
ciliares reagem às frequências mais baixas. Tudo começa com sopranos líricos e termina com
baixos profundos. O resultado é um mapa espacial de tons possíveis, ordenados por
frequência, um mapa tonotópico. É de notar a repetição de uma versão deste mapa sonoro em
cada uma das estações seguintes do sistema auditivo, em direção ao córtex auditivo, onde o
mapa é finalmente disposto numa folha bidimensional. Ouvimos uma orquestra a tocar ou a
voz de um cantor quando os neurónios ao longo da cadeia auditiva se tornam ativos e quando
a derradeira estrutura cortical distribui espacialmente todas as ricas substruturas dos sons que
nos chegam aos ouvidos.
O esquema de mapeamento aplica-se amplamente a padrões relacionados com a estrutura
corporal, tais como um membro e o respetivo movimento, ou a rutura da pele causada por
uma queimadura; ou aos padrões que resultam do tatear das chaves do carro, ao analisarmos
a forma e a textura da sua superfície.

A proximidade entre os padrões mapeados no cérebro e os objetos reais que os desencadeiam


foi demonstrada numa série de estudos. Por exemplo, no córtex visual de um macaco é
possível descobrir uma forte correlação entre a estrutura de um estímulo visual (por exemplo,
um círculo, ou uma cruz) e o padrão de atividade por ele evocado nos córtices visuais. Tal foi
mostrado pela primeira vez por Roger Tootell no tecido cerebral recolhido de macacos.
Todavia, não temos como «observar» a experiência visual do macaco as

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imagens que o animal vê nem tão-pouco as experiências visuais da pessoa com quem estamos
a conversar. As imagens visuais, auditivas ou quaisquer outras encontram-se disponíveis
diretamente mas apenas para o dono da mente em que ocorrem. São privadas e inobserváveis
por terceiros.

Os estudos de neuroimagiologia do cérebro humano utilizando a ressonância magnética


começam igualmente a revelar tais correlações. Servindo-se de uma análise de padrões
multivariada, vários grupos de pesquisa, entre eles o nosso, conseguiram já mostrar que certos
padrões de atividade nos córtices sensoriais humanos correspondem claramente a uma
determinada classe de objetos.3

Mapas e mentes

Uma consequência espetacular do mapeamento incessante e dinâmico do cérebro é a mente.


Os padrões mapeados constituem aquilo que nós, criaturas conscientes, apreendemos como
sons, texturas, cheiros, sabores, dores e prazeres - ou seja, imagens. As imagens nas nossas
mentes são os mapas instantâneos do cérebro para tudo e mais alguma coisa, dentro do corpo
e à sua volta, tanto concreto como abstrato, do presente ou daquilo que foi anteriormente
gravado na memória. As palavras de que me sirvo para transmitir estes conceitos foram
originalmente formadas, ainda que de forma breve e resumida, como imagens auditivas,
visuais ou somatossensoriais de fonemas e morfemas, antes de as passar para a página sob a
sua forma escrita. De igual modo, essas palavras agora impressas à frente dos olhos do leitor
são primeiramente processadas por si como imagens verbais (imagens visuais da linguagem
escrita), antes de a ação delas no cérebro promover a evocação de ainda mais imagens, de um
tipo não-verbal. As imagens de tipo não-verbal são as que nos ajudam a expor mentalmente os
conceitos que correspondem a palavras. Os sentimentos que compõem o plano de fundo de
cada momento mental, e que em grande medida

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traduzem aspetos do estado corporal, são igualmente imagens. A perceção, seja qual for a
modalidade sensorial, é o resultado da competência cartográfica do cérebro.

As imagens representam propriedades físicas de entidades, e as suas relações espaciais e


temporais, bem como as suas ações. Algumas das imagens são abstratas, o que provavelmente
advém do facto de o cérebro criar mapas de si próprio a fazer mapas. Elas descrevem padrões
de ocorrência de objetos no espaço e no tempo, as relações espaciais e o movimento de
objetos em termos de velocidade e trajetória. Algumas dessas imagens desempenham um
papel importante em composições musicais ou representações matemáticas. O processo da
mente é um fluxo contínuo de imagens, algumas das quais correspondem a acontecimentos
em curso no exterior do cérebro, ao passo que outras são reconstituídas a partir da memória
no processo da recordação. A mente é uma combinação refinada e fluida de imagens do
presente e recordadas, em proporções que variam constantemente. As imagens mentais
tendem a apresentar uma inter-relação lógica, especialmente quando correspondem a
acontecimentos no mundo exterior ou no corpo, os quais são, em si próprios, regidos por leis
da física e da biologia que definem aquilo que consideramos lógico. É claro que quando
sonhamos acordados podemos produzir sequências ilógicas de imagens; o mesmo acontece ao
sentirmos uma vertigem a sala não está de facto a girar, nem a mesa se está a virar sobre nós,
embora as imagens nos digam o contrário; e o mesmo sucede se tivermos consumido uma
droga alucinogénica. Excetuando situações especiais o fluxo de imagens tende a avançar no
tempo, mais depressa ou mais devagar, de forma ordeira ou saltante, e por vezes o fluxo
avança não só numa sequência mas em várias. Às vezes as sequências são concorrentes,
desenrolando-se em paralelo; outras vezes cruzam-se e ficam sobrepostas. Quando a mente
consciente funciona em plenitude, a sequência de imagens é extremamente rápida, mal nos
deixando avistar o que fica à margem.

Todavia, além da lógica imposta pelo desenrolar dos acontecimentos na realidade exterior ao
cérebro - uma arquitetura funcio-

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nal que os circuitos naturalmente selecionados do nosso cérebro prefiguram logo desde as
primeiras fases do desenvolvimento as imagens na nossa mente recebem um maior ou menor
destaque consoante o seu valor para o indivíduo. De onde vem esse valor? Chega - nos do
conjunto original de disposições que orientam a nossa regulação vital, bem como do valor que
foi atribuído a todas as imagens que adquirimos gradualmente ao longo da nossa experiência,
com base no conjunto original de atribuição de valores que fizemos ao longo da nossa história
individual. Por outras palavras, a mente não tem a ver unicamente com imagens que desfilam
à medida que são produzidas. Tem a ver com escolhas semelhantes às da montagem
cinematográfica promovidas pelo nosso poderoso sistema de valor biológico. O desfile da
mente não é uma mera questão de ordem de chegada. É o resultado de seleções feitas com
base no valor, inseri- das ao longo do tempo, numa estrutura lógica.4

Por fim, e este é outro ponto essencial, a mente pode ser ou não consciente ou consciente. As
imagens continuam a formar-se, a partir da perceção ou da recordação, mesmo quando não
temos consciência delas. Muitas imagens nunca são favorecidas pela consciência e não são
vistas nem ouvidas diretamente na mente consciente. Mesmo assim, em muitos casos, essas
imagens conseguem influenciar o nosso pensamento e as nossas ações. Um processo mental
rico que esteja relacionado com o raciocínio e o pensamento criativo pode continuar mesmo
enquanto estamos conscientes de outros objetos e outras ideias. Voltarei às questões sobre a
mente não consciente na parte IV.

Concluindo, as imagens baseiam-se em alterações que ocorrem no corpo e no cérebro durante


a interação física entre um objeto e o corpo. Sinais enviados por sensores localizados um
pouco por todo o corpo criam padrões neurais que mapeiam a interação do organismo com o
objeto. Os padrões neurais formam-se de forma instantânea nas variadas regiões sensoriais e
motoras do cérebro que normalmente recebem sinais de regiões específicas do corpo. A reu-
nião dos padrões neurais instantâneos é feita a partir de uma seleção
100

de circuitos neurais recrutados pela interação. Podemos conceber esses circuitos neurais como
sendo elementos preexistentes no cérebro, com os quais se pode fazer uma construção,
nomeadamente uma imagem.

O mapeamento do cérebro é uma característica funcional de um sistema dedicado à gestão e


ao controlo da vida. A capacidade de mapeamento do cérebro serve o seu objetivo de gestão.
A um nível simples, o mapeamento pode detetar a presença ou indicar a posição de um objeto
no espaço, ou a direção da sua trajetória. Isso pode ser útil para localizar um risco ou uma
oportunidade, e evitá-lo ou aproveitá-la. Quando a nossa mente se serve de uma
multiplicidade de mapas, de todas as variedades sensoriais, e cria uma perspetiva múltipla do
universo exterior ao cérebro podemos reagir aos objetos e aos acontecimentos com uma
precisão muito maior. Além disso, uma vez que os mapas são memorizados e podem ser
evocados através da recordação imaginativa, podemos planear com antecedência e inventar
melhores reações.

A neurologia da mente

Será razoável perguntarmo-nos sobre quais são as partes do cérebro com aptidão para a
mente e quais são aquelas que a não têm? Trata-se de uma pergunta complicada mas legítima.
Um século e meio de pesquisa sobre as consequências das lesões cerebrais garante-nos os
dados necessários para esboçar uma resposta. Apesar das suas notáveis contribuições para
funções cerebrais importantes, certas regiões do cérebro não estão envolvidas na criação ba-
sica da mente. Outras regiões estão definitivamente envolvidas na sua criação a um nível
básico e indispensável. Outras, ainda, apoiam a criação da mente, com tarefas que implicam a
geração e a regeneração de imagens, bem como a gestão do fluxo de imagens, por exemplo a
sua montagem e a criação de continuidades.

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Manifestamente, a espinal medula não é essencial para a criação da mente. A perda total da
espinal medula tem como resultado graves defeitos motores, perdas profundas de sensação
corporal e algum compromisso de emoções e sentimentos. No entanto, desde que o nervo
vago, paralelo à espinal medula, esteja intacto (tal como acontece quase sempre nesses casos),
a troca de sinais entre o cérebro e o corpo mantém-se suficientemente forte para garantir o
controlo autónomo, produzir emoções e sentimentos básicos, e manter os aspetos da
consciência que exigem dados do corpo. Garantidamente, a criação da mente não é eliminada
por lesões na espinal medula, como tão bem sabemos graças aos casos infelizes de indivíduos
lesionados em acidentes, seja qual for o nível da espinal medula em que a lesão se verifique. A
magnífica mente de Christopher Reeve sobreviveu às extensas lesões que sofreu na espinal
medula, o mesmo acontecendo à sua consciência. Recordo, de quando o conheci, que apenas
era de notar uma perturbação ligeira das suas expressões emocionais. As representações
mentais dos estímulos somatossensoriais provenientes dos membros e do tronco apenas se
integram totalmente ao nível dos núcleos superiores do tronco cerebral, com sinais originários
tanto da espinal medula como do nervo vago, deixando assim a espinal medula numa posição
periférica quanto à criação básica da mente. (Outra forma de situar a espinal medula
relativamente à criação da mente é dizer que não sentimos a falta das suas contribuições no
nosso funcionamento global, mesmo que estas possam ser bastante apreciadas quando se
encontram presentes. Após lesões completas da espinal medula, os pacientes não sentem dor
mas manifestam reflexos «relacionados com a dor», o que indica que o mapeamento da
disfunção dos tecidos continua a ser levado a cabo, ao nível da medula, mas o tronco cerebral
e o córtex cerebral não têm possibilidade de o saber.)

A mesma dispensa de responsabilidades poderá ser aplicada ao cerebelo, com toda a certeza
no caso dos adultos. O cerebelo desempenha papéis importantes na coordenação do
movimento e na modulação da emoção, e está envolvido na aprendizagem e evocação

102

de aptidões e competências e em aspetos cognitivos do desenvolvimento de competências. No


entanto, não está vocacionado, tanto quanto sabemos, para a criação básica da mente. O
mesmo podemos dizer acerca do hipocampo, essencial para a aprendizagem de factos novos e
empenhado regularmente no processo normal de evocação de memórias, mas cuja ausência
não compromete a criação básica da mente. Tanto o cerebelo como o hipocampo assistem os
processos de montagem e continuidade, quer no caso das imagens quer no dos movimentos, a
par de várias regiões corticais dedicadas ao controlo motor que provavelmente
desempenharão também um papel na organização das continuidades no processo mental. É
claro que isto é essencial para o funcionamento da mente no seu todo, mas não é necessário
para a criação básica de imagens. Os dados negativos quanto às capacidades criadoras do
hipocampo e dos córtices adjacentes são especialmente fortes. Eles chegam-nos do
comportamento e do relato pessoal de pacientes cujo hipocampo e córtices temporal an-
terior foram destruídos bilateralmente, devido a condições como lesão anóxica, encefalite por
herpes simples, ou ablação cirúrgica. A aprendizagem de factos novos por parte desses
pacientes está em grande medida impossibilitada, bem como a capacidade de evocar o
passado, em maior ou menor escala. No entanto, a mente do paciente permanece
extremamente rica, com uma perceção quase normal nos domínios visual, auditivo e táctil, e
uma vasta evocação de conheci- mentos a níveis genéricos (não-exclusivos). Os aspetos
fundamentais da consciência também se encontram, em grande medida, intactos.

O panorama torna-se radicalmente diferente quando observamos o córtex cerebral. Várias


regiões do córtex cerebral estão inequivocamente envolvidas na criação das imagens que
vemos e manipulamos na nossa mente. Além disso, os córtices que não criam imagens tendem
a estar implicados na sua memorização ou na sua manipulação durante

103

os processos de raciocínio, decisão e ação. Os córtices sensoriais iniciais para a visão, a


audição, a sensação somática, o paladar e o olfato, que surgem como ilhas no oceano que é o
córtex cerebral, criam garantidamente imagens. Estas ilhas são auxiliadas nessa tarefa por dois
tipos de núcleos talâmicos: núcleos de retransmissão (que recebem as informações da
periferia) e núcleos associativos (aos quais se encontram ligados bidireccionalmente grandes
sectores do córtex cerebral).

Poderosos dados apoiam esta interpretação. Sabemos que lesões significativas em cada ilha do
córtex sensorial afetam extensivamente a função de mapeamento desse sector específico. Por
exemplo, as vítimas de lesões bilaterais nos córtices visuais primários têm «cegueira cortical».
Os pacientes assim afetados deixam de conseguir criar imagens visuais pormenorizadas, não
apenas na perceção mas muitas vezes também na evocação. Poderão manter uma visão
residual, na qual indicações não-conscientes permitem alguma orientação visual das ações.
Uma situação comparável verifica-se nos casos de lesões significativas em outros córtices
sensoriais. Embora não esteja primariamente envolvido na criação de imagens, o resto do
córtex cerebral, o oceano em redor das ilhas, participa na construção e no processamento de
imagens, ou seja, na gravação, evocação e manipulação de imagens geradas nos córtices
sensoriais iniciais (primários e periprimários), processos que serão analisados no capítulo 6.5

Todavia, e contrariamente à tradição e à convenção, julgo que a mente não é criada apenas no
córtex cerebral. As suas primeiras manifestações surgem no tronco cerebral. O conceito de
que o processamento mental tem início ao nível do tronco cerebral é tão pouco convencional
que nem sequer é possível dizer que goza de pouca popularidade. Entre aqueles que
defenderam o conceito com grande calor destaco Jaak Panksepp. Este conceito, e o de que os
sentimentos primários surgem no tronco cerebral, estão, como veremos, interligados.6 Dois
núcleos do tronco cerebral, o núcleo do trato solitário e o núcleo parabraquial, estão de facto
envolvidos na criação de aspetos básicos da mente, em particular nos sentimentos, onde se
incluem a dor e prazer.

104

Variedades de Mapas (imagens) Objectos de Origem

Mapas da estrutura Condição funcional de tecidos

e do estado interno corporais, como seja o grau

do organismo de contracção/distensão da

(mapas interoceptivos) musculatura lisa; parâmetros

do estado do meio interno

II Mapas de outros Imagens de componentes

aspectos do organismo corporais específicas,

(mapas proprioceptivos) como sejam articulações

e musculatura estriada

III Mapas do mundo Qualquer objecto ou aconteci-

exterior ao organismo mento que active uma sonda

(mapas exteroceptivos) sensorial, tal como a retina, a cóclea,

ou os mecanorreceptores da pele

Figura 3.1: Variedades de mapas (imagens) e seus objetos de origem. Quando os mapas são
processados tornam-se imagens. Uma mente normal inclui imagens das três variedades
descritas acima. As imagens do estado interno desse organismo constituem sentimentos
primordiais. As imagens de outros aspetos do organismo combinadas com as do estado
interno constituem sentimentos corporais específicos. Os sentimentos das emoções são
variações dos sentimentos corporais complexos causados por um objeto específico e que a ele
se referem. As imagens do mundo exterior são normalmente acompanhadas por imagens das
variedades I e II.

Os sentimentos são uma variedade de imagem, tornada especial pela sua relação única com o
corpo (ver capítulo 4). Os sentimentos são imagens sentidas espontaneamente; todas as
outras imagens são sentidas porque são acompanhadas pelas imagens específicas a que
chamamos sentimentos.

105

Concebo os mapas gerados por estas estruturas como sendo simples e em grande medida
desprovidos de pormenores espaciais. Esses mapas têm como resultado sentimentos. Estes
sentimentos são, com toda a probabilidade, os constituintes primordiais da mente, basea-dos
em sinais diretos do corpo. É interessante notar que são também componentes primordiais e
indispensáveis do eu, constituindo a primeira e muito rudimentar revelação que a mente
recebe de que o seu organismo está vivo.

Estes importantes núcleos do tronco cerebral não se limitam a produzir mapas virtuais do
corpo; produzem estados corporais sentidos. E é a estas estruturas que primeiro temos de
agradecer o facto de dor e prazer serem sentidas como sensações distintas.

Os começos da mente

Para ilustrar aquilo a que me refiro quando falo dos primórdios da mente, terei de analisar,
ainda que superficialmente, três fontes de dados. Uma chega-nos dos pacientes cujos córtices
insulares sofreram lesões. Outra vem das crianças que nascem sem córtex cerebral. A terceira
fonte tem a ver com as funções do tronco cerebral em geral e com as funções do colículo
superior em particular.

SENTIR DOR E PRAZER

APÓS A DESTRUIÇÃO DA INSULA

No capítulo sobre emoções (capítulo 5) veremos que os córtices insulares estão sem qualquer
dúvida ligados ao processamento de uma vasta gama de sentimentos, desde aqueles que se
seguem às emoções aos que representam dor ou prazer, conhecidos, de forma abreviada,
como sentimentos corporais. Infelizmente, os poderosos dados que demonstram a ligação
entre os sentimentos e a ínsula têm levado grande parte dos neurocientistas a pensar que a
base de todos os sentimentos se encontra apenas ao nível cortical; os córtices

106

insulares assumiriam assim o papel de um equivalente dos córtices visual e auditivo primários.
Esta interpretação errada, para a qual o nosso laboratório contribuiu, dado que colocámos a
ínsula no mapa dos sentimentos, precisa de ser revista. Tal como a destruição dos córtices
visual e auditivo não elimina a visão nem a audição, a destruição total dos córtices insulares,
desde a zona anterior à posterior, tanto no hemisfério cerebral esquerdo como no direito, não
resulta na completa abolição dos sentimentos. Pelo contrário, sentimentos de dor e de prazer
permanecem depois de lesões em ambos os córtices insulares, provocadas pela encefalite por
herpes simples. Com os meus colegas Hanna Damásio e Daniel Tranel, tenho observado
repetidamente que esses pacientes reagem com prazer ou dor a uma variedade de estímulos,
além de continuarem a sentir emoções, por eles relatadas de forma inequívoca. Os pacientes
dão conta de desconforto com temperaturas extremas; mostram desagrado com tarefas
enfadonhas e ficam irritados quando os seus pedidos são recusados. A reatividade social que
depende da presença de sentimentos emocionais não está comprometida. Mantém-se uma
ligação a pessoas que nem podem ser reconhecidas como entes queridos e amigos, pois as
lesões da zona anterior dos lobos temporais que acompanham a síndrome herpética
comprometem a memória autobiográfica. Além disso, a manipulação experimental de
estímulos leva a alterações visíveis na forma como os pacientes experienciam os sentimentos7

É razoável propor que na ausência de ambos os córtices insulares, os sentimentos de dor e de


prazer têm origem em dois núcleos do tronco cerebral referidos anteriormente (o trato
solitário e o parabraquial), sendo ambos recetores adequados dos sinais vindos do interior do
corpo. Nos indivíduos normais, estes dois núcleos enviam sinais para o córtex insular através
de núcleos

107

dedicados do tálamo (capítulo 4). Em resumo, enquanto os núcleos do tronco cerebral


garantiriam um nível básico de sentimentos, os córtices insulares assegurariam uma versão
mais diferenciada desses sentimentos e, ainda mais importante, seriam capazes de relacionar
os sentimentos com outros aspetos cognitivos, com base na atividade a decorrer em outras
zonas do cérebro.8

As provas circunstanciais a favor desta ideia são reveladoras. O núcleo do trato solitário e o
núcleo parabraquial recebem sinais que descrevem o meio interno de todo o corpo. Nada lhes
escapa. Chegam-lhes sinais da espinal medula e do núcleo trigémeo, e até mesmo sinais de
regiões cerebrais, tal como da área prostrema, bastante próxima, desprovidas da barreira
protetora entre o sangue e o cérebro, e cujos neurónios reagem diretamente a moléculas que
se deslocam na corrente sanguínea. Os sinais formam um panorama global do meio interno e
das vísceras, tratando-se essa imagem da componente principal dos nossos estados de
sentimentos. Estes núcleos estão ligados abundantemente uns aos outros, tal como estão
interligados abundantemente à substância cinzenta periaquedutal (periaqueductal gray, PAG),
situada na proximidade. A PAG é um conjunto complexo de núcleos, com múltiplas
subunidades, e é aí que tem origem uma vasta gama de reações emocionais relacionadas com
a defesa e com a agressão, e ainda com a dor. O riso e o choro, as expressões de aversão ou de
receio, bem como as reações ao frio extremo ou a fuga em situações de medo, tudo isso é
desencadeado a partir da PAG. O emaranhado de ligações entre estes núcleos adequa-se bem
à produção de representações complexas. O diagrama básico destas regiões qualifica-as para
um papel de criação de imagens, e os sentimentos constituem o tipo de imagens criadas por
estes núcleos. Além disso, como estes sentimentos representam passos fundamentais na
construção da mente, e são também essenciais para a manutenção da vida, faz sentido, a nível
de «engenharia evolutiva», que a maquinaria de apoio se baseie em estruturas alojadas,
literalmente, ao lado das que regulam a vida.9

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108

Figura 3.2: O Painel A mostra a imagem de RM de um paciente com lesões completas nos
córtices insulares, tanto no hemisfério esquerdo como no direito. À esquerda mostra-se uma
reconstrução tridimensional do cérebro do paciente. À direita temos duas secções retiradas do
cérebro (marcadas 1 e 2) ao longo das linhas, horizontal e vertical, mostradas à esquerda e
marcadas, respetivamente, com 1 e 2. A área mostrada a preto corresponde a tecido cerebral
destruído pela doença. As setas brancas apontam para os locais onde se deveria encontrar a
ínsula. O Painel B mostra um cérebro normal em 3-D e em duas secções obtidas nos mesmos
níveis. As setas pretas apontam para um córtex insular normal.

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109

A ESTRANHA SITUAÇÃO DAS CRIANÇAS

DESPROVIDAS DE CÓRTEX CEREBRAL

Por uma série de razões, as crianças podem nascer com estruturas de tronco cerebral intactas,
mas estruturas telencefálicas em grande medida ausentes, nomeadamente o córtex cerebral,
o tálamo e os gânglios basais. Esta situação infeliz deve-se frequentemente a uma apoplexia
grave que ocorre no útero e tem como consequência lesões em todo ou quase todo o córtex
cerebral, que é depois reabsorvida, deixando a cavidade craniana repleta de fluido
cerebrospinal. Esta situação é conhecida como hidranencefalia, para a distinguir de defeitos de
desenvolvimento (em geral designados como anencefalia), que comprometem outras
estruturas, para além do córtex cerebral. 10 As crianças afetadas podem sobreviver durante
muitos anos, chegando mesmo a ultrapassar a adolescência, e são com frequência
consideradas «vegetativas». Normalmente encontram-se internadas em instituições.

Todavia, estas crianças são tudo menos vegetativas. Estão, bem pelo contrário, bem despertas.
De um modo limitado, mas não negligenciável, são capazes de comunicar com quem lhes
presta cuidados e de interagir com o mundo. Têm claramente atividade mental a um nível que
pacientes em estado vegetativo ou com mutismo acinético não possuem de todo. A sua má
sorte permite-nos um raro vislumbre do tipo de mente que é possível ter na ausência do
córtex cerebral.

Como se apresentam estas infelizes crianças? Têm movimentos muito limitados devido à falta
de tonicidade na coluna e à espasticidade dos membros. Contudo, movem livremente a cabeça
e os olhos, têm expressões de emoção no rosto, podem reagir com um sorriso a estímulos que
previsivelmente provocariam um sorriso a uma criança normal um brinquedo, um
determinado som e até mesmo rir e exprimir uma alegria normal quando lhes fazem cócegas.
Conseguem mostrar um ar carrancudo e afastar-se de estímulos dolorosos. Conseguem
deslocar-se na direção de um objeto

110

ou situação que desejam por exemplo, gatinhar para um ponto no chão onde incide a luz do
Sol e onde a criança pode beneficiar do seu calor. Estas crianças parecem satisfeitas, com uma
manifes ração externa do tipo de sentimentos que seria de prever que uma criança normal
tivesse na sequência de uma reação emocional apropriada aos estímulos.

Estas crianças podem, embora de forma inconsistente, orientar a cabeça e os olhos para a
pessoa que se lhes dirige, ou que lhes toca, e revelam preferências por determinadas pessoas.
Tendem a recear os estranhos e aparentam uma maior alegria perto da mãe/prestador de
cuidados habitual. Os gostos e as aversões são notórios, sendo mais flagrante nos exemplos
com música. As crianças costumam gostar mais de certas peças musicais do que de outras,
reagem diferentemente a diferentes sons instrumentais e a diferentes vozes humanas.
Reagem igualmente a ritmos diferentes e a diferentes estilos musicais. O rosto é um bom
espelho dos seus estados emocionais. Em resumo, ficam mais alegres quando se lhes toca ou
se lhes fazem cócegas, quando ouvem as melodias preferidas e quando lhes são mostrados
certos brinquedos. É óbvio que veem e ouvem, embora não tenhamos forma de saber quanto
veem ou ouvem. A sua audição aparenta ser superior à visão.

Tudo o que veem e ouvem, obviamente, é captado a nível subcortical, muito provavelmente
nos colículos, que estão intactos. Seja o que for que sintam, é obtido a nível subcortical pelo
núcleo do trato solitário e pelo núcleo parabraquial, que estão intactos, uma vez que não há
córtex insular ou córtices somatossensoriais I e II para ajudar tal tarefa. As emoções que
produzem deverão ser desencadeadas a partir dos núcleos da substância cinzenta
periaquedutal e deverão ser executadas pelos núcleos dos nervos cranianos que controlam a
expressão facial das emoções, núcleos que também estão intactos, A gestão do processo vital
é apoiada por um hipotálamo intacto, situado imediatamente acima do tronco cerebral e
auxiliado por um sistema endócrino intacto e pela rede do nervo vago. As meninas

111

hidranencefálicas chegam mesmo a desenvolver períodos menstruais na puberdade.

Não há qualquer dúvida de que estas crianças apresentam indícios de processo mental. Além
disso, as suas expressões de alegria, mantidas ao longo de muitos segundos e mesmo de
minutos e em conformidade com os estímulos causais, devem estar associadas a estados de
sentimentos. Sou levado a partir do princípio de que o prazer que manifestam é sentido na
realidade, como prazer, ainda que não o possam descrever por palavras. Assim sendo,
chegariam ao primeiro degrau de um mecanismo ascendente que leva à consciência,
nomeadamente sentimentos ligados a uma representação integrada do organismo (um proto
eu), possivelmente modificada pela interação com objetos.

A possibilidade de possuírem de facto uma mente consciente, ainda que extremamente


modesta, é apoiada por uma descoberta curiosa. Quando estas crianças sofrem de uma crise
epilética de «ausência», os seus prestadores de cuidados detetam facilmente o início da crise;
conseguem também aperceber-se do seu final, relatando que a «criança voltou para eles». A
crise epilética parece suspender a consciência mínima que normalmente exibem.

Os indivíduos com hidranencefalia apresentam um quadro muito perturbante, que nos


informa dos limites, nos seres humanos, tanto das estruturas do tronco cerebral como do
córtex cerebral. A condição desmente a ideia de que a consciência, os sentimentos e as
emoções apenas surgem a partir do córtex cerebral. Necessariamente, tal ideia é falsa. O grau
de consciência, sentimento e emoção possível nestes casos é evidentemente muito pequeno,
é claro, e, mais importante ainda, desligado do mundo mais vasto da mente que, com efeito,
apenas o córtex cerebral pode garantir. Todavia, depois de passar grande parte da minha vida
a estudar os efeitos das lesões cerebrais na mente e no comportamento humanos, posso
afirmar que estas crianças pouco têm em comum com os pacientes em estado vegetativo, uma
condição em que a interação com o mundo

112
é ainda mais reduzida e que pode ser causada por lesões precisamente nas regiões do tronco
cerebral que estão intactas nas crianças hidranencefálicas. Se fosse de todo possível
estabelecer um paralelo, uma vez excluídos os defeitos motores, ele seria entre as crianças
com hidranencefalia e os recém-nascidos, nos quais já está claramente em funcionamento
uma mente mas onde o eu nuclear mal começou a formar-se. Isto está de acordo com o facto
de os hidranencefálicos poderem ser diagnosticados apenas meses após o nascimento, quando
os pais notam uma falha no desenvolvimento e os exames revelam uma ausência catastrófica
de córtex. A razão que explica esta vaga semelhança não é difícil de descortinar: aos bebés
normais falta um córtex cerebral totalmente mielinizado, que ainda precisa de se desenvolver.
Possuem já um tronco cerebral em pleno funcionamento, mas um córtex cerebral apenas
parcialmente funcional.

Uma nota sobre os colículos superiores

Os colículos superiores fazem parte do teto do mesencéfalo a lâmina quadrigémina , uma


região inter-relacionada com os núcleos da substância cinzenta periaquedutal e,indiretamente,
com o núcleo do trato solitário e com o núcleo parabraquial. É bem conhecido o envolvimento
do colículo superior no comportamento relacionado com a visão. Contudo, o possível papel
destas estruturas no processo da mente e do eu raramente tem sido tomado em conta,
embora haja exceções notáveis no trabalho de Bernard Strehler, Jaak Panksepp e Bjorn
Merker.11

A anatomia do colículo superior é fascinante e quase nos obriga a imaginar o que esta
estrutura poderá levar a cabo. O colículo superior apresenta sete camadas: as camadas I a III
são as camadas superficiais, enquanto as camadas IV a VII são chamadas profundas. Todas as
ligações de entrada e saída das camadas superficiais estão relacionadas com a visão e a
camada II, a principal camada

113

superficial, recebe sinais da retina e do córtex visual primário. Estas camadas superficiais
formam um mapa retinotópico do campo visual contralateral.12

As camadas profundas do colículo superior contêm, além de um mapa do mundo visual, mapas
topográficos de informação auditiva e somática, sendo estes últimos oriundos da espinal
medula e do hipotálamo. As três variedades de mapas - visual, auditivo e somático mantêm
um registo espacial. Isso significa que se encontram alinhados de uma forma tão precisa que a
informação disponível num dos mapas, por exemplo o da visão, corresponde à informação de
outro mapa relacionado com a audição ou com o estado corporal.13 Os sinais correspondentes
à visão de um objeto que simultaneamente toca no corpo podem ser integrados nesta
estrutura. Não existe outro local no cérebro onde a informação disponibilizada pela visão, pela
audição e pelos múltiplos aspetos dos estados corporais esteja sobreposta de modo tão literal,
oferecendo uma tão eficiente e direta integração. Esta integração torna-se ainda mais
significativa pelo facto de os seus resultados poderem chegar ao sistema motor (através das
estruturas próximas na substância cinzenta periaquedutal, bem como através do córtex
cerebral).

No outro dia, um simpático lagarto corria no meu terraço atrás de uma mosca tola que insistia
em incomodá-lo, voando perigosamente baixo. O lagarto acompanhou perfeitamente a mosca
e por fim apanhou-a com a língua, que se moveu no momento exato. Os neurónios coliculares
calcularam as coordenadas da mosca, a cada momento, e guiaram os músculos do lagarto na
altura própria, quando a presa ficou ao seu alcance. A adaptação perfeita deste com-
portamento visual-motor ao ambiente é espantosa. Agora imagine o leitor o disparo rápido e
sequencial dos neurónios no colículo superior do lagarto, espante-se mais um pouco, e faça
uma breve pausa para se interrogar. O que viu o lagarto? Não faço ideia, mas imagino que
tenha visto um ponto negro a ziguezaguear no seu campo de visão, em tudo o resto vago. O
que sabia o lagarto quanto ao que estava

114

a acontecer? Creio que nada, segundo a nossa aceção de conhecimento. E o que sentiu
enquanto comia a refeição que conseguiu com tanto esforço? Imagino que o seu tronco
cerebral tenha registado a conclusão bem-sucedida do seu comportamento e o resultado de
um estado homeostático melhorado. É bem possível que o lagarto tenha tido um sentimento
positivo reconfortante ?, embora não lhe fosse possível refletir sobre a competência notável
que acabara de demonstrar. Nem sempre é fácil ser verde.

No que respeita ao colículo superior, esta poderosa integração de sinais tem um objetivo óbvio
e imediato: angariar a informação necessária para orientar uma ação precisa e eficaz, seja ela
um movimento dos olhos, dos membros ou mesmo da língua. Isso é conseguido graças a
ligações abundantes entre os colículos e todas as regiões cerebrais necessárias para guiar o
movimento, no tronco cerebral, na espinal medula, no tálamo e no córtex cerebral. Todavia,
para além de uma orientação eficiente do movimento, é possível que este belo dispositivo
motor tenha consequências mentais «internas». É bem provável que os mapas integrados do
colículo superior produzam imagens, de forma alguma tão ricas como as produzidas no córtex
cerebral, mas imagens, apesar de tudo. Será provavelmente aqui que se poderão encontrar
alguns começos da mente na evolução biológica, e talvez seja possível também encontrar aqui
os começos do eu.14

E que dizer sobre o colículo superior dos seres humanos? A destruição seletiva do colículo
superior é rara nos seres humanos, a tal ponto que a literatura neurológica regista um único
caso, de lesão bilateral, felizmente estudado por um importante neurologista e neurocientista,
Derek Denny-Brown.15 A lesão foi consequência de um traumatismo o paciente sobreviveu
durante meses num estado de consciência gravemente debilitado que se assemelhava a
mutismo acinético. Isto sugere que os processos mentais ficaram deveras comprometidos, mas
devo

115

acrescentar que quando observei um paciente com lesões coliculares, apenas notei uma leve
perturbação da consciência.

Que seria capaz de ver se perdesse ambos os córtices visuais? Ver apenas com os colículos
consiste provavelmente em detetar que um objeto X, não especificado, se desloca num dos
quadrantes da visão, por exemplo a afastar-se de mim, ou a vir na minha direção. Seja como
for, não serei capaz de descrever mentalmente um tal objeto, e talvez nem tenha consciência
dele. Estamos a falar aqui de uma mente muito vaga, que reúne informações esquemáticas
sobre o mundo, embora o facto de as imagens serem vagas e incompletas não as torne inúteis,
tal como o mostra a cegueira cortical, No entanto, quando os córtices visuais estão ausentes à
nascença, como nos casos de hidranencefalia descritos anteriormente, é possível que tanto os
colículos superiores como os inferiores possam contribuir de forma mais substancial para os
processos mentais.
Resta-me acrescentar um último facto aos dados que favorecem a promoção dos colículos
superiores ao estatuto de contribuinte da mente. O colículo superior produz oscilações
elétricas na amplitude gama, um fenómeno que tem sido associado à ativação sincrónica dos
neurónios e que o neurofisiólogo Wolf Singer considera um correlato de perceção coerente e,
talvez mesmo, de consciência. Até a data, o colículo superior é a única região do cérebro fora
do córtex cerebral onde é possível encontrar oscilações na amplitude gama.16

Mais perto da criação da mente?

o quadro que emerge do que acabo de apresentar indica que a criação da mente é um
processo extremamente seletivo. Não se trata de todo o sistema nervoso central estar
uniformemente envolvido no processo. Certas regiões não participam, algumas participam
mas não são atores principais, e outras levam a cabo a maior parte do trabalho. Entre estas,
algumas garantem imagens pormenorizadas,

116

outras providenciam um tipo de imagens simples mas essencial, como os sentimentos


corporais. Todas as regiões envolvidas na criação da mente apresentam padrões
extremamente diferenciados de interconetividade, o que sugere que são capazes de uma
integração de sinais muito complexa.

O contraste entre o conjunto das regiões que contribuem para o esforço de criação da mente e
das que não contribuem, não nos revela que tipo de sinais os neurónios têm de produzir, não
especifica as frequências ou as intensidades de ativação dos neurónios, nem os padrões de
coligação entre os diferentes grupos de neurónios Mostra-nos, porém, certos aspetos do
diagrama de interconexões de que os neurónios precisam para participar na criação da mente,
Por exemplo, as zonas corticais envolvidas na criação da mente são aglomerados de regiões
interligadas, que se organizam em torno dos pontos de entrada da informação oriunda das
sondas periféricas, As zonas subcorticais de criação da mente são também aglomerados de
regiões intensamente interligadas, neste caso núcleos, e estão igual· mente organizadas em
torno da informação oriunda de uma outra «periferia» - nomeadamente do próprio corpo.

Outra exigência, que se aplica igualmente ao córtex cerebral e aos núcleos subcorticais: terá de
haver uma interconetividade massiva entre as regiões que criam a mente para que se alcance
um nível elevado de intercruzamento de sinais, e para que a recursividade prevaleça. (Os
termos recursivo e reentrante referem-se a uma transmissão de sinais que não só progride ao
longo de uma única cadeia, mas também num percurso inverso dirigido ao ponto de origem de
cada cadeia.) As regiões de criação da mente no córtex também recebem inúmeras
informações de uma série de núcleos localizados subcorticalmente, alguns no tronco cerebral
e outros no tálamo; eles modulam a atividade cortical através de neuromoduladores (como as
catecolaminas) e de neurotransmissores (como o glutamato).

Por fim, é necessária uma certa distribuição temporal dos sinais para que os elementos de um
estímulo que chegaram juntos

117

à retina ou à córnea se possam manter juntos, à medida que os sinais são processados no
interior do cérebro. Para que surja a mente, é necessário que os pequenos circuitos neurais se
comportem de um modo muito específico. Por exemplo, em pequenos circuitos cuja atividade
indica a presença de uma determinada característica, os neurónios aumentam o seu ritmo de
disparo. Os conjuntos de neurónios que trabalham juntos para indicar uma determinada
combinação de características têm de sincronizar os seus ritmos de disparo. Isto foi
originalmente demonstrado no macaco, por WolfSinger e pelos seus colegas (e também por R.
Eckhorn), que descobriram que regiões separadas do córtex visual envolvidas no
processamento do mesmo objeto exibiam uma atividade sincronizada na frequência dos 40
Hz17 A sincronização é provavelmente alcançada graças a oscilações na atividade neural.
Quando o cérebro está a formar imagens percecuais, os neurónios das regiões separadas que
contribuem para a perceção apresentam oscilações sincronizadas na amplitude gama. Isto
pode fazer parte do segredo por detrás da «reunião» (binding), através do tempo, de regiões
separadas no espaço. Irei aludir a este mecanismo para explicar a operação das zonas de
convergência-divergência (capítulo 6) e a construção do eu (capítulos 8, 9 e 10).18 Por outras
palavras, além de construir mapas complexos numa série de locais separados, o cérebro tem
de relacionar os mapas entre si, em grupos coerentes. A sincronização poderá bem ser a chave
dessa relação.

Em resumo, a noção de mapa enquanto entidade discreta é meramente uma abstração. A


abstração oculta o número extremamente elevado de interconexões neurais que estão
envolvidas em cada região separadamente e que dão origem a um grau elevadíssimo de
complexidade de sinais. Aquilo que experienciamos como estados mentais corresponde não só
à atividade numa zona cerebral discreta, mas sobretudo ao resultado de uma sinalização
recursiva massiva que envolve múltiplas regiões. Ainda assim, tal como direi no capitulo 6, os
aspetos explícitos de certos conteúdos mentais um rosto particular, uma certa voz serão
provavelmente coligidos ou

118

montados num determinado aglomerado de regiões cerebrais cuja arquitetura se presta à


montagem de mapas, embora com a ajuda de outras regiões que para isso contribuem. Por
outras palavras, existe uma especificidade anatómica por trás da criação da mente, uma
diferenciação funcional refinada no meio do caos da complexidade global.

À medida que nos esforçamos para entender a base neural da mente, podemos interrogar-nos
se o que ficou dito atrás são boas ou más notícias. Há duas formas de reagir a tal pergunta.
Uma reação consiste em sentirmo-nos desencorajados com tamanha confusão convencidos de
que uma imagem clara desta maquinaria jamais possa ser encontrada. Uma outra reação
consiste em receber de braços abertos toda esta complexidade, e aceitar que o cérebro
precisa desta confusão aparente para criar algo tão rico, refinado e adaptativo como são os
estados mentais. Vou pela segunda reação. Ser-me-ia difícil acreditar que um mapa discreto,
numa única região cortical me permitiria escutar as Partitas para piano de Bach ou contempla
o Grande Canal de Veneza, e muito menos apreciá-los e descobrira seu significado no grande
esquema das coisas. No que ao cérebro diz respeito, menos é mais, apenas quando desejamos
comunicar a essência de um fenómeno. Caso contrário, mais é sempre melhor.

CAPITULO 4

O corpo em mente

A mente como tema


Antes de a consciência se tornar o problema central na pesquisa sobre a mente e o cérebro, o
debate intelectual era dominado por uma questão muito próxima, conhecida como problema
«mente-corpo». De uma forma ou de outra foi-se mantendo presente no pensamento de
filósofos e de cientistas, desde Descartes e Espinosa até aos nossos dias. O arranjo funcional
descrito no capítulo 3 deixa bem clara a minha posição em relação ao problema: a capacidade
de mapeamento do cérebro garante um elemento essencial para a sua resolução. Os cérebros
complexos como o nosso criam naturalmente mapas explícitos das estruturas que compõem o
corpo, com maior ou menor grau de pormenor. Inevitavelmente, o cérebro também mapeia os
estados funcionais assumidos naturalmente por esses componentes corporais. Uma vez que,
tal como vimos, os mapas cerebrais são a base das imagens mentais, o cérebro criador de
mapas tem o poder de introduzir, literalmente, o corpo como

120

conteúdo no processo mental. Graças ao cérebro, o corpo torna-se um tema natural da mente.

Todavia, este mapeamento do corpo realizado pelo cérebro tem um aspeto peculiar e
sistematicamente ignorado: embora o corpo seja a entidade mapeada, ele nunca perde o
contacto com quem realiza o mapa, ou seja, o cérebro. Em circunstâncias normais corpo e
cérebro encontram-se ligados um ao outro desde o nascimento do organismo até à morte.
Igualmente importante, as imagens mapeadas do corpo conseguem influenciar de modo
permanente o próprio corpo que as originou. Trata-se de uma situação sem paralelo. Não:
existe nada comparável nas imagens mapeadas de objetos e acontecimentos exteriores ao
corpo, as quais nunca exercem qualquer influência direta sobre os respetivos objetos e
acontecimentos. Creio que qualquer teoria sobre a consciência que não incorpore estes factos
está destinada ao fracasso.

As razões por trás da ligação corpo-cérebro foram já apresentadas. A gestão da vida consiste
na gestão de um corpo e essa gestão torna-se mais precisa e eficiente com a presença de um
cérebro, mais especificamente com a presença de circuitos neurais que apoiem na gestão. Já
salientei que os neurónios estão relacionados com a vida e com a gestão da vida em outras
células do corpo, e que essa relação exige uma troca de sinais em ambos os sentidos. Os
neurónios agem sobre outras células do corpo através de mensagens químicas ou da excitação
dos músculos, mas para levarem a cabo o seu trabalho precisam, por assim dizer, de inspiração
do corpo que terão de incitar. Nos cérebros simples, o corpo instiga o cérebro limitando-se a
enviar sinais aos núcleos subcorticais. Os núcleos possuem um «conhecimento disposicional»,
o tipo de conhecimento que não precisa de representações mapeadas em pormenor. Contudo,
nos cérebros complexos, os córtices cerebrais que criam mapas descre

121

vem o corpo e suas ações com um pormenor de tal forma explícito que os donos desses
cérebros conseguem, por exemplo, «visualizar» a forma dos seus membros e a sua posição no
espaço, ou o fato de terem uma dor no cotovelo ou no estômago. Trazer o corpo à mente é a
derradeira expressão do facto de que o cérebro é «acerca do corpo», da sua atitude
intencional quanto ao corpo, para exprimir o conceito em termos que evoquem as ideias de
filósofos como Franz Brentano.1 Brentano chegou mesmo a encarar a atitude intencional como
o expoente dos fenómenos mentais e acreditava que aos fenômenos físicos faltavam atitudes
intencionais (faltava-lhes «aboutness», a propriedade de serem «acerca» de uma outra coisa).
Não parece ser esse o caso. Tal como vimos no capítulo 2, os organismos unicelulares também
parecem ter intenções no mesmo sentido. Por outras palavras, é claro que nem um cérebro
completo nem as células isoladas têm uma intenção deliberada com o seu comportamento,
mas a sua atitude deixa transparecer que poderia ser esse o caso. Trata-se de mais um motivo
para negar o abismo intuitivo entre os mundos mental e físico. Neste aspeto, pelo menos, esse
abismo não existe.2

Existem duas outras consequências espetaculares desta relação do cérebro com o corpo, e
também elas são indispensáveis para esclarecer os enigmas tanto da «mente-corpo» como da
«consciência». O mapeamento global e exaustivo do corpo cobre não só aquilo que em geral
encaramos como sendo o corpo propriamente dito o sistema músculo-esquelético, os órgãos
internos, o ambiente interno - mas também os dispositivos especiais de perceção localizados
em sítios específicos do corpo, os postos de espionagem do corpo mucosas olfativas e do
paladar, elementos tácteis da pele, ouvidos, olhos. Esses dispositivos estão situados no corpo,
tal como o estão o coração e os intestinos, mas ocupam posições privilegiadas. Digamos que
são como diamantes engastados numa estrutura. Todos esses dispositivos são compostos por
uma parte «antiga» (a armadura para os diamantes) e outra «moderna», do

122

ponto de vista da evolução, claro, uma «sonda neural », delicada e especial (os diamantes).
Exemplos importantes da armadura incluem: o pavilhão auricular, o canal auditivo, o ouvido
médio com os seus ossículos e a membrana do tímpano; e a pele e os músculos em redor dos
olhos, os vários componentes do globo ocular, além da retina, como seja o cristalino e a pupila
(o termo técnico com que designo as armaduras é «portadas dos órgãos sensoriais», que
corresponde ao termo original «sensory portals»), Exemplos das delicadas sondas neurais
incluem: a cóclea no ouvido interno, com, as suas sofisticadas células ciliadas e capacidades de
mapeamento de som; e a retina ao fundo do globo ocular, onde são projetadas as imagens
óticas. A combinação da armadura com a sonda neural constitui uma fronteira. Os sinais que
nos chegam vindos do mundo exterior têm de transpor essa fronteira para entrarem no
cérebro. Não entram diretamente no cérebro.

Devido a este curioso plano, a representação do mundo exterior ao corpo apenas pode
penetrar no cérebro através do próprio corpo, nomeadamente através de uma parte da sua
superfície. O corpo e o ambiente circundante interagem entre si e as alterações provocadas no
corpo por essa interação são mapeadas no cérebro. É verdade que a mente conhece o mundo
exterior através do cérebro, mas é igualmente verdadeiro que o cérebro apenas pode ser
informado através do corpo.

A segunda consequência especial desta relação profunda que o cérebro tem com o corpo é
igualmente notável: ao mapear o seu corpo de uma forma integrada, o cérebro consegue criar
o componente crucial daquilo que se virá a tornar o eu. Veremos que o mapeamento do corpo
é uma chave para a resolução do problema da consciência.

Por fim, como se todos os factos atrás referidos não fossem por isso extraordinários, a relação
próxima entre o corpo e o cérebro é essencial para compreender algo também central na
nossa vida: os sentimentos corporais espontâneos, as emoções e os sentimentos emocionais.

123

Mapear O corpo
Como consegue o cérebro mapear o corpo? Poder-se-ia dizer que o faz tratando o corpo e os
seus componentes como qualquer outro objeto mas isso não faria justiça ao processo, pois no
que diz respeito ao cérebro, o corpo é mais do que um mero objeto: trata-se do objeto central
do mapeamento cerebral, o primeiríssimo foco das suas atenções. (Sempre que possível
empregarei o termo corpo para referir «o corpo propriamente dito», deixando o cérebro de
lado. É claro que este também faz parte do corpo, mas detém um estatuto especial: é a parte
do corpo capaz de comunicar com todas as outras partes do corpo, e com quem todas as
partes do corpo comunicam.)

William James teve a noção de quanto o corpo precisava de chegar ao cérebro, mas não teve
forma de conhecer toda a complexidade dos mecanismos responsáveis pela concretização da
transferência corpo-mente.3 O corpo serve-se tanto de sinais químicos como de sinais neurais
para comunicar com o cérebro, e a gama de informações transmitidas é mais vasta e mais
pormenorizada do que James alguma vez poderia ter imaginado. Com efeito, estou hoje
convencido de que falar meramente sobre comunicação entre corpo e cérebro acaba por
passar ao lado da questão. Embora parte dos sinais transmitidos do corpo e cérebro venha a
resultar num mapeamento concreto (por exemplo, o mapeamento da posição de um membro
no espaço), uma parte substancial dos sinais são primeiramente tratados pelos núcleos
subcorticais, na espinal medula e especialmente no tronco cerebral, que não devem ser vistos
como meros apeadeiros para mensagens que o corpo envia para o córtex cerebral. Como
veremos na secção seguinte, algo é acrescentado nesse estádio intermédio. Isso é bastante
importante no que diz respeito aos sinais relacionados com o interior do corpo que se vêm a
tornar em sentimentos. Além disso, certos aspetos da estrutura e da função físicas do corpo
encontram-se gravados nos circuitos cerebrais logo desde o início do desenvolvimento,
gerando padrões de atividade persistentes. Por outras palavras,

124

há sempre uma versão do corpo a ser recriada na atividade cerebral. A heterogeneidade do


corpo é imitada no cérebro, sendo esta uma, das mais importantes características da relação
que o cérebro mantém com o corpo. Por último, o cérebro é capaz de fazer mais do que
simplesmente mapear estados que estão de facto a ocorrer, com mais ou menos fidelidade:
pode também transformar estados corporais, o que é ainda mais impressionante, simular
estados corporais que ainda não ocorreram.

Quem não está familiarizado com a neurociência poderá partir do princípio de que o corpo
funciona como uma unidade, um pedaço de carne ligado ao cérebro por fios vivos chamados
nem A realidade é muito diferente. O corpo possui numerosos compartimentos separados. É
verdade que as vísceras, às quais se presta tanta atenção, são essenciais. A lista incompleta de
vísceras inclui os suspeitos do costume: coração, pulmões, intestinos, fígado e pâncreas boca,
língua e garganta; as glândulas endócrinas (por exemplo, pituitária, tiróide, supra-renal); os
ovários e os testículos. No entanto a lista terá de incluir suspeitos menos comuns: um órgão
igualmente vital mas menos reconhecido, a pele, que envolve todo o organismo a medula
óssea; e dois dinâmicos sistemas chamados sanguíneo linfático. Todos estes compartimentos
são indispensáveis para o funcionamento normal do corpo.

Talvez não surpreenda que as mentes humanas da Antiguidade menos integradas e


sofisticadas do que as nossas, se tenham facilmente apercebido da realidade parcelar,
fragmentada do nosso corpo, conforme sugerem as palavras sobre o corpo que nos chegaram
de Homero. Os seres humanos da Ilíada, por exemplo, não falam de um corpo na sua
totalidade (soma) mas sim de partes do corpo nomeadamente os membros. O sangue, o ar
que respiramos e as funções viscerais são designadas pelo termo psyche, que na altura ainda

125

não fora convocado como «mente», ou «alma». A animação que impulsiona o corpo,
provavelmente misturada com os drives e com a emoção, é o thumos e o pbren.4

A comunicação corpo-cérebro faz-se em ambos os sentidos, do corpo para o cérebro e na


direção inversa. No entanto, esses dois sentidos de comunicação não são de todo simétricos.
Os sinais corpo cérebro, neurais e químicos, permitem ao cérebro criar e manter o seu
documentário multimédia sobre o corpo, e permitem ao corpo alertar o cérebro para
alterações importantes que ocorram na sua estrutura e no seu estado. O meio interno - o
banho onde habitam todas as células do corpo e do qual as químicas sanguíneas são uma
expressão - envia também sinais ao cérebro, não através dos nervos mas sim através de
moléculas químicas, que colidem diretamente com certas partes do cérebro concebidas para
receber essas mensagens. A gama de informações transmitidas ao cérebro é assim
extremamente vasta. Inclui, por exemplo, o estado de contração ou dilatação dos músculos
lisos (os músculos que formam, por exemplo, as paredes das artérias, os intestinos e os
brônquios); a quantidade de oxigénio e de dióxido de carbono concentrados localmente em
qualquer região do corpo; a temperatura e o pH em variados locais; a presença local de
moléculas químicas tóxicas; etc. Por outras palavras, o cérebro conhece o estado passado do
corpo e pode ficar a saber de alterações ocorridas nesse estado. Isso torna-se essencial para
que o cérebro possa levar a cabo as reações corretivas necessárias a alterações que ameaçam
a vida. Por outro lado, os sinais cérebro corpo, tanto neurais como químicos, consistem em
ordens para alterar o corpo. O corpo diz ao cérebro: é assim que sou constituído e é neste
estado que me encontro agora. O cérebro diz ao corpo o que fazer para manter o equilíbrio.
Sempre que tal lhe é solicitado, o cérebro também diz ao corpo como deve criar um estado
emocional.

126

O corpo não se resume a órgãos internos e a um meio interno, Existem igualmente músculos,
que surgem em duas variedades: lisos estriados. A variedade estriada apresenta «faixas»
(estrias) caracteristicas ao microscópio, ao passo que a lisa não as exibe. Os músculos lisos são
antigos a nível evolutivo e limitam-se às vísceras os intestinos e os brônquios contraem-se e
distendem-se graças aos músculos lisos, As paredes das artérias são, em grande parte,
compostas por músculos lisos a pressão arterial sobe quando eles se contraem em torno da
artéria. Os músculos estriados estão ligados aos ossos do esqueleto e produzem o movimento
externo do corpo. A única exceção a este esquema tem a ver com o coração, o qual é também
feito de músculos estriados e cujas contrações não se destinam ao movimento do corpo mas
sim a bombear o sangue. Por isso, os sinais que descrevem o estado do coração são enviados
para as zonas do cérebro dedicadas às vísceras e não às atribuídas ao movimento.

Quando os músculos do esqueleto estão ligados a dois ossos ligados por uma articulação, a
contração das fibras resulta em movimento. Agarrar um objeto, andar, falar, respirar e comer
são ações que dependem da contração e da distensão dos músculos do esqueleto. Sempre que
essas contrações ocorrem, a configuração do corpo muda. Salvo em momentos de absoluta
imobilidade, bastante raros no estado de vigília, a configuração do corpo no espaço muda
continuamente e o mapa do corpo representado no cérebro altera-se de acordo com essas
mudanças.
Para que os movimentos possam ser controlados com precisão, o corpo tem de transmitir
instantaneamente ao cérebro informações sobre o estado da contração dos músculos do
esqueleto. Isso exige vias nervosas eficientes, que a um nível evolutivo são mais modernas do
que aquelas que transmitem sinais a partir das vísceras e do meio interno. Essas vias chegam a
regiões do cérebro que têm como única função mapear o estado dos músculos

127

Tal como referimos, o cérebro também envia mensagens ao corpo. Com efeito, muitos aspetos
dos estados corporais que são continuamente mapeados no cérebro foram de início causados
por sinais enviados do cérebro para o corpo. À semelhança do que acontece na comunicação
entre o corpo e o cérebro, este fala com o corpo através de vias tanto neurais como químicas.
A via neural serve-se de nervos cujas mensagens levam à contração dos músculos e à execução
de ações. Entre as vias químicas contam-se as hormonas, como, por exemplo, o cortisol, a
testosterona ou os estrogénios. A libertação de hormonas altera o meio interno e o
funcionamento das vísceras.

Entre o corpo e o cérebro decorre uma dança interativa contínua. Os pensamentos


implementados no cérebro podem induzir estados emocionais que são implementados no
corpo, enquanto que o corpo pode alterar a paisagem cerebral e, dessa forma, alterar o
substrato dos pensamentos. Os estados cerebrais, que correspondem a certos estados
mentais, levam à ocorrência de determinados estados corporais; estes estados são então
mapeados no cérebro e incorporados nos estados mentais que estão a decorrer. Uma pequena
alteração no lado cerebral do sistema pode ter consequências profundas no estado corporal
(imaginemos a libertação de uma hormona): de igual forma, uma pequena alteração no lado
do corpo (imaginemos uma obturação que se solta) pode ter um efeito profundo sobre a
mente assim que essa mudança é mapeada e percebida como dor aguda.

Do corpo ao cérebro

A extraordinária escola europeia de fisiologia que floresceu entre meados do século XIX e o
início do século XX esboçara a transmissão de informação entre o corpo e o cérebro com uma
precisão admi-

128

rável, mas a relevância deste esquema geral para a compreensão do problema mente-corpo
passou despercebida. Não surpreende que os pormenores neuroanatómicos e
neurofisiológicos só tenham sido desvendados em anos recentes.5

O estado do interior do corpo é transmitido ao cérebro através de vias neurais dedicadas,


ligadas a regiões específicas do cérebro. Tipos especiais de fibras nervosas (fibras A e C)
transportam sinais de rodos os recantos do corpo até certas partes do sistema nervoso central
(como, por exemplo, a lâmina I do corno posterior da espinal medula), a todos os níveis da
extensão vertical da espinal medula, e a pars caudalis do núcleo do nervo trigémeo. Os
componentes da espinal medula tratam dos sinais do meio interno e das vísceras, com exceção
da cabeça - peito, abdómen e membros. O núcleo do nervo trigémeo trata dos sinais do meio
interno e das vísceras da cabeça, incluindo o rosto e a sua pele, o couro cabeludo e a crucial
membrana meníngea geradora de dor, a dura-máter As regiões do cérebro encarregues de
tratar de todos estes sinais depois de eles terem entrado no sistema nervoso central são
também regiões dedicadas.
O mínimo que se pode dizer é que a par da informação química disponível na corrente
sanguínea, estas mensagens neurais informam o cérebro acerca do estado de boa parte do
interior do corpo: o estado dos componentes viscerais e químicos do corpo comido pelo
perímetro da pele.

A complementar o mapeamento complexo da sensação interior atrás descrita, à qual nos


referimos como interocepção, encontram-se as vias que mapeiam o estado dos músculos do
esqueleto, que fazem parte da exterocepção. As mensagens dos músculos do esqueleto
servem-se de fibras nervosas diferentes e que são condutoras rápidas fibras Aa. e Ay , bem
como de diferentes estações do sistema nervoso central. O resultado da transmissão de todos
estes sinais é a criação de um quadro multidimensional do corpo dentro do cérebro e, a partir
daí, dentro da mente.6

129

Representar quantidades e idealizar qualidades

A transmissão de sinais entre o corpo e o cérebro que acabo de descrever não se limita a tratar
da representação das quantidades de determinadas moléculas ou dos graus de contração dos
músculos. É verdade que as vias entre o corpo e o cérebro transmitem informação sobre
quantidades (quanto CO2 ou 02 está presente; quanto açúcar existe no sangue; etc.). Contudo,
os resultados da transmissão apresentam igualmente um aspeto qualitativo. Sente-se que o
estado do corpo se encontra numa determinada variação de prazer ou dor, de descontração
ou tensão: pode haver uma sensação de energia ou de lassidão, de leveza ou peso físico; de
fluxo livre ou de resistência, de entusiasmo ou desencorajamento. Como será possível alcançar
este efeito qualitativo de fundo? Em primeiro lugar, dispondo os vários sinais quantitativos
que chegam às estruturas do tronco cerebral e aos córtices insulares de forma a compor
paisagens diferentes para os acontecimentos que estão a decorrer no corpo.

Para entender melhor a minha ideia, peço ao leitor que imagine um estado de prazer (ou de
angústia) e tente fazer uma lista dos seus componentes, elaborando um breve inventário das
várias partes do corpo alteradas durante o processo, façam elas parte do sistema endócrino,
cardíaco, circulatório, respiratório, intestinal, epidérmico ou muscular. Agora, pense que o
sentimento que irá viver é a perceção integrada de todas as alterações que têm lugar no seu
corpo. Como exercício, pode tentar compor o sentimento, atribuindo valores de intensidade a
cada componente física. Para cada exemplo que imaginar, irá obter uma diferente qualidade.

Claro que existem outras formas de construir qualidades. Em primeiro lugar, tal como
sublinhado anteriormente, um número significativo de sinais corporais é sujeito a um
tratamento adicional em certos núcleos do sistema nervoso central. Por outras palavras, os
pontos intermédios em que os sinais são processados não são meras estações retransmissoras.
Por exemplo, a maquinaria das emoções situada no

131

núcleo da substância cinzenta periaquedutal irá provavelmente influenciar, direta e


indiretamente, o processamento dos sinais corporais ao nível do núcleo parabraquial. Não se
sabe ao certo o que é acrescentado, em termos neurais, durante este processo, embora essa
adição possa contribuir para a qualidade experiencial dos sentimentos. Em segundo lugar, as
regiões que recebem os sinais corpo-cérebro reagem, por sua vez, alterando o estado corrente
do corpo. Encaro essas reações como o início de um apertado arco ressonante bidirecional
entre os estados corporais e os estados cerebrais. O mapeamento cerebral do estado do corpo
e o estado efetivo do corpo nunca se afastam muito. A sua fronteira é vaga. Corpo e cérebro
ficam virtualmente

Figura 4.1: Esquema dos núcleos chave do tronco cerebral envolvidos na regulação
vital(homeostase).Estão assinalados três níveis do tronco cerebral em ordem descendente
(mesencéfalo, protuberância e wspinal medula); o hipotámo (que é um componente funcional
do tronco cerebral, mesmo fazendo parte, anatomicamente, do diencéfalo) também está
incluído. A transmissão de sinais de e para o corpo, e de e para o córtex cerebral está indicada
por setas verticais. Apenas se representam as interligações básicas, e apenas se incluem os
principais núcleos envolvidos na homeostase. Não estão incluídos os núcleos reticulares
clássicos, nem os núcleos monoaminérgicos e colinérgicos. O tronco cerebral é muitas vezes
considerado uma mera conduta para os sinais entre o corpo e o cérebro e vice-versa, mas a
realidade é diferente. Estruturas como o NTS e o PBN transmitem sinais do corpo para o
cérebro, mas não de forma passiva. Estes núcleos, cuja organização topográfica é precursora
da do córtex cerebral, reagem aos sinais corporais, regulando assim o metabolismo e
resguardando a integridade dos tecidos do corpo. Além disso, as suas ricas interacções
recursivas (assinaladas com setas em ambos os sentidos) sugerem que no processo de
regulação vital podem ser criados novos padrões de sinais. A PAG, criadora de reacções
químicas e motoras complexas dirigidas ao corpo (como por exemplo as reacções envolvidas
na reacção à dor e nas emoções), está igualmente ligada de forma recursiva ao PBN e ao NTS.
A PAG é uma ligação essencial no ciclo interactivo entre o corpo e cérebro. Será lícito aventar a
hipótese de que no processo da regulação vital, as redes formadas por estes núcleos também
dão origem a estados neurais compósitos. A palavra sentimentos descreve o aspecto mental
desses estados.

ABREVIATURAS: AP=área postrerna, NTS=nucleus tractus solitarius:

PBN= núcleo parabraqueal; PAG=substância cinzenta periaquedutal; SC=colículo superior

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

132

fundidos. A sensação de que algo está a decorrer no corpo está ligada a este arranjo funcional.
Um ferimento que seja mapeado no tronco cerebral (no núcleo parabraquial) e interpretado
como dor desencadeia uma série de reações dirigidas ao corpo. As reações iniciam-se no
núcleo parabraquial e são executadas nos núcleos de substância cinzenta periaquedutal. Estes
provocam uma reação emociona e uma mudança no processamento dos sinais de dor, o que
altera de imediato o estado do corpo e, por sua vez, o mapa do corpo que o cérebro fará a
seguir. Além disso, as reações com origem nas regiões somatossensoriais do cérebro (toda e
qualquer região que mapeia o corpo é uma região somatossensorial) irão provavelmente
alterar o funcionamento de outros sistemas perceptuais, ajustando assim não só a perceção
corrente do corpo mas também a do contexto em que ocorre a transmissão de sinais do corpo.
No exemplo do ferimento, a par de um corpo alterado, o processamento cognitivo irá também
ser alterado. O leitor não será capaz de apreciar devidamente a atividade que estava a realizar
enquanto sentir a dor causada pelo ferimento. Esta alteração de cognição será provavelmente
conseguida através da libertação de moléculas a partir do tronco cerebral e dos núcleos neu·
romoduladores do prosencéfalo basal. Globalmente, estes processos levam à formação de
mapas qualitativamente distintos, uma contribuição para a base das experiências de dor e de
prazer.
Sentimentos primordiais

A questão de como os mapas percetuais do estado do nosso corpo se tornam sentimentos


corporais de como os mapas percetuais são sentidos e vividos não é apenas central para a
compreensão, da mente consciente; faz parte integrante dessa compreensão. Não, é possível
explicar cabalmente a subjetividade sem saber algo ma acerca da origem dos sentimentos e
reconhecer a existência de sentimentos primordiais, expressões espontâneas do estado do
corpo vivo.

133

Em teoria, os sentimentos primordiais resultam exclusivamente do corpo vivo e precedem


toda a interação entre a maquinaria da regulação vital e qualquer objeto. Os sentimentos
primordiais baseiam-se no funcionamento dos núcleos do tronco cerebral superior, parte
integrante da maquinaria de regulação vital. Os sentimentos primor- diais são os antecedentes
de todos os outros sentimentos. Voltarei a este conceito na parte III.

Mapear estados corporais e simular estados corporais

É facto comprovado que o corpo, na maioria dos seus aspetos, está sujeito a um mapeamento
contínuo por parte do cérebro e que uma quantidade variável mas considerável de informação
corporal chega à mente consciente. Para que o cérebro coordene os estados fisiol6gicos do
corpo, o que pode fazer sem que tenhamos uma perceção consciente do que se está a passar,
ele tem de estar informado quanto aos vários parâmetros fisiológicos em diferentes regiões do
corpo. Para que permita reações de controlo ótimas, a informação terá de ser fidedigna e
atualizada.

Todavia, esta não é a única forma de conceber as relações do corpo e do cérebro. Por volta de
1990, propus que em determinadas circunstâncias - por exemplo, à medida que uma emoção
se desenrola, o cérebro cria rapidamente mapas do corpo, comparáveis aos que seriam criados
no corpo caso este fosse realmente alterado por essa emoção. Essa criação pode ocorrer antes
das alterações emocionais que têm lugar no corpo, ou mesmo em vez dessas alterações. Por
Outras palavras, o cérebro pode simular, em regiões sornatossensoriais, certos estados do
corpo, como se estivessem mesmo a ocorrer; e uma vez que a nossa perceção de qualquer
estado do corpo se baseia nos mapas corporais das áreas somatossensoriais, apercebemo-nos
do estado do corpo como se este de facto estivesse a ocorrer, mesmo que não seja esse o
caso.7

134

Na altura em que a hipótese do «arco "como se" do corpo» foi inicialmente avançada, as
provas que consegui reunir em sua defesa eram circunstanciais. Faz sentido que o cérebro
tenha conhecimento do estado corporal que está prestes a produzir. As vantagens deste tipo
de «simulação avançada» tornaram-se óbvias graças a estudos sobre o fenómeno da cópia
eferente. A cópia eferente é o que permite que as estruturas motoras que estão prestes a
ordenar a execução de determinado movimento informem as estruturas visuais da provável
consequência desse movimento iminente em termos de deslocação espacial. Por exemplo,
quando os nossos olhos estão prestes a dirigir-se a um objeto na periferia da nossa visão, a
área visual do cérebro é alertada para o movimento iminente e prepara-se para suavizara
transição para o novo objeto, sem que haja desfocagem. Por outras palavras, é permitido à
região visual antecipar a consequência do movimento. A simulação de um estado corporal sem
de facto o produzir reduz o tempo de processamento e poupa energia. A hipótese do «arco
"como se" do corpo» implica que as estruturas cerebrais encarregues de desencadear uma
determinada emoção possam ligar-se às estruturas em que o estado corporal correspondente
à emoção seria mapeado. Por exemplo, a amígdala (um local de ativação do medo) e o córtex
pré - frontal ventromedial (um local de ativação da compaixão) teriam de estar ligados a
regiões somatossensorias zonas como o córtex insular, SII, SI e os córtices de associação soma
tossensorial, onde os estados corporais são continuamente mapeados. Essas ligações existem,
tornando assim possível a implementação do mecanismo.

Em anos recentes chegou mais apoio para esta hipótese, vindo de várias fontes, sendo uma
delas uma série de experiências levadas a cabo por Giacomo Rizzolatti e os seus colegas.
Nestas experiências, nas quais foram usados elétrodos implantados no cérebro dei macacos,
um macaco deveria observar um investigador a executar uma variedade de movimentos.
Quando o macaco via o investigador a mover a mão, certos neurónios do cérebro do macaco
relacío

135

nados com os movimentos da sua própria mão tornavam-se ativos, «como se» fosse o animal e
não o investigador a levar a cabo a ação. Na realidade, contudo, o macaco permanecia imóvel.
Os autores referem-se aos neurónios que se comportam desta forma como sendo neurónios
espelho.9

Os chamados neurónios espelho são, com efeito, o derradeiro dispositivo «como se». A rede
em que estes neurónios se encontram inseridos alcança conceptualmente aquilo que
considerei na hipótese do sistema «como se»: a simulação, nos mapas corporais do cérebro,
de um estado corporal que não está na realidade a acontecer no organismo. O facto de o
estado corporal que os neurónios espelho estão a simular não ser o estado corporal desse
mesmo organismo amplia o poder desta semelhança funcional. Se um cérebro complexo
consegue simular o estado corporal de outra entidade, teremos de partir do princípio de que
seria capaz de simular os seus próprios estados corporais. Um estado que já ocorreu no
organismo deverá ser mais fácil de simular, uma vez que já foi mapeado pelas mesmas
estruturas somatossensorias agora responsáveis pela simulação. Sugiro que o sistema «como
se» aplicado a outros não se poderia ter desenvolvido caso não tivesse havido primeiro um
sistema «como se» aplicado ao próprio organismo do cérebro.

A natureza das estruturas cerebrais envolvidas neste processo reforça a sugestiva semelhança
funcional entre o arco «como se» do corpo e a ação dos neurónios espelho. Quanto ao arco
«como se» do corpo avancei a hipótese de que os neurónios nas zonas dedicadas à emoção,
como, por exemplo, o córtex pré-motor/pré-frontal (no caso da compaixão) e a amígdala (no
caso do medo), iriam ativar áreas que normalmente mapeiam o estado do corpo. Nos seres
humanos, tais regiões incluem o sistema somatomotor no opérculo rolândico e parietal, bem
como o córtex insular. Todas estas áreas desempenham um duplo papel sornatomotor: ou
seja, podem receber um mapa do estado corporal, um papel sensorial, e podem também
participar numa ação. De uma forma geral, foi isto que as experiên-

136

cias neurofisiológicas com macacos revelaram. A situação está igualmente em consonância


com os estudos humanos em que foram utilizadas magnetoencefalografia 10 e imagiologia
neural funcional.11 Os nossos próprios estudos baseados em lesões neurológicas apontam na
mesma direção.12

As explicações quanto à existência de neurónios espelho destacaram o papel que esses


neurónios podem desempenhar na nossa compreensão das ações de outrem ao colocar-nos
num estado corporal comparável. Quando testemunhamos a ação de outra pessoa, o nosso
cérebro somatossensorial adota o estado corporal que assumiríamos caso estivéssemos a
mover-nos, e fá-lo, muito provavelmente, não através de padrões sensoriais passivos, mas sim
através da pré-ativação de estruturas motoras - prontas para a ação mas ainda sem
autorização para tal - e, em alguns casos, através de uma, ativação motora.

Como terá evoluído um sistema fisiológico tão complexo? Imagino que o sistema se tenha
desenvolvido a partir de um anterior sis- tema de arco «como se» do corpo que cérebros
complexos usariam desde há muito para simular os seus próprios estados corporais. Isso teria
uma vantagem clara e imediata: a ativação rápida e com reduzido dispêndio de energia dos
mapas de certos estados corporais, os quais, por sua vez, estavam associados a um
conhecimento passado e a estratégias cognitivas relevantes. O sistema «como se» acabou por
ser aplicado a outros e prevaleceu devido às óbvias vantagens sociais I que se podiam obter a
partir do conhecimento dos estados corporais dos outros, dado que são a expressão dos seus
estados mentais. Em resumo, considero o sistema «como se» como o precursor do
funcionamento dos neurónios espelho.

Tal como veremos na parte III, o facto de o corpo de determinado organismo poder ser
representado no cérebro é essencial para a criação do eu. Todavia, a representação do corpo
por parte do cérebro tem outra implicação importante: uma vez que podemos representar os
nossos estados corporais, torna-se mais fácil simular os equivale

137

tes estados corporais dos outros. Subsequentemente, a ligação que estabelecemos entre os
nossos estados corporais e o significado que assumiram para nós pode ser transferida para os
estados corporais simulados dos outros, momento a partir do qual podemos atribuir um
significado comparável à simulação. A gama de fenómenos relacionados com o conceito de
empatia deve muito a esta disposição.

A origem de uma ideia

Descortinei a possibilidade atrás descrita há muitos anos, durante um episódio estranho e


memorável. Certa tarde de Verão, quando trabalhava no laboratório, levantara-me da cadeira
e percorria o meu gabinete quando de repente pensei no meu colega B. Não tinha qualquer
motivo especial para pensar nele não o vira recentemente, não precisava de falar com ele,
não lera nada sobre ele, não tencionava de todo encontrar-me com ele e, no entanto, ele ali
estava, presente nos meus pensamentos, alvo da minha inteira atenção. Pensamos
constantemente em outras pessoas, mas este caso era diferente, pois a presença era
inesperada e exigia uma explicação. Porque estaria eu naquele momento a pensar no Dr. B?

Quase de imediato, uma rápida sequência de imagens disse-me o que precisava de saber. Revi
mentalmente os meus movimentos e apercebi-me de que me movera, apenas por uns
instantes, de um modo igual ao do meu colega B. Tinha a ver com a forma como balouçara os
braços e arqueara as pernas. Tendo descoberto o que me obrigara a pensar nele, consegui
visualizar perfeitamente o seu modo de andar. Todavia, o mais interessante era que as
imagens visuais que formara haviam sido sugeridas, ou melhor, moldadas pela imagem dos
meus próprios músculos e ossos a adotarem os padrões característicos de movimento do meu
colega B. Em resumo: acabara de andar como Dr. B; representara na mente a minha estrutura
esquelética animada (tecnicamente, criara uma imagem somatossensorial ): e, por fim,

138

recordara um réplica visual apropriada para essa imagem músculo esquelética específica, que
se revelou a do meu colega.

Logo que a identidade do intruso se revelou, descortinei igualmente algo de curioso acerca do
cérebro humano: podia adotar o movimento característico de outrem por puro acaso. (Ou
quase: numa recordação posterior lembrei-me de ter visto B passar à janela do meu gabinete
nesse dia. Tinha processado isso com pouca ou nenhuma atenção, de uma forma em grande
medida não-consciente.) Podia transformar o movimento representado numa imagem visual
equivalente; e podia obter através da memória a identidade de uma pessoa ou pessoas que
correspondessem à descrição. Tudo isso era prova das interligações estreitas entre um
movimento real do corpo, as representações desse movimento em termos músculo
esqueléticos e visuais, e as recordações que podem ser evocadas quanto a algum aspeto
dessas representações.

Enriquecido por outras observações e reflexão adicional, este episódio fez-me perceber como
a nossa ligação aos outros ocorre não só através de imagens visuais, linguagem e inferência
lógica mas também através de algo mais profundo no nosso corpo: as ações com que podemos
representar os movimentos dos outros. Podemos executar traduções entre 1) o movimento
real, 2) as representações somatossensoriais do movimento, 3) as representações visuais do
movimento e 4) a memória. Este episódio viria a desempenhar um papel no desenvolvimento
do conceito de simulação corporal e sua aplicação no arco «como se».

É claro que os bons atores se servem destes dispositivos regularmente, de forma consciente ou
não. O modo como alguns dos melhores fazem aparecer determinadas personalidades nas
suas com- posições assenta neste poder de representação dos outros, de forma visual ou
auditiva, ganhando depois vida no corpo do ator. É exatamente isso que significa «viver» um
papel, e quando esse processo de transferência é enriquecido com pormenores fantasiados e
inesperados, obtemos um desempenho de génio.

139

Um cérebro que se preocupa com o corpo

A situação que emerge dos factos e das reflexões anteriores é estranha e inesperada mas
bastante libertadora.

Temos o corpo em mente porque isso nos ajuda a controlar o comportamento em qualquer
situação que possa ameaçar a integridade do organismo e pôr a vida em causa. Essa função
específica serve-se do mais antigo tipo de regulação vital baseada num cérebro. Remonta à
simples transmissão de sinais entre o corpo e o cérebro, a um incitamento básico a reações
reguladoras auto matizadas, concebidas para apoiar a gestão da vida. No entanto, temos
simplesmente de ficar maravilhados com o que foi conseguido a partir de um tão humilde
início. Um mapeamento corporal de extrema complexidade sustenta tanto o processo do eu
nas mentes conscientes como a representação do mundo exterior ao organismo. O mundo
interior garantiu-nos a possibilidade de conhecer não só esse mesmo mundo interior mas
também o mundo que nos rodeia.

O corpo vivo é a arena deste processo. A regulação da vida é a necessidade e a motivação. O


mapeamento cerebral é o capacitador, o motor que transforma a comum regulação vital em
regulação mental e, eventualmente, em regulação mental consciente.

CAPITULO 5

Emoções e sentimentos

Situar a emoção e o sentimento

O comportamento e a mente, consciente ou não, e o próprio cérebro que os cria recusam-se a


revelar os seus segredos quando a emoção (e os numerosos fenómenos que ela oculta) não é
tida em conta e não recebe o merecimento devido.

Qualquer discussão acerca do tópico da emoção leva-nos de volta ao problema da vida e do


valor. Exige uma referência à recompensa e ao castigo, aos drives e às motivações e,
necessariamente, aos sentimentos. Uma discussão sobre emoções implica uma investigação
dos dispositivos extremamente variados de regulação da vida presentes no cérebro, mas
inspirados por princípios e objetivos que antecedem o cérebro e que, de uma maneira geral,
funcionam de modo automático e quase às cegas, até começarem a ser reconhecidos pela
mente consciente sob a forma de sentimentos. As emoções são as prestáveis executoras e
servas do princípio do

142

valor, as mais inteligentes descendentes até hoje do valor biológico. Por outro lado, os
sentimentos emocionais, descendentes das emoções e que dão cor à nossa vida desde o
nascimento até à morte, agigantam-se sobre a Humanidade e não podem ser ignorados.

Quando na parte II abordar os mecanismos neurais subjacentes à construção do eu, invocarei


com frequência os fenómenos da emoção e do sentimento, pois os seus mecanismos são
usados na criação do eu. O objetivo deste capítulo é apresentar resumidamente esses
mecanismos.

Definir emoção e sentimento

As discussões sobre a emoção enfrentam dois grandes problemas. O primeiro tem a ver com a
heterogeneidade dos fenómenos que se enquadram no domínio das emoções. Como vimos no
capítulo 2, o princípio do valor funciona através de dispositivos de recompensa e castigo, bem
como de drives e motivações, que fazem parte integrante da família das emoções. Quando
falamos das emoções propriamente ditas (por exemplo, receio, raiva, tristeza ou repulsa),
também falamos, necessariamente, de todos esses outros dispositivos, pois são componentes
constituintes de cada uma dessas emoções e encontram-se envolvidos de forma independente
na regulação vital. As emoções propriamente ditas são apenas uma jóia da coroa que faz parte
da regulação vital.

O outro problema importante prende-se com a distinção entre emoção e sentimento. Emoção
e sentimento são processos distinguíveis, embora façam parte de um ciclo muito apertado. As
palavras que possamos escolher para nos referirmos a estes processos distintos não são
importantes, desde que reconheçamos que a essência da emoção e a essência do sentimento
são diferentes. É claro que, nada há de errado com os termos emoção e sentimento, e suprem
perfeitamente as necessidades, tanto em inglês, como nas muitas línguas em

143

que têm uma tradução direta. Comecemos então por definir esses termos-chave à luz da
neurobiologia atual.

As emoções são programas complexos, em grande medida automatizados, de ações


modeladas pela evolução. As ações são completadas por um programa cognitivo que inclui
certos conceitos e modos de cognição, mas o mundo das emoções é, sobretudo, um mundo de
ações levadas a cabo no nosso corpo, desde as expressões faciais e posições do corpo até às
mudanças nas vísceras e meio interno.

Os sentimentos de emoção, por outro lado, são perceções compostas daquilo que acontece no
corpo e na mente quando sentimos emoções. No que respeita ao corpo, os sentimentos são
imagens de ações e não ações em si; o mundo dos sentimentos é um mundo de perceções
executadas em mapas cerebrais. Todavia, há aqui mais uma distinção a estabelecer: as
perceções a que chamamos sentimentos ou emoção contêm um componente especial que
corresponde aos sentimentos primordiais abordados anteriormente. Estes sentimentos
baseiam-se no relacionamento exclusivo entre corpo e cérebro que privilegia a interocepção. É
claro que existem outros aspetos do corpo representados nos sentimentos emocionais, mas
em regra a interocepção domina o processo e é responsável pelo aspeto sentido destas
perceções.

A distinção geral entre emoção e sentimento é, como se pode ver, razoavelmente clara.
Enquanto as emoções são ações acompanhadas por ideias e modos de pensar, os sentimentos
emocionais são sobretudo perceções daquilo que o nosso corpo faz durante a emoção, a par
das perceções do estado da nossa mente durante o mesmo período de tempo. Em organismos
de cérebro simples, capaz de levar acabo comportamento mas sem um processo mental,
também existem emoções, mas não se lhes seguem, necessariamente, estados de sentimento
emocional.

144

As emoções funcionam quando as imagens processadas no cérebro colocam em ação urna


série de regiões incitadoras de emoções, corno, por exemplo, a amígdala ou regiões especiais
lobo frontal. Assim que urna destas regiões é ativada seguem-se determinadas consequências:
glândulas endócrinas e núcleos subcorticais segregam moléculas químicas que são enviadas
tanto para o cérebro corno para o corpo (por exemplo, o cortisol, no caso do receio), certas
ações são levadas a cabo (por exemplo, fugir ou ficar imóvel; contração dos intestinos, de novo
no caso do receio) e assumem-se determinadas expressões (por exemplo, urna expressão e
uma atitude de terror). Um facto importante, pelo menos no caso dos seres humanos, é
também o de virem à mente certas ideias e planos. Por exemplo, urna emoção negativa, corno
a tristeza, leva à invocação de ideias sobre factos negativos; urna emoção positiva faz o
oposto; os planos de ação representados na mente estão em consonância com o tom geral da
emoção. Certos estilos de processamento mental são prontamente ativados à medida que
urna certa emoção se desenvolve. A tristeza abranda a velocidade do pensamento e pode
levar-nos a repisar a situação que a desencadeou; a alegria pode acelerar o pensamento e
reduzir a atenção para com acontecimentos não relacionados. A combinação de todas estas
reações constitui o «estado emocional», que se desenvolve de forma relativamente rápida, e
depois se desvanece, até que novos estímulos capazes de desencadear emoções sejam
introduzidos na mente e deem início a outra reação emocional em cadeia.

Os sentimentos de emoção constituem o passo seguinte, surgindo logo atrás da emoção, e


representando o legítimo, consequente e derradeiro empreendimento do processo emocional:
a perceção composta de tudo o que aconteceu durante a emoção as ações, as ideias, o estilo
com que as ideias fluem lenta ou rápida, fixa numa imagem, ou trocando rapidamente urna
imagem por outra.

Visto a partir de urna perspetiva neural, o ciclo emoção-sentimento começa no cérebro, com a
perceção e avaliação de um

145

estimulo potencialmente causador de uma emoção, e o desencadear subsequente de uma


emoção. O processo dissemina-se depois pelo cérebro e pelo corpo, intensificando o estado
emocional. Na fase final, o processo regressa ao cérebro para a parte do ciclo referente ao
sentimento, embora esse regresso ocorra em regiões do cérebro diferentes daquelas em que
tudo se iniciou.

Os programas emocionais incorporam todos os componentes do mecanismo de regulação vital


que foram surgindo ao longo da história da evolução, como, por exemplo, o detetar condições,
a avaliação dos graus de necessidade interna, o processo de incentivo com as suas vertentes
de recompensa e castigo, os dispositivos de previsão. Os drives e as motivações são
constituintes mais simples da emoção. É por isso que a felicidade ou a tristeza alteram o
estado desses drives e motivações, alterando de imediato os nossos apetites e desejos.

Desencadear e executar emoções

Como são desencadeadas as emoções? De uma forma muito simples, por imagens de objetos
ou acontecimentos que estão realmente ater lugar no momento ou que, tendo ocorrido no
passado, estão agora a ser evocadas. A situação em que nos encontramos é importante para o
aparelho emocional. Podemos estar a viver uma cena da nossa vida e a reagir a uma atuação
musical, ou à presença de um amigo; ou podemos estar sozinhos e a recordar uma conversa
que nos deixou perturbados na véspera. Quer sejam «ao vivo», reconstruídas a partir da
memória, ou criadas de raiz na imaginação, as imagens iniciam uma cadeia de fenómenos. Os
sinais das imagens processadas são disponibilizados a várias regiões do cérebro. Algumas
dessas regiões dedicam-se a linguagem, outras ao movimento, outras ainda às manipulações
que constituem o raciocínio. A atividade em qualquer uma dessas regiões leva a uma série
variada de reações: palavras com as quais se pode classificar determinado objeto; evocações
rápidas de outras imagens que

146

nos permitem concluir algo sobre um objeto; etc. É de salientar que as imagens que
representam determinado objeto também chegam a regiões capazes de desencadear tipos
específicos de reações emocionais em cadeia. É o caso da amígdala, por exemplo, em situações
de receio; ou do córtex pré-frontal ventromedial em situações que provocam compaixão. Os
sinais são disponibilizados a todas estas áreas. No entanto, há uma forte probabilidade de
certas configurações de sinais ativarem uma região específica - desde que os sinais sejam
suficientemente intensos e o contexto seja adequado e que não ativem as outras áreas onde
os mesmos sinais se encontram igualmente disponíveis. É quase como se certos estímulos
possuíssem a chave correta para abrir determinada fechadura, embora a metáfora não
abarque a dinâmica e a flexibilidade do processo. É o caso dos estímulos causa dores de receio,
que muitas vezes ativam a amígdala e conseguem desencadear a torrente de receio. Não é
provável que o mesmo conjunto de estímulos venha a ativar outras zonas. Por vezes, no
entanto, certos estímulos são suficientemente ambíguos para ativar mais do que uma zona, o
que leva a um estado emocional composto. O resultado é uma experiência «agridoce», um
sentimento «misto» que nasce de uma emoção complexa.

Em muitos aspetos trata-se da mesma estratégia que o sistema imunitário usa para reagir a
invasores exteriores ao corpo. Leucócitos chamados linfócitos transportam nas suas superfícies
um vasto repertório de anticorpos que se opõem a um número igualmente grande de possíveis
antígenos invasores. Quando um desses antígenos entra na corrente sanguínea e estabelece
contacto com os linfócitos acaba por se ligar ao anticorpo que melhor se encaixa na sua forma.
O antígeno encaixa-se no anticorpo como uma chave numa fechadura e o resultado é uma
reação: o linfócito produz esse anticorpo em tal abundância que vai ajudar a destruir o
antígeno invasor. Proponho o termo estímulo emocionalmente competente para fazer eco do
sistema imunitário e destacar a semelhança formal entre o dispositivo emocional e esse outro
dispositivo básico da regulação vital.

147

Oque acontece após «a chave se encaixar na fechadura» é perturbante, no verdadeiro sentido


da palavra, já que acarreta um distúrbio do presente estado vital, em múltiplos níveis do
organismo, desde o próprio cérebro à maior parte das divisões do corpo. Analisando mais uma
vez o caso do receio, as perturbações são as seguintes.

Os núcleos da amígdala enviam ordens para o hipotálamo e para o tronco cerebral, o que tem
como resultado várias ações paralelas. O ritmo cardíaco altera-se, o mesmo acontecendo com
a tensão arterial, o ritmo respiratório e o estado de contração dos intestinos. Os vasos
sanguíneos daa pele contraem-se. Cortisol é segregado para o sangue, o que altera o perfil
metabólico do organismo, em preparação para um consumo adicional de energia. Os músculos
do rosto adotam uma máscara de receio característica. Dependendo do contexto em que
surgem as imagens causadoras de receio, a pessoa vai imobilizar-se ou fugir da fonte de
perigo. A imobilização ou a fuga, duas reações específicas, são controladas minuciosamente a
partir de regiões separadas da substância cinzenta periaquedutal (PAG) do tronco cerebral, e
cada reação tem uma rotina motora e um acompanhamento fisiológico específicos. A opção de
imobilização induz automaticamente quietude, respiração superficial e uma redução do ritmo
cardíaco, o que é vantajoso na tentativa de imobilidade e de evitar a atenção de um atacante;
a opção de fuga acelera automaticamente o ritmo cardíaco e aumenta a irrigação sanguínea
nas pernas, pois precisamos de músculos das pernas bem alimentados para fugir. Além disso,
se o cérebro selecionar a opção de fuga, a PAG atenua automaticamente o processamento da
dor. Porquê? Para minimizar o risco de um ferimento durante a fuga poder paralisar o
indivíduo que foge com uma dor intensa.

O mecanismo é tão complexo que uma outra estrutura, o cerebelo, se vai esforçar por atenuar
a expressão de receio. É por isso que alguém treinado em unidades militares especiais terá
uma reação
148

face ao medo bem diferente da de quem tenha crescido como uma flor de estufa.

Finalmente, o processamento de imagens no córtex cerebral afetado pela emoção em curso.


Por exemplo, recursos cognitivo como a atenção e a memória de trabalho são ajustados em
consonância. Certos tópicos de ideação tornam-se improváveis é pouco provável que alguém
pense em sexo ou comida quando está a fugir de um bandido.

Em poucas centenas de milissegundos, o fluxo emocional consegue transformar o estado de


várias vísceras, o meio interno, a musculatura estriada do rosto e da postura, e até o ritmo da
nossa mente os temas dos nossos pensamentos. Tenho a certeza de que todos concordarão
tratar-se, de facto, de uma perturbação. Quando a emoção suficientemente forte, sublevação
é um termo ainda mais adequado usado pela filósofa Martha Nussbaum1. Todo este esforço,
complicado na sua orquestração e dispendioso na quantidade de energia consumida razão
pela qual ser «emocional» é tão cansativo, tende a ter objetivo útil, o que normalmente é o
caso. Mas pode não ter. O receio pode não passar de um alarme falso, induzido por uma
cultura e alvoroço. Nestes casos, em vez de salvar a vida, o receio torna-se li agente de stresse
e, com o tempo, o stresse destrói a vida, tanto mental como fisicamente. A sublevação tem
consequências negativas.2

Uma versão de todo o conjunto de alterações emocionais no corpo é transmitido ao cérebro


através dos mecanismos descritos e linhas gerais no capítulo 4.

O estranho caso de William James

Antes de abordar a fisiologia dos sentimentos creio ser adequa invocar William ]ames, e
discutir a situação criada pelas suas próprias palavras sobre os fenómenos da emoção e dos
sentimentos, tanto para ele, como para o estudo da emoção desde então.

149

Uma citação lapidar de James resume direta e rapidamente a questão. «A nossa forma natural
de pensar nestas emoções é que a perceção mental de certo facto excita o estado mental
chamado emoção, e que este último estado de espírito dá origem à expressão corporal. Pelo
contrário, a minha tese é que as alterações corporais sucedem-se diretamente à PERCEPÇÃO
do facto excitante e que a sensação que temos dessas alterações à medida que vão ocorrendo
É a emoção.»:3

Trata-se de James citado à letra, em 1884, incluindo as maiúsculas em perceção e em é.

A importância desta ideia nunca será suficientemente realçada. James inverteu a sequência
tradicional de acontecimentos no processo da emoção e meteu o corpo de permeio entre o
estímulo causal e a experiência da emoção. Deixava de haver um «estado mental» chamado
emoção «que dava origem aos efeitos do corpo». Agora havia, isso sim, a perceção de um
estímulo que causava certos efeitos no corpo. Era uma proposta arrojada e a investigação
moderna subscreve-a integralmente. Todavia, a citação apresenta um problema importante.
Depois de referir, de forma muito concreta, «a sensação que temos dessas alterações», James
confunde a questão dizendo que, afinal de contas, a sensação «É a emoção».Isto equivale a
confundir emoção e sentimento. James rejeita a emoção como um estado mental que provoca
alterações corporais, acabando por aceitar a emoção como um estado mental composto por
sentimentos de alterações corporais, uma posição completamente diferente daquela que
defendo e apresentei atrás. Não é de todo claro se se tratou de uma formulação infeliz ou da
expressão

150

precisa daquilo que James pensava. Seja como for, a minha perspetiva das emoções como
programas de ação não corresponde a perspetiva de James, tal como foi expressa no seu
texto; o seu conceito de sentimento não é igual ao meu. Contudo, a sua ideia sobre o
mecanismo do sentimento é semelhante ao meu mecanismo do arco corporal do sentimento.
(James não aventou um mecanismo «como se», embora uma nota de rodapé do seu texto
sugira que entreveu a necessidade de tal mecanismo.)

A maior parte das críticas que a teoria da emoção de James viria a sofrer no século XX deveu-
se à redação desse parágrafo. Grandes fisiólogos, como Charles Sherrington e Walter Cannon,
usaram as palavras de James literalmente para concluir que os seus dados experimentais eram
incompatíveis com o mecanismo de James. Nem Sherrington, nem Cannon tinham razão, mas
não lhes podemos atribuir totalmente a culpa pela sua interpretação errada.4

Por outro lado, surgiram críticas válidas à teoria da emoção de James. Por exemplo, James
ignorou por completo a avaliação do estímulo e limitou o aspeto cognitivo da emoção à
perceção do estímulo e da atividade corporal. Para James, havia a perceção do facto excitante
(que equivale ao meu estímulo emocionalmente competente) e as alterações corporais
seguiam-se diretamente. Sabemos hoje que embora as coisas se possam passar dessa forma,
da perceção rápida ao desencadear da emoção, há etapas de avaliação que tendem a interpor-
se, uma filtragem e canalização do estímulo à medida que atravessa o cérebro e acaba por ser
dirigido à zona de desencadeamento. A fase de avaliação pode ser muito breve e não
consciente, mas precisa de ser reconhecida. A perspetiva de James neste ponto torna-se uma
caricatura: o estímulo vai sempre direto ao botão vermelho e provoca a explosão. Ainda mais
importante, a cognição gerada por um estado emocional não se limita de todo a imagens do
estímulo e das alterações corporais, tal como defendido por James. Nos seres humanos, como
vimos, o programa emocional também desencadeia certas alterações cognitivas que
acompanham

151

as alterações corporais. Podemos considerá-las como componentes tardios da emoção ou


mesmo como componentes antecipados e relativamente estereotipados do sentimento de
emoção que se avizinha. Nenhuma destas reservas minimiza de todo a extraordinária contri-
buição de James.

Sentimentos de emoção

Permitam-me que comece por apresentar uma definição preliminar. Os sentimentos de


emoção são perceções compostas de 1) um estado corporal específico, durante uma emoção
real ou simulada; e de2) um estado de recursos cognitivos alterados e evocação de certas
ideias. Na nossa mente, estas perceções estão ligadas ao objeto que as provocou.

Ao ficar claro que os sentimentos de emoção são, em primeiro lugar, perceções do nosso
estado corporal durante um estado de emoção, é razoável afirmar que todos os sentimentos
de emoção contêm uma variação sobre o tema dos sentimentos primordiais, quaisquer que
sejam os sentimentos primordiais do momento, ampliados por outros aspetos de alteração
corporal que podem estar ou não associados à interocepção. Torna-se igualmente óbvio que a
base desses sentimentos no cérebro deverá encontrar-se nas áreas de criação de imagens do
cérebro, especificamente nas regiões somatossensoriais de dois sectores distintos: o tronco
cerebral superior e o córtex cerebral. Os sentimentos são estados da mente que têm uma base
específica.

Ao nível do córtex cerebral, a principal região implicada nos sentimentos é o córtex insular,
uma região do córtex cerebral de dimensão razoável mas discretamente oculta, situada sob
parte dos córtices frontal e parietal. A ínsula, que se assemelha mesmo a uma ilha, tal como
sugerido pelo nome, apresenta várias circunvoluções. A parte frontal da ínsula pertence à
velha guarda, está ligada

152

ao paladar e ao olfato e, só para tornar as coisas um pouco mais confusas, é não só uma
plataforma para os sentimentos mas também para o desencadear de algumas emoções. Serve
de ponto de partida para uma emoção extremamente importante: o nojo. O nojo é uma das
mais antigas emoções do repertório. Começou os seus dias como uma forma automática de
rejeitar alimentos potencialmente tóxicos e evitar a sua entrada no corpo. Os seres humanos
podem sentir-se repugnados não só pela visão de alimentos estragados e pelo cheiro
pestilento que os acompanha, mas também por uma variedade de situações em que a pureza
dos objetos ou do comportamento ficou comprometida e houve «contaminação». Um facto
também importante é que os seres humanos sentem igualmente repulsa com a perceção de
ações moralmente repreensíveis. Como resultado, muitas das ações no programa do nojo nos
seres humanos, entre elas as típicas expressões faciais, foram apropriadas por uma emoção
social: o desprezo. O desprezo é frequentemente uma metáfora da repulsa moral.

A parte posterior da ínsula é composta por neocórtex moderno e a parte do meio tem uma
idade filogenética intermédia. Há muito que se sabe que o córtex insular está associado a
funções viscerais, representando as vísceras e participando no seu controlo. A par dos córtices
somatossensoriais primário e secundário (conhecidos como SI e SII), a ínsula é uma criadora de
mapas corporais. Com efeito, e no que respeita às vísceras e ao meio interno, a ínsula é o
equivalente dos córtices visual ou auditivo primários.

Em finais da década de 80 avancei a hipótese de que os córtices somatossensoriais teriam um


papel nos sentimentos e apontei a ínsula como provável plataforma dos sentimentos. Queria
afastar-me do conceito vão de atribuir a origem dos estados de sentimento a regiões
impulsionadoras de ação, como por exemplo a amígdala. Na altura, falar sobre a emoção
despertava dó, ou pior, e sugerir uma base separada para os sentimentos despertava o
espanta5 Contudo, desde 2000 que sabemos que a atividade na ínsula é,

153

com efeito, um importante correlativo em todos os tipos concebíveis de sentimento, desde os


sentimentos associados às emoções até aos que correspondem a qualquer matiz de prazer ou
dor, induzidos por uma vasta gama de estímulos: ouvir música de que se gosta ou não; ver
imagens de que se gosta, incluindo material erótico, ou imagens que provocam repulsa; beber
vinho; ter relações sexuais; estar eufórico sob a influência de drogas; ou em estado de
«withdrawal» devido aos efeitos da sua privação.6 O conceito de que o córtex insular é uma
base importante para os sentimentos está comprovado.
Todavia, a ínsula não detém a exclusividade no que respeita aos correlativos dos sentimentos.
Quando experienciamos sentimentos, o córtex cingulado anterior tende a tornar-se ativo em
paralelo com a ínsula. A ínsula e o cingulado anterior são regiões unidas por ligações mútuas. A
ínsula tem uma dupla função sensorial e motora, embora tendendo para o lado sensorial do
processo, ao passo que o cingulado anterior funciona como estrutura motora,7

Extremamente importante é o facto de (tal como referido nos dois capítulos anteriores) várias
regiões subcorticais desempenharem um papel na construção de estados de sentimento. À
primeira vista, regiões como o núcleo do trato solitário e o núcleo parabraquial foram
encaradas como veículos dos sinais do interior do corpo, já que os encaminham para um
sector dedicado do tálamo, que por sua vez envia sinais para o córtex insular. No entanto, tal
como indicado anteriormente, é provável que os sentimentos comecem por surgir devido à
atividade nesses núcleos, dado o seu estatuto especial - os núcleos são os primeiros recetores
de informação das vísceras e do meio interno com a capacidade de integrar sinais de todo o
interior do corpo; na progressão ascendente desde a espinal medula até ao encéfalo, essas
estruturas são as primeiras capazes de integrar sinais acerca de uma vasta paisagem interna -
peito e abdómen, com as respetivas vísceras, bem como aspetos viscerais dos membros e da
cabeça.

154

Tendo em conta os dados analisados anteriormente, é plausível afirmar que os sentimentos


surgem a nível subcortical: a lesão completa dos córtices insulares é compatível com uma vasta
gama de estados de sentimento desde que as estruturas do tronco cerebral estejam intactas;
as crianças hidranencefálicas a quem faltam córtex insular e outros córtices somatossensoriais,
mas que apresentam estruturas do tronco cerebral intactas, exibem comportamentos que
sugerem estados de sentimentos.

Não menos importante na criação de sentimentos é uma disposição fisiológica fundamental


para a minha estrutura da mente e do eu: o facto de as regiões do cérebro envolvidas na
criação de mapas corporais, e que assim apoiam os sentimentos, fazerem pane de um arco
ressonante com a própria fonte dos sinais que mapeiam. O mecanismo do tronco cerebral
superior encarregue do mapeamento do corpo interage diretamente com a fonte dos mapas
que cria, num ciclo fechado, numa quase fusão entre corpo e cérebro. Os sentimentos de
emoção surgem de um sistema fisiológico sem paralelo no organismo.

Permitam-me que conclua esta secção acrescentando outro componente importante dos
estados de sentimento: todos os pensamentos desencadeados pela emoção em curso. Tal
como já referi, alguns destes pensamentos fazem parte integrante do programa das emoções,
evocados à medida que a emoção se desenrola, de forma a que o contexto cognitivo fique a
par da emoção. Todavia, outros pensamentos, em vez de serem componentes estereotipados
do programa de emoções, são reações cognitivas tardias à emoção que está a decorrer. As
imagens evocadas por estas reações acabam por tornar-se parte da perceção do sentimento, a
par da representação do objeto que desencadeou originalmente a emoção, do com- ponente
cognitivo do programa de emoções e da leitura percetual do estado corporal.

155

Como sentimos uma emoção?


Basicamente, existem três formas de criar um sentimento de emoção. A primeira e mais óbvia
consiste na modificação do corpo ao ter uma emoção. Isto é algo que qualquer emoção
produz, rápida e prontamente, pois a emoção é um programa de ações, e o resultado das
ações é a alteração do estado corporal.

O cérebro está continuamente a criar uma base para os sentimentos, pois os sinais do estado
corporal atual estão continuamente a ser enviados, utilizados e transformados nos locais
próprios para o seu mapeamento. À medida que uma emoção se desenrola ocorre um
conjunto específico de alterações, e os mapas do sentimento de emoção são o resultado do
registo de uma variação sobreposta aos mapas desse momento, gerados no tronco cerebral e
na ínsula. Os mapas constituem a base de uma imagem composta e multilocal.8

Para que o estado de sentimento se ligue à emoção, o objeto causal e a relação temporal entre
a sua aparição e a reação emocional têm de ser adequadamente observados. Isto é
absolutamente diferente do que acontece na visão, na audição ou no olfato. Como esses
outros sentidos estão focados no mundo exterior, as respetivas áreas de criação de mapas
podem, por assim dizer, recomeçar a partir do zero e criar uma infinidade de padrões. O
mesmo não se passa com as zonas de sensação do corpo, as quais estão obrigatoriamente
dirigidas para o interior e limitadas àquilo que a infinita uniformidade do corpo lhes transmite.
O cérebro que se preocupa com o corpo é, na verdade, um prisioneiro do corpo e das suas
informações.

Assim sendo, a primeira forma de criar sentimentos exige aquilo a que chamo um «arco
corporal». Todavia, existem pelo menos outras duas formas. Uma depende do arco «como
se», apresentado no capítulo 4. Tal como o nome sugere, trata-se de um truque. As zonas do
cérebro que dão início à típica torrente da emoção podem igualmente ordenar às regiões de
criação de mapas, como a ínsula, que adotem o padrão que teriam adotado a partir do
momento

156

em que o estado emocional lhe fosse transmitido pelo corpo. Por outras palavras, as zonas de
ativação dizem à ínsula para se preparar, para configurar o seu disparo «como se» estivesse a
receber sinais que descrevessem o estado emocional X. A vantagem deste mecanismo de
«bypass» é óbvia. Uma vez que criar um estado emocional completo demora tempo e
consome muita energia preciosa, porque não queimar as etapas? Não há dúvida de que este
mecanismo tendo surgido no cérebro exatamente devido à economia de tempo e de energia
que veio introduzir, e também porque os cérebros inteligentes são profundamente
preguiçosos. Sempre que possível fazem menos em vez de mais, uma filosofia minimalista que
seguem religiosamente.

Há apenas um problema com o mecanismo «como se». Tal como acontece com qualquer outra
simulação, não é exatamente como o real. Acredito que os estados de sentimento «como se»
são comuns em todos nós e certamente reduzem os custos da nossa emotividade, mas não
passam de versões atenuadas das emoções sentidas pelo arco do corpo. Os padrões «como
se» não podem transmitir a mesma sensação dos estados de sentimento do arco do corpo pois
não são o artigo genuíno, e também porque provavelmente será mais difícil para os mais
fracos padrões «como se» competir com os padrões em curso, do que para as versões normais
do arco do corpo.
A outra forma de criar estados de sentimento consiste na alteração da transmissão de sinais
corporais para o cérebro. Como consequência de ações analgésicas naturais ou em resultado
da administração de drogas que interferem com a transmissão de sinais do corpo (analgésicos,
anestésicos), o cérebro recebe uma visão distorcida do estado do corpo no preciso momento.
Sabemos que em situações de receio, em que o cérebro escolhe a opção de fuga em vez da
imobilização, o tronco cerebral desliga parte do circuito de transmissão de dor é mais ou
menos como desligar a ficha do telefone. A substância cinzenta periaquedutal, que controla
estas reações, pode também comandar a secreção de opiáceos naturais e obter pre·

157

cisamente O mesmo que se conseguiria com um analgésico: a eliminação dos sinais de dor.

Em sentido restrito, lidamos aqui com uma alucinação do corpo, pois aquilo que o cérebro
regista nos seus mapas e aquilo que a mente consciente sente não corresponde à realidade
que poderia ser apreendida. Utilizamos este mecanismo sempre que ingerimos moléculas com
capacidade de modificar a transmissão ou o mapeamento de sinais corporais. O álcool tem
essa capacidade, tal como os analgésicos e os anestésicos, e muitas outras drogas. Está bem de
ver que, curiosidade à parte, o ser humano se sente atraído por essas moléculas devido ao
desejo de criar sentimentos de bem-estar, sentimentos em que os sinais de dor são eliminados
e se induzem sinais de prazer.

A regulação das emoções e dos sentimentos

Em estudos recentes, o meu colega David Rudrauf investigou a duração das emoções e dos
sentimentos no cérebro humano através de magnetoencefalografia.9 A magnetoencefalografia
é menos precisado que a ressonância magnética funcional em termos de localização espacial
da atividade do cérebro, mas apresenta uma capacidade espantosa de avaliar a duração de
certos processos em sectores relativamente grandes do cérebro. Servimo-nos desta
abordagem nestes estudos exatamente devido a essa característica temporal.

Rudrauf seguiu a duração da atividade relacionada com as reações emocionais e de


sentimento a estímulos visuais agradáveis ou desagradáveis. Passaram quase quinhentos
milissegundos, ou cerca de meio segundo, entre o momento em que os estímulos foram pro-
cessados nos córtices visuais e o momento em que os sujeitos relataram os primeiros
sentimentos. Será pouco ou muito? Depende da perspetiva. Em «tempo cerebral» é um
grande intervalo, se pensarmos que um neurónio pode disparar em cerca de cinco milisse-
gundos. No entanto, em «tempo mental consciente» não é muito.

158

Encontra-se entre as cerca de duas centenas de milissegundos de que precisamos para ficar
conscientes de um padrão de perceção, e os setecentos ou oitocentos milissegundos
necessários para processar um conceito. Para lá da marca dos quinhentos milissegundos é de
notar, contudo, que os sentimentos poderão arrastar-se durante segundos ou minutos,
obviamente repetidos numa espécie de reverberação, especialmente se forem sentimentos
que valha a pena sentir.

As variedades da emoção
As tentativas de descrever ou de classificar toda a gama de emoções humanas não são
particularmente interessantes. Os critérios usados para as classificações tradicionais são
falíveis, e qualquer lista de emoções poderá ser criticada por não incluir algumas emoções e
por exagerar na inclusão de outras. Julgo que devemos reservar o ter mo emoção para um
programa de ações com relativa complexidade (um programa que inclua mais do que uma ou
duas reações reflexas) desencadeado por um objeto ou acontecimento identificáveis um
estímulo emocionalmente competente. As chamadas emoções universais (receio, fúria,
tristeza, felicidade, nojo e surpresa) enquadram-se nesses critérios. Seja como for, estas
emoções estão garantidamente presentes em muitas culturas e são facilmente identificáveis,
já que uma parte do seu programa de ação as expressões faciais é muito caraterística Tais
emoções estão presentes em culturas que nem sequer dispõem de nomes distintos para as
emoções. Devemos a Charles Darwin o reconhecimento precoce desta universalidade não
apenas nos seres humanos mas também nos animais.

A universalidade das expressões emocionais revela até que ponto o programa de ação
emocional é inato e auto matizado. Em cada desempenho, a emoção pode ser modulada, por
exemplo, com pequenas alterações de intensidade ou duração dos movimentos que a
compõem. A rotina do programa básico, no entanto, é estereoti

159

da em todos os níveis corporais onde é executada movimentos externos; alterações viscerais


no coração, pulmões, intestinos e pele; e alterações endócrinas. A execução da mesma
emoção pode variar ocasionalmente mas não a ponto de a tornar irreconhecível quer a o
próprio, quer para os outros. Varia tanto quanto a interpretação de «Summertime» de
Gershwin pode variar com diferentes intérpretes ou até com o mesmo intérprete em ocasiões
diferentes. Continua a ser perfeitamente identificável porque o perfil geral do comportamento
foi mantido.

O facto de as emoções serem programas de ação inatos, auto- matizados e previsivelmente


estáveis trai a sua origem na seleção natural e nas instruções genómicas que lhes estão
ligadas. Estas instruções têm vindo a ser muito bem conservadas ao longo da evolução e como
resultado o cérebro tem vindo a ser composto de uma forma específica e fiável, de tal modo
que certos circuitos neurais podem processar estímulos emocionalmente competentes e levar
certas áreas de cérebro a criar uma reação emocional completa. As emoções e os seus
fenómenos subjacentes - são tão essenciais à manutenção da vida e à subsequente maturação
do indivíduo que ficam organizadas de forma segura logo no início do desenvolvimento.

O facto de as emoções serem inatas, automatizadas e estabelecidas pelo genoma invoca


sempre o espectro do determinismo genético. Não haverá nada de personalizável e educável
nas nossas emoções? A resposta é que sim, que há muito. O mecanismo essencial das
emoções num cérebro normal é, com efeito, muito semelhante entre indivíduos, o que é bom,
pois garante à Humanidade, em culturas diferentes, uma base comum de preferências
fundamentais quanto às questões relacionadas com a dor e com o prazer. No entanto, é
evidente que mesmo sendo os mecanismos notoriamente semelhantes, as circunstâncias em
que certos estímulos se tornaram emocionalmente competentes para o leitor não deverão ser
as mesmas que as minhas. Há coisas que o leitor receia e eu não, e vice-versa: coisas de que o
leitor gosta e eu não, e muitas, muitas coisas que ambos receamos e adoramos. Por outras

160
palavras, temos uma considerável personalização das reações emocionais em relação ao
estímulo causal. Neste aspeto somos muito parecidos, mas não totalmente. Há outros aspetos
interessantes nesta individualização. Influenciados pela cultura em que crescemos, ou como
resultado da educação individual, temos a possibilidade de controlar, em parte, as nossas
expressões emocionais. Todos sabemos como são diferentes as demonstrações públicas de
riso ou de choro nas variadas culturas e como são moldadas, mesmo entre os membros de
classes sociais específicas. As expressões emocionais assemelham-se, mas não são iguais.
Podem ser moduladas e tornadas caracteristicamente pessoais ou sugestivas de um grupo
social.

Não há dúvida de que a expressão de emoções pode ser regulada de forma voluntária.
Contudo, o grau de controlo de regulação das emoções não pode evidentemente ir além das
manifestações externas. Uma vez que as emoções incluem muitas outras reações, sendo várias
delas internas e invisíveis à vista desarmada dos outros, o grosso do programa emocional
continua a ser executado, por mais que nos esforcemos por o inibir. Mais importante ainda, os
sentimentos de emoção, que resultam da perceção do conjunto de alterações emocionais,
continuam a ser levados a cabo mesmo quando as expressões emocionais externas são
parcialmente inibidas. A emoção e o sentimento têm duas faces, em consonância com os seus
mecanismos fisiológicos extremamente diferentes. Quando deparamos com um indivíduo
estóico que se mostra impassível face a notícias trágicas, não julgue que ele não está a sentir
angústia ou receio. Há um velho ditado português que resume na perfeição este conceito:
«Qem vê caras não vê corações.»

Percorrendo a escala emocional

Além das emoções universais, há dois grupos de emoções comummente identificados que
merecem uma menção especial. Há alguns anos chamei a atenção para um destes grupos e
dei-lhe uma

161

designação: emoções de fundo. Entre outros exemplos temos o entusiasmo e o


desencorajamento, duas emoções que podem ser ativadas por uma série de circunstâncias
factuais na vida de um indivíduo mas que também podem surgir devido a estados internos
como a doença e a fadiga. Ainda mais do que no caso de outras emoções, o estímulo
emocionalmente competente das emoções de fundo pode funcionar de forma encoberta,
desencadeando a emoção sem que nos apercebamos da sua presença. Essas emoções podem
ser desencadeadas quando refletimos sobre uma situação que já aconteceu ou quando
pensamos numa situação que é ainda uma mera possibilidade. As emoções de fundo são
parentes próximas dos estados de humor mas diferem destes pelo seu perfil temporal mais
circunscrito e pela identificação mais apurada do estímulo.

O outro grande grupo de emoções é o das emoções sociais. A denominação é um pouco


estranha, já que todas as emoções podem ser sociais, e são-no com frequência, mas é
justificável dado o inequívoco enquadramento social destes fenómenos específicos. Os
exemplos das principais emoções sociais justificam facilmente a denominação: compaixão,
embaraço, vergonha, culpa, desprezo, ciúme, inveja, orgulho, admiração. Com efeito, estas
emoções são desencadeadas em situações sociais e desempenham garantidamente papéis de
destaque na vida dos grupos sociais. O funcionamento fisiológico das emoções sociais não é,
de todo, diferente do das emoções que referi anteriormente. Necessitam de um estímulo
emocionalmente competente; dependem de zonas de ativação específicas; são constituídas
por programas de ação complexos que envolvem o corpo; e são apreendidas pelo sujeito sob a
forma de sentimentos. Existem, todavia, algumas diferenças dignas de nota. A maioria das
emoções sociais é de criação evolutiva recente e algumas poderão ser exclusivamente
humanas. Parece ser esse o caso da admiração e do tipo de compaixão que se concentra no
sofrimento mental e social dos outros em vez de se limitar à dor física. Muitas espécies, em
especial os primatas, exibem precursores de algumas emoções sociais. A compaixão pelos

162

problemas físicos, o embaraço, a inveja e o orgulho são bons exemplos. O macaco-capuchinho


parece claramente reagir às injustiças que deteta. As emoções sociais incorporam uma série de
princípios morais e formam uma base natural para os sistemas éticos. 10

Um aparte sobre a admiração e a compaixão

São os atos e os objetos que admiramos que definem a qualidade de uma cultura, bem como
as nossas reações a quem é responsável por esses atos e objetos. Sem recompensas
adequadas, a probabilidade de os comportamentos admiráveis serem imitados diminui. O
mesmo se passa com a compaixão. Na vida diária abundam problemas de todo o género, e a
menos que os indivíduos mostrem compaixão para com aqueles que os rodeiam, a esperança
numa sociedade saudável reduz-se. A compaixão tem de ser recompensada para ser imitada.

O que se passa no cérebro quando sentimos admiração ou compaixão? Será que os processos
cerebrais que correspondem a essas emoções e sentimentos se assemelham de alguma forma
aos que identificámos para emoções mais básicas como receio, felicidade ou tristeza? Serão
diferentes? As emoções sociais parecem tão dependentes do ambiente em que nos
desenvolvemos, tão ligadas a fatores educacionais, que podem parecer um mero verniz
cognitivo aplicado ao de leve na superfície do cérebro. Além disso, é importante analisar até
que ponto o processamento de tais emoções e sentimentos, que envolvem claramente o eu do
observador, se servem, ou não, das estruturas cerebrais que começámos a associar aos
estados do eu.

Procurei resposta para estas questões juntamente com Hanna Damásio e com Mary Helen
Immordino-Yang, que tem um interesse absorvente pela combinação da neurociência com a
educação. e que por isso mesmo se sentiu atraída por este problema. Conce-

163

bemos um estudo em que iríamos investigar, usando imagiologia por ressonância magnética
funcional, a forma como certas histórias podem induzir sentimentos de admiração ou de
compaixão em seres humanos normais. Pretendíamos dar origem a reações de admiração ou
de compaixão, evocadas por certos tipos de comportamento mostrados numa narrativa. Não
nos interessava que os participantes da experiência reconhecessem a admiração ou a
compaixão quando as testemunhassem noutra pessoa. Queríamos sim que os participantes
vivessem essas emoções. Sabíamos à partida que queríamos pelo menos quatro condições
distintas, duas para a admiração e outras tantas para a compaixão. As condições para a
admiração eram quer a admiração por atos virtuosos (a virtude admirável de um grande ato de
generosidade), quer a admiração por atos de virtuosismo (os de atletas espetaculares ou de
solistas musicais espantosos, por exemplo). Por seu lado, as condições de compaixão incluíam
a compaixão pela dor física (aquilo que sentimos pela vítima indefesa de um acidente) e a
compaixão por problemas mentais e sociais (aquilo que sentimos por quem perdeu a casa num
incêndio, ou por quem perdeu a pessoa amada devido a uma doença intratável).

Os contrastes eram muito claros, especialmente depois de Mary Helen combinar


engenhosamente histórias verídicas com um método eficaz de as transmitir a participantes
voluntários de uma experiência de imagiologia funcional.11

Testámos três hipóteses. A primeira tinha a ver com as regiões envolvidas nos sentimentos de
admiração e de compaixão. O resultado da experiência foi inequívoco: as regiões envolvidas
eram, em geral, as mesmas usadas pelas supostamente triviais emoções básicas. Em todas as
condições, a ínsula embandeirou em arco, tal como o córtex cingulado anterior. Conforme
previsto, também as regiões do tronco cerebral superior mostraram atividade seletiva.

Este resultado veio desmentir sem dúvida a ideia de que as emoções sociais não envolveriam
os mecanismos de regulação vital no

164

mesmo grau das suas correspondentes básicas. O envolvimento cerebral foi profundo, o que
está em consonância com o facto de as nossas experiências com essas emoções serem
profundamente marcadas por acontecimentos corporais. O trabalho de Jonathan Haidt sobre o
processamento de emoções sociais comparáveis (que utilizou observações do
comportamento) revelou claramente a forma como o corpo se envolve em tais situações.12

A segunda hipótese que testámos tinha a ver com o tema central deste livro: o eu e a
consciência. Descobrimos que sentir estas emoções envolvia os córtices póstero-mediais
(PMC), uma região que julgamos desempenhar um papel importante na construção do eu. Isto
coaduna-se com o facto de a reação a qualquer uma das histórias de estímulo exigir que o
participante se torne espectador e avaliador da situação, em sintonia com o problema do
protagonista, nos casos da compaixão, e um potencial imitador da boa ação do protagonista,
no caso da admiração.

Descobrimos igualmente algo que não prevíramos: a parte do PMC mais ativa em situações de
admiração por uma aptidão corporal e de compaixão por sofrimento físico era muito diferente
da zona do PMC mais usada pela admiração por atos virtuosos e pela compaixão pela dor
mental. A divisão era impressionante, a tal ponto que o padrão de atividade do PMC
relacionado com um dos pares de emoções se encaixava literalmente no padrão do PMC ligado
ao outro par, quase como peças de um quebra-cabeças.

A característica partilhada por um dos pares de condições aptidão corporal e sofrimento físico
era o envolvimento do corpo nos seus aspetos exteriores, orientados para a ação. A
caraterística partilhada pelo outro par de condições a dor psicológica do sofrimento e o ato
virtuoso - era um estado mental. O resultado do PMC dizia-nos que o cérebro reconhecera
estas características partilhadas a fisicalidade num dos pares, os estados mentais no outro- e
prestava-lhes mais atenção do que ao contraste elementar entre a admiração e a compaixão.

165

A possível explicação para este fascinante resultado tem a ver com os diferentes partidos
tomados pelas duas partes do PMC no cérebro de cada indivíduo, em relação ao respetivo
corpo. Um dos sectores está intimamente ligado aos aspetos músculo esqueléticos, o outro ao
interior do corpo, ou seja, ao meio interno e às vísceras. Provavelmente, o leitor atento já
adivinhou qual corresponde a qual. A fisicalidade (aptidão, sofrimento físico) corresponde à
componente músculo-esquelética. A característica mental (dor mental, virtude) corresponde
ao meio interno e às vísceras. Porventura poderia ser de outra forma?

Houve ainda mais uma hipótese e um resultado digno de nota.

Aventámos a hipótese de que a compaixão pela dor física, sendo uma reação cerebral mais
antiga a nível evolutivo encontra-se claramente presente em várias espécies não-humanas -,
deveria ser processada mais rapidamente pelo cérebro do que a compaixão pelo sofrimento
mental, algo que exige o processamento laborioso de um problema e que provavelmente
envolve um nível de conhecimento mais elevado.

Os resultados confirmaram a hipótese. A compaixão pela dor física suscita reações mais
rápidas no córtex insular do que a compaixão pelo sofrimento mental. As reações à dor física
não só aumentam mais depressa como também se dissipam com maior rapidez. As reações à
dor mental demoram mais a estabelecer-se, mas também levam mais tempo a dissipar-se.

Apesar da natureza preliminar deste estudo, ele garante-nos um vislumbre inicial da forma
como o cérebro processa a admiração e a compaixão. Tal como seria de esperar, a raiz destes
processos encontra-se a um nível bastante profundo no cérebro e no corpo. Tal como seria
igualmente de esperar, estes processos são muito afetados pela experiência individual.

CAPITULO 6

Uma arquitetura para a memória

Algures, de certo modo

Será que algum de nós voltará a ver um comboio a partir sem ouvir tiros? » É isto que Dick
Diver, personagem principal de Terna É a Noite, de Scott Fitzgerald, pergunta aos
companheiros no momento em que se despedem do seu amigo Abe North, na manhã
parisiense. Tinham acabado de testemunhar algo de inesperado: uma jovem em desespero
tinha retirado um pequeno revólver da sua mala e abatido o seu amante, no preciso momento
em que o comboio apitava antes de sair da Gare St, Lazare.

A pergunta de Diver chama atenção para a espetacular capacidade do nosso cérebro de


apreender informação composta e reproduzi-la mais tarde, quer o queiramos, quer não, com
uma fidelidade considerável e a partir de uma grande variedade de perspetivas.

168

Diver e os seus amigos irão para sempre entrar em estações de comboios e ouvir tiros
imaginários nas suas mentes, numa aproximação ténue mas reconhecível dos sons ouvidos
naquela manhã, numa tentativa involuntária de reproduzir as imagens auditivas vividas
naquela manhã. Além disso, como as recordações compostas de aconteci mentos podem ser
invocadas a partir da reapresentação de qualquer das partes que as compõem, eles poderão
também ouvir os tiros a simples menção de comboios e não só quando virem comboios a sair
de estações, e poderão ainda ouvir os tiros quando alguém se referir a Abe North (estavam lá
por causa dele) ou à Gare St. Lazare (onde tudo se passou). É isto que acontece igualmente a
quem esteve num campo de batalha e passa o resto da vida a ouvir e a ver os sons e as
imagens de combate, em retrospetivas perturbantes e indesejadas. A síndrome de stresse pós-
traumático é um inconveniente efeito secundário de uma capacidade que a vários outros
níveis tem as maiores vantagens.

Tal como acontece nesta história, é útil que o acontecimento a ser recordado tenha sido
emocionalmente relevante, que tenha abalado as escalas de valor. Desde que uma cena tenha
algum valor, desde que na altura houvesse suficiente emoção, o cérebro apreende imagens,
sons, odores e sabores, num registo multimédia, e irá recuperá-los na altura própria. Com o
tempo, a recordação poderia desvanecer-se. Com o tempo, e com a imaginação de um
fabulista, o material será embelezado, baralhado e voltará a ser ordenado num romance ou
num argumento cinematográfico. Passo a passo, aquilo que começou como imagens fílmicas
não-verbais podem mesmo transformar-se num relato verbal fragmentado, recordável tanto
pelas palavras de uma narrativa como por elementos visuais e auditivos.

Consideremos agora a maravilha que é a recordação, e pensemos nos recursos de que o


cérebro terá de dispor para a produzir. Além das imagens percetuais em vários domínios
sensoriais, o cérebro tem de dispor de algum modo de armazenar algures os respe-

169

tivos padrões, e tem de manter um caminho, algures, para recuperar os padrões, para que
algures, de certo modo, a reprodução venha a funcionar. Quando tudo isto acontece, e desde
que também haja um eu em funcionamento, descobrimos que estamos no meio de uma
recordação.

A capacidade que temos para manobrar o mundo complexo que nos rodeia depende desta
possibilidade de apreender e de recordar apenas reconhecemos pessoas e locais porque
criamos registos da sua aparência e recuperamos parte desses registos na altura própria. A
nossa capacidade para imaginar eventuais acontecimentos também depende da aprendizagem
e da recordação, e é o fundamento do raciocínio e da navegação imaginária do futuro e, de
uma forma mais geral, da criação de soluções inovadoras para um problema. Para
entendermos como tudo isto acontece temos de desvendar no cérebro os segredos do «certo
modo» e localizar o «algures». Esse é um dos problemas mais complexos da neurociência
contemporânea.

A abordagem do problema da aprendizagem e da recordação depende do nível de


funcionamento que pretendamos estudar. Temos um entendimento crescente daquilo que é
necessário, ao nível dos neurónios e dos pequenos circuitos, para que o cérebro aprenda. Por
questões práticas sabemos como as sinapses aprendem, e até conhecemos, ao nível dos
microcircuitos, algumas das moléculas e dos mecanismos de expressão dos genes implicados
na aprendizagem.1 Sabemos igualmente que certas partes específicas do cérebro
desempenham um papel importante na aprendizagem de diferentes tipos de informação - por
exemplo, objetos como rostos, locais ou palavras, por um lado, e movimentos, por outro.'
Todavia, muitas perguntas aguardam resposta antes que os mecanismos do «certo modo» e
do «algures» possam ficar totalmente claros. O nosso objetivo presente é delinear uma
arquitetura cerebral que possa lançar mais luz sobre o problema.

170

A natureza dos registos de memória


o cérebro cria registos de entidades da sua aparência e da forma como soam e agem e
guarda-os para posterior recordação. O mesmo se passa com os acontecimentos. É habitual
considerar o cérebro como um meio de registo passivo, semelhante ao celulóide, no qual as
características de um objeto podem ser mapeadas fielmente, à medida que são analisadas por
detetores sensoriais. Se os olhos são a câmara inocente e passiva, o cérebro é o celulóide
virgem e passivo. Trata-se de pura ficção.

O organismo (o corpo e seu cérebro) interage com os objetos, e o cérebro reage à interação.
Ao invés de criar o registo da estrutura de uma entidade, o cérebro na realidade regista as
múltiplas consequências das interações do organismo com a entidade. Do nosso encontro com
um dado objeto não memorizamos apenas a sua estrutura visual, tal como é mapeada em
imagens óticas da retina. Também é necessário o que se segue: primeiro, os padrões sensório-
motores associados à visão do objeto (como sejam os movimentos do olho e do pescoço ou
todo o movimento corporal, se for o caso); segundo, o padrão sensório-motor associado ao
tato e à manipulação do objeto (se for ocaso); terceiro, o padrão sensório-motor resultante da
evocação de recordações adquiridas anteriormente que são pertinentes para o objeto; quarto,
os padrões sensório - motores ligados ao desencadear de emoções e sentimentos relativos ao
objeto.

Aquilo a que normalmente nos referimos como sendo a memória de um objeto é a memória
composta das atividades sensoriais e motoras relacionadas com a interação entre o organismo
e o objeto durante um certo período de tempo. A gama de atividades sensório motoras varia
com o valor do objeto e com as circunstâncias, o mesmo sucedendo com o registo dessas
atividades. As nossas memórias de determinados objetos são regidas pelo conhecimento
passado de objetos comparáveis ou de situações semelhantes àquela!

171

que estamos a viver. As nossas recordações são afetadas por preconceitos, na verdadeira
aceção do termo, dada a nossa história passada e as nossas crenças. A memória inteiramente
fidedigna é um mito, apenas aplicável a objetos triviais. A noção de que o cérebro retém seja o
que for como uma «memória isolada do objeto» não parece sustentável. O cérebro retém uma
memória daquilo que aconteceu durante uma interação, e a interação inclui de forma
relevante o nosso próprio passado, e muitas vezes o passado da nossa espécie biológica e da
nossa cultura.

O facto de apreendermos por interatividade, e não por recetividade passiva, é o segredo do


«efeito proustiano» na memória, a razão pela qual muitas vezes recordamos contextos e não
apenas coisas isoladas. No entanto, tal como veremos, isso é igualmente relevante para a
compreensão de como surge a consciência.

Primeiro as disposições, depois os mapas

O traço característico dos mapas cerebrais é a ligação relativamente transparente entre a coisa
representada - forma, movimento, cor, som e o conteúdo do mapa. O padrão do mapa tem
correspondências notórias com a coisa mapeada. Em teoria, se fosse possível a uma
observadora inteligente deparar com o mapa durante as suas deambulações científicas, ela
adivinharia de imediato aquilo que o mapa deveria representar. Sabemos que isso ainda não é
possível, embora as novas técnicas de imagiologia estejam a fazer grandes avanços nessa
direção. Em estudos que usam imagiologia com ressonância magnética funcional (fIRM) em
seres humanos, a análise multivariada de padrões demonstra a presença de padrões
específicos de atividade cerebral em relação a certos objetos vistos ou ouvidos pelo sujeito.
Num estudo recente levado a cabo pelo nosso grupo (Meyer et al. 2010, citado no capítulo 3)
conseguimos detetar padrões no córtex auditivo que correspondem àquilo que os
participantes ouvi-

172

ram no seu «ouvido mental», sem que qualquer som real fosse ouvido. Os resultados
prendem-se diretamente com a pergunta posta por Dick Diver,

O desenvolvimento biológico do mapeamento e a sua consequência direta imagens e mentes -


é uma transição pouco enaltecida da evolução. Mas transição de quê? Para quê? - poderão
perguntar. Transição de um modo de representação neural que pouca ligação explícita tinha
com a coisa representada para um modo onde a ligação é óbvia. Permitam-me dar um
exemplo. Primeiro, imagine o leitor que um objeto atinge um organismo e que um grupo de
neurónios responde com um disparo. O objeto pode ser aguçado ou rombo, grande ou
pequeno, manipulado ou auto - impulsionado, feito de plástico, aço ou carne. O que interessa
é que atinge o organismo em alguma ponto da sua superfície, após o que um grupo de
neurónios reage ao impacto tornando-se ativo sem de facto representar as propriedades do
objeto. Agora imagine outro grupo de neurónios que vai disparar ao receber um sinal do
primeiro grupo, fazendo com que o organismo se desloque da sua posição estacionária.
Nenhum dos grupos representou de todo o ponto onde o organismo foi atingido, nem onde
devera parar, e também não representaram as propriedades físicas do objeto. Bastou a
deteção do impacto, um dispositivo de comando e a capacidade de movimento. Nada mais.
Estes grupos parecem ter representado disposições e não mapas, fórmulas de conhecimento
que codificam algo de parecido com o seguinte: quando atingido de um lado, mova-se na
direção oposta durante X segundos, independentemente do objeto que provocou o impacto
ou do local onde se encontre.

Durante muito, muito tempo ao longo da evolução, os cérebros funcionaram com base em
disposições e alguns dos organismos assim equipados saíram-se muito bem em certos
ambientes. A rede de disposições conquistou bons resultados e tornou-se cada vez mais
complexa e abrangente nas suas conquistas. Todavia,

173

quando os mapas se tornaram possíveis, os organismos conseguiram ir mais além das reações
preestabelecidas e passaram a reagir com base na informação mais rica agora disponível nos
mapas. A qualidade da gestão melhorou em conformidade. As reações tornaram-se específicas
em relação aos objetos e às situações. Deixaram de ser genéricas, pelo que acabaram
igualmente por se tornar mais precisas. Mais tarde, as redes de disposições não - mapeadoras
viriam a unir esforços com as redes que criavam mapas e, com essa união, os organismos
adquiriram uma flexibilidade de gestão ainda maior.

O mais fascinante é que o cérebro não abandonou o seu antigo e bem testado mecanismo (as
disposições) a favor da nova invenção (os mapas e suas imagens). A natureza manteve ambos
os sistemas em funcionamento e com uma desforra: uniu-os e fê-los trabalhar em sinergia. Em
resultado da combinação, o cérebro tornou-se pura e simplesmente mais rico, e é esse o
cérebro que nós, seres humanos, recebemos ao nascer.
Os seres humanos exibem o exemplo mais complexo desse modo de funcionamento híbrido e
sinérgico na sua forma de apreender o mundo, na sua aprendizagem, na recordação do que
aprendemos e na manipulação criativa da informação. Herdamos de muitas espécies
anteriores vastas redes de disposições que operam os nossos mecanismos básicos de gestão
vital. Nelas se incluem os núcleos que controlam o nosso sistema endócrino e os núcleos
ligados aos mecanismos de recompensa e castigo, e à ativação e execução das emoções. Numa
inovação brilhante, estas redes de disposições foram colocadas em contacto com diversos
sistemas de mapas dedicados à construção de imagens do mundo interior e do mundo
exterior. Consequentemente, os mecanismos básicos da gestão vital vieram a influenciar o
funcionamento das regiões de mapeamento do córtex cerebral. No entanto, a meu ver, a
inovação não ficou por aí, e o cérebro dos mamíferos foi ainda mais longe.

174

Quando O cérebro humano precisou de criar ficheiros prodigiosamente grandes das imagens
que registava, mas não dispunha de espaço para os armazenar, apropriou-se da estratégia das
disposições para resolver este problema de engenharia. Matou, assim, dois coelhos com uma
única cajadada: conseguiu encaixar inúmeras recordações num espaço limitado mas manteve
a capacidade de as recuperar rapidamente e com uma fidelidade considerável. Nós, seres
humanos, nunca tivemos de microfilmar um sem-número de imagens variadas e armazená-las
em arquivo; limitámo-nos a criar e manter uma fórmula simples para a sua reconstrução e
usámos os mecanismos percetuais já existentes para as recuperar tão fielmemnte quanto
possível. Fomos sempre pós-modernos.

A memória em funcionamento

Aqui está, então, o problema. Além de criar representações mapeadas que resultam em
imagens percetuais, o cérebro tem outra capacidade igualmente notável: criar registos de
memória dos mapas sensoriais e reproduzir uma aproximação do seu conteúdo original. Este
processo é conhecido como recordação. Para nos lembrarmos de uma pessoa ou
acontecimento, ou para contar uma história, necessitamos da recordação; para reconhecer
objetos e situações em nosso redor também necessitamos da recordação; tal como para
pensar em objetos com os quais tenhamos interagido e em acontecimentos que tenhamos
presenciado, e ainda para todo o processo imaginativo com que planeamos o futuro.

Se pretendemos entender a forma como a memória funciona, temos de entender o modo


como o cérebro estabelece o registo de um mapa, bem como a sua localização. Será que o
cérebro cria um fac-símile da coisa a ser memorizada? Ou será que reduz a imagem a um
código, que a digitaliza, por assim dizer? Qual destas opções será? Como? Onde?

175

Existe ainda mais um onde essencial: onde é reproduzido o registo durante a recordação, de
forma a que as propriedades essenciais da imagem original possam ser recuperadas? Quando
Dick Diver, em Terna É a Noite, volta a ouvir os tiros, onde é que, no seu cérebro, eles são
reproduzidos ? Quando pensamos no amigo que perdemos, ou na casa onde vivemos,
invocamos uma série de imagens dessas entidades. São menos nítidas do que se estivéssemos
a olhar para o objeto real ou para uma fotografia. No entanto, as imagens recordadas
conseguem manter as propriedades básicas do original, a tal ponto que Steve Kosslyn, um
engenhoso neurocientista cognitivo, conseguiu avaliar a dimensão relativa de um objeto
recordado e analisado na mente.3 Onde são reconstruídas as imagens para que as possamos
analisar nos nossos devaneios?

As respostas tradicionais (embora presunções seja talvez um melhor termo) a esta pergunta
vão buscar a sua inspiração a um relato convencional da perceção sensorial. Assim, os
componentes da informação percetual providenciados por diferentes córtices sensoriais
iniciais (em grande medida nas secções posteriores do cérebro) são enviados para a frente do
cérebro através de vias cerebrais a caminho dos chamados córtices multimodais e aí
integrados. A perceção funcionaria com base num fluxo de processadores seguindo numa
direção. Passo a passo, o fluxo extrairia sinais cada vez mais refinados, primeiro nos córtices
sensoriais de uma única vertente (visual, por exemplo), e a seguir nos córtices multimodais, os
que recebem informação de mais do que uma vertente (visual, auditiva e somática, por
exemplo). O fluxo seguiria, em regra geral, uma direção caudo -rostral (de trás para a frente) e
culminaria nos córtices temporal anterior e frontal, onde esta proposta tradicional presume
que ocorram as representações mais integradas da apreensão multissensorial da realidade.

Estas interpretações são captadas pelo conceito de «célula avó». Uma célula avó é um
neurónio que se encontra algures

176

perto do topo do fluxo de processamento (por exemplo, no lobo temporal anterior), cuja
atividade, em si própria, representaria de forma global a nossa avó quando a apreendemos
durante a perceção visual. Tais células únicas (ou pequenos grupos de células) conteriam uma
representação global de objetos e acontecimentos durante a perceção. Além disso, conteriam
ainda um registo desses conteúdos apreendidos. Os registos de memória estariam assim
localizados onde se encontram as células avó. Ainda mais notável, e em resposta direta à
pergunta anteriormente posta, as células avó reativadas permitiriam a reprodução desses
conteúdos apreendidos na sua totalidade, nesse preciso momento. Em resumo, a atividade
nesses neurónios seria responsável pela recordação de várias imagens devidamente
integradas, entre elas o rosto da nossa avó ou os tiros que Dick Diver ouviu. Seria o onde da
recordação.

Considero esta explicação como improvável. Com base nesta explicação, as lesões nos córtices
do lobo temporal e frontal, as regiões anteriores do cérebro, deveriam impossibilitar tanto a
perceção normal como a recordação normal. A perceção normal desapareceria porque
desapareceriam os neurónios capazes de criar a representação totalmente integrada de uma
experiência percetual coesa. A recordação normal desapareceria porque as células que apoiam
a perceção integrada também apoiam os registos integrados da memória.

Infelizmente para esta proposta tradicional, nada disto acontece na realidade. As descobertas
neuropsicológicas assim o mostram. Os pontos essenciais desta realidade discordante são os
seguintes. Os pacientes com lesões nas regiões cerebrais anteriores frontal e temporal têm
uma perceção normal e apenas apresentam deficiências seletivas na recordação e no
reconhecimento de objetos e acontecimentos específicos.

177

Por exemplo, pacientes podem descrever em grande pormenor o conteúdo de uma imagem
que lhes seja mostrada, podem descrever corretamente a imagem como sendo de uma festa
(aniversário, casamento) e, no entanto, não conseguir reconhecer que se trata da sua própria
festa. Lesões anteriores não comprometem a perceção integrada da cena completa, nem a
interpretação do seu significado. Também não comprometem a perceção dos inúmeros
objetos que compõem a imagem, nem a recuperação do seu significado pessoas, cadeiras,
mesas, bolo de aniversário, velas, roupas festivas, etc. As lesões anteriores permitem a visão
do conjunto e a visão das partes. Só com uma localização completamente diferente das lesões
é possível comprometer o acesso aos componentes separáveis da memória, aqueles que
correspondem a objetos diferentes ou às características dos objetos, como a cor ou o
movimento. Tal acesso só e comprometido por lesões que envolvam sectores do córtex
cerebral em regiões mais recuadas do cérebro, perto das principais regiões sensoriais e
motoras.

Em conclusão, as lesões dos córtices integrativos e associativos não comprometem a perceção


integrada, nem a recordação das partes que constituem um conjunto, nem a recordação de
conjuntos não específicos de objetos e de características. Tais lesões apenas provocam um
compromisso grave e concreto do processo de recordação: impedem a recordação da
especificidade de objetos e de cenas. Uma determinada festa de aniversário continua a ser
uma festa de aniversário, mas deixa de ser o aniversário específico de alguém, com um local e
uma data concretos. Só as lesões nos córtices sensoriais iniciais criadores de mente e em seu
redor impedem a recordação da informação que em tempos foi processada por esses córtices
e registada na sua proximidade.

178

Um breve aparte sobre os tipos de memória

As distinções que podemos estabelecer entre diferentes tipos de memória relacionam-se não
só com o tema fulcral da recordação, mas também com a gama de circunstâncias em torno
desse tema, tal como surge representado em determinada situação de recordação. A esta luz
as várias denominações habitualmente atribuídas às recordações (genérico por oposição a
específico, semântico por oposição a episódico) não refletem a riqueza do fenómeno. Por
exemplo, quando questionado acerca de uma casa específica onde em tempos vivi, seja
através de uma deixa verbal ou através de uma fotografia, é provável que recorde uma
profusão de pormenores relacionados com as minhas experiências pessoais dessa casa; isso
inclui a reconstrução de padrões sensório motores de variadas modalidades e géneros, pelo
que até se poderão reativar sentimentos pessoais. Se, em vez disso, me pedirem que evoque o
conceito geral de «casa», poderei perfeitamente recordar essa mesma casa específica, na
minha mente «visual» e a partir daí elaborar o conceito genérico de casa. Nessas
circunstâncias, contudo, a natureza da questão altera o rumo do processo de recordação. O
objetivo do segundo exemplo irá provavelmente inibir a evocação dos abundantes
pormenores pessoais tão em destaque no primeiro. Em vez de uma recordação pessoal, irei
limitar-me a processar um conjunto de factos que satisfazem o que me é pedido do momento,
que consiste em definir casa.

As distinções entre o primeiro e o segundo exemplos residem no grau de complexidade do


processo de recordação. Essa complexidade pode ser avaliada pelo número e variedade de
aspetos recordados quanto a um artigo ou acontecimento particular. Por outras palavras,
quanto maior o contexto sensório-motor recordado sobre uma entidade ou acontecimento
específico} maior a complexidade. A memória de entidades e acontecimentos únicos, em
particular os que são a um

179
tempo únicos e pessoais, exige contextos de elevada complexidade. Podemos descortinar aqui
uma progressão hierárquica de complexidade: as entidades e acontecimentos únicos-pessoais
exigem a maior complexidade; as entidades e os acontecimentos únicos não pessoais ficam a
seguir; as entidades e os acontecimentos não únicos exigem o nível mais baixo.

Por uma questão prática, será útil dizer que as palavras são recordadas num dos níveis
mencionados acima não único ou único pessoal, por exemplo. Essa distinção é comparável à
distinção semântico/episódico ou à distinção genérico/ contextual.

Será igualmente útil manter a distinção entre memória /atual e memória de procedimento,
pois reflete uma divisão fundamental entre «coisas» entidades com uma determinada
estrutura, em repouso e o «movimento» das coisas no espaço e no tempo. Contudo, até neste
caso a distinção se pode tornar arriscada.

Em última análise, a validade destas categorias de memória depende da aceitação que o


cérebro lhes dá. Em regra, o cérebro acata as distinções entre processamentos únicos e não
únicos ao nível da recordação, e entre memória factual e de procedimento, tanto na criação da
memória como na sua recordação.

Uma possível solução para o problema

A reflexão sobre estas observações levou-me a propor um modelo de arquitetura neural


responsável pela recordação e pelo reconhecimento.4 Vejamos o que o modelo é capaz de
fazer.

As imagens de que temos experiência podem ser obtidas durante a perceção e durante a
recordação. Seria impossível armazenar no seu formato original os mapas relativos a todas as
imagens jamais adquirimos. Por exemplo, os córtices sensoriais iniciais estão continuamente a
criar mapas sobre o que nos rodeia e não têm recursos que lhes permitam armazenar mapas
que não estão a ser usados.

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

180

córtices somatossensoriais

córtices associativos elevados

córtices motores

córtices visuais

córtices auditivos

Figura 6.1: Esquema da arquitetura de convergência-divergência. Estão representados quatro


níveis hierárquicos. O nível cortical primário é mostrado em pequenas caixas retangulares e os
três níveis de convergência-divergência (caixas maiores) estão assinalados com COZI' COZ2 e
COR. Entre os níveis CDZ e os níveis COR (setas interrompidas) são possíveis inúmeros COZ
intermédios. Note que, por toda a rede, cada projeção frontal é retribuída por uma projeção
de regresso (setas).
181

No entanto, em cérebros como os nossos, graças às ligações recíprocas entre o espaço


cerebral criador de mapas e o espaço disposicional,os mapas podem ser registados num
formato disposicional. Nesse tipo de cérebro as disposições são um mecanismo de
armazenamento de informação que poupa espaço. Por fim, as disposições podem ser usadas
para reconstruir os mapas nos córtices sensoriais iniciais, no formato em que foram adquiridos
originalmente.

O modelo teve em consideração as descobertas neuropsicológicas descritas anteriormente e


pressupôs que os grupos de células nos níveis mais elevados das hierarquias de processamento
não guardariam representações explícitas dos mapas de objetos e acontecimentos. Em vez
disso, esses aglomerados guardariam o «know-how », ou seja, as disposições, necessárias para
a eventual reconstrução de representações explícitas. Por outras palavras, utilizei para o meu
modelo o simples dispositivo das disposições que apresentei anteriormente, mas agora, em
vez de usar as disposições para dar início a um movimento de pouca ou nenhuma importância,
estava a usar as disposições para dar início ao processo de reativação e ordenação de aspetos
de uma perceção anterior, onde quer que tivessem sido processados e depois registados
localmente. Especificamente, as disposições iriam agir sobre uma série de córtices sensoriais
iniciais originalmente utilizados pela perceção. As disposições fá-lo-iam por meio de ligações
que partiriam em movimento retrógado em direção aos córtices sensoriais iniciais. Assim, o
local onde os registos de memória seriam de facto reproduzidos não divergiria muito do local
da perceção original.

Zonas de convergência-divergência

A parte principal da estrutura do modelo era uma arquitetura neural de ligações corticais com
propriedades de sinalização convergente e divergente em relação a certos nódulos. Chamei a
esses

182

nódulos zonas de convergência-divergência (convergence-divergence zones, cujas iniciais são


CDZ). As CDZ registavam a coincidência de atividade em neurónios de diferentes partes do
cérebro, neurónios esses que haviam sido ativados, por exemplo, pelo mapeamento de um
determinado objeto. Nenhuma parte do mapa geral do objeto teria de voltar a ser
representada de modo permanente nas CDZ para que ela ficasse em memória. Só tinha de ser
registada a coincidência de sinais vindos dos neurónios ligados ao mapa original. Para
reconstituir o mapa original, e assim produzir a recordação, propus o mecanismo de
retroativação com sincronização temporal. O termo retroativação apontava para o facto de o
mecanismo necessitar de um processo de «regresso» para induzir a atividade; sincronização
temporal chamava a atenção para outra característica: era necessário retroativar os
componentes de um mapa aproximadamente no mesmo intervalo de tempo, para que aquilo
que tinha ocorrido em simultâneo (ou quase) durante a perceção pudesse ser reordenado
simultaneamente (ou quase) aquando da recordação.

O outro elemento crítico na estrutura consistia no estabelecimento de uma divisão de trabalho


entre dois tipos de sistemas cerebrais, um encarregado de mapas/imagens e outro
encarregado de disposições. No que respeitava aos córtices cerebrais, propus que o espaço
imagético consistiria em várias ilhas, ou córtices sensoriais periprimários por exemplo, o grupo
de córtices visuais que rodeia o córtex visual inicial (área 17, ou V) e do mesmo modo, para o
grupo de córtices auditivos, o de córtices somatossensoriais, etc.

O espaço disposicional cortical incluía todos os córtices de associação mais elevados das
regiões temporal, parietal e frontal; adicionalmente, um antigo conjunto de disposições
permanecia por baixo do córtex cerebral, no prosencéfalo, nos gânglios basais, tálamo e
hipotálamo, e no tronco cerebral.

Em resumo, o espaço imagético é o espaço onde ocorrem imagens explícitas de todos os


naipes sensoriais, incluindo tanto

183

as imagens que se tornam conscientes como aquelas que permanecem inconscientes. O


espaço imagético fica situado no cérebro mapeador, o vasto território formado pelo
aglomerado de todos os córtices sensoriais iniciais, as regiões do córtex cerebral situadas no
ponto de entrada cerebral, bem como em seu redor, dos sinais visuais, auditivos e outros
sinais sensoriais. Inclui igualmente os territórios do núcleo do trato solitário, do núcleo
parabraquial e dos colículos superiores, que também têm capacidade de criação de imagens.

O espaço disposicional é aquele em que as disposições mantêm a base de conhecimento, bem


como os dispositivos, para a reconstrução desse conhecimento durante a recordação. É a fonte
das imagens no processo de imaginação e de raciocínio, sendo também usado para gerar
movimento. Fica situado nos córtices cerebrais que não estão ocupados pelo espaço imagético
(os córtices de alta ordem e partes dos córtices límbicos) e em diversos núcleos subcorticais.
Quando os circuitos disposicionais são ativados, enviam sinais para outros circuitos e levam à
criação de imagens ou de ações.

O conteúdo exibido no espaço imagético é explícito, ao passo que o conteúdo do espaço


disposicional é implícito. Podemos ter experiência do conteúdo de imagens caso estejamos
conscientes, mas nunca acedemos diretamente ao conteúdo das disposições.
Necessariamente, o conteúdo das disposições é sempre inconsciente. Existe numa forma
codificada e em estado de hibernação funcional.

As disposições produzem uma série de resultados. A um nível básico, podem dar origem a
ações de muitos tipos e níveis de complexidade - a libertação de uma hormona para a corrente
sanguínea; a contração de músculos nas vísceras, ou de músculos num membro, ou no
aparelho fonador. No entanto, as disposições corticais também

184

mantêm registos de uma imagem que foi apreendida em determina da ocasião, e participam
na tentativa de reconstrução de um esboço dessa imagem a partir da memória. As disposições
também apoiam o processamento de uma imagem que esteja a ser apreendida, influenciando,
por exemplo, o grau de atenção atribuído a essa imagem. Nunca temos consciência do
conhecimento necessário para executar qualquer dessas tarefas, nem alguma vez nos
apercebemos dos passos intermédios que são dados. Apenas notamos os resultados, como,
por exemplo, um estado de bem-estar; o coração em ritmo acelerado; o movimento de uma
mão; o fragmento de um som que se recorda; a versão abreviada da paisagem pela qual
passamos.
A nossa memória das coisas, das propriedades das coisas, de pessoas e locais, de
acontecimentos e relações, de competências, e de processos de gestão vital - em resumo, toda
a nossa memória, herdada da evolução e disponível à nascença ou adquirida através de uma
aprendizagem ulterior - existe gravada no nosso cérebro mas de uma forma disposicional, à
espera de se tornar em imagem ou ação explícita. O nosso conhecimento-base é implícito)
velado e inconsciente.

As disposições não são palavras, são registos abstratos de potencialidades. A base para a
produção de palavras ou sinais também existe como disposição antes de ganhar vida sob a
forma de imagens e ações, tal como acontece na produção do discurso ou da linguagem
gestual. As regras com as quais ordenamos palavras e sinais, a gramática de uma língua,
também estão presentes como disposições.

Algo mais sobre as zonas de convergência-divergência

Uma CDZ é um grupo de neurónios onde muitos arcos de «feedforward» e «feedback»


estabelecem contacto. Uma CDZ recebe ligações de «feedforward» a partir de áreas sensoriais

185

situadas a montante das cadeias de processamento de informação, cadeias essas que


começam no ponto de entrada dos sinais sensoriais no córtex cerebral. Uma CDZ envia
projeções de retorno, recíprocas, para essas áreas de origem (projeções de «feedback»). A CDZ
também envia projeções «feedforward» para regiões situadas no nível de ligação seguinte da
cadeia, recebendo delas projeções de retorno.

As CDZ são microscópicas e situam-se no interior das regiões de convergência-divergência


(convergenc -divergence regions, ou CDR), que são macroscópicas. Calculo que o número de
CDZ seja da ordem dos muitos milhares. As CDR, por outro lado serão dezenas. As CDZ são
micronódulos; as CDR são macronódulos. As CDR situam-se em áreas estratégicas dos córtices
associativos, áreas essas para onde convergem diversas vias importantes. Podemos visualizar
as CDR como «centros de distribuição» num mapa de rotas aéreas. Pensemos em Chicago,
Washington DC, Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco, Denver ou Atlanta. Os centros de
distribuição recebem aviões ao longo dos eixos que confluem para cada um deles e enviam
aviões de volta ao longo desses mesmos eixos. É importante notar que os próprios centros de
distribuição se encontram interligados, embora alguns sejam mais periféricos do que outros.
Finalmente, alguns centros de distribuição são maiores do que outros, o que apenas significa
que existe um maior número de CDZ a viver sob a sua alçada.

Sabemos, a partir de estudos neuroanatómicos experimentais, que esse tipo de padrão de


conectividade existe como realidade no cérebro dos primatas,5 e que não é uma mera
hipótese. Graças a recentes estudos com neuroimagiologia por ressonância magnética usando
técnicas de difusão de espectro sabemos também que esses padrões existem nos seres
humanos.6 Nos capítulos que se seguem veremos que as CDR desempenham um papel
importante na produção e organização de conteúdos essenciais para a mente consciente,
entre eles os que compõem o eu autobiográfico.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

186
córtices somatossensoriais

córtices associativos elevados

córtices motores

córtices visuais

córtices auditivos

córtices somatossensoriais

córtices associativos elevados

córtices visuais

córtices auditivos

córtices motores

córtices

Figura 6.2: Uso da arquitetura CD para invocar recordações desencadeadas por um estímulo
visual específico. Nos painéis a e b, a entrada de um determinado estímulo visual (conjunto
selecionado de pequenas «caixas» preenchidas) desencadeia a atividade nas CDZ dos níveis 1 e
2 (setas a negro e «caixas. preenchidas). No painel c, a atividade propaga-se para diante e ativa
CDR

187

córtices somatossensoriais

córtices associativos elevados

córtices motores

córtices visuais

córtices auditivos

córtices somatossensoriais

córtices associativos elevados

córtices motores

córtices visuais

córtices auditivos
específicas; no painel d, a retroativação proveniente das COR desencadeia a atividade nos
córtices somatossensorial, auditivo, motor e outros córtices visuais iniciais (setas a negro,
«caixas» preenchidas), A retroativação dá origem a «exposições» no «espaço imagético», bem
como a movimentos (conjunto selecionado de pequenas «caixas» preenchidas),

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

188

Tanto as CDR como as CDZ começam a sua vida debaixo do controlo genético. Dependendo do
modo como o organismo interage com o ambiente durante o desenvolvimento, o
fortalecimento ou o enfraquecimento das sinapses modifica de forma significativa as regiões
de convergência e modifica ainda mais profundamente as CDZ. O fortalecimento sináptico
ocorre quando as circunstâncias externas correspondem às necessidades de sobrevivência do
organismo.

Em resumo, a tarefa que imagino para as CDZ consiste na recriação de conjuntos separados de
atividade neural que, em épocas passadas, tenham sido quase simultâneos, durante a
perceção ou seja, que tenham coincidido durante a janela temporal necessária para que
tivéssemos consciência da sua presença. Para que tal aconteça, as CDZ iriam desencadear uma
sequência extremamente rápida de ativações que fariam com que regiões neurais separadas
entrassem em funcionamento, segundo determinada ordem, sendo essa sequência tão
impercetível para a consciência que o resultado é a ilusão de simultaneidade.

Nesta arquitetura, a recuperação de conhecimento seria baseada na atividade praticamente


simultânea de muitas regiões corticais primárias, produzida ao longo de várias iterações de
ciclos de reativação. Essas atividades separadas seriam a base da reconstrução de
representações. O nível em que o conhecimento é recuperado dependeria da extensão da
ativação multirregional. Isto, por sua vez, dependeria do nível de CDZ ativadas,7

O modelo em funcionamento

Que indícios temos de que o modelo de convergência divergência corresponde à realidade?


Recentemente, o meu colega Kaspar Meyer e eu analisámos um grande número de estudos
nas áreas da perceção, imagética e investigação dos neurónios espe·

189

lho, e considerámos os resultados da análise à luz do modelo de convergência-divergência.8


Muitos dos resultados que analisámos constituem testes valiosos do modelo. Aqui fica um
exemplo. Quando em conversa com outra pessoa, ouvimos a voz de quem fala e vemos os seus
lábios a mover-se ao mesmo tempo. O modelo CDZ prevê que, à medida que certos
movimentos dos lábios se repetem a par do correspondente sinal sonoro, os dois fenómenos
neurais, nos córtices visual e auditivo primários respetivamente, passam a estar associados
numa CDZ. No futuro, quando confrontados com apenas uma parte dessa cena - ao vermos um
movimento específico dos lábios numa gravação vídeo sem som, por exemplo, o padrão de
atividade induzido nos córtices visuais primarias vai ativar a CDZ apropriada e esta irá
retroativar nos córtices auditivos primários a representação do som que acompanhou
originalmente o movimento dos lábios.
Em consonância com o modelo teórico das CDZ, a leitura visual dos lábios na ausência de som
induz atividade nos córtices auditivos, e os padrões de atividade evocados sobrepõem-se aos
evocados durante a perceção das palavras durante a fala.9 O mapa auditivo do som torna-se
parte integrante da representação do movimento dos lábios. O modelo das CDZ explica como
somos capazes de ouvir sons mentalmente após recebermos o adequado estímulo visual, ou
vice-versa,

Caso haja alguém que considere a capacidade de sincronizar as imagens visuais e o som como
proeza banal, pense-se no desconforto e na irritação que sentimos quando a qualidade da
projeção de um filme é má e o som e a imagem visual ficam dessincronizados. Ou, pior ainda,
quando temos de ver um belo filme italiano mal dobrado num inglês dessincronizado. Uma
série de outros estudos percetuais, envolvendo outras modalidades sensoriais (olfato, tato) e
mesmo estudos neuropsicológicos em primatas não-humanos produziram resultados
satisfatoriamente explicáveis pelo modelo CDZ.10

190

Outro conjunto de dados interessantes chega-nos de estudos de imagética mental. Tal como o
termo sugere, o processo de imaginação consiste na recordação de imagens e sua
manipulação subsequente cortes, ampliações, reordenamentos. Será que quando usamos a
imaginação trabalhamos com «retratos» ou será que a imaginação depende de descrições
semelhantes as da linguagem?" A estrutura CDZ defende a versão das imagens. Propõe que as
mesmas regiões cerebrais são ativadas aquando da perceção de objetos ou de acontecimentos
e quando estes são recordados a partir da memória. As imagens construídas durante a
perceção vêm a ser reconstruídas durante o processo de recordação. São aproximações e não
réplicas, tentativas de regressar a uma realidade passada e, por isso mesmo, não tão nítidas ou
precisas.

Um grande número de estudos indica inequivocamente que as tarefas imagéticas em


modalidades como a visual e a auditiva, por exemplo, evocam padrões de atividade que em
grande medida se sobrepõem aos padrões observados durante a perceção inicial;12 ao passo
que os resultados dos estudos de lesões também fornecem dados a favor do modelo CDZ e do
contributo pictórico da imaginação. Muitas vezes, as lesões cerebrais focais causam um défice
simultâneo na perceção e na imagética. Exemplo disso é a incapacidade de apreender e
imaginar cores provocada por lesões na região occipito-temporal. Os pacientes com lesões
focais nesta região apreendem o seu mundo visual a preto e branco, literalmente em tons de
cinzento. Os pacientes não conseguem «imaginar» cor na sua mente. Sabem perfeitamente
que acordo sangue é vermelho, um dado de conhecimento geral arquivado através da ligação
de palavras a conceitos. Todavia não são capa-

191

zes de representar a cor vermelha na mente, nem ver vermelho quando olham para um objeto
dessa cor.

Os dados tanto da imagética funcional como dos estudos sobre lesões sugerem que a
recordação de objetos e de acontecimentos depende, pelo menos em parte, de atividade
perto dos pontos onde os sinais sensoriais entram no córtex, bem como na vizinhança dos
locais de saída de informação motora. Não será certamente coincidência que sejam estes os
locais originalmente envolvidos na perceção inicial de objetos e acontecimentos.
A pesquisa sobre os neurónios espelho também fornece indícios de que o modelo CDZ é uma
forma adequada de explicar certos comportamentos e operações mentais complexas. A
descoberta-chave na pesquisa sobre os neurónios espelho (capítulo 4) mostra que a simples
observação de uma ação leva a atividade em zonas relacionadas com a área motora.13 O
modelo CDZ é ideal para explicar esta observação. Pensemos no que acontece quando agimos.
Uma ação não consiste unicamente numa sequência de movimentos gerada pelas áreas
motoras do cérebro. A ação engloba em simultâneo representações sensoriais que têm origem
nos córtices somatossensorial, visual e auditivo. O modelo CDZ sugere que a repetida
coocorrência dos vários mapas sensório -motores que descrevem uma ação específica leva a
repetidos sinais convergentes em direção a uma CDZ específica. Mais tarde, quando a mesma
ação é notada, por exemplo, visualmente, a atividade criada nos córtices visuais ativa a CDZ
apropriada. Subsequentemente, a CDZ serve-se de retroprojeções divergentes enviadas para
os córtices sensoriais iniciais para reativar as associações relacionadas com essa ação, em
modalidades como a somatossensorial e a auditiva. A CDZ pode também

192

enviar sinais para os córtices motores e criar um espelho». Segundo cremos, os neurónios
espelho são neurónios CDZ ligados ao movimento.14

Segundo o modelo CDZ, os neurónios espelho só por si não permitem aos observadores
apreender o significado de uma ação. As CDZ não retêm o significado dos objetos e dos
acontecimentos; elas reconstroem o significado em vários córtex primários através da
retroativação multirregional com sincronizara temporal. Como os neurónios espelho são
provavelmente CD o significado de uma ação não pode estar contida apenas nos neurónios
espelho. É preciso que seja levada a cabo a reconstrução de vários mapas sensoriais,
anteriormente associados à ação, sob controlo das CDZ onde ficou registado um elo de ligação
a mapas originais.15

O como e o onde da perceção e do recordar

A perceção ou recordação da maioria de objetos e acontecimentos depende de atividade em


várias regiões do cérebro criadoras de imagens, e muitas vezes envolvem partes do cérebro
também relacionadas com o movimento. Este padrão de atividade altamente disperso ocorre
no espaço imagético. É esta atividade, e não a atividade dos neurónios no espaço
disposicional, que nos permite apreender imagens explícitas de objetos e acontecimentos. O
espaço disposicional é composto por CDZ e CDR, em córtices associativos. O espaço
disposicional orienta a criação de imagens, mas não está, ele próprio, envolvido na criação de
imagens.

193

Figura 6.3: O espaço imagético (mapeado) e o espaço disposicional (não mapeado) no córtex
cerebral. O espaço imagético está representado pelas áreas escurecidas dos quatro painéis A,
a par do córtex motor primário.

O espaço disposicional está representado nos quatro painéis B e também assinalados num tom
escuro,

Os componentes separados do espaço imagético assemelham-se a ilhas no oceano de espaço


disposicional mostrado nos quatro painéis inferiores.
194

Neste sentido, o espaço disposicional contém «células avó», definidas liberalmente como
neurónios cuja atividade está correlacionada com a presença de um objeto específico, mas não
como neurónios cuja atividade permita, por si só, a criação de imagens mentais explícitas de
objetos e de acontecimentos. Os neurónios nos córtices temporais anteriores podem, com
efeito, reagir a objetos específicos, tanto na perceção como na recordação, com uma grande
especificidade, o que sugere que recebem sinais convergentes." No entanto, a mera ativação
desses neurónios, sem uma subsequente retroativação, não nos permitiria reconhecer a nossa
avó, nem recordarmo-nos dela. Para reconhecer ou recordar a simpática senhora temos de
recuperar uma parte substancial da série de mapas explícitos que, na sua totalidade,
representam o seu significado. Tal como acontece com os neurónios espelho, os chamados
neurónios avó são CDZ. Permitem a retroativação multirregional com sincronização temporal
de mapas explícitos nos córtices sensório-motores primários.

Em conclusão, o modelo CDZ pressupõe dois «espaços cerebrais» relativamente separados.


Um dos espaços produz mapas explícitos de objetos e de acontecimentos durante a perceção,
e reconstrói-os durante a recordação. Tanto na perceção como na recordação há uma
correspondência manifesta entre as propriedades do objeto e o mapa. O outro espaço contém
disposições e não mapas, ou seja, fórmulas implícitas de como reconstruir mapas o espaço
imagético.

O espaço imagético explícito é constituído pelo conjunto dos córtices sensório-motores


primários. Quando falo sobre «espaço de trabalho» em relação aos locais onde as imagens são
campostas, penso num palco para as marionetas que observamos na mente consciente. O
espaço disposicional implícito é constituído pelo conjunto dos córtices associativos. Trata-se
do espaço onde muitos manipuladores involuntários puxam os fios invisíveis dessas
marionetas.

195

Os dois espaços apontam para diferentes estádios na evolução cerebral, um em que as


disposições bastavam para orientar o comportamento adequado, e outro em que os mapas
deram origem às imagens. Hoje em dia esses estádios e espaços encontram-se indelevelmente
integrados.

PARTE III

Estar consciente

CAPITULO 7

A consciência observada

Definir consciência

e abrirmos um dicionário corrente e procurarmos uma definição de consciência é provável que


encontremos uma variante do seguinte: «Consciência é um estado de alerta o reconhecimento
do eu e daquilo que o rodeia.» Se substituirmos eu por própria existência, o resultado é uma
frase que engloba alguns aspetos da consciência que considero essenciais: consciência é um
estado mental em que temos conhecimento da nossa própria existência e da existência
daquilo que nos rodeia. A consciência é um estado mental se não houver mente, não há
consciência; a consciência é um estado mental particular, enriquecido por uma sensação do
organismo específico onde a mente está a funcionar; e o estado mental inclui o conhecimento
de que a dita existência ocupa uma certa situação, de que existem objetos e acontecimentos
que a cercam. A consciência é um estado mental a que foi acrescentado o processo do ser.

200

O estado mental consciente é vivido numa perspetiva própria, exclusiva de cada organismo,
nunca sendo observável por mais ninguém. Essa experiência pertence a cada organismo e a
nenhum outro. Contudo, embora essa experiência seja exclusivamente privada, isso não
significa que não possamos adotar em relação a ela uma perspetiva relativamente «objetiva».
Por exemplo, adoto essa perspetiva na tentativa de descobrir uma base neural para o eu
enquanto objeto, o eu material. Um eu material enriquecido é também capaz de levar
conhecimento à mente. Por outras palavras, o eu enquanto objeto pode vir a funcionar como
conhecedor.

Podemos alargar a definição anterior dizendo que os estados mentais conscientes têm sempre
conteúdo (são sempre acerca de alguma coisa) e que uma parte desse conteúdo tende a ser
apreendido como conjuntos integrados de partes (como quando, por exemplo, vemos e
ouvimos uma pessoa a falar e a caminhar na nossa direção); dizendo que os estados mentais
conscientes revelam propriedades qualitativas distintas relativamente aos diferentes
conteúdos que vamos apreendendo (é qualitativamente diferente ver ou ouvir, tocar ou
saborear); e dizendo que os estados mentais conscientes contêm um aspeto obrigatório de
sentimento, ou seja, fazem-nos sentir algo. Por fim, a nossa definição provisória terá de referir
que os estados mentais conscientes só são possíveis quando estamos acordados, embora uma
exceção parcial a esta restrição se aplique à forma de consciência paradoxal que ocorre
durante o sono, nos sonhos. Em conclusão, na sua forma típica, a consciência é um estado
mental que ocorre quando estamos acordados e em que dispomos de um conhecimento
privado e pessoal da nossa própria existência, numa posição relativa ao que quer que a rodeie
num dado momento, Necessariamente, os estados mentais conscientes lidam com o conhe-
cimento com base em material sensorial diferente - corporal, visual, auditivo, etc. e
manifestam propriedades qualitativas

201

variadas para os diferentes fluxos sensoriais. Os estados mentais conscientes são sentidos.

Quando falo de consciência, não me refiro simplesmente ao estado de vigília, um uso incorreto
motivado pelo facto de que quando se perde a vigília, também se perde a consciência
(abordarei estas questões mais à frente). A definição também deixa claro que o termo
consciência não se refere unicamente a um processo mental simples, sem a função do eu.
Infelizmente, a consciência é considerada como simples mente num uso vulgar do termo um
uso errado, a meu ver. As pessoas dizem com frequência que «estão conscientes de algo»,
querendo dizer que têm algo «em mente», ou que algo se tornou um conteúdo destacado na
mente, como, por exemplo, «a questão do aquecimento global entrou finalmente na
consciência das nações ocidentais»; um número significativo de estudos contemporâneos
sobre a consciência trata-a como sendo a mente. A consciência, segundo o conceito usado
neste livro, também não significa «autoconsciência», como quando se diz que «o João foi
tomando cada vez mais consciência de si próprio enquanto ela o fitava»; nem significa
«consciência moral», uma função complexa que requer efetivamente a existência de
consciência, mas que vai mais além e se prende com a responsabilidade moral. Por último, a
definição não se refere à consciência no sentido coloquial da «corrente da consciência» de
James. A expressão é muitas vezes usada para significar o conteúdo simples da mente no
decurso do seu fluxo temporal, como a água no leito de um rio, e não o facto de esse conteúdo
incorporar aspetos mais ou menos subtis da subjetividade. As referências à consciência no
contexto dos solilóquios de Shakespeare ou de Joyce utilizam muitas vezes esta visão mais
simples da consciência. Porém, é óbvio que os originais autores exploravam o fenómeno no
seu sentido abrangente, escrevendo a partir da perspetiva do eu de um personagem, a tal
ponto que Harold Bloom sugeriu que Shakespeare pode ter sido o respon-

202

sável pela introdução do fenómeno da consciência na literatura. (Considere, no entanto, a


asserção alternativa e absolutamente plausível de James Wood de que a consciência terá, sim,
entrado na literatura através do solilóquio, mas muito antes através da oração, por exemplo, e
na tragédia grega.)1

Decompor a consciência

A consciência e o estado de vigília não são a mesma coisa. Estar acordado é um pré-requisito
para se estar consciente. Quer adormeçamos naturalmente, quer sejamos forçados a dormir
através de anestesia, a consciência desvanece-se do seu formato habitual, sendo a única
exceção parcial o estado consciente especial que acompanha os sonhos e que de todo não
contradiz o pré-requisito da vigília, já que a consciência onírica não é uma consciência típica.

Costumamos abordar a vigília como sendo um fenómeno de «on/off», ligado/desligado, zero


para o sono e um para quando estamos acordados. Até certo ponto isso está correto, mas a
abordagem «tudo ou nada» oculta gradações com que todos estamos familiarizados. Quando
estamos sonolentos a consciência está certamente reduzida, mas não chega ao zero
abruptamente. Desligar as luzes não é uma analogia precisa; baixar o cursor do reóstato será
uma imagem mais aproximada.

O que revelam as luzes quando são ligadas, súbita ou gradualmente? Em geral mostram algo
que é habitual descrever-se como uma «mente», ou como «conteúdo mental». E de que é
feita a mente que nos é assim revelada? De padrões mapeados nos idiomas de todos os
sentidos possíveis e imaginários - visuais, auditivos, tácteis, musculares, viscerais, e outros,
numa série maravilhosa de tons, cambiantes, variações e combinações, fluindo de uma forma
ordeira ou caótica, em resumo, de imagens. Anteriormente falei sobre a ori

203

gem das imagens (capítulo 3) e agora bastará recordar que as imagens são a principal moeda
corrente da nossa mente, e que o termo se refere a padrões de todas as modalidades
sensoriais, não apenas a visual, e tanto a padrões abstratos como concretos.

Será que o simples ato fisiológico de ligar a luz despertar alguém do sono - se traduz
necessariamente num estado consciente? Não é de todo o caso. Não precisamos de ir muito
longe para encontrarmos provas do contrário. Todos já passámos pela experiência de acordar
cansados e a sentir o desfasamento horário provocado pela viagem aérea, num país longínquo,
e de levarmos um ou dois segundos, felizmente curtos mas que parecem longos, para nos
apercebermos com rigor do local onde estamos. Durante esse breve intervalo é certo que
recuperamos a mente, mas ainda não exatamente uma mente organizada com todas as
propriedades da consciência. Se eu perder a consciência por ter batido com a cabeça num
objeto que é tudo menos macio, terei outro lapso temporal, felizmente breve e no entanto
mensurável, até que recupere a consciência. Recuperar a consciência após um traumatismo
craniano pode levar um bom bocado, durante o qual falta à vítima uma orientação espacial e
temporal, para não falar já da pessoal.

Essas situações mostram-nos que as funções mentais complexas não são pedra sólida e podem
ser literalmente decompostas em secções. Sim, a luz está ligada e estou acordado. (Vale um
ponto para a consciência.) Sim, a mente está ligada e estão a formar-se imagens daquilo que
tenho à minha frente, embora as imagens recordadas do passado sejam poucas e espaçadas.
(Vale meio ponto para a consciência.) Mas não, é ainda escassa a descrição de quem é o dono
desta mente frágil, falta-lhe um eu que a reclame como sua. (Vale zero pontos para a
consciência.) Feitas as contas, a consciência chumba. Moral da história: para se obter uma
nota positiva na pauta da consciência é indispensável: 1) estar acordado; 2) ter uma mente
operacional; e ainda 3) ter, nessa mente, uma sensação automática, espontânea e direta do eu
enquanto protagonista da experiência, por

204

mais subtil que a sensação do eu possa ser. Dada a presença do estado de vigília e da mente,
ambos necessários para sermos conscientes, podemos dizer que a característica distintiva da
nossa consciência é, em termos líricos, o próprio pensamento de si. Contudo, para que a
poesia fosse exata, teríamos de evocar o sentimento e falar do próprio sentimento de si.

O estado de vigília e a consciência não são uma e a mesma coisa, o que se torna evidente
quando pensamos num problema neurológico conhecido como estado vegetativo. Os
pacientes em estado vegetativo não apresentam qualquer manifestação sugestiva de
consciência. Tal como no similar mas mais grave estado de coma, os pacientes vegetativos não
reagem a qualquer mensagem de quem os examina e não dão quaisquer sinais espontâneos
de perceção do eu ou daquilo que os rodeia. No entanto, nos seus eletroencefalogramas (ou
EEG, os padrões de ondas elétricas produzidos continuamente por um cérebro vivo) revelam
padrões alternantes característicos do sono ou do estado de vigília. A par de um padrão EEG
de vigília, os pacientes têm muitas vezes os olhos abertos, embora fitem o espaço vazio, sem
dirigir o olhar para um objeto específico. Não se regista esse padrão elétrico quando os
pacientes se encontram em coma, uma situação em que todos os fenómenos associados à
consciência (vigília, mente e eu) parecem estar ausentes.2

O perturbante estado vegetativo também fornece informação valiosa quanto a outro aspeto
das distinções que procuro estabelecer. Num estudo que atraiu, justificadamente, muita
atenção, Adrian Owen conseguiu determinar, através do uso de imagiologia por ressonância
magnética funcional, que o cérebro de uma mulher em estado vegetativo apresentava padrões
de atividade congruentes com as perguntas que um examinador lhe fazia e com os pedidos
que lhe apresentou. Escusado será dizer que ela fora diagnosticada como estando

205

inconsciente. Não reagia abertamente às perguntas colocadas nem às instruções dadas, e não
apresentava qualquer indício espontâneo de uma mente ativa. No entanto, o estudo de
imagiologia mostrou que as regiões auditivas dos córtices cerebrais se tornaram ativas quando
lhe fizeram perguntas. O padrão de ativação assemelhava-se ao que podemos ver num sujeito
consciente normal a reagir a uma questão semelhante. Ainda mais impressionante foi o facto
de que ao lhe ser pedido que desse uma volta imaginária pela sua casa, os córtices cerebrais
da região parietal direita exibirem um padrão de atividade semelhante ao de sujeitos
conscientes normais a realizar uma tarefa semelhante. Embora a paciente não tenha revelado
exatamente este mesmo padrão nutras ocasiões, um pequeno número de pacientes foi desde
então estudado, tendo apresentado um padrão comparável, embora não em todas as
tentativas.3 Um desses pacientes, em especial, conseguiu evocar reações previamente
associadas a sim ou não através de um treino repetido.4

O estudo indica que mesmo face a uma ausência completa de sinais comportamentais de
consciência pode haver sinais do tipo de atividade cerebral geralmente relacionado com os
processos mentais. Por outras palavras, as observações cerebrais diretas garantem indícios
compatíveis com alguma preservação tanto da vigília como da mente, ao passo que as
observações comportamentais não revelam quaisquer indícios de que a consciência, no
sentido descrito anteriormente, acompanhe esse funcionamento. Estes importantes
resultados devem ser interpretados com cautela, tendo em conta que os processos mentais
funcionam também em estados não conscientes (tal como analisado adiante, neste capítulo e
no capítulo 11). Estes resultados são compatíveis com a presença de um processo mental e
mesmo de um processo de eu mínimo. Todavia, apesar da importância destes resultados,
tanto a nível científico como em termos de prática clínica, não os considero provas de
comunicação consciente, ou justificação razoável para abandonar a definição de consciência
apresentada anteriormente.

206

Remover o eu e manter a mente

Talvez o dado mais convincente para a dissociação entre o estado de vigília e a mente, por um
lado, e o eu, por outro, nos chegue de outro problema neurológico, o automatismo epilético,
que se pode seguir a certos episódios de ataques epiléticos. Nessas situações, o
comportamento do paciente é subitamente interrompido por um breve período de tempo,
durante o qual a ação se suspende; segue-se então um período, em geral breve, em que o
paciente retoma o comportamento motor mas não dá sinais de estar num estado consciente
normal. O paciente silencioso pode mover-se, mas as suas ações, como, por exemplo, acenar
ou sair de uma sala, não revelam um propósito global. As ações podem exibir um
«minipropósito», como pegar num copo e beber água, mas não mostram que o objetivo faça
parte de um programa mais vasto. O paciente não faz qualquer tentativa de comunicação com
o observador, nem responde às tentativas por parte deste.

Quando vamos ao consultório de um médico, o nosso comportamento faz parte de um


contexto que tem a ver com os objetivos específicos da consulta, com o plano geral do dia e
como ponto onde a consulta se enquadra nos planos e intenções da nossa vida, a várias
escalas temporais, em relação aos quais a consulta pode ou não ter algum significado. Tudo o
que fizer na «cena» desse consultório tem a ver com esses múltiplos conteúdos, mesmo que
não precise de tê-los todos presentes para agir de forma coerente. O mesmo acontece com o
médico, relativamente ao seu papel dele na cena. Contudo, num estado de consciência
reduzida toda essa influência de fundo fica reduzida a pouco ou nada. O comportamento é
controlado por acontecimentos imediatos, desprovidos de qualquer inserção no contexto mais
vasto. Por exemplo, pegar num copo e beber água faz sentido se tiver sede, mas essa ação não
necessita de estar ligada ao contexto mais amplo.
207

Lembro-me bem do primeiro paciente que observei com este problema, pois o seu
comportamento era, para mim, absolutamente novo, inesperado e perturbador. A meio da
nossa conversa, o paciente deixou ao mesmo tempo de falar e de se mexer. O rosto perdeu a
expressão e os olhos abertos fixaram-se na parede atrás de mim. Ficou imóvel durante vários
segundos. Não caiu da cadeira, nem adormeceu, nem sofreu uma convulsão, nem tremeu. Não
tive resposta quando o chamei pelo nome. Quando voltou a mexer-se, ao de leve, deu um
estalido com os lábios. Os seus olhos moveram-se e pareceram concentrar-se
momentaneamente numa chávena de café sobre a mesa que nos separava. Estava vazia, mas
mesmo assim pegou nela e tentou beber. Voltei a dirigir-me a ele várias vezes e continuei sem
resposta. Perguntei-lhe o que se passava e não respondeu. O seu rosto continuava
inexpressivo, e não olhou para mim. Chamei-o pelo nome e não me respondeu. Por fim,
levantou-se, deu meia volta e dirigiu-se lentamente à porta. Chamei-o de novo. Ele parou,
olhou-me e no seu rosto surgiu uma expressão de perplexidade. Voltei a chamá-lo e ele
perguntou: «O que foi?»

O paciente sofrera uma crise de ausência (um dos vários tipos de crises epiléticas), seguida de
um período de automatismo. Estivera ali, e ao mesmo tempo não estivera, certamente
acordado e a agir, parcialmente atento, presente em corpo mas ausente enquanto pessoa.
Muitos anos depois descrevi o paciente como tendo estado «ausente sem ter tido licença de
saída» e a descrição ainda hoje é adequada.5

Não há dúvida de que este homem estava acordado, na plena aceção da palavra. Tinha os
olhos abertos e havia tónus muscular suficiente para se movimentar. Não há dúvida de que era
capaz de levar a cabo ações, mas estas não sugeriam um plano organiza do. Não tinha um
objetivo global nem um reconhecimento das condições da situação, nem adequação. Os seus
atos eram só minimamente coerentes. Não há dúvida de que o seu cérebro formava imagens
mentais, embora não possamos garantir a abundância

208

ou coerência dessas imagens. Para alcançar uma chávena, pegar nela, levá-la aos lábios e
voltar a pousá-la na mesa, o cérebro tem de criar imagens, muitas imagens, no mínimo visuais,
cinestéticas e tácteis; sem elas, não é possível executar movimentos corretamente. Todavia,
embora isto sugira a presença de mente, não constitui indício de um eu. O indivíduo não
parecia ter noção de quem era, de onde estava, de quem eu era, ou do motivo por que se
encontrava à minha frente.

Com efeito, não só não havia indício de tal conhecimento manifesto, como também não havia
indicação de uma orientação não consciente do seu comportamento, o tipo de piloto
automático que nos permite ir para casa sem nos concentrarmos de forma consciente no
caminho. Além disso, não havia quaisquer sinais de emoção, o que é um sinal revelado r de
uma consciência gravemente afetada.

Casos como este fornecem indícios fortes, talvez os únicos indícios definitivos, de uma
separação entre duas funções que permanecem disponíveis, o estado de vigília e a mente, e
outra função, o eu, que claramente não está. Este homem não tinha perceção da sua própria
existência e apresentava uma apreensão reduzida daquilo que o rodeava.
Tal como acontece quando se analisa o comportamento humano complexo afetado por uma
doença neurológica, as categorias que utilizamos para criar hipóteses referentes ao
funcionamento cerebral não devem ser rígidas. O estado de vigília e a mente não são «coisas».
O eu, claro está, não é uma coisa; é um processo dinâmico, mantido em níveis relativamente
estáveis durante a maior parte do tempo que passamos acordados, mas sujeito a variações,
grandes e pequenas, durante esse período, em especial nos extremos do período. A vigília e a
mente, tal como descritas aqui, também são processos, e nunca coisas rígidas. Transformar os
processos em coisas é um mero artefacto da nossa necessidade de transmitir aos outros, de
um modo rápido e eficaz, conceitos muito complicados.

209

No caso atrás descrito podemos presumir com segurança que a vigília estava intacta e que o
processo mental se encontrava presente. No entanto, não podemos dizer até que ponto esse
processo mental era rico, apenas que bastava para orientar o paciente através do universo
limitado com que tinha de lidar. Quanto à consciência, podemos afirmar que não era normal.

Como interpreto a situação deste paciente nos termos do que sei hoje? Acredito que a
formação do eu estava gravemente comprometida. Perdera a capacidade de criar, a cada
momento, a maior parte das operações do eu que lhe dariam, automaticamente, uma análise
proprietária da sua mente. Essas operações do eu incluiriam ainda elementos da sua
identidade, do seu passado recente e do futuro que antecipava, e garantir-lhe-iam também a
sensação de que era capaz de agir. O conteúdo mental que um processo do eu analisaria
estava provavelmente reduzido. Dadas as circunstâncias, o nosso homem estava limitado a um
agora sem objetivo e sem localização. O eu material desaparecera em grande medida, bem
como, ainda mais seguramente, o eu enquanto conhecedor.

Estar acordado, ter uma mente e ter uma identidade são processos cerebrais diferentes,
criados através do funcionamento de diferentes componentes cerebrais. Eles fundem-se
perfeitamente, no dia-a-dia, num espantoso contínuo funcional no interior do nosso cérebro,
permitindo e revelando diferentes manifestações de comportamento. Não são, no entanto,
«compartimentos». Não se trata de salas divididas por paredes rígidas, pois os processos
biológicos não são de todo como os artefactos criados pelos seres humanos. Mesmo assim, na
sua confusa e desordenada maneira biológica são separáveis, e se não tentarmos descobrir em
que diferem e onde ocorrem as subtis transições, não teremos forma de entender como o
todo funciona.

Diria que se estivermos acordados e houver conteúdos na mente, a consciência é o resultado


da junção de uma função do eu à mente. Essa função orienta o conteúdo mental para as
necessidades do nosso organismo e assim produz subjetividade. A função do eu não é o

210

produto de um qualquer homúnculo omnisciente, mas sim o aparecimento, no processo de


projeção virtual a que chamamos mente, de mais um elemento virtual: um protagonista
imaginado para os nossos acontecimentos mentais.

Completar uma definição preliminar

Quando a doença neurológica desagrega a consciência, as reações emocionais estão


visivelmente ausentes e presume-se que os sentimentos correspondentes também
desapareceram. Os pacientes com distúrbios de consciência não exibem sinal de emoção. O
rosto é inexpressivo. Os sinais discretos de animação muscular não estão presentes, o que é
uma característica notável, já que até mesmo o chamado rosto impassível tem uma certa
animação emotiva, traindo sinais subtis. Os pacientes com variantes de mutismo acinético ou
estado vegetativo, já para não falar dos pacientes em estado de coma, apresentam pouca ou
nenhuma expressão emocional. O mesmo se passa na anestesia profunda, mas não, como
seria de esperar, com o sono, em que podem surgir expressões emocionais durante a cons-
ciência paradoxal dos sonhos.

A partir de uma perspetiva comportamental, o estado consciente de outrem é dominado por


um comportamento desperto, coerente e objetivo que inclui sinais de reações emocionais em
curso. Aprendemos muito cedo na nossa vida a confirmar, com base nos relatos verbais diretos
que ouvimos, que essas reações emocionais são acompanhadas sistematicamente por
sentimentos. Mais tarde, ao observar os seres humanos que nos rodeiam, partimos do
princípio que eles vivem certos sentimentos, mesmo que nada digam e que nada lhes seja dito.
Na verdade, para uma mente afinada, sintónica e empática, até a mais subtil das expressões
emocionais pode trair a presença de sentimentos, por mais reservados que estes sejam. Este
processo de atribuição de sentimentos nada

211

tem a ver com a linguagem. Baseia-se na observação altamente treinada do rosto e da


expressão do corpo.

Porque serão as emoções um sinal tão revelado r da consciência: Porque a execução da


maioria das emoções é levada a cabo pela substância cinzenta periaquedutal (PAG), em
colaboração estreita com o núcleo do trato solitário (NTS) e com o núcleo parabraquial (PBN),
as estruturas que, agrupadas, criam os sentimentos corporais (como, por exemplo, os
sentimentos primordiais) e as variações subsequentes a que chamamos sentimentos
emocionais. Este conjunto é muitas vezes danificado pelas lesões neurológicas que levam à
perda da consciência e não funciona na presença de certos anestésicos.

No próximo capítulo veremos que, tal como os sinais de emoção fazem parte do estado
consciente observável a partir do exterior, a experiência dos sentimentos corporais é uma
parte vital e profunda daquilo que é estar consciente, a partir de uma perspetiva introspetiva.

Tipos de consciência

A consciência tem flutuações. Não funciona abaixo de um determinado limiar e percorre uma
escala de vários níveis para funcionar com eficiência máxima. Chamemos-lhe a escala de
«intensidade» da consciência, e exemplifiquemos esses níveis extremos. Primeiro, nos
momentos em que sentimos sono e estamos prestes a entregar-nos nos braços de Morfeu; no
segundo caso, quando participamos num debate intenso que exige uma perceção apurada dos
pormenores que vão surgindo. A escala de intensidade varia, assim, entre «aguda» e «grave»,
com todos os matizes de permeio.

Além da intensidade, no entanto, há outro critério através do qual podemos avaliar a


consciência. Tem a ver com o âmbito.

212
O âmbito mínimo permite-nos a perceção do eu, por exemplo quando tomamos um café em
casa, sem nos preocuparmos com a proveniência da chávena ou do café, ou com o que a
bebida nos vai fazer ao ritmo cardíaco, ou com o que temos de fazer nesse dia. Estamos
calmamente presentes no momento, nada mais. Agora suponha que está sentado a tomar um
café num restaurante, onde vai encontrar-se com o seu irmão, que pretende discutir a herança
dos seus pais e o que se deve fazer quanto à meia-irmã que tem vindo a agir de uma forma
estranha. O leitor continua presente e no momento, como se diz em Hollywood, mas agora é
transportado, sucessivamente, a muitos outros sítios onde já esteve, com muitas outras
pessoas além do seu irmão; e é transportado de igual modo para locais e situações que ainda
não viveu e que são produtos da sua rica e informada imaginação. Aquilo que foi a sua vida é-
lhe disponibilizado, numa miscelânea rápida, através da recordação, e uma miscelânea daquilo
que a sua vida pode ou não vir a ser, imaginada no passado ou na atualidade, também surge
nesse momento. Está numa azáfama, um pouco por todo o lado e em diversas épocas da sua
vida, passada e futura. Mas o leitor ou seja, o eu em si nunca desaparece de vista. Todos estes
conteúdos estão inextrincavelmente ligados a uma referência singular. Mesmo quando se
concentra num qualquer acontecimento remoto, a ligação continua. O centro mantém-se
firme. Trata-se de consciência de âmbito vasto, uma das maiores conquistas do cérebro
humano e um dos traços distintivos da Humanidade. É este o tipo de processo cerebral que
nos trouxe, para melhor ou pior, até ao ponto civilizacional em que nos encontramos. É este o
tipo de consciência ilustrado pelos romances, pelos filmes e pela música, e consagrado pela
reflexão filosófica.

Atribuí denominações a estes dois tipos de consciência. À de âmbito mínimo chamei


consciência nuclear, a perceção do «aqui e agora», sem estorvo por parte de muito do passado
e com pouca ou nenhuma influência do futuro. Gira em torno do eu nuclear e tem a ver com a
personalidade mas não necessariamente com a

213

identidade. À de âmbito vasto chamei consciência alargada ou autobiográfica, dado que se


manifesta com mais ênfase quando entra em cena uma parte substancial da nossa vida. É
dominada tanto pelo passado já vivido como pelo futuro antecipado. Tem a ver tanto com a
pessoalidade como com a identidade. É regida pelo eu autobiográfico.

Em geral, quando pensamos naquilo que a consciência é, te- mos em mente a consciência de
âmbito vasto, associada a um eu autobiográfico. É quando a mente consciente se expande e
abrange sem esforço tanto conteúdos reais como imaginários. As hipóteses relativas à forma
como o cérebro produz estados conscientes precisam de ter em conta este nível elevado de
consciência, bem como o nível nuclear.

Hoje em dia vejo as alterações no âmbito da consciência como sendo muito mais inconstantes
do que imaginara de início; esse âmbito percorre continuamente uma escala, como se
deslizasse num cursar. O movimento ascendente ou descendente pode ocorrer durante um
dado acontecimento, de forma rápida, consoante as necessidades. Esta fluidez e este
dinamismo no que respeita ao âmbito não diferem assim tanto da rápida alteração de
intensidade que se sabe ocorrer ao longo do dia e que já abordámos. Quando o leitor se sente
aborrecido durante uma palestra, a sua consciência enfraquece e pode perdê-la se dormitar.
Espero, claro, que não seja o que lhe está a acontecer neste momento.

De longe o ponto mais importante a reter é o facto de os níveis de consciência flutuarem com
a situação. Por exemplo, quando desviei os olhos da página para pensar e os golfinhos que
nadavam perto chamaram a minha atenção, não lhes dediquei o âmbito integral do meu eu
autobiográfico porque não era preciso; tendo em conta as necessidades do momento teria
sido um desperdício de trabalho cerebral, já para não falar de combustível. Também não
precisei de um eu autobiográfico para lidar com os pensamentos que antecederam a escrita
das frases acima. No entanto, quando um entrevistador

214

sentado à minha frente quer saber o como e o porquê de me ter tornado neurologista e
neurocientista, em vez de engenheiro ou cineasta, tenho mesmo de dar uso ao meu eu
autobiográfico. O meu cérebro honra essa necessidade.

O nível de consciência também se altera rapidamente quando sonhamos acordados, algo que
hoje em dia é moda designar por divagação mental. Bem podia ser denominada divagação do
eu, pois sonhar acordado exige uma passagem do eu autobiográfico para o nuclear e não um
mero afastamento lateral do conteúdo da atividade. O conteúdo da nossa imaginação« off line
» (desligada da rede) avança para primeiro plano projetos, ocupações, fantasias, o tipo de
imagética que nos invade quando estamos parados num engarrafamento. Claro que a
consciência reduzida para o eu nuclear e distraída por outros tópicos continua a ser uma
consciência normal. O mesmo já não podemos dizer da dos sonâmbulos, ou da de quem está
sob o efeito de hipnose, ou decidiu experimentar substâncias que provocam «alterações na
mente». Quanto a este último caso, o catálogo dos respetivos estados de consciência anormais
é longo e variado, incluindo as mais inventivas aberrações mentais e do eu. O estado de vigília
também é afetado, sendo o sono ou mesmo o coma o resultado mais do que frequente dessas
aventuras.

Concluindo, o grau de presença do eu protagonista na nossa mente varia muito segundo as


circunstâncias, desde um retrato de quem somos com abundantes pormenores e totalmente
localizado, ao mais ténue dos sinais de que somos donos da nossa mente, pensamentos e
ações. Claro que tenho de insistir na ideia de que mesmo no seu nível mais subtil e
desvanecido, o eu é uma presença necessária na mente. Dizer que o eu não se encontra
presente quando escalamos uma montanha ou quando escrevo esta frase

215

não é correto. Nesses casos o eu não tem uma visibilidade destacada, é certo; recua
adequadamente para um plano de fundo e abre espaço, no nosso cérebro criador de imagens,
a todas as outras coisas que exigem espaço de processamento como sejam a encosta da
montanha ou os pensamentos que pretendo transpor para a página. Aventuro-me a
considerar, no entanto, que se o processo do eu fosse destruído e desaparecesse por
completo, a mente perderia a sua orientação, a capacidade de juntar os seus elementos. Os
nossos pensamentos andariam à deriva, sem um dono que os reclamasse. A nossa eficácia
perante o mundo real reduzir-se-ia a pouco ou nada, e deixaríamos de fazer sentido para
quem nos observa. Qual seria o nosso aspeto? Bem, pareceríamos inconscientes.

Não é fácil lidar com o eu, pois este, dependendo da perspetiva, pode ser muitas coisas. Pode
ser um «objeto» de pesquisa para psicólogos e neurocientistas; pode ser um fornecedor de
conhecimento as mentes onde surge; pode ser discreto e ocultar-se atrás do pano ou
apresentar-se de modo afirmado sob as luzes da ribalta; pode estar confinado ao aqui e agora
ou englobar toda uma história de vida; por Ultimo, alguns destes registos podem misturar-se,
como quando um eu conhecedor é subtil e ao mesmo tempo autobiográfico, ou então tem
uma presença proeminente mas apenas se preocupa com o aqui e agora. O eu é,
garantidamente, uma festa móvel.

Consciência humana e não-humana

Tal como a consciência não é uma coisa, também os tipos de consciência nuclear e
autobiográfica não são categorias rígidas. Sempre imaginei muitas gradações entre os limites
nuclear e autobiográfico da escala. Apontar estes diferentes tipos de consciência tem, no
entanto, um resultado prático: permite-nos propor que os pontos mais baixos da escala da
consciência não são, de todo, exclusivamen-

216

te humanos. É provável que estejam presentes em numerosas espécies não humanas com
cérebro suficientemente complexo para os desenvolver. O facto de a consciência humana, nos
seus níveis mais elevados, ser muito complicada, abrangente e, logo, distintiva, é tão óbvio que
dispensa qualquer referência. Contudo, o leitor ficaria surpreendido com a forma como
comentários equivalentes de minha autoria levaram, no passado, a que alguns leitores se
ofendessem por eu estar a atribuir muito pouca consciência às espécies não humanas, ou por
minimizar a natureza excecional da consciência humana ao incluir animais. Desejem-me sorte,
desta vez.

Ninguém pode provar satisfatoriamente que um ser não humano e desprovido de linguagem
possui consciência, nuclear ou de qual quer outro tipo, embora seja razoável fazer a
triangulação dos dados substanciais de que dispomos e concluir que é bastante provável que
seja esse o caso.

A triangulação seria feita da seguinte forma: 1) se uma espécie tem comportamentos que são
melhor explicados por um cérebro com processos mentais do que por um cérebro com meras
disposições para a ação (como, por exemplo, os reflexos); e 2) se a espécie dispõe de um
cérebro com todos os componentes descritos nos capítulos seguintes como sendo necessários
para criar uma mente consciente nos seres humanos; 3) então, meu caro leitor, a espécie é
consciente. Feitas as contas, estou pronto a aceitar qualquer manifestação de comportamento
animal que me faça pensar na presença de sentimentos, como um sinal de que a consciência
não deve andar longe.

A consciência nuclear não exige linguagem e deverá tê-la precedido, de forma óbvia nas
espécies não-humanas mas também nos seres humanos. Com efeito, nem sequer será
provável que a linguagem se tivesse desenvolvido em indivíduos desprovidos de consciência
nuclear. Por outro lado, nos níveis mais elevados da escala, a consciência autobiográfica
depende profundamente da linguagem.

217

Aquilo que a consciência não é

Para entender o significado da consciência e os méritos do seu aparecimento nos seres vivos é
necessário ter em linha de conta o que havia antes, aquilo que os seres vivos com cérebros
normais e mentes inteiramente operacionais eram capazes de fazer antes de a sua espécie
possuir a consciência, e antes de esta passar a dominar a vida mental daqueles que a tinham.
Observar a dissolução da consciência num paciente epilético ou em alguém num estado
vegetativo, pode transmitir ao observador incauto a noção errónea de que os processos que
normalmente se encontram abaixo da consciência são triviais ou de uma eficácia limitada.
Todavia, o espaço inconsciente da nossa mente contraria claramente essa ideia. Não estou a
referir-me apenas ao inconsciente freudiano, de famosa (e controversa) tradição, identificado
com tipos específicos de conteúdo, situação e processo. Refiro-me, isso sim, ao grande
inconsciente que é composto por dois ingredientes: um ingrediente ativo, constituído por
todos os tipos de imagens que estão a ser formadas acerca de todos os tópicos e de todas as
qualidades, imagens sem possibilidade de competir com sucesso pelos favores do eu, que
permanecem assim, em grande medida, desconhecidas; e um ingrediente latente, constituído
pelo repositório de registos codificados a partir dos quais é possível formar imagens explícitas.

Um fenómeno típico de festas e receções revela bem a presença do não-consciente. Enquanto


falamos com o nosso anfitrião estamos tecnicamente a ouvir outras conversas, um fragmento
aqui, outro fragmento ali, nas orlas da corrente de consciência a corrente principal, claro está.
No entanto, ouvir não implica necessariamente escutar, e muito menos escutar com atenção e
estabelecer uma ligação com o que se está a ouvir. Ouvimos muitas coisas que não exigem os
serviços do nosso eu. Mas, de repente, há algo que nos desperta a atenção, um fragmento
qualquer da conversa encaixa-se noutros fragmentos fazendo surgir um padrão discernível em
algumas das

218

coisas que estávamos a ouvir tão vagamente. Nesse momento forma-se um sentido que
«atrai» o nosso eu e vai afastar-nos literalmente da última frase do nosso anfitrião. A
propósito, ele repara na nossa distração momentânea e, enquanto expulsamos o tópico que se
intromete na nossa consciência, regressamos ao ponto onde nos tínhamos separado da
conversa e dizemos, embaraçada e apologeticamente: «Desculpe, importa-se de repetir?»

Tanto quanto podemos dizer, este fenómeno resulta de várias condições. Em primeiro lugar, o
cérebro produz constantemente uma hiperabundância de imagens. Aquilo que vemos,
ouvimos e tocamos, a par do que estamos sempre a recordar por incitação das novas imagens
percetuais, bem como por razões que somos incapazes de identificar -, é responsável por um
grande número de imagens explícitas, acompanhadas por desfiles igualmente numerosos de
outras imagens relacionadas com o estado do nosso corpo conforme se vai desenrolando toda
esta produção de imagens.

Em segundo lugar, o cérebro tende a organizar esta profusão de material mais ou menos da
mesma forma que o responsável pela montagem de um filme, conferindo-lhe um tipo de
estrutura narrativa coerente em que certas ações são consideradas causadoras de
determinados efeitos. Isto exige a seleção das imagens corretas e a sua ordenação numa
sequência de unidades temporais e enquadramentos espaciais. Não é tarefa fácil, pois nem
todas as imagens têm o mesmo valor, na perspetiva do seu proprietário. Algumas estão mais
ligadas às nossas necessidades do que outras, sendo por isso mesmo acompanhadas por
sentimentos diferentes. As imagens recebem diferentes valorizações. Já agora, quando digo «o
cérebro tende a organizar» em vez de «o eu organiza», faço-o de propósito. Quero evitar a
ideia de que o processo é inteiramente controlado pelos aspetos mais elevados do eu. Em
determinadas ocasiões, a montagem decorre naturalmente, com um mínimo de orientação
auto -imposta. Nessas alturas, o êxito da nossa montagem depende de quão «bem educados»
os nossos processos não-conscientes

219
foram pelo nosso eu amadurecido. Regressarei a esta questão no Ultimo capítulo.

Em terceiro lugar, apenas um pequeno número de imagens pode ser exibido claramente em
qualquer altura dado o espaço de criação de imagens ser tão escasso: apenas um determinado
número de imagens pode estar ativo e, logo, potencialmente disponível a qualquer momento.
Isto significa que os «ecrãs» metafóricos onde o nosso cérebro exibe as imagens selecionadas
e ordenadas cronologicamente são bastante limitados. Usando o jargão informático dos
nossos dias, isto significa que o número de «janelas» que podemos abrir o nosso ecrã é
limitado. (Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites
superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que
provavelmente levará à alteração de certos aspetos da consciência num futuro não muito
distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as
capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em
contrapartida, poderá haver custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória
emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo.)

Desde há muito que estas três restrições (abundância de imagens, tendência para as organizar
em narrativas coerentes e falta de paço de exibição explícita) são uma constante na evolução,
tendo gido estratégias de gestão eficazes que as impedissem de danificar o organismo em que
ocorrem. Considerando que a produção de imagens terá sido alvo de uma seleção natural na
evolução, já que imagens permitem uma avaliação mais precisa do ambiente e uma melhor
reação a este, é provável que a gestão estratégica das imagens tinha evoluído muito cedo,
muito antes da consciência. A estratégia selecionar de forma automática as imagens mais
valiosas para gestão vital corrente exatamente o mesmo critério que presidia à seleção natural
dos dispositivos de criação de imagens. As imagens especialmente valiosas, dada a sua
importância para a sobrevivência, foram «destacadas» por fatores emocionais. O cérebro
consegue

220

possivelmente proceder a este destaque criando um estado emocional que acompanha em


paralelo a imagem. O grau de emoção serve de «marcador» para a importância relativa da
imagem. Trata-se do mecanismo descrito na «hipótese dos marcadores somáticos»,6 O
marcador somático não tem de ser uma emoção desenvolvida por completo, vivida
abertamente como sentimento. Pode tratar-se de um sinal dissimulado, ligado às emoções, do
qual o sujeito não tem noção, ao qual nos referimos então como uma predisposição. O
conceito de marcadores somáticos é aplicável não só aos níveis elevados de cognição como
também a essas primeiras fases da evolução. A hipótese dos marcadores somáticos garante
um mecanismo para a forma como o cérebro levaria a cabo uma seleção de imagens com base
no seu valor, e como essa seleção se traduziria em sequências ordenadas de imagens. Por
outras palavras, o princípio para a seleção de imagens estava ligado às necessidades da gestão
vital. Suspeito que esse mesmo princípio tenha presidido à conceção das estruturas narrativas
primordiais, as quais envolviam o corpo do organismo, o seu estado, as suas interações e as
suas divagações pelo ambiente.

Todas estas estratégias terão, por hipótese, começado a desenvolver-se muito antes de haver
consciência, logo que se começaram a criar imagens suficientes, talvez mesmo a partir do
momento em que as primeiras mentes aparecem em cena. É provável que o vasto
inconsciente fosse parte integrante da organização da vida desde há muito, muito tempo, e o
mais curioso é que ainda nos acompanha, como o grande desconhecido sob a nossa existência
consciente limitada.
Porque terá a consciência prevalecido, a partir do momento em que foi facultada como opção
aos organismos? Porque terão sido selecionados naturalmente os dispositivos cerebrais
criadores da consciência? Uma resposta possível, que abordaremos no final do livro. é que a
criação, a orientação e a organização de imagens do corpo e do mundo exterior relacionadas
com as necessidades do organismo aumentaram a probabilidade de uma gestão vital eficiente,
com a conse-

221

quente melhoria das hipóteses de sobrevivência. A consciência viria subsequentemente a


acrescentar a possibilidade de ter conhecimento da existência do organismo e dos seus
esforços para se manter vivo. Claro que o conhecimento dependia não só da criação e exibição
de imagens explícitas mas também do seu armazenamento em registos implícitos. O
conhecimento veio ligar os esforços pela subsistência a um organismo unificado e identificável.
Depois de começarem a ser armazenados na memória, tais estados de conhecimento
poderiam ser ligados a outros factos anteriormente registados, pelo que o conhecimento
sobre a existência individual pôde começar a ser acumulado. Por sua vez, as imagens contidas
no conhecimento podiam ser recordadas e manipuladas num processo de raciocínio que abriu
caminho à reflexão e à deliberação. O mecanismo de processamento de imagens pôde então
ser orientado pela reflexão e usado para a antecipação eficaz de situações, antevisão de
resultados possíveis, orientação do futuro possível e invenção de soluções de problemas.

A consciência permitiu que o organismo passasse a ter uma ideia da sua situação precária. O
organismo deixava de ter apenas meros sentimentos que podiam ser sentidos; tinha agora
sentimentos que podiam ser conhecidos, num contexto específico. O saber, por oposição ao
ser e ao fazer, foi um avanço essencial.

Antes do aparecimento do eu e da consciência típica, os organismos tinham vindo a


aperfeiçoar uma máquina de regulação vital em cujos ombros a consciência veio a ser
edificada, Antes de algumas das premissas do problema serem conhecidas na mente
consciente, essas premissas estavam já presentes, e a máquina da regulação vital evoluíra à
sua volta. A diferença entre a regulação vital antes da consciência e depois da consciência tem
simplesmente a ver com automatização por oposição a deliberação. Antes da consciência, a
regulação vital era totalmente automática; após o início da consciência, a regulação

222

vital mantém a sua automatização mas vai sendo influenciada por um potencial deliberativo
cada vez maior.

As bases do processo de consciência são assim os processos inconscientes encarregues da


regulação vital - as disposições cegas que regulam as funções metabólicas e que se encontram
alojadas nos núcleos do tronco cerebral e do hipotálamo; as disposições que tratam dos
castigos e das recompensas, e que promovem os drives, as motivações e as emoções; e o
aparelho mapeador que fabrica imagens, tanto na perceção como na recordação, e que pode
selecionar e organizar essas imagens no filme a que chamamos mente. A consciência é apenas
um recém-chegado à gestão vital, mas eleva o nível do jogo. Mantém os velhos truques a
funcionar e deixa-os tratar das tarefas pesadas.

O inconsciente freudiano
O mais interessante contributo de Freud para a consciência encontra-se no seu último artigo,
redigido na segunda metade de 1938 e que estava incompleto à altura da sua morte7 Só li esse
artigo recentemente, devido a um convite para fazer uma palestra sobre Freud e a
neurociência. É o género de tarefa que devemos recusar com veemência, mas senti-me
tentado e aceitei. Passei então semanas a analisar os trabalhos de Freud, alternando a irritação
com a admiração, tal como sempre me acontece quando leio Freud. No final da labuta chegou
este derradeiro ensaio, que Freud escreveu em Londres e em inglês, e onde ele adota a única
posição sobre a questão da consciência que considero plausível. A mente é um resultado
absolutamente natural da evolução e é em grande medida não consciente, interna e velada.
Torna-se conhecida graças à estreita abertura que a consciência lhe confere. É também assim
que encaro a questão. A consciência oferece-nos uma experiência direta da mente, mas o
intermediário da experiência é um eu, que é um informador interno

223

e construído de modo imperfeito, e não um observador externo e fiável. A cerebralidade da


mente não pode ser avaliada diretamente nem pelo observador interno natural, nem pelo
cientista externo. A cerebralidade da mente tem de ser imaginada na quarta perspetiva de que
falei no capítulo 1. As hipóteses têm de ser formuladas com base nesse ponto de vista
imaginário. As previsões têm de ser feitas com base nas hipóteses. É necessário um programa
de investigação para nos aproximarmos delas.

Embora a perspetiva de Freud do inconsciente fosse dominada pelo sexo, ele tinha noção do
âmbito vasto e do poder dos processos mentais que decorrem abaixo do nível da consciência.
Diga-se de passagem que, ele não estava sozinho, uma vez que o conceito do processamento
inconsciente era muito popular no pensamento psicológico do último quartel do século XIX.
Freud também não esteve sozinho na sua investida pelo sexo, cuja ciência estava igualmente a
ser explorada na altura.8

Quando se concentrou nos sonhos, Freud deparou com um manancial de dados sobre o
inconsciente. Esta mudança serviu bem os seus propósitos, já que lhe garantiu material para os
seus estudos. Esta mesma fonte foi igualmente procurada por artistas, compositores,
escritores e todo o género de criadores, na tentativa de se libertarem dos espartilhos da
consciência em busca de imagens inovadoras. Temos aqui uma tensão interessante em jogo:
criadores muito conscientes procuram conscientemente o inconsciente como fonte de
inspiração e, por vezes, como método para os seus empreendimentos conscientes. Isto não
contradiz de todo a ideia de que a criatividade não poderia ter tido início, e muito menos
florescer, na ausência da consciência. Apenas serve para sublinhar como as nossas vidas
mentais são espantosamente híbridas e flexíveis.

O raciocínio dos sonhos é, no mínimo, descontraído, tanto nos sonhos bons como nos
pesadelos, e embora a causalidade possa ser respeitada, a imaginação ganha asas e a realidade
vai parar às urtigas. Contudo, os sonhos oferecem-nos um testemunho direto de pro-

224

cessos mentais sem o apoio da consciência. A profundidade do processamento inconsciente


atingida pelos sonhos é considerável. Para quem se sentir relutante em aceitá-lo, os exemplos
mais convincentes talvez cheguem dos sonhos que se prendem com questões da regulação
vital simples. Um caso concreto: a pessoa que tem um sonho complexo sobre sede e água
fresca após um jantar salgado. Ah, mas esperem, já ouço leitores a interrogar-se sobre o que
quero eu dizer ao referir que a mente do sonho «não tem o apoio da consciência»? Se
conseguimos recordar-nos de um sonho não quererá isso dizer que estávamos conscientes
quando ele aconteceu? Bem, em muitos casos é esse o caso. Durante os sonhos temos uma
espécie de consciência atípica em ação, sendo o termo paradoxal o mais adequado para essa
situação. Considero, no entanto, que o processo imaginativo representado nos sonhos não é
orientado por um eu regular a funcionar plenamente, um eu do mesmo tipo que empregamos
ao refletir e deliberar. (Excetua-se a situação dos chamados «sonhos lúcidos», em que
sonhadores treinados conseguem, até certo ponto, orientar o tema dos sonhos.) A nossa
mente, consciente e não-consciente, recebe provavelmente o seu ritmo e pauta do mundo
exterior, cuja informação apoia a organização dos seus conteúdos. Privada desse ritmo
externo, a mente poderia com facilidade sonhar a seu bel-prazer a todo e qualquer momento.9

A questão da recordação dos sonhos constitui um ponto embaraçoso. Sonhamos


profusamente, várias vezes por noite, quando nos encontramos no sono de movimento rápido
dos olhos (REM), e até sonhamos, embora menos, quando nos encontramos no sono de ondas
lentas, também denominado sono não-REM (N-REM). Porém, aparentemente lembramo-nos
melhor dos sonhos que ocorrem próximo do regresso à consciência, à medida que subimos,
mais ou menos gradualmente, até à superfície do oceano da realidade.

Esforço-me sempre por me recordar dos meus sonhos, mas a menos que os transcreva, eles
desaparecem sem deixar rasto. Isso não é assim tão surpreendente se pensarmos que, quando
acordamos,

225

o aparelho de consolidação da memória ainda mal voltou a funcionar, mais ou menos como o
forno de uma padaria na madrugada.

O único tipo de sonho que costumava recordar um pouco melhor, talvez porque era frequente,
era um pesadelo «ligeiro» que surgia na véspera de proferir uma palestra. As variações
giravam sempre em torno do mesmo tema: estou atrasado, tremendamente atrasado, e falta-
me qualquer coisa essencial. Os meus sapatos podem ter desaparecido; ou a minha barba não
esta apresentável e não consigo encontrar a máquina de barbear; ou o aeroporto está fechado
devido ao nevoeiro e eu fiquei em terra. Sinto-me torturado e por vezes embaraçado, como
quando (no meu sonho, claro) entrei mesmo em palco descalço (mas num fato Armani). É por
isso que até hoje nunca deixo sapatos à porta de um quarto de hotel para serem limpos.

CAPITULO 8

Construir uma mente consciente

Uma hipótese de trabalho

Escusado será dizer que a construção de uma mente consciente é um processo muito
complexo, resultado de acrescentos e eliminações de mecanismos cerebrais ao longo de
milhões de anos de evolução biológica. Não existe um dispositivo ou mecanismo único que
seja responsável pela complexidade da mente consciente. A consciência tem diversos
componentes; é preciso tratá-los separadamente e temos de lhes fazer justiça antes de tentar
esboçar uma explicação global.
Comecemos com uma hipótese articulada em duas partes. A primeira parte especifica que o
cérebro constrói a consciência através da criação de um eu no interior de uma mente
desperta. A essência do eu é vista como um focar da mente sobre o orga-

228

nismo material que ela habita. O estado de vigília e a mente são componentes indispensáveis
da consciência, mas o eu é o elemento distintivo.

A segunda parte da hipótese propõe que o eu é construído por fases. A fase mais simples
surge da parte do cérebro que representa o organismo o proto eu e consiste num aglomerado
de imagens que descrevem aspetos relativamente estáveis do corpo e criam sentimentos
espontâneos do corpo vivo (sentimentos primordiais). A segunda fase resulta do
estabelecimento de uma relação entre o organismo (tal como representado pelo prato-eu) e
qualquer parte do cérebro que represente um objeto a ser conhecido. O resultado é o eu
nuclear. A terceira fase permite que objetos múltiplos, anteriormente registados como
experiência vivida ou como futuro antecipado, interajam com o proto - eu e produzam uma
série de pulsos do eu nuclear. O resultado é o eu autobiográfico. Estas três fases são
construídas em espaços de trabalho cerebrais separados mas coordenados. Trata-se dos
espaços imagéticos, o espaço de jogo onde se revela tanto a influência da perceção em curso
como das disposições contidas nas regiões de convergência divergência.

À maneira de pano de fundo, e antes de apresentar os vários mecanismos hipotéticos


necessários para levar a cabo a hipótese geral, digamos que de um ponto de vista evolutivo, os
processos do eu apenas começaram a ter lugar depois de as mentes e a vigilância terem sido
estabelecidas como operações cerebrais. Os processos do eu foram especialmente eficazes a
orientar e a organizar as mentes em relação às necessidades homeostáticas dos seus
organismos, aumentando assim as probabilidades de sobrevivência. Não admira, pois, que os
processos do eu tenham sido alvo de uma seleção natural e prevalecido na evolução. Nas
primeiras fases, os processos do eu

229

Primeira fase: proto eu

O proto eu é a descrição neural de aspetos relativamente estáveis do organismo

O produto principal do proto eu são os sentimentos espontâneos do corpo vivo (sentimentos


primordiais)

Segunda fase: eu nuclear

É gerado um pulso de eu nuclear quando o proto eu é modificado por uma interação entre o
organismo e um objeto, e quando, como resultado, as imagens do objeto são também
modificadas

As imagens modificadas do objeto e do organismo ficam ligadas momentaneamente num


padrão coerente

A relação entre organismo e objeto é descrita numa sequência narrativa de imagens, algumas
das quais são sentimentos
Terceira fase: eu autobiográfico

O eu autobiográfico ocorre quando objetos da biografia de um indivíduo criam pulsos de eu


nuclear que ficam, a seguir, ligados momentaneamente num padrão coerente de larga escala

Figura 8.1: Três estádios do eu

não terão provavelmente gerado consciência na verdadeira aceção da palavra e terão sido
limitados ao proto eu. Numa fase posterior da evolução, níveis mais complexos do eu como o
eu nuclear começaram a criar subjetividade no interior da mente e a habilitar-se

230

à consciência. Ainda mais tarde, foram usadas construções cada vez mais complexas para
obter e acumular conhecimento adicional sobre organismos individuais e o seu ambiente. O
conhecimento foi depositado em memórias alojadas no interior do cérebro, mantidas em
regiões de convergência-divergência, e em memórias registadas no exterior, nos instrumentos
da cultura. A consciência na mais pura aceção do termo emergiu depois de esse conhecimento
ser categorizado, simbolizado de várias formas (entre as quais a que conhecemos como
linguagem recorrente) e manipulado pela imaginação e pela razão.

Impõem-se duas outras qualificações. Primeira: os diferentes níveis de processamento -


mente, mente consciente e mente consciente capaz de produzir cultura - surgiram em
sequência. Contudo, isso não deve dar a impressão de que quando as mentes adquiriram um
eu deixaram de evoluir enquanto mentes, ou de que o eu também parou de evoluir. Pelo
contrário, o processo evolutivo prosseguiu (e prossegue), possivelmente enriquecido e
acelerado pelas pressões criadas pelo autoconhecimento. A revolução digital, a globalização da
informação cultural e a chegada da era da empatia são exemplos de pressões que podem
conduzir a modificações estruturais da mente e do eu, e refiro-me a modificações do próprio
processo cerebral que molda a mente e o eu.

Segunda qualificação: a partir deste ponto do livro, abordarei o problema da construção de


uma mente consciente segundo a perspetiva do ser humano, embora, sempre que possível e
adequado, faça referência a outras espécies.

Abordar o cérebro consciente

A neurociência da consciência é muitas vezes abordada a partir da mente propriamente dita e


não da do eu.' Ao optar pela abordagem da consciência através do eu não se pretende
minimizar a

231

complexidade e a abrangência das mentes puras. No entanto, atribuir proeminência ao


processo do eu coaduna-se com a perspetiva adotada desde início, segundo a qual a razão
para as mentes conscientes terem prevalecido na evolução foi o facto de a consciência ter
otimizado a regulação vital. O eu de cada mente consciente é o representante máximo dos
mecanismos individuais de regulação vital, a sentinela e curador do valor biológico. Até certo
ponto, a imensa complexidade cognitiva que caracteriza as atuais mentes conscientes dos
seres humanos é motivada e orquestrada pelo eu, enquanto representante do valor.
Seja qual for a nossa preferência de estudo quanto à tríade composta pelo estado de vigília,
pela mente e pelo eu, torna-se óbvio que o mistério da consciência não se encontra na vigília.
Pelo contrário, dispomos de conhecimentos consideráveis quanto à neuroanatomia e à
neurofisiologia por detrás do processo de vigília. Talvez não seja coincidência que a história da
investigação da consciência tenha começado justamente pelo problema da vigília. 2

A mente é o segundo componente da tríade da consciência, e a sua base neural também não é
um completo mistério. Conhecemos alguns dos seus aspetos essenciais ao nível dos sistemas
de grande escala, como vimos no capítulo 3, mesmo que ainda permaneçam muitas incógnitas.
Chegamos assim ao terceiro e fulcral componente da tríade, o eu, cujo estudo é muitas vezes
adiado, com o argumento de que se trata de um tema demasiado complicado, dado o estado
atual do nosso conhecimento. Este capítulo e o próximo irão tratar em grande medida do eu, e
irão descrever em linhas gerais mecanismos para o criar e inserir na mente desperta. O
objetivo é identificar as estruturas neurais e os mecanismos que poderão produzir o eu, desde
o tipo de eu simples que orienta de forma adaptativa o comportamento, até à complexa
variedade de eu capaz de apreender que o seu organismo existe, e orientar a vida em
conformidade.

232

Antevendo a mente consciente

Entre os muitos níveis do eu, os mais complexos tendem a encobrir os mais simples,
dominando a nossa mente com uma exuberante demonstração de conhecimento. Todavia,
podemos tentar ultrapassar esse encobrimento natural e dar um bom uso a toda essa
complexidade. Como? Solicitando aos níveis complexos do eu que observem o que se passa
nos mais simples. Trata-se de um exercício difícil e que acarreta alguns riscos. A introspeção,
como já vimos, pode fornecer informações enganadoras. No entanto, esse é um risco que vale
a pena correr, uma vez que a introspeção nos garante a única visão direta daquilo que
pretendemos explicar. Além disso, se a informação recolhida levar a hipóteses inválidas,
futuros testes empíricos revelarão essa invalidade. É curioso notar que realizar a introspeção
se torna numa tradução, no interior da mente, de um processo em que os cérebros complexos
estão envolvidos desde há muito na evolução: falar consigo próprios, tanto literalmente como
através da linguagem da atividade neural.

Olhemos, então, para o interior da nossa mente consciente e tentemos observar o aspeto da
mente, no fundo das suas texturas e sucessivas camadas, livre do fardo da identidade, do
passado vivido e do futuro antecipado, a mente consciente do momento e no momento. É
claro que não posso falar por todos, mas eis o que a minha análise me diz. Para começar, lá
bem no fundo, a mente consciente simples tem semelhanças com a que William James
descreveu como uma corrente mental com objetos dentro dela. Contudo esses objetos não
têm todos a mesma saliência. Alguns aparecem ampliados, outros não. Os objetos também
não apresentam a mesma disposição em relação a mim próprio. Alguns assumem uma
determinada perspetiva em relação ao eu material, o qual, na maioria das vezes, consigo até
localizar no meu corpo e, com maior precisão, no espaço que se encontra por trás dos meus
olhos e entre as orelhas. De forma igualmente notável, certos objetos, embora nem todos, são
acompa-

233
nhados por um sentimento que os liga sem sombra de dúvida ao meu corpo e mente. Esse
sentimento diz-me, sem necessidade de palavras, que sou proprietário dos objetos e que
posso, se assim o desejar, agir sobre eles. Isto é, literalmente, «o sentimento daquilo que
acontece, a sensação relacionada com o objeto sobre a qual já escrevi. No entanto, quanto à
questão dos sentimentos na mente, tenho a acrescentar o seguinte: o sentimento daquilo que
acontece não esgota este tema. Existe um sentimento mais profundo que temos de imaginar e
depois vir a encontrar nas profundezas da mente consciente. Trata-se do sentimento de que o
meu corpo existe e está presente, independentemente de qualquer objeto com o qual
interaja, a afirmação sólida e silenciosa de que estou vivo. Este sentimento fundamental, que
eu não considerara necessário referir em abordagens anteriores deste problema, apresento-o
agora como um elemento essencial no processo do eu. Chamo-lhe sentimento primordial e
sublinho que detém uma qualidade definida, uma valência, algures entre os limites definidos
pela dor e pelo prazer. É o antepassado de todos os senti- mentos de emoção e, logo, a base
de todos os sentimentos provocados pelas interações entre os objetos e o organismo. Tal
como veremos, os sentimentos primordiais são produzidos pelo proto eu.3

Em resumo, ao mergulhar nas profundezas da mente consciente descubro que se trata de um


aglomerado de imagens diferentes. Uma parte dessas imagens descreve os objetos na
consciência. Outras imagens descrevem-me a mim, e nesse mim incluem-se: 1) a perspetiva a
partir da qual os objetos estão a ser mapeados (o facto de a minha mente ter um ponto de
vista quanto à visão, ao tato, à audição, etc., e de esse ponto de vista ser o do meu corpo); 2) o
sentimento de que os objetos estão a ser representados numa mente que pertence a mim e a
mais ninguém (posse); 3) o sentimento de capacidade de agir relativa aos objetos e de as ações
levadas a cabo pelo meu corpo serem comandadas pela minha mente; e 4) sentimentos
primordiais, que dão significado à existência do meu corpo vivo, independentemente da forma
como os objetos se relacionam ou não com ele.

234

O conjunto dos elementos 1 a 4 constitui um eu na sua versão mais simples. Quando as


imagens do eu composto se unem às imagens de objetos que não pertencem ao eu, o
resultado é uma mente consciente.

Todo este conhecimento está disponível prontamente. Não chegamos a ele por uma inferência
ou por uma interpretação efetuada através do raciocínio. Também não é verbal. É feito de
pistas e palpites; de sentimentos que ocorrem em relação ao corpo vivo e em relação a um
objeto.

O eu simples no fundo da mente assemelha-se muito à música, mas ainda não à poesia.

Os componentes de uma mente consciente

Os ingredientes básicos na construção das mentes conscientes são o estado de vigília e as


imagens. Quanto ao estado de vigília, sabemos que depende do funcionamento de certos
núcleos no tegmento do tronco cerebral e no hipotálamo. Servindo-se de processos neurais e
químicos, estes núcleos exercem a sua influência sobre o cortex cerebral. Em consequência, a
vigília reduz-se (produzindo sono) ou amplia-se (conservando-nos alerta). O trabalho dos
núcleos do tronco cerebral é apoiado pelo tálamo, embora alguns núcleos influenciem
diretamente o córtex cerebral; quanto aos núcleos hipotalâmicos, estes trabalham em grande
medida através da libertação de moléculas químicas que vêm a agir sobre os circuitos neurais,
alterando-lhes o comportamento.
O delicado equilíbrio do estado de vigília depende da ação combinada do hipotálamo, do
tronco cerebral e do córtex cerebral. A função do hipotálamo está estreitamente relacionada
com a quantidade de luz disponível, sendo a parte do processo de vigília cuja perturbação
provoca «jetlag» quando atravessamos vários fusos horários. Esta operação, por sua vez, está
associada aos padrões de

235

secreção hormonal ligados, em parte, aos ciclos da noite e do dia. Os núcleos hipotalâmicos
controlam o funcionamento das glândulas endócrinas disseminadas pelo organismo -
pituitárias, tiróide, supra - renais, pâncreas, testículos, ovários.4

No processo de vigília, o componente do tronco cerebral está relacionado com o valor natural
de cada situação em curso. O tronco cerebral responde, de forma espontânea e não-
espontânea, a perguntas que nunca ninguém colocou, como por exemplo: até que ponto
deverá a situação interessar ao observador? O valor determina os sinais de informação e o
grau de reação emocional a uma situação, e determina até que ponto devemos estar
despertos e alerta. O enfado afeta o estado de vigília, mas os níveis metabólicos também.
Sabemos o que acontece durante a digestão de uma refeição farta, especialmente na presença
de certos ingredientes químicos, como o triptofano, libertado pelas carnes vermelhas. O álcool
aumenta de início o estado de vigília mas acaba por induzir sonolência, à medida que se vai
elevando o nível de álcool no sangue. Os anestésicos suspendem completamente o estado de
vigília.

Uma derradeira chamada de atenção quanto ao estado de vigília: a nível da neuroanatomia e


da neurofisiologia, o sector do tronco cerebral envolvido no estado de vigília é diferente
daquele que cria a base do eu, o proto eu (que será analisado na secção seguinte). Os núcleos
do estado de vigília do tronco cerebral estão anatomicamente próximos dos núcleos do proto
eu do tronco cerebral por uma boa razão: ambos os conjuntos de núcleos participam na
regulação vital, embora eles contribuam de formas diferentes para essa regulação.5

Quanto à questão das imagens, pode parecer que já sabemos tudo o que precisamos de saber,
uma vez que discutimos a sua base

236

neural nos capítulos 3 a 6. Contudo, há algo mais a dizer. As imagens são sem dúvida a fonte
dos objetos a ser conhecidos da mente consciente, quer esses objetos se encontrem no
mundo exterior ao corpo ou no interior do corpo, sendo exemplos destes últimos o meu
cotovelo dorido ou o dedo que o leitor queimou inadvertidamente. As imagens chegam-nos
em todas as variedades sensoriais, não apenas visuais, e dizem respeito a qualquer objeto ou
ação que estejam a ser processados no cérebro, quer verdadeiramente presentes, quer a
serem recordados, tanto concretos como abstratos. Isso abrange todos os padrões com
origem exterior ao cérebro, quer estejam no interior do corpo ou no mundo exterior ao corpo.
Abrange igualmente padrões gerados no interior do cérebro, como consequência da conjunção
de outros padrões. Com efeito, o cérebro é um viciado na criação de mapas o que o leva a
mapear o seu próprio funcionamento e, de certa forma, falar consigo próprio. A criação de
mapas do seu próprio funcionamento será provavelmente a principal fonte de imagens
abstratas que descrevem, por exemplo, a colocação e movimento espacial de objetos, as
relações entre objetos, a velocidade e o rumo espacial dos objetos em movimento, e os
padrões de ocorrência dos objetos no tempo e no espaço. Estes tipos de imagens podem ser
convertidos em equações matemáticas, bem como em composições e execuções musicais. Es-
tou convencido que os matemáticos e os compositores sobressaem neste tipo de criação de
imagens.

A hipótese de trabalho apresentada anteriormente propõe que as mentes conscientes surgem


a partir do estabelecimento de uma relação entre o organismo e um objeto a ser conhecido.
Mas como são o organismo, o objeto e a relação, implementados no cérebro? Todos estes três
componentes são formados por imagens. O objeto a ser conhecido é mapeado como imagem.
O mesmo se passa com o organismo, embora as suas imagens sejam especiais. Quanto ao
conhecimento que constitui um estado de identidade e que permite a emergência do eu,
também ele é composto por

237

imagens. Todo o tecido de uma mente consciente é criado a partir dos mesmos fios: imagens
criadas pela capacidade de mapeamento do cérebro.

Embora todos os aspetos da consciência sejam construídos a partir de imagens, nem todas as
imagens nascem iguais quanto à origem neural ou às características fisiológicas (ver Fig. 3.1).
As imagens usadas para descrever a maioria dos objetos a serem conhecidos são
convencionais, no sentido de resultarem das operações de mapeamento que analisámos em
relação aos sentidos externos. Todavia, as imagens que representam o organismo constituem
uma classe específica. Essas imagens têm origem no interior do corpo e representam aspetos
do corpo em ação. Possuem um estatuto especial e o que levam a cabo é igualmente especial:
são sentidas, de forma espontânea e natural, logo à partida, antes de qualquer outra operação
relativa à construção da consciência. São imagens sentidas do corpo, sentimentos corporais
primordiais, a origem de todos os outros sentimentos, incluindo os sentimentos das emoções.
Mais à frente veremos que as imagens que descrevem a relação entre o organismo e o objeto
recorrem a ambos os tipos de imagens - as imagens sensoriais convencionais e as variações
dos sentimentos corporais.

Finalmente, todas as imagens ocorrem num espaço de trabalho formado por córtices
sensoriais individualizados e, no caso dos sentimentos, por determinadas regiões do tronco
cerebral. Este espaço imagético é controlado por uma série de áreas corticais e subcorticais,
cujos circuitos albergam conhecimento disposicional registado em estado latente na
arquitetura de convergência divergência que analisámos no capítulo 6. As regiões podem
funcionar de forma consciente ou não-consciente, mas em ambos os casos fazem-no
exatamente nas mesmas bases neurais. A diferença entre os modos de funcionamento
consciente e inconsciente nos espaços de trabalho participantes depende dos graus de vigília e
do nível de processamento do eu.

238

No que respeita à implementação neural, o conceito de espaço imagético aqui avançado


diverge consideravelmente dos conceitos que se encontram nas obras de Bernard Baars,
Stanislas Dehaene e jean-Pierre Changeux. Baars deu origem ao conceito de espaço de
trabalho global, em termos puramente psicológicos, com o objetivo de chamar a atenção para
o intenso cruzamento de comunicação entre os diferentes componentes do processo mental.
Dehaene e Changeux utilizaram o espaço de trabalho global em termos neurais para se
referirem à atividade neural extremamente distribuída e interligada que terá de ser subjacente
à consciência. A nível do cérebro concentram-se no córtex cerebral enquanto fornecedor de
conteúdos da consciência e dão destaque aos córtices associativos, especialmente o pré-
frontal, como elemento necessário no acesso a esses conteúdos. Um trabalho posterior de
Baars também coloca o conceito de espaço de trabalho global ao serviço do acesso aos
conteúdos da consciência.

Quanto a mim, concentro-me nas regiões de criação de imagens, o espaço onde as marionetas
do espetáculo verdadeiramente representam. Os manipuladores e os fios das marionetas
encontram-se fora do espaço imagético, no espaço disposicional situado nos córtices
associativos dos sectores frontal, temporal e parietal. Esta perspetiva é compatível com
estudos que descrevem o comportamento desses dois sectores distintos (espaço imagético e
espaço disposicional) relativamente às imagens conscientes por oposição às não-conscientes,
como no trabalho de Nikos Logothetis ou Giulio Tononi sobre a rivalidade binocular, ou o
trabalho de Dehaene e Naccache sobre o processamento das palavras. Os estados conscientes
exigem um envolvimento sensorial primário e o envolvimento dos córtices associativos, uma
vez que, em minha opinião, é a partir daí que os manipuladores das marionetas organizam o
espetáculo.6 Creio que a minha explicação do problema complementa a abordagem destes
autores sem entrar em conflito com ela.

239

O preto eu

O proto eu é a pedra de toque necessária à construção do eu nuclear. Trata-se de uma coleção


integrada de padrões neurais separados que mapeiam, a cada momento) os aspetos mais
estáveis da estrutura física do organismo. Os mapas do proto eu criam não só meras imagens
do corpo, mas também imagens sentidas do corpo, espontaneamente presentes no cérebro
desperto normal.

Para o proto eu contribuem mapas interoceptivos principais, mapas do organismo principais e


mapas das portadas sensoriais. De um ponto de vista anatómico, estes mapas surgem tanto do
tronco cerebral como das regiões corticais. A integração de todos estes mapas diversos e
distribuídos a nível espacial tem lugar graças ao cruzamento de informações na mesma
unidade temporal. Não exige um local específico no cérebro onde os diversos componentes
seriam de novo mapeados.

Mapas gerais da interocepção

São os mapas e as imagens cujo conteúdo é reunido através dos sinais interoceptivos que
chegam do meio interno e das vísceras. Os sinais interoceptivos informam o sistema nervoso
central do estado presente do organismo, que poderá variar desde o ótimo até ao
problemático, quando a integridade de um órgão ou tecido foi posta em causa e ocorreram
lesões no corpo. (Estou a referir-me aqui aos sinais nociceptivos, que constituem a base das
sensações de dor.) Os sinais interoceptivos representam a necessidade de correções
fisiológicas, algo que se materializa na nossa mente, por exemplo, sob a forma de sensações de
fome e de sede. Todos os sinais que transmitem a informação da temperatura, a par de uma
série de parâmetros sobre o funcionamento do meio interno, são

240

abrangidos por esta designação. Por fim, os sinais interoceptivos também participam na
criação dos estados hedónicos e nas correspondentes sensações de prazer.
Nível do tronco cerebral

Núcleo do trato solitário (NTS)

Núcleo parabraquial (PBN)

Substância cinzenta periaquedutal (PAG)

Área postrema

Hipotálamo

Colículo superior (camadas profundas)

Nível do córtex cerebral

Córtex insular

Córtex cingulado anterior

Campos oculares frontais (BA 8)

Córtices somatossensoriais

Integração interoceptiva

Figura 8.2: Principais componentes do proto eu

Integração

interoceptiva

Portadas sensoriais

Figura 8.2:Principais componentes do proto eu

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

241

A qualquer momento, um subconjunto destes sinais, reunidos e modificados em certos


núcleos do tronco cerebral superior, cria sentimentos primordiais. O tronco cerebral não é um
mero ponto de passagem dos sinais corporais a caminho do córtex cerebral. É uma estação de
tomada de decisões, com capacidade para se aperceber de alterações e de reagir, a esse nível,
de formas predeterminadas mas moduláveis. O funcionamento desse mecanismo de tomada
de decisões contribui para a construção dos sentimentos primordiais, pelo que tais
sentimentos são mais do que simples «retratos» do corpo, constituem algo mais elaborado do
que os mapas normais. Os sentimentos primordiais são um produto secundário das
circunstâncias particulares em que os núcleos do tronco cerebral estão organizados e da sua
firme interação com o corpo. Possivelmente, há de igual modo um contributo das
características funcionais dos neurónios específicos envolvidos nesta operação.
Os sentimentos primordiais precedem todos os outros. Referem-se específica e unicamente ao
corpo vivo que está interligado ao tronco cerebral específico. Todos os sentimentos de emoção
são variações dos sentimentos primordiais em curso. Todos os sentimentos causados pela
interação de objetos com o organismo são variações dos sentimentos primordiais em curso. Os
sentimentos emocionais e as suas variações emocionais criam um coro atento que acompanha
todas as outras imagens que têm lugar na mente.

Não é possível exagerar a importância do sistema interoceptivo para a compreensão da mente


consciente. Os processos deste sistema são em grande medida independentes da dimensão
das estruturas em que surgem e constituem um tipo especial de informação que se encontra
presente logo desde o início do desenvolvimento e acompanha

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

242

Córtex cerebral

Outros núcleos do tronco cerebral

Corpo

Mesencéfalo

Protuberância

Espinal medula

Figura 8.3: Os núcleos do tronco cerebral envolvidos na criação do eu nuclear. Tal como
mostrado na figura 4.1, vários núcleos do tronco cerebral trabalham em conjunto para garantir
a homeostase. No entanto, os núcleos relacionados com a homeostase projetam-se para
outros grupos de núcleos do tronco cerebral (outros núcleos do tronco cerebral, nesta figura).
Estes outros núcleos agrupam-se em famílias funcionais: os núcleos clássicos da formação
reticular, como o núcleo

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

243

a infância e a adolescência. Por outras palavras, a interocepção é origem ideal para a relativa
invariância necessária à criação de uma estrutura estive! que suporte o futuro eu.

A questão da invariância relativa é crucial, pois o eu é um processo singular e temos de


identificar uma base biológica plausível para essa singularidade. À primeira vista, o corpo único
do organismo deveria garantir essa singularidade biológica tão necessária. Vivemos num
corpo, não em dois (nem sequer os gémeos siameses negam esse facto), e temos uma mente a
acompanhar esse corpo e um eu para ambos. (Eus múltiplos e personalidades múltiplas não
são estados mentais normais.) No entanto, a plataforma única não pode corresponder a todo o
corpo, pois o corpo, enquanto todo, está continuamente a levar a cabo ações diferentes e, em
consequência, a mudar de forma, já para não falar no crescimento em tamanho a que é sujeito
desde o nascimento até à idade adulta. A plataforma única terá de ser procurada em outro
local, dentro do corpo mas não no corpo como unidade. Terá de corresponder aos sectores do
corpo que sofrem menos alterações ou que não se alteram de todo. O meio interno e muitos
parâmetros viscerais a ele ligados garantem esses aspetos mais invariantes do organismo, em
qualquer idade, ao longo de toda uma vida, não porque não mudem,

-----------------

pontis oralis e o núcleo cuneiforme, que influenciam o córtex cerebral através dos núcleos
intralaminares do tálamo, os núcleos monoaminérgicos, que libertam moléculas como a
noradrenalina, a serotonina e a dopamina diretamente em diversas regiões do córtex cerebral:
e os núcleos colinérgicos, que libertam acetilcolina.

Na hipótese aqui avançada, os núcleos homeostáticos são responsáveis pelos «Sentimentos de


conhecimento» do eu nuclear. A atividade neural subjacente a esse processo, por sua vez,
recruta os outros núcleos não homeostáticos do tronco cerebral, para criar «realce do objeto».

As abreviaturas são as mesmas da figura 4.1

244

mas porque o seu funcionamento exige que a sua condição varie apenas dentro de
parâmetros muito estreitos. Os ossos crescem durante todo o processo de desenvolvimento, o
mesmo acontecendo com os músculos que os movem; no entanto, a essência do banho
químico onde a vida ocorre os limites médios dos seus parâmetros é aproximadamente a
mesma quer tenhamos três anos de idade, cinquenta ou oitenta. Além disso, quer se tenha
sessenta centí- metros ou um metro e oitenta, a essência biológica de um estado de receio ou
de felicidade será, muito provavelmente, a mesma no que respeita à forma como esses
estados são construídos a partir das químicas do meio interno e do estado de contração ou
dilatação dos músculos lisos das vísceras. Convém frisar que as causas de um estado de receio
ou de felicidade os pensamentos que provocam esses estados - podem ser muito diferentes ao
longo de uma vida, mas o perfil da reação emocional a essas causas não o é.

Onde funciona o sistema interoceptivo principal? As respostas têm vindo a ser elaboradas ao
longo da última década graças a trabalhos que vão desde registos fisiológicos a nível celular e
estudos neuroanatómicos experimentais em animais, até neuroimagiologia funcional em seres
humanos. O resultado desta pesquisa (analisado no capítulo 4) constitui um conhecimento
invulgarmente pormenorizado das vias que levam esses sinais ao sistema nervoso central.7 Os
sinais neurais e químicos que descrevem os estados corporais entram no sistema nervoso
central em muitos níveis da espinal medula, do núcleo trigémeo no tronco cerebral e dos
grupos especiais de neurónios que rondam a margem dos ventrículos cerebrais. A partir de
todos os pontos de entrada, os sinais são retransmitidos para os núcleos integradores
principais do tronco cerebral, sobretudo o núcleo do trato solitário, o núcleo parabraquial e o
hipotálamo. A partir daí, depois de serem processados localmente e usados para

245

regular o processo vital e criar sentimentos primordiais, são também retransmitidos para o
sector mais claramente identificado com a interocepção, o córtex insular, após uma paragem
conveniente em núcleos retransmissores talâmicos. Não obstante o significado do
componente cortical deste sistema, considero o componente do tronco cerebral como
essencial para o processo do eu. Ele pode garantir um proto eu operacional, tal como
especificado na hipótese, mesmo quando o componente cortical se encontra profundamente
comprometido.

Mapas gerais do organismo

Os mapas gerais do organismo descrevem um esquema de todo o corpo com os seus


componentes principais: cabeça, tronco e membros em repouso. Os movimentos do corpo são
mapeados nesse mapa geral. Ao contrário dos mapas interoceptivos, os mapas gerais do
organismo mudam profundamente durante o desenvolvimento, pois retratam o sistema
músculo-esquelético e o seu movimento. Necessariamente, estes mapas acompanham os
aumentos da dimensão do corpo e da escala e qualidade do movimento. Não seria concebível
que fossem os mesmos num bebé, num adolescente e num adulto, embora acabem por atingir
uma espécie de estabilidade temporária. Em consequência, os mapas gerais do organismo não
são a fonte ideal da singularidade necessária para a constituição do proto eu.

O sistema interoceptivo geral deverá acomodar-se na estrutura geral criada pelo esquema do
organismo, em todas as fases do crescimento deste. Um esboço deste arranjo representaria o
sistema interoceptivo geral dentro do perímetro da estrutura geral do organismo. Mas os dois
são distintos. O encaixe de um sistema no outro não implica uma transferência dos mapas,
mas sim uma tal coordenação que ambos os conjuntos de mapas possam ser evocados ao
mesmo

246

tempo. Por exemplo, o mapeamento de uma região específica do interior do corpo seria
transmitido ao sector da estrutura geral do organismo onde a região melhor se encaixasse no
esquema anatómico geral. Quando sentimos náusea, em geral sentimo-la em relação a uma
região do corpo - o estômago, por exemplo. Apesar da sua imprecisão, este mapa
interoceptivo é concebido para se posicionar no mapa geral do organismo.

Mapas das portadas sensoriais orientadas para o exterior

Referi-me às portadas sensoriais no capítulo 4, como a armadura em que as sondas sensoriais -


os diamantes estão engastadas. Aqui coloco-as ao serviço do eu. A representação das várias
portadas sensoriais regiões do corpo como aquelas que albergam os olhos, ouvidos, língua e
nariz - é um caso separado e especial dos mapas gerais do organismo. Imagino que os mapas
das portadas sensoriais se inserem na moldura dos mapas gerais do organismo muito à
semelhança dos mapas interoceptivos, através da coordenação temporal e não através da
transferência de mapas. O ponto onde se encontram ao certo alguns destes mapas está
atualmente a ser investigado.

Os mapas das portadas sensoriais desempenham um papel duplo, em primeiro lugar na


construção da perspetiva (um aspeto relevante da consciência) e a seguir na construção de
aspetos qualitativos da mente. Um dos aspetos curiosos quanto à nossa perceção de um
objeto é a relação apurada que estabelecemos entre o conteúdo mental que descreve o objeto
e o que corresponde a parte do corpo implicada na respetiva perceção. Sabemos que vemos
com os olhos, mas também nos sentimos a ver com os olhos. Sabemos que ouvimos com os
ouvidos, não com os olhos, nem com o nariz. Sentimos de facto o som no ouvido externo e na
membrana

247
do tímpano. Tateamos com os dedos, cheiramos com o nariz, e assim por diante. À primeira
vista isto pode parecer banal, mas não o é de todo. Conhecemos toda esta «localização dos
órgãos sensoriais» desde tenra idade, provavelmente antes de a descobrirmos por inferência,
ligando uma determinada perceção a um movimento específico, talvez mesmo antes de
inúmeras canções e rimas nos dizerem, na escola, onde os sentidos vão buscar a sua informa-
ção. Mesmo assim, trata-se de um estranho tipo de conhecimento. Pensemos que as imagens
visuais nos chegam dos neurónios na retina, dos quais não se espera que nos digam seja o que
for quanto a zona do corpo onde as retinas se situam no interior dos globos oculares, que se
encontram nas órbitas, numa parte específica do rosto. Como ficámos a saber que as retinas
estão onde estão? É claro que uma criança se apercebe de que a visão desaparece quando os
olhos se fecham e de que tapar os ouvidos reduz a audição. A questão, porém, não é essa. O
que interessa é que «sentimos» o som a entrar nos ouvidos, e «sentimos» que estamos a olhar
à nossa volta e a ver com os olhos. Uma criança à frente de um espelho iria confirmar o
conhecimento que já teria adquirido graças a uma série de informações com origem nas
estruturas corporais «em redor» da retina. O conjunto dessas estruturas constitui aquilo a que
chamo uma portada sensorial. No caso da visão, a portada sensorial inclui a musculatura
ocular com que movemos os olhos, mas também todo o aparelho com que focamos um
objeto, ajustando a dimensão do cristalino mais o aparelho de regulação da intensidade da luz,
que reduz ou aumenta o diâmetro das pupilas (os obturadores fotográficos dos nossos olhos),
e, por fim, os músculos em redor dos olhos, com os quais franzimos o sobrolho, pestaneja-
mos ou deixamos transparecer alegria. Os movimentos dos olhos e o pestanejar
desempenham um papel essencial na montagem das nossas imagens visuais e ao mesmo
tempo, por incrível que pareça, também desempenham um papel relevante na montagem
eficaz e realista das imagens do filme que é a mente.

248

Ver é mais do que obter um padrão ótico adequado na retina. Ver engloba todas essas outras
co - reações, algumas das quais indispensáveis à criação de um padrão nítido na retina, outras
acompanhamentos habituais do processo de ver, e outras ainda que são já reações rápidas ao
processamento do próprio padrão.

O caso da audição é comparável. A vibração da membrana do tímpano e de um grupo de ossos


minúsculos no ouvido médio pode ser transmitida ao cérebro a par do próprio som, que ocorre
no ouvido interno, ao nível das cócleas, onde se mapeiam as frequências, a duração e o timbre
dos sons.

O funcionamento complexo das portadas sensoriais pode contribuir para os erros que tanto as
crianças como os adultos cometem quanto à fonte de determinada perceção por exemplo,
recordar que um certo objeto foi primeiramente visto e depois ouvido em dado
acontecimento, quando foi o oposto que aconteceu. Esse fenómeno é conhecido como erro de
reconhecimento da fonte.

As portadas sensoriais, tão ignoradas, desempenham um papel essencial na definição da


perspetiva em relação ao resto do mundo. Refiro-me a um efeito que todos sentimos na
mente: ter um ponto de vista quanto ao que está a acontecer no exterior da mente. Não se
trata de um mero «ponto de visão», embora para a maioria dos seres humanos com visão ela
de facto domine o funcionamento da mente. No entanto, dispomos também de um ponto de
vista em relação aos sons, um ponto de vista em relação aos objetos em que tocamos, e até
mesmo um ponto de vista para os objetos que sentimos no nosso próprio corpo - mais uma
vez, o cotovelo e a sua dor, ou os nossos pés ao caminharmos na areia.
Não nos imaginamos a ver com o umbigo ou a ouvir com as axilas (por mais curiosa que tal
possibilidade pudesse ser). As portadas sensoriais junto às quais são reunidos os dados para a
criação de imagens fornecem à mente o ponto de vista do organismo em relação a um objeto.
O ponto de vista é obtido a partir das várias regiões do corpo em redor das quais surgem as
perceções. Esse ponto de vista

249

apenas é interrompido em condições anormais (experiências extra- corporais) que podem


advir de doença cerebral, trauma psicológico ou manipulações experimentais através do uso
de dispositivos de realidade virtual. 8

Imagino a perspetiva do organismo como estando baseada numa série de fontes. Visão, som,
equilíbrio espacial, paladar e olfato, tudo isso depende de portadas sensoriais não muito
distantes umas das outras, todas situadas na cabeça. Podemos conceber a cabeça como um
dispositivo de vigilância multidimensional, pronto a apreender o mundo. O tato, na sua
abrangência total, dispõe de uma portada sensorial mais vasta, mas a perspetiva relacionada
com o tato continua a apontar inequivocamente para o organismo singular como sendo o
examinador, e identifica um local na superfície desse examinador. A mesma abrangência é
responsável pela perceção do nosso movimento, a qual está de facto relacionada com todo o
corpo mas tem sempre origem no organismo singular.

No que respeita ao córtex cerebral, a maior parte dos dados provenientes das portadas
sensoriais chega ao sistema somatossensorial sendo o SI e o SII favorecidos em relação à
ínsula. No caso da visão, os dados das portadas sensoriais também são encaminhados para os
chamados «campos oculares frontais», situados na área 8 de Brodmann, na zona superior e
lateral do córtex frontal. Mais uma vez, estas regiões cerebrais geograficamente separadas
têm de ser unidas em termos funcionais por algum tipo de mecanismo de integração.

Um comentário final quanto à situação excecional dos córtices somatossensoriais. Estes


córtices transportam sinais do mundo exterior (sendo os mapas do tato o exemplo principal), e
do corpo (tal como no caso da interocepção e das portadas sensoriais). O componente da
portada sensorial pertence legitimamente à estrutura do organismo e, logo, ao proto eu.

Há pois um contraste notável entre dois conjuntos distintos de padrões. Por um lado, temos
uma variedade infinita de padrões

250

que descrevem objetos convencionais (alguns são exteriores ao corpo, como imagens visuais e
sons, paladares e odores; outros são partes do corpo, tais como articulações, ou regiões da
pele). Por outro lado, temos a uniformidade dos padrões relacionados com o interior do corpo
e com a sua regulação estreitamente controlada. Há uma diferença inescapável e fundamental
entre o aspeto rigidamente controlado da vida, presente no interior do nosso organismo, e
todas as coisas e acontecimentos imagináveis que se registam no mundo ou no resto do corpo.
Esta diferença é indispensável para a compreensão da base biológica dos processos do eu.

Este mesmo contraste entre variedade e uniformidade verifica-se também ao nível das
portadas sensoriais. As alterações sofridas pelas portadas sensoriais desde o seu estado básico
até ao estado associado ao ver e ao olhar não têm de ser de grande monta, embora o possam
ser. As alterações apenas têm de significar que ocorreu um envolvimento entre o organismo e
um objeto. Não precisam de transmitir nada acerca do objeto envolvido.

Em resumo, a combinação do meio interno, da estrutura visceral e do estado básico das


portadas sensoriais garante uma ilha de estabilidade no meio de um mar de movimento.
Mantém uma coerência relativa do estado funcional no âmbito de uma paisagem de processos
dinâmicos cujas variações são muito acentuadas. Imagine o leitor uma multidão a marchar ao
longo de uma rua; há um pequeno grupo no meio da multidão que se movimenta numa
formação firme e coesa, ao passo que os restantes elementos avançam de forma desordenada,
como num movimento browniano, alguns a ficarem atrasados e outros a ultrapassarem o
grupo central.

Teremos de acrescentar mais um elemento à estrutura providenciada pela invariância relativa


do meio interno: o facto de o

251

corpo em si permanecer inseparavelmente ligado ao cérebro em todas as ocasiões. Esta


ligação está na base da criação dos sentimentos primordiais e na base da relação única entre o
corpo, enquanto objeto, e o cérebro que representa esse objeto. Quando fazemos mapas de
objetos e de acontecimentos do mundo exterior, esses objetos e acontecimentos permanecem
no mundo exterior. Quando mapeamos os objetos e os acontecimentos do nosso corpo, eles
encontram-se no interior do organismo e não vão a mais lado nenhum. Agem sobre o cérebro,
mas o cérebro pode agir sobre eles a qualquer momento, criando um arco ressonante que
origina algo de comparável a uma fusão corpo-mente. Constituem uma base animada que gera
um contexto permanente para todos os outros conteúdos da mente. O proto eu não é um
mero aglomerado de mapas do corpo, comparável ao belo conjunto de imagens de
expressionismo abstrato que tenho no meu cérebro. O proto eu é um conjunto de mapas que
permanecem ligados interactivamente a sua fonte, uma raiz profunda que não pode ser
ignorada. Infelizmente, as imagens dos quadros preferidos que tenho no cérebro não estão
ligadas fisicamente às suas fontes. Bem gostava que assim fosse, mas elas ficam-se pelo meu
cérebro.

Por fim, tenho de salientar que o proto eu não deve ser confundido com um homúnculo, tal
como o eu que resulta da sua modificação também não é «homuncular». O conceito
tradicional de homúnculo corresponde ao homenzinho sentado no interior do cérebro,
omnisciente e sábio, capaz de responder a perguntas sobre o que se está a passar na mente e
de apresentar interpretações para os acontecimentos. O bem conhecido problema com o
homúnculo prende-se com o círculo vicioso que cria. O homenzinho cujo conhecimento nos
tornaria conscientes precisaria de outro homenzinho no seu interior, capaz de lhe assegurar o
conhecimento

252

necessário, e assim por diante, até ao infinito. Isto não funciona. O conhecimento que torna a
nossa mente consciente tem de ser edificado de forma ascendente. Nada poderia estar mais
afastado do conceito de proto eu aqui apresentado do que a ideia de um homúnculo. O proto
eu é uma plataforma razoavelmente estável e uma fonte de continuidade. Servimo-nos da
plataforma para registar as alterações causadas pela interação do organismo com aquilo que o
rodeia (como quando vemos um objeto e lhe pegamos) ou para registar a modificação da
estrutura ou do estado do organismo (como quando sofremos uma lesão, ou quando o nível
de açúcar no sangue baixa excessivamente). As alterações são registadas em comparação com
o estado atual do proto eu e a perturbação desencadeia acontecimentos fisiológicos
subsequentes, mas o proto eu não contém outra informação além da contida nos seus mapas.
O proto eu não é um sábio em Delfos, a responder a perguntas sobre quem somos.

Construir o eu nuclear

Ao pensar numa estratégia para criar o eu, será adequado começar pelos requisitos para o eu
nuclear. O cérebro tem de introduzir na mente algo que ainda não estava presente,
nomeadamente um protagonista. Assim que um protagonista fica disponível no meio do
restante conteúdo mental, e assim que o protagonista fica coerentemente ligado a algum
conteúdo mental, a subjetividade emerge no processo. Concentremo-nos primeiro no limiar
do protagonista, o ponto em que os elementos indispensáveis ao conhecimento se aglutinam,
por assim dizer, para dar origem à subjetividade.

253

Será que assim que dispomos de uma ilha unificada de estabilidade relativa que corresponde a
uma parte do organismo, o eu irá surgir dela, de uma penada? Se assim fosse, a anatomia e a
fisiologia das regiões cerebrais subjacentes ao proto eu contariam grande parte da história da
criação do eu. O eu iria derivar da capacidade de acumular e agregar conhecimento acerca dos
aspetos mais estáveis do organismo, e o caso ficaria encerrado. O eu resumir-se-ia à
representação da vida e sentida sem adornos no interior do cérebro, uma experiência pura,
sem qualquer ligação ao que quer que fosse, excetuando o seu próprio corpo. O eu consistiria
no sentimento primordial que o proto eu, no seu estado original, nos entrega de forma
espontânea e incansável, em cada momento que passa.

Quando se trata, no entanto, da vida mental complexa que tanto o leitor como eu sentimos
neste preciso momento, o proto eu e o sentimento primordial não bastam para justificar o
fenómeno do eu que estamos a criar. O proto eu e os seus sentimentos primordiais são a base
provável do eu material e são, com toda a probabilidade, uma manifestação cimeira e
importante da consciência em numerosas espécies vivas. Todavia, precisamos de um qualquer
processo do eu intermédio instalado entre o proto eu e os seus sentimentos primordiais, por
um lado, e o eu autobiográfico que nos confere a sensação de pessoalidade e identidade, por
outro. Algo de decisivo terá de se alterar no estado do proto eu para que este se torne um eu
na verdadeira aceção do termo, ou seja, um eu nuclear. Por um lado, o perfil mental do proto
eu terá de ser elevado de modo a destacar-se. Por outro, terá de se ligar aos acontecimentos
em que está envolvido. Terá de ser o protagonista da narrativa que decorre no momento. Para
mim, a alteração decisiva do proto eu tem a ver com a ligação contínua provocada pelo objeto
que está a ser apreendido. A ligação ocorre em estreita proximidade temporal com o
processamento sensorial do objeto. Sempre que o organismo encontra um objeto, seja ele
qual for, o proto eu é alterado por esse encontro. Isso acontece porque para mapear o objeto
o cérebro tem de adaptar o corpo

254

de forma adequada, e porque os resultados dessa adaptação, bem como o conteúdo da


imagem mapeada, interagem com o proto eu.

As alterações no proto eu dão início à criação instantânea do eu nuclear, bem como a uma
nova cadeia de fenómenos. O primeiro fenómeno da cadeia é uma transformação no
sentimento primordial que tem como resultado «um sentimento de conhecimento do objeto»,
um sentimento que diferencia o objeto de outros objetos do momento. O segundo fenómeno
da cadeia é uma consequência da sensação de conhecimento. É a criação de «realce» para o
objeto com que se estabeleceu ligação, um processo em geral descrito pelo termo atenção, o
encaminhamento de recursos cognitivos para um objeto específico, em detrimento de outros.
Assim sendo, o eu nuclear é criado através da ligação do proto eu modificado ao objeto que
provocou a modificação, um objeto que foi agora destacado pelo sentimento e realçado pela
atenção.

No final do ciclo acima descrito, a mente inclui imagens relativas a uma sequência simples e
muito comum de acontecimentos: um objeto interage com o corpo ao ser visto, tocado ou
ouvido, a partir de uma perspetiva específica; essa interação faz com que o corpo se altere; a
presença do objeto é sentida; o objeto é realçado.

A narrativa não-verbal desses fenómenos que ocorrem continuamente representa de forma


espontânea, na mente, o facto de que existe um protagonista a quem estão a acontecer
determinadas coisas, sendo esse protagonista o eu material. A representação na narrativa não
verbal simultaneamente gera e revela o protagonista, liga a esse protagonista as ações que
estão a ser produzidas pelo organismo e, a par do sentimento criado pela ligação ao objeto,
desenvolve também uma sensação de posse e de capacidade de ação.

O que está a ser acrescentado ao processo mental simples, e, desse modo, a produzir uma
mente consciente, é uma série de imagens, nomeadamente uma imagem do organismo
(fornecida pelo proto eu modificado); a imagem de uma reação emocional rela-

255

cionada com o objeto (ou seja, um sentimento); e uma imagem do objeto causativo
momentaneamente realçado. O eu chega à mente sob a forma de imagens que contam sem
cessar, formalmente, esta mesma história. As imagens do proto eu modificado e da sensação
conhecimento nem precisam de ser especialmente intensas. Precisam apenas de estar na
mente, mesmo que discretas, pouco mais do que meras sugestões, para garantir uma ligação
entre o objeto o organismo. Afinal de contas, o mais importante para que o processo seja
biologicamente eficaz é o objeto.

Vejo esta narrativa sem palavras como um relato do que está a transparecer, tanto na vida
como no cérebro, mas não ainda como a interpretação. É, sim, uma descrição espontânea dos
acontecimentos, o cérebro deleitando-se a responder a perguntas que ninguém lhe pôs.
Michael Gazzaniga aventou o conceito de «intérpre-te» como forma de explicar a origem da
consciência. Além disso, relacionou-o, de forma bastante lúcida, com mecanismos do
hemisfério esquerdo e com os processos de linguagem. Gosto muito da muito da ideia (de
facto, há nela um distinto toque de verdade), mas creio e apenas se aplica na íntegra ao nível
do eu autobiográfico, e não exatamente ao nível do eu nuclear,9

Nos cérebros dotados de memória, linguagem e raciocínio abundantes, as narrativas com esta
origem e contornos simples vêm a ser enriquecidas e permite-se-lhes que exibam ainda mais
conhecimento, produzindo assim um protagonista bem definido, um eu autobiográfico. Podem
ser acrescentadas inferências e produzidas interpretações sobre aquilo que se está a passar.
Mesmo assim (como veremos no capítulo seguinte), o eu autobiográfico apenas pode ser
instruído se primeiro houver um eu nuclear. O mecanismo do eu nuclear tal como acabou de
ser descrito, firmado no proto eu e nos seus sentimentos primordiais, é o mecanismo central
para a produção de mentes conscientes. Os dispositivos complexos necessários para ampliar o
processo até ao nível do eu autobiográfico dependem do Funcionamento normal do
mecanismo do eu nuclear.

256

Será que o mecanismo para ligar o eu e o objeto funciona apenas para objetos realmente
apreendidos e não para objetos recordados? Não é esse o caso. Dado que ao tomarmos
conhecimento de um objeto criamos registos não só da sua aparência mas também da nossa
interação com ele (os nossos movimentos dos olhos e da cabeça ou os movimentos da mão,
etc.), recordar um objeto abrange a recordação de um conjunto variado de interações
motoras. Tal como sucede no caso das interações motoras reais com um objeto, as interações
motoras, recordadas ou imaginárias, podem modificar instantaneamente o proto eu. Se esta
ideia estiver correta, isto explicaria por que motivo não perdemos a consciência quando
sonhamos acordados, de olhos fechados, numa sala silenciosa uma ideia muito reconfortante,
julgo eu.

Para concluir, a produção de pulsos do eu nuclear relativos a um grande número de objetos


que interagem com o organismo garante a produção de sentimentos relacionados com o
objeto. Por sua vez, esses sentimentos dão origem a um sólido processo do eu, que contribui
para a manutenção do estado de vigília. Os pulsos do eu nuclear também conferem graus de
valor às imagens do objeto causativo, concedendo-lhe assim maior ou menor destaque. Esta
diferenciação das imagens que vão fluindo organiza a paisagem mental, moldando-a em
relação às necessidades e objetivos do organismo.

O eu nuclear

Como poderá o cérebro implementar o estado do eu nuclear! A busca começa por nos levar a
processos razoavelmente locais, que envolvem um número limitado de regiões do cérebro, e
depois a processos de âmbito mais geral, que envolvem muitas regiões do cérebro em
simultâneo. Os passos relativos ao proto eu não são difíceis de conceber a nível neural. O
componente interoceptivo do proto eu

257

baseia-se no tronco cerebral superior e na ínsula; o componente das portadas sensoriais


baseia-se nos córtices somatossensoriais convencionais e nos campos oculares frontais.

O estatuto de alguns destes componentes tem de se alterar para que o eu nuclear surja. Vimos
que quando um objeto apreendido precipita uma reação emocional e altera os mapas
interoceptivos se segue uma modificação do proto eu, alterando-se assim os sentimentos
primordiais. De igual forma, os componentes da portada sensorial do proto eu alteram-se
quando um objeto atrai um sistema de perceção. Em consequência, as regiões envolvidas na
criação de imagens do corpo são inevitavelmente alteradas nas zonas do proto eu: tronco
cerebral, córtex insular e córtices somatossensoriais. Estes fenómenos variados dão origem a
microssequências de imagens que são introduzidas no processo mental; com isso quero dizer
que são introduzidas no espaço de trabalho imagético dos córtices sensoriais iniciais e de
regiões específicas do tronco cerebral, aquelas onde os estados de sentimento são criados e
modificados. As microssequências de imagens sucedem-se como pulsações, de forma irregular
mas segura, enquanto os fenómenos continuarem a decorrer e o nível mínimo de vigília se
mantiver.
Até este ponto, nos exemplos mais simples do estado de eu nuclear não haverá provavelmente
necessidade de um dispositivo de coordenação central, nem será de todo necessário um ecrã
único para exibir as imagens de que falo. As peças (as imagens) caem nos seus lugares (as
regiões de criação de imagens) e vão entrando no fluxo mental na altura e na ordem corretas.

Para que a construção do estado do eu se complete, o proto eu modificado terá, contudo, de


ser ligado às imagens do objeto causativo. Como poderá isso acontecer? E como se organiza o

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

258

[perspetiva I

Proto eu

Sentimentos primordiais modificados;

organismo geral modificado

(Tronco

cerebral)

(Ínsula)

(Portadas

sensoriais

coliculares e corticais)

Realce do objeto

Figura 8.4: Esquema dos mecanismos do eu nuclear. O estado do eu nuclear é um compósito


anatómico e funcional. Os principais resultados funcionais são os sentimentos de
conhecimento e o realce do objeto que desencadeou originalmente esses sentimentos. Outros
componentes importantes são a perspetiva, a sensação de posse e a sensação relativa à
capacidade de agir

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

259

aglomerado destes conjuntos díspares de imagens para constituir uma cena coerente, e
consequentemente um pulso declarado de eu nuclear?

É provável que a sincronização também desempenhe aqui algum papel, quando o objeto
causativo começa a ser processado e as alterações no proto eu começam a ocorrer. Estes
passos têm lugar numa grande proximidade temporal, sob a forma de uma sequência narrativa
imposta pelas ocorrências em tempo real. O primeiro nível de ligação entre o proto eu
modificado e o objeto surgiria naturalmente a partir da sequência temporal em que as
respetivas imagens são criadas e incorporadas no desfile da mente. Em resumo, o proto eu
precisa de estar em pleno funcionamento suficientemente desperto para produzir o
sentimento primordial de existência que nasce do seu diálogo com o corpo. Depois, o
processamento do objeto tem de modificar os vários aspetos do proto eu, e estes
acontecimentos têm de estar ligados entre si.

Haverá necessidade de dispositivos de coordenação que criem a narrativa coerente que define
o preto-eu? A resposta depende da complexidade da cena e do envolvimento ou não de
múltiplos objetos. Quando há efetivamente múltiplos objetos, e mesmo que a complexidade
nem sequer se aproxime do nível que observaremos no caso do eu autobiográfico, acredito
que precisemos de dispositivos coordenadores para alcançar a coerência. Existem bons
candidatos a esse papel, localizados ao nível subcortical.

O primeiro candidato é o colículo superior. A candidatura do modesto colículo superior irá


despertar sorrisos, ainda que as credenciais coordenadoras deste dispositivo não possam ser
postas em causa. Pelas razões apontadas no capítulo 3, as camadas profundas dos colículos
superiores adequam-se a este papel. Ao oferecer a possibilidade de fazer sobreposições de
imagens de diferentes aspetos dos mundos interno e externo, as camadas profundas dos
colículos são um modelo daquilo em que o cérebro criador da mente e criador do eu acabou
por se tornar. 10 No entanto, as limitações são óbvias.

260

Não podemos esperar que os colículos sejam os coordenadores principais das imagens
corticais quando se trata de cenas complexas.

O segundo candidato ao papel de coordenador é o tálamo, especificamente os núcleos


associativos do tálamo, cuja situação é ideal para estabelecer ligações funcionais entre pontos
separados de atividade cortical.

Uma viagem pelo cérebro durante a construção da consciência

Imaginemos o seguinte cenário: estou a observar pelicanos a darem o pequeno-almoço às


crias. Sobrevoam graciosamente o oceano, por vezes mesmo junto à superfície, outras vezes
mais alto. Quando avistam um peixe picam subitamente na direção da superfície das águas, os
bicos parecidos com o Concorde em posição de aterragem, as asas puxadas para trás numa
bonita configuração em delta. Desaparecem na água e emergem, um segundo depois,
triunfantes, com um peixe.

Os meus olhos atarefam-se a seguir os pelicanos; à medida que eles se deslocam, mais perto
ou mais afastados, os cristalinos dos meus olhos modificam a distância focal, as pupilas
adaptam-se à variação da luz e os músculos oculares trabalham a grande velocidade para
seguir os movimentos rápidos das aves; o meu pescoço ajuda, com ajustamentos adequados, e
a minha curiosidade e interesse são recompensados em absoluto com a observação de um
ritual deveras notável; estou a apreciar o espetáculo.

Como consequência de toda esta azáfama da vida real e de toda esta azáfama cerebral, os
sinais vão chegando aos meus córtices visuais, sinais recém-criados pelos mapas das retinas
que representam os pelicanos e definem a sua aparência enquanto objeto a ser conhecido.
Está a ser criada uma profusão de imagens em movimento. Em paralelo, são também
processados sinais numa série de regiões

261

cerebrais: nos campos oculares frontais (área 8, ligada aos movimentos dos olhos mas não às
imagens visuais em si mesmas); nos córtices somatossensoriais laterais (que representam a
atividade muscular da cabeça, pescoço e rosto); nas estruturas relacionadas com a emoção, no
tronco cerebral, no prosencéfalo basal, nos gânglios da base e nos córtices insulares (cuja
atividade completa os meus sentimentos de prazer em relação à cena); nos colículos
superiores (cujos mapas estão a receber informação acerca da cena visual, dos movimentos
dos olhos e do estado do corpo); e nos núcleos associativos do tálamo ativados por todo o
tráfego de sinais nas regiões do córtex e do tronco cerebral.

E qual é o resultado de todas estas alterações? Todos estes mapas estão a registar uma
perturbação. Uma modificação do sentimento primordial do proto eu que agora dá lugar a
sentimentos diferenciais do conhecimento relativo aos objetos em causa. Em consequência, os
recentes mapas visuais do objeto a ser conhecido (o bando de pelicanos no ritual de
alimentação) tornam-se mais salientes do que outros objetos que estão a ser processados de
forma não consciente na minha mente. Esses outros objetos podem competir para um
tratamento consciente, mas não conseguem atingir o seu objetivo porque, devido a várias
razões, os pelicanos são tão interessantes para mim, que são de facto valiosos. Os núcleos de
recompensa em zonas como a área do tegmento ventral do tronco cerebral, o núcleo
accumbens e os gânglios da base conseguem o tratamento especial das imagens dos pelicanos
libertando seletivamente neuromoduladores nas zonas de criação de imagens. Desta sensação
de conhecimento provém uma sensação de posse das imagens, bem como uma sensação de
capacidade de ação. Ao mesmo tempo, as alterações das portadas sensoriais colocam o objeto
a ser conhecido numa perspetiva bem definida em relação ao meu corpo, a mim.11

Deste mapa cerebral de escala global emergem, como se pulsações fossem, estados de eu
nuclear. Mas de repente o telefone toca e quebra-se o encanto. A minha cabeça e os meus
olhos deslocam-se

262

de forma relutante mas inexorável para o aparelho. Atendo. E o ciclo de criação da mente
consciente começa de novo, desta vez concentrado no telefone. Os pelicanos desapareceram-
me da vista e da mente; o telefone entrou.

CAPITULO 9

O eu autobiográfico

Dar consciência à memória

As autobiografias são compostas por recordações pessoais, a totalidade das nossas


experiências, incluindo as experiências dos planos que fizemos para o futuro, sejam eles
precisos ou vagos. O eu autobiográfico é uma autobiografia feita consciente. Faz uso de toda a
história que memorizámos, tanto recente como remota. Estão incluídas nessa história as
experiências sociais das quais fizemos parte, ou das quais gostaríamos de ter feito parte, bem
como as recordações que descrevem as nossas mais refinadas experiências emocionais,
nomeadamente as que possam ser classificadas de espirituais.

Enquanto o eu nuclear vai emitindo com firmeza a sua pulsação, sempre «on-line », seja num
modo discreto ou com manifesta exuberância, o eu autobiográfico leva uma vida dupla. Por
um lado, pode apresentar-se explicitamente, compondo a mente consciente na sua forma
mais grandiosa e humana; por outro, pode ficar latente,

264

com os seus inúmeros componentes à espera de vez para se tornarem ativos. Essa outra vida
do eu autobiográfico desenrola-se nos bastidores, longe da consciência acessível, e é
provavelmente aí que o eu amadurece, graças à sedimentação gradual e à reformulação da
nossa memória. À medida que as experiências vividas são reconstruídas e reapresentadas,
quer numa reflexão consciente, quer num processamento não consciente, a sua essência é
reavaliada e inevitavelmente reagrupada, modificada ao de leve ou em profundidade, no que
respeita à sua composição factual e ao acompanhamento emocional. Durante este processo,
as entidades e os acontecimentos adquirem um novo peso emocional. Algumas das imagens
da recordação ficam pelo caminho na mente, outras são recuperadas e realçadas, outras ainda
são combinadas de forma tão habilidosa, quer pelos nossos desejos, quer pelos caprichos do
acaso, que acabam por criar cenas novas que nunca realmente existiram. É assim que, à
medida que os anos vão passando, a nossa história pessoal é subtilmente reescrita. É por isso
que os factos podem adquirir um significado novo e que a música da memória soa hoje
diferente do que há um ano.

Em termos neurológicos, esta tarefa de construção e reconstrução tem lugar em grande


medida no processamento não consciente e, tanto quanto nos é dado a saber, pode mesmo
ocorrer durante os sonhos, embora por vezes possa surgir na consciência. Serve-se da
arquitetura de convergência-divergência para transformar material codificado, contido no
espaço disposicional, em imagens explícitas, no espaço imagético.

Felizmente, dada a abundância de registos da nossa vida passada e do futuro antecipado, não
precisamos de os recordar a rodos, nem mesmo a maioria, sempre que o nosso eu trabalha em
modo autobiográfico. Nem sequer Proust teria precisado de evocar todo o seu passado
distante e rico de pormenores para criar um momento proustiano genuíno e amadurecido.
Afortunadamente, baseamo-nos em episódios-chave da nossa vida, ou melhor, num conjunto
deles, e, dependendo das necessidades do momento, limitamo-nos a recordar

265

um determinado número de cenas e trazê-las para o episódio presente. É claro que em certas
ocasiões esse número de episódios recordados pode ser muito elevado, uma verdadeira
corrente de recordações repletas de emoções e sentimentos que foram vividos originalmente.
Podemos sempre contar com Bach para desencadear tal situação. Todavia, mesmo quando o
número de episódios é limitado, a complexidade das memórias envolvidas na estruturação do
eu é sempre muito grande. É aí que reside o problema da construção do eu auto biográfico.

Construir o eu autobiográfico

Suspeito que a estratégia do cérebro para a construção do eu autobiográfico seja a seguinte.


Em primeiro lugar serão agrupados conjuntos substanciais de recordações biográficas
características, para que cada um possa ser tratado prontamente como um objeto individual.
Cada um desses objetos pode modificar o proto eu e produzir a sua pulsação de eu nuclear,
com os respetivas sentimentos de conhecimento e o consequente realce de objeto que se
segue. Em segundo lugar, como os objetos nas nossas biografias são tão numerosos, o cérebro
precisa de dispositivos capazes de coordenar a evocação de memórias, apresentá-las ao proto
eu para a devida interação e manter os resultados dessa interação num padrão coerente
ligado aos objetos causativos. Não se trata de um problema banal. Com efeito, os níveis
complexos de eu autobiográfico aqueles que, por exemplo, incluem aspetos sociais englobam
tantos objetos biográficos que exigem numerosos pulsos de eu nuclear. Em consequência, a
edificação do eu autobiográfico requer um aparelho neural capaz de obter múltiplos pulsos do
eu nuclear, numa abertura temporal limitada, para um número substancial de componentes.
Esse aparelho tem ainda de manter os resultados de todo este processo temporariamente.

266

De um ponto de vista neural, o processo de coordenação é especialmente complicado pelo


facto de as imagens que constituem uma autobiografia serem em grande medida
implementadas nos espaços imagéticos do córtex cerebral, baseadas na recordação
orquestrada a partir de córtices disposicionais. Para poderem ser tornadas conscientes, essas
mesmas imagens têm, no entanto, de interagir com o mecanismo do proto eu, o qual, como já
vimos, se situa, em grande parte, ao nível do tronco cerebral. A construção de um eu
autobiográfico exige mecanismos de coordenação muito complexos, algo que a construção do
eu nuclear, de um modo geral, dispensa.

À maneira de hipótese de trabalho, podemos então dizer que a construção do eu


autobiográfico depende de dois mecanismos combinados. O primeiro está subordinado ao
mecanismo do eu nuclear e garante que cada conjunto de memórias biográficas seja tratado
como um objeto e tornado consciente num pulso do eu nuclear. O segundo leva a cabo uma
operação de coordenação à escala cerebral que inclui os seguintes passos: 1) certos conteúdos
são evocados a partir da memória e exibidos como imagens; 2) permite-se às imagens que
interajam de forma ordeira com outro sistema algures no cérebro, nomeadamente o proto eu;
e 3) os resultados dessa interação são mantidos de forma coerente durante um breve período
de tempo.

Nas estruturas envolvidas na construção do eu autobiográfico incluem-se todas as necessárias


ao eu nuclear, no tronco cerebral, no tálamo e no córtex cerebral, e também as estruturas
ligadas aos mecanismos de coordenação abordados a seguir.

O problema da coordenação

Antes de me alongar mais sobre a coordenação gostaria de garantir que a minha ideia não seja
mal interpretada. Os dispositivos coordenadores que postulo não são teatros cartesianos (não
há ne-

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

267

a) As memórias passadas, individualmente ou em grupo, são recuperadas e tratadas como


objetos singulares (objetos biográficos);
b) os objetos são entregues ao proto eu;

c) são criados pulsos de eu nuclear;

d) os pulsos de eu nuclear são mantidos momentaneamente num padrão coerente

Mecanismo Mecanismo

coordenador do eu nuclear

Figura 9.1: O eu autobiográfico: mecanismos neurais

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

les uma peça a ser representada). Não são centros de consciência. (Não existe tal coisa.) Não
são homúnculos interpretadores. (Não sabem nada, nem interpretam nada.) São exatamente
aquilo que descrevo na minha hipótese e nada mais. São organizadores espontâneos de um
processo. Os resultados da operação não se mate-

268

rializam nos dispositivos coordenadores, mas sim noutro local, mais especificamente nas
estruturas do cérebro criadoras de imagens e edificadoras da mente, situadas tanto no córtex
cerebral como no tronco cerebral.

A coordenação não é dirigida por um agente misterioso exterior ao cérebro, mas sim por
fatores naturais, como sejam a ordem de introdução no processo mental de conteúdos
representados em imagens e o valor atribuído a esses conteúdos. Como se obtém essa
valorização? Qualquer imagem ao ser processada pelo cérebro é automaticamente avaliada e
marcada com determinado valor, num processo baseado nas disposições originais do cérebro
(o seu sistema de valor biológico), bem como nas disposições adquiridas ao longo da
aprendizagem de toda uma vida. A marca distintiva é acrescentada durante a perceção original
e registada a par da imagem, mas também é recuperada durante cada recordação. Resumindo,
confrontados com certas sequências de acontecimentos e uma abundância de conhecimento
passado que está marcado pelo valor, os dispositivos coordenadores do cérebro apoiam a
organização do conteúdo atual. Além disso, os dispositivos coordenadores levam as imagens
ao sistema do proto eu e finalmente mantêm os resultados da interação (pulsos do eu nuclear)
num padrão coerente transitório.

Os coordenadores

Segundo a hipótese de trabalho aqui apresentada, a primeira fase da implementação do eu


autobiográfico neural requer estruturas e mecanismos já referidos no eu nuclear. No entanto,
há algo de específico quanto às estruturas e aos mecanismos necessários para

269

Figura 9.2: A tarefa de coordenação das várias imagens criadas pela perceção em curso e pela
recordação é apoiada pelas regiões de convergência divergência (COR), situadas nos córtices
associativos não-mapeadores. A localização aproximada das principais COR é sugerida no
diagrama (sombreado mais escuro): os córtices temporais polar e medial, os córtices pré-
frontais mediais, as junções temporoparietais e os córtices póstero-mediais (PMC). É bem
provável que existam outras regiões comparáveis. Ver capítulo 6 e as figuras 6.1 e 6.2 quanto à
arquitetura destas regiões. Sobre pormenores das conexões dos PMC, ver a figura 9.4

a implementação da segunda fase do processo, nomeadamente a coordenação à escala


cerebral. Quais os candidatos para este sistema de coordenação em grande escala? Há várias
estruturas possíveis, mas apenas algumas podem ser tidas seriamente em consideração. Um
candidato importante é o tálamo, uma presença constante em qualquer discussão acerca da
base neural da consciência, mais especificamente o seu conjunto de núcleos associativos. A
posição intermédia dos núcleos talâmicos,

270

entre o córtex cerebral e o tronco cerebral, é ideal para a gestão e a coordenação dos sinais.,
Se bem que o tálamo associativo já esteja suficientemente ocupado a criar o pano de fundo de
qualquer imagem, desempenha um papel muito importante, embora não sendo talvez o
principal, no que respeita à coordenação do conteúdo que define o eu autobiográfico. Direi
mais acerca do tálamo e da coordenação no próximo capítulo.

Quem são os outros candidatos potenciais? Um concorrente forte é um aglomerado de regiões


em ambos os hemisférios cerebrais que se distingue pela sua arquitetura relaciona]. Cada
região é um nó macroscópico situado numa encruzilhada principal de sinalização convergente
e divergente. Já as descrevi no capítulo 6 como sendo as regiões de convergência divergência,
ou CDR, e indiquei que são compostas por numerosas zonas de convergência divergência, As
CD R estão situadas estrategicamente nos córtices associativos de alta ordem, mas não nos
córtices sensoriais onde se criam imagens. Surgem em locais como a junção temporal parietal,
os córtices temporais laterais e medianos, os córtices parietais laterais, os córtices frontais
laterais e medianos, e os córtices póstero mediais. Estas CDR mantêm registos de
conhecimento anteriormente adquirido relacionado com os mais diversos temas. A ativação
de qualquer destas regiões promove a reconstrução, através da divergência e da retroativação
em zonas de criação de imagens, de vários aspetos do conhecimento passado, entre eles os
relacionados com a biografia, bem como os que descrevem conhecimento genético, não
pessoal

É concebível que as principais CDR possam ser ainda integradas por conexões córtico corticais
de longo alcance do tipo originalmente identificado por Jules Déjérine há mais de um século,
Tais conexões viriam a introduzir mais um nível de coordenação interárea.

271

Uma das principais CDR, os córtices postero mediais (PMC), parece apresentar uma hierarquia
funcional mais elevada em relação às outras e exibe várias características anatómicas e
funcionais que a distingue das restantes. Há uma década sugeri que a região PMC estaria
ligada ao processo do eu, embora não no papel que agora lhe atribuo. Os indícios obtidos nos
últimos anos sugerem que a região PMC está na verdade ligada à consciência, mais
especificamente aos processos relacionados com o eu, e trouxeram novas informações quanto
à neuroanatomia e a fisiologia da região. (Esses dados são analisados na última secção deste
capítulo.)

O derradeiro candidato coordenador é uma incógnita, uma estrutura misteriosa conhecida


como claustro, um parente próximo das CDR. O claustro, situado entre o córtex insular e os
gânglios basais de cada hemisfério, possui conexões corticais que poderão potencialmente
desempenhar um papel coordenador. Francis Crick estava convencido de que o claustro era
uma espécie de diretor de operações sensoriais, encarregue de unir os componentes dispares
de uma perceção multissensorial. Os dados da neuroanatomia experimental revelam, com
efeito, conexões com varias regiões sensoriais, tornando assim o papel de coordenação muito
plausível. De forma curiosa, o claustro tem uma projeção sólida para uma importante CDR que
referi anteriormente, os PMC. A descoberta desta projeção só ocorreu após a morte de Crick,
não tendo por isso sido incluída no artigo publicado postumamente (com Christof Koch), onde
expõe os seus argumentos.1

O problema com a candidatura do claustro ao papel de coordenador reside na sua pequena


escala, se considerarmos a tarefa que é necessário levar a cabo. Por outro lado, como não será
de esperar que alguma das estruturas analisadas anteriormente desempenhe o cargo de
coordenação por si própria, não há motivo para que o claustro não dê um contributo relevante
para a construção do eu autobiográfico.

272

Um possível papel para os córtices póstero-mediais

Precisamos de investigações adicionais para determinar o papel específico desempenhado


pelos PMC na edificação da consciência. Mais adiante neste capítulo analiso dados de várias
fontes: pesquisa sobre anestesia, sobre o sono, sobre problemas neurológicos (desde os
estados de coma e vegetativos à doença de Alzheimer) e estudos de imagiologia neural
funcional dos processos relacionados com o eu. Em primeiro lugar, no entanto, vamos olhar
para os dados dos PMC que parecem mais sólidos e interpretáveis dados da neuroanatomia
experimental. Irei especular quanto ao funcionamento possível dos PMC e explicar a razão por
que merecem ser investigados.

Quando propus que os PMC desempenhariam um papel na criação de subjetividade, existiam


duas correntes de pensamento por trás dessa ideia. Uma corrente dizia respeito ao
comportamento e presumível estatuto mental dos pacientes neurológicos com lesões focais
nesta região, onde se incluem as lesões provocadas pela doença de Alzheimer em estado
avançado, bem como por acidentes vasculares extremamente raros e metástases cerebrais de
cancro. A outra corrente relacionava-se com a busca teórica de uma região cerebral
fisiologicamente adequada à reunião da informação sobre o organismo e sobre os objetos e
acontecimentos com os quais o organismo interage. A região dos PMC foi um dos candidatos
que apresentei, uma vez que parecia estar situada num cruzamento de trajetos associados à
informação do interior visceral (interoceptiva), do sistema músculo esquelético (proprioceptiva
e cinestésica) e do mundo exterior (exterocetiva). Não ponho em causa os factos em que me
baseei, mas já não vejo necessidade para o papel funcional que propus. Mesmo assim, a
hipótese conduziu a investigações que produziram informação nova e importante.

273

Avançar com a hipótese não foi fácil, sendo o problema principaI o facto de a informação
neuroanatómica disponível sobre esta região ser muito limitada. Alguns estudos preciosos
tinham começado a esboçar as conexões de partes dos PMC,2 mas o diagrama geral das
conexões da região não fora investigado. Na verdade, a região nem sequer era conhecida por
um termo global, mas sim pelos nomes das suas partes componentes, nomeadamente o córtex
cingulado posterior, o córtex retrosplenial e o precuneus. Sem margem para dúvida, os PMC,
seja qual for a denominação, ainda não se encontravam no radar das zonas cerebrais
relevantes.

Para explorar a hipótese de os PMC estarem ligados à consciência eram necessários


conhecimentos até então não disponíveis sobre a neuroanatomia das suas conexões. Por esse
motivo, o nosso grupo de pesquisa levou a cabo um estudo neuroanatómico experimental em
primatas não humanos. As experiências foram feitas no laboratório de Josef Parvizi, em
colaboração com Gary Van Hoesen. Basicamente, o estudo consistia na injeção, em macacos
experimentais, de numerosos marcadores biológicos em todos os territórios cuja possibilidade
de ligação neural precisávamos de investigar. Uma vez injetados numa determinada região
cerebral, os marcadores biológicos são absorvidos por neurónios individuais e transportados
ao longo dos axónios até ao seu destino natural, onde quer que os neurónios estejam
conectados. Trata-se aqui de marcadores anterógrados. Outro tipo de marcador biológico, o
retrógrado, é assimilado pelos terminais dos axónios e transportado pelo caminho inverso, do
local onde se encontrem os terminais para o corpo dos neurónios, o seu ponto de origem.
Estas viagens dos marcadores dão a possibilidade de cartografar, em cada região-alvo, os
pontos de origem das conexões que a região recebe, bem como os locais para onde a região
envia as suas conexões.

Os PMC são compostos por várias sub-regiões. (No mapa citoarquitetónico de Brodmann
correspondem às áreas 23a/b, 29, 30,31 e 7m.) A interconexão destas sub-regiões é tão coesa
e com-

274

Figura 9.3: A localização dos córtices póstero-mediais no cérebro humano

plexa que será lícito, até certo nível, tratá-las como unidade funcional. Contudo, certas
afinidades conectivas distintas nos subsectores abrem a possibilidade de alguns desses
subsectores poderem ter papéis funcionais distintos a desempenhar. O termo global que
cunhámos para o conjunto parece justificar-se, pelo menos por enquanto.

O padrão das conexões dos PMC, tal como apresentado na primeira publicação com origem
nestas laboriosas investigações,3 encontra-se resumido na figura 9.4. Pode ser descrito da
seguinte forma:

1. As informações oriundas dos córtices associativos parietal e temporal, dos córtices


entorrinais e dos córtices frontais convergem nos PM C, tal como acontece com as
informações provenientes do córtex cingulado anterior (um dos principais recipientes

275

de projecções da Insula), do claustro, do prosencéfalo basal, da amígdala, da região pré


motora e dos campos de visão frontais. Os núcleos talâmicos, tanto intralaminares como
dorsais, também transmitem para os PMC.

Com poucas exceções, os locais que originam conexões convergentes para os PMC também
recebem respostas divergen-

--275-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
cingulado anterior

córtex associativo parietal

pólo frontal córtex entorrinal

córtex associativo temporal

protuberâncial /cerebelo

tálamo (dorsal/intralaminar)

Figura 9.4: O padrão de conexões neurais para e dos córtices póstero-mediais

(PMC), tal como ficou definido num estudo conduzido em macacos. Abreviaturas:

d/pfc = córtex pré-frontal dorsolateral, fef = campos de visão frontais: vmptc =

córtex pré-frontal ventrornedial: bf = prosencéfalo basal: c/aus = claustro: acc =

núcleo accumbens: amy = amígdala, pag = substância cinzenta periaquedutal.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

276

tes vindas deles, havendo como exceções parciais o córtex pré-frontal ventromedial, o claustro
e o núcleo intralaminar do tálamo. Alguns locais que não efetuam projeções para os PMC
recebem projeções destes, nomeadamente o núcleo caudado e putâmen, o núcleo accumbens
e a substância cinzenta periaquedutal.

3. Não existem ligações dos nem para os PMC relativas aos córtices sensoriais iniciais, ou aos
córtices motores primários.

4.os PMC são uma região importante de convergência e divergência, são sócios destacados do
clube das CDR. Os PMC são bons candidatos à coordenação do conteúdo da mente consciente,
e estão também ligados a outro coordenador potencial, o claustro.

Um estudo recente levado a cabo em seres humanos veio reforçar a ideia de que os PMC são
neuroanatomicamente distintos.4 O estudo, que foi dirigido por Olaf Sporns, serviu-se de uma
moderna técnica de imagiologia por ressonância magnética, a imagiologia de difusão, que
produz imagens das conexões neurais e da sua distribuição espacial aproximada. Os autores
usaram os dados da imagiologia para criar mapas das conexões por todo o córtex cerebral
humano. Identificaram vários centros de conexão no córtex cerebral, alguns dos quais
correspondem às CDR que tenho vindo a analisar. Também concluíram que a região dos PMC
constitui um centro único, estando mais fortemente inter-relacionada com outros centros do
que qualquer uma das outras.

277

Os córtices póstero-mediais em ação


Encontramo-nos agora em melhor posição para imaginar a forma como os PMC poderão
contribuir para a mente consciente. Embora se trate de uma porção considerável de córtex
cerebral, o poder dos PMC não reside nas suas possessões territoriais, mas na companhia de
que dispõem. Os PMC recebem sinais da maioria das regiões de associação sensorial de alta
ordem e das regiões pré-motoras, e retribuem em grande medida esses favores. As áreas
cerebrais ricas em zonas de convergência-divergência, detentoras da chave para os compósitos
de informação multimodal, são assim capazes de transmitir sinais aos PMC e, de uma forma
geral, podem receber sinais em troca. Os PMC também recebem sinais dos núcleos
subcorticais envolvidos no estado de vigília e, em troca, enviam sinais a uma série de regiões
subcorticais relacionadas com a atenção e a recompensa (no tronco cerebral e no prosencéfalo
basal), bem como a regiões capazes de produzir rotinas motoras (como os gânglios basais e a
substância cinzenta periaquedutal).

Quais são os temas dos sinais que os PMC recebem e o que fazem os PM C com esses sinais?
Não sabemos ao certo, mas a enorme desproporção entre a profusão e a intensidade das
projeções para os PMC e o relativamente pequeno território aonde chegam sugerem uma
resposta. Os PMC são na sua maioria córtices da velha guarda, territórios que imaginamos
como armazenadores de disposições e não de mapas explícitos. Os PMC não são córtices
sensoriais iniciais modernos como os da visão ou da audição, onde é possível formar mapas
pormenorizados de coisas e de acontecimentos. Digamos que não há espaço de parede
suficiente na galeria dos PMC para expor grandes quadros, nem mesmo para apresentar um
espetáculo de marionetas. Mas isso não constitui problema, pois os córtices que transmitem
sinais aos PMC também não são como os córtices sensoriais iniciais; à semelhança dos PMC,
também não são capazes de expor grandes quadros, nem de apresentar espetáculos; também
eles

278

são em grande medida disposicionais, armazenadores de informação registada na zona de


convergência divergência.

Dada a conceção acima apresentada, os PMC enquanto todo e os seus submódulos irão
provavelmente comportar-se eles próprios como regiões de convergência divergência. Imagino
que a informação registada pelos PMC, bem como pelos seus parceiros, apenas possa ser
reproduzida através de sinais intermediários processados por outras CD R, as quais, por sua
vez, podem transmitir sinais para os córtices sensoriais iniciais. Esses são os córtices onde as
imagens podem ser reconstruídas e exibidas ou seja, onde podem ser expostos grandes
quadros e ser apresentados espetáculos. Relativamente às outras regiões de convergência
divergência que têm interligações com eles, os PMC apresentam uma posição hierárquica
especial. A região dos PMC está mais elevada no totem, dispondo de capacidade de sinalização
interativa com as outras CDR.

Como é, então, que os PMC apoiam a consciência? Eis a resposta: contribuindo para a
montagem dos estados do eu autobiográfico. Atividades sensoriais e motoras separadas,
relacionadas com a experiência pessoal, teriam sido originalmente mapeadas nas regiões
cerebrais apropriadas, tanto a nível cortical como subcortical, sendo os dados registados em
zonas de convergência divergência (CDZ) e em regiões de convergência divergência. Por sua
vez, os PMC criariam um registo numa CDR mais elevada, interligada às outras CDR. A
combinação permitiria que a atividade nos PMC acedesse a maiores conjuntos de dados
maiores e com uma distribuição mais vasta, mas com a vantagem de o comando de acesso
provir de um território relativamente pequeno e, por isso mesmo, de mais fácil gestão
espacial. Os PMC poderiam apoiar o estabelecimento de apresentações de conhecimento
coerentes, momentâneas e temporárias.

Se o padrão das conexões neuroanatómicas dos PMC é digno de nota, não o é menos a sua
localização anatómica. Os PMC situam-se perto da linha média, com o esquerdo a olhar para o
di-

279

reito, do outro lado da fissura inter-hemisférica. Esta posição geográfica no volume cerebral é
conveniente tanto para a conexão convergente como para a divergente em relação à maioria
das regiões do manto cortical, e ideal para receber sinais do tálamo e retribui-Ios.
Curiosamente, esta localização também garante proteção contra impactos externos e, uma vez
que são abastecidos por três vasos sanguíneos importantes e separados, os PMC tornam-se
até certo ponto imunes ao tipo de danos vasculares ou traumas que os poderiam destruir por
completo.

Como já tenho salientado, as estruturas relacionadas com a consciência partilham várias


características anatómicas. Em primeiro lugar, tanto ao nível subcortical como cortical, elas
tendem para as zonas mais antigas na história da evolução biológica. Isso não deverá
surpreender, visto que o início da consciência ocorreu numa fase tardia da evolução biológica
mas não foi de todo um desenvolvimento evolutivo recente. Em segundo lugar, quer as
estruturas corticais, quer as subcorticais tendem a situar-se na linha média ou perto desta, e,
tal como os PMC, gostam de olhar para a sua irmã gémea do outro lado dessa linha média é o
caso dos núcleos talâmicos e hipotalâmicos, bem como dos núcleos do tronco cerebral. A
idade evolutiva e a conveniência da localização em relação à distribuição global dos sinais
encontram-se aqui estreitamente correlacionadas.

Os PMC iriam funcionar como parceiros da rede de CDR corticais. Todavia, o papel das outras
CDR e a importância do sistema do proto eu são de tal forma determinantes que, na sequência
da destruição hipotética de toda a região PMC, a consciência será provavelmente afetada, mas
não eliminada, desde que as restantes CDR e o sistema do proto eu permaneçam intactos. A
consciência seria restaurada, embora não no seu auge. A situação da fase avançada da doença
de Alzheimer, que descrevo na secção seguinte, é diferente, no sentido de que o ataque aos
PMC é o golpe final num processo de destruição gradual que já eliminou outras CDR e o
sistema do proto eu.

280

Outras considerações sobre os córtices póstero-mediais

PESQUISA SOBRE ANESTESIA

Em alguns aspetos, a anestesia geral é o meio ideal para investigar a neurobiologia da


consciência. É um dos mais espantosos avanços da medicina e já salvou a vida de milhões de
pessoas que de outra forma não poderiam ter sido submetidas a uma intervenção cirúrgica.
Muitas vezes pensamos na anestesia geral como um analgésico, já que os seus efeitos
impedem a dor que as incisões cirúrgicas iriam causar, mas a verdade é que a anestesia
impede a dor da forma mais radical possível: suspende a consciência, não apenas a dor, mas
todos os aspetos da mente consciente.
Os níveis superficiais da anestesia reduzem ao de leve a consciência, deixando espaço para
alguma aprendizagem inconsciente e um retorno ocasional da consciência. Os níveis profundos
da anestesia penetram bem fundo no processo consciente e são, para todos os efeitos,
variações farmacologicamente controladas do estado vegetativo, ou mesmo do coma. É disso
que o cirurgião necessita, para poder trabalhar em paz. É preciso que estejamos longe, muito
longe de tudo, tão profundamente adormecidos que o tónus muscular ganha a consistência da
gelatina e ficamos incapazes de nos mover. Não vai ouvir nada, não vai sentir nada, nem vai
pensar em nada. Quando o cirurgião falar consigo, não irá responder.

A história da anestesia tem dado numerosos agentes farmacológicos aos cirurgiões, e a


procura das moléculas capazes de garantir os melhores resultados com riscos mínimos e pouca
toxicidade continua. De um modo geral, os anestésicos fazem o seu trabalho aumentando a
inibição nos circuitos neurais. Isto pode conseguir-se reforçando a ação do GABA (ácido gama-
-aminobutírico), o principal transmissor inibitório do cérebro. Os anestésicos funcionam
hiperpolarizando os neurónios e bloqueando a acetilcolina, uma importante molécula na
comunica-

281

çâo entre neurónios. Era comum pensar-se que os agentes anestésicos agiam diminuindo a
função cerebral de um modo global, reduzindo a atividade dos neurónios um pouco por toda a
parte. Contudo, estudos recentes têm vindo a mostrar que certos anestésicos funcionam de
forma seletiva, exercendo a sua ação em zonas cerebrais específicas. Um exemplo é o
propofol. Tal como estudos de neuroimagiologia funcional mostram, executa o seu esplêndido
trabalho atuando principalmente em três locais: os córtices póstero-mediais; o tálamo; e o
tegmento do tronco cerebral. Embora se desconheça a importância relativa de cada zona na
produção da inconsciência, a redução no nível de consciência está correlacionado com a
redução do fluxo sanguíneo regional nos córtices póstero-mediais.5 Todavia, os indícios vão
bem além do propofol. Outros agentes anestésicos parecem ter efeitos comparáveis. Três
territórios cerebrais paramedianos essenciais à construção da consciência são inibidos
selectivamente tal como na anestesia com propofol.

PESQUISA SOBRE O SONO

O sono é uma situação natural para o estudo da consciência, e os estudos do sono foram dos
primeiros a contribuir para a compreensão do problema. Foi já comprovado que os ritmos
electroencefalográficos, os padrões distintos da atividade elétrica gerada pelo cérebro, se
encontram associados a fases específicas do sono. É marcadamente difícil ligar a origem dos
padrões electroencefalográficos a regiões específicas do cérebro, e é aí que a localização
espacial das técnicas da neuroimagiologia funcional se torna útil para completar o quadro.
Usando técnicas de imagiologia foi possível, ao longo da última década, observar mais de perto
regiões específicas do cérebro durante as várias fases do sono.

Por exemplo, a consciência está profundamente reduzida durante o sono lento, também
conhecido como sono de movimento não-rápido dos olhos, ou N-REM. Trata-se do sono pro-

282

fundo dos justos, o sono de onde apenas acordamos com o injusto toque do despertador. É o
«sono sem sonhos», embora a completa ausência de sonhos pareça aplicar-se apenas à
primeira parte da noite. Os estudos com neuroimagiologia funcional mostram que, no sono
lento, a atividade reduz-se numa série de regiões cerebrais, de forma mais relevante em partes
do tegmento do tronco cerebral (na protuberância e no mesencéfalo), no diencéfalo (tálamo e
hipotálamo/prosencéfalo basal), partes medial e lateral do córtex pré-frontal, córtex cingulado
anterior, córtex parietal lateral e nos PMC. O padrão de redução funcional no sono lento é
menos seletivo do que na anestesia geral (não há motivo para que o padrão seja o mesmo)
mas, tal como na anestesia, não sugere uma diminuição global da função. Contudo, o padrão
inclui os três intervenientes na criação da consciência - tronco cerebral, tálamo e PMC e
mostra que os três são inibidos.

A consciência é também reduzida durante o sono de movimento rápido dos olhos (REM),
durante a qual os sonhos são mais frequentes. Todavia, o sono REM permite que o conteúdo
dos sonhos entre na consciência, quer através da aprendizagem e subsequente recordação,
quer através da chamada «consciência paradoxal». As regiões cerebrais com decréscimo mais
acentuado de atividade durante o REM são o córtex pré-frontal dorsolateral e o córtex parietal
lateral; como seria de prever, a redução de atividade dos PMC é muito menos acentuada.6

Em resumo, o nível de atividade dos PM C é mais elevado durante o estado de vigília e menos
elevado durante o sono de ondas lentas. Durante o sono REM, os PMC funcionam em níveis
intermédios. Isso faz um certo sentido. A consciência é em grande medida suspensa durante o
sono lento; no sono lento há coisas que acontecem a um «eu». É claro que o eu onírico não é o
eu normal, mas o estado cerebral que o acompanha parece arregimentar os PMC.

283

ENVOLVIMENTO DOS PMC NO «DEFAULT NETWORK»

Numa série de estudos de imagiologia funcional em que se usou quer tomografia por emissão
de positrões, quer ressonância magnética funcional, Marcus Raichle chamou a atenção para o
facto de que quando os sujeitos se encontram em repouso, sem estarem empenhados numa
tarefa que exija uma atenção concentrada, um subconjunto seletivo de regiões cerebrais surge
consistentemente ativo; quando a atenção é dirigida para uma tarefa específica, a atividade
destas regiões diminui ligeiramente, mas nunca até ao nível registado com a anestesia, por
exemplo? No subconjunto de regiões incluem-se o córtex pré-frontal medial: a junção temporo
-parietal, estruturas dos córtices temporal medial e anterior; e os PMC todas elas regiões que
sabemos agora estarem profundamente interligadas. A maior parte da atenção concedida aos
PMC tem origem na sua filiação neste clube de regiões.

--283-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Recordação da memória autobiográfica

Antecipação do futuro

Juízos morais

Figura 9.5: Os PMC, a par de outras COR, são ativados principalmente para uma série de
tarefas de imagiologia funcional que requerem atenção dirigida para o próprio. Estas tarefas
incluem a evocação de recordações autobiográficas, a antecipação de eventos futuros e a
formulação de juízos morais

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
284

Raichle sugeriu que a atividade desta rede representa um modo de funcionamento por
«default », um estado de relativo repouso que é perturbado pelas tarefas que exigem uma
atenção dirigida para o exterior. Em tarefas exigindo uma atenção dirigida para o interior e
dirigida para o próprio, como na recuperação de informações autobiográficas e em certos
estados emocionais, o nosso grupo e outros grupos temos demonstrado que a redução da
atividade nos PMC é menos acentuada ou nem surge de todo. Com efeito, em tais condições
poderá mesmo verificar-se um aumente,8 Como exemplos temos a evocação de recordações
autobiográficas, a evocação de planos feitos para um futuro possível, uma série de tarefas que
envolvem teoria mental, e um grande número de tarefas que exigem a avaliação de pessoas
ou situações num plano moral. Em todas estas tarefas verifica-se a tendência para outra zona
de atividade importante, embora não tão vasta: outro território mediano, situado numa
posição anterior no córtex pré-frontal. Sabemos que neuroanatomicamente se trata também
de uma região de convergência-divergência.

Raichle salientou o aspeto intrínseco do modo de funcionamento por «default» e relacionou-o,


de forma sensata, com o consumo muito elevado de energia associado à atividade cerebral
intrínseca com toda a probabilidade, os PMC serão a região de mais elevado metabolismo de
todo o córtex cerebral.10 Também isto é compatível com o papel que proponho para os PMC
na consciência, o de um integrador / coordenador importante que estaria sempre ativo,
tentando manter uma série altamente díspar de atividades de fundo num padrão coerente.
Até que ponto o padrão oscilante do funcionamento desta região se coaduna com a ideia de
que os PM C serviriam a consciência? Julgo que reflete possivelmente a dança bastidores-palco
interpretada pelo eu na mente consciente. Quando temos de processar estímulos externos, a
nossa mente consciente traz o objeto sob escrutínio para o palco e deixa que o eu recue para
os bastidores. Quando não

285

somos solicitados pelo mundo exterior, o nosso eu aproxima-se do centro do palco e pode
mesmo avançar ainda mais, quando o objeto sob escrutínio é a nossa pessoa, sozinha ou no
seu ambiente social.

PESQUISA SOBRE PROBLEMAS NEUROLÓGICOS

A lista de problemas neurológicos em que a consciência fica comprometida é piedosamente


curta: estado de coma e vegetativo; certos tipos de estados epiléticos; e os chamados estados
de mutismo acinético que podem ser provocados por acidentes vasculares cerebrais, tumores
e doença de Alzheimer em estado avançado.

Doença de Alzheimer. A doença de Alzheimer é exclusivamente humana e é também um dos


mais graves problemas de saúde da a moderna. No entanto, à medida que o vamos tentando
entender, numa nota um pouco mais positiva, o problema também se tornou uma fonte de
informações acerca da mente, do comportamento e do cérebro. Só agora se tornam aparentes
os contributos da doença de Alzheimer para a compreensão da consciência.

A partir da década de 70 tive a oportunidade de acompanhar muitos pacientes com este


problema e o privilégio de estudar os seus cérebros post mortem, tanto espécimes no seu
todo como o material microscópico que deles proveio. Nesse período, parte do nosso
programa de investigação era dedicado à doença de Alzheimer, e o meu colega e colaborador
próximo Gary W. Van Hoesen era um especialista na neuroanatomia do cérebro com
Alzheimer. O nosso principal objetivo era, nessa altura, compreender como as alterações de
circuito no cérebro afetado pela doença podiam levar aos distúrbios memória que
caracterizavam o problema.

A maioria dos pacientes com casos típicos de doença de Alzheimer não apresenta distúrbios de
consciência nem no início da doença, nem nas suas fases intermédias. Os primeiros anos da
doença são marcados por deficiências progressivas na apreensão de nova informação factual e
na recordação de informação factual anteriormente

286

recebida. As dificuldades de raciocínio e de orientação espacial também são comuns. No início


da doença podem ser tão leves que as competências sociais se conservam e durante algum
tempo poderá manter-se uma aparência de normalidade de vida.

No início da década de 80, o nosso grupo de investigação, que já então contava com Brad
Hyman, identificou uma causa razoável para o defeito na memória factual da doença de
Alzheimer: as vastas alterações neuropatológicas no córtex entorrinal e nos campos adjacentes
dos córtices do lobo temporal anterior.11 O hipocampo, a estrutura cerebral necessária para
reter novas memórias de factos, encontrava-se efetivamente desligado dos córtices
entorrinal/lobo temporal anterior. Em consequência, não era possível apreender novos factos.
Além disso, com o avanço da doença, os córtices do lobo temporal anterior ficavam eles
próprios tão danificados que impediam o acesso a informações factuais exclusivas apreendidas
anteriormente. Na prática, o alicerce da memória autobiográfica era desgastado e
eventualmente eliminado, como acontece com os pacientes com destruição massiva do lobo
temporal causada pela encefalite herpética, uma infeção viral cuja ação também compromete
de forma seletiva as regiões temporais anteriores. A especificidade celular da doença de
Alzheimer era espantosa. A maior parte dos neurónios das camadas II e IV do córtex entorrinal
eram transformados em lápides, a melhor descrição daquilo que resta dos neurónios depois de
a doença os tornar emaranhados neurofibrilares. Dessa agressão seletiva resultava o corte das
linhas de ligação ao hipocampo, que usam a camada II como estação intermediária. Para
completar esse isolamento, da agressão resultava igualmente o corte das linhas que partem do
hipocampo, aquelas que se servem da camada IV para corrigir o lobo temporal. Não admira
que a memória factual seja devastada pela doença de Alzheimer. Todavia, à medida que a
doença progride, a integridade da consciência começa a ser afetada, a par de outros distúrbios
seletivos da mente. De início, o problema limita-se, previsivelmente, à cons

287

ciência autobiográfica. Como a memória acerca dos acontecimentos pessoais passados não
pode ser recuperada nas melhores condições, a ligação entre os acontecimentos atuais e o
passado vivido torna-se ineficaz. A consciência reflexiva no processamento deliberativo fica
comprometida. É provável que parte deste distúrbio se deva ainda a disfunção do lobo
temporal media], embora talvez não na sua totalidade.

Prosseguindo a sua marcha inexorável, a devastação alonga-se bem além dos processos
autobiográficos. Nas fases mais avançadas da doença de Alzheimer, nos pacientes que
recebem bom tratamento médico e boa assistência, e que sobrevivem mais tempo, vai
surgindo a pouco e pouco um estado virtualmente vegetativo. A ligação dos pacientes ao
mundo reduz-se a um ponto em que se assemelham a indivíduos num mutismo acinético. Os
pacientes iniciam cada vez menos interações com o ambiente físico e humano que os cerca e
reagem a cada vez menos estímulos do ambiente. As suas emoções ficam emudecidas. O
comportamento é dominado por uma expressão ausente, impassível, vazia, desconcentrada e
silenciosa.

A que se ficará a dever esta derradeira evolução na doença de Alzheimer? Não é possível
avançar uma resposta definitiva, pois ao longo dos anos de doença verificam-se vários focos de
patologia no cérebro com Alzheimer e a patologia não se confina aos emaranhados
neurofibrilares. No entanto, em certa medida, o dano continua a ser seletivo. Por exemplo, o
espaço imagético do cérebro, nomeadamente os córtices sensoriais iniciais da visão e da
audição, não são afetados pela doença; o mesmo se passa com as regiões ligadas ao
movimento no córtex cerebral, nos gânglios basais e no cerebelo. Por outra lado, algumas das
regiões ligadas à regulação vital, das quais depende o proto eu, vão ficando gradualmente mais
danificadas. Nelas incluem-se não só o córtex insular mas também

288

o núcleo parabraquial, algo que o nosso grupo conseguiu igualmente confirmar.12 Por fim, há
outros sectores cerebrais ricos em CDR a apresentar lesões graves. Os PMC têm um lugar de
destaque entre estes últimos.

Dedico especial atenção a estes factos porque, no início da doença, os PMC mostram
principalmente placas neuríticas, mas num estado mais avançado da doença a patologia é
dominada por depósitos de emaranhados neurofibrilares, as lápides dos neurónios

Figura 9.6: A fotografia no painel superior mostra o aspeto interno do hemisfério cerebral
esquerdo num indivíduo idoso normal. A região PMC está sombreada. No painel inferior
vemos o mesmo aspeto num indivíduo aproximadamente da mesma idade com doença de
Alzheimer avançada. A região PMC (sombreada) está gravemente atrofiada

289

até então saudáveis a que me referi atrás. A sua presença massiva nos PMC sugere que o
funcionamento da região está gravemente comprometido.13

Estávamos a par das importantes alterações patológicas nos PMC, aos quais, naquela altura,
nos referíamos simplesmente como o «córtex cingulado posterior e arredores » . No entanto, a
repetida observação clínica da consciência debilitada na fase avançada da doença de
Alzheimer, em casos de lesões focais da região, e à luz da sua posição anatómica peculiar,
levou-me a pensar se um MC gravemente danificado poderia ser a gota que faria o copo
transbordar.14

Porque será esta região um alvo da patologia de Alzheimer?O motivo pode bem ser o mesmo
que os meus colegas e eu invocámos, há muitos anos, para justificar o envolvimento
patológico das regiões do lobo temporal medial nesta mesma doença.15 Num estado e saúde
normal, o córtex entorrinal e o hipocampo nunca deixam e funcionar, Trabalham noite e dia
para apoiar o processamento e memórias factuais, iniciando e consolidando os registos de
recordações. Em conformidade, a toxicidade celular local associada ao desgaste cobraria o seu
preço sobre os preciosos neurónios da região.O mesmo raciocínio pode aplicar-se aos PMC,
tendo em conta o seu funcionamento quase contínuo numa série de processos relacionados
com o eu.16
Resumindo, os pacientes em fase avançada da doença de Alzheimer com debilitação evidente
da consciência apresentam danos neurais desproporcionais e, evidentemente, disfunções
importantes em dois territórios cerebrais cuja integridade é necessária à consciência normal:
os PMC e o tegmento do tronco cerebral. Devemos ser prudentes quanto à interpretação
destes factos, uma vez que existem várias outras zonas disfuncionais na doença de Alzheimer.
Ao mesmo tempo seria uma tolice não tomar estes dados em consideração.

E que dizer dos próprios pacientes, que nesta fase avançada da doença sofrem ainda mais um
ataque no seu cérebro? A minha opi-

290

nião, ontem como hoje, é que por mais dolorosa de observar que seja por aqueles que estão
próximos da vítima, a nova agressão talvez se traduza numa bênção para o paciente. Nesta
fase avançada e com este nível de debilitação de consciência, os pacientes não podem de todo
ter noção da devastação de que sofrem. Constituem agora fachadas dos seres humanos que
em tempos foram, merecedores do nosso amor e cuidados até ao fim, mas agora felizmente
libertados, até certo ponto, das leis da dor e do sofrimento que ainda vigoram para quem está
junto deles.

COMA, ESTADO VEGETATIVO E O CONTRASTE COM A SINDROME DE ENCARCERAMENTO

Os pacientes em estado de coma não reagem, em geral, à comunicação vinda do mundo


exterior. Estão mergulhados num sono profundo em que até o padrão da respiração é muitas
vezes anormal. Não fazem gestos com significado, nem emitem sons coerentes, e muito menos
se servem de palavras. Não há indícios de qualquer dos componentes essenciais da consciência
que referi no capítulo 8. O estado de vigília seguramente desapareceu, e com base no
comportamento observável será de presumir que a mente e o eu estejam ausentes.

Os pacientes em estado de coma apresentam muitas vezes lesões no tronco cerebral e por
vezes as lesões chegam ao hipotálamo. A causa mais comum é um acidente vascular cerebral.
Sabemos que as lesões se devem situar na parte posterior do tronco cerebral, o tegmento, e
mais especificamente no sector superior deste. O sector superior do tegmento alberga núcleos
relacionados com a regulação vital, mas não os indispensáveis à manutenção das funções
respiratória e cardíaca. Quando as lesões incluem também o sector inferior do tegmento, o
resultado é a morte e não o estado de coma.

Quando as lesões se encontram na parte anterior do tronco cerebral, o resultado também não
é o estado de coma, mas sim a síndrome de «locked-in» (encarceramento), uma condição
verdadeira-

291

mente horrível em que os pacientes estão absolutamente conscientes mas sofrem de uma
paralisia quase total. Os pacientes apenas conseguem comunicar pestanejando, por vezes com
um só olho, outras vezes através do movimento vertical de um dos olhos. No entanto os
pacientes veem na perfeição tudo o que lhes seja colocado à frente, podendo assim ler.
Ouvem também na perfeição e apreciam o mundo nos seus pormenores. A sua prisão é quase
completa; só um enfraquecimento das reações emocionais de fundo permite que esta situação
dolorosa seja tolerável.
Temos conhecimento das experiências únicas vividas por esses pacientes graças a alguns
relatos «ditados» que certos pacientes indigentes e atentos tiveram a coragem de levar a
cabo, com a ajuda e peritos. Esses relatos não foram propriamente ditados mas sim
«pestanejados», uma letra por cada pestanejo. Costumava pensar que a doença de Lou Gehrig
(esclerose lateral amiotrófica) fosse a mais cruel das doenças neurológicas. Na doença de Lou
Gehrig, um problema cerebral degenerativo, os pacientes de igual modo conscientes vão
perdendo a capacidade de se mover, e eventualmente engolir ou respirar. Mas ao ver o meu
primeiro paciente com síndrome de locked-in apercebi-me de que esta consegue ser pior. Os
dois melhores livros da autoria de pacientes encarcerados são pequenos simples mas de uma
riqueza humana incomparável. Um deles, de Jean-Dominique Bauby, foi adaptado num filme
de um rigor surpreendente, realizado pelo pintor Julian Schnabel (O Escafandro e a Borboleta),
que oferece aos leigos um documentário satisfatório do problema.17

Muitas vezes, o coma transforma-se numa condição um pouco menos má chamada estado
vegetativo. Os pacientes continuam inconscientes, mas tal como referido anteriormente, o
problema difere do coma em dois aspetos. Em primeiro lugar, os pacientes apresentam uma
alternância entre o sono e a vigília, e quando o sono ou o estado de vigília ocorrem, os
respetivos padrões electroencefalográficos também estão presentes. Os olhos dos pacientes
podem estar

292

abertos durante a parte de vigília do ciclo. Em segundo lugar, os pacientes produzem alguns
movimentos e podem também reagir com movimentos. No entanto, não reagem usando a fala
e os movimentos que executam não têm especificidade. O estado vegetativo pode dar lugar à
recuperação da consciência ou continuar indefinidamente; neste último caso é denominado
estado vegetativo persistente. Além das lesões no tegmento do tronco cerebral e no
hipotálame, que constituem a patologia típica do coma, o estado vegetativo pode resultar de
lesões no tálamo e mesmo de lesões mais vastas no córtex cerebral, ou na substância branca
que se encontra sob ele.

Como se relaciona o estado de coma e vegetativo com o papel dos PMC, uma vez que as lesões
causativas se situam em outros locais? Essa questão tem sido abordada em estudos de
imagiologia funcional destinados a investigar até que ponto são generalizadas ou restritas as
alterações funcionais no cérebro dos pacientes que se encontram nestas condições. Os
suspeitos do costume também aqui se apresentam, revelados por reduções profundas do
funcionamento do tronco cerebral do tálamo e dos PMC. De notar que a redução do nível
metabólico local da glucose observável nos PMC é particularmente acentuada.18

Existe, no entanto, outra descoberta importante a relatar. É comum os pacientes em estado de


coma morrerem ou então melhorarem muito ligeiramente passando para um estado
vegetativo persistente. Alguns pacientes são, contudo, mais afortunados. Vão emergindo a
pouco e pouco do seu estado de consciência profundamente debilitada e, ao fazê-lo, as
alterações mais significativas no metabolismo cerebral ocorrem nos PMC19 Isto sugere que o
nível de atividade nesta zona se encontra de facto ligado ao nível de consciência. Uma vez que
os PMC apresentam um metabolismo tão elevado, é tentador menosprezar este indício como
sendo resultado da melhoria por junto da atividade cerebral. Os PMC melhorariam primeiro
devido meramente ao seu metabolismo mais elevado. Claro que isso não explicaria o motivo
de a consciência ser recuperada ao mesmo tempo.

293
Uma nota final sobre as patologias da consciência

As patologias da consciência forneceram orientações importantes na delineação da


neuroanatomia da consciência, além de sugerirem alguns aspetos dos mecanismos propostos
para a construção do eu nuclear e do eu autobiográfico. Será talvez útil, a terminar,
estabelecer uma ligação transparente entre a patologia humana e as hipóteses anteriormente
apresentadas.

Deixando de lado as alterações da consciência que surgem naturalmente do sono ou que são
induzidas por anestésicos sob controlo médico, a maioria dos distúrbios da consciência resulta
de uma forma de disfunção cerebral profunda. Em alguns casos, o mecanismo e químico. São
exemplos disso as doses excessivas de várias drogas, incluindo a insulina usada no tratamento
da diabetes, bem como os níveis excessivos de glucose no sangue, no caso da diabetes não
tratada. O efeito destas moléculas químicas é a um tempo seletivo e generalizado. No entanto,
com um tratamento imediato e adequado, os problemas são reversíveis. Por outro lado, os
danos estruturais causados por traumatismos cranianos, acidentes vasculares ou certas
doenças degenerativas produzem frequentemente distúrbios de consciência com poucas
probabilidades de recuperação completa. Além disso, em certas situações, as lesões cerebrais
podem igualmente levar a ataques epiléticos, durante ou após os quais estados alterados de
consciência são um dos sintomas de nota.

Os casos de estados de coma e vegetativo devido a lesões no tronco cerebral comprometem


tanto o eu nuclear como o eu auto-biográfico. Basicamente, as estruturas do proto eu são
destruídas ou gravemente danificadas, não podendo ser gerados sentimentos primordiais nem
«sentimentos do que acontece». Um tálamo e um córtex cerebral intactos não chegam para
compensar o colapso do sistema do eu nuclear. Tais problemas sugerem a precedência
hierárquica do sistema do eu nuclear e a total dependência do sistema do eu autobiográfico
em relação ao do eu nuclear. É im-

294

portante ter isto em consideração, já que o inverso não é verdade: o eu autobiográfico pode
ficar comprometido na presença de um eu nuclear intacto.

Os casos de estados de coma ou vegetativo persistente em que a maioria das lesões em vez de
afetar o tronco cerebral compromete o córtex, o tálamo ou a ligação entre estas estruturas e o
tronco cerebral, podem tornar o eu nuclear disfuncional em vez de o destruir, o que explica a
evolução de alguns destes casos para uma consciência «mínima» e a recuperação de certas
atividades não-conscientes relacionadas com a mente. Os casos de mutismo acinético e de
automatismo epilético provocam danos reversíveis no sistema do eu nuclear e uma
consequente alteração do sistema do eu autobiográfico. Certos comportamentos adequados
continuam presentes e, embora automáticos, sugerem que os processos mentais não foram
completamente eliminados.

Quando os distúrbios do eu autobiográfico surgem de forma independente, estando o sistema


de eu nuclear intacto, a causa é quase sempre algum aspeto de disfunção de memória, uma
amnésia adquirida. A causa mais comum de amnésia é a condição que acabámos de discutir,
Alzheimer; outras causas incluem a encefalite viral e a anoxia aguda (perda de oxigenação do
cérebro) como pode suceder em casos de paragem cardíaca. Em casos de amnésia, há uma
perturbação considerável das recordações únicas que correspondem ao passado vivido e ao
futuro antecipado do indivíduo. Como é óbvio, os pacientes com lesões em ambas as regiões
hipocampo entorrinais, cuja capacidade para criar novas recordações fica comprometida,
sofrem de uma perda progressiva do âmbito do eu autobiográfico. Os novos acontecimentos
das suas vidas não são devidamente registados e integrados na biografia. Ainda mais grave é a
situação dos pacientes cuja lesão cerebral engloba não só as regiões hipocampo entorrinais,
mas também as regiões em redor dos córtices entorrinais, na zona anterior do lobo temporal.
Esses pacientes estão conscientes as operações do eu nuclear estão intactas, a ponto de
chegarem a ter consciência da sua

295

impossibilidade de recordar. Contudo, a recordação das suas biografias, a par de toda a


informação social nelas contidas, está reduzida em maior ou menor escala. O material que
possibilita a criação de um eu autobiográfico fica empobrecido, quer por não poder ser
recupera- do de registos passados, quer porque material recordado não pode ser devidamente
coordenado e apresentado ao sistema do proto eu, ou talvez por ambas as razões. Um caso
extremo é o do nosso paciente B., cuja recordação biográfica está em grande medida limitada
à infância e é bastante esquemática. Sabe que foi casado e que é pai de dois filhos, mas não
sabe quase nada de concreto acerca dos membros da família, os quais não consegue
reconhecer, nem em fotografias, nem em pessoa. O seu eu autobiográfico está fortemente
comprometido. Por outro lado, um outro paciente amnésico, Clive Wearing, apresenta uma
recordação muito mais vasta da sua biografia. Não só possui um eu nuclear normal, mas
também um eu autobiográfico robusto. Uma passagem de uma carta que a sua mulher,
Deborah Wearing, me escreveu, explica porque penso isso:

«Ele é capaz de descrever o arranjo aproximado do quarto da sua infância, sabe que cantou no
Erdington Parish Choir desde muito novo, diz recordar-se de ter estado num abrigo antiaéreo
durante a guerra e do som das explosões em Birmingham. Lembra-se de uma série de
fragmentos de factos relacionados com a infância e com os pais e os irmãos, e consegue
esboçar a sua autobiografia adulta a faculdade em Cambridge, onde foi bolseiro e pertenceu
ao coro; onde trabalhou; a Sinfonietta de Londres, o Departamento de Música da BBC, a sua
carreira de maestro, musicólogo e produtor musical (e, ainda antes,

296

de cantor). Mas tal como o Clive lhe dirá, embora conheça os traços gerais, "perdeu todos os
pormenores".

«O Clive tem-se mostrado mais capaz de ter uma conversa real e com significado do que
quando se sentia assustado e zangado, durante os primeiros dez anos da doença. Tem alguma
perceção da passagem do tempo, pois fala do tio e dos pais no passado (o tio morreu em 2003,
e depois de eu lhe ter dado a notícia, que o perturbou, pois eram bastante próximos, não me
lembro de ele ter voltado a referir-se ao tio Geoff no presente). Além disso, se lhe pedirmos
que imagine há quanto tempo sofre da doença, ele dirá pelo menos 20 anos (na verdade, 25).
Mais uma vez, o Clive não tem uma sensação de conhecimento, mas quando lhe é pedido que
imagine, em geral acerta.»

Um outro exemplo patológico de eu autobiográfico comprometido de modo seletivo é o


problema conhecido como anosognosia. Na sequência de lesões numa região do hemisfério
cerebral direito que inclui os córtices somatossensoriais e os córtices motores, habitualmente
provocados por acidentes vasculares os pacientes exibem uma paralisia notona dos membros
esquerdos, especialmente do braço. Todavia, «esquecem-se» constantemente de que estão
paralisados. Não importa quantas vezes lhe seja dito que o braço esquerdo não se pode
mover, sempre que isso lhes for perguntado continuarão a insistir, com bastante convicção
que pode. Não conseguem integrar a informação correspondente à paralisia no processo
corrente da

297

sua história de vida. A sua biografia não é atualizada com os novos factos, mesmo que saibam,
por exemplo, que sofreram um acidente vascular e que foram internados no hospital. Este
esquecimento literal de realidades tão patentes é responsável pela manifesta indiferença em
relação ao seu estado de saúde e pela falta de motivação para participar na reabilitação de
que tanto precisam.

Devo acrescentar que quando os pacientes sofrem lesões equivalentes no hemisfério cerebral
esquerdo, nunca se verifica anosognosia. Por outras palavras, o mecanismo através do qual
atualizamos a nossa biografia quanto aos aspetos do nosso corpo que se relacionam com o
sistema músculo-esquelético precisa do aglomerado de córtices somatossensoriais situado no
hemisfério cerebral direito.

Os ataques epiléticos que surgem neste sistema podem provocar um problema bizarro e
felizmente temporário: a asomatognosia. Os pacientes mantêm a sensação de identidade e
retêm aspetos de perceção visceral, mas de súbito, e por um curto período, são incapazes de
se aperceber dos aspetos músculo-esqueléticos do corpo.

Um comentário final quanto às patologias da consciência. Foi recentemente sugerido que os


córtices insulares seriam a base da perceção consciente dos estados de sentimento e, por
acréscimo, da consciência.20 Dessa hipótese decorreria que lesões bilaterais nos córtices
insulares provocariam uma perturbação devastadora da consciência. Sabemos por observação
direta que isso não é verdade e que os pacientes com lesões insulares bilaterais têm um eu
nuclear normal e mentes conscientes perfeitamente ativas.

CAPITULO 10

Juntar as peças

À maneira de resumo

Chegou a altura de reintegrar os factos e as hipóteses aparentemente díspares apresentados


nos três capítulos anteriores. Proponho abordar esta tarefa dando resposta a uma série de
perguntas que porventura terão surgido na mente dos leitores.

1. Admitindo que a consciência não reside num centro cerebral, será que os estados mentais
conscientes estarão baseados predominantemente em alguns sectores, em detrimento de
outros?

A minha resposta é um sim inequívoco. Acredito que o conteúdo da consciência a que temos
acesso se forma, em grande medida, no espaço imagético das regiões corticais primárias e do
tronco cerebral superior, o «espaço de performance»

300
compósito do cérebro. Contudo, o que acontece nesse espaço é continuamente construído
pelas interações com o espaço disposicional, que organiza de forma espontânea as imagens
em função da perceção corrente e das memórias passadas. A todo o momento, o cérebro
consciente trabalha a nível global mas fá-lo de um modo anatomicamente diferenciado.

2. Qualquer referência à consciência humana evoca visões de um córtex cerebral


extremamente desenvolvido mas, no entanto, o autor escreveu muitas páginas em que
relaciona a consciência humana com o humilde tronco cerebral. Estará preparado para ignorar
a tradição e designar o tronco cerebral como o principal elemento do processo consciente?

Não. A consciência humana necessita tanto do córtex cerebral como do tronco cerebral. O
córtex cerebral não pode fazer tudo sozinho, tão-pouco o tronco cerebral.

3. Dispomos de um conhecimento crescente sobre o funcionamento dos circuitos neurais. Os


estados mentais estão hoje associados ao ritmo de disparo dos neurónios e à sincronização
dos circuitos neurais através da atividade oscilatória. Também sabemos que, quando
comparado com os de outras espécies, o cérebro humano possui um maior número e uma
maior especialização das áreas cerebrais, em particular no córtex cerebral; que o córtex
cerebral humano (a par do dos macacos, das baleias e dos elefantes) contém alguns neurónios
invulgarmente grandes, conhecidos como neurónios Von Economo; e que a arborização
dendrítica de alguns neurónios do córtex pré-frontal dos primatas são especialmente
abundantes, quando comparados com os de outras regiões corticais e com os de outras
espécies. Serão estas características recém-descobertas suficientes para explicar a consciência
humana?

301

A resposta é um não inequívoco. Estas características ajudam a explicar a riqueza da mente


humana, o vasto panorama a que podemos aceder quando as mentes se tornam conscientes
como resultado de uma série de processos de construção do eu. No entanto, por si só, não
explicam como são criados o eu e a subjetividade, ainda que algumas destas mesmas
características desempenhem um papel nos mecanismos dessa criação.

4. Os sentimentos são muitas vezes ignorados nos relatos da consciência. Poderá haver
consciência sem sentimentos?

A resposta é não. Introspetivamente, a experiência humana requer sempre sentimentos. É


claro que os méritos da introspeção podem ser postos em causa, mas mesmo assim precisa-
mos de explicar o motivo pelo qual os estados conscientes nos surgem da forma como surgem
nessa mesma introspeção.

5. O autor avançou a hipótese de os sentimentos serem em grande medida gerados pelos


sistemas neurais do tronco cerebral dada a sua microestrutura e a sua posição relativamente
ao corpo. Um cético poderá bem concluir que o autor não respondeu à pergunta sobre a razão
por que sentimos os sentimentos da forma como os sentimos, e muito menos a razão por que
os sentimos de todo.

Neste ponto vejo-me obrigado a concordar e a discordar. É certo que não forneci uma
explicação final para a criação dos sentimentos, mas estou a avançar uma hipótese específica,
cujos pormenores podem ser postos à prova.
Nem as ideias discutidas neste livro, nem as ideias apresentadas por vários colegas que
trabalham nesta área resolvem os mistérios em torno do cérebro e da consciência de forma
conclusiva. Todavia, o presente trabalho abre novos caminhos para a investigação dos
problemas postos no primeiro capítulo. Só o tempo dirá aonde levam esses caminhos.

302

A neurologia da consciência

A neurologia da consciência está organizada em redor das estruturas cerebrais envolvidas na


criação da tríade diretora composta pelo estado de vigília, pela mente e pelo eu. Estão
envolvidas principalmente três grandes divisões anatómicas tronco cerebral, tálamo e córtex
cerebral, mas é preciso advertir que não há um alinhamento direto entre cada uma destas
divisões anatómicas e cada um dos componentes da tríade. Cada uma das três divisões
contribui para algum aspeto da vigília, da mente e do eu.

O TRONCO CEREBRAL

Os núcleos do tronco cerebral constituem uma boa ilustração das multitarefas exigidas a cada
divisão. Os núcleos do tronco cerebral contribuem para o estado de vigília, em parceria com o
hipotálamo, mas são igualmente responsáveis pela construção do proto eu e pela criação de
sentimentos primordiais. Em conformidade, certos aspetos importantes do eu nuclear são
implementados no tronco cerebral e, assim que a mente consciente se estabelece, o tronco
cerebral presta ajuda na regência da atenção. Em todas estas tarefas, o tronco cerebral
colabora com o tálamo e com o córtex cerebral.

Para obtermos uma melhor imagem da forma como o tronco cerebral contribui para a mente
consciente precisamos de observar com mais atenção os componentes envolvidos nestas
operações. Uma análise da neuroanatomia do tronco cerebral revela vários sectores de
núcleos. O sector situado na base do eixo vertical do tronco, em grande medida na espinal
medula, alberga os núcleos relacionados com a regulação visceral básica, em particular a
respiração e a função cardíaca. A destruição substancial destes núcleos leva à morte. Acima
desse nível, na protuberância e no mesencéfalo, encontramos os núcleos cujas lesões têm sido
associadas aos

303

estados de coma e vegetativo, e não à morte. Basicamente trata-se do sector que segue
verticalmente desde o nível mediano da protuberância até ao cimo do mesencéfalo; ocupa a
parte posterior do tronco cerebral e não a anterior, atrás de uma linha vertical que separa a
metade posterior da frente do tronco cerebral. Outras duas estruturas fazem ainda parte do
tronco cerebral: o teto (a lâmina quadrigémea) e o hipotálamo. O teto é formado pelos
colículos superior e inferior de que falei no capítulo 3; a nível arquitetural garantem uma
espécie de telhado no cimo e na parte posterior do tronco cerebral. Além do seu papel no
movimento associado a perceção, os colículos desempenham outro papel na coordenação e na
integração das imagens. O hipotálamo fica imediatamente acima do tronco cerebral, mas o seu
envolvimento profundo na regulação vital e as interações complexas com os núcleos do tronco
cerebral justificam a sua inclusão na família do tronco cerebral. Já abordámos o papel do
hipotálamo quando discutimos o estado de vigília, no capítulo 8 (ver a figura 8.3).
A ideia de que alguns sectores do tronco cerebral seriam essenciais à consciência mas outros
não, vem de uma observação clássica realizada por dois neurologistas de renome, Fred Plum e
Jerome Posner. Eles pensavam que apenas as lesões localizadas acima do nível médio da ponte
estavam associadas aos estados de coma e vegetativo.1 Transformei essa ideia numa hipótese
específica propondo um motivo para esse cenário: quando pensamos no tronco cerebral a
partir da perspetiva das regiões cerebrais situadas mais acima no sistema nervoso,
descobrimos que só acima do nível médio da ponte é que a recolha de informação sobre todo
o corpo se torna completa. Em níveis inferiores do tronco cerebral ou da espinal medula, o sis-
tema nervoso apenas consegue obter informações parciais acerca do corpo. Isso acontece
porque é ao nível médio da ponte que o nervo trigémeo penetra no tronco cerebral, trazendo
consigo informações sobre o sector superior do corpo rosto e tudo por trás dele, couro
cabeludo, crânio e meninges. Só acima deste nível é que o cérebro

304

fica na posse de toda a informação de que precisa para criar mapas sobre o corpo inteiro e,
nesses mapas, construir a representação dos aspetos relativamente invariantes do interior,
que ajudam a definir o proto eu. Abaixo desse nível, o cérebro ainda não recolheu todos os
sinais necessários para a criação de uma representação completa do corpo.

Esta hipótese foi testada num estudo levado a cabo por Josef Parvizi e por mim em pacientes
comatosos, com o objetivo de investigar a localização das suas lesões cerebrais através de
ressonância magnética. O estudo revelou que o coma estava apenas associado a lesões
situadas acima do nível de entrada do trigémeo. Corroborou integralmente a observação
inicial de Plum e Posner, que fora baseada em material post mortem na era anterior ao
aparecimento da imagiologia cerebral.2

Nos primeiros tempos da história da investigação da consciência pensava-se que a associação


entre as lesões nesta região e os estados de coma/vegetativo indicava que a consequente
disfunção causava perturbações do estado de vigília. O córtex cerebral deixava de receber
energia e de estar ativo. Privada da vigília, a mente deixava de estar consciente. A identificação
de uma rede de neurónios localmente interativos com uma projeção ascendente e unitária, na
direção do tálamo e do córtex cerebral fez com que esta ideia simples se tornasse ainda mais
plausível. Até mesmo o nome dado a este sistema de projeções sistema de ativação reticular
ascendente (ascending reticular activating system, ou ARAS) captou o conceito com muito
êxito.3 (Ver de novo figura 8.3, onde o ARAS está incluído entre «outros núcleos do tronco
cerebral», como refere a legenda.)

A existência deste sistema foi minuciosamente confirmada e sabemos que as suas projeções
têm como destino os núcleos intralaminares do tálamo, os quais por sua vez se projetam nos
córtices cerebrais, entre eles os PMC. Contudo, a história não acaba aqui. A par dos núcleos
clássicos, como o cuneiforme e o pontis oralis,

305

onde o ARAS tem origem, temos um rico conjunto de outros núcleos, onde se incluem aqueles
que estão envolvidos na gestão dos estados corporais internos: o cerúleo, os núcleos
tegmentais ventrais e os núcleos do rafe, responsáveis, respetivamente, pela libertação de
norepinefrina, dopamina e serotonina em certos sectores do córtex cerebral e do prosencéfalo
basal. As projeções destes núcleos contornam o tálamo.
Entre os núcleos envolvidos na gestão do estado corporal encontramos o núcleo do trato
solitário (NTS) e o núcleo parabraquial (PBN), cuja importância em relação à criação de uma
primeira linha de sentimentos corporais, os sentimentos primordiais, foi analisada nos
capítulos 3, 4 e 5. O tronco cerebral superior também inclui os núcleos da substância cinzenta
periaquedutal (PAG), cuja atividade tem como resultado as reações comportamentais e
químicas que fazem parte integrante da regulação vital e, ainda no âmbito desse papel,
executam as emoções. Os núcleos da PAG estão profundamente interligados aos do PBN e do
NTS, e também às camadas profundas dos colículos superiores, os quais desempenharão
provavelmente um papel coordenador na construção do eu nuclear. Esta anatomia complexa
mostra-nos que enquanto os núcleos clássicos e os sistemas de ativação ascendente se
encontram sem dúvida associados aos ciclos de vigília e de sono, os restantes núcleos do
tronco cerebral participam em outras funções também importantes para a consciência,
nomeadamente a maquinaria fundamental do valor biológico; a representação do interior do
organismo a partir da qual é edificado o proto eu e são gerados os estados dos sentimentos
primordiais; e as primeiras fases críticas da construção do eu nuclear, que também têm
consequências para a regência da atenção.4

Em resumo, a análise desta profusão de papéis funcionais revela uma dedicação importante à
gestão da vida. No entanto, a ideia de que o trabalho destes núcleos se limita à regulação das
vísceras, do metabolismo e da vigília não faz de todo justiça aos resultados que

306

alcançam. Eles gerem a vida de um modo muito mais abrangente. É provável que seja aqui que
tem início o processo de criação da mente, sob a forma de sentimentos primordiais, e, ao que
parece, o processo que faz da mente consciente uma realidade, o eu, também tem aqui a sua
origem. Até mesmo o trabalho de coordenação das camadas profundas dos colículos
superiores tem um papel importante a desempenhar.

O TÁLAMO

A consciência é descrita muitas vezes como sendo o resultado da integração massiva de sinais,
em diversas regiões do cérebro, e nessa descrição o papel do tálamo tem uma relevância
especial. Não dúvida de que o tálamo contribui de forma muito importante p a criação do
pano de fundo da mente e para aquilo a que chamam mente consciente. Mas poderemos ser
mais específicos quanto aos seus papéis?

Tal como o tronco cerebral, o tálamo contribui para todos componentes da tríade da mente
consciente. Certos núcleos talâmicos são essenciais para o estado de vigília e ligam o tronco
cerebral ao córtex; outros recebem as informações com as quais é possível formar os mapas
corticais; os restantes apoiam a integração a qual não se pode conceber uma mente complexa,
e muito menos uma mente possuidora de um eu.

Sempre resisti a aventurar-me no tálamo e hoje em dia sou ainda mais prudente. O pouco que
sei acerca do enorme conjunto de núcleos talâmicos devo-o aos escassos peritos nesta
estrutura.5 Mesmo assim, alguns dos papéis desempenhados pelo tálamo são inquestionáveis
e podem ser enumerados aqui. O tálamo se de escala intermédia para a informação recolhida
no corpo com destino ao córtex cerebral. Isso inclui todas as vias que transportam sinais
acerca do corpo e do mundo, desde a dor e a temperatura, ao tato, à audição e à visão. Todos
os sinais destinados ao
307

cortex param nos núcleos de transmissão talâmicos e mudam para as linhas que os levam aos
seus destinos nas várias cidades ao córtex cerebral. Apenas o olfato consegue escapar à
atração talâmica, deslizando diretamente até ao córtex cerebral, por vias não talâmicas.

O tálamo também se encarrega dos sinais necessários para despertar todo o córtex cerebral,
ou para o adormecer isto é feito pelas projeções neurais da formação reticular que mencionei
anteriormente. Os seus sinais mudam de via nos núcleos intralaminares e os PMC são um dos
principais destinos.

Contudo, não menos importante e bastante mais específico no que respeita à consciência - é
que o tálamo serve de coordenador das atividades corticais, uma função que depende do facto
de vários núcleos talâmicos que comunicam com o córtex cerebral obterem resposta desse
mesmo córtex e de poderem assim ser formados arcos recursivos instantâneos. Esses núcleos
talâmicos interligam partes do córtex cerebral, distantes ou próximas. O objetivo não é
transmitir informação sensorial primária mas sim interassociar informação.

Nesta interação estreita entre tálamo e córtex é provável que o tálamo contribua para a
ativação simultânea ou sequencial de zonas neurais separadas no espaço, unindo-as assim em
padrões coerentes. Essas ativações são responsáveis pelo fluxo de imagens na cadeia de
pensamentos, as imagens que se tornam conscientes ao ser bem sucedidas na criação de
pulsos do eu nuclear. Este papel de coordenação deverá depender de uma reciprocidade entre
os núcleos associativos talâmicos e as CDR que estão, por si próprias, implicadas na
coordenação das atividades corticais. Em resumo, o tálamo tanto retransmite informações
essenciais ao córtex cerebral como cria uma interassociação massiva de informações corticais.
O córtex cerebral não pode funcionar sem o tálamo, tendo os dois evoluído a par e estando
inseparavelmente unidos desde os primórdios do desenvolvimento.

308

O CÓRTEX CEREBRAL

Chegamos finalmente ao atual apogeu da evolução neural, o córtex cerebral humano. Em


interação com o tálamo e com o tronco cerebral, o córtex mantém-nos acordados e ajuda a
selecionar aquilo em que nos concentramos. Em interação com o tronco cerebral e com o
tálamo, o córtex cria os mapas que se tornam a mente individual. Em interação com o tronco
cerebral e com o tálamo, o córtex ajuda a criar o eu nuclear. Por fim, servindo-se dos registos
da atividade passada armazenados nos seus vastos arquivos, o córtex cerebral cria a nossa
biografia, de que faz parte a experiência dos ambientes físicos e sociais que habitámos e
vivemos. O córtex cerebral fornece-nos uma identidade e coloca-nos no centro do maravilhoso
espetáculo em contínuo movimento que é a nossa mente consciente.6

A montagem do espetáculo da consciência é um esforço de tal forma cooperativo que não


seria sensato distinguir um dos contribuintes. Não podemos conceber os aspetos
autobiográficos do eu que definem a consciência humana sem invocar o crescimento
exuberante das regiões de convergência divergência que dominam a neuroanatomia e a
neurofisiologia cortical. A autobiografia não poderia surgir sem a contribuição do tronco
cerebral para o proto eu, ou sem a relação do tronco cerebral com o próprio corpo, ou sem a
integração recursiva à escala cerebral proporcionada pelo tálamo.
Todavia, embora tenhamos de reconhecer o trabalho conjunto destes elementos principais,
será aconselhável resistir a conceções que optam por menosprezar a especificidade das partes
intervenientes e realçar as operações neurais que operam a uma escala funcionalmente
indistinta. A natureza globalizada da mente consciente é

309

inegável. Temos, no entanto, uma oportunidade de vir a saber muito mais sobre as
contribuições relativas de cada componente cerebral para esse processo global, graças a uma
pesquisa orientada neuroanatomicamente.

Um engarrafamento anatómico

As três grandes divisões que acabámos de descrever e a sua articulação espacial falam-nos de
desproporções anatómicas e de alianças funcionais que apenas uma perspetiva evolutiva pode
ajudar a compreender. Não precisamos de ser neuroanatomistas para nos apercebermos da
bizarra disparidade entre a dimensão do córtex cerebral e a do tronco cerebral nos seres
humanos.

Basicamente, e adaptado ao tamanho do corpo, o desenho geral do tronco cerebral humano


remonta ao tempo dos répteis. Contudo, o córtex cerebral humano nada tem de reptiliano, O
córtex cerebral dos mamíferos expandiu-se muitíssimo, não apenas em tamanho mas também
no seu desenho arquitetural, em especial na versão dos primatas.

Devido à sua superioridade no papel de regulador vital, há muito que o tronco cerebral é o
recipiente e processador local da informação necessária para representar o corpo e controlar a
sua vida. E à medida que foi cumprindo este papel vetusto e importante em espécies cujo
córtex cerebral era mínimo ou inexistente, o tronco cerebral também desenvolveu os
mecanismos necessários para os processos mentais elementares e até para a consciência,
através dos mecanismos do proto eu e do eu nuclear. O tronco cerebral continua a levar a
cabo essas mesmas funções nos seres humanos. Por outro lado, a maior complexidade do
córtex cerebral permitiu a criação mais pormenorizada de imagens, expandiu a capacidade de
memória, da imaginação, do raciocínio e, eventualmente, da lin

310

guagem. Chega agora o grande problema: apesar da expansão anatómica e funcional do córtex
cerebral, as funções do tronco cerebral não foram duplicadas nas estruturas corticais. A
consequência desta divisão económica de papéis é uma interdependência fatal e completa
entre tronco cerebral e córtex. São obrigados a colaborar entre eles.

A evolução cerebral foi confrontada com um engarrafamento anatómico funcional, mas tal
como seria de esperar a seleção natural resolveu o problema. Dado que o tronco cerebral
continuava a ser solicitado para garantir a regulação vital e as bases da consciência para todo o
sistema nervoso, era preciso encontrar maneira de fazer com que o tronco cerebral
influenciasse o córtex cerebral e, não menos importante, que as atividades do córtex cerebral
influencias sem o tronco cerebral, especialmente no que respeitava à construção do eu
nuclear. A importância desse aspeto torna-se bem clara quando pensamos que, na sua
maioria, os objetos externos só existem como imagens no córtex cerebral e não podem ser
totalmente representados no tronco cerebral.
É neste ponto da evolução que o tálamo entra em campo, permitindo um compromisso. O
tálamo realiza uma disseminação de sinais do tronco cerebral para um vasto território cortical.
Em troca, o córtex cerebral, amplamente expandido, envia sinais para o tronco cerebral, quer
de forma direta, quer com o apoio de núcleos subcorticais como os da amígdala e dos gânglios
da base. Talvez a melhor descrição do tálamo seja, afinal, a de padrinho do mais estranho dos
casamentos.

É provável que a desproporção entre o tronco cerebral e o córtex tenha imposto limitações ao
desenvolvimento das capacidades cognitivas, em geral, e à nossa consciência, em particular.
Curiosamente, à medida que a cognição se altera sob pressões como a revolução digital, essa
desproporção poderá ter muito a dizer quanto à forma como a mente humana evoluirá. Na
minha formulação o tronco cerebral continuará a garantir os aspetos

311

fundamentais da consciência, por ser o principal e indispensável fornecedor de sentimentos


primordiais. As crescentes exigências cognitivas tornaram a inter-relação entre o córtex e o
tronco cerebral mais difícil e forçada. De um modo geral, dificultaram o acesso à fonte dos
sentimentos.

Afirmei que não seria sensato tomar partido e favorecer uma das três divisões do processo na
criação da consciência. Porém, devemos conceder que o componente do tronco cerebral tem
uma precedência funcional, que ele continua a ser uma parte absolutamente indispensável do
quebra cabeças da consciência e que, por esse exato motivo, bem como pelo seu tamanho
modesto e anatomia compacta, é a mais vulnerável das três grandes divisões, no que respeita
a doença neurológica. Nas guerras da consciência, o córtex central tem tendência a ganhar.
Terá chegado a hora do tronco cerebral?

Do trabalho conjunto dos sistemas de grande escala ao trabalho dos neurónios individuais

Em grande medida, tentei explicar, até agora, o aparecimento da mente consciente a partir de
componentes cerebrais que podem ser identificados a olho nu, incluindo certos pequenos
núcleos do tronco cerebral e do tálamo. Contudo, aquilo que a vista desarmada não vê são os
milhões de neurónios que contribuem para as redes ou sistemas no interior dessas estruturas,
nem os numerosos pequenos agrupamentos desses neurónios que contribuem para o esforço
geral de construção de uma mente com um eu. O trabalho conjunto das grandes divisões
anatómicas é feito a partir do trabalho conjunto de componentes a uma escala cada vez mais
reduzida, ate chegarmos aos pequenos circuitos neurais. Nesta direção anatómica
descendente, há regiões cada vez mais pequenas do córtex

312

cerebral, a par do seu séquito de ligações a outras zonas do cérebro; existem núcleos cada vez
mais pequenos, ligados de formas específicas a outros núcleos e a regiões do córtex; por fim,
na base da hierarquia, encontramos os pequenos circuitos neurais, os blocos microscópicos da
construção, aonde ocorrem padrões de atividade neural com certas características espaciais e
temporais, atividades essas que constituem as bases da mente. A mente consciente e feita a
partir de todos estes componentes do cérebro, escalonados hierarquicamente.

Aceita-se hoje que o disparo de neurónios ligados por sinapses em circuitos microscópicos dá
origem aos fenómenos básicos da mente, convenientemente designados por
«protofenómenos» da cognição. Também se pensa que a ampliação de um grande número de
tais fenómenos resulta na criação dos mapas que conhecemos como imagens, e que uma
parte desse processo de ampliação depende da sincronização dos protofenómenos individuais,
tal como foi sugerido no capítulo 3

Será suficiente combinar os microeventos da protocognição e da sincronia e ampliá-los ao


longo de um escalonamento hierárquico distribuído pelas três divisões neuroanatómicas que
já analisámos' Na descrição anterior, a protocognição a partir dos microacontecimentos
neurais é ampliada até à mente consciente, mas os sentimentos são omitidos. Haverá também
um «proto sentimento» criado a partir de microeventos e ampliado hierarquicamente a par da
proto cognição?

Em todas as propostas avançadas nos capítulos anteriores, os sentimentos foram


apresentados como sendo um parceiro obrigatório e fundamental da mente consciente, mas
nada disse quanto à sua possível micro origem. Tal como proposto anteriormente, obtemos
sentimentos espontâneos a partir do proto eu, e são esses sentimentos que dão origem, de
forma híbrida, a um primeiro vislumbre de mente e a um primeiro vislumbre de subjetívidade.
A seguir, invocámos os sentimentos de

313

conhecimento para separar o eu do não-eu e para ajudar a criar um eu nuclear. E acabámos


por construir um eu autobiográfico a partir de uma série desses componentes. Os sentimentos
foram apresentados como sendo a outra face da moeda da cognição, mas a sua entrada foi
colocada ao nível dos sistemas. Invoquei a relação recíproca e única entre o tronco cerebral e o
corpo, e a combinação abrangente e recursiva de sinais corporais no tronco cerebral superior
como sendo fontes de sentimentos corporais qualitativamente distintos. Tudo isto poderá ser
o suficiente para explicar o modo como os sentimentos surgem. Todavia, será razoável que nos
interroguemos quanto a um aspeto complementar. Se situamos a origem geral das imagens a
um micronível, com pequenos circuitos neurais a criarem fragmentos de protocognição,
porque não deveremos dar o mesmo tratamento à classe especial de imagens a que
chamamos sentimentos e considerar que começam também nesses mesmos pequenos
circuitos? Na secção seguinte sugiro que os sentimentos poderão ter essa origem tão humilde.
Os proto sentimentos seriam então ampliados ao longo de escalonamentos hierárquicos,
incluindo evidentemente os circuitos do tronco cerebral, onde um processamento adicional
teria como resultado os sentimentos primordiais.

Quando sentimos as nossas perceções

Qualquer pessoa interessada nas questões do cérebro, da mente e da consciência já ouviu


falar dos qualia e tem uma opinião quanto ao que a neurociência poderá fazer com o
problema: levá-lo a sério e tentar lidar com ele, ou considerá-lo difícil e protelá-lo, ou ignorá-lo
totalmente. Como será óbvio para o leitor, eu levo o problema a sério. Mas primeiro, e uma
vez que o conceito dos qualia é muito escorregadio, tentemos clarificar a questão.7

314

No texto que se segue, os qualia são tratados como uma combinação de dois problemas. Num
deles, os qualia referem-se aos sentimentos que são parte obrigatória de qualquer experiência
subjetiva um matiz de prazer ou sua ausência, um matiz de dor ou desconforto, bem-estar ou
falta disso. Chamo a isto o problema dos Qualia I. O outro problema é mais profundo. Se as
experiências subjetivas são acompanhadas por sentimentos, como se criam esses estados de
sentimento? Isto ultrapassa a questão da forma como qualquer experiência ganha qualidades
sensoriais específicas na nossa mente, como o som de um violoncelo, o sabor de um vinho ou
o azul do mar. Aborda uma questão mais direta. Por que motivo os mapas percetuais, que são
fenómenos físicos e neuroquímicos, vêm a ser sentidos? Este é o problema dos Qualia II.

Qualia I

Não há qualquer conjunto de imagens conscientes, seja qual for o tipo ou seu tema, que não
seja acompanhado por um obediente coro de emoções e consequentes sentimentos. Ao olhar
o oceano Pacífico, com o seu traje matinal, protegido por um céu suave e cinzento, não estou
apenas a ver, estou também a sentir emoções causadas por esta beleza majestosa, e a sentir
todo um leque de alterações fisiológicas que se traduzem, obrigado por perguntarem, numa
sensação calma de bem-estar. Isto não está a acontecer por deliberação minha, e não sou
capaz de evitar esses sentimentos, tal como não seria capaz de os iniciar. Eles chegaram, estão
aqui e vão ficar, numa qualquer modulação, enquanto o mesmo objeto consciente
permanecer à vista e enquanto a minha reflexão os mantiver em reverberação.

Gosto de pensar nos Qualia I como música, como uma partitura que acompanha o restante
processo mental em curso, mas frisando que esse acompanhamento musical faz parte
integrante do

315

processo mental. Quando o objeto principal na minha consciência não é o oceano mas uma
composição musical verdadeira, passo a ter duas faixas musicais a tocar na minha mente, uma
com a peça de Bach que está neste momento a ser reproduzida, e outra com a faixa
semelhante a música com que reajo à música real, com a linguagem da emoção e do
sentimento. Isso é nada mais, nada menos do que os Qualia I para uma interpretação musical
chamemos-lhe música sobre música. Talvez a música polifónica tenha sido inspirada por uma
intuição desta acumulação de linhas «musicais» paralelas na nossa mente.

Há uma pequena gama de situações da vida real em que o acompanhamento obrigatório dos
Qualia I pode ser reduzido, ou nem chega a materializar-se. A mais benigna adviria do efeito de
qualquer droga capaz de desligar a reatividade emocional pensemos em tranquilizantes como
o Vali um, antidepressivos como o Prozac ou mesmo num bloqueado r beta como o
propranolol, os quais, com uma dosagem suficiente, reduzem a capacidade de reagir a nível
emocional e, consequentemente, de viver sentimentos emocionais.

Os sentimentos emocionais também não se materializam durante uma situação patológica


comum, a depressão, na qual os aspetos dos sentimentos positivos se encontram
notoriamente ausentes, e até mesmo sentimentos negativos como a tristeza podem ficar de
tal maneira atenuados que o resultado é um estado de inércia afetiva.

Como é que o cérebro produz o efeito Qualia I? Tal como vimos no capítulo 5, a par dos
dispositivos de perceção que mapeiam qualquer objeto, e a par das regiões, que exibem esses
mapas, o cérebro está equipado com uma série de estruturas que reagem aos sinais desses
mapas produzindo emoções, a partir das quais nascem os sentimentos subsequentes.
Exemplos dessas regiões incluem estruturas com que já nos cruzámos anteriormente: a
famosa amígdala; uma parte quase tão famosa do córtex pré-frontal conhecida como
316

setor ventromedial; e uma série de núcleos no prosencéfalo basal e no tronco cerebral.

Como já vimos, a forma como as emoções são desencadeadas é curiosa. As regiões onde se
constroem imagens podem transmitir sinais a qualquer das regiões de ativação de emoções.
Se a configuração dos sinais se enquadrar no perfil para o qual uma dada região está
programada para reagir ou seja, caso esteja habilitado como estímulo emocionalmente
competente o resultado é o desencadear de uma sequência de acontecimentos que ocorrem
em outras partes do cérebro e, subsequentemente, no próprio corpo, sendo o resultado uma
emoção. A leitura percetual da emoção é o sentimento.

O segredo por trás da minha experiência compósita deste momento reside na capacidade do
cérebro de reagir ao mesmo conteúdo (por exemplo, a minha imagem do oceano Pacífico) em
locais diferentes e em paralelo. De uma zona cerebral obtenho o processo emocional que
culmina numa sensação de bem-estar; de outras zonas cerebrais obtenho várias ideias acerca
das condições meteorológicas do dia (o céu não apresenta exatamente as típicas nuvens
marítimas desta altura do ano na Califórnia, assemelhando-se mais a uma sucessão de flocos
de algodão, numa série irregular), ou ideias sobre o mar (pode mostrar uma majestade
imponente ou uma abertura convidativa, dependendo da luz e do vento, já para não falar do
nosso estado de espírito), e assim por diante.

Um estado consciente normal contém uma série de objetos, raramente um só, e trata-os de
uma forma mais ou menos integrada, embora quase nunca com o estilo democrático que
atribuiria a cada objeto um espaço de consciência igual e uma mesma duração. O facto de
diferentes imagens terem valores diferentes tem como resultado uma diferença no realce e
montagem dessas imagens. Parte do processo de atribuição de valores diferentes a imagens
diferentes depende das emoções que provocam e dos sentimentos

317

subsequentes, no cenário de fundo do campo consciente: a subtil, mas importante, reação dos
Qualia I. É por isso que, embora seja tradição considerar a questão dos qualia como parte do
problema da consciência, eu penso que pertence mais apropriadamente ao tópico geral da
mente. As reações dos Qualia I têm a ver com os objetos que estão a ser processados na
mente e vêm acrescentar um outro elemento à mente. Não considero a questão dos Qualia I
como um enigma.

Qualia II

o problema dos Qualia II gira em torno de uma questão mais desconcertante: por que motivo
os mapas percetuais, que são acontecimentos neurais e físicos, são sentidos, contêm
inevitavelmente sentimentos, sejam eles quais forem? Para tentar obter uma resposta
abrangente, com diversas «camadas», comecemos por nos concentrar no estado de
sentimento que considero como base da mente e do eu, ou seja, os sentimentos primordiais
que descrevem o estado do interior do organismo. Teremos de começar por aqui devido à
solução proposta para o problema dos Qualia I: se os sentimentos relacionados com o estado
do organismo são um acompanhamento obrigatório de todos os mapas percetuais, teremos de
explicar a origem desses mesmos sentimentos.
O início da explicação toma em consideração alguns factos essenciais. Os estados de
sentimento surgem a partir do funcionamento de alguns núcleos do tronco cerebral
profundamente interligados entre si e que são os recipientes de sinais integrados, de elevada
complexidade, transmitidos do interior do organismo. Durante a utilização de sinais corporais
para regular a vida, a atividade dos núcleos transforma esses mesmos sinais. A transformação
é subsequentemente ampliada pelo facto de os sinais ocorrerem num circuito fechado, em
que o corpo comunica com o sistema nervoso

318

central e este reage às mensagens do corpo. Os sinais não são verdadeiramente separáveis dos
estados do organismo onde tiveram origem. O conjunto constitui uma unidade dinâmica e
interligada. A minha hipótese é que esta unidade permite uma fusão funcional entre os
estados corporais e os estados percetuais, a tal ponto que a linha divisória entre ambos deixa
de poder ser estabelecida. Os neurónios encarregados de transmitir ao cérebro sinais acerca
do interior do corpo teriam uma ligação tão estreita com as estruturas interiores que os sinais
transmitidos não seriam meramente sobre o estado do corpo, mas sim literalmente extensões
do corpo. Os neurónios imitariam de tal maneira a vida que se tornariam unos com ela. Em
resumo, na complexa interligação entre estes núcleos do tronco cerebral encontraríamos o
princípio de uma explicação para o tema e para a natureza dos sentimentos neste caso os
sentimentos primordiais. O tema é o corpo. A substância desse corpo está diretamente
impressa nestes circuitos. E a arquitetura desses circuitos gera um novo nível de processo
neural a que chamamos sentimento.

No entanto, tal como sugeri na secção anterior, talvez possamos ir mais longe, ao nível dos
pequenos circuitos neurais. O facto de os neurónios serem diferenciações de outras células
vivas, a um tempo funcionalmente distintas e, contudo, semelhantes a outras células, permite-
nos um primeiro passo. Os neurónios não são «microchips» que recebem sinais do corpo. Os
neurónios sensoriais encarregados da interocepção são células corporais de um tipo
especializado que recebem sinais de outras células corporais. Além disso, certos aspetos da
vida celular sugerem a presença de precursores do «sentimento». Os organismos unicelulares
são «sensíveis» a intrusões ameaçadoras. Se tocarmos numa ameba, ela encolhe-se. Se
tocarmos num paramécio, ele foge. Podemos observar esses comportamentos e não temos
qualquer problema em descrevê-los como «atitudes», mesmo tendo plena noção de que as
células não sabem o que estão a fazer, no sentido em que

319

nós sabemos o que estamos a fazer ao fugir de uma ameaça. Mas o que se passa do outro lado
deste comportamento, nomeadamente no estado interno da célula? A célula não tem cérebro,
e muito menos uma mente, para «sentir» os estímulos e mesmo assim reage, pois houve algo
que se alterou no seu interior. Se transpusermos a situação para os neurónios, veremos que
poderá residir aí o estado físico cuja modulação e amplificação, através de circuitos celulares
cada vez maiores, poderá dar origem a um proto sentimento, o equivalente da protocognição
de que falámos anteriormente.

Os neurónios dispõem de facto dessa capacidade de reação. Tenha-se em conta, por exemplo,
a sua «sensibilidade» ou «irritabilidade». Rodolfo Llinás serviu-se desta pista para propor que
os sentimentos nascem das funções sensoriais especializadas dos neurónios, mas ampliadas
tendo em conta o grande número de neurónios que fazem parte de um circuito.8 Este é
igualmente o meu argumento, semelhante à ideia que avancei no capítulo 2 relativa à
construção de uma «vontade coletiva de viver», tal como é manifestada no processo do eu, a
partir das atitudes de numerosos organismos uni celulares que se unem cooperativamente
para criar um organismo. Essa ideia deriva do conceito de união das contribuições celulares:
um grande número de células musculares unem forças, literalmente, ao contrair-se em
simultâneo e produzem uma força superior, individualizável e concentrada.

Este conceito tem gradações curiosas. A especialização dos neurónios relativamente a outras
células corporais tem origem, em grande medida, no facto de os neurónios, a par das células
musculares, serem excitáveis. A excitabilidade é uma propriedade que deriva da membrana
celular em que a permeabilidade local aos iões se pode propagar de região para região ao
longo de um axónio. N. D. Cook sugere que a abertura temporária mas necessariamente
repetida da membrana celular é uma violação do selo quase hermético que protege a vida no
interior do neurónio, e que tal vulnera-

320

bilidade poderia estar relacionada com a criação de um momento de proto sentimento.9

Não estou, de todo, a querer afirmar que é assim que nascem os sentimentos, mas considero
esta linha de investigação merecedora de atenção. Por fim, sublinho que estes conceitos não
devem ser confundidos com a bem conhecida ideia de localizar a origem da consciência ao
nível dos neurónios, graças a efeitos quânticos10

Outra «camada» da resposta para a razão por que os mapas percetuais do corpo são sentidos
apela a um raciocínio evolutivo, Para que os mapas percetuais do corpo sejam eficazes e levem
um organismo a evitar a dor e a procurar o prazer, não só devem ser sentidos, como são
obrigados a produzir um sentimento qualitativamente distinto, diferenciado, específico para a
causa e promotor de uma resposta adequada. A construção neural dos estados de dor e de
prazer terá surgido bem cedo na evolução e desempenhado um papel essencial no seu rumo.
Provavelmente terá derivado da fusão corpo-cérebro que salientei. É de notar que antes do
aparecimento dos sistemas nervosos, os organismos sem cérebro já teriam estados corporais
bem definidos que correspondem necessariamente àquilo que hoje consideramos dor e
prazer. A chegada do sistema nervoso teria representado uma forma de retratar esses estados
com sinais neurais pormenorizados, ao mesmo tempo que se mantinham os aspetos neurais e
corporais estreitamente ligados entre si.

Um aspeto relacionado da resposta aponta para a divisão funcional entre os estados de prazer
e de dor, que estão ligados, respetivamente, a operações de gestão vital ótima e harmónica,
no caso do prazer, e a operações de gestão vital cheias de dificuldades e impedimentos, no
caso da dor. Esses limites extremos da escala estão associados à libertação de moléculas
químicas específicas que têm um efeito sobre o corpo (no metabolismo, na contração
muscular)

321

e sobre o cérebro (onde podem modular o processamento dos mapas percetuais recém-
formados ou recordados). O prazer e a dor devem constituir sentimentos diferentes pois estão
ligados a mapeamentos de estados corporais bastante diversos, tal como um determinado
vermelho é diferente de um certo azul por terem comprimentos de onda diferentes, e a voz de
um soprano é diferente da de um barítono por ter uma frequência sonora mais elevada.
Muitas vezes não se tem em conta que a informação do interior do corpo é transmitida
diretamente ao cérebro por numerosas moléculas químicas que navegam no fluxo sanguíneo e
banham partes do cérebro desprovidas de barreira de proteção contra o sangue,
nomeadamente a área postrema do tronco cerebral e uma série de regiões conhecidas
coletivamente como órgãos circunventriculares. Dizer que as moléculas potencialmente ativas
são «numerosas» não é exagero, já que a lista básica inclui dezenas de exemplos (os
transmissores/moduladores do costume as inevitáveis norepinefrina, dopamina, serotonina,
acetilcolina e ainda uma ampla gama de hormonas, como esteróides e insulina, e finalmente
opiáceos). À medida que o sangue banha estas áreas recetoras, certas moléculas ativam
diretamente os seus neurónios. É assim que, por exemplo, uma molécula tóxica que atue
sobre a área postrema pode levar a uma reação prática como o vómito. Mas nada indica que
os sinais 'que provêm dessas áreas se confinem a reações praticas. Um palpite razoável será
que causem ou modulem sentimentos. As projeções destas regiões têm uma concentração
muito elevada no núcleo do trato solitário, mas disseminam-se para outros núcleos, do tronco
cerebral, hipotálamo e tálamo, e também afetam o córtex cerebral.

Além da questão dos sentimentos, a parte restante do problema dos Qualia II parece mais
acessível. Consideremos os mapas visuais,

322

por exemplo. Os mapas visuais são esboços das propriedades visuais: a forma, a cor, o
movimento e a profundidade do campo visual. A interligação destes mapas é a receita certa
para produzir uma cena visual multidimensional. Se acrescentarmos a esta cena informação
proveniente das portadas dos órgãos sensoriais, especificamente da portada visual, e uma
componente de sentimento, será lícito esperar uma experiência devidamente «qualiada»
daquilo que está a ser visto.

Como já vimos, as alterações nas «portadas dos órgãos sensoriais» desempenham um papel na
criação da perspetiva mas também contribuem para a construção da qualidade percetual.
Como? Por exemplo, conhecemos o som característico do desempenho musical de Yo-Yo Ma e
sabemos onde os mapas sonoros são criados no cérebro, mas ouvimos os sons nos nossos
ouvidos e com os nossos ouvidos. É bastante provável que sintamos os sons nos ouvidos por-
que o cérebro está constantemente a mapear tanto a informação que chega à sonda sensorial
- vinda da cadeia de sinalização auditiva, que inclui a cóclea como dos múltiplos sinais
simultâneos vindos do aparelho que cerca o dispositivo sensorial. No caso da audição, isto
inclui o epitélio que recobre as orelhas e o canal auditivo exterior, a par da membrana
timpânica e dos tecidos que albergam o sistema de ossículos que transmite vibrações
mecânicas à cóclea. A isto devemos acrescentar os movimentos da cabeça e do pescoço que
estamos constantemente a fazer, num esforço automático para adaptar o corpo às fontes
sonoras. Esse é o equivalente auditivo das alterações profundas que ocorrem no globo ocular e
nos músculos e pele circundantes quando decorre o processo de ver e de olhar, o qual
acrescenta uma textura qualitativa às perceções.

A sensação do cheiro, do paladar ou do tato surge através do mesmo tipo de mecanismo. Por
exemplo, a nossa mucos a nasal contém terminações nervosas olfativas que reagem de forma
direta a adaptação de moléculas químicas nos odorantes é assim que mapeamos os odores do
jasmim ou do Chanel n'' 19 para o seu encontro com o nosso eu. Mas onde sentimos o cheiro é
noutras terminações

323
nervosas, da mucosa nasal, aquelas que ficam irritadas quando colocamos demasiado wasabi
no sushi e somos obrigados a espirrar.

Saliente-se, por fim, a existência de projeções que partem do cérebro com destino à periferia
do corpo, incluindo a periferia que contém dispositivos sensoriais especializados. Isso pode
garantir a um processo sensorial como a audição uma versão mais branda daquilo que o arco
tronco cerebral corpo consegue para o sentimento: uma conexão funcional entre o cérebro e o
ponto de partida das cadeias sensoriais da periferia do corpo. Um arco como esse poderá
permitir outro processo reverberante. Os inputs destinados ao cérebro seriam
complementados por outputs destinados à região de onde partiram os sinais, contribuindo
assim para a integração dos mundos interior e exterior. Sabemos que dispositivos como estes
existem de facto, sendo o sistema auditivo um exemplo excelente. A cóclea recebe sinais de
feedback do interior do cérebro, de tal forma que quando esse mecanismo de feedback está
desequilibrado, as células ciliares da cóclea podem emitir tons em vez de os transmitir, como
normalmente deve acontecer. Precisamos de saber mais acerca de tais circuitos.11

Penso que os argumentos que aqui introduzo explicam uma parte considerável do problema,
já que apontam para uma reunião mental de três tipos de mapas: 1) mapas de um sentido
específico criados pelo dispositivo sensorial apropriado, por exemplo visão, audição, olfato,
etc.: 2) mapas da atividade na portada sensorial onde o dispositivo sensorial está implantado
no corpo; e 3) mapas dos sentimentos emocionais relativos aos mapas criados em 1 e 2, ou
seja, reações de tipo Qualia I12

Qualia e o eu

Como se enquadram os Qualia I e os Qualia II no processo do eu? Uma vez que os aspetos de
ambos os qualia completam a cons-

324

trução da mente, eles fazem parte do conteúdo que vem a revelar-se pelo processo do eu. A
construção do eu ilumina a construção da mente. Contudo, talvez paradoxalmente, os Qualia II
são também a base do preto-eu, estando assentes ao mesmo tempo na mente e no eu, numa
transição híbrida. A arquitetura neural que permite os qualia fornece ao cérebro perceções
sentidas, uma sensação de experiência pura. Quando a este processo se junta um protagonista
ao processo, a experiência é reclamada pelo seu recém-criado dono, o eu.

O que ainda falta fazer

Compreender a forma como o cérebro cria a mente consciente é um problema que continua
em aberto continua em aberto. O mistério da consciência continua a ser um mistério, embora
partes do mistério estejam elucidadas. Mas ainda é cedo para admitir a derrota.

As discussões sobre a neurologia da consciência e sobre o problema mente-cérebro são


normalmente subestimadas a dois níveis. Um deles consiste em não se atribuir o devido valor
à vastidão de pormenores da organização do corpo propriamente dito, ao facto de o corpo
estar repleto de microcantos e recantos, ao facto de micromundos de forma e de função
poderem ser revelados ao cérebro, mapeados, e aplicados a uma série de objetivos. O
primeiro e mais provável objetivo desses sinais é regulador o cérebro precisa de receber
informação que descreva o estado dos sistemas corporais para poder montar, de forma
consciente ou não-consciente, uma resposta adequada. Os sentimentos são o resultado óbvio
dessa transmissão de sinais, embora os sentimentos tenham vindo a assumir um papel
preponderante na nossa vida consciente e nas relações sociais. Da mesma forma, é possível,
ou até mesmo provável, que outros processos corporais, alguns já conhecidos, outros ainda
por desce-

325

brir, venham a influenciar a diversos níveis as nossas experiências conscientes.

A outra subestimação prende-se com o cérebro em si. A ideia de que já dominamos o que é o
cérebro e o que ele faz é uma tolice, justificada pelo facto de a cada ano que passa sabermos
mais do que no ano anterior, e muito, muito mais do que há uma década. Problemas que
parecem intoleravelmente complexos e insuportavelmente recônditos irão revelar-se
acessíveis à biologia, não sendo a questão o se, mas o quando.

PARTE IV

Muito depois da consciência

CAPITULO 11

Viver com a consciência

E a consciência vingou

As características e as funções aparecem ou desaparecem na história da vida em função do seu


maior ou menor contributo para o êxito dos organismos vivos. A forma mais direta de explicar
o motivo pelo qual a consciência prevaleceu na evolução e dizer que contribuiu de modo
significativo para a sobrevivência das espécies com ela equipadas. A consciência chegou, viu e
venceu. Floresceu. Parece ter vindo para ficar.

Qual a verdadeira contribuição da consciência? A resposta é uma grande variedade de


vantagens óbvias e não tão óbvias na gestão da vida. Mesmo aos níveis mais básicos, a
consciência apoia a otimização das reações às condições ambientais. As imagens, tal como são
processadas na mente consciente, fornecem pormenores acerca do ambiente, pormenores
esses que podem ser usados para aumen-

330

tar a precisão de uma reação indispensável, como, por exemplo, o movimento preciso que vai
neutralizar uma ameaça ou garantir uma presa. Mas a precisão das imagens é apenas uma
parte das vantagens de uma mente consciente. Imagino que a parte principal da vantagem
advenha do facto de numa mente consciente o processamento das imagens ambientais ser
orientado por um conjunto específico de imagens internas, as do organismo vivo do sujeito, tal
como está representado no eu. O eu focaliza o processo mental, impregna a aventura que é
encontrar outros objetos e ações com uma motivação, inspira a exploração do mundo exterior
ao cérebro com uma preocupação pelo primeiro e mais importante problema enfrentado pelo
organismo: a regulação da vida. Essa preocupação é gerada naturalmente pelo processo do eu,
cuja base reside nos sentimentos corporais, primordiais e modificados. O eu que sente de
forma espontânea e intrínseca, devido à valência e intensidade dos seus estados afetivos,
transmite diretamente o grau de preocupação e de necessidade presentes a cada momento.
À medida que o processo de consciência se foi tornando mais complexo, e com a entrada em
jogo de funções de memória, raciocínio e linguagem que evoluíram a par, foram introduzidos
novos benefícios da consciência. Esses benefícios estão relacionados em grande medida com
planeamento e deliberação. São inúmeras as vantagens nesse domínio. Tornou-se possível
analisar o futuro possível e retardar ou inibir as reações automáticas. A gratificação retardada
é um exemplo desta nova capacidade evolutiva, a troca premeditada de algo que é bom agora,
por algo que será melhor mais tarde ou abandonar algo que é bom agora caso a análise do
futuro sugira que também irá provocar algo de mau. Foi esta a orientação da consciência que
nos trouxe uma gestão mais precisa da homeostase básica e, em última análise, o início da
homeostase sociocultural (à qual regressarei mais à frente neste capítulo).

Há uma profusão de comportamentos conscientes e bastante bem sucedidos em muitas


espécies não humanas dotadas de um

331

cérebro suficientemente complexo; os exemplos estão patentes à nossa volta, e de forma


mais espetacular nos mamíferos. Nos seres humanos, contudo, a consciência alcançou o seu
atual apogeu graças à expansão da memória, raciocínio e linguagem. Sugiro que esse auge se
ficou a dever ao fortalecimento do eu como instrumento de conhecimento e à sua capacidade
de revelar as dificuldades e oportunidades da condição humana. Haverá quem diga que nessa
revelação se encontra a origem de uma perda trágica, nem mais nem menos do que a perda da
inocência, por tudo aquilo que ela nos diz sobre as imperfeições da natureza e o drama que
enfrentamos, por todas as tentações que coloca diante dos nossos olhos, e por todo o mal que
desvenda. Seja como for, a escolha não é nossa. A consciência permitiu, sem dúvida, o
aumento do conhecimento e o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, dois rumos através
dos quais podemos tentar lidar com as dificuldades e oportunidades que nos são reveladas
pelo estado consciente humano.

O eu e o problema do controlo

Qualquer discussão acerca das vantagens da consciência terá de ter em conta dados
crescentes de que, em muitas ocasiões, a execução das nossas ações é controlada por
processos não conscientes. Isso acontece com frequência, em todo o género de situações, e
merece atenção. É notório na execução de aptidões e competências, desde conduzir um
automóvel a tocar um instrumento musical, e está constantemente presente nas nossas
interações sociais.

Os dados de uma participação não-consciente nas nossas ações, sejam eles concretos ou nem
tanto, podem ser facilmente mal interpretados. É fácil minimizar o valor do controlo
consciente auto-orientado quando já foi mostrado, em inúmeras experiências, começando
com as de Benjamin Libet e incluindo as de Dan Wagner

332

e Patrick Haggard, que a nossa impressão subjetiva do momento em que teve início uma ação
ou da sua causa se pode revelar errada.1 É igualmente fácil usar tais factos, a par de dados
vindos da psicologia social, como argumento para a necessidade de rever o conceito
tradicional de responsabilidade humana. Se as nossas ações são influenciadas por fatores
desconhecidos do nosso raciocínio consciente, seremos mesmo responsáveis pelas nossas
ações?
Todavia, a situação é muito menos problemática do que podem levar a crer reações tão
superficiais e injustificadas a descobertas cuja interpretação continua ainda a ser discutida. Em
primeiro lugar, a realidade do processamento não consciente e o facto de este poder
influenciar o nosso comportamento não estão em causa. Mais do que isso, esse controlo não-
consciente é uma realidade bem vinda, da qual retiramos vantagens palpáveis, como veremos.
Em segundo lugar, os processos não-conscientes estão, substancialmente e de várias formas,
sob uma orientação consciente. Por outras palavras, existem dois tipos de controlo das ações,
consciente e não consciente, mas o controlo não-consciente pode ser moldado em parte pelo
controlo longas porque é preciso muito, muito tempo para educar os processos não
conscientes do nosso cérebro e para criar, nesse espaço cerebral não consciente, uma forma
de controlo que possa funcionar, de modo mais ou menos fiável, de acordo com intenções e
objetivos conscientes. Podemos descrever esta educação lenta como um processo de
transferência de parte do controlo consciente para um «server» não consciente, e não a
cedência do controlo consciente às forças inconscientes que podem provocar o caos no
comportamento humano. Patricia Churchland defendeu convincentemente este ponto de
vista.2

A consciência não se desvaloriza pela presença de processos não conscientes. Pelo contrário, o
alcance da consciência é ampliado. Além do mais, e partindo do princípio de que se trata de
um cérebro normal, o nosso grau de responsabilidade por uma ação não é

333

necessariamente diminuído pela presença de uma saudável e firme execução não consciente
de algumas ações.

A relação entre os processos conscientes e não conscientes é, afinal, mais um exemplo das
bizarras parcerias funcionais que surgem como resultado de processos coevolutivos.
Necessariamente, a consciência e o controlo consciente direto das ações surgiram depois de as
mentes não conscientes se terem desenvolvido, passando a dirigir o espetáculo com bons
resultados, embora nem sempre. O espetáculo podia ser melhorado. A consciência atingiu a
maioridade começando por restringir parte dos poderes não-conscientes e explorando-os
depois impiedosamente para que executassem ações pré planeadas e preestabelecidas. Os
processos não conscientes tornaram-se um meio adequado e conveniente para levar a cabo o
comportamento e dar à consciência mais tempo para análise das situações e planeamento do
futuro.

Quando vamos a pé para casa a pensar na solução de um problema e não no caminho que
estamos a seguir, e mesmo assim chegamos a casa sãos e salvos, isso significa que aceitámos
os benefícios de uma competência não-consciente adquirida graças a inúmeros exercícios
conscientes anteriores, ao longo de uma curva de aprendizagem. Enquanto caminhávamos em
direção a nossa casa, a nossa consciência precisou apenas de controlar o objetivo geral da
viagem. O remanescente dos nossos processos conscientes estava disponível para um uso
criativo.

O mesmo em boa parte se aplica ao comportamento profissional dos músicos e dos atletas. O
seu processamento mental está concentrado nos objetivos a alcançar, em determinadas
marcas a atingir em determinadas épocas, em evitar perigos na execução e em detetar
circunstância imprevistas. O resto é prática, prática, prática, a segunda natureza que nos pode
levar até Carnegie Hall.

Por fim, a inter-relação cooperativa entre consciente e inconsciente também se aplica na


íntegra aos comportamentos morais. Estes são um conjunto de competências adquiridas ao
longo de práticas

334

repetidas e ao longo de vastos períodos de tempo, com informação assente em princípios e


motivos articulados de forma consciente, mas sendo em tudo o mais uma «segunda natureza»
colocada no inconsciente cognitivo.

Em conclusão, aquilo a que nos referimos como deliberação consciente pouco tem a ver com a
capacidade de controlar ações no momento, e tem tudo a ver com a capacidade de planear e
decidir quais as ações que queremos ou não levar a cabo. A deliberação consciente prende-se,
em grande medida, com decisões tomadas no decurso de longos períodos de tempo, dias ou
semanas no caso de algumas decisões, e raramente menos de minutos ou segundos. Não tem
a ver com decisões tomadas em frações de segundo. O senso comum considera as escolhas
instantâneas como «irrefletidas» e «automáticas»." A deliberação consciente tem a ver com a
reflexão ponderada. Aplicamos a reflexão e o conhecimento quando decidimos questões
importantes da nossa vida. Usamos a deliberação consciente para reger os nossos amores e
amizades, a nossa educação, as nossas atividades profissionais, as nossas relações com os
outros. As decisões respeitantes ao comportamento moral, definido estritamente ou de forma
lata, implicam uma deliberação consciente e têm lugar no decurso de períodos de tempo
prolongados. Mais do que isso, tais decisões são processadas num espaço mental autónomo
que se sobrepõe à perceção externa. O sujeito no centro das deliberações conscientes, o eu
encarregue da avaliação do futuro, está muitas vezes alheio à perceção externa, não prestando
atenção aos seus caprichos. E em termos de fisiologia cerebral há um bom motivo para esse
alheamento: como já vimos, o espaço cerebral de processamento de imagens corresponde à
soma dos córtices sensoriais iniciais; esse mesmo espaço tem de ser partilhado pelos
processos de reflexão consciente e pela perceção direta; dificilmente estará à altura da tarefa
de lidar com ambos, sem ter que favorecer um ou outro.

A deliberação consciente, sob a orientação de um eu saudável, assente numa autobiografia


organizada e numa identidade defi-

335

nida, é uma consequência relevante da consciência, exatamente o tipo de conquista que


contraria a noção de que a consciência é um epifenómeno inútil, um elemento decorativo sem
o qual o cérebro se ocuparia da gestão vital com a mesma eficácia e sem os incómodos. Não
podemos gerir a nossa forma de vida, nos ambientes físicos e sociais que se tornaram os
habitats humanos, sem uma deliberação refletida e consciente. Também acontece, todavia,
que os produtos da deliberação consciente são significativamente limitados por uma vasta
legião de predisposições não conscientes, algumas impostas a nível biológico, outras
adquiridas culturalmente, e que o controlo não consciente da ação é igualmente um aspeto a
ter em conta.

Mesmo assim, a maioria das decisões importantes são tomadas muito antes do momento da
execução, na mente consciente, na altura em que é possível simulá-las e testá-las, e onde o
controlo consciente possibilita, potencialmente, minimizar o efeito das predisposições não-
conscientes. O exercício das decisões pode acabar por ser convertido numa competência com
a ajuda do processamento mental não consciente, as operações ocultas da mente em questões
de conhecimento geral e raciocínio que são muitas vezes referidas como inconsciente
cognitivo. As decisões conscientes começam com a reflexão, a simulação e a experimentação
na mente consciente; esse processo pode ser completado e ensaiado na mente não-
consciente, a partir da qual podem ser levadas a cabo ações recém-escolhidas. Tanto os
componentes conscientes como os não conscientes deste frágil e complexo dispositivo de
decisão e execução podem descarrilar devido aos mecanismos dos apetites e dos desejos, caso
onde um veto de último recurso não será, provavelmente, eficaz. Os vetos instantâneos
recordam-nos uma conhecida recomendação no problema da dependência das drogas: «Basta
dizer não.» Esta estratégia poderá ser adequada quando temos de evitar um movimento
inócuo do dedo, mas não quando é preciso deter uma ação impulsionada por um desejo ou
apetite

336

fortes, do exato tipo que surge em qualquer dependência de drogas, álcool, alimentos
sedutores ou sexo. A negação bem sucedida exige uma demorada preparação consciente.

Um aparte sobre o inconsciente

Graças ao facto de o nosso cérebro ter conseguido combinar a nova orientação tornada
possível pela consciência com a antiga orientação que consistia numa regulação inconsciente e
automática, os processos cerebrais não-conscientes estão à altura das tarefas que terão de
executar em nome das decisões conscientes. Podem ser coligidos alguns dados úteis a partir
de um estudo notável levado a cabo pelo psicólogo holandês Ap Dijksterhuis.4 Para melhor
apreciarmos a importância dos resultados teremos de descrever o contexto. Dijksterhuis pediu
aos participantes normais da sua experiência que tomassem decisões de compra em duas
condições diferentes. Numa das condições, os participantes serviam-se, em grande medida, de
deliberação consciente; na outra, os participantes não podiam deliberar de forma consciente
devido a uma distração induzida experimentalmente.

Havia dois tipos de artigos para aquisição. Um deles consistia em artigos domésticos banais,
como torradeiras e toalhas; o outro era composto por artigos dispendiosos, como carros ou
casas. Em ambos os tipos de artigos, o participante recebia informação ampla quanto às
vantagens e desvantagens de cada artigo, onde se incluía o preço. Essa informação seria útil
quando fosse pedido ao participante que escolhesse o «melhor» artigo a comprar. No entanto,
chegada a altura de tomar a decisão, Dijksterhuis autorizou que alguns sujeitos analisassem a
informação sobre o artigo durante três minutos, antes de escolherem, ao passo que negou
esse privilégio aos outros e os manteve distraídos durante esses três minutos. Os participan-
tes foram testados em ambas as condições, tanto com artigos triviais

337

como de luxo, com uma análise atenta de três minutos ou com uma distração.

Qual seria a previsão do leitor quanto à qualidade das decisões? Uma previsão absolutamente
razoável seria a seguinte: quanto aos artigos domésticos triviais, os sujeitos fariam uma boa
escolha quer com uma deliberação consciente, quer inconsciente, dada a reduzida importância
e complexidade do problema. Mesmo quando se é obsessivo, decidir entre duas torradeiras
não é nada do outro mundo. Porém, no que respeita aos artigos dispendiosos por exemplo,
qual o automóvel de quatro portas a comprar seria de esperar que os participantes a quem foi
permitido analisar a informação tomassem as melhores decisões.

Os resultados foram surpreendentemente diferentes destas previsões. As decisões tomadas


sem uma pré-deliberação consciente revelaram-se de longe mais acertadas para ambos os
tipos de artigos, mas em particular para os dispendiosos. A conclusão superficial é a seguinte:
se vamos comprar um carro ou uma casa, convém termos informação, mas não é preciso dar
voltas à cabeça com tabulações minuciosas de todas as possíveis vantagens e desvantagens.
Temos de avançar. Lá se vai a glória da deliberação consciente.

Escusado será dizer que um resultado curioso como este não deverá desencorajar ninguém
quanto à deliberação consciente. Ele sugere, isso sim, que os processos não conscientes têm
capacidade para algum tipo de raciocínio, muito mais do que regra geral se julga, e que esse
raciocínio, depois de devidamente treinado pela experiência passada e quando o tempo é
escasso, pode conduzir a decisões benéficas. Nas circunstâncias da experiência, a ponderação
cuidada e consciente que se verifica, em especial quanto aos artigos dispendiosos, não leva ao
melhor dos resultados. O elevado número de variantes a considerar e o espaço limitado de
raciocínio consciente condicionado pelo número restrito de artigos que podem receber
atenção em qualquer momento reduzem a probabilidade de proceder à melhor escolha, dado
o limite da janela temporal. O espaço não consciente,

338

pelo contrário, apresenta uma capacidade bastante maior. Pode reter e manipular muitas
variantes, levando potencialmente à melhor escolha num curto intervalo de tempo.

Além daquilo que nos diz quanto ao processamento não consciente em geral, o estudo de
Dijksterhius aponta para outras questões importantes. Uma tem a ver com a quantidade de
tempo necessária para uma tomada de decisão. Talvez o leitor conseguisse escolher o melhor
de todos os restaurantes para esta noite se dispusesse de toda a tarde para analisar as mais
recentes críticas gastronómicas, o custo dos pratos nas ementas e a localização, e comparar
tudo isso com as suas preferências, o seu estado de espírito e o estado da sua conta bancária.
Mas não dispõe da tarde toda. Cada minuto conta e apenas poderá atribuir á decisão uma
quantidade de tempo «razoável». É claro que a razoabilidade depende da importância do
assunto sobre o qual irá decidir. Uma vez que o leitor não dispõe de todo o tempo do mundo e
em vez de fazer um investimento enorme em cálculos massivos, impõem-se alguns atalhos. E a
boa notícia é que os registos emocionais passados o vão ajudar quanto aos atalhos, e que o
nosso inconsciente cognitivo é uma bom fornecedor de pistas úteis.

Tudo isto serve para dizer que gosto bastante do conceito de que o nosso inconsciente
cognitivo é capaz de raciocinar e tem um maior «espaço» para as operações do que o seu
homólogo consciente. Contudo, um elemento crítico para a explicação destes resultados tem a
ver com a anterior experiência emocional do participante em relação a artigos semelhantes. O
espaço não-consciente é vasto e adequado a esta manipulação encoberta, mas funciona a
nosso favor, pois certas opções estão assinaladas de forma não consciente por uma
predisposição ligada a fatores emocionais/sentimentais anteriormente adquiridos. Acredito
que as conclusões acerca dos méritos da inconsciência estejam corretas, mas sugiro que a
nossa noção quanto ao que se passa abaixo da superfície vítrea da consciência seja
enriquecida com a inclusão da emoção e do sentimento no processo não consciente.
339

A experiência de Dijksterhuis ilustra a combinação dos poderes conscientes e inconscientes. O


processamento inconsciente só por si não poderia dar conta do recado. Nestas experiências os
processos inconscientes levam a cabo muito do trabalho, mas os seus participantes
beneficiaram de anos de deliberação consciente ao longo dos quais os seus processos não
conscientes foram repetidamente treinados. Além disso, enquanto os processos não
conscientes tratam dos seus assuntos, os participantes, claro está, permanecem plenamente
conscientes. Os pacientes inconscientes sob o efeito de anestesia ou em estado de coma não
tomam quaisquer decisões acerca do mundo real, tal como também não desfrutam de sexo.
Mais uma vez, é a feliz sinergia entre os níveis ocultos e os expostos do processo que leva a
melhor. Vamos beber ao inconsciente cognitivo com bastante regularidade, ao longo do dia, e
delegamos discretamente na sua perícia uma série de tarefas, entre elas a execução de certas
reações.

Delegação da perícia no espaço não-consciente é o que fazemos quando apuramos uma


competência a tal ponto que deixamos de ter noção dos passos técnicos necessários para
sermos competentes. Desenvolvemos as competências à luz brilhante da consciência, mas
depois enterramo-las na cave espaçosa da nossa mente, onde não atravancam os exíguos
metros quadrados do nosso espaço de reflexão consciente.

A experiência de Dijksterhuis revigora uma pesquisa que se vem desenvolvendo relativamente


ao papel das influências não conscientes nas tarefas de decisão. No início desse trabalho, o
nosso grupo de investigação apresentara indícios decisivos quanto a esse aspeto.5 Mostramos,
por exemplo, que quando participantes normais estão a jogar um jogo de cartas que envolva
ganhos e perdas em condições de risco e de incerteza, os jogadores começam a adotar uma
estratégia vencedora um pouco antes de serem capazes de explicar porque o estão a fazer.
Alguns minutos antes da adoção da estratégia vantajosa, o cérebro dos sujeitos produz
reações psicofisiológicas diferenciais sempre que ponderam retirar uma carta de um dos
baralhos maus, aqueles que

340

levam a perdas, ao passo que a perspetiva de retirar uma carta de um baralho bom não origina
tais reações. A beleza do resultado reside no facto de as reações psicofisiológicas, que no
estudo original foram medidas através da condutância da pele, não serem percetíveis nem
pelo sujeito, nem por quem o observe. Elas têm lugar abaixo do radar da consciência do
participante, de forma tão subtil como o deslize comportamental na direção da estratégia
vencedora.6

O que se passa não é ainda totalmente claro, mas seja o que for, não exige a presença da
consciência a cada momento. Talvez que o equivalente não consciente de um pressentimento
consciente «dê um safanão» ao processo de tomada de decisão, por assim dizer, influenciando
o cálculo não consciente e evitando a escolha errada. É muito provável que exista um
importante processo de raciocínio não-consciente na mente subterrânea, e esse raciocínio
produz resultados sem que os passos intervenientes sejam conhecidos. Seja qual for o
processo, ele produz o equivalente a uma intuição sem o reconhecimento súbito de que a
solução chegou, apenas com a apresentação discreta da solução.

Os dados do processamento não-consciente têm continuado a aumentar de forma incessante.


As nossas decisões económicas não são orientadas por racionalidade pura, sendo
significativamente influenciadas por predisposições fortes, tais como a aversão às perdas e o
prazer com os ganhos.7 A forma como interagimos com os outros é influenciada por uma vasta
legião de predisposições que têm a ver com sexo, raça, gestos, idiossincrasias e traje. O
cenário da interação acarreta o seu próprio conjunto de predisposições, ligadas à familiaridade
e aos planos. As preocupações e as emoções que sentíamos antes da interação também
desempenham um papel importante, tal como a hora do dia: temos fome? Estamos saciados?
Expressamos ou denotamos sinais indiretos de preferência por rostos humanos a uma
velocidade estonteante, sem termos tempo de processar conscientemente os dados que
corroborariam uma inferência racional correspondente, mais uma razão para sermos
especialmente cuida-

341

dosas com as decisões importantes na nossa vida pessoal e cívica.8 Não há qualquer problema
em deixar que a influência inconsciente da emoção passada nos oriente a escolha de uma
casa, desde que paremos para refletir com cuidado sobre aquilo que o inconsciente nos está a
oferecer como opção antes de assinarmos o contrato. Podemos concluir que a escolha não é
válida, com base na reavaliação dos dados, independentemente da forma como julgámos a
situação a nível intuitivo, porque, por exemplo, as nossas experiências passadas nesse domínio
são atípicas, tendenciosas ou insuficientes. Isso torna-se ainda mais importante se estivermos
a votar numa eleição ou como jurados. Um dos maiores problemas enfrentados pelos votantes
em eleições políticas e em julgamentos nos tribunais é a força dos fatores emocionais não-
conscientes. O poder dos fatores emocionais e não conscientes é reconhecido a ial ponto que
ao longo das últimas décadas se desenvolveu uma maquinaria monstruosa de influência
eleitoral, a par de métodos menos conhecidos, mas muito sofisticados, de influência na
seleção de jurados.

Reflexão e reavaliação, confirmação de factos e reconsideração são essenciais. Eis uma bela
ocasião para dedicar mais algum tempo a decisão, de preferência antes de entrar na cabina de
voto ou de entregar o seu voto ao presidente do júri.

Todas as descobertas discutidas acima exemplificam situações em que as influências não-


conscientes, emocionais ou não, e o raciocínio não consciente influenciam marcadamente o
resultado de uma tarefa. No entanto, os participantes estão perfeitamente conscientes
quando lhes são dadas a conhecer as premissas da tarefa, bem como na altura da tomada de
decisão, e são informados dos resultados das suas ações. Torna-se claro que estes são
exemplos de componentes não conscientes de decisões de outra forma conscientes.
Permitem-nos vislumbrar a complexidade e variedade dos mecanismos por trás da fachada do
controlo consciente alegadamente perfeito, mas não negam o nosso poder deliberativo e não
nos exoneram da responsabilidade pelas nossas ações.

342

Uma nota sobre o inconsciente genómico

Impõe-se uma breve nota acerca do inconsciente genómico, uma das forças ocultas que a
deliberação consciente tem de enfrentar. A que me refiro quando falo em inconsciente
genómico? Muito simplesmente, ao número colossal de instruções contidas no nosso genoma
e que orientam a construção do organismo com as características distintivas do nosso
fenótipo, tanto no corpo em si como no cérebro, e apoiam o funcionamento do organismo. O
esquema básico dos nossos circuitos cerebrais é formulado pelo genoma e esse esquema
básico contém o primeiro repertório de conhecimentos não-conscientes com que o nosso
organismo pode ser dirigido. Esse conhecimento tem a ver, em primeiro lugar e acima de tudo,
com a regulação vital, questões de vida e morte, e de reprodução; contudo, devido
precisamente à centralidade dessas questões, o esquema promove uma série de
comportamentos que podem aparentar ser decididos pela cognição consciente, mas que são,
na verdade, impulsionados por disposições não conscientes. As preferências espontâneas que
manifestamos logo desde o início da vida, quanto a comida e bebida, companheiros e habitats,
são impulsionadas em parte pelo inconsciente genómico, embora possam ser adaptadas e
modificadas pela experiência individual ao longo de todo o desenvolvimento.

A psicologia reconheceu desde há muito a existência de bases inconscientes do


comportamento e tem vindo a estudá-las no âmbito do instinto, dos comportamentos
automáticos, dos impulsos e motivações. O que mudou recentemente foi a noção de que o
aparecimento precoce de tais disposições no cérebro humano se efetua sob uma influência
genética considerável e que, não obstante todas as configurações e remodelações que
sofremos enquanto indivíduos conscientes, a abrangência temática dessas disposições é vasta
e a sua difusão espantosa. Isto é especialmente notável em relação a algumas das disposições
sobre as quais fo-

343

ram edificadas as estruturas culturais. a inconsciente genético teve uma palavra a dizer na
configuração inicial das artes, desde a música e a pintura à poesia. Teve algo a ver com a
estruturação primordial do espaço social, incluindo as suas convenções e regras. Teve algo a
ver, tal como Freud e Jung certamente pressentiram, com muitos aspetos da sexualidade
humana. Teve um grande contributo nas narrativas fundamentais da religião e nos enredos
perenes de peças teatrais e romances, os quais giram, em grande medida, em torno da força
dos programas emocionais inspirados pelo genoma. São os ciúmes cegos, imunes ao bom
senso, às provas concretas e à razão que levam Otelo a matar a absolutamente inocente
Desdémona, e Karenin a punir a adúltera Anna Karenina. A malevolência colossal de lago não
teria sido provavelmente bem sucedida não fosse a vulnerabilidade natural de Otelo aos
ciúmes. A assimetria cognitiva da sexualidade nos homens e nas mulheres, da dos no nosso
genoma, espreita por trás do comportamento destes personagens, mantendo-os sempre
modernos. A intensa agressividade masculina de Aquiles, Heitor e Ulisses encontra-se também
profundamente enraizada no inconsciente genético. a mesmo se pode dizer de dois
personagens, Édipo e Hamlet, destruídos quer pela quebra do tabu do incesto, quer pela
inclinação latente para o quebrar. A interpretação freudiana destes personagens intemporais
funde-se com as suas origens evolutivas, apontando para características extremamente
frequentes da natureza humana. a teatro e o romance, bem como o cinema, o seu herdeiro do
século XX, beneficiaram em muito do inconsciente genómico. a inconsciente genómico é em
parte responsável pela uniformidade que marca uma grande parte do repertório de comporta-
mentos humanos. Que extraordinário é, então, que nos afastemos constantemente das
universalidades monótonas e, em vez disso, através da arte ou da pura magia de um encontro
humano, criemos um conjunto infinito de variações que nos maravilha e espanta.

344

A sensação de vontade consciente

Com que frequência somos guiados por um inconsciente cognitivo bem ensaiado, treinado
sob a supervisão da reflexão consciente para cumprir os ideais, anseios e planos concebidos
conscientemente? Com que frequência somos guiados por predisposições, apetites e desejos
biologicamente antigos, enraizados bem fundo e inconscientes? Imagino que a maioria de nós,
pecadores fracos mas bem-intencionados, se regule por ambos os registos, ora mais por um,
ora mais por outro, dependendo da situação e da hora do dia.

Seja qual for o registo em que funcionemos, mais virtuoso ou menos virtuoso, a atuação no
«momento» é inevitavelmente acompanhada pela impressão, umas vezes falsa, outras vezes
não, de que atuámos aí e naquele momento, com pleno controlo consciente. O nosso eu
mergulhou de cabeça no que quer que tenhamos feito. Essa impressão é ela mesmo um
sentimento, um sentimento que surge quando o nosso organismo se envolve numa nova
perceção ou inicia uma nova ação, nada mais, nada menos do que o sentimento de
conhecimento que analisei anteriormente como parte integrante do eu unificado. Dan Wegner
é alguém que partilha esta ideia e que descreve a vontade consciente como sendo «o
marcador somático da autoria pessoal, uma emoção que autentica o dono da ação como
sendo o eu. Com o sentimento de termos realizado uma ação obtemos uma sensação de
vontade consciente ligada à ação».9 Por outras palavras, não somos meros «autómatos
conscientes», como nos considerou T. H. Huxley há um século, incapazes de controlarmos a
nossa existência.10 Quando a mente é informada das ações levadas a cabo pelo nosso
organismo, o sentimento associado à informação significa que as ações foram criadas pelo
nosso eu. Tanto a informação como a autenticação das ações decorrentes são essenciais para
motivar a deliberação de ações futuras. Sem esse tipo de informação sentida e motivada, não
seríamos capazes de assumir a responsabilidade moral pelas ações levadas a cabo pelo nosso
organismo.

345

Educar o inconsciente cognitivo

Um maior controlo sobre os caprichos do comportamento humano só poderá advir de uma


acumulação de conhecimento e da análise dos factos descobertos. Dedicar tempo a analisar
factos, a avaliar o resultado de decisões e a ponderar os desenlaces emocionais dessas
decisões é o melhor caminho a tomar para construir o guia prático também conhecido como
sabedoria. Com base na sabedoria podemos deliberar e ter a esperança de orientar o nosso
comportamento de acordo com a estrutura das convenções culturais e das regras éticas que
formaram a nossa biografia e o mundo em que vivemos. Podemos também reagir a essas
convenções e regras, enfrentar o conflito que é desencadeado quando discordamos delas, e
até mesmo tentar modificá-las. Um bom exemplo é o conflito enfrentado pelos objetores de
consciência.

Não menos importante é tomar nota da peculiar barreira enfrentada pelas nossas decisões
deliberadas de forma consciente têm de encontrar maneira de chegar ao inconsciente
cognitivo para se disseminarem pela maquinaria da ação e é necessário facilitarmos essa
influência. Uma forma de transpor a barreira seria o intenso ensaio consciente dos
procedimentos e das ações que desejamos ver realizados de forma não consciente, um
processo de prática repetida que tem como resultado o domínio de uma competência de
desempenho, num programa de ação psicológico composto conscientemente mas que é
subsequente mente ocultado.

Não estou aqui a inventar nada de novo, mas sim a esquematizar um mecanismo prático
deduzido a partir daquilo que presumo serem as operações neurais de decisão e de ação.
Durante milénios, chefes sagazes optaram por uma solução semelhante ao pedirem aos seus
seguidores que observassem rituais disciplinados cujo efeito secundário terá sido uma
imposição gradual de decisões tomadas conscientemente sobre processos de ação não
conscientes. Não admira que muitas vezes esses rituais envolvessem a criação de emoções
exaltadas, até mes-

346

mo dor, um modo de gravar o mecanismo desejado na mente humana. No entanto, aquilo que
estou a imaginar vai muito além dos rituais religiosos e cívicos, englobando questões da vida
diária ligadas a diversas áreas. Estou a pensar, especificamente, em questões de saúde e de
comportamento social. Os nossos conhecimentos insuficientes sobre os processos não
conscientes talvez expliquem, por exemplo, o motivo por que muitos de nós falham por
completo quando se trata de fazer o que supostamente deveria ser feito em relação à dieta e
ao exercício. Pensamos ter o controlo, mas é frequente não o termos, como o comprovam as
epidemias de obesidade, hipertensão e doenças cardíacas. A nossa constituição biológica leva-
nos a consumir o que não devemos, mas o mesmo pode ser dito das tradições culturais que se
foram inspirar nessa constituição biológica e que foram moldadas por ela, e mesmo da
indústria da publicidade que a explora. Não se trata de uma conspiração. É natural que assim
seja. Talvez este seja um bom sítio para a criação ritualizada de competências, se é isso que de
facto necessitamos.

O mesmo se aplica à epidemia da dependência das drogas. Um motivo para tantos indivíduos
ficarem dependentes de drogas de todos os tipos, já para não falar do álcool, tem a ver com as
pressões da homeostase. Ao longo de um dia normal acabamos por deparar com frustrações,
ansiedades e dificuldades que desequilibram a homeostase e que consequentemente nos
fazem sentir mal, talvez angustiados, desencorajados ou tristes. Um dos efeitos dessas
substâncias é a recuperação rápida, e, é claro, efémera, do equilíbrio perdido. Como o fazem?
Julgo que alterem a imagem sentida que o cérebro estará a formar do corpo. O estado
homeostático desequilibrado é representado a nível neural como uma paisagem corporal
obstruída e problemática. Após determinadas doses de certas drogas, o cérebro representa
um organismo a funcionar de modo mais satisfatório. O sofrimento correspondente à imagem
que antes se sentiu transforma-se em prazer temporário. O sistema cerebral do apetite foi
raptado pelas drogas, por assim dizer, e o resultado acaba por não ser exatamente o deseja-

347

do reequilíbrio da homeostase, ou, pelo menos, não por muito tempo. Mesmo assim, rejeitar a
possibilidade de uma correção rápida do sofrimento exige um esforço enorme, mesmo para
quem saiba que essa correção é efémera e que as consequências da escolha podem ser
nefastas. Na estrutura que esbocei existe uma razão óbvia para este estado de coisas. A
exigência homeostática não-consciente detém o controlo natural e apenas pode ser
contrariada por uma força oposta poderosa e bem treinada. Espinosa parece ter tido a ideia
certa, quando disse que uma emoção com consequências negativas só poderia ser contrariada
por outra emoção mais poderosa. O que isto significa talvez é que o simples treino do processo
não consciente para uma recusa delicada e com boas maneiras dificilmente será a solução. O
dispositivo não consciente tem de ser treinado pela mente consciente para desferir um
contragolpe emocional.

Cérebro e justiça
As conceções biológicas do controlo consciente e inconsciente são relevantes no que respeita
à forma como vivemos e, em particular, à forma como deveríamos viver. No entanto, essa
relevância tem talvez o seu expoente máximo nas questões ligadas ao comportamento social
especificamente ao sector do comportamento social conhecido como comportamento moral e
à quebra dos pactos sociais codificados nas leis.

A civilização, e em especial o aspeto civilizacional que tem a ver com a justiça, gira em torno da
noção de que os seres humanos são conscientes de uma forma distinta da dos animais. Em
geral, as culturas desenvolveram sistemas de justiça que empregam uma abordagem de senso
comum às complexidades de decisão e visam proteger as sociedades daqueles que violam as
leis estabelecidas. Compreensivelmente, e com raras exceções, o peso atribuído aos dados
provenientes da neurociência e da ciência cognitiva não são significativos.

348

Há agora um receio crescente de que os dados relativos ao funcionamento do cérebro, à


medida que vão sendo mais conhecidos, possam minar a aplicação das leis, algo que os
sistemas legais, de um modo geral, têm evitado, não tomando em consideração esses mesmos
dados. A resposta deverá, no entanto, ter gradações. O facto de todos os indivíduos capazes
de adquirir conhecimentos serem responsáveis pelas suas ações não significa que a
neurobiologia da consciência seja irrelevante para o processo de justiça, nem para o processo
educativo encarregue da preparação dos adultos do futuro para uma existência socialmente
bem adaptada. Pelo contrário, os juízes, os advogados, os legisladores e os educadores devem
familiarizar-se com a neurobiologia da consciência e da tomada de decisões, uma maneira de
promover a redação de leis realistas e de preparar as gerações futuras para o controlo
responsável das suas ações.

Em certos casos de disfunção cerebral, mesmo a deliberação mais bem exercida poderá não
conseguir suplantar quer as forças não-conscientes, quer as conscientes, não importa quais.
Ainda mal começámos a vislumbrar o perfil desses casos, mas já sabemos, por exemplo, que os
pacientes com certos tipos de lesões pré-frontais podem ser incapazes de controlar a sua
impulsividade. A forma como esses indivíduos controlam as suas ações não é normal. Como
deverão ser julgados quando caírem sob a alçada da justiça? Como criminosos ou como
pacientes neurológicos? Talvez das duas maneiras, diria eu. A sua doença neurológica não
deverá, de modo algum, ser uma desculpa para as suas ações, mesmo que possa explicar
aspetos de um crime. Explicar não é desculpar. Mas se apresentam uma enfermidade
neurológica, passam a ser doentes e a sociedade terá de lidar com eles nessa conformidade. A
tragédia atual é o facto de estarmos ainda a começar a entender estas face tas das doenças
neurológicas e de termos muito pouco a oferecer em termos de tratamento. Porém, isso não
pode, de forma alguma, limitar a responsabilidade da sociedade quanto à compreensão e ao
debate público do conhecimento

349

disponível, nem invalida a necessidade de mais pesquisas sobre o problema.11

Alguns outros pacientes, em que as lesões pré-frontais se concentram no sector ventromedial,


avaliam os hipotéticos dilemas morais de uma forma muito prática e utilitária que de pouco ou
nada se serve dos melhores anjos do espírito humano. E quando esses pacientes são
confrontados com um caso hipotético de tentativa de homicídio que não resulte em morte
apesar da intenção criminosa, não avaliam a situação como sendo significativamente diferente
da de uma morte acidental e não premeditada. Na realidade, podem até considerar um crime
premeditado mas falhado como mais tolerável.12 A forma como esses indivíduos encaram os
motivos, as intenções e as consequências não é de todo convencional, mesmo que no seu dia-
a-dia não façam mal a uma mosca. Ainda temos muito a aprender sobre o modo como o
cérebro humano processa a avaliação do comportamento e controla as ações.

Natureza e cultura

A história da vida tem a forma de uma árvore com inúmeros ramos, cada um levando a uma
espécie diferente. Mesmo as espécies que não se encontram na extremidade de um ramo alto
podem ser extremamente inteligentes no âmbito da sua vizinhança zoológica. As suas
conquistas devem ser avaliadas em função dessa vizinhança. Mesmo assim, quando vemos a
árvore da vida de longe, não podemos deixar de reconhecer que os organismos evoluem do
mais simples para o mais complexo. Nessa perspetiva, é lícito interrogarmo-nos sobre o
momento em que surgiu a consciência na história da vida. Ao examinarmos a evolução
biológica como uma marcha espontânea pela árvore da vida acima, a resposta mais lógica será
que a consciência surgiu bastante tarde, numa posição elevada da árvore. Não há sinais de
consciência na sopa primordial,

350

nem nas bactérias, nos organismos unicelulares ou multicelulares simples, nos fungos ou nas
plantas, todos eles organismos interessantes que exibem dispositivos elaborados de regulação
vital, precisamente os dispositivos cujas conquistas a consciência virá a aprimorar mais tarde.
Nenhum destes organismos tem um cérebro, e muito menos uma mente. Na ausência de
neurónios, o comportamento é limitado e a mente não é possível, e não havendo mente, não
há consciência na verdadeira aceção do termo, apenas precursores da consciência.

Com o aparecimento dos neurónios, a vida altera-se de uma forma notável. Os neurónios
surgem como uma variação sobre o tema das outras células corporais. Têm os mesmos
componentes que as outras células, tratam dos seus assuntos da mesma forma e, no entanto,
são especiais. Os neurónios tornam-se em transportadores de sinais, dispositivos de
processamento com a capacidade de transmitir mensagens e de as receber. Em virtude dessas
capacidades de transmissão de informação, os neurónios organizam-se em circuitos e redes
complexas. Por sua vez, os circuitos e as redes representam acontecimentos que ocorrem em
outras células e, de forma direta ou indireta, influenciam o funcionamento de outras células, e
até mesmo o seu próprio funcionamento. Os neurónios ocupam-se por completo das outras
células do corpo, embora não percam o estatuto de célula corporal só por haverem adquirido
a capacidade de transmitir sinais electroquimicamente, enviar esses sinais para uma série de
destinos no organismo, e criar circuitos e sistemas de uma enorme complexidade. São células
corporais, profundamente dependentes de nutrientes, tal como todas as células do corpo, que
se distinguem, acima de tudo, pela sua capacidade de fazer coisas que as outras células não
conseguem fazer, e determinadas a viver muito, se possível tanto quanto os seus
proprietários. Julgo que a separação cérebro-corpo tem sido exagerada, já que os neurónios
que compõem o cérebro são células corporais, algo que tem uma estreita relação com a
maneira como encaramos o problema corpo-mente.

351
Assim que os neurónios se instalam, no interior de organismos dotados de movimento, a vida
altera-se de uma forma que a natureza negou às plantas. Tem início uma inexorável
progressão de complexidade funcional, desde comportamentos cada vez mais elaborados até
à mente e, eventualmente, à consciência. Um segredo subjacente a esta complexificação
torna-se agora claro. Tem a ver tanto com o número de neurónios disponível num dado
organismo, como, o que não é menos importante, com os padrões em que os neurónios se
organizam, em circuitos de escalas cada vez maiores, ascendendo até às regiões cerebrais
macroscópicas que formam sistemas com articulações funcionais complexas. O significado
funcional do número de neurónios e dos seus padrões de organização é a razão pelo qual não
é possível abordar os problemas do comportamento e da mente exclusivamente com base na
investigação dos neurónios isolados, ou das moléculas que agem sobre eles, ou dos genes
envolvidos na gestão da sua vida. O estudo dos neurónios isolados, dos microcircuitos, e das
moléculas e dos genes é indispensável para se compreender o problema de forma abrangente.
A mente e o comportamento dos macacos e dos seres humanos são tão diferentes devido ao
número de elementos cerebrais e ao padrão organizador desses elementos.

Os sistemas nervosos desenvolveram-se como gestores da vida e curadores do valor biológico,


apoiados de início por disposições inatas, mas posteriormente por imagens, ou seja, por
mentes. O aparecimento da mente produziu melhorias espetaculares na regulação da vida de
numerosas espécies, mesmo quando as imagens mais não eram do que esboços e não
permaneciam para além do momento percetual, desaparecendo rapidamente. O cérebro dos
insetos sociais é um bom exemplo dessas conquistas, com uma espantosa sofisticação e, não
obstante, uma relativa inflexibilidade, vulneráveis às interrupções das

352

suas sequências comportamentais e incapazes de reter representações num espaço de


memória funcional temporário. O comportamento baseado na mente tornou-se muito
complexo em numerosas espécies não-humanas, mas é possível que a flexibilidade e a
criatividade que distinguem o desempenho humano não pudessem surgir apenas de uma
mente genérica. A mente teve de ser protagonizada, teve de ser enriquecida pelo processo do
eu que iria surgir no seu âmago.

Assim que o eu chega à mente, o jogo da vida altera-se, embora timidamente ao início. As
imagens dos mundos interno e externo passam a ser organizadas de forma coesa em torno do
proto eu e passam a orientar-se pelas exigências homeostáticas do organismo. É então que os
dispositivos de recompensa e de castigo, impulsos e motivações, que desde as primeiras fases
da evolução haviam moldado o processo da vida, ajudam o desenvolvimento das emoções
complexas. A inteligência social começa então a ser flexível. A eventual presença do eu nuclear
é seguida por uma expansão do espaço de processamento mental, da memória convencional e
da recordação, da memória de trabalho e do raciocínio. A regulação vital concentra-se num
indivíduo cada vez mais bem definido. O eu autobiográfico acaba por surgir, e com a sua
chegada a regulação vital altera-se radicalmente.

Se a natureza pode ser vista como indiferente, descuidada e sem preocupações morais, então
a consciência humana traz consigo a possibilidade de questionar os atos da natureza. O
aparecimento da consciência humana está associado a desenvolvimentos evolutivos no
cérebro, no comportamento e na mente, que acabam por levar à criação da cultura, uma
novidade radical na trajetória da história natural. O aparecimento dos neurónios, com a
consequente diversificação do comportamento e preparação do caminho para a mente,
constitui um acontecimento marcante numa viagem grandiosa. Mas o aparecimento de
cérebros conscientes capazes de auto- reflexão flexível é o grande acontecimento que se
segue. Marca a abertura do caminho para uma resposta rebelde, embora imperfeita, aos
ditames de uma natureza desprovida de bússola moral.

353

Como se desenvolveu a mente independente e rebelde? Apenas podemos especular, e as


páginas que se seguem são um mero esboço de um quadro imensamente complexo que não
se pode acomodar num único livro, e muito menos num capítulo. Ainda assim, podemos ter a
certeza de que o rebelde não se desenvolveu repentinamente. As mentes constituídas por
mapas de diferentes variedades sensoriais vieram ajudar a melhorar a regulação vital, mas
mesmo quando os mapas se tornaram imagens mentais devidamente sentidas, continuaram a
não ser independentes, e muito menos rebeldes. As imagens sentidas do interior do
organismo foram feitas para aumentar a sobrevivência e criavam um espetáculo
potencialmente agradável, mas não havia ninguém para o apreciar. Quando as mentes
juntaram pela primeira vez um eu nuclear ao seu repertório, altura em que a consciência
verdadeiramente teve início, ficámos mais perto do objetivo. Um simples protagonista era
uma vantagem óbvia, pois criava uma ligação firme entre as necessidades da regulação vital e
a profusão de imagens mentais que o cérebro formava sobre o mundo em seu redor. A
orientação do comportamento pôde ser otimizada. Mas a independência a que me refiro
apenas viria à superfície a partir do momento em que o eu fosse suficientemente rico para
revelar um quadro mais completo da condição humana, a partir do momento em que os
organismos vivos pudessem perceber que não só a dor e a perda estavam em jogo, mas
também o prazer e o florescimento, a partir do momento em que houvesse perguntas a fazer
quanto ao passado humano e ao futuro humano, a partir do momento em que a imaginação
pudesse indicar formas de reduzir o sofrimento, minimizar a perda e aumentar a probabilidade
da felicidade e da fantasia. Foi então que o rebelde começou a guiar a existência humana para
novos rumos, numa combinação de desafios e acomodações, todos baseados numa reflexão
sobre o conhecimento, mítica, de início, científica mais tarde, mas sempre indispensável ao
progresso humano.

354

E surge o eu na mente

Que maravilha seria descobrir onde e quando o eu humano de que estou a falar chegou à
mente e começou a gerar a revolução biológica chamada cultura. Todavia, apesar dos esforços
de pesquisa daqueles que lidam com a interpretação e com a datação dos registos humanos
que sobreviveram ao tempo, não conseguimos ainda responder a essas questões. Pouco
importa. É certo que o eu amadureceu de forma lenta e gradual mas também irregular, e que
o processo teve lugar em várias partes do mundo e não necessariamente ao mesmo tempo.
Mesmo assim, sabe-se que os nossos antepassados humanos mais diretos percorriam a Terra
há cerca de 200 mil anos e que há mais ou menos 30 mil anos os seres humanos produziam
pinturas rupestres, esculturas, gravuras em pedra, fundiam metais, faziam jóias e
provavelmente música. A data proposta para a gruta de Chauvet, em Ardêche, é de 32 mil
anos, e há cerca de 17 mil anos a gruta de Lascaux é já uma espécie de Capela Sistina, com
centenas de pinturas complexas e milhares de gravuras, numa mistura intrincada de figuras e
símbolos abstratos. É óbvio que já estava aqui em cena uma mente capaz de processamento
simbólico. Desconhece-se a relação exata entre o aparecimento da linguagem e a explosão da
expressão artística e do fabrico de ferramentas sofisticadas que distingue o Homo sapiens.
Sabemos, porém, que durante dezenas de milhares de anos os seres humanos realizaram
cerimónias fúnebres suficientemente elaboradas para exigir um tratamento especial dos
mortos e o equivalente às lápides. É difícil imaginar que tais comportamentos tivessem
ocorrido na ausência de uma preocupação explícita pela vida, de uma primeira tentativa de
interpretar a vida e de lhe atribuir valor, emocional, claro está, mas também intelectual. E é
inconcebível que a preocupação ou a interpretação pudessem surgir na ausência de um
robusto eu.

O desenvolvimento da escrita, há cerca de cinco mil anos, fornece-nos uma mão-cheia de


dados sólidos, e pela altura dos poemas homéricos, que deverão ter menos de três mil anos,
não há dú-

355

vida de que o eu autobiográfico já teria entrado na mente humana. Partilho a opinião de Julian
Jaynes de que algo de grande importância poderá ter acontecido à mente humana durante o
lapso de tempo relativamente breve entre os acontecimentos narrados na Iliada e os que
compõem a Odisseia:13 À medida que o conhecimento acerca dos seres humanos e sobre o
Universo se ia acumulando, a reflexão continuada pode bem ter alterado a estrutura do eu
autobiográfico e conduzido a uma ligação mais estreita dos aspetos relativamente díspares do
processamento mental; a coordenação da atividade cerebral, impulsionada primeiro pelo valor
e depois pela razão, trabalhava a nosso favor. Seja como for, o eu que imagino como capaz de
uma rebelião é um desenvolvimento recente, da ordem de milhares de anos, um mero
instante na história da evolução. Esse eu integra características do cérebro humano adquiridas,
provavelmente, durante o longo período do Pleistoceno. Ele depende da capacidade do
cérebro de armazenar vastos registos de memória, não só de competências motoras, mas
também de factos e de acontecimentos, acima de tudo factos e acontecimentos pessoais, os
que compõem a estrutura de uma biografia e a base da essência humana a pessoalidade e da
identidade individual. O eu autobiográfico depende da capacidade de reconstruir e de
manipular os registos de memória num espaço de trabalho cerebral, paralelo ao espaço
percetual, uma área de armazenamento temporário, «off-line», onde o tempo pode ficar
suspenso por um momento e as decisões se podem libertar da tirania das reações imediatas.
Depende ainda da capacidade do cérebro de produzir não só representações mentais que
imitam a realidade de uma forma servil e mimética mas também representações que
simbolizam ações, objetos e indivíduos. O eu rebelde depende da capacidade do cérebro de
comunicar estados mentais, em especial estados de sentimento, através de gestos do corpo e
das mãos, bem como através da voz, sob a forma de tons musicais e de linguagem verbal. Por
último, o eu depende da invenção de sistemas de memória externos, paralelos àqueles
presentes em cada cérebro.

356

Refiro-me aqui às representações pictóricas oferecidas pelas primeiras pinturas, gravações e


esculturas, ferramentas, jóias, arquitetura fúnebre e, muito depois do surgimento da
linguagem, aos registos escritos, certamente a mais importante variedade de memória
externa, até recentemente.

A partir do momento em que o eu autobiográfico se torna capaz de funcionar com base no


conhecimento gravado nos circuitos cerebrais e nos registos externos de pedra, argila ou
papel, os seres humanos passam a conseguir associar as necessidades biológicas in- dividuais à
sapiência acumulada. Começa assim um longo processo de pesquisa, reflexão e reação,
representado ao longo da história humana nos mitos, nas religiões, nas artes e em variadas
estruturas inventadas para reger o comportamento social - moralidade, sistemas de justiça,
economia, política, ciência e tecnologia. A derradeira consequência da consciência chega
através da memória. Trata-se da memória adquirida através de um filtro de valores biológicos
e animada pelo raciocínio.

As consequências de um eu capaz de refletir

Imaginemos os primeiros humanos após a linguagem verbal se ter estabelecido como meio de
comunicação. Imaginemos indivíduos conscientes cujo cérebro estava dotado de muitas das
competências que encontramos nos seres humanos atuais, e que procuravam em grande
medida o mesmo que procuramos hoje: alimento, sexo, abrigo, segurança, conforto, um certo
grau de dignidade, talvez mesmo de transcendência. Viviam num ambiente social em que a
competição pelos recursos era um problema dominante, onde o conflito seria abundante e
onde a cooperação era essencial. A recompensa, o castigo e a aprendizagem orientavam os
seus comportamentos. Vamos partir do princípio de que possuíam uma gama de emoções
semelhantes às nossas. Atração, repulsa, receio, alegria, tristeza e raiva estavam sem

357

dúvida presentes, a par de emoções que regiam a sociabilidade, como confiança, vergonha,
culpa, compaixão, desprezo, orgulho, respeito e admiração. E partamos do princípio de que
estes primeiros humanos estavam já animados por uma intensa curiosidade tanto em relação
ao ambiente físico como aos outros seres vivos, fossem eles da mesma espécie ou não. Se os
estudos do século XX sobre tribos relativamente isoladas servirem de indicação, eles eram
também curiosos quanto a si próprios e contavam narrativas acerca da sua origem e do seu
destino. O motor por trás dessa curiosidade é bastante fácil de imaginar. Os primeiros
humanos sentiriam afeição e atração por outros com quem se ligavam, especialmente os
companheiros e os descendentes, e teriam conhecido a mágoa que advém da quebra desses
laços, ou por assistirem ao sofrimento alheio, ou por sentirem o seu próprio sofrimento.
Teriam igualmente sentido e testemunhado momentos de alegria e de satisfação, ocasiões de
êxito na caça, no acasalamento, na procura de abrigo, na guerra, na educação dos jovens.

Esta descoberta sistemática do drama da existência humana e das suas possíveis


compensações só terá sido possível após o desenvolvimento pleno da consciência humana
uma mente com um eu autobiográfico capaz de orientar a deliberação raciocinada e angariar
conhecimento. Considerando a eventual capacidade intelectual dos primeiros humanos, é
possível que se tivessem interrogado quanto ao seu estatuto no Universo, algo semelhante às
questões de onde e para onde que ainda hoje nos atormentam, milhares de anos depois. É
então que o eu rebelde atinge a maioridade. É então que se desenvolvem mitos para explicar a
condição humana e seus processos; que se elaboram as convenções e as regras sociais, o que
leva ao início de uma verdadeira moralidade que se sobrepõe a comportamentos pró -morais
como o altruísmo ligado aos consanguíneos e o altruísmo recíproco, comportamentos que a
natureza há muito exibia, desde antes do aparecimento de um eu que reflete; que se criam as
narrativas religiosas, a partir de mitos e em torno destes, tanto para explicar os motivos por
detrás do drama, como para fazer cumprir as novas

358

leis concebidas para o limitar. Em resumo, a consciência ponderada não só aprimorou a


revelação da existência, como também permitiu que os indivíduos conscientes começassem a
interpretar as condições dessa existência e a agir.
Sugiro que o motor que impulsionou estes desenvolvimentos culturais seja o impulso
homeostático. As explicações que assentam apenas nas significativas expansões cognitivas
produzidas por cérebros maiores e mais inteligentes não bastam para justificar o
extraordinário desenvolvimento da cultura. De uma forma ou de outra, os desenvolvimentos
culturais manifestam o mesmo objetivo que a forma de homeostase automatizada a que me
referi ao longo deste livro. Eles reagem à deteção de um desequilíbrio no processo de vida e
procuram corrigi-lo dentro dos limites da biologia humana e do ambiente físico e social. A
elaboração de regras morais e de leis, e o desenvolvimento de sistemas de justiça eram uma
resposta à deteção de desequilíbrios provocados por comportamentos sociais que fazem
perigar os indivíduos e o grupo. Os dispositivos culturais criados em resposta ao desequilíbrio
tinham por objetivo restaurar o equilíbrio dos indivíduos e do grupo. A contribuição dos
sistemas económicos e políticos, bem como, por exemplo, o desenvolvimento da medicina,
eram uma resposta aos problemas funcionais que ocorrem no espaço social e que exigem uma
correção dentro desse espaço, para que não venham a comprometer a regulação vital dos
indivíduos que constituem o grupo. Os desequilíbrios a que me refiro são definidos por
parâmetros sociais e culturais, ocorrendo assim a deteção do desequilíbrio a um nível elevado
da mente consciente, na estratosfera do cérebro, e não ao nível subcortical. No seu todo
chamo a este processo «homeostase sociocultural». Falando em termos de cérebro, a
homeostase sociocultural inicia-se a um nível cortical, embora as reações emocionais ao
desequilíbrio também desencadeiem de imediato a homeostase básica, o que testemunha
mais uma vez a regulação vital híbrida do cérebro humano, alta, depois baixa, depois alta,
numa trajetória oscilante que muitas vezes se aproxi-

359

ma do caos mas consegue evitá-lo. A reflexão consciente e o planeamento das ações


introduzem novas possibilidades na orientação da vida, sobrepondo-se à homeostase
automatizada numa espantosa novidade fisiológica. A reflexão consciente chega mesmo a
intervir e a regular a homeostase automatizada, e procurar valores homeostáticos a um nível
superior ao necessário para a sobrevivência e mais consistentemente conducentes ao bem-
estar. O bem-estar imaginado, sonhado e antecipado tornou-se um motivador ativo das ações
humanas. A homeostase sociocultural foi sobreposta como uma nova camada funcional da
gestão da vida, mas a homeostase biológica continuou a existir.

Armados com a reflexão consciente, os organismos cujo esquema evolutivo se centrava em


torno da regulação vital e da tendência para o equilíbrio homeostático inventaram formas de
consolo para quem estava em sofrimento, recompensas para quem ajudava os sofredores,
penas para quem provocava danos, normas de comportamento com o objetivo de prevenir o
mal e de promover o bem, uma mistura de castigos e prevenções, de penalidades e de
louvores. O problema de como tornar toda esta sabedoria compreensível, transmissível,
convincente, aplicável, em termos muito simples, de como fazer com que ela pegasse, foi
enfrentado e uma solução encontrada. Contar histórias foi a solução a narração de histórias é
algo que o cérebro faz de forma natural e implícita. Essa narração implícita criou o nosso eu e
não deve surpreender que esteja tão disseminada por todo o tecido das sociedades e das
culturas humanas. Também não deve surpreender que as narrativas socioculturais fossem
buscar a sua autoridade aos seres míticos que se imaginava terem mais poder e conhecimento
do que os humanos, seres cuja existência explicava toda a espécie de problemas e cuja ação
tinha a faculdade de proporcionar auxílio e modificar o futuro. Nos céus do Médio Oriente, ou
em Valhala, esses seres têm exercido um domínio fascinante sobre a mente humana.
Os indivíduos e grupos dotados de cérebros que os tornaram capazes de inventar ou de usar
tais narrativas para se melhorarem

360

a si próprios e às sociedades onde viviam, tiveram êxito suficiente para que as características
arquiteturais desses cérebros fossem selecionadas, a nível individual ou de grupo, e que a sua
frequência fosse assim aumentando através de gerações.14

O conceito de que existem duas classes amplas de homeostase, básica ou auto matizada, e
sociocultural ou refletiva, não nos deve levar a pensar que esta última é uma construção
puramente «cultural», enquanto a primeira é «biológica». A biologia e a cultura são
interativas. A homeostase sociocultural é moldada pelo funcionamento de muitas mentes
cujos cérebros foram originalmente construídos de uma determinada forma sob a orientação
de genomas específicos. É interessante notar que há cada vez mais provas de que os
desenvolvimentos culturais podem conduzir a modificações profundas no genoma humano.
Por exemplo, a invenção da exploração dos lacticínios e a disponibilidade de leite na dieta
levou já a alterações nos genes que permitem a tolerância à lactose.15

Imagino que terá sido exatamente o mesmo impulso homeostático que moldou o
desenvolvimento dos mitos e das religiões que também esteve por trás da emergência das
artes, ajudado pela mesma curiosidade intelectual. Isso pode parecer irónico, dado que Freud
considerava as artes como um antídoto para as neuroses provocadas pelas religiões, embora
eu não pretenda ser irónico. As mesmas condições podem, com efeito, ter originado estes dois
desenvolvimentos. Se a necessidade de gerir a vida foi uma das razões para o apare- cimento
da música, da dança, da pintura e da escultura, a capacidade de melhorar a comunicação e a
capacidade de organizar a vida social foram outros dois motivos fortes e conferiram às artes
um poder adicional de permanência.

361

Feche o leitor os olhos por um instante e imagine os seres humanos de tempos remotos, talvez
antes mesmo do aparecimento da linguagem, mas atentos e conscientes, já dotados de
emoções e sentimentos, já com a noção do que é estar triste ou alegre, de estar em perigo ou
de ter segurança e conforto, de desfrutar ganhos ou sofrer perdas; de sentir prazer ou dor.
Agora imagine como teriam expressado esses estados dos quais já tinham noção. Talvez eles
emitissem sons vocais significativos de perigo ou de saudação, de reunião, de alegria, de luto.
Talvez emitissem sons melódicos ou até cantassem, dado que o sistema vocal humano
constitui um instrumento musical. Ou, já agora, imagine-os a bater no peito, já que a cavidade
torácica é um tambor natural. Imagine a percussão de um tambor como um dispositivo de
concentração mental ou de organização social uma batida para que se faça ordem; uma batida
para pegar em armas ou imagine soprar uma flauta primitiva feita de um osso como forma de
encantamento mágico, de sedução, de consolo, de brincadeira. Ainda não é Mozart, e não é
Tristão e Isolda, mas tinha-se encontrado uma nova forma de expressão. Sonhe um pouco
mais.

Quando do nascimento de artes como a música, a dança e a pintura, terá havido


provavelmente a intenção de comunicar aos outros informação sobre ameaças e
oportunidades, sobre tristeza ou alegria, e sobre o modelar do comportamento social. No
entanto, em paralelo com a comunicação, a arte teria também produzido uma compensação
homeostática. Se assim não fosse, como teria prevalecido? E tudo isto antes mesmo da
maravilhosa descoberta de que quando os seres humanos foram finalmente capazes de
produzir palavras e as unir em frases, nem todos os sons eram iguais. Os sons tinham acentos
naturais e esses acentos podiam estabelecer relações temporais. Os acentos podiam criar
ritmos, e certos ritmos davam origem a prazer. A poesia poderia assim começar e a técnica
poética pôde eventualmente regressar às origens e acabar por contribuir para a prática da
música e da dança.

A arte apenas poderia surgir depois de os cérebros terem adquirido determinadas


características mentais que muito provavelmente se

362

estabeleceram no decurso de um longo período evolutivo, mais uma vez o Pleistoceno. Há


muitos exemplos dessas características. Nelas se incluem a reação emotiva de prazer a certas
formas e a certos pigmentos, presentes nos objetos naturais, mas também aplicáveis a objetos
produzidos pelos seres humanos, bem como à decoração corporal; a reação de prazer a
determinadas características dos sons e a certos tipos de organização sonora em relação ao
timbre, ao tom e suas relações, bem como aos ritmos. O mesmo sucede quanto à reação
emotiva a certos tipos de organização espacial e a paisagens que incluem panoramas vastos e
a proximidade de água e de vegetação.16

A arte pode ter tido o seu início como dispositivo horneostático para o artista e o destinatário,
e como meio de comunicação. Mas posteriormente os usos tornaram-se muito variados, tanto
do lado do artista como do lado da audiência. A arte tornou-se um meio privilegiado para a
troca de informações factuais e emocionais que pareciam importantes para os indivíduos e
para a sociedade, como o demonstram os primeiros poemas épicos, peças teatrais e
esculturas. A arte também se tornou um meio de induzir emoções e sentimentos
reconfortantes, algo em que a música se tem revelado inultrapassável ao longo dos tempos.
Não menos importante, a arte tornou-se uma forma de explorar a nossa mente e a mente dos
outros, uma forma de ensaiar aspetos específicos da vida, e um modo de exercitar juízos
morais e ações morais. Em última análise, como a arte está profundamente enraizada na
biologia e no corpo humano mas pode elevar os seres humanos às mais altas cumeadas do
pensamento e do sentimento, as artes tornaram-se numa via para o refinamento
homeostático que os seres humanos acabaram por idealizar e ansiaram por alcançar, o
equivalente biológico de uma dimensão espiritual nas questões humanas.

Em resumo, a arte prevaleceu na evolução porque teve valor para a sobrevivência e porque
contribuiu para o desenvolvimento do conceito de bem-estar. Ajudou a consolidar os grupos
sociais e a promover a organização social; apoiou a comunicação; compensou os

363

desequilíbrios emocionais causados pelo medo, pela raiva, pelo desejo e pela mágoa; e
provavelmente abriu as portas ao longo processo de estabelecimento de memórias externas
da vida cultural, tal como o indicam Chauvet e Lascaux.

Já foi sugerido que a arte sobreviveu porque tornou os artistas mais atraentes e bem-
sucedidos na atração de parceiros; basta-nos pensar em Picasso para sorrir e concordar. No
entanto, a arte provavelmente teria prevalecido apenas com base no seu valor terapêutico.
É fácil de dizer que arte é uma compensação inadequada para o sofrimento humano, para a
felicidade não alcançada e para a inocência perdida. Mas é, apesar de tudo, uma compensação
parcial para toda a espécie de calamidades com que nos defrontamos. É uma das mais
espantosas oferendas da consciência aos seres humanos.

E qual será a derradeira oferenda da consciência à Humanidade? Talvez a capacidade de


orientar o futuro nos mares da nossa imaginação, de levar a nau do eu a um porto seguro e
produtivo. Esta suprema dádiva depende, mais uma vez, da intersecção do eu e da memória. A
memória, temperada com o sentimento pessoal, é o que permite aos seres humanos imaginar
tanto o bem-estar individual como o bem-estar de toda uma sociedade, e inventar formas e
meios de alcançar e ampliar esse bem-estar. A memória é responsável pela colocação
incessante do eu num aqui e agora evanescente, entre um passado plenamente vivido e um
futuro antecipado, em movimento perpétuo entre o ontem que passou e o amanhã que é
apenas uma possibilidade. O futuro puxa-nos para a frente, a partir de um ponto longínquo e
quase invisível, e garante-nos a vontade de prosseguir a viagem, no presente. Talvez fosse isto
que T. S. Eliot quis dizer quando escreveu: «Tempo passado e tempo futuro /O que pode ter
sido e o que foi / Apontam para um fim, que é sempre presente.» 17

Apêndice

Arquitetura cerebral

Ao vermos imagens tridimensionais do cérebro humano, há uma disposição arquitetural óbvia


de que nos apercebemos à vista desarmada. O padrão geral é semelhante de cérebro para
cérebro, e determinados componentes surgem na mesma posição em rodos os cérebros. A
relação entre eles é similar à dos componentes do nosso rosto - olhos, boca, nariz. A forma e
dimensão exatas têm algumas diferenças em cada indivíduo, mas a gama de variações é
limitada. Não há rostos humanos em que os olhos sejam quadrados, ou em que os olhos sejam
maiores do que o nariz ou do que a boca, e a simetria, de uma maneira geral, é respeitada.
Restrições idênticas se aplicam à posição relativa dos elementos. Tal como o rosto, o nosso
cérebro é muito semelhante quanto às regras segundo as quais as partes se encontram
dispostas no espaço. E, no entanto, os cérebros são absolutamente individuais. Cada cérebro é
único.

Um outro aspeto da arquitetura relevante para as ideias contidas neste livro é, contudo,
invisível. Encontra-se abaixo da super-

366

fície e consiste numa rede massiva de cabos composta por axónios as fibras que interligam os
neurónios. O cérebro tem milhares de milhões de neurónios (cerca de 1011) e estes criam
triliões de conexões entre si (cerca de 1015). Mesmo assim, as conexões são estabelecidas de
acordo com certos padrões e nem todos os neurónios se ligam entre si. Pelo contrário, a rede
é extremamente seletiva. Vista à distância compõe um diagrama de conexão, ou muitos
diagramas, dependendo do sector do cérebro.

Compreender os diagramas de conexão é uma forma de entender aquilo que o cérebro faz, e
como o faz. Porém, isso não é coisa simples, pois os diagramas sofrem alterações
consideráveis durante o desenvolvimento e mesmo depois. Nascemos com certos padrões de
conexão, dispostos no seu lugar segundo as instruções dos nossos genes. Estas conexões
foram já influenciadas no útero por vários fatores ambientais. A seguir ao nascimento, as
experiências individuais em ambientes únicos agem sobre esse primeiro padrão de conexões,
aprimorando-o, tornando certas conexões mais fortes e outras mais fracas, engrossando ou
estreitando os cabos na rede, sempre sob a influência das nossas atividades. A aprendizagem e
a criação de memórias é simplesmente o processo com que esculpimos, moldamos, fazemos e
refazemos os diagramas de conexão do nosso cérebro individual. O processo que teve início
aquando do nascimento prossegue até que a morte nos separa da vida, ou até antes, caso a
doença de Alzheimer venha perturbar o processo.

Como podemos desvendar o desenho dos diagramas de conexão? Até há bem pouco tempo, a
pesquisa sobre este problema exigia espécimes cerebrais, em grande medida material post
mortem, tanto de seres humanos como de animais experimentais. As amostras de tecido
cerebral seriam fixadas e marcadas com corantes identificáveis, após o que camadas muito
finas de tecido poderiam ser analisadas ao microscópio. Existe uma tradição venerável desse
tipo de estudos na neuroanatomia experimental e foram eles que nos garantiram a maior
parte dos conhecimentos que temos hoje em dia sobre a rede

367

cerebral. Todavia, os nossos conhecimentos sobre neuroanatomia permanecem


embaraçosamente incompletos, pelo que é necessário que esses estudos continuem, servindo-
se do considerável progresso nos corantes disponíveis e do poder dos microscópios modernos.
Recentemente abriram-se novas possibilidades, com o uso de métodos de ressonância
magnética em seres humanos. Métodos não invasivos como a imagiologia por difusão
garantem-nos um primeiro vislumbre in vivo das redes de ligação humanas. Embora as
técnicas continuem longe de ser satisfatórias, elas prometem trazer-nos revelações
fascinantes.

Como conseguem os milhares de milhões de neurónios de um cérebro humano, e os triliões de


sinapses que eles formam, produzir não só as ações que constituem os comportamentos, mas
também mentes mentes das quais cada possuidor tem consciência e mentes que podem dar
origem a culturas? Dizer que todos esses neurónios e sinapses fazem tal trabalho através de
uma interatividade massiva e da consequente complexidade não é uma boa resposta. A
interatividade e a complexidade terão, naturalmente, de estar presentes, mas a interatividade
e a complexidade não são amorfas. Derivam dos vários esquemas locais de disposição de
circuitos e das formas ainda mais variadas como esses circuitos criam regiões, e estas se
juntam em sistemas. A forma como cada região é composta internamente determina a sua
função. A localização de determinada região na arquitetura também é importante, pois o seu
lugar no plano global determina quais os seus parceiros no sistema as regiões que falam com
determinada região e a quem esta responde. Para complicar ainda mais as coisas, o oposto é
igualmente verdadeiro: até certo ponto, os parceiros com quem interagem determinam qual
vai ser o seu lugar. Mas antes de avançarmos será útil analisar os materiais usados para
construir a arquitetura cerebral.

368

Tijolo e argamassa

O cérebro criador de mentes é composto por tecido neural e este, tal como qualquer outro
tecido vivo, é feito de células. O principal tipo de célula cerebral é o neurónio e, pelos motivos
a que aludi nos capítulos 1,2 e 3, o neurónio é uma célula muito distinta no universo da
biologia. Os neurónios e seus axónios estão incluídos suspensos talvez seja um termo mais
apropriado numa estrutura composta por outro tipo de célula cerebral, a célula glial. Além de
garantirem um suporte físico aos neurónios, as células gliais também lhes providenciam parte
do seu sustento. Os neurónios não podem sobreviver sem células gliais mas tudo indica que
são a unidade cerebral essencial no que diz respeito ao comportamento e à mente.

Quando os neurónios usam os axónios e enviam mensagens para as fibras musculares,


produzem movimentos; e quando os neurónios estão ativos em redes muito complexas de
regiões criadoras de mapas, o resultado são imagens, a principal moeda corrente da atividade
mental. Tanto quanto sabemos, as células gliais não fazem nada do género, embora a sua
contribuição integral para o funcionamento dos neurónios ainda não esteja completamente
esclarecida. Numa nota mais sombria, as células gliais são a origem dos mais mortíferos
tumores cerebrais, os gliomas, para os quais não existe cura, até à data. Pior ainda, por
motivos desconhecidos, e ao contrário de praticamente todas as outras malignidades, a
incidência de gliomas está a aumentar a nível mundial. A outra origem comum de tumores
cerebrais são as células das meninges, as membranas comparáveis à pele que cobrem o tecido
cerebral. Os meningiomas tendem a ser benignos, embora, devido à sua localização ou a um
crescimento descontrolado, possam comprometer gravemente a função cerebral.

369

Cada neurónio possui três elementos anatómicos principais: 1) o corpo celular, que é o centro
de atividade da célula e inclui o núcleo e organitos como as mitocôndrias (o genoma do
neurónio, os genes que o governam, está situado dentro do núcleo, embora o ADN também se
encontre nas mitocôndrias), 2) a principal fibra de saída de informação, conhecida como
axónio, que parte do corpo celular; e 3) fibras de transmissão de informação conhecidas como
dendrites, que se projetam do corpo celular, mais ou menos como hastes de veado. Os
neurónios estão ligados uns aos outros através de uma zona fronteiriça chamada sinapses. Na
maior parte das sinapses, o axónio de um neurónio estabelece contacto químico com as den-
drites de outro.

Os neurónios podem estar ativos (a disparar) ou inativos (sem disparar), num estado «on»
(ligados), ou num estado «off» (desligados). O disparo consiste na produção de um sinal
eletroquímico que atravessa a fronteira até outro neurónio, na sinapse, e faz com que esse
outro neurónio também venha a disparar, desde que o sinal cumpra as exigências do outro
neurónio para disparar. O sinal eletroquímico viaja a partir do corpo do neurónio ao longo do
axónio. A fronteira sináptica situa-se entre o extremo de um axónio e o início de outro
neurónio, em geral nas dendrites. Há diversas variações e exceções menores a esta descrição
padrão, e os diferentes tipos de neurónios variam em forma e dimensão; no entanto, este
esquema é aceitável em termos gerais. Cada neurónio é tão pequeno que para vê-lo é
necessária a ampliação do microscópio, e para ver uma sinapse precisamos de um microscópio
ainda mais potente. Mesmo assim, a pequenez é relativa, dependendo totalmente da
perspetiva. Quando comparados com as moléculas que os compõem, os neurónios são
criaturas verdadeiramente gigantescas.

Quando os neurónios «disparam», a corrente elétrica conhecida como potencial de ação


propaga-se a partir do corpo celular e ao longo do axónio. O processo é muito rápido,
demorando apenas alguns milissegundos, o que dará uma ideia das escalas temporais

370
extraordinariamente diferentes entre processos cerebrais e mentais. Precisamos de centenas
de milissegundos para nos tornarmos conscientes de um padrão que seja apresentado aos
nossos olhos. Vivemos os sentimentos numa escala de segundos, ou seja, milhares de
milissegundos, e de minutos.

Quando a corrente de disparo chega a uma sinapse, ela vai desencadear a libertação de certos
químicos conhecidos como neurotransmissores (o glutamato é um exemplo) no espaço entre
duas células, a fenda sináptica. Num neurónio excitatório, a interação colaborativa entre
muitos outros neurónios, cujas sinapses estão adjacentes e que libertam (ou não) os seus
próprios sinais transmissores, determina se o neurónio seguinte vai disparar, ou seja, se vai
produzir o seu potencial de ação, o que por sua vez vai levar à libertação do seu neuro-
transmissor, e assim sucessivamente.

As sinapses podem ser fortes ou fracas. A força sináptica determina se, e com que margem de
manobra, os impulsos vão continuar a sua viagem até ao neurónio seguinte. Num neurónio
excitatório, uma sinapse forte facilita a viagem do impulso, ao passo que uma sinapse fraca o
impede ou bloqueia.

Um aspeto crítico da aprendizagem é o fortalecimento da sinapse. A força é traduzida em


facilidade de disparo e, logo, em facilidade de ativação dos neurónios mais à frente. A
memória depende desta operação. O nosso entendimento da base neural da memória ao nível
dos neurónios remonta às ideias seminais de Donald Hebb que, em meados do século XX,
avançou a hipótese de a aprendizagem depender do fortalecimento das sinapses e da
facilitação do disparo dos neurónios seguintes. Fê-lo numa base puramente teórica mas a sua
hipótese viria a ser comprovada. Nas últimas décadas, o entendimento da aprendizagem
aprofundou-se ao nível dos mecanismos moleculares e da expressão dos genes.

Em média, cada neurónio «fala» com relativamente poucos dos outros neurónios, não fala
com a maioria, e nunca com todos. Com efeito, muitos neurónios apenas falam com neurónios
que se encon-

371

trem próximos, em circuitos basicamente locais; outros, mesmo que os axónios viajem ao
longo de vários centímetros, apenas estabelecem contacto com um pequeno número de
neurónios. Mesmo assim, e dependendo do local onde o neurónio se encontra na arquitetura
global, poderá ter mais ou menos parceiros.

Os milhares de milhões de neurónios encontram-se organizados em circuitos. Alguns são


microcircuitos muito pequenos, verdadeiras operações locais invisíveis a olho nu. Contudo,
quando muitos microcircuitos se juntam formam uma região, com uma determinada
arquitetura macroscópica.

As arquiteturas regionais elementares chegam-nos em duas variedades: a variedade núcleo e a


variedade campo de córtex cerebral. Num campo de córtex cerebral, os neurónios encontram-
se em folhas bidimensionais, e as folhas dispostas em camadas. Muitas destas camadas
apresentam uma organização topográfica minuciosa, o que se torna ideal para um
mapeamento pormenorizado. Num núcleo neural (que não deve ser confundido com o núcleo
celular no interior de cada neurónio), os neurónios estão em geral dispostos como uvas dentro
de uma taça, mas há algumas exceções a esta regra. Os núcleos geniculados e os núcleos
coliculares, por exemplo, têm camadas curvas bidimensionais. Vários núcleos apresentam
igualmente uma organização topográfica, o que sugere que possam criar mapas neurais.

Os núcleos contêm «know-how » (saber fazer). Os seus circuitos incorporam conhecimento


sobre como agir ou o que fazer quando certas mensagens tornam o núcleo ativo. Devido a
estes conhecimentos disposicionais, a atividade nuclear é indispensável para a gestão da vida
em determinadas espécies dotadas de cérebros pequenos, as que têm um córtex cerebral
pequeno, ou não o têm de todo, e capacidades limitadas de mapeamento. Ao mesmo tempo,
os núcleos são também indispensáveis à gestão da vida em cérebros como o nosso, onde são
responsáveis pela gestão básica: metabolismo, reações viscerais, emoções, atividade sexual,
sentimentos e aspetos da

372

consciência. A regência dos sistemas endócrino e imunitário depende dos núcleos, tal como
deles depende a vida afetiva. No entanto, nos seres humanos, boa parte do funcionamento
dos núcleos está sob a influência da mente, o que implica em grande medida, embora não
totalmente, a influência do córtex cerebral

É importante notar que as regiões definidas pelos núcleos e pelos campos de córtex cerebral
se encontram interligadas. Por sua vez, elas formam circuitos de escala cada vez maior.
Numerosas porções de córtex cerebral acabam por se ligar interactivamente, mas cada porção
está também ligada aos núcleos subcorticais. Por vezes, uma porção de córtex recebe sinais de
um núcleo, ou então é emissora de sinais; outras vezes é, em simultâneo, recetora e emissora.
As interações são particularmente significativas em relação à miríade de núcleos talâmicos
(com os quais as ligações ao córtex cerebral costumam ser bidirecionais) e em relação aos
gânglios basais (com os quais a ligação tende, unicamente, ou a descer do córtex, ou a subir
em direção a ele).

Em resumo, os circuitos neurais criam regiões corticais, caso estejam dispostos em camadas
paralelas, como as de um bolo; ou núcleos, caso não se agrupem em camadas (ressalvando as
exceções referidas anteriormente). Tanto as regiões corticais como os núcleos estão
interligados por conexões, «projeções» axonais, formando sistemas e sistemas de sistemas,
com níveis cada vez mais elevados de complexidade. Quando os aglomerados de projeções
axonais são suficientemente grandes para uma observação a olho nu, chamam-se «pathways»
(caminhos ou trilhos). Em termos de escala, todos os neurónios e circuitos locais são
microscópicos, ao passo que todas as regiões corticais, a maior parte dos núcleos e todos os
sistemas de sistemas são macroscópicos.

Se os neurónios são os tijolos, qual será o equivalente cerebral da argamassa? Muito


simplesmente, o grande número de células gliais que apresentei como sendo os andaimes dos
neurónios, um pouco por todo o cérebro. As bainhas de mielina que envolvem os

373

axónios de condução rápida também são gliais. Garantem proteção e isolamento a esses
axónios, ajustando-se mais uma vez ao papel de argamassa. As células gliais são muito
diferentes dos neurónios, já que não possuem axónios nem dendrites e não transmitem sinais
por longas distâncias. Por outras palavras, as células gliais não se preocupam com as outras
células do organismo, e o seu papel não é o de regular nem o de representar outras células. O
papel imitativo dos neurónios não se aplica às células gliais. No entanto, o papel
desempenhado pelas células gliais vai além de meros andaimes e prateleiras para os
neurónios. As células gliais intervêm na nutrição dos neurónios, alojando e distribuindo
produtos energéticos, por exemplo, e, tal como sugerido anteriormente, a sua influência
poderá ser mais profunda do que hoje é aceite.

Algo mais sobre a arquitetura de grande escala

O sistema nervoso divide-se em central e periférico. O principal componente do sistema


nervoso central é o cérebro, composto por dois hemisférios cerebrais, esquerdo e direito,
unidos pelo corpo caloroso. Há uma história que conta que o corpo caloso foi inventado pela
natureza para impedir que os hemisférios cerebrais se descolassem um do outro. No entanto,
sabemos que este aglomerado espesso de fibras nervosas liga as metades esquerda e direita
do cérebro, em ambas as direções, e desempenha um importante papel integrador.

Os hemisférios cerebrais estão cobertos pelo córtex cerebral, que se encontra organizado em
lobos (occipital, parietal, temporal e frontal) e inclui uma região conhecida como córtex
cingulado, visível apenas na superfície interna (medial), Duas regiões do córtex cerebral que
não são visíveis de todo quando inspecionamos a superfície do cérebro são o córtex insular,
escondido sob as regiões parietal e frontal; e o hipocampo, uma estrutura cortical especial
oculta no lobo temporal.

374

Por baixo do córtex cerebral, o sistema nervoso central inclui aglomerados profundos de
núcleos como os gânglios basais, o prosencéfalo, a amígdala e o diencéfalo (a combinação do
tálamo e do hipotálamo). O cérebro está ligado à espinal medula através do tronco cerebral,
atrás do qual se situa o cerebelo, com os seus dois hemisférios. Embora em geral se refira o
hipotálamo a par do tálamo como constituintes do diencéfalo, na verdade o hipotálamo está,
funcionalmente, mais próximo do tronco cerebral, com o qual partilha os aspetos mais
essenciais da regulação vital.

374---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Figura A-1: A arquitetura de grande escala do cérebro humano apresentada numa


reconstituição tridimensional de dados de ressonância magnética. Os aspetos laterais
(externos) tanto do hemisfério direito como do esquerdo são apresentados à esquerda; os
aspetos mediais (internos) são apresentados à direita. A estrutura branca nas imagens da
direita corresponde ao corpo caloso

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

375

O sistema nervoso central está ligado a cada ponto do corpo através de feixes de axónios. (Os
feixes chamam-se nervos.) A totalidade dos nervos que ligam o sistema nervoso central à
periferia e vice-versa constitui o sistema nervoso periférico. Os nervos transmitem impulsos do
cérebro para o corpo e do corpo para o cérebro. Um dos mais antigos e importantes sectores
do sistema nervoso periférico é o sistema nervoso autónomo, assim chamado por funcionar,
em grande medida, fora do nosso controlo volitivo. Entre os componentes do sistema nervoso
autónomo contam-se os sistemas simpático, parassimpático e entérico. Este sistema
desempenha um papel essencial na regulação vital e nas emoções e sentimentos.
O cérebro e o corpo estão igualmente interligados através de moléculas químicas como as
hormonas, que se deslocam na corrente sanguínea. As moléculas químicas que viajam do
cérebro para o corpo têm origem em núcleos como os do hipotálamo. No entanto, as
moléculas químicas também se deslocam na direção oposta e influenciam diretamente os
neurónios em locais como a zona postrema, onde não existe a barreira protetora sangue-
cérebro. (A barreira sangue cérebro é um escudo protetor contra certas moléculas que
circulam na corrente sanguínea.) A zona postrema situa-se no tronco cerebral, muito perto de
importantes estruturas de regulação vital como os núcleos parabraquial e periaquedutal.

Se efetuarmos um corte no sistema nervoso central, em qualquer direção, e observarmos a


superfície desse corte, notamos uma diferença entre sectores escuros e claros. Os sectores
escuros são conhecidos como matéria cinzenta (embora sejam mais castanhos do que
cinzentos) e os sectores claros como matéria branca (sendo mais creme do que brancos). A
matéria cinzenta recebe o seu tom mais escuro da aglomeração compacta de corpos celulares;
a matéria branca obtém a sua aparência mais clara graças às bainhas isolantes dos axónios que
emanam dos corpos celulares localizados na matéria cinzenta. Tal como já foi referido, esse
isolamento é composto por mielina e acelera a condução da corrente elétrica nos axónios. O
isolamento

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

376

Figura A-2: As imagens à esquerda mostram as reconstituições tridimensionais do cérebro


humano observado segundo as perspetivas lateral e medial (em cima e em baixo,
respetivamente). As imagens à direita mostram três secções do volume do cérebro. As secções
foram obtidas seguindo as linhas marcadas a, b e c, revelando uma série de importantes
estruturas cerebrais situadas sob a superfície: 1 = gânglios basais; 2 = prosencéfalo; 3 =
claustro; 4 = córtex insular; 5 = hipotálamo: 6 = tálamo, 7 = amígdala; 8 = hipocampo. O córtex
cerebral recobre toda a superfície dos hemisférios cerebrais, até ao fundo de cada sulco. Em
todas as secções, o córtex cerebral é representado como uma orla mais escura que se
distingue facilmente da matéria branca, em tom mais claro, por baixo. As zonas a negro no
centro das secções correspondem aos ventrículos laterais

377

da mielina e a rápida condução dos sinais são características dos axónios evolutivamente
modernos. As fibras desmielinizadas são lentas e de estirpe mais antiga.

A matéria cinzenta chega-nos em duas variedades. De uma forma geral, a variedade


estratificada encontra-se no córtex cerebral, que reveste os hemisférios cerebrais, e no córtex
cerebelar, que reveste o cerebelo. A variedade não-estratificada é composta por núcleos, cujos
principais exemplos foram referidos anteriormente: os gânglios basais (localizados nas
profundezas de cada hemisfério cerebral e compostos por três grandes núcleos, o caudado, o
putâmen e o pálido); a amígdala, uma região quase esférica situada nas profundezas de cada
lobo temporal; e vários agregados de núcleos mais pequenos que formam o tálamo, o
hipotálamo e os sectores cinzentos do tronco cerebral.

O córtex cerebral é o revestimento do cérebro, cobrindo as superfícies de cada hemisfério


cerebral, incluindo as que se situam nas profundezas de fissuras e sulcos, os valados que
conferem ao cérebro o seu aspeto pregueado inconfundível. A espessura do córtex é de cerca
de três milímetros e as suas camadas são paralelas umas às outras e à superfície do cérebro. A
parte evolutivamente moderna do córtex cerebral é o neocórtex. As principais divisões do
córtex cerebral designam-se por lobos: frontal, temporal, parietal e occipital. Todas as outras
estruturas cinzentas (os vários núcleos mencionados anteriormente e o cerebelo) são
subcorticais.

No texto refiro-me com frequência a córtices sensoriais iniciais (o que corresponde, em inglês,
a «early sensory cortices»}, ou a córtices associativos, ou mesmo a córtices associativos de alta
ordem. A designação early tem a ver com a posição destes córtices sensoriais na cadeia de
processamento são os primeiros da cadeia intracortical e começam com as regiões primárias.
Neste livro uso a designação inicial para simplificar dado que, na verdade, aquilo a que chamo
córtex inicial inclui córtex primário e também córtex periprimário. Os córtices sensoriais iniciais
são os que se situam perto e em torno do ponto de entrada dos trajetos sensoriais periféricos
no córtex cerebral por

378

exemplo, o ponto de entrada dos sinais visuais, auditivos ou tácteis. Estas regiões tendem a
organizar-se de forma concêntrica. Elas desempenham um papel essencial na produção de
mapas pormenorizados.

Os córtices associativos, tal como o nome indica, inter-relacionam os sinais vindos dos córtices
iniciais. Situam-se um pouco por todo o lado, no córtex cerebral, onde quer que não haja nem
córtices sensoriais iniciais, nem córtices motores. Organizam-se de forma hierárquica, e os de
posição mais elevada na cadeia são em regra geral conhecidos como córtices associativos de
alta ordem. Os córtices pré-frontais e os córtices temporais anteriores são exemplos de
córtices associativos de alta ordem.

As várias regiões do córtex cerebral são tradicionalmente identificadas por números


correspondentes ao desenho arquitetural distintivo da sua disposição neural, conhecido como
citoarquitectura. O sistema de numeração das regiões mais conhecido foi proposto por
Brodmann, há um século, continuando a ser hoje em dia uma referência útil. Os números de
Brodmann não têm absolutamente nada a ver com a dimensão da área correspondente ou
com a sua importância funcional.

A importância da localização

A estrutura anatómica interna de uma região cerebral é um determinante importante da sua


função. Outro determinante importante é o local onde se situa uma dada região cerebral no
volume tridimensional de um cérebro. A posição no volume cerebral global e a estrutura
anatómica interna são, em grande medida, consequência da evolução, mas são igualmente
influenciadas pelo desenvolvimento individual. A experiência individual molda os circuitos e,
embora esta influência seja mais notória ao nível dos microcircuitos, ela é também sentida,
inevitavelmente, a um nível macroanatómico.

A estirpe evolutiva dos núcleos é antiga, um regresso a um tempo na história da vida em que
os cérebros pouco mais eram

379
do que cadeias de gânglios que se assemelhavam a contas num rosário. Um gânglio é,
basicamente, um núcleo individual antes de ser evolutivamente incorporado na massa
cerebral. Os cérebros dos nematodes que referi no capítulo 2 consistem em cadeias de
gânglios.

Os núcleos situam-se numa posição relativamente baixa no volume do cérebro, sempre abaixo
do manto providenciado pelo córtex cerebral. Encontram-se no tronco cerebral, no
hipotálamo e no tálamo, nos gânglios basais e no prosencéfalo basal (cuja extensão inclui o
aglomerado de núcleos conhecido como amígdalas). Embora banidos das regiões corticais
primárias, continuam a ter uma hierarquia. Quanto mais antigos são, historicamente falando,
mais próximos se encontram da linha média do cérebro. Uma vez que tudo no cérebro
apresenta duas metades, esquerda e direita com uma linha mediana a dividi-las, acontece que
os núcleos muito antigos podem olhar para o seu gémeo no outro lado da linha mediana. É o
caso dos núcleos do tronco cerebral, essenciais à regulação vital, e à consciência. No caso dos
núcleos mais modernos como por exemplo a amígdala os exemplares esquerdo e direito são
mais independentes e claramente separados um do outro.

A nível evolutivo, os córtices cerebrais são mais recentes do que os núcleos. Distinguem-se
pela sua estrutura bidimensional semelhante a uma folha, o que confere a alguns capacidades
de mapeamemo pormenorizado. No entanto, o número de camadas num córtex varia de uns
meros três (nos córtices de estirpe mais antiga) a seis (em estirpes mais recentes). A
complexidade dos circuitos, no interior e ao longo das camadas, também varia. A localização
geral em todo o volume cerebral também é funcionalmente reveladora. Em geral, os córtices
muito modernos ocorrem no ponto em que os principais trajetos sensoriais auditivo, visual e
somatossensorial, por exemplo entram no córtex cerebral, e em torno desse ponto, estando
assim ligados ao processamento sensorial e à criação de

380

mapas. Por outras palavras, pertencem ao clube do córtex sensorial inicial (early sensory
cortices no original inglês). Os córtices motores também apresentam estirpes variadas. Alguns
são antigos e pequenos, estando igualmente localizados nas regiões medianas do cingulado
anterior e da área motor suplementar, claramente visíveis na superfície interna (ou medial) de
cada hemisfério cerebral. Outros córtices motores são modernos e estruturalmente
sofisticados, ocupando um território considerável na superfície externa do cérebro (a
superfície lateral).

Aquilo com que dada região contribui para a gestão global do cérebro depende, em grande
medida, dos seus parceiros: quem fala com a região e quem obtém resposta, especificamente,
que regiões projetam os seus neurónios para a região X (modificando assim o estado da região
X) e que regiões recebem projeções da região X (sendo assim modificadas pela saída de
informações). Há muita coisa que depende da localização na rede da região X. Ter capacidade
de mapeamento é outro fator importante no papel funcional da região X.

A mente e o comportamento são o resultado constante do funcionamento de galáxias de


núcleos e de aglomerados corticais, articulados por projeções neurais convergentes e
divergentes. Se essas galáxias forem bem organizadas e trabalharem em harmonia, o resultado
é poesia. Caso contrário, pode ser a loucura.

Entre o cérebro e o mundo


Na fronteira entre o cérebro e o mundo situam-se dois tipos de estruturas neurais. Um aponta
para o interior, o outro para o exterior. A primeira estrutura neural é composta pelos recetores
sensoriais da periferia do corpo a retina, a cóclea do ouvido interno, as terminações nervosas
da pele, etc. Estes recetores não

381

recebem projeções neurais do exterior, pelo menos de forma natural, embora os impulsos
elétricos de implantes prostéticos estejam a alterar esta situação. Em vez disso recebem
estímulos físicos luz, vibração, contato mecânico. Os recetores sensoriais dão início a uma
cadeia de sinais a partir da fronteira do corpo até ao interior do cérebro, ao longo de múltiplas
hierarquias de circuitos neurais que penetram profundamente nos territórios cerebrais.
Todavia, os sinais não se limitam a subir como água numa canalização. Em cada nova estação
são submetidos a processamento e a transformações. Além disso tendem a enviar sinais de
volta ao início das cadeias de projeção. Estas características pouco estudadas da arquitetura
cerebral terão provavelmente grande importância para certos aspetos da consciência.

O outro tipo de ponto fronteiriço ocorre onde terminam as projeções para o exterior do
cérebro e o ambiente começa. As cadeias de sinais começam no cérebro, mas acabam por
libertar moléculas químicas para a atmosfera ou por se ligar a fibras musculares no corpo. Este
último caso permite-nos mover e falar, e é aí que terminam as principais cadeias que se
dirigem para o exterior. Mais além das fibras musculares surge o movimento direto no espaço.
Nas primeiras fases da evolução, a libertação de moléculas químicas na membrana ou na
fronteira da pele desempenhava papéis de relevo na vida de um organismo. Era uma forma de
ação importante. Esta faceta permanece pouco estudada nos seres humanos, embora a
libertação de feromonas não esteja em causa.

Podemos conceptualizar o cérebro como sendo uma elaboração progressiva do que começou
como um simples arco reflexo: o neurónio NEU apercebe-se do objeto OB e informa o
neurónio ZADIG, o qual impulsiona a fibra muscular MUSC e provoca movimento. Mais à
frente na evolução seria acrescentado um neurónio ao circuito do reflexo, a meio caminho
entre NEU e ZADIG. Trata-se de um interneurónio e iremos chamar-lhe INT. O seu
comportamento faz com que a reação do neurónio ZADIG deixe de ser automática.

382

o neurónio ZADIG apenas reage, por exemplo, se o neurónio NEU disparar com toda a sua
força sobre ele e não se o neurónio ZADIG receber uma mensagem mais fraca; uma parte
essencial da decisão fica nas mãos do interneurónio INT.

Um aspeto capital na evolução nervosa consistiu no acrescento do equivalente a


interneurónios em cada nível do circuito cerebral de facto, uma imensidão de equivalentes. Os
maiores de entre esses equivalentes, situados no córtex cerebral, podem bem ser
denominados inter-regiões. Elas ficam ensanduichadas entre outras regiões, tendo como
objetivo óbvio a modulação de reações simples a variados estímulos e tornar essas reações
menos simples, menos automáticas.

Ao longo do percurso para tornar a modulação mais discreta e sofisticada, o cérebro


desenvolveu sistemas que mapeiam os estímulos com tal pormenor que a consequência última
foram as imagens e a mente. O cérebro viria a acrescentar um processo de identidade a essas
mentes, o que permitiu a criação de novas reações. Finalmente, nos seres humanos, quando
essas mentes conscientes se organizaram em coletivos de seres semelhantes, a criação de
culturas tornou-se possível, a par da sua dedicação a artefactos externos. As culturas, por sua
vez, influenciaram o funcionamento do cérebro ao longo das gerações, eventualmente
influenciando a evolução do cérebro humano.

O cérebro é um sistema de sistemas. Cada sistema é composto por uma interligação elaborada
de regiões corticais e núcleos subcorticais pequenos mas macroscópicos, compostos por
circuitos locais microscópicos, que são feitos de neurónios, todos ligados por sinapses.

Aquilo que os neurónios fazem depende da agregação local de neurónios à qual pertencem;
aquilo que os sistemas acabam por fazer depende da forma como os agregados locais
influenciam outros agregados no âmbito de uma arquitetura interligada; por fim, aquilo com
que cada agregado contribui para o funcionamento do sistema a que pertence depende da sua
localização nesse sistema.

383

A propósito da hipótese da equivalência mente-cérebro

A perspetiva adotada neste livro engloba uma hipótese que não é universalmente apreciada, e
muito menos aceite ou seja, a ideia de que os estados mentais e os estados cerebrais são, no
seu essencial, equivalentes. Os motivos para a relutância em apoiar tal hipótese merecem
análise.

No mundo físico, do qual o cérebro faz parte inequivocamente, a equivalência e a identidade


são definidas por atributos físicos como massa, dimensões, movimento, carga, etc. Aqueles
que rejeitam a identidade entre os estados físicos e os estados mentais sugerem que enquanto
um mapa cerebral que corresponda a um objeto físico específico pode ser discutido em termos
físicos, seria absurdo discutir o respetivo padrão mental em termos físicos. A razão apontada é
que até à data, a ciência não foi capaz de determinar os atributos físicos dos padrões mentais,
e se a ciência é incapaz de o fazer, então o mental não pode ser identificado com o físico.
Receio, no entanto, que este raciocínio não seja acertado. Permitam-me que explique porquê.

Em primeiro lugar temos de considerar a forma como determinamos que os estados não-
mentais são físicos. No caso dos objetos no mundo exterior apreendemo-los com as nossas
sondas sensoriais periféricas e levamos a cabo medições através do uso de vários
instrumentos. Todavia, no caso dos acontecimentos mentais não podemos fazer o mesmo. Isso
não acontece pelo facto de os acontecimentos mentais não equivalerem aos estados neurais,
mas sim porque, dado o local da sua ocorrência - o interior do cérebro os estados mentais
simplesmente não estão disponíveis para medição. Com efeito, os estados mentais apenas
podem ser apreendidos através do mesmo processo que os engloba ou seja, a mente. É uma
situação infeliz, mas não revela nada quanto à condição física da mente, ou à falta dela.
Todavia, a situação impõe grandes qualificações às intuições

384

que podem surgir dela, sendo assim prudente duvidar da visão tradicional que assume que os
estados mentais não podem ser equivalentes aos estados físicos. Não será razoável defender
esse ponto de vista unicamente com base em observações introspetivas. A perspetiva pessoal
deve ser usada e desfrutada em relação àquilo que nos transmite diretamente: experiência
que pode ser tornada consciente e que pode ajudar-nos a orientar a vida, desde que uma
extensa análise reflexiva ulterior o que inclui o escrutínio científico valide o seu parecer.

O facto de os mapas neurais e as imagens correspondentes se encontrarem no interior do


cérebro, apenas acessíveis ao proprietário desse cérebro, é uma barreira. Porém, onde
poderiam encontrar-se os mapas/imagens a não ser num sector privado e resguardado do
cérebro, já que, para começar, eles são formados dentro do cérebro? O surpreendente seria
encontrá-los fora do cérebro, uma vez que a anatomia cerebral não foi concebida para os
exteriorizar.

Por enquanto, a equivalência estado mental! estado cerebral deve ser encarada como sendo
uma hipótese útil e não como uma certeza. Será necessário continuar a reunir dados que a
apoiem e para isso precisamos de uma perspetiva adicional, que se baseie em indícios da
neurobiologia evolutiva secundados por vários dados da neurociência (a quarta perspetiva).

Haverá quem ponha em causa uma perspetiva adicional para os acontecimentos mentais ser
necessária, mas existem boas justificações para essa nova perspetiva. O facto de os
acontecimentos mentais estarem correlacionados com os acontecimentos cerebrais e ninguém
põe esse facto em causa e de estes existirem no interior do cérebro, inacessível a uma
avaliação direta, justificam uma abordagem especial. Além disso, e dado que os
acontecimentos mentais/ cerebrais são sem dúvida o resultado de uma longa história de
evolução biológica, faz sentido que se incluam os dados evolutivos quando os consideramos.
Por último, como os acontecimentos mentais/ cerebrais são possivelmente os fenómenos mais
complexos

385

da natureza, a necessidade de um tratamento especial não deverá surpreender.

Mesmo com a ajuda de técnicas neurocientíficas mais poderosas do que as disponíveis


atualmente é improvável que alguma vez venhamos a conhecer todos os fenómenos neurais
associados a um estado mental, mesmo sendo este simples. Possível e necessária, por agora, é
uma aproximação teórica gradual apoiada por novos dados empíricos.

Aceitar a hipótese da equivalência mental! neural é especialmente útil no caso do exasperante


problema da causalidade descendente. Os estados mentais exercem a sua influência sobre o
comportamento, tal como pode ser facilmente revelado por todo o tipo de ações levadas a
cabo pelo sistema nervoso e pelos músculos às suas ordens. O problema, haverá mesmo quem
diga o mistério, tem a ver com a forma como um fenómeno atualmente considerado não físico
a mente pode exercer a sua influência sobre o sistema nervoso central que nos leva a
executar ações. Assim que os estados mentais e os estados neurais forem encarados como as
duas faces do mesmo processo, mais um Jano para nos confundir, a causalidade descendente
deixará de ser um problema.

Por outro lado, rejeitar a equivalência mente/cérebro obriga a uma posição problemática: a de
que será menos natural e plausível para os neurónios criar mapeamentos de coisas e que estes
mapeamentos sejam acontecimentos mentais, do que outras células do organismo criarem,
por exemplo, as formas das partes do corpo ou executarem ações corporais. Quando as células
do corpo se reúnem numa configuração espacial específica, segundo um plano, elas
constituem um objeto.
A mão é um bom exemplo. Ela é composta por ossos, músculos, tendões, tecido conectivo,
uma rede de vasos sanguíneos e outra de vias nervosas, e várias camadas de pele, tudo
reunido de acordo com um padrão arquitetural específico. Quando um tal objeto biológico se
desloca no espaço, ele realiza uma ação, como, por exemplo,

386

apontar para mim. Tanto o objeto como a ação são acontecimentos físicos, no espaço e no
tempo. Quando os neurónios dispostos numa folha bidimensional se tornam ativos ou inativos
segundo os sinais que recebem, também eles criam um padrão. Quando o padrão corresponde
a um objeto ou a uma ação, ele constitui um mapa de outra coisa, um mapa desse objeto ou
dessa ação. Assente como está na atividade das células físicas, o padrão é tão físico como os
objetos ou ações a que corresponde. O padrão é momentaneamente desenhado no cérebro,
gravado no cérebro através da sua atividade. Porque é que os circuitos de células cerebrais
não hão - de criar uma espécie de correspondência imagética para as coisas, desde que as
células estejam devidamente preparadas para o fazer, funcionem como se espera e se tornem
ativas quando devem? Por que razão seriam os padrões de atividade momentânea daí
resultantes menos físicos do que o eram os objetos e ações iniciais?

Notas

CAPITULO 1 DESPERTAR

1
Dei-me conta da oposição ao estudo da consciência em finais da década de 80 do século XX,
quando discuti pela primeira vez o assunto com Francis Crick. Francis pensava então em
abandonar os seus tópicos preferidos na neurociência e dedicar-se à consciência. Não me
sentia pronto a fazer o mesmo, uma escolha acertada, tendo em conta o espírito da época.
Lembro-me de Francis me perguntar, com a sua boa-disposição característica, se conhecia a
definição de consciência de Stuarr Sutherland. Não conhecia. Sutherland, um psicólogo inglês
famoso pelos seus comentários depreciativos e arrasadores sobre vários temas e colegas,
acabara de publicar no seu Dictionary of Psychology uma definição surpreendente que Francis
começou a ler: «A consciência é um fenómeno fascinante, mas esquivo; é impossível
especificar o que é, o que faz, ou porque evoluiu. Nunca se escreveu nada sobre ela que
merecesse ser lido.» Stuarr Sutherland, lnternational Dictionary ofPsychology (2' ed.), Nova
Iorque, Continuum, 1996. Rimo-nos com gosto e, antes de tomarmos em consideração os
méritos desta obra-prima do entusiasmo, Francis leu-me a definição de Sutherland para o
amor. Ei-la, para o leitor mais curioso: «Uma forma de doença mental ainda não reconhecida
por qualquer manual de diagnóstico padrão.» Continuámos a rir.

388

Mesmo pelos padrões da época, a declaração de Sutherland era exagerada, embora captasse
realmente uma atitude muito disseminada: o tempo da investigação da consciência, o que
para todos significava a investigação sobre a forma como o cérebro justifica a consciência,
ainda não chegara. A atitude não paralisou esse campo, mas, em retrospetiva, foi perniciosa:
separou artificialmente o problema da consciência do problema da mente. Deu, sem dúvida,
aos neurocientistas permissão para continuarem a investigar a mente sem terem de enfrentar
os problemas impostos pelo estudo da consciência. (Surpreendentemente, muitos anos depois
conheci Sutherland e contei-lhe o que andava a fazer sobre o tema da mente e do eu. Ele
pareceu gostar das ideias e foi extremamente gentil comigo.)
A atitude negativa não desapareceu de todo. Respeito o ceticismo dos colegas que ainda
mantêm essa atitude, mas a ideia de que explicar o aparecimento das mentes conscientes não
está ao alcance da inteligência atual parece-me bizarra, e provavelmente falsa, tal como a ideia
de que temos de esperar pelo próximo Darwin ou Einstein para resolver o mistério. A mesma
inteligência que, por exemplo, consegue lidar de forma ambiciosa com a história evolutiva da
biologia e revelar a codificação genética por trás das nossas vidas deveria pelo menos tentar
abordar o problema da consciência antes de admitir a derrota. Já agora, não pensava que a
consciência fosse o Evereste da ciência, e concordo com esse ponto de vista. Quanto a
Einstein, que via a natureza segundo a ótica de Espinosa, é difícil de imaginar que a tentativa
de elucidar a consciência o perturbasse caso viesse a ser alvo do seu escrutínio.

2
Na década que passou abordei especificamente o problema da consciência em artigos
científicos e num livro. Nessas publicações incluem-se: Antonio Damásio, «Investigating rhe
Biology of Consciousness», Transactions of tbe Royal Society B: Biological Sciences 353 (1998);
António Damásio, O Sentimento de Si (Mem Martins: Publicações Europa-América, 2000);
JosefParvizi e António Damásio, «Consciousness and the Brainsrern », Cognition 79 (2001),
135-159; António Damásio, «The Person Within», Nature 423 (2003),227; JosefParvizi e
António Damásio, «Neuroanato- mical Correlates of Brainstern Coma», Brain 126 (2003), 1524-
1536; David Rudrauf e A. R. Damásio, «A Conjecture Regarding rhe Biological Mechanism
ofSubjectivity and Feeling»,journal oj Consciousness Studies 12 (2005), 236-62; António
Damásio e Kaspar Meyer (2009), «Consciousness: An Overview of rhe Phenomenon and ofirs
Possible Neural Basis», in The Neurology of Consciousness: Neuroscience and Neuropa-
thology, org. Sreven Laureys e Giulio Tononi (Londres: Academic Press, 2009).

3
W. Penfield, «Epílepríc Automatisms and the Centrencephalic lnregraring Sysrem», Research
Publications ofthe Association for Nervous and Mental Disease 30 (1952): 513-28; W. Penfield
e H. H. Jasper, Epilepsy and the Functional Anatomy of the Human Brain (Nova Iorque: Little,
Brown, 1954).

389

G. Moruzzi e H. W. Magoun, «Brain Stern Reticular Formation and Activation of rhe EEG»,
Electroencephalography and Clinical Neurophysiology 1, n.? 4 (1949): 455-73.

4
Para uma análise da bibliografia relevante recomendo a edição actual de um clássico: Jerome
B. Posner, Clifford B. Saper, Nicholas D. Schiff e Fred Plum, Plum and Posner's Diagnosis
ofStupor and Coma (Nova Iorque: Oxford University Press, 2007).

5
WilliamJames, 1he Principles ofPsychology (Nova Iorque: Dover Press, 1890).

6
«A alusão meio adivinhada» e uma «a dádiva meio entendida» são palavras que fui buscar a
T. S. Eliot para descrever esta elusividade em O Sentimento de Si.

7
WilliamJames, ob. cit., volume I, capítulo 2.

8
A. Darnásio, «The Somatic Marker Hypothesis and the Possible Function of the Pre- frontal
Cortex», Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences 351, n.? 1346
(1996): 1413-1420; A. Damásio, O Erro de Descartes (Lisboa: Círculo de Leitores, 1995).

9
John Searle, The Mystery of Consciousness (Nova Iorque: New York Review of Books, 1990).
10
Preferir abordar a consciência através da percepção e protelar o interesse pelo eu tem sido
uma estratégia frequente, exemplificada por Francis Crick e Christof Koch em «A Framework
for Consciousness», Nature Neuroscience 6, n.? 2 (2003): 119-26. Uma exceção notável,
contida num volume que trata, acima de tudo, da emoção, pode ser encontrada em J.
Panksepp, Affictive Neuroscience: 1he Foundation of Human and Animal Emotions (Nova
Iorque: Oxford University Press, 1998). Rodolfo Llinás também reconhece a importância do eu;
ver I of tbe Vortex: From Neurons to Seif (Cambridge: MIT Press, 2002). O pensamento de
Gerald Edelman sobre a consciência implica a presença do processo do eu, embora esse não
seja o cerne das suas propostas em 1he Remembered Present: A Biological Theory of
Consciousness (Nova Iorque: Basic Books, 1989).

11
A essência da discordância é discutida por James em Principies, I: 350-52. A asserção de
Hume e a resposta de James são as seguintes:

HUME: «Quanto a mim, quando entro profundamente no que chamo de eu próprio, deparo
sempre com uma qualquer perceção específica de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio,
dor ou prazer. Nunca sou capaz de me encontrar sem uma per-

390

ceção, e nunca sou capaz de observar nada além da perceção. Quando as minhas perceções
são removidas durante algum tempo, como por exemplo durante o sono profundo, torno-me
insensível quanto a mim e poderá dizer-se verdadeiramente que não existo. E caso todas as
minhas perceções fossem removidas pela morte, e não pudesse pensar, nem sentir, nem ver,
nem amar, nem odiar após a dissolução do meu corpo, eu seria completamente aniquilado, e
não concebo o que mais seria necessário para me tornar uma absoluta não entidade. Se
alguém, após séria e objetiva reflexão, considerar que tem uma noção diferente de ele
próprio, devo confessar que deixarei de poder dialogar com ele. Só poderei conceder-lhe que
ele poderá ter razão, tanto quanto eu, e que somos completamente diferentes nesse ponto.
Ele poderá, talvez, apreender algo simples e continuado a que chama ele próprio, embora eu
tenha a certeza de que tal princípio não existe em mim.» [Do livro I do Tratado sobre a
Natureza Humana, de Hume.]

JAMES: «Mas Hume, após este belo trabalho de introspeção, deita tudo pela ja- nela e vai a um
extremo tão elevado como os filósofos substancialistas. Tal como eles dizem que o Eu é apenas
Unidade, uma unidade abstrata e absoluta, Hume diz que é apenas Diversidade, diversidade
abstrata e absoluta; ao passo que, na verdade, é essa mistura de unidade e de diversidade que
nós próprios já achámos tão fácil separar [ ... ], ele nega a esse fio de semelhança, a esse
núcleo de identidade que percorre os ingredientes do Eu, a possibilidade de existir mesmo que
apenas como algo com «natureza de fenómeno.»

12
D. Dennet, Consciousness Explained (Nova Iorque: Lírtle, Brown, 1992); S. Gallagher,
«Philosophical Conceptions of Self: Implications for Cognitive Science», Trends in ciousness
Studies 4, n.OS 5-6, 405-428 (1997). Além do trabalho citado na nota 10, ver também A.
Damásio, O Sentimento de Si (Mem Martins: Publicações Europa-América, 2000); P. S.
Churchland, «Self-Representation in Nervous Systems», Science 296, n.º 5566 (2002), 308-
310;]. LeDoux, The Synaptic Seif: How Our Brains Become Who We Are (Nova Iorque: Viking
Press, 2002); Chris Frith, Making up the Mind: How lhe Brain Creates Our Mental World (Nova
Iorque: Wiley-Blackwell, 2007); G. Norrhoff A. Heinzel, M. de Greck, F. Bermpohl, H.
Doborowolny e ]. Panksepp, «Self-referential Processing in Our Brain A Meta-analysis of
Imaging Studíes on the Self», Neurolmage, 31, n.? 1 (2006),440-457.
13
O trabalho de Roger Penrose e de Stuart Hameroff exemplifica esta posição, que também foi
defendida pelo filósofo David Chalmers. Ver R. Penrose, A Mente Virtual: sobre Computadores,
Mentes e as Leis da Física (Lisboa: Gradiva, 1997); S. Hameroff, «Quantum Cornputarion in
Brain Microtubules? The Penrose-Hameroff"Orch OR" Mode! of Consciousness», Philosophical
Transactions of the Royal Society A: Mathe-

391

matical, Physical and Engineering Sciences 356 (1998), 1869-96; David Chalmers, The
Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory (Oxford: Oxford University Press, 1996). O
ponto sobre a coincidência de mistérios foi discutido de forma convincente por Patricia S.
Churchland e Rick Grush, «Compuration and rhe Brain», in The MIT Encyclopedia of Cognitive
Science, org. R. Wilson (Cambridge: MIT Press, 1998).

14
A intuição falsa é reforçada pela argumentação de que as dimensões ou a massa dos estados
mentais não podem ser medidas com instrumentos convencionais. Isso é inegável, mas a
situação decorre da localização dos acontecimentos mentais (o interior recôndito do cérebro)
onde as medições convencionais não são possíveis. É uma situação frustrante para os
observadores, mas não diz nada quanto à fisicalidade, ou falta dela, dos estados mentais. Os
estados da mente começam a nível físico e assim se mantêm. Apenas podem ser revelados
quando uma construção igualmente física chamada eu se torna disponível e leva a cabo a sua
tarefa de observação. As conceções tradicionais de matéria e de mental são
desnecessariamente limitadas. É evidente que o ónus da prova pertence na realidade àqueles
que consideram natural que os estados mentais sejam constituídos por atividade cerebral.
Todavia, defender a intuitiva divisão mente cérebro como sendo a única plataforma de
discussão do problema não irá encorajar a procura de provas adicionais.

15
O pensamento evolutivo é igualmente um fator importante nas propostas de consciência de,
entre outros, Gerald Edelman, Jaak Panksepp e Rodolfo Llinás. Ver também Nicholas
Humphrey, Seeing Red: A Study in Consciousness (Cambridge: Harvard University Press, 2006).
Para exemplos de pensamento evolutivo aplicado à compreensão da mente humana, ver E. O.
Wilson, um pioneiro neste domínio, Consilience: The Uni- tyof Knowledge (Nova Iorque: Knopf
1998), e Steven Pinker, How the Mind Works (Nova Iorque: Norton, 1997).

16
Para um trabalho fundamental sobre as pressões seletivas no desenvolvimento cerebral
individual, ver jean-Pierre Changeux, O Homem Neuronal (Lisboa: Dom Quixote, 1985) e
Edelman (ob. cit.).

17
Os meus anteriores relatos sobre o eu não incluíam o sentimento primordial. O sentimento
elementar de existência fazia parte do eu nuclear. Cheguei à conclusão de que o processo
apenas pode resultar se o componente do tronco cerebral do proto eu der origem a um